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EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA AULA 5 Profª Paula M. Y. Sakaguti 2 CONVERSA INICIAL A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008) delineia e define os estudantes atendidos pela Educação Especial. No entanto, enfatiza que o uso de definições atribuídas à deficiência, aos transtornos, às síndromes, às aptidões e talentos devem ser contextualizadas e integradas, não apenas à mera especificação e categorização do público-alvo da Educação Especial. Esta aula tem como objetivo o reconhecimento dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento (transtorno do espectro do autismo) e altas habilidades/superdotação para o efetivo processo de identificação e atendimento de suas necessidades educacionais especiais. TEMA 1 – ÁREA DA DEFICIÊNCIA VISUAL A deficiência visual se caracteriza pelo espectro que vai da baixa visão (ou visão subnormal), que se refere ao rebaixamento do campo de visão e baixa sensibilidade para os contrastes e de acuidade visual, até a cegueira, ou seja, perda total da visão; essa é a definição proposta por Gil (2000), que salienta também que a deficiência visual pode ser congênita ou adquirida. Desse modo, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), as pessoas com cegueira e baixa visão são consideradas pessoas com Deficiência Visual. Gil (2009, p. 28) destaca que “cegos são os alunos que apresentam ausência total de visão com perda de projeção de luz” e, dessa forma, precisam fazer uso do braille e das atividades de orientação e mobilidade. Já aqueles com “baixa visão apresentam condições de indicar projeção de luz até o grau em que a redução de sua acuidade visual limite o seu desempenho”. Em outras palavras, a mesma autora aponta que a cegueira tem como característica a impossibilidade de ver e a baixa visão a dificuldade para ver. Entre esses dois extremos da capacidade visual (cegueira e baixa visão) temos outras patologias que não se constituem como deficiência visual, mas, quando identificadas, devem ser tratadas o mais precocemente possível, pois podem evoluir para problemas no processo de desenvolvimento e de aprendizagem, como por exemplo a miopia, o estrabismo, o astigmatismo e a hipermetropia que são os casos mais frequentes (Gil, 2000). 3 A miopia, é um distúrbio visual caracterizado por um globo ocular mais ‘longo’, o que provoca a formação da imagem antes que a luz chegue até a retina. A hipermetropia é o oposto da miopia, ou seja, o olho é mais ‘curto’, o que faz com que a imagem se forme depois da retina. O astigmatismo ocorre quando a córnea tem uma curvatura irregular, ovalada, o que faz com que a luz sofra desvios, concentre-se em diversos pontos e forme a imagem em múltiplas regiões. O problema também pode ocorrer por deformações no cristalino, mas esses casos são menos frequentes. (Drauzio, 2020) Dessa forma, os estudantes que apresentam miopia têm dificuldades para enxergar e identificar letras ou objetos que estão distantes; o contrário ocorre para aqueles que têm hipermetropia: a dificuldade será em enxergar os objetos mais próximos. Quando objetos e letras parecem desfocadas ou dançando, tanto para perto quanto para longe, pode indicar astigmatismo ou alguma disfunção neurovisual. Ao observar um objeto, seja de longe ou de perto, os olhos se posicionam de modo paralelo, no mesmo sentido; quando os olhos apontam para direções diferentes temos o principal indicador do estrabismo. Conforme o protocolo de atenção à saúde (DF, 2019, p. 1), o “estrabismo é a condição de desequilíbrio do paralelismo ocular”, manifestado tanto na infância quanto na vida adulta. Seu tratamento com serviço de oftalmologia deve ser iniciado logo que seja percebido o desvio. Para promover a inclusão da pessoa com deficiência visual é primordial que ela possa se deslocar no ambiente e explorá-lo de forma autônoma e eficaz. A dificuldade de locomoção de uma pessoa cega começa na infância, portanto, a promoção de estímulos visuais para incentivar a criança a se movimentar em direção ao objeto, com encorajamentos verbais e auditivos são fundamentais para o conhecimento do espaço (Gil, 2009). Embora os estudos sobre a deficiência visual tenham avançado, é recorrente na sociedade o preconceito e ideias equivocadas que consideram o cego como indivíduo inválido, indefeso transtornado, incapaz de pensar ou refletir pelo fato de não enxergarem, e mesmo sentimento de pena são cultivados pelos videntes (Gil, 2009). Essa realidade vem demonstrar como na cultura escolar ainda são perceptíveis os mitos e as dificuldades em compreender diferenças e peculiaridades de estudantes com deficiência visual que precisam ser consideradas. Temos duas abordagens para o reconhecimento e atendimento das demandas apresentadas por estudantes com deficiência visual: a abordagem clínica e a educacional, conforme o Quadro 1, a seguir. 4 Quadro 1 – Diferenciação entre classificação médica e educacional ABORDAGEM CLÍNICA ABORDAGEM EDUCACIONAL Diagnóstico médico Diagnóstico educacional Baseado na acuidade visual Baseado na eficiência visual Ênfase no que enxerga Ênfase em como enxerga Finalidade legal, econômica e estatística Finalidade prática e funcional Dados quantitativos Dados qualitativos Não considera características física e psicológicas do sujeito Considera, além das características físicas do sujeito, as psicológicas, sociais e econômicas Obs.: o diagnóstico médico não leva necessariamente ao prognóstico educacional – uma capacidade de visão para perto pode existir. Fonte: Gil, 2009, p. 30. Conforme a mesma autora, ambas as abordagens de completam e o objeto da abordagem clínica é para fins legais, econômicos e estatísticos baseados em dados diagnósticos que tem a deficiência como parâmetro. Enquanto a abordagem educacional é fundamentada no potencial e na eficiência visual considerando o sujeito como um todo com suas características físicas, psicológicas, econômicas inserido em um contexto histórico-cultural. Consideramos o papel da escola, da família e das redes de apoio na constituição dos processos de compensação em termos vigotskianos, proporcionando aos estudantes com deficiência visual possibilidades de desenvolvimento. Conforme Rocha e Pletsch (2018, p. 105), “os suportes da saúde e das demais áreas (serviço social, transportes e outros) favorecem as intervenções realizadas pela educação, a qual, por sua vez, possibilita processos de compensação”. TEMA 2 – ÁREA DA SURDEZ Com base em Nascimento (2017, p. 26), definimos “sujeitos surdos como aqueles que compreendem e interagem com o mundo por meio de suas experiências visuais, devido à perda auditiva e que manifestam sua cultura principalmente pela Libras”, ou seja, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a manifestação cultural-linguística das pessoas surdas. A Libras é uma língua visual-espacial utilizada naturalmente em comunidades surdas brasileiras, permitindo expressar sentimentos, ideias, ações e qualquer conceito e/ou significado para estabelecer interações entre sujeitos. A língua de sinais possui todas as características linguísticas de qualquer língua humana natural. Como as demais línguas orais, ela não é universal; ao longo do território brasileiro apresenta variações que advêm das características regionais, sociais e culturais de cada lugar. É uma língua autônoma, dotada de gramática específica estruturada nos diversos níveis linguísticos. (Lacerda; Albres; Drago, 2013, p. 68). 5 Vale salientar que a Lei n. 10.436/2002 reconhece e legitima a Libras no atendimento em serviços públicos e na obrigatoriedade da inserção de seu ensino como parte integrante dos Parâmetros Curriculares Nacionais nos cursos de formação de Educação Especial, Fonoaudiologia, Magistério, nível médio e superior(Brasil, 2002). Essa lei é resultado da ação do movimento social surdo brasileiro. De acordo com Brito (2013), esse movimento emergiu na década de 1980 e está relacionado ao movimento das pessoas com deficiência e cujos membros têm identidade coletiva em comum ligada ao uso da Libras. Assim, também, o Decreto n. 5.626/2005 regulamenta a lei supracitada e dispõe, dentre outras providências, sobre a ampliação da obrigatoriedade da disciplina de Libras no curso de Pedagogia e demais licenciaturas, da formação do professor de Libras, trata sobre a garantia da inclusão escolar por meio da organização de escolas e classes de educação bilíngue para surdos e ouvintes, também contempla a formação de profissionais bilíngues (Brasil, 2005). Nascimento (2017) ressalta que o foco da surdez não está na deficiência, mas na diferença cultural e de que os defensores do movimento social surdo não negam a falta de audição, cientes da condição linguística diferenciada dos estudantes surdos, chamam a atenção para o deslocamento do olhar mais voltado para o que as pessoas surdas dizem de si mesmas e do modo como querem ser vistas. Vamos recuar na história, quando nos anos de 1950 as escolas especiais para surdos tinham abordagem oralista. Brito (2013) lembra que em 1957 os gestores do Ines (Instituto Nacional de Educação de Surdos) substituíram o termo surdo-mudo do antigo nome do Instituto acreditando que que estariam libertando os surdos da mudez, ou seja, permitindo que pelo oralismo poderiam fazê-los falar e ler os lábios do interlocutor, além de que seriam mais felizes e alcançariam o mesmo nível cognitivo de outras crianças da sociedade. Todavia, o despeito da ideologia dos dirigentes e da maioria do corpo docente, no mundo da maioria dos alunos prevalecia o uso da língua de sinais nas interações sociais e nas construções dos significados das experiências vividas entre eles, com os ex-alunos, funcionários e professores que partilhavam essa forma de comunicação e expressão. Por isso, no ano de 1957, a diretoria do Ines, mais uma vez, apostando nas possibilidades redentoras da oralização, deliberou pela proibição oficial da comunicação em sinais nas dependências do instituto, chegando ao extremismo de decretar medidas para impedir qualquer contato dos novos alunos com os veteranos ou ex-alunos usuários dessa língua sinalizada. (Brito, 2013, p. 26) 6 A história de resistência de muitos surdos dentro do Ines se deu em manter viva essa forma de comunicação (sinais eram feitos embaixo das carteiras ou em espaços onde não havia fiscalização), em um contexto em que era negada a possibilidade de usar outros canais de comunicação, como as mãos, as expressões faciais e corporais (Brito, 2013). Em conformidade com o mesmo autor, essa historicidade marca a defesa, a valorização e o reconhecimento da língua natural dos surdos usuários de Libras. Em contrapartida, “a abordagem educacional por meio do bilinguismo visa capacitar a pessoa com surdez para a utilização de duas línguas no cotidiano escolar e na vida social, quais sejam: a língua de sinais e a língua da comunidade ouvinte” (Alvez, 2010, p. 7). Entende-se como cultura surda o “jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de se torná-lo acessível e habitável ajustando-os às suas percepções visuais” (Nascimento, 2017, p. 26). TEMA 3 – ÁREA DOS TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO Os estudantes com Transtornos Globais do Desenvolvimento, ou apenas TGD, são reconhecidos inicialmente por seus pais e professores pela observação de alguns sinais e gestos que demostram um conjunto de comportamentos que ocorrem na infância e que não são comuns no desenvolvimento de seus pares etários. Em conformidade com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, os estudantes com transtornos globais do desenvolvimento são aqueles que apresentam alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e na comunicação, um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Incluem-se nesse grupo estudantes com autismo, síndromes do espectro do autismo e psicose infantil. (Brasil, 2008, p. 11) Santos (2015) esclarece que os TGD englobam um agrupamento de transtornos que têm em comum as funções do desenvolvimento que foram afetadas desde a infância trazendo comprometimentos ou atraso no desenvolvimento. Nisso, com base no fascículo do Ministério da Educação (MEC), em 2010, a mesma autora elucida que no grupo dos TGD são contemplados estudantes com diagnóstico de autismo, síndrome do espectro autista (Asperger e Rett), transtorno desintegrativo da infância (psicose) e transtorno invasivo sem outra especificação. 7 Em relação à denominação dos quadros clínicos, antes associados à área dos TGD, na quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), houve alterações nos critérios de diagnóstico do autismo: Os Transtornos Globais do Desenvolvimento, que incluíam o Autismo, Transtorno Desintegrativo da Infância e as Síndromes de Asperger e Rett foram absorvidas por um único diagnóstico, Transtorno do Espectro Autista. A mudança refletiu a visão científica de que aqueles transtornos são na verdade uma mesma condição com gradações em dois grupos de sintomas: Déficit na comunicação e interação social; Padrão de comportamentos, interesses e atividades restritos e repetitivos. (Araújo; Lotufo Neto, 2014, p. 70-72) A expressão espectro significa que estudantes com o mesmo diagnóstico podem apresentar quadros clínicos diferentes com níveis de gravidade da condição autista, do nível de desenvolvimento e da idade. Assim, de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-5 (American Psychiatric Association, 2014), o transtorno do espectro autista se refere a um agrupamento de transtornos caracterizados por dois déficits marcantes nas áreas da comunicação e interação social e do padrão de comportamentos, interesses e atividades restritos e repetitivos causando impactos no desenvolvimento e começa a se manifestar antes dos três anos de idade. São características observadas em relação ao prejuízo na interação e comunicação social de estudantes com transtorno do espectro autista: • Dificuldade do sujeito em começar e manter diálogos com seus pares, • Compartilhamento reduzido de ideias, sentimentos; • Uso reduzido ou ausente de contato visual, expressões faciais e gestos que envolvem interação; • Podem aprender alguns gestos funcionais, mas seu repertório é menor e menos espontâneo; • Falta de jogo social e imaginação compartilhados; • Insistência em brincar seguindo regras muito rígidas. O TEA também é definido por padrões repetitivos e restritos de comportamento que incluem uma gama de manifestações, como: • Estereotipias motoras simples; • Uso repetitivo de objetos; • Fala repetitiva (ecolalia); • Insistência excessiva à rotina e aos rituais; 8 • Apego exagerado a algum objeto; • Interesses limitados e fixos; • Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais (respostas extremadas a sons e texturas específicas ou indiferença aparente a dor e calor, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação por luzes ou objetos giratórios). Conforme o DSM-5, sujeitos com TEA frequentemente apresentam comprometimento intelectual e/ou da linguagem. O Decreto n. 8.368/2014, a pessoa com TEA é considerada pessoa com deficiência e dispõe de todos os direitos, inclusive da saúde no âmbito do Sistema Único da Saúde (SUS) e o direito à educação em sistema escolar inclusivo (Brasil, 2014). Santos (2015) salienta que o reconhecimento de conceitos e características dos transtornos como aspectos relacionados à comunicação, interação social, interesses restritos desses estudantes é uma forma para compreendermos melhor essa temática e medidaspara efetivar o atendimento educacional especializado no contexto escolar inclusivo. TEMA 4 – ÁREA DAS ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO Pessoas com altas habilidades/superdotação demonstram comportamentos que saltam aos olhos. De acordo com a definição proposta pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, estudantes com altas habilidades/superdotação demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de apresentar grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse (Brasil, 2008, p. 11). Na definição de AH/SD, temos a incorporação da concepção de superdotação de Renzulli ao considerar que além das habilidades nas diversas áreas fazem parte também a criatividade e o comprometimento nas áreas de interesse. Tais características se entrelaçam e pela junção dos três grupamentos de traços (habilidade acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa) indicamos que a pessoa apresenta comportamentos de superdotação: [...] a teoria de Renzulli (1986, 2004), que propõe a Concepção de Superdotação baseada na Teoria dos Três Anéis, ou seja, três anéis entrelaçados, englobando as seguintes características, que devem estar presentes no sujeito: habilidade acima da média, comprometimento com a tarefa e criatividade. O primeiro traço, a capacidade acima da média, representa tanto habilidades gerais como 9 específicas e condiz com um grau de desempenho representativamente superior. Já o envolvimento com a tarefa, se refere ao investimento do sujeito em uma área específica, sendo considerados como significativos a perseverança, a paciência, e a autoconfiança na sua habilidade. A criatividade, é caracterizada pela capacidade de inovação em determinada área. (Oliveira; Costa; Campos, 2019, p. 210) Embora esse grupo das AH/SD também faça parte do público da educação especial, muitas vezes são desassistidos e marginalizados na própria escola por não encontrarem igualdade de oportunidades para o seu desenvolvimento (Himenez, 2002). Conforme Pérez (2013), é fundamental identificar os estudantes com AH/SD – embora sempre presentes na escola, ainda continuam na invisibilidade – para que possamos, além do adequado registro no censo escolar e consequente distribuição de recursos para a escola de origem, formular políticas públicas para o atendimento educacional especializado que esse segmento da educação especial necessita. A identificação inicia-se pelo reconhecimento. No entanto, na cultura escolar ainda prevalece a percepção de que estudantes com AH/SD são nota dez em tudo, são gênios, de que podem se desenvolver sozinhos, não precisando de apoio especializado, dentre outras ideias errôneas. Essa ideia da superdotação acaba dificultando o processo de identificação. Estudantes com AH/SD precisam de um olhar diferenciado para que suas necessidades cognitivas e socioemocionais sejam reconhecidas e atendidas. No processo de identificação é preciso considerar a heterogeneidade e os diferentes perfis de superdotação, levando em consideração de que o desempenho escolar (notas obtidas) não constitui por si só critério suficiente para ingresso em serviços especializados e programas de sala de recursos multifuncionais. Sakaguti (2010, p. 28) ressalta que desde a década de 1980, o renomado pesquisador Renzulli (2004) chama a nossa atenção para as pesquisas indicando que pessoas com AH/SD, “mesmo tendo um desempenho incomum, não teriam sido reconhecidas somente pelos escores de testes de QI”. Portanto, é preciso cuidado para não correr o risco de que sejam identificados [...] somente os alunos que apresentam indicadores observáveis na escola exclusivamente e, no atendimento decorrente, analisar a falta de desempenho escolar sob outra ótica, sem esquecer que, não raramente a criança com AH/SD pode ser uma criança com subdesempenho (underachiever) ou mesmo com dificuldade de aprendizagem em alguma área. (Pérez, 2013, p. 71) 10 Destacamos dois tipos, ou perfis, de superdotação: a acadêmica e a produtivo-criativa. A acadêmica é o perfil daquele estudante com facilidade para a aprendizagem escolar, com ótimo rendimento e ótima memória, dentre outras características valorizadas no currículo escolar e às inteligências acadêmicas. Já, a superdotação produtivo-criativa abrange a aplicação dos conceitos de forma mais indutiva, integrada. O produtivo-criativo nem sempre irá bem nos testes de QI, mas apresenta ideias e trabalhos originais com alto nível de criatividade causando impacto no desenvolvimento de produtos e ideias originais (Renzulli, 2004). O autor ainda destaca que um perfil não tem supremacia sobre o outro, ambos devem ser encorajados e a escola exerce papel primordial nas propostas de identificação e de oferta de oportunidades para o desenvolvimento das potencialidades. TEMA 5 – ÁREA DA DEFICIÊNCIA INTELECTUAL Com o avanço da psicologia e o movimento dos testes mentais, Almeida (2012) salienta que a definição de deficiência intelectual, enquanto funcionamento intelectual abaixo da média esperada e definida pelo teste de Quociente de Inteligência (QI), foi uma definição amplamente utilizada a partir da década de 1960. Tal influência da psicometria, levou à classificação de deficiência intelectual em níveis leve, moderado, severo e profundo. Carvalho e Maciel (2003) apontam os seguintes instrumentos recomendados pela AAIDD para medir a inteligência: Wechsler Intelligence Scale for Children (WISC-III), Wechsler Adult Intelligence Scale (WAIS-III), o Stanford-Binet-IV, a Kaufman Assesment Batery for Children. O quociente médio de inteligência é 100 e aceita-se como desvio- padrão dessa média o valor 15. O funcionamento intelectual significativamente inferior à média, é definido como um QI de 70 ou abaixo, em resultados obtidos da realização de um teste individual de QI. Em função da severidade, a OMS (1968) recomenda a subclassificação do Retardo Mental (RM) em Leve: QI 70-50; Moderado: 50-35; Severo: QI 35-20; Profundo: QI abaixo de 20. (Moreira, 2011, p. 37) O manual da Associação Americana de Retardo Mental, a AAMR, atualmente denominada Associação Americana em Deficiência Intelectual e do Desenvolvimento (AAIDD), definiu em 1961 que a deficiência intelectual (na época chamada de retardo mental) “se refere ao funcionamento intelectual geral abaixo da média, existindo concomitantemente com déficits no comportamento 11 adaptativo e manifestada no período de desenvolvimento” (Almeida, 2012, p. 55), e assim sucessivamente os sistemas de classificação a deficiência intelectual foram alteradas, mas não havendo mudanças em termos de comportamentos adaptativos. Almeida (2004), de acordo com os estudos de Luckasson, aponta que em 1992 houve uma mudança em relação às definições anteriores, ficando assim estabelecida de que a deficiência intelectual [...] se refere a limitações substanciais no funcionamento atual dos indivíduos, sendo caracterizado por um funcionamento intelectual significativamente abaixo da média, existindo concomitante com relativa limitação associada a duas ou mais áreas de condutas adaptativas, indicadas a seguir: comunicação, auto cuidado, vida no lar, habilidades sociais, desem ao fpenho na comunidade, independência na locomoção, saúde e segurança, habilidades acadêmcias funcionais, lazer e trabalho. O retardo mental se manifesta antes dos 18 anos. (Almeida, 2004, p. 37) Em 1992, mostrou-se que essa definição era de “natureza muito mais funcional e enfatizava a interação entre três grandes dimensões: capacidade da pessoa, ambiente onde a pessoa funcionava e a necessidade de vários níveis de suporte” (Almeida, 2004, p. 37). Assim, a mesma autora complementa que, na tentativa de eliminar o processode diagnóstico que classificava o sujeito apenas pelos escores obtidos nos testes de inteligência na classificação dos níveis de deficiência intelectual (leve, moderado, severo e profundo), a AAIDD de 1992 sugeriu a adoção de um sistema suportes. A seguir, os quatro níveis de intensidade de suporte necessários à funcionalidade do sujeito. Quadro 2 – Níveis de suporte necessários à funcionalidade Nível de apoio Característica Intermitente É de natureza episódica, pois a oferta de apoio é dada conforme a necessidade do estudante por períodos curtos. Por exemplo, na fase aguda de uma doença. Limitado Apoio caraterizado por sua consistência ao longo do tempo. O tempo é limitado, mas não intermitente. Por exemplo, apoio transitório no treinamento para um emprego ou durante o período escolar. Amplo É caracterizado pelo apoio regular, de envolvimento diário em pelo menos um dos ambientes (por exemplo, sala de aula, casa), e não possuindo tempo limitado (apoio permanente nas atividades da vida diária). Permanente É o suporte que assume a natureza de cuidados vitais para a sustentação da vida, suporte de alta intensidade (apoio da área da saúde, por exemplo). Fonte: Almeida, 2012. 12 De acordo com Almeida (2012), pela primeira vez foi visto o papel da prestação de suportes no desenvolvimento, diferente da deficiência vista anteriormente como estática ao longo da vida. Já em 2002, a concepção de deficiência foi modificada permitindo uma nova maneira de olhar e responder as necessidades da pessoa com deficiência intelectual numa visão bioecológica de deficiência intelectual, isto é, desvincula a ideia da deficiência como atributo da pessoa, mas sendo uma condição particular de funcionamento (Carvalho; Maciel, 2003). Almeida (2004, p. 43) destaca a definição de deficiência intelectual proposta em 2002 pela AAIDD como “uma incapacidade caracterizada por limitações significativas em ambos, funcionamento intelectual e comportamento adaptativo e está expresso nas habilidades sociais, conceituais e práticas. A incapacidade se origina antes da idade de 18 anos”. A mesma autora ressalta a contribuição das definições de 1992 e 2002, que olham para as necessidades dos estudantes e não para a classificação de deficiência baseada nos escores do QI apenas. NA PRÁTICA Indicação de leitura: Miguel, de Tony Bradman e ilustração de Tony Ross, Editora Salamandra. Miguel era uma criança diferente. Vale a pena refletir sobre comportamentos e características apresentados por Miguel que chamaram a atenção de seus professores. Qual é o papel da escola no atendimento de estudantes com perfil produtivo-criativo? FINALIZANDO Esta aula teve como objetivo observar estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação reconhecidamente como estudantes atendidos pela educação especial no contexto inclusivo. O reconhecimento desse público-alvo deve ser analisado em sua heterogeneidade. No contexto da inclusão escolar, todos os estudantes devem ser reconhecidos em seus diferentes ritmos, estilos de aprendizagem, habilidades, dificuldades, déficits e por suas melhores possibilidades, 13 independente da variedade cultural, econômica, financeira, social, de gênero, raça, aptidão, transtorno ou deficiência. Nessa população, os estudantes da educação especial receberam atenção neste capítulo por serem um público que historicamente foi segregado e negado em seu direito de aprender e conviver com seus pares como também daqueles que, apesar de nunca terem que ser incluídos, passaram séculos invisíveis no sistema educacional. A matrícula e a frequência, ou seja, o acesso ao ensino regular por si só não garante a inclusão escolar. É preciso que sejam reconhecidas as peculiaridades dos estudantes, mudanças atitudinais, quebra de barreiras físicas e modificação do sistema escolar para a organização de um sistema educacional efetivamente inclusivo, que garanta a participação de todos os alunos e que o público da educação especial inserida no projeto político pedagógico. A inclusão de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação inicia-se pelo reconhecimento do sujeito como parte integrante da vida escolar. 14 REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. A. 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