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63 Plano de Estudo: ● A crise da racionalidade; ● O marco da linguagem; ● O método fenomenológico. Objetivos da Aprendizagem: ● Conceituar e contextualizar a crítica contemporânea ao conhecimento moderno; ● Compreender os tipos de alternativas às correntes epistemológicas da Idade Moderna; ● Estabelecer a importância das correntes contemporâneas do conhecimento filosófico. UNIDADE IV Filosofia Contemporânea Professor Me. Nathan Marques Oliveira 64UNIDADE IV Filosofia Contemporânea INTRODUÇÃO Bem aluno(a), nesta última unidade buscaremos esboçar os pressupostos que Nietzsche levantou para fundamentar seu pensamento. Lidaremos com três eixos distintos de sua crítica à racionalidade europeia. Abordaremos, de maneira mais geral, suas críticas à moral, à ciência e ao dogmatismo que o mesmo atribui a racionalidade odidenteal. Na sequência de nosso estudo, trataremos primeiramente do movimento epistemo- lógico denominado no positivismo lógico. Esse movimento consistiu em uma recusa a me- tafísica e a plena aceitação do logicismo no campo das ciências, ocorrendo principalmente na primeira metade do século XX. Por fim, surge na primeira metade do século XX outra corrente de pensamento que busca reestruturar o saber filosófico e o conhecimento em geral, trata-se da fenomenologia. O autor que tratou de tal vertente da filosofia como um projeto foi Husserl, filósofo alemão. 65UNIDADE IV Filosofia Contemporânea 1. A CRISE DA RACIONALIDADE Bem aluno(a), nesta última unidade buscaremos esboçar os pressupostos que Nietzsche levantou para fundamentar seu pensamento. Abordaremos alguns aspectos cen- trais de sua primeira obra, O Nascimento da Tragédia, onde verificaremos a gênese de seu pensamento e os contornos gerais que foram desenvolvidos em suas obras mais maduras. Ao iniciarmos a leitura d’ O Nascimento da Tragédia, nós verificamos que os con- ceitos ou pulsões de Apolíneo e Dionisíaco são centrais em tal texto. Nossa proposta não se manterá apenas no aspecto estético de tal obra, mas utilizará esses conceitos para per- passar pelos aspectos basilares do Apolíneo e do Dionisíaco como estruturas fundamentais para se pensar a realidade, isto é, como criação de narrativas que moldam a cultura e a cosmovisão de um povo. Além disso, perceberemos como o pensamento do autor busca alternativas aos critérios de objetividade e de subjetividade, conceitos empregados pela tradição artística e filosófica de sua época - meados do século XIX. Buscaremos demons- trar como Nietzsche procurou utilizar a concepção - aqui no sentido mesmo de criação ou gênese - dessas duas divindades para poder pensar a criação artística e cultural do ociden- te, ao buscar ressaltar uma visão mais unitária da realidade, buscando sobrepujar a visão dicotômica entre obras que variam em perspectivas objetivas ou subjetivas da realidade. Antes de tudo precisamos compreender a importância que Nietzsche atribui para a criação artística. De acordo com o autor, a arte é uma tarefa necessária para a sobrevivência humana. Tal concepção se apresenta como essencial no pensamento em “O Nascimento 66UNIDADE IV Filosofia Contemporânea da Tragédia”, na medida em que o pensador defende que a prática ou criação artística deve fundamentar ou salientar uma afirmação de vida. Afirmação de vida que reverbera diretamente no plano ético de uma determinada cultura. Sendo assim, ética e estética são postas lado a lado como aspectos complementares da vida humana, pois será através das duas que surgirá a efetivação de uma cultura. Ao considerarmos que há um projeto estético interconectado a um projeto ético no primeiro escrito de Nietzsche, nós devemos compreender também que haverá um di- ferencial importante no que diz respeito aos conceitos utilizados para designar sua teoria. Buscaremos evidenciar que o autor não utilizará um pensamento conceitualmente diferen- çável e dicotômico para expressar esse seu projeto estético-ético, e fará isso na medida em que reformula as ideias da tradição helênica - aqui referimo-nos no caso das divindades de Apolo e de Dionísio - como fundamentos essenciais da mesma. Salientamos essa recusa à dicotomia entre sujeito e objeto, no pensamento nietzschiano, justamente pelo fato do autor adotar as figuras dos dois deuses como estandartes da criação, ao invés de serem desenvolvidos como meros delimitantes de conceitos que atestem um pensamento dualista. Logo, serão as figuras interconexas de tais deuses que servirão para preencher a lacuna que tais conceitos modernos (subjetividade e objetividade) deixam ao serem enxertados pelos autores modernos, quando procuravam identificar os aspectos fundamentais da cul- tura clássica, e no limite da cultura moderna. O que parece ocorrer aqui, seria a recusa a um arcabouço de conceitos axiomáticos e definitivos para descrever a realidade em termos estritos. Portanto, o primeiro escrito de Nietzsche parece tentar fundamentar um modo de se expressar figurativamente a realidade, sem necessariamente fechar a discussão. Será a partir das figuras apolíneas e dionisíacas – como ideias primitivas ou pulsões que fogem a dicotomia empregada pelo conceito clássico de logos, bem como de toda a tradição ocidental derivada dele – que Nietzsche pretendeu erigir sua teoria estética-ética. Projeto esse que busca afirmar que é necessário ao ser humano criar e crer em certas ilu- sões, para que o mesmo não padeça aos horrores, mistérios e contradições que compõem a existência. Porém, na mesma medida em que se faz forçoso acreditar nessas ilusões, também é necessário lembrar que elas, de fato, são ilusões. Sendo assim, não podemos olvidar que o mundo, ou Uno-primordial, fundamenta-se no devir eterno das pulsões cósmi- cas – como apresentaremos melhor mais adiante. Logo, a arte tem esse papel fundador e destrutivo, de fixar ilusões necessárias à vida, mas também deve nos resgatar das mesmas. Logo, é nesse contexto que o autor afirma que “... só como fenômeno estético a existência e o mundo podem justificar-se eternamente” (NIETZSCHE, 2007, p. 44). 67UNIDADE IV Filosofia Contemporânea Apolo é retratado como a divindade plasmadora, isto é, que joga luz ao existente para poder classificá-lo e conhecê-lo, além disso é ligada a ideia de comedimento e de temperança moral. Já Dionísio representa esse o eterno devir confuso da existência, repre- senta a animalidade e irracionalidade da conduta humana, como vínculo do indivíduo com a natureza caótica e indistinguível da existência. Para o autor, essas divindades não são con- traditórias, mas apenas contrárias. Logo, Apolo e Dionísio representam potências humanas díspares, mas que não se anulam, pelo contrário, podem ser empregadas lado a lado para poder formular uma visão mais completa da realidade. Sendo assim, somos habilitados a afirmar que existe uma reformulação, no limite uma recusa, aos aspectos conceituais de objetividade e subjetividade. Afirmamos de duas formas: a primeira fazendo referência ao indivíduo como destituído de subjetividade ou de uma ideia de sujeito; em segundo no nível da concepção estética-ética que necessita de uma formulação significativa que extrapola as concepções modernas de objetividade e subjetividade. Em relação ao primeiro aspecto que salientamos, acerca da falta de um sujeito pe- rante, afirmamos isso na medida em que o artista – bem como o ser humano em geral – são apenas veículos da vontade que busca se realizar através dessas pulsões cósmicas, que na concepção helenística são representados pelo apolíneo e pelo dionisíaco. Logo, não existe a fixação de uma verdade, pois a realidade é um eterno devir do espaço e do tempo, o que culmina em uma falta inerente de sentido para vida. Desse modo, o ser humano busca criar ilusões, para poder sobreviver à inexorabilidade da vida e tentar se compreender no interior da mesma. Sendo assim, não pode haver a fixação de um indivíduo ou desujeito que não seja uma ilusão criada, do mesmo modo essa criação é apenas o reflexo da vontade – como uma pulsão cósmica – que quer se representar para poder se compreender. Agora, sobre o segundo elemento que elencamos, podemos afirmar que ele é derivado dessa concepção de criação de uma metafísica, que apontamos no parágrafo anterior. Isso assim se dá pelo seguinte fato: ao considerarmos nós mesmos e o mundo como destituídos de um sentido inerente – pelo fato de estarmos dispostos na inexorabili- dade do devir – faz-se necessário que edifiquemos as ilusões que irão compor nossa vida. Para realizar tal feito, faz-se necessário criar um conjunto de concepções que se entendam como criações propriamente ditas. Dito de outra forma, ao observarmos a cultura helênica, Nietzsche nos aponta que todo o conjunto de crenças e tradições foi fixado pelos gênios artísticos (no caso a épica de Homero e poesia lírica de Arquíloco). Desse modo, o autor apresenta que toda a cultura desse povo foi fundamentada de maneira estética, ou seja, que eles possuíam a noção de que suas crenças e suas condutas foram pré-estabelecidas como ilusões estético-éticas. 68UNIDADE IV Filosofia Contemporânea Para poder realizar tal feito, foi necessário erigir figuras oníricas e de embria- guez para poder representar e afirmar a vida, representações que escapam de uma lógica operatória, como os conceitos de objetividade e subjetividade, que articularam o pensamento moderno. Para o pensamento Nietzschiano as figuras de Apolo e Dionísio se unem em uma expressão artística, ainda na antiguidade grega, culminando na expressão artística que melhor plasmaria a figura do Uno-primordial. Tal gênero artístico foi a tragédia clássica. Como vimos, o autor retratou as artes apolíneas como essencialmente plasmadoras - com a capacidade de individualizar e diferenciar os elementos da composição da obra -, já as obras dionisíacas são as representantes da potência inebriante da vontade, agora a tragédia será tida como a maior criação artística por poder reunir essas duas figuras. A estrutura da tragédia grega geralmente era composta por diálogos entre as personagens e partes onde haviam cantos corais com instrumentos já descritos. Era muito comum que a tragédia fosse composta da seguinte maneira: prólogo - diálogo -, primeiro estásimo - coro -, primeiro ato, segundo estásimo, segundo ato, terceiro ato e êxodo - saída do coro no canto final. Além disso, as tragédias eram encenadas nas festividades dionisíacas, como modo de se honrar as divindades. Nietzsche (2007) então caracteriza a tragédia como a reunião das duas potências naturais citadas, pois se encontram em harmonia a potência plasmadora de apolo - representada nos diálogos e nas personagens das peças - e a embriaguez dionisíaca - na utilização explícita da música utilizada em seu culto para representar o Uno-primordial da existência. Portanto, aqui teríamos a forma artística mais elevada, pois seria a narrativa que exprimiu de forma mais clara a irracionalidade e a ambiguidade da existência humana no devir. Entretanto, nós podemos nos perguntar, qual foi o motivo que levou Nietzsche a elaborar essa teoria. Tal concepção se levanta como uma crítica à cultura lógica e racional do ocidente, implementada por Sócrates e que se estende até hoje. O que buscamos apon- tar em nosso estudo é a recusa que Nietzsche parece ter para com a pretensa posse de verdade dos conceitos filosóficos, lógicos e científicos. Isso, assim se daria, pelo fato de não haver verdades absolutas, pois a existência se dá no devir. Logo existem apenas ilusões que permeiam a vida humana, não mais verdades ou dogmas que explicitam, recortam e demonstram a composição cósmica e Una da realidade, para entregar uma ilusão (nesse caso o conhecimento racional) que não se reconhece como ilusão. Podemos perceber que o restante do conteúdo exposto em O Nascimento da Tra- gédia busca delimitar qual foi o motivo pelo qual a visão trágica do mundo – que contempla 69UNIDADE IV Filosofia Contemporânea o perfeito equilíbrio das forças destruidoras e plasmadoras necessárias para que o ser humano suporte a existência – veio a decair. As figuras suscitadas foram do já citado Sócra- tes, como o representante da filosofia, do logos e do comedimento, além do tragediógrafo Eurípides. O nome desse dramaturgo é emblemático para Nietzsche, pois ele foi conside- rado um dos grandes expoentes da última geração de grandes tragediógrafos clássicos, ligados às festividades dionisíacas que ocorriam em Atenas. Eurípedes é conhecido por seus diálogos, que relegam as personagens humanas ao protagonismo da ação trágica. Sendo assim, o autor de peças substitui o papel aterrorizador do futuro revelado apenas às divindades, para o eixo do discurso lógico e concatenado entre as personagens humanas. Tal influência racional, plasmadora ou apolínea, se quisermos assim afirmar, é atribuída, por Nietzsche, à figura de Sócrates. Logo, após a contaminação e o fim do fenômeno trágico, toda a história ocidental deu primazia ao discurso racional, deixando de lado as potências destruidoras do eterno vir-a-ser que compõem a realidade. Tal é o motivo que levou Nietzsche a redigir seu primeiro texto, criticar a racionalidade e a noção dogmática de uma verdade plena que não se aplica em mundo caótico. Apenas se aplica como uma narrativa, como uma ilusão incompleta. Bem, nós podemos levantar em nosso estudo o questionamento de como Nietzsche, através de seu estudo sobre o apolíneo e sobre o dionisíaco, pode reformular a maneira pela qual podemos operar conceitos e significações. Isto é, o argumento nietzschiano fundamenta uma nova forma de pensar, que busca escapar das dicotomias de conceitos como sujeito e objeto. Realizando tal feito o autor traz para sua época todo um espectro de pensamento sobre as concepções clássicas e modernas de filosofia e ciência. Mesmo que sua primei- ra obra se baseie muito em concepções schopenhauerianas, toda a parte que concerne à questão da cultura como criação, ou ilusão, que visa erigir significados que deem sentido a vida a partir de significações abertas, plásticas, que tendem a se reconhecer como ideias fixadas e que exigem a contrariedade e a ambivalência para se fazerem ser entendidas como suficientes para a vida como um todo. Fica aqui levantada a questão de como se poderia pensar a recusa da dicotomia moderna entre objetividade e subjetividade na primeira obra de Nietzsche, e assim uma abertura a trabalhos futuros acerca de tal temática. Bem aluno(a), como podemos observar, Nietzsche é um autor com uma vasta bagagem conceitual, utilizando conceitos filosóficos, científicos e diversas referências da literatura universal. Podemos verificar também que uma das maiores marcas de seu discurso é a crítica ao pensamento universal, seja na área que for. Sendo assim, podemos nos perguntar, como um filósofo se propõe a criticar toda a filosofia que veio antes de 70UNIDADE IV Filosofia Contemporânea si? Em realidade nós podemos notar que o autor direciona seu discurso principalmente a suposta plenitude da razão humana. Como vimos nas últimas unidades, a modernidade teria “retomado” os pressupostos filosóficos da antiguidade clássica desde o renascimento, elevando a razão humana e o sujeito a lugares nunca antes alcançados. Verificamos como as ciências proliferaram nesse período histórico. Além disso, ficou manifesto, principalmente, como o iluminismo a urgência de um projeto político e pedagógico universal, poderíamos até falar que a modernidade deixou um legado otimista, erguido sobre a égide da razão. Todavia, muitas questões surgiram após a modernidade sobre a suposta superioridade da e tal otimismo que acompanharia a mesma. O século XIX foi marcado por inúmeros acontecimentos, a expansão do neoco- lonialismo, os efeitos da revolução industrial, a expansão do capitalismoe o crescimento exponencial das cidades. Todos esses acontecimentos, guiados pelo pura racionalidade moderna, levaram a complicados problemas sociais: mesmo com a modernização da pro- dução a desigualdade persiste entre as nações europeias; diversas greves trabalhistas eclodiram na Europa; os continentes africano e asiático foram quase que completamente subjugados pela conduta imperialista das maiores nações europeias. Na teoria, as mu- danças provocadas pelo pensamento racional da modernidade levaram o sujeito a novos modos de subjugação. O estandarte da razão nada mais fez que perpetuar os problemas da sociedade moderna, ao invés de ultrapassá-los. Até as ciências caíram no mesmo problema, como vimos o mecanicismo científico pregava que a partir de um ponto delimitado, todos os segredos do universo seriam desco- bertos. Entretanto, a eterna promessa da ciência de poder desvelar toda a realidade nunca foi cumprida, não sendo pelo fato de ser uma tarefa muito grande, mas sim pelo fato do ser humano não deter o controle da natureza. A precisão plena do conhecimento nunca atingiu 100% de eficácia, no limite, nunca será alcançada. O que resultou da herança racional da modernidade, bem como de seu otimismo ingênuo, foram novas formas de explorar e subjugar a natureza e o sujeito. É dentro desse contexto que Nietzsche elaborou seu pensamento na segunda metade do século XIX. Após verificar a ruína da plenitude do discurso racional, como ele nunca pôde suprir as demandas da realidade, foi preciso repensar outra narrativa para que o ser humano pudesse dar sentido à sua existência. Estamos inseridos no sistema da transitoriedade, onde a constante é a própria mudança. Logo, faz-se necessário formular um sistema de valores que contemple a irracionalidade da própria existência. É mais útil aprender a lidar com a tragédia da vida do que buscar evitar a mesma. Ao evitarmos de