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Estudo de caso sobre Doença de Alzheimer em contexto rural: avaliação neuropsicológica de mulher de 65 anos. Relata desorientação, déficit grave de memória com alta velocidade de esquecimento, alterações funcionais e comportamentais, anosognosia e diagnóstico de transtorno neurocognitivo maior por DA; discute rastreio e atraso no diagnóstico.

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REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. 
ISSN: 1983-0882 
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REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.21, n.8, p. 01-18. 2024. 
 
Auguste e o envelhecer com doença de Alzheimer no contexto 
rural 
 
Auguste and aging with Alzheimer’s disease in the rural context 
 
Auguste y el envejecimiento con enfermedad de Alzheimer en el 
contexto rural 
 
DOI: 10.54033/cadpedv21n8-166 
 
Originals received: 07/19/2024 
Acceptance for publication: 08/09/2024 
 
 
Paola Pereira dos Santos 
Mestranda em Envelhecimento Humano 
Instituição: Universidade de Passo Fundo (UPF) 
Endereço: Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil 
E-mail: 152814@upf.br 
 
Mariana Barbosa Prestes 
Graduanda em Psicologia 
Instituição: Universidade de Passo Fundo (UPF) 
Endereço: Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil 
E-mail: 79817@upf.br 
 
Silvana Alba Scortegagna 
Doutora em Psicologia 
Instituição: Universidade de Passo Fundo (UPF) 
Endereço: Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil 
E-mail: silvanalba@upf.br 
 
 
RESUMO 
Este estudo de caso objetivou ilustrar a Doença de Alzheimer (DA) de uma 
senhora idosa residente no meio rural, com base na avaliação neuropsicológica 
e na literatura empírica. A senhora, denominada de Auguste (pseudônimo), com 
65 anos de idade, casada, com filhos, nível de escolaridade baixo, nascida e 
residente em meio rural procurou atendimento médico tardiamente e foi 
encaminhada para a avaliação neuropsicológica pelo médico. Na avaliação 
neuropsicológica, ela respondeu aos seguintes instrumentos: entrevistas, 
Miniexame do Estado Mental, Instrumento de Avaliação Neuropsicológica Breve, 
Teste de Aprendizagem Auditivo Verbal, Questionário para Avaliação Clínica da 
Demência, e Escala de Lawton. Os resultados evidenciaram a) Desorientação 
em tempo e espaço; b) Grave déficit na memória; c) Índice de velocidade de 
esquecimento alto; d) Histórico familiar de Alzheimer; e) Evolução gradual e 
insidiosa; f) Alterações na funcionalidade; g) Alterações 
mailto:79817@upf.br
 
 
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ISSN: 1983-0882 
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emocionais/comportamentais; h) apresentação de anosognosia; configurando-
se no diagnóstico de Transtorno Neurocognitivo Maior por DA. Este estudo 
mostrou-se relevante ao elucidar questões relacionadas ao processo do 
envelhecimento permeado pelo comprometimento cognitivo e suas 
especificidades no meio rural, a importância do rastreio dos fatores de risco de 
desenvolvimento da DA, bem como as consequências do diagnóstico tardio. 
 
Palavras-chave: Estudo de Caso. Avaliação Neuropsicológica. Demência. 
Velhice. Atenção Primária a Saúde. 
 
ABSTRACT 
This case study aimed to illustrate the AD of an elderly woman living in rural 
areas, based on neuropsychological assessment and empirical literature. The 
lady, called Auguste (pseudonym), 65 years old, married, with children, low level 
of education, born and living in a rural area sought medical attention late and was 
referred for neuropsychological evaluation by the doctor. In the 
neuropsychological assessment, she answered the following instruments: 
interviews, Mini-Mental State Examination, Brief Neuropsychological 
Assessment Instrument, Auditory Verbal Learning Test, Questionnaire for Clinical 
Assessment of Dementia, and Lawton Scale. The results showed a) 
Disorientation in time and space; b) Severe memory deficit; c) High forgetting 
speed index; d) Family history of Alzheimer's; e) Gradual and insidious evolution; 
f) Changes in functionality; g) Emotional/behavioral changes; h) presentation of 
anosognosia; configuring the diagnosis of Major Neurocognitive Disorder due to 
AD. This study proved to be relevant in elucidating issues related to the aging 
process permeated by cognitive impairment and its specificities in rural areas, the 
importance of screening for risk factors for the development of AD, as well as the 
consequences of late diagnosis. 
 
Keywords: Case Study. Neuropsychological Assessment. Dementia. Old Age. 
Primary Health Care. 
 
RESUMEN 
Este estudio de caso tuvo como objetivo ilustrar la EA de una anciana que vive 
en zonas rurales, basándose en la evaluación neuropsicológica y la literatura 
empírica. La señora, llamada Auguste (seudónimo), de 65 años, casada, con 
hijos, bajo nivel de escolaridad, nacida y residente en una zona rural, acudió 
tarde a la atención médica y fue remitida para evaluación neuropsicológica por 
el médico. En la evaluación neuropsicológica respondió a los siguientes 
instrumentos: entrevistas, Mini-Examen del Estado Mental, Instrumento de 
Evaluación Neuropsicológica Breve, Test de Aprendizaje Auditivo Verbal, 
Cuestionario de Evaluación Clínica de la Demencia y Escala de Lawton. Los 
resultados mostraron a) Desorientación en el tiempo y en el espacio; b) Déficit 
severo de memoria; c) Alto índice de velocidad de olvido; d) Antecedentes 
familiares de Alzheimer; e) Evolución gradual e insidiosa; f) Cambios en la 
funcionalidad; g) Cambios emocionales/conductuales; h) presentación de 
anosognosia; configurando el diagnóstico de Trastorno Neurocognitivo Mayor 
por EA. Este estudio demostró ser relevante para dilucidar cuestiones 
 
 
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relacionadas con el proceso de envejecimiento permeado por el deterioro 
cognitivo y sus especificidades en el área rural, la importancia del tamizaje de 
los factores de riesgo para el desarrollo de EA, así como las consecuencias del 
diagnóstico tardío. 
 
Palabras clave: Estudio de Caso. Evaluación Neuropsicológica. Demencia. 
Vejez. Atención Primaria de Salude. 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Nos últimos anos, a população de adultos idosos tem crescido 
expressivamente, impulsionada pelos avanços sociais, científicos e médicos 
alcançados. Conforme o censo populacional realizado no ano de 2022, pelo 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de habitantes 
com 65 anos ou mais cresceu em 57,4%, quando comparado a 2010 (IBGE, 
2022). 
O envelhecimento pode ser analisado sob diferentes aspectos. Dentre 
estes, encontra-se a perspectiva de envelhecimento cerebral/celular (Barroso et 
al., 2018). Apesar de o envelhecimento não ser sinônimo de doença, as perdas 
cognitivas, consequências das alterações neurológicas, estão entre os 
acontecimentos mais prevalentes na população idosa, trazendo prejuízos a 
saúde e a qualidade de vida, além do comprometimento da capacidade 
funcional, que reduz a autonomia, socialização e aumenta a vulnerabilidade 
(Dias et al., 2023). A demência é uma doença crônica degenerativa que se 
apresenta de diferentes formas a depender de sua tipologia (Tay et al., 2023). 
A Demência por Doença de Alzheimer (DA) é a mais comum entre a 
população idosa, sendo responsável por cerca de 60% a 80% dos óbitos 
relacionados aos Transtornos Neurocognitivos. Os sintomas principais são 
possíveis de serem observados em adultos mais velhos, de forma progressiva e 
insidiosa, com comprometimentos progressivos na memória episódica recente e 
outros domínios cognitivos que prejudicam a funcionalidade (Araújo et al., 2023). 
Com a progressão da doença a perda da memória agrava-se severamente, as 
Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD) se tornam mais difíceis de serem 
 
 
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realizadas, e em alguns casos iniciam-se sinais afetivos e de percepção, como 
alucinações (Roller et al., 2024). Quando alcançado um nível grave da doença, 
os indivíduos se tornam totalmente dependentes dos cuidadores, com memóriareduzida a somente fragmentos, fala restrita, incontinência urinária e fecal, 
dificuldade na marcha, de se sentar e engolir. O tempo de vida médio após a 
apresentação inicial dos sintomas está entre cinco e 12 anos, a depender de 
cada indivíduo (Schilling et al,. 2022). 
Sendo uma condição sistêmica, a DA causa impactos negativos tanto na 
vida dos indivíduos quanto em seus familiares, devido aos cuidados informais e 
altos custos orçamentários. No Brasil, o custo médio por pessoa depende da 
fase da doença, podendo chegar a R$3.893,10 em estágios avançados. 
Somente em 2019 as demências custaram 1 trilhão de dólares, sendo destes, 
50% abarcados pelos cuidadores familiares informais, em sua maioria mulheres, 
que precisaram parar de trabalhar para cuidar dos familiares. Atualmente, cerca 
de 73% dos custos totais necessários para o tratamento são advindos do 
orçamento familiar, comprometendo grande parte dos recursos das famílias. É 
importante considerar que o custo médio por pessoa aumenta gradativamente 
com o estágio da doença, com uma diferença de 3,6 bilhões entre estágio leve 
e grave (OMS, 2022). 
A DA é uma patologia multifatorial tendo como principais fatores a idade 
avançada, histórico familiar e genético. Em relação aos fatores genéticos, apesar 
de não serem totalmente compreendidos, são supostamente consequências de 
uma herança autossômica dominante com diferentes e variados genes afetados. 
Atualmente existem mais de 20 variações relacionadas com a patologia (De 
Souza; Santos; Silva, 2021). Contudo, é necessário haver uma combinação 
genética e ambiental para se desenvolver a patologia (De Souza; Santos; Silva, 
2021). 
Ao que se refere aos fatores ambientais, estes podem agir como 
responsáveis por danos nos genes, isso porque certas exposições podem 
danificar pares de cromossomos relacionadas a DA (De Souza; Santos; Silva, 
2021). Entre alguns dos fatores ambientais estão os hábitos de vida, condições 
 
 
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socioeconômicas, acesso à saúde primária e identificação precoce de 
patologias, além dos níveis escolares, profissão e local de moradia. 
Acerca da localização sociodemográfica, os fatores de riscos podem 
variar entre as localidades rurais e as urbanas, podendo ser explicado pela 
organização geográfica. Esta, que pode implicar em populações com menores 
níveis de escolaridade e que apresentam dificuldades de acesso à saúde 
primária, atrasando o diagnóstico (Liu et al., 2022), além da desinformação e 
naturalização dos sintomas apresentados (Dos Santos; De Lima; Scortegagna, 
2024). Estima-se que somente 20% dos casos de demência estão devidamente 
diagnosticados no Brasil, podendo ter como causa o desconhecimento da 
população geral sobre o tema, além da falta de reconhecimento de que declínios 
cognitivos possam estar relacionados a doenças neuropsicológicas (OMS, 
2022). 
Essas diferenças geográficas podem consequentemente influenciar na 
menor distribuição de recursos financeiros, impactando na qualidade de estradas 
e disponibilidade de transportes, diminuindo o acesso à saúde primária e a 
identificação de sintomas iniciais (Dos Santos; De Lima; Scortegagna, 2024), 
além da desigualdade de financiamento à saúde, menor disposição e pior 
qualidade de trabalho dos agentes de saúde das áreas rurais (Franco; Lima; 
Giovanella, 2021). 
A partir do exposto, percebe-se a necessidade de compreender o 
processo do envelhecimento permeado pelo comprometimento cognitivo e suas 
especificidades no meio rural. Nessa perspectiva, este estudo de caso objetivou 
ilustrar a Doença de Alzheimer (DA) de uma senhora idosa residente no meio 
rural, com base na avaliação neuropsicológica e na literatura empírica. 
 
2 METODOLOGIA 
 
O estudo de caso é um método de pesquisa estruturado, aplicado em 
distintas situações, que traz contribuições para a 
compreensão dos fenômenos individuais ou grupais, e que tem 
por objetivo explorar, descrever e explicar o evento ou fornecer um 
 
 
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entendimento profundo de um fenômeno contemporâneo em um contexto de 
vida (Yin, 2015). 
Essa estratégia foi selecionada para ilustrar a DA de uma senhora idosa 
residente no meio rural. É importante salientar o caráter exploratório deste 
estudo, considerando que não se tem estudos suficientes que evidenciem em 
uma abordagem teórico-prática, os fatores de risco que contribuem para o maior 
comprometimento cognitivo de idosos residentes de áreas rurais, o que reforça 
a importância deste estudo. 
 
2.1 PARTICIPANTE 
 
Este estudo de caso trata de uma senhora idosa denominada Auguste 
(pseudônimo). Este nome foi simbolicamente escolhido em homenagem à 
primeira pessoa diagnosticada com a doença de Alzheimer pelo médico Alois 
Alzheimer, em 1906, Auguste Deter, nascido na Alemanha (Engelhardt; Gomes, 
2015). 
 
2.2 INSTRUMENTOS UTILIZADOS PARA COLETA DE DADOS 
 
Diante do objetivo previsto no estudo foram utilizados os instrumentos de 
avaliação psicológica. Além das entrevistas e da observação, utilizou-se os 
seguintes questionários e testes avaliativos: Mini-Exame do Estado Mental 
(Folstein, et al., 1975); Instrumento de Avaliação Neuropsicológica Breve 
(Fonseca; De Salles; Parente., 2009); Teste de Aprendizagem Auditivo Verbal 
(Diniz, et al., 2018); Questionário para Avaliação Clínica da Demência (Clinical 
Dementia Rating – CDR) desenvolvida em 1979 no projeto “Memory and Aging” 
da Universidade Washington, St. Louis, Missouri, EUA; e Escala de Lawton 
(Lawton & Brody, 1969) que avalia o desempenho do idoso em relação às 
atividades instrumentais a fim de verificar a sua independência funcional. 
 
 
 
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2.3 PROCEDIMENTOS 
 
Auguste foi encaminhada para avaliação neuropsicológica pelo médico da 
Unidade Básica de Saúde (UBS). As primeiras entrevistas de avaliação consis-
tiram em um acolhimento e anamnese, e na coleta dos dados sociodemográfi-
cos, fim de obter dados mais gerais e compreender o contexto da paciente. Nas 
entrevistas subsequentes foram administrados os testes neuropsicológicos es-
pecíficos. No final da avaliação, foi realizada a devolutiva dos resultados e os 
encaminhamentos necessários para o seguimento do tratamento da paciente. 
 
2.4 ANÁLISE DOS DADOS 
 
As entrevistas foram transcritas para análise e foi atribuído um 
pseudônimo para proteger a identidade da participante. Os resultados advindos 
dos instrumentos de avaliação psicológica aplicados, foram levantados e 
interpretados conforme normas técnicas e referenciais específicos de cada 
material. Por fim, realizou-se a compreensão dos resultados com base na 
literatura empírica. 
 
2.5 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS 
 
Este estudo integra o projeto de pesquisa de mestrado intitulado 
Prevalência de Transtorno Neurocognitivo Leve em população idosa residente 
na área rural no norte do Estado do Rio Grande do Sul. O estudo tem por objetivo 
avaliar a prevalência de Transtorno Neurocognitivo Leve e de vulnerabilidade 
clínico funcional da população idosa residente em áreas rurais no norte do 
Estado do Rio Grande do Sul. Todos os cuidados éticos em pesquisa com seres 
humanos foram realizados. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em 
Pesquisa da Universidade de Passo Fundo (CEP-UPF), parecer de número 
6.229.184. 
 
 
 
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3 RESULTADOS E DISCUSSÕES 
 
3.1 AUGUSTE E A DEMÊNCIA POR DOENÇA DE ALZHEIMER 
 
A paciente Auguste, tem 65 anos de idade, casada, com filhos, ensino 
fundamental incompleto, residente em área rural de uma cidade de pequeno 
porte, com cerca de 3.600 moradores, localizada no interior do norte do Estado 
do Rio Grande do Sul. Auguste foi encaminhada para avaliação 
neuropsicológica, por um médico neurologista, por apresentar alterações na 
memória episódica, desorientação temporal, e repetição no discurso. Durante a 
anamnese realizada em três diferentes momentos, sendo uma entrevista 
realizada com Auguste e duas entrevistas realizadas com seu filho e seu esposo, 
foi possível coletar informações relevantes para a avaliação e compreensão do 
caso. 
Quanto à história pregressa, Auguste reside, desde seu nascimento, na 
localidade atual, possui seis irmãos, tais quais, cinco apresentaram diagnóstico 
de Transtorno Neurocognitivo Maior por DA. Segundo o relato de seu esposo, a 
mãe da avaliada (sua sogra), supostamente, foi a óbito devido a processos 
demenciais. Contudo, por falta de instrumentos de investigação na época, não 
foi identificado qual o tipo de transtorno. 
Por residir no contexto rural, Auguste sempre realizou atividades na roça 
e no auxílio com as tarefas domésticas, com baixo nível de escolaridade, 
apresenta pouca capacidade na leitura, escrita e para fazer cálculos. Após seu 
casamento, com o atual esposo, continuou trabalhando na roça, mas vinha se 
dedicando especialmente a cozinhar para os funcionários de seu marido. Não 
possui histórico de outras patologias na família, bem como não apresenta outras 
complicações, doenças, e outras alterações neurológicas que poderiam explicar 
suas queixas atuais, ou seja, sem alterações pré-mórbidas. 
Devido à gravidade da sintomatologia apresentada, que motivou a procura 
de avaliação realizada em seis sessões, com frequência semanal, em um tempo 
de 60 dias, foram utilizados testes neuropsicológicos. 
 
 
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Os resultados quantitativos foram obtidos por meio dos questionários, da 
aplicação de testagens. Os dados das entrevistas revelaram que os sinais e 
sintomas de Auguste iniciaram há cerca de seis anos, com leves dificuldades na 
memória episódica recente, sendo observada a necessidade de ser lembrada de 
eventos, datas e afazeres. Com o passar dos anos, seu caso foi se agravando, 
e mesmo com histórico familiar a busca pela avaliação se prolongou por todo 
esse tempo. De forma lenta, inicialmente, e progressiva, Auguste começou a 
apresentar dificuldade para cozinhar, esquecendo a chama do fogão acesa, 
trocando açúcar por sal quando cozinhava, e guardando-os em locais 
inapropriados. Passou a ter dificuldade em orientar-se no tempo, e apresentou 
desorganização cognitiva, sentindo-se ''’perdida''. Em acréscimo a estas 
sintomatologias, Auguste começou a apresentar alterações no sono com 
dificuldade para dormir devido a maior agitação psicomotora. Com o avanço 
acelerado da demência, teve episódios em que esqueceu o nome dos filhos e de 
acontecimentos passados relacionados a sua própria vida. Para além dos 
agravos da memória episódica recente, houve agravos para déficit na memória 
episódica de longo prazo, reconhecimento e capacidade de aprendizado. 
Nos testes avaliativos, Auguste apresentou oscilação entre desorientação 
espacial e temporal, embora na grande parte do tempo demonstrou capacidade 
de se orientar no mundo, ou seja, relativa a sua existência no ambiente. Em um 
contexto geral, o Exame do Estado Mental realizado em todas as sessões, de 
forma indireta, a Auguste sempre se apresentou alerta, oscilando entre 
orientação e desorientação, falas incongruentes com os questionamentos, afeto 
expansivo, agitação psicomotora, e desorganização cognitiva. 
Auguste demonstrou dificuldades em responder aos questionamentos 
coerentemente, utilizou recursos de manipulação das respostas por não 
conseguir compreender o que lhe foi questionado. Esse dado indica um 
comprometimento grave na cognição geral, devido à incapacidade na 
compreensão da linguagem, raciocínio verbal, memória semântica, e análise das 
respostas. Além disso, apresentou déficit proeminentemente grave na memória 
episódica de curto e longo prazo, isso porque na segunda sessão não conseguiu 
lembrar que conhecia a profissional. Dentre todos os déficits, os mais graves 
 
 
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foram as alterações nas Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD), com 
comprometimento grave em sua funcionalidade, além da perda iminente da 
memória autobiográfica. Durante todos os momentos da anamnese, não 
conseguiu lembrar seu sobrenome, idade, nome dos pais e de todos os filhos, 
datas importantes como tempo de casamento, sua data de nascimento, e idade 
dos filhos. Nesses momentos sempre recorria ao esposo para lhe ajudar, 
sugerindo importante necessidade de suporte familiar. 
Referente a comportamento e humor, apresentou-se agitada, e com maior 
desorganização e desorientação quando esteve sozinha na avaliação. Segundo 
relato dos familiares, sugere maior irritabilidade atualmente. 
Em um contexto geral, Auguste apresentou déficits clínicos graves nas 
três aptidões analisadas no Instrumento Neupsilin. Especificamente, foram 
constatadas as seguintes alterações: percepção, memória semântica de longo 
prazo, e memória de trabalho geral, além de resolução de problemas. 
Ademais, no instrumento RAVLT que avalia memória episódica (verbal) 
recente, de longo prazo, aprendizagem, além da velocidade de esquecimento, 
Auguste apresentou novamente índices com significância clínica grave. Isto 
sugere, quantitativamente, incapacidade de utilizar a memória operacional e 
atenção para receber as informações, realizar armazenamento, codificação e 
reconhecimento posterior. 
É importante ressaltar que durante os primeiros momentos da avaliação, 
Auguste conseguiu armazenar um total de 4 palavras/15, contudo a perda 
desses estímulos foi de imediato, o que indica impossibilidade de armazenar 
quaisquer informações. Em concomitância a esse resultado, a velocidade de 
esquecimento apresentou-se alta, reforçando a perda imediata das informações 
recebidas. Por fim, o teste CDR, tal qual foi utilizado tanto com Auguste quanto 
com seus familiares, apresentou: a) perda severa da memória, onde é capaz de 
somente acessar fragmentos; b) orientada a si mesma e desorientada em tempo 
e espaço geral; c) julgamento e resolução de problemas gravemente 
comprometido para solução de problemas, semelhanças e diferenças; d) Nas 
AIVD somente consegue realizar as tarefas mais simples e seus Interesses são 
muito limitados e pouco mantidos. 
 
 
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Diante destes resultados conclui-se que Auguste apresenta quadro de 
Transtorno Neurocognitivo Maior por DA, estágio moderado, com evolução 
rápida. Sumariamente, esse diagnóstico encontra suporte nos seguintes 
sintomas: a) Desorientação em tempo e espaço, contudo, sem prejuízo na 
orientação de si no mundo; b) Grave déficit na memória episódica, procedural 
(ao cozinhar especialmente), memória autobiográfica (grave), memória 
operacional, e reconhecimento; c) Velocidade de processamento alterado, e 
índice de velocidade de esquecimento totalmente alto; d) Elevado histórico 
familiar de Alzheimer;e) Evolução gradual e insidiosa; f) Alterações na 
funcionalidade, principalmente AIVD; g) Alterações 
emocionais/comportamentais; h) apresentação de anosognosia. 
Ponderando os resultados da avaliação neuropsicológica, foram dados os 
seguintes encaminhamentos: 1. Retorno a Equipe de Neurologia; 2. Manejo 
Ambiental focando na qualidade de vida da paciente e; 3. Retorno em seis meses 
para rastreio de desenvolvimento da patologia. 
A seguir, tendo em vista os fatores de risco que contribuem para o maior 
comprometimento cognitivo de idosos residentes de áreas rurais, sendo estes, 
as diferenças sociodemográficas que influenciam os níveis de escolaridade e o 
acesso a serviços de saúde (Dos Santos; De Lima; Scortegagna, 2024), faz-se 
necessário compreender o que compõe estas variáveis, no caso de Auguste. 
 
3.2 O CONTEXTO RURAL E A COMPREENSÃO DA DEMÊNCIA POR 
DOENÇA DE ALZHEIMER NO CASO DE AUGUSTE 
 
Tratando-se de regiões rurais, a principal via de acesso a serviços de 
saúde pública é a Atenção Primária à Saúde, que abrange os serviços de menor 
complexidade, sendo que, a oferta de serviços e especialidades neste tipo 
unidade é reduzida. (Magalhães et al., 2022). No geral, a população rural tende 
a esgotar as possibilidades de atendimento dentro de sua comunidade, 
independente da necessidade, antes de procurar por auxílio fora do seu território 
(Franco; Lima; Giovanella, 2021). Este, pode ser um fator determinante na 
 
 
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decisão do indivíduo de buscar, ou não, por uma especialidade médica 
específica quando adoece, como pode ser observado no caso de Auguste. 
Além da dificuldade para acessar os serviços especializados, muitas 
vezes os usuários precisam enfrentar filas extensas sem ter a garantia do 
atendimento, seja pela alta demanda, pouca disponibilidade de profissionais ou 
limite de atendimentos diários (Galvão et al., 2019). Também, ressaltam-se os 
custos com o transporte da população até os serviços, assim como a dificuldade 
de equipes de saúde para acessar alguns territórios mais remotos (Soares et al., 
2020). As populações rurais, menos favorecidas, já têm o acesso a serviços 
especializados ou hospitalares, diminuído, por terem que deslocar-se para isso. 
Entretanto, as populações menos favorecidas, limitam-se ao cuidado em saúde 
oferecido pelo deslocamento de profissionais, equipamentos e serviços até o seu 
território, por meio de veículos especiais (Franco; Lima; Giovanella, 2021). 
Como descrito no caso de Auguste, segundo pesquisadores chineses Liu 
et al. (2022), residentes de áreas rurais podem ter o diagnóstico de doenças 
crônicas atrasadas, devido à dificuldade de acessar a assistência especializada 
em saúde; sendo que o manejo inadequado deste tipo de doenças pode 
aumentar a probabilidade de maior comprometimento cognitivo futuro. No caso 
da DA, o diagnóstico precoce torna-se um elemento importante no 
desenvolvimento de um plano terapêutico eficaz, que facilite o manejo dos 
sintomas e, consequentemente, proporcione uma melhor qualidade de vida para 
o portador da doença e seus cuidadores (Nabosne; Da Cruz; Borges, 2024). 
Sendo que, a principal recomendação é a de um acompanhamento 
interprofissional, visando garantir a segurança e o bem-estar do paciente 
(Nabosne; Da Cruz; Borges, 2024), o que, também, se observa como indicação 
no caso de Auguste. 
O contato com as unidades de Atenção Primária à Saúde (APS) pode 
facilitar no manejo pré-clínico da DA, dado que ao ser acompanhado pela equipe 
o indivíduo pode questionar sobre suas dificuldades de memória. Esses 
questionamentos ampliam a possibilidade de identificar pacientes com potencial 
comprometimento cognitivo leve de maneira custo-efetiva. Quanto à patologia já 
existente, o diagnóstico precoce da DA pode promover apoio adequado e maior 
 
 
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controle sobre a vida, proporcionando o encontro de ferramentas emocionais que 
aumentem o bom enfrentamento psicológico, sua autonomia de decisões frente 
ao futuro amparado no diagnóstico, e uma boa qualidade de vida. Quando 
identificado nas fases iniciais, a pessoa tem a possibilidade de conhecer as 
formas de tratamento, e participar no planejamento de tratamento, questões 
financeiras, além de informar seus desejos de vida e sobre os cuidadores futuros 
(Nabosne; Da Cruz; Borges, 2024). 
Também, quando detectada nas fases iniciais da doença, o que não 
ocorreu no caso de Auguste, existe a possibilidade de manutenção de uma 
melhor qualidade de vida do paciente por vários anos. Já que, no estágio inicial, 
o indivíduo pode planejar-se para suprir suas futuras necessidades de apoio, 
cuidado e resolução de questões financeiras, bem como, pode comunicar seus 
desejos a seus futuros cuidadores (Nabosne; Da Cruz; Borges, 2024). O 
diagnóstico precoce facilita também o manejo dos familiares, já que, conforme 
Mayoral, Villas Boas e Jacinto (2022), ocorrem mudanças funcionais, de humor 
e de comportamento no portador, que podem ser de difícil adaptação aos seus 
futuros cuidados, assim como a transição para este papel. 
Entretanto, apenas o acesso ao serviço de saúde pública não garante a 
detecção precoce da doença. Em um estudo realizado por pesquisadores 
escoceses, que avaliou a eficácia de intervenções educacionais na detecção e 
manejo da DA, concluiu-se que os clínicos gerais têm dificuldades em detectar 
e gerenciar os sintomas da demência (Downs et al., 2006). Dessa forma, 
evidencia-se a dificuldade não apenas no acesso ao sistema, mas também na 
capacitação dos profissionais para diagnóstico e manejo da doença. 
Nasbone, Da Cruz e Borges (2024), referem que se torna indispensável o 
reconhecimento e manejo do risco de desenvolvimento da DA, para que se tenha 
a possibilidade de tomar decisões preventivas e ter acesso ao tratamento 
adequado. Nestes casos, a Organização Mundial da Saúde recomenda a 
implementação das diretrizes divulgadas mais recentemente sobre o assunto, 
visando prevenir o declínio cognitivo e o desenvolvimento de DA; isto, em 
combinação com o manejo dos fatores de risco identificados. Evidências 
consistentes indicam que identificar a demência precocemente ajuda a pessoa 
 
 
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a manter sua independência, reduzindo as chances de necessitar, no futuro, de 
internação em instituições médicas ou de cuidados para idosos. Assim, além de 
aumentar a eficácia do tratamento medicamentoso, que pode apresentar melhor 
desempenho quando administrado no início da doença, há possibilidades de 
resultar em economias financeiras significativas a longo prazo. 
 
4 CONCLUSÃO 
 
Este estudo de caso objetivou ilustrar a DA de uma senhora idosa 
residente no meio rural, com base na avaliação neuropsicológica e na literatura 
empírica. Auguste apresenta alguns fatores que devem ser destacados, como a 
baixa escolaridade e o histórico familiar de processos demenciais. Mesmo diante 
destes fatores de risco, a busca por serviços especializados em saúde foi adiada 
até o momento em que a doença já se encontrava em estágio com extensos 
prejuízos cognitivos e funcionais. Em casos como o de Auguste, compreende-se 
que o prognóstico e qualidade de vida do paciente podem ser melhores, quando 
a doença é diagnosticada em fase inicial. 
Diante destes resultados, reforça-se a necessidade de incremento de 
políticas públicas voltadas a educação e a assistência na APS, pois estaspoderiam além de promover ações educativas de autocuidado, de proteção a 
saúde humana, prevenir agravos por meio do diagnóstico e tratamento precoces, 
em uma atenção integral que impacte positivamente na saúde, no âmbito 
individual e coletivo. Aliado a isso, ressalta-se a necessidade de se superar os 
entraves ao acesso geográfico as APS, especialmente em zonas rurais, para 
garantir o alcance aos cuidados em saúde quando constatados os primeiros 
sinais da DA e minimizar a ocorrência e as consequências de um diagnóstico 
tardio. 
Por fim, os resultados deste estudo devem ser tratados com cautela, se 
concentram em um período de tempo específico e não podem refletir mudanças 
ou tendências a longo prazo, também não podem ser generalizados para uma 
população maior e devem ser analisados idiossincraticamente. Apesar dessas 
limitações, este estudo forneceu insights interessantes sobre um fenômeno 
 
 
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específico, a DA de uma senhora idosa residente no meio rural. Considerando 
as escassas pesquisas brasileiras que sustentem suficientemente o 
conhecimento prévio da temática pesquisada, há necessidade de seguimento de 
estudos voltados às especificidades do envelhecimento em zonas rurais com 
pessoas idosas com DA e diferentes níveis de escolaridade e condições 
socioeconômicas. 
 
AGRADECIMENTOS 
 
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de 
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de 
Financiamento 001 e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio 
Grande do Sul. 
 
 
 
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