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F E C H A M E N T O AUTUTO R I Z A D O . POD E S ultimato BUSQUEM O SENHOR ENQUANTO É POSSÍVEL ACHÁ-LO DESDE1968 LAUSANNE 4 Que a Igreja anuncie e demonstre Cristo em unidade Seoul LET OE CHCH рAR A8O BESPLAY CHRETE ISSN 1415-3165 9 771415 316000 Ano LVII n° 411 Janeiro/Fevereiro 2025 CONFRONTANDO A DIVISÃO: BUSCANDO A UNIDADE POR MEIO DO ESPÍRITO ANNE ZAKI OS EVENTOS GLOBAIS E A HISTÓRIA DA IGREJA ALDERI SOUZA DE MATOS COMO MISTURAR TEOLOGIA COM FILOSOFIA? Primeiro, comece no lugar certo: em Oxford. Depois, reúna os principais pensadores e as questões relacionadas à filosofia e religião. E, por último, publique um manual. Pronto. O Manual Oxford de Teologia Filosófica é o décimo volume da série Filosofia e Fé Cristā e reúne rigor e clareza ao explorar questões sobre autoridade das escrituras, tradição, religião e ciência, oração, moralidade, além de explorar doutrinas cristās centrais para compreender melhor a natureza e os atributos de Deus e o seu relacionamento com o mundo e seus habitantes. Um livro de peso, com nome e sobrenome: Manual Oxford. F E C R I S T A THOMAS P. FLINT MICHAEL C. REA MANUAL OXFORD DE TEOLOGIA FILOSÓFICA MANUALOXFO CRORDDE TEOLOGIA FILOSÓFICA FILOSOFIA EFECRISTÀ TEOLOGIA ANALITICA DISCURSO DIVINO CIENCIA B BELIGIAO ILOSOFIA DA RELIGIÃO ATUREZA ANGUINÁRIA ORAÇÃO DE PETICÃO TUAL PESSOAS HUMANAS DIVINAS XPIAÇÃO esmparreet Você encontra a série Filosofia e Fé Cristā também em formato digital nas melhores casas do ramo. www.ultimato.com.br 31 3611-8500 ultimato Você encontra nossos títulos também nas melhores livrarias evangélicas. 3Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Legado Elben César ultimato.com.br/sites/elbencesar MAIS NA INTERNET Lugares e datas marcantes Há certos inícios marcantes em nossa vida. A partir desses inícios, o modo de pensar é dife- rente, o modo de viver é diferente, o modo de agir é diferente. Sempre há um elemento novo, determinante e impulsor que redireciona a vida. Pode ser a experiência da renúncia ao pecado, a experiência da conversão a Jesus, a experiência da vocação para um ministério específico, a expe- riência de plena submissão ao senhorio de Jesus Cristo, a experiência da plenitude do Espírito e outras da mesma ordem e com a mesma força. Acontece, então, que o momento e o lugar desses inícios tornam-se muito importantes para nós. Às vezes enfatizamos mais o local e menos o momento. Outras vezes, guardamos mais o momento e menos o local. Na maior parte das vezes, prezamos enormemente tanto a geografia (o lugar) como a história (a data) da experiência religiosa. O local do novo início passa a ser terra santa e o dia do novo início passa a ser uma data memorável. Por saber que Deus estava tremendamente aborrecido com a construção e a adoração do bezerro de ouro, os israelitas “tiraram de si os seus atavios desde o monte Horebe em diante” (Êx 33.6). Essa abstinência de joias e enfeites por causa da vergonha do pecado começou ali no monte Horebe e continuou por algum tempo. O marco geográfico é mencionado com clareza: “Desde o monte Horebe”. Houve também o marco histórico, que não é mencionado no texto. Mas o povo sabia o dia da semana, o dia do mês e o ano em que deixaram suas joias para trás. Estamos emocionalmente ligados a certos lugares e a certas datas. Abraão era obrigado a ligar a sua fé à noite estrelada, quando Deus lhe declarou: “Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. Será assim a tua posteridade” (Gn 15.5). Jacó nunca se esqueceu daquela noite nem daquele lugar (Betel), quando e onde teve a visão da escada que ligava a terra ao céu (Gn 28.10-17). Moisés nunca se esqueceu daquela manhã nem daquele sítio quando e onde a sarça ardia, mas não se consumia (Êx 3.1-6). A mulher samaritana nunca se esqueceu daquele dia e hora (por volta do meio-dia) e daquele lugar (junto ao poço de Jacó), quando e onde se encontrou com o Senhor Jesus (Jo 4.1-30). São datas e lugares sagrados demais para serem esquecidos! Elben César (1930-2016), fundador e diretor-redator de Ultimato. ABERTURA Jesus e a Samaritana, Annibale Carracci Pi na co te ca d i B re ra 4 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 CARTA AO LEITOR — O que não é registrado não é lembrado, dizia o fundador da revista Ultimato, Pr. Elben César. Ele gostava muito de história e a valorizava. Desde o início, em 1968, ele se empenhou em publicar na revista matérias relacionadas a fatos históricos importantes envolvendo a igreja no Brasil e no mundo. Graças a esse esforço, nas edições ao longo dos anos, há registros que não se encontram em nenhum outro lugar. Um exemplo são as publicações sobre o movimento Lausanne: Ultimato publicou sobre os três Congressos (1974, 1989 e 2010). E, agora, com ale- gria, por meio de uma ampla matéria, registramos o 4º Congresso Lausanne de Evangelização Mundial. Esta matéria foi produzida com a colaboração da delegação brasileira e, especialmente, do jornalista Lissânder Dias, que integra o grupo responsável pela comunicação de Lausanne Brasil. Perguntados por Ultimato sobre as principais contribuições de Lausanne 4, os brasileiros destacaram as ênfases do congresso à colabora- ção, à unidade da igreja, à igreja perseguida, à necessidade de humildade, perdão e avivamento para uma missão bem-sucedida e à participação de profissionais e empreendedores na missão. Eles citaram também as possi- bilidades de conexões e parcerias advindas do ajuntamento, a satisfação e a surpresa de ver o que Deus está fazendo no mundo. Embora não integre a matéria de capa, o fabuloso artigo Confrontando a divisão: buscando a unidade por meio do Espírito (p. 32) é a transcri- ção e tradução da exposição bíblica feita em Lausanne 4 por Anne Zaki, professora no Seminário Teológico do Cairo, no Egito. Queremos celebrar com você, assinante, os 57 anos da revista Ultimato! Essa marca é fruto da bondade de Deus, da participação volun- tária dos que escrevem, da atenção e do apoio dos leitores. Estamos agora mais perto dos sessenta! Boa leitura! Equipe Ultimato Registrar para lembrar ISSN 1415-3165 Revista Ultimato – Ano LVIII – N° 411 Janeiro/Fevereiro 2025 www.ultimato.com.br Publicação evangélica não denominacional destinada à evangelização e edificação, Ultimato relaciona Escritura com Escritura e acontecimentos com Escrituras. Visa contribuir para criar uma mentalidade bíblica e estimular a arte de encarar os acontecimentos sob uma perspectiva cristã. Pretende associar a teoria com a prática, a fé com as obras, a evangelização com a ação social, a oração com a ação, a conversão com santidade de vida, o suor de hoje com a glória por vir. Circula em meses ímpares Fundadores Elben M. Lenz César Djanira Momesso César Projeto gráfico: Rick Szuecs Diagramação: Ana Cláudia Nunes Impressão: Esdeva Tiragem: 8.000 exemplares Colunistas: Alderi Matos • Carlos “Catito” Grzybowski Carlinhos Veiga • Dagmar Fuchs Grzybowski • Gladir Cabral Marcos Bontempo • Paul Freston • Ricardo Barbosa de Sousa • Valdir Steuernagel Participam desta edição: André Gomes Quirino • Anne Zaki • Ariane Gomes • Christian Gillis • Elizabeth Ng Koo Fabiana Braun • Klênia Fassoni • Justin A. Schell • Lissânder Dias • Mila Kobi • Omid • Phelipe Reis • Ronaldo Lidório Sabrina Barroso Silva Lujić • Tiago Pereira Publicidade: anuncio@ultimato.com.br Assinaturas e edições anteriores: atendimento@ultimato.com.br Reprodução permitida: Favor mencionar a fonte. Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro da Associação de Editores Cristãos (AsEC) Editora Ultimato Telefone: (31) 3611-8500 Caixa Postal 43 36570-970 — Viçosa, MG ADMINISTRAÇÃO/MARKETING: Klênia Fassoni Ana Cláudia Nunes EDITORIAL/PRODUÇÃO/ULTIMATO ONLINE: Marcos Bontempo • Ana Laura Morais • Ariane Gomes Bernadete Ribeiro FINANÇAS/CIRCULAÇÃO: Emmanuel Bastos Cristina Pereira • Daniel César • Fábio FreitasA. Schell é diretor da Union (ministério que busca a reforma da igreja em todo o mundo) nos Estados Unidos, diretor do Younger Leaders Gathering de 2026 e do YLGen 2 do movimento Lausanne e autor de livros. Coragem para viver o evangelho de Cristo e falar dele não é fruto de treinamento, conhecimento ou experiência. Vem de Deus 26 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 Foi um privilégio fazer a exposição dos últimos versículos do livro de Atos durante o Congres- so Lausanne na Coreia do Sul. O último verso desse livro histórico, teológico e missionário nos apresenta Paulo, em prisão domiciliar em Roma durante dois anos, aguardando a sua sentença e recebendo a todos que vinham ter com ele, “pre- gando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas refe- rentes ao Senhor Jesus Cristo” (At 28.31). Chamo a sua atenção para a fascinante e curiosa expressão: “Com toda a intrepidez, sem impedimento algum”. Coragem Como igreja de Cristo, temos tudo o de que precisamos para cumprir a missão: fé, pois cremos, conhecemos e seguimos a Jesus; poder espiritual no Santo Espírito, que habita em nós; as Escrituras, revelação de Deus, que nos guiam; a igreja, nossa comunidade de encorajamento e fé; o evangelho, men- sagem que transforma corações. Portanto, de certa forma, temos tudo o que é preciso. Há, porém, algo mencionado pelos patriar- cas, profetas, apóstolos e pelo próprio Senhor Je- sus que devemos buscar em oração e, ao receber, guardar bem, pois podemos perder. Algo sem o qual é muito difícil, ou até impossível, cumprir a missão. Trata-se da intrepidez para falar do evangelho de Cristo e vivê-lo. A palavra grega usada para “intrepidez” no registro das ações de Paulo no fim de Atos é parrhesia, a mesma usada por Lucas ao escrever a oração da igreja, no início da sua persegui- ção, após Pedro e João serem libertos da prisão: “Concede a teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua Palavra” (At 4.29). E Paulo, na mesma época de sua prisão, escreve à igreja em Éfeso pedindo que ore por ele, “para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho” (Ef 6.19). Por que Paulo, o mais intrépido dos apósto- los, experiente evangelista, pregador e plantador de igrejas, pede oração por intrepidez e ousadia? Isso significa que coragem para viver o evangelho de Cristo e falar dele não é algo que temos na- turalmente. Não é fruto de treinamento, conhe- cimento ou experiência. Vem de Deus. Por isso precisamos orar, pedindo que ele nos dê essa in- trepidez. Creio que às vezes evangelizamos pou- co porque oramos pouco. Liberdade Se o apóstolo anunciava o reino de Deus com toda a intrepidez, ele também o fazia “sem impedimen- to algum”, que significa sem barreiras, livremente. Como isso é possível? Ele estava preso, com um soldado ao seu lado e inimigos na cidade. Paulo enxergava o que outros não viam. Ele observava a vida com os olhos da fé, entendendo que Deus abre caminhos onde outros só veem MATÉRIA DE CAPA La us an ne M ov em en t O PODER DO EVANGELHO NO CUMPRIMENTO DA MISSÃO RONALDO LIDÓRIO 27Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO barreiras. Seu corpo não estava livre, mas seu espírito, sim. Que paradoxo temos aqui! Paulo era prisio- neiro de César, mas livre para dizer que Jesus é o único Rei! Convicção O que conferia intrepidez de palavras e liberdade de espírito a Paulo não era o apoio dos seus pares ou al- guma garantia externa, mas as suas convicções. Le- mos que ele, com coragem e liberdade “ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (At 28.31). Em nossos dias, o evangelho não será pro- clamado sem enfrentar pressão, oposição e per- seguição. Preparemos nossos corações, famílias, igrejas e agências missionárias para manter, mes- mo sob pressão, três importantes convicções: Convicção teológica. Entender nas Escrituras quem é Deus e como ele responde às questões le- vantadas em tempos de caos, como guerras, per- seguições, desastres naturais e sofrimentos pes- soais. Convicções teológicas constroem uma base espiritual e prática para uma igreja missionária. Convicção missiológica. Abraçar o intransfe- rível chamado de Deus. Não podemos terceirizar o que o Senhor colocou em nossas mãos para fazer. A igreja é chamada para uma missão geral, que é ser sal da terra e luz do mundo. Em outras palavras, com tudo o que somos, temos e faze- mos, devemos manifestar a verdade do evangelho de Cristo. Mas há também uma missão particu- lar, que é proclamar o evangelho fazendo discípu- los perto e longe, e entre todas as nações. Convicção pessoal. Aceitar que Deus tem um plano e um propósito para o seu povo em cada circunstância da vida. Talvez você, que lê estas linhas, esteja com o coração cheio de dor, pas- sando por um momento repleto de incertezas ou uma situação impossível. Se for o seu caso, con- fie que Deus tem um plano e descanse no plano de Deus. Que o Senhor encha o coração da igreja brasileira com intrepidez do alto, liberdade de espírito e forte convicção teológica, missiológi- ca e pessoal no cumprimento da missão. E seja Cristo exaltado! Ronaldo Lidório é teólogo e antropólogo, missionário (APMT e WEC) entre grupos pouco ou não evangeli- zados. É organizador de Indígenas do Brasil – avaliando a missão da igreja e A Questão Indígena – uma luta desigual. 28 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 Ad ob e St oc k O CAMINHO DO CORAÇÃO RICARDO BARBOSA DE SOUSA O Natal celebra a encarnação de Jesus Cristo, a verdade de que o Filho eterno de Deus se fez homem e veio habitar entre nós (Jo 1.14). Como Paulo afirma em sua carta aos filipenses: “mesmo sendo Deus, não conside- rou esta condição como um meio para conquistar alguma vantagem, pelo contrário, esvaziou-se, humi- lhou-se, fez-se humano e assumiu a forma de servo obediente até a morte”. Esta verdade está no centro da fé cristã. O reverendo J. I. Packer, em seu livro O Conhecimento de Deus, descreve a centralidade deste mis- tério para a fé cristã: Mas a dificuldade real, por causa do mistério supremo com que o evan- gelho nos confronta, [...] não se en- contra na mensagem de expiação da Sexta-Feira Santa, nem na mensa- gem da ressurreição da Páscoa, mas na do Natal com a encarnação de Deus. A afirmativa cristã realmente estonteante é que Jesus de Nazaré foi Deus feito homem – que a segunda pessoa da Trindade tornou-se o “segundo homem” (1Co 15.47), determinando o des- tino humano, o se- gundo representante da raça humana, e que ele tomou a forma humana sem per- der a divindade de modo que Jesus de Nazaré era tão completo e to- talmente divino quanto humano. Aqui há dois mistérios pelo preço de um – a pluralidade de pessoas den- tro da unidade de Deus, e a união da divindade e da humanidade na pessoa de Jesus. É aqui, no acon- tecimento do primeiro Natal, que jaz a mais profunda e impenetrável revelação do cristianismo. “O Verbo se fez carne” (Jo 1.14); Deus tornou- -se homem. Sendo Jesus verdadeiro Deus e verdadeiro homem, podemos compreender a natureza expia- tória de sua morte na cruz e sua ressurreição. Somente o Deus-ho- mem poderia realizar, ao mesmo tempo, a justiça divina e a justi- ficação do ser humano. Segundo Packer, a encarnação é um mis- tério insondável que ilumina e dá sentido a todas as demais mensa- gens do Novo Testamento. Gostaria de propor ao queri- do leitor uma pequena disciplina espiritual para o ano que se ini- cia: meditar no mistério da en- carnação ao longo de todo o ano. Infelizmente, este evento central e fundamental para a fé cristã é lembrado apenas quando a árvore de Natal é montada, os shoppings são decorados, as luzes coloridas são acesas, as igrejas ensaiam suas cantatas e os cânticosde Natal começam a ser entoados. Porém, assim que o ano novo se inicia, as luzes são apagadas e as decorações guardadas para o próximo Natal, o mistério da encarnação é igno- rado pelo restante do ano. Reconheço que, nem mesmo no período de Natal, o mistério da encarnação é devidamente con- siderado, em virtude da agitação típica da época. Essa agitação é uma forma de fuga, pois nossa ten- dência é evitar o que não é prag- mático e aquilo que não consegui- mos compreender racionalmente. Mas, quando perdemos a admi- ração e o assombro diante de tão grande mistério, a superficialidade espiritual e teológica toma conta das nossas conversas e preocupações. Sabemos que o propósito da revelação se cumpre na cruz. Tudo nas Escrituras Sagradas aponta para esse centro. O mistério da encarnação é parte essencial do caminho que nos leva ao Calvário. Usando mais uma vez as palavras do reverendo Packer: “O ato de o Filho de Deus assumir a forma humana é colocado diante de nós de tal modo que nos mostra como devemos colocá-lo diante de nós mesmos e contemplá-lo sempre – não simplesmente como uma ma- ravilha da natureza, mas sim, uma maravilha da graça”. Que todos nós, no decorrer do novo ano, pos- samos contemplar reverentemen- te a maravilhosa graça de Deus, que, em Jesus Cristo, se fez carne e habitou entre nós. Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília, DF, e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, A Cruz e o Paradoxo da Autoestima, Quando a Alegria Não Vem pela Manhã, A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja, Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas e O Caminho do Coração. O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO A encarnação: feito de modo assombrosamente maravilhosoA encarnação: feito de modo assombrosamente maravilhoso bit.ly/411-caminho-coracaobit.ly/411-caminho-coracao MAIS NA INTERNET O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO É PARTE ESSENCIAL DO CAMINHO QUE NOS LEVA AO CALVÁRIO 29Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO 30 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 Ad ob e St oc k O pastor cuida das ovelhas. E quem cuida do pastor?O pastor cuida das ovelhas. E quem cuida do pastor? bit.ly/411-familiabit.ly/411-familia MAIS NA INTERNET A FAMÍLIA INFALÍVEL Mateus estava esgotado após os primeiros anos de pastorado em uma igreja local. De seu chamado para ser um ministro do evangelho, ele não tinha dúvida. A voz de Deus soara clara em sua mente quando viu aquele grupo de jovens em- briagados caídos na sarjeta, vin- dos de uma noitada, enquanto ele caminhava em direção ao templo para adorar o Senhor: “São como ovelhas que não têm um pastor”. Mas, ao ver seu filho de ape- nas 10 anos afirmar que não que- ria mais ir à igreja porque lá só tinha gente chata, a gota d’água do estresse fez o copo transbor- dar. Não foram poucas as vezes em que ele tinha ouvido de ir- mãos ‘bem-in- tencionados’ que o filho dele não deveria correr pelo templo ao final do culto, que o filho dele tinha conversa- do com o ami- guinho durante o louvor, que o filho dele estava com o cabelo comprido demais para um filho de pastor. Claro que também não falta- ram “bons conselhos” em relação à sua esposa, que deveria procu- rar se envolver mais nas ativida- des da igreja. Como Mateus, muitos pasto- res são pressionados por mem- bros obsessivos em suas comu- nidades a apresentarem uma infalibilidade, especialmente na vida familiar, que vêm com o dis- curso de que o líder deve gover- nar bem sua própria casa (1Tm 3.4-5). Vamos refletir um pouco sobre o significado desse texto bíblico. Governar bem sua casa não é sinônimo de ser infalível. Esse erro impõe sobre o líder e sobre sua família um peso de responsa- bilidade que, ao longo do tempo, vai minando as forças, a espon- taneidade e vai comprometendo toda a dinâmica familiar. Algu- mas vezes a comunidade cria a expectativa da infalibilidade na família do líder. Por seu lado, o líder corresponde à expectati- va, impondo a ele e aos seus fa- miliares exigências difíceis de cumprir. Assim se cria uma cir- cularidade perversa que se retro- alimenta continuamente entre líder e liderados. Se, por um lado, o grupo cria expectativas de perfeição, como sinônimo de espiritualidade, impondo-as sobre o líder como atributo imprescindível para o exercício da liderança, por ou- tro lado, o líder incrementa as fantasias comunitárias com um discurso de infalibilidade e uma máscara social erigida, muitas vezes, para esconder suas inse- guranças. A infalibilidade é uma máscara social frequentemente utilizada para encobrir a insegu- rança. Essa fantasia é incoeren- te com a própria vida, pois esta continuamente zomba de nossas pseudosseguranças. Filhos de líderes, em meio a este jogo de imagem, são impe- didos de manifestar a esponta- neidade infantil no seio da co- munidade, pois esta poderia ser confundida com falta de limites ou traquinagem. Mais importantes que a in- falibilidade são a coerência e a transparência. Líderes coerentes e que reconhecem suas limita- ções e imperfeições tornam-se modelos mais fáceis de ser se- guidos e com quem é possível se identificar. Líderes infalíveis são míticos e os liderados podem até venerá-los – mas jamais se iden- tificam com eles e não seguem seus ensinamentos ou modelo porque jamais se julgam capazes para tal. Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e tera- peutas de casais e de família, e mem- bros da Igreja Luterana. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto. Acompanhe o blog: ultimato.com.br/ sites/casamentoefamilia/ FAMÍLIA CARLOS “CATITO” E DAGMAR GRZYBOWSKI GOVERNAR BEM SUA CASA NÃO É SINÔNIMO DE SER INFALÍVEL. MAIS IMPORTANTE QUE A INFALIBILIDADE É A COERÊNCIA E A TRANSPARÊNCIA 31Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO A FAMÍLIA INFALÍVEL HISTÓRIA ALDERI SOUZA DE MATOS 32 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 ESPECIAL ANNE ZAKI CONFRONTANDO A DIVISÃO: BUSCANDO A UNIDADE POR MEIO DO ESPÍRITO REFLEXÕES A PARTIR DE ATOS 15 É HORA DE RESTAURARMOS A ARTE PERDIDA DAS DISCUSSÕES DA IGREJA La us an ne M ov em en t O filme Remando para o ouro conta a história real de oito jovens atletas da equipe de remo da Universidade de Washington. No início, há um diálogo entre os treinadores, que estão claramente frus- trados por não conseguirem fazer os oito atletas traba- lharem juntos como um time. Todos eram fortes, mas não sabiam usar seus pontos fortes para lutarem juntos, em vez de lutarem entre si. Um dos treinadores diz: “Este é o grupo mais forte que já vimos, mas também pode ser a equipe mais fraca que já tivemos”. Poderíamos descrever a Igreja de Antioquia (At 15.1-5) com as mesmas palavras do treinador – ela estava usando sua força para lutar uns contra os outros, em vez de lutarem juntos. Enquanto Paulo e Barnabé discipulavam a jovem igreja de Antioquia, eles ficaram profundamente perturbados com o ensinamento de alguns homens vindos da Judeia: “Se vocês não forem circuncidados segundo o costume de Moisés, não podem ser salvos” (v. 1). Isso colocava em dúvida a morte e ressurreição de Jesus como única garantia de salvação, e ameaçava a unidade que o Espírito Santo já havia criado entre crentes judeus e gentios. Após disputa e debate acirrados com aqueles homens da Judeia, a igreja reconheceu que tal falso ensino poderia alcançar outras igrejas e comissionou Paulo e Barnabé, junto com outros crentes, para irem até Jerusalém discutir essa importante questão com os apóstolos e presbíteros. Assim acontece o primeiro concílio da igreja na história: uma reunião entre apóstolos, presbíteros e crentes enga- jados, incluindo alguns que tinham opiniões opostas mas que, ainda assim, permaneceram até o final e discutiram juntos o assunto. “Havendo grande debate, Pedro tomoua palavra e disse” (v. 7). Isso é notável por, pelo menos, duas razões. Primeiro, porque demonstra a coragem da liderança exemplificada por Pedro. Coragem de sair da arquibancada silenciosa do espectador (em que, infelizmente, muitos líderes da igreja permanecem em tempos de conflito e crise) e arriscar-se pelo bem de seus parceiros no evan- gelho, Paulo e Barnabé — ainda mais pelo bem da verdade, que o próprio Pedro aprendeu de forma dolorosa, quando foi confrontado por Paulo, o que nos leva à segunda razão pela qual isso é notável. No Concílio de Jerusalém, encontramos um Pedro mudado, corrigido, conquistado por seu irmão Paulo após um confronto bem-sucedido, de acordo com o ensi- namento de Jesus em Mateus 18 (cf. Gl 2.11-21). Talvez a coragem que Pedro demonstrou ao falar em Jerusalém tenha se inspirado na coragem de Paulo ao falar com ele em Antioquia. Mas, e se Paulo nunca tivesse confrontado Pedro? O que teria acontecido com a fé de Barnabé e dos outros crentes de Antioquia? E se Pedro nunca tivesse sido corrigido e, consequentemente, nunca tivesse falado no Concílio de Jerusalém? O que teria acontecido com a unidade e a missão da igreja naquela época, e que tipo de teologia da igreja teríamos herdado? E hoje, o que acontece quando encobrimos o compor- tamento errado dos nossos colíderes? Ou quando falhamos em confrontar corajosamente os ensinamentos errados sobre o que é necessário para a salvação? O que acontece quando os líderes da igreja ficam em silêncio diante de ensi- namentos errados em vez de confrontar os guardiões pola- rizadores que dividem os crentes? Quando ficamos em silêncio em momentos de dizer a ver- dade, o futuro da igreja está em jogo. Mas também devemos admitir que quebrar o silêncio nos traz um alto custo. 33Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Acredito que, um dia, toda a comunidade missional terá que pagar um preço – o preço de ficar em silêncio ou o preço de quebrá-lo. Pedro quebrou o silêncio e lembrou ao Concílio como Deus evidenciou sua acei- tação pelos gentios, dando-lhes o Espírito Santo, assim como tinha dado aos judeus. Pedro conclui seu discurso com esta poderosa per- gunta profética: “Agora, pois, por que vocês querem tentar a Deus, pondo sobre o pescoço dos discípulos um jugo que nem os nossos pais puderam suportar, nem nós?” (v. 10). Para Pedro, o tipo de distinção que resulta em “nós versus eles” eleva-se a ponto de tentar a Deus. Distorcer as palavras de Deus, de forma a dividir o seu povo e obstruir sua missão, é um ato de traição. E o próprio Pedro responde à sua pergunta: “Cremos que somos salvos pela graça do Senhor Jesus, assim como eles” (v. 11). Depois dessa afirmação teológica fundamental, Paulo e Barnabé têm a chance de demonstrar essa ver- dade compartilhando os sinais e maravilhas que Deus tem feito entre os gentios por meio deles. E toda a assembleia fica em silêncio. Não um silêncio de espec- tador, descomprometido, que encobre os erros dos outros ou de si mesmos. Nem um silêncio temeroso, que não é “confrontacional”. Nem ainda um silêncio oprimido, que se rende à injustiça. Não. Este é um silêncio convicto, rendido à voz do Espírito Santo. Um silêncio que reorienta uma comunidade missional para declarar e mostrar livremente a verdade de Cristo. “PARECEU BEM AO ESPÍRITO SANTO E A NÓS” Tendo ouvido as discussões teológicas e os relatos que vieram dos campos missionários por meio de Paulo, Barnabé e Pedro, Tiago enquadra toda a discussão dentro do testemunho das Escrituras. Ele primeiro recita uma profecia do profeta Amós a fim de ajudar o Concílio a interpretar suas experiências atuais corretamente, assim como essas experiências testificam o cumpri- mento da profecia: “Depois disso, voltarei e reedifi- carei o tabernáculo caído de Davi; reedificarei as suas ruínas e o restaurarei. Para que o restante da humani- dade busque o Senhor, juntamente com todos os gen- tios sobre os quais tem sido invocado o meu nome, diz o Senhor” (v. 16-18). Em seguida, compartilha sua opi- nião como um entre iguais e diz: “Por isso, julgo que não devemos perturbar aqueles que, entre os gentios, se convertem a Deus” (v. 19). E sugere que escrevam uma carta explicando que pareceu bem ao Espírito Santo e a eles não sobrecarregá-los com nada. Nós amamos a frase “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (v. 28)! Mas será que entendemos o processo pelo qual a igreja primitiva chegou a tal declaração? Foi um processo de falar uns com os outros – não uns para os outros ou uns sobre os outros. Foi um processo que levou horas de disputas e debates em Antioquia, seguido por longas horas de discussão em Jerusalém entre pessoas que tinham visões opostas sobre o mesmo assunto. Imagine quanto tempo, esforço e dinheiro teriam sido economizados se os falsos mestres em Antioquia tivessem apenas escutado e se retratado. Imagine se Paulo e Barnabé não tivessem precisado interromper seu ministério, deixá-lo para trás e sofrer uma longa jor- nada de Antioquia a Jerusalém, e de volta a Antioquia para resolver essa questão mais básica sobre a salvação. A igreja primitiva era real, não muito diferente da igreja hoje. Ela ainda precisava decifrar questões teoló- gicas em uma reunião com pessoas que tinham visões opostas sobre o mesmo assunto. Esse incidente mostra o preço e o processo pelo qual chegamos a uma decla- ração do tipo: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”. Uma declaração nascida da oração diária, do compromisso com o ensino da Palavra, do partilhar do pão e de uma generosidade notável. Uma declaração que preserva a voz da igreja e é reservada para a voz da igreja, de toda a igreja junta, incluindo pessoas que têm visões opostas. Não é uma declaração de um único líder que, depois de um retiro pessoal, afirma: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a mim”. Também não é uma decla- ração de um determinado grupo de líderes, motivado por finanças, poder ou status. A igreja unida somos nós. É hora de restau- rarmos a arte perdida das discussões da igreja. A arte de falar e ouvir uns aos outros. É hora de aprendermos com a igreja primitiva a disciplina de criar espaços seguros – para nos dar uma chance, para reconsiderar nossas posições presumidas à luz do que está em jogo, ou seja, a unidade e a missão da comunidade de Deus. A igreja primitiva realmente acreditava que Jesus voltaria em breve, que a colheita era abundante, que os trabalhadores eram poucos e que a Grande Comissão não poderia ser cumprida com apenas uma parte dela. Todos eram necessários. Precisou aprender rapida- mente como se tornar uma equipe forte, lutando juntos em vez de uns contra os outros. De volta ao filme Remando para o ouro, como fazer esses oito atletas atingirem seu máximo potencial como uma equipe unificada? Talvez, o problema não estivesse nos atletas, mas em ter o timoneiro certo. O timoneiro é a nona pessoa no barco, essencial para o sucesso da equipe. Enquanto os oito atletas remam voltados para trás, o timoneiro é posicionado para a frente, sendo a única pessoa qualificada para definir a direção e o ritmo do barco. O Espírito Santo é o timoneiro do barco, que é a igreja. Por ser onipotente, é o único qualificado para definir a direção e o ritmo de como melhor É HORA DE APRENDERMOS COM A IGREJA PRIMITIVA A DISCIPLINA DE CRIAR ESPAÇOS SEGUROS. PARA NOS DAR UMA CHANCE, PARA RECONSIDERAR NOSSAS POSIÇÕES PRESUMIDAS À LUZ DO QUE ESTÁ EM JOGO 34 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 ESPECIAL terminar a corrida, ao trazer clareza e unidade aos egos humilhados que estão dispostos a serem transformados e reformados continuamente por Deus. CONCESSÕES DE CÁ E DE LÁ A carta de Jerusalém declara quatro requisitos: abs- tenção de alimentos sacrificados a ídolos, de sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual (v. 29). Por quê? O Concílio não havia concordado em não sobrecarregá-los?Os gentios não estavam agora livres em Cristo? Sim, a liberdade deles havia sido con- quistada por Cristo. Mas precisava ser uma liberdade responsável, atenciosa para com os crentes mais fracos. Tiago viu na ausência desses requisitos uma ameaça à unidade e ao testemunho da igreja. Assim como o Concílio esperava que os crentes judeus fizessem uma concessão sobre a exigência da circuncisão, esperava também que os crentes gentios fizessem concessões sobre essas quatro exigências, a fim de manter a unidade por meio do vínculo da paz. O Concílio em Jerusalém sabia que o Espírito Santo fez a igreja uma, mas reco- nhecia que essa unidade estava em cons- trução. Para alcançar a unidade, todos os membros deveriam considerar não apenas seus próprios interesses, mas também os interesses dos outros. Tiago estava preocupado também com o testemunho da igreja perante seus vizinhos não crentes. O cerne da missão, conforme declarado na profecia de Amós, era que o restante do povo pudesse buscar o Senhor. Portanto, a igreja em Antioquia pre- cisava remover quaisquer pedras que estivessem no caminho dos não crentes em direção à fé e à salvação. Afinal, o que os separaria como seguidores de Cristo se continuassem a comer carne sacrificada a ídolos e se envolvessem em imoralidade sexual? O ser da Igreja é em si uma missão. Isso então levanta a questão: que exigências devemos colocar sobre nós mesmos em nossa liberdade em Cristo para remover todos os obstáculos do caminho de nossos vizinhos não crentes? Do que devemos nos abster em pensamentos, palavras, ações e relacionamentos para manter a comu- nhão com nossos irmãos e irmãs crentes, sem com- prometer a verdade do evangelho? Em um congresso como o Lausanne 4, podemos chegar a respostas que se aplicam à igreja global, mas também é importante chegar a respostas que sejam contextualizadas aos nossos cenários culturais e missionários únicos. CORREÇÃO, ALEGRIA, CONSOLO E PAZ Continuando em Atos 15, lemos que, quando a igreja de Antioquia se reuniu e leu a carta enviada pela igreja de Jerusalém, todos ficaram contentes e consolados (v. 31). Aquele poderia ter sido um momento tenso, todos esperando o que as vozes de Jerusalém diriam e qual lado eles defenderiam. Mas o Espírito Santo trouxe alegria e consolo quando a paz da igreja foi restaurada e a ameaça à unidade foi removida. O Espírito Santo continua a nos oferecer a mesma alegria e consolação hoje. Quando a verdade subs- titui nosso silêncio temeroso, a unidade é restaurada e somos liberados para retomar pacificamente nossa missão como igreja. É então que podemos declarar e mostrar o cumprimento da oração de Jesus: “A fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17.21). Hoje, é preciso ouvir de novo essas boas novas. A Trindade está investida em nossa unidade como uma comunidade missional. O Pai, o Filho e o Espírito Santo guiam a igreja e definem sua direção e seu ritmo rumo à verdade e unidade, que então produzem o fruto da paz e da justiça. Somos testemunhas da missão pacífica e justa da Trindade em tempos de crise na e por meio da igreja na África do Sul, em Ruanda, no Egito. E hoje oramos para que em breve testemunhemos a missão pacífica e justa da Trindade na e por meio da igreja nas crises em curso na Ucrânia, no Sudão e em Gaza. Afinal, os oito atletas de Remando para o ouro aprendem a trabalhar juntos. Vencem, apesar de tudo, e se classificam para competir nas Olimpíadas de 1936 em Berlim. Eles remam desimpedidos a ponto de enfren- tarem os maiores rivais e conquistam o ouro olímpico. E assim fez também a igreja primitiva. Eles desco- briram maneiras de ouvir uns aos outros, de se unirem, apesar de suas diferenças, e seguiram adiante, desim- pedidos, em sua missão. Os seguidores de Cristo e seu evangelho continuaram a superar todos os obstáculos e todas as divisões. E sabemos que um dia, pela graça de Deus, as palavras de 1 João 4.4 finalmente serão ver- dadeiras: “Filhinhos, vocês são de Deus e venceram os falsos profetas, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo”. Por causa dessa verdade, descansamos e nos alegramos. A Igreja de Cristo sempre será invicta. Na última cena do filme, há uma conversa que acontece anos depois, entre um dos oito atletas e seu netinho: “Vovô, você gostou de remar em uma equipe de oito homens?”, ao que o avô responde: “Oito? Nunca fomos oito. Éramos um”. “A fim de que todos sejam um”. Irmãos e irmãs em Cristo, nós somos um. Transcrito e traduzido por Ana Laura Morais. Anne Zaki é professora de teologia prática e pregação no Seminário Teológico do Cairo, no Egito. Este artigo é fruto da exposição bíblica feita por ela no Quarto Congresso Lausanne. Transcrição feita com per- missão da autora a partir do vídeo disponível em bit. ly/L4-anne-zaki. ACREDITO QUE, UM DIA, TODA A COMUNIDADE MISSIONAL TERÁ QUE PAGAR UM PREÇO – O PREÇO DE FICAR EM SILÊNCIO OU O PREÇO DE QUEBRÁ-LO 35Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Tenho 72 anos e cheguei ao Brasil com cinco anos. Meus pais eram ateus e autossu- ficientes. Deus não tinha lugar na nossa vida. No meu primeiro ano da faculdade fui despretensiosamente a um acampamento da Aliança Bíbli- ca Universitária (ABU) no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Não esperava encontrar pessoas in- teligentes com a vida transformada por um Deus vivo, totalmente com- prometidas com Jesus. E foi assim que o Senhor Jesus me chamou para também ser cristã. Durante a faculdade – anos de ABU – minha fé e meu conheci- mento de Deus foram fundamenta- dos. Se aceitar Jesus como Salvador só leva um momento, tê-lo como Senhor é desafio de uma vida. O sangue de Jesus me redimiu da maneira vazia de viver transmitida pelos meus antepassados e pelo sistema vigente para um projeto de uma nova vida à sua imagem e semelhança. Esse projeto de vida se revela à medida que andamos com Jesus; cura, transformação e família fazem parte dele. Pedi ao Senhor um marido que o tivesse como prioridade em sua vida, e Deus, com seu humor peculiar, me deu uma pessoa cuja única coisa que temos em comum é o nosso compromisso com ele e o seu reino. O meu velho eu era enorme e precisava ser diminuído para a vida de Jesus aflorar, e o relacionamento com meu marido foi usado para me moldar. Troquei meu sonho de ser cientista pelo de ser esposa e mãe em tempo integral. Embora tenha feito mestrado e doutorado em farmacologia, nunca tive uma carreira profissional; sou simplesmente dona de casa. Nunca me arrependi dessa decisão, porque estou convicta de que era disso que eu precisava, apesar de não defen- der essa posição para toda mulher casada e com filhos. Como esposa, apoiei meu marido em todas as suas decisões de carreira e na sua função de líder da igreja. Como mãe de três filhos, aprendi muito e tive o privi- légio de ensiná-los a andar no cami- nho do Senhor. Pela graça, todos eles conhecem o Deus vivo e o servem ativamente com suas famí- lias na igreja. Minha oração diária agora é pelos meus netos: que eles também tenham intimidade com Jesus e sejam sal e luz no mundo. Com temperamento forte e pouco propensa a ceder ou ouvir, o treinamento do Senhor foi muitas vezes dramático, longo e intenso. Questionamento, reclamação e muitas vezes choro fizeram parte das minhas conversas com Deus. Nesses embates, como Jacó no vau de Jaboque, pela sua misericórdia, saio sempre menor e ele, maior. Tive oportunidade de fazer seminário teológico e diferentes cursos de trabalhos manuais e artís- ticos, que possibilitaram ampliar minha visão de mundo e conhecer pessoas com quem compartilhar a vida de Cristo em mim. Desde a aposentadoria do meu marido, com quase cinquenta anos de casados, vivemos uma nova aven- tura: a nossa segunda carreira. Já treinamos uma segunda geração de líderes,hoje compartilhamos com outros como a vida com Deus pode ser rica na velhice e incentivamos os mais idosos a continuarem a dar frutos (velhice não é esterilidade). O Senhor disse que quem semeia com fartura, também colherá farta- mente, e ele sempre nos deu tudo de que precisamos e muito mais ainda para repartir com os outros. Temos a alegria de participar de projetos sociais e missionais como a ACEV Social, a Missão Sal, Asas de Socorro (na Amazônia), Cristolândia e mui- tos outros. Há dezesseis anos tenho um problema de saúde que me limita, mas não me impede de servir a Deus; e, se nada puder fazer, ainda poderei interceder. Meu desafio diário continua sendo renovar a minha mente para não imitar o mundo e seus costumes, mas ser transformada pela renovação do meu modo de pensar e experi- mentar com alegria a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Certamente é tempo de colher, mas ainda é tempo de semear. O melhor ainda está por vir! Elizabeth Ng Koo, casada com Robert Liang Koo, mãe de três filhos e avó de nove netos, é membro da Igreja dos Cristãos de São Paulo. EU, “APENAS” UMA DONA DE CASA? SESSENTA + ELIZABETH NG KOO SE ACEITAR JESUS COMO SALVADOR SÓ LEVA UM MOMENTO, TÊ-LO COMO SENHOR É DESAFIO DE UMA VIDA Nossa identidade, nossa vocaçãoNossa identidade, nossa vocação bit.ly/411-sessentabit.ly/411-sessenta MAIS NA INTERNET A rq ui vo p es so al 36 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 No domingo, dia primeiro de dezembro de 2024, a Igreja Cristã Maranata (ICM) realizou o evento “Trom- betas e festas”. Esta foi a quarta edição deste esforço evangelístico da ICM. O objetivo destes eventos é apon- tar os sinais da volta de Jesus Cristo à Terra, proclamar que Ele vai arrebatar a sua igreja e anunciar a mensagem da salvação. Estima-se que a programação alcançou cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o globo. No Maanaim de Domingos Martins, a poucos quilômetros de Vitória, ES, quase 5 mil pessoas parti- ciparam presencialmente do culto. Trombetas e Fes- tas foi transmitido para toda a ICM, espalhada pelo mundo. A transmissão via satélite chegou aos 5 mil templos no Brasil e no exterior. Houve também trans- missões em redes de televisão e plataformas digitais, nacional e internacionalmente. A mensagem foi tra- duzida para 50 idiomas. Quinze deles em tempo real por tradutores e intérpretes. Com relação às edições anteriores, foram incluídos novos idiomas, como o grego, hebraico e mandarim. Além disso, outras 35 línguas e dialetos foram contemplados graças ao uso de inteligência artificial. Música: ponto forte do evento O coral entoou hinos conhecidos: “Saudai o nome de Je- sus”, “Vencendo vem Jesus” e “Quão grande és Tu!”. A or- questra da ICM, com 320 vozes e mais de 170 instrumen- tos, acompanhou os hinos. As trombetas foram aliadas da mensagem, que enfatizou Apocalipse 8, em que João anuncia o toque das trombetas. Algumas delas tinham uma �âmula com a palavra “Maranata”, que signi�ca “O Senhor Jesus vem!”. O conteúdo da mensagem Em seu propósito evangelístico, o evento apresentou os sinais proféticos que apontam para o dia em que a igreja, como povo de Deus, será arrebatada para a eter- nidade. Os pregadores destacaram a iminência da volta de Jesus Cristo. O pastor Gerson Beluci, coordenador da ICM na Europa, apresentou passagens bíblicas que são sinais e avisos proféticos sobre o arrebatamento, a partir das trombetas descritas em Apocalipse 8. Em sua palavra, ele mostrou que as profecias reveladas até a terceira trombeta já se cumpriram. Com o auxílio de imagens, ele citou as mais de 21,6 mil queimadas registradas na Amazônia em 2024 e outros acontecimentos atuais em conexão à primeira trombeta (Ap 8.7) que menciona queima- das atingindo um terço da terra. Em seguida destacou manchetes de diversas mídias que mostram a mor- te de animais dos mares, relacionando-a à segunda trombeta, que anuncia a morte da terça parte das criaturas que vivem no mar. Conectando com o to- que da terceira trombeta, que anuncia que as águas se tornaram amargas (Ap 8.10-11), o pastor referiu-se às notícias que mostram que atualmente um terço dos rios do planeta está poluído. A IGREJA CRISTà MARANATA REALIZA TROMBETAS E FESTAS PARA 1 BILHÃO InformeMaranata_2024.indd 2 12/12/2024 08:27:41 37Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Ao �nal, o pastor Gerson Beluci destacou que ao to- que da quarta trombeta a igreja �el será arrebatada. Os sinais da proximidade desse dia descritos pelo Senhor Jesus no Sermão do Monte, como as guerras e rumores de guerras (Mateus 24.6-7), além de sinais no sol, lua e estrelas, já são visíveis atualmente. Foram lembrados também fenômenos socioeconô- micos, tais como migrações em massa e o crescimento do ateísmo, visto como “rebelião dos homens contra Deus”. O presidente da ICM, pastor Gedelti Gueiros, res- saltou a seriedade do momento atual e qual deve ser o posicionamento da igreja: “A igreja tem que ser pro- fética. Quando deixa de ser profética, descumpre sua missão”. Citando profetas bíblicos como Habacuque, o pastor Gedelti chamou a atenção para as a�ições dos úl- timos dias, como con�itos e crises nos lares, enfatizando que a alma humana tem sede de Deus. No findar do evento, a mensagem de salvação foi enfatizada destacando o desejo de Deus de salvar o homem: “Se com a tua boca confessares ao Senhor Je- sus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou den- tre os mortos, serás salvo” (Romanos 10.9). INFORME Para a ICM, o evento é uma chamada à atenção para os tempos proféticos que se cumprem e para a oportuni- dade de salvação de almas. O próprio nome da Igreja – Maranata – identi�ca uma convocação do Espírito Santo para um momento, um tempo especial da história e vida da Igreja que é o arrebatamento: “Esta igreja nasceu do meio evangéli- co como opção para de�nir este momento histórico e profético. Maranata é a palavra usada por Paulo para falar sobre a grande mensagem da Igreja, que é “O Rei vem”, ou seja, “Jesus voltará” (trecho do “Quem So- mos” no site da ICM). A missão continua Josias Júnior, gerente de co- municação da ICM, conclui: “o evento foi uma proclama- ção para o mundo, chaman- do a atenção para o momen- to que vivemos, à luz do que a Bíblia diz. Há um projeto de Deus, descrito com deta- lhes nas Escrituras Sagradas, que está em curso e muito perto de seu �nal. Não se trata do �m do mundo, mas do �m da oportunidade oferecida ao ser humano para escolher viver a eternidade com Deus”. E acrescenta que o evento foi �nalizado, mas a fes- ta não acabou. Para ele, uma mensagem tão importan- te como a do Trombetas e Festas não pode parar de ser pregada e precisa alcançar cada vez mais pessoas: “Vamos repercutir o evento nos próximos dias, sema- nas e meses. Existe um número incontável de pessoas que foram impactadas e que decidiram estar neste ca- minho. Elas serão assistidas, acompanhadas e ajudadas a viver a mesma experiência maravilhosa que vivemos. Há muito ainda a se fazer”, �naliza Junior. TV TV MAANAIM – ABERTO CANAL 126 – SIST. RO-EMBRATEL VIA SATÉLITE CANAL 85 – SKY LIVRE TV MAANAIM – 24H APP DA RÁDIO MAANAIM TV MAANAIM – TV TERRESTRE CANAL 18.2 (ESPÍRITO SANTO) TV MAANAIM – PORTUGAL - MEO CANAL 187 RÁDIO RÁDIO MAANAIM - SATÉLITE CANAL 381 – SIST.RO-EMBRATEL RÁDIO MAANAIM FM - MG FM 100,3 – DINÍSIO - MG - - - - - Trombetas e Festas em detalhes Canais da Igreja Cristã Maranata: REDES SOCIAIS IGREJA CRISTà MARANATA RÁDIO MAANAIM 0800 – PROJETO DE ASSISTÊNCIA ESPIRITUAL BRASIL – LIGAÇÃO GRATUITA 0800 707-3076 EXTERIOR - WHATSAPP +55 27 99309-1405 Pastor Gedelti Gueiros InformeMaranata_2024.indd 3 12/12/2024 08:27:42 38 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Seguindo o man- dado de Jesus, os cristãos desde o início tiveram uma perspectiva glo- bal. Os outros evangelhos sinóticos contêm a ordem de fazer discípulos e pregar em “todasas nações” (Mt 28.19; Lc 24.47). O Quarto Evan- gelho também é claro quanto ao alcance mundial da fé cristã: Deus amou o mundo e lhe enviou o seu Filho (Jo 3.16s); Jesus é o pão que dá vida ao mundo e a luz do mundo (6.33, 51; 8.12); na “oração sacerdo tal”, o Mestre declara que, assim como o Pai o enviou o mundo, ele também enviou os seus discípulos a esse mundo (17.18). No transcurso dos séculos, isso se tornou uma realidade. Com maior ou menor intensidade, a fé cristã está presente em toda a Terra. O cristianismo é um fenômeno de proporções globais, inicialmente mais restrito ao Hemisfério Norte, mas hoje com forte presença na Ásia, África e América Latina. Porém, ao mesmo tempo em que a religião de Cristo exerce um pro- fundo impacto na história, ela tam- bém sofre a influência positiva ou negativa dos eventos globais, numa interação contínua. Tem sido assim desde o início. Nos primeiros séculos da era cristã, o cristianismo se tornou uma religião majoritariamente oci- dental sob a poderosa atração da cultura helênica e da administra- ção romana. O Império Romano, apesar de graves manifestações de agressividade contra os cristãos, também veio a contribuir forte- mente para a expansão da igreja, graças à sua vasta extensão, ao seu eficiente sistema de transportes e comunicações, e ao seu vigoroso ordenamento jurídico. A chamada pax romana contribuiu em muito para o crescente alcance geográ- fico do cristianismo, que também alcançou regiões à margem do império, seguindo as grandes rotas comerciais. Nos séculos finais do período antigo e iniciais da Idade Média, novos eventos de amplo alcance continuaram a interagir com a fé cristã. No aspecto positivo, as gran- des migrações de povos bárbaros vindos do leste europeu contribu- íram para a cristianização desses grupos, muitos dos quais lançaram os fundamentos das modernas nações europeias. Ao mesmo tempo, esse período testemunhou o surgi- mento de um dos maiores desafios e ameaças para o cristianismo em toda a história – o advento do islã. A partir do sétimo século, os exércitos maometanos conquistaram imensas regiões com forte presença cristã no Oriente Médio, Ásia Menor e norte da África. No período medieval, os crescentes contatos comerciais entre a Europa e o Oriente geraram um profundo interesse missionário. Porém, a verdadeira globalização da fé cristã teve início no século 15, com as grandes navegações ibéricas e os “descobrimentos” que as segui- ram. Os enormes empreendimentos coloniais português e espanhol – e posteriormente de outras nações – fizeram com que o cristianismo pela primeira vez na história come- çasse a assumir um caráter verda- deiramente global. Isso se intensi- ficou no século 19, com as missões mundiais protestantes. Apesar do contexto de escra- vidão e colonialismo em que o empreendimento missionário, tanto católico quanto protestante, ocor- reu em muitos locais, não se pode simplesmente equiparar os dois fenômenos. Apesar das ligações entre os missionários e as nações escravocratas e imperialistas, eles foram muitos mais que agentes de interesses ideológicos, políticos e comerciais. Muitos deles servi- ram as populações entre as quais trabalharam de modo devotado, amoroso e sacrificial, oferecen- do-lhes apreciáveis contribuições OS EVENTOS GLOBAIS E A HISTÓRIA DA IGREJA A multiplicação de regimes autoritários, os fenômenos climáticos extremos, o avanço do secularismo e de espiritualidades alternativas, entre outros, são desafios ou oportunidades para a missão? HISTÓRIA ALDERI SOUZA DE MATOS Ad ob e St oc k 39Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO em diversas áreas, ao contrário de muitos de seus compatriotas impe- lidos por motivações menos nobres. No tempo presente, vários fenômenos de âmbito global estão afetando a história da igreja. Em primeiro lugar, a multiplicação de regimes autoritários ao redor do mundo, principalmente na Ásia, na África e no Oriente Médio. Esses regimes, quando associados a guerras internacionais ou civis, têm gerado o dramático fenômeno das massas de refugiados, com suas múltiplas consequências. Tais migrações têm afetado a demo- grafia, inclusive religiosa, tanto das regiões de origem quanto das regi- ões de destino desses grupos. Os fenômenos climáticos extremos em muitas dessas regiões, resultando em miséria e fome, também contri- buem para esse êxodo gigantesco. O segundo evento de vastas pro- porções, muitas vezes associado ao anterior, é o aumento da intolerância religiosa em níveis jamais vistos. Nações comunistas, como China e Coreia do Norte, são famosas pela sua repressão contra os cristãos. Porém, o fenômeno assume propor- ções ainda mais amplas e assustado- ras em nações com forte presença islâmica. As ações intolerantes e violentas são promovidas tanto por governos oficiais quanto por grupos extremistas, como tem ocorrido, por exemplo, na África subsaariana. Um fato relativamente recente é o surgi- mento de formas militantes de hin- duísmo e budismo em várias regiões da Ásia, resultando em grandes pro- vações para as minorias cristãs. Um terceiro desdobramento, esse no âmbito do pensamento e da cultura, é o avanço do secularismo, de um lado, ou de espiritualidades alternativas, de outro lado, em ter- mos mundiais. A globalização e a influência avassaladora dos meios eletrônicos de comunicação têm contribuído para isso, reconfigu- rando agressivamente as crenças, os valores e os comportamentos de vas- tos contingentes, em contraposição à cosmovisão cristã. Evidentemente, todos esses eventos e outros trazem consigo não somente desafios, mas também grandes oportunidades para a pregação do evangelho e o cumprimento da missão que Jesus confiou aos seus discípulos. Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira; A Caminhada Cristã na História; Fundamentos da Teologia Histórica e Às Ciências Divinas e Humanas (150 anos do Instituto Pres- biteriano Mackenzie). Está morando por um ano nas proximidades da Filadélfia, nos Estados Unidos. Três mudanças na igreja e sete realidades globais que transformam os estudos de missão bit.ly/411-historia MAIS NA INTERNET OS EVANGÉLICOS NO BRASIL TIAGO PEREIRA A CONTRIBUIÇÃO DOS EVANGÉLICOS PARA A CAUSA AMBIENTAL NO BRASIL Pesquisas recentes têm mostrado a pronta reação dos evangélicos na prestação de socorro diante de crises ambientais e tragédias climáticas. O que mudou? Existe um interessante debate nas ciências ambientais so- bre a utilização dos termos conservação e preservação. Em- bora ambos possam ser usados como sinônimos, tecnicamente eles se referem a diferentes atitu- des que podem ser tomadas em relação ao meio ambiente. É um debate complexo, envolvendo di- ferentes situações em que uma postura pode fazer mais sentido do que outra, a depender das va- riáveis que estão em jogo. Aqueles que advogam pela pre- servação defendem que a natureza deve ser protegida integralmen- te, de forma que não haja nenhu- ma intervenção nem exploração humana no ambiente natural. A preservação entende que a nature- za possui valor intrínseco, e a sua proteção deve ser empreendida independentemente de seu valor utilitário ou econômico. Os con- servacionistas, por sua vez, enten- dem que há possibilidade de uma interação harmônica do homem com a natureza. Nesse caso, a conservação deve ser norteada de forma que os benefícios para a hu- manidade sejam equilibrados com o uso consciente e sustentável dos recursos naturais. Dois importantes nomes da história ambiental – John Muir (1838-1914) e Gifford Pinchot (1865-1946) – estão relacionados com a preservação e com a con- servação, respectivamente. Muir foi pioneiro no movimento de pre- servação, influenciando a criação dasprimeiras áreas protegidas dos Estados Unidos, enquanto Pinchot foi um pioneiro na gestão de flo- restas, defendendo um equilíbrio entre a preservação e o desenvolvi- mento econômico pelo uso susten- tável dos recursos naturais. Apesar dessas divergências, é importante perceber que a visão ambiental de ambos tinha a mesma origem. Os dois eram norte-americanos, her- deiros de uma tradição religiosa protestante que reconhecia a cria- ção como dádiva divina e via o cuidado com a natureza como uma questão moral e espiritual. Poucos reconhecem que esse debate ambiental tem profundas raízes no movimento evangélico norte-americano e na ética pro- testante. O historiador Mark Stoll, um estudioso do ambientalismo e sua relação histórica com o pensa- mento religioso, mostra como as tradições cristãs protestantes aju- daram a moldar a visão ambiental e influenciaram a origem dos movimentos de preservação e con- servação nos Estados Unidos. Di- versos pioneiros desses movimen- tos foram inspirados pelos ideais calvinistas presentes nos puritanos e nos congregacionais a respeito da vocação para o cuidado e o senso de responsabilidade moral com a criação, o que contribuiu para fun- damentar a ética ambiental que se construiu ao longo do século 20. Embora os primeiros líderes ambientalistas tenham herdado de suas tradições evangélicas um forte senso de compromisso com o cuidado com a criação, diversos fatores nos movimentos evangéli- cos subsequentes parecem ter con- tribuído para um afastamento do engajamento cristão em torno do tema, que, aos poucos, se tornou bastante secularizado. No entanto, conhecer a influência histórica do protestantismo na formação desses movimentos é fundamental para 4040 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 Ad ob e St oc k Live de Diálogos de Esperança “Sustentabilidade global” bit.ly/411-evangelicos-brasil MAIS NA INTERNET que os cristãos evangélicos possam resgatar essa visão hoje. De fato, nas décadas mais recentes, já po- demos perceber um movimento de retorno das igrejas à preocupação com as questões ambientais. Esse retorno relativamente recente parece ser uma resposta tanto a movimentos internacionais que resgataram o diálogo entre a ecologia e a teologia, quanto a uma crescente conscientização sobre a crise ambiental e climática. A par- tir dos anos 1970 e 1980, registra- mos o surgimento de importantes movimentos globais que apro- ximaram a igreja das discussões ambientais; e, atualmente, encon- tramos no Brasil diversas organi- zações e iniciativas evangélicas que têm trabalhado com a perspectiva do cuidado com a criação, mudan- ças climáticas e ecoteologia. Podemos destacar o trabalho da Aliança Evangélica Brasileira, que representa diversas denomi- nações e, dentre diversas frentes, atua nas áreas de justiça social e ambiental por meio de comitês e campanhas que incentivam a consciência ambiental e o enga- jamento das igrejas em práticas sustentáveis. A organização inter- nacional A Rocha, que teve uma importante atuação no Brasil de 2006 a 2019, destaca-se em di- versos países, por meio de proje- tos de conservação da natureza e em questões de responsabilidade ambiental com igrejas e organiza- ções locais. Nos treze anos em que atuou no Brasil, A Rocha conse- guiu criar parcerias com organi- zações seculares e foi responsável por plantar a semente do cuidado com a criação em diversas igrejas. Há alguns anos também vimos surgir em solo brasileiro a inicia- tiva Renovar Nosso Mundo, um movimento global que tem como objetivo mobilizar os cristãos evangélicos em torno da temática ambiental por meio de ações de sensibilização, informação e capa- citação. A Rede Evangélica Nacio- nal de Ação Social (RENAS) tam- bém inclui a questão ambiental em suas pautas de ação social, mo- bilizando igrejas e grupos locais para essa causa. Essa lista pode se estender bastante ao somarmos iniciativas recentes como o gru- po de estudos temáticos em eco- teologia da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²), o projeto Casa Sem Lixo, os movi- mentos Nós na Criação, Somos Criação, Evangélicos pelo Clima, a participação de muitos cristãos na Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil (IRI- -Brasil), entre muitos outros. Nos últimos anos, o próprio Movi- mento Lausanne também selou o seu compromisso com o cuidado da criação, integrando essa causa nas suas pautas globais de missão e justiça, e atualmente conta com uma importante representação brasileira na área. Por mais que o engajamento ambiental dos evangélicos brasi- leiros ainda seja razoavelmente modesto dentro de toda a diversi- dade do contingente evangélico do país, é possível perceber, nesses úl- timos anos, um fortalecimento da ideia de que o cuidado com o meio ambiente é uma responsabilidade intrínseca da fé cristã. E é nessa di- versidade que talvez esteja a gran- de riqueza da população evangé- lica. Compreendendo mais de um quarto dos brasileiros, os evangé- licos são uma parte significativa da sociedade, com motivos mais que suficientes para entender as neces- sidades e os desafios ambientais enfrentados em todas as regiões do país. De fato, pesquisas recentes têm mostrado que os evangélicos não são necessariamente avessos às pautas ambientais, e é possí- vel perceber sua pronta reação na prestação de socorro diante de crises ambientais e tragédias cli- máticas. Talvez esse seja um pon- to-chave para o estabelecimento de um diálogo entre os evangélicos e os movimentos seculares, uma forma de criar oportunidades de cooperação e serviço. Afi- nal, essa é uma forma genuina- mente cristã de obedecer ao cha- mado de Deus e testemunhar o evangelho a toda criatura. Nossa esperança é que o co- nhecimento da história e o estu- do da Bíblia levem cada vez mais evangélicos a se envolverem nessa causa. Que eles se inspirem na fé protestante de Gifford Pinchot, que entendeu o mandato bíblico de “domínio sobre a terra” como um chamado para a gestão cuida- dosa e justa dos recursos naturais, de modo a beneficiar a humanida- de e honrar o Criador. Que eles se fascinem com a espiritualidade de John Muir, que interpretava a na- tureza como uma “catedral” viva, onde as pessoas podiam contem- plar a beleza e a grandiosidade de Deus na criação. Tiago Pereira, casado com Eliza e pai de Pedro e Maria Clara, é biólogo, mestre e doutor em botânica, com pós-doutorado em biologia mole- cular e filogeografia. É coordenador nacional dos grupos de estudo da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2) e membro da Igreja Presbiteriana. 4141Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO DIVERSAS ORGANIZAÇÕES E INICIATIVAS EVANGÉLICAS NO BRASIL TÊM TRABALHADO COM A PERSPECTIVA DO CUIDADO COM A CRIAÇÃO, MUDANÇAS CLIMÁTICAS E ECOTEOLOGIA A TENTATIVA DE GOLPE E A REAÇÃO EVANGÉLICA A democracia não existe para garantir a vitória do nosso lado nem da nossa visão da sociedade Dois acontecimentos prenhes de significado para o futuro da igreja evangélica brasilei- ra tiveram lugar no mês de novem- bro de 2024: as novas e cada vez mais chocantes revelações sobre os planos para um golpe de estado em dezembro de 2022; e a vitória eleitoral de Donald Trump nos Es- tados Unidos. De que forma esses dois eventos se revestem de tanta importância, para o país mas tam- bém para a igreja brasileira? Entre os dois turnos da eleição presidencial de 2022, escrevi em artigo de Ultimato de que “é ex- tremamente importante, seja quem for o candidato perdedor, que os seus apoiadores evangélicos, mesmo lamentando o resultado, fiquem dentro das normas democráticas de reconhecimento da legitimidade do vencedor”. Por que é tão impor- tante, perguntei, que os evangéli- cos deem exemplo nesse sentido? Aleguei duas razões. Primeiro, por causa da história: das grandes cor- rentes religiosas (cristãs e não cris- tãs), o protestantismo, inclusive sua vertenteevangélica, tem historica- mente a relação mais próxima com o desenvolvimento da democracia. E, em segundo lugar, por causa da Bíblia: apenas como pincelada das implicações democratizantes que permeiam a Bíblia, citei a criação do ser humano à imagem de Deus; as implicações da Queda; o impul- so geral das leis de Moisés; e alguns textos de Paulo, como Gálatas 3.28 e as listas de dons do Espírito em Romanos 12 e 1 Coríntios 12 (as “cartas constitucionais” da comu- nidade cristã). A grande narrativa bíblica reflete, então, o valor fundamental da democracia como reflexo tanto da antropologia cris- tã como do caráter de Deus ex- presso na maneira em que trata a humanidade desde o começo. A propensão humana para o bem torna a democracia possível, e a propensão humana para o mal torna a democracia necessária. Ou seja, amar ao próximo inclui a defesa da democracia. Idolatria de Estado Concluí que os evangélicos, muni- dos dessa teologia, deveriam ser o segmento menos vulnerável a des- vios antidemocráticos, e que seria, portanto, esdrúxulo que evangé- licos brasileiros hoje quisessem fechar o processo democrático. Querer romper com a democracia é idolatria do Estado! Aqueles que querem derrubar o resultado das urnas porque “o outro lado é co- munista/fascista” estão traindo o evangelho. E aqueles que querem derrubar o resultado das urnas porque “houve fraude”, que apre- sentem as provas. Agora, estarrecidos, descobri- mos cada vez mais o que o lado perdedor tentou fazer nos meses após a derrota; quão longe avan- çou nos planos e quão violentas as ações planejadas. E a vitória de Trump nas elei- ções americanas de novembro de 2024, que tem a ver com isso? Sabemos que o próprio Trump tentou reverter, por meios an- tidemocráticos, a sua derrota nas urnas em 2020, criando um precedente fatídico para os even- tos brasileiros de dois anos depois. E nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, não existe uma “lei da ficha limpa” para impedir que um candidato que já atentou contra a democracia concorra novamente. Trump ganhou legitimamente em 2024 e reassumirá a presidência em janeiro, o que significa que es- tará no poder à época da próxima eleição presidencial brasileira. A relevância disso é que tudo indica que uma das razões principais, se não a principal, pela não concreti- zação do plano de golpe no Brasil em dezembro de 2022 foi a conhe- cida oposição do presidente Biden, o que provavelmente influenciou a não adesão de boa parte da cúpu- la militar brasileira à conspiração. Com Trump ainda no poder em 2022, o desfecho poderia ter sido muito diferente. Mas agora, em 2026, não haverá o mesmo desestí- mulo para aventuras golpistas. Os evangélicos e a democracia Obviamente, nem tudo depende dos evangélicos desses dois países. Mas constituem as duas maio- res comunidades evangélicas do mundo. E sabemos que essas co- munidades evangélicas votaram maciçamente, tanto em Trump como na candidatura brasileira perdedora em 2022. A postura dos evangélicos brasileiros terá grande peso em determinar o destino do Brasil nos próximos anos. Em 2022, falei da importância dos apoiadores evangélicos ficarem dentro das normas democráticas. Isso inclui, agora, repudiar publi- camente as tentativas de golpe e não votar mais em tais candidaturas ou naqueles que as aprovam. 42 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 ÉTICA PAUL FRESTON A hora de a liderança evangélica brasileira se levantar em defesa da democracia é agora. Se a candi- datura presidencial de 2022, que recebeu dois terços do voto evan- gélico, foi tão longe na tentativa de derrubar o sistema democrático, não seria de esperar uma reação, um repúdio contundente e uma au- tocrítica? Em julho de 2024, tive o privi- légio de ser entrevistado na Folha de S. Paulo sobre a relação entre evangélicos e política. Em resposta à minha entrevista, um jornalista da própria Folha afirmou que, em vez de “conversar” com evangé- licos, era melhor “enfrentá-los”, dar “combate ao ideário dessas correntes”, porque “forças hostis aos princípios da democracia têm de ser enfrentadas”. Pude publicar uma tréplica, em que caracterizei a abordagem do jornalista como de- sinformada, que era “errôneo atri- buir hostilidade à democracia aos 70% de evangélicos que votaram em Bolsonaro. Os antidemocráti- cos ideológicos não são maioria.” Quando evangélicos cometem atos antidemocráticos, eles têm que ser, de fato, enfrentados. Mas quando emitem opiniões, mesmo antide- mocráticas, devem ser combatidos dentro do mundo evangélico e em termos “nativos”. É isso que precisa acontecer agora. Deve haver, por parte de líderes evangélicos, um repúdio contundente e, se for o caso, uma autocrítica. Se não quiserem se pronunciar em defesa da demo- cracia, pelo menos se pronunciem em defesa da vida; em defesa da legalidade; em defesa da decência; em defesa da verdade; em defesa da tranquilidade. Mas o evangélico consciente se pronunciará, sim, em defesa da democracia. A democra- cia eleitoral é insuficiente e sempre desaponta, mas é insubstituível. A democracia não existe para ga- rantir a vitória do nosso lado nem da nossa visão da sociedade. Ela existe para permitir a defesa con- tinuada de projetos diversos para a sociedade, inclusive o nosso. Com todas as imperfeições, a democracia brasileira permite a possibilidade de apresentar um amplo leque de visões para o futu- ro do país. Aqueles cristãos que se encantam por pretensas soluções não democráticas deveriam recor- dar o ditado de Churchill, de que a democracia é o pior sistema de governo já inventado, com exceção de todos os outros. Tanto a histó- ria como a boa teologia cristã nos confirmam isso. Quando as democracias morrem Não pensemos que as atividades ilegais e violentas dos golpistas são separáveis de alguma propos- ta concreta deles que porventura aprovemos. Essa é uma ilusão re- corrente. Como adeptos de regimes autoritários anteriores descobri- ram, cedo ou tarde, não é possível isolar a maldade embutida. Os dis- cursos e ações repugnantes acabam vindo à tona e infetando o todo. Haverá, claro, em setores evan- gélicos, as dissimulações de sem- pre. Por parte de alguns, o simples negacionismo. Por outros, a pro- jeção, atribuindo aos outros o que eles mesmos tentaram ou gosta- riam de tentar. Outros culparão a vítima: o outro lado é responsável pelo que os golpistas tentaram fa- zer! As falsas equivalências serão mobilizadas, para minimizar a gravidade dos fatos. E, por parte de apologistas mais cultos, haverá o pretenso distanciamento que, embora professe rechaçar as mani- festações mais rasteiras, no fundo quer tornar pensável o impensável, e aceitável o inaceitável. Outro setor evangélico, talvez o maior, decidirá que é melhor não falar nada. Primeiro porque, daqui a dois anos, do jeito que o Brasil imita os Estados Unidos, os golpistas podem estar de novo no poder, mais espertos e mais vinga- tivos. E também (pensarão alguns pastores) porque muitos mem- bros da igreja apoiam, aberta ou veladamente, o golpismo. Assim, optando pela prudência, deixarão de exercer seu papel pastoral de orientar o rebanho numa questão ética clara. Mas tanto o silêncio cúmplice quanto o apoio explícito trarão prejuízo à integridade da mensagem pregada. Quer se trate de apoiadores radicais, ou de apologistas ilus- trados, ou de calados prudentes, a todos o capítulo 8 do Evangelho segundo João se aplica: o diabo jamais se firmou na verdade, por- que é mentiroso e pai da mentira (v. 44). Para sermos verdadeiros discípulos, temos que deixar que a verdade nos liberte (v. 31-32). Para terminar, repito o alerta com queterminei o artigo de outu- bro de 2022. As democracias mor- rem quando os atores principais rejeitam as regras democráticas do jogo; quando toleram ou enco- rajam a violência; quando negam a legitimidade dos seus rivais; e quando expressam o desejo de coi- bir as liberdades civis de seus ad- versários. A democracia brasileira talvez venha a morrer... mas que os evangélicos não sejam nem seus assassinos nem seus coveiros! Paul Freston, inglês naturalizado bra- sileiro, é professor emérito de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá, e professor colabo- rador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos. É autor de, entre outros, Religião e Política, Sim; Igreja e Estado, Não; Cristianismo Antigo para Tempos Novos e Nem Monge, Nem Executivo, todos pela Editora Ultimato. Defender a democracia: um dever evangélico baseado na história e na Bíblia bit.ly/411_etica MAIS NA INTERNET 43Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO 44 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 M ar ia M ad ei ra ARTE E CULTURA LITERATURA E CULTURA GLADIR CABRAL A escrita é muitas vezes comparada ao ato de tecer fios, como nos fazem entender relatos antigos como os de Ariadne, personagem de um mito grego que tenta ajudar Teseu a escapar do labirinto dando a ele um fio e uma espada. Com a espada, Teseu matou o Minotauro e, seguindo o fio de Ariadne, conseguiu encontrar a saída do labirinto. Dessa maneira, es- crever pode ser entendido como uma forma de esca- par do labirinto e encontrar a saída. O romance de Conceição Evaristo Becos da Memória parece fazer o contrário. Usando o fio da narrativa, a autora quer adentrar cada vez mais profundamente os labirintos de sua memória, os becos e vielas da Vila Pindura Saia, uma comunidade pobre que ficava na zona sul de Belo Horizonte e foi desfeita em 1970. Evaristo nasceu e passou parte de sua infância ali. O livro caracteriza-se como um romance ins- pirado em eventos e registros autobiográficos. Ele apresenta um grande número de personagens que habitam a favela ou por ela passam. Cada um de- les tem sua origem, sua chegada, suas histórias e sua participação na vida cotidiana da comunidade, como Vó Rita, personagem central na narrativa e na vida da comunidade, Negro Alírio, um trabalhador resistente e sábio, Bondade, uma mulher que cuida de muita gente, Ditinha, uma jovem à procura de li- berdade, a velha Balbina, Filó Gazogênia, Cidinha- -Cidoca, além de inúmeros outros que passam pela história. Todos são apresentados a partir do olhar de Maria Nova, a narradora da história, uma meni- na entrando na adolescência que acaba por se tornar a mão que tece todas as histórias e cuja voz mescla as memórias coletivas da comunidade e tece todas as outras vozes. Há também uma personagem que permanece misteriosa ao longo de toda a narrativa e só ao fi- nal é revelada: a Outra, uma figura muito especial que vive na casa de Vó Rita. Além do mistério em relação a essa personagem, há uma crescente tensão que cerca e corrói a vida da favela como um abis- mo, um grande grotão: o processo contínuo e rui- doso de desfavelamento. A cada capítulo, barracos e mais barracos são derrubados, pessoas pegam seus trapos e vão embora, uma sensação cada vez mais forte de des- truição e vazio. Há um buraco que parece devorar tudo e que vai crescendo ao longo da narrativa, enquanto Maria Nova testemu- nha todo esse drama e tenta compreender o significado do que está acon- tecendo. Como o romance parece sugerir, a memória é uma experiência narrativa, pois é feita de lingua- gem, demanda um ponto de vista, tem uma estru- tura que lhe dá sustentação e sentido, evoca perso- nagens diferentes, cria um tempo diferente, paralelo ao tempo cronológico, que às vezes se acelera, às ve- zes se atrasa. Ela tem um material bruto com o qual trabalha: as lembranças do passado, suas marcas, evidências muitas vezes dispersas do que se passou. Mas a memória, por ser eminentemente narrativa, é fruto de um ato construtivo, é também ela mes- ma criação. Há, portanto, na memória um exercício ativo de imaginação. É o que reconhece Conceição Evaristo, no prefácio do seu livro, quando observa: “[...] invento sim e sem o menor pudor. As histórias são inventadas, mesmo as reais, quando são conta- das. Entre o acontecimento e a narração do fato, há um espaço em profundidade, e é ali que explode a invenção”. É daí que Conceição elabora seu conceito de “escrevivência”: escrever a partir de uma vivência anterior, de uma experiência. Escrever como buscar sua própria voz em meio a outras tantas vozes. EVARISTO, Conceição. Becos da memória. 3. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2018. Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/gladircabral. A “ESCREVIVÊNCIA” DE CONCEIÇÃO EVARISTO EM BECOS DA MEMÓRIA O que lembro, tenho bit.ly/411-literatura MAIS NA INTERNET VAMOS LER! ANDRÉ GOMES QUIRINO DE UMA DOUTRINA QUE, COMO TODAS, É SINÔNIMA A “DEUS É AMOR” Um livro propício a ser julgado pela capa – observado o adendo de que ele transforma o modo como jul- gamos, ao discutir os pressupostos sobre como somos julgados. A gravura que ilustra Expiação está inscrita no “bloco da morte” de Auschwitz. Com a unha, um polonês preso por integrar a resistência ao nazismo gravou na parede uma representação do Cristo cru- cificado. Enquanto confrontava seu fim, Stefan Jasieński tornou visível a convicção de que Cristo sofria com ele e ele sofria com Cristo. De dentro da monstruosa pena que se lhe impunha, ele fez emergir o sofrimento que (argumenta este livro) julga e redime cada um dos demais. O problema em que consiste a realidade do mal é um tema saliente na obra de Eleonore Stump, tida entre as principais intérpretes, hoje, de Tomás de Aquino. Expiação é um esforço de aprimoramento da abordagem tomista à doutrina segundo a qual Cristo reconcilia a humanidade com Deus, repa- rando os danos da pecaminosidade. Aprimoramento, em parte, porque se busca uma unidade entre os pro- blemas do pecado e do mal. Os recursos para tanto, de todo modo, se extraem do depósito do pensa- mento cristão, cujo caráter plural e fecundo é o que a autora dedica a carreira a clarificar. No panorama do tomismo acadêmico, a singu- laridade da pesquisa de Stump deriva de sua insis- tência na natureza não-aristotélica da ética de Tomás: na transformação que a ênfase cristã no amor (e, portanto, nas relações pessoais) implica para a ética grega das virtudes. Também em Expiação, uma nota vê a antropologia do Aquinate menos próxima do ditado délfico “Conhece-te a ti mesmo” do que do Ubuntu sul-africano, sintetizado no lema zulu “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas” (p. 570, n. 16). Remetendo a escritos prévios de Stump, o livro assume por premissa uma tese que intensifica tal intuição: a saber, há um legítimo conhecimento via experiências em segunda pessoa, o qual não se reduz a proposições, mas se transmite sob narrativas (p. 328-329). De cada interação pessoal emergem traços de vontade e ainda outras propriedades que não se poderiam apresentar em indivíduos isolados (p. 215). Há então algo de logi- camente intraduzível na experiência de Stefan Jasieński com seus com- panheiros de resistência; mas também com seus algozes; e ainda com Cristo; ou conosco, que sua história ouvimos. É neste âmbito dife- renciado de realidade, o dos encontros interpes- soais, que é possível a injustiça – mas é também nele que se dá a desti- nação das criaturas, sua adoção pelo Criador. A deificação é irredutivel- mente relacional porque antes disso a deidade o é: se ninguém pode, sozinho, ser quem deveser, isso é porque nem mesmo as Pessoas divinas podem, sozi- nhas, ser Deus (p. 245). A relacionalidade em que Deus consiste é um convite permanente à reconci- liação, um oferecimento incessante de perdão. Daí que, antes até que o filho pródigo se arrependa, seu pai já o possa perdoar (p. 113): no mesmo plano em que abunda o pecado, superabunda desde sempre a graça. Quando, sob sua dor, Jasieński pôs em imagem o sofrimento de Cristo, o que ele fez foi fender à unha a crosta que impedia ver: a pena injusta que se lhe abatia foi, já ela mesma, julgada. Cada malfeito não é mais do que um parasita ingênuo, sempre já decré- pito, do fato de que ser é se doar, de que Deus é amor. A reconciliação entre o mundo e Deus, o que se infere exigir a mais implacável das compensações... Eis, ao contrário, “[o] que pode ser obtido pela fra- queza e que não poderia ser alcançado por meio do poder” (p. 397). André Gomes Quirino é graduado e mestre em filosofia (USP), graduado em teologia (Mackenzie) e membro da Catedral Evangélica de São Paulo. 45Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO ACONTECEU COMIGO MEU ENCONTRO COM JESUS ANSEIO POR DEUS Ad ob e St oc k OMID Meu nome é Omid. Nasci em uma família muçul- mana no Irã. Crescendo em um lar profundamente reli- gioso, fui ensinado desde cedo a seguir de perto as tradições islâmicas. Meu pai dava gran- de importância à observância das práticas religiosas, e eu ge- nuinamente queria ser um bom muçulmano. Eu ansiava por uma conexão pessoal com Deus e fa- zia tudo o que achava necessário para alcançar isso, rezando cinco vezes ao dia, jejuando durante o Ramadã e frequentando regular- mente a mes- quita. No en- tanto, apesar de todos os meus esforços, sem- pre sentia que faltava algo. O Deus que me ensinaram a acre- ditar parecia distante, intocável e muito santo para ter um relacio- namento pessoal. Quando terminei o ensino médio, decidi sair do Irã e me mudei para a Malásia para apren- der inglês e cursar a universida- de. Embora uma nação muçul- mana, a Malásia era um lugar com muito mais liberdade do que meu país natal. Essa nova liber- dade teve um grande impacto em minha vida. Comecei a experi- mentar coisas que me eram proi- bidas em casa, como álcool e bo- ates. Lentamente, passei a viver um estilo de vida pecaminoso, perdendo-me em distrações. A liberdade que eu pensava que me levaria a novas oportunidades, em vez disso, me levou mais fun- do no vazio que estava tentando preencher. Eu tentei anestesiar meu sen- timento de vazio por meio de prazeres temporários, mas isso só piorou as coisas. Na mesma época, conheci uma equipe mis- sionária cristã perto de minha fa- culdade na Malásia. Inicialmen- te, não tinha interesse em suas crenças. Eu apenas mantinha contato com eles porque via nisso uma oportunidade de melhorar meu inglês. Por dois anos, parti- cipei de seus encontros semanais, ouvindo suas discussões sobre Jesus sem qualquer intenção de mudança. Então, numa noite, tudo mu- dou. Jesus veio a mim em um so- nho. Foi diferente de tudo o que já havia experimentado antes. No sonho, ele falou diretamente comigo e me disse que, para es- capar da vida pecaminosa que eu estava vivendo, eu precisava confessar meus pecados. Suas palavras me atingiram profunda- mente, deixando-me em choque e confusão. Nunca havia experi- mentado nada parecido em mi- nha vida. No final de semana se- guinte, como de costume, fui ao encontro da equipe missionária. Dessa vez, a mensagem que o lí- der compartilhou penetrou fun- do no meu coração. Era como se ele estivesse falando sobre tudo com o que eu estava lutando. De- cidi falar com ele sobre o sonho que tive e, pela primeira vez, me abri sobre minhas lutas e meu desejo de mudança. Naquela noite, confessei meus pecados e tomei a decisão de aceitar Je- sus Cristo como meu Senhor e Salvador. Pouco tempo depois desse evento transformador, meus es- tudos na Malásia chegaram ao fim. Antes de partir, fui batizado como uma declaração pública de minha nova fé em Cristo. Voltei para o Irã, cheio de entusiasmo e esperança. No entanto, logo en- frentei novos desafios. O governo iraniano havia fechado todas as igrejas, e me vi isolado, incapaz de encontrar qualquer comuni- dade de crentes. Eu estava espiri- tualmente faminto e desesperado para aprender mais sobre minha fé e a Bíblia, mas as oportunida- des eram escassas. Por isso, viajei para um país vizinho e me inscrevi em uma Escola de Treinamento de Dis- cipulado com uma organização cristã. Durante esse tempo, apro- fundei o entendimento de minha fé, me aproximei de Deus e come- cei a experimentar o relaciona- mento pessoal que tanto desejava por todos aqueles anos. Minha caminhada com Jesus realmente começou, e minha vida nunca mais foi a mesma. Omid é o nome fictício do autor, e visa preservar a sua identidade e segurança. 46 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 O que a Bíblia diz sobre conversãoO que a Bíblia diz sobre conversão bit.ly/411-testemunhobit.ly/411-testemunho MAIS NA INTERNET JESUS VEIO A MIM EM UM SONHO. FOI DIFERENTE DE TUDO O QUE JÁ HAVIA EXPERIMENTADO ANTES LANÇAMENTO PÓS GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA INTERCULTURAL 100% EAD Tutoria Especializada Corpo Docente Qualificado Formando pessoas para transformar o mundo. unievangelica.edu.brFilipe Rodrigues VENDAS: Lúcia Viana • Érica Oliveira Romilda Oliveira • Vanilda Costa ESTAGIÁRIOS: Larissa Fávero Você está rindo de quê? Em janeiro de 2025, celebramos 57 anos de publicação ininterrupta. Ultimato é feita com oração, muito temor e dependência de Deus. Desde 1968. VOCÊ CONHECE ESSA HISTÓRIA E FAZ PARTE DELA São mais de 10 milhões de revistas distribuídas, com igrejas, organizações, pastores, líderes e milhares de leitores ao longo de quase 6 décadas. Nosso convite é por sua participação no Projeto Semente 60 Anos (1968-2028). Sua generosidade faz missão. Acesse: revistaultimato.com.br/contribua Ou aponte a sua câmera para o QRCode 5Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Você está rindo de quê? 6 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 PASTORAIS ARIANE GOMES É preciso alegrar-se! O destino é Jerusalém. No caminho, algumas histórias, ensinos e admoestações. Também curas, libertação e muita, muita gente seguindo a Jesus. Entre os que seguem estão os escribas e fariseus, que procuram confundir o Senhor a respeito de mui- tos assuntos com o intuito de tirar das suas próprias palavras motivos para o acusarem. Eles se incomodam, ameaçam e, insatisfeitos, são incapazes de se alegrar com o anúncio do reino de Deus e com o que Jesus está fazendo entre o povo. Lá pelas tantas, escribas e fariseus arrumam mais uma razão de queixa contra Jesus: “Ele recebe pecadores e come com eles”. Jesus não se aflige, e aproveita o ensejo para contar três parábolas que são um confronto à atitude do coração de seus acusadores. Um homem, uma mulher e um pai perdem algo pre- cioso: uma ovelha, uma moeda e um filho. O homem e a mulher suspendem por um tempo a atenção a outros bens e afazeres e se esforçam em busca do que foi perdido. Quando o encontram, se alegram e reúnem amigos e vizinhos e cada um deles anuncia: “Achei o que havia perdido!”. O pai não se opõe à decisão do filho mais novo de, tomando sua parte dos bens, partir para uma terra distante. Deixa-o ir. Quando o filho retorna, com fome e humilhado, o pai se alegra e manda preparar um banquete para receber e comer com o filho outrora perdido. Até aqui, a mensagem é simples e verdadeira: há muita alegria quando algo perdido é achado. Porém há mais. O filho mais velho, tal como os escribas e fariseus, se aborrece com a atitude do pai, faz acusações e se recusa a entrar em casa para celebrar. O pai, compassivo e paciente, fala de seu amor: “Tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu” e faz uma importante declaração: “Era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque o teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado” (Lc 15.31-32). Não era possível deixar passar, não dar atenção, fazer de conta que não aconteceu. Era preciso que o tempo de espera fosse encerrado; a vida, celebrada; a graça, reconhecida. Situações de perda, de dor e de morte que passam por uma reviravolta e se transformam em vida precisam ser reconhecidas e celebradas. O reaver de um bem, o retorno de um filho, a cura de uma doença, o fim de uma disputa, a liberdade alcançada, o livramento do acidente, o perdão concedido, a conversão de rota, o encontro com Jesus são motivos de muita alegria. No caminho e na caminhada, na singeleza ou na complexi- dade da vida ordinária, é preciso que coisas pequenas ou grandes outrora perdidas sejam recebidas de volta. Para os fariseus e escribas, que conheciam a histó- ria do povo de Deus e sabiam de tantos episódios de renascimento, não deveria parecer estranho que, do meio da indignidade e da desesperança, Jesus Cristo, o Filho de Deus, estivesse fazendo surgir nova vida. A vida devolvida e a esperança aumentada não devem ser algo estranho para nós. E não é difícil cele- brar: um gesto de bondade e reconhecimento, uma palavra de gratidão, uma oração a sós com Deus ou com um grupo de amigos, um testemunho verbal ou escrito, um convite para uma refeição ou uma festa. Não importa a forma. Importa que haja alegria e gratidão ao Deus da Vida. Ariane Gomes atua como coordenadora de produção de Ultimato e gestora de conteúdo do Portal Ultimato. Prática da alegria bit.ly/411_pastorais MAIS NA INTERNET O Retorno do Filho Pródigo, Rembrandt van Rijn M us eu H er m ita ge 7Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO SUMÁRIO 11 CAPA SEÇÕES “Que a Igreja anuncie e demostre Cristo, unida” é o tema do Quarto Congresso Lausanne de Evangelização Mundial realizado entre os dias 22 e 28 de setembro de 2024 na Coreia do Sul, e registrado por Ultimato numa ampla matéria de capa. Colaboraram com esta edição mulheres e homens, jovens e velhos, líderes, missionários, pastores que estiveram em Lausanne 4 e que prosseguem seu caminho na igreja, comunidade, organização ou em iniciativas do movimento Lausanne, trabalhando em favor do cumprimento da Grande Comissão. SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO LEITOR Para assinar ou adquirir exemplares anteriores, consultar dados de sua assinatura, comunicar alteração de endereço, tirar dúvidas sobre pagamento ou entrega, renovação e outros serviços. • 31 3611 8500 31 99437 0043 de segunda a sexta, das 8h às 18h • atendimento_sac@ultimato.com.br Editora Ultimato – Caixa postal 43 | CEP 36570-970, Viçosa, MG ABERTURA CARTA AO LEITOR PASTORAIS CARTAS MAIS DO QUE NOTÍCIAS ESPECIAL | Confrontando a divisão: buscando a unidade por meio do Espírito | Anne Zaki ARTE E CULTURA FAMÍLIA A família infalível Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski 30 O CAMINHO DO CORAÇÃO O mistério da encarnação Ricardo Barbosa 28 ACONTECEU COMIGO – MEU ENCONTRO COM JESUS Anseio por Deus Omid 46 ÉTICA A tentativa de golpe e a reação evangélica Paul Freston 42 /editora.ultimato Podcast Ultimato /editoraultimato @ultimato @editoraultimato Mais de 86 mil pessoas já “curtiram” a página da Editora Ultimato no Facebook. Junte-se a nós! 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Ferreira, São Paulo, SP Gostei muito da capa sobre a leitura da Bíblia como literatura. Só senti falta de indicação de bibliografia sobre o assunto, e alguma explicação de como se aborda a Bíblia enquanto literatura. Ed M. Sarro, Curitiba, PR Parabenizo Cynthia M. Soares pelo artigo O que ganhamos quando lemos a Bíblia como literatura?. Desde que me converti, em 1962, tenho ser- vido ao Senhor, e todas as manhãs leio a Bíblia como uma conversa que esclarece, orienta e guarda. A Bíblia não é uma literatura comum, mas é a voz de Deus aos nossos ouvidos. Eusvaldo G. dos Santos, Americana, SP Os artigos voltados à visão lite- rária da Bíblia nesta edição ficaram excelentes! Edson Porto, Campinas, SP O artigo A ressonância mais poderosa de todas, de Délnia Bastos, é simples- mente abençoado. Eu já passei pela máquina de ressonância magnética e sei, por experiência própria, o que é ficar imóvel durante vinte minutos. E saber que essa máquina é limitada ao que foi programada... Que bom receber um artigo com tamanha qua- lidade e ensino sobre o Salmo 139. Digo isso com toda a sinceridade do meu coração. Eu amo a Palavra deDeus, sou um apaixonado pelas Sagradas Escrituras. Eu amo a revista Ultimato. Ademir Bohrer, Tijucas, SC NO DEVIDO LUGAR Excelente o artigo Ó Deus, livra-nos do autoengano, de Klênia Fassoni (Ultimato, setembro/outubro de 2024). Ele nos coloca em nosso devido lugar e assim julgaremos menos. Edumar Ramos C. Coelho, São Paulo, SP ENVELHECEMOS – A ARTE DE CONTINUAR Gostei bastante do artigo Enve- lhecemos – a arte de continuar (Ultimato, novembro/dezembro de 2023). Confesso que tenho dificul- dade de enxergar a pessoa em vez da idade. Obrigado por me abrir os olhos. Adriano Alves CRÍTICAS E SUGESTÕES Sou leitor de Ultimato por um bom tempo. Gostaria de emitir uma opi- nião no sentido de apoio para con- tinuar espalhando as boas novas. Entendo perfeitamente a linha da revista quanto à escolha de seus arti- culistas, porém, vejo também que já é tempo de abrir um pouco mais. Há muitos bons autores da linha pen- tecostal, que agregam valores, os quais poderão ser “convidados” para participarem desse seleto grupo e 9Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Uma diferença cultural se dá com o transpor de fronteiras em contextos missionários estrangeiros, por outras, com a simples chegada de um pastor de outra cidade em uma congregação. Um livro para educadores e missionários que desejam atuar em contextos diferentes dos quais vieram Lançamento trazerem matérias interessantes para a revista e torná-la mais “democrá- tica”. Outra opinião é sobre as temá- ticas: por exemplo, temos muitos juristas cristãos que poderiam somar com temas interessantes do mundo do direito. Enfim, há um público muito grande que não conhece a Ultimato por pura falta de publicidade e inte- resse, mas depois que conhecer a revista não conseguirá deixar de ser assinante, como é o meu caso. José Augusto G. de Oliveira, São Luís, MA MAIS ESTUDOS BÍBLICOS Além dos artigos maravilhosamente escritos, gostaria de ter acesso a mais estudos bíblicos com temas diversos. Neste aspecto, o portal Ultimatoonline não tem suprido minha necessidade de pesquisa. Paulo Sérgio dos Santos EDIFICANTE E ESPERADA Ultimato está excelente, cada vez mais edificante com os seus temas. Romero Sial, Jaboatão dos Guararapes, PE Sempre aprecio muito o conteúdo de Ultimato. É informativo e formativo. E sempre aguardo cada edição com curiosidade e a certeza de boa formação. Ronildo Arruda de Souza, Anápolis, GO A Ultimato me faz bem. Aleluia! Padre Antonio ULTIMATO 57 ANOS Louvo a Deus pela vida de vocês, pela longeva Ultimato, pelas publica- ções feitas, pelas vitórias alcançadas. Que as celebrações dos 57 anos da revista em janeiro de 2025 sejam de grande louvor e gratidão ao Senhor. Saí vendendo o primeiro então jornal Ultimato há 57 anos, o que me faz pensar: “Como estou velho!” (83 anos em janeiro próximo). Parabéns a todos, e grande abraço. Éber M. Lenz César, Brasília, DF CARTA DA PRISÃO Sou muito grato a Deus pela rele- vância de Ultimato entre os cristãos. Seus artigos nos fazem ter sede de conhecer e de permanecer em comu- nhão com o Rei dos reis. Obrigado por cada edição inspiradora que nos ajuda a acreditar que podemos nos aproximar de Jesus Cristo. F. A. M., Junqueirópolis, SP LIVROS ULTIMATO A série “O Cristão Contemporâneo”, de John Stott e Tim Chester, é incrível. Li os cinco livros em 2024 e fui muito edificado. “Tio John” é cirúrgico em suas palavras. Júnior Santos Leio três devocionários todos os dias. Um deles é o Meditações Diárias para Todas as Estações, do saudoso pastor Elben César. No ano passado, li o Um Ano com os Salmos. Amei. Gosto da maneira como o autor medita sobre a Palavra de Deus. Nancy Gonçalves Dusilek, Rio de Janeiro, RJ O livro Expiação – Culpa, perdão e o sacrifício de Cristo, de Eleonore Stump, é incrível! Explorar a expiação numa abordagem filosófica e cristã é essencial para compreender a profundidade do sacrifício de Cristo. Mais uma obra indispensável para quem busca crescer em fé e conhecimento! Gessé Costa 10 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 FRASES O acolhimento é o ponto de partida na educação dos filhos, pois, além do colo físico, os filhos precisam do colo da alma. Clarice Ebert Psicóloga É natural que tenhamos pensamentos divergentes, mas precisamos lembrar do nosso compromisso maior: a unidade em Jesus, que nos chama a viver em paz e a buscar o que é eterno acima do que é temporário. Rubem Amorese Escritor O individualismo se tornou tão familiar que nem sequer nos damos conta de sua presença. Tiago de Melo Novais Doutorando em ciências da religião e editor- -assistente na Academia ABC2 A caminhada cristã é feita de cruzes, mas também de ressurreições. Estêvão Marinato Estudante de teologia e coordenador de desenvolvimento do Centro Evangélico de Missões Quando eu estou muito quieta por fora, é que dentro de mim alguma coisa grita e eu preciso parar e ouvir. Clarice Lispector Escritora ALGUNS DOS VISTOS � Expiação – Culpa, perdão e o sa- crifício de Cristo Eleonore Stump � A Bíblia Toda, o Ano Todo John Stott � A Cruz e o Parado- xo da Autoestima Ricardo Barbosa de Sousa ALGUNS DOS LIDOS ARTIGOS LIVROS A UM CLIQUE Todo o conteúdo oferecido em “MAIS NA INTERNET” des- ta edição em bit.ly/ ult411-mais Em janeiro de 2025, Ultimato celebra 57 anos de publicação ininterrupta. A primeira edição, em janeiro de 1968, exibia o conhecido versículo: “Ensina- -nos a contar os nossos dias” (Sl 90.12). Continuamos contan- do e buscando a Sabedoria. São mais de 10 milhões de revistas distribuídas até aqui, e você faz parte dessa história. O MUNDO, A IGREJA E OS LEITORES MUDARAM. Nossa missão, no entanto, continua: Participamos da proclamação da boa nova que nunca fica velha, da esperança que nunca morre e de um Salvador que nunca muda. Agora, apresentamos o PROJETO SEMENTE 60 ANOS, rumo a 2028. Conheça e jun- te-se a nós no ministério da re- conciliação. Para saber mais, acesse: re- vistaultimato.com.br/contribua Ou aponte a sua câmera para o QRCode: A C E S S E U L T I M A T O . C O M . B R E L E I A A S N OV I DA D ES D E U LT I M ATO TO D OS OS D I AS PARA LER O CONTEÚDO DESTA SEÇÃO, ACESSE: WWW.ULTIMATO.COM.BR/SITES/BLOGDAULTIMATO/ULT411 ULTIMATOONLINE MAS, ONDE O PECADO SE RESSALTOU, A GRAÇA FICOU MAIS EVIDENTE; PARA QUE A GRAÇA REINE PELA JUSTIÇA PARA A VIDA ETERNA POR MEIO DE JESUS CRISTO, NOSSO SENHOR. Romanos 5.20-21 � A urgência da reconciliação: Reflexões a partir do 4º Congresso de Lausanne, um ano após o 7 de outubro Rula Khoury Mansour � Trabalho sob a perspectiva do reino de Deus Gabrielly C. Cardoso � Inteiros perante e para Deus Jacira Monteiro Ad ob e St oc k 11 ULTIMATOONLINE Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO MATÉRIA DE CAPA O Quarto Congresso Lausanne de Evangeliza- ção Mundial (Lausanne 4), na Coreia do Sul, foi um evento superlativo. Os números de- monstram isso: 5.394 participantes de 202 países e territórios; mais de 30 mil espectadores únicos de 161 países conectados às transmissões ao vivo; 494 voluntários na equipe; 6.888 “guerreiros de oração” coreanos orando durante o congresso; 1,5 milhão de visualizações de postagens no Insta- gram; formação de mais de 400 equipes globais de colaboração; 113 grupos nos canais oficiais do WhatsApp; mais de 251 itens perdidos e achados; mais de 350 cochilos tirados na área de relaxa- mento; mais de 95 empréstimos de uma cadeira de rodas (dezenove cadeiras no total) ou de uma bengala disponíveis no evento. Lausanne 4 insistiu em dois temas: unidade da igreja – expressa no lema “Que a Igreja anuncie e demostre Cristo, unida” – e colaboração – vários brasileiros contaram como desde os encontros que antecederam o evento, o programa, os pe- quenos grupos e pessoalmente foram e têm sido desafiados à colaboração comoelemento essen- cial ao cumprimento da Grande Comissão. Os artigos a seguir foram escritos por mu- lheres e homens, jovens e velhos, líderes, mis- sionários, pastores, alguns bastante conhecidos no Brasil e outros nem tanto, alguns calouros e outros veteranos (participando pela segunda ou terceira vez) que estiveram em Lausanne 4. De al- guma maneira, prosseguem refletindo, trocando ideias, percorrendo seu caminho na igreja, co- munidade, organização, empreendimento ou em iniciativas do movimento Lausanne na América Latina ou no mundo. Seus textos são uma mostra do estado da evangelização no mundo, da realidade da igreja (que é global, diversa, bela e cheia de desafios), do mundo (incluindo o “mundo digital” com to- das as suas complexidades e possibilidades), da indispensável consciência de que a missão é de Deus e que a igreja continua sendo chamada a cooperar com ele, da cooperação de jovens lí- deres cristãos na evangelização mundial e das iniciativas que o povo de Deus, sob o senhorio de Cristo, podem propor para ir ao encontro dos povos ou para recebê-los num mundo que não para de se movimentar. O artigo do pastor Ronaldo Lidório é o último do conjunto. Queremos que o encorajamento que ele nos dá falando sobre o poder do evange- lho permaneça na mente do leitor como um cha- mado para “pregar o reino de Deus com toda a intrepidez, sem impedimento algum”. LAUSANNE 4 – UMA JANELA PARA A IGREJA GLOBAL Olhar foi mais do que um privilégio; foi uma porção da graça de Deus por meio da presença marcante da igreja de Cristo LISSÂNDER DIAS O gigantismo do Songdo Convencia – o Centro de Convenções de Incheon, na Coreia do Sul, onde ocorreu o Congresso Lausanne 4 – nem se compara com a imensa abrangência que os 5.394 participantes reunidos no salão principal representavam. Eram cristãos de mais de 202 paí- ses e territórios sentados ao redor de mesas de cinco a dez pessoas: olho no olho, ouvindo a Palavra, dialogando, compartilhando suas histórias e orando juntos. Cristãos que representavam mi- lhares de igrejas locais – grandes, médias e pequenas – de centros ur- banos e de vilas rurais; de lugares prósperos e de periferias; de comunidades pacífi- cas e de cidades violentas; de países favoráveis à fé cristã e de outros que ainda perseguem quem não compactua com suas crenças religiosas. O hori- zonte ali delineado fez com a nossa vista o mes- mo que os raios do sol fazem com nossos olhos quando olhamos diretamente para ele: é difícil ver tudo quando surge o fulgor da luz. Olhar foi mais do que um privilégio; foi uma porção da graça de Deus por meio da presença marcante da igreja de Cristo. Protagonismo da Igreja Questões climáticas, guerras, crise migratória, perseguição religiosa, injustiça social, pobreza, secularismo, doenças emocionais, povos não-alcançados... Entre tanto o que se poderia falar e registrar, vale ressaltar o protagonismo do Corpo de Cristo nas grandes questões globais. (Atenção: protagonismo não significa necessa- riamente deter o poder político, financeiro ou outro, mas sim sustentar uma presença relevan- te para transformar realidades.) Apesar de seus inúmeros defeitos e falhas, o poder da Igreja está em ser a noiva de Cristo, que, mesmo em sua fra- queza e vulnerabilidade, é sustentada por uma fé simples, mas apaixonada e persistente. Lausanne 4 me abençoou com cada história e cada rosto que eu vi e conheci lá. Vi a face da Igreja na face de mulheres e homens. Vozes reais Diante da triste história de 75 anos da guerra das Coreias, a igreja coreana tem se levantado para suscitar o diálogo em favor da reconciliação, rea- lizando eventos, produzindo documentos teológi- cos e aproximando igrejas de outros países (parti- cularmente do Brasil) para esta causa. Do “pavio de pólvora” de Israel, ouvimos a voz da advogada e teóloga cristã palestino-israelense Rula Khoury Mansou, que mora em Nazaré, sobre a responsabi- lidade da Igreja em áreas de ruptura. Ela nos ensi- nou, com teoria e prática, os passos da reconcilia- ção. O Rev. Ivan Rusyn, presidente do Seminário O Congresso “abriu uma janela” para vermos a beleza da igreja global 12 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 MATÉRIA DE CAPA La us an ne M ov em en t Teológico Evangélico Ucraniano em Kiev, Ucrânia, compartilhou como a igreja tem lutado pela paz em seu país: “Na Ucrânia, nós oramos por justiça e paz”. O congolês Daniel Kyungu (com sua fala mansa, mas firme) mostrou como as pessoas com deficiên- cia, assim como ele, têm sofrido preconceito por sua condição física em seu país. Ele ressaltou que a igre- ja, ao acolher essas pessoas que representam qua- se 16% de toda a população, tem diante de si uma oportunidade de testemunhar do amor de Deus. Foram muitas as histórias do poder do evan- gelho por meio do Corpo de Cristo. Histórias que, aliás, passam ao largo das discussões vazias que, muitas vezes, dominam as agendas de nossas igre- jas brasileiras. Beleza da Igreja? “Por todo o mundo este evangelho vai frutifican- do e crescendo, como também ocorre entre vocês, desde o dia em que o ouviram e entenderam a gra- ça de Deus em toda a sua verdade”. Essas palavras do apóstolo Paulo aos irmãos de Colossos (Cl 1.6) poderiam muito bem também ser as palavras a respeito do ajuntamento de Lausanne 4. O Con- gresso “abriu uma janela” para vermos a beleza da igreja global. Como disse o presidente de Lausanne, Michael Oh, em sua palavra de encerramento: Devemos buscar e mostrar ao mundo inteiro a be- leza de todo o Corpo de Cristo! Não apenas uma pequena parte. Para ser honesto, mesmo na pessoa mais bonita, se você só vir o dedão do pé ou o co- tovelo, você pode achar que ela é bem feia! Então vamos mostrar ao mundo inteiro todo o Corpo de Cristo! Essa tal beleza, por vezes, está escondida em camadas de amargura e preconceito, mas, ainda assim, temos um caminho de esperança. Ainda as- sim eu pude conhecer pessoas como John* – um pastor paquistanês que foi preso três vezes por pregar o evangelho, mas que se sentia feliz pela oportunidade de continuar falando de Cristo a encarcerados, sem impedimento. Ainda assim eu me sentei na mesma mesa que Arão Chau, um jo- vem educador angolano apaixonado pelo evange- lho e que dá testemunho de Cristo em vilas empo- brecidas de seu país. Diversidade da Igreja Não foi difícil perceber como a Igreja é diversa: in- tergeracional, intercultural e internacional. Um caldeirão de iniciativas e expressões. Uma igreja que não pode ser predefinida por ninguém sem que corra o risco de erros crassos causados pela arrogância de quem reduz o Corpo de Cristo a definições institucionais, doutrinárias ou políticas. No segundo dia de Lau- sanne 4, por exemplo, a ênfase foi dada ao poder e à ação do Espírito Santo na obra missionária. Tal tema não somente foi acertadamente bíblico, mas também nos ensinou que a tal “janela” para a igreja global só pode ser aberta porque o Espírito, que é protagonista da unidade, assim nos permite – o mesmo Espírito que nos dá a coragem de viver e anunciar o evangelho, juntos, aqui e acolá, e até os confins da terra. Agora, cabe-nos seguir em frente, sem olhar para trás. * Nome fictício A missão de Deus não para nas portas da igreja. Ela continua por meio de você, em seu trabalho diário, em sua vida cotidiana. Julia Garschagen, diretora do Pontes Institute for Science, Culture and Faith, professora de apologética e colíder da maior iniciativade evangelização de jovens entre os falantes de alemão no mundo RECADO DE LAUSANNE Lissânder Dias do Amaral é jornalista, cronista, poeta e editor de livros. Integra o Conselho Nacional da Interserve Brasil e do Movimento Vocare. É autor de O Cotidiano Extraordinário – a vida em pequenas crô- nicas (W4 e Ultimato) e responsável pelo blog Fatos e Correlatos do Portal Ultimato. 13Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO La us an ne M ov em en t Lausanne 4 em Seul foi marcado por uma igreja em plena transformação – uma mudança sem precedentes na história. Cercados por uma di- versidade cultural e denominacional jamais vista nas edições anteriores do Congresso, com participantes de 202 países, havia também uma diversidade de ge- rações digitais, de baby boomers a gen Z, anuncian- do um novo momento na história da humanidade: o mundo digital veio para ficar. Quem não se adaptar ficará defasado, como foi comentado em algumas plenárias. Numa diversidade tão grande de vozes, cada uma com sua vocação latente e diversas frentes de envol- vimento na missão, como identificar o tamanho e a urgência da missão? Numa tentativa de responder a essa pergunta, Lausanne preparou o relatório Status da Grande Comissão – uma pesquisa densa, elaborada durante anos antes do Congresso, com representantes de to- das as regiões do mundo, e que serviu de documento basilar para apresentar à igreja global a grandiosida- de e a urgência da missão. O tamanho do desafio Sob o lema “Que a Igreja anuncie e demonstre a Cris- to, unida”, o desafio entre o ser e o fazer, além da uni- dade da igreja, num mundo de crescente intolerân- cia, não é novidade. O tamanho e a urgência dos desafios nomeados mostram, contudo, um novo momento na história. Compartilho alguns: • Hoje, cerca de 3 bilhões de pessoas vivem em comunidades com pouco ou nenhum acesso ao evan- gelho. Apenas 3% dos missionários vão para os povos não-alcançados, mostrando a grande desproporção da força missionária. • O crescimento do secularismo afetará não somente o Norte Global, mas também o Sul Global, incluindo o Brasil. A mudança religiosa global mais predominante nas próximas décadas será o abando- no do cristianismo por cristãos que passarão a com- por o grupo dos “não afiliados”. A maioria dos “não afiliados” não é composta de ateus e, no Ocidente, a maioria desses “não afiliados” mantém opiniões muito cristãs sobre Deus e a humanidade. Os “não afiliados” são simplesmente aqueles que não se vin- culam a nenhuma religião. Os níveis elevados de ri- queza e a diminuição das redes de relacionamento são os fatores dominantes associados à desfiliação. • “Menos da metade dos cristãos se diz preparada para compartilhar o evangelho”. • Existe uma nítida correlação entre a percepção da falta de discipulado na Grande Comissão e a falta de preparação para compartilhar o evangelho. • Líderes na África, Ásia e América Latina perce- beram que entre 30 e 40% dos cristãos consideram a Grande Comissão opcional em vez de essencial. Quanto ao interesse pelo cristianismo no mundo, destacam-se: • “O interesse digital pelo cristianismo é muito pequeno em comparação com o interesse por temas como sexo, dinheiro e entretenimento.” • Registra-se um interesse crescente e contínuo por conteúdo impresso relacionado ao islã, que agora quase se iguala às publicações cristãs. Além disso, o interesse pela pesquisa digital no islã aumentou e ul- trapassou o interesse digital pelo cristianismo. Outro tema pesquisado foram os valores da hu- manidade. Constatou-se que: • “O amor, a ciência e o indivíduo (interesse pró- prio) são os principais valores.” • No último século, o interesse por religião foi 14 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 La us an ne M ov em en t “BEM-VINDOS AO PRIMEIRO CONGRESSO GLOBAL DE MISSÕES REALIZADO NA QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL” MILA KOBI MATÉRIA DE CAPA ultrapassado por outros domínios, como, por exemplo, o interesse por política, música e tecnologia. O cris- tianismo ocupa o último lugar na lista de domínios. No entanto, nas últimas décadas, a religião e o cris- tianismo apresentaram uma tendência de cresci- mento. • A validade da mensagem do evangelho não depende de indivíduos ou instituições; no entanto, quando aqueles que compartilham as boas novas não são confiáveis, o evangelho é questionado. Global- mente, observa-se um aumento no grau de ceticismo que acaba moldando as culturas de forma dinâmica, à medida que o mundo pergunta: “Qual é a base da confiança?”. • Globalmente, os jovens demonstram elevados níveis de confiança nos membros da família em re- lação à sua formação espiritual. Eles não procuram frequentemente pastores ou outros líderes religiosos para o desenvolvimento de sua fé. O mesmo acontece com a Bíblia, que ocupa uma posição inferior à dos familiares como fonte de influência religiosa. • Em escala mundial, os jovens consideram que a corrupção dos líderes, especialmente os do governo, é o maior problema da sociedade. A falta de confian- ça nos líderes estende-se às instituições religiosas. Os jovens confiam mais nas forças armadas do seu país, nas suas escolas e nos seus empregadores do que nas suas igrejas. A percepção da influência da igreja na cultura é que ela está estática ou em declínio. A maior influência da igreja global pode ser per- cebida na área de educação. A menor influência da igreja é percebida na área financeira e de tecnologia. Nossa resposta Perante desafios tão alarmantes, nós, os participantes de Lausanne 4, fomos chamados a iniciar o congres- so abrindo espaço para o Espírito Santo e, a seguir, ao arrependimento e chamado à unidade. Deixando as estratégias necessárias em segundo plano, fomos chamados à centralidade da missão guiada pelo Espí- rito Santo. Somente ele poderá gerar multiplicação de recursos, obreiros, avivamento, salvação e as urgentes transformações para a nossa geração. Lausanne 4 enfatizou a urgência de agir ago- ra, com ênfase ainda maior em colaborações a partir da igreja. Falou-se muito em “Better Together”, representando parcerias, iniciativas, orações e obediência como um corpo, no qual to- dos são importantes. Quando, em 1974, falou-se em 13 mil povos não-alcançados no mundo, muitas ini- ciativas de colabora- ção globais surgiram. Assim, nos últimos 50 anos, pela graça de Deus, 9 mil povos fo- ram alcançados. A Igreja brasileira tem uma posição espe- cial como ponte entre o Norte e o Sul Global, com uma perspectiva única e culturalmente relevante. No Lausanne 4, vi uma Igreja diversificada e apaixonada, unida por um profundo senso de ur- gência. Precisamos formar alianças, cruzar frontei- ras culturais e avançar em unidade. Assim como os primeiros apóstolos, somos chamados a sacrificar o conforto pelo amor de Cristo e a caminhar com fé, acreditando que o evangelho pode alcançar todos os cantos da terra. O relatório Status da Grande Comissão1 é um chamado poderoso para que cada um de nós parti- cipe da Grande Comissão. A tarefa é enorme, mas a urgência é ainda maior. Como missionária brasilei- ra, saí do Lausanne 4 com o coração cheio de espe- rança e a convicção de que Deus está nos chamando para este momento. A missão é alcançável se colo- carmos nossos corações, mentes e mãos à disposição do Senhor. Vamos avançar, unidos, com a certeza de que o amor de Deus iluminará todas as nações. Nota 1. O relatório Status da Grande Comissão está disponível em https://lausanne.org/pt-br/report. Mila Kobi, missionária da SEPAL e da APMT, é represen- tante brasileira no conselho editorial de Análise Global de Lausanne. Orar é inegociável para a missão. Femi Adleye, diretor da Christian Impact e da Langham Preaching na África, acadêmico e escritor RECADO DE LAUSANNE 15Janeiro/Fevereiro2025 • ULTIMATO La us an ne M ov em en t QUE A IGREJA ANUNCIE E DEMONSTRE CRISTO, UNIDA CHRISTIAN GILLIS O lema do 4º Congresso Mundial de Evangelização (Lausanne 4), Que a Igreja Anuncie e Demonstre Cristo, Unida, refletiu o legado e a perspectiva histórica da missão integral, e chamou o Corpo de Cristo, espalhado em todo o mundo, à obediência mis- sional e ao serviço na missão de Deus numa postura pós-polarização. Sim, a missão é de Deus – Deus tem a sua obra, seu projeto, planos, propósitos – e a Igreja é chamada a cooperar, participar, servir como agente da obra que o Senhor realiza. A Igreja só pode fazer missões porque Deus tem uma missão, nos chama e nos envia ao mundo como coo- peradores na sua agenda. Lausanne 4 acentuou que a missão de Deus é integral em múltiplos sentidos. É integral, primeiro, porque Deus declara seu amor, sua graça, sua disposi- ção favorável, seu desejo de salvar e restaurar tanto a humanidade como toda a criação, tanto por meio de palavras como em atos redentores, libertadores. A missão de Deus é integral, conforme o espírito e a tradição do movimento de Lausanne declararam, desde o primeiro congresso, ocorrido 50 anos atrás, na Suíça em 1974, porque a missão envolve “anúncio” e “demonstração”. Anúncio é proclamação, é declarar, é dizer com palavras claras e bem articuladas a história da pessoa, dos ensinamentos e da obra de Jesus Cristo de Nazaré, da sua morte pelos nossos pecados e da sua ressurreição para que possamos viver uma vida nova – anunciar as grandezas de Deus, o evangelho com as boas notícias da parte de Deus para toda a criação. Porém, trata-se de uma proclamação que carrega em si, junto e intrinsecamente, a atmosfera do reino de Deus. A missão não é só proclamação num sentido res- trito, discurso, oratória; a missão precisa demonstrar com coerência e boas obras visíveis, observáveis, tan- gíveis, experimentáveis, a natureza da mensagem que declara. Falar e fazer, pregar e amar, proclamar e ser- vir – eis o binômio indivisível da missão integral que Deus opera e manda a Igreja replicar no mundo. Embora houvesse vozes que desejassem atualizar o sentido da missão, promovendo uma versão sintética, condensada, gerencial, esvaziando seu significado bí- blico, reduzindo seu sentido missiológico, afastando-a da conexão com a presença do reino de Deus, o sig- nificado apostólico e histórico da missão prevaleceu. A missão é integral por causa do seu objeto: a hu- manidade toda, todas as pessoas, cada pessoa, corpo e alma, presente e futuro, gente de todas as nações, et- nias, línguas e tribos. O evangelho do reino de Deus, do bom governo de Deus, precisa ser pregado e seu amor demonstrado a todos os povos, e, em cada povo, precisa ser estabelecida uma comunidade viva de dis- cípulos libertos, redimidos, que segue o Senhor Jesus e reproduz seu estilo de vida, seus ensinamentos e seu ministério em cada contexto. Mas não apenas às pessoas. A missão envolve toda a criação, o planeta, o cosmos, todos os elementos criados, todos os seres viventes, toda a flora e fauna, tudo o que existe. Missão não é apenas salvar almas para povoarem um céu abstrato no futuro. O evangelho anuncia novo céu e nova terra, onde habita a justiça. É o evangelho das novas criaturas em Cristo e da nova criação pelo poder redentor da obra de Cristo, que é demonstrado antecipa- damente na vitrine do testemunho que a Igreja dá. A Igreja, unida, precisa atuar de modo integrado, em sujeição uns aos outros a partir do reconhecimento do senhorio de Cristo 16 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 MATÉRIA DE CAPA La us an ne M ov em en t A missão é integral porque toda a Igreja, unida, precisa atuar de modo integrado, em sujeição uns aos outros a partir do reconhecimento do senhorio de Cristo, com os dons que o Senhor distribui ao seu Cor- po, a Igreja (e cada igreja local), conforme a sua graça concedida a cada um. Cada membro da Igreja/igreja tem uma combinação singular de dons que precisam ser postos a serviço de forma articulada para que os bons propósitos de Deus sejam conhecidos e experi- mentados por toda a humanidade e toda a criação. Cada discípulo, no seu lar, no seu ambiente de trabalho ou estudo, na sua esfera de influência pre- cisa compreender a missão e agir intencionalmente O BRASIL EM LAUSANNE 4 Não há números exatos, mas a presença brasileira em Lausanne 4 – mais de 150 pessoas – não passou despercebida. Estima-se que estava entre as três maiores delegações. Alguns, como Sarah Breuel, lideraram processos e outros, como Valdir Steuernagel, foram lembrados por sua relevância histórica no movimento. O pastor e missionário Ronaldo Lidório foi um dos preletores no último dia, encorajando o público a perseverar na missão. Perfil Menos pastores Não se viu tantos pastores nem líderes de denominações, o que evidenciava uma medida das intenções do movimento Lausanne em incluir cristãos que fazem diferença em seus locais de trabalho. Entre os brasileiros, tínhamos: músicos, empresários, comunicadores, pastores, funcionários públicos, profissionais liberais, líderes de agências missionárias, antropólogos, gestores, professores. Vale registrar a presença do líder indígena Ricardo Poquiviqui. Mais jovens A presença de brasileiros com menos de 40 anos foi visível. Entre eles, até um influencer digital estava lá. Ao anunciar a notícia de que o Brasil sediará o próximo Encontro de para que o amor absoluto de Deus seja conhecido por todos. Assim, a Igreja toda, toda a Igreja, junta, uni- da, tomando a cruz após colocar a sua vontade par- ticular de lado, se apresenta de modo vívido a Jesus e seu reinado. A visão do movimento de Lausanne continua viva: o evangelho para cada pessoa, igrejas que fazem discípulos de todos os povos, líderes semelhantes a Je- sus em cada igreja e contexto, e o impacto da Igreja em todas as esferas da sociedade. Jovens Líderes de Lausanne em 2026, duas brasileiras, Sabrina Lujić e Anna Queiroz, também foram anunciadas como integrantes da equipe organizadora. Nos pequenos grupos, foi bonito ver a mistura de idades: jovens e velhos juntos. Diversidade geográfica A maior parte era do Sul e Sudeste, mas foi possível conhecer brasileiros que saíram do Norte, Nordeste e Centro-Oeste – o que representa enfrentar viagens de mais de dois dias por transportes diversos. Alguns brasileiros vieram de outros países, onde atuam como pastores ou missionários. É o caso de Rita Macri, que é mineira, mas mora na Itália há muitos anos. Ecos Após Lausanne 4, os brasileiros continuam reverberando o evento. Muitos estão falando em suas igrejas, agências e pela internet sobre o que aprenderam. Esta tendência deve perdurar ao longo de 2025, já que a equipe executiva de Lausanne Brasil pretende realizar novos encontros para amadurecer os temas tratados no Congresso de Seul. Ultimato agradece a colaboração de muitos brasileiros para esta edição com opiniões e artigos. Christian Gillis é pastor na Igreja Batista da Redenção, em Belo Horizonte, MG. Integrou a delegação brasileira em Lausanne 3 e Lausanne 4. 17Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO La us an ne M ov em en t “Tem muito brasileiro”, me disse, num tom jocoso, um líder histórico do movimento de Lausanne. De fato, havia muitos brasi- leiros neste significativo evento que reuniu 5.394 pessoas de 202 países e territórios. A maioria deles vive aqui, mas muitos vivem em diferentes países e envolvimentos missionários. Eu nunca tinha visto tantos num evento de Lausanne e essa presença podia ser identificada pela efusividade e até pelo barulho que faziam. Um participante de outro lugar co- mentou: “Esses brasileiros estão aqui para brincar com tudo”. A presença brasileira em Lau- sanne 4, inclusive na organiza- ção, é reflexo do crescimento da igreja brasileira, aqui entendida como igrejas evangélicas, e do seu envolvimento na missão global. É certamenteum privilégio e uma responsabilidade não apenas participar num evento como esse, mas engajar-se na igreja global, a serviço da missão de Deus. Mas tal participa- ção requer tempo para, com sensibilidade cultu- ral, sermos percebidos como ativos participantes nessa missão global. Em Lausanne 4 demonstra- mos que estamos chegando, sim, mas ainda de forma “adolescente”. Chegamos falando muito e escutando pouco. Chegamos querendo afirmar quem somos e que somos “brasileiros de bem com a vida”, sem a devida percepção de quanto isso pode nos afastar e não aproximar do outro. Temos terreno a percorrer. Há certamente muita coisa que se pode e deve dizer quanto a este Lausanne 4, que se reuniu sob o lema “Que a Igreja anuncie e demonstre a Cris- to, unida”. O tempo ajudará a discernir a sua im- portância e esta edição de Ultimato é um passo nesta direção. De minha parte, aponto para dois aspectos nos quais estive envolvido. Um dos intentos ao realizar este evento em 2024 era marcar o jubileu do movimento, inicia- do com Lausanne em 1974, e tive o privilégio de participar num dos painéis que compuseram o programa da noite celebrativa destes 50 anos. Re- lembro aqui, e ponho no contexto, dois dos meus comentários. O primeiro deles tem a ver com a natureza da missão da igreja. Desde o seu início, Lausanne es- teve comprometido com a evangelização mundial e, como tal, destaca a Grande Comissão segundo o Evangelho de Mateus (Mt 28.18-19). O que se tem percebido, na própria caminhada de Lausan- ne, que tem como slogan “Todo o evangelho para todas as pessoas”, é que a evangelização não pode ser somente verbal; ela precisa estar a serviço do La us an ne M ov em en t“TEM MUITO BRASILEIRO”... EM LAUSANNE 4 VALDIR STEUERNAGEL MATÉRIA DE CAPA A presença brasileira em Lausanne 4, inclusive na organização, é reflexo do crescimento da igreja brasileira e do seu envolvimento na missão global 18 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 todo da missão de Deus. No seio do movimento, portanto, tem-se destacado que é necessário re- ferir-se também à Grande Comissão segundo o Evangelho de João, onde Jesus é a inspiração e o modelo da missão. Nesse Evangelho, Jesus diz duas vezes aos seus discípulos: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20.21 e 17.18). Lausanne 4 foi enfático ao desafiar os seus participantes a avançar no cumprimento da Grande Comissão. Mas é preciso nunca esquecer que isso não se faz de qualquer jeito nem do nosso jeito, pois somos chamados a fazê-lo do jeito de Jesus. Nosso Mestre, de quem somos seguidores, é o indiscutível modelo de missão. O meu segundo comentário tem a ver com nossa atitude, e me refiro à atitude missional. No painel eu me referi ao fato de que muitas vezes, em nosso esforço missionário, acabamos sen- do intensos e invasivos, o que é perceptível até na linguagem que usamos. Uma linguagem que quer alcançar, conquistar e avançar, refletin- do uma atitude de avanço em relação ao outro, quando não acompanhada de uma postura de superioridade, como tem acontecido em muitas de nossas experiências missionárias, tanto ontem como hoje. O Compromisso da Cidade do Cabo, documento que resultou de Lausanne 3, realiza- do em 2010 na Cidade do Cabo, na África do Sul, colocou diante de nós o desafio de mergulhar na missão pelo viés do amor, dizendo que “nós ama- mos porque Deus nos amou primeiro”. A minha intenção, ao lembrar esse Compromisso, foi de- safiar Lausanne 4 a abraçar essa atitude de amor, a começar por uma linguagem de acolhimento e de graça, pois somos enviados ao mundo assim como Jesus o foi. Foi um privilégio ter participado de Lausanne 4, assim como tem sido um privilégio ser parte desse movimento no decorrer de muitos anos de minha vida. Ontem e hoje carecemos lem- brar-nos, sempre de novo, que nossa missão, no modelo de Jesus, encontra sentido no Deus que “amou o mundo de tal maneira” que nos enviou o seu Filho (Jo 3.16) e nos desafia a andar exalando esse mesmo amor. Valdir Steuernagel é pastor luterano, membro da Comunidade do Redentor, em Curitiba, PR, e embai- xador da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e da Visão Mundial. @silva.steuernagel. Jesus nunca tolerou a injustiça, mas a transformou. Respondendo ao mal, com amor e perdão. Emmanuel Ndikumana, diretor regional do movimento Lausanne para a África Francófona e fundador da PTI Church, que busca promover liderança transformacional no Burundi O arrependimento pavimenta o caminho para o avivamento. Sarah Breuel, fundadora e diretora executiva da Revive Europe e plantadora de igrejas em Roma, Itália A perseguição nunca mata a igreja. Mas um Evangelho corrompido, sim. Patrick Fung, médico, ministro ordenado e missionário. Embaixador Global da OMF International e presidente do programa do Quarto Congresso de Lausanne E ao Cordeiro sobre o trono nós bendizemos e adoramos, pois venceu a batalha. Aleluia! Amém! Keith e Kristyn Getty, músicos RECADOS DE LAUSANNE 19Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Estar fora da Amazônia, num país com cultura totalmente diferente, participando do Quarto Congresso Lausanne de Evangelização Mun- dial, já torna a experiência incrível e fascinante. De 22 a 28 de setembro de 2024, eu me vi num centro de convenções enorme na Coreia do Sul, com gente de todo canto do mundo, com roupas e línguas diferentes, tomando café gelado pela manhã, comen- do frango levemente adocicado e com bastante pimenta no almoço, e todos louvando juntos ao mes- mo Deus na celebração da noite. Uma estrutura impressionante e uma logística complexa. Uma programação repleta de atividades, com o devi- do suporte tecnológico de alto nível. Celebrações equilibrando solenidade e espontaneidade, divi- dindo o palco com encenações teatrais, pinturas em tela e arte em realidade virtual, feitas ao vivo. Tudo isso me deixou bastante impressionado. Mas logo entrou em cena a frustração, ao per- ceber tensões, descompassos e divergências, entre os que falavam no púlpito, entre os que compar- tilhavam as mesas e entre os que conversavam pelos corredores. A brasileira Sarah Breuel, após uma palestra impactante sobre arrependimento e avivamento, foi considerada por alguns congres- sistas como “muito emocionada e muito teatral”. Após a palestra proferida pela cientista climática canadense Katharine Hayhoe, sobre mudanças climáticas e fé, ouvi alguém dizer que o evento não estava focando nos assuntos mais importan- tes. A teóloga costa-riquenha Ruth Padilla – filha de René Padilla, pioneiro da missão integral – recebeu duras críticas por ter dito, em sua pales- tra sobre justiça, que a igreja precisa ter empatia diante do sofrimento do povo palestino. E, falan- do em missão integral e seus pioneiros, o assunto foi brevemente mencionado apenas no último dia no palco principal, como uma pequena nota de rodapé. Isso parecia não fazer sentido e eu esta- va, realmente, confuso, tentando processar esses descompassos e pensando: “Aqui também esta- mos fragmentados e divididos, justamente num evento que propõe a unidade da igreja como tema principal?”. O meu deslumbramento ingênuo dos primei- ros dias foi abalado por essa realidade que está posta e que compõe o mesmo quadro polariza- do e fragmentado, seja em um pequeno grupo de uma igreja local ou num evento mundial que reúne a igreja global. Na verdade, não é difícil chegar à obviedade dos fatos. É claro que a igreja está fragmentada e dividida, em escala global e local. É claro que haverá divergências sobre o que La us an ne M ov em en t DO DESLUMBRAMENTO INGÊNUO E DA FRUSTRAÇÃO PARA A ESPERANÇA DE ALGO NOVO PHELIPE REIS MATÉRIA DE CAPA É naquilo que me falta que eu me percebo dependente do outro, e vice-versa. Essa é a lógica do reino de Deus 20 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 são temas prioritários ou periféricos. É claro que há perspectivas teológicas diferentessobre temas complexos e sensíveis, como guerras e sexualida- de, por exemplo. Na igreja primitiva foi assim e eles nem tinham internet. Passados os sete dias de congresso, eu não podia voltar para casa resumindo minha experi- ência em ingênuo deslumbramento e frustração. A síntese irônica é que o mesmo contexto diver- so e as mesmas pessoas que pensam diferente, quando conduzidas pelo Espírito Santo, formam o ambiente propício para parcerias e trabalho co- laborativo, pois é naquilo que me falta que eu me A DECLARAÇÃO DE SEUL Cada edição do Congresso Lausanne se preocupou em elaborar um documento que afirmasse, com clareza e simplicidade, o compromisso dos cristãos com a missão de Deus, a urgência da evangelização mundial e o custo do discipulado. Assim, desde o primeiro Congresso, realizado em 1974, a igreja tem à disposição o Pacto de Lausanne, o Manifesto de Manila (1989), o Compromisso da Cidade do Cabo (2010) e agora a Declaração de Seul (2024). A Declaração de Seul ratifica os documentos dos Congressos anteriores, renova o compromisso dos cristãos com 1) a centralidade do evangelho, 2) a leitura fiel das Escrituras e 3) a importância do povo de Deus que deve ser amado e edificado, 4) o valor do ser humano como imagem e semelhança de Deus, 5) o discipulado como um chamado à santidade e à missão, além de 6) enfatizar a responsabilidade da igreja em enfrentar os desafios contemporâneos, como, por exemplo, os povos em regiões de conflito, as revoluções tecnológicas e a crise de identidade sexual. A escrita da Declaração de Seul foi coordenada por Ivor Poobalan, do Sri Lanka, e Victor Nakah, do Zimbábue, que, junto com homens e mulheres de várias regiões do mundo, escutaram líderes cristãos sobre lacunas, oportunidades, inovações e ações colaborativas para cumprir a Grande Comissão. Paralelamente, sob a liderança de Matthew Niermann, Lausanne também produziu o Relatório Status da Grande Comissão com dados globais sobre o cristianismo, as ações missionárias e os desafios a serem alcançados. Alguns participantes de Lausanne 4 expressaram insatisfação quanto à forma como a Declaração de Seul foi elaborada – antes do evento e sem a colaboração dos congressistas – e compartilhada, sugerindo que consultas antecipadas e mais tempo durante o congresso poderiam ter sido dedicados a isso. A conclusão do documento expressa uma chamada e aspiração: “Retornamos ao lugar onde servimos com o compromisso renovado de amar como ele nos amou, de deixar de lado a ambição egoísta, de desenvolver parcerias pelo evangelho e de crescer diariamente em dependência do seu Espírito. Para que possamos declarar a uma só voz os grandes feitos daquele que é a única esperança e luz do mundo. Para que possamos revelar, num só coração, a santidade e o amor daquele que se entregou pelos pecadores. Para que possamos anunciar e demonstrar Cristo juntos!”. Leia a Declaração de Seul em lausanne.org/pt-br/statement/ declaracao-de-seul La us an ne M ov em en t percebo dependente do outro, e vice-versa. Essa é a lógica do reino de Deus e esse foi o convite feito repetidamente em todos os espaços do congres- so – “Vamos colaborar!” – e que fez Lausanne 4 terminar, para mim, com um sabor de esperança e com cheiro de que algo novo e belo pode surgir quando quem pensa diferente em questões se- cundárias consegue se unir, dar as mãos e traba- lhar junto por algo maior: participar, com Jesus, da missão de reconciliar toda a criação. Phelipe Reis é natural do Amazonas, casado com Luíze e pai de Elis e Joaquim. É jornalista, missionário e cola- borador do Portal Ultimato. 21Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Atualmente, cerca de 3,6% da população mundial mora fora de seu país de origem. Conforme dados da Organização Interna- cional para as Migrações (OIM), esse número aumentou de 220 milhões em 2010 para 280 mi- lhões em 2020, impulsionado por conflitos, cri- ses econômicas e desastres naturais. Esse fluxo incessante de pessoas cria um cenário singular para a missão cristã, em que a di- versidade cultural e linguística se apresenta como uma oportunida- de para o evangelismo e o discipu- lado, visando à expansão do reino de Deus. Nas Escrituras, o movimento é uma expressão da própria nature- za de Deus, que se revela em ação constante. Desde Gênesis, onde Deus se move sobre as águas, até as narrativas de figuras como Abraão, Noé, José, Noemi e Daniel, observa-se um fio condutor de deslocamento associado ao cumprimento dos propósitos divinos. A diáspora brasileira A diáspora brasileira é um fenômeno notável que reflete a crescente mobilidade dos brasileiros ao redor do mundo. O Brasil, historicamente reco- nhecido por sua tradição de acolher imigrantes, também se tornou um país de emigração desde a década de 1980, com um aumento significativo após 2011. Atualmente, estima-se que mais de 5 milhões de brasileiros vivam fora do país. Podemos pensar em duas categorias prin- cipais sobre a diáspora brasileira: a interna e a externa. A diáspora interna inclui aqueles que, embora nascidos em outros países, decidiram se estabelecer no Brasil, além dos deslocamentos in- ternos, como a migração de áreas rurais para ur- banas. De acordo com dados governamentais, há oficialmente cerca de 1,5 milhão de estrangeiros morando no Brasil por um longo período. Por outro lado, a diáspora externa represen- ta um fenômeno em constante crescimento, com brasileiros mudando-se para diferentes partes do mundo. Diversos motivos impulsionam esse movimento, sendo a busca por condições eco- nômicas mais vantajosas (como emprego, tra- balho, conforto e oportunidades relacionadas) e segurança os principais, seguidos daqueles que procuram investir em seus estudos, seja no aprendizado de idiomas, no campo acadêmico ou em cursos livres e profissionalizantes. Outros se mudam devido a designações institucionais ou organizacionais, como empregos, atividades reli- giosas ou projetos internacionais. A diáspora brasileira externa cristã está en- tre as dez maiores do mundo, desempenhando um papel vital na disseminação do evangelho. Esse fenômeno oferece à igreja brasileira uma oportunidade única de atuar globalmente, tanto ao acolher estrangeiros como ao mobilizar La us an ne M ov em en tDIÁSPORA: UM CHAMADO À IGREJA BRASILEIRA FABIANA BRAUN MATÉRIA DE CAPA A diáspora brasileira externa cristã está entre as dez maiores do mundo, desempenhando um papel vital na disseminação do evangelho 22 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 brasileiros no exterior para serem agentes da missão de Cristo. Essa dinâmica ressalta a impor- tância de estratégias missionárias que conside- rem a mobilidade humana como uma ferramenta poderosa para a propagação do evangelho. Além disso, a riqueza cultural e a diversidade do Brasil são trunfos valiosos, permitindo que o evan- gelho seja comunicado de maneira contextualizada e relevante em diferentes partes do mundo. Ao mes- mo tempo, a experiência dos brasileiros no exterior oferece uma nova perspectiva e desafios que po- dem enriquecer as igrejas locais, promovendo uma visão mais global e inclusiva da missão cristã. Um chamado à ação A diáspora oferece à igreja brasileira uma oportu- nidade sem precedentes para reescrever Atos 8.4, que nos lembra que os primeiros cristãos, ao se- rem dispersos, pregavam a Palavra por onde quer que fossem. Assim como no passado, hoje somos chamados a ver o movimento das pessoas como uma parte do plano divino para levar o evangelho a todas as nações. É hora de a igreja brasileira responder a esse chamado, reconhecendo as oportunidades que a diáspora apresenta para a missão global. Precisa- mos estar preparados para acolher, discipular e enviar aqueles que estão em movimento, trans- formando desafios emoportunidades para o reino de Deus. Fabiana Braun trabalha como missionária com dife- rentes tipos de diásporas na Europa e em diversas partes do mundo. Integra o NexGen da rede Lausanne e é colaboradora na Aliança Evangélica da Alemanha. É casada com Sebastian Braun e mãe de Naomi e Yael Anna. diasporamov@gmail.com. A obra de Deus não é feita por gênios solitários nem por redes fechadas, mas por meio de relacionamentos humildes e colaborativos em equipe. Jae-Hoon Lee, pastor da Onnuri Igreja Comunitária na Coreia do Sul, presidente do Lausanne Coreano e co-presidente do comitê organizador de Lausanne 4 RECADO DE LAUSANNE LEIA MAIS Ultimato disponibiliza no portal uma série de artigos e recursos sobre Lausanne 4 e sobre os congressos anteriores (que aconteceram em 1974, 1989 e 2010). Aqui, destacamos apenas alguns deles. Veja a relação completa em bit.ly/411-capa-mais. A urgência da reconciliação Reflexões a partir do Quarto Congresso Lausanne, um ano após o 7 de outubro. [Rula Khoury Mansour] Brasileiros em Lausanne 4: a alegria, a irreverência e o potencial missionário verde-amarelo Como a igreja brasileira pode ser relevante para a missão global a partir desse movimento? [Phelipe Reis] Onde estão as crianças? Os mais jovens não são apenas o futuro da igreja; eles são a igreja hoje. [Susan Greener] Quatro décadas em tempo de missão O movimento Lausanne é uma corrente singular no mundo evangélico contemporâneo. [Samuel Escobar] O legado de John Stott através do movimento Lausanne Foi a parceria única entre Billy Graham e John Stott que possibilitou o surgimento do movimento Lausanne – um movimento comprometido em levar “o evangelho todo para o mundo todo”. [Julia Cameron] Diálogos de Esperança Nova temporada conversa sobre a Igreja e Lausanne 4 com temas relevantes sobre o papel da igreja hoje. [Lissânder Dias] Blog Movimento de Lausanne ultimato.com.br/sites/lausanne/ 23Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Descobrindo o potencial da diáspora: Um chamado à igreja brasileira bit.ly/411-diaspora MAIS NA INTERNET 24 ULTIMATO • Janeiro/Fevereiro 2025 OLHANDO PARA FRENTE Encontro de Jovens Líderes de Lausanne (YLG) acontecerá no Brasil em 2026 SABRINA BARROSO SILVA LUJIĆ E JUSTIN A. SCHELL Em 1987, em Cingapura, foi realizado o primeiro Encontro de Jovens Líderes de Lausanne (YLG). Entre os 350 convidados estava o en- tão jovem John Piper, que, na época, assim defi- niu o objetivo da iniciativa: “Construir uma rede de amizades frutíferas que aumentará a coope- ração na evangelização mundial nas próximas décadas”. De lá para cá, o movimento Lausanne realizou dois outros encontros dessa natureza: em 2006, em Kuala Lumpur, Malásia; e em 2016, em Jacarta, Indonésia. Com o desejo de realizar o próximo encontro na América Latina, a liderança do movimento, juntamente com o Departamento de Gerações, os diretores regionais e com o apoio de líderes da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), oficializaram o Brasil como sede do En- contro de Jovens Líderes em 2026. Essa novidade foi anunciada no Quarto Congresso Lausanne, em Seul. Existe um forte desejo por parte da liderança do movimento e do Encontro de se conectar com a igreja no Brasil e na América Latina. Reconhe- cemos que a representação de cada país pode ser limitada, mas estamos otimistas de que os jovens líderes que participarem dessa jornada servirão como catalisadores, inspirando crescimento e colaboração em suas respectivas regiões e nações. Nós, brasileiros envolvidos na organização do Encontro, vemos uma grande oportunidade de a igreja brasileira servir a igreja global e encorajar, investir e apoiar jovens líderes a colaborarem a fim de acelerar o cumprimento da Grande Comissão. O Encontro visa reunir cerca de 1.200 líde- res jovens de 150 países a fim de identificar uma nova geração de jovens líderes para promover a visão quádrupla: o evangelho para cada pessoa, igrejas que fazem discípulos para cada povo, líde- res semelhantes a Cristo para cada igreja e setor, e impacto do reino em cada esfera da sociedade. Além do evento, o movimento anunciou a continuação da iniciativa conhecida como “YLGen – Geração de Líderes Mais Jovens”, por meio da qual Lausanne administra fielmente as conexões e os frutos da YLG para um maior impacto missionário. O “YLGen 2” permitirá o acompanhamento de um grupo seleto de jovens líderes de 2026 a 2036. Fomos comissionados para este grande desa- fio, pelo qual pedimos suas preciosas orações: Preparação – ore pela equipe de líderes jovens que trabalharão ao lado da equipe de Lausanne para planejar e executar o Encontro em espírito de oração. MATÉRIA DE CAPA La us an ne M ov em en t 25 LACUNAS DA GRANDE COMISSÃO Como responder com sabedoria às questões mais complexas e emergentes do nosso tempo e lugar a fim de que a igreja anuncie e demonstre Cristo em unidade, de hoje até 2050? Durante o Quarto Congresso Lausanne, esta pergunta foi feita a 25 grupos que se dedicaram à reflexão de diferentes questões como: envelhecimento da população, a próxima geração, povos menos alcançados, ministérios na era digital, sexualidade e gênero, missões policêntricas, integridade e anticorrupção, líderes com caráter, comunidades urbanas, liberdade religiosa, confiança da sociedade e influência do cristianismo, entre outras. Chamadas “Lacunas da Grande Comissão”, as questões foram identificadas por meio de um processo de escuta global que envolveu líderes evangélicos de todo o mundo em preparação para o Lausanne 4. Reuniões entre esses líderes aconteceram entre setembro de 2020 e julho de 2021 e o conteúdo gerado nelas foi analisado e processado pela Equipe Global de Escuta até se tornar o relatório Status da Grande Comissão com questões que pudessem ser discutidas de maneira colaborativa no encontro em Seul. Meses antes do evento, guiados pela pergunta Qual é a lacuna para onde Deus está chamando você?, os participantes conheceram, oraram e escolheram um grupo de afinidade no qual, durante o Congresso, poderiam oferecer melhor colaboração. A conversa continua com a ajuda de ferramentas, treinamento e orientação adaptados às diferentes regiões, gerações e redes temáticas para incentivar o engajamento e ações colaborativas para o cumprimento da Grande Comissão. Conheça mais sobre as 25 lacunas em bit. ly/411-L4_lacunas. La us an ne M ov em en t 25Janeiro/Fevereiro 2025 • ULTIMATO Versão ampliada de “Olhando para frente” bit.ly/411-jovens-líderes MAIS NA INTERNET Participação – ore para que o Senhor conduza a nomeação, a seleção e a inscrição de 1.200 líde- res jovens e por cerca de 250 mentores. Provisão – ore por provisão para os que forem selecionados e para os custos gerais de planeja- mento e realização do Encontro. Local – ore para que o YLG’26 sirva de enco- rajamento para a igreja em toda a América Lati- na. Que possamos ver novas parcerias evangéli- cas, a mobilização de todo o povo de Deus para a missão de Deus e que o Encontro abençoe o Brasil e toda a região. Concluímos com as palavras de Leighton Ford, que serviu como presidente do Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial, de 1976 a 1992: “Uma de nossas tarefas em Lausanne é sempre olhar para frente e ver quem Deus está levantando para servir na próxima geração”. Para saber mais escreva para ylg2026@lausanne.org. Sabrina Barroso Silva Lujić é mestre em geologia, serve como vice-diretora para YLG2026 (Younger Leaders Gathering) e YLGen 2 (Younger Leaders Generation) no Departamento de Gerações do Movimento de Lausanne. É casada com Ivan Lujić, bos- nio-croata, com quem mora em Split, na Croácia. Justin