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ARTE E DESIGN
Professora Rejane Bonomi
Arte
8º ano
Ensino Fundamental
Em algumas passagens da História da Arte, encontramos uma distinção
entre artes consideradas maiores e aquelas consideradas menores, definindo
uma hierarquia em relação aos valores atribuídos. No Renascimento italiano,
por exemplo, período que vai do século XIV ao XVI, os artistas alcançaram uma
posição diferenciada na sociedade, aproximando-se da realeza e do trabalho
intelectual, enquanto o artesão era considerado um trabalhador que executava
serviços técnicos. Dessa forma, a separação entre os fazeres do artista e do
artesão foi exacerbada.
Passados séculos, a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, trouxe
consequências para o trabalho artesanal, que foi substituído por maquinários.
Esse contexto trouxe consequências no âmbito da arte e proporcionou o
surgimento do trabalho de design.
Casa Milà, em
Barcelona, Espanha,
projetada pelo
arquiteto Antoni
Gaudí, construída
entre 1905 e 1907.
Idealização e criação
No século XVIII, mudanças ocorridas no processo de trabalho, inicialmente na Inglaterra,
influenciaram a produção manufatureira. A Revolução Industrial, que, a partir de 1850, com o
surgimento das máquinas a vapor, tornou possível o processo de industrialização, teve como uma das
consequências a substituição dos trabalhadores por máquinas em diversos setores de produção.
Gerando mudanças sociais e econômicas, os avanços tecnológicos influenciaram a fabricação de novos
materiais, que passaram a ser disponibilizados para a venda, afetando o sistema de produção em massa.
O ferro, o vidro e o cimento, por exemplo, chegaram à área das edificações arquitetônicas, à criação de
objetos do uso cotidiano, entre outros setores, permitindo diferentes usos, interferindo nas formas e
ecoando nos modos de vida.
O termo design surge nesse contexto de produção industrial, referente às artes aplicadas, como a
arquitetura, o mobiliário, as artes decorativas, as artes gráficas, entre outras. Por volta de 1880, o
movimento Arts and Crafts, surgido na Inglaterra, buscou valorizar os ofícios e trabalhos de produção
manufaturados, aproximando as chamadas belas -artes – aquelas produzidas dentro dos padrões
clássicos das academias – dos artesanatos. Buscando atuar em direção contrária à produção em massa
dada pela Revolução Industrial, esse movimento estético e social, do fim do século XIX, visava ao
desenvolvimento de um trabalho coletivo entre artesãos, tendo agregados valores artísticos. Um dos
principais representantes do grupo, Willian Morris (1834-1896) criou uma associação para produção de
design de mobiliário, papéis de parede, pratarias, tapeçaria, entre outros.
Varanda da Casa Vicens, em Barcelona,
Espanha, projetada por Antoni Gaudí.
Ainda no fim do século XIX, teve origem o estilo art nouveau, em países europeus e nos Estados Unidos,
visando também à valorização dos trabalhos artesanais, articulando, no entanto, a produção industrializada à
arte. Os artistas, arquitetos e designers utilizaram os novos materiais advindos da indústria naquela época, como
o ferro e o vidro, explorando formas orgânicas, que se relacionam à natureza. O novo estilo, absorvido pelas artes
decorativas, artes aplicadas, arquitetura e pelas artes gráficas, foi difundido até por volta de 1918, tendo recebido
denominações diferentes entre os países em que foi propagado, como o estilo secessão, criado por artistas e
arquitetos na Áustria.
A partir da segunda metade do século XIX, a cidade de Barcelona, na Catalunha , também se desenvolvia
acompanhando o florescimento da modernização e do crescimento econômico. O arquiteto catalão Antoni Gaudí
(1852-1926) criou projetos abordando o estilo art nouveau, explorando formas curvas e linhas ornamentais,
contrapondo-se à arquitetura clássica. De modo geral, o trabalho de Gaudí compreende a influência dos
ornamentos presentes na arquitetura árabe, e o encantamento pela arquitetura oriental a que o arquiteto teve
acesso por meio de fotografias, por exemplo. Com padrões repetidos, escolha de materiais de revestimento ,
como azulejos e pedras baratas, criando mosaicos e motivos decorativos na parte externa e no interior de suas
edificações, Gaudí apresenta um design peculiar e arrojado para a época, integrando funcionalidade e objetos
decorativos.
Émile Gallé (1846-1904) foi um artesão e designer francês que trabalhou em várias frentes, como cerâmica e
mobiliários, utilizava a técnica da marchetaria, resgatou conhecimentos de técnicas de fabricação de objetos em
vidro e explorou camadas de cores nos vasos que criou ao manipular pigmentos. A paisagem e os temas florais
estão presentes nas criações, que retratam também vistas da cidade do Rio de Janeiro. Investindo em pesquisas
sobre Botânica e Entomologia, os objetos criados por Gallé não só cumpriam função prática , mas também eram
vistos como arte.
O termo design traduz diferentes modalidades
das artes, atrelando a criação de formas, o uso de
materiais e a funcionalidade dos objetos no âmbito
da arte, da indústria e da tecnologia,
compreendendo diversos ofícios e um refinamento
estético.
Design e arte se aproximam em diversas
propostas contemporâneas, como na produção
artística do coletivo cubano Los Carpinteros,
formado em 1992. Na formação do grupo, três
artistas se uniram com a ideia de trabalhar
coletivamente, anulando as identidades individuais,
de acordo com as guildas, associações de artesãos
Vasos em vidro curvo e gravado a ácido, Émille Gallé (c. 1900).
existentes a partir da Idade Média. Atualmente formado por dois integrantes Los Carpinteros atuam com a ideia
de trabalho colaborativo. As obras, criadas com mídias diversas, dialogam com as artes visuais, o design e a
Arquitetura ao construírem objetos que tenham funções anuladas ou subvertidas, trazendo mensagens de
críticas sociais e políticas, abordadas de forma irônica. A ironia está presente na própria denominação do
coletivo de arte, “marceneiros”, traduzindo para a língua portuguesa. Em reflexões tradicionais sobre arte, o
artesão – marceneiro – é o trabalhador braçal, aquele que executa objetos em série, e o artista seria o criador da
obra de arte única. Além disso, a madeira que utilizavam em suas primeiras criações coletivas era uma das únicas
matérias-primas disponíveis em Havana, Cuba, garimpadas em casas em demolição.
Arte, artesanato e design
A dupla de artistas Jéssica Martins (1988-) e José
Alberto Bahia (1982-) criou a marca denominada Saracura
Três Potes, para a produção de peças em cerâmica, após
uma investigação sobre sementes, cascas e frutos típicos
da região do Cerrado mineiro. Trabalhando em um ateliê
localizado na região de Brumadinho, MG, os artistas
obtêm as formas em gesso para, posteriormente, criar as
peças em cerâmica, moldadas em cabaças, cuités,
sapucaias, entre outras, transformando-as em peças
utilitárias. O trabalho dos ceramistas encontra origem nos
costumes de indígenas e sertanejos, que utilizam esses
elementos da natureza no cotidiano.
Pau-Rei, peças em cerâmica criadas a partir do fruto da árvore pau-rei.
O trabalho realizado pela artista visual,
educadora em artes e pesquisadora Bianca Lemes é
composto de uma pesquisa que aborda
conhecimentos artesanais sobre o crochê, sobretudo
de mulheres que produzem na região sul do estado de
Minas Gerais. Ao investigar o ofício das artesãs, a
artista ressalta a importância da produção coletiva na
disseminação do conhecimento de técnicas
tradicionais, valorizando o patrimônio material e
imaterial. As criações de Bianca, em parceria com a
comunidade de artesãs na produção têxtil,
aproximam arte, artesanato e design ao elaborar
diferentes produtos , como peças de vestuário,
adornos e peças decorativas para o uso cotidiano.
Modelo usando peças de vestuário em crochê criadas pela Emerenciana Crochê.
A escola Bauhaus
A cidade de Weimar, no leste da Alemanha , tem uma tradição cultural relevante, pois foi habitada por nomes
importantes da literatura, da música clássica, da Filosofia e da Arquitetura,como os poetas Goethe (1749-1832), e
Schiller (1759-1805), o músico Bach (1685-1750), o sociólogo Weber (1864-1920), o filósofo Nietzsche (1844-
1900), o arquiteto Walter Gropius (1883-1969), entre outros. Em 1919, Gropius foi um dos fundadores da escola
Bauhaus, que viria a influenciar a Arquitetura, as artes plásticas e o design modernos internacionalmente. Findada
a Primeira Guerra Mundial, o país passava por uma fase de reconstrução na crise gerada em vários países, e a
Bauhaus, que em português significa “casa da construção”, foi inaugurada oferecendo seminários aos estudantes
sobre artesanato e conhecimentos técnicos, concretizando um sonho da arte que poderia atender às demandas
da sociedade e dando, ao mesmo tempo, espaço para a criatividade humana, opondo resistência às produções em
massa das máquinas.
Walter Gropius vislumbrava um novo começo para o futuro da Alemanha, buscando superar as marcas
deixadas pela guerra. A proposta do ensino na Bauhaus abrangia, de forma pioneira, disciplinas voltadas para
pintura, escultura, Arquitetura, design, artesanato, artes gráficas, Engenharia. A escola de vanguarda desafiou as
tradições na cidade de Weimar e, por questões políticas, foi transferida para Dessau, em 1925, onde Gropius
projetou o novo edifício para abrigar o projeto. Nesse edifício foram explorados materiais como estruturas de aço,
paredes de vidro, janelas amplas e uma estrutura edificada em uma forma que lembra um cata-vento,
comportando alas interligadas por passarelas, permitindo uma construção aberta, iluminada lançada na
arquitetura moderna. A sede da escola compreendeu habitações para os estudantes e funcionários, auditórios,
ateliês, bibliotecas, laboratórios, espaços destinados à administração, entre outros. Em uma visita ao edifício,
percebe-se que o arquiteto pensou em todos os detalhes internos e externos como uma obra total.
Interior do edifício da
Escola de Arte Bauhaus,
em Dessau, na Alemanha.
Prédio projetado por
Walter Gropius, em 1925.
As curvas sinuosas e as formas orgânicas conhecidas no art nouveau deram lugar a linhas retas, à
geometrização das formas e à ideia de síntese nas criações da Bauhaus, seja em design de objetos, projetos
arquitetônicos e pinturas, seja em qualquer outra criação. Influenciando também a pintura e a escultura. Entre o
grupo de docentes da Bauhaus, havia nomes como o do arquiteto alemão Mies van der Rohe (1886-1969), e os
dos artistas Paul Klee (1879- 1940), Wassily Kandinsky (1866-1944) e Joseph Albers (1888-1976).
O artista suíço Paul Klee lecionou na Bauhaus de 1921 a 1931, deixando um legado de anotações teóricas
sobre os elementos da pintura, como as cores e as composições de que tratava nas aulas. Um ano antes do
fechamento da escola, em 1933, com a ascensão do nazismo na Alemanha, a maior escola de vanguarda foi
transferida para a capital, Berlim. Atualmente, a Universidade Bauhaus recebe estudantes de várias partes do
mundo em Weimar e Dresden.
O movimento de arte chamado construtivismo, desenvolvido na Rússia, no início do século XX, exerceu
grande influência na Escola Bauhaus. Refletindo sobre o desenvolvimento industrial e o processo de
modernização das grandes cidades, o Concretismo foi outro movimento que rompeu com a arte tradicional. As
formas geométricas eram preponderantes, eliminando a representação figurativa, dando lugar à ideia de
construção. Teve representantes na pintura e na escultura, com a utilização de materiais como madeira, vidro,
ferro e aço.
Detalhe de um dos cadernos de anotações sobre teoria pictórica das formas, de Paul Klee.
B-10 Modulador Espacial, de László Moholy-Nagy (óleo e
linhas incisas em plexiglass, na moldura original, 1942).O artista húngaro László Moholy-Nagy (1895-1946), que foi professor
na Bauhaus entre 1923 e 1928, experimentou vários meios e materiais não
convencionais em suas criações artísticas e nas artes aplicadas.
Aproximando tecnologia e arte, teve influência do movimento
construtivista. Em muitas telas que pintou, ele trabalhou com
composições abstratas geométricas. Em 1937, o artista dirigiu a New
Bauhaus: American School of Design, em Chicago, nos Estados Unidos,
denominada posteriormente de Escola de Design. Criou uma série dos
chamados Moduladores Espaciais, explorando a transparência e as
sombras originadas pelo plexiglass, um material novo na época. Essas
obras constituem um híbrido de pintura e escultura que Moholy-Nagy
moldava à mão.
As influências do construtivismo russo e de outros movimentos, como
o neoplasticismo holandês, chegaram ao Brasil após a Segunda Guerra
Mundial. Foi denominado no Brasil de Movimento Concreto, e alguns
artistas fundaram nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro o Grupo
Ruptura (1952) e o Grupo Frente (1954), respectivamente. O grupo
paulista realizou pesquisas relacionadas à abstração geométrica e discutia
a teoria da pura visibilidade e a percepção visual, tornando a arte
extremamente racionalista, sem qualquer resquício da subjetividade do
artista. Formado por artistas como Waldemar Cordeiro (1925-1973), Luiz
Sacilotto (1924-2003), Judith Lauand (1922), entre outros, recebeu a
influência do artista suíço Max Bill (1908-1994) quando este realizou uma
exposição no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, em 1951,
tornando-se um importante teórico.
No Rio de Janeiro, o Grupo Frente investiu também na tendência da
arte não figurativa, sobretudo aquela cunhada no nacionalismo do
movimento modernista brasileiro. Diferenciou-se do Grupo Ruptura pelas
experimentações técnicas, de materiais e suportes,
proporcionando uma abertura a expressões individuais e diferentes
estilos. Fazem parte do Grupo Ivan Serpa (1923-1973), Abraham Palatnik
(1928), Franz Weissmann (1911-2005), Hélio Oiticica (1937-1980), Lygia
Clark (1920-1988), Lygia Pape (1927-2004), entre outros.
Espaço virtual, Judith Lauand, têmpera sobre tela, 1960.
Referências bibliográficas
TRESOLAVY, Renato Luiz (coord.). Ensino fundamental : 8º ano : caderno 2. 1ª. ed. SOMOS Sistemas de Ensino, 2020. p. 12-
20.
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