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AULA 5 FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS, PEDAGÓGICOS E CIENTÍFICOS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL Profª Lígia Maria Bueno Pereira Bacarin A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 2 CONVERSA INICIAL Prezado(a) cursista, nesta quinta aula identificaremos, de forma preliminar, o conjunto de ponderações pelas quais se explicitam os fundamentos da Educação Especial no âmbito filosófico-educacional, com o objetivo de entender a que ponto de vista as hipóteses organizadas pela narrativa da inclusão estão conectadas no atual período histórico, para que possamos identificar as teorias que influenciaram a prática pedagógica em Educação Especial no Brasil. Partiremos do entendimento de que a Educação Especial é uma categoria de ensino, ou seja, um sistema de concepções e práticas acerca da educação destinada às pessoas com necessidades educacionais especiais. Ou seja, trata- se, em um primeiro momento, de elencar o referencial categorial para refletir sobre a deficiência e alguns conceitos que representam a base para sua caracterização. Com isso, em um segundo momento, o objetivo desta aula é expandir a compreensão sobre a deficiência, afastando-a, conforme estudos de Gaudenzi e Ortega (2016), de uma descrição que a reduza a doença. A despeito dos avanços sociais no que concerne aos direitos assegurados aos deficientes, Gaudenzi e Ortega (2016, p. 3062) afirmam que [...] conforme o Estatuto da Pessoa com Deficiência, a avaliação da deficiência deve ser médica e social; enquanto a primeira enfatiza as funções e estruturas do corpo para caracterizar a deficiência, a segunda pondera sobre os fatores ambientais e pessoais envolvidos. Ambas, diz o Estatuto, devem levar em consideração a limitação do desempenho das atividades segundo suas especificidades. Com isso, resgatamos a análise de Ferrazzo e Maciel (2016, p. 366), que afirmam que “o tratamento direcionado às pessoas com deficiência está relacionado ao desenvolvimento social e científico de que determinada sociedade dispõe para lidar com determinado fenômeno, em determinado momento”. Nesse sentido, indagamos sobre as questões que serão problematizadas nesta aula: quais são os novos conceitos acerca da deficiência? Como eles influenciaram a elaboração das teorias modernas de educação especial? CONTEXTUALIZANDO Durante muito tempo, os referenciais que embasaram os fundamentos da Educação Especial foram os Disabilty Studies, que expuseram os Modelos Médico e Social da deficiência e analisaram os conceitos de autonomia e normalidade. Conforme Gaudenzi e Ortega (2016), esses conceitos e seus correspondentes – A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 3 independência, funcionalidade e norma – foram a base para distinguir determinadas modificações físicas que se refletem em modos de vida desiguais de outras características que não surtem o mesmo efeito. Para esses autores, essas modificações físicas são, na maioria das vezes, cognominadas de deficiências. Os autores inferem que a deficiência pode ser compreendida segundo outras perspectivas para além da sua associação com enfermidade, mas para isso Gaudenzi e Ortega (2016, p. 3065) consideram “as noções de interdependência, normatividade e criação de si no mundo como conceitos básicos para descrevê-la”. Dorziat (2008) entende que os teóricos da pós-modernidade1 dialogam em oposição ao modelo hegemônico de ajuste e padronização perante as cobranças sociais, na qual a escola recusa constantemente as distintas configurações de “elaboração, transmissão e assimilação de saberes”, no que, segundo ela, demuda-se a maneira de materializar sociedades gradualmente mais disciplinadoras. Na análise de Dorziat (2008, p. 29), os pós-modernos elaboraram conceitos como: “identidade, alteridade, diferença, subjetividade, significação, representação, cultura, gênero, raça, etnia, sexualidade e multiculturalismo com o intuito de preencher os vazios ideológicos, epistemológicos, e curriculares do ambiente escolar”. Com isso, a autora apresenta que mesmo com o reconhecimento por parte dos currículos oficiais sobre essas especificidades, elas são apresentadas como parte integrante de uma “identidade nacional”, na perspectiva do “desvio ou ameaça” (Dorziat, 2008). Para a autora: a forma mais coerente de ação pedagógica transformadora é a busca de uma prática/política da diferença. Essa é a forma de o processo educacional ser tomado de forma menos excludente, na medida em que considera em seus esquemas de ação o outro, nas suas características linguísticas, cognitivas, físicas, culturais e sociais. (Dorziat, 2008, p. 29) TEMA 1 – OS PRIMÓRDIOS DA EDUCAÇÃO ESPECIAL SOB A INFLUÊNCIA DA MEDICINA A proposta deste primeiro tema é apresentar o protagonismo dos debates oriundos da medicina para o desenvolvimento da concepção moderna de Educação Especial. Mesmo que outros profissionais tenham se dedicado a essa 1 Para fins didáticos, utilizaremos nesta aula a compreensão conceitual de pós-modernidade como um referencial teórico que analisa as singularidades em detrimento da totalidade sem considerar as determinações econômicas. Ou seja, o objeto se torna macroestrutural. A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 4 área de conhecimento, o lugar de notoriedade da medicina contribuiu para que o trabalho dos médicos tivesse muita repercussão, aceitação e desenvolvimento em termos da Educação Especial para pessoas com deficiência. Com isso, alguns médicos de destacaram a respeito da educação de sujeitos com necessidades especiais. Apresentaremos alguns desses pioneiros, dentre eles Itard e Seguin. Disponibilizaremos leituras complementares que debatem a função desses pioneiros. 1.1 Jean Marc Gaspard Itard (1745-1826) Itard foi um médico reconhecido na educação dos surdos quando, na virada do século XVIII para o século XIX, foi encontrada em uma floresta no sul da França uma criança que ficou conhecida como Victor de Aveyron, que apresentava comportamentos e hábitos selvagens. Uma junta médica foi reunida para discutir o caso, da qual participava Pinel, que já desfrutava de bastante prestígio nessa época porque havia contribuído para a humanização do tratamento dispensado aos chamados, naquele período, de doentes mentais. Com isso, não houve contestação e nem questionamentos quando ele afirmou que o diagnóstico acerca da criança era “idiota”, conceito médico do período para designar indivíduos com limitações intelectuais, e que por isso fora abandonado. Segundo o médico, não haveria possibilidade alguma de educá-lo, não sendo viável restaurar os seus sentidos e faculdades mentais danificadas. Itard se opôs a Pinel. Acreditava no poder da educação e que o homem não nasce homem, mas se torna humano pela educação. Por determinação do governo, ele assume a guarda da criança. Durante uma década Itard trabalhou ativa e ininterruptamente com Victor de Aveyron, tendo registrado a sua metodologia em relatórios. Itard é considerado uma figura central na educação especial, pois desenvolveu um método de ensino que estudaremos com mais profundidade na nossa sexta aula. 1.2 – Edouard Sèguin (1812-1880) Cidadão francês que viveu na efervescência do século XIX, Sèguin ficou conhecido como “educador de idiotas” por ser o primeiro médico a descrever as características físicas de pessoas com síndrome de Down. Mesmo sem ter tido a notoriedade de outros médicos e educadores, é considerado um dos fundadores A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 5 da Educação Especial para indivíduos comdeficiência intelectual, e a influência de sua obra persiste até a atualidade, embora o seu trabalho seja pouco conhecido entre os brasileiros. O médico fundou, em Paris, a primeira escola integral das crianças atrasadas, como eram compreendidas naquele período histórico. A metodologia de Sèguin foi considerada inovadora em comparação aos estudos e teorias existentes naquela época, que apontavam em duas direções: o isolamento total ou o recolhimento em asilos. Esses espaços recebiam todos os tipos de sujeitos considerados desviantes, aos quais não era promovido nenhum tipo de atendimento educacional. Assim, o médico em sua obra e na sua escola propôs um trabalho educativo efetivo com crianças diagnosticadas, naquela época, como “idiotas”. Foi um discípulo do Iluminismo e também o primeiro especialista em deficiência mental e ensino. Defendeu a valor do exercício sensório-motor para o desenvolvimento dos deficientes mentais. Recomendou uma teoria psicogenética e afirmou que, qualquer que fosse o gênero da deficiência, ela dependeria de três aspectos: (i) o grau de comprometimento de suas funções orgânicas; (ii) o quanto de inteligência o deficiente apresentava; (iii) a habilidade na aplicação do método. Em 1970, o cineasta brasileiro Helvécio Ratton conseguiu entrar no hospício da cidade de Barbacena, em Minas Gerais, e filmar várias crianças, algumas das quais com deficiências. As imagens chocaram a sociedade civil da época, porém representavam uma prova de que a institucionalização das crianças com deficiência não era um instrumento nem de acolhimento e nem mesmo de apoio eficaz, e quebrava as regras dos Direitos Humanos. Mesmo com a denúncia de Ratton, no Brasil as escolas especiais demoraram a ser consideradas um direito para esse público. TEMA 2 – O CONCEITO DE DEFICIÊNCIA POR MEIO DA PERSPECTIVA DE AUTONOMIA E NORMALIDADE A proposta deste segundo tema é suscitar um debate sobre as noções de limitação de desempenho e funcionalidade, conforme estudos desenvolvidos por Gaudenzi e Ortega (2016), que por meio dos conceitos de autonomia e normalidade problematizam essa temática. Nesse sentido, o foco deste tema encontra-se na linha da saúde coletiva que, mantida pelas hipóteses das ciências A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 6 humanas e sociais, adota a contínua narrativa dos conceitos de normal e patológico como alguns de seus elementos fundantes. Segundo os autores: Uma das grandes controvérsias entre os estudiosos da deficiência é sobre a necessidade de desacoplar a análise da mesma de dentro do quadro conceitual epistemológico da saúde e da doença. Os defensores do Modelo Social tiveram o mérito de rechaçar o modelo biomédico hegemônico da análise sobre a deficiência, mas teorias que aproximam a doença da deficiência não se restringem a este modelo. (Gaudenzi; Ortega, 2016, p. 3064) Nesse sentido, para Gaudenzi e Ortega (2016) a transformação na configuração dos conceitos de causalidade da deficiência, desarticulando a “desigualdade do corpo para as estruturas sociais”, enfraqueceu a hegemonia das narrativas clínicas e acendeu probabilidades reflexivas para uma nova conceituação de deficiência. Outro aspecto considerado relevante para os autores foi a substituição do ambiente doméstico, onde se encarcerava a deficiência para o público. Para os estudiosos, a consequência dessa passagem foi abrir o debate sobre qual modelo societário pode permitir o exercício do pleno direito dos sujeitos com suas especificidades, sem que sejam considerados sujeitos de “segunda categoria”. A perspectiva apresentada por Gaudenzi e Ortega (2016) tem como referencial os trabalhos desenvolvidos pelo filósofo sueco Lennart Nordenfelt. No entendimento dos autores, o pesquisador cria uma controvérsia entre os estudiosos da deficiência no que se refere à necessidade de separar a crítica do tema do âmbito dos estudos da saúde e da doença. Nesse sentido, para os autores, Nordenfelt defende um modelo social que teve a importância de refutar o arquétipo biomédico hegemônico da análise sobre a deficiência, entretanto teorias que abordam a doença da deficiência não se reduzem a este padrão. Gaudenzi e Ortega (2016) observam que, para Nordenfelt, deficiência e doença não são intrinsicamente condição humana, mas, ao contrário, são categorias erigidas historicamente e estão sujeitas a circunspecção. Do ponto de vista desses autores, para Nordenfelt o conceito de autonomia representa o ponto central que caracteriza a deficiência a partir da perspectiva da saúde. Dessa forma, A teoria da saúde de Nordenfelt é fortemente influenciada pela noção de dignidade e se baseia na ação pragmática do sujeito no mundo, considerando o terreno da manifestação afetiva do ser humano e o bem- estar. O autor faz referência a um tipo de dignidade que denomina de dignidade de identidade que está ligada à integridade e à autonomia do A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 7 corpo e da mente do ser humano e, em alguns casos, à sua autoimagem. (Gaudenzi; Ortega, 2016, p. 3065) Portanto, na análise de Gaudenzi e Ortega (2016), o que, como último recurso, sustenta a análise de Nordenfelt é o fato de esse estudioso separar a área da doença da área da deficiência. Na concepção dos autores, a separação segundo a medicina entre o normal e patológico no campo da deficiência foi um salto de qualidade realizado pelos teóricos do Modelo Social, dentre os quais se destaca Nordenfelt, pois isso possibilitou recusar a definição do corpo com obstáculos como patológico. A partir dessa premissa, o debate sobre a noção de deficiência ganha outra narrativa: os questionamentos acerca do princípio de vida e a visão de autonomia que ampara as preleções sobre a deficiência. Gaudenzi e Ortega (2016) afirmam que um dos elementos centrais das teorias sobre a deficiência são as ponderações sobre se as circunstâncias corporal, mental e cognitiva atípicas anulam a capacidade de desenvolvimento da identidade social predominante, que é de um indivíduo livre e autônomo. Nesse sentido, para esses autores, o sujeito é deficiente quando não consegue por si exercer, de forma independente, as atividades que lhe possibilitam ser livre e autônomo. Todavia, os autores afirmam que, no âmbito da autonomia dos sujeitos com necessidades especiais, deve-se considerar o suporte social, uma vez que as relações de dependência são incontornáveis e que o discurso da absoluta independência é perverso, posto que implique o desamparo como horizonte de nossas debilidades, o estudo da autora ajuda a ver o indivíduo autônomo como aquele que exerce uma escolha autônoma e não obrigatoriamente como aquele que é capaz de agir de forma independente. (Gaudenzi; Ortega, 2016, p. 3066) TEMA 3 – DEFICIÊNCIAS, NORMALIDADES E NORMATIVIDADES Gaudenzi e Ortega (2016, p. 3066), ao analisarem as gerações de pesquisadores do estudo das deficiências, observam que na segunda geração se produziu uma compreensão de que a dependência é um fenômeno universal e que seu entendimento se refere às conexões consideradas “(i)legítimas” em determinado contexto. Segundo os autores, esse entendimento pressupõe “a ideia de eficiência ou capacidade” (Gaudenzi; Orteza, 2016); nesse sentido, a conceptualização da deficiência acarreta a dificuldade de demarcar quais são as capacidades aceitáveis e quem as determina. A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 8 Os autores afirmam que, conforme a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF)2, [...] um dos conceitos fundamentais para a caracterização da deficiência é a participação, que pode ser indicada pelaavaliação do desempenho do indivíduo no meio em que vive, este último termo usado explicitamente no Estatuto da Pessoa com Deficiência, de 2015. Neste sentido, pode-se dizer que não é a natureza que oprime, mas a cultura da normalidade que descreve algumas performances como indesejáveis. Com isso, questionamo-nos sobre quais conceptualizações são apontadas como admissíveis e quais precisam ser corrigidas. Gaudenzi e Ortega (2016), para debater acerca dessa questão, citam o filósofo Ron Amundson, que apresenta indícios que caminham em busca de uma solução. Esse autor proporciona duas maneiras para abordar o tema: A mais comum é a compreensão de que a capacidade da linguagem é inata e evolutivamente vinculada ao som vocal e, desta maneira, as pessoas têm uma grande flexibilidade refletida na aplicação da capacidade inata em um domínio estrangeiro. Outra forma de apreender a questão é considerar que a capacidade da linguagem não é inatamente associada ao som vocal, mas é de tal forma abstrata que pode ser aplicada indiscriminadamente às linguagens falada ou de sinais. Ambas as interpretações negam o determinismo funcional biológico e sugerem que o potencial expressivo dos seres humanos é muito maior do que se imagina. Temos, por exemplo, a capacidade de construir o mundo sem fala sonora. Apesar disso, os surdos são considerados deficientes. (Gaudenzi; Ortega, 2016, p. 3067) Gaudenzi e Ortega (2016) compreendem que o filósofo Ron Amundson faz então uma diferenciação entre “nível” e “modo” de performance ou desempenho e mostra-nos que é possível ter “exemplares da mesma espécie” com design diferentes e que tenham um desempenho funcionalmente idêntico no nível de expressão, mesmo que o estilo da performance seja diferente. Os autores observam que Amundson sugere que o conceito de “normalidade da espécie” seja substituído pelo conceito de “responsividade”, que seria uma normalidade individual. Para Gaudenzi e Ortega (2016, p. 3069) [...] a normalidade individual indica que se estabelece a noção de norma em função de uma média e o autor quer desatrelar sua teoria da estatística, evitando qualquer referência ao cientista belga Adolphe 2 Lembramos que, em 2001, houve uma revisão na Classificação Internacional de Lesão, Deficiência e Handicap (ICIDH), proposta pela Organização Mundial da Saúde, sendo aprovada a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Conforme Gaudenzi e Ortega (2016, p. 3066), “O documento é um marco na legitimação de um modelo interpretativo da deficiência com foco nas barreiras e na restrição de participação social de pessoas com deficiências, o qual ficou conhecido como Modelo Social da Deficiência. De uma categoria estritamente biomédica na ICIDH, a deficiência assumiu um caráter também sociológico e político na CIF”. A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 9 Quetelet, que transferiu os modelos explicativos da astronomia para a antropometria, proporcionando uma mudança do estatuto epistemológico da distribuição normal. Quetelet propunha que medições de casos representativos de uma população permitiria descobrir o “homem médio” da população investigada em suas dimensões física, intelectual e moral. A noção de tipo humano ou de “homem médio”, por sua vez, era usada como padrão para análises sociológicas. Para Gaudenzi e Ortega (2016), o sujeito enfermo é um indivíduo cujo espaço é “minguado” em comparação àquele de um sujeito “normal” e, então, cunha o termo normatividade para se referir à habilidade do organismo de adotar novas normas de vida. A saúde, nesta concepção, é a margem de tolerância às inconsistências do ambiente, a possibilidade de transcender as normas. O normal é a normatividade, a capacidade de adaptação, de variação do organismo às mudanças circunstanciais dos meios externo e interno. Assim, a patologia não é uma unidade propriamente objetiva. A única unidade que se pode ter e que não é puramente objetiva é a de um ser vivo, que é um corpo vivo em permanente relação com o meio; relação variável com um meio. (Gaudenzi; Ortega, 2016, p. 3069) Ou seja, a normatividade individualiza o ser vivo, biológica e psicologicamente. Com isso, ele pode ser concebido a partir da noção de potência. Assim, não se trata apenas de respostas automáticas a estímulos externos, são modos singulares de se relacionar com o meio que todo ser vivo explora à sua maneira. Para as autoras, é na ação do indivíduo no mundo que devemos procurar as referências para descrever e compreender o alcance das modificações impostas pela patologia. Assim, só existe para o ser vivo normalidade na referência a um meio. TEMA 4 – O CONCEITO DE METACONTINGÊNCIA Alguns autores concebem teoricamente a Educação Especial e o conceito de inclusão como uma prática cultural. Ou seja, utilizam o conceito de metacontingência como unidade de análise do processo de transformação da Educação Inclusiva em prática cultural. Com isso, podemos entender que a Educação Especial se assevera como um novo modelo que estabelece nas instituições escolares transformações em sua estrutura e funcionamento. Este processo de mudança solicita um arquétipo de recepção que se organize por meio de ações interdependentes que, para se concretizarem, necessitam resultar em mudanças culturais. A teoria que defende essa ideia é a metacontingência, ou seja, ela é o elemento de análise do processo de transformação da Educação Especial em A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 10 prática cultural inclusiva. Tal entendimento parte da conjetura de que a aprendizagem representa o fruto da coletividade do ambiente escolar. Para essa finalidade, é imprescindível que as condutas dos profissionais se constituam de forma equivalente e interdependente e as metodologias que avigoram esse resultado sejam alimentados ininterruptamente. Gusmão, Martins e Luna (2011, p. 70) comentam que: No plano educacional, o princípio inclusivo avança na exigência da qualidade do atendimento prestado aos alunos que enfrentam problemas na aprendizagem, seja por motivo de deficiência, seja por dificuldades ocasionadas por repetências, defasagem idade/série ou, ainda, por fatores econômicos e sociais. Para demonstrar que a Educação Inclusiva pode se tornar uma prática cultural, é necessária uma análise que dê conta dos efeitos dos comportamentos das pessoas ligadas à educação sobre o ambiente educacional – aqueles que trabalham nesta área e aqueles que se beneficiam deste serviço. Desse modo, para esses autores, objetiva-se compreender as decorrências dos desempenhos dos profissionais que conchegam as instituições de ensino sobre o modelo de aprendizagem dos estudantes e das implicações das relações entre os sujeitos sobre o grupo, elegendo comportamentos que sejam harmônicos com o princípio inclusivo e que derivem na aprendizagem. Segundo os autores, “essas contingências comportamentais entrelaçadas podem tornar-se um padrão de comportamento que, pelas suas consequências reforçadoras, repete-se através do tempo provocando mudanças culturais” (Gusmão; Martins; Luna, 2011, p. 70). TEMA 5 – O CONCEITO DE METACONTIGÊNCIA COMO INSTRUMENTO PARA PRÁTICA CULTURAL INCLUSIVA Conforme Martone e Todorov (2007), o conceito de metacontingência foi sugerido primeiramente por Sigrid Glenn, em 1986, e sucessivamente se reelabora para delinear as relações entre um conjunto de contingências comportamentais entrelaçadas e seus efeitos ambientais. De acordo com os autores, o desenvolvimento do conceito de metacontingência representa a tentativa de formular uma estrutura conceitual unificada para a análise do comportamento social, propiciando também a probabilidadepara o planejamento de práticas culturais e, por conseguinte, de mudança social. Metacontingências são relações entre contingências comportamentais entrelaçadas e um ambiente selecionador. Juntamente às contingências comportamentais, metacontingências respondem pela seleção cultural e A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 11 pela mudança evolucionária em organizações. Em organizações, metacontingências apresentam três componentes: contingências comportamentais entrelaçadas, um produto agregado e um sistema receptor. O sistema receptor é o recipiente do produto agregado, e, assim, funciona como o ambiente selecionador das contingências comportamentais entrelaçadas. As contingências comportamentais entrelaçadas cessarão sua recorrência se não houver demanda pelos seus produtos. (Martono; Todorov, 2007, p. 185) Ou seja, para esses autores, o conceito de metacontingência descreve a relação entre um conjunto de contingências comportamentais entrelaçadas e os efeitos causados no ambiente em função de tal entrelaçamento, permitindo, assim, o desenvolvimento de uma estrutura conceitual que amplia o instrumental teórico da análise do comportamento em direção à mudança cultural (Martono; Todorov, 2007, p. 184). Com isso, podemos entender que a educação especial se assevera como um novo modelo, demandando das instituições de ensino modificações em sua estrutura e funcionamento, que aludem à reavaliação de sua intencionalidade e a revisão de seu papel social. Neste arquétipo, as instituições escolares necessitam afiançar as mesmas oportunidades a todos, proporcionando um atendimento combinado às necessidades dos estudantes e procurando elementos para conseguir êxito na aprendizagem. Legitimando esse modelo, Glat e Blanco (2007, p. 16) garantem que “a Educação Inclusiva pode ser considerada uma nova cultura escolar: uma concepção de escola que visa ao desenvolvimento de respostas educativas que atinjam a todos os alunos”. Essa metodologia de transformação e adaptação alude à edificação de um novo padrão de atendimento, que se constitui por meio de ações interdependentes que, para se efetivarem e se perpetuarem, devem resultar em mudanças culturais. Portanto, para Gusmão, Martins e Luna (2011), o conceito de metacontingência é composto por eventualidades comportamentais entrelaçadas que produzem um produto agregado. Estas, no que lhe diz respeito, são elegidas pelo ambiente externo, corroborando ou não o prosseguimento do interacionamento. Para exemplificar, os autores sugerem a seguinte alegoria: Inicialmente, tomaremos como exemplo um espaço que permite uma identificação mais fácil dos aspectos que caracterizam as relações de metacontingência: um restaurante. O produto agregado oferecido neste tipo de comércio é a comida. Os fregueses funcionam como o ambiente selecionador. Para que a comida produzida seja escolhida (selecionada) e mantida no cardápio, ela deve agradar à clientela. No entanto, o prato servido depende do esforço (de comportamentos consequenciados) de vários profissionais. A cozinha deve estar organizada e os produtos A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 12 necessários devem estar disponíveis e em condições adequadas de uso para que o processo de elaboração dos pratos seja iniciado. Os auxiliares de cozinha devem preparar os alimentos que serão utilizados na montagem de cada prato. Os chefes vão elaborar os pratos que deverão ser servidos de forma adequada pelos garçons. Portanto, o trabalho de cada funcionário, se bem realizado, oferece a condição necessária para que o outro dê continuidade aos procedimentos que culminarão na elaboração dos pratos (produto agregado). A predileção dos fregueses por determinado prato (ex.: fígado acebolado com jiló) pode fazer com que ele seja eleito o “prato da casa”. Com o tempo, esse restaurante pode ser reconhecido socialmente como especialista neste prato, podendo, em última instância, ser apontado como uma referência da culinária local, tornando-se um ponto turístico. (Gusmão; Martins; Luna, 2011, p. 72) Com isso, inferimos que os autores entendem que o fruto reunido dessas semelhanças de metacontingência é a aprendizagem dos estudantes, tendo como protótipo a proposta de inclusão educacional, ou seja, propiciar o acesso, a permanência e a qualidade de ensino para todo educando. Os autores entendem que o “sistema receptor é a clientela da escola, alunos e familiares, que selecionariam as contingências criadas para a efetivação da aprendizagem e para a eliminação de barreiras que dificultam ou impedem a inclusão no ensino comum” (Gusmão; Martins; Luna, 2011, p. 80). FINALIZANDO Prezados(as) cursistas, nesta aula apreendemos, conforme estudos de Gaudenzi e Ortega (2016), que devemos esvaziar as noções de capacidade individual e independência e fortalecer as ideias de interdependência e relação interpessoal como critérios de julgamento da condição variante, as quais permitem que o julgamento da deficiência seja relativizado. Nesse sentido, retomamos a questão-problema que introduziu esta aula: quais são os novos conceitos acerca da deficiência? Como eles influenciaram a elaboração das teorias modernas de Educação Especial? Percebemos, com o desenvolvimento do tema, que os conceitos utilizados atualmente são oriundos de uma releitura histórica, social e cultural das pesquisas e experiências médicas do final do século XIX. Segundo Santos (1992, p. 13): Assim é que a educação especial, até então o lugar único dos “excepcionais”, perde o cunho assistencialista e protecionista que lhe fora conferido até então, para adquirir uma dimensão educacional propriamente dita, e inserir-se nesse quadro de universalização. Antes implicando apenas um sistema segregado e à parte do regular, a educação especial passa agora a ser considerada também em outra A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 13 dimensão: como parte do sistema regular, como um recurso educacional extra. O conceito de autonomia se enquadra para a reflexão sobre a deficiência a partir de dois eixos de análise interligados. O primeiro refere-se à consideração da autonomia como conceito-chave para a caracterização de uma condição corporal atípica como normal ou patológica. É precisamente tal consideração que permite retirar a deficiência da condição de doença, pois muitos sujeitos que possuem variações corporais podem realizar suas metas vitais, como diz Nordenfelt. Isso se dá, sobretudo, quando se modifica o comportamento mediano e o equipamento do ambiente que, em geral, não atendem às pessoas atípicas. Por isso nosso cuidado em inserir nesta aula categorias da Educação Especial que estão atreladas à ideia de que nossas concepções atuais de normalidade e anormalidade ideologicamente se compuseram de forma histórico- filosófica e por um processo cúmplice de uma fatia da própria ciência, principalmente a pragmatista, quanto às elucubrações expontaneístas. Ambas fortaleceram as distâncias do deficiente no convívio social no seu sentido mais amplo – que, agora, procuramos encurtar por meio do esclarecimento. LEITURA OBRIGATÓRIA Texto de abordagem teórica BANKS‐LEITE, L.; GALVÃO, I. (Org.). A educação de um selvagem: as experiências de Jean Itard. São Paulo: Cortez, 2000. O texto versa sobre como Itard desenvolveu seu método de educação especial ao longo dos 10 anos de experiências com a criança encontrada e considerada selvagem. Texto de abordagem prática COMÉNIO, J. A. Didáctica Magna: tratado da arte universal de ensinar tudo a todos. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985. Apresentam-se diversas práticas acerca da educação especial e sua aplicabilidade.Saiba mais A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 14 ITARD, J.; PINEL, P. El Salvaje del Aveyron: psiquiatria y pedagogia en el iluminismo tardio. Buenos Aires: Centro Editor de America Latina, 1978 O texto analisa os argumentos apresentados no debate entre Itard e Pinel sobre o processo de aprendizagem de crianças consideradas, no período histórico, como “idiotas”. A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com 15 REFERÊNCIAS DORZIAT, A. Educação Especial e Inclusão Escolar: pratica e/ou teoria. In: DECHICHI, C; SILVA; L. C. da (Org.). Inclusão escolar e educação especial: teoria e prática na diversidade. Uberlândia: EDUFU, 2008. FERRAZZO, G; MACIEL, A. C. Fundamentos da educação especial: contribuições para uma reflexão filosófico-educacional. Revista COCAR, Belém, v. 10, n. 20, p. 367-385, ago./dez. 2016. GAUDENZI, P.; ORTEGA, F. Problematizando o conceito de deficiência a partir das noções de autonomia e normalidade. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 21, n. 10, p. 3061-3070, out. 2016. GLAT, R.; BLANCO, L. M. V. Educação Especial no Contexto de uma Educação Inclusiva. In: GLAT, R. (Org.). Educação Inclusiva: cultura e cotidiano escolar. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. p. 15-35. GUSMÃO, F. A. F.; MARTINS, T. G.; LUNA, S. V. de. Inclusão escolar como uma prática cultural: uma análise baseada no conceito de metacontingência. Psicologia da Educação, São Paulo, n. 32, p. 69-87, jun. 2011. Disponível em: . Acesso em: 16 jul. 2018. MARTONO, R. C., TODOROV, J. C. O desenvolvimento do conceito de metacontigência. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, Brasília, n. 2, v. 3, p. 181-190, 2007. SANTOS, M. P. Educação Especial: Integrada ou paralela? Vivência, n. 6, p. 10- 15, 1. sem./1992. A luno: A LA N F E R N A N D E S V IE IR A M O N T E IR O E m ail: alan.m onteiro1812@ gm ail.com