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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA A herança dos descaminhos na formação do Estado de Roraima Reginaldo Gomes de Oliveira São Paulo 2003 2 Reginaldo Gomes de Oliveira A herança dos descaminhos na formação do Estado de Roraima Tese apresentada ao Programa de História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em História. Orientadora: Professora Dra. Marlene Suano São Paulo, 2003 3 Para minha avó materna, Lucinda Amélia Bezerra (in memoriam) com quem aprendi as primeiras letras. 4 FICHA CATALOGRÁFICA OLIVEIRA, Reginaldo Gomes de. A herança dos descaminhos na formação do Estado de Roraima. São Paulo, Universidade de São Paulo/ Reginaldo Gomes de Oliveira. São Paulo. Programa de Pós-Graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. USP, 2003. xv, 405 pp.: il., mapas e fotos. Fontes e Bibliografia pp. 327-358 1. Roraima. 2. Amazônia Contemporânea. 3. História Cultural. 4. História das Representações Políticas. 5. Geopolítica. 6. Relações Interétnicas. 7. Etno-história. I. Teses. II. Título. CAPA – Coletânea de fotos (da direita para esquerda) Cachoeira na região de Uiramutã, Monumento ao Garimpeiro, Cruzamento das avenidas Santos Dumont e Ville Roy, jovem índio de Roraima. Fotos do Guia Turismo em Roraima 2000. Boa Vista/RR. Publicação do Instituto FECOR. Abril de 2000. Montagem em Scan pelo autor. 5 Agradecimentos O presente trabalho encerra uma fase de vida repleta de satisfações, saudades, inquietações, conquistas e percalços. Nesse percurso muitas pessoas foram importantes e a elas expresso meu reconhecimento. Ao apoio financeiro da CAPES, através de bolsa do Programa de Incentivo a Capacitação e Desenvolvimento Tecnológico (PICDT), para a concretização deste trabalho. Ao Reitor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), através da Pró- Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, que me proporcionou o afastamento integral das atividades de docência. Aos funcionários e professores do Centro de Ciências Sociais e Geociências, do Departamento de História da UFRR, pela convivência e incentivos que viabilizaram a realização desta tarefa. Aos funcionários e professores do Departamento de História, do Núcleo de Estudos de História Oral e da Coordenação de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo (USP), pela forma carinhosa que me acolheram. Pelas várias oportunidades de diálogos com os professores Ulpiano T. Bezerra de Menezes, Maria Helena R. Capelato, José Carlos S. Bom Meihy, Maria Aparecida de Aquino (DH/USP), Dominique T. Gallois (DA/USP) e Francisco Carlos T. Silva (DH/UFRJ), cujas discussões e sugestões durante o curso foram esclarecedoras para o trabalho. A todos os funcionários de Bibliotecas pela atenção especial, indicação e localização dos documentos. O acolhimento na Biblioteca e Arquivo da Fundação S.O.S Mata Atlântica e do Instituto SocioAmbiental também foi significativo. Os senhores Jerônimo Pereira da Silva (Coordenador do Conselho Indígena de Roraima), Martinho Alves de Andrade Júnior (Administrador Regional da FUNAI/RR) e 6 Artur Nobre Mendes (Secretário Técnico do PPTAL-Brasília/DF) foram solícitos e suas contribuições encurtaram o caminho da pesquisa. Aos membros da Banca de Qualificação Professores Ulysses Telles Guariba Neto e Marcos Antonio Silva (DH/USP), com observações críticas e sugestões ajudaram a definir, com maior precisão, a forma e o conteúdo do trabalho. Essa tese deve muito aos amigos pela colaboração e afeto. Minha gratidão a Claudia Alves, Déborah Freitas, Heloisa Marques, Maria Helena Oyama, Sonia Lobato, Maria Helena Bezzi (in memoriam), Antônio Lobo Stevens, Lourival Néto, Paulo Silva, Ricardo Vagner Oliveira e Roberto Ramos, que contribuíram de várias formas e cada uma à sua maneira para que o projeto se realizasse. A leitura e sugestões de Júlio Galharte foram valiosas. Aos membros da Banca de Defesa Professores Dalmo de Abreu Dallari (FD/USP), Ulysses Telles Guariba Neto, Lincol Ferreira Secco (DH/USP) e Paulo Henrique Martinez (convidado), com observações críticas e sugestões para estudos futuros. Marlene Suano (DH/USP), orientadora e amiga, acompanhou este trabalho lendo-o inúmeras vezes com paciência inesgotável. Durante todo esse percurso manteve diálogo, fez sugestões, mais do que isso, em sua convivência tomei mais gosto pela história. Um agradecimento particular aos meus pais, Paulino e Delzira, de quem tenho recebido nestes anos de tantos esforços, seu carinho, apoio e compreensão. Compartilho com eles as alegrias do final; aos queridos irmãos, Rinaldo, Ranieri e Richard (in memoriam) e irmãs, Rosângela, Rossinete e Rosanir, com quem compartilho a vida; aos demais familiares pela demonstração de afeto. 7 SUMÁRIO Lista de Mapas, Figuras, Fotos e Quadros 09 Lista de Abreviaturas 11 INTRODUÇÃO 18 CAPÍTULO 1 RORAIMA: um olhar histórico e sócio-político do XVI ao XIX 35 1.1 Amazônia Setentrional, perspectivas históricas dos séculos XVI e XVII 36 1.2 Rio Branco, a expansão política e econômica portuguesa com o Maranhão e Grão-Pará 58 1.3 A construção da Amazônia brasileira, séculos XVIII e XIX 69 1.4 As Tropas de Resgates e as Aldeias Missionárias na conquista da rota fluvial e povoamento 75 1.5 Forte São Joaquim e a consolidação da conquista do Rio Branco 90 1.6 A reação indígena contra o Estado português e a denominada “Praia do Sangue” 96 1.7 As fazendas na bacia do Rio Branco 101 1.8 Roraima no Império 109 CAPÍTULO 2 RORAIMA no século XX: perspectivas históricas, culturais, e políticas 118 2.1 O retorno das expedições científicas ao Rio Branco 128 2.2 O retorno do mito “El Dorado” 131 2.3 A Igreja Católica de Roraima e a causa indígena 139 8 2.4 Organização e reação indígena 150 2.5 Ação do Estado, organização e reação da sociedade não- indígena 166 2.6 Povoamento e meios de comunicação 171 CAPÍTULO 3 A gênese do Estado: do Território Federal à Constituição Federal 175 3.1 Rio Branco, a criação do Território Federal 177 3.2 Os municípios e as áreas indígenas: desencontros dos caminhos da memória 208 3.3 A Constituição Federal de 1988 219 3.4 A criação do Estado de Roraima 230 CAPÍTULO 4 A primeira década do novo Estado 239 4.1 4.2 Os legisladores estaduais e suas propostas Os novos municípios 241 263 CAPÍTULO 5 Um laboratório de História Social a céu aberto: lideranças e suas ações 276 5.1 As lideranças e seus projetos 278 5.2 Questões emanentes 283 CAPÍTULO 6 Considerações Finais 325 6.1 Ruptura da monoconsciência indígena 326 6.2 O Estado proprietário 331 6.3 Soluções possíveis?/ Possíveis destinos? 335 9 FONTES E BIBLIOGRAFIA 347 MAPAS, FIGURAS, FOTOS E QUADROS Mapa 01 - Forte de São Joaquim93 Mapa 02 - Antigos e Novos Fortes na Amazônia, século XVIII 95 Mapa 03 - Migração Indígena, século XVIII 99 Mapa 04 - Territórios atribuídos ao Brasil e à Grã-Bretanha, em 1904 113 Mapa 05 - Mapa 06 - Geopolítica de Roraima, em 1995 Áreas Indígenas em Roraima, em 1993 269 270 Mapa 07 - Projeto Calha Norte 296 FIGURA Figura 01 - Vista aérea do Rio Branco 74 Figura 02 - Maloca Macu 89 Figura 03 - Forte São Joaquim e Povoamento 92 Figura 04 - Bacia do Rio Branco: cenas de trabalho indígena 115 Figura 05 - Escola em Boa Vista, professores e alunos 126 Figura 06 - Seminário de Educação Indígena 164 Figura 07 - Reivindicação indígena 165 Figura 08 - Reivindicação dos não-indígenas 170 Figura 09 - Vista aérea de Boa Vista 187 FOTO Foto 1 - Município de Alto Alegre 213 Foto 2 - Município de Bonfim 213 Foto 3 - Município de Caracaraí 214 10 Foto 4 - Município do Mucajaí 215 Foto 5 - Município de Normandia 215 Foto 6 - Município de São João da Baliza 216 Foto 7 - Município de São Luiz do Anauá 217 Foto 8 - Município de Amajari 264 Foto 9 - Município de Cantá 265 Foto 10 - Município de Caroebe 265 Foto 11 - Município de Iracema 266 Foto 12 - Município de Pacaraima 266 Foto 13 - Município de Rorainópolis 267 Foto 14 - Município de Uiramutã 268 Quadro Demonstrativo Quadro 01 - Estado de Roraima. Estimativa da população indígena 154 Quadro 02 - Roraima, população residente 201 Quadro 03 - Roraima, população rural e urbana: importância relativa (%) 1940/1950/1960/1970/1980/1991 201 Quadro 04- Terras da União em Roraima 206 Quadro 05 - População do Estado de Roraima 260 Quadro 06 - Eleitorado de Roraima entre 1990 a 2001 271 Quadro 07 - Distribuição do Eleitorado por municípios 272 Quadro 08 – Quadro 09 – Quadro 10 - Quadro 11 - Distribuição do Eleitorado no Estado Organização Não-Governamental Indígena (ligadas ao CIR) Organização Não-Governamental Indígena (não ligadas ao CIR) Organização Não-Governamental Não-Indígena (a favor do índio) 272 278 279 279 11 Quadro 12 - Quadro 13 - Quadro 14 - Quadro 15 - Quadro 16 - Organização Não-Governamental Nacional Organização Não-Governamental Internacional Igreja ou Instituição Religiosa Área Federal Representantes da sociedade roraimense 279 280 280 281 283 Quadro 17 - Terras indígenas em Roraima 332 ABREVIATURAS ABA : Associação Brasileira de Antropólogos. ADCT : Atos das Disposições Constitucionais Transitórias. AMBTEC : Fundação do Meio Ambiente e Tecnologia de Roraima. BID : Banco Interamericano de Desenvolvimento. BIRD : Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento. BN : Jornal Brasil Norte (Boa Vista/RR). CAPH/USP : Centro de Apoio à Pesquisa em História da Universidade de São Paulo. CEDI : Centro Ecumênico de Documentação e Informação. CIDR : Centro de Informação Diocese de Roraima. CIMI : Conselho Indigenista Missionário. CIR : Conselho Indígena de Roraima. CNBB : Conselho Nacional dos Bispos do Brasil. COIAB : Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. CPI : Comissão Parlamentar de Inquérito. CSN : Conselho de Segurança Nacional. DNPM : Departamento Nacional de Produção Mineral. DOU : Diário Oficial da União. EMBRAPA : Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. 12 FBV (grifo nosso) : Jornal Folha de Boa Vista (Boa Vista/RR) FLONA : Floresta Nacional. FOIRN : Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. FUNAI : Fundação Nacional do Índio. GTA : Grupo de Trabalho Amazônico. IBAMA : Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. IBGE : Instituto Brasileiro de Geografia e Estatístico. INCRA : Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. INPA : Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. ISA : Instituto SocioAmbiental. JB : Jornal do Brasil MEAF : Ministério Especial de Assuntos Fundiários. MEVA : Missionários Evangélicos da Amazônia. MINTER : Ministério do Interior. MMA : Ministério do Meio Ambiente. NDI : Núcleo de Direito Indígena. OAB : Ordem dos Advogados do Brasil. OD (grifo nosso) : Jornal O Diário (Boa Vista/RR) OIT : Organização Internacional do Trabalho. ONG : Organização Não-Governamental. ONU : Organização das Nações Unidas. OPAN : Operação Anchieta. PCN : Projeto Calha Norte. PND : Plano Nacional de Desenvolvimento. PUC/SP : Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. RBG : Royal Botanical Gardens. SADEN : Secretaria de Assessoramento de Defesa Nacional. SAE : Secretaria de Assuntos Estratégicos. SEBRAE : Serviço de Apoio ao Micro e Pequenas Empresas. 13 SEPLAN/RR : Secretaria de Planejamento do Governo de Roraima. SIPAM : Sistema de Proteção da Amazônia. SIVAM : Sistema de Vigilância da Amazônia. SPI : Serviço de Proteção ao Índio. SUDAM : Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia. SUFRAMA : Superintendência da Zona Franca de Manaus. UFRR : Universidade Federal de Roraima. UNESCO : Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. WWF : Fundo Mundial para a Natureza. ZFM : Zona Franca de Manaus. 14 RESUMO O Estado de Roraima, que faz fronteira com a Venezuela e a Guiana, apresenta um relevo acidentado e localiza-se entre ambientes com problemáticas ecológicas distintas: serra, lavrado e floresta. Existe nessa região uma multiplicidade social e cultural indígena e não-indígena em que as relações se mostram marcadas por violências culturais, políticas, sociais, extorsão econômica e deterioração ambiental. Roraima foi transformado de Território Federal em Estado da União com a promulgação da Constituição Federal do Brasil de 1988. A partir da década de 1980, com o processo de “Abertura Política” e as manifestações sociais vinculadas ao movimento das “Diretas Já”, surgiu no Estado uma discussão sobre cidadania, direitos civis, demarcação de reservas indígenas e implantação de novos municípios, com a participação de Organizações Não-Governamentais (ONGs) indígenas e não-indígenas, como também de instituições governamentais. O objetivo deste trabalho é analisar como essa sociedade roraimense incorporou essas transformações sócio-culturais e políticas, caracterizadas por inovações previstas na nova Carta Magna brasileira, por mudanças de posturas e concepções não apenas em relação à infra-estrutura do novo Estado mas pelas exigências de novos comportamentos da população local frente à presença do índio (pró-tradição e pró-nacional), o qual tem reivindicado o reconhecimento de seus direitos (Arts. 231 e 232 da CF/88 e art. 173 da CE/91), respeitando o tratamento diferente entre os índios e não-índios tanto na construção da nova sociedade como na formação do Estado de Roraima. Ao se analisar os confrontos estabelecidos dentro da pluralidade sócio- cultural e geopolítica de Roraima, não se destaca um certo e um errado, mas o que atende ao movimento de construção do conhecimento e do exercício da cidadania, conseqüente à busca de valores permanentes no contexto sócio- 15 cultural e na nova ordem institucional surgidacom a Constituição Federal de 1988 e, depois, com a Constituição Estadual de 1991. Nesse sentido, considerou-se fundamental a publicação na imprensa local das idéias dos atores sociais e sujeitos políticos de Roraima que se constituíram como uma de nossas fontes. Analisamos suas visões e posturas associadas às novas formas de relações e vivências, identificando os conflitos presentes entre os vários segmentos sociais roraimenses. Esses discursos veiculados na imprensa, justamente por serem ideológicos, mostraram-se importantes na compreensão dos dois projetos, o da cultura “branca”, de integração nacional, e o das nações indígenas, divididas inelutavelmente entre a manutenção de seu estatuto original e a integração nacional, nas últimas décadas da história de Roraima. Esse confronto da história “branca” com a história nativa que, ao mesmo tempo, mesclou-se e dividiu-se etnicamente, por interferência da administração econômica do Estado, pela ação religiosa da Igreja, gerando conflitos entre o cristianismo e as religiões tribais e, também, pela ação educativa “branca” que perduram na história do tempo presente roraimense. Dessa maneira, as conseqüências advindas de tal confronto, que historicamente favoreceu o poder do Estado “branco”, mostra-se em uma situação de verdadeiro “laboratório” para entendermos a formação tanto de Roraima como do Brasil contemporâneo. PALAVRAS-CHAVE: Roraima; Amazônia Contemporânea; História Cultural; História das Representações Políticas; Geopolítica; Relações Interétnicas. 16 ABSTRACT Sharing borders with Venezuela and Guyana, the State of Roraima presents an uneven topography as it is located among areas with distinctive ecological problems such as hills, valleys and forests. There exists a social and cultural multiplicity involving indigenous and non-indigenous people, with the relationships being marked by cultural violence, political and social problems, economic extortion, and environmental deterioration. In 1988, along with the Brazilian Federal Constitution, Roraima was transformed from a Federal territory into a Union State. At the beginning of the 1980's, a discussion regarding citizenship, civil laws, demarcating of Indian reserves and the establishment of municipal districts came about as a result of the "Political Opening" process and social manifestations associated with the movement for direct elections during the colonel years. Along with this, there was the participation of non-governmental organizations (indigenous and non- indigenous) as well as governmental institutions. This work intends to analyze how the Roraima society incorporated those socio-cultural and political transformations characterized by the innovations in the new 1988 Brazilian Charter. The changing conceptions and postures not only related to the new State's infrastructure, but also the demands of the local population's behavior regarding the presence of the Indian, now demanding the recognition of the indigenous right for the construction of the new society. Analyzing the confrontations established inside the socio-cultural and geopolitical plurality of Roraima, there does not appear to be a right and a wrong side. Consequently, in the search of permanent values in the socio-cultural context and in the new institution order, there is an increase in knowledge and the exercise of citizenship. 17 In that sense, it was considered fundamental the local press publication of the social and political ideas of roraimense citizens as one of our sources. We analyzed their visions and postures associated with the new form of relationships and existences, identifying the existing conflicts among the several segments social roraimenses. Those speeches published in the press, because of their ideological connotations, are very important for the understanding of the last two decades of the history of Roraima. A history of the present time roraimense as a true "laboratory" for our fundamental understanding of the establishment and process of the mentality and of political institutions in Roraima and in contemporary Brazil. Key Words: Roraima, Contemporary Amazon, Cultural history, History of the Political Representations, Geopolitical, Interethnic relationships. 18 Introdução ... a posse da terra gerou o poder e a propriedade gerou o Estado. DALLARI, 2002:55 Este trabalho tem por finalidade apresentar investigações sobre o mundo amazônico no qual o atual Estado de Roraima vem sendo sedimentado. Ele surgiu da ansiedade peculiar em si de lançar um olhar histórico-cultural e sócio- político do século XVI ao século XX sobre o Estado supracitado. O mesmo foi desenvolvido por meio de estudos, depoimentos e pesquisas realizadas em livros, revistas, jornais e outros documentos ligados ao contexto histórico ou sócio-político-econômico e cultural de Roraima. Sua divisão abrange os seguintes passos: metodologia e fontes usadas no processo de investigação, ênfase na trajetória histórica e sócio-política do século XVI ao XIX; as perspectivas históricas, culturais e política de Roraima no século XX; a gênese do Estado, as lideranças sociais e suas ações e enfoques finais. O estudo justifica-se pela possibilidade de reinterpretar as contradições envolvendo o Estado, os índios e os não-índios e de revisar importantes questões, como o desenvolvimento e as estratégias políticas na condução dessa situação de conflito, das forças constituintes do Estado e das ONGs indígenas e não-indígenas. Essa questão se dá não só em Roraima, mas em várias regiões do Brasil contemporâneo, que após a Constituição Federal de 1988 se abriram num espaço de novas reordenações políticas e econômicas na construção da cidadania, influenciadas pelo processo de redemocratização do país. De início, é importante ressaltar que, embora promova uma discussão a respeito do comportamento das diferentes formas de representação e organização na formação do Estado e da sociedade roraimense, a nossa 19 investigação não privilegia o estudo mais complexo de suas organizações internas (índios e não-índios), mas sua trajetória na construção do Estado e da sociedade local entre 1988 a 2002, quando Roraima se transforma em Estado Federado, vivenciando suas três primeiras legislaturas. Nesse processo de construção, tanto do Estado como da sociedade, como momento “histórico imediato”, os representantes do Estado e da sociedade local ampliaram seu poder, possibilitado pelo exercício democrático do novo tempo. Trata-se, portanto, de uma realidade histórica interagindo na experiência de vida que implica no reconhecimento de si mesmo como objeto e sujeito da história. “Ela quer se elaborar a partir desses arquivos vivos que são os homens” (LACOUTURE, 1993:217). Assim sendo, estuda-se aqui o tempo presente e um momento emerso da multiplicidade sócio-cultural em conflito, que abrange uma população indígena (constituída por diferentes etnias), uma população não-indígena (formada por fazendeiros, empresários produtores, pequenos agricultores, garimpeiros, militares, religiosos, políticos, administradores, funcionários públicos, entre outros grupos brancos e já mestiçados, mas com titulatura de brancos) e considerável massa de mestiços que, via de regra, se identificam como brancos. Nesse espaço de tempo (1998 a 2002), investigou-se Relatórios do Grupo de Trabalhos Amazônicos (GTA) e de outros grupos que abriram debates em Seminários e Fóruns no tratamento dessa questão indígenana Amazônia Legal. Apesar dos resultados apresentarem sugestões com certos avanços nas reflexões políticas e sociais, direcionadas para processos produtivos auto-sustentáveis, os depoimentos dos participantes índios e não-índios ainda se mostravam presos às dificuldades financeiras e aos problemas conceituais e metodológicos, ditados pelas regras técnicas de um mercado local mundializado. 20 Por isso, ao interpretarmos o significado da contemporaneidade roraimense, seguimos os caminhos indicados por certo viés da historiografia francesa associada à história imediata, social, cultural e política, como também de historiadores que enfatizando a importância da cultura na ação social, preocupados em recuperar as experiências da vida contemporânea1. Tudo isto aponta formas de interpretação histórica que marcaram o aparecimento de uma nova visão formulada pela percepção de que, em uma determinada realidade social, a população experimenta suas situações cotidianas e relações “instantâneas em sua apreensão, simultânea em sua produção do fazer a história imediata” (LACOUTURE, 1993:214). Esse domínio “imediatista”, ligado a um objeto de estudo bastante recente, coloca o historiador e seu campo de pesquisa, como “arquivos humanos”. Esse novo enfoque, no processo histórico, voltado sobretudo para o nosso campo de estudo em Roraima, mostrou indícios significativos entre as situações sócio-culturais e as relações políticas e econômicas, no processo de formação do Estado. Tal como a percebemos, essas situações aparecem determinadas por diferentes necessidades e interesses que se mesclaram em antagonismos, inseridos em um dinamismo de apreensão simultânea. E, em seguida, observamos que essas “situações e relações não param de se mexer, recusando um verdadeiro enquadramento, bem como uma acomodação satisfatória” (LACOUTURE, 1993:222). Jean Lacouture (1993) sugere que o historiador desse processo do tempo presente, como é o caso citado acima, seja, ao mesmo tempo, um “coletor” de situações e “produtor de efeitos”, ou seja, o pesquisador é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da história. Portanto, podemos dizer que, para o historiador 1. Como Edward H. Carr (1996) que exprime certa preocupação em termos de desenvolvimento humano numa abordagem mais ampla da história. Nessa linha de ação temos também as obras de THOMPSON (1998) que desmistificam a história e mostram que o uso de entrevistas, como fonte oral, pode ser utilizado juntamente com as fontes tradicionais da história, na construção de uma memória mais democrática do passado. 21 contemporâneo, é muito mais difícil situar e entender a realidade de seu próprio tempo do que a do século XVIII, por exemplo. Desse modo, os “efeitos” reveladores dos conflitos sócio-culturais e políticos podem ser analisados como “bibliotecas vivas”, o que torna um desafio para se escrever a história de hoje. Essa percepção histórica associada à contemporaneidade, com caminhos teórico- metodológicos dividindo-se em muitas direções, fez com que nossas experiências locais contribuíssem para as descobertas da pesquisa, mesclando a relação “sujeito-objeto” desse dinamismo da história contemporânea. Outra possibilidade de análise que condiz com o estudo em questão é de Roger Chartier (1988), que propõe levar-se em consideração as experiências humanas, em que os estudiosos buscam seus argumentos teóricos. O autor apresentou reflexões que apontaram para concepções mais sensíveis às desigualdades sócio-culturais, tomando como ponto central da apreensão histórica a cultura de um determinado contexto social. Tal apreensão se dá por meio das lutas e suas formas de organizações e representações sócio-culturais, cujos mecanismos de atuação contribuem para o entendimento da concepção e do mundo social investigado. Nesse contexto, acreditamos que “as percepções do social não são de forma alguma discursos neutros (...). Por isso esta investigação sobre as representações supõe-nas como estando sempre colocadas num campo de concorrências e de competição” (CHARTIER, 1988:17). Todos esses aspectos deram origem a um conjunto de situações problemáticas na história atual, em que a História de Roraima não é a exceção e que permitiu a inclusão de novos instrumentos da vida cotidiana suscitados pelas diferentes práticas sócio-culturais e do novo enfoque teórico-metodológico no processo da História Contemporânea. Após a década de 1980, intensificaram-se trabalhos de historiadores que retomaram aspectos do domínio tradicional da história e deram novos enfoques metodológicos no campo historiográfico, 22 incluindo os “novos objetos” que foram definindo a denominada História Nova (LE GOFF, 1993:44). Essa nova concepção historiográfica de exploração aberta das experiências da cultura humana propõe um diálogo mais próximo com as outras áreas do conhecimento científico. Nesse sentido, as representações mentais ganharam importância nessa mediação da história nova, ampliando condições ao aprendizado e conhecimento histórico. Essa orientação de pesquisa histórica, em diálogo com as outras áreas das ciências humanas, influencia determinados estudos que, nesse modelo, escolhem um procedimento teórico-metodológico adequado ao seu corpus documentário (ARIÈS, 1993:161). Há quem considere que o historiador não precisa fazer uma “escolha definitiva” entre as estratégias interpretativas para conduzir a sua pesquisa (HUNT, 1992:21). Embora existam muitas diferenças, tanto nas tendências teóricas como nas metodológicas, a ênfase na história da cultura está no exame minucioso dos documentos (textos, imagens, práticas sociais, etc.) e da abertura crítica diante do que será mostrado por esse exame. Assim, tanto Chartier (1988) quanto Hunt (1992) enfatizam a importância do significado e dinamismo sócio-cultural revelando e recuperando as expressões e interpretações do passado-presente no processo contemporâneo da história cultural. Na verdade, eles apresentaram uma linha de pesquisa que expõe um campo novo de apreensão histórica, intimamente relacionada num diálogo com as outras áreas do conhecimento humano. Nesse sentido, os autores mostraram que as concepções das quais partimos não são apenas teorias, mas também novos problemas da nossa história contemporânea que devem ser recuperados nos movimentos históricos do tempo presente. Tais contribuições historiográficas reiteram nossa crença na necessidade de estudos mais aprofundados do contexto contemporâneo da história de Roraima, 23 que vivencia múltiplas organizações e formas de representações sociais e políticas (indígenas e não-indígenas), entre práticas e apropriações de novos paradigmas da cultura política na criação desse novo Estado amazônico. Essa temática intrigante remete à questão do conceito de nação que foi pensado, sobretudo, em meio às efervescências da Revolução Francesa, como um “conceito político territorial, cuja base era a existência de uma lei comum e de um corpus de cidadania...” (SALIBA, 1993:310). Tal lei de caráter universal proporcionaria aos indivíduos uma unidade mais ampla que propiciaria benefícios comuns a todos os cidadãos. No entanto, percebe-se que existe um prejuízo, em termo de direitos, com relação aos índios que perderiam sua identidade específica relativa a cada grupo indígena. A isto se contrapôs a uma outra interpretação da nação, fruto de reflexões contemporâneas, pelas diferentes correntes da história e da antropologia, de nação pensada pela memória cultural. Tal concepção formula uma unidade mais ampla à qual o coletivo, como fonte de valor e conduta, desfrutariade muitas coisas em coesão: terra e cosmo (ANDERSON, 1989; CANETTI, 1995; SALIBA, 1993; CARDOSO DE OLIVEIRA, 2000; VIVEIROS DE CASTRO, 1998). Nesse contexto, de caráter peculiar e de um povo organizado culturalmente em uma relação de parentesco com a terra interligada ao cosmo, revivificada nos mitos e ritos da coletividade e da memória, estão as etnias indígenas. Existem autores, entre eles Berta Becker (1994), que se esforçam por mostrar esse conceito partindo da idéia “Nação & Região” num cenário de fragmentação contemporânea: O conceito de Região é bem mais antigo, mas foi redefinido com a formação do Estado Territorial Moderno. Corresponde à territorialização do Estado-Nação: a nação se concretiza em combinações diferenciadas de frações de classes e de grupos no território nacional, constituindo sociedades locais variadas. E a Região passa a ser esta dimensão territorializada do Estado-Nação (BECKER, 1994:103). 24 Considerando o posicionamento dos pensadores anteriormente mencionados e as temáticas pesquisadas nos capítulos, em função de suas especificidades, apresentam recortes entre os séculos XVI até o início do XXI. Assim, o tempo geo-histórico, geo-político e as relações etno-históricas do nosso estudo estão marcados por três momentos: o primeiro conjunto de problemas diz respeito aos séculos XVI e XVII que registraram os primeiros contatos entre índios e europeus nessa região das Américas, sob o poderio da Coroa da Espanha e depois de Portugal com os séculos XVIII e XIX dentro de um conjunto de problemas sócio-políticos, econômicos e fundiários; o segundo relaciona-se aos impactos sociais, culturais, políticos, econômicos, relativos à construção do espaço social roraimense com a criação do Território Federal do Rio Branco e a transformação em Estado Federado; o terceiro se liga às questões sociais e étnicas relativas aos conflitos envolvendo o Estado/União, os índios e os não- índios no século XX e começo do XXI, que registraram diferentes momentos de modelos desenvolvimentistas para a região, definindo objetivos na geopolítica administrativa e defesa da região pelo governo local e governo Federal. Procura-se, também, desvendar o processo político vivido pela sociedade local (índios e não-índios), atrelada a diversas esferas governamentais do poder central. Como tais esferas fizeram da região Território Federal (Constituição Federal de 1937, no período conhecido como Estado Novo) e, 45 anos depois, Estado Federado, por meio da Constituição brasileira de 1988 (durante o processo de redemocratização do país). Além disso, deseja-se avaliar o conflito das forças constituintes do Estado de Roraima frente a questões da terra e dos confrontos envolvendo o Estado/União, os índios e os brancos, no decorrer das duas últimas décadas do século XX e como tal assunto vem sendo tratado na esfera do Estado e pela sociedade roraimense (índios e não-índios). 25 Nesse sentido, nosso recorte abrange até a segunda metade dos anos de 1990, quando houve, de forma mais intensa, a comunicação rodoviária nacional e internacional na região, o movimento de imigração não-indígenas e indígenas, o posicionamento dos líderes e representantes da sociedade local (índios e não- índios), com a marcante presença do índio pró-tradição (vinculada à Diocese de Roraima) e do índio pró-nacional (ligado ao Estado), que reivindicaram direitos segundo os princípios da Constituição brasileira/88 e da Estadual/91. Almeja-se que esta pesquisa venha abrir caminho para que novos estudos sejam realizados neste foco histórico do Brasil setentrional e que não fiquem só em caracterização e análises, mas busquem soluções efetivas em escala abrangente; levando, desta forma, este trabalho a contribuir um pouco mais com o desenvolvimento histórico deste Estado. Fontes e Métodos Um dos elementos de desvelamento desse processo histórico contemporâneo de Roraima em expansão e intimamente vinculado ao pensamento nacional será um exame da imagem do índio e do não-índio como texto narrativo, incorporado nas múltiplas explicações em forma de documento escrito e entre outras publicações sobre o tema em estudo. Para situar essa visão do índio e branco na trajetória histórica, a partir do século XVI até o XX, buscar-se-á, nas fontes escritas, evidências de dados portadores desses aspectos registrados pelos viajantes, expedições exploratórias, referentes tanto ao processo histórico de Roraima como associados às narrativas presentes nos diferentes interesses com a terra que estão representados na cultura e na consciência indígena e não-indígena roraimense. 26 Por outro lado, constituem nossa base documental, todos os textos produzidos e veiculados na região nesse período que faz referência à questão proposta que é analisar a formação desse Estado e da sociedade nacional local (multicultural), indicando aspectos que podem ter provocado o conflito das forças constituintes e a questão da terra entre Estado e União, os índios e a sociedade local. Trata-se de entender a política integracionista, que deu, pela primeira vez, com a Constituição brasileira de 1934 sendo reiterado com a de 1988, o status jurídico ao índio. Daí, os territórios das nações indígenas poderiam ser utilizados como usufruto, em seus benefícios. Contudo, tais normas jurídicas que tratam dos direitos dos índios geraram entre as famílias indígenas (pró-tradição e pró- nacional) e a sociedade nacional local, violentos conflitos e distintas posturas políticas em relação a essa situação de reivindicação de direitos que ganharam proporções nacionais e internacionais. Diante de tal diversidade, nesse contexto sócio-cultural, devemos fazer um balanço dos dez anos da transformação de Território Federal em Estado da União, ao longo desse processo de redemocratização do sistema político brasileiro, tanto na estrutura do Estado como do país, com o fim de compreender qual é a dinâmica social do índio e do não-índio nesse processo político e econômico que foi reordenando a construção de Roraima. Como exemplo, identificamos, nos programas de desenvolvimentos para Roraima, discutidos nos fóruns em Boa Vista, ações voltadas para incentivos fiscais, tributários e de créditos beneficiando empresários decididos a investir no Estado. Dessa forma, percebemos como o poder executivo estadual teve grande 27 influência nos fóruns em favor da elite, sem se comprometer com uma política indigenista2. Essa problemática ganhou novos significados políticos e se destacou como importante tema de debates em fóruns realizados por distintas organizações (oficiais e não-governamentais) locais, nacionais e internacionais. Tais debates produziram documentos3 que buscamos em algumas bibliotecas, arquivos de órgãos oficiais e não-governamentais, na imprensa local e em sites na internet envolvidos com essa questão social, cultural e ambiental amazônica. Nesses documentos, buscar-se-á dados para a compreensão dos discursos dos representantes das organizações governamentais e não-governamentais, como fontes que aproximem as múltiplas concepções e a plural experiência de vida da população roraimense. Para estudar tal questão, reexaminar-se-á todos os dados de algumas propostas e documentos relacionados às políticas públicas, sociais e ambientais, que procuraram incorporar em seus conteúdos os elementos dessa tendência contemporânea. Essas propostas, de interesse do governo federal para a Amazônia tendo o apoio de ONGs nacionais e internacionais, apresentaram objetivos vinculados aos interesses do Grupo dos Sete4 na questão dos povos indígenas e das florestas tropicais do Brasil.Citamos algumas: 2. Alguns conceitos relacionados ao histórico da situação do índio aparecem com freqüência no objeto da pesquisa como: Indigenista, segundo estudos antropológicos, significa política de atuação adotada pelo governo ou organização não-governamental em relação aos índios. Indigenismo, conjunto de idéias e valores favoráveis em relação ao índio dentro da política Indigenista. 3. Relatórios, projetos, dossiês, anais, artigos, notas, pareceres, cartas abertas, discursos, revistas, boletins, jornais, sites (Internet), entre outras publicações sobre o tema em estudo. Esse material foi levantado, entre 1998 a 2002, na Biblioteca da Universidade Federal de Roraima, Biblioteca Pública de Roraima, Biblioteca Pública do Amazonas, do Instituto Nacional de Pesquisa do Amazonas, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Biblioteca da Universidade de São Paulo e no Centro de Apoio à Pesquisa em História (CAPH/USP), Biblioteca da PUC/SP, Biblioteca do Centro Cultural São Paulo. Coletamos informações na Secretaria de Planejamento de Roraima, Coordenadoria de Turismo de Roraima, Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social (RR), Fundação Nacional do Índio em Roraima, Diocese de Roraima, Conselho Indígena de Roraima, Grupo de Trabalho Amazônico, Instituto SocioAmbiental (SP), Fundação S. 0 . S. Mata Atlântica (SP). 4. G-7, representa os sete países mais ricos do mundo e lidera políticas públicas sociais e ambientais no planeta: Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Itália, Reino Unido e Japão. O interesse pelas florestas 28 a) Proposta Preliminar para um Programa Piloto para a Conservação da Floresta Amazônica. IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Brasileira. Brasília-DF: Editor IBAMA, novembro de 1990; b) Projeto Piloto para o Programa de Proteção das Florestas Tropicais do Brasil. FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Brasília-DF: FUNAI, 1992; c) Projeto do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras: projetos demonstrativos – PD/A. Governo do Brasil, Banco Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), Comunidade Européia. Brasília-DF, dezembro de 1992; d) Projeto Piloto Ambiental de Desenvolvimento Auto-Sustentado para a Área Indígena Raposa Serra do Sol. PPTAL5. Brasília-DF: FUNAI, abril de 1994. e) Pilot Program to Conserve the Brazilian Rain Forest: Indigenous Lands Project. World Bank. Washington-USA/World Bank, June 6,1995; f) Projeto de Apoio ao Manejo Florestal na Amazônia. Projeto de Apoio ao Manejo Florestal na Amazônia. IBAMA. Brasília-DF: IBAMA, jan/1996; g) Projeto de “Capacitação em questões Indígenas”. PPTAL. Brasília-DF: PPTAL, 1997. tropicais do Brasil surgiu durante uma reunião do G-7, em julho de 1990 em Houston, na qual a cúpula do G-7 e os representantes do Brasil desencadearam entendimentos para propostas ambientais e sociais em parcerias: Governo do Brasil, a Comissão das Comunidades Européias e o Banco Mundial. 5. PPTAL, termo que passou a identificar o projeto do “Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais para toda a Amazônia Legal”. A Comissão do PPTAL, composta por representantes nacionais e internacionais ligados ao G-7 e o governo federal tem sede em Brasília-DF, analisa os interesses em jogo e dá o parecer aprovando ou não os projetos elaborados com propostas de desenvolvimento social e ambiental que são de responsabilidades do PPTAL. 29 h) Projeto de “Gestão Integrada do Estado de Roraima”. Governo de Roraima/Secretaria de Planejamento. Boa Vista-RR: SEPLAN, setembro de 1997. Esse universo de fontes apresentavam metas de interesse única e exclusivamente voltadas para o ambiente como se este estivesse apartado da questão social. No entanto, depois, surgiram Relatórios de Avaliação dessas fontes com preocupação tanto ambiental quanto social. Estudaremos alguns: a) Relatório Anual com o título: “Políticas Públicas para a Amazônia”. Instituto de Estudos Amazônicos e Ambientais (IEA). Brasília-DF, janeiro. 1993; b) Relatório da Segunda Reunião dos Participantes do “Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil”. Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal (MMA). Belém/Pará, 6- 7.julho.1995. c) Relatório com sugestões para um Projeto Integrado de “Proteção das Terras Indígenas e Populações Indígenas na Amazônia Legal”. Oficina de Trabalho/FUNAI/GTZ6. Brasília-DF, setembro.1995. d) Report of the International Advisory Group (IAG) of the G7 Pilot Programme to Conserve The Brazilian Rainforest (PPG7), Eighth Meeting. Brazil: Brasília-DF, 7-8.July.1997. Relatório do Grupo Assessor Internacional para acompanhar e orientar a implementação dos programas governamentais voltados para questões ambientais e questões indígenas. Entre essas fontes, circularam também outras informações (anais, dossiês, carta aberta, atas, jornais de Roraima, boletins informativos, revistas, etc.) revelando a posição dos atores sociais e sujeitos políticos envolvidos nas propostas de políticas públicas para a Amazônia: 6. GTZ, German Agency for Technical Cooperation. Os participantes desse evento (representantes indígenas, da sociedade nacional, de órgãos oficiais e não-governamentais nacionais e internacionais) estabeleceram sugestões de possível cooperação em Projetos Integrados na Amazônia Legal, com apoio de Cooperação Técnica alemã. 30 a) Anais do Seminário de Estudos sobre o Programa Piloto para a Amazônia. Belém/Pará: FASE/IBASE, fevereiro. 1993. O documento apresentou discussões para melhor compreensão do “Programa Piloto” (PPG7) direcionado para os problemas sociais e ambientais amazônicos; b) Ofício n. 541/DAF/97, de 22 de julho de 1997. Políticas Indigenistas e Demarcação de Terras Indígenas com a contratação de ONGs sem licitação. FALEIROS, Áureo Araújo. Dossiê. Brasília-DF: FUNAI, 22.julho.1997. O documento apresentou anexos (Memorando n. 181/PPTAL/97) relacionados à complexa realidade dos direitos dos índios e de suas terras; c) Carta Aberta dos Índios de Roraima sobre “Demarcação de Terras Indígenas”. Boa Vista/RR, janeiro. 1981. Assembléia Geral dos Tuxauas, na região do Surumu/RR; d) Carta Aberta. “Posição do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA)”. Brasília-DF: GTA, 27.agosto.1991. “Programa Piloto” (PPG7) para a proteção das florestas tropicais do Brasil, especialmente, associadas à idéia de uma transformação sócio-cultural e ambiental amazônica; e) The Indian Declaration Against The Pilot Plan. “A Conference about the Pilot Plan was held in Luxemburg, 8-9.June.1991”. (It was promoted by Action, Third World Solidarity and mediated by allies of Earth International). Foi apresentada, pelos representantes indígenas do Brasil, no referido evento; f) Declaração “Desafios para o sucesso do Programa Piloto” (PPG7). Documento elaborado durante o “Terceiro Encontro dos Participantes do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil”. Bonn/Alemanha, 10-12.setembro.1996; g) Resolução n. 68, de 1993, publicada no DOU, Brasília-DF, 30 de agosto de 1993, p. 12823, do Senado Federal/Brasil. O documento fez um breve relato da autorização do “acordo-quadro” entre o Brasil e o BIRD relativo ao PPG7; h) Atas da Assembléia Geral dos Tuxauas, realizadas na região do Surumu/RR, em janeiro de 1981/82/85. Fazem referência aos temas conflitantes entre índios e não-índios: demarcação de terras, reorientação educacional dos jovens, propostas de desenvolvimentosustentável em terras indígenas, o problema do alcoolismo e da prostituição entre outras medidas políticas para o 31 reconhecimento da organização social e cultural do índio diferenciado do nacional. Coletar-se-á, nas fontes escritas, referências às múltiplas relações culturais e interesses políticos no contexto da gestão do novo Estado, a questão central em torno da qual se organiza a nossa análise, num diálogo entre história, cultura, política, direito, economia e sociedade, evidenciando a formação de Roraima como Estado da União. Tal questão, não apenas pode oferecer possibilidades de apreensão do aspecto cultural e social na história contemporânea como, também, elucidar disputas geopolíticas e econômicas do novo Estado. A utilização do material publicado pela mídia roraimense (jornais, rádio, televisão, entre 1980/90), como um dos vieses de nossas fontes, evidencia situações em que as vozes do Estado e da população (indígena e não-indígena) oferecem suas idéias à análise e, por sua participação no debate, podemos melhor compreender o universo do Estado em formação. Os jornais locais de maior circulação na capital Boa Vista são: Folha de Boa Vista (FBV) que é de propriedade da Editora Boa Vista Ltda (do empresário e fazendeiro Getúlio Cruz) e o Brasil Norte (BN) que é vinculado ao governo do Estado. A Crítica de Manaus é o mais conhecido jornal regional, além dos nacionais como o Jornal do Brasil (JB), O Globo, O Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo, que ampliam a discussão do conflito local por meio da publicação de textos dos editores, dos jornalistas e dos líderes e representantes da política e da sociedade local e nacional. Grande parte das publicações analisadas foi retirada do jornal FBV, motivamos as nossas escolhas por esse jornal, pela sua proposta de tentar democratizar o registro das opiniões nos artigos, entrevistas que apresenta diariamente ao leitor dessa região. A edição do jornal FBV é composta por dois cadernos: 32 Caderno 1 Pág. Caderno 2 Pág. Capa 01 Opinião 02 Política 03 Política 04 Cidade 05 Cidade 06 Cidade 07 Variedades 08 Social 09 Geral 10 Editais 11 Polícia 12 Capa 01 Política 02 Indicador 03 Classificados 04 Classificados 05 Classificados 06 Classificados 07 Classificados 08 Classificados 09 Brasil 10 Esporte Nacional 11 Esporte Local 12 Site: www.folhabv.com.br As seções e conteúdos analisados foram dos textos publicados7 no jornal Folha de Boa Vista (FBV) no seguinte período: As mudanças e transformações tanto sociais como políticas nessa região foram veiculadas nesse jornal que defendeu ora o não-índio, ora o índio, ora o Estado. Em geral, os textos registraram as experiências da imprensa local vividas de forma dialética e vistas com preocupação por parte dos intelectuais, escritores, jornalistas, editores, entre outros, que expressaram diferentes leituras acerca do conflito fundiário, valores culturais, políticos e sobre a situação em questão no Estado de Roraima. 7. Além dos textos do jornal FBV, utilizamos outros textos que foram elaborados pelos jornais locais “Brasil Norte” (BN) em janeiro/99/00, em dezembro/01/02; pelo jornal “O Diário de Roraima” (OD), em agosto/97; pelo “Jornal do Brasil” (JB), em junho/99, pelo “O Estado de São Paulo”, maio/03; dando cobertura dos acontecimentos locais, referentes ao conflito fundiário e exploração dos recursos naturais. Componentes Seções Analisadas Jornal Publicado Demarcação de terras, conflito de terras, cidadania, autonomia, identidade étnica, autodesenvolvimento, Funai, Diocese de Roraima, Assembléias e Conselhos Indígenas, soberania nacional, Igreja, Ongs, entidades (CIMI), tutela, “royalties”, dizimação, resistências, território, reservas indígenas, municípios, eleições, empresários e entidades do comércio, governo de Roraima, Prefeito de Boa Vista, OAB/RR, Assembléia Legislativa, prefeitos, Constituição Federal/88 Editorial e matéria assinada, artigos, reportagem, entrevista e geral. 1992 – Outubro 1996 - Novembro 1997 – Ago/Nov/Dez 1998 - Abr/Maio Jun/Dez 1999 – Jan/Fev/Nov/Dez 2000 - Jan/Fev/Ago/Set Out/Nov/Dez 2001 – Jan/Fev/Abr/Nov 2002 - Jan/Fev/Dez 33 Durante o mês de setembro de 2000, realizou-se entrevistas com o Administrador Regional da FUNAI/RR e com o Coordenador do Conselho Indígena de Roraima (CIR), nessa ocasião, as informações sobre essa temática política, econômica e sócio-cultural, sem uma efetiva definição fundiária, mostrou-se confusa e esparsa. Apesar das organizações indígenas participarem dos fóruns de discussões que buscam alternativas e soluções para essa questão em Roraima, seus representantes não deixaram claros os fundamentos e os recursos para implementação de programas8 indígenas em parcerias governamentais e não-governamentais, que almejam por meio dos projetos a melhoria social e exploração ambiental9. Desse modo, o presente trabalho foi dividido em seis capítulos. No primeiro capítulo, procuramos analisar as políticas governamentais vinculadas às idéias de expansão da fronteira e defesa da terra ocupada a partir, principalmente, das representações e suas atuações políticas administrativas nas transformações sócio-culturais da região, iniciadas no século XVI indo até o XIX. No segundo, discutimos as perspectivas históricas, culturais e políticas na montagem e na organização espacial e social da região, no século XX. No terceiro, procuramos mostrar, a gênese do Estado: do Território Federal ao Estado Federado com a promulgação da Constituição Federal de 1988 e, depois, com a instalação político-administrativa com a promulgação da Constituição Estadual de 1991. O principal enfoque está voltado tanto para os textos constitucionais, relacionados à problemática político-administrativa e sócio-cultural (índios e não-índios), como para o conflito fundiário. O quarto capítulo, analisa os dez anos do Estado de 8. Propostas na área da educação, saúde, agricultura, piscicultura, pecuária, entre outros. 9. Nos procedimentos do Projeto “Ambiental e Desenvolvimento Sustentável”, para a reserva indígena Raposa Serra do Sol, determinou para a região de serra a “recuperação ambiental concomitante a mineração no curso médio do igarapé Capim e imediações de sua confluência com o rio Maú, produzindo 1.500 quilates por ano ao final do terceiro ano do projeto”. PPTAL-FUNAI, Brasília-DF, abril de 1994. Por divergências políticas, econômicas e culturais, entre os representantes governamentais (locais, nacionais, internacionais) esse projeto não foi aplicado. 34 Roraima, por meio das ações do executivo estadual e suas propostas para melhorar a vida da sociedade roraimense (índios e não-índios), a partir de 1991, com a instalação do Estado. O quinto, analisa a participação dos representantes e lideranças indígenas e não-indígenas e os seus projetos na questão fundiária, por intermédio da imprensa local. O sexto, apresenta nossas considerações finais sobre olevantamento de dados referentes ao nosso estudo, a ruptura da monoconsciência indígena (pró-tradição e pró-nacional) e a morfologia sócio- cultural do novo Estado. Cumpre, assim, examinar algumas lacunas que marcaram esse processo histórico de Roraima. Tal estrutura instituiu, nas últimas décadas do século XX, novas idéias de direitos constitucionais, incorporando fundamentos de transformação do conteúdo ideológico de concepção do Estado e da sociedade local. É nossa intenção, nesta pesquisa, entender como o aparelho de Estado recém-criado, por exemplo, lida com as questões acima apontadas. Além disso, observar-se-á como se dão as relações atuais entre Estado, índios, brancos e terra, de acordo com os pressupostos de dois textos constitucionais: a Constituição Federal de 1988 e a Constituição Estadual de 1991. Cabe ressaltar que, em se tratando de um processo histórico do tempo presente, é impossível detectar, com maior precisão, as fontes teóricas esclarecedoras dessas práticas e suas respectivas representações e formas de organizações em Roraima, de suas atuações intergovernamentais e dos setores da sociedade, na formação do novo Estado. 35 CAPÍTULO 1 RORAIMA: um olhar histórico e sócio-político do século XVI ao XIX A região de Roraima possui cerca de 230 mil quilômetros quadrados, com diversificado ecossistema na bacia do Rio Branco, é uma área maior do que a do Estado do Paraná e muitos países da Europa. Afigura-se entre terra com relevo acidentado e terra plana, situando-se acima da linha do equador (Hemisfério Norte), entre florestas amazônicas e as primeiras elevações do sistema orográfico das Guianas. Desse modo, seu espaço geográfico apresenta uma grande diversidade: floresta, savana, serras, rios, lagos, cachoeiras, fauna, etnias indígenas, homens da sociedade nacional que habitam distintos povoados ribeirinhos e povoados esparsos das terras firmes. O Rio Branco é considerado o mais importante afluente da margem esquerda do Rio Negro que, junto com o Rio Solimões, forma o Rio Amazonas desaguando no Atlântico. A bacia do Rio Branco é o divisor de águas entre as bacias dos rios Orinoco (Venezuela), Essequibo (Guiana) e Amazonas (Brasil). Em Roraima, existem áreas de rica tradição indígena e outras de plural manifestação não-indígena. As regiões de savana, de serras e de florestas, incontestavelmente, expressam formas de sociabilidade com traços semelhantes ao modo de ser da vida amazônica. Essas áreas, porém, convivem à sua maneira e, no campo das relações sócio-culturais, algumas foram ampliadas, outras modificadas e muitas desapareceram no processo de povoamento ou colonização “civilizada”10 iniciada no século XVI, alongando-se até o nosso tempo presente, início do século XXI. Esse processo histórico, de formação sócio-cultural e 10. Estamos nos referindo ao conjunto de aspectos da cultura ocidental, das características de uma sociedade com o indivíduo bem-educado, cortês, civil, urbano, como elementos peculiares à vida intelectual, artística, moral e material, fruto de concepção da sociedade européia do século XIX. 36 política do Estado, será o objeto de nossa reflexão nesse primeiro capítulo que tratará do momento da expansão. Para compreendermos tal questão, o contato entre índios e brancos acirrando a luta pela posse dessa terra, conduziremos nossas reflexões para os acontecimentos da primeira fase colonial européia, a partir do século XVI. 1.1. Amazônia Setentrional11, perspectivas históricas dos séculos XVI e XVII Entre os séculos XVI e XVII devemos considerar as múltiplas tensões sociais e culturais que se fizeram presentes nas diferentes transformações do sistema político com aspirações de expansão territorial da cultura ocidental, cultivadas pelas monarquias ibéricas e pelas elites tanto da nobreza como da burguesia européia que disputavam a partilha do poder estatal e o monopólio do comércio no Atlântico. Esse período foi definido pelo abandono dos barcos a remo (as galeras) que circulavam no Mediterrâneo, para os navios atlânticos, para a navegação que se tornou à vela no mar aberto. Tais mudanças, alteraram o sistema político e econômico dominante na Europa, que, baseado no acúmulo de divisas e metais preciosos pelo Estado, por meio de um comércio exterior de caráter protecionista, resultou na disputa marítima entre as forças imperialistas em jogo, com as duas monarquias rivais impondo uma divisão do oceano e das terras “descobertas” no Novo Mundo. Assim, o Papa Alexandre VI expediu uma Bula, a 04 de maio de 1493, atribuindo ao Rei espanhol o domínio exclusivo de todas as ilhas e terras firmes, já descobertas ou que se viessem a descobrirem situadas a ocidente de uma linha meridiana traçada de pólo a pólo e que passasse cem léguas a oeste de qualquer 11. Terras da Amazônia Legal que estão localizadas na parte norte, hoje, fazem parte do Estado de Roraima (Extremo Norte brasileiro). No século XVI, deu-se início ao processo civilizador dos nativos dessa região amazônica, sendo inseridos nos problemas do mundo moderno capitalista. 37 das ilhas dos Açores e Cabo Verde. No entanto, o Monarca português (D. João II) recusou-se a aceitá-la e essa questão tornou-se um dos dilemas entre os reinos ibéricos, com concessões e recuos diplomáticos, na tentativa de aumentarem o poder no Atlântico. Para solucionar o embate entre as duas monarquias competidoras do mundo ultramarino foi assinado, em 07 de junho de 1494, o Tratado de Tordesilhas12. Esse acordo foi considerado um marco histórico nesse processo da partilha política e econômica de competição internacional crescente, na rota oceânica e nas terras que foram divulgadas pela expedição de Colombo. O referido Tratado, demarcando o litoral brasileiro por meio do meridiano que passa por Belém (ao Norte) e Laguna (ao Sul), deu ao Império português domínio de quase toda a bacia do Atlântico afro-brasileiro e parte de terra firme que ficava ao Leste da linha meridional (o Brasil só foi ocupado pelos portugueses seis anos depois, a partir de 1500). O final do século XV e todo o transcurso do XVI ofereceram ao Império português enormes possibilidades internacionais de expansão. Lisboa era considerada como um importante centro de renovações de conhecimentos e valores políticos e econômicos. Estava ligada à Índia e ao Extremo Oriente sem interrupção de comunicação pela rota oceânica, usada para exploração de especiarias asiáticas, e impunha-se ao domínio do Atlântico Sul, aos ancoradouros da costa afro-brasileira. Por sua vez, o Império espanhol desfrutava da expansão e conquista do mercado e matérias-primas (minerais e vegetais) no Atlântico Norte. Nessa perspectiva, a expansão dos reinos ibéricos se fez sob o signo do capitalismo comercial. Esses colonizadores tinham como meta fornecer ao mercado europeu 12. Esse Tratado alterou a linha divisória dos territórios “descobertos” e explorados pelos espanhóis e portugueses, que fora promulgada pela Bula Inter Coetera de 1493. Com o Tratado de Tordesilhas o limite foi ampliado para 370 léguas. 38 produtos exóticos e tropicais de valor comercial, principalmente os metais nobres, as pedras preciosas e os “paus de tinta” (pau-brasil, diferentes raízes e frutos usados na tintura pelos índios). Apesar da diversificação dos produtos tropicais comercializados pelos portugueses, as duas nações ibéricas constituíram instrumentos colonizadores semelhantes na Amazônia: aldeamentos e escravizaçãoindígena. Essa ação envolveu tanto o processo de povoamento como o de organização de uma economia complementar voltada para o mercado das metrópoles. A europeização do mundo amazônico aconteceu com a descoberta da rota fluvial interligada ao Rio Amazonas (com entradas pelo Oceano Pacífico, Atlântico e Mar do Caribe). Até o início do século XVI, o Rio Amazonas mal figurava na cartografia de expansão do homem europeu. A sistemática navegação fluvial/marítima entre o Rio Amazonas e o Atlântico foi de fundamental importância para as trocas e contatos entre os índios e os europeus. Na história do Brasil, quando se fala em região amazônica, são logo lembradas as Entradas e Bandeiras, ignorando-se todo esse dinamismo político e econômico internacional do século XVI, ligado ao Tratado de Tordesilhas e à União Ibérica13, por exemplo. Existe uma ausência ou um embate de paradigmas na historiografia brasileira, o que se relaciona às pendências fronteiriças entre os portugueses e as outras nações européias (Espanha, França, Holanda e Inglaterra) na Amazônia setentrional. Em geral, os documentos apenas relatam os feitos corajosos dos homens do Brasil colonial que abriram os caminhos do interior, criando novas formas de vida política e econômica, ampliando o espaço físico da terra portuguesa no Novo Mundo. Nesse processo histórico, as “entradas” e “bandeiras” com que se 13. Relativo ao período histórico entre 1580 até 1640, quando da morte do cardeal Dom Henrique (1580), rei de Portugal, sem deixar herdeiros diretos, o reino português passou para o poder de Felipe II, rei de Espanha. A união entre as duas Coroas (portuguesa e espanhola) ampliou o poder político ibérico nas terras do Novo Mundo e despertou reação agressiva entre as outras nações européias, que disputavam o comércio internacional. 39 procurava “desbravar” as zonas ignoradas do sertão aproximando a Amazônia do litoral, tornaram-se estratégias importantes tanto na busca de novas riquezas como na captura dos indígenas. Assim, do ponto de vista da política expansionista, do conhecimento dos pioneiros “desbravadores” servindo os interesses do poder colonial, os bandeirantes foram considerados “ícones autênticos” dos exploradores portugueses e paulistas (que vieram em busca de ouro no Mato Grosso e se fixaram no sul da bacia amazônica) favorecendo a penetração e a conquista do “Rio-Mar”, o Amazonas pela Coroa Lusa. Nessa perspectiva, o século XVI é visto como um período rico de relatos ou informações difundidas por viajantes e cronistas, que tinham como base essa curiosidade do homem europeu, e as sucessivas visões que circundavam a cultura e a natureza do Novo Mundo, atraindo homens em busca do metal aurífero na terra luso-americana. As primeiras notícias sobre essa região amazônica foram divulgadas em documentos que relatavam as viagens de aventureiros, militares, missionários, naturalistas, cronistas, geólogos, que procuravam atualizar seus conhecimentos científicos e cartográficos, percorrendo essas terras do Novo Mundo com viagens sistemáticas após os anos iniciais do século XVI. As obras configuradas por esses homens engendraram uma história de múltiplos pontos de vista do mundo natural e de seus habitantes indígenas. Desse modo, a região foi divulgada pela primeira vez, sob o olhar da expedição do espanhol Francisco Orellana, ocorrida entre 1539 e 1542. O explorador espanhol buscava notícias que confirmassem a existência da Terra da Canela (o país do Príncipe El Dorado) ou da Cidade de Manoa14. Orellana foi o 14. Mito que se fez presente no imaginário do homem europeu do século XVI, explicando a existência de uma cidade (com palácios cravejados de pedras preciosas, ruas e rios cobertos de ouro) governada por um príncipe que cobria todo o corpo de ouro (IBGE, 1981). Em outra publicação, o mito (El Dorado – homem de ouro) se refere ao príncipe inca, filho caçula de Huayanacapa, que conseguiu escapar dos espanhóis Francisco 40 descobridor da rota fluvial integrada ao Rio Amazonas, percorrendo o rio desde a cabeceira até sua foz no Atlântico. A expedição de Orellana navegou por diferentes labirintos aquáticos entre rios e igapós, pretendendo elaborar uma carta topográfica com o mapa preciso da viagem, mas não descobriu qual dos rios navegados teria ligação com o caminho que o levaria para Manoa. Sem entender direito a língua dos índios, o chefe da expedição nunca tinha certeza do melhor caminho fluvial a ser seguido. Ao encontrar o rio de águas pretas, os homens de Orellana o denominaram de Negro. Gaspar Carvajal (1542), o cronista que fez os relatos da expedição de Orellana, descreveu com detalhes a existência de densas populações indígenas ao longo das margens do rio, dando notícias também da sofisticação de suas cerâmicas. Essa notícia envolvendo a região amazônica com o mito branco El Dorado atraiu imigrantes/aventureiros de nações européias que visavam não só a participação nesse mercado expansionista, mas derrubar o poderio econômico e marítimo internacional mantido pela Espanha no Atlântico Norte. Nesse percurso fluvial, um outro mito do imaginário europeu foi difundido por Orellana: o seu encontro com as “mulheres guerreiras”, as Pizarro, Diego Almagro e outros durante a conquista do Império do Peru. Esse príncipe partiu protegido por um batalhão de guerreiros, de diferentes etnias indígenas, abrindo caminho pela floresta amazônica em direção ao mar do Caribe. Nessa região intransponível, entre as bacias do Amazonas, do Orinoco e do Essequibo, o príncipe inca fundou o Império da Guiana à beira de um lago salgado com duzentas léguas de comprimento. Esse Império seguiu as mesmas regras governamentais do antigo Império do Peru. Todo ano, durante um ritual mítico, o corpo do príncipe inca era coberto de ouro e, num cerimonial de revitalização dos súditos indígenas, era mergulhado em um lago para depois emergir (cf. MANTHORNE, 1996). A confirmação do mito e da existência de tal lago, nessa região setentrional da Amazônia, foi descrita pela expedição do inglês Walter Raleigh de 1594 a 1596, na publicação “The Discovery of the Large, Rich and Bewtiful Empire of Guyana”. Essa publicação teve diversas reimpressões e no ano de 1597 foi simultaneamente traduzida para o francês, holandês e italiano, tornando-se o primeiro best-seller internacional da cultura européia (cf. RALEIGH, Walter. O Caminho de Eldorado, adaptação e notas de E. San Martin, 2002). De acordo com as citações de Sir Raleigh, o caminho para o El Dorado conduzia para as planícies que circundavam as montanhas entre os rios Essequibo e Orinoco. Os registros faziam referência à região da bacia do Rio Branco (Roraima) como o possível lago denominado Parimé. No século XVIII, com a entrada dos portugueses na região, tal lago não foi encontrado, porém, depararam-se com um rio de nome Parimé. 41 amazonas, caracterizadas como cruéis e sanguinárias, que teriam acumulado grande fortuna em pratos de ouro trazidos do El Dorado. Ao final do século XVI e começo do XVII, com o aumento da posse de terras no Novo Mundo e dos bens do poder real, tanto da Espanha como de Portugal, gerou intensas disputas pelo poder crescente e valioso mercado de exportação, em face de sua extensão do mar mediterrâneo para o mar aberto do Atlântico (dominado ao Norte pelos espanhóis e ao Sul pelos portugueses). Desse modo, os Estados-Nações em formação no velho mundo europeu, voltaram-se para a exploraçãomercantilista na região amazônica. Contudo, vários fatores dificultaram a conquista e a ocupação da terra amazônica (não só pelos espanhóis, como pelos seus inimigos ingleses, franceses e holandeses), entre os quais: a) a variedade lingüística indígena dificultando o entendimento entre os intérpretes; b) a imprecisão das informações cartográficas; c) as Cordilheiras dos Andes e o sistema Parimo-Guiano, formando uma espécie de muralha; d) o clima úmido e quente no vale, frio nas montanhas e o aumento do calor com a proximidade da imaginária linha do Equador; e) as diferentes bacias dos rios Orinoco, Essequibo e Branco com movimentação de suas águas controladas pelas duas estações: seca (período de verão entre outubro e abril) e chuva (período de inverno entre maio e setembro). Além disso, no período chuvoso, a correnteza dos rios fica mais forte, as praias desaparecem por conta da cheia do rio, as margens ficam cobertas por mata cerrada, os barcos parecem mais pesados e os remadores cansados dificilmente enxergam um lugar tranqüilo para ancorar. Havia o pavor sobre as doenças desconhecidas que dizimavam tripulações das expedições. 42 A idéia de medo ou temor dos mistérios da Amazônia surgiu no período após a “Era dos Descobrimentos”. Depois da divulgação das notas de viagens de Sir Raleigh (1596), houve rumores de que muitos homens europeus morreram de “febrões misteriosos” e “constipações tropicais”. Outros, perderam a vida em combate com os índios, principalmente contra os guerreiros do grupo lingüístico Karib que eram considerados canibais. Além disso, as savanas estavam cheias de viveiros de “vermes constipantes” e serpentes de “peçonha sem remédio”. Em alguns locais, beber daquela água era suicídio porque causava “infecções com o mais aflitivo corrimento” (SAN MARTIN, 2002:67/69). Nesse sentido, os serviços de um guia indígena conhecedor da região era imprescindível para sobreviver nessa empreitada. Tais boatos coincidiram com o momento da implantação de estratégias para o controle territorial no Novo Mundo. Os holandeses e ingleses apareceram nesse cenário amazônico fazendo alianças comerciais com os índios, usando mecanismos políticos distintos dos espanhóis e portugueses que impunham a cultura e a religião, construindo uma sociedade amazônica com o trabalho escravo do índio. Nesse processo de colonização e disputa geopolítica, os protestantes holandeses e ingleses ofereciam “guarda militar” aos nativos, justamente contra as tentativas ibéricas de “escravizar e eliminar os hábitos e costumes dos índios em nome do cristianismo” (SAN MARTIN, 2002:13), percebidos claramente como mecanismos de conquista da terra pelos reinos ibéricos católicos. Nessa vivência de confronto político-cultural, as incursões sociais e trocas comerciais na região eram quase exclusivamente indígenas por toda a primeira metade do século XVI. Diferentes famílias do grupo lingüístico Arawak (Wapixana) e do grupo Karib (Makuxi e outras pequenas etnias), que fugiam da 43 colonização espanhola e depois dos portugueses, realizavam pactos inter-tribais e trocas, havendo também guerras entre si na disputa do território. O processo da “mundialização” sócio-econômica indígena, nessa fase histórica da região, encontrava-se sob a égide dos índios denominados “Caribes”15 que monopolizavam as relações inter-tribais e que: (...) desenvolveram, a partir do médio curso do Orinoco, uma enorme atividade comercial e, em muitos casos, verdadeiras conquistas. Navegadores incansáveis, eles já tinham alcançado não só os rios Caura, Paragua e Caroni, mas também o alto Orinoco, o rio Uraricoera, o Tacutu e Rupununi, (...) A partir do rio Orinoco, os Caribes deixavam o curso do Caura, desembocavam no Rio Paragua e, deste, penetravam nos rios Uraricoera e Branco. Pode-se supor que, em alguns casos, realizadas as trocas e os pactos inter-tribais que tinham motivado aquela viagem, voltavam atrás; ou, na maioria das vezes, prosseguiam a pé no “lavrado”, até chegarem no rio Tacutu, e depois deste, no Essequibo. Daí tornava- se fácil voltar ao Orinoco (CIDR, 1989: 5). O modo tradicional de apropriação do espaço coletivo, auxiliado pela relação mítica de parentesco com o ciclo da natureza (VIVEIROS DE CASTRO, 1998), usado pelas etnias indígenas, era redimensionando e até reconstruído pelo coletivo de uma identidade única como os denominados “Caribes”. No processo das relações inter-tribais, os “Caribes” transformaram em território de seu domínio as vastas regiões pertencentes às bacias dos rios Orinoco (Venezuela), Essequibo (Guiana) e Branco (Brasil), dentro de um processo ecossistêmico distinto do modo de apropriação do mundo natural pelo branco, de modelo econômico e interesse individualista na relação com a terra. Na visão do índio, essa área territorial amazônica definida pela inter- relação entre os seres vivos e o ambiente, respeitando-se o espaço de tempo durante o qual ocorrem os fenômenos naturais relativos aos períodos cíclicos (chuvas, verão, caça, pesca, colheita, etc.), existia como se fosse totalmente uma imensa maloca. A unidade habitacional indígena era mudada de lugar seguindo o ciclo da 15 Somente no século XIX, com auxilio dos textos antropológicos, o termo Karib ou “Caribes” passou a denominar de modo claro o grupo lingüístico e não o grupo étnico, como era difundido de maneira confusa nos textos etno-históricos referentes aos relatos dos viajantes e dos cronistas da fase colonial (CIDR, 1989; REIS, 1989). 44 natureza, desvinculado da idéia de posse de um determinado espaço físico para fixação e exploração, concepção esta da cultura do branco, que delimitou áreas territoriais particulares para usufruto dos espanhóis, portugueses, holandeses, ingleses, entre outros grupos da cultura européia. De acordo com o olhar dos primeiros brancos, os distintos habitantes da Amazônia eram denominados de “índios” e constituíam dois grandes grupos sociais: os caçadores-coletores, que eram nômades; e os agricultores que, com uma organização social mais complexa, eram fixos à terra. O conjunto de idéias do olhar cultural ocidental não alcançou, contudo, o sentido da dimensão simbólica e social indígena, que era distinto da dimensão simbólica e social ocidental. Desse modo, o povo ameríndio se diferenciava de tudo o que o europeu conhecia sobre organização social e cultural: Os espíritos xapiripê dançam para os xamãs desde os primórdios e assim o fazem até hoje. Eles parecem seres humanos, mas são tão minúsculos quanto partículas cintilantes de poeira. (...) Os espíritos são tão numerosos porque são as imagens dos animais da floresta. Todos na floresta têm uma imagem utupê: quem anda no chão, quem anda nas árvores, quem tem asas, quem mora na água (...). São essas imagens que os xamãs invocam e fazem descer para virar espíritos xapiripê. Essas imagens são o verdadeiro centro, o verdadeiro interior dos seres da floresta. As pessoas comuns não podem vê-los, só os xamãs. Mas não são imagens dos animais que conhecemos agora; são imagens dos pais desses animais, são imagens de nossos antepassados. Nos primórdios, quando a floresta ainda era jovem, nossos antepassados eram humanos com nomes de animais, e acabaram virando caça. São eles que flechamos e comemos hoje. Mas suas imagens não desapareceram, e são elas que agora dançam para nós como espíritos xapiripê. Esses antepassados são muito antigos. Viraram caça há muito tempo, mas seus fantasmas permanecem aqui (KOPENAWA YANOMAMI, 1998: 08)16. Esse pensamento simbólico, retirado de um depoimento do índio Yanomami, de final do século XX, foimitificado por meio da narrativa oral ao longo dos séculos passados. Essa narrativa explica a forma de representar e apreender o mundo natural do índio e faz aparecer um conhecimento que não se 16. Davi Kopenawa Yanomami, em depoimento recolhido, traduzido e editado por Bruce Albert. Os Yanomami são caçadores-agricultores e ocupam a região do interflúvio Orinoco-Amazonas (Rio Branco e Negro). São cerca de 9.500 no Brasil e 12.600 na Venezuela. Segundo Davi Yanomami, o xamanismo, enquanto intermediação ritual com todas as formas de alteridade que ameaçam a comunidade humana e a ordem do mundo, é o centro de gravidade de sua cosmologia e filosofia social. 45 restringe ao pensamento cartesiano. Tais imagens do pensamento mítico indígena só poderão ser compreendidas recorrendo-se a esse princípio de representações. Nesse sentido, podemos arriscar em dizer que, tanto no século XVI como no século XX, para o índio não existe o conceito de direitos individuais e propriedade como corriqueiros na cultura ocidental. Existe uma complexa organização social e uma relação de parentesco com o espaço geográfico (terra, fauna, flora), recriado no cotidiano indígena que dá significado a tudo o que acontece entre a esfera humana e a natural (DIEGUES, 2001:54/57). Essa organização social do índio é explicada por meio das narrativas e dos rituais míticos conectando o mundo sócio-cultural ao mundo cosmológico. Sobre os primeiros encontros dos europeus (espanhóis, holandeses e ingleses) com essas etnias indígenas amazônicas nos séculos XVI e XVII as fontes na historiografia brasileira são escassas, mas os poucos documentos revelaram a incontestável confiança e audácia desses europeus enfiando-se durante meses na selva amazônica, apenas com pequenos barcos e botes a remo, enquanto grande parte da tripulação aguardava no navio ancorado na “costa selvagem”17. Dentre os hábitos indígenas relatados pelo olhar dos primeiros exploradores europeus, o de maior impacto foi a notícia sobre a antropofagia. Alguns viajantes acreditavam terem chegado ao tão almejado “paraíso perdido” e outros de terem desembarcado numa terra demoníaca, habitada por “bestas- feras”. Passou-se a questionar se a Amazônia era o “imaginário Paraíso ou o Inferno” (LEITE, 1996:35). Após o contato dos índios com as expedições de Colombo e Cabral, as boas impressões sobre as riquezas das terras do Novo Mundo divulgadas por esses viajantes, suscitaram no mundo europeu idéias sobre o “mito do paraíso terrestre” (PERRONE-MOISÉS, 1996). O mais impressionante, aos seus olhos, era essa “gente idílica e sadia em sua nudez” (LEITE, 1996). 17. Expressão que identificava o Nordeste da América do Sul banhada pelo Mar Caribe, nessa época (SAN MARTIN, 2002). 46 Esse tema necessita de maiores estudos, mas existem observações de viajantes europeus (especialmente franceses) do século XVI, na disputa da terra ameríndia, apontando para uma visão etno-histórica, condenando os hábitos culturais e morais dos índios (incesto, preguiça, luxúria, canibalismo, entre outros)18. Nesses documentos, há uma discordância da visão paradisíaca divulgada pelos primeiros viajantes católicos (espanhóis/portugueses), pois os novos relatos (viajantes protestantes) deram ênfase ao hábito antropofágico do índio, contrariando a idéia de que o índio vivia em um cenário semelhante ao dos “primeiros dias da criação”. Essa divergência político-religiosa foi usada pelos protestantes para desautorizar os católicos (papa-hóstia), igualando-os aos antropófagos e solidificando sua reivindicação na posse da vida do índio e da terra conquistada (PERRONE-MOISÉS, 1996:86/90; LEITE, 1996:35-36). Essa estratégia político-religiosa na disputa do domínio colonizador europeu enfrentou outros “poderes” de um sistema que fundamentava as relações indígenas. Na área amazônica do mundo indígena também ocorria mudança e disputa pelo poder e posse do território. Essa área do Rio Branco recebeu múltiplas etnias indígenas nos últimos milênios que instituíram seus espaços sócio-culturais e os variaram de acordo com os diferentes modelos de adaptação ambiental, “sem causar danos irreparáveis” à natureza circundante (MEGGERS, 1987). Com a chegada de novas famílias indígenas gerou uma série de lutas entre as próprias etnias indígenas pela posse da terra e do monopólio nas trocas comerciais entre essas etnias. Entretanto a maioria dos documentos, que registraram essas primeiras explorações dos recursos naturais pelos europeus em fins do século XVI, deu poucas notícias sobre esses primeiros confrontos interétnicos amazônicos. Ora 18. Considerações extraídas de estudos sobre esses documentos do século XVI relatando as circunstâncias das viagens e as características gerais dos relatos resultantes (cf. PERRONE-MOISÉS, 1996:86; LEITE, 1996:34). 47 descrevem os acontecimentos sob a visão fantasiosa dos viajantes e ora na visão dos “desbravadores do sertão”, não deixando clareza sobre o embate entre índios e não-índios na formação do processo histórico associado à idéia de conquista e expropriação da terra que era habitada pelos índios. Outros estudiosos19 da região deram uma interpretação de “efeitos” sobre a paisagem natural do lugar, construindo um mundo praticamente desabitado e desconhecido, fazendo referência às densas florestas “virgens” formadas por montanhas, vales, cachoeiras e rios sem fim. Apresentaram cartografias com detalhes sobre riquezas minerais e destacaram a abundância de madeira, de frutas típicas (cacau, caju, banana, buriti, açaí, etc.) e peixes de variados tamanhos (pirarucu, tucunaré, curimatá, pescada, etc.). Percebe-se um silêncio sobre um dos mais lucrativos “produtos” encontrados pelo colonizador nesse mundo natural: a “caça ao índio”, seguida pela apropriação de suas terras e a busca pelo ouro. Nessa marcha do tempo, criando novas forças e relações sociais, a sabedoria dos povos indígenas foi se misturando ao saber dos povos não- indígenas que chegavam nessa região. Junto com as transformações da natureza, a cada época, os confrontos sociais e culturais, as reações de admiração ou de medo diante do inusitado e a dificuldade para entender a nova ordem aceleraram- se: Nos primeiros tempos, os brancos viviam como nós na floresta e seus ancestrais eram pouco numerosos. Omama (herói cultural) transmitiu também a eles suas palavras, mas não o escutaram. Pensaram que eram mentiras e puseram-se a procurar minerais e petróleo por toda parte, todas essas coisas perigosas que Omama quisera ocultar sob a terra e a água porque seu calor é perigoso. Mas os brancos as encontraram e pensaram fazer com elas ferramentas, máquinas, carros e aviões. Eles se tornaram eufóricos e se disseram: “Nós somos os únicos a ser tão engenhosos, só nós sabemos realmente fabricar as mercadorias e as máquinas!”. Foi nesse momento que eles perderam realmente toda sabedoria. Primeiro estragaram sua própria terra antes de ir trabalhar nas dos outros para aumentar suas 19. Um exemplo que mostra bem essa questão está no texto da “Carta de Caminha”, mas os relatos de Sir Raleigh (1595/96), de Carvajal (1542) descreveram a existência de riquezas naturais (minérios, madeiras, entre outros produtos tropicais). Os textos de Humboldt (1825) ou de Bastide (1980) enfatizaram a riqueza da fauna e da flora amazônica, como também os relatos sobre os feitos dos desbravadores das “terras virgens” apontadas por Serrão (1968), entre outros que propagaram uma visão econômica dessa naturezaamazônica “intocável”. 48 mercadorias sem parar. (...) Quando conheci a terra dos brancos isso me deixou inquieto. Algumas cidades são belas, mas seu barulho não pára nunca. (...) Há muito barulho e gente por toda parte. O espírito se torna obscuro e emaranhado, não se pode mais pensar direito. (...) O pensamento desses brancos está obstruído, é por isso que eles maltratam a terra, desbravando-a por toda parte, e a cavam até debaixo de suas casas. (...) Nós, nós queremos que a floresta permaneça como é, sempre. Queremos viver nela com boa saúde e que continuem a viver nela os espíritos xapiripê, a caça e os peixes. Cultivamos apenas as plantas que nos alimentam, não queremos fábricas, nem buracos na terra, nem rios sujos (KOPENAWA YANOMAMI, 1999:20). A concepção de periculosidade ou da não necessidade daquilo que está “escondido”, por desígnio divino, mostra a posição etnocêntrica do homem em relação à criação do mundo. Esse mundo, que fora criado por ele e para seu bem- estar, deveria ser mantido igual para sempre. Por outro lado, o artificialismo do branco é visto como negativo, com capacidade de embotar sua percepção e seu raciocínio, embora ele não seja visto como ruim por natureza: ele foi pretensioso e sua criação agora o sufoca. Torna-se, portanto, clara, a profundidade da diferença entre as sociedades indígenas e a sociedade européia que, nos séculos XVI-XVII, via o nascimento do capital. Tratou-se de um confronto cultural de pensamento político- econômico entre homens com distintas relações não só culturais, mas de critérios no usufruto dos recursos naturais do seu meio ambiente. Por exemplo, a organização da maloca20 é distinta da organização do Aldeamento de estrutura urbana européia. Na visão do índio, a “casa de morada” e o meio-ambiente fazem parte do mesmo ciclo natural. Tanto a maloca como a terra são renovadas pela própria natureza, enquanto que para o homem branco o 20. Há uma discussão sobre os dois conceitos: Aldeia, representa uma pequena povoação indígena dirigida por missionários ou índio “civilizado”. É uma organização semelhante a um pequeno núcleo urbano europeu, inferior à Vila. Maloca, representa uma unidade habitacional indígena tradicional dirigida pelos índios, é uma organização comunitária e espacial distinta da Aldeia. Na Maloca a “casa” representa uma unidade comum para o grupo indígena, que vivencia sua própria organização cultural, enquanto que na Aldeia a “casa” representa a unidade, com princípios organizacionais e unificadores sócio-culturais da família indígena, que vivencia hábitos “civilizados”. Em Roraima, os termos Maloca e Aldeia são utilizados como sinônimos, em decorrência do processo “civilizador” do índio. Antigas Malocas, por meio dos contatos com a sociedade nacional e local, transformaram-se em Aldeamentos, Vilas, Municípios, enquanto que o índio tornava-se cidadão brasileiro nato. Esse processo é percebido desde o período colonial, chegando até os nossos dias (2003). 49 sentido de renovação da residência e da propriedade territorial passa pelo viés da tecnociência, da economia e do status social. A introdução do indígena nesse universo de inclusão do Capital em que o equilíbrio dependia de extenuante prática comercial, que o tinha como simples títere, deu espaço a conflitos alheios à sua história. Nesse processo, a bacia do Rio Branco mostra, ainda hoje, essas diferentes formas de olhar o sócio-cultural, o ambiental e as maneiras no usufruto dos recursos naturais, como também a produção de conhecimentos relacionados à percepção e à cultura desses seres humanos. No centro de tais conflitos, no fim do século XVI e durante o século XVII, a etnia Makuxi, que estava em constante guerra com a etnia Wapixana, começou a ganhar espaço e aumentar o poder dos grupos “Caribe” no monopólio comercial da rede dos negócios entre as bacias dos rios Branco e Essequibo, expandindo também para a região do Rio Negro com os índios Manao que monopolizavam as relações inter-tribais na região do Negro com extensão para o Amazonas (CIDR, 1989; REIS, 1989). Os holandeses já haviam se instalado na região, por volta de 1581, estabelecendo uma feitoria numa área denominada Pomeroon Coast, hoje República Cooperativista da Guiana. Ali, os holandeses iniciaram uma exploração comercial com os índios por meio de troca, tanto de tabaco como de algodão e os “paus-de-tinta” obtidos dos indígenas, consolidando a exploração desse comércio e a circulação de manufaturados europeus (BOXER, 1961:7). Aproveitando a boa relação de amizade com os índios, o holandês alargou um pouco mais tal comércio e, a partir da ação dos indígenas, organizaram a política mercantil em toda a região do Rio Branco, do Negro, do Amazonas, etc. Pode-se dizer que, utilizando estratégias de cooptação, o campo de poder holandês penetrou no interior da selva, por meio dos rios navegáveis ou das trilhas na 50 selva/savana, a fim de intensificar e expandir tanto a rota comercial como o aumento dos lucros. A inexistência de uma estrutura de poder intermediária facilitou para os holandeses investirem numa política comercial, apoiada numa rede de domínio “capitalista”, sobre as populações indígenas dos rios Orinoco, Essequibo, Branco, Negro e Amazonas. Esse controle do poder branco sobre essa região de paisagem complexa, intercalada por serras, savanas e florestas, plena de rotas para longas e perigosas caminhadas até os rios navegáveis tornou possível o gerenciamento das relações indígenas, em favor do holandês, que souberam se aproveitar das fragmentações interétnicas. Nesse contexto, de exploração econômica e alianças culturais, o habitante holandês fez do mercado de trocas a sua arma de dominação colonizadora. Desse modo, as diferentes etnias indígenas se articulavam numa estrutura política de poder pelo comércio, que se dava por meio dos casamentos e estreitavam os laços entre os índios. Tal processo político, enfraquecendo as alianças inter- tribais, acentuou consideravelmente as disputas, incentivando as guerras ligadas à posse de terra e o aprisionamento de índios derrotados nesses confrontos, que eram traficados como escravos. Dentro desse jogo de força exercido pelo Estado holandês, para fazer valer o direito político e econômico sobre o universo do índio, existiam grupos indígenas que fugiam para o interior da região e lutavam pelo direito de preservar a sua organização sócio-cultural. Tais grupos, contudo, acabavam “seduzidos” pelas alianças inter-tribais e integravam-se nessa rede de poder comercial tornando-se um membro dessa coletividade de representação da rota holandesa amazônica (CIDR, 1989:5/8). Difundindo novos hábitos e comandando o fluxo de manufaturados nessa complexa paisagem, os holandeses consolidaram sua presença na Amazônia com 51 a construção de um forte (denominado Kijkoveral) no ponto de junção dos rios Cuyuni e Mazaruni na região do Essequibo, no início do século XVII, sob a liderança de Groenewagen (DREYFUS, 1993: 21)21. Esses empreendimentos na fase do colonialismo, estabelecendo mudanças geopolíticas e sócio-culturais indígenas na Guiana Ocidental, foram estratégias significativas de conquista pelos primeiros europeus nas terras dos ameríndios. Esse poder branco favoreceu a fundação da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais em 1621, oficializando o comércio de escravos tanto africanos como indígenas. Os mercadores holandeses diversificavam seus negócios e ampliavam os tratados de paz e comércio entre os índios, os quais desenvolviam inter-relações não apenas entre as diferentes etnias que habitavam a região, mastambém com particulares espanhóis na troca dos manufaturados. As distâncias e o tempo para o percurso, o transporte de mercadorias, de escravos índios e, naturalmente, dos grandes lucros, formavam novas polarizações nas relações comerciais na região. Assim, tendo a base de seu poder na foz do Essequibo e com saída para o mar Caribe/Atlântico Norte, os holandeses controlavam a demanda que incidia sobre canoas, madeiras, tinturas (especialmente o urucu usado na indústria têxtil européia), redes, gomas e escravos índios. Nessa troca conjunta em favor do branco, os índios recebiam armas de fogo, facas, machados, anzóis, além de “espelhos e contas de coral ou vidro que eram disputados pelas mulheres” (FARAGE, 1991:89). Foi com base nessa forma de coalizões, que os holandeses introduziram a diferença no processo colonizador europeu: nunca buscaram converter ou “aldear” as etnias indígenas. Nessa conjuntura, entre choques de 21. Groenewagen, desertor dos estabelecimentos espanhóis, colocou-se a serviço de seus compatriotas. Casado com uma índia Karinya, teve um filho, o qual foi encarregado do posto holandês no Demerara. Diferentemente das concubinas, às quais os outros europeus só atribuíam um status inferior, as mulheres índias eram freqüentemente consideradas (mesmo se não o fossem legitimamente) como as esposas dos holandeses, para grande escândalo dos espanhóis, que se queixavam à Corte da Espanha (Reclamação de 1637) das relações privilegiadas com afins indígenas (cf. DREYFUS, id.:37). 52 interesses políticos e econômicos, eles visavam vantagens financeiras, sendo indulgentes com os interesses culturais do índio em um nível por eles considerado superficial de manifestações religiosas e de manutenção lingüística. Desse modo, o homem colonizador deu início a novos modelos de relações político-econômicas com o indígena. Essas relações transcodificavam estruturas sociais, culturais e políticas seguindo modalidades de aproximação das semelhanças e das diferenças entre os dois mundos (Velho e Novo) em confronto e seus respectivos valores sócio-culturais e religiosos. Essa escolha e estratégia, que caracterizaram a ocupação e exploração holandesa na bacia do Rio Essequibo com extensão para a do Rio Branco, eram vistas com preocupação pelos espanhóis (e, mais tarde, pelos portugueses) que reconheciam o poder de atuação das nações do norte no trato e alianças com os ameríndios. Tanto no contexto das guerras tribais e do apresamento22 indígena para os holandeses estabelecidos na bacia do Essequibo, quanto no contato para a colonização e as tentativas dos espanhóis na bacia do Orinoco de se instalarem na bacia do Rio Branco, observamos o forte aparato militar nas estratégias de consolidação tanto comerciais por meio da cooperação indígena; como de segurança na posse da terra por meio da construção dos postos ou feitorias. Dessa maneira, esses pioneiros brancos teceram nessas regiões uma rede flutuante de significados sócio-políticos e culturais (religiosos e comerciais), permitindo várias interpretações e negociações da sociedade e ambiente indígena, dependendo da contextualização e do interesse europeu em questão. Por volta de 1621, um frade franciscano, que desenvolveu trabalho missionário nessa região, denunciou ao Conselho das Índias o comportamento não cristão e o aumento das violências praticadas pelos espanhóis aos índios 22. O apresamento no contexto holandês (cf. pp. 32-3, acima) significava “seduzir” os índios para integrar-se à rede comercial. Já na realidade espanhola, o apresamento era a prisão do índio fugido da aldeia, transformado em escravo. 53 (BOXER, 1961:191). O referido frade reconheceu que nesse contexto de disputa política, econômica e religiosa entre os colonizadores europeus, os protestantes (holandeses) eram beneficiados pela diferença de procedimentos: ambos (católico e protestante) encaminhavam o ameríndio à reconstrução da identidade cristã ocidental, mas o holandês não usava o aldeamento e nem escravizava o índio, que eram os pilares (aldeamento/escravização) de dominação indígena pelos espanhóis. Dentro dessa estrutura básica de povoamento e comércio, a partir do século XVI até o XVIII, os postos holandeses, como um importante setor de tráfico tanto dos produtos comerciais como de escravos índios, eram lugares que desencadeavam agressivas disputas entre brancos e índios. Os Aldeamentos espanhóis ou encomiendas23, como lugar de “civilização” dos índios tornando-os súditos da Coroa ibérica, eram lugares de exploração compulsória do trabalho indígena por meio das trocas comerciais. Ao longo desse período, grandes porções de terras do Novo Mundo ocupadas por indígenas tornaram-se objeto de exploração lucrativa, estimulando a imigração de novos grupos europeus (CAMPOS, 1991; MAURO, 1998). Nesse empreendimento, a população indígena era utilizada ora como colaboradora no contato com outras etnias indígenas, ampliando o mercado consumidor, ora como produto comercial aumentando o capital. Essa ordem colonizadora fez surgir, na época, campanhas contra essa histórica situação do índio colonizado. Entre as mais conhecidas estão as movidas por Bartolomé de Las Casas e outros intelectuais humanistas que ficaram impressionados com essa brutal violência contra o índio, empregada pelo europeu no Novo Mundo. Tal 23. Por esse regime de poder político e econômico, o Estado espanhol transferiu aos colonos habitantes da bacia do Orinoco (e para as outras regiões) a cobrança de tributos que os súditos da Coroa, os índios deviam pagar. Tal cobrança poderia ser em prestação de serviços, abrindo-se mecanismos de poder econômico para a escravização do índio. O “encomendeiro” ficava obrigado a proteger e cristianizar ou “civilizar” o índio (cf. NOVAIS, 1971:47). 54 oscilação perturbava ainda mais a já frágil compreensão que o indígena tinha do processo a que era submetido e tornava as cicatrizes ainda mais insuturáveis. Nesse embate pelo poder de monopólio e de privilégios, o Império Ibérico articulava-se entre alianças com mercadores e nobres numa trama de troca de serviços que garantissem os interesses comuns (expansão comercial e armazenamento de ouro e prata) e o estabelecimento do Estado suficientemente forte para proteger a terra conquistada. O Brasil português, na virada do século XVI para o XVII, assentou suas raízes na América do Sul ampliando e aproximando o seu território da costa amazônica. A “União Ibérica”, com duração de sessenta anos, foi um fator importante na construção do Brasil português na Amazônia, pois facilitou aos portugueses a penetração e a conquista de terras espanholas na região Norte, desrespeitando o Tratado de Tordesilhas, um dos primeiros instrumentos normativos sobre as terras em litígio no Novo Mundo. Contudo, não era fácil estabelecer com exatidão um território para iniciar a ocupação e a exploração econômica, viabilizando o enriquecimento fácil, para se impor ao domínio mercantil e partilhar dos privilégios concedidos pela Coroa. A desigualdade foi uma das marcas dessa sociedade ibérica unificada pela dinastia dos Habsburgo que, dentro do quadro da qualificação social e política, estabelecia os privilégios e as prerrogativas do indivíduo detentor de terras e do monopólio comercial. Nessa busca, que levava em conta a conquista dos territórios no Novo Mundo, o Brasil português, visto em dimensão “atlântica”, transformou-se no objeto de interesse entre diferentes homens do “Velho Mundo”, na partilha das terras e dos índiospara o trabalho. Porém, esses fatores e a fragilidade das economias ibéricas foram decisivos para aproximarem os interesses de ambos os 55 impérios católicos sobre as terras e o poder em expansão marítima (CAMPOS, 1991:27). Favorecidos por esses acontecimentos, o Brasil português se estendeu, pela costa, entre a bacia do Amazonas até a bacia do Prata, criou novos aglomerados urbanos e ativou os lucros financeiros por meio de linhas de expansões comerciais, especialmente relacionados ao açúcar e pau-brasil. Os portugueses precisavam de prata e ouro para os seus negócios com as Índias e para a manutenção administrativa da terra Luso-brasileira. O colonizador português não tinha capital e nem contingente suficiente para empreender esses objetivos dos primeiros anos da exploração e do povoamento. Esses fatores influenciaram a vida do homem português que não deixou de buscar pistas concretas sobre os tesouros existentes na selva. O fato é que os acontecimentos decorrentes da União Ibérica, do desenrolar da expansão ultramarina, do enfraquecimento das fronteiras políticas entre as duas nações ibéricas, da crescente importância da economia, do surgimento de novos mercados com a introdução do sistema capitalista foram eixos básicos que abriram caminhos para que os portugueses se articulassem e procurassem condições para ampliar não somente o espaço geopolítico da Terra do Pau-brasil em direção à Amazônia, mas a efetiva ocupação desse complexo universo que ganhava distintos contornos simbólicos e culturais no imaginário do Império Ibérico Cristão. Aos olhos da sequiosa sociedade européia, inquieta pelas notícias de organização sócio-política do Novo Mundo divulgadas pelos documentos produzidos pelos viajantes estudiosos da região, os índios eram considerados como os “selvagens” que viviam sem roupas, “sem lei, sem fé, sem rei”24. No entanto, existiam informações sobre o diversificado mercado indígena que era 24. Referência à célebre fórmula cronista quinhentista de Pero de Magalhães Gandavo (cf. FAUSTO, 1999). 56 explorado pelos holandeses no possível lugar do mito El Dorado, apresentando possibilidade de exploração auríferas. Assim, esse espaço amazônico era disputado tanto pelo favorecimento comercial inter-tribal como pela possibilidade de mineração, apresentando-se aos olhos dos portugueses como um “sonhado” e fascinante lugar de enriquecimento fácil. Tal aspiração era decorrente da busca da riqueza pelas expedições das Entradas, das Bandeiras e dos Resgates25 portadoras dessas notícias amazônicas. A Amazônia apareceu, então, como um cenário de diferentes representações de interesses políticos e valores econômicos que formou o centro de disputas nos séculos XVI e XVII, fazendo surgir uma nova ordem internacional por meio dos múltiplos contatos entre as sociedades colonizadoras e os índios, que se estenderam, também, aos séculos XVIII e XIX. Além desses conflitos interétnicos, havia também uma genérica modalidade de escravização indígena pelos portugueses que, por meio das “guerras justas” diversificavam o empreendimento e a circulação da “fé cristã” entre os índios. As etnias indígenas que impedissem a entrada dos representantes do Brasil português e a pregação do Evangelho seriam aprisionadas por esse sistema de guerra e seus integrantes se tornariam escravos legítimos. O Resgate foi utilizado como um outro instrumento português contra as etnias indígenas, na dominação de escravização sistemática do índio, por meio da compra de prisioneiros de guerra entre as próprias etnias indígenas (MONTEIRO, 1994). Tais procedimentos favoreceram a efetiva consolidação da sociedade luso-brasileira sobre o desenraizamento do índio e apropriação de suas terras. Nesse processo de caça ao índio, usurpação de suas terras e busca por tesouros no imaginário dos colonizadores europeus, o índio pertencia ou ao grupo do “bom selvagem” ou do “mau selvagem”, sendo todos considerados 25. O apresamento ou apropriação direta do cativo indígena, fugido do Aldeamento, era mecanismo da Tropa de Resgate (cf. MONTEIRO, 1994:107). 57 sem organização social e sem governo. Em geral, era destacada a imagem do “selvagem canibal” violento, sem história, carente de “civilização” (LEITE, 1996; VIVEIROS DE CASTRO, 1988). A insistência de políticas do Estado português para povoar o Maranhão, desde 1617, gerou a imigração de degredados e uma rearticulação de interesses que se firmou em pactos entre homens da burguesia mercantil, da nobreza e o monarca ibérico para facilitar a viagem de casais das ilhas da Madeira e dos Açores tanto para as terras do Maranhão como do Grão-Pará. Os representantes da elite portuguesa necessitavam garantir não apenas a ocupação e defesa, mas o direito de exploração comercial e poder no denominado mundo pagão, por gente de sua confiança. Beneficiados pela União Ibérica, as expedições portuguesas penetraram o território espanhol e alargaram suas fronteiras na Amazônia, aproximando-a das estruturas político-administrativa do litoral brasileiro. Após a Restauração da Coroa de Portugal (1640), o Brasil português soube catalisar esforços para expulsar os espanhóis e holandeses entre outros “corsários” de nações européias que se faziam presentes nessa região da Amazônia em litígio. O enérgico e bem sucedido propósito português, impulsionado pelos acontecimentos que levaram à desintegração da união nas Coroas, acirrou os ressentimentos mútuos entre espanhóis e portugueses, decorrentes de questões européias, como o orgulho nacional, o sentimento anti-semítico e a teoria monopolística de império. O pensamento político do homem ocidental dos séculos XVI e XVII não aceitava o outro que era diferente da cultura do civilizado ocidental. Assim, os colonizadores da Amazônia, originários de sociedades do “Ancien Régime”. Tal modelo transformava a natureza e o nativo em patrimônio de riqueza, base do Estado colonizador na Amazônia. 58 Apenas no século XX é que a Antropologia disponibilizou dados e reflexões sobre os povos primitivos em geral e as organizações indígenas amazônicas em particular que se contrapõem à orientação de “selvagens”: A evidência lacônica proporcionada por Orellana, que em 1541-2 viajou rio abaixo até o estuário, e ainda mais a existência de tradições orais nativas, cuja extrema complexidade, composição artificial e tom místico sugerem que devam ser atribuídos a escolas de sábios e a homens instruídos, constituem testemunhos em favor de um nível muito mais elevado de organização religiosa, social e política do que jamais fora observado antes. (...) Esses documentos antigos (...) são os restos de uma civilização genuína, comum a toda a bacia Amazônica (...) (LÉVI-STRAUSS, 1973: 271-2). Essa preocupação com a população tradicional (entre ela o índio) apontada por Lévi-Strauss (1973), no texto acima, é uma visão oposta ao olhar dominante dos colonizadores. Nesse sentido, esse antigo território da bacia do Rio Branco, após inúmeras explorações com resultados desconhecidos pela sociedade local26, além de se tornar palco de confrontos entre brancos e índios, foi alvo de incansáveis interpretações teóricas e interesses na exploração do ouro e riquezas biológicas. 1.2. Rio Branco, a expansão política e econômica portuguesa com o Maranhão e Grão-Pará Após a Restauração, os espanhóis aspiravam o recuo dos povoados portugueses até a denominada linha de Tordesilhas. Mas, utilizando-se da política Uti Possidetis27 os portugueses conquistaram a rota fluvial do Rio Amazonase ocuparam pontos estratégicos do seu território, ampliando as fronteiras do Brasil português na virada do século XVII para o XVIII. 26. Sobre essa fase histórica da região, temos notícias de uma vasta documentação de difícil acesso, porque está distribuída em diferentes arquivos científicos e literários. Encontram-se não apenas em Manaus, Belém, São Luis, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, mas também em Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra, Alemanha, Itália, França, Estados Unidos. Todos os documentos estão merecendo uma análise e metodologia apropriada para entendermos esse processo na história de Roraima no século XXI. 27. Segundo o Tratado de Madri (1750) tinha o direito ao território o povo que o povoara, que o conquistara dos índios habitantes da região. 59 Havia diferenças nas estratégias colonizadoras da região: enquanto as nações européias (fora da Península Ibérica) fomentavam as disputas dos mercados numa linha de expansão do capitalismo, por meio dos produtos manufaturados, a Coroa portuguesa mantinha sua política dentro do antigo sistema mercantil. Assim, o cacau, por exemplo, foi o produto que monopolizou a comercialização no Estado do Grão-Pará, a exemplo do lucro monopolista do açúcar em Pernambuco (NOVAIS, 1971:57). O modelo de colonização comercial dos impérios europeus, estabelecendo projeto “modernizador” nas áreas ultramarinas, não reformou o essencial na forma de relações vividas na esfera do universo indígena da região do Rio Branco. Embora o esquema de “patronagem”, que monopolizara um produto que se ajustava aos interesses dos lucros da Coroa de Portugal (e conseqüente monopólio do universo indígena), os portugueses enfrentavam dificuldades na expansão amazônica em direção ao Rio Branco. Dessa maneira, a implantação do Estado do Maranhão e Grão-Pará se constituiu numa peça de poder legislativo importante para a conquista amazônica. A relação político-administrativa do “Brasil Filipino”, delineando um novo modelo de Estado, não sacrificou o alargamento geopolítico aspirado pelos representantes da Monarquia portuguesa na Amazônia. No entanto, interesses portugueses perceberam, quase imediatamente, a impossibilidade de implantar uma administração efetiva que atendesse o Estado do Brasil colonial. Os recursos financeiros e humanos para a defesa de uma longa costa contra os ataques dos “piratas estrangeiros”, a política religiosa de assimilação dos indígenas e a necessidade de “impor a voz” do Governador-Geral numa comunicação eficaz mostraram as vantagens de se optar por dois governos no Brasil português, alternativa que asseguraria um certo monopólio da navegação marítima/fluvial, do jogo político e da extensão do comércio nas bacias fluviais da Amazônia. 60 Então, por carta régia de 13 de julho de 1623, Felipe III redesenhou o mapa do Brasil português, fortalecendo a região norte com a criação de uma capitania destinada a ser um Estado de um novo Governo: o governo do Maranhão foi “desanexado do Estado do Brasil, sem dependência do governo deste” (SERRÃO, 1968: 166). As imensas fronteiras do Maranhão e Grão-Pará ganharam autonomia com a sua unidade administrativa ligada diretamente à Lisboa. Em razão da direção dos ventos e das correntes marinhas que diminuíam o tempo de viagem, esse Estado tinha mais facilidade de comunicação com Lisboa do que com Salvador ou com o Rio de Janeiro. São Luís do Maranhão, de onde os franceses tinham sido expulsos em 1615, tornou-se a sede principal. Contudo, o povoado sobrevivia de reduzidos recursos e da espera de homens investidores no desenvolvimento da região. Apesar disso, ganhou importância nas estratégias militares de ocupação das fronteiras, na efetivação do novo Estado do Brasil colonial, que teve o seu florescimento no decorrer do século XVIII, com o chamado período pombalino. Assim, com a implantação do Estado do Maranhão e Grão-Pará abriram- se possibilidades para que o Brasil português, agora senhor da entrada do Rio Amazonas no Atlântico, fosse mais longe no embate com as outras nações européias pela partilha amazônica. O Estado português mostrava-se cada vez mais capaz de resistir e de, sozinho, encontrar mecanismos políticos e econômicos necessários para o povoamento e a montagem de novos empreendimentos na Amazônia. Essa nova fase de conquista e integração da Amazônia ao poder português iniciou o processo de expansão e soberania portuguesa na rota comercial amazônica dos séculos XVIII e XIX. Portanto, ao consolidar a expansão territorial para a Amazônia no começo do século XVII, o governo colonial procurou ajustar estratégias político- 61 administrativas de defesa e ocupação dos novos territórios conquistados. Apesar da fragilidade do poder governamental do Maranhão e Grão-Pará, pela instabilidade da administração pública que ora se encontrava em São Luiz e ora estava em Belém, desenrolada pela falta de pessoal habilitado, o governo português instalou, ao mesmo tempo, novas extensões administrativas na bacia amazônica, impondo soberania e condições do maior lucro possível dos recursos naturais dos rios Amazonas, Solimões e Negro. Além disso, tentavam bloquear o avanço dos espanhóis, holandeses, ingleses, franceses instalados na costa caribenha, concentrando o poder na capital da Capitania do Rio Negro, num primeiro momento em Barcelos28. Os outros pequenos núcleos urbanos, na busca de consolidar a ocupação e competitividade econômica, conduziam suas práticas de forma lenta, tanto em relação aos lucros como na subordinação do mundo natural e indígena a critérios ecossistêmicos opostos ao modo de vida do branco. A complexidade das relações, nesse quadro administrativo amazônico sob o poder do governo do Maranhão e Grão-Pará, devido à distância do poder central e dificuldades de comunicação, diversificou o campo de possibilidades de formação e interação desses núcleos políticos, que empobrecia e enfraquecia o novo Estado português amazônico. No processo político administrativo, posterior ao Tratado de Madri (1750), de fomento dos núcleos urbanos ribeirinhos, os documentos que revelaram esse avanço português, com a nomeação dos administradores para os novos centros urbanos amazônicos, nada propunham para a região do Rio Branco. As notícias de efetivação da conquista portuguesa na Amazônia são datadas de 1616, 28. A Carta régia de 3 de março de 1755 criou a Capitania de São José do Rio Negro. No entanto, existe uma outra de 18 de julho que fala em Capitania de São José, localizada perto da boca do Rio Javari, onde seria instalada a capital. Contudo, uma vez esta estabelecida em Barcelos, a Capitania voltou a ter o nome de São José do Rio Negro. Mais tarde essa capital foi transferida para o povoado denominado “Lugar da Barra” no baixo Rio Negro, próximo ao entroncamento com o Rio Solimões. Em fins do século XIX, esse povoado transformou-se na capital do Estado do Amazonas, Manaus (cf. REIS, 1989). 62 apontando para a fundação do Forte Militar em Belém do Pará e a instalação de postos de comércio na região (BOXER, 196:164). Em decorrência da diversidade lingüística indígena, as explicações e parcas informações cartográficas nem sempre eram entendidas pelos intérpretes (índios) que auxiliavam as investigações e os contatos do Estado português. Dessa forma, à margem das negociações políticas, religiosas e explorações comerciais desenvolvidas por holandeses e espanhóis na Amazônia, os portugueses radicados na região se viam numa capitania incipiente e localizada na porta de uma paisagem complexa(desembocadura do Amazonas no Atlântico), de difícil navegação e comunicação. Os poucos dados que dispomos e a construção imaginária do colonizador do Brasil português na conquista da Amazônia deixaram dúvidas sobre a presença de Aldeamentos e postos militares portugueses nos dois primeiros séculos de colonização na bacia do Rio Branco. Observou-se que, em 1624, havia uma população de 300 indivíduos brancos, composta em sua grande maioria por funcionários coloniais, militares e missionários, com quatro fortalezas e nove Aldeamentos indígenas que asseguravam certo domínio da posse portuguesa nesse território amazônico (SERRÃO, 1968:167). Apesar do crescimento urbano e da terra mostrar-se fértil, da disponibilidade da mão-de-obra indígena para os diversos trabalhos, faltava o homem português com capital para estimular a economia dessa complexa paisagem de rios sem fim e diversificada etnia e cultura indígena. Com o entusiasmo ufanista da administração colonial, na prática, o Estado do Maranhão e Grão-Pará, no seu isolamento geopolítico, convivia com as tensões sociais e as crises financeiras que impediam a chegada de novos colonos. Além disso, o açúcar e o tabaco, como produção base da região, não conseguiam entrar no mercado de exportação liderado pelas capitanias do litoral nordestino brasileiro. Outros obstáculos eram os altos custos financeiros para investimentos 63 tanto na região como na mão-de-obra escrava negra, que eram mais altos do que em Pernambuco ou na Bahia, além da pesada política fiscal imposta pela Coroa. Em conseqüência dessa difícil situação social e econômica, iniciaram-se atividades extrativistas no vale amazônico, que foram as grandes geradoras de recursos necessários para a sobrevivência desse Estado amazônico, com o cacau e o algodão normatizados como moeda de troca. Nesse sentido, a “civilização” da Amazônia, como a do Brasil, já se iniciou dentro dessa estrutura monopolista do sistema colonial, do domínio da rota fluvial/marítima e exploração social e econômica, que propiciassem capital para a Coroa. Desse modo, com a introdução de uma política econômica com base no extrativismo29 o Grão-Pará ganhou destaque no alargamento da fronteira amazônica portuguesa. No jogo de legitimidade e construção desse Estado, a Coroa de Portugal, após a epopéia da Restauração30, ampliou o poder administrativo na Amazônia. Contrariando os interesses da orientação anterior, essa reformulação social no âmbito da política para a Amazônia concedeu, aos representantes das ordens missionárias, participações junto às autoridades civis na condução da vida dos moradores e dos índios na região. Assim, em 1693, uma nova estrutura político-administrativa dividiu o Maranhão e Grão-Pará em províncias missionárias entre as diversas ordens religiosas da Igreja Católica. Nesse contexto, tornava-se fundamental, para o êxito da reformulação do poder administrativo, um pacto de lealdade com o 29. Os produtos obtidos por extração, as chamadas “drogas do sertão”, consistiam em uma gama variada de frutos e raízes silvestres, principalmente cacau, baunilha, salsaparrilha, urucu, cravo, andiroba, almíscar, âmbar, gengibre e piaçava; havia, além disso, a pesca e a viração de tartarugas, cuja produção se voltava em grande parte para o consumo interno da colônia. Tal mercado ganhou maior proporção de lucros a partir da virada do século XVII para o XVIII, especialmente, após as reformas pombalinas para a Amazônia. Em 1751, sob o governo do meio-irmão do Marquês de Pombal, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, decretos e instruções régias foram programadas para intensificar as demarcações fronteiriças e tirar o poder político e econômico dos religiosos sobre os índios (REIS, 1989). 30. Em 1640, Lisboa viveu uma revolução que originou a sua independência. Foi conduzida pelo duque de Bragança, proclamado rei de Portugal, dando início à nova dinastia portuguesa com o título de D. João IV. A grande maioria dos portugueses, não só do Brasil, como de qualquer outra parte, recebeu com entusiasmo a notícia da queda do regime espanhol ibérico (cf. BOXER, 1961). 64 Estado português, para adquirir não só os recursos como garantir a manutenção dos interesses da Coroa necessários ao seu avanço amazônico. Mas os administradores locais, distantes do olhar fiscalizador do poder central, defendiam seus próprios interesses. Relatos da época denunciaram que os missionários da Ordem do Carmo, responsáveis pelo território dos Rios Negro e Solimões, melhoraram suas finanças após essa reforma do Estado português. Além disso, eles não tinham um projeto próprio administrativo referente aos índios. Numa ação permeada pelo interesse político-econômico e religioso, as missões carmelitas tornaram-se provedoras de mão-de-obra indígena para os moradores brancos. Ampliando a crise entre as tarefas evangélicas e as tarefas comerciais, os missionários individualmente acabavam se envolvendo não apenas nas disputas de poder sobre as rotas comerciais como também no tráfico clandestino de escravos indígenas (REIS, 1989; FARGE, 1991; CIDR, 1989). Nessa realidade, tornando frágil a política administrativa que misturava poder político, poder espiritual com poder dos negócios, evidenciou-se o surgimento de acusações sobre duvidosas ações de religiosos e colonos administradores na Amazônia. Além do considerável poder econômico, os missionários e colonos eram acusados de atuarem como empresários do Estado português, detendo o monopólio dos negócios nos Aldeamentos, nos fortes e da mão-de-obra indígena, misturando “leis de Deus” com “estilo de vida” em proveito próprio. Essa atuação dos católicos portugueses contrastava com o procedimento dos protestantes holandeses que se instalaram na região da Guiana e mantinham monopólio mercantil com os nativos, dando aparente liberdade sócio-cultural ao indígena (REIS,1989; CIDR, 1989). Preocupado em proteger o ameaçado Estado do Grão-Pará e Maranhão, com permanente presença de franceses, holandeses, ingleses, o governo 65 português retomou o processo de reorganização e defesa das terras amazônicas. Os representantes da Coroa portuguesa empreenderam esforços na construção de fortes, em pontos geográficos importantes, para impedir a fixação dos espanhóis, holandeses e ingleses nessa região. Nesse sentido, no transcurso do século XVII, os portugueses colocaram em prática a estratégia de reorganização administrativa militar, edificando em alguns pontos da Amazônia pequenos fortes marcando sua posse territorial31. O Estado português, cujas finanças eram sempre deficitárias, diversificava suas alianças para legislar sobre essa terra de complexo contexto político-cultural e sofisticada dispersão geográfica. Contudo, não há registros claros sobre essas alianças ou dos encontros entre os portugueses e índios nos séculos XVI a XVII nessa região. A historiografia brasileira, de acordo com a visão tradicional da história, traçou uma narrativa apoiada no olhar interpretativo dos viajantes e nas concepções associadas à dicotomia “selvagem-civilizado” (LEITE, 1996). Temos notícias sobre as guerras nativas32 que produziram tanto mão-de- obra como recursos financeiros para o poder administrativo do Brasil português (MONTEIRO, 1994). Dentre essas condições, destacou-se o aumento de poder político dos Makuxi, de filiação lingüística Karib e aliados dos holandeses (no Essequibo), que impuseram seu poder administrativo sobre os Wapixana, de filiação lingüística Arawak e que recebiam apoio dos portugueses, instalados no Forte de São José do Rio Negro (REIS, 1989; CIDR, 1989). De certomodo, parte da história de Roraima, nos três primeiros séculos de contato entre europeus e índios, está associada à história de Portugal e sua disputa por terras que se localizavam além do chamado Meridiano de 31. Em Belém com o Forte do Presépio ou do Castelo (1616), na região do Grão-Pará com a Fortaleza do Gurupá (1623) e com os Fortes de Santarém (1697) e de Óbidos (1697), na região do Rio Negro com a Fortaleza de São José do Rio Negro (1669), na região de Macapá com a Fortaleza de São José de Macapá (1688) (cf. MANSUY-DINIZ SILVA, 1998). 32. O grupo indígena derrotado na guerra, movida pelos indígenas aliados aos portugueses, tornava-se escravo solucionando o suprimento de mão-de-obra. 66 Tordesilhas, tornando violento o conflito nessa região, cujas florestas e savanas eram habitadas por incalculável número de índios que se constituíram em aliados dos holandeses, detentores de extensa rota comercial, ou foram aldeados pelos espanhóis. A documentação histórica desse período (séculos XVI e XVII) não nos permite vislumbrar como o índio percebia esse processo de encontro étnico33, já que os europeus se auto-representavam como os primeiros habitantes civilizadores da região. Contudo, em nossa atualidade, existem narrativas indígenas com dados sobre a consciência do índio nesse processo de mudança do mundo natural amazônico: Os brancos são engenhosos, têm muitas máquinas e mercadorias, mas não têm nenhuma sabedoria. Não pensam mais no que eram seus ancestrais quando foram criados. Nos primeiros tempos, eles eram como nós, mas esqueceram todas as suas antigas palavras. Mais tarde, atravessaram as águas e vieram em nossa direção. Depois, repetem que descobriram esta terra. Só compreendi isso quando comecei a compreender sua língua. Mas nós, os habitantes da floresta, habitamos aqui há longuíssimo tempo, desde que Omama34 nos criou. No começo das coisas, aqui só havia habitantes da floresta, seres humanos35. Os brancos clamam hoje: “Nós descobrimos a terra do Brasil!”. Isso não passa de uma mentira. Ela existe desde sempre e Omama nos criou com ela. Nossos ancestrais a conheciam desde sempre. Ela não foi descoberta pelos brancos! Muitos outros povos, como os Makuxi, os Wapixana, os Waiwai, os Waimiri-Atroari, os Xavante, os Kayapó e os Guarani ali viviam também. Mas, apesar disso, os brancos continuam a mentir para si mesmos pensando que descobriram esta terra! (KOPENAWA YANOMAMI, 1999:18). Após quinhentos anos de história na Amazônia colonial, tanto os brancos como os índios ainda disputam formas de apropriação do espaço social e dos recursos naturais. Na concepção do índio, interpretada por Davi Yanomami, no texto acima, além de serem pretensiosos, os brancos são dotados de imaginação, de comportamento indiferente em relação ao homem-ciclo da natureza, que se 33. Existem registros de narrativas indígenas, transcritas no século XVIII, em alemão, inglês, holandês, entre outras línguas européias descrevendo tradições e parte da memória cultural do índio amazônico, mas são interpretações feitas pelo europeu. 34. Omama é identificado como o herói cultural, o civilizador Yanomami. 35. A autodesignação dos Yanomami – yanomae thëpë – significa antes de tudo “seres humanos”, e se aplica também aos outros índios, opondo-se aos animais, aos seres sobrenaturais e, em certa medida, aos não- índios (napëpë) (cf. KOPENAWA YANOMAMI, 1999). 67 relacionavam como iguais no período da criação. Assim como eles não entendiam as etnias indígenas, estas nunca os entendiam e nem sua formação histórica. Na concepção da história do branco o “descobrimento” é real e efetivo e não apenas a cultura indígena detém o direito de ser etnocêntrica (cf. texto acima, p. 48). As idéias de conquista, aplicadas nessa região após o século XVI, mantendo a coesão do interesse político, econômico e assegurando a obediência ao Estado e proprietários de terras, presentes na história amazônica, mostram o mundo atual tomando forma, definindo lugares e características indígenas e não- indígenas, situadas em um tempo das origens, mas referidas no tempo presente. Na virada dos séculos XVII-XVIII, os portugueses foram adentrando pelo interior do Rio Branco e expandindo a estrutura administrativa da colônia muito além da linha do Equador. Nesse processo, o índio não poderia ter direitos porque sua cultura não era reconhecida pelo português e as relações entre índio e europeu ganharam novos enfoques após a conquista: Os brancos foram criados em nossa floresta por Omama mas ele os expulsou porque temia sua falta de sabedoria e porque eram perigosos para nós. Ele lhes deu uma terra, muito longe daqui, pois queria nos proteger de suas epidemias e de suas armas. Foi por isso que os afastou. Mas esses ancestrais dos brancos falaram a seus filhos dessa floresta e suas palavras se propagaram por muito tempo. Eles se lembraram: “É verdade! Havia lá, ao longe, uma outra terra muito bela!”, e voltaram para nós. Na margem desta terra do Brasil aonde eles chegaram viviam outros índios. Esses brancos eram pouco numerosos e começaram a mentir: “Nós, os brancos, somos bons e generosos! Damos presentes e alimentos! Vamos viver ao seu lado nesta terra com vocês! Seremos seus amigos!”. Era com essas mesmas mentiras que tentavam nos enganar desde que também chegaram a nós. Depois dessas primeiras palavras de mentira, eles foram embora e falaram entre si. Depois voltaram muito numerosos. No começo, sem casa nesta terra, ainda mostravam amizade pelos índios. Tinham visto a beleza desta floresta e queriam se estabelecer aqui. Mas desde que se instalaram realmente, desde que construíram suas habitações e abriram suas plantações, desde que começaram a criar gado e a cavar a terra para procurar ouro, esqueceram sua amizade. Começaram a matar as gentes da floresta que viviam perto deles. Nos primeiros tempos, os seres humanos eram muito numerosos nesta terra. É o que dizem nossos mais velhos. Não havia doenças perigosas, sarampo, gripes, malária. Estávamos sozinhos, não havia garimpeiros para queimar o ouro, fábricas para produzir ferro e gasolina, carros e aviões (KOPENAWA YANOMAMI, 1999:19). 68 O discurso do índio Davi Yanomami sobre o processo civilizador do branco no Novo Mundo, que também teve influência de idéias da cultura ocidental/nacional, expõe tanto o pensamento do branco que julgava o índio inferior (como animais) como também do índio que pensava o mesmo do branco. Contudo, apesar de julgar os brancos “sem sabedoria”, o índio acredita que o branco é seu igual, como “humano”. Nesse percurso historiográfico, observamos alguns vestígios sobre essa construção da nova ordem social e cultural amazônica, iniciada no século XVI com forte presença da concepção portuguesa, como o desaparecimento de etnias indígenas provocadas não só pelas guerras inter-tribais, como, também, pelo processo de conquista e povoamento europeu da região. Sabe-se que o destemido homem português caçou e escravizou o índio, buscou ouro e drogas no sertão amazônico, aprendeu novos hábitos alimentares para sobreviver nesse ambiente hostil ao seu modo de vida europeu. Todavia, nunca chegou a descobrir as trilhas condutoras aos veios auríferos, ao popular El Dorado e sua cidade com uma monumental arquitetura cravejada de pedras preciosas. O comércio extrativista foi seu único tesouro, proporcionando a sobrevivência, mas a caça ao índio foi o mais lucrativo. Os Aldeamentos e as tropas de Resgates, devidamente licenciados pelas autoridades régias de Portugal, forneceram mão-de-obra indígena para os trabalhos agrícolas, industriais, serviços públicos e domésticos,além da venda de índios como escravos no mercado: “essa gente toda se alimentava da caça, da pesca e dos produtos naturais, que os índios ensinavam a aproveitar em vinhos saborosos” (REIS, 1989:130). Ainda sob esse aspecto, datando do século XVI ao XVII, seria oportuno passarmos a examinar alguns pontos evidentes: 69 a) longa trajetória de desenraizamento cultural, mesmo quando sem conflito direto: caso holandês/relações comerciais (pp. 39/41); b) o contato, na região, com o branco, é esquizofrênico por natureza: o holandês não interfere fisicamente, mas manipula alianças e desestrutura as relações inter- tribais (pp. 46-7); o espanhol interfere fisicamente, aldeando, cristianizando, mudando a língua e desestrutura a cultura em seu todo. São dois tipos diferentes de interferência e, conseqüentemente, palco onde se digladiavam forças infinitamente superior à sua capacidade de resposta em um “tempo” que se acelerava em mudanças de todo tipo; c) a Igreja Católica participa ao lado do poder branco: provedora de mão-de-obra (pp. 37-8); d) pressões brancas sobre os índios em territórios distantes repercutiam na região (pp. 42/45). 1.3. A construção da Amazônia brasileira, séculos XVIII e XIX No século XVIII, as concepções acerca dos índios como “selvagens” ou gente sem história começaram a mudar36. Tais mudanças partiram de estudos e questionamentos da natureza humana (Rousseau) e do relacionamento estado- indivíduo (Hobbes) e, assim, acabou-se vendo o indígena como parte da história natural. (DESCOLA, 1999:108-9). Essa concepção é redutora por excelência e pavimenta o caminho para a crença na possibilidade de transformação do indígena em “civilizado”. Sedimenta, também, a incompreensão do universo social e cultural indígena e, portanto, não alteraram as relações entre europeus e índios na Amazônia, que, no século XVIII, ainda, identificavam o índio relacionado ao ambiente natural, fora 36. Na Europa do século XVI e XVII, as concepções sobre o índio eram de “idílico” ou canibal. A partir do século XVIII, surgiram outros conceitos que influenciaram novos olhares sobre o índio. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), em sua obra “O Contrato Social”, elaborou modelos de sociedades exaltando valores da vida natural e reprovando o comportamento da sociedade “civilizada”, caracterizando o governo como exercício da vontade geral, criando a idéia da soberania popular. As concepções de Thomas Hobbes (1588-1679), em sua obra “Leviatã”, defendendo que, embora vivendo em sociedade, o homem não possuía o instinto natural de sociabilidade (homo homini lupus). Os pensamentos de Hobbes e Rousseau incentivaram teorias sobre direitos, sociedade e Estado, modificando as diretrizes políticas e econômicas européias dos séculos XVIII e XIX. 70 da visão sistematizada da vida “civilizada” (ausência de Estado e sem Lei) e devendo a ela ser incorporado. Diante do conquistador europeu, transferindo seu poder de governar e dar ordem no conturbado universo indígena, as etnias indígenas, que formavam a grande maioria da população, foram consideradas propriedades do Estado, junto com as terras conquistadas. Nesse contexto, o índio é reificado, ou seja, visto como uma coisa pertencente ao Estado: o que é confirmado pelo sistema de apresamento do índio e sua comercialização como escravo. Na segunda década do século XVIII, o colonizador português deu início à posse da vida indígena e da terra na bacia do Rio Branco. O interesse português pela floresta e pelos campos amazônicos decorria das notícias sobre a possibilidade de mineração, da prática mercantil holandesa, do incalculável número de índios, que supria de escravos o mercado colonial português, estimulando o desejo de expansão e fixação da fronteira. Todavia, o número reduzido de homens brancos e o déficit financeiro da Monarquia ibérica dificultavam o empreendimento português. Nessa época, a colônia portuguesa na Amazônia, representada pelo Estado do Grão-Pará e Maranhão, tinha legislação indigenista que proibia a escravização do índio, mas, ao mesmo tempo, fazia uso do trabalho escravo do índio justificando-se com parâmetros de “civilização”: o índio vivendo em coletividade e sem domínio sobre o outro, precisava ser introduzido na ordem da sociabilidade.37 Podemos dizer que, nessa ação do Estado português, as idéias do índio, seus sentimentos ou desejos, não estavam na ordem de preocupações da legislação colonial. Nesse princípio indigenista do Estado português, percebemos que, a partir do século XVIII, a região do Rio Branco tornou-se o caminho aberto para o 37. Referimo-nos aos textos de historiadores (REIS, 1989) e de antropólogos (FARAGE, 1991), que estudaram a legislação indigenista portuguesa na Amazônia do século XVIII. 71 apresamento do índio e aplicabilidade da política integracionista. Esse projeto do Estado Luso-brasileiro, que tirou do índio o direito à terra e destruiu sua organização cultural, travestindo-o de branco, acabou por submetê-lo às leis régias para que desfrutasse e “vivesse debaixo das justas e humanas leis que regem os povos” (MARÉS, 1999:54). Tal concepção colonial com relação ao índio chegou aos nossos dias atuais, apesar da Constituição Federal de 1988 ter rompido formalmente essa prática política de integração indígena na sociedade nacional. Auxiliando esse processo colonizador, os missionários empreendiam, em nome da fé e do Estado, imposições de hábitos cristãos aos índios para que gozassem dos direitos civis. No embate pelas terras amazônicas, o modelo de fé cristã, tanto da Igreja Católica quanto da Igreja Reformada por Lutero e Calvino, modificaram as interpretações do homem índio segundo o interesse colonizador. Nesse ínterim, a Coroa portuguesa instituiu Aldeamentos missionários, na região do Rio Branco, com o auxílio da Ordem do Carmo, visando a ocupação da terra e a propagação da “fé cristã”, intensificando as disputas políticas e econômicas entre as nações européias (Espanha, Holanda, Inglaterra, França). Nesse processo de construção da Amazônia portuguesa, ampliaram-se as expedições das tropas de resgates e as informações cartográficas de integração do Rio Amazonas com as rotas dos rios Negro e Branco. Favorecidos por esses mecanismos, os navegadores portugueses foram conquistando a região, lutando contra os denominados “aventureiros” espanhóis, instalados no Orinoco e Alto Amazonas, e os “hereges” holandeses, ingleses e franceses que se instalavam na Amazônia, a partir da costa caribenha (CIDR, 1989). Enquanto isso, os portugueses permaneciam ancorados entre a boca do Atlântico, no Grão-Pará (Belém) e o Forte de São José do Rio Negro (Manaus). Nesse cenário de luta pelo monopólio territorial e comercial amazônico, no início do século XVIII, o 72 Brasil português se colocava em vantagem sobre as outras colônias européias por usufruir o poder sobre a rota marítima do Atlântico integrada à rota fluvial da Amazônia. Estudos etno-históricos sobre os índios da região do Rio Branco descreveram os primeiros contatos entre portugueses e índios na segunda metade do século XVIII, especificamente a partir da edificação do Forte São Joaquim em 1775, da introdução do gado por Lobo D’Almada e dos novos Aldeamentos, também no final do século XVIII. Os vários estudos, tanto os desenvolvidos pelo cronista Ribeiro Sampaio (1777) como os elaborados por Joaquim Nabuco (1903), empenhados em justificar a antigüidade portuguesa na posse da região do Rio Branco38, descrevem como principal apoio documental os relatos divulgados pelaviagem portuguesa de Pedro Teixeira (1639) durante exploração no Rio Negro. Embora se acredite na expedição de Pedro Teixeira (NABUCO, 1941; REIS, 1989; ANDRADE, 2001) que teria chegado ao Rio Branco via Rio Negro, os documentos sobre ela são escassos. Não restam dúvidas que a ausência de informações mais detalhadas nos relatos do padre Acuña39 sobre o Rio Branco dificultava a legitimação da posse portuguesa sobre a região a partir da expedição de Pedro Teixeira. Essa questão litigiosa sempre se apresentou como um grande desafio geopolítico para os portugueses do século XVIII, que se empenhavam em buscar conhecimentos cartográficos com relação à rota fluvial entre o Grão-Pará e o Essequibo, no percurso do Rio Amazonas e seus afluentes: Negro e Branco. Contudo, tais vagos conhecimentos geográficos só foram ampliados com as informações passadas pelo desertor holandês Nicolas Horstman, que, ao ser preso e levado ao 38. Sobre essa problemática de demarcação das fronteiras brasileiras na fase colonial, o Ouvidor Ribeiro de Sampaio, respondendo às alegações espanholas de posse do Rio Branco na década de 70 do século XVIII, reuniu provas da soberania portuguesa na área. Do mesmo modo procedeu Joaquim Nabuco, como defensor do direito brasileiro frente às pretensões inglesas à mesma área no início do século XX (cf. NABUCO, 1941; REIS, 1989; FARAGE, 1991; ANDRADE, 2001). 39. Cristóbal de Acuña foi o cronista que divulgou a viagem de Pedro Teixeira. 73 Grão-Pará (século XVIII), foi longamente interrogado sobre o percurso amazônico atravessado (HORSTMAN, 1911:167/171). O depoimento de Horstman se transformou no primeiro documento escrito, de 1739/41, com informações detalhadas sobre a rota fluvial do Amazonas, via Negro e Branco ao Essequibo. Com isso, os portugueses ampliaram tanto os conhecimentos cartográficos como os esclarecimentos sobre uma expedição de prospecção mineralógica na região do Alto Essequibo, chefiada pelo referido holandês. Tais informações descritas por Horstman foram divulgadas na Europa pelo viajante francês Charles Marie de La Condamine40 (1745) que navegou pelo Rio Amazonas, transformando o depoimento de Horstman em instrumento básico para a cartografia do século XVIII (REIS, 1989). Assim, após várias incursões do Brasil português na região do Rio Negro, os exploradores luso-brasileiros expandiram sua posse para a região do Rio Branco. Esse rio é o mais importante eixo fluvial de penetração na Amazônia Setentrional, com extensão de 584 km a partir da junção do Rio Tacutu com o Rio Uraricoera e correndo de norte para o sul em direção ao Rio Negro, afluente do Amazonas. É um rio de difícil navegação por conta das inúmeras cachoeiras e/ou corredeiras. No período de seca (verão) é impossível trafegar com embarcações de maior porte até o seu porto principal que está em Caracaraí. O explorador Hamilton Rice, geógrafo inglês que desenvolveu estudos durante uma viagem pela Guiana Brasileira, efetuada em 1924-25, descreveu a importância de maior reconhecimento das rotas fluviais decorrentes das dificuldades na comunicação do Amazonas com seus afluentes. A expedição de Rice tinha como objetivo detalhar a cartografia da bacia do Rio Branco e, sobretudo, da região dos rios Uraricoera e Tacutu (o suposto lugar referente 40. La Condamine esteve na região amazônica em 1743 e a percorreu de Oeste a Leste. Comissionado pela Academia das Ciências de Paris, tinha como finalidade medir os graus terrestres. Após essa experiência, ele registrou tudo numa publicação feita em Paris com o título “Relation abregée d’um Voyage dans-l’interieur de l’Amerique Meridionale”, em 1745. 74 ao El Dorado), um ambiente amazônico que ainda apresentava curiosidades fluviais ao homem navegador do início do século XX. FIGURA 01 Vista aérea do Rio Branco. Expedição Rice (1924/30). (Foto: RICE, 1978). Nesse aspecto, os rios que se localizam ao sul da linha do Equador no período de chuvas (inverno) são de fácil navegação, mas os rios que estão ao norte da linha do Equador vivem o período de seca (verão), dificultando a navegação por conta dessa movimentação da rota fluvial entre os diferentes fenômenos vividos ao mesmo tempo. Tais informações41 nem sempre eram compreendidas ou conhecidas pelo homem branco do século XVIII. 41. Os relatos sobre essa paisagem “selvagem” entre floresta, montanha e savana, desenhada por diferentes caminhos aquáticos e inexplorados pelo homem “branco”, despertou em variados autores originais e criativos textos. “The Lost World” de Arthur C. Doyle (1987) como o mais popular dá notícias da existência de dinossauros nessa região de Roraima. A notícia dos dinossauros na Amazônia é outro polêmico assunto e pouco estudado. Cf. SCHWARTZMAN, 1997. Após o acelerado processo de urbanização amazônica, na virada dos séculos XX/XXI, os vestígios de nossa pré-história estão desaparecendo. Tal processo, segundo a visão do índio, acontece porque o “branco” rompeu sua relação de parentesco com os ancestrais que habitavam essa terra desde os primeiros tempos. Nesse processo histórico de comercialização da terra, o “branco” esqueceu as antigas palavras que ainda se fazem presentes na memória cultural do índio. (KRENAK, 1999; KOPENAWA YANOMAMI, 1988 e 1999). 75 Essa paisagem da bacia do Rio Branco era vista como fonte potencial de lucro, funcionando como o principal caminho de poder sobre as distintas incursões de negócios entre os índios e os colonizadores: as trocas de manufaturados e tráfico de escravos índios, com possibilidades de encontrar o ouro e as pedras preciosas (REIS, 1989; CIDR, 1989). Esse caminho das águas foi o principal responsável pela transformação desse lugar, que era percorrido com intimidade pelas etnias indígenas e considerado pelos pioneiros brancos, até a primeira metade do século XX, como um universo aquático e de terra firme envolvidos com figuras do medo (índios canibais, mulheres guerreiras, monstros das águas e das florestas, etc.), do desconhecido que também se misturou com a visão de riqueza fácil. O caminho das águas entre diversificada fauna e flora, que apresentou uma infinidade de elementos da biodiversidade, ora visíveis e ora invisíveis, foram mesclados no movimento da sua trama social e cultural ao longo de seu processo histórico. 1.4. As Tropas de Resgates e as Aldeias Missionárias na conquista da rota fluvial e povoamento O papel dos povos indígenas na consolidação do Brasil português amazônico é pouco estudado pela nossa historiografia. Em geral, a história oficial brasileira registra o deslumbramento europeu pelo mundo natural amazônico e a dificuldade que os portugueses/brasileiros tiveram em dominar o índio, civilizá- lo e colocá-lo em regimes de trabalho. Existem poucas referências na produção literária colonial sobre o processo de mudança da “mística e selvagem” Amazônia que ganhou aspectos “civilizados” com as alterações geopolíticas, comerciais e culturais introduzidas pelo colonizador europeu nos três primeiros séculos de competição política e expansão dos mercados ultramarinos. Essas potências expansionistas européias 76 se fixavam na “terra brava” e mudavam as diferentes formas de vida presente na região, segundo os seus próprios interesses. Foi neste contexto que os mecanismos políticos de instalação dos postos comerciais, militares e os aldeamentos missionários foram se transformando em vilas, povoados, capitanias, províncias, municípios e estados do Brasil português e depois do Brasil republicanocom o final do século XIX. No decorrer do século XVIII, entre os diferentes interesses em jogo, na posse da vida indígena e da terra amazônica, o governador do Grão-Pará, João da Maia da Gama, recebeu notícias que na região do Rio Negro próxima ao Rio Branco havia um território dos índios Manao. Eram conhecidos como índios canibais e com práticas de incesto. Tinham um chefe de nome Ajuricaba42, o qual carregava na sua canoa uma bandeira da Holanda. Esses índios enfrentavam os portugueses, lançando-se sobre as missões do Rio Negro e tomando como prisioneiros os índios aldeados pelo português. De acordo com as notícias, esses violentos43 índios de comportamento “herege” possuíam armamento e eram aliados dos holandeses da região do Essequibo, na denominada Costa Selvagem44, mantendo com eles um intenso comércio de escravos indígenas e produtos tropicais. Os registros portugueses, buscando interpretações da organização cultural dos Manao, identificavam relações de “vassalagem” dos Manao sobre os outros grupos indígenas, derrotados nas guerras tribais (REIS, 1989:93). As normas de comportamento do índio estão concebidas na coletividade e vinculadas ao 42. Segundo as narrativas, Ajuricaba era um valente guerreiro, filho de Huiuiebéu um dos maiores tuxauas dos índios Manao, neto de Caboquena, que votava o mais decidido ódio aos portugueses. 43. No embate com índios inimigos, os Manao esmagavam-nos completamente, exigindo dos dominados relações de “vassalagem” (REIS, 1989:93). 44. Termo que denominava a costa amazônica no mar caribenho em permanente confronto social e mercantilista (grupos espanhóis, holandeses, ingleses, franceses, alemães disputavam o poder sobre a rota Atlântico Norte). 77 mundo natural, sem uma explicação política, jurídica e “visível”. Essa forma de vida era interpretada pelo português como semelhante à sociedade feudal. A narrativa desses acontecimentos denunciando a etnia Manao como obstáculo para a penetração missionária portuguesa e a evangelização católica no Rio Branco, constituía-se em um conjunto jurídico-político favorável a um combate militar contra os Manao, por sua vez armados pelos holandeses. Nesse sentido, essa situação envolvendo holandeses, índios Manao e portugueses, necessitava de soluções e a encontrada foi a de se pedir autorização e recursos financeiros do Reino para uma guerra “justa” contra os Manao. Era sabido que o Estado Grão-Pará não contava com o auxílio de tropa e nem armamento para uma guerra. A ordem real era favorável à solução de guerra, mas o rei alegou falta de verbas, transferindo a realização efetiva da guerra para os moradores do Grão- Pará. Para o rei, os moradores eram “tão interessados nos lucros do Certões que contribuiriam para a sua defença” (FARAGE, 1991:63). A declaração de guerra foi resolvida pelo governador local, com a anuência da Junta das Missões45. Assim, os obstáculos e problemas que colocavam em risco a riqueza de possibilidades comerciais foram resolvidos: Ajuricaba foi preso e enviado para Belém. Entretanto, durante o percurso da viagem, provocou uma rebelião na canoa que conduzia os índios presos, mas o motim foi logo reprimido de maneira violenta. Não mais suportando o jugo português e o peso dos ferros que o prendiam, Ajuricaba atirou-se na água e sumiu (REIS, 1989:98). A falta de documentação mais explícita, bem como estudos históricos sobre o povoamento português na região dos Manao, chefiados por Ajuricaba, faz perdurar lacunas sobre o confronto entre as tropas portuguesas, chefiadas 45. Uma comissão que foi convocada pelo governador do Grão-Pará dividindo a responsabilidade da guerra “justa”, pois, em Portugal tinham-se dúvidas da justiça da campanha. Faziam parte dessa comissão autoridades civis e religiosas e das presentes, foi registrado que apenas o reitor do colégio dos Jesuítas votou contra e o bispo, dando o seu voto, posteriormente, recomendou o feito. Sobre essa questão e os critérios da guerra, falta documentação mais explícita e estudos históricos aprofundados sobre as guerras “justas” contra os índios amazônicos (cf. REIS, 1989:97). 78 pelo capitão Belchior Mendes de Morais, contra Ajuricaba e sua gente, por volta de 1723. Após esse episódio com os índios Manao, a rota fluvial em direção ao Rio Branco ficou livre e os povoados e aldeamentos começaram a render lucros para os portugueses. Desse modo, os Carmelitas passaram a reunir em Aldeamentos índios Manao e foram ampliando as relações amistosas com os índios Wapixana e organizando novas aldeias em direção à bacia do Essequibo via Rio Branco. Tendo como aliados os índios Wapixana, os representantes do Estado português mantiveram-se na bacia do Rio Branco (de fronteiras não demarcadas), que era território disputado por grupos antagônicos de europeus46, e instalaram fazendas e aldeias na região. Durante a segunda metade do século XVIII, no decorrer desses confrontos europeus pela posse da terra, foram divulgadas também notícias de insurreições entre as diferentes etnias indígenas dos troncos lingüísticos Arawak e Karib47. Os grupos Arawak eram os mais representativos, com maior poder de organização, considerada superior à dos Tupi-Guarani e dos Karib e mantendo poder governamental sobre os indígenas da região (bacia dos rios: Orinoco, Essequibo e Branco). Eram também excelentes guerreiros e usavam a estratégia de extinguir os grupos inimigos, matando os homens e incorporando as mulheres dos vencidos ao seu grupo48. Os grupos Karib eram identificados como experientes navegadores e guerreiros. Eles penetravam os diferentes rios entre as bacias do Orinoco (Venezuela) e do Branco (Brasil), desenvolvendo novas estratégias militares e alianças inter-tribais, buscando derrubar o monopólio dos 46. Auxiliados pelos soldados das tropas de resgates e índios aldeados, os portugueses tentavam ocupar terras na região do Rio Tacutu e Uraricoera; os holandeses monopolizavam o comércio na região do Rupununi; os espanhóis instalavam fortes e aldeias nas margens do Uraricoera; além dos ingleses, franceses e alemães que sempre rondavam a denominada “Costa Selvagem” ou o Rio Amazonas. 47. Da família linguística Arawak identifica-se a etnia Wapixana e da família Karib temos o Makuxi. Haviam, também, outros grupos: Paraviana, Sapará, Maku, Waiká, etc. (cf. DINIZ, 1972; CIDR, 1989; FARAGE, 1991; SANTILLI, 1994) . 48. Cf. Textos de historiadores (REIS, 1989) e etno-hsitóricos (CIDR, 1989 e 1990; FARAGE, 1991). 79 Arawak. Esses confrontos inter-tribais receberam apoio dos colonizadores europeus, que delineavam a ocupação e a defesa da terra aproveitando-se desse conflito entre os próprios índios49. Seguindo esse modelo de expansão e ocupação do Brasil português na área do Rio Branco, com uma percepção de mundo que misturava evangelização com o mercado de negócios, os missionários da Ordem do Carmo entraram também na parceria e comercialização com os holandeses da área do Rio Essequibo por intermédio dos índios. Esses índios percorriam com facilidade os rios Orinoco, Caroni, Demerara, Essequibo, Rupununi, Tacutu, Uraricoera, Branco, Negro, Solimões e Amazonas, ora em canoas, ora caminhando até alcançarem o mar Caribe e o oceano Atlântico (o mais importante elo marítimo de expansão européia no Novo Mundo). Nesse contexto de tensões sociais e competição de mercado, prevaleceu o domínio do branco nas terras e negociações amazônicas, o sistema de alianças e o papel das ordens religiosas foram significativos não só na evangelizaçãocomo no processo de escravização indígena, garantindo tanto a prestação de serviços aos colonizadores europeus como o produto para o comércio. Essas ações políticas e religiosas na disputa do monopólio e privilégios, nos mais variados setores do Estado português de política expansionista, criaram um clima favorável ao contrabando fazendo crescer a rede comercial em proveito próprio. Nesse sentido, existem registros da primeira metade do século XVIII que denunciavam as atividades do frei carmelita Jerônimo Coelho, que atuava como grande “empresário” em parceria com Francisco Ferreira, chefe de tropas de resgate de índios. Nesse empreendimento, Frei Jerônimo aglutinava populações indígenas na aldeia Aracary, na região entre o Rio Negro e a bacia do Rio Branco, vendendo índios recrutados como escravos, desrespeitando o princípio de 49. Id., ibid. 80 “descimento” da legislação indigenista que considerava escravo apenas os índios aprisionados nas “guerras justas” ou rebelados nos “resgates” (SWEET, 1974, II:659). Dessa forma, o aldeamento de Aracary ancorava nessa pequeníssima base local, uma organicidade programática, mais em razão dos interesses do religioso Carmelita que a lealdade e aliança com o Serviço Real em favor do Estado português. Assim, longe do poder central e do olhar fiscalizador, Frei Jerônimo instituiu na missão uma empresa de coleta de cacau, fabrico de canoas, tecidos e manteiga de tartaruga. Aumentou o seu próprio poder político-religioso e econômico, articulando-se com seu sócio Francisco Ferreira e expandiu a rede de negócios entre os rios Negro, Branco e Essequibo, tornando-se elo das alianças comerciais com os protestantes holandeses (SWEET, id.,ibid.). Monopolizando os negócios na região, por volta de 1750, Frei Jerônimo exerceu atividades religiosas junto com o Frei José de Magdalena, no aldeamento de Muriuá que mais tarde transformou-se na cidade de Barcelos (1755). Por conseguinte, as negociações comerciais foram intensificadas com os descimentos indígenas (atuação do processo de cooptação do índio), tanto para as missões como para as fazendas pertencentes aos Carmelitas na região do Grão-Pará (FARAGE, 1991:61). Nessa ação de atração do índio pelo colonizador, os próprios missionários ou representantes do Estado português (brancos ou índios “civilizados”) convenciam os índios a se deslocarem de suas terras de origem e se estabelecerem nos Aldeamentos constituídos pelos religiosos ou civis50. No desenrolar desses acontecimentos, as incursões portuguesas foram intensificadas tanto nas rotas fluviais da bacia do Rio Branco como nas da bacia do Amazonas. Nesse processo, foram registradas notícias sobre a diminuição das etnias indígenas sob o domínio das potências rivais (Espanha e Holanda) 50. Cf. Textos que analisaram essa fase histórico-antropológica amazônica: CIDR, 1989; FARAGE, 1991. 81 motivadas pela estratégia e domínio português na região. Nesse sentido, a conquista portuguesa no Rio Branco foi marcada pelo pavor que se espalhou entre a população indígena, decorrência da repercussão de suas estratégias na escravização e comercialização indígena, buscando riqueza fácil. Observando a atuação portuguesa na região entre os rios Branco, Orinoco e Essequibo, espanhóis e holandeses denunciavam que os portugueses não zelavam pela evangelização missionária, visando a “civilização” e a fé cristã aos índios, mas eram movidos unicamente pela ambição pessoal (CIDR, 1989; REIS, 1989). Essas denúncias, implicando em maiores conflitos nas relações com os índios que estavam rejeitando qualquer contato com os brancos, eram resultantes das violências aplicadas pelos portugueses. Tais acusações foram levadas pelo comandante da colônia holandesa do Essequibo, em 1746, à Companhia das Índias Ocidentais. A explicação para tal situação, discórdia entre os brancos e o pavor51 entre os índios, era evidenciada na disputa geopolítica e no embate comercial que impulsionavam as experiências de domínio europeu nesse trecho da Amazônia. Dessa maneira, a colonização portuguesa tornou-se tirânica e o Estado tendeu a ser impotente na legislação da política indigenista. Esses representantes das nações européias, longe de suas metrópoles, envolviam-se em violentas lutas, não só entre si, mas também contra as populações indígenas amazônicas, conciliando os interesses de evangelização com os negócios de mercado. Favorecido por todo esse mecanismo de alianças e negociações, as tropas de Lourenço Belfort, exemplo de liderança isolada, muito comum no período, conduziram da região do Rio Branco para fazendas de suas propriedades no Rio Mearim (Maranhão) uma população de mais de mil índios. 51. No cruel processo de escravização indígena pelos portugueses e espanhóis, aliado às doenças, os índios viam-se obrigados a assumir nova identidade cultural dentro do novo contexto social europeu (MONTEIRO, 1994:105). 82 Nessa articulação lucrativa de Belfort, não temos registro do número do contingente indígena que foi destinado aos membros da expedição, aos serviços da “Fazenda Real” e do Colégio da Companhia de Jesus, além dos moradores dos distintos povoados ribeirinhos. Nessa perspectiva, não encontramos com nitidez reflexões históricas sobre o desalojamento paulatino do domínio holandês na Amazônia setentrional. Apesar dessas lacunas, temos notícias sobre medidas políticas administrativas que o Estado português tomou a partir da segunda metade do século XVIII, momento em que os portugueses constituíram condições histórico-políticas52 vantajosas para anularem as presenças tanto holandesa como espanhola na Amazônia setentrional. Entre essas medidas tomadas pelo Estado do Grão-Pará e Maranhão estava a que conduzia explorações de reconhecimento do Rio Amazonas e seus afluentes, evidenciando-se estratégias políticas e postos/ancoradouros para as incursões portuguesas na Amazônia, efetivando a posse da terra. Após o ano de 1750, ficou bem evidenciada a necessidade de uma medida que resolvesse a questão fronteiriça na Amazônia. A Coroa portuguesa precisava documentar sua presença na região, obtendo títulos de propriedade com base na posse da terra conquistada. A política dos Aldeamentos transfigurando os índios em brancos, instituindo-os como súditos da Coroa, comprovando a ocupação portuguesa, nem sempre funcionou. Os índios sentiam-se estranhos nesse exercício de cidadania portuguesa/brasileira, rebelavam-se e fugiam para o interior da floresta (sua morada e parente natural). As comissões mistas (espanhóis e portugueses) responsáveis pelos estudos e demarcação dos limites e os militares que acompanhavam o reconhecimento dos direitos entre as duas nações ibéricas, 52. Com o acordo entre Portugal e Espanha, através do Tratado de 1750, o português foi beneficiado com a posse dos povoados criados além do Meridiano de Tordesilhas, instituídos pelo uti possidetis. 83 entravam, constantemente, em discórdia ou envolviam-se em lutas por não aprovarem determinados marcos, limitando as fronteiras. Em conseqüência, o rei português ordenou ao Governo do Grão-Pará toda a severidade contra os missionários ou colonos (responsáveis pelas aldeias) que se mostravam infiéis a Portugal: pessoas competentes e fiéis ao rei deviam ser envidas para traçarem o mapa dos rios em que penetravam para, em seguida, tomarem posse da terra (REIS, 1989). Assim, a instalação da Capitania de São José do Rio Negro com capitalem Barcelos53, como um elo dessa rede de expansão político-administrativa, favorecia uma melhor compreensão tanto dos “mistérios” da selva e sua cartografia aquática como dos “selvagens” habitantes da região, além da presença do Estado português. Nessa nova Capitania, os representantes de Portugal organizaram as expedições de reconhecimento das rotas fluviais de passagens tanto para a bacia do Rio Branco como para as do Rio Essequibo e do Rio Orinoco, garantindo o controle da aproximação dos colonizadores das nações rivais (espanhóis e holandeses). Desse modo, a Reforma Indigenista para o Estado do Grão-Pará e Maranhão feita pelo ministério do Marquês de Pombal, no século XVIII, assinalou princípios num esforço de monopolizar ou revigorar a política econômica amazônica, em favor dos interesses da Coroa portuguesa, que estava sendo prejudicada por esses entendimentos diplomático-jurídicos em relação à posse e usufruto das terras. Um dos pressupostos da Reforma do Marquês tinha como meta povoar a região amazônica no Rio Negro com expansão até o Rio Branco, contando, para isso com o apoio de seu meio-irmão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, o 53. Antiga aldeia missionária fundada pelos carmelitas foi transformada em vila e capital com o nome de Barcelos. Tal mudança política e denominação eram um cumprimento ao programa governamental que se traçara para renomear todas as povoações da Amazônia recorrendo-se aos nomes das vilas da Casa dos Bragranças. Tais ordens e procedimentos de fundação da Capitania estavam contidos na Carta Régia de 3 de março de 1755 e nas Instruções posteriores (cf. REIS, 1989:119). 84 governador e capitão-mor do Estado do Grão-Pará e Maranhão. Em 1757, Mendonça Furtado nomeou seu sobrinho, o Coronel de Infantaria Joaquim de Melo e Povoas para governar a Capitania de São José do Rio Negro. No entanto, a instalação desse novo sistema administrativo na Amazônia não foi bem aceito pelos antigos administradores (civis degredados, militares e religiosos), envolvidos no tráfico de escravos índios e no contrabando de produtos tropicais amazônicos, privilegiando seus próprios interesses. Mendonça Furtado fez valer a soberania do Real Serviço de Sua Majestade, regulando as instruções político-econômicas e estabelecendo condições para a “civilização” do índio, buscando mecanismos políticos/diplomáticos para garantir a soberania de Portugal, que estava enfraquecida pelo jogo de interesses dos antigos administradores dos povoados ou aldeias, ambiciosos de poder estatal e riqueza fácil. A trama de negociações, alianças políticas e administrativas constituídas por comerciantes da elite de Belém e São Luiz, que também estavam interessados nas drogas do sertão, era definida no financiamento das viagens de “coletores” que, com a conivência de administradores corruptos, permitiam que esses viajantes comercializassem escravos indígenas (MONTEIRO, 1994:112). Essas expedições com os “coletores” representavam o poder estatal e, à revelia, vivendo no interior amazônico, coordenavam o abastecimento da mão-de-obra indígena (REIS, 1989; MONTEIRO, 1994). A Reforma Indigenista do Marquês de Pombal (Lei de 7/6/1755) criou mecanismo de poder sobre o índio aldeado que, por meio do Regimento do Diretório, seria administrado por um índio “livre” e “súdito” do Rei de Portugal, denominado “Principal”. Esse novo administrador do Aldeamento substituiria o missionário que se tornaria apenas o capelão dos índios aldeados. Assim, o índio “livre” era o índio “civilizado” e protegido pelo Estado português. Com essa 85 medida, a Reforma pombalina retirou o poder tutelar dos missionários sobre os Aldeamentos e seria auxiliado pelo “Principal” que exercia entre os índios distintas funções políticas em favor do Estado português (cf. CIDR, 1989; REIS, 1989; FARAGE,1991). Dando continuidade às reformas administrativas e políticas, Mendonça Furtado normatizou e aplicou um conjunto de medidas relativas à vida do índio na região: retirou a administração das aldeias da mão dos missionários, concedeu “liberdade” aos índios aldeados. Em alguns povoados, o índio “civilizado” exercia as funções políticas (administrador, juiz ordinário, vereador das câmaras, entre outras). Assim, em maio de 1757, Mendonça Furtado regularizou a situação do índio “livre”, criando o Regimento do Diretório. Nessa concepção, revelando um novo modelo de prática ilegal contra a vida e a terra do índio amazônico, o governo português impôs um novo sistema político administrativo: os antigos Aldeamentos ou missões seriam governados pelo índio “livre” que auxiliaria o vigário na “civilização” indígena, tornado-os aptos para os serviços régios, civis, militares e religiosos, transformando os Aldeamentos em vilas e povoados (CIDR, 1989; REIS, 1989; FARAGE, 1991). Embora tenha havido certa mudança nas leis sobre as etnias indígenas na bacia do Rio Branco, o Estado português não contribuiu para que o índio fosse reconhecido como um cidadão étnico diferenciado do europeu. As idéias contidas na Reforma pombalina faziam referência à ordem para que fosse destruído todo o vestígio da cultura “não-civilizada” presente nesse mundo natural em transformação urbana integrada ao distante reino ibérico. A partir disso, podemos dizer que, nesse contexto, o índio saiu do controle missionário e não foi devolvido ao seu estatuto anterior. Apenas foi mudado o tipo de molde segundo os parâmetros de interesse do colonizador, de visão etnocêntrica, predominando a negação da cultura diferente, numa tentativa de eliminá-la. 86 Segundo os novos princípios enunciados, cabia aos missionários “civilizar” os índios habitantes dos aglomerados populacionais ribeirinhos, conforme o Real Serviço de Sua Majestade (representado pelo poder público das Capitanias e do Estado do Grão-Pará) continuando o índio “cristianizado” a ser introduzido nas diferentes prestações de serviços do Estado e dos moradores colonos. Essa reforma pombalina, que redirecionou a dinâmica sócio-cultural, geopolítica e comercial estava apoiada em um modelo político de poder colonizador com flexibilidade suficiente para a incorporação da iniciativa privada, tendo em vista a possibilidade do aumento da receita fiscal do Estado português. Os missionários Carmelitas e Franciscanos, entre outras Ordens católicas, cederam às novas medidas que tornavam o missionário em capelão do povoado, mas os religiosos jesuítas não aceitaram perder o poder político-administrativo das aldeias para um “Principal” e, auxiliados pelos índios aldeados, tomaram-se de hostilidades contra o Estado português. O Marquês de Pombal criou novas ordens régias e a lei de 03 de setembro de 1758 expulsou de Portugal e suas Colônias a Ordem Jesuíta. Os índios rebelados abandonaram as aldeias e fugiram para o interior da região amazônica (REIS, 1989:117). Tais reformas em relação à “civilidade” ou “liberdade” do índio deixavam dúvidas em certos segmentos da sociedade colonial amazônica, pois era sabido que as ordens régias e instruções políticas estavam sempre no âmago dos interesses do momento do poder público amazônico (REIS, 1989). Assim, no processo de civilização do índio se expandia nesse território, transfigurava-se em súdito e, conseqüentemente, ocupava o cargo de “Principal”. Como trabalhava em favor do Estado português, o índio não via sentido nas suas funções, originando fuga ou abandono do cargo e aldeia para o interior da floresta, pois lá, ele tinha alimento mais farto, além do prazer de conviver com os parentes, contrariando as 87 instruções das cartas e leisrégias54. Para o português/brasileiro, morador dos vilarejos ou povoados ribeirinhos, o índio “livre” na figura do “Principal” não estava qualificado para tais cargos ou funções a serviço do Rei, porque era analfabeto na língua e cultura portuguesa. Nesse processo de expansão portuguesa, o retorno das tropas de Resgates e os novos Aldeamentos representavam mecanismos políticos necessários à defesa da terra e soberania de Portugal. Desse modo, podemos expor que a conquista da região pelos portugueses foi favorecida, tanto pelas novas informações cartográficas da rota fluvial, como pelos novos mecanismos sociais, políticos, jurídicos e sua complexa parceria comercial, com o apoio dos representantes do Estado nas diferentes localidades ribeirinhas que mantinham uma mão-de-obra indígena ainda farta, apesar das deserções para a selva. Com relação à política indigenista, a legislação sobre as etnias indígenas que vigorou até meados do século XVIII classificava os índios em duas categorias: os livres e os escravos. As etnias consideradas “livres” eram as dos índios que se encontravam nas aldeias missionárias, enquanto consideradas “escravas” eram aqueles rebelados e aprisionados pelo que se denominou de “guerras justas” ou apresamento indígena pelas tropas de “resgates”. Nesse processo dos Aldeamentos, a estrutura de sobrevivência do branco apoiada na desestruturação da cultura do índio, com ausência de escrita, organização social e estatal, facilitou ao Estado português montar os seus mecanismos políticos de imposição na expansão de seus domínios, fazendo uso da força de “coerção” sobre o direito da terra e do índio. 54. Cf. textos de autores que analisaram legislações indigenistas, do século XVIII, na Amazônia: REIS, 1989; FARAGE, 1991. 88 Apesar das mudanças de mentalidade política e social pelo europeu55, no século XVIII e começo do XIX, reconhecendo novas formas estruturais do Estado-Nação e da sociedade, o ameríndio ainda era observado pelo habitante europeu do mundo amazônico como incapacitado de fixar-se nos elementos e regras de sociabilidade transferidas da Europa para os Aldeamentos, que impunham normas educacionais e profissionalizantes, encaminhando o índio para um mercado de trabalho, que o índio não compreendia. Diante do histórico dessa situação, podemos dizer que durante os séculos XVIII e XIX, a história da Amazônia setentrional, como de toda a América Latina, confundiu-se com a própria história das ordens religiosas e do poder do Estado colonizador, com ênfase na evangelização, na posse e na segurança da terra. À vista de tal quadro social “conquistador/civilizador” o índio era parte da terra, um bem a mais a ser explorado. Mágica e dadivosa terra, que já trazia os braços para explorá-la, a mão-de-obra representada na figura do índio, o mais importante “produto” da terra amazônica. Tal desejo alentava o processo de imigração para a região no século XVIII, onde, após as reformas do Marquês de Pombal, sustentavam-se aspirações europeizadas e aristocráticas na competição por poder político e recursos econômicos extraídos da Amazônia. Dessa maneira, multiplicou-se o número de particulares e religiosos que, auxiliados pelas tropas de resgates, aventuraram-se neste contexto de enfrentamentos e posse da vida humana e da terra amazônica. Tal realidade em construção ainda perdura e influi nas relações contemporâneas. Não é difícil entender a razão dos conflitos, da posse da terra amazônica e da vida humana como parte integrante na construção do Estado Luso-brasileiro, na bacia do Rio Branco. A forma como o Estado moderno passou a ser 55. Mudanças provocadas pela difusão das idéias (iluministas, positivistas, materialistas, evolucionistas, entre outras) que deram novas interpretações políticas e sociais, exaltando conceitos como os de liberdade, igualdade, dominação, forças de produção, etc. 89 concebido, individualista de concepção burguesa, em oposição à coletividade não compreendida do índio, de relação coesa entre terra e cosmo, não reconhecida e nem incluída no sistema de direito estatal, obrigando o índio a integrar-se no Estado, como propriedade, foi uma das principais razões dos conflitos. FIGURA 02 Maloca Macu exatamente acima do desfiladeiro de Toquiximauaíte, na margem esquerda do Rio Parima. Expedição Rice (1924/87). (Legenda e Foto: RICE,1978). A maloca, ainda, apresenta quase as mesmas características das malocas edificadas nos séculos passados (grifo nosso). Isto quer dizer que o projeto integracionista do Estado, por meio dos Aldeamentos, do ponto de vista dos índios aldeados era um cruel processo de escravização e morte. Na seqüência, os índios cooptados na aspiração civilizadora, enquanto prática de cidadania, foram vivendo uma cruel realidade de discriminação e preconceito na figura do “caboclo” ou “brasileiro nato”. Nesse contexto do Rio Branco em construção, a “nova sociedade local” (brancos) 90 expropriou o índio de tudo que lhe era essencial - identidade e terra – postulando que estaria convertido em cidadão e protegido por um Estado justo56. Nesse cenário de tensões e competições entre “brancos” e índios, o contexto sócio-cultural da maloca foi se urbanizando, influenciado pela aspiração “civilizadora”. Tratava-se de grande perda, embora o establishment político o visse como “ganho”. 1.5. Forte São Joaquim e a consolidação da conquista do Rio Branco Após a guerra entre os portugueses e os índios Manao, que deu início às constantes revoltas entre as diferentes etnias indígenas, bem como a presença de Aldeamentos da Coroa espanhola, estabelecidas após o Tratado de Madri, em 1774, o diversificado comércio dos holandeses na bacia do rio Branco, atingindo os rios Amazonas e Solimões, significou obstáculos para o Brasil português efetivar o seu pleno domínio nessa região. Por sua vez, na busca de alternativas para a mudança política em favor da Coroa portuguesa na disputa por terras, durante a segunda metade do século XVIII, o missionário da região do Rio Negro, Frei José de Magdalena57, fez um relato ao governador do Grão-Pará, solicitando atenção especial para a região do Rio Branco. O referido religioso alertava sobre a constante presença holandesa na região do Rio Branco, dominando os negócios de trocas e o tráfico de escravos índios. Dessa forma, a multiplicação de alianças, que aumentava o poder político- econômico holandês, deveria ser combatida de forma enérgica para que eles não 56. Promessas fundadas nos ideais liberais experimentadas nos primórdios do Estado Moderno, firmando-se nos direitos humanos, no reconhecimento da liberdade e da igualdade para todos, expressões máximas da dinâmica social francesa de final do século XVIII. 57. O Frei José de Magdalena tinha como auxiliar o missionário carmelita Frei Jerônimo Coelho, o qual fazia tráfico de escravos índios e parceria comercial com os holandeses na bacia do Rio Branco, monopolizando esse comércio clandestino nas regiões dos rios Branco, Negro, Amazonas e Solimões (cf. Nosso comentário nas pp. 60/62). 91 se tornassem os “Senhores” das terras dos rios Branco e Negro. Nesse jogo de interesse e estratégia individual de cada administrador dos aldeamentos missionários, era perceptível o desejo de aumentar seu poder de barganha e influência no poder central. Nessa barganha, poderiam até estabelecer alianças pontuais com os competidores inimigos na busca de uma meta imediata comum. No entanto, dificilmente buscavam formar uma aliançaampla, porque prevalecia a conduta individualista e não de política central bem definida. Diante dessas notícias, o governo do Estado do Grão-Pará ampliou o poder político da Capitania de São José do Rio Negro58, em 1775, com uma extensão administrativa militar na bacia do Rio Branco. Efetivou tal proposta construindo um forte, no ponto de encontro dos rios Tacutu e Uraricoera59, sendo que na construção do Forte60 (1775 e 1776), denominado de São Joaquim, a mão-de-obra foi fornecida pelo vizinho Aldeamento São Felipe localizado no Rio Tacutu. Parte do armamento do Forte foi trazido do Grão-Pará e outra parte foi tomada aos espanhóis durante confrontos entre soldados espanhóis habitantes do Rio Branco que foram expulsos pelos portugueses61. A estratégia portuguesa, com pretensão expansionista, buscava não só ocupar militarmente, mas também utilizar as etnias indígenas como “fronteiras vivas” e defensoras dos sertões amazônicos (FARAGE, 1991). Um dos fatores de maior preocupação para essa empreitada portuguesa era o de legalizar o povoamento na região, trazendo para sua esfera índios que tinham um bom 58. O pequeno aglomerado urbano que foi se desenvolvendo ao redor do Forte de São José do Rio Negro (1669) que sempre esteve isolado do Grão-Pará, após a tomada de decisão do governador, a pequena Capitania, unificada ao poder Monárquico, direcionou-se para conquistar o Rio Branco com a instalação do Forte, Aldeamentos e Fazendas, antes da conclusão dos trabalhos das Comissões de Demarcações das fronteiras amazônicas. 59. O Rio Tacutu faz ligação com a bacia do Essequibo habitada por holandeses e o Rio Uraricoera faz ligação com a bacia do Orinoco habitada por espanhóis. 60. Desempenhando uma frágil presença militar e administrativa portuguesa, o Forte se manteve até o final do século XIX. 61. Em fins do século XVII, os espanhóis disputavam essa região com os holandeses. Na primeira metade do século XVIII, os espanhóis fundaram nessa região os povoados de Santa Rosa e São João Batista e uma pequena fortificação, cujos objetivos eram o de firmar o domínio comercial e a soberania espanhola no Rio Branco. 92 relacionamento com holandeses e ingleses, evidenciado na comercialização dos produtos manufaturados holandeses que eram trocados tanto por escravos índios como as drogas do sertão. FIGURA 03 Forte São Joaquim e Povoação de Santa Maria 1. Prospecto da Fortaleza de São Joaquim, Rio Branco, feito por Alexandre Rodrigues Ferreira, em sua viagem entre os anos de 1783 e 1792. (Prancha: Ferreira, A.R. 1971. Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá: 1783-1792. Iconografia vol.1.Geografia-Antropologia. Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro). Apud BARBOSA, Reinaldo et alii, 1997:198. 2. Povoação de Santa Maria, Rio Branco, desenho de Alexandre Rodrigues Ferreira, feito em sua viagem entre os anos de 1783 e 1792. (Prancha: Ferreira, A.R. 1971. Iconografia vol.1.Geografia-Antropologia. Conselho Federal de Cultura. Rio de Janeiro). Apud BARBOSA, Reinaldo et alii, 1997:198. 93 MAPA 01 Forte São Joaquim e Aldeamentos na bacia do Rio Branco, século XVIII (FARAGE, 1991). 94 Tal ação indígena, aliada aos holandeses, fez parte das preocupações do Ouvidor da Capitania do Rio Negro, Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio. Durante uma expedição exploratória ao vale do Rio Branco, buscando reunir provas da soberania da Coroa de Portugal na região, o Ouvidor Ribeiro de Sampaio registrou sua impressão sobre a cultura indígena e as grandes vantagens dos recursos minerais na região sendo que, para o Estado usufruir desses produtos da natureza, ele reafirmava a importância de uma fortaleza nesse território como um dos marcos da presença do Brasil português. Essa representação militar administrativa a serviço da Coroa portuguesa favoreceria sobretudo a Capitania do Rio Negro, mas, também, em menor medida a do Grão-Pará. Posteriormente à instalação do Forte São Joaquim, o governo do Brasil português voltou sua preocupação para os mecanismos políticos educacionais que deveriam “civilizar” os índios aldeados que, assim, unificados pela língua portuguesa, em substituição às diferenças lingüísticas62 (dos próprios índios e das demais dos colonizadores europeus) serviriam para dar a impressão de mudar a concepção de índio como “objeto” para a do índio como “fronteira ou muralha viva”63 contra os interesses não-portugueses. Nesse sentido, as nações rivais de Portugal/Brasil presentes nessa região amazônica protestaram e acirraram a competição política e religiosa entre protestantes e católicos pelo monopólio tanto da terra como da vida humana nativa. Os representantes do ministério de Pombal sabiam da existência das vastas terras desconhecidas pelo Estado do Grão-Pará, que faziam fronteiras com colônias ocupadas por holandeses, franceses, ingleses e espanhóis na Amazônia e, 62. Entre as distintas famílias indígenas do tronco lingüístico Karib, a etnia Makuxi, intermediando o comércio de trocas com os holandeses, comunicava-se também com os espanhóis e, depois, com os portugueses. A etnia Wapixana (grupo de língua Arawak) auxiliava os portugueses nos contatos inter-tribais e comunicavam-se com o holandês/ingleses. 63. “Fronteiras Vivas”, esse conceito de termo corrente na Antropologia, fez-se presente pela primeira vez na Geografia Social (cf. VALLOUX, 1914). 95 no contexto referente à demarcação das fronteiras, eram necessários normatizar instruções régias e civilizar o índio na língua portuguesa para confirmar politicamente a soberania Luso-brasileira. MAPA 02 Localização das antigas e das novas unidades militares (no século XVIII). Os trabalhos das comissões que determinavam os limites entre Portugal e Espanha eram sempre interrompidos por falta de clareza nos documentos (relatórios, memoriais, acervos cartográficos), além dos constantes conflitos armados entre soldados espanhóis e portugueses dificultando a obra de reconhecimento das terras amazônicas (MANSUY-DINIZ SILVA, 1998:484). Desse modo, o governo português reforçou seu poderio político e econômico com a posse da terra e a ampliação da rede de fortes nos principais rios da Amazônia. Além disso, incentivou a imigração branca para as regiões escassas de população “civilizada”64. Assim, o Estado monárquico desenvolveu 64. Nesse processo de invasão da região e rebatizando tudo com nome português, as etnias indígenas eram consideradas “brancas” quando aldeadas e batizadas com nome português e sendo tomadas como aliadas 96 mecanismos de exploração comercial e colonial, efetivando, por meio dessas medidas régias, a presença portuguesa na Amazônia, com expansão política e militar. Entre costumes “selvagens” mesclados aos hábitos europeus, eliminando parte da memória cultural indígena e agregando parte da cultura ocidental, índios e brancos, cada um a seu modo, foram aumentando a violência dos contatos, redefinindo lugares e o papel destes sob o domínio do Estado, protagonista de conflitos pela terra. Essa realidade dual (ser ou não ser índio/branco) assumiu novas configurações na bacia do Rio Branco, dificultando a imposição geopolítica portuguesa na região, constituindo-se em várias reformulações de estratégias portuguesas para fixar os índios em aldeamentos, fazendas ou vilas sob o comando do Forte São Joaquim. 1.6. A reação indígena contra o Estado português e a denominada “Praia do Sangue” A entrada administrativa militar portuguesae (compartilhando com os administradores dos aldeamentos) a luta pela partilha política e econômica no Rio Branco incitaram as tensões entre índios e não-índios, por negar a aqueles o direito de convivência diferenciada da organização européia. À mercê dos interesses políticos e econômicos, os pioneiros brancos implantaram as novas formas de poder social e de direitos que foram legitimados por instâncias do Estado, tornando o índio sua propriedade65. importantes no povoamento e nos contatos com os outros grupos indígenas (rebeldes ou isolados, “selvagens”) e na formalização da posse da terra. 65. Fazemos referência às Reformas Indigenistas do Marquês de Pombal (século XVIII) que tornou o índio tutelado pelo Estado. Tal direito do Estado sobre o índio perdurou até o século XX fazendo-se presente nas Reformas Indigenistas do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) em 1910 e da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) que substituiu o SPI (Lei 5.371 de 05.12.67). O índio tornou-se cidadão diferenciado do nacional, somente, com a Constituição Federal de 1988 que reconheceu a cultural e o direito de posse da terra habitada pelo índio. 97 Essa proposta governamental, por meio dos resgates e aldeamentos, fazia tábula rasa das diferenças sociais e culturais de cada etnia indígena e, para tornar essa população “cortês” ou escrava, desenvolveu rivalidades e fortaleceu o desejo dos índios de combater o domínio do governo português. Essas ações e medidas envolvendo brancos e índios criaram novas tensões. Tais crises do processo “civilizador” deram origem a uma série de movimentos conspiratórios dos índios contra o Estado português. Em geral, todas as formas de vida na bacia do Rio Branco experimentaram um impressionante desgaste ao longo desse processo colonial vinculado à experiência etnocêntrica da cultura ocidental. Ignoramos, todavia, as circunstâncias de tal contexto em guerra entre índios e não-índios no plano colonial português, por conta da escassez de documentos históricos sobre essa situação colonial do século XVIII na bacia do Rio Branco. Há, no entanto, alguns registros etno-históricos que dão conta da reação indígena contra o processo de evangelização católica (aldeamentos/povoados) e o fortalecimento do capitalismo monárquico pelos portugueses (CIDR, 1989; FARAGE, 1991). Esses documentos fazem referência, também, a índios rebelados presos no Forte e que o motivo de tais revoltas era o não cumprimento, por parte do índio, das instruções régias na “civilidade” indígena (Id., ibid.). Nesse embate, o colonizador português incitava guerras entre os próprios índios, que vinham se envolvendo em lutas pelo monopólio comercial holandês, entre famílias do tronco Arawak e Karib, as etnias Wapixana, Makuxi, Sapará, Paraviana e outros grupos menores que foram seduzidos por este processo de aldeamento. Nesse contexto, o número reduzido de brancos não impedia as deserções dos índios que fugiam das aldeias missionárias e povoados, deslocando-se para o interior da selva/lavrado ou para os núcleos de comercialização holandesa. 98 Assim, os portugueses estavam sempre recomeçando o trabalho de “atração” dos índios para o aldeamento. Nesse processo, os índios tentavam se organizar em suas etnias e os portugueses tentavam “civilizá-los” ou “escravizá-los”, tornando-os mercadorias lucrativas. Na conjuntura colonial de confronto das aspirações e dos interesses, os portugueses implementaram políticas indigenistas duras contra os índios aldeados. Mas o efeito da política que buscava controlar a rebeldia indígena não foi a esperada pelo colonizador português. Em 1790, os poucos documentos relatam uma sangrenta batalha entre índios e tropas portuguesas (Id., ibid.). Por motivos desconhecidos, um “Principal”66 Makuxi, denominado Parajuijamari, matou um soldado que o conduzira do aldeamento vizinho ao Forte para o Aldeamento São Martinho67. Quando retornou para o aldeamento residente, junto ao Forte, ali matou também o soldado administrador dessa unidade militar. Esse gesto do índio Makuxi desencadeou um efeito multiplicador e os índios aldeados se organizaram e emboscaram mais dois soldados, depois disso todos os índios fugiram para a região de serra. Ao ter conhecimento dessa rebelião, uma tropa partiu para o Rio Branco com ordens do governo da Capitania do Rio Negro, Lobo D’Almada, para capturar os fugitivos e forçá-los a retornar aos aldeamentos. Essa operação fechou o cerco sobre o território Makuxi e, com a morte de Parajuijamari, durante uma “resistência armada” contra as tropas portuguesas, desencadearam-se inúmeras revoltas indígenas ao longo dos anos 90 do século XVIII (CIDR, 1989; FARAGE, 1919). As denúncias feitas pelos índios sobre a falta de cumprimento dos pactos realizados entre os colonizadores e os índios aldeados não eram reconhecidos pelas autoridades régias, que tinham como meta a ordem social e soberania 66. Cf. Comentários feitos acima, pp. 84/87. 67. Para melhor compreensão desse contexto consultar Mapa 01, p. 93. 99 portuguesa na região. Nesse contexto de guerra, as margens do Rio Branco se tornaram palco de batalhas e os índios foram quase completamente dizimados. Foi nessa época que se registrou a mais conhecida de todas as rebeliões, a denominada “Revolta da Praia do Sangue”, quando as povoações ao longo do Rio Branco, com exceção da N. S. do Carmo, foram destruídas na luta dos índios contra os soldados do Brasil português (IBGE, 1954 e 1957). MAPA 03 Migrações das Etnias Indígenas no século XVIII (FARAGE, 1991). 100 Muito pouco se sabe sobre os empreendimentos nos povoados/aldeias, das revoltas indígenas, das rotas seguidas pelos manufaturados, das estratégias militares portuguesas e das políticas culturais na alteração da vida e da paisagem nestas terras amazônicas. Apesar disso, observamos que até hoje esse processo de colonização é ensinado, nas escolas de Roraima, sob o ponto de vista da historiografia brasileira tradicional68, como a “conquista” e povoamento pelos colonizadores portugueses. Essa historiografia exalta a figura dos “heróis pioneiros” que desbravaram as selvas e afastaram outros grupos europeus. Nos diferentes relatos de cronistas que acompanharam as expedições colonizadoras na região, não há notícias detalhadas sobre essas etnias presentes no Rio Branco. As denominações são confusas, como os “Caribes” também chamados de “Canibais”, aparecendo como supostos “Caripunas” que negociavam com os Makuxi e holandeses na bacia do Rio Essequibo. A própria legislação indigenista de Pombal não enuncia com clareza a função do índio aldeado: ele é “livre” e usufrui o exercício de cidadania, mas, ao mesmo tempo, não tem direito de propriedade, ao contrário, ele é propriedade do Estado. Dentro dessas controvérsias na história da situação do índio, não só de Roraima como do Brasil, acreditamos na possibilidade de algumas áreas das ciências humanas reunirem-se para estudar e propiciar alternativas para essa questão: estudos de antropólogos, juristas, cientistas políticos e sociais, entre outros, poderão auxiliar no entendimento desse processo histórico. A partir dessa questão, seria necessário entender quando e como ocorreram a conversão e Aldeamento dos Makuxi e de outras etnias, que em períodos anteriores travavam intensas relações com holandeses. Não existem 68. A historiografia de Roraima, em geral, é deficitária no tratodessa questão étnica na região, desde o século XVI aos nossos dias, século XXI. Uns dos problemas são, ainda, as poucas pesquisas por historiadores. 101 estudos a respeito dessa situação interétnicas, pois desconhecemos a presença de documentos a tal situação colonial em arquivos holandeses69. No contexto da transfiguração do índio em branco e de uma série de episódios dramáticos de resistência indígena, o caráter autoritário de atuação do Estado português apaziguou as revoltas dos aldeados. Assim, diferentes famílias Makuxi (Karib) não só assumiram a cultura do Brasil português, como também os pactos de paz com os Wapixana (Arawak) por meio de casamentos e trocas comerciais. Em algumas malocas os índios passaram a denominarem-se como “Makuxi-Wapixana” (cf. OLIVEIRA, 1991:21). Tais amalgamentos empanam a identidade indígena e reforçam o poder do Estado sobre o índio que, transformado em “branco”, perde-se nos desvãos da sociedade que se propôs “integrá-lo”. 1.7. As Fazendas na bacia do Rio Branco A conquista da bacia do Rio Branco pela Coroa de Portugal desenvolveu- se com a introdução sistemática do gado no final do século XVIII, momento da fundação das primeiras fazendas particulares que integravam a região ao Império português. Essa nova dinâmica colonizadora por meio da pecuária apareceu como uma solução para o programa de exploração e expansão comercial executada por Manoel Sá Gama Lobo d’Almada, Governador da Capitania de São José do Rio Negro: Explorando o vale do Rio Branco, por ordem do governo em 1787, Lobo d’Almada percebera o valor daquelas campinas verdejantes que se estendem até os contrafortes 69. Um pouco da etno-história dessa região, das transformações ocorridas no período colonial, já foi divulgada por estudiosos da antropologia e da história social, considerando os problemas interétnicos e o poder da cultura branca sobre o índio. Contudo, não apresentam de modo claro às formas de governo indígenas no processo de trocas comerciais entre os próprios índios e desses com os europeus, nos séculos XVI e XVII. Além disso, não há referências detalhadas sobre a repressão exercida pelo Estado português, no século XVIII, na política de assimilação das famílias indígenas associadas aos holandeses ou espanhóis na região do Rio Branco (cf. DINIZ, 1972; RICE, 1978; REIS, 1989; CIDR, 1989 e 1990; FARAGE, 1991; SANTILLI, 1994 e 1997). 102 guianos. (...) mostrando a conveniência do estabelecimento de fazendas de criação (REIS, 1989:144). De fato, com o reconhecimento da posse portuguesa na área do Rio Branco, pelo Tratado de Madri (1750), a implantação das fazendas nos campos dessa região atendia um dos programas governamentais do Brasil português de valorização econômica da terra, garantindo-lhe a ocupação, alimento e a defesa: As carnes secas com que se poderiam fornecer as diferentes povoações da Capitania em que há trabalhos públicos, como são as fábricas de anil, aonde a falta do necessário sustento embaraça o seu maior programa, (...) cresceriam as rendas reais com os dízimos do gado (REIS, id., ibid.). Esse caráter de exploração mercantil e povoamento incorporou novas forças sociais (religiosas, civis e militares) apoiadas no trabalho indígena. A liberação do poder sobre a força do trabalho indígena, dividido entre o Estado e os militares, estendeu-se aos missionários e aos moradores colonos. Isso fez surgir uma variação nessa rede de poder político-administrativo, nos serviços e negócios (agricultura e pecuária) da nova política econômica e de fixação do homem colonizador no vale do Rio Branco. A europeização do Rio Branco deu- se, então, com a colonização firmada na cultura pastoril (SOUZA, 1969). Esse vale amazônico, uma vez integrado ao Brasil português, tornou-se logo um fecundo lugar de contato entre índios e não-índios. O processo “civilizador” português, acentuado pela violência contra os índios, recorreu ao escravismo e ao tráfico de índios como o eixo em torno do qual se estruturou a vida nessa região que se abria para o grupo comercial pecuário e agricultor. É importante ressaltar, neste ponto, os inúmeros grupos indígenas ilustrados no Mapa 03 (acima, p.81) que foram amplamente usados como mão-de- obra nos distintos serviços da cultura do gado. Podemos afirmar que nesse processo a cultura do gado foi um mecanismo importante para o Brasil português redefinir a geopolítica frente às outras nações européias envolvidas em litígios na bacia do Rio Branco, o desejo de tutela sobre essa porção de terra amazônica e 103 seus habitantes índios pela monarquia portuguesa se fez, também, com apoio dos outros mecanismos: a unidade militar/religiosa e a escravização do índio. Embora as ordens religiosas, via Pombal, tenham perdido o papel de comerciantes de índios, elas não perderam sua capacidade de desestruturar a cultura indígena, pelo viés não só religioso quanto de certas práticas cotidianas, interferindo na cultura material. O projeto do gado se concretizou com a posse do gado bovino deixado pelos espanhóis expulsos, em 1793, das margens do Rio Solimões, em Tefé70 (REIS, 1989:145), e rebanhos trazidos do nordeste brasileiro, região que vivia dificuldades com a seca. Assim, o Coronel Lobo d’Almada fundou na região uma das primeiras fazendas particulares, denominada São Bento. Seguindo o mesmo modelo, o próprio comandante do Forte São Joaquim, Sá Sarmento, instalou uma fazenda (São Marcos) nas proximidades do Forte. Ao mesmo tempo, um rico morador do Rio Negro, o capitão José Antonio Évora, instalou também uma fazenda denominada São José (SOUZA, 1969). Estas três fazendas particulares constituíram o cenário que facilitaria o desenvolvimento da cultura do gado, contribuindo ainda para o fortalecimento do poderio português. Contudo, esse poder político, fornecendo aos fazendeiros um poder maior de barganha, não serviu para que obtivessem autonomia financeira, pois dependiam do mercado da Capitania do Rio Negro, de um eficiente transporte fluvial, da mão-de-obra indígena que executava diferentes serviços, de negociações e alianças para obter certo equilíbrio sócio-cultural entre colonos, religiosos e índios. Esse “pacto social” como uma fórmula política e econômica, de uma imperiosa necessidade de expansão amazônica e soberania portuguesa, colocava 70. Embora a Ordem Religiosa espanhola continuasse, até os anos de 1950, ainda recebendo jovens noviças européias que ensinavam “bordados” às índias (Ref. Irmã Dolores, madre da Ordem no Brasil, Casa S. Francisco, J. Bonfiglioli, São Paulo, inf. Pessoal). 104 as sedes das fazendas num imenso território com baixa população branca que se organizava com privilégios do grupo dominante juridicamente definido. Com recursos financeiros incipientes, essa pequena burguesia agropecuarista mantinha a condição escrava dos trabalhadores índios que desenvolviam a agricultura de subsistência e uma pecuária de limitada relevância para o mercado da região. Um outro fator importante nesse processo “civilizador” foi a não necessidade de mão-de-obra abundante. Nesse sentido, a presença do escravo negro não deu caráter especial no empreendimento do Estado português nessa região amazônica. Os relatos dos pioneiros brancos deram notícias, também, com o início da ocupação pela sociedade “civilizada”, da falta de mulheres brancas na bacia do Rio Branco. A administração colonial do Grão-Pará precisava instalar povoamentos nessa nova fronteira sempre ameaçada de invasão por “corsários estrangeiros” que rondavam essa terra. Dessemodo, as relações amorosas com as índias, a poligamia do homem branco, a mestiçagem, era uma alternativa nesse processo de alargamento da fronteira e sua ocupação, em relações que se foram regularizando pouco a pouco, pela influência dos missionários católicos, e que chegaram até a casamentos. A partir de 1793, quando se efetivou o programa de povoamento do Rio Branco, após a instalação das “Fazendas Reais”71 e dos Serviços de Extrativismo e Roças, o Estado português buscou novas medidas regenciais que pudessem fortalecer a frágil relação política administrativa do Rio Branco. Dessa forma, o Estado colonizador voltou seus interesses para o incentivo da imigração 71. Essas fazendas eram de particulares, mas ficaram conhecidas na região como “Fazendas Reais” e depois “Nacionais”. Estavam localizadas na confluência dos rios formadores do Rio Branco: o Rio Tacutu (fronteira com a Guiana) e o Rio Uraricoera (fronteira com a Venezuela). Para os portugueses esse era um ponto importante na redefinição geopolítica de ocupação e defesa da terra amazônica em favor do Estado português. 105 (brasileiro, cristão-novo e degredado)72 e da política de casamentos com nativos. Nesse processo, o Estado português abria possibilidades para que o índio saísse da condição de escravo73 e estreitasse os laços familiares na consolidação dessa região amazônica, fortalecendo as “fronteiras vivas” e reorganizando o sistema sócio-cultural e geopolítico do Brasil português. Essa política reformista foi elaborada por Lobo d’Almada, cumprindo determinações recebidas do governador do Grão-Pará, general Pereira Caldas, que buscava proteger os interesses do Brasil português. Em relação à política indigenista para o Rio Branco foram estabelecidas as seguintes medidas: a) persuadir os índios das vantagens do sistema de vida português e, por isso, “sustentá-los, vesti-los, não os fatigar”, etc.; b) dar o que se promete e pagá-los “prontamente e sem usura”; c) deixar que cultivem as próprias roças e alimentarem-se segundo seus próprios costumes; d) não obrigá-los a trabalhos forçados; e) não “arrancar” os filhotes e mulheres das famílias índias; f) favorecer os casamentos entre soldados e índias, até incentivando-os com donativos de vacas (CIDR, 1989:20). A partir de tais medidas indigenistas, podemos considerar que nesse processo de instituição do espaço social, o pioneiro branco foi organizando as relações sociais, nas quais o fazendeiro e seus empregados (não-índios e índios) acabavam se tornando membros de uma mesma família por meio de casamentos ou relações de compadrio. Assim, de acordo com os critérios políticos 72. “Brasileiro” era o termo que identificava os mercadores de pau-brasil (no século XVI) e mais tarde os filhos de europeus e “mestiços” de europeus nascidos no Brasil colonial; “Cristão-Novo” era o termo que identificava os lusitanos (judeus) convertidos ao catolicismo; “Degredado” eram os lusitanos condenados por diferentes crimes e desterrados. 73. Em 1757, com base na Reforma Indigenista do Marquês de Pombal, o governador do Grão-Pará, Mendonça Furtado, normatizou medidas relativas à vida do índio, criando o Regimento do Diretório. Tal regularização tornava o índio “livre” (considerado branco) sob a proteção do Estado, sendo encaminhado para diferentes serviços do Estado e dos moradores do povoado (REIS, 1989). 106 regulamentados pelo Estado Luso-brasileiro, o fazendeiro74 era o chefe dessa “família portuguesa/brasileira”, era o senhor da terra e de seus familiares trabalhadores da terra. Esses novos donos da terra traziam parentes ou amigos, formando uma corrente migratória e constituindo-se na sociedade local, onde um indivíduo estava conectado ao outro por laços familiares ou de compadrio. Diante disso, é preciso considerar também o contexto em que se foi construindo essa região do norte brasileiro. Isto é, precisa-se verificar o contexto em que a história cultural do Rio Branco está inserida, pois evidenciou a presença de diferentes famílias indígenas que se uniram ao branco e deram uma raça mestiça de vaqueiros e domadores do lavrado amazônico. Dessa forma, iniciou- se um processo que mostrou, por exemplo, o trabalho de “mulheres silenciosas” e um pouco “selvagens”, indígenas de pouca fala e muita coragem, resistentes ao serviço na casa de fazenda e na roça. Os homens índios, por seu lado, galopavam a cavalo atrás do gado, nômades malgrado a ligação estreita com a terra. Nesse cenário da fazenda, homens e mulheres indígenas se identificavam como “brancos” desbravadores da região75. A chegada do médico, do professor, do juiz, de novos missionários, militares e comerciantes, entre outros atores sociais presentes nessas relações, fez surgir uma nova ordem sócio-cultural no final do século XIX e começo do XX. Nessa reformulação, expandiram-se os laços de parentescos que se aglomeravam ao redor da casa principal da fazenda. Nessa perspectiva, a sede da fazenda se transformou em vila. A partir das ampliações entre as relações sociais e familiares 74. Esses pioneiros brancos eram ao mesmo tempo: comandante do Forte São Joaquim e fazendeiro, proprietários de postos comerciais e fazendeiros, ou funcionários públicos e fazendeiros. Em geral, esses militares, comerciantes e funcionários públicos proprietários de terras eram descendentes de portugueses e foram dando origem a denominada “elite tradicional” da bacia Rio Branco. Exemplificando essa situação social, temos o capitão Inácio de Magalhães (1830) comandante do Forte e proprietário da Fazenda Boa Vista, o capitão Bento Brasil (1852) também comandante do Forte e fazendeiro, os quais originaram as denominadas “tradicionais famílias”: Magalhães e Brasil. 75. Considerações apoiadas no texto “Brasil terra de contrastes” de BASTIDE, 1980:87, que fez referência ao trabalho escravo do índio (id.:21) e, apesar de reconhecer a organização social do índio, Roger Bastide exalta a integração no processo de mestiçagem: “surgiu uma saborosa mistura de duas civilizações, a do português e a do índio (...) a Amazônia mestiça” (id.:45). 107 foi renovado o papel do chefe familiar. Nesse aspecto, deu-se abertura para a presença de novas lideranças na vila, surgiu uma nova arrumação no lugar social e outras alianças foram realizadas, resultando na divisão do poder político e administrativo com o fazendeiro76. O Estado português representado no Grão-Pará, não chegou a ser beneficiado pelos negócios econômicos da região do Rio Branco, apesar dos incentivos agropecuários decorrentes da política de desenvolvimento do Marquês de Pombal, a fragilidade nas transações comerciais eram constantes e sempre dependiam da intermediação da Capitania do Rio Negro (depois Estado do Amazonas). Essa prática política e sócio-econômica foi uma das características que se fez notar em outras estruturas regionais da política e da econômica do Brasil português: a dependência metropolitana. As relações entre o Estado colonizador e as aldeias, os povoados e as fazendas ao longo do Rio Branco eram debilitadas pela dificuldade de comunicação fluvial e pela distância até o Grão-Pará. Nesse contexto, avançou-se muito pouco na política de expansão e ocupação para a região, que não conseguiu estabilizar uma produção econômica. A pecuária não chegou a firmar uma política de mercado monopolista que garantisse participação nos privilégios concedidos pelo Estado colonizador aos moradores fazendeiros, que instituíam a enfraquecida sociedade burguesa, que mostrava interesse emfixar residência na região do Rio Branco. Distante das articulações financeiras em torno da cultura do café, favorecendo o olhar de exploração econômica para as regiões do eixo centro sul do Brasil português, a região do Rio Branco permaneceu em seu estado letárgico durante quase todo o desenrolar do século XIX. Nesse sentido, parece que o 76. Nessa fase da Primeira República (1889-1930), tanto o fazendeiro como as demais autoridades civis eram popularmente denominadas de “coronéis”. Esses líderes da elite local controlavam os privilégios da política do favor ou mais conhecido como coronelismo sustentando a “frágil” elite no poder estatal. Essa ação da elite urbana atingiu as diferentes regiões do Brasil republicano. 108 Estado colonizador abandonou o habitante dessa parte amazônica deixando-o entregue à própria sorte. A pequena sociedade moradora do Rio Branco, com seus poucos recursos financeiros, investiu na criação do gado e na agricultura com auxílio da força de trabalho de índios e não-índios, os quais recebiam o pagamento dos serviços prestados num sistema denominado de Quarta. Com a falta de moedas ou capital na região, essa prática de salário foi comum até o século XX. Assim, o regime de “sorte ou de Quarta foi o mais usado” e por meio dessa modalidade de contrato, “um quarto das crias nascidas durante o ano pertencia ao vaqueiro” (DINIZ, 1972:37). Essa prestação de serviços e as formas de pagamento nessa longínqua terra da Amazônia despertavam dúvidas entre os interessados patrões e trabalhadores, em relação à valorização dos serviços e a deliberação de verbas justas que pudessem atender as necessidades da população menos favorecida. Na verdade, a população indígena era explorada em sua força de trabalho, os patrões tiravam proveito impondo regimes e contratos de trabalho em perverso mecanismo de exploração. Os salários modestos (quando havia) eram apresentados sempre com grandes descontos, sem clareza de critério normativo, tornando o índio constantemente um credor (RICE, 1978:32). Nesse processo de expansão colonial em direção à bacia do Rio Branco, os critérios que definiram a legalidade da terra em favor do português/brasileiro foram a ocupação e as benfeitorias. A situação legal das fazendas particulares era apenas de posse, motivo que, na segunda metade do século XX, gerou novos conflitos em relação ao novo processo de ocupação da terra entre os colonos, os fazendeiros e os índios. Na verdade, durante os anos do século XIX e início do século XX, o governo português, e depois o brasileiro, fizeram pouco mais do 109 que repelir as incursões estrangeiras a seu território e tentar efetivar sua posse nas fronteiras constantemente ameaçadas. 1.8. Roraima no Império Para que possamos melhor compreender as mudanças na Amazônia e no Brasil nos fins do século XVIII e no decorrer do XIX, necessário se faz analisarmos essas transformações conectadas aos acontecimentos na América do Norte, que adquiria condições para sua autonomia, como também para alguns países da Europa que assistia às transformações importantes em sua estrutura política, social e econômica77. Desse modo, as tensões e lutas, ocorridas nesse espaço brasileiro, alteraram o sistema colonial na América Latina. No Brasil, após a Proclamação da Independência em 1822, a diversificada sociedade brasileira do centro Sul apoiava D. Pedro I na tentativa de preservar a unidade brasileira, mas as províncias do Norte e Nordeste que mantinham ligações diretas com Lisboa, rebelavam-se. A notícia da independência não foi recebida com agrado pelas tropas e pelos comerciantes portugueses do Grão-Pará e Maranhão. Desencadeou-se, nessa região, uma resistência das juntas governistas, controladas por latifundiários e comerciantes portugueses, mais interessadas em manter os laços com a Coroa de Portugal do que se submeter ao governo Imperial do Rio de Janeiro. Para impor o reconhecimento da independência e manter sob sua tutela esse imenso território, D. Pedro I contou com o auxílio financeiro da Inglaterra, que não 77. Em fins do século XVII e durante o século XVIII, a Inglaterra industrializou-se e expandiu seus mercados e círculos sociais de influência política internacional. Seguindo estratégias semelhantes, a França impregnada dos ideais liberais, tendo a burguesia que disputava o aumento de poder no comércio internacional, buscava derrubar o monopólio britânico. Essas duas nações européias que agitavam os espíritos americanos latinos admiradores do eurocentrismo, competiam o poderio político mercantil sobre as terras do Novo Mundo que eram dominadas pelos reinos ibéricos. A França invadiu Portugal e a Corte portuguesa veio para o Brasil (1808) tornando-o “Reino Unido” em 1815. Em 1822, com a Proclamação da Independência do Brasil tornando- o Império, D. Pedro I empenhou-se em manter unidas as províncias brasileiras. Tal modelo político se repetiu na 1ª República com a criação do Estado Federal e a troca da figura do Imperador pela figura do Presidente. 110 gostaria de perder seu vantajoso mercado nas terras brasileiras, e contratou tropas mercenárias para assegurar o domínio político sobre todas as províncias. Assim, após o estabelecimento da ordem provocada pelos conflitos político-sociais entre os moradores da Amazônia (Belém e Manaus), os representantes régios do Império brasileiro, em agosto de 1823, as autoridades civis e militares (representando a sociedade da Província do Pará) num ato solene, prestaram juramento de fidelidade e adesão a D. Pedro I. Os poucos documentos78 sobre esses acontecimentos na Amazônia, deram notícias também que os moradores da Província do Amazonas (civis, militares, comerciantes, colonos, etc.), em novembro de 1823, reconheceram solenemente a Independência política do Brasil e juraram obediência ao Imperador D. Pedro I. A Constituição de 1824 procurou garantir ampla liberdade79, mas a organização do Brasil Monárquico, de representação limitada pelos critérios políticos e sociais, estabelecia a igualdade de todos perante a lei e na prática a maioria da população permanecia escravizada. Isto aconteceu, porque a elite europeizada mantinha a ordem estabelecida no sistema colonial preservando seus próprios interesses econômicos e políticos. Diante dessas circunstâncias, vários movimentos insurrecionais liderados por brasileiros, das classes baixas, descontentes com o Império de D. Pedro I foram violentamente combatidos, de forma a ser conservada tanto a unidade territorial como o poder régio. No Pará, o movimento mais conhecido foi o da Cabanagem, com agitações e revoltas entre 1835 a 1840 (REIS, 1989). Apesar dessas transformações estruturais no Estado português/brasileiro, ao longo do século XIX, o ambiente social e econômico na condução da vida na 78. Ofícios, Circulares, Instruções Régias dirigidas aos habitantes do Grão-Pará e Capitania do Rio Negro informando sobre a Proclamação da Independência e a instituição do novo Império do Brasil, com datas entre janeiro a novembro de 1823 (cf. REIS, 1989:149/156). 79. Inspirada na “Declaração dos Direitos do Homem”, elaborada pelos revolucionários franceses (agosto de 1789), não se referiu ao índio ou negro (cf. MARÉS, 1999). 111 região do Rio Branco não chegou a ter mudanças significativas. Registrou-se um fluxo migratório de pessoas e de novos rebanhos bovinos ocupando os campos da região. O governo monárquico do Brasil Imperial (de D. Pedro I e D. Pedro II) não encontrou ressonâncias consideráveis para uma eficazmudança das condições internas, firmando uma autonomia econômica nesta região. A economia do Rio Branco continuava com base na lavoura e criação de gado, com um precário comércio que dependia do mercado externo ligado a Manaus80. Na realidade, nessa fase do Brasil imperial, os conflitos entre índios e brancos ficaram mais distantes do poder governamental concentrado no Rio de Janeiro. Conforme o regime monárquico transplantado da Europa, propagava-se que o índio estava integrado como cidadão. Na prática, essa nova ordem estatal era apenas teórica: o índio “integrado” continuava discriminado na figura do “caboclo” e os rebelados reafirmavam sua etnicidade no interior da selva desconhecida pelo branco. Apesar de ter recebido especial atenção da Província do Pará, em razão da distancia e precária comunicação, até os anos de 1850, a Província do Amazonas permaneceu relativamente isolada tanto de Belém como de Boa Vista do Rio Branco. No entanto, entre 1850 e 1870, medidas do governo imperial alteraram essa situação de isolamento com a introdução da navegação a vapor na bacia do Rio Amazonas e da abertura do porto de Manaus para a navegação internacional. Tal medida da Coroa brasileira fazia parte da meta de consolidação tanto da unidade monárquica quanto do reconhecimento do território amazônico. Contudo, essa região amazônica (especificamente Belém e Manaus) teve seu apogeu no cenário comercial internacional no final do Império e início da 80. Em 1852, a capital da Capitania do Rio Negro (Lugar da Barra), tornou-se capital da Província do Amazonas e, em 1856, uma lei provincial mudou o nome dessa capital para Manaus. 112 República com o denominado ciclo da borracha81. A borracha da Amazônia foi divulgada para os europeus no século XVIII, quando a expedição de La Condamine (1743) descreveu sua aplicação pelos índios amazônicos nos diversos fins: na fabricação de utensílios de uso cotidiano, como sapatos e garrafas ou no revestimento de tecidos. Esse produto tropical chamou a atenção de cientistas e empresários pela qualidade de impermeabilização e elasticidade. Desse modo, a borracha tornou-se o produto industrial de expressivo avanço na produção de bens dos mais modernos, com diferentes formas de consumo associado à idéia de “civilização” e “progresso” (REIS, 1989; DAOU, 2000). Porém, nem esse curto ciclo da borracha em fins do século XIX e início do século XX, que deu certo poder político e econômico ao Amazonas, conseguiu tirar a região do Rio Branco desse estado desalentado no processo “civilizatório” e de integração amazônica. A sociedade do Rio Branco continuava envolvida nos conflitos de terras, sempre em litígio. No final do século XIX, o governo do Brasil Imperial observou com preocupação essa situação fronteiriça da Amazônia que se fragmentava com a reconstrução das repúblicas espanholas e da passagem das terras da Guiana para o poder britânico (por volta de 1803). A área de fronteira em litígio no Essequibo foi neutralizada com a assinatura de um acordo em 1842, entre o Brasil e a Grã-Bretanha, que não abdicou de seus direitos sobre a região alegando que as terras herdadas dos holandeses iriam até onde se estendiam suas alianças com os índios. Ao contrário dos portugueses, que usava o índio como fronteira viva, para provar a posse da terra (Tratado de Madri), o direito de posse da terra, pelos ingleses, era reclamado com base na relação comercial tribal. Em 1904, essa questão foi resolvida por um 81. O apogeu da borracha aconteceu entre 1880-1910 atraindo empresários estrangeiros (ingleses, franceses, americanos, libaneses e também portugueses e brasileiros) e ampliando tanto a disputa pelas terras de seringueiras quanto a complexidade da sociedade amazônica de comportamento individualista (DAOU, 2000). 113 acordo diplomático entre Brasil e Inglaterra e tendo como árbitro o rei italiano que reconheceu e delimitou a posse inglesa na região (NABUCO, 1941). Atendendo as mudanças administrativas do Brasil Imperial, uma lei da Província do Amazonas, em 1858, ampliou a divisão de governo do Rio Branco elevando o aglomerado populacional ao redor da Fazenda Boa Vista para Freguesia de Nossa Senhora do Carmo, edificando uma paróquia. Mas a presença da Igreja, na condução da vida social e religiosa no Rio Branco, exerceu pouca influência na modificação dessa estrutura social e política do século XIX. MAPA 04 Territórios atribuídos ao Brasil e à Grã-Bretanha em 1904 (J. Nabuco, 1941) 114 Diante do exposto, podemos dizer que a formação social na construção desse núcleo urbano de Boa Vista, em grande parte, só foi possível com o auxílio do índio. A população indígena foi coagida a incorporar-se no projeto de cidadania (com mudança da aldeia em núcleo urbano), mas na prática continuava escravizada e tutelada pelo Estado. O pioneiro branco não encontrou os sonhados veios auríferos e, para sobreviver, transformou os campos da região em colônia agro-pecuária e lançou no mercado produtos extrativistas. Contudo, a documentação82 que registrou a origem da cidade dá pouco esclarecimento sobre essa dinâmica entre índios “civilizados” e “não-civilizados” e os brancos que se faziam presentes na antiga Freguesia de Nossa Senhora do Carmo. A pequena burguesia, constituída por fazendeiros, comerciantes e funcionários do Estado, interessados na preservação de seus privilégios, esboçava critérios políticos e socio-econômicos para estabelecer a representação limitada da elite local, mantendo distante a população inculta, composta de mestiços (brancos e índios) e “caboclos” (índios) vivendo na pobreza. Calculava-se que na bacia do Rio Branco, aproximadamente 80% da população era indígena. Por causa do pouco contato com as regiões de serra, onde habita a maioria dos índios, não sabemos ao certo o total dessa população indígena no século XIX. Tal contexto social e cultural foi descrito pelo francês Henri Coudreau (1887) que desenvolveu estudos nessa região e comentou, surpreso, sobre o grande número de Makuxi. De acordo com essa informação, essa etnia indígena parecia ser a mais expressiva do Rio Branco, contando entre três a quatro mil índios convivendo com uma população branca que não chegava a mil habitantes. Ao final do século XIX, a inexistência de estrutura política administrativa na região do Rio Branco ainda persistia. Dos cinco povoados, apenas o de Nossa 82. A Lei nº 92, de 9 de novembro de 1858, designou as províncias do Amazonas e estabeleceu que a sede da Freguesia de Nossa Senhora do Carmo deveria ser no lugar chamado Boa Vista, localizado acima das cachoeiras do Rio Branco. Tal lugar era o aglomerado urbano que se formou na fazenda Boa Vista, fundada em 1830, de propriedade de um oficial português do Forte São Joaquim, Inácio Lopes de Magalhães. 115 Senhora do Carmo sobreviveu com o nome de Boa Vista. Nessa época, a unidade militar (São Joaquim) não desempenhava mais nenhuma função de defesa geopolítica. As fazendas espalhadas no imenso território do Rio Branco dependiam dos índios como única mão-de-obra para os serviços domésticos e trabalho braçal. O atendimento religioso continuava incerto, sendo realizado pelos franciscanos que visitavam Boa Vista e algumas malocas (COUDREAU, 1887:257). FIGURA 04 Região do Rio Branco: cenas do trabalho indígena Expedição Rice (1924/110.1 e 128.1). (Legenda e Foto: RICE, 1978). Índia Macu ralando mandioca, um dos principais produtos alimentícios indígena. Essa é uma das fases do preparoda farinha. 116 Com a instituição da República, a redivisão do território brasileiro foi discutida e aprovada na primeira Constituição Republicana de 1891, que criou o Estado Federal, impôs a forma federativa de governo, para assegurar a ordem política num território tão vasto e heterogêneo. Contudo, todos os direitos estaduais estavam instaurados e vinculados ao poder central: unidade territorial, política e de direitos (SOUZA, 1971). Nesse sentido, a Monarquia influiu até mesmo na “mudança” do novo sistema de governo brasileiro: “entregaram o poder Executivo a um só homem, o Presidente da República, (...) um verdadeiro ‘monarca eletivo’.” (DALLARI, 1986:32). Em relação à política indigenista, a idéia constituinte do Brasil republicano traduzia, no integracionismo, a absorção da cultura indígena, sendo omissa nessa questão do índio. No entanto, tal questão foi levantada durante a discussão pela Assembléia constituinte, mas na prática o Estado brasileiro continuava desprezando essa questão (MARÉS, 1999:56-7). Sem perder o apoio da elite política e econômica, o governo republicano por Decreto Lei de 1906 criou o SPI (Serviço de Proteção ao Índio) que foi efetivado em 1910, sendo dirigido por um militar de espírito humanista, o marechal Cândido Rondon. Em 27 de junho de 1928, foi aprovado o decreto (n. 5484) legislativo do índio. Todavia, mesmo com esse conjunto de normas protetoras indígenas, as relações entre Estado, sociedade nacional e índio não mudaram. Esse caráter ambíguo (oligárquico e liberal) parece ser uma das características sempre presente no processo de formação social e democrática brasileira, que apoiado num projeto que aspirava unidade territorial e dualidade social (brancos e índios) de regime representativo democrático, não abriu caminho para o reconhecimento diferenciado da cultura indígena. Embora, 117 teoricamente, o índio estivesse integrado à sociedade nacional no quadro social de Roraima, ele era olhado como “caboclo” de propriedade do Estado. Nesse jogo econômico e disputa política de participação do poder estatal, embora o quadro teórico liberal difundisse a equivalência dos direitos entre os brasileiros e todos os Estados federados, na prática (semelhante aos acontecimentos vividos com a Constituição de 1824 e 1891), revelava a supremacia dos representantes da elite política e econômica do Brasil. Nesse caso, os Estados mais fortes (São Paulo e Minas Gerais) formavam o grupo de controle dos privilégios e sustentação do governo federal. Vale lembrar que, no interior desse embate político, as elites militares disputavam contra as elites econômicas a participação no governo republicano, cujos temas segurança nacional e desenvolvimento econômico barganhavam recursos e partilha no poder central (SOUZA, 1971:163). Sabemos, contudo, que a construção desse Estado amazônico passou por mais de quatrocentos anos de injusta supremacia de brancos sobre índios que implacavelmente desconstruiu a cultura indígena. Identificamos que nesse processo de aculturação, Makunaima83, o herói cultural das famílias indígenas de filiação lingüística Karib, como os Makuxi, por exemplo, foi dando lugar ao Deus-Cristão das potências européias que disputavam a região. Nessa perspectiva, o Aldeamento, um lugar criado pelo Estado dentro de uma política de proteção, transfigurava os índios em “brancos” enfatizando a integração na sociedade nacional e destruindo seus direitos territoriais. 83.Makunaima (em Roraima, diz-se Makunáima) termo de origem Karib. Os ancestrais indígenas revivificavam, em alguns momentos da festa/ritual, a figura do herói e por meio da narrativa mítica explicavam os seus feitos sobre os primeiros tempos. Para o Makuxi, de nosso tempo atual, Makunaima é a própria criação, é o próprio momento em que todas as coisas passaram a existir em coesão: terra e cosmo. O Monte Roraima, representa na memória cultural dessas etnias, de origem Karib, a morada do herói (cf. OLIVEIRA, 1991:15). 118 CAPÍTULO 2 RORAIMA no século XX: perspectivas históricas, culturais e políticas Nos primeiros anos do século XX, o panorama político e econômico no Rio Branco não apresentava grandes mudanças. A pequena elite local, cuja maioria era descendente dos “pioneiros brancos”, não fazia oposição ao poder federal, pois era fiel e passiva aos seus objetivos pessoais, como sempre acontecera antes dos períodos sucessórios. Isolada, tanto geograficamente quanto do jogo das forças de poder na capital, Rio de Janeiro, essa elite atrelava-se ao mercado internacional, comercializando com os ingleses (habitantes da Guiana) e com os espanhóis (habitantes da Venezuela). O município de Boa Vista do Rio Branco, nascido com a Constituição de 1891, transformou-se no núcleo político, administrativo e militar de maior relevância na região. Por outro lado, continuava subordinado ao Estado do Amazonas, não firmando tomadas de decisões de nível local, as quais eram definidas em Manaus. No entanto, dentro do jogo “democrático” da Primeira República (1889-1930), disputado sob a hegemonia dos representantes das regiões economicamente mais fortes, o Estado do Amazonas ficava de fora e aguardava as grandes decisões e partilha dos privilégios no poder central, apoiadas na política de favor ou do coronelismo (SOUZA, 1971; ABRUCIO, 1998). Essa estrutura do Brasil republicano herdou da monarquia84 o jogo de poder político e econômico centralizado no representante do Estado-Nação firmado na unidade federativa e na política autoritária. Inseridos na cultura do individualismo e da vontade política coronelista, os habitantes desse contexto urbano, que surgiram do aglomerado de pessoas instaladas na sede da fazenda 84. O Estado, representado pelo imperador (Pedro I e II), controlava a unidade territorial exercendo poder de mando sobre as províncias com apoio da elite política e econômica, detentora de grandes propriedades. 119 Boa Vista, esperavam exercer a cidadania nesse lugar de infra-estrutura precária, sem estradas, sendo fluvial a única via de comunicação com Manaus (via Rio Branco e Negro). A energia elétrica era um sonho distante e as políticas que pudessem impulsionar o desenvolvimento a partir da utilização dos recursos locais, o projeto de incentivo agro-pastoril e agro-florestal, mostravam-se frágeis e não chegavam a produzir o suficiente para colocar a região no mercado amazônico. A maior parte da produção era de subsistência local, com pouca exportação para Manaus. Todavia, foi reiterada a aspiração “civilizadora”85 da elite boavistense: viver em um espaço urbano diferente das precárias ruas localizadas em zona plana, de baixa altitude. Essa elite era composta por descendentes de brancos e mestiços86 vivendo entre uma grande massa de “caboclos” (índios “civilizados”), nas proximidades do porto, denominado Rampa do Cimento, à margem direita do Rio Branco, com três ruas paralelas próximas da paróquia Nossa Senhora do Carmo. A topografia da zona urbana boavistense poderia ser definida como uma grande superfície plana com sulcos formados por igarapés e pequenos lagos. Nessa infra-estrutura urbana, do Brasil republicano, não se podia conceber dispositivo cultural próprio de coletividade não reconhecida em sua individualidade e pseudamente integrada na unidade nacional87. O processo histórico de construção dessa região brasileira, que foi eliminando o que era diferente, por meio do integracionismo, (índios e europeus rivais: holandeses, espanhóis, ingleses), transformou tudo em língua e culturaportuguesa. Portanto, a massa 85. Por meio dos relatos de uso da História Oral, é voz corrente entre os habitantes de Boa Vista que a elite local sempre “sonhou” em transformar esse pequeno núcleo urbano (Boa Vista) em capital moderna e de fácil comunicação com as grandes metrópoles nacionais e internacionais. Tal desejo, alimentado pela busca dos veios auríferos divulgados pelo El Dorado, permanece no tempo contemporâneo. 86.Estamos nos referindo aos habitantes descendentes de europeus nascidos no Brasil que se mesclaram ao negro e ao índio nas regiões centro-sul e nordeste brasileiro e chegaram nessa região no final do século XIX e na primeira metade do XX. Entre esses mestiços imigrantes estavam, também, os descendentes da bacia do Rio Branco (mistura do branco com o índio). 87. Cf. A Constituição republicana brasileira de 1891 que é omissa nessa questão do índio e não abandonou a idéia integracionista (MARÉS, 1999:57). 120 indígena, vista sem organização estatal e social, foi usurpada pelo próprio Estado que havia propagado direitos iguais para todos, e proposto o exercício de cidadania ao índio “livre”88. Nessa empreitada de unificação federativa, caboclos (índios civilizados/integrados) sob coerção social do Estado e brancos (privilegiados pelo Estado) foram recriando os espaços e a teia social nacional, formando a paisagem urbana e social roraimense. Essa relação do Estado brasileiro com os índios, denominados “caboclos” pela sociedade nacional, ganhou um novo conjunto de normas por meio da instalação do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) em 1910, um órgão federal sob a direção do Marechal Rondon que, numa visão na época considerada humanista, trataria da política indigenista (COUTINHO, 1975). Não podemos, porém, nos esquecer que o SPI nasceu como SPILTN: Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais, órgão do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Os objetivos últimos eram a aculturação gradual e a capacitação do indígena como camponês (ARRUTI, 1995:57-8). Deve-se ao SPI e à política rondoniana a idéia de transitoriedade da situação do índio, de “isolado” a “integrado” para o que se introduziu no Código Civil Brasileiro, em 1916, a figura da “tutela”. No artigo 5º do referido Código dispõe que: “as pessoas menores de 16 anos são absolutamente incapazes de exercerem pessoalmente os atos da vida civil.” No inciso III do artigo seguinte (6º) considera que “as pessoas maiores de 16 anos e menores de 21 são relativamente incapazes a certos atos ou maneiras de os exercer”. Do ponto de vista jurídico, os índios deveriam ser “tutelados” por serem, como os menores, de relativa incapacidade por seus atos e por não conhecerem o código nacional de conduta, sendo necessário o Estado protegê-los. 88. Cf. acima, Capítulo 1, pp. 86/89. 121 O órgão federal responsável pelos índios (SPI) envolveu-se, nos anos de 1950, numa rede de corrupção roubando a terra do índio em favor da propriedade privada, dos novos titulares integrantes da oligarquia local e tornando-se instrumento de opressão (SOUZA FILHO, 1994; MONTEIRO, 1994; MARÉS, 1999). Nessa fase inicial do século XX, aos poucos, ou de repente, conforme as estratégias e interesses dos representantes do executivo federal, as etnias indígenas foram desaparecendo, famílias de índios foram integrando-se pelo processo de “pacificação” e outras famílias indígenas fugiram para o interior da região. Entre os séculos XVIII e o XX (momento de conquista e povoamento luso- brasileiro), calcula-se um total superior a 50% das etnias indígenas89 que sumiram nesse processo de construção dessa região amazônica. Não se sabe quantos índios morreram, não só para defender suas terras e famílias nas lutas contra os colonizadores, como também nos conflitos entre as próprias etnias cooptadas por religiosos e comerciantes e levadas a participar de competições mortais que não eram suas. O discurso de integração do índio na sociedade nacional, assumindo proporções ambíguas (regime tutelar ou amalgamados pelos cruzamentos) desencadeou reações de estudiosos, especialmente antropólogos, que chamavam a atenção para o massacre desses povos tribais amazônicos. A questão da territorialidade desses povos, cuja forma de divisão da terra é ancestral e respeita os limites da cosmovisão indígena, agora ocupada e povoada pelo Estado, ganhou novas interpretações com a instalação do SPI/local. Esse primeiro órgão federal criado para gerenciar uma política indigenista, deu continuidade à ação integracionista da fase Imperial e não reconheceu as 89. Não há censo das etnias indígenas dessa região amazônica, os dados levantados pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio), pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e outros órgãos ou entidades não governamentais, interessados na causa do índio do Rio Branco/Roraima, apresentam dados aproximados e nem sempre concordam com o total estipulado. 122 especificidades culturais do índio (SOUZA FILHO , 1994; SANTOS, 1994a). Apesar disso, surgiram discussões sobre o falso discurso da integração nacional: qual seria a categoria do índio no quadro social nacional? Para alguns representantes do Estado, o índio “ganhava civilidade” segundo sua “proximidade” com os hábitos da “cultura nacional” (MARÉS, 1999). Evidencia-se nesse discurso o poder de coerção do Estado eliminando a “diferença” cultural, reconhecendo todas as distintas etnias como brasileiros. Apesar disso, algumas famílias, tanto as isoladas ou integradas, reconheciam-se como índios, guardando parte da memória cultural que era revivificada no encontro com o parente “arredio ou isolado”90. O jovem índio, condicionado à política integracionista partia para Boa Vista em busca de estudos que o qualificassem para o mercado urbano. Esse jovem, quando regressava à maloca para visitar os parentes revivifica relações lingüísticas e culturais independentes do meio urbano em que vivia como “cidadão brasileiro”. Diante disso, o discurso de integração compulsória do índio na sociedade nacional, propagando que ele desfruta das benesses estatais e dos direitos civis, não é totalmente verdadeira. Na prática cotidiana, observou-se que no processo de relação entre Estado e índio, com existência de uma “invisível” cultura na cultura nacional, alguns “caboclos” passaram a reivindicar os seus direitos étnicos e outros romperam a relação com os parentes “isolados”, assumindo a identidade nacional. Os que assumiram a cultura branca, no exercício do dia-a-dia, continuavam sem definição étnica: não eram índios porque não se reconheciam como tais e não eram brasileiros porque nasceram índios (Makuxi, Wapixana, 90. Esses termos deram caráter ambíguo nas representações e nas relações entre o Estado e os indígenas. Percebe-se que as noções de isolamento ou integração dos índios, as intervenções dos recém-contactos com índios amazônicos estimularam discussões no campo da Antropologia e nos movimentos sociais em favor dos povos tribais, fortalecendo a noção de etnicidade, permitindo aos grupos indígenas reconstruírem suas organizações culturais diferenciadas da cultura nacional (cf. GALLOIS, 1994:121/132). 123 Wai Wai, etc.) e, em geral, eram discriminados ou não eram reconhecidos pela sociedade branca local. Contudo, do ponto de vista jurídico todo índio é reconhecido como brasileiro e está contemplado pelas leis do país, que desde a Constituição do Império (1824) inseriu os índios e os outros brasileiroscomo cidadãos brasileiros porque nasceram no território nacional. Ainda nesse período (primeira metade do século XX), apareceram notícias sobre a educação formal, a partir de professores desvinculados das carreiras eclesiásticas, desenvolvendo um ensino elementar para os filhos dos moradores colonos (brancos e mestiços) e dos índios “civilizados” (caboclos). Essa nova atribuição, no processo de colonização brasileira, dada ao papel do professor “leigo” na formação da sociedade roraimense, buscou efetivar a unificação cultural, eliminando os visíveis elementos “selvagens”91 na relação social local, ainda existentes. No contexto da oralidade são comuns as histórias sobre a coragem e honradez dos primeiros mestres como o Sargento João Capistrano da Silva Mota, Alfredo Venâncio de Souza Cruz92 e Diomedes Pinto Souto Maior. Esses homens, desde o final do século XIX, souberam aplicar um projeto de aprendizado ávido por mudanças numa região longínqua e carente de políticas educacionais (SOUZA, 1969:38). Eram imigrantes representantes do poder político estatal, com atuações no processo educacional e tinham como meta transformar a região num único corpo social rio-branquense. Esses professores leigos discursavam e valorizavam a diversidade93 de hábitos na cultura nacional local, 91. Fora do convívio urbano-patriótico, na maloca o índio praticava a língua e suas próprias manifestações culturais. 92. João Capistrano da Silva Mota (popular Coronel Mota) foi o primeiro prefeito de Boa Vista, quando da instalação do município em 1890, subordinado ao Estado do Amazonas. Alfredo Venâncio de Souza Cruz foi o sucessor do “Coronel Mota”. 93. Descendentes de diferentes grupos indígenas pertencentes ao tronco lingüístico Karib ou Arawak. Esse processo educacional unificador da língua e cultura luso-brasileira, eliminou a identidade do índio. Na visão antropológica, o uso do próprio termo “índio” é generalizador, pois unifica as diferenças étnicas. 124 mas enfatizavam a necessidade de “civilizar” as crianças e jovens indígenas, profissionalizando-as para o convívio no núcleo urbano. No entanto, colocam-se em questão os temas da identidade e etnicidade presentes nesses discursos educacionais, que preconizavam o respeito à diferença cultural dentro de uma prática pedagógica de desconstrução da identidade do índio em favor da construção de identidade nacional. Verificou-se, nessas propostas do aprendizado das “primeiras letras”, que a problemática indígena, como elemento cultural distinto e de difícil compreensão pela sociedade nacional local, não fazia parte das preocupações que eram cristalizadas na escola (OLIVEIRA, 1991). Porém, na prática, fora da escola, apegava-se ao índio como mão-de-obra escrava no trato da terra e nos serviços domésticos. Nessa relação ambígua, as múltiplas diferenças (indígenas e não- indígenas) presentes nesse processo humano e social, numa parte “invisível” das relações de poder sobre o outro, eram apresentadas como inexistentes na prática pedagógica da escola roraimense. O aprendizado era estruturado em torno do reconhecimento de um sistema de valores culturais e identitários próprios a um estilo de vida “civilizado”. Contudo, no cotidiano de atuação dessa metodologia autoritária, surgiam caboclos (índios “civilizados”) que, na medida do possível, resistiam ao assédio da dependência do Estado e das perdas culturais, enquanto outros integravam a dinâmica social nacional. Os documentos94 que relatam essa temática não estipulam o total de índios e não identificam as etnias que assumiram a cultura européia95 dentro dessa política sistemática de assimilação forçada e de desenraizamento cultural (CIDR, 1989). 94. Fazemos referência aos Relatórios e Informativos da Diocese de Roraima, aos programas da escola indígena sob a responsabilidade da Missão do Surumu. Além desses, existem os Relatórios e Programas referentes às escolas indígenas e não-indígenas tuteladas pelo Estado, através da Secretaria de Educação de Roraima. 95. Estamos nos referindo às etnias indígenas do tronco lingüístico Karib e Arawak, que no confronto cultural e na política do contato (índios, holandeses, espanhóis, ingleses, portugueses, franceses, etc.), de atuação 125 Desta forma, o que esses primeiros professores convencionaram como ensino voltado para questões sócio-culturais do Brasil não passou de cópia de modelos pedagógicos dos missionários que “civilizavam” os índios nos Aldeamentos: cantigas para o ensino da tabuada, da soletração, narrativas orais sobre heróis, fadas, príncipes e santos, sem se esquecer das histórias e lendas dos mistérios amazônicos. Em tudo era geralmente exaltado o “amor e respeito ao próximo”, assim como a “honestidade e obediência aos superiores” (OLIVEIRA, 1991). Esse aprendizado, ministrado por professores não religiosos, assumindo certos significados numa educação de prática sistemática, que visava à unidade territorial e a europeização do lugar, perdurou até bem pouco tempo e não há evidências de que já tenha sido totalmente superado, e, certamente, mereceria um estudo específico. Com o mesmo propósito, os missionários das ordens religiosas (carmelitas, capuchinhos, franciscanos e outros) desenvolviam projetos para escolas, instaladas em regime de internato, com objetivo de ampliar o comportamento “de boas maneiras”, por meio de escolas primárias para as crianças indígenas. Nessa prática pedagógica, O SPI (Serviço de Proteção ao Índio) desenvolvia, também, atividades educacionais e profissionalizantes junto aos índios, que eram classificados, pela política indigenista, em: “selvagens” e “civilizados”, havendo, também, os “semi-civilizados”. Todos deveriam adaptar-se nos costumes da civilização para “torná-los úteis ao engrandecimento da Pátria e ao bem da família” (cf . CIDR, 1989:31). Para inserir a bacia do Rio Branco no mundo da cultura nacional, os beneditinos, sob a orientação do Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, transformaram esse lugar construindo igrejas, hospitais e colégios, como o São José na cidade de Boa Vista (em 1924). Fundaram, na região do Rio Surumu protecionista e estratégias eliminadoras da cultura indígena, foram envolvidas nas relações de dominação, no decorrer dos últimos séculos. 126 (1911-1912), um posto missionário e depois um internato misto para jovens e escola para crianças indígenas, almejando colocar em prática a política educacional pleiteada pelo governo brasileiro (CIDR, 1989). Figura 05 Cidade de Boa Vista. Escola dirigida por religiosos beneditinos. A maioria das crianças é mestiça (branco com índio). Expedição Rice (1924/96.2). (Legenda e Foto: Rice, 1978). No entanto, durante a prática pedagógica dos religiosos beneditinos, pode- se observar que, de maneira sutil, foram sendo introduzidas concepções humanistas implicando em discussões, por parte dos índios, de conteúdos culturais diferentes do nacional referentes aos direitos humanos. Tal prática era, também, aplicada pelos indigenistas do SPI que começaram a atuar nessa região, com maior intensidade a partir dos anos de 1920 (CIDR, 1989, OLIVEIRA, 1991; LIMA, 1993). O maior contingente indígena habitante do Surumu é o Makuxi e o local é considerado como importante ponto de passagem para as fazendas e os garimpos. Assim sendo, esse processo “civilizador” que introduzia o índio na sociedade nacional, desenvolvido pelos religiososcatólicos, ganhou força, especialmente nessa região do Surumu, a partir de 1915, após a atuação do SPI 127 (Serviço de Proteção ao Índio), quando o governo federal elaborou estratégias indigenistas para a região do Rio Branco (DINIZ, 1972; CIDR, 1989; SANTILLI, 1994). Isto significou que a inserção inexorável das etnias indígenas da bacia do Rio Branco na sociedade nacional abriu caminho à força e transformou tanto a terra como a vida social e cultural. Tal processo retomou a antiga medida intervencionista pombalina, valorizando a importância dos hábitos europeus e dos intercasamentos. Essa estratégia assimilacionista do Brasil português era um dos modos de assegurar o povoamento e a soberania portuguesa/brasileira nestes vastos campos. Portanto, é possível dizer que a estratégia de integração do índio desestruturou sua cultura no plano de miscigenação96 brasileira. O Estado conduziu parte dos moradores (índios e não-índios) para as regiões “desabitadas” em constante litígio e, aos poucos, foi domesticando os hostis e transformando malocas em núcleos urbanos/municípios. Essa ação tinha como meta salvaguardar o interesse do Estado, a propriedade e a defesa do território brasileiro. Até certo ponto, o grande reabilitador desse processo era o estabelecimento das alianças e o incentivo dos laços de parentesco com os índios, que eram introduzidos na “civilização” pela cultura do gado. Roger Bastide exaltou essa união entre índio e branco quando analisou o universo da fazenda amazônica, como uma “saborosa mistura” que “deu uma raça mestiça de vaqueiros e domadores do espaço” (BASTIDE, 1980:87). Mesmo assim, esse autor reconheceu a escravização do índio na lida com o gado. Tais contrastes e conflitos sócio-culturais, relativos ao distanciamento econômico entre a elite e a massa social do Rio Branco, eram esfacelados no 96. É comum em Roraima falar da miscigenação branco com negro, como o imigrante de outras regiões do Brasil. Não fazem referência ao mestiço de índio com branco que, em geral, é identificado como “caboclo” ou índio “civilizado”. 128 convívio na “Grande Família”97. Nesse processo, ocorriam barganhas políticas, alianças de amizades, casamentos e compadrio, possibilitando soluções alternativas e normatizações de questões de direitos civis entre índios e não- índios. É sabido que tal modalidade política de integração do índio na sociedade nacional foi tradicionalmente estabelecida e construída por uma elite “monocultural”, desde a fase colonial, inspirada no espírito de liberdade e igualdade previstas na Constituição e nas suas leis98 que foram sendo elaboradas na estruturação do Estado português/brasileiro e atravessaram o sistema político do Brasil contemporâneo, até o começo do século XXI. 2.1. O retorno das expedições científicas ao Rio Branco No início do século XX, registrou-se a presença de novas expedições de naturalistas que buscavam detalhar informações sobre essa região amazônica99 de fronteiras indefinidas. Eram novas expedições voltadas para interpretações desse 97. No processo de construção do território amazônico, a Reforma pombalina (século XVIII) incentivou o casamento entre brancos e índios, reunindo em um único grupo os diferentes grupos culturais, garantindo a ocupação e a defesa da terra em nome de Portugal/Brasil, como se todos fossem uma grande família portuguesa/brasileira. Após a Constituição de 1891, o poder central, preocupado com a unificação federativa, recorreu a essa política unificadora das diferenças sociais e culturais. Assim, os distintos grupos presentes na bacia do Rio Branco e outras regiões do Brasil, foram unidos na relação de poder estatal (patriarcal) com a sociedade nacional, onde a concepção de família mascarou os conflitos culturais e de posse da terra, como filhos da nação brasileira, que teoricamente estão irmanados, representando uma “grande família” brasileira defensora da soberania nacional (OLIVEIRA, 1991). 98. Referimo-nos aqui: a) às medidas régias políticas, sociais e econômicas promulgadas por D. João VI após a instalação (no Rio de Janeiro) da família Real em 1808, que transformou o Brasil em “Reino Unido” (1815); b) a Constituição de 1824 e as medidas régias do Brasil Imperial (decretadas por D. Pedro I e II) na unificação e defesa das províncias; c) a Constituição de 1891, (governo do Marechal Deodoro) estabelecendo a unidade federada e a defesa soberana do novo Estado-Nação; d) a Constituição de 1937 e as medidas do governo federal (Getúlio Vargas) oferecendo possibilidades do povo brasileiro participar de um sistema político voltado para o povoamento dos “espaços sociais vazios” (criação dos Territórios Federais) e defesa da soberania nacional; e) a Constituição de 1988 (governo de José Sarney) também apresentou fundamentos semelhantes oferecendo possibilidades de reconstrução da sociedade e de um sistema político mais justo e democrático para todo cidadão brasileiro (esses objetivos fizeram parte também da Agenda Política do ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, na gestão de seus dois mandatos consecutivos: janeiro de 1995 a dezembro de 2002). 99. Alexander von Humboldt estudou o “mundo selvagem” da bacia do Oricono até a fronteira do Brasil, entre 1799 a 1804, e suas contribuições foram significativas para o avanço no campo da História Natural (cf. HUMBOLDT, 1825). Nesse sentido, os dados levantados por Robert Schomburgk entre 1838-39, por Henri Coudreau em 1887 e Joaquim Nabuco em 1904, com minuciosos estudos sobre a região do Rio Branco, forneceram parâmetros voltados para as questões políticas, econômicas e jurídicas relativas à posse dessas terras e direito tutelar sobre as etnias indígenas em favor do Estado (Brasil, Guiana ou Venezuela). 129 universo natural amazônico, cujo objeto principal era o índio, uma fonte de referência semelhante a um “arquivo vivo” (LACOUTURE, 1993), com um extraordinário acúmulo de conhecimentos impressos na memória cultural. No entanto, toda essa memória dos velhos índios não era reconhecida pelo Estado e sociedade local, pois o índio continuava sendo olhado como “povo natural”, incapaz de “desprender-se” sozinho do seu “habitat” (DESCOLA, 1999:112-3). Essa nova onda de idéias naturalistas, influenciada pelo pensamento iluminista, mesclada com concepções românticas do mundo natural, além das contribuições etnográficas, despertaram o interesse por novos aspectos do mundo amazônico. Tal interesse, representado por estudos científicos, que marcaram as antigas e as novas expedições exploratórias, reapareceu como bandeira do conhecimento dos elementos naturais, camuflando sutis desejos de posse ou domínio da terra e dos atributos culturais indígenas. Desse período registramos algumas: a) entre 1911 e 1912, Theodor Koch-Grümberg, etnologista e geógrafo alemão, estudou os rios Branco, Uraricoera, Araracá e penetrou na bacia do Rio Orinoco pelo Merevari, explorando a região da Serra dos Imeniaris, no extremo noroeste de Roraima. Essa expedição estudou a cultura do índio revelando sua variação lingüística e organização familiar, registrou diferenças étnicas numa coleção fotográfica; b) Em 1924, a expedição do geógrafo inglês Hamilton Rice100, reafirmou que Boa Vista era o único núcleo populacional do Rio Branco que podia ser denominado de “Vila”. A presença de militares (em grande parte soldados) chamou a atenção de Rice porque numa região onde a “autoridade judicial” parecia ser “exercida à revelia”101, uma força “semi-oficial” era quase inoperante (RICE, 1978:25). A expedição de Rice contava com especialistas em solos, como geólogo e topógrafo efotógrafo (por terra e aéreo), permitindo minuciosos estudos minerais; 100. Hamilton Rice era membro da “American Geographical Society” e no regresso para Nova York, após as pesquisas nessa região amazônica, ele fundou um “sindicato” voltado para a exploração de minérios na bacia do Rio Branco que, em troca do direito à exploração do solo e subsolo, obrigava-se a construir uma estrada de ferro ligando Manaus a Boa Vista. (SOUZA, 1969:54). Tal proposta não foi levada em consideração pelo governador do Amazonas, Sr. Rego Monteiro. 101. Para Rice, a autoridade local deixava ao acaso a problemática política e jurídica envolvendo brancos e índios, negligenciava contestações contra o poder “coronelista” do representante estatal. 130 c) na década de 1920, a expedição chefiada pelo General Rondon, designada também para efetuar estudos de reconhecimento na região (1927), com o propósito de demarcar as novas fronteiras com a Guiana e a Venezuela. Rondon chegou à região do Rio Branco e entrou em contato com os inspetores do Serviço de Proteção do Índio102 (SPI/local) fazendo graves denúncias de violências e abusos sexuais das índias por parte dos “brancos”. Tais denúncias foram baseadas nos relatos das lideranças das etnias Makuxi, Taurepang e Wapixana, feitos ao General. Retomando essa questão do interesse branco pelo mundo natural amazônico, podemos observar, que de modo geral, essas expedições avançaram nas questões relacionadas aos entendimentos dessa realidade natural e seu habitante, o índio. Surgiram concepções e metáforas que tentaram explicar a relação cotidiana indígena, associando terra e cosmo, mitos e ritos. No entanto, o que mais impressionou essas expedições foi a beleza natural da região, atraindo diferentes europeus e brasileiros que aqui chegaram e buscaram “transformar o outro em si mesmo”103. Apesar da existência de um grande número de textos sobre o índio e seu habitat natural, na verdade, tornou-se difícil ao branco o entendimento das questões políticas e jurídicas referentes ao outro (índio) que se mostrou diferente de tudo que ele havia encontrado. Assim, eliminando o que não compreendia, o português/brasileiro abriu o caminho da política integracionista, com um discurso liberal propagador do reconhecimento do índio “livre” (civilizado) e declarando-o apto ao direito de usufruir da sociedade nacional. O universo indígena foi identificado pelo europeu e brasileiro como parte de uma terra que cumpre dominar. Os índios apresentaram aos brancos suas 102. SPI – Serviço de Proteção ao Índio, um órgão federal criado em 1916 para oferecer assistência aos povos indígenas. Em 1968, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) substituiu esse órgão. 103. Essa visão de cunho antropológico foi desenvolvida por Lévi-Strauss (1991), no livro Histoire de lynx, no qual ele considera o encontro entre brancos e índios como um “trágico mal entendido”: de um lado os ameríndios e o seu habitat natural aberto ao Outro (o branco) que se apossou do ameríndio transfigurando-o em branco. Apud. PERRONE-MOISÉS, 1999: 348-9. Dentro desse contexto, todos os povos desenvolvem concepções e metodologias para entender o Outro e o mundo. 131 organizações sociais sem Estado (CLASTRES, 1990), modos de produção, formas de conhecimento e cosmologia, constituídos em princípios de troca coletiva (homem ciclos da natureza), que não foram respeitados. 2.2. O retorno ao mito “El Dorado” As expedições de reconhecimento da região amazônica, durante os séculos XVIII-XIX, regressaram no século XX e difundiram informações cartográficas e indícios de riquezas minerais. Essas informações mescladas às notícias sobre o canibalismo indígena, à hostilidade do ambiente natural ao mundo do branco, entre outras questões políticas e econômicas, ampliaram a disputa por terras amazônicas e não se constituíram em obstáculos insuperáveis para novas investidas imigratórias nessa região. Por volta da década de 1930, divulgaram-se notícias sobre abundância de ouro e diamantes nessa região amazônica, nas fronteiras de Roraima com a Venezuela e de Roraima com a Guiana. A partir disso, grupos de comerciantes e fazendeiros investiram na mineração, como também chegaram garimpeiros de várias regiões brasileiras buscando riqueza sem esforço. A maior parte da mão-de-obra nessa empreitada, sobretudo os carregadores de mercadorias a partir do núcleo urbano de apoio do Surumu, era indígena. “Em 1943, a produção de ouro e diamantes representou cerca de 59,6% do valor total da produção de Roraima. A pecuária contribuiu com apenas 26,8% deste total” (BARROS, 1995:56). Nessa “invisível” guerra de poder econômico, de posse e usufruto das áreas de mineração, essa região do Rio Branco viveu um momento de intensa atividade ligada a viagens de garimpeiros em variadas localidades de seu território. Na disputa pelo metal aurífero, os diferentes homens, com interesses comuns, percorreram os afluentes e nascentes, mapeando as antigas trilhas conectadas 132 entre terra e água, que haviam sido exploradas por missionários, militares e cientistas, nos divisores de águas com o Essequibo e com o Orinoco. O índio, como parte dessa região em disputa, servia de guia e, nesse contexto da pluralidade étnica e lingüística indígena, o branco (europeu e brasileiro) perdia-se entre as diversas informações cartográficas que apontavam rotas fluviais e trilhas, tanto na orientação territorial como na prática garimpeira (RICE, 1978). Por outro lado, por meio da leitura natural do índio, esse vasto território era visto como um velho amigo, um parente e, ao mesmo tempo, como abrigo. No entanto, para o branco, toda aquela área era sinônimo de incompreensão. Como essas visões diferenciadas, acrescidas à oposição entre interesses coletivos (do índio) e particulares (do branco), estruturaram a relação de poder do “eu” sobre o “outro”? Do ponto de vista histórico, não encontramos estudos amazônicos que mostrem com maior clareza esse processo o qual foi a unificação dessa região à cultura nacional, mas podemos dizer que parte dessa questão está fundada no modo de relação envolvendo Estado, índios e sociedade nacional, na modalidade de conduzir propostas políticas e econômicas sem reconhecer as diferenças, privilegiando o interesse individualista e a propriedade privada. Nessa perspectiva, desde 1930, a maneira como foi conduzida a prática da mineração na bacia do Rio Branco, com grandes contingentes de garimpeiros e mineradoras, não deixou registro da exata quantidade de ouro e diamantes que foi extraído dessa região. Tal prática se estendeu entre as décadas de 1940 a 1950, quando se registrou uma diminuição do fluxo de garimpeiros na região. A partir de 1943, com a instalação do Território Federal do Rio Branco104, a responsabilidade da mineração passou para o governo local, mas os dados 104. Após a Constituição brasileira de 1937, durante o governo Vargas, foram criados os Territórios Federais, entre eles o do Rio Branco que será o assunto do próximo capítulo. 133 continuaram imprecisos. Entretanto, levantamentos do IBGE registraram uma produção de diamantes em 1947 de 19.029 quilates105 e em 1950 um total de 13.719 quilates. Em relação ao ouro, não encontramos registros. Segundo o IBGE, a dificuldade no registro da mineração aurífera decorre da sonegação de informações pelos empresários do ramo e da clandestinidade da garimpagem. Às vezes, ocorre também a conivência das autoridades locais. Entre as décadas de 1960-70 a mineração continuougradativamente e teve novo impulso, especificamente a produção de ouro, no final da década de 1980 e início de 1990. Apesar do registro dessa prática de mineração em Roraima, a sociedade local não tem conhecimento claro sobre a mineração e os registros das implicações ambientais e sócio-culturais causadas nessa região com a instalação e operação de mineradoras que parecem preocupadas apenas com seus lucros e não com o bem-estar da sociedade local. Novamente, o IBGE registrou dados aproximados de 12.871 quilates de diamantes, em 1986 e de 104 quilogramas de ouro, também, em 1986. Em 1990, a produção de diamantes foi 100.000 quilates e a de ouro foi 5.646 quilogramas, também, no mesmo ano. Tornou-se voz corrente em Roraima que toda essa atividade garimpeira, especialmente do ouro, com investimentos de empresas mineradoras privilegiadas pelo poder político e econômico, não deixou lucros para o desenvolvimento da região, ao contrário, aumentou os bolsões de miséria. Foi intensificado, nessa região, o contato com os índios, que foram desaparecendo por enfermidades ou foram abandonando a região, migrando para Boa Vista, engrossando a periferia urbana como mão-de-obra disponível e maior dependência do governo estadual (CIDR, 1989 e 1990; FERRI, 1990; EUSEBI, 1991). Sobre essas implicações citadas, pouco foi discutido pelas autoridades governamentais e não-governamentais responsáveis por esse modelo de 105. A comercialização do diamante é em quilates e um quilate equivale a 200 miligramas de peso. 134 desenvolvimento na Amazônia. A sociedade local (índios e não-índios) desconhece o resultado de tal processo desenvolvimentista de exploração de minérios. Tudo parece ser apenas uma mera transferência de matéria-prima que não traz desenvolvimento para Roraima, pois não a torna auto-sustentável nem melhora as condições de vida para sua população. Apesar da falta de informações concretas sobre essa temática, a partir de 1975, foi divulgado o mapeamento mineral das terras de Roraima procedido pelo Projeto Radam-Brasil. Esse mapeamento revelou que a reserva indígena Yanomami, por exemplo, possuía ouro, urânio, cassiterita e estanho. Após a divulgação dessa notícia, no final de seu governo, o presidente José Sarney franqueou à iniciativa privada o direito de minerar, abrindo uma incontrolável exploração mineral na região de Roraima (EUSEBI, 1991:43/46). Essa ação do governo federal recebeu o apoio político e institucional do governador nomeado para Roraima, Romero Jucá Filho (ex-presidente da FUNAI) que governou o Estado de outubro de 1988 até abril de 1990106, durante a fase final de transição de ex-Território Federal para Estado Federado. Na ocasião, foram divulgadas para o Brasil e para o mundo a descoberta de novas jazidas de ouro na região norte e oeste do novo Estado. Propagou-se por meio da imprensa que 50 mil garimpeiros107 haviam chegado a Roraima, buscando confirmação sobre a existência desse imenso solo aurífero na bacia do Rio Branco. Desse modo, entre os anos de 1987 até 1990, a capital de Roraima foi considerada a “cidade do ouro”. O movimento migratório na busca do ouro provocou violentas tensões sociais, culturais e econômicas na vida do homem 106. Nessa data, Romero Jucá deixou o governo para concorrer às eleições que elegeriam o primeiro governador do Estado. Na disputa do segundo turno, Romero Jucá (PDS) obteve 44,89% dos votos, perdendo para Ottomar Pinto (PTB) que foi eleito com 50,33%. 107. Grande parte dessa massa social era constituída de homens com idade entre 15 e 30 anos, analfabetos e desempregados, aventureiros, traficantes, bandoleiros, criminosos, pistoleiros, prostitutas (os), entre outros. Assim como os índios, os garimpeiros eram também explorados e vítimas das desigualdades sociais. 135 roraimense. O Aeroporto Internacional de Boa Vista recebeu um grande fluxo de pequenas aeronaves que se deslocavam para os garimpos espalhados em várias localidades da região. Não há informações nítidas sobre o total de pistas de pouso clandestinas, nesse período. Várias mudanças ocorreram: o comércio foi ampliado; houve maior investimento nos materiais utilizados na prática do garimpo, os pontos e escritórios de negociação aurífera ganharam ruas inteiras, conhecidas como “Ruas do Ouro”. Além do grande aumento demográfico, a cidade de Boa Vista viveu o seu maior período de inflação, com as transações comerciais negociadas no peso de ouro como unidade monetária. A mídia nacional divulgou que somente a região de Roraima que faz fronteira com a Venezuela (área da reserva Yanomami) possuía reservas de bilhões de dólares só em ouro e cassiterita, a matéria-prima do estanho e outros bilhões em diamantes, cobre, prata, bismuto, zinco, nióbio, molibdênio e minerais radiativos: O direito de exploração de toda esta riqueza está requerido por 21 grupos, que reúnem das mais importantes empresas mundiais de mineração aos maiores pilantras brasileiros. A população é pequena e primitiva: 7 mil índios (Yanomami) e 45 mil garimpeiros, que invadiram a região nos últimos 2 anos, vindos dos mais diversos pontos do Brasil. De agosto de 1987 até agora, este país produziu 25 toneladas de ouro, qualquer coisa em torno de 300 bilhões de dólares, mais do que faturou a Votorantin, a 96ª maior empresa brasileira. Um PIB per capita de US$ 5.769, sem contar a produção local de bens e serviços. O ouro é a moeda e, nas relações de troca com os países vizinhos, se vive aqui um período de deflação: as coisas custam cada vez menos. Culturalmente, é um país muito estranho: convivem uma civilização comunista da idade da pedra e as últimas aventuras capitalistas do final do século 20, que empregam rudimentares sistemas de recuperação de ouro e o que há de mais moderno em termos de tecnologia de transporte aéreo e comunicações. Com base na Constituição, e para poder mandar no seu próprio nariz, Roraima quer a transferência, do governo federal para o governo estadual, de todos os títulos de requerimentos de áreas minerais na região do Projeto Meridiano 62º. A partir daí, os idealizadores do projeto pretendem fazer o que acham que o governo federal devia ter feito: regularizar a atuação dos garimpeiros que já estão na área, transformando-os em cooperativas ou pequenas e médias empresas mineradoras, com prioridade para as que atuam no estado; disciplinar a atividade de mineração em moldes modernos; e pagar aos índios 10% de royalties sobre o total do minério retirado de suas terras (JB, 25/06/89, p. 14, 1º caderno). 136 Para o jornalista, João Sant’Ana do Jornal do Brasil, essa situação conflitante entre índios, mineiros e empresários em Roraima, na fronteira com a Venezuela, foi decorrente da “ausência de governo”. Tal fato possibilitou o surgimento de um “país independente” em plena Amazônia Legal, a oeste do meridiano 62º, no Estado de Roraima. João afirmou que reinou um clima de “faroeste”, no qual prevaleceu o poder econômico e os interesses individuais de governos e organizações não-governamentais (locais, nacionais, internacionais). O jornalista denunciou que não houve respeito por parte do órgão responsável por essa problemática que seria o Ministério das Minas e Energia. Contudo, tal Ministério pareceu omisso e de acordo com as notícias veiculadas na mídia local/nacional, com apelos para que esse órgão federal “fizesse alguma coisa”, sob alegação de que “faltavam recursos e o setor estava sempre no déficit”. A Constituição Federal de 1988, no art. 231, § 3º, dispõe: O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisae a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei. Assim, ao estabelecer princípios sobre essa questão, a autorização de exploração mineral em terras indígenas deveria ser submetida, caso a caso, à decisão do Congresso, sendo necessário ouvir os índios. Contudo, transcorridos os últimos anos do século XX, ainda não tinham sido decididos (em legislação ordinária) critérios específicos para que essa exploração pudesse ser efetivada de maneira eficaz, atendendo às necessidades da população roraimense (índios e não-índios). Em vez disso, novamente a região de Roraima foi transformada num campo de “guerra” entre as forças de poder político e econômico. No meio desse fogo cruzado, estavam os índios que não têm na sua cultura a prática de circulação do capital. Segundo o texto do jornalista acima citado, o governo estadual solicitou ao governo federal, com base na Constituição Federal/88, “transferência dos títulos 137 de requerimentos de áreas minerais na região do Projeto Meridiano 62°”. Em agosto de 1987, o projeto produziu “25 toneladas de ouro”, cerca de “300 bilhões de dólares”. Habitavam na região 7 mil índios Yanomami e 45 mil garimpeiros. Essa área do projeto estava inserida numa área contínua de 54.691 km² delimitada para os índios Yanomami, que estavam em litígio com os municípios de Boa Vista, Alto Alegre, Mucajaí e Cararcaraí, que tinham parte de seus territórios dentro da reserva108. Diante da situação de complexa trama de interesses político e econômico, o governo estadual pretendia “regularizar a atividade de mineração, criar cooperativas ou médias empresas mineradoras, pagar aos Yanomami 10% de royalties do total do minério extraído de suas terras”. Uma dúvida surgiu: como o governo estadual iria garantir tais direitos aos índios e dar apoio político e institucional à invasão dos garimpeiros? Sabe-se pela mídia local que as mineradoras e garimpeiros não receberam autorização do Congresso Nacional. No entanto, soube-se que os governos federal e estadual liberaram uma “franquia” para as mineradoras sem autorização dos Yanomami para essa exploração em suas terras. O governador, ex-presidente da Funai, em 1988, assinou o decreto que dividiu a “área contínua dos Yanomami109 em 19 ilhas”, reduzindo 70% da referida área (cf. EUSEBI, 1990:45), favorecendo as mineradoras. Na ampliação da disputa de poder político e econômico, viabilizada pelas agências financeiras e organismos políticos associados ao G-7110 e pela pressão das organizações ambientalistas internacionais, a equipe administrativa do governo brasileiro retomou o assunto da mineração em Roraima. Assim, em 108. Essa questão envolvendo os limites dos territórios municipais e das reservas indígenas será tratada no capítulo 4 e retomada no 5. Os comentários feitos aqui tiveram como referência fontes da Funai de 1993. 109. Yanomami, etnia de tronco lingüístico não identificado, habitando mais de 200 aldeias e subdivididos em quatro grupos lingüísticos: Yanã, Yanomã, Yanomamé, Sanumá. 110. Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão (cf. Introdução, Nota 4, p. 27). 138 1990, por ordem do Presidente Fernando Collor, o garimpo entrou em desarticulação, com bombardeamento de dezenas de pistas de pouso pela polícia federal, quando foi desmontada, na capital Boa Vista, toda a estrutura dos comerciantes do garimpo: compra e vendas do ouro, de maquinário, serviços de vôo, entre outros. No entanto, de forma lenta e clandestina o garimpo continuou. No decorrer do ano 2000, novos focos de exploração de minério (ouro) nas terras Yanomami111 foram divulgados pela mídia local/nacional. Tanto no passado como no presente, os representantes em favor dos direitos do índio acusavam as autoridades do poder público como “co-responsáveis” por essa situação violenta envolvendo as etnias indígenas e garimpeiros. Em alguns casos, torna-se evidente a omissão, impotência e conivência estatal: Durante reunião do colegiado do Núcleo Interinstitucional da Saúde Indígena (NISI), no dia 14/setembro passado, o presidente da URIHI (Ong de Saúde Yanomami), Cláudio Esteves fez denúncias ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Presidente da FUNAI Glênio Alvarez e ao Administrador Regional da FUNAI, Martinho Alves de Andrade Júnior, sobre a crescente escalada de violência entre os Yanomami, incitada pelos garimpeiros que fornecem armas e munições aos grupos rivais. Há índios que tentam reagir contra o garimpo e são assassinados. Há também ameaças dos garimpeiros contra a equipe de saúde. (...) O Antropólogo responsável pela URIHI disse que há na região cerca de 400 garimpeiros atuando na região Yanomami. Afirmou que cerca de uma hora de caminhada da aldeia Wathë-u, localizada a menos de 20 quilômetros do 4º Pelotão Especial de Fronteira do Exército e do Posto da FUNAI, em Surucucu, há pista de pouso. Há divergências sobre o garimpo entre índios Yanomami orientados e manipulados por garimpeiros. Os Yanomami que recebem os presentes apóiam a exploração do ouro (FBV, 20/09/00, p. 7). Neste cenário de defesa tanto da etnia indígena (cidadão étnico) como da sociedade nacional local (cidadão brasileiro), os órgãos federais responsáveis possuem duplicidade na função. Como primeiro habitante da terra em disputa, com reconhecimento de direitos pela Constituição Federal de 1988, o índio não consegue compreender porque o branco criou normas indigenistas que não cumpre. Nesse embate, o não-índio também está amparado pela referida 111. Esse assunto será retomado no Capítulo 4. 139 Constituição e denuncia que os órgãos federais não fazem cumprir as leis existentes dando assim uma solução para os impasses inserindo o Estado, os índios e os não-índios, transformando esse panorama negativo de Roraima. Contudo, esse conflito envolvendo direitos de propriedade e respeito cultural, após a Constituição de 88, não deixou claro para a sociedade nacional local que a figura do “caboclo”112 tinha mudado e ganhou o reconhecimento diferenciado do nacional e direitos na participação, no poder político e econômico, na distribuição da riqueza, especificamente, a posse e usufruto da terra. Na mídia local, surgiram debates que tentaram esclarecer tal problemática relativa aos direitos dos índios. 2.3. A Igreja Católica de Roraima e a causa indígena Após três séculos de “conquista” e de “civilidade” portuguesa/brasileira na bacia do Rio Branco, não sabemos ao certo o número de etnias ou o total da população indígena sobrevivente desse tirânico processo colonizador, mas não chegam a quarenta mil indivíduos, em nosso tempo presente. O Estado, apoiado pela Igreja Católica, instituiu canais de influência e transformação da cultura indígena em cristão nacional. Os Aldeamentos e as escolas indígenas, pouco a pouco, foram transmutando o índio em branco/cidadão comum, eliminando progressivamente os mitos, os ritos e a língua da cultura indígena. A política indigenista do Brasil monárquico incentivava a escravização do índio e organizava tropas armadas para caçá-los em nome da defesa e povoamento das terras já ocupadas pelos índios. A união entre a Igreja e a Coroa, que compartilhavam do poder sobre os Aldeamentos e os índios, foi rompida, em 112. Em Roraima, após a Constituição Federal de 1988, o caboclo transfigurou-se, novamente, e ganhou status decidadão étnico reatando os laços de parentesco com a terra, reconhecidos nos artigos 231 e 232 da referida Constituição. Trataremos desse assunto no próximo item e, também, no Capítulo 3. 140 1758, pela Reforma Indigenista do Marquês de Pombal113, que tirou o poder temporal dos missionários sobre os índios aldeados. Tal ação, diminuindo o poder político-religioso dos missionários católicos sobre a população indígena, era causada pela mudança evangelizadora da Igreja que passou a disputar com o Estado o poder político-econômico da aldeia. Em 1759, o Marquês expulsou a Ordem Jesuíta do Brasil, ameaçadora da política pombalina, e os missionários das diferentes ordens católicas na Amazônia tornaram-se apenas os catequizadores dos Aldeamentos, que tinham como administrador um “principal”114, o índio súdito do rei e representante do interesse da Monarquia em sua própria terra. No entanto, nesse processo de pacificação do índio pelos religiosos católicos, observa-se no cotidiano prático que eles foram ganhando participação tanto no poder político estatal como nas discussões de políticas indigenistas, ao longo do século XX. A partir de 1911, com o apoio do Estado, os missionários beneditinos fundaram uma escola profissionalizante indígena à beira do Rio Surumu. Nessa missão do Surumu, em função da política humanista adotada, a profissionalização dos índios gerou discussões entre religiosos e índios aldeados, cujo tema central era o destino dos índios de Roraima. A Constituição de 1891 não fez referencia ao índio, mas na reorganização do Estado federativo com os olhos voltados para as fronteiras, os constituintes pensaram nos índios (fronteiras vivas) e, em 1910, criaram o SPI (Serviço de Proteção ao Índio) com visão humanista dos índios, sob a chefia do Marechal Rondon. Dessa forma, o papel da Igreja continuava atrelado às normas pombalinas: função única de catequizar o índio, deixando de fora as questões políticas indigenistas que eram funções do Estado, que tinha o apoio do índio na figura do “Principal”. No entanto, não sabemos como e porque a Igreja Católica de Roraima foi assumindo parte nesse jogo de poder político indígena na região. 113. Cf. Capítulo 1, item 1.4. 114. Cf. Capítulo 1, p. 86/89. 141 Foi nesse período, que se acirraram as disputas pelo controle de certas áreas de atuação política sobre os índios. Mas foi com a Missão Consolata, na segunda metade do século XX, que o movimento dos índios teve maior solidariedade em favor de sua causa. Os religiosos da Consolata deram continuidade aos projetos dos beneditinos e ampliaram os programas (educação, saúde, agricultura, pecuária, religião) estabelecendo novos convênios com o Governo do Território Federal do Rio Branco. Desse modo, os convênios estabelecidos entre Igreja e Estado na condução de uma política indigenista voltada para qualificar os índios e integrá- los à sociedade nacional local marcaram, na primeira metade do século XX, disputas entre o SPI e a Igreja Católica de Roraima, representada, inicialmente, pela Ordem Beneditina. Os inspetores do SPI local passaram a ver os missionários beneditinos como concorrentes no processo de poder político econômico da intervenção legisladora dos povos indígenas. Nessa competição de poder sobre a população indígena, os inspetores denunciavam que o educandário católico para meninas na cidade de Boa Vista era mais uma casa de escravização de menores, pois eram obrigadas a serviços pesados por horas a fio (CIDR, 1989:32). Essas duas instituições desenvolveram projetos de intervenção local junto a vários grupos indígenas na área da saúde, educação, atividades agrícolas, formando quadros de pessoal especializado para o mercado local. No entanto, os ataques entre os representantes das duas instituições tornaram-se acirrados, especificamente, em relação às escolas e aos internatos indígenas. Os missionários não se entendiam com as lideranças políticas da região que apoiavam o SPI. Nesse cenário de denúncias e ameaças, a opinião pública de Boa Vista, influenciada pelos discursos dos inspetores do SPI, que alertavam para a 142 necessidade de transformar esses “selvagens” em “civilizados”, engrossava os conflitos entre civis e religiosos115. Nesse contexto, as pressões dos inspetores do SPI visavam barganhar uma parte das vultosas verbas governamentais que eram destinadas à Prelazia do Rio Branco, no apoio e assistência educacional do índio. Para alcançar tal objetivo, a inspetoria tinha resolvido transformar o sanatório “General Rondon” em um instituto para menores indígenas. Contudo, essa transformação do sanatório para instituto de menores indígenas não aconteceu. Apesar dos inspetores do SPI manterem boas relações com a elite e as lideranças políticas de Boa Vista, enfrentavam problemas financeiros e inquéritos sobre escândalos de violências sexuais envolvendo funcionários do SPI e adolescentes indígenas (CIDR, 1989). A partir de 1949, o Instituto Missionário da Consolata, originário de Turim, na Itália, assumiu o trabalho religioso que vinha sendo exercido pelos beneditinos e a nova ordem religiosa alargou os projetos de evangelização católica e escolas para os índios e os não-índios. O ginásio Euclides da Cunha, como exemplo, foi fundado em 1950, com quatro salas de aula e um total de 120 alunos, oferecendo curso ginasial, em regime de externato misto para os filhos da sociedade roraimense. Em fins da década de 1960 e começo de 1970, surgiram, no Brasil, movimentos populares e de esquerda em busca de liberdade cultural e direito do exercício de cidadania116. Eles enfrentaram, porém, dificuldades para romper o cativeiro político, ideológico e, também, espiritual. Foi um período de embates entre a classe civil, militar e religiosa brasileira, de ruptura entre setores da Igreja 115. Essa temática não está devidamente documentada, merecendo maiores estudos. Porém, é corrente entre relatos e entrevistas de uso da História Oral que esses conflitos políticos e religiosos na primeira metade do século XX foram marcados por violentos confrontos entre representantes religiosos, representantes governamentais e da sociedade local. De maneira sutil, Rice (1978) fez referência a essa disputa do poder local incorporando grupos civis, militares e religiosos, durante exploração de reconhecimento na região, em 1924. 116. Movimentos estes bastantes ligados ao genérico ideais e práticas das propostas marxistas-leninistas, dos movimentos de guerrilha na América Latina, da revolução cubana, dos comportamentos de contracultura, do maio francês (1968), do pós-64 brasileiro, das representações e organizações sociais de postura nacionalista, etc. 143 Católica e do Estado, que abriu uma discussão envolvendo os grandes proprietários de terra e a grande massa de trabalhadores do campo, expulsa das áreas rurais e que aumentou os bolsões de miséria nas periferias urbanas (MARTINS, 1989). Nesse período de crise, aconteciam conflitos envolvendo tanto disputas político-ideológicas quanto embates entre escalões diversos (grupos políticos, intelectuais, missionários católicos). Foram conflitos envolvendo diferentes segmentos sociais, em geral, pertencentes às classes médias intelectualizadas (artistas, jornalistas, professores, estudantes, etc.), partidos de esquerda, esferas do movimento estudantil, do operário, do camponês e parte da Igreja Católica compromissada com a Pastoral da Terra e Teologia da Libertação. Toda essa movimentação social e política, no campo e na cidade, possibilitaram a participação dos movimentosindígenas que também se organizavam. Nesse embate político e sócio-cultural, os representantes católicos (defensores da teologia da libertação) denunciavam a opressão tanto do homem camponês como do índio na sociedade nacional. Os índios, que teoricamente estavam tutelados117, na prática, continuavam marginalizados e vistos como um grupo social “não-civilizado”, em vias de extinção. Do ponto de vista jurídico, o índio que não solicitar ao juízo competente a sua liberação do regime tutelar, preenchendo um conjunto de requisitos, de idade mínima de 21 anos, não estará habilitado para o exercício de cidadania civil. Todo esse processo que considera o índio capaz de exercer os atos da vida civil é denominado de emancipação. Tal termo, que para certos segmentos da sociedade tinha o caráter unicista da cultura nacional, abriu novas discussões: 117. Buscando definir uma política indigenista que não alternasse, de acordo com o interesse do momento, entre “paternalismo” e “integracionismo” , a FUNAI ganhou nova função que foi estabelecida pela lei n. 6001 (19.12.73), identificada como Estatuto do Índio. 144 Indígena é no Brasil de hoje, essencialmente, aquela parcela da população que apresenta problemas de inadaptação à sociedade brasileira, em suas diversas variantes, motivados pela conservação de costumes, hábitos ou meras lealdades que a vinculam a uma tradição pré- colombiana (RIBEIRO, 1979:254). A ironia do antropólogo situa com precisão a que levou o “caminhar rumo ao nacional” de grande parcela de nossos indígenas. Nessa situação de contato a estrutura de poder do Estado forçou a destribalização desses povos indígenas. Em Roraima, esses acontecimentos adversos associados ao processo de políticas indigenistas, envolvendo os missionários católicos, as lideranças políticas e os representantes da sociedade local, repercutiram em variadas posturas entre esses representantes. Observou-se, no interior desses posicionamentos, insuficiência teórica e presença de concepções preconceituosas, em razão dos antigos problemas interpretativos da cultura do índio, que não foram resolvidos ao longo do processo de integração indígena na sociedade nacional, camuflando essa problemática da posse da terra e da cultura do índio com tratamento diferente do nacional e parecendo não existir. No bojo dessas discussões, surgiram outros conceitos como o de “necessidades das sociedades”, o de “direitos” que se apoiavam em regras universais. Algumas lideranças católicas e indígenas resolveram apelar para os fundamentos nos direitos internacionais e autóctones elaborados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e no de modelo de desenvolvimento chamado de “auto-sustentável”118. Preocupados em legalizar a situação dos índios e de suas terras, buscando propagar esperança na superação das desigualdades sociais e econômicas, essas lideranças reconheceram os limites e as ações políticas e culturais de cada grupo, em um amplo processo democrático (CASTORIADES & COHN-BENDIT, 1981). 118. Esse tema será abordado no Capítulo 4, item 4.3. 145 Nessa região amazônica, onde emergiam preocupações latifundiárias, tensões culturais e políticas entre índios e não-índios, esses novos conceitos ampliavam as confusas interpretações entre as lideranças dos índios, da Igreja Católica, do Estado e da sociedade local que, num discurso liberal, preconizavam a participação de todos os habitantes da região, na política governamental. Foi nesse período (final de 1960 e decorrer de 1970) que apareceram referências da realização de encontros entre os líderes indígenas (Makuxi, Wapixana, Taurepang, Ingarikó), na escola da missão de Surumu119, com apoio da Igreja Católica, pela busca de direitos da identidade étnica, numa reestruturação da sua própria cultura no contexto nacional (CIDR, 1989). Os índios passaram a mostrar, por meio de suas reivindicações, que o momento político era outro, que o período da “sujeição” do índio ao branco era uma situação do passado. Nesses debates, as lideranças e os missionários procuravam anular a imagem do índio como o “não civilizado” ou em vias de extinção, duas representações que caracterizaram a compreensão das etnias indígenas pelo senso comum. Os índios apresentaram modelos de necessidades distintas do modelo capitalista/nacional, com base na exploração agrícola e pecuária. No modelo indígena, o centro das necessidades era o reconhecimento da cultura: os ritos, os mitos que organizavam o social satisfazendo formas de necessidades da vida coletiva e de parentesco com a terra. Contudo, surgiram índios que, na relação de pacificação/integração na sociedade nacional local, na introdução das necessidades econômicas do sistema capitalista, abandonaram essas formas sócio-culturais coletivas e de parentesco 119. Por meio dos cursos profissionalizantes e discussões sobre o papel do índio na sociedade local, os índios que freqüentavam a missão do Surumu ganhavam certos entendimentos sobre “liberdade” identitária e cultura indígena. Nessa região, os líderes indígenas realizavam encontros para discutirem sobre a problemática situação do índio, no processo de integração na sociedade nacional, especialmente as questões relacionadas à terra, alcoolismo e prostituição. As reuniões recebiam apoio dos missionários católicos e leigos vinculado ao CIMI (Conselho Indigenista Missionário) defensores dos direitos dos índios como primeiros habitantes da região (CIDR, 1989 e 1990). 146 com a terra. Eles apresentaram um modelo indígena vinculado a uma rede de interesses (individual/coletivo), com um conjunto de necessidades, no qual o econômico tornou-se o centro. Diante dessa nova postura, as reações dos índios em busca de direitos e desenvolvimento com apoio dos missionários católicos, sem respaldo jurídico nacional, não eram aceitas pelo Estado e nem pela sociedade local durante essa fase de condução política para um sistema democrático. A política indigenista e o conflito entre reivindicações de direitos e desenvolvimento, presentes na contemporânea história local, não se desvinculou da herança cultural de não saber lidar com o outro que é diferente, “eliminando o que incomoda” (VERHELST, 1992) na realização do interesse estatal em jogo. Desta forma, outra vez, o exercício de direito por coerção social, que garantiram os princípios de usurpação da terra amazônica (e do índio como parte dela) pelos europeus no século XVI e legalizada (como direito de posse) em favor dos portugueses com o Tratado de Tordesilhas (1750), aqui interpretado como extinção dos direitos do índio sobre a terra e sua organização sócio-cultural, parece perdurar no início do século XXI em Roraima. Para o exercício do direito por índios e brasileiros, na busca de solucionar o impasse de identidade e da propriedade, o desafio deverá ser o de fundamentar modelos de reconhecimento dessas mudanças e das novas necessidades sociais em Roraima, diante do novo tempo: quem é e quem não é índio? Como usufruir os recursos da terra respeitando-se os direitos de concepções individuais e coletivas? Sem respostas e uma efetiva solução para os impasses, as etnias indígenas, com o apoio da Diocese de Roraima120, a partir da segunda metade dos anos 70, 120. A Diocese foi instalada na segunda metade dos anos de 1970, tendo como primeiro Bispo Diocesano D. Aldo Mongiano (da Missão Consolata), momento de maior discussão da causa indígena e ampliação da solidariedade aos índios,tanto pela Diocese como por instituições oficias e não-governamentais (nacionais e internacionais). 147 registraram nos seus encontros (reuniões ou assembléias indígenas no Surumu) reações de descontentamento com relação aos seguintes pontos: a) à questão do direito de usufruto e posse da terra; b) o processo educacional do governo local que eliminava os atributos da cultura do índio; c) o não reconhecimento de seus direitos sociais e culturais, com base no processo etno-histórico amazônico, com organização social diferenciada (ausência de Estado) e primeiros habitantes (a terra era ao mesmo tempo abrigo e parente). Neste horizonte de conscientização identitária do índio, as figuras do tuxaua121 e dos líderes122 indígenas ganharam força política como novas formas de representação e organização sócio-cultural que passaram a conduzir e alterar a nova ordem política e organização da vida na maloca. Mesmo assim, o sentimento de insatisfação tem se mostrado muito forte entre os índios que não vêm encontrando apoio governamental para solucionar esse conflito entre índios e não-índios, com as mudanças ocorridas nas últimas décadas do século XX. Durante a realização de Assembléias Indígenas, na missão Surumu, com o apoio da Diocese de Roraima, destacamos alguns conteúdos desse novo momento: O Tuxaua Laurindo, Makuxi da Maloca Cantagalo, afirmou: Meu avô dizia que, desde o começo da maloca do Limão até o Monte Roraima, a terra é dos índios. Como é que, então, tem muitas fazendas? Eles sabem que a terra é nossa. Tem muitos cajueiros no pé da serra da Memória, e foram os meus avós que plantaram (CIDR, 1990:57). O Tuxaua Chico Ernesto, Wapixana da Maloca do Livramento, disse: Temos o problema da terra; somos poucos, mas temos que segurar o que é nosso. A FUNAI prometeu muitas vezes a demarcação das terras, mas é só papo furado. Os gaúchos chegam, cercam muita terra e querem sempre mais, provocando brigas. Os velhos tuxauas falam do tempo de Rondon, que deu para eles uma farda e uma corneta. Rondon dividiu as terras entre os índios (CIDR, 1990:57). 121. De acordo com as narrativas de alguns velhos Makuxi e Wapixana, o termo “Tuxaua” foi criado pelos missionários da Guiana e para outros foi pelo General Rondon, que ao nomear o líder indígena deu uma farda militar e uma trombeta. Hoje o Tuxaua identifica o chefe da maloca e é eleito pela comunidade indígena. Antes do contato com o “branco”, a maloca era governada por um “conselho de anciãos”. 122. Jovens índios, instruídos no ensino formal, que foram se destacando como auxiliares dos tuxauas nas articulações políticas entre a maloca e o Estado ou entre a maloca e as organizações oficiais e não-governamentais nacionais e internacionais. 148 Os índios não concordam com a política desenvolvida pela Funai que não consegue proteger os direitos dos índios e nem expulsar os brancos das áreas demarcadas para as etnias indígenas. Ao interpretar o momento presente, o índio faz uso da memória cultural tribal que é, ao mesmo tempo, o documento histórico sobre o passado e o presente, “desde o começo a terra é do índio” dizia o avô. Fizeram denúncias sobre cobranças de impostos e taxas da propriedade, mas a Funai alertou que o índio não paga imposto: O Tuxaua Severino, Makuxi da Maloca de São Jorge, comentou que: Os fazendeiros cercaram as terras e nós mesmos permitimos isso. Antes o SPI defendia as terras dos índios, depois chegaram os brancos dizendo que o SPI não existia mais e ocuparam as nossas terras. Meu pai não deixou entrar ninguém e foi cadastrar a nossa terra. Depois chegou o IBRA e disse que devíamos pagar e eu paguei. Depois chegou o INCRA e foi a mesma coisa. Paguei quatro vezes nestes quatro anos. Por fim veio a FUNAI. O delegado me nomeou tuxaua e disse que o índio não devia pagar nada, porque a terra é nossa (CIDR, 1990:58). Esse texto, publicado pelo Centro de Informação da Diocese de Roraima, nos mostra como o indígena ainda não consegue entender o Estado brasileiro e a necessidade de mantê-lo com taxas, inclusive sobre a propriedade. Ou seja, embora ser cobrado, neste caso, justifica que a posse da terra lhe é reconhecida, a leitura indígena é incapaz de compreender sua realidade inserida no processo social nacional, o que provoca sofrimento. Por outro lado, a FUNAI não legalizou a terra e nem expulsou os invasores das áreas reivindicadas pelos índios. Assim, é possível considerar que os mecanismos políticos e jurídicos do Estado, na dominação do índio e da terra, passam pela coerção, capital e conhecimento que transformam a cultura e dividem as famílias indígenas: O Tuxaua Alcides, Wapixana da Maloca da Barata, afirmou: Também na minha maloca as pessoas não estão unidas, mas acredito que, continuando o nosso trabalho, todas irão entender. Muitos pedem para trabalhar para os brancos. Eu sou contra, porque no lugar de defender o que é nosso, vamos aumentar o dinheiro do bolso dos brancos (CIDR, 1990: 55). O Tuxaua Jacó, Makuxi da Maloca do Arai, argumentou que: Muitas das nossas filhas casam com civilizados e depois nos tratam como bichos. Um dia fui na casa de um 149 civilizado, pai do meu genro. Fui com meu genro para pedir-lhe um empréstimo. Ele nem me convidou para entrar, deixou-me debaixo de chuva. Quando soube que era eu ainda disse: - Ah!, pensava fosse gente mas é só um caboclo. Por isso que eu digo às minhas filhas que não casem com civilizados (CIDR, 1990:55). Os textos acima evidenciam a consciência político-econômica do índio que faz denúncias sobre a ruptura de sua própria estrutura organizacional, motivo de sofrimento ao pensar nos parentes integrados. Desta forma, “muitos trabalham para o branco”, aspiram desfrutar das benesses da vida do branco que o vê como “bicho” e, aparentemente, recusa relações de dependência. No conjunto de necessidades123 do índio, utiliza-se dois caminhos: necessidades “coletivas” ou necessidades “individuais/privadas”. Por meio dessas Assembléias Indígenas, em geral realizados na missão do Surumu, a Diocese de Roraima reordenou sua política indigenista e buscou apoio nacional e internacional para resolver essa problemática indígena. Para os missionários católicos, os índios e os não-índios podem conviver em consenso numa mesma região. No entanto, em razão da indefinição fundiária e de uma política econômica privilegiando a elite social, a história do tempo presente roraimense é definida por violentos confrontos envolvendo Estado, índios e não- índios na disputa de propriedade da terra e no usufruto dos recursos ambientais. Em meio aos sentimentos de insatisfação, é voz corrente na sociedade local indagar por que o pensamento humanista da Diocese de Roraima, que optou radicalmente a favor do reconhecimento identitário e da terra do índio, abandonou a massa populacional pobre, habitando os bolsões de miséria da periferia de Boa Vista, abrindo caminho para as missões protestantes. Tal questão, evidentemente, merece tratamento autônomo, não possível no presente trabalho. 123. O conceito faz parte da proposta de desenvolvimento sustentável de exploração ambiental em prol da coletividade, que satisfaz “as necessidades do presente sem comprometer as das gerações futuras” (cf. WCED. Our Common Future. 1987). 150 2.4. Organização e reação indígena O processo histórico e jurídico revelou o regime tutelar indígena desde o século XIX, com as normas expressas na lei de 27.10.1831, dando ao Estado o poder de proteção dessa população. Assim, o Estado delegou por intermédio de um órgão federal (primeiro o SPI e depoisa FUNAI) o direito de defesa e assistência ao índio. Após as modificações nas relações políticas e sociais, entre segmentos da sociedade nacional, geradas pelo movimento em favor da massa trabalhadora (urbana e rural) nos anos de 1960, setores vanguardistas da Igreja Católica e leigos vinculados ao CIMI (Conselho Indigenista Missionário)124 iniciaram campanhas de solidariedade em favor do índio e da sua terra, acentuando o preconceito e a não aceitação no contexto local: quem é e quem não é “branco”? Quem é o dono da terra? Desse modo, diante da possibilidade de modificação da política indigenista, na qual o Estado não consegue aceitar as diferenças entre índios e brancos, colocando todos os habitantes de Roraima como iguais, negando a diversidade cultural, o índio aventurou-se a discutir a sua inserção na sociedade nacional local, definindo-se pela etnicidade e não pelo nome genérico “índio”. Assim, no final da década de 1960, começaram, sem solidez, uma organização e uma reação indígenas contra o programa governamental de não reconhecimento do índio. Por meio do processo educacional, alguns missionários e líderes indígenas tornaram-se interlocutores dessas questões, referentes aos direitos dos índios, que tinham interesse em romper com o poder estatal e o domínio branco: 124. O CIMI é um órgão anexo da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) que é a instância máxima da Igreja Católica no Brasil. Atuam no CIMI todos aqueles que exercem atividades de forma direta junto aos índios pela Igreja Católica. A “bandeira” do CIMI é a “defesa das terras e a autodeterminação” (cf. SUESS, 1989:30). 151 A partir de 1968, por iniciativa dos padres da Consolata, os tuxauas de algumas regiões começaram a reunir-se. A ocasião era dada pelos cursos de instrução religiosa que os padres desenvolviam, geralmente, na missão de Surumu, onde funciona o internato. Estas reuniões anuais davam aos tuxauas a oportunidade de encontrarem-se e, fora das palestras dos padres, discutirem os problemas das malocas (CIDR , 1990:43). Essa iniciativa dos índios foi influenciada pelos movimentos sociais que vinham acontecendo dentro e fora do país. As reuniões indígenas no Surumu foram o marco desencadeador de significativos confrontos culturais e políticos entre os próprios índios e de suas relações com segmentos da sociedade roraimense. Entres os movimentos que instigaram as reivindicações dos índios estavam os de atuação das esquerdas (intelectuais nacionalistas, dos operários e camponeses) que buscavam uma identidade nacional de interesse comum, inspirados nas manifestações culturais e populares, e nas revisões sócio-políticas defendidas por intelectuais que apontavam novos caminhos em defesa da liberdade e justiça social. Por isso, as reuniões dos tuxauas e líderes indígenas com discussões voltadas para a questão da identidade étnica, fomentando reações contra o não reconhecimento da cultura do índio pelo branco, ganharam força política após a solidariedade da Diocese de Roraima, em fins dos anos 70. Assim sendo, no desenrolar dessas reuniões, ampliaram-se os argumentos humanitários de defesa da cultura e do direito da terra para usufruto das nações indígenas que ganharam novos adeptos: Em 1977 a situação mudou sensivelmente. Naquele ano os padres convidaram pessoas do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e modificou-se a metodologia da reunião: foi deixado todo o tempo para que os tuxauas apresentassem, livremente, problemas, sugestões, etc. Para sublinhar e reforçar a mudança, naquele ano a FUNAI e a polícia federal interviram para proibir a continuação da reunião. Mas a idéia de reuniões diferentes já estava lançada e não era possível voltar atrás. Em 1978, seja por medo de atritos com a FUNAI, seja por divisões internas, os padres não organizaram a reunião anual dos tuxauas. Recomeçou-se em 1979 e continuam a ser realizadas, todos os anos, no mês de janeiro, na missão de Surumu. Participam tuxauas e secretários das malocas Makuxi, Wapixana, Taurepang e Ingarikó. Ultimamente são coordenados pelos próprios tuxauas e servem para traçar linhas comuns de ação e procurar, juntos, soluções aos problemas que as 152 comunidades indígenas estão enfrentando. Além destas reuniões gerais, nestes últimos anos, realizaram-se também encontros regionais, para a solução de problemas relativos à região ou em preparação para a assembléia geral (CIDR, id., ibid.). A FUNAI, órgão federal responsável pela política indigenista, teoricamente, atua no projeto de proteção e emancipação do índio. O texto publicado pela Diocese de Roraima, anteriormente citado, forneceu indícios sobre o papel desse órgão em Roraima, com apoio da polícia federal teve, no evento indígena mencionado, uma reação opressora, proibindo as reuniões dos índios do Surumu, que diferentemente dos demais, não seguiam o programa de emancipação. Na década de 1980, realizando assembléias e reuniões, elegendo diretorias, registrando estatutos em cartórios, as etnias indígenas de Roraima foram se apropriando de novas formas de representação política. Ao mesmo tempo, acirraram-se as disputas pelo poder de controlar as novas representações indígenas, pelo direito de interferir em determinados assuntos como educação e demarcação de terras. Nesse ínterim, surgiram novos líderes e novas possibilidades de alianças e encaminhamento de reivindicações junto a órgãos do governo e entidades de apoio ao índio: Na reunião geral de 1983 participaram cerca de 250 índios, entre os quais 72 tuxauas. Nesta, conseguiu-se dar um passo à frente na organização da defesa contra a invasão dos brancos: foi decidido, seguindo o exemplo das malocas das serras, organizar, em cada região, um “Conselho das Comunidades” formados por alguns tuxauas da respectiva área. Este conselho tem a tarefa de coordenar as atividades das várias malocas e, em ocasião de brigas ou problemas com os brancos, apoiar as comunidades para resolverem juntos todas as questões. Nos meses sucessivos à reunião, foram formados conselhos nas regiões de Surumu, Cotingo, Normandia, Taiano e Serra da Lua. No contexto das reuniões dos tuxauas, além dos conselhos, nasceram novas estratégias indígenas perante a invasão: as cantinas e os projetos125 de gado para as comunidades dos índios (CIDR, 1990:44). 125. As cantinas, chefiadas pelo tuxaua, comercializavam por meio de trocas, vendas e compras de produtos para os índios na maloca. Essas cantinas substituíram os pequenos comércios de propriedade dos fazendeiros que exploravam o trabalho do índio na troca de produtos. O preço dos produtos era decidido pelo fazendeiro e o índio estava sempre na dependência econômica. O projeto de criação de gado comunitário coordenado pelos índios desenvolveu-se com base na experiência da cantina. Com apoio da Diocese de Roraima e 153 A partir da referida década, as etnias indígenas foram, paulatinamente, ganhando espaço na mídia local, nacional e internacional, realizando campanhas de defesa da identidade étnica e denúncias das ameaças contra os direitos dos índios diferenciados da sociedade nacional local. Contando com ajuda da Diocese de Roraima, os índios promoveram encontros com a finalidade de redescobrirem a sua identidade e os seus direitos étnicos (Makuxi, Wapixana, Ingarikó, Taurepang, Yanomami, Wai Wai), fazendo valer a memória cultural que registrou a vivência dos ancestrais instalados há milhares de anos sobre o solo amazônico e organizados em sociedades estruturadas, sendo revitalizada nos contatos com os parentes “isolados”, habitando o interior da região. Nessa retomadade consciência identitária, o índio não buscava apenas uma nova continuidade étnica, mas o “reconhecimento da diferença cultural” que afirma a sua própria identidade (SEMPRINI, 1999:14). Apesar dessas articulações organizacionais e de representação entre os índios, com relação ao percentual da população indígena em Roraima, não há um registro recenseador indígena. A dificuldade de um censo indígena decorre da idéia de que a figura do índio pertence ao nosso passado e porque boa parte dos indígenas recenseados se vêem como brancos. Nessa confusa realidade e identidade indígena, existem, também, os grupos isolados ou recém-contactados, que fugiram ou que não foram envolvidos no processo de “pacificação”. O termo “mestiço” (branco com índio) não é usado nessa região, quando isso acontece faz referência ao mestiço imigrante de outras regiões do país. Os poucos levantamentos feitos sobre os índios apresentam variação numérica entre os órgãos. No entanto, fala-se de uma população aproximada de 25 mil pessoas, distribuídas em diversas etnias. As principais são: Ingarikó, tendo o Conselho Indígena como responsável pelo projeto, os índios receberam ajuda financeira do exterior e executaram o projeto do gado ganhando certa autonomia econômica, gerando disputas com o fazendeiro na posse da terra (CIDR, 1990:44-7). 154 Maiongong, Makuxi, Taurepang, Wai Wai, Waimiri-Atroari, Wapixana, Yanomami, entre outros grupos menores, não documentados. Patrícia Ferri (1990) apresentou um estudo sobre essa temática em Roraima e identificou uma população aproximada de 37 mil índios, distribuídos entre as oito etnias. O ISA (Instituto Socioambiental), uma organização não- governamental, voltada para essas questões da população indígena no Brasil, apontou alguns dados estimativos sobre o total de índios de cada etnia mais conhecida no Estado: Quadro Demonstrativo 01 Estado de Roraima. Censo/Estimativa da População Indígena Fonte: CEDI/Instituto SocioAmbiental, novembro de 1994. O período de 1975 a 2000 foi assinalado por violentos embates entre o Estado e a Igreja Católica na disputa de poder sobre o índio. Por sua vez, o índio se organizava em Assembléias e Conselhos, ganhando apoio de ONGs nacionais e internacionais, solidárias a sua causa. A Igreja, representada pela Diocese de Roraima, adotou novas normas com base nas instruções da Declaração universal Etnia Roraima e vizinhos (Estados e Países) População Censo/estimativa Ano Ingarikó Roraima Guiana Venezuela 1.000 4.000 728 1994 1990 1992 Maiongong/Ye’kuana Roraima Venezuela 180 3.662 1990 1992 Makuxi Roraima Guiana 15.000 7.500 1994 1990 Taurepang/Pemon Roraima Venezuela 200 20.607 1989 1992 Wai Wai Roraima/Amazonas/Pará 1.366 1994 Wapixana Roraima Guiana 5.000 4.000 1994 1990 Waimiri Atroari Roraima/Amazonas 611 1994 Yanomami Roraima/Amazonas Venezuela 9.975 15.193 1988 1992 155 dos direitos humanos, das normas internacionais enunciadas pela Convenção de Genebra Nº 107 da OIT (1957), das revisões parciais da Convenção Nº 169126 (1991) e das recomendações relativas às populações “aborígenes e tribais”, além de outros instrumentos internacionais referentes à discriminação dos povos indígenas, que foram elaborados entre os anos de 1950 e 1980. Essa política indigenista do governo do Território, que visava o processo de segregacionismo, passou a disputar, com a Diocese de Roraima, o controle nesse processo pelo qual o índio era absorvido na cultura nacional. Nessa tarefa indigenista, a FUNAI desempenhou papel ambíguo, não se diferenciando da função do SPI, que na teoria tinha visão humanista e na prática tornou-se instrumento opressor do índio. Algumas vezes, junto com a Diocese de Roraima, a FUNAI apoiara e financiara formas comunitárias de criação de gado nas malocas, visando a autonomia dos índios. Em outros momentos, junto ao governo local, ampliou o número de postos indígenas nas malocas e a instalação de escolas indígenas (com professores brancos) mantidas pelo governo, visando qualificação profissional indígena para o mercado roraimense. Mas, em geral, o índio enfrentava dificuldades na condução desses projetos, tanto por conta dos programas assistencialistas do governo (local/federal) como pelos conflitos na disputa de terra com o fazendeiro e mineradoras, que olhavam o índio como posseiro/grileiro127. A solução das dificuldades esbarra na revisão constitucional e elaboração do Estatuto Indígena que tramita no Congresso Nacional desde a última década do século XX, geradora da manutenção ideológica integracionista que não o reconhece como organização social diferenciada do quadro social nacional. 126. Convenção da Organização Internacional do Trabalho referente aos Povos Indígenas e Tribais nos países independentes. A Convenção contou com o apoio da Organização das Nações Unidas e do Instituto indigenista interamericano (cf. BARBOSA, 2000). 127. Esse tema será tratado no Capítulo 3 e retomado no Capítulo 4. 156 Ressalta-se que as etnias indígenas de Roraima iniciaram o movimento de reconhecimento étnico cultural desde a década de 1960 e tiveram que esperar até o final dos anos de 1980, momento da promulgação da nova Constituição Federal, para, na teoria, ganhar o reconhecimento de sua organização social e cultural enunciados nos artigos 231 e 232. Nessa realidade concreta, o índio emprega elementos de sua cultura em suas práticas cotidianas, que o branco julgava que já fossem extintos. Além dessas questões, a migração do índio para a cidade de Boa Vista preocupou as organizações indígenas. As constantes secas reduzindo a pesca e a caça, a baixa produtividade da roça, causando insatisfação e muita pobreza, a invasão das mineradoras em áreas dos índios, levaram grande contingente indígena para a capital Boa Vista. Vivendo nesse ambiente estranho que é a cidade, os índios reclamavam que a sociedade branca não oferecia melhores condições para trabalhos estáveis128. Diante dessas dificuldades, as lideranças indígenas, por meio do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e outras ONGs indígenas, buscavam dar apoio aos “parentes”129 que migraram para a capital, faziam denúncias sobre os conflitos entre o Estado, os índios e não-índios envolvendo questões referentes aos garimpos e violências várias (alcoolismo, prostituição)130. Essa população indígena que chega à Boa Vista nem sempre procura a FUNAI ou o CIR (Conselho Indígena de Roraima) ou APIR (Associação dos Povos Indígenas de Roraima) que são os órgãos e as duas maiores entidades não- governamentais que dão apoio ao índio. Durante uma das várias entrevistas 128. A máquina de fazer política do Estado, envolvida nas barganhas eleitoreiras, oferecia funções ou atividades no serviço público, por meio de projetos das secretarias e pago por comissão, visando à captação de votos na eleição de 1990. 129. Parente é um termo usado pelo índio para identificar a relação familiar entre os próprios índios. Essa relação de parentesco envolve os distintos troncos lingüísticos porque todos descendem dos mesmos ancestrais possuidores de vínculos de parentesco com a terra (mitos e ritos unificando o mundo cósmico e o terreno). 130. Essas considerações são baseadas em nossas entrevistas junto ao CIR e a FUNAI/RR , durante o ano de 2000, e notíciasveiculadas na mídia local, nesse mesmo período. 157 concedidas à mídia local, o administrador da FUNAI/RR, Walter Blós, comentou que, em muitos casos, o índio que abandona a maloca e chega à Boa Vista não se vê como índio, já que fala português e tem hábitos distintos da maloca. Sobre essa mesma questão, o Coordenador do CIR, Jerônimo Pereira, afirmou que o índio quando chega à cidade tem vergonha de identificar-se como índio por causa do preconceito “branco” contra o índio131. Segundo o Coordenador do CIR existe uma grande dificuldade de vencer esse forte preconceito e conquistar seus direitos como prevê a Constituição Federal de 1988 e a Estadual de 1991. Essa questão constitucional tornou-se um outro impasse político-jurídico, na relação do Estado com os índios, que não compreendem o porquê da Constituição Estadual (1991) que no artigo 173 reconheceu os “Direitos dos Índios”, conforme os enunciados nos arts. 231 e 232 da Constituição Federal (1988), e não são aplicados: por que o Estado/União conserva a política de domínio sobre o índio e suas terras? Os direitos dos índios enunciados nos referidos artigos constitucionais, o processo educacional indígena (da Igreja, da FUNAI e do Governo de Roraima) e a demarcação das terras tornaram-se temas polêmicos dentro das organizações indígenas e das esferas do governo e da sociedade roraimense132. Durante os encontros dos índios133 aconteceram descompassos interpretativos das normas e divergências de interesses em jogo e não se conseguia avançar no fortalecimento da Assembléia Indígena, que começou a se fragmentar com as famílias indígenas divididas: algumas apoiavam o programa emancipatório do governo, outras defendiam o resgate de etnicidade diferenciada do nacional. 131. Esse tema será retomado no Capítulo 4. 132. Os artigos constitucionais, a tentativa de aplicabilidade dos artigos e a questão fundiária serão retomados nos capítulos 3 e 4. 133. A região do Surumu, como o lugar politizador e multicultural indígena, deu início as reuniões dos líderes e representantes dos índios de Roraima e inspirou a organização de conselhos e assembléias nas malocas das distintas regiões (serras, florestas e lavrados). 158 Nesse processo de politização do índio, foi implantada uma Associação Geral dos Tuxauas (chefes indígenas) vinculada à Diocese de Roraima. Essa associação, com estrutura e organização semelhante às associações da cultura ocidental, constituiu-se em importante instrumento de representação política do índio, estimulando entre as etnias indígenas a formação de associações e reorganizações de escolas bilíngües. Tal associação dos Tuxauas desenvolveu, ao mesmo tempo, uma reordenação na formação de professores índios e buscou alternativas para reativar a identidade étnica, principalmente entre os jovens que tinham vergonha de se identificarem como índios. Rearticulando uma política indigenista mais próxima dos anseios dos índios, essa associação dos tuxauas foi a responsável pela fundação do Conselho Indígena de Roraima (CIR)134 e demais associações: Associação dos Povos Indígenas de Roraima (APIR), Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIR), Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (OMIR), entre outras pequenas organizações indígenas na região. No começo desse processo de representação e organização indígena, todos os índios estavam vinculados aos missionários católicos. Todavia, com a entrada dos missionários protestantes (Missão Evangélica da Amazônia - MEVA), da instalação da Diocese de Roraima (final de 1970) assumindo postura radical em favor da etnicidade e da terra do índio diferenciado do nacional, da função ambígua da FUNAI (ora em favor do índio e ora contra), dos programas assistencialistas do governo (federal/local), as famílias indígenas ficaram divididas: índios defensores da Diocese (pró-tradição), índios a favor do Estado e sociedade nacional local (pró-nacional). 134. O CIR é composto pelos seguintes órgãos: (I) Assembléia Geral; (II) Coordenação Geral; (III) Conselhos Regionais; (IV) Coordenação Aplicada. A Assembléia Geral do CIR se tornou o órgão máximo de decisões e suas decisões serão tomadas sempre pela maioria simples de seus membros presentes na reunião. O CIR deverá intermediar os entendimentos entre índios e não-índios na sociedade local (cf. “Estatuto Social do CIR”, Boa Vista/RR: CIR, 1992). 159 Passado mais de quatrocentos anos, manteve-se um conflito entre os índios: apoiar ou não os colonizadores. Entre os séculos XVI e XVII, os holandeses tentavam seduzir os índios para ficarem ao seu lado, atuando na rota comercial. No século XVIII, os portugueses, por meio dos Aldeamentos, tentavam civilizar o índio e tomar posse de sua terra. Assim, esse processo dilacerador da cultura dos índios, que os divide entre si, perdura até o início do século XXI. No entanto, apesar das divisões internas entre as próprias etnias indígenas135, todos os tuxauas e líderes dos índios de Roraima concordavam que essa discussão estava vinculada a um movimento social, político, antropológico e jurídico mais amplo. Os índios de Roraima, seguros de sua memória cultural e organização social (interpretadas pela cultura nacional como “ausência de Estado e sem organização social”, portanto, sem existência) e diante do jogo de interesses entre esferas do governo estadual e federal, cobram das autoridades responsáveis pelo reconhecimento de seus direitos étnicos, posturas mais definidas em relação ao conflito. No auge dessas articulações e reivindicações, os povos indígenas, que desde a Constituição do Império foram considerados cidadãos brasileiros porque nasceram no território do Brasil, tendo documento de registro nacional ou não, procuram alternativas para uma convivência mais pacífica, embora, as possíveis soluções se restrinjam às teorias: O líder indígena e presidente da SODIUR, Lauro Barbosa, está convencido que o atual presidente da FUNAI, Carlos Frederico Marés, apesar dos laços profissionais e amizade com o Conselho Indígena de Roraima (CIR), vai ouvir as duas correntes de pensamento indígena sobre o relacionamento entre índios e não-índios. Marés deve vir a Roraima ainda este mês. Lauro conversou com o Presidente da FUNAI, no final do ano passado, durante o encontro da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), em 135. Essa divisão interna dentro das próprias famílias indígenas, sejam elas Makuxi (Karib), Wapinaxa (Arawak) ou qualquer outra, foram comentadas na primeira parte desse trabalho (XVI-XVII), no Capítulo 1, e serão retomadas no Capítulo 5. 160 Manaus (Am) e expôs seu ponto de vista sobre o processo de demarcação Raposa/Serra do Sol. Lauro ressaltou que o presidente da FUNAI não pode conduzir os destinos dos índios de Roraima ouvindo só as sugestões das lideranças do CIR que tem posições mais radicais que as lideranças da SODIUR. Para o CIR a demarcação é em área única e expulsão dos não-índios da reserva; para a SODIUR a demarcação é em ilhas e busca de conciliação entre os direitos dos índios e dos não-índios (FBV, 15 e 16/01/00, p. 7). A posição do presidente da SODIUR (Sociedade de Defesa dos Povos Indígenas Unidos de Roraima) mostra outra visão do índio de Roraima diante das mudanças políticas e econômicas envolvendo o Estado, a sociedade local e o índio, na virada do terceiro milênio. Após a Constituição Federal de 1988, o representante da FUNAI apresenta-se como um defensor dos direitos do índio (cf. arts. 231e 232), que reconheceram o tratamento diferente entre índio e não- índio. Contudo, contrariando esse princípio constitucional, existem famílias indígenas integradas na sociedade nacional local que não desejam usufruir desse direito diferenciado. Esse posicionamento indígena ampliou os conflitos entre os próprios índios e atende aos interesses de certos setores da sociedade local e governamental na condução do interesse político e econômico sobre as terras dos índios como propriedade privada. Outro questionamento que tem gerado polêmica: quem é e quem não é índio em Roraima: O procurador da FUNAI/Local, advogado Wilson Précoma, pediu à Polícia Federal que investigue suposta emissão ilegal de registro de indígena para o vice-prefeito eleito de Pacaraima, Francisco Roberto do Nascimento, que não teria esse direito por não ser índio. Ele pede que o vice-prefeito responda por falsidade ideológica e que o administrador regional da FUNAI, Martinho Alves de Andrade Júnior, seja responsabilizado também, mas por crime de responsabilidade. Para Précoma, Francisco Roberto não é reconhecido pelas lideranças indígenas e não tem vivência entre os índios. Ao contrário, é uma pessoa de destaque na sociedade nacional/local, brilhante jogador de futebol, conhecido como “Chico do Baré”, e depois, conhecido como o Chico Roberto do Banco do Brasil, por ter trabalhado nesta instituição financeira. Para o procurador da FUNAI, a forma como são concedidos os registros para índios pode abrir precedentes para quem não é índio e tem propriedades em áreas pretendidas pela FUNAI para permanecerem nas reservas indígenas (FBV, 06/11/00, p. 4). 161 Essa polêmica reavivou o sentimento de racismo por parte da sociedade “branca” que entre os difusos interesses enxergava a presença física do índio como uma ameaça à sua posição no espaço social de Roraima. Essa questão, que parece ter trazido uma crise de identidade local, colocou em dúvida os critérios que legalizam a identidade étnica: O administrador regional da FUNAI, Martinho Alves de Andrade Júnior, respondeu ao procurador do próprio órgão que o registro emitido para Francisco Roberto obedeceu a critérios legais. “Para ser índio é preciso de duas questões básicas. A primeira é se reconhecer como índio. E a segunda é a comunidade o reconhecer como indígena.” Para Martinho Andrade, além de Chico Roberto se reconhecer como índio, a FUNAI tem uma declaração do tuxaua, que é o representante da comunidade, atestando que o vice-prefeito eleito é índio. Para o administrador regional, o tuxaua responde pela comunidade. Para ele é complicado o questionamento sobre quem é ou não índio. Há casos em que a comunidade apontou uma pessoa como índio, e a pessoa negou que era índio (FBV, 06/11/00, p. 4). Esse questionamento dos representantes da FUNAI/RR apontou para antigos mecanismos de dominação cultural “branca” sobre os índios. Fica difícil para a sociedade local (índios e não-índios) entender os mecanismos de poder que legitimam, em um processo democrático, tanto a defesa do território como a proteção de uma cultura étnica diferenciada da nacional: Francisco Roberto, vice-prefeito de Pacaraima, mostrou documentos comprovando sua descendência e o registro foi concedido em 1º de setembro, numa ação itinerante realizada em Pacaraima. Para Chico Roberto, “O Estatuto do índio diz que até a terceira geração é considerada indígena”. Contesta também a afirmação de Wilson Précoma sobre a falta de vivência indígena, e afirma ter vivido na região de Surumu onde estudou inclusive com alguns dos atuais tuxauas da região. Ficou por lá até os 15 anos de idade e veio para Boa Vista, onde passou a trabalhar no Banco do Brasil, estudar e nunca perdeu contato com os índios da região. Para Chico Roberto se o procurador da FUNAI não aceita o documento, vai ter que provar que ele não é índio (FBV, 09/11/00, p. 4). Essa discussão necessita de maiores aprofundamentos para que a sociedade local possa superar a visão etnocêntrica européia e revisar o seu próprio papel no processo histórico, sua própria vida e destino, descobrindo 162 nesse processo a cidadania ou identidade étnica136. O desafio parece ser o de amadurecer as ideais constitucionais e não o de expropriar o índio que deseja reatar relações de parentesco com a terra, resgatando o direito originário. Preocupados com uma educação indígena voltada para conteúdos programáticos relacionados à organização sócio-cultural e lingüística indígena, os líderes da Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIR) promoveram também um Seminário para discutir essa formação dos professores, que ensinam nas escolas da rede pública (instaladas nas malocas) e são mantidas pela Divisão de Educação Indígena (DEI/SEC) do governo estadual: No II Seminário de Educação Indígena, na Maloca Canauanin, com participação de professores do Chile, Quito, Mato Grosso e Venezuela, o professor Enilton André, Coordenador da OPIR, disse que os professores indígenas encontram dificuldades para realizar o vestibular tradicional. Uma delas é a diferença entre os critérios do vestibular e a formação dos índios que freqüentam cursos de formação diferenciada (Magistério Indígena). A legislação permite e garante ao índio uma formação diferenciada. Para o coordenador a UFRR (Universidade Federal de Roraima) não tem professores especializados na formação diferenciada para o índio, a OPIR deverá participar da seleção de professores para o curso superior, um dos critérios é o comprometimento com a causa indígena. Além do curso de Pedagogia voltado para a formação específica do índio, já há propostas para formação nas áreas de agronomia, saúde, veterinária, direito e economia (FBV, 15/09/00, p. 10). Durante essa discussão, foi analisada uma proposta de Curso Superior de Pedagogia Indígena e para alcançar esse objetivo buscaram parceria com a Universidade Federal de Roraima (UFRR). Os representantes das organizações indígenas exigiam um curso diferenciado da pedagogia dos brancos e para enriquecer tal tema, assegurando um compromisso em favor do índio, ampliaram os debates: Cerca de 400 professores indígenas que participaram do II Seminário de Educação Indígena decidiram fazer parceria com a Universidade Federal de Roraima (UFRR) para implantação do Curso Superior de Pedagogia Indígena. O evento foi promovido pela OPIR, na Maloca Canauanin, município do Cantá. O tema principal foi discutir o ingresso de professores indígenas no ensino de terceiro grau. Foi criada uma Comissão conjunta, 136. Embora a etnia possa ser estabelecida por simples mapeamento de DNA, o “pertencimento” duplo (reconhecer-se e ser reconhecido) é a base de qualquer identidade, apesar de que ele possa tornar-se mecanismo politicamente manipulado para fins de exclusões e/ou inclusões sociais. 163 entre representantes da OPIR, UFRR, FUNAI e outras entidades parceiras, para elaboração de um projeto de criação do Curso Superior de Pedagogia Indígena. A Comissão tem até dezembro para apresentar o projeto que será analisado pela coordenação da OPIR. O Coordenador da OPIR, professor Enilton André, esclareceu que a preocupação dos professores indígenas não está restrita ao curso de Pedagogia, mas às demais áreas de estudos. “Queremos formação de qualidade em todos os níveis de ensino.” Para o coordenador, esta é a primeira vez que se discute no Brasil uma formação superior diferenciada para professores índios (FBV, 18/09/00, p. 11). Nessa linha de ação, a Organização de Professores Indígenas de Roraima (OPIR) continuou as discussões para formular uma proposta viável ao desejo de melhorar a formação dos professores que atuam nas malocas indígenas. Taisreformulações educacionais para os índios tinham como subsídios os fundamentos da Constituição de 1988, que prevê não só o reconhecimento da organização sócio-cultural dos índios como também um tratamento diferenciado para as etnias indígenas: Reunidas num II Seminário de Educação Indígena de Roraima, na Maloca do Canauanin, no Município do Cantá, as lideranças indígenas disseram que não querem somente o curso de Magistério como teto para os professores lecionarem em áreas indígenas. O coordenador da OPIR, Prof. Enilton André disse que o objetivo do Seminário foi discutir a formação universitária do professor índio. Existem 426 professores índios nas escolas das malocas de Roraima. A OPIR tem procurado habilitar os professores indígenas para pesquisar a sua própria história, discutir alternativas sociais e econômicas auto-sustentáveis para as comunidades indígenas (FBV, 19/09/00, p. 10). As discussões sobre essa proposta pedagógica das organizações indígenas, que por meio da educação desejam reorganizar/resgatar sua própria etnicidade, continuam por mais dois anos137. Elas esbarraram em normas do MEC (Ministério da Educação e Cultura) que tem dificuldades jurídicas na condução dessa questão, apesar dos cursos fundamentais e cursos médios em pedagogia já funcionarem diferenciados do nacional. 137. No primeiro semestre de 2003 o curso Superior Indígena foi implantado na Universidade Federal de Roraima (UFRR). Após a realização de um vestibular específico, deu-se início a primeira turma. Esse tema será retomado no Capítulo 5. 164 FIGURA 06 II Seminário de Educação Indígena de Roraima, realizado durante Assembléia Indígena. O tema principal foi a “formação superior de professores indígenas”. Foto: Folha de Boa Vista, 19/09/00, p.10. Aproveitando o evento indígena de discussão educacional, o governador de Roraima pronunciou-se afirmando que: Pretende criar um Instituto Superior de Ensino para preparar o professor para as escolas de Roraima. Durante o encerramento do II Seminário de Educação Indígena de Roraima, na Maloca Canauanin, no Cantá, o Governador disse aos participantes do Seminário que o Estado tem interesse na formação do professor índio e que a OPIR está convidada a fazer parte da equipe que está discutindo a formação do Instituto. O instituto tem a coordenação de uma equipe da França em convênio com o Instituto Francês. Para Neudo Campos, os índios terão papel importante na formação do Instituto e afirmou que terão vagas em cursos diferenciados. O governador disse que “Sou Macuxi, nasci aqui, e não vou sair daqui. Mas sei que tenho esse compromisso com a preparação do futuro de Roraima, que está na educação, uma educação de qualidade, que prepare o nosso aluno de forma a que ele pense no futuro de Roraima” (FBV, 19/09/00, p. 10). Apesar de algumas alterações nos mecanismos do sistema político estadual em favor do índio, percebeu-se o comportamento ambíguo do executivo estadual por meio de seu discurso: “Sou Makuxi...”. Essa fala, sustentada na relação de domínio, com mecanismo estratégico da “máquina” de fazer política, mascarava o conflito (índios e não-índios) e o interesse de ordem política e econômica. Ao 165 apropriar-se da identidade Makuxi (maior contingente étnico no Estado, cf. Quadro 01, acima, p. 136), no sentido amplo de “ser índio”, o governador nega aos demais grupos étnicos a possibilidade de convivência plural, num mesmo território, de sistemas políticos jurídicos diversos, já que privilegia a etnia majoritária. O discurso do governador de Roraima nos mostra, justamente, a manipulação do “pertencimento” mencionado no texto acima. Em forma muito resumida e simplificada, podemos dizer que, aos olhos da sociedade nacional local, tornou-se difícil compreender a transição entre a prática de pacificação indígena (eliminação da identidade do índio) por uma política de reconhecimento sócio-cultural indígena. Dentro do histórico da situação dos índios, aos olhos das lideranças indígenas, não ficou claro porque as terras não são demarcadas e porque também são disputadas pelo governo de Roraima. FIGURA 07 Os índios reivindicam homologação da Reserva Raposa/Serra do Sol em área única. Manifestação na Maloca Maturuca. Foto: Folha de Boa Vista, 28/12/98, p.04. 166 Um número crescente de perguntas sem respostas vai ampliando esse contexto: quem está conduzindo o interesse na omissão do governo federal e estadual e quais são as forças políticas que protegem os omissos? Por que os projetos de segurança para a Amazônia, a presença do Exército e da Polícia Federal não conseguem impedir que as mineradoras se instalem nas terras indígenas e nelas permaneçam? 2.5. Ação do Estado, organização e reação da sociedade não-indígena A luta dos índios contra o totalitarismo “branco” e a defesa de seus direitos dentro do Estado roraimense foram os elementos centrais de inquietação da elite social e política local, nas duas últimas décadas do século XX. Tais elementos, com propostas de redefinição territorial, assumindo diversificadas posturas dos habitantes de Roraima (índios e não-índios), ligados a diferentes relações culturais e econômicas com a terra, aglutinaram determinados setores da sociedade não-indígena de Roraima em torno de um ideal político comum à oposição ao movimento em favor do índio, que estava, cada vez mais, ocupando espaços na mídia e nas discussões teóricas. Nesse panorama social de encontros interculturais, com diferentes concepções econômicas de posse da terra, a sociedade roraimense, por meio de suas lideranças e representantes políticos, mostrou reações contrárias em relação às propostas138 de posse e uso dos recursos naturais pelos índios, que foram 138. As ONGs indígenas vinculadas ao Conselho Indígena de Roraima defendem uma política de reconhecimento e respeito da cultura e da língua indígena (pró-tradição). A tomada de consciência da identidade étnica denotou o fortalecimento prioritário na demarcação das terras indígenas em área única e da expulsão dos não-índios da reserva demarcada. Ao contrário dessas ONGs, existem ONGs indígenas não vinculadas ao Conselho Indígena de Roraima que defendem a demarcação das terras indígenas em ilhas e o respeito à posse dos não- índios na região, como também parcerias em projetos de desenvolvimento governamental (pró-nacional). Além disso, mais de 70% das terras do Estado pertencem ao domínio da União como: IBAMA, INCRA, EXÉRCITO, FUNAI. Nesse contexto de indefinição fundiária, nem o Estado e nem a sociedade local conseguem atrair verbas para seus projetos seja na área social, econômica ou cultural. Esse assunto será retomado no próximo capítulo, item 3.2. 167 identificados como “bode expiatório” das atuais condições políticas econômicas do habitante de Roraima. Para a elite social local139, essa condição de pobreza no Estado, desencadeada pela indefinição latifundiária causou o impedimento da não exploração dos recursos naturais, privou a região de um desenvolvimento que melhorasse o orçamento estatal e a distribuição de renda social local. Mediante a disputa, a questão étnica transformou-se no tema polêmico entre o Estado e a sociedade de Roraima. Tal problemática étnica, que se fez presente em vários momentos do processo histórico da região, nutre, no seu interior, tensões sociais no gerenciamento da diferença cultural, nos mecanismos de partilha política e econômica de um novo espaço de poder policêntrico, que o movimento de redemocratização do país, nas duas últimas décadas do século XX, colocou como desafio à sociedade roraimensedo tempo presente. Conjuntamente ao movimento de reação dos índios em favor de seus direitos, o fortalecimento de oposição liderado pela sociedade não-indígena unificou interesses do governo estadual e dos setores representativos da sociedade roraimense. Instrumentalizados com as benesses da máquina de fazer política governamental, esses representantes conduzindo o monopólio e o poder da política local, apontaram propostas alternativas de desenvolvimento e buscaram recursos para definir a questão fundiária de Roraima, mas sem sucesso: Ao assumir o seu segundo mandato o Governador de Roraima, Neudo Campos (PPB), afirmou, durante o discurso de posse, que irá devolver o emprego aos que foram demitidos do Estado e dar àqueles que não o tinham, só que na iniciativa privada. (...) que vai buscar investimentos para trazer indústrias de outros estados para que se instalem em Roraima e reforçou que vai privatizar principalmente a CODESAIMA (Companhia de Desenvolvimento de Roraima). (...) vai fechar, definitivamente, os órgãos que representam uma sobrecarga demasiado pesada para dar prioridade aos seguintes setores: Educação, Saúde, Segurança, Bem-Estar e adotar políticas de estímulos à Agricultura, Indústria, 139. Esse grupo social de poder político e econômico, partilhando dos privilégios da esfera governamental, é constituído por descendestes dos pioneiros “brancos” e de novos grupos imigratórios que chegaram após os anos de 1970: nordestinos, sulistas, do centro-oeste, sudeste. Grande parte desse novo contingente tem escolaridade universitária, são micro-empresários, profissionais liberais ou fazendeiros. 168 Comércio e Turismo. (...) Para alcançar essas metas, o governador disse que a infra- estrutura básica como o asfaltamento da BR-174 e a energia de Guri (Venezuela) são essenciais. (...) o comércio roraimense precisa romper as divisas em direção a República da Guiana. (...) a bancada federal apresentou emenda de R$ 18 milhões para que o 6º BEC (Batalhão de Engenharia e Construção) pavimente a BR-401, do quilômetro 100 até Normandia. “Precisamos conquistar e nos integrar com a Guiana, Paramaribo e Guiana Francesa”, afirmou. A questão indígena é colocada por Neudo Campos como um dos empecilhos, principalmente a demarcação da Raposa/Serra do Sol, em área única e a desapropriação das propriedades da reserva São Marcos. As demarcações, segundo ele, estão sendo tratadas pelo Governo na esfera judicial “para que não se cometam os exageros praticados de forma unilateral quando da demarcação da reserva Yanomami” (FBV, 04/01/99, p.03). A mistificação do interesse relevante para o desenvolvimento do Estado e o bem-estar da sociedade local é flagrante, principalmente, no momento de explicação das propostas governamentais pelo Executivo local, registrados no texto acima. Os discursos do governador mudam segundo a platéia (índios e não- índios), utilizando idéias e justificativas, cujo traço comum não revela o desejo, economicista e eleitoreiro, da posse e exploração da terra em nome do povo e do interesse de Roraima. Essa abordagem etno-histórica marcada pela defesa da definição fundiária e redefinição geopolítica em Roraima foi também o principal enfoque no discurso de posse dos Deputados Estaduais, nesta 3ª administração Legislativa do Estado140. O Deputado do PFL, Iradilson Sampaio, fez um caloroso discurso em nome dos deputados que se reelegeram, tecendo elogios sobre a imagem dos “bravos pioneiros colonizadores” e comentando que a demarcação em área contínua da Raposa Serra do Sol maculava os acontecimentos do “processo histórico do recente passado”. Segundo o parlamentar, o governo federal deveria reorientar a problemática fundiária no Estado, adotando um programa inspirado nas reivindicações do povo roraimense, principalmente nos setores econômicos, segurança e descentralização estatal. 140. Representantes políticos, eleitos no pleito eleitoral de 1998, tomaram posse no dia primeiro de janeiro de 1999, para o período de 1999-2002, prometendo resolver a questão fundiária. Nos Capítulos 4 e 5 esse tema será retomado. 169 Com o objetivo de auxiliar no acompanhamento do caso em questão (Raposa/Serra do Sol) foi criada uma Comissão da OAB/Local (Ordem dos Advogados do Brasil), tendo como presidente Silvino Lopes, e mais os membros Hitler Lucena e Alcides Lima. Em depoimento oferecido à comissão, o rizicultor Paulo César Quartiero disse: Estamos aqui em Roraima gerando emprego e pagando todos os impostos durante 21 anos de trabalho e vem um arrastão da FUNAI que não dá nenhuma chance de individualidade e particularidades do Estado (FBV, 07/01/99, p. 04). Mediante tal situação, para a FUNAI, a posse de um território pelo índio é condição coletiva à sobrevivência étnica, inclusive ao que diz respeito ao sepultamento dos parentes, pois a terra está coesa aos seus ritos e mitos de fé. Para o não-índio que está na região há 21 anos e paga imposto a relação com a terra é de negócios, de propriedade, onde a terra de sepultamento de seus familiares pode ser trocada de dono na relação comercial de domínio governamental. A respeito do processo de demarcação da reserva indígena da Raposa/Serra do Sol, o advogado Hitler Lucena fez o seguinte comentário: A demarcação foi feita de “cima para baixo” porque seria uma imposição de países como Inglaterra e Estados Unidos. Essa demarcação sempre teve um aparato de entidades ambientalistas e organizações anglo-americanas (FBV, 07/01/99, p. 05). Isso significa que se desloca, portanto, a responsabilidade de opção, atribuindo-as às forças estrangeiras e não as decisões “nossas”. Entretanto, surgiram manifestações populares coordenadas por representantes políticos e dos setores econômicos, com discursos proferidos de forma simplista, reduziam a problemática social, política e econômica do Estado a esse conflito entre minoria indígena e maioria não-indígena. A reação da sociedade não-indígena habitante de Roraima revela-se como um sintoma do tempo presente e indicador da necessidade de uma mudança não só teórica, mas prática desse sistema político, social e econômico de grande 170 importância para a derrocada da cultura paternalista estatal, que impede a concretização do que diz a lei maior. Apesar da retórica do respeito ao pluralismo sócio-cultural e reconhecimento do direito de posse da terra pelo índio, é visível a forma de “apartheid”, que mantém distante da partilha política estatal os índios contrários ao processo “aceitável”141 de integração na sociedade nacional. FIGURA 08 Manifestação por não-índios contra a demarcação Raposa/Serra do Sol, na praça do Centro Cívico, em Boa Vista. Protesto de empresários com distribuição de carne e arroz para os populares. Foto: Folha de Boa Vista, 08/01/99, p. 05. Diante do que já foi exposto, podemos considerar que essa diferença cultural do índio, na formação da sociedade brasileira, assumiu formas confusas numa situação de mistura racial que tradicionalmente foi incorporada nos discursos governamentais de “espírito igualitário”. Nesse processo, tal como no 141. Estamos falando sobre o processo de “civilização” que introduzia o índio na sociedade como “brasileiro-nato”. Apesar do processo apresentar o índio como um membro natural da sociedade nacional, essa convivência entre “brancos” e índios mostrou-se não salutar aos povos indígenas. 171 passado, em que o Estado e a sociedade não aceitam o outro que é diferente, o índio deverá perder seu referencial étnico, abandonando a idéia de reivindicaçãoidentitária cultural diferenciada que gerou, nos últimos vinte anos do século XX, violentos conflitos sociais e incertezas políticas econômicas no processo de formação do Estado, da normatização dos direitos e do exercício democrático. Desta maneira, o êxodo rural indígena reforçou a seguinte idéia de alguns segmentos da sociedade local: “há muita terra para pouco índio”, sem compreender o processo de migração indígena para o centro urbano, os discursos e propostas de solução desse conflito tornaram-se incompreensíveis: como grupos sociais, políticos, religiosos que atuam na sociedade local trabalham os fundamentos constituintes previstos para a construção de uma sociedade livre, justa e solidária? 2.6. Povoamento e meios de comunicação Paralelo às mudanças sócio-culturais e políticas na região do Rio Branco, no campo da comunicação, os serviços de correios e telégrafos se fazem presentes nessa região desde o final do século XIX, quando da instalação do município de Boa Vista. Hoje, a agência principal dos Correios (EBCT – empresa brasileira de correios e telégrafos)142 está localizada na praça do Centro Cívico (a praça que aglomera as edificações de poder estatal e religioso). A Companhia Telefônica de Roraima (CTR), que inaugurou os serviços de telefonia, foi criada em 1966. Em 1972, a Lei Federal 5.792 (11/julho/1972) incorporou a Companhia no Sistema Nacional de Telecomunicações (Telebrás), sendo denominada de Telaima (Telecomunicações de Roraima Sociedade Anônima). 142. Até a década de 1970, a figura do operador de telégrafo era fundamental nesse processo de telecomunicações em Roraima. O Telex foi um serviço muito utilizado nesse sistema de transmissão e recepção de mensagens escritas. 172 Mas foi o rádio que exerceu grande importância no processo histórico de comunicação na bacia do Rio Branco. A primeira emissora de radiodifusão sonora de Boa Vista surgiu na década de 1950. Era a Rádio Difusora de Roraima, com capacidade de 1 KW, que levava ao ar programas musicais, sentimentais, educativos, noticiosos e outros. Acompanhavam-se, ainda, pelo rádio143, as notícias do mundo através da “Hora do Brasil” e da BBC de Londres. Até o início da década de 1970, o meio de transporte mais importante que ligava Roraima às outras regiões do Brasil eram transportes fluviais, que percorriam o caminho das águas (Branco, Negro, Amazonas, Atlântico). No trecho entre Manaus e Boa Vista eram utilizadas as balsas e pequenas embarcações por causa das cachoeiras e corredeiras que dificultavam a navegação. Esse traçado acidentado da rede hídrica roraimense não permite navegação de embarcações de grande porte e, em conseqüência, o único porto fluvial existente na região está localizado em Caracaraí e está em más condições. Durante o período das cheias, pequenas embarcações chegam até Boa Vista, no “Porto do Cimento”. A comunicação por meio de transportes aéreos para Boa Vista tiveram início nos anos de 1920. Nesse período, foram registrados os primeiros vôos realizados por missões militares. Contudo, o maior destaque ficou para o hidroavião da expedição de Alexander Hamilton Rice, que em 1924 sobrevoara a região efetuando estudos de reconhecimento. Essa expedição exploratória popularizou, em Roraima, a primeira foto aérea da pequena cidade de Boa Vista com suas três principais ruas paralelas ao Rio Branco (Figura 09). 143. Hoje, o rádio continua a ter importância no Estado, mas a estação de TV Roraima (Canal 4. funcionando desde 1974 e oficialmente inaugurado em 1975) vem ampliando sua influência sobre a maneira de ser e viver do morador da bacia do Rio Branco. Até o ano de 1987, a TV Roraima foi a única estação de televisão na região a retransmitir quase toda a programação da Rede Amazônica e Rede Globo. Hoje, operam: TV Boa Vista (Rede Manchete), TV Tropical (Rede Tropical e SBT), TV Caburaí (Rede Bandeirantes), TV Diamante (Rede Record), TV Makuxi (universitária-TVE) (cf. Ambtec, 1993:158). 173 Os registros sobre os primeiros vôos comerciais entre Boa Vista e Manaus e para os países vizinhos (Boa Vista/Georgetown, na Guiana; Boa Vista/Caracas, na Venezuela) são dos anos de 1970. Nesse contexto aéreo, a empresa Cruzeiro do Sul que foi substituída pela Varig144 estabeleceu vôos regulares ligando Boa Vista as outras regiões do Brasil. Ainda nos anos de 1970, foi inaugurada a rodovia BR-174145 ligando Boa Vista a Manaus e Caracas, construída na direção norte e sul de Roraima e seguindo a rota fluvial do Rio Branco. Para ligar o município de Boa Vista à Guiana foi construída a BR-401. Não existe uma rede ferroviária na Região, mas a partir da construção das rodovias federais foi possível conectar diferentes estradas e caminhos estaduais criando um sistema rodoviário que aumentou o fluxo de transporte e pessoas nessa região. É importante acrescentar que o governo de Roraima buscou integrar-se na malha viária nacional, com propósito de aumentar as benesses da população branca e dos negócios comerciais. Sem clareza nos objetivos de desenvolvimento para a Amazônia, desde o governo militar do pós-1964 através do PAEG (Programa de Ação e Estratégia do Governo) e do PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) enfatizava a necessidade de correntes imigratórias no povoamento de regiões fronteiriças “desabitadas”, estabelecendo a integração e a soberania nacional. Dentro desse enfoque, o plano econômico seguia a meta da integração dos mercados (regionais/nacionais) aproveitando as hidrovias e as rodovias, favorecendo a comunicação e a segurança do país (cf. FREITAS, 1991:71/76). 144. No final da década de 1980 e começo de 1990, as empresas aéreas Transbrasil e Vasp tentaram operar nessa linha comercial roraimense sem sucesso. A Varig continua até o atual momento (2003) como a única empresa monopolizadora do transporte de passageiros de Boa Vista. Apesar disso, existe um fluxo de pequenos aviões tanto de particulares como de empresas de táxi-aéreo na região. 145. Essa rodovia federal, com 1.000 km em território brasileiro e 800 km em terras venezuelanas, liga Boa Vista à cidade portuária da Venezuela, Puerto Ordaz, em conexão com os países caribenhos, Estados Unidos e Europa. 174 Tais medidas serviram para, além de assegurar a conquista e a defesa, fomentar as atividades agro-industriais (fábrica de rações e indústrias processadoras de alimentos e refrigerantes) explorando as matérias primas da região. Serviram, também, para o levantamento de dados relativos aos problemas fundiários, promover uma política de colonização (novas correntes imigratórias) que organizasse e mantivesse os antigos e os novos núcleos agrícolas (que produzem milho, arroz, feijão, banana, mandioca, soja, etc.) sem esquecer a pecuária que auxiliou na unificação da cultura luso-brasileira. Essa ação do governo de Roraima em parceria com o governo federal, ampliando a rede viária estadual/federal com o objetivo de revalorizar a terra e consolidar a meta geopolítica de integração e soberania nacional (com o auxílio e modernização das comunicações e dos transportes) favoreceu a incorporação dos novos contingentes imigratórios (não-indígenas e indígenas) que foram reabsorvidos num espaço social mais homogêneo. Tal ação política de tradição coronelista, fortalecedora do poder governamental frente às lideranças e elite social local, deu continuidade à estrutura agrária arcaica por meio dos novos assentamentos agrícolas. Alguns desses assentamentos tinham irrigação mecanizada, para o cultivo degrãos, sendo a soja e o milho os líderes dessa produção. Após o exposto, pode-se dizer que o índio era como joguete indefeso de uma estrutura social poderosa que o manipulava em função de seus interesses. Ora era visto como parte da natureza (séculos XVI-XVII), ora como propriedade associada à terra e, portanto, escravizado a quem a explorava economicamente (séculos XVIII-XIX). Desde o início do século XX até 1988, o índio era observado como parte integrante do todo nacional e, de 1990 ao início do século XXI, para alguns segmentos sociais como empecilho ao “desenvolvimento”. 175 CAPÍTULO 3 A gênese do Estado: do Território Federal à Constituição Federal de 1988 O cenário brasileiro dos anos de 1920 até os iniciais de 1940 apresentou bruscas mudanças na sua trajetória político-social: o Tenentismo, a formação da Aliança Liberal, o movimento Revolucionário e o golpe de Estado, todos defensores de um conjunto de propostas de transformações sociais empenhados na disputa do poder central do Brasil. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro delimitou suas fronteiras em expansão e construiu o seu território, restando porém a necessidade de sua ocupação efetiva. Na ocasião, o Brasil, teoricamente uma federação, funcionava na prática como uma república unitária, na qual os Estados fracos estavam praticamente à mercê do governo federal (SOUZA, 1971). Tal governo tinha no seu interior uma combinação de aspectos progressistas, industriais, liberais, conservadores e militares, integrando instrumentos políticos que resultaram em novas medidas sócio-políticas e governamentais para a região amazônica. Na segunda metade da década de 1930, a equipe de poder administrativo do Presidente do Estado Novo defendia o controle sobre o território brasileiro e, especificamente, aquele relacionado à Amazônia. A instabilidade política e as crises financeiras internacionais causadas pelo início da II Guerra Mundial (os interesses e as relações de dependência na Era Vargas entre os grupos financeiros e a burguesia do café) impulsionaram a retomada de discussões sobre as fronteiras amazônicas. Estabeleceram-se, portanto, novos mecanismos nesse projeto político, oriundos, também, do desejo dos representantes intelectuais de construir uma 176 identidade nacional. As bases desse projeto eram “integração racial e reforço da unidade territorial” (CAPELATO, 1998). Além disso, os políticos aspiravam justificar a ocupação e a integração das terras “desabitadas”, as quais eram já tradicionalmente ocupadas por outras etnias (DIEGUES, 2001). Esse modelo unificador de tendência política e econômica trouxe à tona antigo conflito em relação ao território e às fronteiras nacionais. Essas terras eram vistas como possíveis espaços de exploração capitalista estrangeira, que estava aliada a grupos nacionais. Difunde-se a necessidade de unificação tanto da sociedade brasileira quanto do seu território e a compatibilização dos interesses em prol do desenvolvimento e da soberania nacional, sob a égide do governo federal: O nacionalismo brasileiro, de caráter sociológico positivista, forneceu instrumental para explicar e apontar soluções para os problemas de natureza racial/étnica e de ordem material relacionada ao desenvolvimento econômico. Nos anos 30, as teses raciais foram associadas a um projeto de tentativa de recuperação do homem do campo, que se dirigia para a cidade em virtude do grande êxodo rural ocorrido no período. No discurso nacionalista, a figura do caboclo, sertanejo, jeca-tatu, caiçara, caipira, variantes da imagem do elemento rural (...), até então depreciado, passou a ser visto como cerne e vigor da raça (CAPELATO, 1998:216-7). O texto acima utiliza idéias marcantes do conflito amazônico, como os problemas étnicos enfrentados pelo Estado-Nação e pelos representantes da elite política e econômica, especificamente, pelos líderes do município de Boa Vista do Rio Branco. Estes tentavam soluções para uma sociedade (índios e não- índios) cujos interesses e posições ideológicas eram encaminhados segundo o desejo do momento e nem sempre respeitavam as normas oficiais do país em relação à situação e ao reconhecimento do direito territorial do índio. Nessa construção da sociedade e do Estado no governo Vargas, Capelato (1998) apontou para uma das preocupações do projeto do Estado Novo com os problemas da etnicidade e do desenvolvimento. Tal projeto tinha como um de seus objetivos a recuperação do homem do campo/natureza, fixando-o na região 177 de fronteira e valorizando elementos da cultura rural. Boa Vista do Rio Branco, que na década de 1930 era município do Amazonas, constituiu-se em importante pilar da construção da nova identidade nacional “coletiva”. O projeto do Estado Novo, com discurso nacionalista, valorizou a figura do “caboclo” que nesse município nada mais era do que o “índio pacificado”, transformado em peça fundamental na defesa da fronteira nacional. Esse projeto fortalecia a urgente “necessidade de se criar um Estado forte”, sempre ameaçado por interesses de grupos internacionais associados com corruptos locais/nacionais (LAUERHASS, JR., 1986:83-84). Com base nessas aspirações, a criação de novos Territórios Federais iria garantir tanto o povoamento das áreas “desabitadas”, quanto o controle do Estado brasileiro de suas áreas fronteiriças, um dilema recorrente desde o século XVIII. 3.1. Rio Branco, a criação do Território Federal O Estado Novo usou o discurso propagandístico da “Segurança Nacional”, mostrando interesse na redivisão e ocupação do território amazônico. Esse discurso apontou para a necessidade de povoamento e colonização desse território brasileiro e revelou, em nome do Brasil, interesses pessoais alojados no próprio poder central: O Estado que nasce em 1930 e se configura ao longo da década deixa de representar diretamente os interesses de qualquer setor da sociedade. (...) O Estado encontrará condições de abrir-se a todos os tipos de pressões sem se subordinar exclusivamente aos objetivos imediatos de qualquer delas. (...) O governo assume o papel de árbitro das diferentes disputas locais, embora dependa das novas oligarquias que se vão formando ou sobem ao poder, sobretudo nas regiões mais atrasadas (FAUSTO, 1971, 253-254). Nesse contexto de interesse do Estado pela integração nacional, apareceu o medo do governo brasileiro de perder a Amazônia para estrangeiros que clandestinamente exploravam a região. Esse medo tinha como base as supostas 178 informações de colaboração indígena e conivência das autoridades corruptas locais com os grupos internacionais. A Amazônia estaria perdendo sua riqueza vegetal e mineral (FERREIRA, 1994:100-101). Assim, podemos dizer que se fundamentou a idéia constituída pela “união perpétua e indissolúvel dos Estados, Distrito Federal e Territórios em Estados Unidos do Brasil”146, buscando-se novas armas teóricas e legitimidade jurídica no programa de povoamento e defesa fronteiriça brasileira. Para isso, a criação dos Territórios Federais147 foi considerada como peça importante nesse mosaico sócio-político brasileiro da terceira década do século XX. O governo precisou rever seus mecanismos políticos para conservar unificado o imenso corpo físico e cultural da Nação brasileira. Essa proposta tinha como apoio os princípios enunciados na Constituição Federal de 1937, que propagava fundamentos de interesses voltados para a ocupação e a defesa do território nacional. Tais questões subjacentes à problemática de regulamentar e instaurar a unidade brasileira fez parte, também, do antigo e sutil objetivo militar-administrativoproposto pelo programa governamental do período colonial e que se estendeu até a Primeira República na incorporação da bacia do Rio Branco: uma imigração “branca”, que estabeleceu procedimentos de “civilidade”, eliminando qualquer vestígio indígena/“não- civilizado”. Contudo, tal proposta tinha como apoio a mão-de-obra do índio, que participaria da construção de um espaço social direcionado para defender a terra em favor do Estado Luso-brasileiro. 146. Esse enunciado, previsto no artigo primeiro da Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934, não previa a criação de novos Territórios Federais (na época só existia o Território do Acre). Mas, como foi usado o plural (Territórios), revelou-se a constante preocupação dos constituintes em manter a forma de governo controlando por meio da ocupação o território unificado, que desde o século XIX vivia conflitos nas suas fronteiras sempre em litígio. Tal preocupação do governo Vargas se fez presente, também, nos governos coloniais (Constituição de 1824 e a unificação das províncias) e da Primeira República (Constituição de 1891 e a unificação dos Estados) (cf. FREITAS, 1991; MARÉS, 1999). 147. A noção de Território Federal, com administração controlada pelo poder governamental central, surgiu com a incorporação do “Estado Independente do Acre”, após negociações diplomáticas com a Bolívia. Isso fez aumentar a expansão territorial do país e a defesa de uma longínqua fronteira, dando subsídios políticos e jurídicos para que o presidente do Estado Novo repensasse a divisão geopolítica do Brasil (cf. FREITAS, 1991). 179 Desse modo, a idéia de ocupação dos espaços amazônicos “vazios” ou “desabitados” determinava a antiga concepção dos conquistadores ibéricos: índio e terra estavam coesos na visão de mundo natural/selvagem, que deveria ser apossado e cristianizado. O Estado mostrou um discurso elitista em relação ao trabalho do índio, ora exaltando-o como “civilizado” e ora considerando-o como um canibal/“selvagem”. Nessa experiência de amor e ódio do Estado com relação ao índio, protegendo-o ou escravizando-o, a Constituição do Brasil de 1934 definia no Art. 129 princípios de direitos para os índios: Será respeitada a posse de terras de silvícolas que nelas se achem permanentemente localizados, sendo-lhes, no entanto, vedado aliená-las (Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 1934. Apud. MARÉS, 1999:66). Esta Constituição identificava o índio como “silvícola” (sem Estado, sem organização sócio-cultural), concedendo-lhe o direito de posse da terra, vista como “abrigo” fixo148 e destinada ao uso exclusivo dos índios. Nesse texto constituinte, o índio não era visto como um elemento étnico distinto, mas como um “habitante da selva”, que teria a posse da terra desde que dela não saísse. Tendo a posse e não a propriedade, o índio não possuía o direito efetivo à terra. Ele era considerado “hóspede” do Estado proprietário e era usado como “fronteira viva”, como guardião do território nacional. A Constituição brasileira de 1937 forneceu ao governo Vargas instrumentos de poder político que permitiram a centralização do governo e a implantação do projeto de integração nacional. A relação político-jurídica entre o Estado e os índios não foi alterada nessa Constituição, pois conservou no artigo 154 a mesma redação constitucional posterior. 148. A faixa de terra habitada pelo índio não é igual ao território circundante da fazenda, pois a idéia de espaço-social do índio é distinta do espaço-social do branco. Daí o Estado prendera o índio, na forma da lei e no interesse da soberania da Nação, fixando-o numa faixa de terra limitada. 180 Durante o governo militar, em 1967, quando foi extinto o SPI (Serviço de Proteção ao Índio), o governo federal incluiu entre os bens da União as “terras ocupadas pelos Silvícolas” (cf. MARÉS, 1999) e criou a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) para gerenciar as questões indígenas. Essas características ambíguas na relação política entre Estado e índio marcaram as propostas para o planejamento de políticas públicas e a criação dos Territórios Federais durante a gestão do Estado Novo149, conforme a perspectiva de metas do Plano Especial de Obras Públicas e Aparelhamento da Defesa Nacional, de 1939. A organização e a prática desse plano definiram formas para promover a ocupação e a defesa do território nacional, respeitando os princípios da Constituição de 1937. Não faremos uma discussão comparativa sobre o entendimento de “Território” de domínio federal ou de domínio estadual no Brasil e em outros países, embora tenhamos conhecimento de Constituições de Estados com organizações federadas sem uma rigidez nas alianças das unidades federativas, como o modelo norte-Americano. Na Argentina, por exemplo, a figura do “Território”, governado sob o poder Central em concordância com o Senado, teve representação num curto estágio pelo qual passaram algumas regiões, antes de se transformarem em províncias (TEMER, 1975). Nesse sentido, os problemas do município de Boa Vista do Rio Branco foram transferidos do Estado do Amazonas para o poder central instalado no Rio de Janeiro. O Presidente Getúlio Vargas, em 1943, assinou o Decreto Lei n. 149. As idéias que serviram de base ao Estado Novo já tinham animado discussões teóricas politicamente representadas em imagens, gestos e ritos, durante a “Semana de Arte Moderna” realizada por artistas brasileiros, no Teatro Municipal de São Paulo, em fevereiro de 1922. Na referida “Semana”, iniciou-se um discurso ideológico e um movimento de reconstrução da identidade brasileira, da busca de uma “cor nacional” que simbolizasse o povo brasileiro. As escolhidas foram: o “verde” das florestas e o “amarelo” simbolizando as riquezas da “mãe pátria”, especialmente o ouro. Figuras populares (caipira, caboclo e índio) foram exaltadas como elementos da cultura nacional. Nesse sentido, tal discurso ideológico e imagens idealizadas da figura do índio, também, foram usados e glorificados no Estado Novo. As figuras populares e indígenas foram cantadas por meio do “canto orfeônico”, disciplina obrigatória nas escolas públicas até os anos 50, unificando as diferentes vozes em “coro nacional”. 181 5.812, criando os territórios do Amapá, Rio Branco, Guaporé (Rondônia), Iguaçu e Ponta Porã, os dois últimos extintos pela Constituição de 1946 (CAVALCANTE, 2000). Essa medida governamental resultou na criação do Território Federal do Rio Branco em 13 de setembro de 1943, assim denominado graças ao curso d’água que banha a cidade de Boa Vista. No entanto, em decorrência da coincidência toponímica entre esse Território e a capital do Acre, em 13 de setembro de 1962, o seu nome foi mudado para Roraima150. A proposta de instauração do Território Federal, do presidente Getúlio Vargas, considerou vital para o desenvolvimento econômico o povoamento que recuperaria e integraria o índio à sociedade nacional. Assim sendo, a ordem geopolítica e a exploração dos “sertões” do Rio Branco, como base para fixar o “civilizado” nessa terra distante e hostil, favoreceria a integração e a defesa dessa fronteira que definiria o território nacional. O presidente prometia que todos os brasileiros participariam dessa nova ação estrutural do sistema político do Estado Novo. Afirmava o governo: “todos são iguais; o que vem do povo brasileiro é bom”. Esses foram os lemas dos projetos educacionais que partiam do tom patriótico ordenando a unificação cultural brasileira sob a “batuta” do poder central (cf. OLIVEIRA,1991:36-7). Sob essa perspectiva, o governo do Território Federal do Rio Branco reativou, na virada dos anos de 1940 para 1950, programas de desenvolvimento tanto urbano como rural: as novas construções públicas, a reforma urbanística, incentivos ao comércio e à agropecuária. Essas propostas faziam parte das metas governamentais instituídas no planejamento das políticas públicas, que foram apoiadas na Constituição Federal de 1937. Observou-se, no conteúdo político 150. Roraima é o nome do monte mais expressivo da região, localizado na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. A troca do nome se deu por causa dos transtornos causados no envio, muitas vezes para o lugar errado, de correspondências ou cargas com destino ao Rio Branco (capital ou Território?), como também do embarque de passageiros, em Manaus, com destino ao Rio Branco, que, chegando à localidade descobriam frustrados que estavam no “Rio Branco” errado (cf. OLIVEIRA, 1991:9). 182 dessas propostas, a idéia de “conquista” e defesa dos limites fronteiriços da nação brasileira. Para implementação dessa ação, o governo do Território Federal recrutou, para os trabalhos rurais e de mineração, toda a população indígena que ainda se fazia presente nesse contexto amazônico151. Com isso, novas estratégias foram formuladas para a caça ao índio. Os ideólogos do Estado Novo e o próprio governo federal demonstraram interesse na valorização da imagem do índio, que atuaria como uma defesa da fronteira amazônica. O discurso político da administração era favorável aos índios, mas na prática não o era. O Estado via o índio como mão-de-obra sempre disponível, tomando como justificativa a defesa do Estado e dos valores nacionais. Nesse caso, as instruções de defesa da terra eram mais destacadas do que um efetivo desenvolvimento sócio-ambiental dessa região fronteiriça que pudesse beneficiar a população local. Acompanhando esse pensamento, podemos dizer que a formação do Território Federal do Rio Branco firmou-se em três pressupostos: a) defesa da terra; b) povoamento; c) civilizar o índio. O projeto político do Estado Novo de transformar o índio naquele que é ideal e forte152, possibilitou, teoricamente, a valorização do índio como elemento importante da construção e delimitação dessa fronteira amazônica. Contudo, o projeto não reconhecia o próprio direito indígena, ligado à noção de “família étnica” ou de “coletividade indígena”, que deveria ser abandonada ou eliminada. 151. As primeiras notícias sobre a abundância em ouro e diamantes foram divulgadas na década de 1930. Durante a fase de criação do Território Federal, a região contava com um grande contingente de garimpeiros que, auxiliados pelo trabalho do índio, desenvolviam a mineração. Como exemplo, no ano de 1943, a produção de ouro e diamantes representou cerca de 59,6% do valor total da produção, enquanto que a pecuária contribuiu com 26,8% desse total. Esse tema foi abordado no Capítulo 2, no item 2.2. 152. Na imagem idealizada pelo romantismo brasileiro, veiculada durante o século XIX, o índio era visto como herói, modificado e “civilizado”, nos personagens de José de Alencar e Gonçalves Dias. 183 Assim, as diretrizes da política indigenista do SPI pareceu atuar de forma expressiva na transformação do índio em branco, auxiliando e legitimando a proposta de unidade nacional, que fez parte dos fundamentos e das justificativas dos projetos de ação da era Vargas, tanto da política federal como da local. Essa sistematização e eliminação da figura do índio na região foram peças fundamentais na aplicabilidade da fórmula do projeto pedagógico para o território nacional: Nesse contexto de preocupações com a formação da nova identidade política, a educação foi considerada como elemento prioritário para a introdução de valores criados para conformar a identidade nacional coletiva (...) A composição dos livros didáticos passou a ser orientada pelos objetivos estabelecidos pelo novo regime em relação ao papel da educação (...) (CAPELATO, 1998:218). Na visão do projeto pedagógico, que associava ao índio valores patrióticos, o essencial era diminuir as diferenças culturais integrando todos (índios e não- índios) ao projeto de unidade nacional de concepção humanista em que os sinais da Segunda Guerra Mundial conduziam novos posicionamentos nas relações internacionais, alterando o cotidiano nacional e cobrando uma posição do governo Vargas, dadas as circunstâncias do momento. Posteriormente, a Constituição brasileira de 1946, enunciando ideais democráticos, manteve, em parte, a situação do Estado Novo, embora tenha feito certas mudanças, como eleições livres e garantias individuais (DEUS & BERCITO, 1999:69). Do ponto de vista jurídico, o direito do índio seguia as mesmas orientações constitucionais passadas (1934, 1937, 1946) e, na prática, a memória histórica do índio era folclorizada ou idealizada na figura do hospitaleiro, do “caboclo” usado como mão-de-obra disponível para todos os serviços. Caracterizado pela absoluta centralização do poder e tendo os Estados Unidos como referência, o projeto do governo brasileiro, oscilava entre desenvolvimento e nacionalismo. O avanço da industrialização nacional esboçou 184 novo padrão de comportamento dos grupos sociais e dos diversos movimentos políticos que atravessaram o governo Vargas até Kubitschek (RODRIGUES, 1996). No conjunto de mobilização política e aspiração de desenvolvimento econômico, as metas para a Amazônia continuavam presas ao programa de integração e soberania nacional (povoamento e defesa da terra). Tudo isso criava condições ao Estado para a política de embranquecimento do índio, a qual redimensionava a destruição cultural indígena, que estava sendo incorporada no projeto sócio- cultural dos Estados ocidentais. Esse modelo político, econômico e jurídico do Estado em relação ao índio se fazia presente desde a reforma do Marquês de Pombal no século XVIII (cf. Capítulo 1). O Marquês não conseguiu ver ou entender o modelo de organização tribal, interpretado na época como não-civilizado ou sujeito sem direito. Assim posto, podemos considerar que a cultura e concepção do pensamento burguês na formação do Estado, que é defensor da propriedade e direito individual, não têm mecanismos para o reconhecimento de direitos próprios de coletividade, nesse caso, do índio. Na política de estruturação do Estado, os governadores dos Territórios eram nomeados pelo Presidente da República, que atendia às indicações políticas segundo os interesses da elite social e econômica. Nesse jogo da nova ordem político-administrativa, quando havia desentendimentos entre os aliados federais (Congresso Nacional) e os do Rio Branco, o governador do Território era exonerado e o “padrinho político” indicava outro para ocupar o lugar. Nunca as diferenças foram tão evidentes entre os governadores e os governados, pois os governadores indicados eram estranhos à região e passavam pouco tempo no Rio Branco, fundamentalmente peças do jogo político federal. Mais uma vez, na gestão do Território Federal, o governo central e o seu representante na administração pública local, recorreram ao antigo projeto 185 facilitador da modernização do lugar com técnicas reformistas para melhorar a vida dos não-índios: A caminhada indígena se tornou extremamente sofrida e marcada por um sem número de acontecimentos violentos. Sem dúvida, que o branco pioneiro, que chegou a Roraima, lutou e sofreu para sobreviver. Mas, muitas vitórias do branco foram alcançadas à custa do índio.(...) os índios denunciaram a situação de injustiça e a opressão em que viviam ao Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sem nunca melhorar a situação indígena (CIDR, 1990:5). O texto acima, foi elaborado por pesquisadores católicos do Centro de Informação da Diocese de Roraima153, denunciou o drama vivido pelo índio dos anos 20 até os iniciais dos 60, quando o silêncio escondeu a situação real: o “fazendeiro começa a cercar as terras, ocupando, progressivamente, a terra indígena” (CIDR, id.:8). Dessa maneira, o relacionamento entre fazendeiro e índio revelava uma relação entre senhor e servo e não entre patrão e empregado, isto é, nenhum direito trabalhista é observado para os índios (id. ibid.:10). Nesse sentido, o projeto do período de Território Federal, preocupado mais com o controle de poder sobre a terra, redimensionou a ocupação por meio da implantação de novos núcleos agrícolas154, com apoio local na figura do governador. Este buscou dar uma nova urbanização à capital do Território, com o objetivo de enfatizar o caráter “branco” da cidade. Assim, em 1945, o traçado primitivo da cidade (em área mais elevada e livre das enchentes) foi aumentado e estruturado segundo critérios urbanísticos. O planejamento seguiu um projeto semelhante ao que foi realizado posteriormente no centro urbano de Goiânia ou de Brasília. Tendo como base o Rio Branco, o novo planejamento ganhou forma 153. São Boletins (mimiografados) publicados pela Missão Consolata sobre as atividades realizadas com os índios de Roraima. Entre 1979-81 foram publicados um total de 16 Boletins e no período de 1982-83 um total de 3. Nesse último período, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) iniciou a publicação (esporádica) de Boletins e Carta Aberta (mimiografados) sobre as atividades realizadas nas Assembléias indígenas de Roraima. 154. O governo e os colonos estavam envolvidos em projetos de combate à saúva e ao cupim, mas, contavam com instalação de máquinas de beneficiamento do arroz e de um aviamento para farinha de mandioca. A prática de mineração nos anos quarenta era intensa, no entanto, não aparece oficializada nos projetos governamentais (cf. pp. 128/139). 186 de um leque, com a implantação de avenidas radiais iniciadas na ampla praça circular do Centro Cívico, por sua vez cortadas por ruas circulares155. Essa operação urbanística estendeu-se por toda a década de 1950 e dividiu a cidade em cinco bairros: Centro, Porto da Olaria, Rói-Couro, Caxangá e Ipase. Nessa década, a circulação interna seguia a mesma tradição cultural anterior: a pequena população caminhava a pé ou era conduzida pelos poucos carros de aluguel e bicicletas; a carga era transportada por cavalos ou carro de boi (OLIVEIRA, 1991:26). A nova feição urbana ajudava a romper com o habitat “silvícola”. Com as reformas urbanísticas e a tentativa de “embranquecer o índio”, algumas famílias Makuxi, Taurepang e Ingarikó demonstraram resistência à integração na sociedade nacional, e ficaram temerosas com relação às ações violentas dos brancos, deslocando-se para o interior das regiões de lavrados ou serras. Nesse sentido, o governo tinha o apoio do SPI local de intervenção na esfera cultural do índio que era inserido na cultura urbana. Como não existem, na realidade indígena, documentos escritos, pois as famílias de índios estratificam seu passado/presente de acordo com a consciência mítica registrada na memória corrente das tribos da região, não temos dados sobre o número total de famílias e quais as etnias que foram integradas ou que estão em vias de integração na sociedade nacional, como também daquelas que buscam direitos originários (terra, língua, tradições sociais e culturais). 155. Projeto do engenheiro Darci Aleixo Deregusson e implantado pelo governador do Rio Branco, Ene Garcez, em 1945. 187 FIGURA 09 Vista aérea de Boa Vista do Rio Branco, em 1924. Expedição Rice (1924/41). (Legenda e Foto: RICE, 1978) Vista aérea de Boa Vista, com as transformações após a década de 1960-70. Fotos: D. Nogueira Admitindo o apoio da sociedade local, o governo do Território Federal fortaleceu as alianças políticas com a elite social rio-branquense. É importante dizer que a distribuição de cargos públicos foi um dos principais elos das alianças no domínio governamental, privilegiando segmentos sociais coniventes com o 188 projeto. Nesse jogo político e econômico, comandado pelo governo local, muitas famílias indígenas demonstraram uma capacidade de incorporar elementos da cultura nacional, que vão dos aspectos lingüísticos, da saúde, da habitação, da educação, sem um total rompimento com as raízes culturais, quando os seus efeitos começaram a se manifestar nas reuniões dos tuxauas no Surumu, em fins da década de 1960, em pleno sistema político do governo militar. Novas intervenções físicas no espaço construído voltariam a se apresentar nos anos de 1960, para marcar a presença do Estado central na Amazônia. Assim, o plano urbano da cidade de Boa Vista foi aumentado, sendo suas ruas ampliadas e asfaltadas e as praças gramadas e arborizadas. Contabilizou-se, nesse período, um total de novecentos carros nacionais, oitocentas motocicletas importadas e alguns Mini-Mokes156, bem como muitas bicicletas. Nas décadas de 1960 e 1970, o Território Federal de Roraima viveu a euforia das novas imigrações (cf. p. 175), atraídas pelas obras do governo local em parceria com o federal na renovação de infra-estruturas e construção de rodovias federais e estaduais, dos novos núcleos de assentamentos157, das construções militares (unidades administrativas e vilas) e civis (unidades residenciais). O governo local e o central, em ações conjuntas ou paralelas, receberam apoio da FUNAI, que substituiu o SPI em 1968, desenvolvendo uma política de emancipação do índio e controlando as malocas para garantir a “civilização” de seus membros. À medida que essa situação ia mais e mais se consolidando, a elite local barganhava os privilégios na esfera do governo e não participava nas definições dos rumos da União. Nesse sentido, a burocracia central de interesse desenvolvimentista passou a alterar o cenário local após a instauração do regime militar de 1964. A construção de caminhos terrestres capazes de assegurar o contato fácil e permanente de Roraima com o restante do país, promovendo o aproveitamento dos potenciais econômicos da região, tornou-se prioritário no plano desenvolvimentista para essa região amazônica. 156. Mini-Moke era um pequeno veículo australiano com tração dianteira, que podia flutuar nos rios e igarapés. No final dos anos 60, com o movimento revolucionário na ex-colônia britânica, famílias inglesas (brancas) conseguiram fugir da Guiana nesses pequenos veículos e chegar até Boa Vista (cf. OLIVEIRA, 1991:26). 157. O projeto de colonização era dirigido pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) que promoveu uma intensa propaganda para atrair colonos para essa região amazônica, distribuindo terras para as famílias que desejavam povoar essa região. 189 A ordem era integrar o espaço físico e unificar a cultura: estradas cortando lavrados e florestas ligando a cidade de Boa Vista a malocas e núcleos agrícolas, com outras estradas e vias vicinais. No entanto, por falta de clareza na execução dessa rede viária, algumas estradas eram interrompidas no meio da floresta por esbarrarem em reservas indígenas, a BR-210 sendo um exemplo. Esse projeto político e econômico criou mais tensão158 entre colonos e índios159 na disputa por terras