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Genograma: Uma Jornada pela História e Teoria de Murray Bowen Ma. karoline Silva A Pré-História do Genograma 1 1913-1990 Período de vida de Murray Bowen, psicoterapeuta e psicanalista do Tennessee, descrito como "um caçador faminto em uma difícil perseguição" do conhecimento. 2 Anos 1950 Bowen trabalha na Clínica Menninger em Topeka, conhecida por sua abordagem psicanalítica radical às doenças psiquiátricas. 3 1952 Inicia estudos inovadores sobre esquizofrenia, alugando um chalé para observar a interação entre pacientes esquizofrênicos e suas mães. A Ruptura com a Psicanálise Tradicional Limitações Percebidas Em 1954, Bowen concluiu que a psicanálise, baseada na interpretação, mais do que na observação de fatos, não poderia oferecer a orientação básica necessária. Interesse Mantido Apesar da ruptura metodológica, Bowen manteve da psicanálise um crescente interesse pela dinâmica familiar, que se tornaria central em sua teoria. Busca por Rigor Sua formação como intelectual rigoroso o levou a buscar fundamentos mais objetivos e observáveis para suas teorias sobre as relações familiares. A Família como Estrutura Própria Visão Sistêmica Estrutura familiar como um todo indivisível=pressupõe que qualquer mudança em uma parte Do Sistema é seguida de uma mudança compensatória de outras partes desse mesmo Sistema. Interconexão Membros em constante influência mútua Base Teórica Família como unidade de estudo e tratamento Como afirmou Robert Aylmer, Bowen "foi o primeiro a realizar que não se pode traduzir os conceitos psicanalíticos individuais na linguagem das famílias e o primeiro a ver a família como uma estrutura em si, que tem seus arranjos próprios". Para ele, a família não era apenas uma coleção de influências mútuas separadas por psiques vivendo juntas sob o mesmo teto. A Originalidade da Abordagem de Bowen Crescimento Pessoal Desenvolvimento do indivíduo como parte do sistema Interações Familiares Dinâmicas relacionais entre membros Terapia Integrada Abordagem que une self e relações familiares Autoconhecimento Nova forma de terapeutas conhecerem a si mesmos Sua originalidade está em conceber o crescimento pessoal e as interações familiares como parte de um todo indivisível, criando uma terapia que envolve tanto o self do indivíduo quanto suas múltiplas relações na família; com isso, deu aos terapeutas familiares uma nova maneira de conhecer a si mesmos. Principais Conceitos da Teoria de Bowen Diferenciação do Self Habilidade de separar-se emocionalmente da "massa indiferenciada do ego familiar" Sistema Emocional Forças emocionais que controlam as interações familiares Triângulos Menor unidade relacional estável, formulada quanto uma tensão enre duas pessoas é desviada para uma Terceira ( peso, situação ou coisas ) Cortes Emocionais Rompimentos que indicam como as pessoas lidam com a indiferenciação Projeção Familiar Processo em que pais projetam sua falta de diferenciação nos filhos Transmissão Multigeracional Herança da ansiedade familiar através das gerações Diferenciação do Self: Conceito Central Autonomia Capacidade de tomar decisões independentes Equilíbrio Emocional Gerenciar emoções sem ser dominado por elas Conexão Saudável Manter vínculos sem perder a identidade Para Bowen, a diferenciação do self é a pedra angular de sua teoria. Representa a habilidade de um indivíduo separar-se emocionalmente da "massa indiferenciada do ego familiar" para alcançar independência e maturidade, sem perder a capacidade de conexão emocional com liberdade. O caminho da diferenciação se contrapõe às forças emocionais tendentes à coesão, que controlam o sistema emocional. Enquanto o sistema familiar enfatiza o "nós", a diferenciação acentua o "eu" - um "eu" que assume responsabilidade pela própria felicidade, sem culpar os outros por suas dificuldades. Diferenciação Segundo Framo Sentido Seguro de Identidade Clareza sobre quem se é, independentemente das pressões externas e expectativas familiares. Capacidade de manter a própria identidade mesmo em situações de alta pressão emocional. Valores Próprios Consolidados Sistema de valores interno bem desenvolvido que serve como bússola para decisões, sem necessidade constante de validação externa. Capacidade de sustentar posições mesmo quando divergentes do grupo. Não-Reatividade Emocional Habilidade de não reagir automaticamente às emoções dos outros, especialmente familiares próximos. Capacidade de manter a calma e o pensamento claro mesmo em situações de tensão familiar. A diferenciação, segundo Framo, da Internacional University em São Francisco, refere-se ao grau de liberdade interna e independência que pode ser acessado por um observador: "Basicamente ela tem a ver com ter sentido seguro de quem você é, um forte senso de seus próprios valores, e a habilidade de não ser reativo aos seus amigos e familiares mais próximos". A Força Motivacional da Dinâmica Familiar Proximidade Busca por conexão emocional Distância Necessidade de autonomia Equilíbrio Tensão constante entre forças opostas Se para Freud a motivação inconsciente era o motor primeiro da vida emocional e intelectual, para Bowen o fluxo permeado por altos e baixos da vida familiar, o simultâneo puxa-empurra entre os membros da família por proximidade-distância, era a força motivacional subjacente a toda conduta humana. A Perspectiva Multigeracional História Familiar Profunda Raízes do distúrbio emocional em gerações anteriores Processo Evolutivo Padrões emocionais que se desenvolvem ao longo do tempo Padrões "Normais" Mesma evolução em famílias consideradas saudáveis A partir de 1955, Bowen começou a se interessar pela origem multigeracional da doença tendo em vista que, para ele, o distúrbio emocional era muito mais um processo evolutivo com origens profundas na história da família do que um padrão de relacionamento definível com precisão. Triângulos: Estruturas Relacionais Básicas Busca de Equilíbrio Objetivo principal dos triângulos Resposta à Ansiedade Formados quando há elevado nível de tensão Estrutura Relacional Base dos relacionamentos familiares O triângulo, para Bowen, tem como objetivo a busca do equilíbrio: sempre que a relação entre duas pessoas encontra um nível elevado de ansiedade, é necessário um terceiro para reequilibrá-la. Este "terceiro" não precisa ser necessariamente outra pessoa; às vezes, uma das pontas do triângulo é um objeto, um emprego, uma relação fantasiada ou um animal. O Conceito de Triângulo Tensão na Díade Quando duas pessoas experimentam ansiedade elevada em seu relacionamento Inclusão do Terceiro Um terceiro elemento é trazido para estabilizar o sistema Reequilíbrio A tensão é redistribuída, aliviando a pressão na díade original Padrão Recorrente O processo se repete, tornando-se um padrão previsível O triângulo, para Bowen, tem como objetivo a busca do equilíbrio: sempre que a relação entre duas pessoas encontra um nível elevado de ansiedade, é necessário um terceiro para reequilibrá-la. Este "terceiro" não precisa ser necessariamente outra pessoa; às vezes, uma das pontas do triângulo é um objeto, um emprego, uma relação fantasiada ou um animal. Uma vez diminuído o nível de tensão, as pessoas voltam a se relacionar em díades, até que nova fonte de estresse apareça e reative o triângulo. Este processo se torna um padrão de relacionamento familiar. Funcionamento dos Triângulos Alívio de Tensão Os triângulos funcionam como mecanismos para reduzir a ansiedade em relacionamentos. Quando a tensão entre duas pessoas se torna insuportável, um terceiro elemento é envolvido para redistribuir essa tensão. Padrões Repetitivos Segundo Kerr e Bowen, o triângulo torna-se um padrão de relacionamento; ele se repete tantas vezes que passa a ser um padrão conhecido e previsível das relações familiares. Continuidade GeracionalPara Bowen, as famílias se repetem; o que acontece em uma geração frequentemente se repete na seguinte, embora o comportamento atual possa aparecer de variadas maneiras na repetição. A importância intergeracional para Bowen está justamente na compreensão da dinâmica relacional por meio dos triângulos: como se formam, quais membros da família envolvem, como mudam de estrutura, em função do quê, e como os demais membros reagem diante de um triângulo. Triângulos e História Familiar Identificação dos Triângulos Mapeamento das configurações triangulares recorrentes Análise de Padrões Reconhecimento de padrões repetitivos entre gerações 3 Compreensão da Dinâmica Entendimento das funções dos triângulos no sistema Por intermédio da história da família, podem-se analisar as triangulações, detectando-se os padrões de funcionamento familiar, as relações e a continuidade ou alternância de estruturas de uma geração à outra. Esta análise histórica permite identificar como os triângulos se formam em resposta a tensões específicas, quais membros tendem a ser triangulados com mais frequência e como esses padrões se repetem ou se transformam ao longo do tempo. Compreender esses padrões é fundamental para o processo terapêutico. Mapeando um triângulo (15 min) Escolham uma das opções: •Uma situação real vivida em sua família (sem expor nomes); •Um caso clínico fictício ou baseado em filmes/séries; •Uma situação genérica que conheçam. Desenhem: •Um triângulo relacional entre três pessoas ou elementos (pode ser uma pessoa, um sintoma, uma instituição etc.). •Indiquem com setas: quem triangula quem, qual a tensão original, e como o terceiro elemento ajuda a "aliviar" (ou complicar) essa tensão. Questionamentos : •Quem estava em tensão inicialmente? •Quem foi incluído como terceiro elemento? •Qual foi o papel desse terceiro na regulação do sistema? •O triângulo tornou a situação mais estável ou mais disfuncional? •O que perceberam sobre os triângulos formados? •É possível sair de um triângulo? Como? •Como isso se relaciona com o conceito de diferenciação do self? Processo de Projeção Familiar Indiferenciação Parental Pais com baixo nível de diferenciação experimentam ansiedade elevada em seu relacionamento e no exercício da parentalidade. Projeção nos Filhos A ansiedade e indiferenciação são projetadas em um ou mais filhos, que se tornam receptores das tensões não resolvidas do sistema familiar. Vulnerabilidade Aumentada O filho que é objeto dessa projeção torna-se mais vulnerável a problemas emocionais e comportamentais, perpetuando o ciclo de indiferenciação. O processo de projeção familiar é aquele em que os pais projetam nos filhos sua falta de diferenciação, ficando aquele que é objeto desse processo o mais vulnerável a problemas. Este mecanismo serve para aliviar a ansiedade do sistema parental, mas cria padrões problemáticos que podem se perpetuar. A identificação deste processo é crucial no trabalho terapêutico, pois permite compreender como determinados membros da família são posicionados em papéis específicos que servem à homeostase do sistema familiar. Fatores que Influenciam a Projeção Familiar Posição na Fratria A ordem de nascimento e a posição entre irmãos influenciam quais filhos tendem a receber mais projeções parentais. Primogênitos e caçulas frequentemente ocupam posições mais vulneráveis a este processo. Gênero Expectativas baseadas em gênero podem determinar como as projeções são direcionadas. Filhos do mesmo gênero que um dos pais podem receber mais projeções relacionadas a questões não resolvidas daquele genitor. Semelhanças Percebidas Filhos que os pais percebem como semelhantes a familiares que evocam ansiedade (como avós ou tios "problemáticos") podem se tornar alvos preferenciais de projeções. Momento do Nascimento Crianças nascidas durante períodos de estresse familiar elevado têm maior probabilidade de se tornarem receptáculos de projeções relacionadas a esse estresse. Diversos fatores determinam quais filhos tendem a ser mais afetados pelo processo de projeção familiar. A compreensão desses fatores permite identificar padrões e intervir de forma mais eficaz no sistema familiar. A Expansão da Terapia Familiar nos EUA 1957: Crescimento do Campo A terapia familiar começa a se expandir pelos Estados Unidos, abrindo novas possibilidades para aplicação das teorias de Bowen. Teoria dos Sistemas Bowen viu com entusiasmo a possibilidade de aplicar à área o novo conhecimento oferecido pela teoria dos sistemas. Preocupação com a Prática Simultaneamente, mostrou-se apreensivo com a atitude dos novos terapeutas familiares, que considerava mais interessados nas técnicas da prática terapêutica do que em teorias. O Auge da Influência de Bowen 1967 Bowen escreve um importante artigo sobre sua família de origem, que seria publicado em 1972. Anos 1970 Alcança o pico de sua influência na metade desta década, após a publicação do artigo de 1967. 1977 Ajuda a fundar a American Family Therapy Academy (AFTA), tornando-se seu primeiro presidente. 1978 Publica o livro "Terapia Familiar na Prática Clínica", um compêndio indispensável para usar a teoria boweniana. A Fundação da AFTA Estímulo à Pesquisa A American Family Therapy Academy foi fundada com o objetivo principal de estimular a pesquisa em terapia de família. Liderança Pioneira Como primeiro presidente da AFTA, Bowen estabeleceu diretrizes que valorizavam o rigor teórico e a investigação científica. Comunidade Profissional A academia reuniu profissionais interessados em desenvolver e aprofundar os conhecimentos sobre terapia familiar sistêmica. Terapia Familiar na Prática Clínica Em 1978, Bowen publicou o livro "Terapia Familiar na Prática Clínica", considerado um compêndio indispensável para a aplicação da teoria boweniana. Esta obra consolidou seus anos de pesquisa e prática clínica, oferecendo aos terapeutas familiares um guia abrangente sobre como implementar sua abordagem sistêmica no trabalho com famílias. O livro aborda desde os fundamentos teóricos até aplicações práticas, incluindo estudos de caso e técnicas específicas para trabalhar com diferentes configurações familiares e problemas emocionais. A Família como Unidade de Estudo e Tratamento Pioneirismo Conceitual Bowen foi o primeiro a utilizar a expressão "família como unidade de estudo e tratamento", divulgada em uma publicação de 1959. Abordagem Sistêmica Embora não tenha chegado à terapia familiar pela teoria sistêmica, Bowen pensou e trabalhou sistemicamente, em termos de sistema. Legado Metodológico Sua abordagem estabeleceu as bases para uma nova forma de compreender e tratar os problemas emocionais, considerando o contexto familiar como elemento fundamental. O Genograma como Ferramenta Terapêutica 3 Gerações Número mínimo de gerações geralmente representadas em um genograma completo 1972 Publicação Ano da publicação do artigo que consolidou o uso do genograma 60+ Anos de Uso Tempo aproximado desde que o genograma começou a ser utilizado na terapia familiar O genograma, ferramenta desenvolvida a partir das teorias de Bowen, permite mapear graficamente a estrutura familiar ao longo de várias gerações. Esta representação visual facilita a identificação de padrões relacionais, transmissões multigeracionais e dinâmicas familiares que podem influenciar o comportamento e a saúde emocional dos indivíduos. Aplicações Práticas do Genograma Diagnóstico Familiar Permite identificar padrões de relacionamento, triangulações e cortes emocionais que podem estar contribuindo para os problemas apresentados. Registro Histórico Documenta informações importantes sobre a história familiar, incluindo eventos significativos, transições, perdas e conquistas ao longo das gerações. Promoção de Insights Ajuda os membros da família a visualizaremconexões entre padrões passados e comportamentos atuais, facilitando a compreensão de dinâmicas inconscientes. Planejamento Terapêutico Orienta o terapeuta na elaboração de intervenções específicas baseadas nas necessidades e padrões identificados na estrutura familiar. Construção do Genograma Estrutura Básica Representação gráfica dos membros da família usando símbolos padronizados (círculos para mulheres, quadrados para homens) e linhas que indicam relacionamentos. Coleta de Informações Entrevistas detalhadas para obter dados sobre datas importantes, eventos significativos, padrões de relacionamento e questões de saúde ao longo das gerações. Identificação de Padrões Análise das repetições, triangulações, cortes emocionais e outros padrões relacionais que se manifestam através das gerações. Interpretação Terapêutica Utilização do genograma como base para discussões terapêuticas, explorando conexões entre a história familiar e os problemas atuais. O Legado de Murray Bowen Teoria Abrangente Desenvolveu uma das teorias mais completas e coerentes sobre o funcionamento familiar, integrando múltiplos níveis de análise desde o biológico até o social. Formação de Terapeutas Influenciou gerações de terapeutas familiares, estabelecendo programas de treinamento que enfatizavam tanto o desenvolvimento teórico quanto o trabalho com a própria família de origem. Metodologia Inovadora Criou ferramentas e métodos que revolucionaram a prática da terapia familiar, incluindo o genograma e a abordagem multigeracional para compreensão dos problemas emocionais. Rigor Científico Estabeleceu um padrão de rigor científico no campo da terapia familiar, insistindo na importância da teoria fundamentada e da observação sistemática. Conclusão: A Relevância Contemporânea da Teoria Boweniana Aplicações Clínicas Atuais As teorias de Bowen continuam sendo aplicadas em diversos contextos terapêuticos, desde a terapia individual até intervenções com famílias e organizações. O genograma permanece como uma ferramenta essencial para terapeutas de diferentes abordagens. A ênfase na diferenciação do self e na compreensão dos padrões multigeracionais oferece insights valiosos para o tratamento de uma ampla gama de problemas emocionais e relacionais. Desafios e Desenvolvimentos Pesquisadores contemporâneos continuam expandindo e refinando as ideias de Bowen, adaptando-as para compreender novas configurações familiares e contextos culturais diversos. A integração da teoria boweniana com outras abordagens, como a neurociência e as terapias baseadas em evidências, representa um campo promissor para o desenvolvimento futuro da terapia familiar. REFERÊNCIAS MACEDO, Rosa Maria Stefanini de. Genograma: origens e usos. In: CERVENY, Ceneide Maria de Oliveira (Org.). O livro do genograma. 1. ed. São Paulo: Roca, 2014. p. 3–11. 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