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FARMACOBOTÂNICA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar as principais normas relacionadas aos fitoterápicos. > Definir as diferenças entre medicamentos fitoterápicos (MFs) e produtos tradicionais fitoterápicos (PTFs). > Reconhecer os aspectos importantes para controle de qualidade, compro- vação de efetividade e segurança de fitoterápicos. Introdução O mercado de fitoterápicos tem apresentado um crescimento exponencial no Brasil, tendo faturado R$ 2,3 bilhões em 2018, o que representa 2,2% do mercado farmacêutico total (RIBEIRO, 2019). De maneira semelhante ao que acontece com os medicamentos sintéticos, os fitoterápicos devem ser submetidos a um rigoroso controle de qualidade durante todo o seu processo de produção antes de chegarem ao consumidor final. Neste capítulo, você vai conhecer as principais resoluções e instruções norma- tivas relacionadas aos fitoterápicos, bem como aspectos fundamentais a serem considerados para a avaliação da qualidade, da segurança e da efetividade desses medicamentos. Além disso, serão apresentadas as diferenças entre MFs e PTFs, especialmente as relacionadas ao seu registro. Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos Marcella Gabrielle Mendes Machado Principais normas relacionadas aos fitoterápicos O fitoterápico é definido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (2021, p. 11) como: [...] o produto obtido exclusivamente de matéria-prima ativa vegetal (compreende a planta medicinal, ou a droga vegetal ou o derivado vegetal), exceto substâncias isoladas, com finalidade profilática, curativa ou paliativa, podendo ser simples, quando o ativo é proveniente de uma única espécie vegetal medicinal, ou com- posto, quando o ativo é proveniente de mais de uma espécie vegetal medicinal. O Brasil tem normas específicas para o registro de fitoterápicos desde a Portaria nº 22, de 30 de outubro de 1967, do extinto Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina e Farmácia (CARVALHO et al., 2012). A partir da dé- cada de 1980, o Ministério da Saúde passou a incentivar como prioridade o estudo das plantas medicinais para aplicação clínica. Em 2006, a fitoterapia foi inserida no Sistema Único de Saúde (SUS), e a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos foi regulamentada pelo Decreto nº 5.813, de 22 de junho de 2006 (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 2021). A norma vigente que dispõe sobre o registro de MFs e o registro e a notifica- ção de PTFs é a RDC nº 26, de 13 de maio de 2014. O registro de medicamentos corresponde a um instrumento que o Ministério da Saúde utiliza para ins- crever, previamente à comercialização, o produto no órgão ou na entidade competente, após uma ampla avaliação de requisitos técnico-científicos (como eficácia, segurança e qualidade) e de requisitos de caráter jurídico- -administrativo (BRASIL, 2014a). A RDC nº 26/2014 dispõe sobre a documentação necessária para o regis- tro, que inclui relatório técnico, relatório de produção, relatório de controle de qualidade e relatório de segurança e eficácia. Além disso, apresenta informações quanto à renovação do registro e da notificação, assim como as informações que devem estar nas embalagens, nas bulas e nos folhetos informativos dos MFs (BRASIL, 2014a). Já as informações a serem disponibi- lizadas no folheto informativo do PTF devem atender aos requisitos da RDC nº 66, de 26 de novembro de 2014 (BRASIL, 2014a). Outra norma específica para MFs é a RDC nº 38, de 18 de junho de 2014, que dispõe sobre a realização de petições pós-registro de MFs e PTFs, es- tabelecendo os documentos necessários e os ensaios exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (BRASIL, 2014b). Um guia para a realização de Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos2 alterações, inclusões, notificações e cancelamentos pós-registro de fitoterá- picos foi estabelecido pela RE nº 91, de 16 de março de 2004 (BRASIL, 2004). Quanto à fabricação de PTFs, esta é regulada pela RDC nº 13, de 14 de março de 2013, em que são estabelecidos os requisitos mínimos para o cumprimento das boas práticas de fabricação de PTFs (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 2018). Há também instruções normativas relacionadas aos fitoterápicos: � a IN nº 2, de 13 de maio de 2014, que publica a lista de MFs de registro simplificado e a lista de PTFs de registro simplificado (BRASIL, 2014c); � a IN nº 4, de 18 de junho de 2014, que determina a publicação do Guia de orientação para registro de medicamento fitoterápico e registro e notificação de produto tradicional fitoterápico (BRASIL, 2014d); � a IN nº 5, de 18 de junho de 2014, que dispõe sobre os procedimentos relacionados ao protocolo do Histórico de Mudanças do Produto e define o prazo de análise das petições pós-registro de MFs e PTFs, com base na RDC nº 38, de 18 de junho de 2014, que dispõe sobre a realização de petições pós-registro de MFs e PTFs, e dá outras provi- dências (BRASIL, 2014b, 2014e). Além dessas normas específicas, há uma série de normas gerais que de- vem ser atendidas por fabricantes de MFs e PTFs, como pode ser observado no Quadro 1. Quadro 1. Normas gerais aplicadas a MFs e PTFs Norma Descrição Lei nº 5.991, de 17 de dezembro de 1973 Dispõe sobre o controle sanitário do comércio de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e correlatos, e dá outras providências. Lei nº 6.360, de 23 de setembro de 1976 Dispõe sobre a vigilância sanitária a que ficam sujeitos os medicamentos, as drogas, os insumos farmacêuticos e correlatos, cosméticos, saneantes e outros produtos, e dá outras providências. (Continua) Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos 3 Norma Descrição RE nº 572, de 5 de abril de 2002 Estabelece que os medicamentos contendo o excipiente corante tartrazina (amarelo FD&C nº 5) devem conter na bula e no cartucho (embalagem externa), de forma claramente visível e destacada, o seguinte aviso: “Este produto contém o corante amarelo de tartrazina, que pode causar reações de natureza alérgica, entre as quais asma brônquica, especialmente em pessoas alérgicas ao ácido acetil salicílico”. RDC nº 305, de 14 de novembro de 2002 Proíbe o ingresso e a comercialização de matéria- prima e produtos acabados, semielaborados ou a granel, para uso em seres humanos, cujo material de partida seja obtido a partir de tecidos/fluidos de animais ruminantes, relacionados às classes de medicamentos, cosméticos e produtos para a saúde. RDC nº 68, de 28 de março de 2003 Estabelece condições para importação, comercialização e exposição ao consumo dos produtos incluídos na RDC nº 305/2002. RE nº 1.548, de 23 de setembro de 2003 Dispõe sobre a publicação das categorias de risco de fármacos destinados às mulheres grávidas. RE nº 1, de 29 de julho de 2005 Guia para a realização de estudos de estabilidade. Portaria nº 971, de 3 de maio de 2006 Aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no SUS. RDC nº 96, de 17 de dezembro de 2008 Dispõe sobre a propaganda, a publicidade, a informação e outras práticas cujo objetivo seja a divulgação ou a promoção comercial de medicamentos. RDC nº 4, de 10 de fevereiro de 2009 Dispõe sobre as normas de farmacovigilância para os detentores de registro de medicamentos de uso humano. RDC nº 37, de 6 de julho de 2009 Trata da admissibilidade das farmacopeias estrangeiras. RDC nº 47, de 8 de setembro de 2009 Estabelece regras para elaboração, harmonização, atualização, publicação e disponibilização de bulas de medicamentos para pacientes e para profissionais de saúde. (Continuação) (Continua) Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos4 Norma Descrição RDC nº 71, de 22 de dezembro de 2009 Estabelece regras para a rotulagem de medicamentos. RDC nº 27, de 17 de maio de 2012 Dispõe sobre os requisitos mínimos para a validação de métodos bioanalíticos empregados em estudos com fins de registro e pós-registro de medicamentos.Decreto nº 8.077, de 14 de agosto de 2013 Regulamenta as condições para o funcionamento de empresas sujeitas ao licenciamento sanitário e o registro, o controle e o monitoramento, no âmbito da vigilância sanitária, dos produtos de que trata a Lei nº 6.360/1976, e dá outras providências. RDC nº 18, de 4 de abril de 2014 Dispõe sobre a comunicação à Anvisa dos casos de descontinuação temporária e definitiva de fabricação ou importação de medicamentos, reativação de fabricação ou importação de medicamentos, e dá outras providências. RDC nº 31, de 29 de maio de 2014 Dispõe sobre o procedimento simplificado de solicitações de registro, pós-registro e renovação de registro de medicamentos genéricos, similares, específicos, dinamizados, fitoterápicos e biológicos, e dá outras providências. RDC nº 59, de 10 de outubro de 2014 Dispõe sobre os nomes dos medicamentos, seus complementos e a formação de famílias de medicamentos. RDC nº 69, de 8 de dezembro de 2014 Dispõe sobre as boas práticas de fabricação de insumos farmacêuticos ativos. RDC nº 9, de 20 de fevereiro de 2015 Dispõe sobre o regulamento para a realização de ensaios clínicos com medicamentos no Brasil. Guia para a condução de estudos não clínicos de toxicologia e segurança farmacológica necessários ao desenvolvimento de medicamentos. RDC nº 98, de 1º de agosto de 2016 Dispõe sobre os critérios e procedimentos para o enquadramento de medicamentos como isentos de prescrição e o reenquadramento como medicamentos sob prescrição, e dá outras providências. IN nº 11, de 29 de setembro de 2016 Dispõe sobre a lista de medicamentos isentos de prescrição. (Continuação) (Continua) Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos 5 Norma Descrição RDC nº 166, de 24 de julho de 2017 Dispõe sobre a validação de métodos analíticos e dá outras providências. RDC nº 234, de 20 de junho de 2018 Dispõe sobre a terceirização de etapas de produção, de análises de controle de qualidade, de transporte e de armazenamento de medicamentos e produtos biológicos, e dá outras providências. RDC nº 235, de 21 de junho de 2018 Dispõe sobre alterações e inclusões de controle de qualidade no registro e pós-registro de medicamentos dinamizados, fitoterápicos, específicos e produtos biológicos. RDC nº 301, de 21 de agosto de 2019 Dispõe sobre as diretrizes gerais de boas práticas de fabricação de medicamentos. Fonte: Adaptado de Agência Nacional de Vigilância Sanitária (2018). Nesta seção, você conheceu normas gerais e específicas que regulamen- tam, entre outros aspectos, a fabricação, o registro e a comercialização de MFs e PTFs no Brasil. A seguir, vamos apresentar as principais diferenças entre os MFs e os PTFs. Medicamentos fitoterápicos e produtos tradicionais fitoterápicos Segundo a RDC nº 26/2014, são considerados MFs os produtos industrializados obtidos com emprego exclusivo de matérias-primas ativas vegetais cuja segurança e eficácia sejam fundamentadas em evidências clínicas, sendo caracterizados pela constância de sua qualidade. Já os PTFs são os produtos obtidos com emprego exclusivo de matérias-primas ativas vegetais cuja segurança e efetividade sejam fundamentadas na tradicionalidade de seu uso (BRASIL, 2014a). Essa divisão visa a esclarecer ao consumidor se o produto industrializado que ele está utilizando passou por testes clínicos de segurança e eficácia ou se foi aprovado por tempo de uso seguro e efetivo. O Quadro 2 apresenta algumas diferenças entre os MFs e os PTFs. (Continuação) Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos6 Quadro 2. Diferenças entre os fitoterápicos tratados pela RDC nº 26/2014 MF PTF Comprovação de segurança e eficácia/ efetividade Fundamentada em estudos clínicos Fundamentada em tempo de uso Boas práticas de fabricação Seguem a RDC nº 301/2019 Seguem a RDC nº 13/2013 Informações dos fitoterápicos para o consumidor final Disponibilizadas na bula Disponibilizadas no folheto informativo Formas de obter a autorização de comercialização junto à Anvisa Obtida por registro ou registro simplificado Obtida por registro, registro simplificado ou notificação Fonte: Adaptado de CEVS (RIO GRANDE DO SUL, 2016). Como você pôde observar no Quadro 2, há diferenças na forma de ob- tenção da autorização de comercialização junto à Anvisa para MFs e PTFs. Os PTFs podem ser autorizados mediante registro, registro simplificado ou notificação. A simplificação do processo de registro é importante porque, ao implicar redução dos custos de fabricação, torna mais fácil para a população o acesso a produtos de origem natural utilizados na medicina tradicional popular (CENTRO REGIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE MEDICAMENTOS, 2019). Embora os PTFs possam ser autorizados mediante registro simplificado ou notificação, seus fabricantes devem ser qualificados e autorizados pela Anvisa, de modo a garantir a qualidade e a autenticidade desses produtos. Nesse sentido, é importante salientar que têm sido comercializadas falsifica- ções de fitoterápicos, o que se torna um problema de saúde pública, uma vez que as versões falsificadas desses produtos podem prejudicar a população (HURTADO; LASMAR, 2014). Veja no Quadro 3 uma lista de alguns PTFs de registro simplificado. Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos 7 Q ua dr o 3. L is ta d e PT Fs d e re gi st ro s im pl if ic ad o re la ci on ad os n a IN n º 2/ 20 14 No m e po pu la r No m en cl at ur a bo tâ ni ca Pa rt e us ad a De ri va do ve ge ta l Al eg aç ão d e us o Re st ri çã o de u so Al ca çu z Gl yc yr rh iz a gl ab ra L . Ra íz es Ex tr at os Ex pe ct or an te � Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. � N ão u til iz ar co nt in ua m en te p or m ai s de s ei s se m an as se m a co m pa nh am en to m éd ic o. Ar ni ca Ar ni ca m on ta na L . Ca pí tu lo fl or al Ex tr at os Eq ui m os es , h em at om as e co nt us õe s � Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. � N ão u sa r e m fe ri m en to s ab er to s. Bo ld o, bo ld o- do -c hi le Pe um us b ol du s M ol in a Fo lh as Ex tr at os Co la go go , c ol er ét ic o, di sp ep si as fu nc io na is e di st úr bi os ga st ro in te st in ai s es pá st ic os Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. Ca lê nd ul a Ca le nd ul a of fic in al is L . Fl or es Ex tr at os Ci ca tr iz an te , an ti- in fl am at ór io Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. (C on tin ua ) Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos8 No m e po pu la r No m en cl at ur a bo tâ ni ca Pa rt e us ad a De ri va do ve ge ta l Al eg aç ão d e us o Re st ri çã o de u so Ca m om ila M at ric ar ia re cu tit a L. Ca pí tu lo s fl or ai s Ex tr at os / tin tu ra � Us o or al : an tie sp as m ód ic o in te st in al , d is pe ps ia s fu nc io na is � Us o tó pi co : an ti- in fl am at ór io Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. Co nf re i Sy m ph yt um o ff ic in al e L. Ra íz es Ex tr at o Ci ca tr iz an te , eq ui m os es , h em at om as e co nt us õe s � Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. � Ut ili za r p or , n o m áx im o, 4 a 6 se m an as /a no . � N ão u til iz ar e m le sõ es ab er ta s. Es pi nh ei ra - sa nt a M ay te nu s ili ci fo lia M ar t. ex R ei ss ., M . a qu ifo liu m M ar t. Fo lh as Ex tr at os Di sp ep si as , c oa dj uv an te no tr at am en to d e ga st ri te e ú lc er a ga st ro du od en al Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. Eu ca lip to Eu ca ly pt us g lo bu lu s La bi ll. Fo lh as Ó leo es se nc ia l/ ex tr at os An tis sé pt ic o da s vi as aé re as s up er io re s e ex pe ct or an te Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. (C on tin ua çã o) (C on tin ua ) Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos 9 No m e po pu la r No m en cl at ur a bo tâ ni ca Pa rt e us ad a De ri va do ve ge ta l Al eg aç ão d e us o Re st ri çã o de u so Ga rr a do d ia bo Ha rp ag op hy tu m pr oc um be ns D C. e x M ei ss n. e H . z ey he ri De cn e Ra íz es se cu nd ár ia s Ex tr at o aq uo so o u hi dr oe ta nó lic o (3 0 a 60 % ) Al ív io d e do re s ar tic ul ar es m od er ad as e do r l om ba r b ai xa ag ud a Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. Gu ac o M ik an ia g lo m er at a Sp re ng ., M . l ae vi ga ta Sc h. B ip . e x Ba ke r Fo lh as Ex tr at os Ex pe ct or an te e br on co di la ta do r Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. M ar ac uj á, pa ss if lo ra Pa ss ifl or a ed ul is S im s Pa rt es a ér ea s Ex tr at os An si ol ít ic o le ve Ve nd a se m p re sc ri çã o m éd ic a. Fo nt e: A da pt ad o de C EV S (R IO G RA N DE D O S UL , 2 01 6) . (C on tin ua çã o) Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos10 Os MFs, por sua vez, são regulamentados com requisitos semelhantes àqueles a que são submetidos outros medicamentos. Isso contribui para que a população esteja mais consciente de que, assim como qualquer medicamento sintético, os MFs também estão relacionados a efeitos adversos, riscos à saúde e interações medicamentosas quando utilizados de forma inadequada (CENTRO REGIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE MEDICAMENTOS, 2019). Outra diferença importante entre MFs e PTFs são as indicações terapêu- ticas. Os MFs são indicados para quadros clínicos específicos, como é o caso, por exemplo, da plantago (Plantago ovata Forssk.). A casca da semente dessa planta é indicada para o tratamento da síndrome do cólon irritável, sendo esse MF vendido sob prescrição médica (RIO GRANDE DO SUL, 2016). Já os PTFs, conforme dispõe a RDC nº 26/2014, não são indicados para distúrbios, doenças, condições ou ações consideradas graves. Além disso, os PTFs não podem conter em sua formulação matérias-primas em concentrações tóxicas conhecidas nem ser administrados pelas vias oftálmica e injetável (BRASIL, 2014a). Controle de qualidade, efetividade e segurança de fitoterápicos Devido ao crescimento do consumo de fitoterápicos pela população brasileira e à crença equivocada de muitos indivíduos de que esses produtos de origem natural não apresentam risco à saúde, é fundamental assegurar a efetivi- dade e a segurança desses medicamentos. Para isso, é necessário garantir a qualidade durante toda a sua produção, o que pode ser feito por meio do monitoramento dos constituintes químicos e da ausência de contaminantes (CARVALHO et al., 2015). Uma exigência crucial para assegurar a qualidade dos fitoterápicos é que os fabricantes sigam as boas práticas de fabricação de medicamentos, cujos requisitos estão especificados na RDC nº 301/2019. As boas práticas de fabricação são aplicadas em todas as fases do ciclo de vida do produto, abrangendo tanto o processo de produção quanto o controle de qualidade, e devem assegurar que os produtos são produzidos e controlados conforme os padrões de qualidade apropriados e estabelecidos para o uso pretendido (BRASIL, 2019). A RDC nº 13/2013 define controle de qualidade como o “[...] conjunto de operações (programação, coordenação e execução) com o objetivo de verificar a conformidade das matérias-primas, materiais de embalagem e produto Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos 11 acabado com as especificações estabelecidas” (BRASIL, 2013, documento on-line). Em linhas gerais, o controle de qualidade de fitoterápicos visa a garantir que a planta correta promova o efeito terapêutico desejado, bem como evitar intoxicações e contaminação microbiológica. Essa mesma resolução estabelece que, para PTFs, devem ser efetuadas análises químicas que possibilitem realizar a qualificação e a quantificação dos constituintes químicos ativos ou não (marcadores). Além disso, é preciso quantificar contaminantes da matéria-prima e do produto acabado, bem como realizar análises microbiológicas que qualifiquem e quantifiquem o nível de contaminação microbiológica em todas as etapas de produção (BRASIL, 2013). A RDC nº 26/2014 define marcador como: [...] substância ou classe de substâncias (ex.: alcaloides, flavonoides, ácidos graxos, etc.) utilizada como referência no controle da qualidade da matéria-prima vegetal e do fitoterápico, preferencialmente tendo correlação com o efeito terapêutico. O marcador pode ser do tipo ativo, quando relacionado com a atividade terapêutica do fitocomplexo, ou analítico, quando não demonstrada, até o momento, sua relação com a atividade terapêutica do fitocomplexo (BRASIL, 2014a, documento on-line). De acordo com o art. 11, da RDC nº 26/2014, o relatório de controle da qualidade deve conter: [...] II — laudo de análise de todas as matérias-primas utilizadas e do produto acabado, contendo o método utilizado, especificação e resultados obtidos; III — referências farmacopeicas consultadas e reconhecidas pela Anvisa para o controle dos IFAV e produto acabado, conforme RDC nº 37, de 6 de julho de 2009, que trata da admissibilidade das farmacopeias estrangeiras, ou suas atualizações; IV — especificações do material de embalagem primária; e V — controle dos excipientes utilizados na produção do medicamento fitoterápico ou do produto tradicional fitoterápico por método estabelecido em farmacopeia reconhecida. Na hipótese de o método não ser estabelecido em farmacopeia reco- nhecida pela Anvisa, devem-se descrever detalhadamente todas as metodologias utilizadas no controle da qualidade (BRASIL, 2014a, documento on-line). A RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007, que dispõe sobre boas práticas de manipulação de preparações magistrais e oficinais para uso humano em farmácias, lista as seguintes exigências para o controle de qualidade de matérias-primas de origem vegetal (BRASIL, 2007): � determinação dos caracteres organolépticos; � determinação de materiais estranhos; Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos12 � pesquisas de contaminação microbiológica (contagem total, fungos e leveduras); � umidade; � determinação de cinzas totais; � avaliação dos caracteres macroscópicos para plantas íntegras ou grosseiramente rasuradas; � avaliação dos caracteres microscópicos para materiais fragmentados ou pó; � determinação da densidade para matérias-primas líquidas de origem vegetal. Para o registro de MFs, além das análises de qualidade, é necessária a comprovação da sua segurança e sua eficácia/efetividade. Isso pode ser feito, conforme o art. 17 da RDC nº 26/2014, por meio de uma das seguintes alternativas (BRASIL, 2014a): � ensaios não clínicos e clínicos de segurança e eficácia; ou � registro simplificado, que deverá ser comprovado por presença na lista de MFs de registro simplificado, conforme IN nº 2/2014, ou suas atualizações; ou presença nas monografias de fitoterápicos de uso bem-estabelecido da Comunidade Europeia elaboradas pelo Comitê de Produtos Medicinais Fitoterápicos (HMPC, do inglês Committee on Herbal Medicinal Products). Já a segurança e a eficácia/efetividade de PTFs devem ser comprovadas, segundo o art. 22 da RDC nº 26/2014, por meio de uma das seguintes alter- nativas (BRASIL, 2014a): � comprovação de uso seguro e efetivo para um período mínimo de 30 anos; ou � registro simplificado, que deverá ser comprovado por presença na lista de PTFs de registro simplificado, conforme IN nº 2/2014, ou suas atualizações; ou presença nas monografias de fitoterápicosde uso tradicional da Comunidade Europeia elaboradas pelo HMPC. Para comprovar a segurança e a eficácia/efetividade do uso tradicional de um MF, é fundamental que haja informações a respeito da dosagem, da via de administração recomendada e do método de preparação (CARVALHO et al., 2015). Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos 13 Neste capítulo, você conheceu as principais normas regulatórias relaciona- das aos fitoterápicos, identificando as diferenças entre MFs e PTFs e podendo refletir sobre aspectos relacionados ao controle de qualidade, à efetividade e à segurança desses produtos. Como vimos, o registro de MFs demanda uma ampla avaliação de requisitos tanto técnico-científicos quanto de caráter jurídico-administrativo, visando a oferecer à população produtos com qua- lidade, eficácia e segurança. Dentre as normas apresentadas, destacam-se a RDC nº 26/2014, que dispõe sobre o registro de MFs e o registro e a notificação de PTFs, e a RDC nº 13/2013, que estabelece os requisitos mínimos para o cumprimento das boas práticas de fabricação de PTFs. Referências AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Consolidado de normas de registro e notificação de fitoterápicos. Brasília: Anvisa, 2018. Disponível em: http://antigo.anvisa. gov.br/documents/33836/2501251/Consolidado_fitoterapicos_2018.pdf. Acesso em: 6 jul. 2022. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Formulário de fitoterápicos: farmacopeia brasileira. 2. ed. Brasília: Anvisa, 2021. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada — RDC nº 13, de 14 de março de 2013. Dispõe sobre as boas práticas de fabricação de produtos tradicionais fitoterápicos. Brasília: Anvisa, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2013/rdc0013_14_03_2013. html. Acesso em: 6 jul. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 26, de 13 de maio de 2014. Dispõe sobre o registro de medicamentos fitoterápicos e o registro e a notificação de produtos tradicionais fitoterápicos. Brasília: Anvisa, 2014a. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/ saudelegis/anvisa/2014/rdc0026_13_05_2014.pdf. Acesso em: 6 jul. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 38, de 18 de junho de 2014. Dispõe sobre a realização de peti- ções pós-registro de medicamentos fitoterápicos e produtos tradicionais fitoterápicos e dá outras providências. Brasília: Anvisa, 2014b. Disponível em: https://bvsms.saude. gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2014/rdc0038_18_06_2014.pdf. Acesso em: 6 jul. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada — RDC nº 67, de 8 de outubro de 2007. Dispõe sobre Boas Práticas de Manipulação de Preparações Magistrais e Oficinais para Uso Humano em farmácias. Brasília: Anvisa, 2007. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/ anvisa/2007/rdc0067_08_10_2007.html. Acesso em: 6 jul. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Di- retoria Colegiada - RDC nº 301, de 21 de agosto de 2019. Dispõe sobre as Diretrizes Gerais de Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos. Brasília: Anvisa, 2019. Disponível em: http://antigo.anvisa.gov.br/documents/10181/5389382/%286%29RDC_301_2019_COMP. pdf/7d991c04-e7a1-4957-aed5-3689c62913b2. Acesso em: 6 jul. 2022. Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos14 BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução-RE nº 91, de 16 de março de 2004. Brasília: Anvisa, 2004. Disponível em: https://bvsms.saude. gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2004/rdc0091_16_03_2004.html. Acesso em: 6 jul. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Nor- mativa nº 02 de 13 de maio de 2014. Publica a “Lista de medicamentos fitoterápicos de registro simplificado” e a “Lista de produtos tradicionais fitoterápicos de registro simplificado”. Brasília: Anvisa, 2014c. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/ saudelegis/anvisa/2014/int0002_13_05_2014.pdf. Acesso em: 6 jul. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Normativa-IN nº 04, de 18 de junho de 2014. Determina a publicação do Guia de orien- tação para registro de Medicamento Fitoterápico e registro e notificação de Produto Tradicional Fitoterápico. Brasília: Anvisa, 2014d. Disponível em: https://bvsms.saude. gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2014/int0004_18_06_2014.pdf. Acesso em: 6 jul. 2022. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução Nor- mativa nº 5, de 18 de junho de 2014. Dispõe sobre os procedimentos relacionados ao protocolo do Histórico de Mudanças do Produto e define o prazo de análise das petições pós-registro de medicamentos fitoterápicos e produtos tradicionais fitoterápicos, com base no disposto na Resolução da Diretoria Colegiada-RDC nº 38, de 18 de junho de 2014, que “Dispõe sobre a realização de petições pós-registro de medicamentos fitoterápicos e produtos tradicionais fitoterápicos e dá outras providências”. Brasília: Anvisa, 2014e. Disponível em: https://www.poderesaude.com.br/novosite/images/ publicacoes_20.06.2014-III.pdf. Acesso em: 6 jul. 2022. CARVALHO, A. C. B. et al. Registro de medicamentos fitoterápicos. Porto Alegre: Medici- naNET, 2015. Disponível em: https://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/6115/ registro_de_medicamentos_fitoterapicos.htm. Acesso em: 6 jul. 2022. CARVALHO, A. C. B. et al. Regulação brasileira em plantas medicinais e fitoterápicos. Revista Fitos, v. 7, n. 1, p. 5-16, 2012. 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Esclarecimentos sobre a regulamentação de industrialização, manipulação, comercialização e registros de insumos, de medicamentos fitoterápicos e de produtos tradicionais fitoterápicos. Porto Alegre: Cevs, 2016. Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos 15 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Aspectos normativos sobre medicamentos fitoterápicos16