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Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

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estatal se pautar num postulado preconceituoso, 
o qual imputa ao apenado a condição de não trabalhador ou traba­
lhador falho, os presos, em contraste com todos os elementos desse 
discurso ético-laboral, encontram uma outra realidade. Por um lado, 
a escassez de trabalho e o esvaziamento do significado produtivo da 
maioria das atividades laborais atribuídas, como fatores que geram 
distorções tanto nos aspectos competitivos de acesso ao trabalho 
como na valoração e valorização das atividades e dos presos tra­
balhadores (auto e alter estima); por outro, o fato da remuneração, 
quando existente (e a inexistência desta, não obstante a previsão 
legal a impor como obrigatória, ainda que aviltada, é freqüente em 
nossa realidade), em nada, ou em muito pouco, contribuir para al­
terações nas condições concretas de existência na vida intramuros,
13 Este discurso se encontra afinado com o disposto no item 65 das Regras Mínimas 
para o Tratamento dos Reclusos, da Organização das Nações Unidas (ONU); 
consigna o referido item: “O tratamento dos condenados a uma pena ou medida 
privativa de liberdade deve ter por objetivo, na medida em que a sanção o permita, 
incutir-lhes á vontade de viver conforme a lei e manter-se com o produto de seu 
trabalho, ensejando-lhes a aptidão correspondente. Este tratamento destina-se a 
fomentar neles o respeito de si mesmos, desenvolvendo-lhes o sentido de respon­
sabilidade.” As Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos, da ONU, foram 
adotadas pela Resolução de 30 de agosto de 1955.
BALIZAMENTOS SOCIOLÓGICOS DAS ESTRUTURAS E DINÂMICAS PRISIONAIS 59
vez que consumida na busca do indispensável à sobrevivência. Tal 
fato atinge a satisfação e a auto-realização por méio do trabalho 
(LEMGRUBER, 1999, p. 138)14.
Diante disso, o que buscam os apenados no trabalho? Que valor 
vislumbram nas atividades laborais que exercem? A resposta é dada 
de forma convergente por todos os estudos sociopenitenciários que 
tal temática enfrentaram ou tangenciaram (BRANT, 1994; GOIF- 
MAN, 1998; HASSEN, 1999; LEMGRUBER, 1999): ao lado dos 
eventuais benefícios do sistema informal - “ser bem considerado na 
massa” (RAMALHO, 20.02, p. 121) - ou mesmo da boa impressão 
que pode causar aos operadores formais do sistema punitivo, o que o 
preso trabalhador busca é uma forma de “matar o tempo”, ocupar-se 
diante do peso da temporalização da pena, bem como uma forma de 
auferir um capital temporal em relação ao atributo e caráter mercantil 
do tempo prisional, para isso se utilizando do trabalho como forma 
de atingir a remição.
1.2 O PRESÍDIO COMO ORGANIZAÇÃO 
BUROCRÁTICA E INSTITUIÇÃO TOTAL: 
CONFLITOS E SISTEMAS FORMAIS E 
INFORMAIS
A ssumida a privação da liberdade como opção basilar do sistema punitivo moderno, todos os seus desenvolvimentos posteriores se 
direcionaram à constituição de um aparato burocrático de execução 
penal. As próprias contribuições daqueles que são chamados de “refor­
madores penitenciários”, tais como John Howard e Jeremy Bentham, 
não obstante seus distintos enfoques e motivações, já parecem obedecer, 
em seus precursores trabalhos e projetos de estruturação racional das 
instituições prisionais, à máxima de Max Weber, no sentido de que 
a burocracia é, atualmente, “indispensável para o atendimento das
14 Ainda nesse último sentido, não obstante o exposto, Brant faz a seguinte consideração 
sobre os efeitos simbólicos e subjetivos da remuneração, mesmo que ínfima: “E 
claro que o pagamento puramente simbólico não estimula a cobiça nem convence, 
sequer o mais afincado calvinista, que o esforço compense. Onde a remuneração, 
ainda que muito pequena, atua é nas mínimas diferenciações dentro da penúria 
em que um sabonete, uma pasta de dentes, um ovo, um doce ou um bife podetai 
ser objeto de regozijo” (1994, p. 117).
60 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
necessidades da administração de massa. No setor administrativo, a 
opção está entre a burocracia e o diletantismo” (1976, p. 25)u.
A prisão atinge sua maturidade institucional como uma organização 
inserida numa sociedade de organizações, entendendo-se como uma or­
ganização uma unidade social intencionalmente construída e reconstruída 
a fim de atingir objetivos específicos (ETZIONI, 1989, p. 3). Assume 
uma feição organizacional burocrática: sua estrutura administrativa 
funda-se numa rede hierarquizada de cargos, delimitados por normas 
e regulamentos, para os quais se estabelecem níveis de competências e 
dos quais se requerem papéis específicos na consecução dos objetivos 
organizacionais, bem como se imputam responsabilidades.
O mais importante é que se propõe racional em sua dominação, 
na medida em que essa é exercida baseada em saberes específicos 
(jurídicos, criminológicos, penalógicos)16, buscando, na perspectiva de 
autoridade destes, o sustentáculo legitimador das parcelas de violência 
que usufrui em decorrência de seu vínculo com o Estado - detentor 
do monopólio da violência “legítima” na Sociedade Moderna.
Por fim, nessa caracterização mais estrutural e objetiva da insti­
tuição prisional moderna, não se pode olvidar que a mesma, em seu 
fechamento, insere-se na perspectiva das instituições totais, descrita 
por Erving Goffman:
Seu “fechamento” ou seu caráter total é simbolizado pela barreira 
à relação social com o mundo externo e por proibições à saída que 
muitas vezes estão incluídas no esquema físico — por exemplo, por­
tas fechadas, paredes altas, arame farpado, fossos, água, florestas ou 
pântanos (1990, p. 16).
Logo, diante de tal caracterização, uma análise sociológica que se 
proponha a assumir a prisão como objeto, desde sua dimensão interna
15 Sykes, no capítulo 3 de sua obra The defects o f total power (1958, p. 40-62), na 
qual analisa o sistema e as relações de poder no ambiente carcerário de seu estudo, 
igualmente parte dessa máxima de Weber para localizar a prisão como um aparato 
burocrático. A citação feita por Sykes tem por fonte a obra The theory o f social 
and economic organization, editada por Talcott Parsons e publicada pela Oxford 
University Press (New York, 1947); em nossa referência optamos por uma tradução 
de um extrato do texto, presente na obra que consta de nossa bibliografia.
16 Como destaca Weber: “A administração burocrática'significa, fundamentalmente, 
o exercício da dominação baseado no saber. Esse é o traço que a toma especifi­
camente racional” (1976, p. 27).
BALIZAMENTOS SOCIOLÓGICOS DAS ESTRUTURAS E DINÂMICAS PRISIONAIS 61
de relações, dinâmicas e processos, deverá, obrigatoriamente, levar 
em consideração os aspectos que constituem a feição organizacional 
burocrática e total das instituições penitenciárias, bem como os que 
dela decorram.
Alguns destaques merecem ser feitos a fim de que possam ser expli­
citados relevantes balizadores nas análises sociológicas das prisões.
Um primeiro refere-se aos objetivos organizacionais, uma vez 
que a existência e a essência de uma organização estão intimamente 
vinculadas ao seu objetivo. É em função deste que a organização se 
estrutura e se justifica. Os objetivos “estabelecem as linhas mestras 
para a atividade da organização [...] constituem, também, uma fonte 
de legitimidade que justifica as atividades de uma organização e, na 
verdade, até sua existência” (ETZIONI, 1989, p. 7). Tão forte é o 
vínculo genético entre a organização e os objetivos que se propõe a 
atingir que sentencia Etzioni: “sua razão de ser é servir a esses obje­
tivos” (1989, p. 7). O que de imediato justifica seu questionamento 
acerca do objetivo da organização: Se senhor ou servo desta?
As organizações com múltiplos objetivos, dentre as quais a peniten­
ciária, apresentam-se mais complexas. Alerta Etzioni: “existem limites 
na capacidade de organização para atingir múltiplos objetivos” (1989, 
p.-20), em face não só da necessidade de perfeita compatibilidade