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Katia Cilene Balugar Firmino - Portabilidade da Previdência Complementar

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o participante, desanimando-o quanto à espera pelo benefício pleno; 
segundo, o saque de valores, por meio da portabilidade, não podem prejudicar os demais 
participantes, ou seja, o equilíbrio financeiro-atuarial do plano é um elemento de importância que 
vai além de um plano específico, dotando o sistema de segurança sem a qual ruiria o regime 
complementar. 
Portanto, o condicionamento legal ao exercício da portabilidade é consentâneo 
com o arquétipo da seguridade social enquanto servir para resguardar os interesses do 
participante, estimulando-o a preservar o vínculo com o regime complementar, bem como 
enquanto não afrontar o necessário equilíbrio atuarial do plano. 
Estas as balizas que servirão como norte na análise das condições legais à 
portabilidade, observando que tudo quanto disciplinado, desde que entre tais fronteiras, insere-se 
no campo da válida disposição legislativa, já que o instituto tem seus contornos estritamente 
dependentes da lei. 
A lei prevê situações que obstaculizam a portabilidade, assim como requisitos que 
deverão ser atendidos, de modo que, agrupados, compõem o conjunto que reúne as condições ao 
exercício da portabilidade. 
 101
Apesar de não erigir óbices à portabilidade entre entidades fechadas e abertas, a lei 
prevê certas condições a serem atendidas especificamente em cada segmento, assim como no 
caso de portabilidade de entidade fechada para entidade aberta, as quais serão objeto de ressalvas 
próprias, lançadas por ocasião do exame do quanto tem em comum a portabilidade no segmento 
das entidades abertas e das entidades fechadas. 
Tendo em vista a melhor sistematização do tema, adianta-se que a carência é 
requisito a ser atendido tanto no âmbito das entidades abertas como das entidades fechadas. 
O rompimento do vínculo é requisito específico à portabilidade no segmento das 
entidades fechadas. 
A contratação de plano de renda mensal vitalícia ou por prazo determinado é 
requisito à portabilidade operada para plano de entidade aberta, com a observação de que apesar 
de a princípio não se apresentar no segmento das entidades fechadas, foi de certa forma adotado 
em decorrência de disposição regulamentar, sob roupagem não de condição ao exercício à 
portabilidade para entidade fechada, mas como uma limitação ao posterior exercício do resgate, 
ponto de contato este que ensejou a abordagem do tema em seu conjunto. 
Todos esses aspectos serão objeto de exame mais aprofundado nos tópicos 
seguintes. 
 
8.1 Carência 
 
A carência, a par de distinta quanto ao prazo, é condição a ser adimplida tanto nos 
planos de entidades abertas quanto nos planos de entidades fechadas. 
Como dito anteriormente, a portabilidade era instituto previsto tão só para os 
planos de entidades abertas de previdência privada, sendo novidade instituída a partir da Lei 
Complementar n. 109/01 nos planos de entidades fechadas, assim ao menos com a amplitude 
contemporânea. 
Muito interessante a abordagem do tema feita por Wladimir Novaes Martinez, na 
parte em que investiga quais os argumentos do embate travado no Poder Legislativo quanto à 
instituição de um prazo de carência à portabilidade: 
“A exigência de tempo mínimo de permanência no fundo de pensão é 
concessão do legislador, diante de pressões e lobbies orquestrados em 
confronto, e em face de suas dúvidas quanto à técnica criada, pois os 
estudiosos não prevêem como ela vai se consubstanciar. Só o tempo dirá. Traz 
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em si um contra-senso: se o tempo de cotização, por exemplo, menor do que 
36 meses for pequeno, o quantum acumulado é inexpressivo e não importaria 
muito sua saída do plano (a rigor, não prejudicaria a entidade emissora nem 
beneficiaria a entidade receptora); por outro lado, se o período de aportes é 
longo, as contribuições somariam níveis significativos e a subtração do 
primeiro plano poderia comprometê-lo, mas melhoraria o segundo. 
A idéia incorpora a concepção arcaica de que a previdência complementar é 
extensão da política de recursos humanos da empresa. Essa filosofia, que 
inspirou a carência, tentaria reter o profissional.68” 
Não obstante a balizada opinião acima destacada, cujas ponderações amoldam-se à 
liberdade do participante, tom característico do regime complementar, uma reflexão sob outro 
prisma poderia bem justificar o acerto à opção legislativa em indicar prazo para carência ao 
exercício da portabilidade. 
É verdade que a proposta de modernização da previdência privada, com superação 
da vetusta idéia de tratar-se de tema afeto às relações trabalhistas, encontra diretriz nas reformas 
introduzidas na Constituição Federal pela Emenda Constitucional n. 20/98, a teor do § 2o do art. 
202. 
Desse modo, o vetor ao legislador ordinário é o de engendrar política de 
previdência complementar cujo traço seja o da liberdade do participante, aguardando-se que a 
prática da portabilidade, ao sedimentar suas vantagens e descortinar solução aos possíveis 
inconvenientes que possa ocasionar, encoraje alterações normativas que mais e mais facilitem o 
curso de valores entre os planos. 
Contudo, vale repisar que as contribuições vertidas ao plano têm, em sua função 
atuarial, amarras que determinam a fixação de seus próprios valores. A pouca margem que deve 
sobrar livre da finalidade de pagamento do benefício serve ao custo administrativo e de colocação 
do plano no mercado, ressarcido nos primeiros anos de desenvolvimento do contrato 
previdenciário, de modo que o prematuro traslado de valores, antes do acerto das despesas 
administrativas, poderia ocasionar no plano originário um desequilíbrio inconveniente ao 
fortalecimento do setor que opera a previdência privada. 
Cumpre remeter ao tópico em que foi examinada a composição da contribuição ao 
plano previdenciário. 
Dessa forma, a previsão de certo prazo de carência à portabilidade, minimamente 
suficiente ao pagamento das despesas administrativas do plano, não impede a flexibilização 
 
68 MARTINEZ, Wladimir Novaes. Portabilidade na Previdência complementar. São Paulo : editora LTr, 2004, p. 
63/64. 
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compatível com o instituto em exame e, por outro lado, garante o equilíbrio financeiro-atuarial, 
na medida em que a retirada do capital ocorre em momento posterior ao ressarcimento dos 
custos administrativos, recaindo, conseqüentemente, sobre montante então destinado ao 
pagamento do benefício perante outra entidade, o que afasta eventual cogitação de prejuízo ao 
equilíbrio do plano originário. 
A conveniência quanto à estipulação de um prazo de carência pouco mais 
delongado no segmento da previdência complementar fechada é também justificado, 
considerando que os planos apresentam-se, com freqüência, sob organização dotada de caráter 
mutualista, implicando em situação ainda mais delicada caso fosse permitido o traslado de 
valores independentemente de prazo. 
Seja como for, só a experiência da portabilidade indicará a melhor solução para o 
embate entre a liberdade do participante e a necessidade do equilíbrio financeiro dos planos de 
previdência complementar. 
A condicionante de um determinado prazo a ser atendido para o fim do exercício 
da portabilidade é encontrada na Lei Complementar n. 109/01, a qual delega sua fixação ao órgão 
regulador e fiscalizador (art. 14, § 2o). 
Não cumprida a carência, tal resulta na permanência do participante no plano, ou 
na obrigatoriedade em proceder ao resgate. 
Para os planos de entidades fechadas, a carência, nos termos da resolução CGPC 
n. 9/02, era de cinco anos. 
Na atual regulamentação, a resolução CGPC n. 6/03 prevê prazo de até três anos 
de vinculação ao plano. 
Em se tratando de valores portados, não há prazo de