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HISTÓRIA, POLÍTICA, ECONOMIA E CULTURA NO SÉCULO XX AULA 1 Prof. Douglas Gasparin Arruda 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula iremos analisar os processos históricos que ocorreram no final do século XIX e início do século XX, e que culminaram na Primeira Guerra Mundial, também conhecida como a Grande Guerra. Para isso, nos debruçaremos também sobre a conceitualização de termos que são importantes e que irão aparecer durante esta aula e também em aulas futuras. Espera-se ao final que os alunos consigam compreender que os fatos históricos narrados (as políticas imperialistas e a Primeira Guerra Mundial) têm profundas ligações. TEMA 1 – UMA INTRODUÇÃO AO IMPERIALISMO O século XX começa em 1900. Porém, é necessário compreender que os processos históricos não seguem com exatidão a divisão dos séculos. Por esse motivo, apesar de estarmos tratando sobre história, política, economia e cultura no século XX, precisaremos regredir na linha temporal e compreender também os acontecimentos que permearam o final do século XIX. “Afinal, a história não é como uma linha de ônibus em que todos – passageiros, motorista e cobrador – são substituídos quando chega ao ponto final” (Hobsbawm, 2015, p. 20). No século XIX, o capitalismo encontrou um sistema para dominar novos territórios e acumular riquezas. Esse sistema ficou conhecido como imperialismo, em que as potências mundiais partilharam territórios e dominaram outros países com base em alianças e rivalidades. Para compreender de modo mais concreto o que é o capitalismo e o imperialismo, utilizaremos o Dicionário de Política, escrito por Bobbio, Matteucci e Pasquino (1998, p. 141). No verbete capitalismo podemos ler: Na cultura corrente, ao termo Capitalismo se atribuem conotações e conteúdos frequentemente muito diferentes, reconduzíveis todavia a duas grandes acepções. Uma primeira acepção restrita de Capitalismo designa uma forma particular, historicamente específica, de agir econômico, ou um modo de produção em sentido estrito, ou subsistema econômico. Esse subsistema é considerado uma parte de um mais amplo e complexo sistema social e político, para designar o que não se considera significativo ou oportuno recorrer ao termo Capitalismo. Prefere-se usar definições deduzidas do processo histórico da industrialização e da modernização político-social. Fala-se, exatamente, de sociedade industrial, liberal-democrática, ou de sociedade complexa, da qual o Capitalismo é só um elemento, enquanto designa o subsistema econômico. Uma segunda acepção de Capitalismo, ao invés, atinge a sociedade no seu todo como formação social, historicamente qualificada, de forma determinante, pelo seu modo de produção. Capitalismo, nesta acepção, designa, portanto, uma "relação social" geral. A própria história do conceito de 3 Capitalismo oscila entre estas duas acepções. Não se trata de uma controvérsia nominalista, solúvel através de um acordo entre os estudiosos, mas de uma questão identificação do mundo moderno e contemporâneo, que envolveu e envolve a identidade e a ideologia de vastos grupos sociais. Também é possível observar que é necessário compreender a peculiaridade do capitalismo como um conjunto de comportamentos, tanto individuais quanto coletivos, que se relacionam com a venda e o consumo de bens. Segundo Bobbio, Matteucci e Pasquino (1998, p. 141), é possível elencar três características que diferem o capitalismo de outros modos de produção. São elas: A) propriedade privada dos meios de produção, para cuja ativação é necessária a presença do trabalho assalariado formalmente livre; b) sistema de mercado, baseado na iniciativa e na empresa privada, não necessariamente pessoal; c) processos de racionalização dos meios e métodos diretos e indiretos para a valorização do capital e a exploração das oportunidades de mercado para efeito de lucro. Dessa forma, podemos compreender o capitalismo como um modelo econômico que prioriza a relação de trabalho assalariada, segundo uma tradição marxista, ou que prioriza os processos de racionalização do agir, como pode ser visto em produções de tradição weberiana. Destaca-se ainda que não é possível compreender o sistema capitalista sem observar fatores extra econômicos que se encontram nas relações de força e poder enraizadas culturalmente (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 1998, p. 142). Sobre o termo imperialismo é possível observar redefinições e variações ao longo do tempo. Foi a partir do século XIX que o imperialismo passou a ser teorizado e que o estudo sobre o tema se desenvolveu, progredindo até os dias de hoje. Bobbio, Matteucci e Pasquino (1998, p. 613) apontam que as teorias marxistas mais importantes sobre o imperialismo foram escritas por Rosa Luxemburgo e Lenin. Sobre a teoria do subconsumo de Luxemburgo, os autores destacam: A explicação do Imperialismo formulada por R. Luxemburg assenta na inserção, no pensamento marxista, da teoria do subconsumo, elaborada anteriormente e à margem dessa orientação teórica sobretudo por Malthus, Sismondi, Rodbertus e Hobson, e que pode ter alguma ligação, conquanto forçada, com as teses de Marx referentes ao problema da realização da mais-valia. Podemos resumir a teoria do subconsumo segundo a versão de R. Luxemburg dizendo que, dispondo a classe trabalhadora inevitavelmente de um baixo poder aquisitivo e sendo obrigada a um nível de vida miserável como consequência das leis objetivas da acumulação capitalista, torna-se indispensável, para poder ser absorvida toda a produção corrente, a existência de uma "terceira pessoa", de um comprador extrínseco ao 4 sistema capitalista. Tem de haver, em resumo, um mundo não capitalista ao lado do mundo capitalista, para que o funcionamento deste não fique entravado. Nos primeiros estádios do desenvolvimento capitalista, essa "terceira pessoa" pode ser oferecida pela economia agrária, que vive ainda à margem da capitalista. Mas depois, em decorrência da transformação capitalista desse setor, os mercados internos já não bastam e se tornam necessários os mercados externos para a absorção da produção, mercados que se conquistam com a conquista das colônias. Sendo as áreas de exploração limitadas, mais tarde ou mais cedo os conflitos serão inevitáveis, como inevitável será também a catástrofe final do sistema capitalista, quando os mercados externos se tornarem igualmente insuficientes. Sobre a teoria leninista do imperialismo lê-se (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 1998, p. 613): A hipótese fundamental da teoria de Lenin não se apoia no empobrecimento do proletariado e na sua falta de poder de consumo, mas na tendência à queda das taxas de lucro. Os monopólios financeiros dos Estados mais avançados do capitalismo são obrigados a explorar o mercado mundial, entrando em conflito com outros grupos financeiros que tentam fazer o mesmo, pois os lucros obtidos no mercado interno tendem a desaparecer. A queda das taxas de lucro é explicada, grosso modo, pela teoria marxista como resultado da crescente concorrência entre os capitalistas. A lei do mercado os obriga a investir enormes capitais em maquinaria cada vez mais aperfeiçoada para vencer os concorrentes. Mas, se estes responderem ao desafio, as novas máquinas bem depressa se tornam obsoletas, sendo necessário renová-las para não sofrer a derrota. Esta luta sem trégua diminui o lucro dos capitalistas e, por vezes, poderá levar ao aumento temporário dos níveis de salário, visto os capitalistas estarem dispostos a pagar mais aos trabalhadores para os monopolizar. (...) A crescente e inevitável mecanização provoca, por outro lado, a concentração da produção nas mãos de uns poucos. A medida que o capitalismo se desenvolve, passa-se da forma do mercado concorrencial à do mercado monopólico. São apenas alguns indivíduos, e em caso limite um só, os que controlam enormes complexoscom milhares de trabalhadores. É essa a fase mais avançada do capitalismo. Naturalmente, com o crescimento e consolidação dos monopólios, cresce também a tendência ao controle do Governo do Estado pelo poder econômico. A política nacional não é senão resultado desta influência. Nesta fase do desenvolvimento capitalista, dada a organização da produção a nível mundial, a atividade dos monopólios não pode cingir-se aos limites do Estado. O "capital financeiro", fruto da fusão entre capital bancário e capital industrial, tenta assegurar o controle das matérias-primas e dos mercados mundiais. Mais cedo ou mais tarde, os interesses entram em conflito entre si. O mundo é dividido em áreas de influência entre os diferentes monopólios, ou então, o que é o mesmo, entre os diferentes Governos. Concluída a divisão do mundo em áreas de influência, aumenta a tensão entre os diversos grupos e a guerra se torna mais cedo ou mais tarde inevitável. Vê-se ainda que a expressão imperialismo, que deriva da palavra império, manifestou-se sob várias formas ao longo da história (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 1998, p. 611). Por esse motivo, trataremos aqui do que pode ser chamado de “Novo Imperialismo” ou “Imperialismo Moderno”, que se inicia no ano de 1870, cujas alianças e disputas foram imprescindíveis para a 5 configuração da Primeira Guerra Mundial. De modo geral, podemos descrever o Imperialismo Moderno como uma divisão do mundo entre alguns países capitalistas mais desenvolvidos, que usaram sua influência para exercer controle comercial, social e cultural sobre outras sociedades menos desenvolvidas tecnologicamente. Sobre esse tema, o historiador Eric Hobsbawm (2015, p. 93- 4) escreveu: Era muito provável que uma economia mundial cujo ritmo era determinado por seu núcleo capitalista desenvolvido ou em desenvolvimento se transformasse num mundo onde os ‘avançados’ domariam os ‘atrasados’; em suma, num mundo de império. Mas, paradoxalmente, o período entre 1875 e 1914 pode ser chamado de Era dos Impérios não apenas por ter criado um novo tipo de imperialismo, mas também por um motivo muito mais antiquado. Foi provavelmente o período da história mundial moderna em que chegou ao máximo o número de governantes que se autodenominavam ‘imperadores’, ou que eram considerados pelos diplomatas ocidentais como merecedores desse título Samir Amin (2005, p. 84) salientou que “o imperialismo, então, não é um estágio – nem mesmo o estágio supremo – do capitalismo. Ele é, desde a origem, imanente à sua expansão”. O autor também nos traz a ideia de que a conquista imperialista pelos europeus e seus filhos norte-americanos se desdobrou em dois tempos: O primeiro momento desse desenvolvimento devastador do imperialismo foi organizado em torno da conquista das Américas, no quadro do sistema mercantilista da Europa atlântica da época. As devastações desse primeiro capítulo da expansão capitalista mundial (genocídio dos índios, tráfico de escravos africanos) produziram – com atraso – as forças de libertação que questionaram as lógicas que as comandavam [...]. O segundo momento da devastação imperialista foi construído com base na revolução industrial e se manifestou pela submissão colonial da Ásia e da África. ‘Abrir os mercados’ e apoderar- se das reservas naturais do globo eram as reais motivações, como é sabido hoje em dia. A agressão imperialista mais uma vez produziu as forças que combateram o projeto: as revoluções socialistas (da Rússia, da China, não por acaso situadas nas periferias vítimas da expansão imperialista e polarizadora do capitalismo realmente existente) e as revoluções de libertação nacional. (Amir, 2005, p. 84) TEMA 2 – DISPUTAS IMPERIALISTAS NO SÉCULO XX Dito isto, evidencia-se nesse momento a tese de que o sistema econômico capitalista se desenvolve e se regula através de períodos de crise e expansão (Amin, 1977). Entre os anos de 1890 e 1914, o modelo capitalista passava por uma fase de expansão, proporcionada pela conquista de novos territórios pelas grandes potências imperialistas e, consequentemente, pela abertura de novos mercados consumidores. 6 “De meados dos anos 1890 à Grande Guerra, a orquestra econômica mundial tocou no tom maior da prosperidade, em vez de no tom menor da depressão. A afluência, baseada no boom econômico, constituía o pano de fundo do que ainda é conhecido no continente europeu como ‘a bela época’ (belle époque). (Hobsbawm, 2015, p. 77) Em fins do século XIX e início do século XX, a dominação imperialista se concentrava em três continentes: África, Ásia e Oceania. Buscava-se nesses continentes, além de mercado consumidor, acesso a mais mão de obra e matéria-prima. Como então seria possível diferenciar as potências imperialistas dos países sob seu domínio? Sobre essa questão, Hobsbawm (2015, p. 53) elucida: Por mais profundas e evidentes que fossem as diferenças econômicas entre os dois setores do mundo, é difícil descrevê-las em duas palavras; também não é fácil sintetizar as diferenças políticas entre elas. Existia claramente um modelo geral referencial das instituições e estrutura adequadas a um país ‘avançado’, com algumas variações locais. Esse país deveria ser um Estado territorial mais ou menos homogêneo, internacionalmente soberano, com extensão suficiente para proporcionar a base de um desenvolvimento econômico nacional; deveria dispor de um corpo único de instituições políticas e jurídicas de tipo amplamente liberal e representativo (isto é, deveria contar com uma constituição única e ser um Estado de direito), mas também, em um nível mais baixo, garantir autonomia e iniciativa locais. Deveria ser composto de ‘cidadãos’, isto é, da totalidade dos habitantes individuais de seu território que desfrutavam de certos direitos jurídicos e políticos básicos, antes que, digamos, de associações ou outros tipos de grupos e comunidades. As relações dos cidadãos com o governo nacional seriam diretas e não mediadas por tais grupos. E assim por diante. Esses eram as aspirações não só dos países ‘desenvolvidos’ (todos os quais estavam, até certo ponto, ajustados a esse modelo nos anos 1880), mas de todos os outros que não queriam se alienar ao progresso moderno. Os países imperialistas, embora dominantes nas relações de poder capitalistas, observaram que as disputas entre eles cresciam na mesma medida que seus lucros. A competição pelo acúmulo de novos territórios e concentração de riquezas fez surgir alianças entre as grandes potências. Podemos citar aqui a Tríplice Aliança (formada em 1882 pela Alemanha, Áustria-Hungria e Itália), a Aliança Franco-Russa (formada em 1892 pela Rússia e França), a Entente Cordiale (formada em 1904 pelo Reino Unido e França) e a Convenção Anglo- Russa (formada em 1907 pela Rússia e Reino Unido). Esses exemplos já apontam para o paralelo entre as alianças imperialistas e a divisão dos grupos na Primeira Guerra Mundial: a Tríplice Aliança, composta pela Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha, e a Tríplice Entente, composta por França, Rússia e Grã-Bretanha. 7 Foi no início do século XX que o clima do continente europeu começou a ficar tensionado. A corrida bélica e as disputas por territórios acirravam os ânimos das potências imperialistas. A partilha da África, que já havia ocasionado problemas internos no continente, ocasionou também problemas entre os países europeus. Em 1914, a África pertencia aos impérios britânico, francês, belga, alemão, português e espanhol (Hobsbawm, 2015, p. 95). Observa-se ainda que: Entre 1879 e 1915, cerca de um quarto da superfície continental do globo foi distribuído ou redistribuído, como colônia, entre meia dúzia de Estados. A Grã-Bretanha aumentou seus territórios em cerca de 10 milhões de quilômetros quadrados, a França em cerca de 9, a Alemanha conquistou mais de 2 milhões e meio, a Bélgica e a Itália pouco menos queessa extensão cada um. Os EUA conquistaram cerca de 250 mil, principalmente da Espanha, o Japão algo em torno da mesma quantidade à custa da China, da Rússia e da Coreia. Nas antigas colônias africanas de Portugal se ampliaram em cerca de 750 mil quilômetros quadrados; a Espanha, mesmo sendo uma perdedora líquida (para os EUA), ainda conseguiu tomar alguns territórios pedregosos no Marrocos e no Saara Ocidental. O crescimento da Rússia imperial é mais difícil de avaliar, pois todo ele se deu em territórios adjacentes e constituiu o prosseguimento de alguns séculos de expansão territorial do Estado czarista; ademais, como veremos, a Rússia perdeu algum território para o Japão. Dentre os principais impérios coloniais, apenas o holandês não conseguiu, ou não quis, adquirir novos territórios, salvo por meio da extensão de seu controle efetivo às ilhas indonésias, que há muito ‘possuía’ formalmente. Dentre os menores, a Suécia liquidou a única colônia que lhe restava, uma ilha nas Índias Ocidentais, vendendo-a à França, e a Dinamarca estava prestes a fazer o mesmo – conservando apenas a Islândia e a Groelândia como territórios dependentes. (Hobsbawm, 2015, p. 97-8) No ano de 1914, a crise econômica se alastrou por todo o sistema capitalista/imperialista. Entre 1899 e 1913, na França e na Grã-Bretanha, houve uma queda efetiva do salário, o que ocasionou tensões e explosões sociais (Hobsbawm, 2015, p. 81). Soma-se à crise alguns descontentamentos, como o da Alemanha e Itália, que se sentiram lesados na partilha da África e Ásia. E também o descontentamento dos franceses, que não aceitavam a perda da região da Alsácia-Lorena, em 1871, para os alemães. Martin Gilbert escreveu um relato sobre a rivalidade pela região da Alsácia-Lorena: Por que temer uma guerra na Europa? Pouco antes do início da guerra, em 1914, um coronel francês, que era adolescente quando a Alemanha invadiu a França em 1870, ouviu um grupo de jovens oficiais brindarem à perspectiva da guerra e escarnecerem da possibilidade de um conflito, mas os risos cessaram abruptamente quando ele lhes perguntou: ‘Vocês acham que a guerra é sempre divertida, toujours drôle?’ Chamava-se Henri-Philippe Pétain. Dois anos depois, em Verdun, foi testemunha de uma das piores chacinas militares do século XX. Os militares franceses cujas risadas Pétain fez cessar abruptamente eram herdeiros de uma tradição de inimizade franco- germânica que culminara mais de quarenta anos antes, em 11 de maio de 1871, quando o chanceler alemão, Otto von Bismarck, assinou, no 8 Hotel Swan, em Frankfurt, o acordo que transferia a Alsácia e grande parte da Lorena para a Alemanha. (Gilbert, 2017, p. 21) O autor também destacou que: As rivalidades que fomentam as guerras não podem ser suavizadas pela lógica de um sentimento pacifista. Na primeira década do século XX, houve muitas rivalidades e muitos ressentimentos nas nações para as quais a paz, o comércio, a indústria e o aumento da prosperidade nacional pareciam ser as verdadeiras necessidades, os desafios e as oportunidades. Na França, a perda de territórios anexados pela Alemanha em 1871 causou ressentimentos durante quatro décadas. (Gilbert, 2017, p. 24) TEMA 3 – PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL Com os ânimos acirrados dessa maneira, bastava um pequeno desentendimento entre as potências imperialistas para que a guerra tivesse início. Isso ocorreu no dia 28 de junho de 1914, quando o arquiduque Francisco Fernando da Áustria foi assassinado por Gravilo Princip, da Iugoslávia. Em poucas semanas de articulação, as grandes potências imperialistas organizaram-se, recorrendo a antigas alianças, e partiram para uma guerra que arrastou também os territórios que dominavam. Para o historiador Eric Hobsbawm (2015, p. 20) “se há datas que obedecem a algo mais que a necessidade de periodização, agosto de 1914 é uma delas: foi considerada o marco do fim do mundo feito por e para a burguesia”. Duas grandes frentes de disputas foram formadas: a Tríplice Aliança (Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha) e a Tríplice Entente (França, Rússia e Grã-Bretanha). Essas duas frentes lutaram uma “guerra de trincheiras”, em que os soldados permaneciam em “buracos” cavados em linhas com o intuito de se defender do inimigo. A guerra de trincheiras, somada ao uso de metralhadoras, fazia com que a dominação das áreas inimigas fosse difícil, pois o campo entre duas trincheiras ficava exposto a ataques de ambos os lados. No depoimento do soldado Frank Sumpter, da brigada de fuzileiros de Londres, podemos compreender um pouco do que era a vida nas trincheiras (citado por Arthur (2011, p. 79-81): Após o ataque de 19 de dezembro, voltamos para as mesmas trincheiras no dia de Natal. Era um inverno rigoroso que cobria tudo com muita neve. Antes, a paisagem devastada parecia um quadro de cores desoladoras – argilosa, lamacenta e cheia de tijolos quebrados –, mas, quando foi coberta pela neve, ficou bonita. De repente, ouvimos os alemães cantando Noite Feliz, e depois fixaram uma placa dizendo ‘Feliz Natal’, aí nós fizemos o mesmo. Enquanto eles ainda cantavam, nossos colegas propuseram: 9 - Vamos fazer coro com eles. Fizeram isso, mas, quando começamos a cantar, eles pararam. Quando paramos, eles voltaram a cantar. Com isso, fomos nos descontraindo. Então um alemão aproveitou esse momento de descontração, subiu no parapeito da trincheira e gritou: - Feliz Natal, Tommy. É claro que nossos rapazes responderam: - Se ele pode fazer isso, nós também podemos. Mas um dos sargentos ajudantes ordenou que descêssemos: - Calma, sargento, é Natal – respondemos. Avançamos todos para a barricada de arame farpado. Mal conseguimos nos aproximar deles, pois a barricada não era composta apenas por uma cerca, mas por duas ou três, emaranhadas com fios de arame passando pelo centro. Apenas nos cumprimentamos, e tive a chance de falar com um alemão. - Você sabe onde fica a estrada Essex, em Londres? – Perguntou ele. - Sim, meus tios tem uma loja de conserto de sapatos lá – respondi. - Que coincidência! Eu trabalhei na barbearia do outro lado da rua. Todos eles falavam bem o inglês, pois, antes da guerra, a Inglaterra era invadida pelos alemães. Todo comerciante de carne de porco era alemão, todo barbeiro era alemão, e eles ficaram todos aqui colhendo informações vitais sobre o país. É irônico quando você pensa na ideia de que ele pode ter barbeado meu tio algumas vezes e que, no entanto, minha bala poderia ter acabado com a vida dele, e a dele com a minha. O fato é que os oficiais acabaram ordenando: - Nada de confraternização. Depois, deram as costas e se retiraram. Nem tentaram parar, pois sabiam que não conseguiriam. Não falamos uma vez sequer sobre a guerra com os alemães. Falamos sobre nossas famílias, a idade que tínhamos e quanto tempo achávamos que a guerra duraria, coisas desse tipo. Eu era jovem e não estava tão interessado em conversar com eles. Fiquei por lá cerca de meia hora e voltei. A maioria dos rapazes permaneceu lá o dia inteiro, só voltando à noite. Ninguém deu um tiro sequer, e alguns soldados satisfizeram a curiosidade de conhecer a terra de ninguém por onde circularam. Era bom circular por ali despreocupadamente. Uma das batalhas que marcou a Primeira Guerra Mundial aconteceu em abril de 1915, e ficou conhecida como Segunda Batalha de Ypres. Nela, o exército alemão utilizou pela primeira vez de gás cloro na Frente Ocidental, com o intuito de penetrar trincheiras inimigas. A partir desse momento, vários tipos de gases venenosos passaram a ser usados de ambos os lados. Juntamente com os gases, foram desenvolvidos também tanques pelos aliados para penetrar as trincheiras da Tríplice Entente. Apesar das novas táticas de guerra no campo de batalha, Gilbert aponta (2017, p. 11): Entre 1914 e 1918, desenrolaram-se duas guerras muito diferentes. A primeira foi uma guerrade tropas de Infantaria, Marinha e Força Aérea, de marinheiros da Marinha Mercante e de populações civis sob ocupação, em que o sofrimento individual e a angústia atingiram uma escala enorme, em particular nas trincheiras da linha de frente. A segunda foi uma guerra de gabinetes de guerra e de soberanos, de propagandistas e idealistas, repleta de ambições e ideais políticos e territoriais, que determinaram o futuro dos impérios, nações e povos, de modo tão contundente quanto no campo de batalha. 10 TEMA 4 – A REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 Durante a Primeira Guerra Mundial, a Rússia passou por grandes transformações. Desde o século XIX, seus trabalhadores rurais viviam em um sistema de produção feudal, com o qual a população estava descontente. Em 1861, o czar Alexandre II aboliu a servidão e realizou a reforma agrária. Quando Nicolau II assume o poder, o processo de industrialização cresce, porém, as condições de vida da população permanecem inalteradas. Durante a guerra, a Rússia sofreu várias derrotas, o que fez com que a população ficasse ainda mais descontente. A fome também era um grande problema no país, intensificada pela crise de abastecimento gerada pelas perdas em combate. O Partido Social Democrata, que fazia oposição ao czar, se fragmentou em duas correntes: os bolcheviques e os mencheviques. Seus membros foram responsáveis por deflagrar um movimento revolucionário no país, que levou os bolcheviques ao poder. Os russos passaram a adotar um sistema econômico socialista. Segundo Hobsbawm (2015, p. 184): Onde quer que a política democrática e eleitoral o permitisse, apareciam em cena, crescendo com rapidez assustadora, os partidos de massa vindo da classe operária, em sua maior parte inspirados na ideologia do socialismo revolucionário (pois todo socialismo era, por definição, considerado revolucionário) e liderados por homens – e às vezes por mulheres – que acreditavam nessa ideologia. Em 1917, o czar Nicolau II abdicou ao trono, após várias greves e conflitos. Ele e toda a sua família foram assassinados pelo novo governo. Também em 1917 a Rússia se retirou da Primeira Guerra Mundial: Se havia um Estado onde se acreditava que a revolução fosse não só desejável como inevitável, era o Império dos Czares. Gigantesco, pesado e ineficiente, econômica e tecnologicamente atrasado, com 126 milhões de habitantes (1897), 80% dos camponeses e 1% da nobreza hereditária, ele era organizado de uma forma que todos os europeus instruídos consideravam francamente pré-histórica no fim do século XIX: a autocracia burocrática. Esse mesmo fato tornou a revolução o único método passível de mudar a política do Estado que não fosse dar um puxão de orelhas no czar ou fazer a máquina estatal se movimentar de cima para baixo: poucas pessoas poderiam optar pela primeira possibilidade, e ela não implicava necessariamente a segunda. Como havia a consciência quase universal da necessidade de um tipo ou outro de mudança, praticamente todos – desde os que no Ocidente teriam sido chamados de conservadores moderados até a extrema esquerda – eram obrigados a ser revolucionários. (Hobsbawm, 2015, p. 445) 11 TEMA 5 – O FINAL DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL Com a saída da Rússia, a Tríplice Entente ficou desfalcada. Em 1917, os Estados Unidos se juntam à Grã-Bretanha e à França na Primeira Guerra Mundial. O país foi responsável pelo envio de soldados, tanques, aviões e navios que contribuíram para o final da guerra. Com as novas tecnologias desenvolvidas no curso das batalhas, a Tríplice Entente conseguiu penetrar as trincheiras da Tríplice Aliança, forçando uma rendição em 1918. O conflito armado, que durou cerca de quatro anos, só teve um fim em 1919, com a assinatura do Tratado de Versalhes. “Na Primeira Guerra Mundial morreram mais de 9 milhões de soldados da Infantaria, da Marinha e da Força Aérea. Calcula-se que morreram também 5 milhões de civis em consequência da ocupação, de bombardeios, fome e doenças” (Gilbert, 2017, p. 11). O Império Austro-Húngaro e o Império Otomano foram extintos, e todo o mapa europeu foi redesenhado. Por esse motivo, a Primeira Guerra Mundial ficou também conhecida como a grande guerra. NA PRÁTICA Observe o que foi escrito por Martin Gilbert (2017, p. 18): Para alguns, foi uma guerra para castigar e punir. Para outros, tornou- se a guerra que acabaria com todas as guerras. O nome que recebeu por algum tempo, Grande Guerra, indicava sua escala sem precedentes. Contudo, foi seguida por uma segunda guerra ainda mais destrutiva e por outras guerras “menores” por todo o mundo. Com os conhecimentos que obteve durante essa aula produza um texto que contemple os seguintes pontos: O que ocasionou a Primeira Guerra Mundial? Qual a relação entre o imperialismo e a Primeira Guerra Mundial? Por que esse conflito foi chamado de Grande Guerra? FINALIZANDO Nesta aula, observamos como as políticas imperialistas foram capazes de forjar alianças que perduraram durante a Primeira Guerra Mundial. Também vimos que suas disputas foram capazes de produzir um conflito que resultou em, mais ou menos, 15 milhões de mortos. Por esse motivo, salienta-se, novamente, 12 que é imprescindível compreender o imperialismo para compreender a Primeira Guerra Mundial. 13 REFERÊNCIAS AMIN, S. A crise do imperialismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977. _____. O imperialismo, passado e presente. Tempo, Rio de Janeiro, n. 18, p. 77- 123, mar. 2005. Disponível em: . Acesso em: 30 maio 2019. ARTHUR, M. Vozes esquecidas da primeira guerra mundial. Rio de janeiro: Bertrand Brasil, 2011. BERSTEIN, S.; MILZA, P. História do século XX. Volume 1: 1900-1945 – o fim do mundo europeu. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2007. BOBBIO, N.; MATTEUCCI, N.; PASQUINO, G. Dicionário de política. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1998. GILBERT, M. A Primeira Guerra Mundial. Rio de janeiro: Casa da Palavra, 2017. HOBSBAWM, E. A era dos impérios 1875-1914. São Paulo: Paz & Terra, 2015. TRAGTENBERG, M. A revolução russa. São Paulo: Ed. Unesp, 2007.