Prévia do material em texto
MATERIAL: TUBERCULOSE E HANSENÍASE Na Europa, ao longo dos séculos XVII a XIX, a tuberculose (TB) foi responsável por cerca de 20 a 30% de todas as mortes. Isso provavelmente exerceu uma forte pressão seletiva para os genes que protegiam contra a TB nessa população. Contudo, nas últimas décadas, a coinfecção com o vírus HIV tem sido um fator importante no aumento da suscetibilidade à infecção e também na rápida progressão da infecção para a doença ativa. A tuberculose é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, um bacilo delgado, aeróbio obrigatório. Os bacilos crescem lentamente (tempo de geração de 20 horas ou mais), muitas vezes formam filamentos e tendem a crescer em aglomerados. Outra espécie de micobactéria, a Mycobacterium bovis, é um patógeno principalmente do gado. M. bovis é a causa da tuberculose bovina. a, que é transmissível aos seres humanos através do leite ou de alimentos contaminados. A tuberculose bovina responde por menos de 1% ela raramente se dissemina entre seres humanos. As infecções por M. bovis causam uma TB que afeta principalmente os ossos ou o sistema linfático. Antigamente, uma manifestação comum desse tipo de TB era a deformação em forma de corcunda da coluna vertebral. micobactérias coradas com carbol-fucsina não podem ser descoradas com ácido ou álcool e, assim, são classificadas como acidorresistentes (ver p. 66). Essa característica reflete a composição incomum da parede celular, que contém grandes quantidades de lipídeos. Esses lipídeos também podem ser responsáveis pela resistência da micobactéria a estresses ambientais, como o ressecamento. De fato, essas bactérias podem sobreviver por semanas em escarro seco e são muito resistentes aos antimicrobianos químicos usados como antissépticos e desinfetantes. A TB é mais comumente adquirida pela inalação do bacilo. Somente as partículas muito finas, contendo de 1 a 3 bacilos, alcançam os pulmões, onde geralmente são fagocitadas por um macrófago nos alvéolos. Os macrófagos de pessoas saudáveis tornam-se ativados pela presença dos bacilos, e, em geral, os destroem. Cerca de três quartos dos casos de TB afetam os pulmões, contudo outros órgãos também podem se tornar infectados. PATOGÊNESE DA TUBERCULOSE Na patogenicidade das micobactérias provavelmente consiste no fato de que os ácidos micólicos da parede celular estimulam fortemente uma resposta inflamatória no hospedeiro. A figura mostra uma situação na qual as defesas do corpo falham, e a doença progride para um desfecho fatal. Entretanto, pessoas mais saudáveis serão capazes de anular uma potencial infecção por meio dos macrófagos ativados, principalmente se a dose infectante for baixa. Se a infecção progredir, o hospedeiro isola os patógenos em uma lesão fechada, chamada de tubérculo (que significa protrusão ou saliência), uma característica que dá nome à doença. Quando a doença é interrompida neste momento, as lesões cicatrizam lentamente, tornando-se calcificadas. Elas aparecem claramente nos filmes de raios X e são chamadas de complexos de Ghon. (A tomografia computadorizada [TC] é mais sensível do que os raios X na detecção das lesões de TB.) Se as defesas do corpo falham nesse estágio, o tubérculo rompe-se e libera bacilos virulentos nas vias aéreas do pulmão e, então, nos sistemas circulatório e linfático a tosse, o sintoma mais evidente da infecção pulmonar, também dissemina a infecção através de aerossóis contendo bactérias. O escarro pode se tornar sanguinolento à medida que os tecidos são lesionados, e, por fim, os vasos sanguíneos podem se tornar tão erodidos que se rompem, resultando em hemorragia fatal. DIAGNÓSTICO DA TUBERCULOSE As pessoas infectadas com tuberculose respondem com uma imunidade celular contra a bactéria. Essa forma de resposta imune, em vez da imunidade humoral, desenvolve-se porque o patógeno está localizado principalmente dentro de macrófagos. Essa imunidade, que envolve células T sensibilizadas, é a base do teste cutâneo da tuberculina. Um teste de triagem para a infecção. Um teste positivo não indica necessariamente doença ativa. Nesse teste, uma proteína purificada derivada da bactéria da TB, obtida por precipitação de culturas em caldo, é injetada cutaneamente. Se a pessoa injetada foi infectada com TB no passado, as células T sensibilizadas reagem com essas proteínas e ocorre uma reação de hipersensibilidade tardia, em cerca de 48 hora O passo inicial no diagnóstico laboratorial de casos ativos é um exame microscópico de esfregaço, como o escarro. De acordo com o parecer médico recente, o exame microscópico, rotineiramente utilizado há 125 anos, não é capaz de detectar metade dos casos. A confirmação de um diagnóstico de TB por meio do isolamento da bactéria apresenta dificuldades, uma vez que o patógeno cresce muito lentamente TRATAMENTO DA TUBERCULOSE O primeiro antibiótico efetivo no tratamento da TB foi a estreptomicina, introduzida em 1944. A estreptomicina ainda está em uso e todos os fármacos utilizados atualmente foram desenvolvidas há décadas atrás. Mesmo o regime curto de tratamento da TB (existem variações no regime, que dependem da sensibilidade do organismo e de outros fatores) requer a adesão do paciente a uma terapia de no mínimo 6 meses. Uma terapia de múltiplos fármacos é necessária para minimizar o surgimento de linhagens resistentes. Essa terapia geralmente inclui quatro fármacos: isoniazida, etambutol, pirazinamida e rifampicina, os quais são considerados fármacos de primeira linha. Se a linhagem de M. tuberculosis for suscetível a esses fármacos, esse regime pode levar à cura. A probabilidade de desenvolvimento de resistência é acentuada, uma vez que muitos pacientes falham ao seguir fielmente um regime tão prolongado, o qual pode envolver cerca de 130 doses dos fármacos. Existem vários fármacos de segunda linha que podem ser utilizados, principalmente quando se desenvolve resistência aos fármacos alternativos. Eles incluem diversos aminoglicosídeos, fluoroquinolonas e o ácido para-aminosalicílico (PAS, de para-aminosalicylic acid). Esses fármacos podem ser menos efetivos do que os fármacos de primeira linha, possuir efeitos adversos tóxicos ou podem não estar disponíveis em alguns países. VACINAS CONTRA TUBERCULOSE A vacina BCG é uma cultura viva de M. bovis que foi tornada avirulenta por meio de um longo cultivo em meios artificiais. (BCG significa bacilo de Calmette e Guérin, os cientistas franceses que originalmente isolaram a linhagem.) A vacina BCG está disponível desde a década de 1920 e é uma das mais usadas em todo o mundo. Em 1990, foi estimado que 70% das crianças em idade escolar em todo o mundo a receberam. INCIDÊNCIA MUNDIAL DA TUBERCULOSE Estima-se que 9 milhões de pessoas desenvolvam tuberculose ativa a cada ano, e que as infecções resultam em mais de 2 milhões de mortes anualmente. (Em todo o mundo, a incidência da TB per capita está reduzindo em cerca de 1% ao ano. Contudo, a população mundial está crescendo cerca de 2% ao ano – portanto, o número total de novos casos de TB ainda está aumentando.) Provavelmente, um terço da população mundial está infectado. Além disso, HIV e TB são quase inseparáveis, e a TB é a principal causa direta de morte na maior parte da população mundial infectada pelo HIV. A maioria dos casos de TB nos Estados Unidos, geralmente em torno de 10 mil a cada ano, ocorre entre indivíduos estrangeiros que são infectados em seus países de origem. HANSENÍASE Na Idade Média, as pessoas com hanseníase eram rigidamente excluídas da sociedade europeia normal e, algumas vezes, portavam sinos para que as outras pessoas as evitassem. M. leprae foi isolada e identificada pela primeira vez por volta de 1870 por Gerhard A. Hansen, da Noruega; a sua descoberta foi uma das primeiras conexões realizadas entre uma bactéria específica e uma doença. A doença de Hansen, ou hanseníase, é o nome mais formal da lepra; muitas vezes, é utilizado para se evitar a pronúncia do nome temido. Mycobacterium leprae provavelmente é a única bactéria capaz de crescerno sistema nervoso periférico. PATOGÊNESE Ela sobrevive à ingestão pelos macrófagos e, por fim, invade as células da bainha de mielina do sistema nervoso periférico, onde a sua presença causa danos aos nervos, devido à resposta imune celular. Estima-se que M. leprae tenha um tempo de geração muito longo, cerca de 12 dias. A hanseníase ocorre em duas formas principais: A forma tuberculoide (neural) é caracterizada por áreas da pele que perderam a sensibilidade e estão circundadas por uma borda de nódulos. Na forma lepromatosa (progressiva) da hanseníase (muito parecida com a multibacilar no sistema da OMS), células da pele são infectadas, e nódulos desfigurantes formam-se por todo o corpo. Pacientes com esse tipo de hanseníase têm o mínimo de resposta imune celular eficaz, e a doença já progrediu do estágio tuberculoide. A progressão da doença é imprevisível, e remissões podem se alternar com rápida deterioração. A maioria das pessoas provavelmente adquire a infecção quando as secreções contendo o patógeno entram em contato com suas mucosas nasais. EPIDEMIOLOGIA Milhões de pessoas, grande parte delas na Ásia, na África e no Brasil, sofrem de hanseníase atualmente, e mais de meio milhão de novos casos é registrado a cada ano. DIAGNÓSTICO O teste diagnóstico padrão para a hanseníase consiste em uma amostra de biópsia de pele retirada da margem de uma lesão ativa. A interpretação dessa amostra de forma confiável, o reconhecimento de danos teciduais característicos e a identificação do bacilo acidorresistente dentro dos nervos requerem um patologista experiente. TRATAMENTO A dapsona (sulfona), a rifampicina e a clofazimina, corante solúvel em gordura, são os principais fármacos utilizados para o tratamento, geralmente em combinação. PROFILAXIA Uma descoberta encorajadora é que a vacina Bacillus Calmete-Guérin (BCG) para a tuberculose (também causada por uma espécie de Mycobacterium) oferece alguma proteção contra a hanseníase. Outras vacinas que poderiam ser úteis na prevenção estão sendo testadas. RESUMO: 🔬 TUBERCULOSE (TB) 🦠 Agente etiológico: Mycobacterium tuberculosis (bacilo aeróbio, crescimento lento, acidorresistente). Mycobacterium bovis (tuberculose bovina, rara em humanos, adquirida por alimentos contaminados). 📈 Epidemiologia: Europa (séc. XVII–XIX): responsável por 20–30% das mortes. Coinfecção com HIV aumenta suscetibilidade e progressão. Cerca de 9 milhões de novos casos por ano no mundo. Mais de 2 milhões de mortes anuais. 1/3 da população mundial está infectada. Nos EUA: maioria dos casos em estrangeiros. 🧫 Transmissão e Patogênese: Transmissão aérea por inalação de partículas contendo bacilos. Bacilos fagocitados por macrófagos alveolares. Ácidos micólicos da parede celular → forte resposta inflamatória. Formação de tubérculos (lesões fechadas). Se falha imunológica → disseminação via sangue/linfa → TB ativa. 🩺 Diagnóstico: Teste tuberculínico (PPD): identifica exposição prévia (não doença ativa). Exame de escarro: baixa sensibilidade (não detecta metade dos casos). Cultivo bacteriano é difícil (crescimento lento). Imagens: raios-X ou tomografia para identificar complexos de Ghon. 💊 Tratamento: Antibióticos de 1ª linha (4 fármacos): isoniazida, etambutol, pirazinamida, rifampicina. Duração mínima: 6 meses (~130 doses). Problema: má adesão → resistência. 2ª linha: aminoglicosídeos, fluoroquinolonas, PAS (menos eficazes e mais tóxicos). 💉 Vacina: BCG (Mycobacterium bovis atenuado). Utilizada desde a década de 1920. Protege principalmente contra formas graves em crianças. 🧪 HANSENÍASE (Doença de Hansen) 🦠 Agente etiológico: Mycobacterium leprae (bacilo acidorresistente). Afeta sistema nervoso periférico (única bactéria com essa capacidade). Tempo de geração: ~12 dias (muito lento). 🧬 Patogênese: Invade macrófagos e células da bainha de mielina. Causa danos neurais → perda de sensibilidade, deformidades. Duas formas principais: Tuberculoide (neural): lesões localizadas, pouca carga bacilar. Lepromatosa (progressiva): nódulos disseminados, alta carga bacilar, pouca resposta imune. 📊 Epidemiologia: Endêmica na Ásia, África e Brasil. 500 mil novos casos por ano. 🩺 Diagnóstico: Biópsia de lesão ativa (identificação do bacilo nos nervos). Requer patologista experiente. 💊 Tratamento: Poliquimioterapia com dapsona, rifampicina e clofazimina. 💉 Profilaxia: BCG também oferece alguma proteção contra hanseníase. Novas vacinas estão em desenvolvimento.