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Bases da Anestesia Prof. Dr. Artur Pereira Introdução Anestesia: estado de insensibilidade induzida a dor, com ou sem inconsciência; Objetivo: possibilitar procedimentos cirúrgicos e diagnósticos sem sofrimento ao paciente; Classificação: anestesia geral, regional e local. Pré-História e Antiguidade • Uso de ervas e plantas medicinais como papoula (ópio) e beladona; • Vinhos e bebidas alcoólicas como sedativos. Idade Média e Renascimento Uso do “álcool soporífero” e de misturas de ervas como o "Esponja Soporífera". Cirurgia sem anestesia era comum, levando a altos índices de mortalidade. Primeiro uso documentado de ópio na Medicina Islâmica (Avicena, século XI). Revolução no Século XIX • 1842: Crawford Long utiliza éter sulfúrico em cirurgia experimental. • 1844: Horace Wells experimenta óxido nitroso para extração dentária. • 1846: William Morton demonstra o uso do éter em cirurgia no Massachusetts General Hospital. • 1847: James Simpson introduz o clorofórmio como anestésico inalado. Inovações no Século XX • Introdução dos anestésicos locais: Cocaína (Karl Koller, 1884). • Desenvolvimento de bloqueios regionais por August Bier (1908). • Barbitúricos como indutores anestésicos: Tiopental (1934). • Avanço na monitorização intraoperatória. • Desenvolvimento de novos agentes voláteis e intravenosos. Anestesia Moderna Agentes voláteis mais seguros: Sevoflurano, Desflurano, Isoflurano. TIVA (Anestesia Total Intravenosa) com Propofol e Remifentanil. Bloqueios guiados por ultrassom. Melhorias na segurança do paciente com monitorização multimodal. Principais Classes Farmacológicas Hipnóticos e Indutores da Anestesia • São utilizados para induzir e manter a anestesia geral. • Podem ser administrados por via intravenosa ou inalatória. Fármaco Dose de Indução (IV) Observações Propofol 1,5 - 2,5 mg/kg Indução rápida, usado em TIVA. Causa hipotensão. Etomidato 0,2 - 0,3 mg/kg Menos depressor cardiovascular. Pode causar mioclonias. Tiopental 3 - 5 mg/kg Ultrarrápido, pouco usado atualmente. Depressor cardiovascular. Ketamina 1 - 2 mg/kg Estimula sistema cardiovascular. Preserva reflexos. Usado em emergência. Anestésicos Inalatórios (manutenção da anestesia) •Sevoflurano: Baixa irritação das vias aéreas. •Desflurano: Rápida indução e recuperação. •Isoflurano: Mais utilizado em cirurgias longas. Opioides (Analgésicos Potentes) • Utilizados para analgesia intra e pós- operatória. Fármaco Dose (IV) Observações Fentanil 1 - 2 mcg/kg Efeito rápido, curta duração. Sufentanil 0,3 - 0,5 mcg/kg 5-10x mais potente que fentanil. Remifentanil 0,05 - 0,2 mcg/kg/min Metabolismo ultrarrápido, usado em TIVA. Morfina 0,05 - 0,1 mg/kg Uso em dor pós-operatória, ação prolongada. Bloqueadores Neuromusculares (Relaxantes Musculares) • Facilitam a intubação e relaxamento muscular cirúrgico. Fármaco Dose de Intubação (IV) Tempo de Ação Observações Rocurônio 0,6 - 1,2 mg/kg 30 - 60 min Pode ser revertido com Sugammadex. Vecurônio 0,1 mg/kg 30 - 40 min Excreção hepática e renal. Atracúrio 0,5 mg/kg 20 - 35 min Metabolismo independente do fígado/renal. Cisatracúrio 0,15 - 0,2 mg/kg 30 - 40 min Indicado em pacientes críticos. Anestésicos Locais • Utilizados em anestesia regional e local. Fármaco Dose Máxima sem Adrenalina Dose Máxima com Adrenalina Duração da Ação Lidocaína 3 mg/kg 7 mg/kg 60 - 120 min Bupivacaína 2,5 mg/kg 3 mg/kg 4 - 8 h Ropivacaína 3 mg/kg 3,5 mg/kg 4 - 8 h Prilocaína 6 mg/kg 8 mg/kg 1 - 3 h Adjuvantes • Fármacos auxiliares que otimizam a anestesia. Fármaco Indicação Dose Usual (IV) Observações Midazolam Sedação pré- operatória 0,02 - 0,05 mg/kg Benzodiazepínico de curta ação. Dexmedetomidina Sedação 0,2 - 0,7 mcg/kg/h Menos depressor respiratório. Ondansetrona Controle de náusea 4 mg Antiemético mais utilizado. Sugammadex Reversão de bloqueio neuromuscular 2 - 4 mg/kg Específico para rocurônio e vecurônio. Tipos de anestesia Anestesia Geral •O paciente fica inconsciente e sem percepção da dor. •Pode ser induzida por via intravenosa (TIVA - Total Intravenous Anesthesia) ou por agentes inalatórios. •Fármacos utilizados: •Indutores: Propofol, Etomidato, Tiopental •Manutenção: Sevoflurano, Isoflurano, Desflurano •Analgesia: Opioides (Fentanil, Remifentanil, Sufentanil) •Bloqueadores neuromusculares: Rocurônio, Succinilcolina Mecanismo de ação Fonte: CARREGARO, A. (2020). Mecanismo de ação Fonte: CARREGARO, A. (2020). Mecanismo de ação Fonte: CARREGARO, A. (2020). Anestesia Regional •Bloqueia a transmissão nervosa em uma região do corpo sem afetar a consciência. •Principais técnicas: •Raquidiana (Subaracnóidea): Injeta anestésico local no líquor, usada em cirurgias ortopédicas, ginecológicas e cesarianas. •Peridural: Similar à raquidiana, mas o anestésico é administrado no espaço peridural, permitindo ajuste da dose. •Bloqueios de nervos periféricos: Injeção ao redor de nervos específicos, como bloqueios do plexo braquial para cirurgias no braço. •Fármacos utilizados: Bupivacaína, Ropivacaína, Lidocaína, Levobupivacaína. Anestesia Local •Aplicação direta do anestésico em uma área específica para insensibilizar temporariamente. •Usada em procedimentos menores, como suturas e pequenas cirurgias dermatológicas. •Fármacos utilizados: Lidocaína, Prilocaína, Mepivacaína, Articaína. Sedação •Estado intermediário entre vigília e anestesia geral, mantendo o paciente consciente, mas relaxado e sem dor. •Pode ser leve, moderada ou profunda, dependendo do nível de depressão do sistema nervoso central. •Fármacos utilizados: •Sedativos: Midazolam, Dexmedetomidina, Propofol •Analgesia: Opioides (Fentanil, Remifentanil) Classificação ASA (American Society of Anesthesiologists) • A Classificação ASA é um sistema utilizado mundialmente para estratificar o risco anestésico dos pacientes com base em seu estado físico antes da cirurgia. Foi desenvolvida pela American Society of Anesthesiologists e ajuda na tomada de decisões anestésicas, escolha da técnica anestésica e previsão de complicações perioperatórias. Importância Clínica da ASA Guia na escolha da técnica anestésica e monitorização intraoperatória. Indica risco de complicações e necessidade de UTI no pós-operatório. Influencia a decisão entre anestesia geral, regional ou sedação. • ASA I – Paciente saudável • Sem doenças sistêmicas, metabólicas ou infecciosas. Não fuma, não consome álcool excessivamente. Exemplo: Jovem saudável sem comorbidades que fará cirurgia eletiva. • ASA II – Doença sistêmica leve • Patologia controlada, sem limitação funcional. Pode incluir: • Hipertensão controlada (sem danos a órgãos-alvo). • Diabetes tipo 2 sem complicações. • Obesidade leve a moderada (IMC 30-39,9 kg/m²). • Tabagismo leve ou consumo social de álcool. Exemplo: Paciente hipertenso controlado, sem outra comorbidade. • ASA III – Doença sistêmica grave, mas controlada • Limitação funcional importante, mas sem risco iminente de morte. Pode incluir: • Diabetes com complicações (neuropatia, nefropatia). • Hipertensão arterial com lesão de órgão-alvo. • Doença pulmonar crônica moderada. • IMC ≥ 40 kg/m² (obesidade mórbida). • Insuficiência renal crônica sem diálise. Exemplo: Paciente com DPOC que usa oxigênio domiciliar. • ASA IV – Doença sistêmica grave, ameaçadora à vida • Alto risco de morte, mesmo com tratamento. Pode incluir: • Insuficiência cardíaca congestiva classe III-IV. • Doença pulmonar grave com hipoxemia constante. • Insuficiência renal crônica em diálise. • Doença hepática avançada (cirrose descompensada). Exemplo: Paciente com angina instável ou choque séptico. • ASA V – Paciente moribundo, com expectativa de vida• Choque irreversível. Exemplo: Paciente politraumatizado em choque hemorrágico. • ASA VI – Morte cerebral, para doação de órgãos • Paciente já foi declarado morto, mas mantém funções cardiovasculares para transplante. Referências Bibliográficas BRITO, Sérgio T. Anestesiologia: fundamentos e prática clínica. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. CAVALCANTI, Francisco F. Anestesia e analgesia: princípios e práticas. 1. ed. São Paulo: Atheneu, 2015. DORLAND, W. A. Dorland's Illustrated Medical Dictionary. 32. ed. Philadelphia: Saunders, 2011. GUERRERO, Reinaldo A. Anestesia: princípios e prática. São Paulo: Manole, 2018. MARTIN, Terry C.; SHEEHAN, Daniel. Anesthesia: A Comprehensive Review. 2. ed. St. Louis: Elsevier, 2016. SINGER, Michael. Anesthesia and the ICU. 4. ed. New York: Springer, 2019. SWANSON, Timothy D. Principles of Anesthesia. 1. ed. New York: McGraw-Hill Education, 2015. WILKES, Andrew. Essentials of Anesthesia: History, Techniques, and Pharmacology. 1. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2014. Slide 1: Bases da Anestesia Slide 2: Introdução Slide 3: Pré-História e Antiguidade Slide 4: Idade Média e Renascimento Slide 5 Slide 6: Revolução no Século XIX Slide 7: Inovações no Século XX Slide 8: Anestesia Moderna Slide 9: Principais Classes Farmacológicas Slide 10: Hipnóticos e Indutores da Anestesia Slide 11: Anestésicos Inalatórios (manutenção da anestesia) Slide 12: Opioides (Analgésicos Potentes) Slide 13: Bloqueadores Neuromusculares (Relaxantes Musculares) Slide 14: Anestésicos Locais Slide 15: Adjuvantes Slide 16: Tipos de anestesia Slide 17: Anestesia Geral Slide 18: Mecanismo de ação Slide 19: Mecanismo de ação Slide 20: Mecanismo de ação Slide 21: Anestesia Regional Slide 22: Anestesia Local Slide 23: Sedação Slide 24: Classificação ASA (American Society of Anesthesiologists) Slide 25 Slide 26: 📌 Importância Clínica da ASA Slide 27 Slide 28 Slide 29 Slide 30 Slide 31 Slide 32 Slide 33: Referências Bibliográficas