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DESCRIÇÃO Abordagem dos principais conceitos envolvidos na análise dos exames laboratoriais relativos à função renal, dos distúrbios hidroeletrolíticos e do equilíbrio acidobásico. PROPÓSITO Compreender os conceitos teóricos para realização e interpretação dos exames bioquímicos que avaliam a função renal, os distúrbios hidroeletrolíticos e distúrbios que afetam o equilíbrio acidobásico é importante para auxiliar o diagnóstico das principais patologias que envolvem o sistema renal e os distúrbios no metabolismo. PREPARAÇÃO Tenha em mãos uma calculadora, papel e caneta para realizar alguns cálculos necessários durante a análise da função renal. Sugerimos ainda o Dicionário Médico gratuito offline Edição: para estudantes de medicina e profissionais e o Glossário Médico elaborado pelo Laboratório de Habilidades e Simulação da USP, ambos disponíveis gratuitamente na web. OBJETIVOS MÓDULO 1 Descrever os principais exames para avaliação laboratorial da função renal MÓDULO 2 Reconhecer os principais distúrbios hidroeletrolíticos MÓDULO 3 Descrever os principais distúrbios do equilíbrio acidobásico INTRODUÇÃO Os rins são órgãos essenciais ao organismo, pois estão envolvidos na manutenção do equilíbrio acidobásico, hidroeletrolítico e da homeostasia interna. A maior parte das patologias que atingem esses órgãos comprometem não só a função renal, mas também atingem diretamente ou indiretamente todos os órgãos do organismo. A avaliação da função renal possibilita o diagnóstico precoce das doenças renais, como a insuficiência renal aguda ou crônica. Nesse contexto, a participação do laboratório é de grande importância, visto que essas doenças só se manifestam clinicamente quando mais de 50% a 75% da função renal está comprometida, ou seja, quando o paciente já evolui para um quadro grave que pode resultar na hemodiálise ou então transplante renal. Ao longo deste conteúdo, conheceremos os principais biomarcadores utilizados na avaliação da função renal. Veremos ainda os principais distúrbios hidroeletrolíticos e do equilíbrio acidobásico que são frequentes no cotidiano de médicos, farmacêuticos, biomédicos, biólogos e demais profissionais da saúde responsáveis pelo manejo de pacientes internados com distúrbios no metabolismo da água, ureia, glicose, sódio entre outros. AVISO: Orientações sobre unidades de medida. AVISO Em nosso material, unidades de medida e números são escritos juntos (ex.: 25km) por questões de tecnologia e didáticas. No entanto, o Inmetro estabelece que deve existir um espaço entre o número e a unidade (ex.: 25 km). Logo, os relatórios técnicos e demais materiais escritos por você devem seguir o padrão internacional de separação dos números e das unidades. MÓDULO 1 Descrever os principais exames para avaliação laboratorial da função renal INTRODUÇÃO À FUNÇÃO RENAL Anatomicamente, os rins são órgãos pares que possuem formato de grãos de feijão, medindo aproximadamente 6cm de largura, 11cm de comprimento e 3cm de espessura e pesando cerca de 130g no ser humano adulto sadio. Eles estão localizados junto à parede posterior do abdome, logo abaixo do diafragma, no espaço retroperitoneal, sendo o rim direito um pouco inferior ao rim esquerdo. javascript:void(0) Imagem: Shutterstock.com Posição anatômica dos rins. Tais órgãos possuem dois lados (um convexo e outro medial côncavo). No lado côncavo, chamado de hilo renal, se reúnem os vasos sanguíneos e linfáticos. Macroscopicamente, o rim se divide em duas seções: CÓRTEX RENAL Parte externa do rim, onde estão localizados os glomérulos e túbulos contorcidos (distais e proximais). MEDULA Parte mais interna do rim, constituída pelas alças de Henle e pirâmides de Malpighi. Imagem: Shutterstock.com Esquema mostrando as divisões macroscópicas do rim. Os rins possuem múltiplas funções homeostáticas essenciais ao organismo, são elas: Imagem: Shutterstock.com Remoção de resíduos (como os produtos do metabolismo de proteínas e ácidos nucleicos). javascript:void(0) javascript:void(0) Imagem: Shutterstock.com Manutenção do equilíbrio de eletrólitos (Na + (Sódio) , K + (Potássio) , Cl - (Cloreto) , Ca 2+ (Cálcio) , Mg 2+ (Magnésio) , SO4 2- (Sulfato) , PO4 2- (Fosfato) ). Imagem: Shutterstock.com Manutenção do equilíbrio acidobásico (manutenção do pH sanguíneo). Imagem: Shutterstock.com Regulação da pressão arterial. Imagem: Shutterstock.com Função endócrina importante com a produção de hormônios ou substâncias vasoativas que atuam regulando diferentes funções no organismo, como a eritropoietina, que estimula a medula óssea a produzir hemoglobina. Imagem: Shutterstock.com Convertem a vitamina D na sua forma ativa, aumentando a absorção intestinal de cálcio. Além dessas funções, os rins ainda convertem a vitamina D na sua forma ativa, aumentando a absorção intestinal de cálcio. SAIBA MAIS A função renal endócrina fica intacta até os estágios mais avançados da doença renal. Assim, um paciente que faz hemodiálise não necessariamente precisa de reposição farmacológica de eritropoietina. NÉFRON O néfron é a unidade funcional do rim composto por um glomérulo (vários capilares sanguíneos recobertos por células epiteliais) e um complexo sistema tubular que desempenham a maioria das funções renais. Você sabia que cada rim apresenta mais de 2 milhões de néfrons? Na imagem a seguir, note o néfron e os vasos sanguíneos renais. Imagem: Shutterstock.com Corte transversal do rim. Agora veja a seguir como é a estrutura e a função dos néfrons. 1 O glomérulo é envolvido por uma cápsula impermeável denominada cápsula de Bowman e apresenta um polo vascular, que é o local por onde chegam os vasos sanguíneos provenientes da artéria renal; e um polo urinário, onde iniciará a excreção renal. O glomérulo filtra grande quantidade de líquido proveniente do sangue que flui para dentro da cápsula de Bowman e deste para o sistema tubular, que converterá esse líquido em urina. Após sair da cápsula de Bowman, o líquido filtrado atinge o túbulo contorcido proximal. Esse túbulo é constituído por células que possuem microvilosidades chamadas de borda em escova, projetadas para aumentar a superfície de contato com o filtrado glomerular com abundantes mitocôndrias longas e finas, revestindo o polo basal da célula, e numerosas vesículas envolvidas no transporte transcelular. O túbulo contorcido proximal é circundado por redes de capilares peritubulares que envolvem os túbulos renais e são essenciais para as etapas de excreção. 2 3 Posteriormente, o líquido deixa o córtex renal e penetra na medula renal, fluindo para a alça de Henle, que, por sua vez, possui um ramo descendente apresentando células menores, com pequeno número de mitocôndrias e microvilosidades curtas, onde não há absorção de íons e água. Contudo, apresenta em seu ramo ascendente células com mais microvilosidades e abundantes mitocôndrias com dobras extensas na membrana basolateral, permitindo o processo de reabsorção de grandes quantidades de íons e água. Na parte final do néfron encontramos o túbulo contorcido distal e o túbulo coletor. O túbulo contorcido distal possui células similares ao ramo ascendente da alça de Henle e consequentemente um potencial de absorção parecido. Já o túbulo coletor é responsável pelo ajuste final da urina. 4 Como percebemos o néfron é composto pelo corpúsculo renal (glomérulo e cápsula de Bowman) e pelos túbulos renais (túbulo proximal, alça de Henle, túbulo distal e o coletor). Observe com mais detalhe na imagem a seguir. Imagem: Shutterstock.com, adaptada por Américo Jr. Néfron: corpúsculo renal e túbulos renais. Os néfrons podem ser classificados em: CORTICAIS Estão localizados nas regiões mais centrais do córtex e apresentam a alça de Henle mais curta. JUSTAMEDULARES Estão mais próximos da medula e apresentam um glomérulo e a alça de Henle maiores. Na figura a seguir, conseguimos ver essas diferenças: Imagem: Integrativa UFAM/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0 Néfrons corticais e justamedulares. FISIOLOGIA RENAL A formação da urina depende: Imagem: Shutterstock.com javascript:void(0) javascript:void(0) Do fluxo sanguíneo renal Imagem: Shutterstock.com Da filtração glomerular Imagem: Shutterstock.com Da reabsorção tubular Imagem: Shutterstock.com Da concentração renal Imagem: Shutterstock.com Da secreção tubular Na figura a seguir conseguimos observar as etapas da excreção urinária: Imagem: Madhero88/Wikimedia Commons/CC BY 3.0 Excreção urinária. FISIOLOGIA RENAL: ETAPAS PARA A FORMAÇÃO DA URINA. A especialista Jéssica Ribeiro Lima relembra sobre a fisiologia renal e a formação da urina, que são essenciais para a compreensão da avaliação da função renal. Após revermos tais conceitos, podemos agora estudar como é feita a avaliação da função renal nos laboratórios clínicos. AVALIAÇÃO LABORATORIAL DA FUNÇÃO RENAL A apresentação clínico-laboratorial das doenças renais depende do local e da extensão da lesão: uma quantidade elevada de proteínas na urina indica lesão glomerular, pois, como você sabe, o filtrado glomerular é o ultrafiltrado do plasma sem as células e as proteínas plasmáticas. Imagem: Shutterstock.com Qualquer lesão renal pode apresentar uma manifestação aguda ou crônica e os exames de imagens (vias urinárias e rins) são grandes aliados médicos para confirmar a presença de uma lesão renal. Para facilitar seu entendimento, faremos a avaliação da função renal em duas etapas: avaliação da função glomerular e avaliação da função tubular. Vamos conhecê-las? AVALIAÇÃO DA FUNÇÃO GLOMERULAR A função glomerular depende do fluxo sanguíneo renal e da pressão sanguínea no glomérulo. Assim, podemos imaginar que toda vez que tivermos uma lesão glomerular ou uma diminuição do suprimento sanguíneo nesse órgão, teremos um comprometimento da formação desse ultrafiltrado, com retenção plasmática de produtos de excreção do metabolismo celular, comprometimento do equilíbrio osmolar e perda de substâncias pela urina e de eletrólitos. Uma lesão glomerular, como ocorre na nefropatia diabética, pode levar à presença de proteínas, como a albumina, em altas concentrações na urina. Na imagem ao lado apresenta-se o esquema comparando um glomérulo normal e outro com lesão glomerular que leva à presença de proteínas na urina. Imagem: Shutterstock.com O teste de filtração glomerular (FG) tem como objetivo avaliar a capacidade de filtração de uma substância a partir do método de depuração (ou clearance). A depuração (FG) é calculada por uma fórmula matemática que relaciona a quantidade excretada da concentração urinária (u) de uma substância multiplicada pelo volume (v) urinário em determinado espaço de tempo (minutos) dividido pela concentração plasmática da mesma substância (P). javascript:void(0) DEPURAÇÃO Capacidade do rim de eliminar uma substância originada do metabolismo. Atenção! Para visualização completa da equação utilize a rolagem horizontal Como a velocidade de filtração glomerular depende da massa corpórea e do tamanho do rim, essa relação matemática pode ser corrigida pela superfície corporal do adulto médio, considerando um fator 1,73/A, em que 1,73 corresponde à altura média de um indivíduo adulto e A é a superfície corporal do paciente avaliado. Atenção! Para visualização completa da equação utilize a rolagem horizontal É importante ressaltar que idosos, crianças e mulheres normalmente apresentam FG menor do que um homem adulto. Além disso, ocorre variações também em relação a etnia. Normalmente, essa avaliação é feita a partir da dosagem de creatinina urinária e sérica, mas também pode ser feita pela dosagem de inulina. No entanto, esse procedimento não é muito preciso e é feito coletando amostras de urina durante 24 horas, o que o torna inconveniente para os pacientes. INULINA Polímero de frutose é considerado o padrão-ouro para a medida da taxa de função glomerular (TFG), mas é um marcador exógeno de difícil obtenção para infusão humana. Assim, essa dosagem tem sido substituída pelas equações que estimam a taxa de função glomerular (TFG) baseadas em dados demográficos (peso, sexo, etnia e altura) e a dosagem de um biomarcador, normalmente a creatinina, no plasma. Vamos aprender a calcular a TFG no próximo tópico, mas agora é importante que você saiba que, a partir dessa estimativa, o médico pode ter uma noção da função renal e avaliar o estágio da doença renal. No quadro a seguir podemos ver esta classificação, segundo a National Kidney Foundation: ESTADIAMENTO Estadiamento é a forma de determinar o avanço de uma doença no organismo de um paciente. Muito utilizado no câncer para avaliar a extensão e localização da neoplasia. FG = U x V P FG corrigida = U x V P x 1,73/A javascript:void(0) Estágio TFG (mL/min/1,73m 2 ) Estadiamento G1 ≥90 Normal ou alta G2 60-89 Pequena diminuição G3a 45-59 Pequena a moderada diminuição G3b 30-44 Moderada a grave diminuição G4 15-29 Grave diminuição G5fisiologicamente a filtração glomerular diminui com o aumento da idade, igualmente, com a massa muscular e a utilização de alguns medicamentos. Além disso, ela também muda em relação ao sexo e à etnia. Então, fique atento no momento de avaliar o paciente na fase pré-analítica, pois esses dados serão importantes para a interpretação do resultado! CREATININA SÉRICA A dosagem da creatinina sérica (sanguínea) isolada é utilizada para avaliação da função renal, sendo o aumento da sua concentração plasmática um forte indicativo de falência renal. Uma das vantagens da avaliação da creatinina sérica para estimativa da TFG é a sua disponibilidade mundial e baixo custo. Além disso, permite a avaliação da depuração renal sem a necessidade da coleta da urina de 24 horas. VALORES DE REFERÊNCIA Creatina Sérica: Como já dito, a partir da dosagem de creatinina sérica, podemos estimar a TFG com base em fórmulas, como: Foto: Shutterstock.com Cockcroft-Gault (C-G): Aplicada em adultos a partir dos 18 anos. É considerada, ainda, a fórmula mais indicada para o ajuste de doses de fármacos em pacientes com insuficiência renal. A estimativa por essa fórmula tende a conferir resultados errôneos em pacientes obesos e edemaciados, pois como veremos utiliza o peso do paciente. Assim, contabiliza também o tecido adiposo, que não produz creatinina. Foto: Shutterstock.com MDRD: Não utilizada em crianças, mulheres grávidas e idosos (acima de 85 anos). É calculada levando em consideração a etnia (apenas caucasianos e afro-caribenhos), idade, sexo e creatinina sérica. Homem: 0,6 a 1,2mg/dL Mulher: 0,5 a 1,1mg/dL Criança: 0,3 a 0,7mg/dL Foto: Shutterstock.com CKD-EPI: Segundo a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica é a melhor para avaliação da TGF em adultos maiores de 18 anos. É calculada levando em consideração a etnia, sexo e a dosagem de creatinina sérica. Foto: Shutterstock.com Schwartz: Aplicável em recém-nascidos, crianças e adolescentes. Leva em consideração creatinina, sexo e altura. Dentre as mais usadas está a fórmula de Cockcroft & Gault, que calcula o Clearance de creatinina, usando como parâmetros o sexo, a idade (anos), creatinina plasmática (mg/dL) e o peso (kg) a partir da relação: Atenção! Para visualização completa da equação utilize a rolagem horizontal VAMOS PRATICAR? TEORIA NA PRÁTICA Paciente J. P. V, 81 anos, 78 kg, internado em unidade hospitalar com quadro de pneumonia bacteriana, apresentando resultado de creatinina sérica de 2,0 mg/dL e ureia de 43 mg/dL. Utilizando a fórmula Cockcroft & Gault, calcule o Clearance de creatinina: RESOLUÇÃO Clearance de creatinina para homens ( )= mL min ( 140−idade ) x kg (70 x creatinina) Clearance de creatinina para mulheres ( )= mL min ( 140−idade ) x kg (0,85 x creatinina) Com os dados aplicaremos a equação correspondente ao sexo e descobriremos o Clearance de creatinina do paciente: Clearance de creatinina para homens ( )= mL min ( 140−81 ) x 78 (70 x 2) Clcr = 32,87 mL/min. Segundo a National Kidney Foundation, o resultado do Clearance de 32,87 mL/min indica que esse indivíduo está no estágio G3b, ou seja, com uma diminuição e comprometimento moderado a grave da função renal. UREIA A ureia é formada pelo fígado como produto final do metabolismo e digestão de proteínas. No fígado, as proteínas são quebradas em aminoácidos e esses em amônia livre. A amônia é tóxica ao organismo e, por isso, é metabolizada no ciclo da ornitina formando a ureia. A ureia, por sua vez, é transportada pelo sangue até os rins, onde é excretada, mas também é eliminada pelos fluidos corporais, como sangue e saliva. Imagem: shutterstock.com ALTA CONCENTRAÇÃO SÉRICA DE UREIA Pode significar a necessidade de diálise (metabólito de referência para hemodiálise), além de outros possíveis fatores como depleção de água e destruição do trato gastrointestinal. Imagem: shutterstock.com BAIXA CONCENTRAÇÃO SÉRICA DE UREIA Pode estar associada à gravidez, desnutrição, dieta inadequada de proteínas ou ao abuso de álcool. Como a ureia é produzida no fígado, você pode imaginar que em pacientes com disfunção hepática grave a ureia não é produzida, o que gera baixas concentrações plasmáticas. Logo, a dosagem de ureia para esses pacientes não deve ser o método de escolha para avaliação da função renal isoladamente. No entanto, pacientes com disfunção renal apresentam alta concentração plasmática de ureia, pois não conseguem excretar essa substância. Ademais, a concentração sérica da ureia sofre variações decorrentes da ingestão proteica, sangramento no trato gastrointestinal, uso de corticosteroides e volemia. VALORES DE REFERÊNCIA Ureia Sérica: ATENÇÃO A ureia e a creatinina sérica são os biomarcadores mais frequentemente usados para monitoramento da função renal. Suas medições concomitantes auxiliam no diagnóstico diferencial de hiperuremia (Aumento da concentração de ureia.) pré-renal, renal e pós-renal. Quando a uremia é pré-renal, a ureia eleva sua concentração mais que a creatinina, pois, em situações como desidratação e hipovolemia, o rim reabsorve mais ureia na tentativa de aumentar a retenção hídrica. Se a relação entre as concentrações plasmáticas da ureia/creatinina for maior que 40, indica uma uremia pré-renal. No quadro a seguir vemos como é a relação ureia/creatinina plasmática em algumas condições patológicas: Tipo de Uremia Relação ureia/creatinina Condição patológica Uremia pré- renal > 42 Metabolismo excessivo das proteínas, perfusão glomerular reduzida (desidratação, choque hipovolêmico, insuficiência cardíaca congestiva), reabsorção de proteínas após hemorragia gastrointestinal. Uremia renal Entre 20 - 41 Rim saudável. Uremia pós- renal Entre 20 - 41 Obstrução renal por nefrolitíase ou por hipertrofia (ex.: tumor da próstata). Outras situações de proteína de Tamm-Horsfall, também chamada de uromodulina (proteína mais abundante excretada na urina). Imagem: Shutterstock.com Proteína de Uromodulina. DICA Lembre-se de que proteínas de baixo peso molecular são normalmente filtradas e reabsorvidas no túbulo proximal. No entanto, a proteinúria também pode estar relacionada a lesões tubulares. Encontramos alterações na excreção de proteínas em estados patológicos como: Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES); neoplasias; infecções bacterianas, fúngicas e virais; diabetes mellitus ; uso de medicamentos; mieloma múltiplo; e reações de hipersensibilidade. Também em estados fisiológicos, como gravidez, após exercícios extenuantes, dietas ricas em proteínas, em crianças e adolescentes e até modificações de acordo com a posição ortostática “de pé”. Além disso, podemos encontrar a proteinúria em duas principais síndromes: Síndrome nefrótica Caracterizada pela perda de proteínas pela urina que apresentem valores superiores a 3 g em 24 horas, ou seja, perda de proteína maciça, hipoalbuminemia e edema generalizado. Síndrome nefrítica Caracterizada pelo encontro de graus variáveis de proteinúria com a presença de hematúria (destruição de hemácias, principalmente disformes) e cilindros hemáticos no exame microscópico do sedimento urinário. SAIBA MAIS A dosagem de albumina na urina é um marcador precoce de lesão renal e um sinal de nefropatia. Caso seja persistente, prediz a cronificação da doença. Uma das aplicações mais importantes desse exame é a pesquisa de doença renal em pacientes com diabetes mellitus , visto que a maioria dos pacientes desenvolve nefropatia com perda urinaria progressiva de albumina e redução da depuração da creatinina. Esse exame pode ser realizado com urina de 24 horas ou amostra isolada. A concentração, na urina, de valores superiores de albumina de 30mg/24 horas é indicativo de lesão renal. AVALIAÇÃO DA FUNÇÃO TUBULAR DENSIDADE URINÁRIA A densidade urinária é uma medida da concentração de solutos presentes na urina. Essa avaliação está diretamente correlacionada à osmolaridade, mas pela simplicidade dos métodos é bem mais empregada e vai auxiliar na avaliação da capacidade de concentração urinária e excreção renal. OSMOLARIDADE É a medida de concentração de soluto, definida como o número de osmoles de soluto por litro de solução (Osm/L). Ela pode ser medida com auxílio de um refratômetro manual específico, onde são necessárias apenas poucas gotas de urina (o que torna sua utilização mais fácil), ou a partir da utilização de tiras reagentes (teste mais comum). Para a análise utilizando fitas reagentes é recomendada a coleta da primeira urina da manhã após a privação hídrica ou de xenobióticos que possam interferir na dosagem. O teste é baseado na mudança aparente da acidez de certos polieletrólitos em relação à concentração iônica. Na presença de um indicador, as cores de fundo variam de azul-verde na urina de baixa concentração iônica, para verde e amarelo-verde na urina com alta concentração iônica. É importante ressaltar que essa análise sofre influências do pH, quando alcalino, e da presença de proteínas, glicose e de corpos cetônicos. XENOBIÓTICOS javascript:void(0) javascript:void(0) Compostos químicos estranhos ao organismo humano. Foto: Shutterstock.com Tiras reagentes utilizadas para exames de urina. Imagem: shutterstock.com DENSIDADE URINÁRIA AUMENTADA A urina encontra-se concentrada e esse resultado é observado nos casos de desidratação por restrição hídrica, quadros de diarreia, vômitos, hemorragias, sudorese, febre, síndrome da secreção inapropriada de ADH, proteinúria, glicosúria e diminuição do fluxo sanguíneo renal sem desidratação, como cirrose hepática e síndrome nefrótica. Imagem: shutterstock.com DENSIDADE URINÁRIA DIMINUÍDA Baixa concentração iônica na urina, ou seja, ela está diluída. Esse resultado é observado na hiper-hidratação (água em excesso), na diabetes mellitus insípido, na doença renal crônica, no uso de diuréticos, aldosteronismo e nefropatias intersticiais. VALORES DE REFERÊNCIA Densidade Urinária: GLICOSÚRIA A glicosúria é observada em pacientes diagnosticados com diabetes mellitus , em gestantes (glicosúria fisiológica na gestação), pacientes acometidos pela síndrome de Fanconi e intoxicação por metais pesados. Como substância de baixo peso molecular livremente filtrada no glomérulo, a glicose, em amostras de urina de indivíduos sadios, varia de 1 a 15mg/dL, não sendo detectável, pois em quase toda a sua totalidade é reabsorvida pelos túbulos renais. No entanto, quando seus níveis séricos ultrapassam 180mg/dL, conseguimos detectar a presença da glicose na urina (glicosúria). Foto: Shutterstock.com A análise de glicose na urina é semiquantitativa, pela utilização das mesmas tiras reagentes utilizadas para densidade urinária. Tal teste é baseado na reação enzimática que ocorre entre glicose oxidase, peroxidase e cromogênio. A glicose oxidase converte a glicose em ácido glicônico e peróxido de hidrogênio, e a peroxidase catalisa a reação do peróxido de hidrogênio com o iodeto de potássio, formando o cromógeno. Na reação positiva, as cores variam de azul a marrom esverdeado e de marrom a marrom-escuro. Adultos: 1.005 a 1.030 PH URINÁRIO A medida do pH em uma amostra recém-emitida de urina indica o equilíbrio acidobásico no organismo, regulado pelos túbulos renais, pois são os responsáveis por controlar a reabsorção/secreção de H + . Qualquer alteração do pH urinário pode ser reflexo de lesão nessa porção do néfron. Ele também é medido pelas tiras reagentes e é baseado no sistema duplo de indicação, na qual o vermelho de metila e azul de bromotimol são usados para dar uma vasta escala de cores, abrangendo todos os níveis de pH. As cores variam de laranja a amarelo-esverdeado e de verde a azul. Podemos encontrar o pH da seguinte forma: Imagem: shutterstock.com VALORES ELEVADOS DO PH URINÁRIO Decorrentes de processos que resultem em alcalose, como dieta vegetariana, infecções urinárias, vômitos, aspiração gástrica e acidose tubular renal. Mas atenção, os valores podem estar aumentados em decorrência da contaminação da amostra, medicamentos (bicarbonato de sódio, antiácidos) e demora para o processamento da amostra. Imagem: shutterstock.com VALORES DIMINUÍDOS DO PH URINÁRIO Em patologias que resultem em acidemia, como diabetes mellitus , pneumonia, medicamentos (diuréticos tiazídicos, por exemplo) dietas cetogênicas, inanição e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). VALORES DE REFERÊNCIA pH Urinário: 4,6 a 8 VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. PACIENTE APRESENTA AUMENTO DE PRESSÃO ARTERIAL E DIMINUIÇÃO DE DIURESE, ALÉM DE CANSAÇO E DESÂNIMO. QUADRO INDICA POSSÍVEIS PROBLEMAS RENAIS E CIRCULATÓRIOS. É INDICADO COMO EXAME A CREATININA PLASMÁTICA, QUE APRESENTA CONCENTRAÇÕES ELEVADAS EM RELAÇÃO AO VALOR DE REFERÊNCIA. ESSE RESULTADO INDICA: A) Que há aumento de secreção renal de creatinina e perda de potássio (K + ). B) Que está ocorrendo diminuição de volemia sanguínea, que explica a maior pressão arterial. C) Menor excreção renal de creatinina, o que pode indicar perda de função renal. D) Maior excreção de ureia e consequentemente de creatinina, o que indica menor metabolismo proteico. E) Maior excreção de ureia e consequentemente de creatinina, o que indica menor metabolismo de açúcares. 2. VIMOS QUE A DENSIDADE, A PROTEINÚRIA, A GLICOSÚRIA E O VALOR DO PH SÃO MEDIDAS QUE AVALIAM A FUNÇÃO TUBULAR, E ALTERAÇÕES NESSES PARÂMETROS PODEM SUGERIR LESÃO NOS TÚBULOS RENAIS. A DENSIDADE URINÁRIA DÁ INDICAÇÃO SOBRE A CAPACIDADE RENAL DE: A) Filtrar a urina. B) Concentrar a urina. C) Reabsorver íons hidrogênio. D) Reabsorver glicose. E) Reabsorver creatinina. GABARITO 1. Paciente apresenta aumento de pressão arterial e diminuição de diurese, além de cansaço e desânimo. Quadro indica possíveis problemas renais e circulatórios. É indicado como exame a creatinina plasmática, que apresentaconcentrações elevadas em relação ao valor de referência. Esse resultado indica: A alternativa "C " está correta. A creatinina é um marcador da função renal mais utilizado na prática médica. No sangue, é um marcador da taxa de filtração glomerular e pode eliminar a necessidade da coleta da urina de 24 horas. Seu aumento sérico está relacionado à falha no processo de excreção renal da creatinina, o que pode indicar a perda da função renal. 2. Vimos que a densidade, a proteinúria, a glicosúria e o valor do pH são medidas que avaliam a função tubular, e alterações nesses parâmetros podem sugerir lesão nos túbulos renais. A densidade urinária dá indicação sobre a capacidade renal de: A alternativa "B " está correta. A densidade urinária é definida como medida da concentração de solutos na urina e fornece informações sobre a capacidade dos rins de concentrar e excretar a urina.