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1 Unidade 1 Historiografia e Teoria da História 1) Que é História? História e memória. História não é ciência exata. Autor: Prof. Dr. Armando Alexandre dos Santos Todos os direitos reservados. Tópico A - Que é História? Embora a presente disciplina se intitule Historiografia e Teoria da História, por uma razão prática e também didática, inverteremos a ordem da exposição. Iniciaremos por conceituar a História e por tratar dos aspectos teóricos do seu estudo, deixando para a segunda fase a Historiografia, que consiste, como o próprio nome indica, na escrita da História – ou, em outras palavras, na história da História. A História, ensinavam os antigos gregos, é a recordação dos fatos passados, certos e dignos de memória. Essa formulação, sem dúvida, pode ser discutível, em face dos desenvolvimentos que os estudos históricos tiveram nos últimos séculos. Atualmente se entende a História não apenas como uma recordação de fatos, mas também como um estudo aprofundado, uma sistematização, uma elucidação dos processos históricos com a identificação das causas e dos efeitos dos fatos. Mas, de qualquer forma, a formulação antiga é, para efeitos didáticos, bastante expressiva e conserva sua validade. Analisemos, pois, os elementos dessa formulação. Em primeiro lugar, a História recorda FATOS; não cabe a ela recordar suposições, ilusões ou projetos que não chegaram a se realizar. Por outro lado, ela recorda fatos PASSADOS, pois não se faz história, em sentido estrito, a não ser de acontecimentos pretéritos. Uma história do presente não é propriamente história, é 2 mais bem jornalismo ou crônica.1 E uma história do futuro também não é história, mas é, isso sim, um exercício de futurologia! Pode até ser um tema literário muito atraente para fascinantes divagações intelectuais, mas não é história. Também só se pode fazer história de acontecimentos CERTOS. É claro que, em se tratando de fatos antigos, sempre há algum grau de incerteza acerca de como eles ocorreram, mas, de qualquer modo, a história necessita de certezas mínimas para poder ser validamente composta e escrita. Essa certeza pode ser buscada em fontes de natureza muito diversa, desde documentos escritos conservados em arquivos públicos ou privados, até restos arqueológicos, tradições orais e costumes conservados pelos diversos povos. Mas ela precisa ser procurada conscienciosamente pelo historiador. Por fim, a história tem necessariamente que passar pelo crivo, ou seja, pela peneira da memória. Nem tudo o que aconteceu no passado é registrável pela história, mas somente aquilo que foi conservado pela memória humana. E aí impõe-se a pergunta: por que a memória humana conserva algumas coisas e esquece outras? Porque julgou aquilo importante, memorável, inesquecível. Somente fatos DIGNOS DE MEMÓRIA são lembrados pela História. Sem o crivo da memória não se faz história. Os franceses dizem que cultura geral é o que fica na memória quando a gente esqueceu tudo o que aprendeu... De certa forma, podemos também dizer que a História é o que fica na 1 Não cabe aprofundar aqui um tema à margem do presente curso, mas que convém deixar registrado para a reflexão e análise dos nossos alunos, é a relação entre jornalismo e história. O jornalista é o historiador do presente, enquanto o historiador é, de certa forma, o jornalista do passado. O jornalista registra fatos atuais sobre os quais no futuro se debruçará o historiador, analisando-os, filtrando-os, selecionando-os, procurando neles estabelecer relações de causa e efeito que constituirão as próprias linhas mestras da narrativa histórica. O jornalista fornece, assim, matéria prima privilegiada para o trabalho do historiador; e, para entender o presente, o próprio jornalista precisa conhecer o passado no qual se insere o seu presente; em outras palavras, precisa ter, ele também, algo de historiador. E o historiador que estude o passado sem tomar em consideração o seu presente também não será bom historiador. Philippe Ariès registra, a propósito, que o grande historiador francês Lucien Lefebvre “aconselhava seus alunos a lerem com atenção o jornal diário. Os historiadores que dão as costas à sua época estão condenados a viver no passado de suas pesquisas, como em um gueto: congelaram a duração” (Um historiador diletante. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994, p. 127). Por outro lado, jornalistas e historiadores têm – ou pelo menos devem ter – em comum, um sério compromisso com a verdade: “Atribui-se a Philip L. Graham, quando presidente do jornal Washington Post, a descrição mais acertada da atividade jornalística: `A correria da imprensa torna inevitável que as reportagens tenham certo grau de superficialidade. Não está ao nosso alcance nem é a nossa praia dar a palavra final. Nós fazemos o primeiro rascunho da história. É uma tarefa extraordinária`. Isso não exime a imprensa de apurar os fatos com todo o rigor possível. O esboço preliminar da história de que fala Graham precisa ser sempre o resultado da busca honesta e desprendida da verdade.” (Veja, 3/6/2015, Carta ao Leitor). 3 memória depois que se esqueceu todo o resto. O resto, no caso, é tudo aquilo episódico, secundário, circunstancial, pouco importante. A par da “definição” grega de História, costuma-se também citar outra, de fonte romana: “Historia testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetustatis” (A História é a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida, a anunciadora da antiguidade)2. Nessa belíssima frase de Cícero, destaque-se o “mestre da vida”. Uma das grandes utilidades da História é que ela nos traz experiências do passado, fornecendo-nos elementos para não repetirmos erros cometidos outrora. Menos literária e mais ajustada aos critérios historiográficos modernos é a definição proposta pelo Pe. Raphael M. Galanti, (1840-1917), jesuíta italiano de grande erudição, que viveu no Rio de Janeiro, onde foi membro atuante do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e professor do Colégio Pedro II: “História é a narração autêntica e bem ordenada dos acontecimentos memoráveis que pertencem ao gênero humano.”3 O mesmo autor assim desdobra sua definição: Objeto da História são os fatos realizados pelo homem, e bem assim os que de algum modo lhe dizem respeito: [como] um eclipse, um terremoto, a erupção de um vulcão etc. Em suma: todos os fatos e as circunstâncias que direta ou indiretamente têm alguma relação com a natureza física ou moral do homem entram como elementos modificadores na história. Sendo a história, na frase do grande orador de Roma, a mestra da vida, segue-se que o historiador deve explicar os fatos comparando-os, apontando as relações que os ligam, investigando as causas e indicando os efeitos, para que das ocorrências particulares possa deduzir lições gerais de sabedoria moral e política. Infere-se facilmente de tudo isto que a história é uma ciência de alta importância, e que a narração pura e simples, embora necessária para a constituição da ciência, não forma, de per si, o objeto da história propriamente dita.4 Mais modernamente, o historiador francês Marc Bloch – personagem muito importante que estudaremos mais adiante – conceitua a História como sendo “a ciência dos homens no tempo”. Ou seja, como uma ciência que tem por objeto os homens, coletivamente considerados, e tudo o que a eles diz respeito; e isso não de modo estático, mas numa perspectiva dinâmica, através do tempo5. 2 Marcus Tullius Cicero, De Oratore. 3 GALANTI, R. M. Compendio de Historia Universal. São Paulo: Tip. Siqueira, 1932, 6ª. edição, p. 3. 4 GALANTI, op. cit., p. 6-7. 5 Vejamos as palavras do próprio Bloch: “Diz-se algumas vezes: A história é a ciência do passado. É, no meu modo de ver, falar errado. (...) Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores(...) nos ensinaram a reconhecer: o objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais 4 A História se escreve por representações, já que não é possível se repetir, exatamente e à maneira de um filme ou gravação em altíssima fidelidade, algum acontecimento do passado. Por mais autênticos e fidedignos que sejam os documentos utilizados, o historiador necessariamente representa o passado que está historiando. É de grande importância o conceito de representação. No sentido etimológico, representar significa re-apresentar, significa tornar de novo presente. A representação consiste, pois, no ato mediante o qual novamente tornamos presente algo do passado, embora com as limitações e as variabilidades inerentes à natureza humana de cada um de nós. Assim sendo, toda história, por mais científica e objetiva que seja, sempre terá algo de criação, ou melhor, de re-criação. Essa condição de subjetividade é, ao mesmo tempo, uma limitação da História, enquanto ciência, e é o seu maior atrativo, é aquilo por onde a História se inscreve no rol das Ciências Humanas, e não no das Ciências Exatas. “O Ofício do Historiador”, expressão cunhada em obra clássica do já citado Marc Bloch6, foi o título que o Prof. Dr. Ricardo da Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo, deu a uma conferência em que discorreu sobre as limitações e os desafios do historiador, intelectual que deve ser consciente de que jamais atingirá a verdade total, mas deve incansável e empenhadamente buscar atingi-la, com o espírito aberto para tudo quanto lhe revelem as fontes do passado, sem se deixar condicionar por ideias preconcebidas, mas também sem cair em relativismos. O professor iniciou sua alocução recordando um fato concreto: o ex-beatle Paul McCartney (1942-) se encontrou certa ocasião em Londres, no início da década de 1990, com George Martin (1926-2016), o antigo produtor que acompanhara toda a carreira ascensional dos Beatles, desde que estes iniciaram suas apresentações até quando adquiriram fama mundial. Os dois amigos começaram a recordar fatos antigos que haviam presenciado juntos, até que, de repente, discordaram num ponto concreto, em que as recordações discrepavam. Tratava-se de um acontecimento em que ambos haviam atuado juntos, mas cada qual jurava que o fato era de um jeito diferente do outro. Os dois discutiram algum tempo, cada um tentando convencer o outro da sua posição, mas ambos ficaram irredutíveis, os dois tendo certeza de que o outro estava errado... que o singular, favorável à abstração, o plural, que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem, os artefatos ou as máquinas, por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça. (...) Ciência dos homens, dissemos. É ainda vago demais. É preciso acrescentar: dos homens, no tempo. O historiador não apenas pensa humano. A atmosfera em que seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração. (...) Ora, esse tempo verdadeiro é, por natureza, um continuum. É também uma perpétua mudança. Da antítese desses dois atributos provêm os grandes problemas da pesquisa histórica.” (BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício do Historiador. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001, p. 52-55) 6 BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 2001. 5 De repente, puseram-se a rir, concluindo: – Se nós dois, que juntos vivemos isso, não estamos de acordo, o que dirão de nós no futuro?7 Esse pequeno episódio anedótico exprime bem o drama do historiador – e ao mesmo tempo, insista-se, a maior atração do nosso ofício. Dica do professor: Procure, na internet, a conferência do Prof. Dr. Ricardo da Costa, citada acima. Pode ser encontrada em: https://www.ricardocosta.com/artigo/o-oficio-do-historiador 7 COSTA, Ricardo da. O Ofício do Historiador. Conferência proferida no I Seminário de Graduandos e Pós-Graduandos em História da UFJF, no dia 27 de outubro de 2009, publicada em International Studies on Law and Education – 5 (janeiro-junho 2010), p. 79-84. Disponível em: https://www.ricardocosta.com/artigo/o-oficio-do-historiador https://www.ricardocosta.com/artigo/o-oficio-do-historiador https://www.ricardocosta.com/artigo/o-oficio-do-historiador 6 Tópico B – Memória e História Vimos, no tópico anterior, que só é registrado pela História aquilo que passou pelo crivo da memória. Aprofundemos agora um pouco mais o mecanismo da memória humana, para entendermos seu funcionamento e também, por tabela, para entendermos como ela influencia a própria escrita da História. Por que razão algumas coisas são conservadas na memória e outras, pelo contrário, são esquecidas? Por que alguns fatos, ou alguns aspectos dos fatos, são considerados importantes por algumas pessoas e são relegados à condição de pouco significativos e rapidamente esquecidos por outras? O mecanismo psicológico da nossa memória é singular. Falemos um pouco dele e do seu funcionamento. O francês Jean-Martin Charcot (1825-1893), médico e cientista considerado como um dos fundadores da moderna neurologia, definiu a memória como “a faculdade pela qual o espírito conserva o sentimento vago ou preciso de impressões anteriores”. Essa mesma definição foi adotada pelo psicólogo Raymond de Saint-Laurent (1879-1949), que, desenvolvendo o pensamento de seu compatriota Charcot, realçou a extrema variabilidade com que um mesmo fato é recordado por diferentes testemunhas que o presenciaram. Compreende-se sem dificuldades tal variabilidade: sendo as pessoas diferentes, com psicologias e características individuais desiguais, um mesmo fato pode impressioná-las de modo muito diverso. Para dar ideia dessa variabilidade, Saint-Laurent propõe aos seus leitores uma experiência concreta: sugere que interroguem separadamente várias pessoas que acabaram de assistir juntas à mesma peça teatral e lhes peçam que falem acerca do espetáculo que presenciaram minutos antes. Umas se lembrarão de modo mais vivo dos cenários, das cores, das vestimentas dos atores, dos gestos e dos movimentos de cada um deles ao longo da peça. O que as impressionou particularmente foi o que viram, e é sobre isso que falarão. Outras se recordarão mais dos cânticos e dos diálogos travados na apresentação. Conservarão na memória frases inteiras e até mesmo a melodia dos cantos. Foram impressionadas pelo que ouviram, mais do que pelo que viram. Outras, entretanto, se sentirão impressionadas com as emoções focalizadas no enredo da peça, ou que experimentaram ao assisti-la, e sobre isso serão capazes de discorrer longamente. 7 Outras, por fim, de espírito mais frio e ponderado, terão conservado na memória a ideia central da peça, bem como os argumentos ou os aspectos filosóficos do enredo: o que pensaram e julgaram acerca da peça foi o que mais as marcou. São quatro tipos de reações diferentes, correspondentes aos quatro tipos básicos de memória humana: a visual, a auditiva, a afetiva ou emocional e a intelectual. Todos nós temos essas quatro memórias, mas combinadas em graus diferenciados, em proporções extremamente variadas8. Por que motivo as memórias variam tanto de pessoa para pessoa? Isso acontece porque não existem duas pessoas iguais na face da terra, todos somos diferentes. Ainda bem! A diferenciação é que produz a beleza do conjunto. Se todos fôssemos iguais, a monotonia e a mesmice da nossa existência seriam insuportáveis. Se todosos sons fossem reduzidos a uma única nota musical, estariam mortas a harmonia e a beleza no mundo dos sons. Não existiriam Bachs, Mozarts ou Beethovens. A sirene de uma ambulância ou a buzina de um automóvel... seriam a mais bela das sinfonias! Em última análise, o critério da memória humana é sempre valorativo. Se nos lembramos das coisas ou delas nos esquecemos, é sempre em função do valor que atribuímos a elas. A axiologia – ou seja, em sentido etimológico, o estudo dos valores, dos critérios valorativos e de julgamento de todas as coisas – é fundamental para entendermos os valores individuais e os critérios da memória da espécie humana. É, por isso, também muito importante no estudo da História, em geral. Tudo quanto influencia os critérios de julgamento humano – sejam ideologias, sejam doutrinas filosóficas ou religiosas, princípios morais, costumes, fatores culturais, preferências estéticas – tem enorme importância no estudo da História. Esses fatores não podem ser ignorados ou menosprezados. Como ensinou o Prof. Friedrich von Hayek, Prêmio Nobel da Economia em 1974, os princípios teóricos acabam se impondo “ainda quando não reconhecidos explicitamente”, de tal modo que “o único resultado de nossa falta de preocupação pelos princípios é, ao que parece, sermos governados por meio de uma lógica de acontecimentos que em vão procuramos ignorar”9. 8 SAINT-LAURENT, Raymond de. La Mémoire. Avignon: Edouard Aubanel Éditeur, 1947, p. 19-20. 9 Citação extraída de conferência intitulada "O individualismo: verdadeiro e falso", publicada em "Estudios Públicos", n° 22, outono de 1986. 8 Todas essas questões estão em última análise relacionadas com o problema da memória. O mecanismo da memória é sinuoso no espírito humano, muitas vezes ele é inexplicado e até inexplicável para a própria pessoa que procura recordar ou, pelo contrário, quer esquecer seu passado. É um exercício que mexe muito a fundo com nossas paixões e com nossas emoções individuais. Normalmente, nós nos lembramos com nitidez daquilo que despertou em nós uma paixão muito profunda, seja ela favorável seja desfavorável. Não é fácil esquecer algo que nos agradou profundamente, como também é difícil esquecer algo que nos magoou, que nos feriu, que nos causou muito sofrimento. Na psique da espécie Homo sapiens, o mecanismo da memória está profundamente ligado ao mecanismo do amor e do ódio. Em outros termos, somos levados a atribuir importância e, portanto, a reter na memória as coisas que muito nos agradam ou muito nos causam repulsa; e, pelo contrário, tendemos a não prestar atenção e rapidamente esquecer o que nos é indiferente. Guardamos facilmente na memória a recordação dos triunfos, das vitórias e dos elogios que recebemos. Igualmente não conseguimos nos livrar da recordação traumática das nossas derrotas, bem como das humilhações e injustiças que sofremos. Esquecemos facilmente, entretanto, das coisas indiferentes. As coisas que não nos marcaram a fundo, emocionalmente, vão sendo varridas da memória e se veem lançadas à vala comum do esquecimento. Dir-se-ia que todos nós bebemos, no que diz respeito às coisas indiferentes, aquela água misteriosa do Lethes, o rio que separava o mundo presente do inferno mitológico dos gregos antigos. De acordo com suas crenças pagãs, as almas dos mortos atravessavam o Lethes, na barca de Caronte, e sentiam muita sede. Bebiam, então, para se aliviar, a água do próprio rio, e com isso se esqueciam do seu passado. Os mortos que bebiam água do Lethes ficavam, de acordo com a mitologia grega, vazios e desmemoriados. Seriam como HDs de nossos modernos computadores, que tivessem todo o seu conteúdo deletado e fossem, ademais, reformatados... Tornavam-se aptos a, pela metempsicose, reencarnarem até mesmo em animais. A realidade é que nossas vidas são cheias de fatos grandes ou pequenos que esquecemos completamente, porque eles nos foram indiferentes. Passaram por nós, ou nós passamos por eles, sem que tenham deixado marca em nossas memórias. As águas seletivas do imaginário Lethes os varreram de todo. Para nós, individual e subjetivamente, é como se nunca tivessem existido, é como se não fizessem parte da verdade. Verdade... Essa é uma palavra que usamos a todo momento e que, em História, tem enorme importância. Mas, que significa ela? O que é a verdade? 9 Essa foi a pergunta que Pôncio Pilatos fez a Jesus Cristo (Jo 18,38). Para os cristãos, Deus é a Verdade, Jesus Cristo é a Verdade: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, declarou formalmente Ele (Jo, 14,6). Para os gregos antigos, verdade era outra coisa. Em grego, verdade era aletheia, ou seja, não-esquecimento, era tudo o que não tinha sido apagado pela água do rio Lethes. O conceito de verdade, para os gregos clássicos, confundia-se, pois, com a ideia de memória. Verdade era o que a memória tinha conservado. No trabalho de seleção subconsciente do que deve e não deve ser lembrado, do que deve e não deve ser esquecido, cada um de nós é senhor de si, sem dúvida, mas somente até certo ponto. Se nós fôssemos senhores absolutos da nossa seleção, jamais esqueceríamos algo que nos interessasse, todos os alunos tirariam nota 10 em todas as provas e exames que fizessem... E, bem ainda maior, conseguiríamos esquecer totalmente fatos que nos traumatizaram no passado, nos feriram e nos magoaram. Só recordaríamos as coisas boas, agradáveis e úteis, e nem nos preocuparíamos com as más lembranças que nos afligem, nos fazem sofrer e condicionam nossa felicidade. A realidade concreta da nossa vida é que cada um de nós se lembra de muitas coisas boas e agradáveis, a par de muitas outras ruins e desagradáveis que sinceramente, no mais íntimo de nosso ser, preferiríamos esquecer. A seleção do que nos ficou, nós mesmos fazemos, ao longo da vida, no plano consciente e, ainda mais, no subconsciente. A memória não é só algo pessoal e individual, mas ela também pode ser compartilhada coletivamente, por grupos humanos maiores ou menores, por famílias, associações, grupos profissionais, até mesmo por nações inteiras. O mecanismo ativador desse compartilhamento coletivo pode ser a comunicação escrita, mas com maior frequência ele se dá pelas vias da oralidade. É de boca a ouvido que, na maior parte dos casos, se transmitem as recordações boas ou más que tendem a se perpetuar em um determinado grupo humano. Todas as famílias compartilham suas próprias recordações, e às vezes de modo implícito se estabelecem “pactos de silêncio” sobre assuntos-tabu que não devem ser tratados porque evocam recordações desagradáveis que se quereriam sepultar no esquecimento. É a esse tipo de assunto-tabu que se refere o bem conhecido ditado popular “não se fala de corda em casa de enforcado”. É proibido, por exemplo, ou pelo menos não é de bom tom falar em suicídio, em câncer ou em lepra numa família que já teve casos dessas desgraças. 10 O compartilhamento de suas recordações coletivas tem enorme importância para um grupo humano minoritário conservar sua própria identidade e afirmar-se como tal, sem se dissolver numa sociedade maior em cujo contexto está inserido. Minorias étnicas, religiosas ou profissionais cultivam suas próprias memórias coletivas como mecanismo de defesa e também por necessidade de sobrevivência e autopreservação. Um exemplo típico se deu com os carrascos, na sociedade europeia desde a Idade Média até os séculos XVIII e XIX. Como estava prevista, no ordenamento jurídico-penal, a aplicação da pena de morte para determinados delitos graves, a profissão de carrasco era tida como indispensável, mas havia um sentimento difuso de horror e rejeição em relação a ela. Por isso, dificilmente o filho de um carrasco conseguiria uma noiva que não fosse também filha ou irmã de outro carrasco. Dessa forma, estabeleceram-se grupos familiares de carrascos, em redes genealógicasque se estendiam no espaço por províncias inteiras e, no tempo, por várias gerações10. Em grupos assim fechados, era natural que se desenvolvesse todo um conjunto de recordações e memórias compartilhadas. Algo do mesmo gênero se dava com profissões que, no passado, eram consideradas pouco honrosas, como por exemplo a de atores e atrizes de teatro ou de circo. Constituíam-se verdadeiras dinastias teatrais ou circenses, cada uma delas com seu próprio conjunto de recordações compartilhadas, atuando à maneira de reforço da identidade daquele grupo minoritário colocado, por força das circunstâncias, à margem do conjunto da sociedade. O senso de identidade profundo do povo judeu, como também o dos ciganos, em larga medida se explica pelo compartilhamento de sua memória coletiva. Se não ocorresse tal compartilhamento, ter-se-iam forçosamente rompido os elos culturais que durante muitos séculos e até por milênios resistiram a incontáveis perseguições. Quando, no século XVI, os primeiros missionários católicos chegaram ao Japão e iniciaram sua pregação, alcançaram um sucesso muito grande, obtendo numerosas conversões. No final do mesmo século, porém, o cristianismo foi drasticamente proibido no Japão, passando os católicos a ser punidos com pena de morte. Durante mais de 200 anos foi proscrita a prática 10 A mais célebre das famílias de carrascos foi, sem dúvida, a família Sanson, que ao longo de sete gerações, desde o final do século XVII até meados do XIX, forneceu carrascos à França. É muito ampla a bibliografia existente na França, acerca das dinastias de carrascos em geral, e dos Sanson em particular. Ver, entre muitos outros: ARMAND, Frédéric. Les bourreaux en France : Du Moyen Age à l'abolition de la peine de mort, “Guillotin et la guillotine”, 2012; DEMOREST, Michel; DEMOREST, Danielle. Dictionnaire historique et anecdotique des bourreaux. Paris: Gens de Justice, 1996; DELARUE, Jacques. Le métier de bourreau du Moyen-Age à aujourd´hui. Paris: Fayard, 1979; CHRISTOPHE, Robert. Sanson, bourreaux de père en fils, pendant deux siècles. Paris: Arthème Fayard, 1960; LECHERBONNIER, Bernard. Bourreaux de père en fils: Les Sanson: 1688-1847. Paris: Albin Michel, 1989. 11 religiosa cristã no Japão, a tal ponto que parecia definitivamente extinta. Nesse período, também o Império do Sol Nascente viveu isolado, inteiramente fechado para influências externas, de modo especial para as provenientes do Ocidente. Somente na chamada Era Meiji – que se estendeu por 45 anos, de 1867 até 1912 – ocorreu a reabertura cultural do Japão para a Europa; foi então permitido o ingresso de missionários europeus e, para espanto destes, descobriram numerosas famílias que haviam conservado sua fé oculta, mas muito viva, durante gerações inteiras. Como foi que o conseguiram? Obviamente, por meio das memórias compartilhadas e transmitidas em sigilo pelas vias da oralidade.11 Fenômeno similar ocorreu em Portugal e na Espanha com famílias marranas, de origem judaica, que ocultamente conservaram sua fé ancestral e mantiveram secretamente seus cultos por séculos, até que reassumiram, já no século XX, sua condição explícita de judeus12. A força da memória compartilhada, sobretudo no caso de grupos minoritários que resistem a fatores externos contrários, é realmente enorme. Fenômeno análogo se verifica não raras vezes com grupos de pessoas que saem de seus ambientes nativos e emigram para outros países, de cultura muito diferente da sua. Desenvolvem uma psicologia própria, de alguém que se sente exilado e tende a conservar e até a realçar as características da pátria de origem, como mecanismo de defesa contra um ambiente externo que, mesmo que não se apresente propriamente como hostil, tende a envolver e descaracterizar os que vêm de fora. É o que o arqueólogo e antropólogo Harry Shapiro (1902-1990) designa como “o significado psicológico do exílio”: As atitudes que envolvem um grupo de pessoas distantes da sua terra natal e cultura caem num padrão que parece enquadrar-se nas leis da dinâmica social. Entre outras coisas, uma colônia desse tipo procura inicialmente reconstituir, na medida do possível, uma aparência da sua própria civilização e sistema de vida. Nenhuma perda parece mais angustiosa que a desses bens. Objetos, modos, usos e ideias associados à terra natal adquirem um grande valor enquanto o grupo sobrevive – e desse valor precisa para sobreviver. De qualquer forma, estes aspectos de cultura ou fé facilmente adquirem sentido simbólico e funcionam como uma base de sustentação para o espírito grupal. Frequentemente as origens e tradições comuns servem, pelo menos durante certo tempo, para manter alguns desses grupos unidos sempre que se encontram no seio de populações diferentes. Preferem viver como um grupo encerrado em si mesmos, para assim reconstruir um ambiente cultural no qual possam sentir-se “em casa”. (...) Na América do século XIX, pequenas Itálias, Alemanhas, Irlandas etc. surgiram onde quer que colonos de terras europeias tenham-se 11 Ver, a respeito: A perseguição japonesa ao catolicismo e os kakure kirishitan. Disponível em: http://www.e-cristianismo.com.br/historia-do-cristianismo/a-perseguicao-japonesa-ao-catolicismo-e-os- kakure-kirishitan.html. 12 Entre muitas outras obras que tratam desse assunto, ver: SCHWARZ, Samuel. Os Cristãos-Novos em Portugal no século XX. Lisboa: Ed. Associação dos Arqueólogos Portugueses, 1925. http://www.e-cristianismo.com.br/historia-do-cristianismo/a-perseguicao-japonesa-ao-catolicismo-e-os-kakure-kirishitan.html http://www.e-cristianismo.com.br/historia-do-cristianismo/a-perseguicao-japonesa-ao-catolicismo-e-os-kakure-kirishitan.html 12 estabelecido com uma preponderância desta ou daquela origem. Aqui a linguagem e as tradições da terra natal eram nutridas e preservadas. Para que não se imagine ser este um fenômeno restrito a civilizações mais evoluídas, muitos exemplos podem ser citados em que se veneram culturas dos tipos mais simples. (...)13 Dica do professor: Faça você mesmo a experiência. Assista a um filme – de preferência histórico – em companhia de 4 ou 5 amigos. Em seguida, todos respondam separadamente a um questionário previamente elaborado, acerca do filme, recordando as cenas mais marcantes, as impressões que cada qual teve, as ideias que lhes sugeriu o espetáculo. Depois, somente depois, leiam todos em voz alta e comparem o que escreveram. É um exercício muito interessante, do ponto de vista intelectual e psicológico, e ajudará você a compreender e vivenciar as limitações do “ofício do historiador”. Tópico C - A História não pode ser entendida como uma ciência exata Se a memória humana é tão variável, e se a História, em última análise, se baseia na memória humana, forçoso é concluir que a História não é, nem poderia ser, uma ciência exata. O próprio das ciências exatas é independerem de fatores humanos variáveis. São ciências exatas a Matemática, a Física e a Química, ou as que de certa forma derivam dessas três ou utilizam elementos delas, tais como a Astronomia, a Engenharia, a Ciência da Computação, a Geologia, a Meteorologia, a Oceanografia etc. Atualmente, tudo isso é sem dúvida muito claro. Mas já houve no passado quem pretendesse fazer da História uma ciência exata e acreditasse seriamente que tal coisa era realizável. Veremos isso mais adiante, ainda nesta disciplina, quando estudarmos a historiografia do século XIX. Também há historiadores pós-modernos que de tal forma descreem das possibilidades de a História atingir a verdade objetiva, que praticamente reduzem a História a um mero discurso descompromissado e em promíscua confusão com o campo da literatura ficcional... Nem tanto ao mar, nem tanto à terra! Nem oito, nem oitenta! 13 SHAPIRO, Harry L. O Povo Judeu: uma história biológica. Rio de Janeiro: Edições Biblos Ltda., publicaçãoespecial da Confederação Israelita do Brasil, 1966, p. 65-67. 13 Como historiadores, devemos procurar, com seriedade, fazer uma análise conscienciosa das fontes e dos documentos disponíveis, tentando, em toda a medida do possível, nada dizer que saibamos não ser verdade e nada omitir que nos pareça ser verdade. Nossa meta, pois, será observar sempre o conselho do jurista e orador romano Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) acerca da História, conselho esse que o Papa Leão XIII lembrou aos historiadores de todas as crenças quando, no início de seu pontificado, lhes abriu os arquivos do Vaticano: Quis nescit primam esse historiae legem ne quid falsi dicere audeat, deinde ne quid veri non audeat? ne quae suspicio gratiae sit in scribendo? ne quae simultatis? (De orator. II, 15) Quem pode ignorar que a primeira lei da História é nada ousar dizer que seja falso, e, em seguida, nada deixar de dizer que seja verdade, de tal modo que não haja parcialidade favorável ou maliciosa no que se escreve? Para se atingir essa meta, é indispensável que a História seja livremente estudada, mas com critérios acadêmicos rigorosos, de modo frio e isento, sem paixões e sem condicionamentos preconcebidos. Bem sabemos que a plena imparcialidade não é atingível por nós, seres humanos, mas devemos sincera e conscienciosamente nos empenhar para atingi-la, de acordo com a frase imortal do literato espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616): (...) debiendo ser los historiadores puntuales, verdaderos y nonada apasionados, y que ni el interés ni el miedo, el rancor ni la afición no les hagan torcer del camino de la verdad, cuya madre es la Historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir (...). (...) devendo os historiadores ser objetivos, verídicos e pouco apaixonados, de modo que nem o interesse, nem o temor, o rancor ou a afeição lhes façam torcer o caminho da verdade, cuja mãe é a História, êmula do tempo, depositária dos feitos, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro) – Miguel de Cervantes Saavedra, Dom Quixote. Dica do professor: 14 Repasse os três tópicos desta primeira unidade. Procure reter no seu espírito os pontos principais desses tópicos. Ame-os profundamente... para não esquecê-los. São conhecimentos que deverão acompanhar você no seu dia-a-dia, em toda a sua carreira, tanto nos estudos universitários como mais tarde, na sua atividade profissional, como historiadores ou professores de História.