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Tradução de Luís Coimbra
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7 
Para a minha família:
a minha esposa Marilyn e os meus fi lhos,
Eve, Reid, Victor e Ben
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Índice
Agradecimentos
Prefácio da Edição da Perennial Classics
Prólogo
O Carrasco do Amor
«Se a Violação Fosse Legal...»
A Mulher Gorda
«Morreu o Filho Errado»
«Nunca Pensei que me Pudesse Acontecer»
«Não Desapareças de Mansinho»
Dois Sorrisos
Três Cartas por Abrir
Monogamia Terapêutica
Em Busca do Sonhador
19
31
83
103
133
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167
183
203
229
247
10 
Agradecimentos
M
ais do que metade deste livro foi escrita durante um ano de li-
cença sabática repleto de viagens. Estou muito grato a diversos 
indivíduos e instituições que me acolheram e facilitaram a es-
crita desta obra: o Centro de Humanidades da Universidade de Stanford, 
o Centro de Estudos Bellagio da Fundação Rockefeller, os Drs. Mikiko e 
Tsunechito Hasegawa em Tóquio e no Havai, o Caff é Malvina em São Fran-
cisco, e o Programa de Escrita Criativa de Bennington College.
Agradeço à minha esposa Marilyn (que é sempre a minha crítica mais 
dura e a minha apoiante mais dedicada); à minha editora na Basic Books, 
Phoebe Hoss, que muita liberdade me deu neste e nos meus livros anterior-
mente publicados pela Basic; e à minha gestora de projecto na Basic Books, 
Linda Carbone. Agradeço também aos variadíssimos colegas e amigos 
que não fugiram quando os abordei, com um novo texto na mão e que me 
ofereceram ora críticas, ora encorajamento, ora consolo. Foi um processo 
moroso e decerto ter-me-ei esquecido de alguns nomes pelo caminho, mas 
não posso deixar de agradecer a Pat Baumgardner, Helen Blau, Michele 
Carter, Isabel Davis, Stanely Elkin, John Felstiner, Albert Guerard, Maclin 
Guerard, Ruthellen Josselson, Herant Katchadourian, Stina Katchadourian, 
Marguerite Lederberg, John L’Heureux, Morton Lieberman, Dee Lum, K. 
Y. Lum, Mary Jane Moff att, Nan Robinson, à minha irmã Jean Rose, a Gena 
Sorensen, David Spiegel, Winfried Weiss, ao meu fi lho Benjamin Yalom, 
aos alunos de 1988 na Universidade de Stanford e aos estagiários de psico-
logia do mesmo ano lectivo, à minha secretária Bea Mitchell, que, ao longo 
de dez anos, dactilografou os apontamentos clínicos e as ideias que deram 
origem a estas histórias. Como sempre, agradeço à Universidade de Stan-
ford por me dar o apoio, a liberdade académica e a comunidade intelectual 
essenciais para o meu trabalho.
Tenho uma divida de gratidão para com os dez pacientes cujos casos 
são apresentados nestas páginas. Cada um deles leu na íntegra a sua história 
11 
(exceptuando um, que faleceu antes de a sua estar concluída) e autorizou a 
respectiva publicação. Cada um deles verifi cou e aprovou o disfarce que lhe 
foi atribuído, muitos deram contributos editoriais, um (Dave) sugeriu-me 
o título da sua história, alguns comentaram que o disfarce que lhes dera era 
escusadamente denso e insistiram que a minha descrição deles fosse mais 
fi el, um ou dois fi caram perturbados com o modo como me expus nesta 
obra, ou com algumas das liberdades dramáticas que tomei, mas, ainda as-
sim, esperando que a sua história viesse a ser útil para psicoterapeutas e/ou 
outros pacientes, deram-me o seu consentimento e a sua bênção para a pu-
blicar. Quero deixar-lhes, a todos eles, os meus profundos agradecimentos.
Estas são histórias verídicas, mas tive de fazer bastantes alterações para 
proteger a identidade dos pacientes. Em muitos casos, incluí substitutos 
simbolicamente equivalentes para determinados aspectos da identidade e 
das circunstâncias de vida de certo paciente; noutros, enxertei aspectos da 
identidade de outros pacientes no protagonista. Em vários casos, os diálo-
gos fi ccionais e as minhas refl exões pessoais são post hoc. Os disfarces es-
colhidos são densos e as únicas pessoas que conseguirão ver quem está por 
detrás da máscara são os pacientes em causa. Qualquer leitor que julgue 
reconhecer um dos dez protagonistas estará, com toda a certeza, enganado.
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13 
Prefácio da Edição da 
Perennial Classics
E
stas histórias são revoluções criativas. Vão virar o leitor do avesso. 
Agora disponível em nova edição da HarperCollins Publishers, A 
Psicologia do Amor, obra consagrada de Irvin Yalom, mergulha-nos 
no universo privado da psicoterapia.
Cada uma destas dez histórias relata um encontro verídico entre dois 
indivíduos com papéis bem defi nidos. Estas narrativas clínicas, sujeitas a 
transformação artística, são retiradas da experiência profi ssional do Dr. 
Yalom. Foram tratadas com meticuloso cuidado para as identidades dos 
pacientes referidos serem disfarçadas, de modo que respeitasse a sua priva-
cidade e a merecer o seu consentimento para publicação.
Tendo isso presente, o que aqui lemos são versões literárias de encon-
tros clínicos reais, narrativas fascinantes sobre o processo psicoterapêutico 
e o seu desenrolar no contexto da vida subjectiva e da interacção entre dois 
seres humanos, o Terapeuta e o Paciente.
Em determinado sentido, o que aqui temos não é arte, mas artifício. 
Nestas páginas, maravilhamo-nos com a evolução de seres humanos que 
enfrentam com coragem as circunstâncias difíceis das suas vidas e as suas 
angústias. Simultaneamente, acompanhamos um psicoterapeuta dotado a 
aproximar-se daquilo que Martin Buber descreveu como o modo de rela-
cionamento entre Eu e Tu, modo que pauta pela reciprocidade absoluta.
Também se verifi ca aqui um passe de magia do autor, que encontra 
um modo de ensinar conceitos de psicoterapia e dar lições de vida de um 
modo novo e original.
Como leitores, como público, damos por nós no papel de observa-
dores silenciosos que ouvem, indiscretamente, estes momentos de intensa 
intimidade. Não podemos deixar de encontrar aspectos de nós próprios 
refl ectidos nestas histórias.
Ao escrever estes parágrafos, recordo-me da primeira vez que me deti-
ve a olhar para o Monumento aos Combatentes do Vietname em Washing-
14 
ton, DC. Mesmo à luz amortecida do entardecer, os nomes gravados em 
mármore negro não me impediam de observar a minha própria imagem 
refl ectida naquela superfície espelhada. Por instantes, cada um dos solda-
dos imortalizados no monumento e quem contempla as inscrições estão na 
presença uns dos outros.
As narrativas integradas em A Psicologia do Amor homenageiam vi-
das reais. A prosa fi na de Yalom não se limita a agarrar-nos; convida-nos a 
participar em cada um destes encontros e arrasta-nos para o âmago destas 
conversas. Gravadas na nossa imaginação, alteram o modo como vemos o 
mundo e as nossas próprias pessoas.
Muitas pessoas, dedicadas ou não às profi ssões sociais e de saúde, be-
nefi ciaram da leitura de A Psicologia do Amor. Outras, sensibilizadas com 
estas histórias, foram levadas adoptar nova perspectivas sobre si próprias 
ou as difi culdades da vida. Algumas optaram por se submeter, pela primei-
ra vez, a psicoterapia.
G
ostaria, no entanto, de sugerir que, em A Psicologia do Amor, nem 
tudo é exactamente aquilo que parece ser. Embora pareça uma ferra-
menta educativa, este livro também anuncia a criação de um novo género 
artístico por parte de um autor com verdadeiro talento literário.
Esta obra situa-se na encruzilhada da arte com a ciência. Serve simul-
taneamente ambos os ramos. A Psicologia do Amor deriva inspiração das 
obras clássicas da Psicologia que recorrem a casos clínicos para apresenta-
rem novos pontos de vista: o estudo clássico de S. Freud sobre o «Pequeno 
Hans»; o «Case of Ellen West», de L. Binswanger, Memories, Dreams, de 
C. G. Jung; Young Man Luther e Gandhi’s Truth, de E. Erikson. Também as 
obras Doctor of Desire e Th e Listener, do Dr. Allen Wheelis, e Lives of a Cell 
de Lewis Th omas, fazem essa ponte entre ciência e arte.
Porém, a sua originalidade, aquilo que demarca esta obra da ciência 
criativa (neste caso, da psicoterapia criativa) e a insere num género artístico 
próprio, é o modo como a narrativa clínica deixa aqui de ser um signo e se 
transforma num autênticosímbolo.
As histórias de Yalom mudam o nosso enquadramento conceptual. A 
narrativa clínica, nas mãos deste artista, converte-se numa metáfora para o 
percurso da alma ao longo da vida. Entramos no mesmo território artístico 
que é ocupado por O Coração das Trevas de Joseph Conrad, Moby Dick de 
Melville, e Dom Quixote de Cervantes. Os episódios relatados em A Psico-
logia do Amor são metáforas para o caminho para a plenitude e a realização 
pessoal, percurso descrito com recurso a vocabulário transparente: o te-
rapeuta, o paciente, a história de vida, a doença, as circunstâncias difíceis.
Esta obra preludiou dois romances subsequentes: Quando Nietzsche 
15 
Chorou e Mentiras no Divã, além de um livro de contos: Momma and the 
Meaning of Life. Nessas obras, Yalom alarga o âmbito artístico e a diversi-
dade do discurso humano, transformando, metaforicamente, a consulta de 
psicoterapia numa nova forma artística.
Antes de embarcarmos nesta viagem literária, é importante compre-
endermos que o terapeuta referido em A Psicologia do Amor é ao mesmo 
tempo três doutores Yalom, cada um dos quais revela um aspecto da vida e 
dos projectos dele.
A primeira encarnação remonta aos anos em que fi cou conhecido por 
Dr. Yalom, professor de psiquiatria na Universidade de Stanford. Desde iní-
cios da década de sessenta até hoje, tem-se mantido como docente, mentor 
e investigador conceituado. Na fase inicial, a sua investigação e os seus es-
critos sobre psicoterapia de grupo e os fenómenos sociais emergentes dos 
encontros em grupo deram-lhe relevo a nível nacional. Esses estudos foram 
apresentados em duas obras que merecem destaque: Th eory and Practice 
of Group Psychotherapy e Encounter Groups First Facts. O autor esclareceu 
o valor intrínseco, e até mesmo a qualidade reparadora, dessas formas so-
ciais de psicoterapia, e o porquê de determinados indivíduos se mostra-
rem especialmente capazes de benefi ciarem dessa abordagem. Investigou 
os aspectos que promovem a evolução dentro de todos os grupos de tera-
pia e encarou o grupo propriamente dito como um processo evolutivo cuja 
identidade está em constante mutação. Atentou nas subtilezas da relação 
entre quem gere e quem participa no grupo, esmiuçando, decididamente, 
as questões de poder e controlo, amor, agressão, auto-estima e domínio.
A segunda encarnação — o Dr. Yalom, por vezes, apelidado de «Irv» —, é um muito estimado médico psiquiatra. Ao longo do seu percurso 
profi ssional, logo desde o internato de psiquiatria no Johns Hopkins, o Dr. 
Yalom questionou, constantemente, as tendências psicanalíticas dominan-
tes em cada época, sem ignorar certos aspectos profundos e úteis: a com-
preensão da vida inconsciente; a estrutura da consciência, os métodos que 
utilizamos para darmos sentido ao mundo, para nos defendermos da an-
siedade, para defi nirmos objectivos na vida, para encararmos o luto e para 
recuperarmos. Na primeira metade do século xx, no Johns Hopkins, o ilus-
tre psiquiatra americano Adolph Meyer apresentara o conceito da análise 
pormenorizada da vida como método para a compreensão do surgimento 
e do impacto das doenças mentais, e o estudo das suas características espe-
cífi cas e dos fenómenos relacionados.
Anos mais tarde, o Dr. Jerome Frank, outro conceituado psiquiatra 
do Johns Hopkins, debruçou-se sobre o contributo de factores «não espe-
cífi cos» para a efi cácia da psicoterapia. A investigação clínica do Dr. Frank 
16 
incidiu sobre a relação subtil entre o contexto específi co, a consistência e a 
previsibilidade da presença e da atitude do terapeuta, e a confi ança e a acei-
tação que a atitude deste merece.
Bebendo da tradição analítica, das ideias de professores infl uentes e 
aproveitando a sua própria aptidão para questionar com compaixão, mas 
sem vacilar, Yalom entrou, determinadamente no universo da psicoterapia 
existencial. Quem sabe quando o seu eterno fascínio com a narrativa da 
vida humana, ou as cambiantes da existência, ou os nossos modos específi -
cos de estarmos connosco e com os outros se conjugaram para dar origem 
à sua nova identidade?
Como se terá ele tornado, realmente, num psicoterapeuta existencial? 
Talvez tenha sido através do modo absolutamente sincero como encara a 
sua realidade particular em relação ao próximo, ou através da sua noção da 
atitude análoga do próximo em relação a ele. Talvez tenha sido por ter per-
cebido que os universos, tantas vezes secretos, e, até esquivos, do pensamen-
to, do sentimento e da imagem poderiam ser transportados directamente 
para o encontro terapêutico — com transparência, coragem, respeito —, e 
por ter subsequente e cuidadosamente experimentado essa possibilidade.
É certo que o Dr. Yalom não descobriu, nem reinventou os conceitos 
de transferência e de contratransferência, essas realidades subjectivas que 
trazem para o presente novas versões activas das nossas antigas, por vezes 
até arcaicas, maneiras de ver o mundo, de o pensar e de nos relacionarmos 
socialmente. No entanto, explorou essas realidades sociais da terapia com 
uma perspectiva nova, empenho e ousadia. Ao partilhar com franqueza 
os seus apontamentos sobre o processo de terapia de grupo com os parti-
cipantes nos intervalos entre sessões, ou ao trocar apontamentos sobre o 
processo psicoterapêutico com os pacientes para melhor refl ectirem sobre 
uma sessão, variação original que descreve em Every Day Gets a Little Clo-
ser, Yalom começou a desmistifi car o processo de tratamento e o papel do 
terapeuta no mesmo.
Ironicamente, deste modo, os mistérios da terapia adensam-se. Como 
o autor descobriu, assim os pacientes entregavam-se mais no diálogo com 
ele, aprofundavam cada vez mais a análise das suas vidas e dos seus próprios 
seres. Descobriu que se debatiam corajosamente com aquilo que é comum 
a todos nós, cada um à sua a maneira, o modo como damos sentido à vida 
ou tentamos evitá-lo, a nossa solidão e isolamento, o medo que a vida, bem 
como a morte e a inexistência nos suscitam, o modo como limitamos a 
nossa liberdade e as nossas possibilidades. O notável contributo que deu na 
sua obra Existential Psychotherapy (1980), que já vai na sua segunda edição, 
tornou o Dr. Yalom, investigador e psicoterapeuta, numa fi gura de renome 
mundial.
17 
. . .
O terceiro Dr. Yalom, autor e artista, oferece-nos uma perspectiva cria-tiva sobre a condição humana. Nessa encarnação, o Dr. Yalom desta-
ca-se como um óptimo contador de histórias.
Ao ler as histórias que se seguem, tenha presente que, aqui, as pala-
vras-chave são a «abertura» e a «predisposição para a sinceridade inédita». 
Decerto, alguns leitores fi carão perturbados com tamanha transparência da 
parte de um psicoterapeuta.
Por fi m, é legítimo perguntarmos: «Porquê justapor amor à execução 
da pena capital?» Relativamente a esse assunto, creio que Yalom, como ar-
tista, nos está a propor um estudo das nossas pretensões humanas funda-
mentais e do modo como estas podem obscurecer, ou nos podem desviar 
do caminho para a verdade e a plenitude. Ele acusa, e até condena verda-
deiramente à morte, as ilusões que temos sobre o amor: o amor que temos à 
nossa própria imagem; o amor restrito e distorcido que temos pelos outros; 
o amor que temos às nossas vidas tantas vezes limitadas e autodestrutivas; 
o amor que temos ao vazio ou à destruição ou à insignifi cância ou à solidão. 
Não posso deixar de citar as palavras do poeta W. B. Yeats:
«O amor é coisa retorcida
Ninguém tem sabedoria
Para descobrir tudo de que é feito»
W. B. Yeats, Brown Penny, 1990
N
o nosso “modo retorcido de amar”, deparamo-nos com guias, pesso-
as que não estão dispostas a partilhar ilusões, optando sim por aju-
dar a desfazê-las, a descobrir a essência da nossa humanidade. J. P. Sartre 
escreveu sobre como reivindicamos a nossa liberdade. Subjaz a essa ideia a 
consciência da responsabilidade que temos para com os outros e o mundo 
que ajudamos a criar. É nessa noção livre e responsável do amor e da exis-
tência que descobrimos a«vertigem de possibilidades» que Yalom exalta 
nestas histórias.
Dr. Randall Weingarten,
professor de psiquiatria,
Universidade de Stanford,
Abril de 2000
18 
Todos os nomes, traços característicos e outros 
pormenores dos indivíduos cujos casos são retratados 
neste livro foram modificados.
19 
Prólogo
I
magine o seguinte espectáculo: é pedido a trezentas ou quatrocentas 
pessoas, que não se conhecem umas às outras, que se agrupem em pa-
res e façam ao respectivo parceiro apenas e só uma pergunta: «O que 
quer?», vezes e vezes sem conta.
Haverá algo mais fácil do que isso? Trata-se de uma pergunta inocente 
e da sua resposta. Ainda assim, vezes e vezes sem conta, vi este exercício de 
grupo suscitar, inesperadamente, emoções fortes. Muitas vezes, em poucos 
minutos, a sala enche-se de emoções à fl or da pele. Homens e mulheres — 
indivíduos que não são, de modo algum, desesperados nem carentes, mas 
pessoas bem sucedidas, funcionais e elegantes que parecem luzir quando 
se passeiam —, sentem-se abalados até ao âmago do seu ser. Bradam a en-
tes desaparecidos — pais, cônjuges, amigos e fi lhos falecidos ou ausentes: 
«Quero voltar a ver-te.» «Quero que me ames.» «Quero saber se te orgulhas 
de mim.» «Quero que saibas o quanto te adoro e o quanto lamento que 
nunca to tenha dito.» «Quero que voltes para mim... estou tão sozinho.» 
«Quero a infância que nunca tive.» «Quer ter saúde... quero voltar a ser jo-
vem. Quero ser amado e respeitado. Quero que a minha vida tenha sentido. 
Quero fazer algo da vida. Quero fazer a diferença, quero ser importante e 
não cair no esquecimento.»
Tanto querer. Tanto ansiar. E tanta dor, tão à fl or da pele, a poucos 
minutos de se expor. Dores do destino. Dores existenciais. Dores sempre 
presentes, que arranham, constantemente, a membrana da nossa vida. 
Dores demasiado acessíveis. Muitas situações — um exercício de grupo, 
um instante de profunda refl exão, uma obra de arte, uma homilia, uma 
crise pessoal, a perda de um ente querido —, relembram-nos de que os 
nossos desejos mais íntimos podem nunca vir a ser satisfeitos: o desejo 
de juventude e de travar o envelhecimento, o desejo do regresso de pes-
soas desaparecidas, de amor eterno, de protecção, signifi cância, até de 
imortalidade.
20 
É quando esses desejos inviáveis dominam a nossa vida que pedimos 
socorro à família, aos amigos, à religião e, por vezes, a psicoterapeutas.
Narro neste livro as histórias de dez pacientes que recorreram à te-
rapia e que, no decurso do processo terapêutico, se debateram com dores 
existenciais. Não foi esse o motivo pelo qual procuraram a minha ajuda, 
muito pelo contrário, visto que os dez sofriam de problemas banais do 
dia-a-dia: solidão, auto-desprezo, impotência, enxaquecas, compulsões se-
xuais, obesidade, hipertensão, angústia, uma obsessão amorosa que a tudo 
o resto consume, mudanças de humor e depressão. Porém, de algum modo 
(“modo” que se desenrola de maneira diferente em cada história), o proces-
so terapêutico desenterrou as raízes desses problemas corriqueiros, raízes 
que se estendiam até ao cerne da existência.
«Eu quero! Eu quero!» são palavras recorrentes em todas estas histó-
rias. Uma certa paciente chorava: «Quero que a minha querida fi lha ressus-
cite», ao mesmo tempo que votava ao abandono os dois fi lhos que haviam 
sobrevivido. Outro insistia: «Quero comer todas as mulheres que vejo», en-
quanto um cancro linfático invadia todos os recantos do seu corpo. Outro 
clamava: «Quero os pais e a infância que nunca tive», enquanto se angus-
tiava a respeito de três envelopes que não tinha coragem para abrir. Outra 
afi rmou: «Quero ser jovem para sempre», enquanto, idosa, não conseguia 
desistir do seu amor obsessivo por um homem trinta e cinco anos mais 
novo do que ela.
Creio que o aspecto fundamental da psicoterapia é sempre essa dor 
existencial, e não, como muitas vezes se diz, os instintos reprimidos, ou 
os despojos mal enterrados de um passado trágico. Durante o proces-
so terapêutico com cada um destes dez pacientes, o meu pressuposto 
clínico fundamental — no qual baseei a minha abordagem — é que a 
ansiedade essencial emerge dos esforços conscientes e inconscientes do 
indivíduo por lidar com as duras realidades da vida, os «dados adquiri-
dos» da existência.1
Constatei que existem quatro dados adquiridos particularmente rele-
vantes para a psicoterapia: a inevitabilidade da morte, a nossa e a dos entes 
queridos; a liberdade para vivermos como nos aprouver; a nossa solidão 
fundamental, e, fi nalmente, a ausência de qualquer sentido ou signifi cado 
na vida. Por mais terríveis que estes dados adquiridos possam parecer, con-
têm as sementes da sabedoria e da redenção. Espero demonstrar, nestas dez 
histórias de psicoterapia, que é possível enfrentar as verdades da existência 
1 Para uma abordagem pormenorizada a esta perspectiva existencial, bem como à te-
oria e à prática da psicoterapia nela baseada, ver o meu livro Existential Psychotherpy 
(Nova Iorque: Basic Books, 1980).
21 
e aproveitar a força destas para alimentar a mudança e o desenvolvimento 
pessoais.
Entre estes factos da vida, a morte é o mais evidente, o mais intuitiva-
mente palpável. Desde cedo, bem mais cedo do que muitas vezes se julga, 
compreendemos que a morte há-de chegar e que não há escapatória. No 
entanto, nas palavras de Spinoza: «Tudo se esforça por prolongar a sua exis-
tência». Desenrola-se no nosso imo um confl ito eterno entre o desejo de 
continuar a existir e a noção da inevitabilidade da morte.
Para nos adaptarmos à realidade da morte, somos infi nitamente habi-
lidosos no desenvolvimento de técnicas para a negarmos, ou a evitarmos. 
Na juventude, negamos a morte com a ajuda do encorajamento dos pais e 
de mitos seculares e religiosos; posteriormente, personifi camo-la, transfor-
mando-a numa entidade, seja ela um monstro, um João-Pestana, ou um 
demónio. Afi nal, se a morte for uma entidade que nos persegue, talvez en-
contremos maneira de escapar; além disso, por mais assustador que possa 
ser um monstro que traz a morte em si, é menos assustador do que a ver-
dade: que trazemos dentro de nós os esporos do nosso próprio fi m. Mais 
tarde, as crianças experimentam outros métodos para atenuarem a ansie-
dade face à morte: tiram-lhe o veneno provocando-a, desafi ando-a através 
de actos temerários, ou através da dessensibilização, expondo-se a histórias 
e fi lmes de terror na companhia reconfortante dos seus semelhantes e de 
pipocas com manteiga.
À medida que envelhecemos, aprendemos a não pensar na morte; dis-
traímo-nos; transformamo-la em algo de positivo (uma travessia, um re-
gresso a casa, a reunião com Deus e, fi nalmente, paz e sossego); negamo-la 
com mitos que nos sustentam; esforçamo-nos por alcançar a imortalidade 
através de obras imperecíveis, projectando a nossa semente para o futuro 
através dos nossos fi lhos, ou aderindo a um sistema religioso que admita a 
eternização das nossas almas.
São muitas as pessoas que se opõem a esta descrição da negação da 
morte, afi rmando: «Que disparate! Nós não negamos a morte. Sabemos 
que toda a gente há-de morrer. Trata-se de um facto evidente, mas faz al-
gum sentido repisar o assunto?»
A verdade é que estamos, mas não estamos cientes dela. Sabemos da 
sua existência, admitimos esse facto intelectualmente, mas nós — ou seja, a 
parte inconsciente da psique que nos protege da ansiedade avassaladora —, 
rompemos, ou dissociamos o terror subjacente à morte. Esse processo de 
dissociação é inconsciente, não nos é perceptível, mas é possível convencer-
mo-nos da sua existência naqueles raros episódios em que os mecanismos 
de negação falham, ou a ansiedade perante a morte penetra as defesas com 
toda a sua intensidade. Trata-se de acontecimentos muito raros, nalguns 
22 
casos, só se verifi cam uma ou duas vezes na vida. Por vezes, acontecem 
quando estamos despertos, depois de escaparmos à morte por pouco, ou 
quando um ente querido falece; mas é mais frequentea ansiedade diante da 
morte manifestar-se em pesadelos.
Um pesadelo é um sonho falhado, que, por não «resolver» a ansieda-
de, não cumpre o seu papel como guardião do sono. Embora os pesadelos 
variem de acordo com o seu conteúdo manifesto, o processo subjacente 
é igual em todos: a ansiedade de morte em estado puro solta-se das suas 
amarras e rebenta no consciente. A narrativa de «Em busca do sonhador» 
oferece uma perspectiva única dos mecanismos da nossa fuga à ansiedade 
perante a morte e dos derradeiros esforços da mente humana para a con-
terem: nesse caso, entre as imagens fúnebres e sinistras que preenchem o 
pesadelo de Marvin, encontra-se um instrumento que promove a vida e 
desafi a a morte: a bengala luminosa de ponta branca com a qual o sonha-
dor trava um duelo sexual com a morte.
O acto sexual também é visto pelos protagonistas de outras histórias 
como um talismã para esconjurar o enfraquecimento, o envelhecimento 
e a aproximação da morte: daí a promiscuidade compulsiva de um jovem 
face ao cancro fatal («Se a violação fosse legal...»), bem como o apego de um 
senhor de idade a cartas amarelecidas, escritas por uma falecida amante há 
trinta e um anos («Não desapareças de mansinho»).
No trabalho que fi z ao longo de muitos anos com doentes onco-
lógicos confrontados com a iminência da morte, apercebi-me de dois 
métodos particularmente poderosos e comuns utilizados para espantar 
o medo da morte, duas crenças, ou ilusões, que oferecem alguma sensa-
ção de segurança. Uma delas é a fé no estatuto especial do eu; a outra, a 
fé na chegada de uma salvação na hora H. Embora sejam delírios, por 
representarem «convicções falsas inabaláveis», não lhes atribuo essa de-
signação de modo pejorativo: são fés universais que, em algum nível da 
nossa consciência, existem em todos nós e desempenham um papel em 
muitas destas histórias.
A sensação de que somos especiais está relacionada com a convic-
ção de que somos invulneráveis e invioláveis, de que vivemos à margem 
das leis fundamentais da biologia humana e do destino. Nalgum ponto 
da vida, todos nós enfrentamos uma crise: pode ser uma doença grave, 
um insucesso na carreira, ou um divórcio; ou, como aconteceu a Elva, na 
história «Nunca pensei que me pudesse acontecer», pode ser um inci-
dente tão simples quanto o roubo de uma carteira, que, de súbito, põe a 
nu a nossa banalidade e desmente a ideia frequente de que a vida é e será 
sempre uma espiral ascendente.
Apesar de convicção de que somos especiais ofereça uma sensação de 
23 
segurança interna, o outro mecanismo fundamental de negação da morte 
— a fé num salvador — permite que nos sintamos sempre vigiados e pro-
tegidos por uma força exterior. Embora possamos cair e adoecer, embora 
possamos chegar ao limite da nossa vida, convencemo-nos de que existe 
uma entidade indefi nida, omnipotente, que nos trará sempre de volta.
Em conjunto, estes dois sistemas de crença constituem uma dialética 
— duas respostas diametralmente opostas à condição humana. O ser hu-
mano ou reforça a sua autonomia através de uma auto-afi rmação heróica, 
ou procura segurança através da fusão com uma força superior. Por outras 
palavras: ou emergimos, ou nos fundimos; ou nos separamos, ou nos inte-
gramos. Ou nos tornamos como que nos nossos próprios pais, ou continu-
amos a ser crianças para sempre.
A maior parte de nós, na maior parte das circunstâncias, sente-se con-
fortável a evitar, hesitantemente, olhar para a morte, rindo e concordando 
com Woody Allen quando diz: «Não tenho medo da morte. Só não quero 
estar presente quando ela acontecer.» Contudo, existe outra via — uma tra-
dição antiga, que se aplica à psicoterapia —, que nos ensina que a perfeita 
consciência da morte amadurece o nosso pensamento e enriquece a nossa 
vida. As derradeiras palavras de um dos meus pacientes (em «Se a violação 
fosse legal...») demonstram que, embora o facto, o aspecto físico da morte 
nos destrua, a ideia da morte pode ser a nossa salvação.
*
A liberdade, outro dado adquirido da existência, constitui um dilema para muitos destes dez pacientes. Quando Betty, mulher obesa, anun-
ciou que tinha comido até se fartar pouco antes de ir ao meu consultório e 
que tinha a intenção de fazer o mesmo assim que saísse de lá, estava a tentar 
prescindir da sua liberdade, procurando convencer-me a assumir controlo 
sobre a situação. Todo o processo terapêutico com outra paciente (Telma, 
em «O carrasco do amor») girou em torno do modo como se entregara 
a um antigo amante (e terapeuta) e da minha procura de estratégias para 
ajudá-la a recuperar o seu poder e a sua liberdade.
A liberdade, como dado adquirido, parece ser a antítese da morte. En-
quanto temos pavor da morte, geralmente consideramos que a liberdade é 
inequivocamente positiva. Não terá sido a História da civilização ocidental 
pontuada com o desejo de liberdade e até impulsionada por ela? Porém, a 
liberdade do ponto de vista existencial está associada à ansiedade por im-
plicar que, ao contrário do que a experiência do nosso dia-a-dia possa dar 
a entender, não entramos e acabamos por abandonar um universo bem 
estruturado que se rege de acordo com desígnios eternos. A liberdade im-
24 
plica que somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, as acções que to-
mamos e a condição das nossas próprias vidas.
Embora a palavra «responsável» possa ter diversas acepções, prefi ro 
o modo como Sartre a defi niu: ser responsável é «ser o autor de», sendo 
cada um de nós o autor do percurso da sua própria vida. Somos livres de 
sermos tudo, excepto não livres: estamos, tal como Sartre decerto diria, 
condenados a sermos livres. De facto, alguns fi lósofos sugerem ainda mais 
do que isso, sugerem que a arquitectura da mente humana nos torna até 
responsáveis pela estrutura da realidade exterior, pela composição do es-
paço e do tempo. É nessa ideia de auto construção que reside a ansiedade: 
somos criaturas que desejam estruturas de apoio e assustamo-nos com um 
conceito de liberdade que implica que não existe nada sob os nossos pés, 
a não ser o abismo.
Todos os terapeutas sabem que o primeiro passo essencial na tera-
pia é o paciente assumir responsabilidade pelos problemas da sua pró-
pria vida. Enquanto estivermos convencidos de que os nossos proble-
mas são provocados por forças ou entidades exteriores, a terapia não 
tem qualquer infl uência. Se, afi nal, os problemas estão lá fora, porque 
haveríamos nós de mudar a nossa maneira de estar? O mundo exterior 
às nossas pessoas (os amigos, o trabalho, o cônjuge) é que deve modifi -
car-se, ou até mesmo ser substituído. Foi por esse motivo que Dave (em 
«Não desapareças de mansinho»), queixando-se com azedume de que 
fora encarcerado numa prisão conjugal por uma esposa que mais parecia 
uma directora-prisional bisbilhoteira e possessiva, só conseguiu progre-
dir no processo terapêutico quando reconheceu a sua responsabilidade 
pela construção desse cárcere.
Como os pacientes tendem a resistir a assumir as suas responsabili-
dades, os terapeutas têm de desenvolver técnicas que lhes permitam fazer 
com que eles tomem consciência de como criam os seus próprios proble-
mas. Uma técnica efi caz, que emprego em muitos destes casos, é concen-
trar o diálogo no que se passa aqui e agora. Como os pacientes tendem a 
recriar no contexto terapêutico os mesmos problemas interpessoais que 
os perseguem nas suas vidas, concentro-me naquilo que se passa no mo-
mento da consulta, entre mim e o paciente, evitando os acontecimentos 
passados ou actuais na vida dele. Analisando os pormenores da relação 
terapêutica (ou, na terapia de grupo, das relações entre os participantes), 
consigo determinar facilmente o modo como um paciente infl uencia as 
reacções de terceiros. Assim sendo, embora Dave tenha resistido a assu-
mir responsabilidade pelos seus problemas conjugais, não pôde resistir à 
impressão imediata que ele próprio deixava na terapia de grupo, ou seja: o 
secretismo que caracterizava o seu comportamento,provocador e esquivo, 
25 
fazia com que os outros participantes tivessem reacções muito semelhantes 
às da esposa que tinha em casa.
Por motivos semelhantes, o processo terapêutico de Betty («A mulher 
gorda») foi inefi caz enquanto ela atribuiu a sua solidão à cultura excêntrica 
e instável da Califórnia. Só quando lhe demonstrei, nas horas que passa-
mos juntos, como o seu comportamento tímido, inacessível, o recriava esse 
mesmo ambiente impessoal no contexto terapêutico, começou a explorar a 
responsabilidade que tinha na criação do seu próprio isolamento.
Embora a capacidade para assumir as suas responsabilidades deixe 
o paciente no limiar da mudança, não é sinónimo desta. E o prémio que 
realmente perseguimos é a mudança propriamente dita, por mais que um 
terapeuta possa procurar encaminhar o paciente para a introspecção, a as-
sunção das suas responsabilidades e a auto-realização.
A liberdade não só nos obriga a admitirmos a responsabilidade que 
temos nas escolhas que fazemos na vida, como pressupõe que a mudança 
exija força de vontade. Embora a «vontade» seja um conceito que os tera-
peutas, raramente, utilizam de modo explícito, realmente empenhamo-nos 
sobremaneira em infl uenciar a vontade do paciente. Insistimos em escla-
recer e interpretar, pressupondo (sendo que se trata de uma demonstração 
de fé secular, sem bases empíricas convincentes) que a compreensão gera 
invariavelmente a mudança. Quando anos de interpretação não propicia-
ram a mudança, começamos a apelar directamente à vontade do paciente: 
«Também é preciso esforço. Tem de se empenhar, sabe? Há um momento 
para a refl exão e a análise, mas também há uma altura para agir». E quando 
os apelos directos falham, o terapeuta vê-se limitado, como estas histórias 
comprovam, a recorrer a todos os meios de que dispõe para infl uenciar o 
próximo. Nesse sentido, aconselha, discute, persegue, provoca, engoda, im-
plora, ou simplesmente atura, na esperança de que a perspectiva neurótica 
que o paciente tem sobre o mundo desapareça por força do cansaço.
É através da vontade, a força motriz da acção, que a nossa liberdade 
é exercida. Considero que a vontade tem duas etapas: o indivíduo inicia o 
processo com um desejo e executa-o quando se decide.
Há pessoas cujos desejos estão bloqueados, não sabem o que sen-
tem, nem o que querem. Sem opiniões, sem impulsos, sem tendências, 
tornam-se parasitas dos desejos alheios. Tais pessoas tendem a tornar-se 
cansativas. Betty era uma personagem aborrecida precisamente porque 
abafava os seus desejos, e os outros cansavam-se de lhe fornecerem desejos 
e imaginação.
Outros pacientes não se decidem. Embora saibam precisamente o que 
querem e o que têm de fazer, não são capazes de agir, e, em vez disso, mar-
cam passo, atormentados, no limiar da decisão. Saul, em «Três cartas por 
26 
abrir», sabia que qualquer homem ajuizado abriria os envelopes; no entan-
to, o medo que estes lhe incutiam paralisava a sua vontade. Th elma («O car-
rasco do amor») sabia que a sua obsessão amorosa estava a consumir tudo 
o que de real existia na sua vida. Sabia que estava, como ela própria disse, a 
viver no passado, oito anos atrás, e sabia que, para retomar a sua vida, teria 
de desistir da sua paixão. No entanto, não conseguia, ou não queria, dar 
esse passo e resistia, ferozmente, a todas as minhas tentativas no sentido de 
reforçar a sua força de vontade.
A tomada de decisões é difícil por diversos motivos, alguns dos quais 
relacionados com os aspectos fundamentais da existência. John Gardner, 
no seu romance Grendel, fala de um sábio que resume a sua meditação so-
bre os mistérios da vida em dois simples, mas terríveis axiomas: «Tudo de-
saparece: as alternativas excluem». O primeiro, relacionado com a morte, 
já o abordei. O segundo: «as alternativas excluem», é uma chave impor-
tante para melhor compreendermos a razão das difi culdades da decisão. 
Invariavelmente, a decisão exige uma renúncia: por cada sim, tem de existir 
algum não, cada decisão que tomamos elimina ou aniquila outras alternati-
vas. A palavra [decidir] tem na sua origem o conceito de «matar», tal como 
acontece com as palavras [homicídio] e [suicídio]). Assim sendo, Th elma 
agarrava-se à hipótese infi nitesimal de um dia poder vir a ressuscitar a re-
lação com o seu amante e renunciar a essa possibilidade seria sinónimo de 
diminuição e de morte.
*
O isolamento existencial, um terceiro dado adquirido, refere-se ao abis-mo intransponível entre nós e os outros, intervalo que existe mesmo 
na presença de relações interpessoais profundamente gratifi cantes. Não só 
nos encontramos isolados de outros seres humanos, como também, uma 
vez que em que cada um de nós constitui o seu próprio universo, estamos 
também isolados do mundo. Esse isolamento não deve ser confundido 
com dois outros tipos de isolamento: o interpessoal e o intrapessoal.
Conhecemos o isolamento interpessoal, ou a solidão, quando não 
temos as competências sociais ou estilo de personalidade que permite in-
teracções sociais íntimas. O isolamento intrapessoal verifi ca-se quando as 
diversas partes do eu estão dissociadas, como quando dissociamos uma 
emoção da memória de um acontecimento. A manifestação mais extrema 
e mais dramática desse modo de dissociação, o desenvolvimento de múl-
tiplas personalidades, é relativamente rara (embora se torne cada vez mais 
reconhecida); quando se verifi ca, o terapeuta pode ver-se confrontado, 
como me aconteceu durante o tratamento de Marge («Monogamia tera-
27 
pêutica») com o dilema desconcertante relativamente a qual das personali-
dades deve “agarrar”.
Embora não haja solução para o isolamento existencial, o terapeuta 
deve desencorajar a adopção de falsas soluções. Os esforços que fazemos 
para evitarmos o isolamento podem sabotar as nossas relações com os ou-
tros. Foram muitas as amizades e os casamentos que já falharam porque, 
em vez de as partes envolvidas procurarem entender-se e estimar-se, uma 
delas utiliza a outra como escudo contra o isolamento.
Uma tentativa comum, e enérgica, para resolver o isolamento existen-
cial, que ocorre em muitas destas histórias, passa pela fusão, pelo esbater 
dos nossos limites, pela nossa diluição na identidade do outro. O poder 
da fusão já foi demonstrado em experiências para o estudo da percepção 
subliminar durante as quais a mensagem «Eu e a mamã somos um só» era 
projectada numa tela tão rapidamente que os participantes não podiam 
vê-la conscientemente, teve como resultado afi rmarem que se sentiam 
melhor, fortalecidos, mais optimistas, além esses indivíduos terem reagido 
melhor do que outros ao tratamento (com modifi cação comportamental) 
de problemas como o tabagismo, a obesidade, ou perturbações no compor-
tamento de adolescentes.
Um dos grandes paradoxos da vida é que a consciência de nós pró-
prios gera ansiedade. A fusão erradica a ansiedade de modo radical — eli-
minando a consciência de nós próprios. O indivíduo que se apaixona e 
entra num estado feliz de fusão com o outro não refl ecte sobre si próprio, 
porque as interrogações do «eu» solitário (e a ansiedade concomitante face 
ao isolamento) acabam por se diluir no «nós». Assim sendo, libertamo-nos 
da ansiedade, mas acabamos por nos perder a nós próprios.
É precisamente por isso que os terapeutas não gostam de tratar pa-
cientes apaixonados, visto que a terapia e o estado de fusão amorosa são 
incompatíveis, porque o trabalho terapêutico exige uma noção inquisitiva 
do eu e uma ansiedade que, no fundo, acabará por funcionar como um 
mapa dos confl itos internos.
Além disso, tal como a maioria dos terapeutas, tenho difi culdade em 
criar uma relação com um paciente apaixonado. Em «O carrasco do amor», 
por exemplo, Th elma recusava-se a relacionar-se comigo: a sua energia era 
totalmente consumida pela sua obsessão amorosa. Devemos ter cuidado 
com a forte ligação exclusiva a outra pessoa; não é, ao contrário do que por 
vezes se julga, prova da pureza do amor. Esse amor exclusivo,encapsulado, 
que se alimenta de si próprio, sem dar nada a terceiros nem qualquer pre-
ocupação com eles, está condenado a ruir. O amor não é apenas o nascer 
de uma paixão entre duas pessoas; existem infi nitas diferenças entre apai-
xonarmo-nos e mantermo-nos nesse estado. Aliás, o amor é uma forma 
28 
de estar, é algo que se «dá» e não um estado em que se «mergulha»; é um 
modo de nos relacionarmos com o mundo e não um gesto limitado a uma 
só pessoa.
Embora nos esforcemos muito por viver a vida dois a dois, ou em 
grupos, há ocasiões, principalmente com o aproximar da morte, em que a 
verdade o facto de nascermos sozinhos e de assim termos de morrer, nos 
assalta com uma lucidez arrepiante. Já ouvi muitos pacientes moribundos 
comentarem que o aspecto mais terrível da morte é o facto de ser forço-
samente um processo solitário. Porém, mesmo na hora da morte, a dis-
posição de outra pessoa para estar verdadeiramente presente pode furar 
esse isolamento. Tal como me disse um paciente em «Não desapareças de 
mansinho»: «Embora cada um esteja sozinho no seu barco, é sempre um 
consolo ver as luzes dos outros navios a boiarem por perto.»
*
A
gora, se a morte é inevitável, se tudo o que realizámos e, de facto, todo o 
nosso sistema solar haverão de desaparecer um dia, se o mundo é fruto 
da eventualidade (ou seja, se tudo poderia ter sido de maneira diferente), se 
os seres humanos têm de defi nir o mundo e o percurso da sua própria vida, 
que importância duradoura terá a nossa existência?
Essa dúvida persegue os homens e as mulheres contemporâneos, e 
muitos deles recorrem à terapia por sentirem que as suas vidas são isen-
tas de sentido e de objectivos. Todos nós somos criaturas que procuram 
sentido. Biologicamente, os nossos sistemas nervosos estão organizados 
de modo que o cérebro agrupe automaticamente os estímulos recebidos 
em determinadas confi gurações. O sentido também oferece uma sensa-
ção de controlo: sentindo-nos desamparados e confusos perante aconteci-
mentos aleatórios, que não se inserem em qualquer padrão, procuramos 
ordená-los e, ao fazermos isso, fi camos com a impressão de que os con-
trolamos. Mais do que isso, o sentido dá azo a valores e, por conseguinte, 
origina códigos de comportamento, desse modo a resposta a perguntas 
sobre «porquês» (porque é que estou vivo?), fornece a resposta a perguntas 
sobre «como» (como é que eu devo viver?).
Ao longo destas dez histórias de psicoterapia, são raras as discussões 
explícitas sobre o sentido da vida. A procura de sentido, muito como a pro-
cura do prazer, deve ser abordada de modo oblíquo. O sentido resulta de 
actividades signifi cativas: quanto maior a determinação com que o pro-
curamos, menor a probabilidade de o encontrarmos; serão sempre mais 
numerosas as perguntas racionais do que as respostas encontradas na nos-
sa busca pelo sentido. Na terapia, tal como na vida, o sentido resulta do 
29 
empenho e da dedicação ao processo e é para aí que os terapeutas devem 
direccionar os seus esforços, não que o empenho proporcione respostas ra-
cionais a dúvidas sobre essa matéria, mas faz com que essas dúvidas percam 
alguma importância.
O dilema existencial de um ser que procura sentido e certezas num 
universo onde nem um nem as outras existem é de tremenda relevância 
para a profi ssão do psicoterapeuta. No seu trabalho diário, para se poder 
relacionar de modo genuíno com o paciente, o terapeuta é assaltado por 
bastantes incertezas. Não só o confronto do paciente com as perguntas que 
não têm resposta expõe o terapeuta a dúvidas semelhantes, como este se 
vê obrigado a reconhecer, como me aconteceu em «Dois sorrisos», que a 
experiência do próximo é, no fundo, pessoal, insondável e intransmissível.
De facto, a capacidade de tolerar a incerteza é um pré-requisito desta 
profi ssão. Embora os leigos possam crer que os terapeutas conduzem os pa-
cientes de modo sistemático e com fi rmeza através de etapas previsíveis no 
processo terapêutico rumo a um objectivo pré-defi nido, raramente acon-
tece assim; pelo contrário, tal como comprovam as histórias aqui inclusas, 
é frequente os terapeutas vacilarem, improvisarem e apalparem terreno à 
procura do caminho certo. A forte tentação de ter certezas através da ade-
são a uma escola ideológica e a um sistema terapêutico restrito é traiçoeira: 
essa atitude pode inviabilizar o encontro incerto e espontâneo que é essen-
cial para a terapia efi caz.
Esse encontro, o coração da psicoterapia, é o encontro terno e profun-
damente humano entre duas pessoas, uma delas mais perturbada do que a 
outra (geralmente o paciente, embora nem sempre seja assim). Os terapeu-
tas têm um papel ambivalente: compete-lhes observar e, ao mesmo tempo, 
participar nas vidas dos pacientes. Como observador, o terapeuta deve ser 
sufi cientemente objectivo para proporcionar o aconselhamento básico de 
que o paciente necessita. Como participante, entra na vida do paciente, aca-
bando por se deixar afectar e, às vezes, transformar por esse encontro.
Ao optar por entrar profundamente na vida de cada paciente, eu, te-
rapeuta, não só me exponho às mesmas questões existenciais que eles se 
colocam, como tenho também de estar preparado para os analisar segundo 
as mesmas regras. Tenho de partir do princípio que saber é melhor do que 
não saber, que correr riscos é melhor do que evitá-los; e que a magia e a 
ilusão, por mais férteis e sedutoras que possam ser, acabam por enfraque-
cer o nosso espírito. Encaro com toda a seriedade a fi rmeza das palavras 
de Th omas Hardy: «Se há maneira de chegarmos ao Melhor, exige atenta 
contemplação do Pior.»
Esse papel duplo de observador e participante exige muito do tera-
peuta, e, quando me confrontei com estes dez casos, suscitou-me perguntas 
30 
angustiantes. Seria, por exemplo, legítimo da minha parte esperar que um 
paciente, que me pedira para guardar as suas cartas de amor, fosse capaz 
de resolver os mesmíssimos problemas que eu, na minha própria vida, te-
nho procurado evitar? Seria possível ajudá-lo a chegar mais longe do que 
eu alguma vez conseguira chegar? Deveria eu fazer difi cílimas perguntas 
existenciais a um homem às portas da morte, a uma viúva, a uma mãe que 
chorava a morte da fi lha e a um reformado a quem sonhos transcendentes 
provocavam ansiedade, ainda para mais perguntas para as quais não tinha 
resposta? Deveria confessar as minhas falhas e limitações a uma paciente 
cuja outra personalidade achava muito sedutora? Seria possível desenvol-
ver uma relação honesta, compreensiva, com uma mulher gorda cujo as-
pecto físico me repugnava? Sob a bandeira do auto-conhecimento, deveria 
eu delapidar a ilusão amorosa irracional, mas reconfortante e animadora, 
de uma senhora de idade? Ou impor a minha vontade a um homem que, 
incapaz de defender os seus interesses, se deixava aterrorizar por três enve-
lopes por abrir?
Embora nestas dez histórias de psicoterapia as palavras «paciente» e 
«terapeuta» se repitam muitas vezes, que o leitor não se deixe iludir por 
esses termos: estas são histórias sobre todos os homens e todas as mulhe-
res. Todos nós padecemos destes problemas; o rótulo de paciente é essen-
cialmente arbitrário e, muitas vezes, depende mais de factores culturais, 
educacionais e económicos do que da gravidade da patologia. Visto que os 
terapeutas, assim como os pacientes, têm de enfrentar os mesmos dados 
adquiridos da existência, a atitude profi ssional pautada pela objectividade 
desinteressada que se impõe na aplicação de métodos científi cos não se 
coaduna com a terapia. Nós, psicoterapeutas, não podemos simplesmente 
estalar a língua, comiserando, e exortar os pacientes para que enfrentem 
com determinação os seus problemas. Pelo contrário, devemos falar de nós 
próprios e dos nossos problemas, pois a nossa vida, a nossa existência, es-
tará sempre ligada à morte, o amor ligado à perda, a liberdade ao medo e o 
crescimento à separação. Nós, todos nós, estamos nisto juntos.
31 
UM
O carrasco do amorN
ão me agrada trabalhar com pacientes que estejam apaixonados. 
Talvez o desagrado se deva à minha inveja: também eu anseio por 
ser arrebatado. Talvez se deva ao facto de o amor e a psicotera-
pia serem fundamentalmente incompatíveis. Enquanto um bom terapeuta 
confronta a escuridão e procura iluminar, o amor romântico alimenta-se 
do mistério e desmorona quando examinado em pormenor. Detesto ser o 
carrasco do amor.
Todavia, Th elma, logo ao abrir a nossa primeira consulta, disse-me 
que estava perdida e tragicamente apaixonada, e não hesitei, nem por um 
instante, em aceitar tratá-la. Tudo o que observei à primeira vista: o rosto 
engelhado pelos seus setenta anos, com aquele queixo que a senilidade fazia 
tremer, os despenteados cabelos ralos, louros e oxigenados, bem como as 
mãos macilentas, percorridas por veias azuis, me indicava que a senhora 
estava enganada, não podia estar apaixonada. Como poderia o amor esco-
lher aquele corpo velho e frágil, periclitante, para os seus maus-tratos, ou 
alojar-se naquele deselegante fato de treino em poliéster?
Além disso, onde estava a aura de felicidade que os amantes irradiam? 
O sofrimento de Th elma não me surpreendeu, visto que o amor está sem-
pre contaminado com a angústia; mas o amor dela era monstruosamente 
desequilibrado: não proporcionava prazer absolutamente nenhum, a vida 
da senhora era toda ela tortura.
Assim sendo, aceitei tratá-la, por estar certo de que sofria, não de amor, 
mas de alguma variante rara que confundia com esse sentimento. Não só 
me convenci de que poderia ajudá-la, como fui intrigado pela suspeita de 
que aquele simulacro de amor poderia ser um farol que iluminaria parte do 
profundo mistério da paixão.
Th elma mostrou-se distante e rígida da primeira vez que nos encon-
trámos. Não retribuíra o meu sorriso quando a cumprimentara na sala de 
espera e seguira um passo atrás de mim quando a conduzira pelo corredor 
32 
abaixo. Assim que entrámos no consultório, não passou a vista pelo am-
biente circundante, sentando-se imediatamente e, então, sem esperar por 
qualquer comentário da minha parte e sem desabotoar o casacão que trazia 
por cima do fato de treino, respirou fundo, audivelmente, e começou:
— Há oito anos, tive uma relação amorosa com o meu psicoterapeuta. 
Desde essa altura, nunca deixei de pensar nele. Já quase me suicidei uma 
vez e creio que da próxima não vou falhar. O doutor é a minha última es-
perança.
Oiço sempre com muita atenção as primeiras declarações que me fa-
zem. Muitas vezes são revelações quase sobrenaturais e auguram o tipo de 
relação que poderei estabelecer com o paciente. As palavras têm o condão 
de funcionar como pontes entre a nossa vida e a do próximo, mas o tom da 
voz de Th elma não me convidava a aproximar-me.
Prosseguiu:
— Caso tenha difi culdade em acreditar no que disse, talvez isto ajude!
Levou a mão a um saco vermelho e desbotado, com atilhos, e entre-
gou-me duas fotografi as antigas. Na primeira, fi gurava uma jovem e bela 
bailarina, vestida com um fato de malha justo, negro e luzidio. Admirei-me 
quando, ao olhar o rosto da dançarina, vi os olhos grandes de Th elma, dé-
cadas atrás, fi xos em mim.
— Essa — informou-me, quando me viu passar à segunda imagem, 
de uma mulher com sessenta anos, bonita, mas impassível — foi tirada há 
cerca de oito anos. Como vê... — passou com os dedos pelos seus cabelos 
desgrenhados —... já não cuido da aparência.
Embora me custasse imaginar aquela velhota mal vestida a ter um 
caso com o terapeuta, eu não tinha feito qualquer comentário no sentido 
de duvidar das suas palavras. Aliás, ainda não dissera absolutamente nada. 
Tentara manter-me totalmente objectivo, mas ela deve ter-se apercebido de 
sinais de desconfi ança, indícios ténues, talvez um minúsculo arregalar dos 
olhos. Optei por não contestar a acusação de que não acreditava na senho-
ra. Não era altura para galanteios e, de facto, havia algo de incongruente na 
ideia de uma septuagenária desalinhada se encontrar perdida e ferida de 
amores. Ela sabia disso tão bem como eu, e sabia que eu tinha essa noção.
Passado pouco tempo, comunicou-me de que, ao longo dos últimos 
vinte anos, sofrera de depressão crónica e submetera-se a tratamento psi-
quiátrico constante. Muito desse acompanhamento fora feito na clínica de 
psiquiatria pública, onde a senhora tinha sido tratada por uma série de es-
tagiários.
Cerca de onze anos antes, começara a ser tratada por Matthew, um 
jovem e elegante estagiário de psiquiatria, com quem tivera consultas sema-
nais na clínica ao longo de oito meses e por quem continuara a ser acompa-
33 
nhada durante um ano na clínica privada dele. No ano seguinte, Matthew 
assumira um cargo a tempo inteiro no hospital do Estado e tivera de dar 
por encerrada a terapia com todos os seus pacientes do sector privado.
Foi com grande tristeza que Th elma se despediu dele. Tinha sido, 
de longe, o melhor terapeuta que alguma vez tivera, afeiçoara-se muito 
a ele e no decurso daqueles vinte meses passara as semanas a ansiar pela 
sua hora de consulta. Nunca conversara tão abertamente com outra pes-
soa. Nunca outro terapeuta fora tão escrupulosamente honesto, directo 
e gentil com ela.
Th elma cantou loas a Matthew durante vários minutos.
— Ele era tão atencioso, tão amável... Já tive terapeutas que tentaram 
ser calorosos e pôr-me à vontade, mas o Matthew era diferente. Ele pre-
ocupava-se verdadeiramente comigo, aceitava-me de verdade. Fizesse eu 
o que fi zesse, quaisquer que fossem as ideias horríveis que me passassem 
pela cabeça, sabia que ele me aceitaria e não deixaria de... como é que se 
diz?... confi rmar-me? Não, de validar-me. Ajudou-me como é costume os 
terapeutas ajudarem, mas fez muito mais do que isso.
— Como por exemplo?...
— Apresentou-me a dimensão espiritual e religiosa da vida. Ensi-
nou-me a respeitar todos os seres vivos. Ensinou-me as razões pelas quais 
fui posta na Terra, mas não tinha a cabeça nas nuvens. Estava sempre pre-
sente, sempre comigo.
Th elma fi cou muitíssimo animada: rematou as palavras com convic-
ção e apontou para o céu e para o chão enquanto falava. Notava-se que 
gostava de conversar sobre Matthew.
— Adorava a maneira como ele me dava luta. Não deixava escapar 
nada. Chamava-me sempre a atenção para os meus hábitos merdosos.
Essa frase apanhou-me de surpresa. Não encaixava no resto da expo-
sição dela. Porém, Th elma escolhia tão deliberadamente as palavras que 
presumi que aquela terminologia era da lavra de Matthew, talvez fosse 
exemplo da sua bela técnica profi ssional! Os meus sentimentos negativos 
em relação a ele iam aumentando rapidamente, mas guardei-os para mim. 
As palavras de Th elma indicavam-me, claramente, que não levaria a bem 
qualquer crítica a Matthew.
Depois dele, começara a ser acompanhada por outros terapeutas, mas 
nenhum deles conseguira tocá-la, ou ajudá-la a dar valor à vida da mesma 
maneira que Matthew.
Imagine-se, então, quão feliz fi cara por se ter cruzado com ele um ano 
depois do último encontro entre os dois, num sábado à tarde, em Union 
Square, em São Francisco. Conversaram um pouco e, para fugirem ao cor-
rupio de gente que ali ia fazer compras, foram tomar café ao St. Francis Ho-
34 
tel. Tinham tanto para discutir, havia tanto que Matthew queria saber sobre 
como Th elma passara no ano anterior, que o café se prolongou até ser hora 
de jantar e acabaram por ir comer cioppino de caranguejo ao restaurante 
Scoma’s, no Fisherman’s Wharf.
Por qualquer motivo, todos esses desenvolvimentos pareceram natu-
rais, como se já houvessem jantado assim, juntos, variadíssimas vezes. Na 
verdade, a relação entre os dois fora estritamente profi ssional, sem ter ex-
travasado, de modo algum, os limites formais da relação entre paciente e 
terapeuta. Tinham aprendido a conhecer-se um ao outro em segmentos se-
manais com a duração exacta de cinquenta minutos, nem mais, nem menos.
Porém, naquela noite, por razões que Th elma, ainda agora, não conse-
guia entender,tinham-se desviado da sua realidade habitual. Nenhum dos 
dois prestou atenção às horas; fi zeram um pacto silencioso no sentido de 
fi ngirem que não havia nada de invulgar naquela conversa particular, nem 
no facto de terem tomado café e jantado juntos. Pareceu-lhe natural compor 
a gola amarrotada da camisa dele, limpar a sujidade que lhe detectara no ca-
saco, dar-lhe o braço quando subiram a encosta de Nob Hill. Pareceu-lhe 
natural que Matthew descrevesse a sua «casota» no Haight e foi com toda a 
naturalidade que Th elma comentou que estava mortinha por ver como era. 
Tinham partilhado risos abafados quando ela dissera que o marido estava 
em viagem: Harry, membro do conselho consultivo do Corpo Nacional de 
Escutas americano, quase todas as noites dava palestras em cerimónias da 
organização em algum canto da América. Matthew mostrara-se divertido 
com o facto de estar tudo na mesma; Th elma não sentira a necessidade de 
lhe explicar nada: afi nal de contas, já sabia tudo sobre ela.
— Mal me lembro do resto dessa noite — prosseguiu —, de como 
aconteceu, de quem tocou em quem primeiro, de como decidimos ir para 
a cama. Não tomámos decisões, aconteceu tudo com naturalidade, sem es-
forço, espontaneamente. Aquilo de que me lembro com maior nitidez é de 
me ter sentido arrebatada quando estava deitada nos braços do Matthew: 
um dos melhores momentos da minha vida.
— Conte-me o que aconteceu depois.
— Os vinte e sete dias que se seguiram, entre 19 de Junho e 16 de Ju-
lho, foram mágicos. Falávamos ao telefone várias vezes por dia e encontrá-
mo-nos catorze vezes. Senti que estava a voar, a deslizar, a dançar.
A voz de Th elma parecia agora alegre, cadenciada, ela acenava com a 
cabeça a par de uma melodia de oito anos atrás. Tinha os olhos quase fe-
chados, pondo a minha paciência à prova. Não gosto de me sentir invisível.
— Foi o auge da mina vida. Nunca tinha sido tão feliz como nessa 
altura e não voltei a sê-lo. O que aconteceu desde então nunca há-de apagar 
o que ele me deu naqueles dias.
35 
— O que aconteceu desde então?
— A última vez que o vi foi às 12h30 no dia 16 de Julho. Durante 
dois dias, não consegui contactá-lo por telefone, portanto apareci-lhe no 
consultório sem marcação. Ele estava a comer uma sanduíche e tinha cer-
ca de vinte minutos de intervalo antes de uma sessão de terapia de grupo. 
Perguntei-lhe porque não tinha reagido aos meus telefonemas e limitou-se 
a responder-me: «Ambos sabemos que isto não está certo.»
Th elma calou-se e chorou baixinho.
«Que óptima altura para ele descobrir que não estava certo», refl ecti.
— Consegue continuar?
— Perguntei-lhe: «E se eu te telefonar no ano que vem, ou daqui a cin-
co anos? Encontras-te comigo? Podemos voltar a passear na Golden Gate 
Bridge? Deixas-me voltar a abraçar-te?» A resposta do Matthew foi pegar 
na minha mão, sentar-me ao seu colo e abraçar-me com força durante vá-
rios minutos.
«Desde então, liguei-lhe inúmeras vezes e deixei mensagens no aten-
dedor de chamadas. De início, respondeu a alguns dos telefonemas, mas 
depois deixei de ter notícias dele. Cortou relações comigo. Remeteu-se ao 
silêncio absoluto.»
Th elma voltou-se para a janela. Desaparecera-lhe a alegria da voz. Fa-
lava com um tom mais deliberado, amargurado, desconsolado, mas não 
houve mais lágrimas. Pareceu-me que agora tinha mais vontade de bater e 
de ferir do que de chorar.
— Nunca percebi porque acabámos assim, sem mais, nem menos. 
Numa das nossas últimas conversas, disse-me que tínhamos de regressar 
às nossas vidas reais e acrescentou que estava envolvido com outra pessoa.
Suspeitei, intimamente, que a nova pessoa na vida de Matthew era ou-
tro paciente.
Th elma não tinha a certeza se a nova pessoa era homem, ou mulher. 
Desconfi ava que Matthew era homossexual: vivia num dos enclaves ho-
mossexuais de São Francisco e pautava pela beleza característica de muitos 
homossexuais, com o seu bigode aprumado, rosto jovem e corpo de Mer-
cúrio. Essa possibilidade ocorrera-lhe um ou dois anos depois do fi m da 
relação, quando levara uma visita de fora da cidade a ver as vistas, altura 
em que entrara, receosa, num bar gay na Castro Street e se pasmara ao ver 
quinze Matthews sentados ao balcão: quinze jovens elegantes e atraentes 
com bigodes bem arranjados.
O corte súbito no contacto com Matthew fora avassalador; não saber 
a razão por que isso acontecera era insuportável. Th elma estava constante-
mente a pensar nele, não passava uma hora sem fantasiar demoradamente 
sobre ele. Vivia obcecada com porquês. Porque a teria ele rejeitado e aban-
36 
donado? Porquê naquela altura específi ca? Porque se recusaria a recebê-la e 
até a falar com ela ao telefone?
Ficara profundamente desanimada depois de todas as suas tentativas 
no sentido de contactar Matthew terem falhado. Passava o dia em casa, a 
olhar pela janela; não dormia; os seus movimentos e o seu discurso tor-
naram-se arrastados; perdeu o entusiasmo por toda e qualquer activida-
de. Deixou de comer e, dentro de pouco tempo, a sua depressão tornou-se 
imune à psicoterapia e aos medicamentos antidepressivos. Depois de ter 
consultado três médicos diferentes por causa da insónia e de ter consegui-
do que cada um deles lhe receitasse medicação para dormir, não tardou a 
coleccionar uma quantidade mortífera de comprimidos. Precisamente seis 
meses depois do seu encontro fortuito com Matthew em Union Square, 
deixou mensagem de despedidas ao marido, Harry, que fora passar uma 
semana fora da cidade, esperou que este lhe telefonasse da costa Leste do 
país para lhe desejar boa noite, tirou o auscultador do descanso, tomou os 
medicamentos todos e deitou-se na cama.
Harry, que nessa noite não conseguiu dormir, voltou a ligar-lhe e fi cou 
alarmado com o sinal constante de linha interrompida. Ligou aos vizinhos, 
que bateram, em vão, à porta e às janelas de casa de Th elma. Passado um 
pouco, chamaram a polícia, que arrombou a porta e foi encontrá-la mori-
bunda.
Th elma só se salvou graças aos esforços heróicos de uma equipa mé-
dica. O primeiro telefonema que fez assim que recuperou os sentidos foi 
para o atendedor de chamadas de Matthew. Assegurou-o de que guardaria 
o segredo deles e rogou-lhe que a visitasse no hospital. Visitou-a, mas só lhe 
fez companhia durante quinze minutos e a sua presença, de acordo com 
ela, foi pior do que o silêncio a que se remetera antes: esquivou-se a todas 
as alusões de Th elma aos vinte e sete dias de paixão que tinham partilhado 
e teimou em adoptar um comportamento formal e profi ssional. Só houve 
um instante em que saiu desse papel, quando ela lhe perguntou como esta-
va a correr a sua relação com a nova pessoa da sua vida e Matthew ripostou: 
«Isso não te diz respeito!»
— E foi tudo! — Voltou-se, pela primeira vez, directamente para mim 
e acrescentou, numa voz resignada e desgastada: — Nunca mais tornei a 
vê-lo. Telefonei para lhe deixar mensagens em datas importantes: no ani-
versário dele, no dia 19 de Junho (quando nos encontrámos pela primeira 
vez), no dia 17 de Julho (a última vez que nos encontrámos), no Natal e 
na passagem de ano. Sempre que troco de terapeuta, ligo-lhe para o avisar. 
Nunca responde às chamadas.
«Há oito anos, nunca paro de pensar nele. Às sete da manhã, pergun-
to-me se já terá acordado e às oito imagino que está a comer os seus fl ocos 
37 
de aveia (ele adora fl ocos de aveia, foi criado numa quinta no Nebrasca). 
Quando ando na rua, estou sempre à procura dele. Não é raro conven-
cer-me, erradamente, de que o vi algures e correr a interpelar um desco-
nhecido. Sonho com ele. Revejo na minha cabeça cada um dos nossos en-
contros ao longo daqueles vinte e sete dias. Aliás, esses devaneios ocupam 
maior parte da minha vida, mal me dou conta do que se passa no presente. 
Continuo a viver no passado, há oito anos atrás.»
«Continuo a viver no passado, há oito anos atrás»: uma frase que pren-
de a atenção. Memorizei-a para utilização futura.
— Fale-me da terapia que tem feito ao longo dosúltimos oito anos, 
desde a sua tentativa de suicídio.
— Durante esse período, nunca passei sem terapeuta. Receitaram-me 
muitos antidepressivos, que não servem para muito, excepto para dormir 
melhor. Tenho feito pouca terapia além dessa. A terapia baseada em conver-
sa nunca me ajudou. Pode-se dizer que nunca dei grandes oportunidades à 
terapia desde que me decidi a proteger o Matthew, nunca mencionando o 
nome dele, nem o nosso caso a outros terapeutas.
— Quer dizer que, em oito anos de terapia, nunca falou sobre o Mat-
thew!?
Foi uma abordagem pouco elegante! Tratou-se de um erro de prin-
cipiante, mas não consegui conter o meu pasmo. Passou-me pela cabeça 
um episódio no qual não pensava há muitos anos, que aconteceu quando 
estudava na faculdade de medicina, numa aula dedicada às técnicas de en-
trevista: um dos meus colegas, aluno bem intencionado, mas desbocado e 
insensível (que, felizmente, viria a tornar-se cirurgião ortopédico), estava 
a fazer uma entrevista diante do resto da turma e a tentar utilizar a técnica 
de Carl Rogers para incitar o paciente a responder através da repetição das 
palavras deste, regra geral, as últimas palavras de cada afi rmação. O pacien-
te, que tinha estado a enumerar as perversidades do seu pai tirano, acabara 
a lista com o comentário: «E ainda por cima come hambúrgueres crus!» 
O entrevistador, que tinha vindo a esforçar-se por manter uma postura 
neutra, não foi capaz de conter a sua indignação e respondeu tonitruante: 
«Hambúrgueres crus?!» Até ao fi m desse ano, a frase «hambúrgueres crus» 
foi muitas vezes sussurrada nas aulas e arrancava, invariavelmente, garga-
lhadas aos colegas.
Claro que guardei essa divagação para mim mesmo e disse:
— Mas hoje, decidiu vir ter comigo e de ser falar sinceramente sobre si 
própria. Fale-me dessa decisão.
— Investiguei-o. Telefonei a cinco terapeutas por quem fui acompa-
nhada, disse-lhes que queria dar uma última oportunidade à psicoterapia 
e perguntei-lhes quem devia contactar. O seu nome apareceu nas listas de 
38 
quatro deles, disseram que era um bom terapeuta de «último recurso», o 
que foi um ponto a seu favor. Além disso, eu sabia que eles tinham sido 
seus alunos, portanto, investiguei um pouco mais. Fui à biblioteca e levei 
para casa um dos seus livros. Fiquei bem impressionada com duas coisas: a 
sua escrita era clara, não tive difi culdade em compreendê-la, e pareceu-me 
disponível para falar abertamente sobre a morte. Vou ser sincera consigo: 
tenho quase a certeza de que, num dia destes, ainda acabo por me suicidar. 
Vim dar uma última hipótese à psicoterapia para ver se encontro alguma 
maneira de viver minimamente feliz. Se não encontrar, espero que me aju-
de a morrer e a descobrir como provocar a menos angústia possível à mi-
nha família.
Respondi-lhe que achava que poderíamos trabalhar juntos, mas suge-
ri que marcássemos mais uma hora de consulta para ponderarmos melhor 
a situação e também para lhe dar oportunidade de avaliar se estava dispos-
ta a colaborar comigo. Estava prestes a dar-lhe mais informação quando 
olhou para o relógio e disse:
— Já percebi que os meus cinquenta minutos acabaram e, se há coisa 
que aprendi, foi a não passar mais tempo do que devo em terapia.
Ainda eu estava a refl ectir sobre o tom em que ela fi zera o último co-
mentário — não fora exactamente sarcástico, nem exactamente coquete — 
quando Th elma se levantou da cadeira e, à saída, me disse que marcaria a 
próxima consulta com a minha administrativa.
Depois dessa sessão, tive muito em que pensar. Primeiro, pus-me a 
pensar no Matthew, personagem que me enfurecia. Já conheci demasiados 
pacientes que foram muito prejudicados por terapeutas que se aproveita-
ram sexualmente deles, algo que é sempre prejudicial para o paciente.
As desculpas invocadas pelos terapeutas para essas atitudes são sem-
pre racionalizações manifestas e egoístas, segundo as quais, por exemplo, o 
acto é um modo de o terapeuta aceitar e afi rmar a sexualidade do paciente. 
Embora muitos pacientes possam precisar de afi rmar a sua sexualidade, 
nomeadamente aqueles que são vincadamente pouco atraentes, extrema-
mente obesos, ou deformados por cirurgias, nunca ouvi falar de nenhum 
terapeuta que tenha afi rmado a sexualidade desses. Os eleitos para a afi r-
mação são sempre mulheres atraentes. É óbvio que quem precisa de afi r-
mação sexual são os terapeutas infractores e são eles quem revela falta de 
recursos, ou de desenvoltura para a obterem na sua vida privada.
Todavia, Matthew era uma fi gura algo enigmática. Quando seduzira 
Th elma (ou se deixara seduzir por ela, o que vai dar ao mesmo), acabara de 
fazer uma pós-graduação e, portanto, deveria ter vinte e muitos, ou trinta 
e poucos anos. Sendo assim, porque teria feito aquilo? Porque teria um jo-
vem atraente, presumivelmente bem sucedido, seleccionado uma mulher 
39 
de sessenta e dois anos há muitos anos deprimida e atolada na inércia? 
Ponderei sobre a especulação de Th elma sobre a possível homossexuali-
dade dele. Talvez a possibilidade mais lógica fosse que Matthew estava a 
tentar resolver (ou a manifestar) alguns dos seus problemas psicossexuais e 
a aproveitar-se da(s) sua(s) paciente(s) para esse efeito.
É precisamente por esse motivo que insistimos com os nossos forman-
dos para se submeterem a períodos prolongados de psicoterapia. Contudo, 
hoje em dia, dada a curta duração dos cursos, a menor supervisão, o rela-
xamento das exigências curriculares e dos requisitos para a certifi cação, é 
frequente os terapeutas recusarem-se a isso, e já muitos pacientes sofreram 
com a falta de conhecimento que o respectivo terapeuta revela ter sobre si 
próprio. Compadeço-me pouco com a irresponsabilidade de determinados 
profi ssionais e já procurei convencer muitos pacientes meus a apresenta-
rem queixa de terapeutas que cometem ilícitos sexuais a conselhos de ética 
profi ssional. Ponderei, momentaneamente, sobre como actuar em relação 
a Matthew, mas presumi que o ilícito já devia ter prescrito. Ainda assim, 
queria que ele estivesse ciente do mal que tinha feito.
Desviei a minha atenção para Th elma e pus de parte, temporariamen-
te, a questão da motivação de Matthew, questão com que me viria a debater 
muitas vezes antes do desenlace deste processo terapêutico, longe de ima-
ginar que, de todos os enigmas subjacentes ao caso de Th elma, o mistério 
de Matthew seria aquele que estava destinado a resolver com maior êxito.
Fiquei espantado com a tenacidade da obsessão amorosa dela, que a pos-
suíra durante oito anos sem qualquer reforço exterior, obsessão que preenchia 
toda a sua vida. Th elma tinha toda a razão: estava, de facto, a viver no passado, 
oito anos atrás. Parte da força da obsessão tinha de derivar do empobrecimen-
to do resto da sua existência. Duvidava que fosse possível separá-la da obses-
são sem primeiro ajudá-la a enriquecer outras facetas da sua vida.
Interroguei-me sobre quanta intimidade teria Th elma no dia-a-dia. 
Pelo que me contara até àquele momento sobre o seu casamento, parecia 
haver pouca proximidade entre ela e o marido. Talvez a função da obsessão 
fosse simplesmente proporcionar-lhe intimidade: unia-a a alguém que não 
era uma pessoa real, mas uma fantasia.
Talvez a melhor solução fosse estabelecer uma relação signifi cativa de 
proximidade entre nós dois e utilizá-la como dissolvente no qual diluiria a 
obsessão dela. Porém, não seria missão fácil. A versão que me contara sobre 
a sua experiência em terapia era arrepiante. Imagine-se fazer oito anos de 
terapia sem se abordar o verdadeiro problema! Tal só seria possível para 
alguém com uma personalidade muito especial, alguém capaz de tolerar 
comportar-se com duplicidade apreciável, alguém que procure intimidade 
em fantasias, mas talvez a evite na vida diária.
40 
Ao abrir a sessão seguinte, Th elma disse-me que aquela semana fora 
terrível. Via na terapia algo de paradoxal.
— Sei que preciso de acompanhamento, não me aguento sem ele. No 
entanto, cada vezque falo sobre o que aconteceu, tenho uma semana mise-
rável. As consultas terapia limitam-se sempre a mexer comigo. Nunca re-
solvem nada. Pioram sempre a situação.
Não gostei de a ouvir dizer isso. Estaria a mostrar-me cenas dos pró-
ximos episódios? Estaria a dizer-me que acabaria por desistir da terapia?
— Passei a semana toda a chorar ininterruptamente. Não parei de 
pensar no Matthew. Não posso falar com o Harry porque só penso em 
duas coisas: no Matthew, e em suicidar-me, assuntos que não posso, de 
maneira nenhuma, abordar com ele.
«Nunca, nunca, nunca hei-de falar com o meu marido sobre o Mat-
thew. Há anos, disse-lhe que uma vez me cruzara por acaso com o Mat-
thew. Devo ter-me alongado demais sobre o assunto, porque, passado al-
gum tempo, o Hary comentou que estava convencido de que o Matthew 
tinha sido, de algum modo, responsável pela minha tentativa de suicídio. Se 
alguma vez vier a descobrir a verdade, acho sinceramente que mata o Mat-
thew. O Harry farta-se de pregar a honra dos Escuteiros, não pensa noutra 
coisa senão nos escutas, mas, no fundo, é um homem violento. Foi ofi cial 
dos comandos britânicos na Segunda Guerra Mundial e especializou-se em 
ensinar técnicas para matar corpo a corpo.»
— Fale-me mais sobre o Harry.
Ficara espantado com a veemência que transpareceu na voz de Th el-
ma quando disse que ele mataria Matthew se descobrisse o que acontecera.
— Conheci o Harry nos anos trinta, quando trabalhava como dança-
rina profi ssional na Europa Continental. Sempre tive só dois interesses na 
vida: fazer amor e dançar. Recusei-me a deixar de dançar para ter fi lhos, 
mas fui obrigada a parar há trinta e um anos porque a gota me atacou o 
polegar de um dos pés; não é doença agradável para uma bailarina. Quan-
to ao amor, quando era mais nova, tive muitos, muito amantes. O doutor 
viu aquela minha fotografi a... seja sincero: era, ou não era bonita? — Sem 
esperar por resposta, prosseguiu: — Mas assim que me casei com o Harry, 
acabou-se o amor. Muito poucos homens tiveram coragem para me ama-
rem (poucos, mas alguns). Toda a gente tinha medo que se pelava do Har-
ry e esse desistiu do sexo há vinte anos (tem muito jeito para desistir das 
coisas). Hoje em dia é raro tocarmo-nos, creio que tanto por minha culpa, 
como por culpa dele.
Estava prestes a perguntar-lhe sobre o jeito que Harry tinha para de-
sistir, mas Th elma seguiu adiante, a correr. Queria falar, mas ainda não dava 
sinais de estar a falar comigo. Não se vislumbrava qualquer indício de que 
41 
quisesse resposta da minha parte. Não me olhava nos olhos. Tendia a olhar 
para cima, como se absorta nas suas reminiscências.
— A outra coisa em que penso, mas que não posso discutir, é o sui-
cídio. Mais cedo ou mais tarde, sei que me hei-de matar. É a única saída. 
No entanto, nunca me descoso com o Harry. Ele ia morrendo da última 
vez que tentei suicidar-me. Teve um pequeno AVC e envelheceu dez anos 
a olhos vistos. Quando acordei, sem contar com isso, no hospital, ponderei 
muito sobre o que tinha feito à minha família. Foi nesse preciso momento 
que tomei algumas decisões.
— Que tipos de decisões?
Na verdade, foi uma pergunta escusada, visto que Th elma estava pres-
tes a descrever as decisões que tomara, mas eu tinha de comunicar com 
ela de algum modo. Estava a recolher muita informação, mas sem que es-
tabelecêssemos contacto um com o outro. Parecia que estávamos em salas 
diferentes.
— Decidi que nunca diria nem faria nada que pudesse magoar o Har-
ry. Decidi dar-lhe tudo e ceder em todos os assuntos. Quer construir uma 
divisão nova para arrumar o equipamento de ginásio — pode. Quer fazer 
férias no México — seja. Quer ir conhecer pessoas novas em acontecimen-
tos organizados pela igreja — vamos.
Apercebendo-se do ar de estranheza com que reagi à alusão aos acon-
tecimentos na igreja, explicou:
— Nos últimos três anos, desde que cheguei à conclusão de que vou 
acabar por me matar, não tenho querido conhecer gente nova. Fazer novos 
amigos implicaria mais despedidas e mais pessoas para eu magoar.
Já trabalhei com muitos indivíduos que tentaram, realmente, suici-
dar-se, mas essa experiência tende a propiciar, de algum modo, uma meta-
morfose e um amadurecimento de quem a conhece e adquire nova sabedo-
ria. Um verdadeiro confronto com a morte costuma fazer com que nos in-
terroguemos com franca seriedade sobre os objectivos e o trajecto da nossa 
vida até então. Passa-se o mesmo com quem enfrenta a morte por causa de 
uma doença fatal. Quantas pessoas não se terão lamentado: «Que pena que 
tenha esperado até agora, que o meu corpo está corroído pelo cancro, para 
aprender a viver!» Porém, Th elma era diferente. Raras vezes me cruzei com 
outra pessoa que tivesse estado tão perto da morte e tivesse aprendido tão 
pouco com a experiência. Quanto às decisões que tomara quando recupe-
rara os sentidos depois da sua overdose, estaria realmente convencida de 
que daria felicidade ao Harry subscrevendo tudo o que ele propusesse, es-
condendo os seus próprios desejos e pensamentos? O que poderia ser pior 
para Harry do que ver a esposa chorar durante uma semana, sem partilhar 
nada com ele? Tratava-se de uma mulher atolada em auto-ilusão.
42 
A sua auto-ilusão tornava-se particularmente evidente quando falava 
de Matthew.
— Tinha uma certa gentileza que lhe permitia afectar a vida de todas 
as pessoas que tinham contacto com ele. As administrativas adoravam-no, 
sem excepção. Tinha sempre uma palavra de carinho para elas, sabia os no-
mes de todos os seus fi lhos, levava-lhes doughnuts para o pequeno-almoço 
três ou quatro vezes por semana. Sempre que saímos juntos durante aque-
les vinte e sete dias, fez questão de dizer algo que deixasse o empregado de 
mesa, ou o caixa da loja bem-disposto. O doutor sabe alguma coisa sobre as 
práticas de meditação budista?
— Bem, para dizer a verdade, até...
Mas Th elma não esperou que eu terminasse a frase.
— Nesse caso, sabe sobre a meditação consagrada ao amor e à bonda-
de. Ele praticava-a duas vezes por dia e também me ensinou como se faz. 
É por isso que eu não sonharia, nem por sombras, que me pudesse tratar 
assim. O silêncio dele está a dar cabo de mim. Às vezes, quando me ponho 
a pensar no assunto, tenho a impressão de que a pessoa que me ensinou a 
falar abertamente não poderia ter inventado um castigo mais terrível do 
que remeter-se ao silêncio absoluto. Hoje em dia — Th elma baixou o tom 
de voz até a reduzir quase a um sussurro —, estou cada vez mais convencida 
de que a intenção dele é levar-me ao suicídio. Acha que é uma ideia maluca?
— Não sei se é maluca, mas parece-me sinal de desespero e terrivel-
mente doloroso.
— Ele está a tentar levar-me ao suicídio. Se conseguisse, livrava-se de 
mim de uma vez por todas. É a única justifi cação possível!
— Pois, mas, mesmo estando convencida disso, não deixou de o pro-
teger durante estes anos todos. Porquê?
— Porque, acima de tudo, quero que o Matthew tenha estima por 
mim. Não quero prejudicar a minha única hipótese que me resta de ser 
feliz!
— Mas já passaram oito anos, Th elma. Não tem notícias dele há oito 
anos!
— Mas ainda tenho hipóteses, por mais reduzidas que possam ser. 
Uma possibilidade de dois por cento, ou até de um, é melhor do que não 
ter possibilidade nenhuma. Não tenho esperança que o Matthew volte a 
amar-me, só quero que se importe com o facto de eu existir neste planeta. 
Não é pedir demais. Uma vez, quando estávamos a passear no Golden Gate 
Park, quase torceu o pé para não pisar um formigueiro. Tenho a certeza que 
também me pode dispensar algum desse amor e dessa bondade!
Tanta inconsistência, tanta raiva e quase escárnio a conviverem pare-
des meias com tamanha reverência. Embora eu tivesse começado a pene-
43 
trar, gradualmente, no universo das experiências dela e me fosse acostu-
mando às considerações hiperbólicas que tecia sobre Matthew, fi quei fran-
camente desconcertado com o comentário que fez a seguir.
— Se ele me telefonasse uma vez porano, se tirasse cinco minutos que 
fossem para conversar comigo, para mostrar que tem interesse em mim, 
então fi caria feliz. Será pedir demais?
Nunca antes encontrara alguém que cedesse tanto poder a outrem. 
Imagine-se que ela afi rmava que um telefonema anual de cinco minutos se-
ria a sua cura. Interroguei-me se tal seria possível. Lembro-me de ter pensa-
do que, se tudo o resto falhasse, não me coibiria de tentar providenciar essa 
experiência! Reconheci que a terapia tinha escassas hipóteses de ser bem 
sucedida: o modo como Th elma se auto-iludia, a sua falta de consciência de 
si mesma, a sua resistência à introspecção, as suas tendências suicidas, tudo 
isso me dizia: «Cuidado!»
No entanto, o problema dela fascinou-me. A sua obsessão amorosa — 
que outra designação se lhe poderia dar? — era forte e persistente, tendo do-
minado oito anos da vida dela. Contudo, as raízes dessa obsessão pareciam 
extraordinariamente friáveis. Bastariam um pouco de esforço e um pouco 
de engenho para arrancar por inteiro aquela erva daninha. E depois? O que 
iria eu encontrar por debaixo da obsessão? Descobrira os factos brutais da 
experiência humana que aquele feitiço ocultava? Se assim viesse a acontecer, 
talvez aprendesse, realmente, alguma coisa sobre a função do amor. Cien-
tistas descobriram, nos primórdios da investigação médica do século xix, 
que a melhor maneira de se compreender a função de um órgão endócri-
no é removê-lo e, subsequentemente, observar o funcionamento fi siológico 
da cobaia. Embora tenha fi cado arrepiado com a desumanidade da minha 
metáfora, perguntei-me: «Não se aplicará o mesmo princípio neste caso?» 
Até àquele momento, tornara-se evidente que o amor que Telma nutria por 
Matthew era, na verdade, algo mais: talvez uma escapatória, um escudo que 
a protegia do envelhecimento e da solidão. Não tinha nenhuma relação fun-
damental com Matthew, e, se entendermos por amor uma relação de cari-
nho, generosidade, ausência de necessidade, pouco amor transmitia.
Outros sinais prognósticos chamaram a minha atenção, mas optei por 
ignorá-los. Podia, por exemplo, ter ponderado com maior atenção sobre os 
vinte anos de psicoterapia por que Th elma passara! Quando eu estudava na 
Clínica de Psiquiatria do Johns Hopkins, utilizavam-se vários indicadores 
de cronicidade nos «bastidores». Um dos mais irreverentes qualifi cava-a de 
acordo com quilos: quanto mais pesada fosse a história clínica de um pa-
ciente, mais danifi cado estava e pior o seu prognóstico. Th elma seria uma 
septuagenária de «dez quilos», pelo menos, e absolutamente ninguém lhe 
teria recomendado psicoterapia.
44 
Refl ectindo hoje sobre o meu estado de espírito na altura, percebo que 
me vali simplesmente da racionalização para sacudir essas preocupações.
Vinte anos de terapia? Ora, os últimos oito não podiam ser contabi-
lizados por causa do secretismo de Th elma. Não há terapia que possa dar 
frutos se o paciente esconder os problemas fundamentais.
Os dez anos de terapia antes de Matthew? Ora, já tinha passado mui-
to tempo! Como se isso não bastasse, os terapeutas que a haviam acom-
panhado eram maioritariamente jovens estagiários. Decerto eu teria mais 
para lhe oferecer. Th elma e Harry, dados os seus recursos fi nanceiros limi-
tados, nunca haviam tido capacidades para procurar o auxílio de alguém 
que não estudantes de psiquiatria. Na altura, eu estava a ser fi nanciado 
por um instituto científi co para investigar a psicoterapia geriátrica e tinha 
condições para acompanhar Th elma a troco de uma verba mínima. Cer-
tamente era uma oportunidade rara que ela tinha de ser tratada por um 
psiquiatra experiente.
Os meus verdadeiros motivos para aceitar tratar Th elma eram outros: 
em primeiro lugar fi quei fascinado por me deparar com uma obsessão 
amorosa profundamente arreigada e, ao mesmo tempo, em estado exposto, 
vulnerável, pelo que nada me dissuadiria de desenterrá-la e investigá-la; em 
segundo, fui vítima do que hoje reconheço ter sido hubris: convenci-me 
de que era capaz de ajudar qualquer paciente, de que nenhum caso estaria 
além das minhas capacidades. Os pré-socráticos defi niam essa variedade 
de arrogância como uma «insubordinação perante a lei divina»; claro que 
fui insubordinado, não relativamente às leis divinas, mas às leis da nature-
za, aquelas que governam o desenrolar dos acontecimentos no meu ramo 
profi ssional. Creio que já na altura pressenti que, antes de o trabalho com 
Th elma estar concluído, seria chamado a prestar contas pela arrogância que 
me animara.
Ao fi m da segunda hora de consulta, discutimos o contrato de tra-
tamento. Ela deixou explícito que não se comprometeria a fazer um tra-
tamento a longo prazo, e, além disso, eu julgava que dali a seis meses já 
saberia se me seria, ou não, possível auxiliá-la. Portanto, combinámos en-
contrarmo-nos uma vez por semana durante um semestre (deixando em 
aberto a possibilidade de fazermos um prolongamento de seis meses se nos 
parecesse necessário). Comprometia-se a comparecer assiduamente nas 
consultas e a participar num projecto de investigação em psicoterapia, que 
implicava uma entrevista e uma carga de testes psicológicos para avaliação 
dos resultados do processo, a serem efectuados duas vezes, uma no início 
do tratamento e outra seis meses depois da respectiva conclusão.
Fiz questão de a informar de como a terapia seria certamente pertur-
bante e tentei convencê-la a prometer não desistir.
45 
— Th elma, essa sua ruminação contínua sobre o Matthew... só para 
abreviar, chamemos-lhe obsessão...
— Esses vinte e sete dias foram uma grande dádiva — redarguiu, irri-
tada. — Essa foi uma das razões pelas quais nunca os comentei com outros 
terapeutas: não quero que os tratem como se tivessem sido uma doença.
— Não, Th elma, não me referia ao que se passou há oito anos. Re-
feria-me ao que se passa agora e ao facto de não ser capaz de aproveitar a 
vida porque insiste em reviver constantemente o passado. Julgava que tinha 
vindo falar comigo porque queria parar de se atormentar.
Suspirou, fechou os olhos e anuiu com um aceno. Já me lançara o aviso 
que pretendia e recostou-se na cadeira.
— O que eu ia dizer é que esta obsessão... podemos arranjar uma de-
signação melhor, se a palavra obsessão a ofender...
— Não, não faz mal. Já estou a perceber o que quer dizer com isso.
— Bem, esta obsessão tem sido uma parte fulcral dos seus pensamen-
tos ao longo dos últimos oito anos. Vai ser difícil eliminá-la. Vou ter de ata-
car algumas das suas convicções e é possível que a terapia lhe provoque al-
guma tensão. Preciso que se comprometa a fazer um esforço por aguentar.
— Já me comprometi. Quando tomo uma decisão, não volto atrás.
— Além disso, Th elma, não consigo trabalhar como deve ser com uma 
ameaça de suicídio a pairar. Preciso que prometa, solenemente, que duran-
te os próximos seis meses não fará nada para pôr em causa a sua própria 
integridade física. Se, algum dia, se sentir à beira de o fazer, telefone-me. 
Ligue-me a qualquer hora, que estou disponível para si. Mas se fi zer algu-
ma tentativa, por mais insignifi cante que seja, o nosso contrato é nulo e 
recuso-me a dar continuidade ao trabalho consigo. Muitas vezes, estabeleço 
isto por escrito e peço ao paciente que assine, mas aceito a sua afi rmação no 
sentido de honrar sempre as decisões que toma.
Surpreendentemente, Th elma abanou cabeça.
— Não há maneira de lhe fazer essa promessa. Às vezes, tenho estados 
de espírito em que sei que é a única saída. Não vou prescindir dessa alter-
nativa.
— Só estou a falar dos próximos seis meses. Não lhe peço um compro-
misso de prazo mais longo, mas recuso-me a começar sem essa promessa. 
Quer mais tempo para pensar sobre o assunto, Th elma, e marcamos outra 
consulta para a semana que vem?
Tornou-se imediatamente conciliatória. Creio que não contava que eu 
marcasse uma posição tão fi rme. Embora ela não tenha dado qualquer si-
nal nesse sentido, creio que fi cou aliviada.
— Não posso esperar maisuma semana. Quero que tomemos uma 
decisão agora e que comecemos já a terapia. Prometo fazer por isso.
46 
«Fazer por isso» não me parecia ser sufi ciente, porém, hesitei em en-
trar tão depressa num braço-de-ferro com ela. Assim sendo, não teci qual-
quer comentário, limitando-me a arquear as sobrancelhas.
Passado um minuto, minuto e meio (um silêncio muito prolongado 
em psicoterapia), Th elma levantou-se, estendeu-me uma mão e disse:
— Prometo.
Na semana seguinte, começámos a trabalhar. Optei por não me deixar 
desviar dos assuntos relevantes e urgentes. Th elma já tivera tempo sufi cien-
te (vinte anos de terapia!) para explorar as suas primeiras fases de desenvol-
vimento; não me interessava, minimamente, concentrar-me em aconteci-
mentos ocorridos sessenta anos atrás.
Ela encarou a terapia com extrema ambivalência: embora consideras-
se que era o seu último recurso, nunca teve uma consulta satisfatória. No 
decurso das primeiras dez semanas de trabalho descobri que, sempre que 
analisávamos os sentimentos que nutria por Matthew, durante a semana 
seguinte era atormentada pela sua obsessão. Sempre que, por outro lado, 
explorávamos outros assuntos, nomeadamente questões tão importantes 
como a sua relação com Harry, ela considerava que a consulta era uma 
perda de tempo, porque nela ignorámos o problema fundamental que era 
Matthew.
Devido ao seu descontentamento, o tempo que passávamos juntos 
também se tornou pouco gratifi cante para mim. Aprendi a contar que o 
trabalho com Th elma fosse pouco recompensador para mim. Nunca expe-
rimentei qualquer prazer quando estava na presença dela e, logo a partir da 
terceira, ou quarta consulta, percebi que qualquer gratifi cação que pudesse 
vir a derivar daquele processo terapêutico seria forçosamente de natureza 
intelectual.
A maior parte do tempo que passávamos juntos era dedicado a Mat-
thew. Interroguei-a sobre o conteúdo exacto dos seus devaneios e Th elma 
deu sinais de ter gosto em falar acerca delas. As suas ruminações eram mui-
tíssimo repetitivas, consistindo, geralmente, um reconstituição bastante 
fi él de um dos encontros entres os dois durante o período de vinte e sete 
dias. A mais frequente incidia sobre o primeiro encontro fortuito entre os 
dois em Union Square, seguido do café no St. Francis, a caminhada até ao 
Fisherman’s Warf, a vista sobre a baía a partir do restaurante Scoma’s, a exci-
tação da viagem de carro até à «casota» de Matthew; porém, habitualmente 
pensava apenas numa das conversas afáveis que tivera com ele ao telefone.
O sexo desempenhava um papel menor naqueles pensamentos: ra-
ramente lhe suscitavam qualquer excitação sexual. Aliás, embora tivesse 
havido bastantes carícias sexuais no decurso dos seus vinte e sete dias com 
Matthew, só houvera penetração uma vez, logo na primeira noite. Tinham 
47 
tentado repeti-la em duas outras ocasiões, mas Matthew fora tolhido pela 
impotência. Comecei a fi car cada vez mais convencido de que o meu palpi-
te a respeito do comportamento dele fora certeiro, nomeadamente de que 
sofria de graves problemas psicossexuais que se haviam manifestado com 
Th elma (e provavelmente com outras infelizes pacientes).
Foram surgindo tantas pistas promissoras que se tornou difícil es-
colher e concentrar-me numa só. No entanto, primeiro era necessário 
demonstrar convincentemente a Th elma que era imperativo erradicar a 
obsessão, visto que a obsessão amorosa destitui a vida da sua realidade, 
obliterando experiências novas, sejam elas boas, ou más, como constatei na 
minha própria situação. Na verdade, a maior parte das convicções profun-
das que guardo relativamente à terapia e as áreas que mais interessam na 
psicologia derivaram da minha experiência pessoal. Nietszche afi rmou que 
o sistema racional de um fi lósofo nasce sempre da sua autobiografi a e creio 
que isso se aplica a todos os terapeutas, aliás, a todos aqueles que refl ectem 
sobre o pensamento.
Numa conferência cerca de dois anos antes de ter conhecido Th elma, 
cruzara-me com uma mulher que, subsequentemente, invadira o meu espí-
rito, os meus pensamentos e os meus sonhos. A sua imagem mudou-se de 
armas e bagagens para a minha mente e opôs-se a todos os meus esforços 
por despejá-la. Porém, durante algum tempo, isso não me fez mal algum: 
eu gostava da obsessão e tinha prazer em saboreá-la vezes e vezes sem con-
ta. Semanas mais tarde, fui gozar férias com a minha família numa bela ilha 
nas Caraíbas. Só ao fi m de vários dias percebi que estava a passar ao lado 
de tudo o que a viagem tinha para oferecer: a beleza da praia, a vegetação 
exótica e luxuriante, até a emoção de fazer mergulho e de entrar no mun-
do submerso. Toda essa rica realidade fora eclipsada pela minha obsessão. 
Ausentara-me. Encerrara-me nos meus pensamentos, onde assistia ao de-
senrolar de reposições sucessivas da mesma fantasia que, naquela altura, 
já perdera todo o sentido. Ansioso e francamente farto da minha própria 
atitude, submeti-me (novamente) à psicoterapia e, ao fi m de vários penosos 
meses, recuperei o controlo sobre a minha mente e pude dedicar-me, uma 
vez mais, à emoção de viver a vida no momento em que acontece. (Apro-
veito para fazer um parêntesis a título de curiosidade: o meu psicoterapeuta 
acabou por se tornar num amigo íntimo e, anos mais tarde, contou-me que, 
enquanto me tratava, ele próprio estava obcecado com uma bela italiana 
cuja atenção se centrava numa terceira pessoa. Entre o paciente, o terapeuta 
e o paciente roda La Ronde do amor obsessivo.)
Portanto, nas consultas com Th elma, fui frisando o modo como a ob-
sessão estava a viciar a sua vida e repeti, várias vezes, o seu comentário ante-
rior no sentido de estar a viver no passado. Não admirava que odiasse estar 
48 
viva! A sua vida estava abafada num compartimento quase estanque, sem 
janelas, apenas arejado por aqueles vinte e sete dias no passado longínquo.
Todavia, Th elma nunca achou essa tese convincente, creio hoje que 
com todas as razões para isso. Tendo generalizado a partir da minha experi-
ência para compreender a dela, cometera o erro de presumir que a sua vida 
tinha toda uma riqueza que lhe estava a escapar por causa da sua obsessão. 
Th elma sentia, embora não mo tenha dito explicitamente em nenhuma al-
tura, que a obsessão era infi nitamente mais vital do que a sua experiência 
vivida. (Mais tarde, viríamos a explorar, também com impacto reduzido, o 
inverso dessa formula: a hipótese de ter sido o empobrecimento da sua vida 
a conduzi-la, desde logo, aos braços da obsessão.)
Por volta da sexagésima consulta, eu já a tinha conseguido desgastar 
e — julgo que para me fazer a vontade —, aceitou que a obsessão era, de fac-
to, o inimigo e urgia exterminá-la. Passámos sessões atrás de sessões a fazer 
um simples reconhecimento da obsessão. Pareceu-me que a força que esta 
exercia sobre ela tinha origem no poder que Th elma atribuíra a Matthew. 
Não havia nada a fazer enquanto não diminuíssemos esse poder.
— Th elma, essa sensação de que a única coisa que importa é que Mat-
thew tenha estima por si... diga-me tudo o que sabe sobre ela.
— É difícil articulá-lo em palavras. A ideia de ele me odiar é insupor-
tável. É a única pessoa que alguma vez soube tudo sobre mim, portanto, 
o facto de, ainda assim, ser capaz de gostar de mim, apesar de tudo o que 
sabia, tinha imensa importância.
Refl ecti que é precisamente essa a razão pela qual os terapeutas nun-
ca devem ter relações emocionais com os pacientes. Graças à sua posição 
privilegiada, ao acesso que têm a sentimentos profundos e informações se-
cretas, as reacções deles assumem sempre signifi cado desmedido. É quase 
impossível os pacientes verem nos terapeutas aquilo que realmente são. A 
raiva que Matthew me provocava aumentou.
— Mas ele é só uma pessoa, Th elma. Alguém que não vê há oito anos. 
Que diferença faz o que ele pensa de si?
— Não sei explicar. Sei que não faz sentido, mas, no fundo da minha 
alma, acredito que eu fi caria bem e que seria feliz seele tivesse estima por 
mim.
Essa ideia, essa falsa convicção fundamental era a nossa inimiga. Eu 
tinha de eliminá-la. Fiz-lhe um apelo exaltado:
— A Th elma é a Th elma, tem a sua própria existência, continua a ser 
quem é de um momento para o outro, de dia para dia. A sua existência é 
essencialmente imune aos pensamentos passageiros e às ondas electromag-
néticas que se propagam em alguma mente desconhecida. Tente perceber 
isso. Todo esse poder que o Matthew tem, foi você quem lho deu, todinho!
49 
— Fico com um nó no estômago quando penso que ele me pode des-
prezar.
— O que se passa na cabeça de outra pessoa, de alguém com quem a 
Th elma nunca sequer está, que provavelmente nem dá pela sua existência, 
que está preocupada com as difi culdades da sua própria vida, não muda 
quem você é.
— Oh, pode crer que ele dá pela minha existência. Deixo-lhe muitas 
mensagens na cassete do atendedor de chamadas. Aliás, ainda na semana 
passada lhe deixei uma mensagem para o avisar de que estava a ser acom-
panhada por si. Achei que merecia ser informado de que ando a falar sobre 
ele consigo. Ao longo dos anos, tenho-lhe telefonado sempre que mudo de 
terapeuta.
— Mas eu julgava que não tinha falado sobre ele com nenhum dos 
outros terapeutas.
— E não falei. Prometi-lhe que não falaria, embora ele nunca me te-
nha pedido, e cumpri a minha promessa... até hoje. Ainda que não tenha 
conversado sobre ele ao longo desses anos todos, achei que o devia manter 
a par de quem eram os terapeutas que me tratavam. Muitos tinham sido 
formados na faculdade dele. Talvez até tenham sido amigos.
Tal era o rancor que tinha a Matthew, que as palavras de Th elma não 
me desagradaram. Pelo contrário, diverti-me a imaginar o transtorno dele, 
ao longo dos anos, cada vez que ouvia as mensagens ostensivamente solí-
citas que Th elma deixava no seu atendedor. Comecei a desistir da ideia de 
ripostar contra Matthew. Aquela senhora sabia castigá-lo e não precisava da 
minha ajuda para esse efeito.
— Voltando ao que eu estava a dizer antes, Th elma, não vê que está a 
pôr-se a si própria nesta situação? O que ele pensa não pode mudar o tipo 
de pessoa que você é. A Th elma é que se deixa infl uenciar. Ele é uma pessoa 
como as outras, tal como nós. Se você tiver má opinião de alguém com 
quem nunca tem contacto, os seus pensamentos: as imagens mentais que 
circulam no seu cérebro e que mais ninguém conhece, afectam essa pessoa? 
Isso só seria possível através da infl uência do vodu. Porque será que entrega 
o seu poder ao Matthew? Ele não passa de uma pessoa como as outras, tem 
de se debater com a vida, há-de envelhecer, há-de dar puns, há-de morrer.
Th elma não respondeu. Subi a parada.
— Disse-me que difi cilmente alguém poderia ter adoptado com inten-
ção um comportamento que a magoasse mais do que o dele. Já lhe ocorreu 
que talvez o Mathew estivesse a tentar levá-la ao suicídio. Não tem interesse 
no seu bem-estar. Sendo assim, que sentido fará exaltá-lo desta maneira e 
acreditar que não há nada mais importante na vida do que a consideração 
que tem por si?
50 
— Não acho sinceramente que esteja a tentar levar-me ao suicídio. É 
só uma ideia que me passa pela cabeça de vez em quando. Aquilo que eu 
sinto pelo Matthew varia muito e muito depressa. Regra geral, o que mais 
importa é que ele tenha estima por mim.
— Porque tem a estima dele tanta importância? Elevou-o a um estatu-
to sobre-humano. No entanto, parece-me a mim que o Matthew é uma pes-
soa particularmente baralhada. Até a própria Th elma referiu os problemas 
sexuais signifi cativos que ele tem. Pense em toda a questão da integridade, 
do código ético que ele segue. Violou a ética fundamental que rege toda e 
qualquer profi ssão médica ou social. Veja a afl ição que ele lhe causou. Am-
bos sabemos que é simplesmente errado um terapeuta profi ssional, alguém 
que se compromete a defender os interesses do seu paciente, magoar uma 
pessoa da maneira como a magoou a si.
Mas era como falar para uma parede.
— Foi precisamente quando ele começou a agir com profi ssionalismo, 
quando voltou a assumir um papel mais formal, que me magoou. Quando 
éramos simplesmente dois seres humanos apaixonados, deu-me a dádiva 
mais preciosa do mundo.
Foi uma resposta frustrante. Era óbvio que Th elma era responsável pe-
las circunstâncias da sua própria vida. Era óbvio que o poder que Matthew 
tinha sobre ela era uma ilusão. Era óbvio que ela lhe atribuía esse poder 
num esforço por negar a sua própria liberdade e a responsabilidade que 
tinha na constituição da sua própria vida. Longe de querer resgatar a sua 
liberdade das mãos de Matthew, desejava submissão.
Claro que eu percebera, desde logo, que a convicção dos meus argumen-
tos não faria mossa sufi ciente para provocar qualquer mudança. Quase nunca 
faz. Nunca funcionou comigo quando fui acompanhado por terapeutas. Só 
quando o discernimento se entranha no mais fundo do nosso ser o assimila-
mos. Só então podemos passar à acção e podemos modifi car-nos. Os psicólo-
gos populares referem constantemente a necessidade de «assumirmos respon-
sabilidade», mas não passa de conversa fi ada: é extraordinariamente difícil, e 
até mesmo assustador, assimilar a noção de que somos nós, e só nós, quem 
defi ne a nossa vida. Por esse motivo, na psicoterapia, o problema é sempre 
saber a transição da inefi caz apreciação intelectual de uma verdade sobre nós 
próprios para a experiência emocional da mesma. Só quando a terapia suscita 
emoções profundas tem força sufi ciente para potenciar a mudança.
E a impotência era o problema do meu processo terapêutico com 
Th elma. As minhas tentativas no sentido de gerar poder eram vergonho-
samente deselegantes e consistiam, sobretudo, em apalpar terreno, em im-
portuná-la, em rondar, repetidamente, à volta da obsessão dela, atacando-a 
de todos os lados.
51 
Como suspiro nessas circunstâncias pela certeza que a ortodoxia ofe-
rece. A psicanálise, para pegar na mais católica das escolas ideológicas da 
psicoterapia, propõe sempre convicções fortíssimas sobre os procedimen-
tos técnicos necessários; aliás, os analistas parecem mais seguros de tudo 
do que eu estou do que quer que seja. Ser-me-ia muito reconfortante sentir, 
mesmo que por uma só vez, que sei exactamente o que estou a fazer no 
meu trabalho psicoterapêutico e ter, por exemplo, a impressão de que estou 
a atravessar ordeiramente, na devida sequência, as etapas precisas do pro-
cesso terapêutico.
Claro que tudo isso é uma ilusão. Se tiverem alguma utilidade para 
o paciente, o sucesso das escolas ideológicas, com as suas complexas 
construções metafísicas, deve-se ao facto de mitigaram a ansiedade do 
terapeuta, não do paciente (permitindo assim que o primeiro enfrente a 
ansiedade inerente ao processo terapêutico). Quanto melhor o terapeuta 
for capaz de suportar a ansiedade da incerteza, menor será a necessidade 
por ele sentida de aderir à ortodoxia. A evolução dos partidários criati-
vos de uma ortodoxia, seja qual for, acaba sempre por ultrapassar a dos 
seus discípulos.
Embora haja algo de reconfortante num terapeuta omnisciente que 
controle sempre todas as situações, pode haver algo de profundamente ca-
tivante num terapeuta mais trapalhão, que se predisponha a apalpar terreno 
com o paciente até, em conjunto, tropeçarem numa descoberta potencial-
mente produtiva. No entanto, lamentavelmente, tal como Th elma me ha-
veria de ensinar antes de este caso ser encerrado, é possível desperdiçar-se 
muita terapia maravilhosa com um paciente!
Na minha busca pelo poder, fui até ao limite. Tentei abaná-la e cho-
cá-la.
— Imagine, por um instante, que o Matthew morria! Isso chegaria 
para a libertar?
— Já tentei imaginar isso. Quando o imagino morto, cai sobre mim 
uma grande tristeza. Se isso acontecesse, o meu universo fi caria deserto. 
Não consigo imaginar mais nada além disso.
— Como é que se pode libertar desta situação? Como é que alguém a 
poderá libertar? Acha que o Matthew poderia libertá-la? Algumavez ima-
ginou uma conversa em que ele a liberta?
Th elma respondeu à pergunta com um sorriso. Olhou-me com aqui-
lo que me pareceu ser respeito acrescido, como se estivesse impressionada 
com a minha capacidade para lhe ler os pensamentos. Era nítido que eu 
tocara numa fantasia importante.
— Muitas, muitas vezes.
— Partilhe isso comigo. Como seria a conversa?
52 
Não confi o em técnicas de role-play, ou de troca de lugares, mas pare-
ceu-me ser o momento ideal para isso.
— Vamos tentar simular essa situação. Faz o favor de passar para a 
outra cadeira e de fi ngir que é o Matthew a conversar com a Th elma, como 
se estivesse aqui sentada?
Visto que se opusera a todas as outras sugestões que fi z, já estava a pre-
parar argumentos para a convencer quando, com grande surpresa minha, 
aceitou entusiasticamente. Talvez, no decurso dos seus vinte anos de tera-
pia, tivesse trabalhado com terapeutas gestalt que houvessem empregue as 
mesmas técnicas; talvez a sua experiência em palco estivesse vir ao de cima. 
Quase saltou da cadeira, pigarreou, simulou com as mãos a colocação de 
uma gravata ao pescoço e o abotoar de um casaco, fez um sorriso beatífi co e 
uma expressão deliciosamente exagerada de magnanimidade benevolente, 
voltou a pigarrear, sentou-se na outra cadeira e transformou-se em Mat-
thew.
— Th elma, vim ter contigo guardando memórias agradáveis do tra-
balho que fi zemos juntos durante a terapia e querendo ter-te como amiga. 
Gostei muito do nosso toma lá, dá cá e das nossas piadas sobre os teus há-
bitos merdosos. Fui sincero contigo. Tudo o que te disse foi sentido, sem 
excepção. Depois, deu-se um incidente do qual optei por não te falar e que 
fez com que eu mudasse de ideias. Não foi nada que tu tenhas feito, nun-
ca te achei desagradável, embora não tivéssemos afi nidade sufi ciente para 
construirmos uma relação duradoira. O que aconteceu foi que uma mu-
lher, a Sonia...
Aqui, Th elma saiu momentaneamente do seu papel e disse-me num 
sussurro artifi cial:
— Sonia era o meu nome artístico quando era bailarina, Dr. Yalom.
Voltou a transformar-se em Matthew e prosseguiu:
— Essa mulher, a Sonia, entrou em cena e percebi que o caminho cer-
to para mim seria partilhar a vida com ela. Tentei afastar-me, tentei dizer-te 
para não me voltares a ligar e, para ser sincero, irritou-me que não tenhas 
desistido. Depois da tua tentativa de suicídio, percebi que tinha de ter mui-
to tento no que dizia e foi por isso que me distanciei tanto. Consultei um 
psiquiatra e foi ele quem me aconselhou a remeter-me ao silêncio absoluto. 
És alguém que eu adoraria ter como amiga, mas não há possibilidade de a 
nossa amizade ser pública. Temos de respeitar o teu Harry e a minha Sonia.
Calou-se e afundou-se na cadeira. Os seus ombros caíram, o sorriso 
benevolente sumiu-se, e, totalmente esgotada, voltou a transformar-se em 
Th elma.
Deixámo-nos fi car em silêncio. Enquanto eu ponderava sobre as pa-
lavras que ela pusera na boca de Matthew, foi-me fácil compreender por-
53 
que seriam apelativas e porque decerto as teria repetido com frequência: 
confi rmavam o seu ponto de vista sobre a realidade, absolviam Matthew 
de qualquer responsabilidade (afi nal de contas, tinha sido o psiquiatra a 
aconselhar-lhe silêncio) e confi rmavam que não havia nada de mal nela 
nem de incongruente na relação entre os dois; simplesmente Matthew ti-
nha um compromisso mais forte com outra. O facto de a outra mulher ser 
Sonia, ela própria quando era jovem, indiciava que eu teria de dedicar mais 
tempo à análise daquilo que Th elma sentia a respeito da sua idade.
Fiquei fascinado com a ideia da libertação. Seria possível que aquelas 
palavras, vindas da boca de Matthew, a libertassem? Passou-me pela cabeça 
uma interacção com um paciente no meu primeiro ano de internato (es-
sas primeiras experiências clínicas fi cam para sempre connosco, são como 
marcos na nossa infância profi ssional). O paciente, profundamente para-
nóico, insistiu que eu não era o Dr. Yalom, mas um agente do FBI e exigiu 
comprovativo da minha identidade. Quando, na consulta seguinte, tive a 
ingenuidade de lhe apresentar a minha certidão de nascimento, a carta de 
condução e ainda o passaporte, anunciou que eu lhe tinha dado razão: só 
alguém com contactos no FBI poderia ter obtido documentos falsifi cados 
tão depressa. Quando um sistema está em expansão permanente, não há 
maneira de não sermos cercados por ele.
Não que Th elma fosse paranóica, de maneira nenhuma, mas interro-
guei-me se não contrariaria também ela qualquer afi rmação libertadora, 
mesmo da parte de Matthew, exigindo sempre mais provas e confi rmações. 
Todavia, refl ectindo hoje sobre o caso, creio que terá sido nessa altura que 
comecei a admitir seriamente a possibilidade de integrar Matthew no pro-
cesso terapêutico, não a imagem idealizada que ela tinha dele, mas Mat-
thew como realmente era, de carne e osso.
— O que achou desta inversão de papéis, Th elma? Como se sentiu?
— Senti-me idiota! É ridículo para alguém da minha idade portar-se 
como uma adolescente pateta.
— Quer com isso perguntar-me alguma coisa? Acha que é assim que 
eu a vejo?
— Para ser sincera, essa é outra das razões (além da promessa que fi z 
ao Matthew) pelas quais nunca falei sobre ele com terapeutas, nem com 
mais ninguém. Sei que me dirão que foi uma reles paixoneta, ou uma ma-
nifestação de transferência. Até os imagino a dizer: «Toda a gente se apai-
xona pelo seu terapeuta». Ou isso, ou falarão do assunto como se fosse um 
exemplo de... como é que se chama quando o terapeuta transfere qualquer 
coisa para o paciente?
— Contratransferência.
— Pois, contratransferência. Aliás, ainda na semana passada o doutor 
54 
sugeriu isso quando disse que os problemas pessoais do Matthew se esta-
vam a manifestar na terapia que fazia comigo. Com toda a franqueza (que 
é aquilo que o doutor me exige durante a terapia), fi co ofendida com isso. É 
como se eu não tivesse importância, como se fosse uma vítima inocente de 
algum confl ito entre ele e a sua mãe.
Não teci comentários. Ela tinha razão; era precisamente esse o meu 
raciocínio. «Você e o Matthew foram “vítimas inocentes”. Nenhum dos dois 
se relacionou verdadeiramente com o outro, relacionaram-se apenas com 
uma versão fantasiada do outro. Apaixonou-se pelo Matthew por causa 
daquilo que ele representava para si, alguém que a amaria absoluta e in-
condicionalmente; alguém que se dedicaria completamente ao seu bem-es-
tar, conforto e evolução; alguém que reverteria o seu envelhecimento e a 
amaria como se ainda fosse a jovem e bela Sonia; alguém que lhe daria a 
oportunidade de fugir à angústia de ser independente e a felicidade de uma 
união em que ambos se confundiriam. Talvez se tenha “apaixonado” por 
ele, mas uma coisa era certa: não amou o Matthew; aliás, nunca chegou a 
conhecê-lo.»
E Matthew? Por quem ou o quê se teria ele apaixonado? Eu ainda não 
sabia, mas não me parecia que se tivesse “apaixonado”, nem que a amasse. 
«Ele não a amou, Th elma, aproveitou-se de si. Não nutriu qualquer carinho 
genuíno por si, não pela Th elma de carne e osso! O comentário que fez so-
bre a possibilidade de ele estar a resolver um confl ito com a mãe talvez não 
esteja longe da verdade.»
Como se me lesse os pensamentos, Th elma prosseguiu, de queixo er-
guido e projectando as palavras como se as dirigisse a um grande auditório:
— Quando as pessoas julgam que, na realidade, não nos amámos um 
ao outro, isso tira valor ao amor que conhecemos. Tira-lhe a profundidade 
e redu-lo a nada. Esse amor foi, e é, genuíno. Nunca senti nada tão genuíno 
quanto isso. Aqueles vinte e sete dias foram o auge da minha vida. Foram 
vinte e sete dias paradisíacos e daria tudo para voltar a vivê-los outra vez!
Refl ecti que era uma mulher de armas. Marcara efectivamente a sua 
posição: «Não me tire o auge. Não me tire a única coisa genuína que me 
aconteceu.» Quem seria capaz de fazer uma coisa dessas a alguém, particu-
larmente a uma septuagenáriadeprimida com tendências suicidas?
Contudo, eu não estava disposto a deixar-me chantagear daquela ma-
neira. Ceder-lhe seria neutralizar por completo o meu impacto. Sendo as-
sim, insisti, num tom seco:
— Fale-me da euforia, conte-me tudo aquilo de que se lembrar.
— Foi como se tivesse sido transportada para fora do meu próprio 
corpo. Senti-me como se não tivesse peso. Foi como se não estivesse pre-
sente, pelo menos a parte de mim que me angustia e me deixa abatida. Pura 
55 
e simplesmente parei de pensar e de me preocupar comigo própria, como 
se nos tivéssemos tornado numa só entidade.
O “eu” solitário rejubilara-se com a dissolução no “nós”. Quantas vezes 
já ouvi essa mesma conversa! É o denominador comum a todos os tipos de 
felicidade: romântico, sexual, político, religioso, místico. Todos nós deseja-
mos e agradecemos essa fusão feliz. Porém, o caso de Th elma era diferente: 
não se podia dizer que a desejasse, mas que tinha de a encontrar para esca-
par de um perigo incerto.
— Isso bate certo com aquilo que me contou sobre o sexo com o Mat-
thew: disse-me que não era importante que ele estivesse dentro de si. O que 
importava era que se ligassem, ou até que se fundissem.
— Precisamente. Era aí que eu queria chegar quando disse que o dou-
tor estava a dar demasiada importância à relação sexual. O sexo, por si só, 
não desempenhou um papel particularmente importante.
— Isso ajuda-me a compreender o sonho que a Th elma teve há umas 
semanas.
Duas semanas atrás, Th elma contara-me um sonho prenhe de ansie-
dade, o único sonho que me narrou durante todo o processo terapêutico:
«Estava a dançar com um homem negro, grande. Depois transformou-se 
no Matthew. Estávamos deitados na pista de dança, a ter relações sexu-
ais. Quando eu estava prestes a atingir o orgasmo, sussurrei: “Mata-me”, 
ao ouvido dele. Desapareceu, de repente, e fi quei abandonada na pista 
de dança.»
P
arece que a Th elma quer livrar-se da sua individualidade, quer per-
der-se (o que é representado no sonho pelo pedido: «Mata-me»), e o 
Matthew é o instrumento que tornaria isso possível. Imagina porque isso 
terá acontecido na pista de dança?
— Eu tinha-lhe dito que aqueles vinte e sete dias foram os únicos mo-
mentos em que alguma vez me senti eufórica. A verdade não é exactamente 
essa. Senti-me eufórica muitas vezes quando dançava. Nessas alturas, sentia 
muitas vezes que tudo desaparecia, eu e todo o resto, só existiam a dança 
e aquele instante. Quando danço nos meus sonhos, quer dizer que estou a 
tentar fazer com que tudo o que há de mau desapareça. Acho que também 
signifi ca voltar a ser jovem.
— Falámos muito pouco sobre como se sente em relação aos seus se-
tenta anos de idade. Pensa muitas vezes sobre isso?
— Suponho que talvez tivesse uma visão diferente da terapia se tivesse 
quarenta e não setenta anos. Teria perspectivas para o futuro. Os psiquia-
tras não preferem trabalhar com gente mais jovem?
56 
Eu sabia que havia ali uma abundância de material para explorarmos. 
Estava convicto de que a obsessão de Th elma era alimentada pelo seu medo 
do envelhecimento e da morte. Uma das razões pelas quais desejava uma 
fusão amorosa na qual se pudesse dissolver era a vontade de evitar o terror 
de enfrentar a dissolução pela morte. Nietzsche afi rmou que «a derradeira 
recompensa dos mortos é não poderem morrer mais». Porém, também se 
me apresentava uma óptima oportunidade para aprofundar a nossa rela-
ção. Embora os dois temas que tínhamos vindo a investigar (a fuga à liber-
dade e à solidão da individualidade) constituíssem na altura, e estivessem 
destinados a constituir futuramente, o conteúdo do nosso diálogo, eu tinha 
a sensação de que a melhor maneira de ajudar Th elma passava pelo de-
senvolvimento de uma relação signifi cativa com ela. Esperava que o tecer 
de laços estreitos entre nós soltasse as amarras que a prendiam a Henry o 
quanto bastasse para romper com ele. Só então poderíamos dedicar-nos à 
identifi cação e eliminação dos obstáculos que a impediam de estabelecer 
relações de intimidade na sua vida social.
— Th elma, quando me pergunta se os psiquiatras não preferem tra-
balhar com pacientes mais jovens, parece-me que quer com isso lançar-me 
uma questão mais pessoal.
Ela, como de costume, evitou personalizar a questão.
— É evidente que teria mais a ganhar em trabalhar com, por exemplo, 
uma mãe jovem de três fi lhos, mulher com toda uma vida pela frente, caso 
no qual a melhoria do seu estado psicológico seria benéfi ca para a prole e 
para os netos.
Insisti:
— Onde eu queria chegar é que fi quei com a impressão de que havia 
interrogação subjacente ao seu comentário, uma pergunta pessoal que me 
queria fazer acerca de algo que diz respeito a nós os dois.
— Os psiquiatras não teriam mais interesse em tratar uma paciente 
com trinta anos do que uma velha com setenta?
— Importa-se que nos concentremos em nós os dois, em vez de falar-
mos da psiquiatria, de psiquiatras e de pacientes? A pergunta que me quer 
fazer não é a seguinte: «Como é que você, Irv...» — aqui, Th elma sorriu. 
Raramente me chamava pelo nome, fosse o nome próprio ou o apelido — 
«...se sente a tratar de mim, a Th elma, uma mulher que já tem senta anos»?
Não deu resposta. Olhou fi xamente pela janela. Abanou muito ligeira-
mente a cabeça. Irra, que a mulher era teimosa!
— Tenho, ou não tenho razão? Era essa a sua dúvida?
— Essa é uma dúvida, mas não necessariamente a dúvida. Dito isso, 
se tivesse simplesmente respondido à pergunta como lha coloquei inicial-
mente, ter-me-ia dado resposta à pergunta que acabou de me fazer.
57 
— Quer com isso dizer que, se soubesse a minha opinião sobre o que a 
generalidade dos profi ssionais de psiquiatria sente a respeito do tratamento 
do paciente geriátrico comum, depreenderia disso que é assim que me sinto 
em relação à terapia que faço consigo?
Th elma anuiu com um aceno.
— Mas isso é tão retorcido, além de poder ser impreciso. O meu co-
mentário generalista poderia ter sido uma suposição acerca de todo um 
ramo profi ssional e não uma expressão da opinião pessoal que tenho de 
si. O que a impede de me fazer directamente a pergunta que a apoquenta?
— Foi este o tipo de problema que trabalhei com o Matthew. Era pre-
cisamente a isto que ele chamava um dos meus hábitos merdosos.
Isso deu-me que pensar. Conviria aliar-me, de qualquer modo que fosse, 
a Matthew? Ainda assim, senti-me seguro de que estava no caminho certo.
— Deixe-me tentar esclarecer as suas dúvidas: a geral, que me colocou, 
e a particular, que guardou para si. Comecemos pela geral. Eu, pessoalmen-
te, gosto de trabalhar com pacientes mais idosos. Como sabe, depois de 
ter preenchido aqueles questionários todos antes de começarmos o trata-
mento, estou a trabalhar num projecto de investigação e lido com muitos 
pacientes nas casas dos sessenta e dos setenta. Tenho vindo a descobrir que 
evoluem tão bem como, se não melhor que os pacientes mais jovens e te-
nho igual prazer em trabalhar com ambos.
«Compreendo a sua pergunta acerca da mãe jovem e da sua possível 
infl uência, mas eu vejo a questão de outra maneira. A Th elma também é 
muito infl uente. Todas as pessoas mais jovens com quem tiver contacto vão 
procurar a sua orientação, ou vê-la como um modelo a seguir nas próximas 
etapas das vidas delas. Do seu ponto de vista, creio que é possível descobrir 
aos setenta uma nova perspectiva sobre a vida que, por assim dizer, trans-
bordará retroactivamente para toda a sua experiência anterior, dando-lhe 
outro signifi cado e outra importância. Sei que agora lhe é difícil perceber 
isso, mas acredite quando lhe digo que acontece muitas vezes.
»Agora, deixe-me responder à parte mais particular da sua dúvida: 
como me sinto eu a respeito do trabalho consigo. Eu quero acompanhá-la. 
Creio que compreendo aquilo que está a sofrer e ponho-me no seu lugar... 
eu próprio já conheci esse tipo de angústia antes. Tenho interesse no pro-
blema com que se está a debater e julgo que posso ajudá-la.Aliás, estou 
empenhado em ajudá-la. O que mais me custa no nosso trabalho é a frus-
tração que me provoca o abismo que a Th elma cava entre nós. Ainda há 
pouco me disse que é capaz de descobrir (ou, pelo menos, de adivinhar) a 
resposta a uma pergunta pessoal através de uma pergunta impessoal, mas 
pense no efeito que isso tem na outra pessoa. Quando teima em fazer-me 
perguntas impessoais, como fez há pouco, sinto que está a afastar-me.»
58 
— Era precisamente esse o tipo de discurso do Matthew.
Sorri e rangi discretamente os dentes. Não me ocorria nenhum co-
mentário construtivo para acrescentar. Aquela interacção frustrante e pe-
nosa era típica. Ainda viríamos a ter muitas conversas semelhantes.
O trabalho era difícil e pouco gratifi cante. Semana a semana, fui ga-
nhando terreno a pouco e pouco. Tentei ensinar-lhe o á-bê-cê da intimi-
dade: o uso dos pronomes eu e tu, como identifi car sentimentos (partindo 
da diferença entre sentimentos e pensamentos), como assumir esses sen-
timentos e exprimi-los. Falei-lhe das emoções mais básicas (más, tristes, 
furiosas e felizes). Apresentei-lhe determinadas frases para ela completar, 
como, por exemplo: «Quando o Irv diz isso, eu sinto-me _____ consigo.»
Th elma tinha um reportório impressionante de mecanismos de dis-
tanciamento. Um deles passava por prefaciar o que estava prestes a dizer 
com longos preâmbulos aborrecidos. Quando lhe chamei a atenção para 
isso, reconheceu que eu tinha razão, mas depois deu início a uma descri-
ção de como, quando alguém lhe perguntava as horas, respondia com uma 
lição de relojoaria. Ao fi m de vários minutos, depois de ter concluído essa 
anedota (rematada com um relato histórico completo sobre como ela e a 
irmã haviam adquirido o hábito de fazerem longos apartes), tínhamo-nos 
afastado irremediavelmente do ponto de partida e dei por mim efectiva-
mente distanciado.
Numa ocasião, reconheceu que tinha difi culdades signifi cativas em 
exprimir-se. Só fora igual a si própria, de modo absolutamente espontâ-
neo, em duas circunstâncias no decurso da sua vida adulta: quando estava 
a dançar e quando partilhara vinte e sete dias de paixão com Matthew. Essa 
era uma parte importante da razão pela qual a aceitação dele adquiria tanta 
preponderância:
— Ele conheceu-me como muito poucas pessoas alguma vez me co-
nheceram, ou seja, como realmente sou, completamente exposta, sem es-
conder nada.
Quando lhe perguntava como estava a correr o dia, ou lhe pedia que 
descrevesse todas as sensações que tinha tido em relação a mim até ao mo-
mento em determinada consulta, raramente respondia. Costumava negar 
ter tido qualquer sensação, mas, por vezes, deixava-me completamente 
desarmado, declarando que sentira uma grande intimidade naquela hora, 
hora durante a qual me parecera particularmente evasiva e distante. Es-
miuçarmos a discrepância entre as nossas perspectivas seria um processo 
traiçoeiro, pois era provável que ela se indignasse com as conclusões.
Com o acumular de sinais de que não se estava a desenvolver qualquer 
relação signifi cativa entre nós, senti-me despistado e rejeitado. Ao que me 
parecia, tinha-me mostrado disponível para ela. No entanto, Th elma con-
59 
tinuava indiferente a mim. Esforcei-me por abordar esse assunto com ela, 
mas, quaisquer que fossem os termos escolhidos para o efeito, davam-me 
a sensação de que estava a choramingar: «Porque é que não gosta tanto de 
mim quanto gosta do Matthew?»
— Sabe, Th elma, passa-se aqui mais alguma coisa além do facto de 
permitir que a opinião que o Matthew tem de si seja de suprema impor-
tância e é a sua recusa em permitir que a minha opinião tenha qualquer 
signifi cado para si. Afi nal, tal como ele, conheço-a bastante bem. Também 
sou terapeuta, aliás, tenho mais vinte anos de experiência e, provavelmente, 
sou mais versado do que o Matthew. Porque será que aquilo que eu penso 
e sinto sobre si não conta?
Respondeu ao conteúdo, mas não à emoção subjacente ao comentá-
rio. Tentou apaziguar-me:
— A culpa não é sua. Tenho a certeza de que sabe o que faz. Acho 
que me portaria assim com qualquer terapeuta do mundo. O problema é 
que o Matthew me magoou tanto que não vou voltar a expor-me a outro 
terapeuta.
— Tem boas respostas para tudo, mas, no fundo, todas elas dizem: 
«Não se aproximem.» Não pode aproximar-se do Harry porque não quer 
magoá-lo, falando-lhe dos seus pensamentos íntimos sobre o Matthew e o 
suicídio. Não pode ter intimidade com amigos para não os magoar quando, 
mais cedo mais tarde, se suicidar. Não pode ter intimidade comigo porque 
foi magoada, há oito anos, por outro terapeuta. A letra muda de caso para 
caso, mas a cantiga é sempre a mesma.
Finalmente, no quarto mês de terapia, houve sinais de progresso. Th el-
ma parou de contestar tudo o que eu dizia e, com grande surpresa minha, 
no início de certa sessão, começou por me dizer que dedicara muitas horas 
da semana anterior a fazer uma lista de todos os seus entes mais queridos e 
do que acontecera a cada um deles. Concluiu que sempre que se aproxima-
va verdadeiramente de alguém, arranjava maneira de cortar relações com 
a pessoa.
— Talvez o doutor tenha razão. Se calhar tenho grandes difi culdades 
em aproximar-me das pessoas. Creio que há trinta anos que não tenho uma 
boa amiga. Nem sei se alguma vez tive uma.
Essa conclusão poderia ter sido um ponto de viragem na nossa terapia: 
pela primeira vez, Th elma identifi cara um problema específi co e responsa-
bilizara-se por ele. Tive esperança de que pudéssemos agora mergulhar a 
fundo no trabalho. Porém, aconteceu o inverso: Th elma retraiu-se ainda 
mais, alegando que os seus problemas com a intimidade condenavam a te-
rapia ao insucesso.
Não me poupei a esforços para a convencer de que aquela era uma 
60 
questão positiva e não negativa que emergira no processo terapêutico. Ex-
pliquei-lhe uma e outra vez que as difi culdades com a intimidade não são 
apenas ruído de fundo que atrapalha o tratamento, mas sim o problema 
essencial. O facto de o problema ter surgido naquelas circunstâncias, con-
texto no qual podíamos analisá-lo, era um desenvolvimento positivo e não 
negativo.
Todavia, o desespero dela agravou-se. Agora, todas as semanas lhe 
corriam mal. Tornava-se mais obsessiva, chorava mais, afastava-se mais 
de Harry e passava muito tempo a planear o seu suicídio. Eram cada vez 
mais frequentes as suas críticas à terapia. Dizia que as nossas sessões apenas 
contribuíam para «pôr o dedo na ferida» e aumentar o desconforto dela, 
arrependida de se ter comprometido a fazer seis meses de terapia.
O tempo estava a esgotar-se. Entrávamos no quinto mês de terapia e, 
embora Th elma me continuasse a garantir que respeitaria o seu compro-
misso, deixou expresso que não estava disposta a prolongá-lo além dos seis 
meses. Fiquei desanimado: todos os meus esforços diligentes tinham sido 
inefi cazes. Nem sequer conseguira criar uma aliança terapêutica consisten-
te com ela: a sua energia emocional era, até à última gota, dedicada a Mat-
thew e eu não encontrara maneira de a libertar. Chegara a altura de jogar a 
minha última cartada.
— Desde aquela sessão, há uns meses, em que fi ngiu que era o Mat-
thew e disse as palavras que a libertariam, tenho ponderado sobre a possi-
bilidade de o convidar a vir ao consultório para fazermos uma sessão a três: 
eu, a Th elma e o Matthew. Já só temos sete consultas pela frente, a não ser 
que admita a possibilidade de não desistir já... — Th elma abanou a cabeça 
com fi rmeza. — Acho que precisamos de ajuda para avançarmos mais nes-
te processo. Gostaria que me desse autorização para telefonar ao Matthew e 
para o convidar a vir ter connosco. Creio que bastará uma sessão a três, mas 
é melhor não a adiarmos muito, porque depois vamos precisar de várias 
horas para integrarmos aquilo que viermos a descobrir.
Th elma, que até àquele instante se deixara fi car apaticamente afunda-
da na cadeira, endireitou-se de repente. O seu saco caiu-lhe de cima dos jo-
elhos e entornou-seno chão, mas ela ignorou-a para me ouvir de olhos ar-
regalados. Finalmente, fi nalmente tinha conseguido chamar a atenção dela 
e calou-se durante vários minutos, meditando sobre as minhas palavras.
Embora a minha proposta não houvesse sido muito refl ectida, estava 
convencido de que Matthew aceitaria reunir-se connosco. Esperava que a 
minha reputação no meio o intimidasse a ponto de colaborar. Ainda para 
mais, seguramente ter-se-ia deixado afectar por oito anos de mensagens de 
Th elma no seu atendedor de chamadas e também estaria ansioso por se 
libertar.
61 
Não tinha a certeza do que aconteceria naquele extraordinário encon-
tro a três, no entanto, sentia-me estranhamente confi ante em que correria 
tudo bem. Qualquer informação que eventualmente descobríssemos seria 
útil. Qualquer injecção de realidade me ajudaria a libertar Th elma da sua 
fi xação em Matthew. Independentemente da gravidade das deformações 
de carácter dele — que decerto seriam falhas de magnitude considerável 
—, tinha a certeza de que não faria nada à minha frente que alimentasse as 
fantasias dela sobre uma reconciliação futura.
Depois de um silêncio invulgarmente prolongado, Th elma afi rmou 
que precisava de mais tempo para pensar no assunto.
— Por enquanto — disse ela —, vejo mais contras do que prós...
Deixei escapar um suspiro e recostei-me na cadeira. Sabia que Th elma 
passaria o resto daquela hora a urdir teias obsessivas.
— Relativamente aos pontos positivos, suponho que isso permitiria ao 
Dr. Yalom observar o nosso comportamento presencialmente.
Suspirei ainda mais alto. Aquela sessão ia ser ainda pior do que era ha-
bitual; estava a falar sobre mim como se eu não estivesse presente. Fiz men-
ção de sublinhar que estava a falar como se não partilhássemos o mesmo 
espaço, mas não tive forças para tanto... Th elma conseguira desgastar-me.
— Relativamente aos pontos negativos, ocorrem-me várias possibi-
lidades: primeiro, o seu telefone pode aliená-lo. Tenho um ou dois por 
cento de possibilidades de o reconquistar. A sua chamada pode redu-
zi-las a zero, se tanto.
Comecei a fi car defi nitivamente irritado e pensei: «Passaram oito 
anos, Th elma, como é que ainda não percebeu a mensagem? Além disso, 
como é que as suas possibilidades podem ser menos do que zero, sua ton-
ta?» Aquela era realmente a minha última cartada e começava a fi car com a 
impressão de que ela ia cortar-me a vaza. Todavia, calei-me.
— O único motivo que ele poderia ter para participar seria profi ssio-
nal: ajudar uma doentinha demasiado incompetente para gerir a sua pró-
pria vida. Em terceiro lugar...
Meu Deus! Estava outra vez a fazer enumerações. Tirava-me do sério.
— Em terceiro lugar, é provável que o Matthew me diga a verdade, mas 
por palavras condescendentes e profundamente infl uenciadas pela presença 
do Dr. Yalom. Acho que não aguentava se fosse condescendente comigo. Em 
quarto lugar, isso colocá-lo-ia numa posição muito comprometedora e em-
baraçosa em termos profi ssionais. Nunca me perdoaria uma desfeita dessas.
— Mas ele é um terapeuta, Th elma. Sabe que, para você melhorar, tem 
de falar sobre ele. Se for uma pessoa tão espiritual como a Th elma o julga, 
então, decerto tem-se sentido muito culpado pela sua afl ição e terá todo o 
gosto em ajudá-la.
62 
No entanto, Th elma estava demasiado embrenhada no desenrolar da 
sua lista para ouvir as minhas palavras.
— Em quinto lugar, o que teria eu a ganhar com uma sessão a três? 
Não há quase hipótese nenhuma de ele dizer aquilo que eu gostaria de lhe 
ouvir. Só quero que ele diga que gosta de mim, pouco me importa se é isso 
o que sente, ou não. Se não vou ter aquilo que quero e que me faz falta, por-
que me hei-de eu expor a essa angústia? Já estou sufi cientemente magoada. 
Porque hei-de eu aceitar essa proposta?
Levantou-se da cadeira e foi até à janela.
Eu começava a fi car muito preocupado. Th elma estava a entrar num 
frenesi irracional e ia boicotar o meu último recurso para ajudá-la. Dei tem-
po ao tempo e escolhi cuidadosamente as palavras:
— A melhor resposta que lhe posso dar a todas as dúvidas que 
apresentou é que falar com o Matthew nos aproximará da verdade. Te-
nho a certeza de que é isso o que lhe interessa... — Estava de costas 
para mim, mas pareceu-me que a vi acenar discretamente com a ca-
beça, em concordância. — Não pode continuar a viver esta mentira, a 
viver nesta ilusão!
«Sabe uma coisa, Th elma? Já me fez muitas perguntas sobre a minha 
orientação teórica. Raramente lhe respondi porque achei que conversar-
mos sobre várias escolas de psicoterapia nos afastaria do diálogo pessoal 
que tínhamos de estabelecer, mas deixe-me tirar-lhe essa dúvida agora. 
Segundo aquela que talvez seja a máxima terapêutica mais importante a 
que me agarro: «A vida não examinada não merece ser vivida.» Trazer o 
Matthew a este consultório talvez seja a chave que nos permitirá examinar e 
compreender verdadeiramente aquilo que se tem passado consigo ao longo 
dos últimos oito anos.
A minha resposta tranquilizou Th elma. Voltou à cadeira e sentou-se.
— Isto está a mexer muito comigo. Tenho a cabeça a andar à roda. 
Dê-me uma semana para pensar no assunto, mas tem de me prometer uma 
coisa: não telefona ao Matthew sem a minha autorização.
Prometi que, se não tivesse notícias dela, não telefonaria a Matthew na 
semana seguinte e despedimo-nos. Não estava disposto a garantir-lhe que 
nunca tentaria contactá-lo, mas, felizmente, não me pediu que o fi zesse.
Quando chegou para a consulta seguinte, Th elma pareceu-me dez 
anos mais nova e bem mais animada. Fora arranjar o cabelo e vestira roupa 
atraente: uma saia de malha com losangos e meias de vidro, em vez das 
calças de poliéster, ou o fato de treino habituais. Sentou-se prontamente e 
foi directa ao assunto:
— Passei a semana a pensar no tal encontro com o Matthew. Analisei 
todos os prós e os contras e convenci-me de que o doutor tem razão: estou 
63 
num estado tão deplorável que duvido que alguma coisa pudesse piorar a 
situação!
— Não foi isso o que eu disse, Th elma. Disse que...
Mas ela não tinha interesse nas minhas palavras e interrompeu-me:
— Dito isso, a sua ideia de lhe telefonar não me pareceu a mais indi-
cada. Teria sido um choque para ele receber um telefonema seu sem mais, 
nem menos, portanto decidi-me a ligar-lhe para o preparar para a sua cha-
mada. Claro que não o consegui contactar a ele, mas falei da sua proposta 
ao atendedor de chamadas e pedi-lhe que nos telefonasse, a si, ou a mim 
e... e...
Nesse instante, com um sorriso rasgado nos lábios, parou para au-
mentar o suspense.
Fiquei pasmado. Nunca a tinha visto brincar assim.
— E...?
— Bem, parece que o doutor tem mais infl uência do que eu imagi-
nava. Pela primeira vez, desde há oito anos, retribuiu a chamada e tivemos 
uma amena conversa de vinte minutos.
— Como é que se sentiu a falar com ele?
— Foi maravilhoso! Nem lhe sei descrever bem. Foi como se ainda na 
véspera tivéssemos conversado. Voltou a ser o Matthew gentil e carinhoso 
de antigamente. Perguntou tudo sobre mim. Ficou preocupado com a mi-
nha depressão. Ficou feliz por eu estar a ser acompanhada por si. Foi uma 
boa conversa.
— Importa-se de me dizer sobre o que falaram?
— Credo. Sei lá. Estivemos na cavaqueira.
— Falaram sobre o passado? Sobre o presente?
— Sabe?, talvez pareça estranho, mas não me lembro!
— Não se lembra de nada?
Nas mesmas circunstâncias, muitos terapeutas teriam interpretado o 
modo como ela me estava a excluir. Talvez eu devesse ter feito o mesmo, 
mas estava cheio de curiosidade. Estava em pulgas! Era típico de Th elma 
esquecer-se que eu também tinha desejos.
— Compreenda que não estou a tentar esconder nada. Simplesmen-
te não me lembro. Estava demasiado entusiasmada. Ah, pois, ele disse-me 
que se tinha casado e divorciado, explicou que tinha passado por uma fase 
muito turbulenta por causa do divórcio.
«O que importa é que está disposto a participar numa sessão a três. 
Sabe uma coisa? Achei engraçado queele até me tenha parecido ansioso, 
como se tivesse sido eu a evitá-lo e não o inverso. Disse-lhe que apareces-
se aqui na semana que vem, na minha hora de consulta habitual, mas ele 
pediu-me para perguntar ao doutor se seria possível antecipar esse encon-
64 
tro. Agora que decidimos fazer isto, quer tratar do assunto o quanto antes. 
Suponho que eu sinta a mesma ânsia.»
Propus-lhe uma hora para dali a dois dias e Th elma comprometeu-se 
a transmitir essa informação a Matthew. Depois tornámos a rever a con-
versa telefónica entre os dois e fi zemos planos para a consulta seguinte. 
Ela não chegou a recordar-se de todos os pormenores do telefonema, mas 
lembrou-se dos assuntos que não tinham discutido:
— Desde que desliguei a chamada, tenho andado a castigar-me por 
me ter acobardado e não ter feito ao Matthew as duas perguntas que real-
mente interessam. A primeira: afi nal o que aconteceu há oito anos? Porque 
é que ele cortou relações comigo? Porque não me deu notícias desde essa 
altura. A segunda: o que sente ele por mim agora?
— Temos de garantir que não sai da nossa consulta a três com vonta-
de de se castigar por ter guardado perguntas para si. Prometo que a ajudo 
a formular qualquer questão que tenha interesse em esclarecer, quaisquer 
perguntas que a possam libertar da infl uência que deu ao Matthew. Vai ser 
essa a minha função essencial na consulta.
Durante o resto daquela hora, Th elma repetiu muito material an-
tigo: falou sobre o que sentia por Matthew, sobre como não era um 
exemplo de transferência, sobre como ele lhe proporcionara os melho-
res dias da sua vida. Fiquei com a impressão de que se tratava de uma 
divagação interminável, uma sucessão de desvios atrás de desvios e de 
que, como se isso não bastasse, me estava a dizer tudo aquilo como se 
fosse pela primeira vez. Apercebi-me de quão pouco ela mudara e de 
como tantas coisas dependiam de um potencial desenvolvimento dra-
mático na nossa próxima sessão.
Chegou vinte minutos adiantada à consulta. Nessa manhã, eu esta-
va a tratar da correspondência e passei uma ou duas vezes por ela na sala 
de espera, onde fui conferenciar com a minha administrativa. Th elma 
trouxera um atraente vestido de malha azul-marinho: trajo ousado para 
uma senhora de setenta anos, mas que lhe fi cava bastante bem. Mais tar-
de, quando a convidei a entrar no consultório, elogiei a roupa dela e dis-
se-me, num sussurro conspiratório, com um dedo encostado aos lábios, 
que passara grande parte da semana às compras, antes de ter escolhido 
aquele. Era o primeiro vestido novo que comprara desde oito anos atrás. 
Enquanto retocava o batom, disse-me que Matthew chegaria dentro de 
um ou dois minutos, em cima da hora. Ele explicara-lhe que não queria 
passar muito tempo na sala de espera, porque pretendia minimizar as 
possibilidades de se cruzar com algum colega que por ali andasse. Não 
me admirou que tivesse esse cuidado.
De súbito Th elma parou de falar. Eu deixara a porta do consultório 
65 
entreaberta e percebemos que Matthew chegara e estava a conversar com a 
administrativa.
— Assisti a algumas aulas aqui, quando o departamento fi cava no edi-
fício antigo... Quando é que mudaram de instalações?... Gosto muito desta 
luz, do ambiente arejado deste edifício, e você?
Th elma encostou uma mão ao peito, como se para abrandar as palpi-
tações do coração e segredou-me:
— Está a ver como parece ser naturalmente afectuoso?
Matthew entrou. Há oito anos que não via Th elma e, se fi cou de algum 
modo espantado com o envelhecimento físico dela, o seu sorriso jovem e 
bem disposto não o denunciou. Era mais velho do que eu esperava, talvez 
tivesse quarenta e poucos anos, um fato de três peças conservador e pouco 
californiano. De resto, correspondia à descrição de Th elma: magro, bron-
zeado, com bigode.
Eu estava preparado para que ele fosse directo e sincero, portanto não 
me surpreendi com a sua atitude. (Refl ecti que os sociopatas muitas vezes 
tinham boa apresentação.) Comecei por lhe agradecer sucintamente por 
ter vindo.
Retorquiu imediatamente:
— Há anos que estou desejoso de ter uma consulta assim. Eu é que te-
nho de lhe agradecer a si por ma proporcionar. Além disso, há muitos anos 
que leio os seus livros. Conhecê-lo é uma honra.
«Este tem o seu charme», pensei, mas não quis deixar-me distrair com 
uma discussão pessoal ou profi ssional com Matthew: era melhor man-
ter-me discreto durante esta sessão e permitir que Th elma interagisse o má-
ximo possível com ele. Deixei a gestão dos procedimentos ao critério deles:
— Temos muito para discutir hoje. Por onde vamos começar?
Th elma começou:
— É engraçado que nunca tenha chegado a aumentar a dosagem da 
medicação. — Voltou-se para Matthew e acrescentou: — Continuo a tomar 
antidepressivos. Já lá vão oito anos, meu Deus, até custa acreditar, mas já 
passaram oito anos, devo ter experimentado oito antidepressivos diferentes 
e ainda nenhum deu resultado. O mais interessante é que os efeitos secun-
dários se fazem sentir mais hoje em dia. Tenho a boca tão seca que mal 
consigo falar. Porque será que isso acontece? O stress potencia os efeitos 
secundários?
Th elma continuou a divagar e a consumir grandes troços do precioso 
tempo que nos restava com preâmbulos a preâmbulos. Era um dilema: em 
circunstâncias habituais, provavelmente teria tentado esclarecer as conse-
quências daquele discurso indirecto. Talvez tivesse frisado, por exemplo, 
que ela estava a colocar-se num papel de fragilidade que os desencoraja-
66 
ria, desde logo, de terem a discussão aberta que dizia pretender; ou que 
convidara Matthew a ir ali para falar livremente, mas, ainda assim, apelara 
prontamente ao sentimento de culpa dele, relembrando-o de que estava 
medicada com antidepressivos desde que a deixara desamparada. Todavia, 
tais interpretações resultariam apenas na conversão de maior parte daquela 
hora numa sessão de terapia convencional, o que era precisamente aquilo 
que nenhum de nós queria. Além disso, se eu rotulasse de algum modo o 
comportamento dela como problemático, sentir-se-ia humilhada e nunca 
mais me perdoaria essa atitude.
No entanto, demasiadas coisas dependiam daquela hora. Não podia 
admitir que Th elma desperdiçasse aquela oportunidade com indirectas e 
conversas redondas. Tratava-se da sua grande oportunidade para fazer as 
perguntas que a perseguiam desde oito anos a esta parte. Era a sua grande 
oportunidade para se libertar.
— Se me permite, Th elma, vou fazer uma curta interrupção. Se estive-
ram de acordo, gostaria que hoje fosse você a assumir a responsabilidade de 
cronometrar a sessão e de se assegurar de que não nos dispersamos. Pode-
mos tirar um ou dois minutos para defi nirmos a nossa agenda de trabalhos?
Seguiu-se um silêncio momentâneo, até que Matthew o desfez:
— Vim cá hoje para ajudar a Th elma. Sei que ela tem passado mal e sei 
que a responsabilidade por isso é minha. Vou responder com a franqueza 
possível a toda e qualquer pergunta.
Foi uma deixa perfeita para Th elma. Deitei-lhe um olhar para que co-
meçasse. Percebeu o sinal e disse:
— Não há nada pior do que sentirmo-nos abandonados, sentir-
mo-nos como se estivéssemos absolutamente sozinhos neste mundo. 
Quando eu era pequenina, um dos meus livros favoritos, que costumava 
levar para o Lincoln Park em Washington, DC, onde o lia sentada num 
dos bancos... era...
Nesse instante, deitei a Th elma o olhar mais fulminante de que fui ca-
paz. Ela percebeu.
— Vou directa ao assunto. Suponho que o que interessa é... — vol-
tou-se lenta e cuidadosamente para Matthew —... saber o que sentes por 
mim.
Linda menina! Dediquei-lhe um sorriso absolutamente radiante.
A resposta de Matthew apanhou-me desprevenido. Olhou directa-
mente para ela e disse:
— Há oito anos que penso em ti todos os dias! Gosto de ti. Gosto 
muito. Quero saber o que se passa contigo. Quem me dera que houvesse al-
guma maneira de nos encontrarmos de tantos em tantos meses para saber 
como estás. Não quero cortar relaçõescontigo.
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— Nesse caso, porque é que não falaste comigo durante estes anos to-
dos? — perguntou-lhe.
— Às vezes, o silêncio é a melhor maneira de exprimirmos o quanto 
nos preocupamos com alguém.
Th elma abanou a cabeça.
— Isso é como um dos teus enigmas Zen, que nunca consegui com-
preender.
Matthew prosseguiu:
— Sempre que tentava falar contigo, a situação piorava. Exigias cada 
vez mais de mim, até que chegou uma altura em que não sabia o que mais 
te dar. Telefonavas-me dez vezes por dia. Teimavas em aparecer na sala de 
espera do meu consultório. Quando só por pouco não te mataste, percebi... 
e o meu terapeuta concordou... que o melhor seria cortar completamente 
relações contigo.
Pensei que a declaração de Matthew fora estranhamente semelhante 
ao momento de libertação que Th elma descrevera durante a nossa sessão 
de inversão de papéis.
— Mas é natural que uma pessoa se sinta desamparada quando algo 
de tão importante lhe é tirado tão de repente — comentou ela.
Matthew acenou com a cabeça, compreensivo, e pousou, por um 
breve instante, uma mão sobre as mãos dela. Então, voltou-se para mim e 
disse-me:
— Parece-me importante que o doutor saiba exactamente o que acon-
teceu há oito anos. Digo-lhe isto a si, e não à Th elma, porque já lhe contei 
esta história mais do que uma vez. — Virou-se para ela e acrescentou: — 
Lamento que tenhas de tornar a ouvir isto tudo.
Nessa altura, voltou-se para mim com um ar sincero e começou:
— Isto não me é fácil. A melhor maneira de resolver o assunto é dizer 
tudo de uma vez, portanto, vamos a isso.
«Há oito anos, cerca de um ano depois de ter terminado o internato, 
tive um surto psicótico grave. Nessa fase, estava muito dedicado ao budis-
mo e a praticar Vipassana, uma variedade de meditação budista...» Ao ver o 
meu aceno, interrompeu a sua narrativa. «Parece que conhece essa prática. 
Teria todo o interesse em saber que opinião tem dela. Dito isso, hoje é me-
lhor continuar a história... andava a fazer três ou quatro horas de Vipassana 
por dia. Admiti a hipótese de me tornar monge budista e fi z um retiro de 
meditação na Índia, passei trinta dias em Igapuri, aldeola a norte de Bom-
baim. O regime foi demasiado duro para mim: silêncio absoluto, isolamen-
to total, catorze horas de meditação por dia e comecei a perder noção dos 
limites do ego. Na terceira semana comecei a alucinar e convenci-me de 
que via através de paredes e de que tinha acesso total às minhas vidas pas-
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sada e futura. Os monges levaram-me a Bombaim e um médico indiano 
receitou-me medicação antipsicótica e telefonou ao meu irmão, que apa-
nhou um avião para a Índia e me trouxe para casa. Passei cerca de quatro 
semanas hospitalizado em Los Angeles. Assim que me deram alta, meti-me 
num avião para São Francisco e foi no dia seguinte que conheci a Th elma, 
por mero acaso, em Union Square.
»Ainda estava num estado de espírito muito fragmentado. Tinha con-
vertido as doutrinas budistas numa verdadeira loucura e julgava que vivia 
em comunhão com toda a gente. Fiquei feliz por me ter cruzado com a 
Th elma, contigo, Th elma — disse, voltando-se para ela. — Fiquei satisfeito 
por te encontrar. Isso ajudou-me a assentar novamente os pés no chão».
Matthew tornou a virar-se para mim e, até ao fi m da história, não vol-
tou a olhar para ela.
— Tive uma grande ternura por ela. Senti que éramos a mesma pes-
soa. Queria que ela tivesse tudo o que desejava na vida. Mais do que isso, 
pensava que a sua busca pela felicidade era a minha busca também. Era a 
mesma senda, nós éramos iguais. Eu levava a fé budista na unidade uni-
versal e na ausência de ego muito à letra. Não sabia onde acabava à minha 
individualidade e começava a dos outros. Dei-lhe tudo o que ela queria. 
Queria intimidade comigo, queria ir para casa comigo, queria sexo... eu es-
tava disposto a dar-lhe tudo num estado de perfeita união e amor.
«Mas ela queria mais e eu não tinha mais para lhe dar. Fiquei mais 
perturbado. Ao fi m de três ou quatro semanas, voltei a ter alucinações e tive 
de voltar para o hospital, dessa vez passei seis semanas internado. Tinha 
saído de lá há pouco tempo, quando ouvi falar da tentativa de suicídio da 
Th elma. Eu não sabia o que fazer. Foi uma situação catastrófi ca. Nunca me 
tinha acontecido coisa pior. Há oito anos que tenho sido perseguido por 
isso. Inicialmente, atendi os telefonemas dela, mas nunca mais acabavam. 
O meu psiquiatra acabou por me aconselhar a cortar todas as linhas de 
comunicação e a remeter-me ao silêncio absoluto. Disse que era necessário 
para bem da minha sanidade e que estava certo de que também seria me-
lhor assim para Th elma.»
Ao ouvir a história de Matthew, fi quei com a cabeça a andar à roda. Já 
tinha desenvolvido várias hipóteses para explicar o comportamento dele, 
mas não estava minimamente preparado para o que acabara de me contar.
Antes de mais, seria verdade? Matthew era um homem cativante. Era 
muito insinuante. Teria encenado tudo aquilo por minha causa? Não, eu 
não tinha dúvidas de que a descrição dele correspondia à realidade dos fac-
tos: as suas palavras soavam inconfundivelmente verdadeiras. Disse-me de 
livre e espontânea vontade os nomes dos hospitais e dos médicos que o 
tinham tratado, para a eventualidade de eu querer contactá-los. Além disso, 
69 
Th elma, a quem ele afi rmara ter já contado tudo aquilo, ouvira-o com toda 
a atenção e não apresentara qualquer objecção.
Voltei-me para ela, mas desviou o olhar. Depois de Matthew ter acaba-
do a sua história, Th elma olhou fi xamente pela janela. Seria possível que ela 
soubesse tudo aquilo desde o início e me tivesse omitido essa informação? 
Ou teria estado tão absorta na sua afl ição e nas suas próprias necessidades 
na altura, que, ao longo de todo o processo, não se apercebera minima-
mente do estado psicológico de Matthew? Ou teria tido essa noção durante 
um curto período de tempo, antes de a ter reprimido, por ser contrária à 
mentira essencial a que se agarrava?
Só Th elma me poderia esclarecer, mas qual delas? A Th elma que me 
iludira? A Th elma que se iludia a si própria? Ou a Th elma que se deixara 
iludir por si mesma? Duvidei que viesse a descobrir respostas para essas 
dúvidas.
Entretanto, a minha atenção estava essencialmente fi xa em Matthew. 
Ao longo dos meses anteriore pintara uma imagem dele, ou, aliás, várias 
imagens alternativas: imaginara um Matthew irresponsável, sociopata que 
explorava os seus pacientes; um Matthew insensível e sexualmente confuso 
que manifestava os seus confl itos pessoais (relacionados com as mulheres 
em geral, ou a mãe em particular); um jovem e pomposo terapeuta errante 
que confundia o amor desejado com o amor necessário.
No entanto, ele não correspondia a nenhuma dessas personagens. Era 
algo de diferente, algo que eu não tinha antevisto. Não sabia ao certo do que 
se tratava. Seria uma vítima bem intencionada? Um curandeiro ferido, um 
homem à imagem de Cristo, que sacrifi cara a sua própria integridade em 
nome de Th elma? Seguramente já não o considerava um terapeuta culpado 
de um ilícito: tinha tanto de paciente quanto Th elma e, além do mais (como 
não pude deixar de refl ectir ao olhar para ela, que continuava a olhar fi xa-
mente pela janela), era um paciente esforçado, paciente à minha medida.
Lembro-me de me ter sentido baralhado depois de tantas idealizações 
se terem desfeito em tão poucos minutos. Desaparecera para sempre a ima-
gem que construíra de Matthew como sociopata, ou terapeuta abusador. 
No lugar dela surgira uma pergunta obsidiante: «Na relação entre os dois, 
quem se aproveitara de quem?»
Eu não conseguia processar mais informação (e estava convencido 
de que tinha tudo o que era preciso). Do resto da sessão, guardo apenas 
memórias vagas. Lembro-me de Matthew ter instado a Th elma que fi zesse 
mais perguntas. Parecia que também tinha a impressão de que ela só pode-
ria ser liberta através de informação, que as suas ilusões não resistiriam ao 
farol da verdade. Tambémcreio que terá percebido que só através da liber-
tação de Th elma poderia conquistar a sua própria liberdade. Recordo-me 
70 
de que eu e ela fi zemos muitas perguntas, a cada uma das quais respondeu. 
A esposa dele deixara-o quatro anos antes. Matthew e a sua mulher tinham 
desenvolvido perspectivas cada vez mais divergentes sobre assuntos religio-
sos e ela não fora capaz de acompanhar a conversão do marido a uma seita 
fundamentalista cristã.
Não, ele não era homossexual. Aliás, nunca fora, embora Th elma lhe 
tivesse feito muitas perguntas a esse respeito. Só nesse momento o sorriso 
de Matthew se estreitou e indícios de irritação transpareceram na sua voz 
(«Fartei-me de te dizer que também moram heterossexuais na zona de Hai-
ght, Th elma.»)
Não, ele nunca tivera nenhuma relação pessoal com outro paciente. 
Aliás, devido à sua psicose e ao que se passara com Th elma, há muitos anos 
chegara à conclusão de que os seus problemas psicológicos constituíam 
uma barreira intransponível e desistira de exercer a profi ssão de terapeuta. 
No entanto, dedicado ao serviço, passara alguns anos a trabalhar em inves-
tigação no seu ramo; depois, trabalhara num laboratório de biofeedback, e, 
mais recentemente, tornara-se gerente de uma organização de saúde cristã.
Estava eu a meditar sobre a decisão profi ssional que Matthew tomara, 
interrogando-me inclusive se a sua condição não evoluíra o sufi ciente para 
dever voltar às nossas lides, visto que talvez agora se pudesse tornar num 
terapeuta excepcional, quando reparei que o nosso tempo estava prestes a 
esgotar-se.
Indaguei se tínhamos abordado todos os assuntos previstos. Pedi a 
Th elma que fi zesse uma projecção futura e imaginasse como se sentiria 
dali a várias horas. Perguntei-lhe se achava que tinham fi cado perguntas 
por fazer.
Surpreendentemente, rompeu num pranto tão intenso que tinha 
difi culdade em respirar. Jorravam lágrimas sobre o azul do seu vestido 
novo, até que Matthew se me antecipou e lhe ofereceu uma embalagem 
de lenços. À medida que o choro amainava, as palavras de Th elma tor-
naram perceptíveis.
— Não acredito. Simplesmente não posso acreditar que o Matthew se 
preocupa mesmo com o que me possa acontecer.
Essas palavras não tinham sido dirigidas nem a Matthew, nem a mim, 
mas sim para um ponto intermédio entre nós dois no consultório. Reparei, 
com alguma satisfação, que eu não era o único com quem ela falava como 
se não estivesse presente.
Tentei ajudá-la a exprimir-se.
— Porquê? Porque é que não acredita nele?
— Ele está a dizer isso porque tem de ser. É a atitude correcta. Não me 
pode dizer outra coisa senão isso.
71 
Matthew bem se esforçou, mas a comunicação tornou-se difícil devi-
do ao choro dela.
— Fui sincero em tudo o que disse. Pensei em ti todos os dias ao longo 
destes oito anos. Preocupo-me com o que se passa contigo. Gosto muito de ti.
— Mas esse gosto... que signifi cado tem? Eu sei como funcionam as 
tuas preocupações. Preocupas-te com os pobres, com as formigas, com 
plantas e ecossistemas. Não quero ser como uma das tuas formigas!
Já passavam vinte minutos da hora marcada para o fi nal da consulta e 
tivemos de interrompê-la, embora Th elma ainda não se houvesse recom-
posto. Marquei nova sessão com ela para o dia seguinte, não só para lhe 
dar apoio, como também por me parecer melhor tornar a vê-la dentro em 
breve, enquanto os pormenores da consulta a três ainda estivessem vivos 
na memória dela.
Terminámos a hora com apertos de mão entre os três e despedimo-nos. 
Quando fui buscar café, minutos mais tarde, reparei que Th elma e Matthew 
tinham fi cado a conversar no corredor. Ele estava a tentar fazer passar uma 
mensagem, mas ela não o olhava nos olhos. Passado pouco tempo, vi-os 
afastarem-se em direcções opostas.
No dia seguinte, Th elma ainda não recuperara e mostrou-se excepcio-
nalmente instável durante a nossa sessão. Chorou muito e teve um ou outro 
acesso de raiva. Começou por lamentar o facto de Matthew ter tão má opi-
nião dela. Esmiuçara e retorcera a afi rmação dele no sentido de se «preocu-
par» com ela, a ponto de agora lhe parecer um insulto. Frisou que ele não 
mencionara nenhuma das características positivas de Th elma e estava con-
vencida de que a atitude de Matthew para consigo fora «pouco simpática».
Ainda para mais, estava convencida de que, talvez devido à minha 
presença, ele assumira uma voz e em comportamento pseudoterapêuticos 
que Th elma achara condescendentes. Alongou-se muito e o seu discurso 
foi alternando abruptamente entre a sua reconstituição da consulta a três e 
as suas reacções ao sucedido.
— Sinto-me como se me tivessem amputado. Arrancaram-me qual-
quer coisa. Apesar da ética aparentemente nobre do Matthew, creio que sou 
mais sincera do que ele, sobretudo no que respeita à descrição de qual dos 
dois seduziu o outro.
Sobre esse assunto, Th elma manteve-se enigmática e não a pressionei 
para que se explicasse melhor. Embora estivesse em pulgas por descobrir 
a «verdade» dos factos, aquela alusão que ela fi zera à «amputação» pare-
ceu-me mais intrigante ainda.
— Não voltei a ter fantasias com o Matthew — prosseguiu. — Já não 
sonho acordada, mas quero sonhar. Quero sentir o consolo de um deva-
neio qualquer. Sinto-me fria e vazia por dentro. Não me resta nada.
72 
«Como um barco à deriva, solto das amarrações», pensei, mas um 
barco senciente em busca frenética de um qualquer ancoradouro. Entre 
obsessões, Th elma encontrava-se agora num estado raro de liberdade. 
Era o momento que eu esperava. Tais estados não são duradouros: o ob-
sessivo em estado livre, tal como o oxigénio nascente, não tarda a estabe-
lecer ligações com uma ideia ou uma imagem mental. Aquele instante de 
intervalo entre obsessões era a hora da verdade no nosso trabalho, antes 
que Th elma recuperasse o equilíbrio agarrando-se a alguma coisa ou a 
alguém. Provavelmente, reconstituiria a hora que passara com Matthew 
de modo que a sua versão da realidade pudesse novamente reforçar a sua 
fantasia de fusão com ele.
Parecia-me que tínhamos feito progressos: a cirurgia estava ter-
minada e agora competia-me impedi-la de conservar o membro am-
putado e de voltar a enxertá-lo rapidamente. Passado pouco tempo tive 
a minha oportunidade, quando Th elma começou a lamentar aquilo 
que perdera.
— As minhas previsões confi rmaram-se. Perdi a esperança, nunca 
mais terei satisfação nenhuma na vida. Era capaz de conviver com um por 
cento de possibilidade. Vivi assim durante muito tempo.
— Que satisfação retirou disso, Th elma? Possibilidade de quê?
— De quê? De ter aqueles vinte e sete dias. Até ontem, sempre se man-
tivera a possibilidade de eu e o Matthew recuperarmos esse momento. Foi 
um momento que vivemos de facto, as emoções foram verdadeiras. Reco-
nheço quando estou apaixonada. Enquanto eu e o Matthew fôssemos vivos, 
teríamos sempre possibilidade de voltarmos a esse estado. Até ontem. No 
seu consultório.
Ainda lhe restavam algumas pontas de ilusão que tinham de ser cor-
tadas. Já destruíra quase totalmente a obsessão dela. Estava na hora de con-
cluir o processo.
— O que tenho para lhe dizer é pouco agradável, Th elma, mas creio 
que é importante. Deixe-me tentar exprimir claramente o que penso. 
Quando duas pessoas partilham um momento ou uma emoção, se ambas 
sentirem o mesmo, percebo que seja possível, enquanto forem vivas, recu-
perarem essa preciosa emoção partilhada. Seria um processo algo delicado, 
pois, afi nal de contas, as pessoas mudam e o amor nunca dura para sempre, 
mas, ainda assim, não seria absolutamente impossível. Poderiam comuni-
car de modo pleno e tentar desenvolver uma relação profunda e autêntica, 
que, sendo o amor autêntico um estado absoluto, deveria aproximar-se da-
quilo que tivessem partilhado antes.
«Mas imagine como seria se essa experiência nunca tivesse sido parti-
lhada! Imagine que as duas pessoas tinham vivido experiências diametral-
73 
mente diferentes. E imagine que uma delas cometia o erro de pensar quea 
sua experiência tinha sido igual à da outra?»
Th elma fi xou-me com o olhar. Tive a certeza de que me compreendia 
perfeitamente.
Prossegui:
— O que ouvi na nossa sessão com o Matthew foi precisamente isso. 
A experiência dele e a sua foram muito diferentes. Agora já percebe como 
seria impossível para ambos recriarem o estado de espírito específi co em 
que estavam na altura? Vocês os dois não se podem ajudar mutuamente 
nesse sentido porque não foi um estado partilhado.
«Ele estava numa situação e a Th elma noutra. O Matthew estava en-
tregue à psicose. Perdeu a noção dos seus limites, de onde terminava a 
identidade dele e começava a sua. Desejava que a Th elma fosse feliz porque 
julgava que os dois eram uma e a mesma pessoa. Ele não estava a viver 
uma experiência amorosa porque não sabia quem era. A sua experiência foi 
muito diferente. Não podem recriar um estado de amor romântico mútuo, 
em que se encontrem perdidamente apaixonados um pelo outro, porque 
esse estado nunca chegou a existir.»
Não creio que alguma vez tenha dito coisa mais cruel, mas, para me 
fazer ouvir, vi-me obrigado a escolher palavras tão fortes e tão cruas que 
não pudessem ser retorcidas nem votadas ao esquecimento.
Sem dúvida alguma, o meu comentário tivera impacto. Th elma dei-
xara de chorar e fi cara absolutamente quieta, a meditar sobre as minhas 
palavras. Ao fi m de vários minutos, interrompi aquele silêncio pesado:
— O que sente em relação ao que eu disse, Th elma?
— Já não sinto nada. Já não há mais nada que possa sentir. Preciso 
de arranjar maneira de aguentar o tempo de vida que me resta. Sinto-me 
entorpecida.
— A Th elma tem vivido e tem-se sentido de uma maneira específi ca 
há oito anos, e, de repente, em vinte e quatro horas, tudo isso lhe foi reti-
rado. Ao longo dos próximos dias, vai sentir-se muito desorientada. Vai-se 
sentir desnorteada. Mas temos de estar preparados para isso. De que outra 
maneira se poderia sentir?
Fiz esse comentário porque, muitas vezes, a melhor maneira de se 
prevenir uma reacção calamitosa é vaticiná-la. Outro método passa por se 
ajudar o paciente a alhear-se da sua própria situação e a assumir o papel de 
observador, portanto acrescentei:
— Nesta semana, vai ser importante comportar-se como uma observa-
dora e narradora do seu próprio estado de espírito. Gostava que, quando es-
tiver acordada, analisasse esse estado de quatro em quatro horas e que apon-
tasse as suas observações. Na semana que vem podemos rever as suas notas.
74 
No entanto, na semana seguinte, Th elma faltou pela primeira vez à 
consulta. O marido telefonou para pedir desculpa em nome dela, que não 
acordara a horas e combinámos nova sessão para dois dias mais tarde.
Quando fui cumprimentar Th elma à sala de espera, fi quei desconso-
lado com a deterioração física que lhe detectei. Voltara a vestir o seu fato 
de treino verde e era evidente que não se tinha penteado, nem feito qual-
quer outro esforço por se arranjar. Ainda para mais, pela primeira vez viera 
acompanhada do marido, Harry, homem alto, encanecido, com nariz gran-
de e abatatado, que se encontrava sentado, a apertar duas molas de mão. 
Recordei-me de Th elma me ter dito que ele ensinara técnicas de combate 
corpo a corpo na guerra. Conseguia imaginá-lo a estrangular alguém.
Achei estranho que tivessem aparecido juntos naquele dia. Apesar 
da idade que tinha, Th elma estava em boa forma física e sempre se des-
locara sozinha até ao consultório. Fiquei ainda mais curioso quando, na 
sala de espera, a ouvi dizer que Harry também queria falar comigo. Eu já 
lhe fora apresentado: na terceira, ou quarta sessão, reunira-me com ele 
e com Th elma para uma conversa de quinze minutos — essencialmente 
para apreciar como era Harry e para inteirar sobre como funcionava o 
casamento na perspectiva dele. Nunca antes pedira para se reunir comi-
go. Claramente, passava-se qualquer coisa de importante. Aceitei falar 
com ele nos últimos dez minutos da consulta de Th elma e deixei expres-
so que me reservaria o direito de lhe transmitir na totalidade o conteúdo 
da conversa que tivesse com o marido.
Ela pareceu-me desgastada. Deixou-se fi car abatida na cadeira e fa-
lou-me numa voz arrastada e suave, com um tom resignado.
— Tem sido uma semana horrível, absolutamente infernal! Suponho 
que a minha obsessão já tenha desaparecido quase completamente. Agora, 
em vez de passar noventa e cinco por cento do tempo que estou acordada 
a pensar no Matthew, passo menos de vinte por cento e mesmo esses vinte 
já não são o que eram.
«O que tenho eu feito em vez disso? Nada. Nadica de nada. Tenho 
dormido doze horas por dia. Passo o dia deitada ou sentada, a suspirar. 
Parece que toda eu sequei por dentro, já nem sou capaz de chorar. O Harry, 
que quase nunca me critica, disse-me ontem à noite, enquanto eu fi ngia que 
jantava (já que mal comi esta semana): “Estás outra vez a lamentar-te?”»
— Como é que explica o que se está a passar consigo?
— Parece que estive num espectáculo de magia, mas depois saí e o 
mundo parece-me muito cinzento.
Fiquei com pele de galinha. Nunca tinha ouvido Th elma comunicar 
metaforicamente; parecia que quem estava a falar comigo era outra pessoa.
— Fale-me mais sobre como se sente.
75 
— Sinto-me velha, muito velha. Pela primeira vez, tenho noção dos 
meus setenta anos: sete zero, sou mais velha do que noventa e nove por cen-
to das pessoas que por aí andam. Sinto-me como se fosse uma morta-viva, 
perdi o gás, não tenho nada na vida, estou num beco sem saída. Só me resta 
esperar que chegue a minha hora.
Disse essas palavras rapidamente, mas a cadência abrandou na últi-
ma frase. Então, voltou-se para mim e olhou-me fi xamente nos olhos. Esse 
gesto era, por si só, invulgar, pois raramente me tinha olhado directamente. 
Talvez esteja enganado, mas creio que aquele olhar me perguntava: «E ago-
ra, está satisfeito?» Não comentei a sua expressão.
— Tudo isso aconteceu no seguimento da nossa consulta com o Mat-
thew. O que aconteceu durante essa hora para a deixar neste estado?
— Fui tão tola por o ter protegido ao longo de oito anos!
A raiva de Th elma contribuiu para animá-la. Levantou o seu saco de 
cima dos joelhos, pousou-a no chão e atirou energicamente as palavras se-
guintes:
— O que ganhei eu com isso? Digo-lhe já: ganhei uma afronta! Se não 
tivesse guardado o segredo dele enquanto fui tratada por terapeutas ao lon-
go destes anos todos, talvez as peças de dominó tivessem caído de maneira 
diferente.
— Não compreendo. Qual foi a afronta?
— O doutor estava lá. Assistiu a tudo. Viu a insensibilidade dele. O 
Matthew não me disse olá nem adeus. Não respondeu às minhas pergun-
tas. Teria custado assim tanto? Ainda não me disse porque é que cortou 
relações comigo!
Tentei descrever-lhe como tinha visto a situação de maneira diferente 
e como, a meu ver, Matthew fora caloroso com ela e não se poupara a es-
forços para especifi car, pormenorizadamente, os motivos pelos quais tinha 
cortado relações com ela.
Mas Th elma seguiu em frente, sem dar ouvidos aos meus comentá-
rios.
— Ele só deixou explícita uma coisa: o Matthew Jennings está farto 
da Th elma Hilton. Diga-me uma coisa: qual é o método ideal para se levar 
uma antiga amante ao suicídio? Rejeitá-la subitamente, sem qualquer justi-
fi cação. Foi precisamente isso o que ele me fez!
«Num dos meus devaneios de ontem, imaginei o Matthew, há oito 
anos, a vangloriar-se e a apostar com um amigo que era capaz de usar os 
seus conhecimentos de psiquiatria para me seduzir e depois me destruir em 
vinte e sete dias!»
Debruçou-se, abriu o saco e tirou um recorte de jornal com a notícia 
de um homicídio. Esperou alguns minutos enquanto eu lia a peça. Subli-
76 
nhara a lápis vermelho um parágrafo onde se lia que os suicídios são, na 
realidade, duplos homicídios.
— Encontrei isso no jornal do domingo passado. Será que isso se terá 
aplicado a mim? Quando tentei suicidar-me, talvez a minha intenção, afi -
nal, tenha sido matar o Matthew. Fazsentido, não acha? Sinto isso bem aqui 
no fundo... — apontou para o coração. — Nunca tinha pensado na situação 
desse ponto de vista!
Esforcei-me por manter o equilíbrio. Naturalmente, a depressão dela 
preocupava-me. Dito isso, era natural que estivesse desesperada. Como 
haveria de estar? Só o mais profundo desespero poderia ter gerado uma 
ilusão com força e tenacidade sufi cientes para ter aguentado oito anos. Se 
eu erradicasse a ilusão, tinha de estar preparado para enfrentar o desespero 
que esta escondia. Assim sendo, por maior que fosse a angústia de Th el-
ma, tratava-se de um bom sinal, confi rmação de que estávamos no bom 
caminho. Estava tudo a correr bem. Finalmente, os preparativos estavam 
concluídos e podíamos começar a verdadeira terapia.
Aliás, já tínhamos começado! A explosão surpreendente de Th el-
ma, o seu acesso súbito de raiva em relação a Matthew, era sinal de que 
as suas antigas defesas já não se estavam a aguentar. Encontrava-se num 
estado fl uido. Todos os pacientes com obsessões profundas têm raiva no 
fundo do seu ser e não fui apanhado desprevenido pela manifestação 
dessa fúria em Th elma. Bem feitas as contas, pareceu-me que a raiva 
dela, apesar dos seus componentes irracionais, era um excelente desen-
volvimento.
Estava de tal modo preocupado com esses pensamentos e com planos 
para o nosso trabalho futuro, que não ouvi a primeira parte do comentário 
que Th elma fez a seguir, mas apanhei o fi nal da frase com toda a nitidez:
— ... e é por isso que tenho de interromper a terapia!
Apressei-me a replicar:
— Como é que pode sequer admitir essa hipótese, Th elma? Esta é a 
pior altura possível para interromper o tratamento. É altura para fazermos 
progressos a sério.
— Já não quero continuar a terapia. Já sou paciente há vinte anos e 
estou farta de ser tratada nessa qualidade. O Matthew tratou-me como pa-
ciente e não amiga. O doutor trata-me como paciente. Eu quero ser uma 
pessoa igual às outras.
Já não me recordo da sequência das minhas palavras. Sei apenas que 
joguei todos os meus trunfos e exerci toda a pressão possível sobre ela para 
que repensasse. Relembrei-a do nosso compromisso para seis meses, dos 
quais restavam cinco semanas.
Contrapôs:
77 
— Tem de admitir que, a dada altura, temos de nos proteger. Mais 
um pouco deste “tratamento” seria insuportável para mim. — Acrescentou, 
com um sorriso algo sinistro: — Um pouco mais de tratamento ainda mata 
a paciente.
Todos os meus argumentos tiveram o mesmo resultado. Insisti que 
tínhamos feito progressos consideráveis. Relembrei-a de que, originalmen-
te, me abordara para livrar o seu espírito daquilo que a preocupava e que 
tínhamos dado passos importantes a caminho desse objectivo. Chegara a 
altura em que nos poderíamos dedicar à sensação subjacente de vazio e de 
futilidade que tinha alimentado a obsessão dela.
Respondeu que, efectivamente, sofrera demasiadas perdas, mais per-
das do que aquelas que era capaz de suportar. Perdera a esperança no futuro 
(referindo-se à perda do «um por cento de possibilidade» que tinha de se 
reconciliar com ele); perdera os melhores vinte e sete dias da sua vida (se, 
como eu demonstrara, essa experiência não fora “autêntica”, perdera o am-
paro daquela memória do ponto alto da sua vida), e perdera também oito 
anos de sacrifício (se, na realidade, estivera a proteger uma ilusão, o seu 
sacrifício não tivera qualquer signifi cado).
As palavras de Th elma tiveram tal impacto que não encontrei ne-
nhum modo efi caz de contrariá-las, restando-me reconhecer o que ela per-
dera, afi rmar que era natural que chorasse muito essas perdas e que queria 
apoiá-la durante esse luto. Tentei, também, sublinhar que o remorso era um 
sentimento extraordinariamente difícil de se suportar a partir do momento 
em que se instalava, mas que tínhamos vários recursos para impedirmos 
que outros remorsos se entranhassem. A título de exemplo, pedi-lhe que 
pensasse na decisão que estava a tomar: dali a um mês, ou um ano, não se 
arrependeria, profundamente, de ter decidido interromper o tratamento?
Th elma replicou que, embora admitisse que eu talvez tivesse razão, 
prometera a si própria que ia interromper a terapia. Comparou a nossa ses-
são a três com uma consulta médica quando se suspeita ter cancro.
— Fica-se num estado muito turbulento, o medo é tanto que adi-
ámos uma e outra vez aquela consulta. O médico confi rma que temos 
cancro e toda a agitação provocada pela incerteza acaba, mas o que sobra 
depois disso?
Ao refl ectir sobre o que sentia a respeito da situação, percebi que uma 
das primeiras reacções que me chamaram a atenção foi: «Como é que me 
pode fazer isto?» Embora, com certeza, a minha indignação se devesse par-
cialmente à minha própria frustração, estava seguro de que era também 
uma reacção àquilo que Th elma sentia a respeito da minha pessoa. Fora 
eu o responsável pelas três perdas que referira. Fora minha a ideia de mar-
carmos um encontro a três, fora eu quem lhe tirara as ilusões, quem a de-
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siludira. Ocorreu-me que me competia um trabalho ingrato. Até a palavra 
desilusão, com a sua conotação negativa e niilista, me deveria ter servido de 
aviso. Pus-me a pensar na peça Th e Iceman Cometh, de O’Neill, e na sina 
de Hickey, o homem de todas as verdades. Aqueles a quem tenta devolver 
a noção da realidade acabam por se revoltar e por reentrar numa vida de 
ilusões.
Recordei-me de ter descoberto, semanas antes, que Th elma sabia 
como castigar e não precisava da minha ajuda nesse sentido. Julgo que a sua 
tentativa de suicídio foi, realmente, uma tentativa de homicídio e concluí 
que a sua decisão de interromper a terapia também foi uma forma de duplo 
homicídio. Ela considerava que a interrupção do processo era um ataque à 
minha pessoa... e tinha razão! Percebera a importância fulcral que eu dava 
ao sucesso, à satisfação da minha curiosidade intelectual, à conclusão de 
todos os projectos a que dava início.
Vingou-se de mim frustrando cada um desses desejos. Pouco lhe im-
portava que o cataclismo que desejava para mim também a abrangesse: 
aliás, as suas tendências sadomasoquistas eram de tal modo vincadas que 
se sentia seduzida pela ideia de uma imolação conjunta. Reparei, perversa-
mente, que o meu recurso à gíria profi ssional dos diagnósticos implicava 
que me encontrava muito zangado com ela.
Tentei explorar essas ideias com Th elma.
— Compreendo a raiva que tem ao Matthew, mas pergunto-me se não 
estará também zangada comigo. Faria muito sentido se estivesse zangada, 
aliás, muito zangada comigo. Afi nal de contas, de certo modo, deve sentir 
que fui eu quem a pôs na situação espinhosa em que está agora. Quem teve 
a ideia de convidar o Matthew a vir cá fui eu, também fui eu quem sugeriu 
que lhe fi zesse as perguntas que fez.
Pareceu-me que a vi acenar com a cabeça.
— Assim sendo, Th elma, haverá melhor circunstância para resolver 
esse assunto do que aqui e agora, em terapia?
Th elma fez que sim com mais convicção.
— A minha cabeça diz-me que o doutor tem razão, mas, às vezes, o 
que tem de ser tem muita força. Jurei a mim mesma que ia deixar de ser 
paciente e vou cumprir a promessa.
Desisti. Esbarrara num muro. A nossa hora de consulta já terminara 
há muito tempo e eu ainda não falara com Harry, a quem prometera dez 
minutos de conversa. Antes de nos termos despedido, arranquei alguns 
compromissos a Th elma: aceitou ponderar melhor sobre a sua decisão e 
voltar a reunir-se comigo dali a três semanas, e jurou honrar o seu com-
promisso no sentido de participar no projecto de investigação, marcando 
encontro comigo e com o investigador para dali a seis meses, altura em 
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que preencheria uma série de questionários. Terminei a consulta com a im-
pressão de que, embora fosse possível que ela respeitasse o compromisso 
associado ao projecto de investigação, era pouco provável que retomasse a 
terapia.
Com a sua vitória pírrica garantida, podia dar-se ao luxo de ser gene-
rosa e, à saída do meu consultório,agradeceu-me pelo esforço e afi rmou 
que, se algum dia voltasse a procurar tratamento, eu seria a sua primeira 
opção como terapeuta.
Acompanhei Th elma até à sala de espera e levei Harry para dentro do 
consultório. Tratava-se de um homem brusco e directo.
— Sei o que custa manter a casa em ordem, doutor... Fui responsável 
por fazer isso no exército durante trinta anos e já vi que está atrasado. Isso 
implica que vai continuar atrasado todo o dia, não é verdade?
Assenti com um aceno, mas assegurei-o de que tinha tempo para falar 
com ele.
— Bem, não me quero alongar. Não sou como a Th elma. Nunca me 
ponho com rodeios. Vou direito ao assunto. Devolva-me a minha esposa, 
doutor, a Th elma de antigamente, como era dantes.
A voz de Harry pareceu-me mais suplicante do que ameaçadora. Ain-
da assim, tinha toda a minha atenção e, enquanto ele falava, não pude dei-
xar de olhar para as suas manápulas de estrangulador. De seguida, deixan-
do transparecer censura na voz, descreveu o modo como Th elma piorara 
gradualmente desde que começara a ser acompanhada por mim. Depois 
de ouvir o que ele tinha para me contar, tentei consolá-lo, declarando que 
uma depressão prolongada é quase tão difícil para a família quanto é para 
o paciente. Ignorando a minha manobra, respondeu que Th elma sempre 
fora uma boa esposa e que talvez ele tivesse agravado o problema por nunca 
estar em casa e viajar muito. Por fi m, quando o informei da decisão de Th el-
ma no sentido de interromper a terapia, mostrou-se aliviado e satisfeito: há 
várias semanas que tentava empurrá-la nessa direcção.
Quando Harry saiu do meu consultório, deixei-me fi car sentado, can-
sado, desnorteado, zangado. Credo, que casal! «Deus me livre deles!» A 
ironia de toda a situação... O velho tolo queria de volta a sua «Th elma de 
antigamente». Teria andado tão “ausente” que nem se apercebera de que 
nunca tivera a Th elma de antigamente? A Th elma de antigamente nunca 
estava em casa: ao longo dos últimos oito anos da sua vida, passara noventa 
por cento da vida entregue à fantasia de um amor que nunca existira. Harry, 
tal como ela, optara por se agarrar à ilusão. Cervantes perguntou: «O que é 
preferível: a sensatez da loucura ou o desvairo da sanidade?» A escolha feita 
por Harry e Th elma era evidente!
Todavia, não me consolou apontar o dedo a Th elma e a Harry, nem 
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lamentar a fragilidade da alma humana: o espírito fraco que não sobrevi-
ve sem a ilusão nem o encanto, sem as falsas esperanças nem as mentiras 
fundamentais. Estava na hora de encarar a realidade dos factos: estragara 
o caso de modo inconcebível e não podia imputar responsabilidades à pa-
ciente, ao marido dela, nem à condição humana.
Os dias seguintes foram repletos de auto-recriminação e preocupação 
com Th elma. Inicialmente preocupado com possíveis tentativas de suicí-
dio, acabei por me acalmar com a ideia de que a raiva dela era tão paten-
te e direccionada para o exterior que se tornava improvável que voltasse a 
canalizá-la contra si própria.
Para combater a minha auto-recriminação, tentei convencer-me de 
que adoptara a estratégia terapêutica indicada: Th elma estava in extremis 
quando me consultara e era preciso fazer alguma coisa. Embora estivesse 
mal agora, não estava pior do que quando começara a terapia. Talvez até 
estivesse melhor, talvez eu tivesse conseguido tirar-lhe as ilusões e ela preci-
sasse agora algum tempo para lamber as feridas em paz e sossego antes de 
avançar para outro modelo terapêutico. Durante quatro meses, eu tentara 
empregar uma abordagem mais conservadora e só recorrera a intervenção 
radical quando se tornara evidente que não havia alternativa.
Contudo, também esses raciocínios eram uma variedade de auto-ilu-
são. Eu sabia que tinha toda a razão para me sentir culpado. Mais uma vez, 
fora vítima da convicção arrogante na minha capacidade para tratar qual-
quer pessoa. À boleia dessa arrogância e da minha curiosidade, desprezara 
logo à partida vinte anos de provas no sentido de Th elma ser má candidata 
a acompanhamento psicoterapêutico e sujeitara-a a um confronto doloroso 
que, retrospectivamente, tinha poucas hipóteses de ser bem sucedido. Der-
rubara as defesas dela sem erigir nada que as substituísse.
Talvez Th elma tivesse razão em proteger-se de mim. Talvez tivesse ra-
zão para dizer: «Um pouco mais de tratamento ainda mata a paciente!» No 
fundo, eu merecia as críticas de Th elma e de Harry. Além disso, passara por 
uma vergonha em termos profi ssionais. Quando descrevera a psicoterapia 
dela numa conferência académica semanas antes, despertara interesse con-
siderável no caso. Agora, até me arrepiava perante a perspectiva de colegas 
e estudantes me virem a pedir ao longo das semanas seguintes: «Conte-nos 
como foi. Como correu o tratamento?»
Tal como eu esperava, Th elma não apareceu para a consulta seguinte, 
marcada para dali a três semanas. Telefonei-lhe e tivemos uma conversa 
curta, mas espantosa. Embora tenha reafi rmado terminantemente a sua in-
tenção de abandonar o universo dos pacientes, detectei menos rancor na 
voz dela. Não só me informou espontaneamente de que perdera a fé na 
terapia, como disso que já não lhe fazia falta: sentia-se muito melhor, bem 
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melhor do que três semanas antes! Disse-me, como quem não quer a coisa, 
que o facto de ter visto Matthew na véspera a ajudara imenso!
— Diga! O Matthew? Como é que isso aconteceu? — perguntei-lhe.
— Oh, fomos tomar café e tivemos uma conversa agradável. Combi-
námos reunir-nos para conversamos todos os meses.
Num frenesi de curiosidade, interroguei-a a fundo. Começou por me 
responder em tom de provocação («disse-lhe desde o início que era disso 
que precisava»). Depois, simplesmente deixou expresso que eu já não tinha 
direito a fazer-lhe perguntas pessoais. Acabei por chegar à conclusão de que 
não lhe arrancaria mais nada e despedimo-nos pela última vez. Cumpri o 
ritual de a informar de que continuaria disponível para fazer terapia com ela, 
caso mudasse de ideias. No entanto, pelos vistos nunca mais teve vontade de 
se sujeitar à minha modalidade de tratamento e não voltei a ter notícias dela.
Seis meses mais tarde, a equipa de investigação entrevistou Th elma e 
tornou a submetê-la à série de exames psicológicos. Quando emitiram o 
relatório fi nal, folheei-o rapidamente até chegar às conclusões respeitantes 
ao caso de Th elma Hilton:
R
esumindo, T. H. é uma mulher casada, caucasiana de 70 anos, que, na 
sequência de cinco meses de terapia com consultas semanais, conhe-
ceu melhorias signifi cativas. Aliás, dos vinte e oito sujeitos geriátricos que 
participaram neste estudo, foi quem obteve resultados mais positivos.
Mostra-se signifi cativamente menos deprimida. As suas tendências 
suicidas, extremamente elevadas no início do processo, reduziram-se a 
ponto de já não poder ser considerada um caso de risco. A sua auto-estima 
aumentou a par de melhorias signifi cativas em vários outros aspectos: an-
siedade, hipocondria, psicose e obsessão.
A equipa de investigação não determinou precisamente a natureza da 
terapia que produziu estes resultados impressionantes, visto que a paciente 
mantém secretismo incompreensível acerca dos pormenores do processo. 
Parece que o terapeuta aplicou com êxito um plano de tratamento pragmá-
tico orientado de acordo com os sintomas, concentrado no alívio dos mes-
mos, em vez de se focar na introspecção profunda ou na modifi cação da 
personalidade. Para mais, empregou com êxito uma abordagem sistemática 
e introduziu no processo terapêutico o marido da paciente e um amigo de 
longa data (de quem se encontrava afastada há muito tempo).
Palavras que me deixaram com a cabeça à roda! Contudo, pouco me 
consolaram.

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