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UNIDADE 2 RELAÇÃO PRODUÇÃO CAPITALISTA: EXPANSÃO E CRISE 1. ADAM SMITH E A TEORIA LIBERAL CLÁSSICA mérito para a fundação da Escola Clássica recaiu sobre Adam Smith, apesar de ou- tros economistas terem se destacado, como David Ricardo, Thomas Malthus, James Mill, John Ramsay McCulloch, Nassau William Senior e John Stuart Mill. Não necessariamente concordavam entre si, mas suas teorias estão interligadas por princípios básicos. A Teoria Clássica tem em sua raiz o favorecimento ao capitalismo industrial, em espe- cial o inglês, e suas teorias adequavam-se às necessidades dos capitalistas, pois acre- ditavam que, caso o empresário alcançasse lucro, ajudaria também o Estado (HUBER- MAN, 1986). Os clássicos defendiam que o bem-estar da sociedade estava ligado ao indivíduo, e o governo não deveria regulamentar horários e salários dos trabalhadores, tampouco realizar outras intervenções na economia. Estado deveria apenas preser- var a paz e proteger a propriedade. Conheça a seguir alguns teóricos clássicos da economia: Figura 01. Adam Smith Adam Smith: Um dos economistas mais famosos da Bretanha, é homenageado na nota de 20 libras, onde tem sua imagem impressa. Foi professor de filosofia moral em Glasgow entre 1752 e 1763 e o livro Riqueza das na- ções foi sua principal obra, na qual analisou as ideias de capital, trabalho produtivo e lucro líquido, apesar de ser autor de outros trabalhos menos divulgados ou inhecidos. Smith creditava nas forças do livre comér- cio, suas ideias partem dos conceitos da mão invisível, divisão do trabalho e interesse próprio e, infelizmente, desdobramentos errôneos advêm da teoria 23Figura 03. David Ricardo Thomas Malthus: Autor de An essay on the principle of population 2 (1798), foi um economista de origem britânica, sen- do considerado o pai da demografia porque desen- volveu trabalhos e estudos sobre produção de ali- mentos e o crescimento populacional. Além disso, o teórico defendeu que as regulamentações políticas e administração da propriedade são abomináveis (HUBERMAN, 1986). Figura 02. Thomas Malthus David Ricardo: Outro importante economista clássico, foi conside- rado o successor de Adam Smith. Em 1815, lançou na Inglaterra o livro, An essay on the influence of a low price of corn on the profits of stock, showing the inexpediency of restrictions on importation (Ensaio sobre os lucros, para resumir) e The principles of political economy and taxation, em Utilizando o método lógico-dedutivo, desenvolveu a teoria da renda da terra e aperfeiçoou as do valor-trabalho e do comércio exterior, de modo que seu pensamento continua pujante na teoria econômica. A teoria posta por Adam Smith é estruturada em três partes, a saber: a explanação da ideia de riqueza e de suas causas, a utilização do conceito de riqueza para avaliar os sistemas políticos mercantil e fisiocrático e a apresentação das propostas por ações advindas pela ação do Estado. Para Adam Smith: Mais rica seria a nação que possuísse maior quantidade de itens (objetos úteis com va- lores de uso). O trabalho humano atenderia aos desejos do homem e, com isso, seria a fonte geradora de riqueza. Maior será a produtividade do trabalho se houver excedente de produção de- pendente da divisão social do trabalho. A divisão do trabalho permite economizar tempo na realização das tarefas, porque o ope- rário foca em uma só operação, aumenta sua habilidade executiva e viabiliza o uso espe- cializado de ferramentas, o que tornará mais efetivo o trabalho e excedente de produção. Economia Política 24Relação Produção Capitalista: Expansão e Crise A acumulação de capital é a segunda causa de enriquecimento de uma nação. Está fun- damentada na busca humana em melhorar sua condição de vida. Desse modo, o aumento da fortuna dependerá da forma como o recurso acumulado é investido, já que os indivídu- os tendem a empregar o capital. 2 Ao utilizar o capital para as atividades que mais agregam valor, aumenta, consequente- mente, o valor total da produção da sociedade (riqueza nacional). Pode-se entender que o interesse privado promove, então, o bem geral de uma nação, e isso é entendido como a mão invisível de Adam Smith. Tornar o trabalho dos indivíduos em uma sociedade produtora de riqueza compreende a divisão de tarefa e o número de empregados produtivos, questão na qual estão articula- das as ideias de interesse privado, mão invisível e liberdade natural. Outro expoente da escola clássica foi Thomas Malthus. Em um contexto de revolução industrial inglesa e seus desdobramentos relacionados aos protestos contra a explora- ção da mão de obra trabalhista, o teórico se dedicou em apresentar um teoria que vi- sasse melhorias para a sociedade em que estava inserido destacando e relacionando o crescimento da população, a superprodução fabril e o consumo na dinâmica capitalista. Desse modo, defendia que a causa para a miséria humana seria o aumento populacio- nal, que cresce em razão geométrica, enquanto que a subsistência alimentícia cresce em progressão aritmética. Para o teórico, haveria mais indivíduos para alimentar e a produção alimentícia não seria capaz de suprir tal necessidade. nível populacional deveria situar no mesmo patamar dos meios de subsistência equivalendo-se. Contudo, Malthus não contava com os avanços biotecnológicos para aumentar a pro- dução alimentícia, mas estava certo de que a morte (por meio de epidemias, pestes e pragas) poderia conter o crescimento demográfico. Os costumes morais e os amparos sociais para os operários também foram questionados pelo economista para a manu- tenção do nível populacional, como informou Gennari (2009, p. 03): Nesse aspecto particular, há uma obsessão moral de Malthus contra os tumes da classe operária, principalmente no que tange ao hábito de tomar cerveja. Essas idéias de Malthus inspiraram muitos economistas conserva- dores modernos na elaboração de suas teorias acerca da impossibilidade e inutilidade de uma política de bem-estar social que tivesse no seu cerne a distribuição de renda. Para que distribuir renda se os pobres amorais gasta- riam todo o acréscimo de renda em futilidades, vícios e orgias. Seria melhor manter a renda concentrada pois pessoas frugais iriam poupar o excedente que transformar-se-ia em investimentos e progresso geral da sociedade. Nós na periferia brasileira conhecemos bem as teorias do crescimento do bolo. Segundo Malthus, se por uma subscrição dos ricos, os pobres passassem a receber uma assistência um pouco maior, poder-se-ia imaginar que eles se- riam capazes de viver melhor com um nível de consumo de alimentos maior. Para Malthus esta seria uma conclusão totalmente falsa na medida em que a elevação dos rendimentos dos pobres acarretaria um aumento na demanda por víveres e conseqüentemente uma elevação nos preços dos alimentos. Assim, o que parecia benefício aos pobres se transformaria em malefício para o conjunto da sociedade. Visto isso, no início do século XIX, David Ricardo se destacou na corrente clássica ao analisar o padrão monetário inglês, a Lei do Cereal e as Teorias do Valor e da Distribuição. 25Por volta de 1810, ao apresentar um artigo sobre a política monetária (O preço do ouro: uma prova da depreciação do papel moeda, no periódico Morning Chronicle) com uma viés quantitativista atribuiu inflação de seu período com a descontrolada emissão de moedas em contraponto à teoria vigente, que culpava a inflação pelo aumento dos 2 preços dos cereais (SILVA, 2003). De acordo com seu ponto de vista, havia uma desproporção entre o pro- duto da economia e seu equivalente em moeda. [...] para a obtenção da estabilidade do nível geral de preços, sua recomendação era um retorno ao padrãoouro. Ricardo acreditava que a estabilidade da moeda e dos fluxos de capitais estariam assegurados pelo automatismo inerente ao regime cambial metálico, prescindindo-se da interferência dos governos. Seus adversários (banqueiros, ministros e antibullionistas, de modo geral) não aceitavam a idéia de que havia excessiva emissão de moeda. Para eles, a inflação tinha origem endógena no sistema creditício, nos elevados gastos públicos e na queda das exportações (SILVA, 2003, p. 03). Ricardo partiu da Teoria da Renda Diferencial de Malthus para contrapor as restrições tarifárias à importação dos cereais e os interesses dos rentistas de terra defendendo os industriais. Baseado nos pressupostos de Turgot (Anne Robert Jacques Turgot), ele desenvolveu a Lei Férrea dos Salários, para a qual: [...] trabalhador ganha apenas o salário necessário para manter vivos a ele e a família. preço natural do trabalho [...] depende do preço do alimento, necessidade e conveniências necessárias à manutenção do trabalhador e sua família. Com um aumento no preço dos alimentos e das necessidades, o preço natural do trabalho se Com a queda, o preço natural do trabalho cai (HUBERMAN, 1986, p. 200). Na Teoria da Distribuição ricardiana, o cereal é o único bem produzido na economia e consumido pelos trabalhadores. Essa singela pressuposição facilita a exposição da Teoria da Distribuição, pois permite que todas as variáveis sejam expressas em unida- des físicas, o que teria sido criticado por Malthus pelo fato de que a cesta de bens dos trabalhadores é composta por diversos itens e não apenas um. Com o comentário, Ri- cardo generalizou a Teoria da Distribuição, para o caso de bens, e elaborou uma teoria de preços e se dedicou a ela em seu ensaio. Ricardo, então, distinguiu o preço de mercado do trabalho do preço natural. "O preço do mercado de trabalho é o preço realmente pago por ele, resultado da operação natural da proporção entre a oferta e a procura: o trabalho é caro quando escasso e barato quando abundante" (HUBERMAN, 1986, p. 200). Para os autores clássicos, o comércio mundial deveria ser livre, isento de barreiras internas e externas para estimular a indústria, distribuir o salário de modo eficiente e aumentar a massa geral da produção, mas tal afirmativa sofreu questionamentos por outros estudiosos tradicionais. Outro economista surgiu em meados do século XIX, mais especificamente em 1848, para contrapor as teorias acima citadas e abrilhantar a teoria econômica. Estamos fa- lando de John Stuart, autor de "Princípios de Economia Política", quem perpassou pelas teorias ricardianas e pelas questões sociais europeias. Ele criticava as políticas mer- cantilistas, argumentando que o Estado não deveria acumular metais preciosos, mas Economia Política 26Relação Produção Capitalista: Expansão e Crise sim objetos úteis e necessários. Além de afirmar que o comércio internacional serviria apenas para ampliar a riqueza estatal. Segundo o pensamento de Mill, as leis de produção são semelhantes às das ciências 2 naturais, porque são leis que atuam independentemente da ação humana, ao contrário das leis morais ou sociais, que podem ser alteradas de acordo com os anseios das pessoas. Assim, seria possível alterar a distribuição da riqueza de modo igualitário na sociedade capitalista por meio das ações de suas instituições. Muitos estudiosos da História do Pensamento Econômico (HPE) afirmam que os precei- tos de Mill contribuíram significativamente e teve consequências maiores que o próprio imaginou. Ele se afastou dos clássicos ao analisar o papel do Estado, defendendo sua intervenção na economia, destacou a importância do mesmo em patrocinar a educação. Também defendeu o estado estacionário do crescimento econômico, já que criticava a situação desfavorável da luta humana pela sobrevivência e sua normalidade, assim as agressões à vida social são problemáticas do progresso industrial. A defesa ao estado estacionário também estava relacionada à taxas de juros decres- centes que se acumulam com a especulação cabendo ao Estado tributar uma parcela da renda e investir de modo direcionado e benéfico, como por exemplo na obtenção de alimentos e matéria prima. Ademais, Mill demonstrou ser sensível a essa questão analisando-a e tornando-se o pri- meiro economista político a discutir o comunismo e o socialismo como regimes alternativos ao capitalismo. Contudo, o conflito de classes foi examinado de modo enfático e com maior rigor teórico por Karl Marx. Os pressupostos do teórico serão apresentados a seguir. 1.1. A CLASSE TRABALHADORA E A TEORIA CRÍTICA DE KARL MARX Karl Marx, autor de "O capital análise crítica da produção capitalista", criticou as te- orias clássicas, embora aceitasse alguns dos preceitos clássicos, obteve conclusões diversas. Para ele, o econômico da vida social se manifesta nas relações que os indi- víduos estabelecem entre si para produzir o que necessitam e, partindo desse ponto, criticou a Economia Política. REFLITA Sabia que Marx possuía forte interesse em história e filosofia e estudou direito na Univer- sidade de Berlim? E que ele também recebia suporte e ajuda financeira do amigo Friedrich Engels, com quem publicou diversas obras? objeto de investigação, segundo o princípio marxiano, é a lei de movimento econô- mico da sociedade burguesa, e a essência de qualquer sociedade está baseada nas relações de produção. O foco seria, portanto, as questões materiais (riqueza, pobreza e disputa entre grupos sociais, como os proprietários de terra e camponeses) e o coman- do de recursos produtivos. 27A estrutura conceitual de O capital principia na análise das relações internas da sociedade capitalista, e tal fato se desenvolve no decorrer dos Livros I, e III da referida obra, que analisam, respectivamente, a produção capitalista, o processo de circulação do capital e a consideração do capital em sua expressão externa, isto é, na esfera da competição. Em 2 Marx, o processo de produção de capital apresenta três pontos relevantes: a teoria do valor e do dinheiro, o processo de produção capitalista e a acumulação de capital. Além disso, a célula da riqueza material concebida no modo de produção é a mercadoria. Marx desejava melhorar as condições de vida da sociedade trabalhadora e, sem ser utópico (HUBERMAN, 1986), analisou as forças que modificavam a sociedade, pois desejava saber o que movimentava as rodas da sociedade capitalista. Para ele, o socia- lismo surgiria como resultado das forças definidas que operavam na sociedade, sendo necessária uma classe trabalhadora revolucionária organizada para provocá-lo. Cerne da obra marxiana: o capitalismo se baseia na exploração do trabalho. trabalhador capitalista é explorado como fora o trabalhador da sociedade escravocrata e da sociedade feudal, porém, agora, de maneira disfarçada. Marx partiu da Teoria do Valor-Trabalho posta por David Ricardo (ricardiana), que de- fendia o valor das mercadorias independentemente do total de trabalho necessário para produzi-las. Porém, há uma distinção entre o bem geral e a mercadoria, de modo que o comércio é a troca de trabalho pelo trabalho e o valor de todas as coisas é dado pelo trabalho (HUBERMAN, 1986). Para Marx, o assalariado, na sociedade capitalista, seria o homem livre, isto é, aquele que não é dono dos meios de produção e que ganha a vida a vender a única mercado- ria que possui: o trabalho. A mais-valia, espécie de excedente lucrado pelo capitalista, resolve as indagações de como o explorador é explorado. Huberman (1986, p. 200) resumiu do seguinte modo: sistema capitalista se ocupa da produção de artigos para a venda, ou de mercadorias. valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de traba- lho socialmente necessário encerrado em sua produção. trabalhador não possui os meios de produção (terra, ferramenta, fábricas, etc.). Para viver, ele tem de vender a única mercadoria de que é dono, sua força de trabalho. valor de sua força de trabalho, como o de qualquer mercadoria, é o total necessário à sua reprodução no caso, a soma necessária para mantê-lo vivo. Os salários que lhe são pagos, portanto, serão iguais apenas ao que é necessário à sua manutenção. Mas esse total que recebe, o trabalhador pode produzir em parte de um dia de trabalho. Isso significa que apenas par- te do tempo estará trabalhando para resto do tempo estará trabalhando para o patrão. A diferença entre o que produz é a mais valia. A mais valia fica com o empregador o dono dos meios de produção. É a fonte do lucro, juro, renda as rendas das classes que são donas. A mais-valia é a medida da exploração do trabalho no sistema capitalista. (HUBERMAN, 1986, p. 200). Com isso, após analisar a crescente concentração da riqueza nas mãos de poucos, o poderio econômico dos grandes produtores, o uso crescente da máquina substituindo a mão de obra, a vida miserável da grande massa, as crises e as contradições no sistema, Marx argumentava ser a favor de mudanças na sociedade capitalista por meio Economia Política 28Relação Produção Capitalista: Expansão e Crise Figura 05. Karl Marx da revolução coletiva pelo trabalhador, na qual a propriedade e os meios de produção deveriam ser transferidos dos poucos capitalistas para 2 proletariado produtivo. Huberman (1986) explicou que a burguesia abomi- nava o fim da propriedade privada, uma de suas fontes de renda e meios de produção, e tal classe teia o Estado como seu aliado para manutenção de seus interesses. Mais ainda: qualquer ataque aos meios de produção capitalista, bem como à pro- priedade privada, resistência estatal, até mesmo com a violência. Ao concluir que a mercadoria e o dinheiro seriam as condições preliminares para a existência do ca- pital, Marx descreveria três facetas para o dinhei- ro: medida de valor, meio de circulação e dinheiro Fonte: Wikipedia em si. A medida de valor determinaria o valor das mercadorias. Já o padrão de preços mediria a quantidade de ouro por meio de uma unidade. E o meio de circulação, por sua vez, faria rodar as mercadorias, não deixando a esfera da circulação e sendo frequentemente desarticulado pelo movimento das ma- nufaturas (SANTOS, 2003). Figura 04. Classe trabalhadora A circulação de mercadoria teria como ponto de en- carregando demais classes contro o dinheiro e, para Marx, era a forma mais geral de circulação do capital. Dinheiro e mercadoria se tor- nariam capital quando, na esfera da circulação, en- contrassem a força de trabalho enquanto O capital não é uma mercadoria, mas sim uma re- lação social, e torna-se, em Marx, uma forma de or- ganização social, na qual poucos indivíduos detêm o controle dos meios de produção enquanto massa e capacidade de trabalho. O capital embrenha o processo de trabalho sem alterá-lo, incorporando- O trabalho é intrínseco ao processo de produção capitalista. Assim, a mais-valia pode ser acumulada e utilizada, futuramente, para expandir o processo de produção, ou seja, reprodução ampliada. A FAUT ESPERER Q'EU'JEU BENTOT Como o processo de produção é a unidade entre o Fonte: Wikipedia processo de trabalho e o processo de valorização, as mercadorias não são apenas produtos do traba- lho humano com valores, mas produto do capital, isto é, unidade do valor de uso e de mais-valia. Isso fortalece o fato de o capital englobar todo o processo de trabalho para transformá-lo em sequência, mas o reduz ao seu mero movimento de valorização, o qual cria e recria o processo de trabalho. 29As constantes alterações no processo de trabalho são afirmadas pela mecanização, na qual os instrumentos de trabalho são retirados das mãos do proletário e inseridos em um mecanismo. auge desse processo, para Marx, é a produção de máquinas por máquinas, que ele denominou de base tecnológica própria da produção capitalista. 2 Tem-se agora a máquina utilizando o trabalhador, resultante de um produto competitivo entre capital e trabalho a negação do trabalho pelo capital. As condições e conhe- cimento tornaram-se, então, elementos primordiais para a permanente revolução do processo de trabalho, do modo de produção capitalista e nas relações entre capitalistas e trabalhadores. Isso justifica o destaque da questão tecnológica em Marx, já que a aplicação da tecnologia pode valorizar o capital. Quanto ao sistema de crédito, bem como seu acesso, pode impulsionar os processos de competição e adquirir papel crucial na equalização das taxas de juros ao permitir acumula- ção e deslocamento de montantes de capitais entre setores diversos. Marx considerou que os capitalistas detinham uma mercadoria cujo valor de uso seria dado devido ao fato de ela funcionar como capital produtivo: é o capital-moeda, que equivale a um somatório de valor em forma independente. A alienação da mercadoria é o empréstimo: quem a possui recebe juros e os capitalistas que a detém são denominados de capitalistas do dinheiro. capital-moeda, que existe somente na circulação, pode ser adquirido pelo valor de uso (preço ou valor). Em Marx, o processo de reprodução do capital é dividido em qua- tro passos: os capitalistas do dinheiro alienam um montante de valor aos capitalistas individuais; os capitalistas individuais utilizam-no como capital produtivo para angariar meios de produção e força de trabalho; o processo de produção em si, em que é gerada a mais-valia por meio da venda da produção; e o pagamento do empréstimo pelo capi- talista individual ao capitalista do dinheiro. Figura 06. Esquema da circulação de capital simplificado Circuito Financeiro O Capital Monetário Venda de Investimento Mercadoria Meios de Produção produção Economia Política 30Relação Produção Capitalista: Expansão e Crise Nota-se que o sistema de crédito não reduz o nível de competição, mas fornece liquidez ao capital social para os capitalistas individuais, acirrando as disputas entre eles Por fim, em relação à obra de Marx, o diferencial recaiu sobre a Teoria da Exploração, ou 2 mais-valia, por preservar o conceito de excedente ou do produto líquido, a visão de que o eixo de uma economia moderna estaria no excedente. Assim, o trabalho assalariado seria a base que explicaria a produção do excedente, o duplo caráter do trabalho e o progresso tecnológico. Para Marx, a crise seria a destruição periódica das forças produtivas criadas anterior- mente. Diversos economistas acreditam que crises são um efeito da elevação e queda do nível geral dos preços, devido a oscilações no montante em circulação. E, para os bancos, em períodos de crise, a estrutura de créditos se torna insustentável, pois retiram capital do mercado, suspendem os empréstimos e recobram empréstimos. Os capitalistas não podem pagar de imediato, pois ainda não obtiveram os lucros do capital investido e, quando isso ocorre, estão falidos (HUBERMAN, 1986). Figura 07. Cartaz do Centro Cultural Proletário. Desenho do caricaturista chileno Guidú www. PROLETARIO Queremos una sociedad capaz de hacer el pan tan grande como el hambre del pueblo. Aiedrez Videos Humor Entrevistas Analisis Fonte: Wikimedia 1.2. TEORIA KEYNESIANA, ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL E os Em 1929, ocorreu uma crise que foi denominada de crash da Bolsa de Nova York, ou Grande Depressão, considerada uma das maiores crises econômicas mundiais inicia- das nos Estados Unidos. Nesse contexto, surgiu John Maynard Keynes, considerado o pai da macroeconomia e um dos economistas mais famosos, quem analisou a Crise de 1929 e propôs formulações com intuito de revertê-la. A relação de Keynes e a Crise de 1929: 31John Maynard Keynes nasceu em 1883, em Cambridge, no auge do Império Britânico. Foi considerado um dos economistas mais emblemáticos da história e uma das grandes figuras britânicas do século XX. Seus pressupostos fundamentaram a macroeconomia e as políticas governamentais, sen- 2 do amplamente adotadas pelas potências Ocidentais após a Segunda Guerra Mundial. Opôs-se a Teoria Neoclássica e teve suas teorias criticadas por Milton Friedman e outros economistas de cunho liberal que criticavam a capacidade do Estado em regular os ciclos econômicos através das políticas fiscais e aumento dos gastos. A Crise de 1929 foi um colapso econômico com origem no sistema financeiro nacional nor- quando economias europeias encontravam-se assoladas pelo pós-guerra e a indústria americana não escoava mercadorias. A taxa de desemprego aumentou e os cidadãos ficaram endividados, com reduzido poder de compra. Os agentes investidores no mercado financeiro ficaram sem compradores de títulos e sem demanda pelos papéis; os preços das ações e dos títulos em negociação despencaram, em uma reação em cadeia. A economia paralisou, milhares de empresas decretaram falência, os salários despencaram e uma massa de desvalidos tomou conta das cidades dos Estados Unidos, com efeitos percebidos em todo o mundo. As propostas advogadas por Keynes afirmava que o Estado deveria intervir na economia, o que aumentaria os gastos em momento de crise na economia, a fim de incrementar o mercado consumidor e aumentar o número de empregos. E assim os governantes da época adotaram tais propostas em contraponto à crise. SAIBA MAIS Diversos trabalhos tratam sobre a crise de 1929, um fato importante da história econômica mundial. Vale a pena pesquisar mais sobre ela no trabalho. Disponível em: Figura 08. Grande Depressão nos EUA Economia Política 32Relação Produção Capitalista: Expansão e Crise Figura 09. Fila de famílias esperando ajuda financeira nos EUA 2 B A K Fonte: Wikipedia Envolvido com as questões político-econômicas e acadêmicas da Inglaterra, Keynes escreveu várias obras importantes, entre elas "A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (Teoria Geral)", que se tornou seu principal trabalho. Também ganhou noto- riedade ao desenvolver ideias que ajudaram a moldar importantes fatos ocorridos no século XX, como salvar o capitalismo da Grande Depressão, consolidar a guerra contra os nazistas e construir uma nova ordem econômica do pós-guerra. Keynes também foi responsável por apresentar argumentos que rompiam com a Teoria da Escola Clássica dominante na época, considerados como um grande legado para as ciências econômi- cas, a política, a diplomacia, as finanças e o ensino (MUNIZ, 2016). período que antecedeu à Grande Depressão econômica foi marcado pela alta e acelerada inflação, desemprego acentuado, expansão e consolidação do capitalismo monopolista, queda de oferta de produtos agrícolas e defasagem no comércio inter- nacional. Em 1936, ano de publicação da Teoria Geral e auge da crise, ao refutar os fundamentos clássicos, Keynes contestou seus fundamentos e elaborou um sistema teórico que mudou a economia. Para Keynes, que era discípulo de Alfred Marshall, o sistema capitalista não se ajustava automaticamente, como dizia a Teoria Clássica. Considerava que o principal responsá- vel pela falta de ajuste automático do equilíbrio em condições de pleno emprego era a taxa de juros e, por isso, defendia o uso da política monetária como meio regulador da economia. Era favorável à ideia de abrir mão da taxa de juros, já que, ao diminuir os tributos, as pessoas poderiam se sentir encorajadas a pedir empréstimos e a gastarem mais, enquanto que as empresas aumentariam os investimentos (MUNIZ, 2016). Keynes se contrapôs à neutralidade da moeda clássica. Para ele, a moeda afeta os níveis de produção, emprego e renda. Além disso, considerou que a velocidade de circulação da moeda é algo volátil e poderia variar de acordo com as preferências da demanda por liquidez. 33Figura 10. John Maynard Em relação à ação do governo na economia, esta deveria Keynes ocorrer em quadros de crise. O teórico explicava que, como o mercado é possuidor de falhas e imperfeições, o governo poderia atuar para preencher as lacunas existentes com os 2 gastos públicos, sendo capaz de movimentar todo o ciclo econômico. A criação de emprego incentivaria os gastos in- dividuais, o que aumentaria a confi ança da população até culminar na recuperação da economia. Com a intervenção governamental, aquilo que estivesse em desequilíbrio de ajustaria automaticamente (MUNIZ, 2016) e, uma vez dotado de instrumentos efetivos de políticas fis- cais e monetárias (regular a taxa de juros, aumentar o con- sumo por meio dos gastos do Estado e expandir a inversão para empréstimos), a atuação do governo na economia ofe- Fonte: Wikimedia Commons receria um ambiente sadio para o crescimento da economia capitalista (SINGER, 1978). Essas possibilidades melhorariam os índices econômicos por intermédio da atuação go- vernamental que, além de promover aumento em seus gastos, com a oferta de novos ser- viços públicos, traria bem-estar ao cidadão e ao trabalhador via seguridade social e outros benefícios, em um processo denominado de Economia do Bem-estar ou Welfare State. Figura 11. Grafite clássico em Brighton HE WELFARE STATE IS PROOF OF GOD ewar NOT Fonte: Flickr Keynes também desmistificou a ideia de que o nível geral dos salários reais dependia das negociações entre empregadores e trabalhadores, pois acreditava que, se os pre- são determinados pelo custo marginal expresso em termos nominais, os salários nominais governam o custo marginal. Assim, se os salários nominais variam, os preços variam na mesma proporção, tal como o salário real e o desemprego permanecem os mesmos. Consequentemente, os ganhos ou as perdas para a mão de obra ocorrem por elementos do custo marginal, que permaneceu inalterado. Economia Política 34Relação Produção Capitalista: Expansão e Crise Outra objeção realizada aos clássicos se refere ao fato de o nível geral dos salários reais ser diretamente determinado pelo caráter das negociações sobre os honorários. Para Keynes, ao realizarem tal afirmação, os clássicos elaboram uma hipótese arbitrá- 2 ria, pois os trabalhadores em conjunto não possuem meios de coincidir o equivalente do nível geral de salários nominais expressos em bens de consumo com a desutilidade marginal do volume de emprego existente, pois a determinação do nível geral dos salá- rios reais seria desempenhada por outros fatores. Outra argumentação diz respeito ao volume do emprego que não é dado pelos contra- tos entre operários e patrões, mas sim pela procura efetiva, uma vez que o desemprego poderia desaparecer, desde que operários aceitassem receber baixos salários. Embora admitisse a associação entre salário e produtividade marginal, para Keynes, o desem- prego decorreria da demanda insuficiente para absorver tudo o que fosse produzido. Ao contrário dos clássicos que consideravam a oferta igual e demanda agregada, com ten- dências ao pleno emprego, Keynes considerava que apenas um nível de emprego poderia corresponder ao equilíbrio, e o desemprego seria um fenômeno conjuntural decorrente da escassez de demanda agregada, a grande responsável pela capacidade produtiva. Enquanto a Teoria Clássica se limita ao caso especial do pleno emprego, Keynes con- siderava normal o emprego incompleto. E, em "A Teoria Geral", o emprego e a inflação dependem do volume da procura efetiva. Quando a procura é deficiente, gera-se de- semprego, mas se a procura é excessiva, produz-se a deflação. Ponto marcante no sistema keynesiano é o Princípio da Demanda Efetiva (PDE), for- mado pela interseção entre as curvas de oferta e demanda agregada, que determina o nível de emprego. É o ponto no qual os empresários tomam suas decisões de produção, visto que o grau de incerteza quanto ao mercado define o comportamento dos agentes em relação à demanda por moeda e emprego dos fatores de produção. Caso este ponto estivesse abaixo do pleno emprego, trabalhadores ficariam desocupados e não haveria mecanismos auto-ajustáveis. Sendo assim, o ponto da demanda efetiva conforma-se com o equilíbrio que se dá com pleno emprego da força de trabalho (MUNIZ, 2016). Assim, Keynes se contrapôs à Lei de Say (decorrente do modelo em que demanda e oferta são mantidas como identidades) ao elucidar o PDE e ao afirmar que a ideia que toda oferta gera sua demanda não se aplicava às sociedades industriais. Também dis- tinguiu investimento e consumo, o que tornou possível demonstrar que a oferta inicial seria diferente da demanda final, ou seja, é a demanda ou as expectativas da demanda que determinariam a demanda efetiva keynesiana é uma teoria abrangente sobre demanda e oferta de produtos, na qual, caso a demanda estiver abaixo da oferta, a produção deverá diminuir para que se equilibre novamente, tratada na esfera das decisões de produção, em que a estrutura produtiva e as expectativas de longo prazo são dadas (CHILIATTO LEITE, 2010). 35Na teoria keynesiana, o investimento foi definido como o excesso da produção para o consumo, fator determinante do emprego. São as atividades do tipo construções de casas, vias férreas, fábricas, entre qualquer bem que não são consumidos tão logo produzidos. Por isso, em Keynes, um elevado nível de emprego depende de um alto 2 grau de investimento. Em suas obras, Keynes analisou o funcionamento do sistema ao questionar os argu- mentos da Teoria Clássica e da Lei de Say e apresentou o Princípio da Demanda Efe- tiva (PDE), a partir do qual a falta de demanda é um limite para a produção. A figura do empresário keynesiano era importante em seu modelo, pois considerava que a pro- dução e o movimento da economia são dependentes das suas decisões de produzir, uma vez que a produção é o que satisfaz a demanda efetiva, composta de consumo e investimento agregado. Keynes considerava que a economia poderia atingir um ponto ótimo de equilíbrio, no qual a poupança corresponderia à inversão deliberada, de modo que não formassem estoques não desejados. Também considerava possível chegar ao pleno emprego por meio de políticas que sustentassem a demanda efetiva, desde que, a cada aumento da renda e consumo, a inversão também crescesse (SINGER, 1978). Relação poupança e investimento em Keynes: A relação entre poupança e investimento possui caráter de identidade contábil, bem como os mecanismos relacionados à poupança possuem distinções em suas teorias. No modelo keynesiano, quando ocorre aumento do emprego, a renda real agregada tam- bém se expande e, consequentemente, ocorre um crescimento de consumo agregado. Em outras palavras, o investimento é uma variável dinâmica e, por ser o determinante da renda, como resultado, será o determinante da poupança (GRASEL; SANTANA, 1999). endereço a seguir disponibiliza um trabalho que poderá ajudar a esclarecer melhor o assunto:http://periodicoscientificos.ufmt.br/index.php/res/article/view/154 Encerrando a compreensão do esquema keynesia- Figura 12. Milton Friedman no, foi possível observar o teor revolucionário de sua obra. Ao se contrapor aos clássicos, demonstrando o PDE, defendeu a atuação do governo e uso dos instrumentos fiscais e monetários para corrigir os efeitos negativos do capitalismo, bem como a pecu- liar relação entre investimento e poupança a partir do Princípio da Demanda Efetiva. Outorgou importância ao mercado financeiro e às interações relacionadas ao investimento e percebeu que o investimento está vinculado à poupança, além de reconhecer a incer- teza quanto aos acontecimentos futuros. Como demonstrado, após a crise de 1929, Keynes re- novou a Teoria Econômica e enfatizou a participação do Estado na economia. Todavia, outros economistas ava- liaram o papel do empreendedor e da inovação, como Economia Política 36Relação Produção Capitalista: Expansão e Crise Schumpeter, ou analisou o controle monetário para funcionamento efetivo da economia, como Milton Friedman. Este último, nascido em Nova York, estudou em Chicago e Columbia, agra- ciado com o Nobel de Economia em 1976. 2 Friedman, favorável ao liberalismo econômico, ressaltou a necessidade do estoque de moeda pela nação e afirmou que inflação e recessão são fenômenos de ordem monetá- ria. Ainda segundo o teórico, quando os estoques de moeda ultrapassam a capacidade produtiva da economia, ocorre inflação. Por outro lado, a economia se encontra em re- cessão quando a disponibilidade de moeda é menor do que sua capacidade produtiva. CONCLUSÃO SAIBA MAIS Em relação às escolas econômicas que acabamos de estudar, vejam esse vídeo, em formato de rap, que sintetiza os principais pressupostos keyne-sianos e de Hayeck, porque contribui para elaborar os efeitos da aplicação dos teoremas aqui estudados. O clipe é bastante elo- giado pelos economistas. Disponível em: A economia enquanto atividade se adequou às circunstâncias e, enquanto teoria, evo- luiu consideravelmente com o decorrer dos anos. Ressalta-se que se trata de uma ciência mutável, inicialmente preocupada com as questões domésticas, mas que, com o passar do tempo, focalizou no processo de produção e distribuição de bens e, atual- mente, se debruça sobre o emprego eficaz dos recursos, sem deixar de lado diversos olhares sobre o comportamento dos agentes e da política. Entre o século XVIII e início do século XX, a Teoria Econômica Clássica forjou os rumos do processo produtivo, além de enfocar que o sucesso econômico de uma nação es- taria pautado nos princípios da livre concorrência e da riqueza individual. Os conceitos foram questionados por Marx, que profetizou a derrocada dos preceitos capitalistas da Teoria Clássica. Com a crise de 1929, a Teoria Econômica convencional foi renovada por Keynes, estudioso que defendia a ação do Estado na economia. Ao marcarmos o ressurgimento do liberalismo econômico, destacamos Milton Fried- man, que abordou controle monetário como variável fundamental para o ótimo funcio- namento da economia. 37REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS M. V. Teorias da demanda efetiva: Keynes, Kalecki e algumas implicações. In: Encontro da Associação Keynesiana Brasileira, III, 2010, São Paulo. Anais... São Paulo: Associação Keynesiana 2 Brasileira, 2010. Disponível em: -p%C3%B3s. Acesso em: 26 jan. de 2019. DESORDEM Quem roubou o mais-valor? romance noir do capital. Disponível em: https://desor- em: 1 fev. 2019. DILLARD, D. A teoria econômica de John Maynard Keynes: teoria de uma economia monetária. Tradução: Albertino Pinheiro Júnior. 5. ed. São Paulo: Pioneira, 1986. GRASEL, D.; SANTANA, E. A. de. Os modelos de Keynes e Kalecki e o investimento produtivo no Brasil: 1980/90. Revista de Estudos Sociais, Universidade Federal do Mato Grosso, Faculdade de Economia, Cuiabá, v.1, n. 2, p. 87-117, 1999. 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