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Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde Ana Paula Andrade Piccini Gomes Empoderamento político dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde durante a pandemia do coronavírus (COVID-19) Mestrado Profissional em Educação nas Profissões da Saúde SOROCABA 2022 Ana Paula Andrade Piccini Gomes Empoderamento político dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde durante a pandemia do coronavírus (COVID-19) Trabalho de dissertação apresentado à banca examinadora para defesa pública para a obtenção do título de mestre pelo Programa de Pós- Graduação Educação nas Profissões da Saúde da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Orientador: Prof. Dra. Raquel Aparecida de Oliveira. Coorientador: Prof. Dr. Leonardo Carnut. SOROCABA 2022 Piccini Gomes, Ana Paula Andrade Empoderamento político dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde durante a pandemia do coronavírus (COVID-19). / Ana Paula Andrade Piccini Gomes. -- Sorocaba, SP: [s.n.], 2022. 93p. il. ; cm. Orientador: Raquel Aparecida de Oliveira. Trabalho Final (Mestrado Profissional) -- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação nas Profissões da Saúde, 2022. 1. Educação em Saúde. 2. Saúde Coletiva. 3. Sistema Único de Saúde. 4. Trabalhadores da Saúde. I. de Oliveira, Raquel Aparecida. II. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Mestrado Profissional em Educação nas Profissões da Saúde. III. Título. CDD Banca Examinadora Aos que resistem. AGRADECIMENTOS Tomo a liberdade de começar a agradecer algo que não consigo dizer o que é e nem de onde surgiu. Algo que há décadas tocou o meu coração profundamente e me despertou para o mundo e todas as suas injustiças. Eu queria entender porque as coisas eram como eram e, quando entendi, não me restou outra opção a não ser entrar na roda da história e fazer parte da revolução em percurso. Esse tanto de veia revolucionária que invade todo o meu coração e bombeia a esperança necessária para que a gente não desista de ser o que se precisa ser, ainda não tem nome. Podemos chamar de luta, resistência, indignação, raiva e dor pelos que são constantemente explorados e mortos pelo sistema em que vivemos. Podemos chamar de não silenciamento, podemos chamar de coragem ou utopia. Podemos simplesmente entender que sentir o mundo é o que precisa ser feito. Foi a partir desse sentimento que não sei nomear, que dei vida à essa pesquisa. Abracei e acolhi aquela menina sonhadora de anos atrás e mostrei que é possível. Que sou forte e que encontramos verdadeiros amigos na trajetória revolucionária. A primeira pessoa que me fez acreditar nesse sentimento foi o meu avô, Wilson. Vovô, se eu pudesse te dizer o quanto você alimentou a minha esperança e o meu amor pelo próximo, eu te diria mil vezes. Você me mostrou as barbaridades da ditadura militar e me apresentou os verdadeiros heróis desse país. Você me ajudou a estudar, me apoiou e esteve presente na minha vida sendo mais que um avô, foi sempre o meu pai. Eu sinto a sua falta todos os dias e entrego esse trabalho sabendo que você está muito feliz e orgulhoso aí de cima. Eu não vou desistir de lutar por um mundo melhor e essa minha garra eu devo a você. À minha mãe, Teresa, que me criou enfrentando todas as dificuldades possíveis na época, sem nunca permitir que a nossa vida fosse uma vida sem poesia. Obrigada pelo apoio, por nutrir meu amor pela leitura e por sempre acreditar em mim. À minha irmã, Carol, por ser a minha melhor amiga e confidente e por compartilhar a mesma dor pelas injustiças do mundo; quando crianças, enfrentamos o mundo. Somos e seremos sempre resistência. Ao meu marido, Eduardo, o grande amor da minha vida. Você me mostra diariamente que pequenas e grandes revoluções são possíveis. Obrigada por não duvidar nem um segundo de mim e por me motivar a seguir esse meu sonho. Você cuidou de mim desde o primeiro dia em que nos conhecemos e continua cuidando. Eu espero ser para você um pedacinho da imensidão que você é para mim. Imensidão essa que transbordou e hoje cresce aqui dentro do meu útero e já dá chutinhos revolucionários e amorosos. Valentim, meu filho, que está aqui dentro desde março desse ano e que tem me mostrado todos os dias, mesmo antes de nascer, que vale a pena lutar por um mundo melhor. Esse trabalho é pra você, filho. Toda a minha luta também é. Aos meus orientadores que não soltaram da minha mão um segundo sequer, que não me deixaram desistir e que acreditam também nesse sonho bonito que é a transformação do mundo: obrigada. Raquel e Leonardo, vocês foram e são luz em tempos sombrios. A nossa troca não foi apenas acadêmica; compartilhamos esse sentimento que até agora não consigo nomear. Obrigada por serem quem são, por ocuparem espaços de escuta e por inspirarem tantas pessoas por onde passam. Eu nunca vou me esquecer de vocês. Ao Paulo Freire, por me fazer amar a educação e sonhar que através dela podemos mudar o mundo. Aos meus amigos de coração e revolução, que compartilham comigo desse sonho bonito, vocês sabem quem são e sabem que fizeram parte de todo esse processo. Aos meus amigos do mestrado: Jéssica, Bia, Dinara, Cássia, Nicoli e Thiago, obrigada por fazerem parte da transformação do mundo. Vocês tiveram e têm um grande impacto na minha vida. Aos meus colegas do Sistema Único de Saúde, que lutam todos os dias para dar conta de tantas injustiças, obrigada por não desistirem. E muita força na luta. Às pessoas que eu cuidei dentro da minha profissão: vocês também cuidaram de mim em todos esses momentos. Por fim, obrigada a você, sentimento que ainda não sei nomear, mas que me trouxe até aqui e me deu forças para ainda acreditar em uma verdadeira revolução. Meu coração é seu, minha luta também. “Que os meus ideais sejam tanto mais fortes quanto maiores forem os desafios, mesmo que precise transpor obstáculos aparentemente intransponíveis. Porque metade de mim é feita de sonhos e a outra metade é de lutas.” Vladimir Maiakovski “Eu lembro da história da barilha. Uma só barilha é fácil de quebrar, mas se juntar um feixe alguém pode até suar, né?” Participante 5 RESUMO A pandemia do coronavírus (COVID-19) se caracterizou como umas das maiores catástrofes epidemiológicas previstas nas últimas décadas, exigindo uma releitura do papel do Estado para o enfrentamento da crise. Partindo de uma análise crítica do contexto econômico, político e social, a pandemia expôs um sistema já em crise, que tenta há anos manter os interesses de uma classe dominante, às custas da vida de milhões de brasileiros. É desonesto, portanto, resumir o protagonismo dos profissionais de saúde durante a crise sanitária puramente à heroísmo. As condições insalubres e exaustivas de trabalho, assim como os ataques à ciência, exigem uma reflexão profunda do nosso processo de trabalho em saúde e a necessidade de uma consciência de classe há muito abandonada. Objetivo: Empoderar para a práxis política os profissionais que integram as equipes de saúde pública municipal através de reflexões acerca da pandemia do coronavírus (COVID-19). Participantes e Métodos: Trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza exploratória através da pesquisa-ação. Foram realizadastrês rodas de conversa com seis profissionais da saúde pública municipal do interior de São Paulo para compreender suas percepções do contexto econômico-político atual e construir coletivamente estratégias de enfrentamento e fortalecimento do Sistema Único de Saúde. A análise dos dados considerou os três encontros, dividido em duas fases de pesquisa, sendo realizada a técnica de Análise de Conteúdo de Bardin, na modalidade da Análise Temática. Resultados: Elencou-se, nas duas Fases da Pesquisa, 4 temas principais seguidos de 30 subtemas, totalizando 406 frequências. Observou-se que os trabalhadores do Sistema Único de Saúde que participaram da pesquisa se abstêm da práxis política por se sentirem constantemente repreendidos e com medo dos gestores e governantes municipais. Conclusão: A desarticulação coletiva e privação da práxis política entre os trabalhadores de saúde são consequência do modo de produção capitalista e da conjuntura política ultraneoliberal e neofascista atual. Faz-se necessário o despertar político e a união entre trabalhadores para o fortalecimento do SUS e as transformações estruturais tão necessárias e urgentes. Palavras-chave: COVID-19; Educação em Saúde; Saúde Coletiva; Sistema Único de Saúde; Trabalhadores de Saúde. ABSTRACT The coronavirus pandemic (COVID-19) has been characterized as one of the biggest epidemiological catastrophes predicted in recent decades, requiring a reinterpretation of the State´s role crisis management. Critical analysis from economic, political and social context, the pandemic exposed a system already in crisis, which has been trying for years to maintain the interests of a ruling class, at the expense of the lives of millions of Brazilians. It is dishonest, therefore, to summarize the role of health professionals during the health crisis purely as heroism. The unhealthy and exhausting working conditions, as well as the attacks on science, demand a deep reflection of our health work and the need for a long-abandoned class consciousness. Objective: To empower professionals who are part of municipal public health teams for political praxis through reflections on the coronavirus pandemic (COVID-19). Participants and Methods: This is a qualitative research of an exploratory nature through action research. Three conversation circles were held with six municipal public health professionals to understand their perceptions on the current economic-political context and collectively build coping strategies and strengthening of the Sistema Único de Saúde. Data analysis considered the three meetings, divided into two research phases, using Bardin's Content Analysis technique, in the Thematic Analysis modality. Results: In the two Research Phases, 4 main themes were listed, followed by 30 sub-themes, totaling 406 frequencies. It was observed that the Sistema Único de Saúde’s workers who participated in the research abstained from political praxis because they felt constantly reprimanded and afraid of municipal managers and rulers. Conclusion: The collective disarticulation and deprivation of political praxis among health workers are a consequence of the capitalist mode of production and the current ultra-neoliberal and neo-fascist political conjuncture. There is a need for political awakening and unity among workers to strengthen the SUS and the structural changes that are so necessary and urgent. Keywords: COVID-19; Health education; Collective Health; Sistema Único de Saúde; Health Workers. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Linha do tempo da pesquisa ………………………………………….. 15 Foto 1: Qual o nosso incômodo? ………………………………………………...….17 Foto 2: O que faremos? ………………………………………………………………17 Foto 3: Participantes na segunda Roda de Conversa …………………………….18 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Perfil dos participantes ……………………………………………………….13 Tabela 2: Tema 1: Percepção dos fatores determinantes e consequentes da pandemia do coronavírus (COVID-19) ………………………………………………..….23 Tabela 3: Tema 2 – Processo de Trabalho e Gestão em Saúde …………………...24 Tabela 4: Tema 3 – Educação Política em Saúde ……………………………………..26 Tabela 5: Tema: Percepção das consequências e sentimentos gerados após as Rodas de Conversa da primeira fase da pesquisa ………………………………………29 LISTA DE SIGLAS APS Atenção Primária à Saúde CAPS Centro de Atenção Psicossocial ESF Estratégia Saúde da Família OSS Organização Social de Saúde PUC-SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PA Pronto Atendimento SAMU Serviço de Atendimento Móvel de Urgência SUS Sistema Único de Saúde TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS 1 INTRODUÇÃO ………………………………………………………………………….. 16 1.1 A cronicidade da crise capitalista e o desastre da democracia neoliberal ……...…16 1.2 Modo de produção capitalista, seu impacto ecológico e o adoecimento do mundo ……………………………………………………………………………………………..... 18 1.3 A atualidade do Sistema Único de Saúde e a pandemia do Coronavírus (COVID- 19) ……………………………………………………………………………………………19 1.4 A educação política e o trabalhador da saúde ……………………………….…….. 20 2 OBJETIVOS ………………………………………………………………………………21 2.1 Objetivo geral …………………………………………………………………….……. 21 2.2 Objetivos específicos ……………………………………………………….………….21 3 REFERENCIAL TEÓRICO …………………………………………………….………. 22 4 MÉTODOS ………………………………………………………………………………. 22 4.1 Natureza do método ……………………………………………………….…………. 22 4.2 Local ……………………………………………………………..…………..………… 23 4.3 Participantes ………………………………………………………….……………….. 23 4.4 Linha do tempo dos encontros realizados para a pesquisa ………………….…… 25 5 PRIMEIRA FASE DA PESQUISA ……………………………………………….……. 26 5.1 Primeira roda de conversa realizada em 13/07/2021 – Fase exploratória …….... 27 5.2 Segunda roda de conversa realizada em 15/07/2021 – Fase de planejamento ….28 5.3 Fase de ação ………………………………………………………………………….. 29 5.4 Fase de avaliação ………………………………………………………..…………… 31 5.5 Análise de dados e resultados …………………………………..……….…..……… 33 6 SEGUNDA FASE DA PESQUISA ……………………………...………………………39 6.1 Fase de avaliação realizada em 23/04/2022 …………………………………...……40 6.2 Análise de dados e resultados ……………………………………………….….……40 7 DISCUSSÃO ……………………………..………………………………………………42 7.1 Primeira fase da pesquisa …………………………………………………….…….…42 7.2 Segunda fase da pesquisa …………………………………………..……..…………56 8 CONCLUSÕES ……………………………………………………………….……….…60 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ………………………………….………………… 61 APÊNDICES ………………………………………………………………………..………64 Apêndice 1: Termo de autorização da instituição para a pesquisa ….……….………64 Apêndice 2: Termo de Consentimento Livre e esclarecido (TCLE) ………..…..……65 Apêndice 3: Histórias elaboradas para a rodas de conversa da primeira fase da pesquisa ………………………………………………………………………….…....……67 Apêndice 4: Tabela de análise de dados da primeira fase da pesquisa – Categorização dos temas e subtemas …………………………………………………………....….……70 Apêndice 5: Tabela de análise de dados da segunda fase da pesquisa – Categorização dos temas e subtemas ………………………………………………….……...…………87 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A enfermagem foi uma escolha política. Cuidar dentro da minha profissão foi a forma que eu encontrei para fazer alguma coisa. A menina que fui lá atrás precisava estar em contato com as pessoas, precisava atuar para a transformação do mundo. Lembro que a primeira vez que li Marx, tinha 17 anos e o “Manifesto do Partido Comunista” me causou imensa perturbação. Compreendi então que a injustiça social era normalizada e já fazia parte da formaque compreendíamos o mundo. Lembro que estava sentada na escadaria de uma banca de revistas e nunca mais fui a mesma. Nesse mesmo dia desabafei com o meu avô sobre a minha indignação e vontade de mudar o mundo e ele me disse que eu ainda iria entrar para a política. Rimos. Até parece, pensei. Bom, se algum dia vou entrar para a política eu não sei, mas que a política entrou em mim, não me restam dúvidas. Logo percebi, na faculdade e principalmente atuando como enfermeira, que pequenas reformas e concessões não me serviam de muita coisa; eu queria romper com a estrutura de toda essa cadeia de exploração e morte porque é simplesmente o que faz sentido. Lutei muito pelos meus pacientes. Muito. Fiz plantões intermináveis. Perdi tanta gente, precisei lidar com tanta desigualdade social que me doeu e doeu. E então, nove anos depois, tive a oportunidade de iniciar meus estudos no programa de Mestrado Profissional da PUC-SP. A boa filha à casa retornou para tentar entender o motivo da nossa inércia enquanto trabalhadores da saúde, principalmente em tempos tão sombrios como o que vivemos no Brasil e no mundo atualmente. A Ana de hoje continua comprometida com aquela Ana de 17 anos lendo Marx na escadaria da banca de revistas. Aquela Ana me causa um baita orgulho todos os dias. Que eu continue aprendendo com a roda da história e com as pessoas que me rodeiam. Que eu continue sendo resistência. 16 1 INTRODUÇÃO 1.1 A cronicidade da crise capitalista e o desastre da democracia neoliberal O casamento entre o capitalismo e a democracia foi uma decisão falha, mas não impensada. O modus operandi do capitalismo tem o talento – ou a maldição – de ocupar todos os espaços da sociedade, desfibrar todas as barreiras e nos fazer sentir pertencentes a um sistema que cria abismos sociais – já que precisa tanto deles para sobreviver. Essa afeição à lógica cruel do capital foi também fruto da expansão capitalista, associada às altas taxas de lucro, no período que chamamos que Golden Age1 nas décadas de 1950 a 1970. A crise do petróleo, de 1973, porém, rompeu com a glória do capital e desde então vivemos uma crise estrutural decorrente da queda abrupta das taxas de lucro. Tal rompimento também ocorreu na crise de 2008, nos Estados Unidos, devido à bolha imobiliária, que impactou grande parte dos países do mundo com presença de forte recessão. A que se pese a importância de afirmar que, de acordo com Marx2, essas crises não ocorreram de forma pontual ou isolada. O capitalismo é um sistema que tem como objetivo o lucro através da exploração do meio ambiente e da força de trabalho. Essa taxa de lucro depende da valorização do capital investido, seja ele físico ou fictício. As crises, porém, são sempre sobre a superprodução e a superacumulação desse capital, ou seja, nesses períodos há a diminuição dessa taxa de lucro e, consequentemente, diminuição dos capitais excedentes, resolvendo a curto prazo o processo que impossibilita um aumento das taxas de lucratividade3. Essa é uma das muitas contradições do sistema, que tem a crise como inerente à sua sobrevivência e foi muito bem descrita na “Lei de Tendência da Queda da Taxa de Lucro”2. Por esse motivo o capitalismo precisa se reinventar. A política neoliberal encontrou solo fértil principalmente a partir da década de 1980 e influenciou significativamente as estratégias e políticas de grande parte dos países do mundo. Seu objetivo foi criar medidas políticas de recuperação econômica e proteção dos interesses das classes dominantes às custas da expropriação dos direitos sociais da classe trabalhadora. De acordo com Pinto e Cerqueira4, a estratégia neoliberal constitui-se com base em três eixos: 17 Primeiro a alteração do modelo de produção e circulação de mercadorias em âmbitos nacional e mundial, por meio da adoção da flexibilidade na criação de demanda e oferta; segundo da terceirização das plantas fabris e da flexibilização das relações de trabalho com destruição de direitos; alteração no modelo de Estado, com redução da sua intervenção na esfera social, mercantilização do direitos sociais; e por fim a adoção da ideologia individualista e ataque ao sentido do coletivo e da coisa pública, seja no fundamento filosófico, seja nos processos organizativos de ação e política. Por isso o tal casamento entre capitalismo e democracia é impossível; a única democracia existente hoje é a democracia neoliberal, que visa atender aos interesses da classe dominante; classe essa que, na tentativa de acabar com o acirramento da luta de classes, ocasionada pela crise e suas consequências, tende a abrir espaço para figuras políticas alinhadas com o neofascismo.5 Em momentos de crise, figuras tidas como “mitos”, salvadores da nação, são comuns e se escondem atrás do discurso de restabelecimento da “ordem e progresso” para a recuperação econômica e política, trazendo sempre à tona uma certa moralidade em seus apontamentos. O neofascismo é “neo” porque se adaptou às circunstâncias do mundo pós-guerra e hoje não atua mais através de tanques de guerra, mas sim através da aniquilação do outro, e esse outro é composto por qualquer classe que não seja aquela que ocupa o poder atualmente.5 Mas o que são alguns corpos mortos e vulneráveis em nome da recuperação econômica? Criou-se a narrativa de que vale tudo para dias de glória onde os cidadãos de bem serão recompensados. Mas esses dias são possíveis na lógica econômica em que vivemos? A resposta é não. Ora, se a própria estrutura do capitalismo precisa de crises para a sua sobrevivência, como podemos esperar uma recuperação real para a classe trabalhadora? Essa recuperação, mesmo que mínima, servirá única e exclusivamente para a classe dominante, detentora dos meios de produção. Dessa forma, para sustentar tal discurso, cria-se um cenário político polarizado, com a demonização de tudo o que é público, tratando as pequenas concessões à classe trabalhadora como as maiores causadoras das crises. Dentro dessa lógica, com uma classe trabalhadora desarticulada e sem compreensão de sua existência no mundo, a exploração do trabalho, a precarização das condições de vida e a total perda dos direitos básicos avançam e criam raízes em nossa 18 sociedade. A pandemia do coronavírus (COVID-19) não foi causa da crise econômica que o mundo enfrenta hoje, principalmente para os países de capitalismo dependente; a pandemia expôs um sistema que, em sua gênese, está constantemente em crise e vive às custas do adoecimento social, físico e mental da população. Em uma sociedade neoliberal, onde tudo se vende e tudo se compra, a impossibilidade de comprar saúde durante a pandemia, mostrou a fragilidade de uma estrutura que fere e mata sem piedade. E quanto a nós? Como já dizia Saramago6 “penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que vendo, não veem”. Ao menos agora estamos acordados. E de olhos abertos. Talvez nos falte enxergar. 1.2 Modo de produção capitalista, seu impacto ecológico e o adoecimento do mundo Wallace7 escreveu que “sempre soubemos o que nos recusamos a saber”. O capitalismo inebria a nossa existência de forma que o seu modo de produção parece estar enraizado e intrínseco para que a sociedade possa de fato existir. Historicamente, a expansão do agronegócio tem sua gênese nos Estados Unidos, posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial, transformando a terra em ativos financeiros através do seu modo de produção.8 A forma de produzir do agronegócio rompe com a dinâmica ecológica e está intimamente ligada ao surgimento de uma série de doenças. As emergências de saúde pública de importância internacional, como o Ébola, H1N1, H5N1, Zikavírus, etc, declaradas pela Organização Mundial da Saúde, são consequências do modo de produção capitalista. Na gripe suína, por exemplo,a H1N1, e na gripe aviária, a H5N2, não faltou ganância do agronegócio para manter as condições necessárias para a evolução de cepas da influenza. Novamente Wallace7 é certeiro quando afirma: Junto com a vida de bilhões de pessoas, o establishment parece disposto a apostar grande parte da produtividade econômica do mundo, que sofrerá de forma catastrófica se ocorrer uma pandemia mais grave. A miopia criminalmente negligente e politicamente protegida sempre é capaz de pagar, até que não seja mais. Então, alguém leva a conta para casa. 19 Parece profético, mas a racionalidade com que o autor nos expõe o profundo descaso do capital com o meio ambiente e todos os fatores a ele relacionamentos, foi evidenciado com a pandemia do coronavírus (COVID-19). Essa “conta” acaba por ser transferida para o trabalhador que, enquanto alienado dentro da lógica do próprio sistema, aceita sem sequer questionar o percurso de sua existência. 1.3 A atualidade do Sistema Único de Saúde e a pandemia do coronavírus (COVID-19) A Constituição Federal de 1988 legitimou, em seu artigo 196, que “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.9 A ideia de saúde como direito do cidadão nasceu dos movimentos sociais de redemocratização do Brasil, juntamente com a Reforma Sanitária, tendo como marco principal a 8ª Conferência Nacional de Saúde em 1986. Trazendo criticidade para a discussão, notamos que o Sistema Único de Saúde (SUS) foi conquistado durante a redemocratização do Brasil e forte guinada neoliberal, como vimos anteriormente. Por esse motivo, não surpreende que no dia seguinte à sua publicação, o SUS sofreria inúmeros vetos. Não se pode resumir um sistema universal de saúde apenas como consumo de serviços de saúde; um sistema universal, na verdade, garante o acesso à saúde e tal acesso reside na existência digna do outro. E essa não é uma tarefa fácil dentro de uma sociedade desigual que anula essa existência diariamente. Frente à essa análise, entende-se os inúmeros ataques ao SUS sofridos ao longo dos anos, principalmente na esfera de seu financiamento. Se antes da Emenda Constitucional nº95/2016, que congelou o gasto público por 20 anos, havia um déficit de financiamento importante, afirma-se hoje que o sistema está desfinanciado.10 Prova disso foram as inúmeras mudanças no financiamento da Atenção Primária à Saúde, porta de entrada do sistema e via importante de vínculo com a população. Medidas como o Plano Mais Brasil, de Paulo Guedes, e o Programa Previne Brasil, do ex-ministro da saúde, Mandetta, corroboram a estratégia neofascista, antipovo, que o governo Bolsonaro institui10 20 Logo não é difícil compreender que o desmonte do SUS não se dará rasgando a Constituição Federal de 1988, mas sim através de medidas de austeridade fiscal. Não é de interesse da classe dominante e dos empresários dos planos de saúde, que tenhamos um sistema público de saúde eficiente. A retórica de que “tudo o que é público é ruim” faz parte de uma narrativa crônica que afasta a população do sistema e, dessa forma, aniquila qualquer chance de articulação coletiva em defesa do SUS. É dentro desse cenário de desmonte que os desafios enfrentados pelo SUS foram expostos à luz da maior catástrofe prevista do século XXI, em termos de saúde pública, a pandemia do coronavírus. O novo coronavírus, denominado SARS-CoV-2, causador da doença COVID-19, foi detectado em 31 de dezembro de 2019 em Wuhan, na China. De acordo com os últimos dados do Ministério da Saúde de 28 de agosto de 202211 o número de óbitos no Brasil ultrapassou a marca de 683.000 mortos pela covid; foram vidas perdidas e milhares de famílias devastadas pela morte repentina e impossibilidade de dizer adeus aos seus entes queridos. Mesmo com um governo atuando no sentindo contrário às políticas de prevenção, mesmo com seu desfinanciamento crônico, mesmo com a exaustão e adoecimento dos profissionais da saúde, o SUS chegou, devido à sua capilaridade, à grande parte da população, permitindo ainda assim uma assistência minimamente digna para cidadãos brasileiros. A pergunta é: até quando? 1.4 A Educação Política e o trabalhador da saúde Inúmeros são os desafios da Educação Política em Saúde no Brasil. Mesmo com as mudanças curriculares dos últimos anos, a maioria dos profissionais de saúde não se reconhece enquanto ator político com poder de transformação da realidade.12 De acordo com Oliveira e Carnut13, formação política difere-se de política na formação. Enquanto a “formação política” se concentra na formação de lideranças dentro daquela comunidade específica, a “política na formação” traz conceitos da política propriamente dita, permitindo ao educando uma reflexão mais profunda acerca da realidade. Também não se pode confundir “política na formação” com políticas públicas de saúde; o conceito é amplo e ambas atuam juntamente dentro de serviços de saúde, mas não são dependentes. Enquanto se pode existir “políticas públicas de 21 saúde” sem se compreender conceitos básicos da política, só se é possível que essas sejam efetivas se forem pensadas politicamente. Ou seja, o ensino em Saúde Coletiva não se basta acerca da discussão das políticas nacionais de atenção à saúde; é urgente que a discussão se aprofunde à compreensão da estrutura do sistema capitalista e seus impactos para a vida em sociedade. Nesse sentido, pesa-se a importância de que o empoderamento político defendido nesse trabalho, seja no sentido de introduzir tanto a “política na formação” quando a “formação política”. Tal empoderamento, só se dará quando se atingir a consciência de classe, ou seja, consciência de ser o que se é, produzir o que se produz para quê e para quem. Para que se defenda um sistema universal que permite a existência do outro, é preciso, antes de tudo, reconhecer esse outro, saber onde ele está. Essa compreensão não é fácil; é preciso sensibilidade, empatia e veia revolucionária. Não se pode caminhar dentro da defesa do SUS sem esses pilares ideológicos. Dentro da compreensão de classe trabalhadora, essa pesquisa se tornou urgente. Configura-se como a luta pelo direito de existir. E resistir. 2 OBJETIVOS 2.1 Objetivo geral Empoderar para a práxis política os profissionais que integram as equipes de saúde pública municipal através de reflexões acerca da pandemia do coronavírus (COVID-19). 2.2 Objetivos específicos Analisar as consequências e fatores interferentes da percepção que os profissionais de saúde têm das questões econômicas e políticas e as consequências da pandemia (COVID-19) para os processos de trabalho em saúde; Despertar politicamente os trabalhadores da saúde e construir coletivamente uma intervenção concentra na realidade vivida. 22 3 REFERENCIAL TEÓRICO Para o desenvolvimento da pesquisa e reflexão crítica da conjuntura econômica e política atual, optou-se pelo referencial teórico marxista. O materialismo histórico de Marx e Engels2 compreende de forma metodológica que as transformações do mundo ocorrem através das relações sociais de trabalho e produção. Ou seja, a história é dinâmica, totalizante e sensível às revoluções. Pode-se dizer que, de certa forma, o marxismo escolheu a pesquisadora e escolheu se expressar através do presente trabalho. Uma vez que enxergamos o mundo como ele é e entendemos nosso papel dentro dele, não há escapatória. Ainda bem. Articulando-se com a metodologia marxista, a pesquisa também traz à luz a Educação Popular de Paulo Freire14, instrumentalizando ainda mais a luta para o fortalecimento da classe trabalhadora e do Sistema Única de Saúde. 4MÉTODOS 4.1 Natureza do estudo Trata-se de um estudo de caráter qualitativo de natureza exploratória através da pesquisa-ação. Compreendeu-se a importância do envolvimento dos sujeitos na investigação, tornando-os próximos e ativos durante a intelecção do diagnóstico situacional e construção de uma intervenção efetiva. O tema do estudo foi acerca das causas e consequências da pandemia do coronavírus, considerando as percepções de cada participante sobre o contexto econômico, político e social atual, e seu impacto para o processo de trabalho em saúde e as articulações coletivas necessárias para o seu fortalecimento. De acordo com Thiollent15 “a pesquisa-ação é ao mesmo tempo uma metodologia de resolução de problemas psicossociais e uma investigação científica teórica sobre o mesmo problema”. Dada a sensibilidade necessária para efetivar essa intervenção em saúde, tornou-se crucial a escolha de uma metodologia que permitisse que a comunidade dos participantes também fosse uma comunidade pesquisadora. A pesquisa-ação é composta por quatro fases: 1. Fase Exploratória, que tem como 23 objetivo fazer um diagnóstico da realidade a ser abordada; 2. Fase de Planejamento, onde se mantém a reflexão acerca dos temas discutidos, traçando dessa forma uma intervenção concreta na realidade abordada; 3. Fase de Ação, onde as intervenções propriamente ditas serão realizadas; por fim, 4. Fase de Avaliação, onde se possibilitará uma avaliação por parte dos participantes e da pesquisadora de todo o processo da pesquisa.15 Escolheu-se a metodologia da pesquisa-ação para o desenvolvimento das atividades propostas, através de Rodas de Conversa. A roda de conversa é um método de pesquisa que remete às antigas conversas realizadas entre familiares ou amigos, em ambientes propícios para diálogo. Assim, pode ser realizado como método de pesquisa, que permite aos participantes expressarem suas opiniões, sendo que cada participante vai construir conceitos e soluções através da interação com os outros participantes, promovendo, assim, a construção e reconstrução coletiva de conceitos e ideias.16 4.2 Local O estudo foi realizado em um município no interior de São Paulo e apresenta um território de 145,205 km2, onde habitam cerca de 23.343 pessoas. A Secretaria de Saúde é composta por uma unidade de Vigilância Sanitária, uma unidade de Vigilância Epidemiológica, um serviço de SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), uma unidade de Pronto Atendimento Municipal, duas Unidades Básicas de Saúde, um serviço de CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), uma Residência Terapêutica e um Ambulatório de Especialidades, onde se encontram também as equipes de fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, nutrição e farmácia, além dos agendamentos internos e externos. Em dezembro de 2021, após a coleta de dados, houve a inauguração da primeira Unidade de Estratégia de Saúde da Família do município, após processo seletivo para os primeiros agentes comunitários de saúde que hoje integram as equipes. As unidades, porém, não estão funcionando como ESF, até o momento. 4.3 Participantes O estudo almejou uma amostra intencionada, com o objetivo de realizar, inicialmente, 24 duas Rodas de Conversa, através da pesquisa-ação, com no máximo dez participantes, sendo esses comprometidos com todas as etapas da pesquisa. Sugeriu- se a participação aos profissionais que integram as equipes da saúde pública municipal, que fossem de diferentes áreas de atuação, como por exemplo, enfermeiros, técnicos de enfermagem, dentistas, psicólogos, médicos, recepcionistas, profissionais da higiene, entre outros. Como critério de exclusão, limitou-se profissionais que por motivos de licença médica ou outros afastamentos, não exerceram as atividades de sua função no ano de 2020. Após a autorização da Secretaria de Saúde (Apêndice 1) e autorização e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP, realizou-se a divulgação do estudo através de comunicado oficial aos responsáveis técnicos de cada serviço de saúde, além de convite em grupos de whatsapp desses mesmos serviços. Houve a liberação do profissional interessado de sua jornada de trabalho pela Secretaria de Saúde, não acarretando prejuízo aos participantes. Todos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice 2). Houve o interesse de 10 trabalhadores, porém compareceram no primeiro dia da roda de conversa 6 participantes e no segundo dia da roda de conversa 5 participantes. O não comparecimento de uma participante no segundo dia deveu-se ao fato de a mesma estar de atestado médico. As rodas de conversa ocorreram nos dias 13 e 15 de julho de 2021. Os trabalhadores que compõe a pesquisa atuam nos serviços de saúde pública do município, mas se diferem entre si quanto à contratação para o exercício do seu trabalho: quatro são servidoras públicas, uma contratada CLT através de uma Organização Social da Saúde atuante no município e uma “Frente de Trabalho” com contrato direto da prefeitura; tal configuração limita-se a uma carga horária de trinta horas semanais e exige que o contratado mantenha um vínculo educacional. Legalmente, esse contrato tem limite de doze meses e objetivo de auxiliar o trabalhador durante seus estudos. Infelizmente, não é o que ocorre, sendo os trabalhadores dessa categoria, os mais desvalorizados e menos remunerados dentro dos serviços de saúde. Quatro são residentes do município e três moram em regiões próximas; três profissionais exercem o cargo para o qual foram contratados e três atuam em desvio de função. Para melhor compreensão, descreve-se as relações de trabalho no quadro abaixo: 25 Tabela 1: Perfil dos participantes: Cargo contratado Atuação profissional Vínculo de Trabalho Munícipe do local de pesquisa Recepcionista Arquivo de prontuários da UBS Servidora Pública Sim Recepcionista Arquivo de prontuários da UBS Servidora Pública Não Técnica de Enfermagem Enfermeira da UBS Servidora Pública Sim Técnica de Enfermagem Técnica de Enfermagem CLT – Contrato Organização Social da Saúde Sim Enfermeira Enfermeira Servidor Pública Não Frente de Trabalho Auxiliar de Limpeza Frente de Trabalho Sim Fonte: A autora. Os encontros foram coordenados pela pesquisadora e gravados em dois dispositivos diferentes, garantindo a segurança das gravações. Ocorreram no Espaço de Eventos do Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS) do município, onde foi possível exercitar as habilidades sociais e motivar as discussões, expondo as opiniões em um espaço protegido e livre de julgamentos. Também foram respeitadas as medidas necessárias durante a pandemia do coronavírus, evitando riscos de disseminação da doença. 4.4 Linha do tempo dos encontros realizados para a pesquisa Inicialmente, para a construção da pesquisa, realizou-se 2 encontros, em julho de 2021, contemplando a Fase Exploratória e a Fase de Planejamento. Quatro meses depois, procedeu-se com a Fase de Avaliação, a fim de entender os impactos gerados pelos encontros e identificar as possíveis intervenções concretas na realidade. Realizou-se essa avaliação em novembro de 2021 através da plataforma Google Forms. Essa fase constituiu a Primeira Fase da Pesquisa. 26 Porém, a pesquisa-ação, como metodologia potente e livre para a construção do saber e do fazer, descortinou a necessidade de um novo encontro com os mesmos participantes, 10 meses após as primeiras Rodas de Conversa. O objetivo foi acolher os participantes e compreender profundamente as mobilizações a longo prazo geradas pela pesquisa, assim como as desarticulações durante o processo. Entender os sentimentos gerados no processo da pesquisa, tornou-se, de certa forma, um ponto muito importante desse trabalho. Para que os resultados encontrados fossem percebidos e analisadosem sua profundidade, foi necessário transcender esses dados e, muito delicadamente, expor os mecanismos que impedem a práxis política dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde que acompanhamos nessa pesquisa. Esse novo encontro ocorreu no que denominaremos de Segunda Fase da Pesquisa, em modalidade remota através da Plataforma Teams, no mês de abril de 2022 e contou com a participação de 3 trabalhadores do sistema de saúde municipal que também haviam participado da Primeira Fase da Pesquisa. Segue abaixo o fluxograma das duas fases da pesquisa: Fonte: A autora. A fim de potencializar a compreensão pedagógica da pesquisa, as fases citadas serão apresentadas seguidas dos seus respectivos resultados e discussões. 5 PRIMEIRA FASE DA PESQUISA A primeira fase da pesquisa ocorreu nos dias 13 e 15 de julho de 2021, contemplando dessa forma a Fase Exploratória e Fase de Planejamento. Quatro meses depois, em novembro de 2021, realizou-se a etapa de Avaliação através da plataforma Google Forms. • 13 de julho de 2021: Roda de conversa - Fase Exporatória • 15 de julho de 2021: Roda de Conversa: Fase de Planejamento e Avaliação dos encontros • Novembro de 2021: Plataforma Google Forms: Fase de Avaliação Primeira Fase da Pesquisa • 23 de abril de 2022: Roda de Conversa para avaliação das mobilizações geradas pela pesquisa (Plataforma Teams) Segunda Fase da Pesquisa 27 5.1 Primeira Rosa de Conversa realizada em 13/07/2021 – Fase exploratória Objetivo: Determinação do campo de pesquisa e diagnóstico de prioridades. Fase composta por 6 profissionais. A roda de conversa se deu início com a apresentação da pesquisadora, da orientadora (observadora) e dos participantes. Em seguida, foram realizados esclarecimentos sobre a pesquisa e a elaboração pelas participantes do contrato grupal e assinatura do TCLE (Apêndice 2). Uma das preocupações da pesquisadora para o desenvolvimento das rodas de conversa foi, sem dúvidas, criar um ambiente sensível para o despertar político; dessa forma, optou-se por iniciar a discussão com a reprodução de dois vídeos.17,18 Foram escolhidos e reproduzidos dois vídeos para a introdução ao tema: 1) “Sociedade de consumo” por Steve Cutts17; vídeo que mostra a intervenção do homem no meio ambiente e nas relações sociais de produção de uma forma que seria divertida, se não fosse trágica e 2) “500 mil mortes – fotos, áudios e mensagens trocadas pelas famílias abaladas pela covid” pelo Canal Uol18 ; pontuando as consequências da pandemia no Brasil. Os links dos vídeos se encontram devidamente referenciados nesse trabalho. Em seguimento, foram apresentadas três histórias (Apêndice 3) – “Vida de Luxo, “A família de Marcelo” e “A perfeição da saúde de Facebook” – de pessoas de vivências e realidades diferentes, durante o enfrentamento da pandemia do coronavírus (COVID-19) no ano de 2020 com o objetivo de elencar os determinantes sociais de saúde para a discussão e reflexão, compreendendo dessa forma a percepção particular das causas e consequências da pandemia do coronavírus pelos participantes e seu impacto em sua realidade de vida e de trabalho. Essas histórias foram elaboradas pela pesquisadora com o cuidado de pensar em realidades e classes sociais distintas, mas que fizessem parte da mesma conjuntura social e que impactassem no processo de trabalho no município; o objetivo foi criar personagens que fossem facilmente identificados na divisão de classes sociais e de trabalho, possibilitando um maior despertar. O título da última história, por exemplo, “A Perfeição da saúde de Facebook” faz uma provocação à estratégia utilizada por boa parte dos gestores de divulgar, através de publicações em redes sociais, uma realidade paralela à realidade do município. A discussão realizada nessa primeira Roda de Conversa foi muito potente; após a 28 reprodução dos vídeos, procedeu-se a leitura da primeira história, abrindo em seguida espaço para cada participante pontuar seus sentimentos e percepções acerca do texto lido e assim foi realizado com as outras duas histórias. O primeiro encontro durou cerca de 2 horas e 30 minutos. 5.2 Segunda Roda de Conversa realizada em 15/07/2021 – Fase de Planejamento Objetivo: Definição dos objetivos em conjunto e planejamento da fase posterior, a fase de ação. Fase composta por 5 participantes. Dois dias após a primeira reunião, o grupo se encontrou novamente para uma roda de conversa. Nesse intervalo, duas participantes trouxeram questionamentos acerca dos principais problemas encontrados nos serviços de saúde e a falta de articulação política entre os trabalhadores. A conversa ocorreu de forma informal no horário de almoço das participantes. Foi inspirador e um sinal de que o primeiro encontro teve um impacto significativo. Nesse segundo encontro, realizou-se uma discussão acerca das reflexões e sentimentos gerados durante a Fase Exploratória, o que possibilitou a construção em conjunto de uma intervenção na realidade abordada. Utilizou-se dois quadros magnéticos durante a atividade, onde foram elencados, de forma coletiva, os pontos importantes consequentes da discussão e o planejamento da Fase de Ação, com plano concreto de intervenção na realidade estudada. Foto 1: Qual o nosso incômodo? Objetivo: Elencar os principais pontos compreendidos na discussão. 29 Fonte: A autora e participantes. Foto 2: O que faremos? Objetivo: Definição das ações planejadas para a intervenção na realidade abordada. Fonte: A autora e participantes. Foto 3: Participantes na segunda Roda de Conversa. Fonte: A autora. 5.3 Fase de ação Objetivo: Ações concretas para intervir na realidade estudada. Durante a Fase de Planejamento, na segunda Roda de Conversa, foram elaboradas estratégias de enfrentamento a serem aplicadas na Fase de Ação. As estratégias planejadas foram definidas e anotadas no quadro magnético (foto 1): 1. Criação e formação de uma Comissão dos profissionais de saúde. 2. Cursos de 30 Educação Política em Saúde; 3. Reunião com o Conselho Municipal de Saúde. Um ponto de peso para a análise, configurou-se na compreensão por parte dos participantes de que as rodas de conversa já foram uma intervenção na realidade. A análise e avaliação da Fase de Ação foi realizada desde as rodas de conversa, de forma dinâmica, considerando os acontecimentos econômicos e políticos do município: Houve mobilização e articulação, principalmente nas primeiras semanas após a segunda roda de conversa, com a reunião de três participantes durante o horário de almoço para discussão dos acontecimentos políticos no município. Constatou-se através do site da prefeitura, além do repasse de informação via whatsapp, que estava agendada uma votação na Câmara dos Vereadores para o mês de julho para o fornecimento de cesta básica para o funcionalismo público; a descrição cita a Frente de Trabalho, porém foi compreendido pela maioria que atingiria todos os tipos contratações municipais. A troca da cesta básica pelo cartão alimentação foi uma vitória dos trabalhadores da cidade no ano de 2020, possibilitando maior liberdade e respeitando as necessidades individuais de cada trabalhador. Além de péssima qualidade, muitas pessoas não conseguiam retirar a cesta básica fornecida por falta de tempo ou de transporte, de modo que acabavam perdendo o benefício. Houve uma movimentação iniciada pelas participantes da roda de conversa, que se estendeu para vários outros trabalhadores municipais, resultando em uma explicação do próprio prefeito quanto à decisão de não mais dar andamento ao processo de licitação. Tal decisão foi considerada uma vitória coletiva para os trabalhadores. Até o dado momento, 13 de março de 2022, não se prevê qualquer tipo de votação no pregão citado e o cartão alimentação continua sendorecarregado mensalmente. O pregão, porém, continua aberto no site da prefeitura e segue sendo fiscalizado pelos trabalhadores. Houve em seguida, envolvendo duas participantes da roda de conversa, a discussão com um vereador que, durante passagem na Unidade Básica de Saúde, foi questionado sobre a ausência da correção salarial pelo menos para a cobertura da inflação. Os trabalhadores da saúde não têm reajuste salarial há mais de quatro anos. A discussão passou longe de ser tranquila, o que causou profundo desconforto ao vereador citado, para triunfo das participantes. Qualquer incômodo envolvendo os responsáveis pelo sucateamento da saúde 31 pública municipal e perda dos direitos do trabalhador contou como vitória. Houve retaliação a essas funcionárias, já que a gestão atual do município, não diferente das anteriores, atua no sentido de punir qualquer articulação política dos trabalhadores, de modo que duas trabalhadoras foram remanejadas do setor. Uma delas, infelizmente, vivenciou um profundo luto familiar, de modo que preferiu se afastar das questões políticas por um período. Até a finalização dessa pesquisa, a comissão dos trabalhadores do município não foi formalizada, porém há conversas e tentativa de união nesse sentido. Não houve, ainda, a reunião com o Conselho Municipal de Saúde ou Cursos de Educação Política em Saúde; porém os mesmos foram solicitados para a gestão que comunicou aos funcionários a retomada das atividades da Educação Permanente em Saúde. 5.4 Fase de avaliação A que se pese a profundidade da pesquisa e o impacto que pode causar a longo prazo, a pesquisadora realizou três momentos de avaliação dos encontros. O primeiro ocorreu ao final de cada roda de conversa, onde se abriu espaço para o feedback através do “que bom, que pena e que tal?”; essa avaliação foi transcrita e fez parte da análise dos discursos. Essa avaliação, porém, não se configurou como a Fase de Avaliação da pesquisa-ação. O segundo momento de avaliação ocorreu 4 meses depois através da ferramenta Google Forms. A avaliação foi divulgada pela pesquisadora diretamente para cada participante através do WhatsApp e foi respondida por 5 deles. Uma delas, não se recusou de forma direta a responder, mas não deu qualquer feedback mesmo após várias tentativas de retorno. Outro ponto a se considerar, foi que uma das participantes acabou respondendo o questionário 2 vezes, sendo ignorada tal duplicidade para análise. As respostas foram as mesmas em ambos os preenchimentos. Foram realizadas 10 perguntas no formulário e respondidas todas no mesmo dia. Na pergunta 1 “Como você se sentiu durante a participação das rodas de conversa da pesquisa?”, a totalidade dos participantes se sentiu motivada.Na pergunta 2 “Como você avalia o impacto dos vídeos reproduzidos no início da 1ª roda de conversa?” 100% dos participantes declarou que os vídeos reproduzidos foram impactantes. 32 Na pergunta 3 “Como você avalia o impacto dos três casos apresentados na 1ª roda de conversa?” 83,3% dos participantes avaliou os casos apresentados como impactantes e 16,7% avaliou como indiferente. Na pergunta 4 Como você avalia a discussão realizada na 1ª roda de conversa? (reprodução do vídeo + três casos) 83,3% dos participantes avaliou a discussão como muito motivadora, muito criativa e muito impactante e 16,7% avaliou como médio motivadora, médio criativa e médio impactante. Na pergunta 5 “Como você se sentiu após a 1ª roda de conversa?” compreende- se que a totalidade das participantes apresentou um sentimento positivo após a primeira roda de conversa, sendo os seguintes apontamentos: “Reflexiva; Ótimo; Motivada a continuar dando o melhor de mim, em prol do bom atendimento a todos pelo simples senso do dever cumprido; Me senti mais solta, mais a vontade de expor minha opinião sobre o assunto; Com um olhar diferente sobre o assunto e com ideias e vontade de mudanças; Motivada a continuar fazendo o meu melhor em prol do bom atendimento a todos, pelo simples senso do dever cumprido.” Na pergunta 6 “Como você avalia a discussão após a 2ª roda de conversa?” a totalidade das participantes que responderam ao formulário, compreendeu que a discussão realizada na segunda roda de conversa foi muito motivadora, muito criativa e muito impactante; Na pergunta 7 “Como você avalia as estratégias de intervenção elaboradas na 2ª roda de conversa? Foram elas: a) Roda de conversa que foi compreendida já como uma primeira intervenção; b) Necessidade de cursos de Educação Política; c) Organização de uma comissão ou coletivo dos trabalhadores da saúde; d) Reunião com o Conselho Municipal de Saúde” a totalidade dos participantes compreendeu como muito criativas e efetivas as estratégias de enfrentamento elaboradas. Na pergunta 8 “O que você acha que é empoderamento político?”, as respostas foram as seguintes: “Conhecer o papel da política na sociedade, sua atuação , os pilares que sustentam e a capacidade de elaborar estratégias de melhorias para o coletivo; Primeiro temos que ter comissão de enfermagem; Reação da sociedade civil frente à política; É uma reação consciente sobre assuntos relevantes, adquirida em um grupo capaz de mudar realidades; Genuinamente democrática, visa permitir aos indivíduos e aos grupos aumentar o seu poder de agir e bem assim o desenvolvimento de destrezas ou competências que os tornem influentes nas tomadas de decisões que 33 afetam as suas vidas, os seus ambientes, as suas relações.” Na pergunta 9 “Você se sentiu mais empoderado após as rodas de conversa?” Todos os participantes se sentiram mais empoderados após as rodas de conversa. Na pergunta 10 “Você acredita que o caminho para as mudanças necessárias no seu trabalho, no Brasil e no mundo precisam de Educação Política?” nessa questão, 50% dos participantes entendem que sim; 16,7% dos participantes não tem certeza e 33,3% dos participantes entendem que não. O terceiro momento da avaliação ocorreu em uma nova roda de conversa, realizada em abril de 2022, e foi denominada de segunda fase da pesquisa. 5.5 Análise de dados e resultados Para a organização dos discursos foram realizadas as transcrições dos registros gravados nas duas rodas de conversa, seguindo de uma leitura exaustiva para que se procedesse à análise. Considerou-se os registros descritos nos quadros referentes às reflexões e as intervenções propostas. Procedeu-se a técnica de Análise de Conteúdo de Bardin, na modalidade da Análise Temática.19,20 Os fatos que ocorreram no período em que foram implementadas as propostas de intervenção foram registrados em um diário de campo pela pesquisadora e descritos em forma de narrativa, conforme apresentado anteriormente. Elencou-se três temas principais, seguidos de subtemas, considerando as especificidades dos assuntos abordados nas discussões: - Tema 1 – Percepção dos fatores determinantes e consequentes da pandemia do coronavírus (COVID-19) elencando 11 subtemas e totalizando 126 frequências; - Tema 2 – Processo de Trabalho e Gestão em Saúde, elencando 9 subtemas e totalizando 122 frequências; - Tema 3 – Educação Política em Saúde, elencando 6 subtemas e totalizando 69 frequências. O quadro de análise de dados com a categorização dos temas e subtemas encontra- se referenciada no Apêndice 4 deste trabalho. Para iniciar a discussão dos resultados, decidiu-se por pontuar cada tema, seguido dos subtemas elencados; e, por fim, para cada subtema, uma unidade de registro identificada na análise dos dados. 34 Tabela 2: Tema 1: Percepção dos fatores determinantes e consequentes da pandemia do coronavírus (COVID-19): Subtema Frequência Unidade de Registro e Discurso A) Negacionismo, Fake News e Influência da Mídia 27 UR2: “Porque, a princípio, ela era uma gripezinha, né?” B) Incapacidade na esfera políticade tomada de decisões 12 UR3: (...) Momento tardio para lidar com a importância para uma doença.” C) Desigualdade social e de classes como determinante dos impactos, reações e vivências distintas no enfrentamento da pandemia 11 UR111: “Tem a questão da desigualdade, de um lado temos uma madame, que, né, que querendo ou não, não precisaria estar saindo e casa pra se expor e expor o outro ao perigo, de outro lado temos um trabalhador que tecnicamente falando deveria estar em isolamento social, no meio de uma pandemia, porém ele precisa trabalhar pra sustentar sua família.” D) Importância da ciência e da vacina durante a pandemia 7 UR10: “Eu valorizo muito pesquisas, porque essa teoria a gente já tem, desde que a gente nasce, ela tem uma solução, a vacina.” E) Reconhecimento da importância de políticas públicas efetivas para a garantia do acesso e melhores condições de vida e saúde 8 UR67: “O quanto é importante trabalhar cada vez mais as políticas públicas de saúde, prevenção, porque você vê, não tem nada a ver com poder aquisitivo, a gente tá falando aqui de medidas simples, de conscientização.” F) Modo de produção capitalista como responsável pelo surgimento de doenças 10 UR24: “Alguma coisa trazida de algum lugar que o homem explorou, porque o homem gosta tanto de explorar, voltado só pra economia, voltado só pro 35 Fonte: A autora. Tabela 3: Tema 2 – Processo de Trabalho e Gestão em Saúde: crescimento.” G) Individualismo como agravante durante o processo de enfrentamento da pandemia 11 UR44: “(...) eu acho que ela se acha deus, que ela é intocável, que ela não ia pegar, que ela tem dinheiro, sei lá, pensa por esse lado, as pessoas que têm dinheiro, acham que estão imunes...” H) Importância da responsabilidade coletiva para a saúde 3 UR34: “Então eu acho que tudo isso traz uma reflexão da responsabilidade que a gente tem enquanto ser humano e da responsabilidade que a gente tem com a própria saúde...” I) Impacto da crise econômica evidenciada pela pandemia 2 UR51: “O começo da covid, o estoque de papel higiênico acabou, o arroz, o leite, é o que eu falo, anda junto com a economia...” J) Constatação da essencialidade da política para transformar a sociedade 11 UR58: “A política, ela não é negativa, a gente não pode entender assim, ai, a política é tudo política, não, a política é positiva.” K) Instrumentos e limitações da democracia neoliberal de manipulação econômica e política para a classe trabalhadora da saúde 24 UR131: “A gente vê os vereadores e o prefeito, mas a gente não vê quem tá por trás deles, quem financiou eles, tem outra parte oculta que a gente não conhece, então tem interesses, muitos interesses.” Subtema Frequência Unidade de Registro e Discurso A) Desmotivação, desumanização 17 UR151: “Quanto tempo que a gente 36 e desvalorização dos trabalhadores da saúde para o exercício profissional vive nessa infelicidade, a gente vive nessa coisa da gente reclamar da questão da saúde, quantos anos que a gente tá assim?” B) Gestão municipal ineficiente e Interferência negativa de Organizações Sociais da Saúde atuando em serviços públicos de saúde 24 UR69: “Aqui nós temos a gestão em saúde e eu vou dar a saúde como exemplo porque é onde a gente tá inserido (...) poxa, tá tudo errado, todo mundo insatisfeito, não tá legal do jeito que as coisas estão indo, entra OSS, sai OSS e continua a mesma coisa...” C) Ausência de participação dos trabalhadores da saúde na tomada de decisões 11 UR163: “Mas acontecem porque a gente não tá organizado. A gente não se organiza.” D) Importância de organização coletiva para as transformações na saúde pública municipal 35 UR71: “Não pode ser uma ação individual, tem que ser uma ação coletiva.” E) Incapacidade de controle social através do Conselho Municipal de Saúde 1 UR88: “Eu vejo que não tem um conselho municipal de saúde, pra debater, eu vejo que não tem audiências públicas.” F) Reprodução mecânica do trabalho em saúde 6 UR94: “Então mecânico é claro, mecânico às vezes é por estresse, por cansaço, por desmotivação, ele tem vários fatores.” G) Medo dos riscos durante o exercício profissional durante a pandemia e Processo de adoecimento dos trabalhadores da saúde 5 UR96: “O nosso local de trabalho, ele tem que ser saudável, quando a desmotivação acontece, já não tá saudável, se eu sinto a vontade de não ir trabalhar, já não é saudável, então assim, é a saúde, entendeu, o principal 37 Fonte: A autora. Tabela 3: Tema 3 – Educação Política em Saúde: é a saúde.” H) Percepção da perda dos direitos do trabalhador e medo de represálias da gestão municipal 11 UR83: “É uma sucessão de direitos privados, direitos que a gente tem adquirido que foram tirados.” I) Importância do servidor público para o exercício da cidadania/saúde 12 UR85: “Quando eu fui ser servidora, eu fui por vontade, eu queria muito ser servidora pública, porque eu cheguei aqui nessa cidade, era uma cidade muito carente, eu vi pessoas, assim, muito simples, e pessoas que não têm acesso à informação...” Subtema Frequência Unidade de Registro e Discurso A) Compreensão da necessidade de participação política ativa dos trabalhadores da saúde 33 UR118: “Eu acho que se juntar, todo mundo em uma questão só, porque pelo que eu tô avaliando que vocês falam, vocês falam tudo do mesmo contexto, só que quem que passa isso? Como que vocês transmitem isso pra alguém? Ou fica só naquelas conversas de corredor? Será que alguém, assim, não adianta eu sair e tentar resolver a minha situação, né?” B) Falta de união/articulação da classe trabalhadora da saúde para transformações das políticas em saúde 12 UR152: “Ai eu pergunto, que que a gente faz? E o que a gente tem feito pra mostrar a nossa força? Nada.” 38 C) Necessidade de fundamentação/educação política e Despolitização/desinformação das ideologias e processos que envolvem a luta de classes/revolução popular 7 UR79: Tem a política e a politicagem, né? A política, isso tudo é política, a gente tem que ter educação política, se não a gente perder, o que que acontece? D) Consciência de que a classe trabalhadora produz a saúde propriamente dita e é composta por todos os profissionais que integram os serviços 13 UR126: “Mas quando você cobra o seu vereador, seu prefeito, seu secretário, ele fica ali, opa se der uma greve aqui, se parar o PA (pronto atendimento) aqui, eu não tenho funcionário.” E) Entendimento de que as rodas de conversa já foram o início da organização coletiva necessária 2 UR173: “Acho que a gente já deu o primeiro passo, né?” F) Movimento feminista/união das mulheres em organizações coletivas 2 UR197: “Vai ser talvez um choque a mais se a gente conseguir balançar eles, porque eu não sei como que são eles lá, se são mais homens ou mulheres, mas além da gente fazer diferença vai ser um grupo de mulheres que vai estar começando isso, você sabe que nesse meio tem muito, como se fala, preconceito com a mulher.” 39 6 SEGUNDA FASE DA PESQUISA 6.1 Fase de avaliação realizada em 23/04/2022 – Roda de conversa em formato remoto, através da Plataforma Teams. Os primeiros encontros realizados em julho de 2021 demonstraram a potência da articulação coletiva para o pensar político. Experimentou-se socializar os conhecimentos e as reflexões e construir coletivamente um despertar para a prática política no trabalho, através do pensamento crítico. A abordagem da pesquisa não é reformista, mas sim revolucionária e não existe revolução sem criticidade e organização coletiva. Os impactose resultados encontrados na primeira fase da pesquisa foram muito satisfatórios. Incômodos foram gerados, reflexões profundas acerca da realidade ganharam forma e estratégias de enfrentamento foram elaboradas. Porém, ficou a indagação: e a longo prazo? Os encontros realizados foram suficientes para o fortalecimento coletivo da luta a longo prazo? A fim de compreender os caminhos percorridos pelo grupo após a Primeira Fase da Pesquisa, decidiu-se realizar uma nova etapa do estudo através de uma nova Roda de Conversa. As 6 participantes da primeira fase foram convidadas através da ferramenta Whatsapp. O primeiro convite ocorreu na semana seguinte à qualificação do trabalho, no início de abril de 2022. O convite foi realizado de forma muito honesta e objetiva, deixando claro que a participação não era obrigatória, mas que esse novo encontro seria de imensa importância. Imediatamente, cinco participantes confirmaram presença na data e horário definidos; uma participante recusou a participação e preferiu não informar o motivo. No dia da Roda de Conversa, porém, participaram 3 trabalhadoras. Das 5 confirmadas, apenas 1 deu retorno relatando problemas pessoais. Não se obteve resposta da outra trabalhadora. A Roda de Conversa contou com a presença da pesquisadora, da orientadora (observadora) e se iniciou com as boas-vindas a todos os participantes. Explicou-se a necessidade de um novo encontro para que fossem compreendidos em conjunto os sentimentos e impactos gerados na primeira fase do trabalho. Decidiu-se pela reprodução de um pequeno conjunto de quatro slides, em formato 40 dinâmico, para relembrar as atividades realizadas na primeira fase, com duração de dois minutos. Após esse primeiro momento, em um espaço acolhedor e respeitoso, iniciou-se as reflexões dos impactos que ocorreram após a primeira fase da pesquisa. Questionou- se as mobilizações ocorridas, presença ou não da multiplicação das ideias discutidas e das ações elaboradas para outros trabalhadores. Procedeu-se a gravação em vídeo e áudio dessa nova Roda de Conversa e, posteriormente, a transcrição de todo o encontro. 6.2 Análise de dados e resultados Escolheu-se a mesma metodologia de análise de dados utilizada na primeira fase da pesquisa; dessa forma, procedeu-se a Análise de Bardin na modalidade temática. A tabela de análise de dados com a categorização dos temas e subtemas encontra-se referenciada no Apêndice 5 deste trabalho. Também de acordo com a Primeira Fase da Pesquisa, inicia-se a discussão dos resultados pontuando o tema e os subtemas elencados; também para cada subtema, evidencia-se uma unidade de registro identificada na análise dos dados. Elencou-se 1 tema, seguido de 3 subtemas, considerando as especificidades dos assuntos abordados na conversa. O tema: “Percepção das consequências e sentimentos gerados após as Rodas de Conversa da primeira fase da pesquisa”, elencou quatro subtemas, totalizando 89 frequências. No quadro a seguir, pontua-se cada subtema e suas respectivas unidades de registro. Tabela 5: Tema: Percepção das consequências e sentimentos gerados após as Rodas de Conversa da primeira fase da pesquisa: Subtema Frequência Unidade de Registro e Discurso A) Entendimento do que foi proposto coletivamente na Fase de Planejamento e o que 3 UR2: “(...) Uma proposta de expor aquilo que a gente acredita, que a gente, não, como se diz, chegar com 41 ocorreu na Fase de Ação uma proposta mesmo aqui pro serviço de saúde, né, se organizar de forma política.” B) Repressão, medo e comodismo: o fazer política da gestão municipal e Representações sociais do que é política 39 UR3: “(…) tem essa cultura, assim, né, de oprimir mesmo aqueles que querem ter voz.” UR8: “(...) quando existe um grupo se movimentando para criar um processo de mudança com o objetivo de melhorar, isso é barrado, isso é reprimido.” UR 28: ““É quase uma ditadura mesmo, meio que assim, mascarada, mas eu diria que a gente tá assim meio que em uma ditadura, né?” UR 61: “(...) politicagem, é exatamente a ausência de educação política, né?” C) Necessidade de transformação política através da Participação Popular 28 UR34: “Eu acho que por mais que haja medo, a gente não pode deixar o medo nos dominar, eu acho que a gente tem que enfrentar esse medo.” UR 50: “Eu acho que gente tem que motivar as pessoas a fazer a diferença, a mudança, só que essa mudança de uma forma coletiva, não individual.” D) Necessidade de Educação Política Crítica 19 UR21: “A gente precisa compreender melhor, né, qual o verdadeiro papel da política.” UR 23: “A gente vive a politicagem porque não temos esse hábito, a gente não tem essa cultura, de falar sobre 42 Fonte: A autora. 7 DISCUSSÃO 7.1 Primeira fase da pesquisa Considerando o referencial crítico do presente trabalho, foi de preocupação da pesquisadora que a discussão fosse apresentada de forma coerente, partindo inicialmente de uma análise, macro e histórica, incluindo o modo de produção capitalista, suas contradições e seus impactos para, com a visão crítica e aprofundada do tema, discutir sobre as reflexões acerca da saúde pública brasileira com o sucateamento do Sistema Único de Saúde, o processo de trabalho na saúde e sua práxis política, a educação política crítica e as estratégias de enfrentamento elaboradas durante as Rodas de Conversa. Seguindo a lógica dos resultados obtidos, a discussão respeitará a coerência acima descrita. As histórias criadas para discussão no primeiro dia da conversa foram elaboradas com muito cuidado, objetivando o despertar para temas pouco discutidos na saúde. A Primeira Fase da Pesquisa destacou, após análise dos dados, 3 temas principais nas discussões e a partir de agora trataremos de discutir cada um deles. Em que mundo estamos inseridos? A história é dinâmica e passível de revoluções; nada é estático e a ordem atual não está predestinada à eternidade; porém, muitas vezes ela parece estar. É preciso romper com essa falsa ideia de que a realidade é, para compreender que ela na verdade está. Essa reflexão histórica esteve presente em todos os encontros e foi um importante ponto de partida na pesquisa. O tema 1 – Percepção dos fatores determinantes e consequentes da pandemia política, de estudar política.” UR 26 “(...) para o sistema não é viável que as pessoas conheçam a política.” 43 do coronavírus (COVID-19)” adentrou pontos intrínsecos para a intervenção efetiva na realidade; trazendo percepções sobre economia, política e as relações sociais que são diretamente impactas pelo modo de produção capitalista. De acordo com Michael Roberts¹, o capitalismo opera através de inúmeras contradições; a contradição econômica, a contradição ambiental e a contradição geopolítica. Tais contradições são vistas como condicionais e não apenas como condicionantes; daí a importância de reconhecer suas expressões na sociedade. Outro fato importante e que se manteve presente durante a pesquisa foi a disseminação de informações falsas e manipuladas. No subtema A “Negacionismo, Fake News e Influência da Mídia”, nota-se certa ideia de que a ciência e a saúde são fatos passíveis de dissociação. UR17: “O cenário político tá atrapalhando muito, a ciência tá brigando com a política...” Essa ideia de que a política se usurpou da ciência foi um delírio do governo Bolsonaro, amplamente divulgado por veículos de comunicação, inclusive aqueles que fizeram parte do gabinete do ódio; ora, afinal, que política exatamente esse desgoverno aponta? Não podemos esquecer aqui que o bolsonarismo se esconde através de uma atuação apolítica; ele condena todo o tipo de política e de mobilização coletiva, defendendo a ideia de que a política, pro si só, é corrupta. Dá-se otom de que o mundo que conhecemos hoje faz parte de uma grande conspiração criada pela política; essa narrativa trágica contribuiu para a desinformação em níveis estrondosos no país, levando inúmeras pessoas a negar o curso da pandemia e até a existência do vírus e, infelizmente, a recusar a vacinação.21 Ficou evidente que esse discurso atravessou até mesmo os trabalhadores da saúde, trazendo o conflito ciência vs. política à tona; mesmo se tratando de um assunto que sofreu certas nebulosidades, as participantes também trouxeram à tona a importância da ciência para o enfrentamento da crise sanitária, como podemos ver no subtema D “Importância da ciência e da vacina durante a pandemia”: UR16: “Teve já um momento pandêmico (...) que foi combatido com vacina.” UR28: “Porque antes da vacina não era possível imunidade de rebanho, né? Não teve imunidade de rebanho.” 44 De forma geral, os trabalhadores da saúde possuem noções técnicas básicas. Considerando essa influência de discurso e todo o contexto econômico e político brasileiro, já se podia prever que os governantes do país, salvo raras exceções, não enfrentariam a crise sanitária de forma séria. No subtema B “Incapacidade de tomada de decisões durante a pandemia”, as participantes colocaram em evidência a falta de habilidade dos gestores com a pandemia: UR3: (...) Momento tardio para lidar com a importância para uma doença.” UR161: “Tudo isso que tá acontecendo é a forma que vocês estão levando, conduzindo a saúde no município..” O projeto genocida desenhado e aplicado pelo governo Bolsonaro culminou na total ausência de coordenação federal para o enfrentamento da crise sanitária. Através de um discurso doloso, Bolsonaro priorizou a veiculação de Fake News, estratégia neofascista muito utilizada em seu governo, desestimulou a vacinação da população e tentou protocolar medicamentos sem comprovação científica como tratamento padrão ouro no Ministério da Saúde. Todas essas ações respondendo, obviamente, à estratégia econômica ultraliberal do governo.22 Tal fato apresentou repercussões no município da pesquisa, não havendo seriedade e tecnicidade na elaboração de estratégias de enfrentamento da pandemia. Criou-se, por exemplo, Unidades de Terapia Intensiva no município – unidades essas que nunca foram realmente setores intensivos de cuidado e assistência; porém, seguindo a lógica de mercado, vendeu-se para a população a ideia de que se podia comprar saúde através desses serviços. Um enredo mentiroso e cruel, que teve impactos trágicos na saúde municipal. A prescrição de medicamentos sem comprovação científica, como ivermectina e hidroxicloroquina, por exemplo, também fizeram parte da rotina diária dos serviços de saúde. Fica o questionamento se toda essa estratégia foi despreparo técnico ou se sempre houve um interesse político e econômico cercando essas ações; muito possivelmente a última opção. 45 A ideia de que podemos vender e comprar saúde é ilusão, mesmo sendo essa a lógica capitalista; a saúde propriamente dita não pode ser medida através de ferramentas de gestão puramente numéricas. De que saúde estamos falando? E que público está sendo avaliado quando falamos em eficiência dos serviços? O subtema C “Desigualdade social e de classes como determinante dos impactos, reações e vivências distintas no enfrentamento da pandemia” traz a reflexão de que o enfrentamento da pandemia não foi o mesmo para todas as classes sociais. UR111: “Tem a questão da desigualdade, de um lado temos uma madame, que, né, que querendo ou não, não precisaria estar saindo e casa pra se expor e expor o outro ao perigo, de outro lado temos um trabalhador que tecnicamente falando deveria estar em isolamento social, no meio de uma pandemia, porém ele precisa trabalhar pra sustentar sua família.” A compreensão de que o acesso aos melhores serviços de saúde garante em sua totalidade a melhor assistência está presente no discurso da população e até dos trabalhadores da saúde. Infelizmente, garantia de acesso aos serviços nunca garantiu uma assistência segura, efetiva e humanizada; e não seria diferente durante a pandemia do coronavírus (COVID-19). Porém, é certo afirmar que as possibilidades e enfrentamento – dessa vez transcendendo para todos os aspectos da vida em sociedade – não foram e não são as mesmas para todas as pessoas dentro de uma sociedade capitalista. Acesso à moradia e segurança alimentar, assegurados em lei, por exemplo, não chegam sequer a maior parte da população brasileira; podia-se imaginar o tamanho do abismo em desigualdade social que uma crise econômica, acentuada por uma crise sanitária, causaria, colocando assim em evidência a divisão de classes.23 Como estratégia de enfrentamento dessas questões, as participantes concluíram que há uma participação intrínseca das políticas públicas de saúde para lidar com a situação, como observamos no subtema E “Reconhecimento da importância de políticas públicas de saúde efetivas para a garantia do acesso e melhores condições de vida e saúde”: UR11: “E a gente tem também o saneamento básico, e aí entram as questões das 46 políticas, a gente tem o saneamento básico...” O que também apareceu no subtema H “Entendimento da importância da responsabilidade coletiva para a saúde”: UR34: “Então eu acho que tudo isso traz uma reflexão da responsabilidade que a gente tem enquanto ser humano e da responsabilidade que a gente tem com a própria saúde...” Dois pontos são destacáveis nas falas acima: o entendimento de que há condições básicas para a existência humana que não podem se limitar em sobrevivência e a ideia quase que instintiva de que as políticas públicas são essenciais para a transformação da saúde. Mas de que políticas públicas estamos falando exatamente e a que moldes elas foram elaboradas? Como avaliamos a qualidade dos serviços e a saúde da população? Podemos realmente dizer que uma população é saudável considerando única e exclusivamente seus indicadores de saúde? São questionamentos já refletidos antes e que precisam retornar à luz das pautas atuais quando discutimos o fortalecimento de um sistema universal de saúde.24 A pandemia trouxe certa visibilidade para o SUS; a capilaridade do nosso sistema de saúde garantiu assistência e cuidado, dentro dos limites impostos pela gestão federal, e o Programa Nacional de Imunização comprovou sua força e destreza logística. Mas é preciso usar essa visibilidade para pautar discussões que pedem urgência, como, por exemplo, o desfinanciamento do sistema, a precarização das condições de trabalho e o desmonte da Atenção Primária à Saúde. A discussão não pode se limitar em apenas reconhecer o sistema de saúde universal que possuímos, é preciso encontrar forçar para a luta que sua existência exige.10 No subtema F “Modo de produção capitalista como responsável pelo surgimento de doenças” foi possível trazer a relação entre o modo de produção capitalista e o surgimento de doenças, seguindo a referência e a metodologia desse trabalho. As participantes evidenciaram que existe uma relação dinâmica e enraizada entre a forma em que produzimos o mundo e as repercussões nas relações sociais e no meio ambiente. UR23: “O homem cria, né, a doença.” 47 Existe muita potência na fala destacada acima. A compreensão de que os homens produzem o mundo e são diretamente responsáveis por seus impactos é intrínseca para que seja possível vislumbrar um meio de intervenção na realidade. É preciso enxergar a forma que estruturamos o mundo e, mais importante ainda, é preciso compreender como fazemos o que fazemos e porquê fazemos o que fazemos.7 Os patógenos que surgiram recentemente, como as variantes do Influenza A, ébolas, zikavírus, entre outros, não são resultado de má sorte ou da evolução natural o mundo; pelocontrário, estão ligados às transformações do solo associadas à agricultura intensiva.7 Ou seja, “o homem cria a doença” porque impõe seu modo de produção à sociedade e esse modo causa profundos impactos no mundo. UR24: “Alguma coisa trazida de algum lugar que o homem explorou, porque o homem gosta tanto de explorar, voltado só pra economia, voltado só pro crescimento.” UR114: “Eu acho que o grande, se existe algum sujeito, ou um culpado, é o próprio sistema que a gente tem hoje.” Há o entendimento, de forma muito orgânica, de que o homem é responsável pelo sistema e de que esse sistema capitalista, que explora o meio ambiente e a classe trabalhadora, é o grande culpado. Essa conclusão foi unânime e nos dá o gancho para o subtema G “Individualismo como agravante durante o manejo da pandemia”. Afinal, as vivências são iguais para todas as pessoas? Obviamente que quem controla a forma que o mundo é produzido – os donos dos meios de produção – não vivenciam as explorações como os trabalhadores. As divisões de classe plantam e colhem um individualismo necessário para a manutenção do sistema e da ordem atual. Não enxergar o outro é basilar. UR95: “O mundo tá acabando, as pessoas estão morrendo e ela não tá, ela tá querendo consumir, ela tá nessa ideia do consumismo, né, da economia, do sapato novo, do carro do ano...” O mundo não está acabando para todos no mesmo ritmo. É lógico afirmar que as consequências da exploração capitalista atingem a todos os trabalhadores sem 48 exceção, quando pensamos na pandemia do coronavírus (COVID-19), por exemplo, mas obviamente há uma desigualdade gritante entre os sofrimentos vividos. Essa desigualdade é pautada também no individualismo e ausência de compaixão coletiva. Há uma desvinculação do outro em nossa sociedade, de modo que é comum viver recluso e de forma desarticulada. O subtema I “Impacto da crise econômica evidenciada pela pandemia”, explora mais esse impacto vivenciado: UR51: “O começo da covid, o estoque de papel higiênico acabou, o arroz, o leite, é o que eu falo, anda junto com a economia…” A compreensão de que “tudo anda junto com a economia” mostra, mais uma vez, a impossibilidade de dissociar o mundo em que vivemos da economia e, consequentemente, da política. A pandemia não provocou o crash do sistema, mas sim expôs as fragilidades incapacitantes de um sistema em crise há décadas.1 A partir do entendimento dessa dinâmica complexa, sabe-se que as transformações que o mundo precisa são urgentes. E precisam de método, estratégia e planejamento coletivo. Um meio para se alcançar isso, como podemos observar no subtema J “Constatação da importância da política para transformar a sociedade”, de acordo com as participantes, é através da luta política: UR58: “A política, ela não é negativa, a gente não pode entender assim, ai, a política é tudo política, não, a política é positiva.” UR78: “A nossa vida é política.” UR103: “Tudo pode tá ligado à política, à economia, tem a saúde do trabalhador, a saúde do município, não pode ser passada despercebida.” De forma unânime, a política é vista como essencial e a falta de protagonismo popular reproduz sérios problemas para a sociedade e para o processo de trabalho em saúde. As participantes compreendem, então, que há urgência em mudanças e que essas só poderão ser alcançadas politicamente através da organização coletiva. Mas há muitos entraves que dificultam a luta popular. Como podemos ver no subtema K 49 “Instrumentos e limitações da democracia neoliberal de manipulação econômica e política para a classe trabalhadora da saúde”: UR130: “Não é tão simples você mexer com corrupção, não é tão simples você, se fosse gritar era mais fácil, pra você combater uma corrupção e uma coisa que é muita enraizada...” UR154: “Ah, mas todo ano eles vêm e fazem promessa, é igual político, todo ano eles passam na casa da gente, passa? Passa, pedindo voto, não sei o quê, aí não acontece nada, mesma coisa acontece com a gente da saúde, vem com uma proposta e nada, toda vez, aí acabou.” A estrutura do capitalismo se debruça, também, na democracia neoliberal; sendo que essa democracia tem seus próprios mecanismos de limitação popular. Toma-se a democracia como algo concreto e imutável; se é democrático e pronto, não há mais necessidade de qualquer articulação política. O sistema capitalista e a democracia neoliberal andam juntos com um único objetivo – conservar os interesses de uma classe dominante que está no poder desde sempre. A democracia real não pode existir dentro de um sistema excludente por natureza. A sensação de que os ciclos de repetem – campanhas, promessas e, posteriormente, abandono – são constantemente perpetuados em nossa sociedade e fazem parte da dinâmica do sistema capitalista. Não é de se admirar que o Brasil recepcionou o neofascismo, adestrando-o em suas entranhas e o tornando fértil para crescer dentro da nossa sociedade. Nada é por acaso ou coincidência.25 Trabalhadores da saúde: Por que fazemos o que fazemos? O tema 2: “Processo de Trabalho e Gestão em Saúde” marca a análise e reflexão do processo de trabalho dos trabalhadores da saúde do Sistema Único de Saúde do município. A discussão entre as participantes, nesse momento, fluiu com a reflexão anterior, trazendo uma análise crítica a respeito dos processos envolvidos e suas estratégias de enfrentamento. 50 O trabalho realizado pelos profissionais que integram as equipes de saúde ocorre através do processo de trabalho em saúde; esse processo engloba a capacitação técnica dos trabalhadores, a relação interpessoal entre eles e a relação com o próprio ambiente de trabalho, sua estrutura, recursos disponíveis e vínculo com os responsáveis por sua gestão.26 Compreende-se então que a produção do cuidado ocorre através do trabalho em saúde e seus atravessamentos entre as relações interpessoais, ou seja, o “Trabalho vivo em ato”26 (trabalhador, usuários que serão cuidados, agentes administrativos e políticos) e a própria organização estrutural do processo de trabalho. Em outros termos, é necessário que se haja consciência do trabalho a ser realizado e essa consciência se fundamenta também através da política. Quando o trabalho é alienado, perde-se a percepção da coletividade, a visão da saúde como um todo e o trabalhador não mais se identifica com a sua produção de cuidado. O cuidado mecânico em saúde também adoece. No subtema A “Desmotivação, desumanização e/ou desvalorização dos trabalhadores da saúde para o exercício profissional”: UR96: “O nosso local de trabalho, ele tem que ser saudável, quando a desmotivação acontece, já não tá saudável, se eu sinto a vontade de não ir trabalhar, já não é saudável, então assim, é a saúde, entendeu, o principal é a saúde.” UR151: “Quanto tempo que a gente vive nessa infelicidade, a gente vive nessa coisa da gente reclamar da questão da saúde, quantos anos que a gente tá assim?” E no subtema G: “Medo dos riscos durante o exercício profissional durante a pandemia e Processo de adoecimento dos trabalhadores da saúde”, as participantes manifestam, de forma tocante, seu adoecimento frente à realidade brasileira do trabalho em saúde: UR135: “Isso afeta geral, gente, eu sou prova disso, não aguento mais tomar três remédios...” O distanciamento dos processos de trabalho e seu impacto na saúde e vivência dos trabalhadores é evidente e se acentuou com a crise sanitária da COVID-19. Além dos 51 riscos a que foram expostos e às condições de trabalho desumanas, os trabalhadores, dentro da sua alienação, são obrigados a compactuar com um modelo de gestão cruciante que responde sempre à lógica do capital – uma gestão baseada em números visando produzir mais com menos.2 Uma vez que o trabalhador é expropriado de si mesmo,através das relações sociais de trabalho, não encontra sentido em sua prática, passando a carregar uma inesgotável carga de sofrimento físico e mental. E o sofrimento também incapacita a vivência política.27 Essa questão também foi trabalhada no subtema B: “Gestão municipal ineficiente e Interferência negativa de organizações sociais da saúde atuando em serviços públicos de saúde”: UR69: “Aqui nós temos a gestão em saúde e eu vou dar a saúde como exemplo porque é onde a gente tá inserido (...) poxa, tá tudo errado, todo mundo insatisfeito, não tá legal do jeito que as coisas estão indo, entra OSS, sai OSS e continua a mesma coisa...” UR93: Uma terceirizada, ela vem já com uma proposta, ela já tem um número, ela já tem aquele procedimento, mecânico.” UR168: “Parece que, gente, de verdade, uma bola de neve, a gente não sai disso, sabe areia movediça, não sai disso, entra gestão, sai gestão e a gente tá sempre fazendo a mesma coisa.” A gestão das Organizações Sociais de Saúde (OSS) fundamenta suas práticas administrativas de forma exígua, considerando só e simplesmente o estudo entre gastos, custos e recursos disponíveis, contribuindo ainda mais para a alienação dos trabalhadores durante o processo de trabalho em saúde. No subtema F: “Reprodução mecânica do trabalho em saúde”, podemos observar essa dissociação: UR94: “Então mecânico é claro, mecânico às vezes é por estresse, por cansaço, por desmotivação, ele tem vários fatores.” No subtema C: “Ausência de participação dos trabalhadores da saúde na 52 tomada de decisões”, as participantes apontam a ausência de articulação durante o processo de trabalho que desempenham: UR70: “O que você tá fazendo? Quando você tem a oportunidade, você se manifesta? Você procura saber o que tá acontecendo? (...)a gente fala muito de mudança, a gente quer a mudança, mas a gente tá colocando essa mudança na mão de quem?” As trabalhadoras discutem, então, essa falta de articulação também através da inabilidade e insuficiência do Conselho Municipal de Saúde, através do subtema E: “Incapacidade de controle social através do Conselho Municipal de Saúde”: UR88: “Eu vejo que não tem um conselho municipal de saúde, pra debater, eu vejo que não tem audiências públicas.” Evidencia-se, que os mecanismos de controle social criados pelo próprio sistema de saúde são incapazes de elaborar estratégias de enfrentamento efetivas. Possuir voz e articular a participação popular é uma preocupação das trabalhadoras dessa pesquisa. Também relacionaram a importância da participação política com o fato de serem servidoras públicas. No subtema I: “Importância do servidor público para o exercício da cidadania”, percebe-se que a motivação para desenvolver seu trabalho em saúde transcende o trabalho propriamente dito e parte de um cerne revolucionário e político: UR85: “Quando eu fui ser servidora, eu fui por vontade, eu queria muito ser servidora pública, porque eu cheguei aqui nessa cidade, era uma cidade muito carente, eu vi pessoas, assim, muito simples, e pessoas que não têm acesso à informação...” No subtema D: “Importância de organização coletiva para as transformações na saúde pública municipal”, pauta-se ainda mais a essencialidade da participação política dos trabalhadores nas decisões que atravessam o Sistema Único de Saúde: UR73: “A gente precisa falar mais sobre isso e até levantar hipótese, a gente como é um município pequeno, a gente tem que levantar estratégias pra fazer estratégias 53 aqui dentro né de melhoria.” UR116: “Eu lembro da história da barilha. Uma só barilha e fácil de quebrar, mas se juntar um feixe alguém pode até suar, né?” UR123: “A gente tem que levantar uma bandeira do servidor público municipal de (…), tem que levantar essa bandeira, gente, passou da hora.” UR181: “Se a gente não se unir, se a gente não se doar, não funciona a saúde. Os protagonistas somos nós, nessa história toda. E ok.” Os trabalhadores da saúde reconhecem e compreendem o seu protagonismo, entendem a alienação que ocorre em seu processo de trabalho e também apontam a perda dos direitos trabalhistas, assim como o medo de se impor perante ao sistema. Registra-se o subtema H: “Percepção da perda dos direitos do trabalhador e medo de represálias da gestão municipal”: UR83: “É uma sucessão de direitos privados, direitos que a gente tem adquirido que foram tirados.” UR179: “Eu acho, assim, por a gente ser contratadas, igual ela, coitada, ela é frente de trabalho, se de repente ela comentar algo, é rua.” Os direitos concedidos pelo sistema capitalista – após muita organização e luta popular – não são e nunca serão garantia vitalícia de dignidade ao trabalhador. A aniquilação dos direitos trabalhistas é um projeto, uma estratégia do sistema capitalista e dos proprietários dos meios de produção. O trabalhador pode produzir o mundo, mas o mundo pra ele é violento, desumano e exploratório. O governo Bolsonaro, neofascista em seu âmago, tratou de exterminar os poucos direitos trabalhistas que restaram, principalmente na saúde, sob a justificativa da crise econômica. Ora, se considerarmos que as contradições do próprio sistema capitalista culminam em crises econômicas e que essas crises já duram um longo período1, esse argumento serve apenas para continuar manipulando a população e devastando seus direitos básicos. Através desse discurso, que medidas de austeridade como a Emenda Constitucional 54 n. 95/2016, que congelou os gastos públicos por 20 anos, e os recursos ínfimos destinados ao SUS, mesmo durante a pandemia, ganham espaço e até consentimento da população.28 Engana-se quem pensa que a pandemia da COVID-19 flexibilizou a dinâmica do trabalho para os trabalhadores da saúde. O SUS sofreu duros golpes do governo, mesmo durante o enfrentamento da crise sanitária; antes mesmo dela, a Atenção Primária à Saúde se desintegrou totalmente através do Programa Previne Brasil. Pesando a importância da compreensão da perda dos direitos pelos servidores públicos, imagina-se a repressão constante sofrida pelos trabalhadores que não possuem qualquer garantia para estabelecer posicionamentos e vínculos através da organização coletiva dos trabalhadores.29 Educação Política em Saúde e sua essencialidade para a práxis política O tema 3: “Educação Política em Saúde” registra a compreensão de que as mudanças são urgentes e para que sejam efetivas demandam Educação Política em Saúde. As participantes pautaram a importância da organização política dos trabalhadores da saúde, sob a ótica da consciência de classe. Entendem, então, que são trabalhadoras e que seu enfrentamento não pode perder essa percepção. No subtema A: “Compreensão da importância da participação política ativa dos trabalhadores da saúde”, subtema B: “Falta de união/articulação da classe trabalhadora da saúde para transformações das políticas em saúde” e subtema C: “Necessidade de fundamentação/educação política e Despolitização/desinformação das ideologias e processos que envolvem a luta de classes/revolução popular”, nota-se que a participação política é intrínseca para as transformações necessárias: UR118: “Eu acho que se juntar, todo mundo em uma questão só, porque pelo que eu tô avaliando que vocês falam, vocês falam tudo do mesmo contexto, só que quem que passa isso? Como que vocês transmitem isso pra alguém? Ou fica só naquelas conversas de corredor? Será que alguém, assim, não adianta eu sair e tentar resolver a minha situação, né?” UR153: “Eu acho que primeira coisa, a gente tem que se organizar enquanto equipe. 55 Mas se organizar de verdade, entendeu, vamos lá, gente, vamos se reunir, a pandemia tá aí mas a gente usa máscara, a gente precisa se organizar!” UR146: “Falta a gente abraçar mesmo a causa, sabe? Se organizar enquantoequipes, enquanto profissionais, profissionais mesmo de saúde, é...” UR79: “Tem a política e a politicagem, né? A política, isso tudo é política, a gente tem que ter educação política, se não a gente perder, o que que acontece?” A ausência de práxis política coletiva atravessou todos os discursos durante as rodas de conversa. As trabalhadoras compreendem os contextos econômico, político e social ao qual estão inseridas e como os processos de trabalho em saúde são atingidos por eles. Existe, inclusive, uma angústia latente quanto à sensação de imobilização causada pela própria dinâmica do sistema. A organização e militância política de alinhamento crítico por si só já é extremamente desafiadora por seu papel profundo de emancipação e requer estudo teórico e prática concreta na realidade; fica claro então a dificuldade de efetivar as ações dentro de um sistema de saúde totalmente desarticulado e individualizado.29 Como compreensão mínima da práxis política dos trabalhadores da saúde, faz-se necessário, antes de qualquer coisa, que esses se entendam enquanto trabalhadores. No subtema D: Consciência de que a classe trabalhadora é composta por todos os profissionais que integram a saúde e sua essencialidade para a produção da saúde, fica evidente que as participantes compreendem que são responsáveis por tudo o que é produzido através dos seus processos de trabalho: UR159: “Não existe saúde sem funcionário.” UR187: “Basta uma de nós, eu, você, não comparecer um dia pra você ver.” UR194: “Eles são a minoria e nós somos a maioria.” Existe a compreensão de que sem os trabalhadores, nada existiria e que esses trabalhadores são a maioria dentro do sistema. O desequilíbrio de poder dentro das relações de trabalho traz para as participantes uma carga física e emocional gigante 56 resumida pela angústia de existir dentro do mundo que criamos e produzimos, mas que não nos pertence. Esse sentimento foi potencializado durante a pandemia, comprovando que a política neoliberal não é e nem nunca será suficiente para desatar os nós da desigualdade social.29 No subtema F: “Movimento feminista/união das mulheres em organizações coletivas”, ainda, as participantes evidenciam a importância da ocupação das mulheres em todos os espaços: UR197: “Vai ser talvez um choque a mais se a gente conseguir balançar eles, porque eu não sei como que são eles lá, se são mais homens ou mulheres, mas além da gente fazer diferença vai ser um grupo de mulheres que vai estar começando isso, você sabe que nesse meio tem muito, como se fala, preconceito com a mulher.” As participantes se referem, nessa fala, aos gestores municipais que fazem parte da prefeitura, considerando também os gestores da OSS. Foi compreendido que a articulação política entre mulheres é um ponto destacável; considerando as diversas formas de violência e silenciamentos impostos às mulheres, a práxis política se situa também em um campo de resistência e luta.30 Finalizando, o subtema E: “Entendimento de que as rodas de conversa já foram o início da organização coletiva necessária”, registra que as rodas de conversa e o planejamento das intervenções concretas na realidade do município foram essenciais para iniciar a articulação popular e organização entre a classe trabalhadora. UR173: “Acho que a gente já deu o primeiro passo, né?” 7.2 Segunda fase da pesquisa É importante compreender que o mundo condiciona suas transformações de forma histórica e dinâmica e que essa compreensão atravessa nossas vidas diariamente, mas nem sempre estamos despertos. O objetivo principal deste trabalho foi sensibilizar os trabalhadores do SUS para que despertassem em si a força e a coragem necessárias para entrar na roda da história. A conjuntura atual condiciona 57 um certo distanciamento desses trabalhadores dessa dinâmica, alienando todo o processo de trabalho realizado, tornando-os apenas observadores de sua existência.2 Dessa forma, nesse novo encontro entre as participantes das Rodas de Conversa, objetivou-se aprofundar o entendimento das consequências e sentimentos gerados pelas discussões realizadas em julho de 2021, assim como as transformações concretas que ocorreram – ou deixaram de ocorrer – e a consciência individual e coletiva sentida e vivida nos meses que sucederam as primeiras rodas de conversa. No tema 1: “O despertar para as consequências e sentimentos gerados após as rodas de conversa”, apresenta-se o subtema A: “Entendimento do que foi proposto coletivamente na Fase de Planejamento e o que ocorreu na Fase de Ação”, registrou-se que houve um resgate e uma compreensão de todo o processo realizado nos primeiros encontros: UR1: “A gente tinha proposto, né, da gente se reunir mesmo, da gente formar como se fosse uma comissão.” UR55: “Parou. Não fizemos nada. Ficou estacionado.” Assim, demonstrou-se que as rodas de conversa repercutiram de forma profunda entre as participantes e provocaram uma reflexão significativa sobre os temas centrais do estudo – que foram a compreensão da dinâmica do modo de produção capitalista, a conjuntura atual brasileira e seus impactos para o processo de trabalho em saúde. Contudo, as estratégias não ultrapassaram o campo do planejamento; como apontado pelas próprias participantes todo o planejamento ficou estagnado. A conversa fluiu então para compreender, de forma acolhedora e sem julgamentos, quais foram as dificuldades e desafios encontrados para a não efetivação das ações. No subtema 2: “Repressão, medo e comodismo: o fazer política da gestão municipal e Representações sociais do que é política”, entendeu-se que a imobilização do grupo não ocorreu por negligência ou esquecimento, mas sim pela desarticulação coletiva gerada pelo medo da organização da classe trabalhadora. Duas participantes, inclusive, relataram que foram transferidas para outros setores, fora da abrangência da Secretaria da Saúde, após questionamentos à gestão sobre o processo de trabalho desenvolvido. 58 UR8: “(...) quando existe um grupo se movimentando para criar um processo de mudança com o objetivo de melhorar, isso é barrado, isso é reprimido.” UR18: “A gente tá tentando sobreviver, a gente tá nadando com a maré alta, e a gente tá se segurando ali onde está, pra conseguir viver minimamente e aí você se sente ameaçado.” UR20: “Como é que eu vou correr esse risco diante da atual situação que a gente está hoje? Então é bem complicado, é bem complexo.” UR28: “É quase uma ditadura mesmo (risos) meio que assim, mascarada, mas eu diria que a gente tá assim meio que em uma ditadura, né?” UR29: “(...) a gente está em pleno 2022 e a gente tem esse receio de se reunir pra falar sobre um tema que tá aí. Olha só o ponto que a gente está. Será que é realmente um país livre?” UR60: “Porque eles punem, né, Ana, eles punem a pessoa de alguma forma.” UR65: “Sobre a cidade, sobre a gestão que está na cidade que até então, é, a minha saída da saúde tem até a ver com isso que a gente conversou no dia da roda de conversa.” A repressão e o medo não são consequências desvinculadas da conjuntura atual brasileira; pelo contrário, imperam como estratégia determinante para a perpetuação do sistema capitalista e dominância da classe trabalhadora pela burguesia. A classe trabalhadora, mesmo quando desperta para o político, encontra infindáveis barreiras para sua militância – o medo, a repressão e o sentimento de impotência são orgânicos à manutenção capitalista e neoliberal. Não basta ao trabalhador transcender a alienação e compreender seu papel dentro do mundo e dentro da transformação social; a simples organização entre eles é duramente repreendida. É através dessa dinâmica cruel, sustentada pela burguesia, que o neofascismo impera no sistema e nas relações sociais. “Neo” pois concebe ao Estadouma nova forma- política de manutenção do poder da classe dominante legitimada por grande parte da população25. O neofascismo se esconde através do véu da democracia neoliberal, mantendo o funcionamento das instituições, mas atuando sempre no sentido de descredibilizá-las, seja através de Fake News, seja através do discurso de ódio. A exploração e abandono do outro se tornam estratégia também da população que sofre diretamente as consequências da cronicidade da crise capitalista, de forma mais intensa, desde 2008.1 O medo, a repressão e a imobilização são mecanismos de apropriação do trabalhador 59 e atravessam diariamente a vivência dos trabalhadores da saúde. As participantes compreenderam que a práxis política é intrínseca para a vida em sociedade e processo de trabalho em saúde, como registrado no subtema 3: “Necessidade de transformação política através da participação popular”: UR36: “Eu acho que primeiro a gente precisa se juntar, formar uma organização e se apresentar, as nossas propostas. Quais são as nossas propostas, né, formar mesmo um grupo e juntar essas ideias mesmo, colocar essas ideias no papel, quais são os nossos objetivos, traçar um plano.” UR75: “(...) se a gente não tiver a positividade de que eu, você, quatro pessoas, que seja, consiga fazer a diferença, se não isso tudo nunca vai mudar, isso tudo sempre vai continuar na mesma coisa de sempre, a gente sempre vai der dominado por essa situação.” Além do entendimento de que a articulação precisa ser coletiva, compreendeu-se que ela também precisa de embasamento teórico. Além de estar em alerta, o trabalhador precisa de educação política e revolucionária. Como registrado no subtema 4: “Necessidade de Educação Política Crítica”: UR23: “A gente vive a politicagem porque não temos esse hábito, a gente não tem essa cultura, de falar sobre política, de estudar política.” UR33: “(...) tudo uma questão de estudar sobre o tema, se organizar, mas de forma efetiva, se reunir de forma efetiva. UR40: “(...) a gente acaba se acomodando também pela própria falta de conhecimento político, né, você não conhece, não busca o conhecimento, o que que é realmente a política, você acaba aceitando aquilo que te oferecem e consequentemente o futuro vai ser.” As participantes evidenciaram a consciência da necessidade de Educação Política, buscando a prática política coletiva e organizada. Existe uma demanda não preenchida, de empoderamento político e humano, que precisa ser conquistada pelos trabalhadores. 60 8 CONCLUSÕES O estudo demonstrou que os trabalhadores do SUS possuem consciência da atual conjuntura econômica, política e social do país, assim como suas repercussões para o processo do trabalho em saúde. Também compreendem que acumulam anos de desarticulação política, sendo impedidos de exercer sua militância pela própria dinâmica do sistema capitalista e de suas relações sociais de exercer sua militância. O espaço de escuta e diálogo criado pelas Rodas de Conversa, através da pesquisa- ação, apresentou profundo impacto no grupo de trabalhadores, possibilitando o pensar política de forma coletiva e organizada. As reflexões transcenderam a teoria e avançaram para a elaboração de intervenções concretas na realidade; essas intervenções abarcavam forte práxis política e articulação coletiva dos participantes do estudo. Porém, observou-se que o despertar político e a consciência de classe não foram suficientes para a execução a longo prazo da mobilização coletiva dos trabalhadores para a transformação do mundo e fortalecimento do Sistema Único de Saúde, uma vez que os participantes se sentem constantemente repreendidos, adoecidos e com medo da gestão municipal. Ponto esse que, possivelmente, explica a pouca adesão dos trabalhadores no estudo, podendo ser também uma limitação da pesquisa. Ou seja, existe a compreensão da importância da união para a prática política, mas essa compreensão é também mobilizada pelo medo; medo esse que é estratégia do governo neofascista atual. Mesmo com tantos desafios, os trabalhadores concluem que superar o medo da luta organizada é intrínseco para as transformações que são urgentes ao mundo e que essa luta só poderá ser coletiva, nunca individual. Estejamos então despertos, de mãos dadas com os trabalhadores do mundo, protegendo nossos pares na locomotiva da história, pois apenas vencer o neofascismo institucionalizado não significa vencer o neofascismo enquanto um movimento de massas com repercussões cruéis para o SUS. Os próximos caminhos cantam a esperança e a utopia de um mundo mais justo. Não precisamos estar sozinhos. E não estamos. 61 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS 1. Roberts, M. The Long Depression. Editora Haymarket Books. 2016. 2. Grespan, J. Marx: uma introdução. Editora Boitempo. 1ª edição. 2021. 3. Brito, E. Maldonado, E. Antecipando o fim: a pandemia que evidenciou as contradições do capitalismo e reacendeu o debate sobre formas de restruturação e superação. Economia Ensaios, Uberlândia, 37 (n. esp.): 232-254, Jan. 2022. 4. Pinto, M. Cerqueira, A. Reflexões sobre a pandemia da COVID-19 e o capitalismo. Revista Libertas. Juiz de Fora, v 20, n.1, p. 38-52. Junho 2020. Acesso em 5 mar 2022. 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São Paulo, v.30, n.2, e200367, 2021. 64 APÊNDICE 1 Termo de autorização da instituição para pesquisa científica A Secretaria Municipal de Saúde do município de (…), ________________________________________ autoriza a execução do projeto de pesquisa intitulado “Empoderamento político dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde durante a pandemia do coronavírus (COVID-19)” coordenado pela pesquisadora Ana Paula Andrade Piccini, sob orientação da professora Dra. Raquel Aparecida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A Secretaria Municipal de Saúde assume o compromisso de apoiar o desenvolvimento da referida pesquisa pela autorização da coleta de dados durante 2021. Declaro ciência de que nossa instituição é coparticipante do presente projeto de pesquisa, e requeremos o compromisso da pesquisadora responsável com o resguardo da segurança e bem-estar dos participantes de pesquisa nela recrutados. (…), ........ de .......................................... de 2021 ___________________________________________ Assinatura/Carimbo do responsável pela Secretaria Municipal de Saúde 65 APÊNDICE 2 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – TCLE Prezado (a) Senhor (a), Eu, Ana Paula Andrade Piccini, como projeto de Mestrado Profissional em Educação nas Profissões da Saúde da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde -PUCSP, sob orientação da Professora Dra. Raquel Aparecida de Oliveira, venho convidá-lo a participar do estudo “Empoderamento político dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde durante a pandemia do coronavírus (COVID-19)” que tem como objetivo principal sensibilizar os profissionais que integram as equipes de saúde do município de (…) sobre a pandemia do coronavírus (COVID-19), as questões econômicas e políticas e as consequências para o sistema público de saúde municipal. Para isso você participará de três encontros, em Rodas de Conversa, com outros profissionais que integram as equipes dos serviços de saúde de (…). O local terá características de privacidade para manter a confidencialidade das informações. O horário será agendado em comum acordo com os participantes e a pesquisadora, a fim de não interferir em suas atividades de trabalho. A discussão será gravada em áudio integralmente e não haverá identificação pelo nome neste material gravado, você será identificado por um número ou nome fictício. Os relatos serão avaliados pela pesquisadora e pela sua orientadora. Os dados coletados serão utilizados apenas para essa pesquisa. Ao final, todo material será mantido em arquivo com garantia de confidencialidade, por pelo menos 5 anos, conforme Resolução 466 de 12/12/2012, sendo destruído após esse período. Os resultados deste trabalho serão apresentados na dissertação de mestrado da pesquisadora, bem como podem ser divulgados em revistas científicas e congressos científicos. Entretanto, ele mostrará apenas os resultados obtidos como um todo, sem revelar o seu nome. Sua participação no estudo será totalmente voluntária, sem qualquer benefício direto. Não haverá qualquer procedimento que possa incorrer em danos físicos ou financeiros à você. Você tem o direito de retirar a sua participação em qualquer momento deste estudo, sem nenhum prejuízo de suas atividades de trabalho. Se houver dúvidas, preocupações ou reclamações sobre o estudo, você poderá entrar 66 em contrato com a pesquisadora responsável, Ana Paula Andrade Piccini, pelo endereço de e-mail: anapiccininep@gmail.com ou pelo contato telefônico: (15) 99802- 1616. Em caso de denúncias, reclamações sobre a sua participação e sobre questões éticas do estudo, você poderá entrar em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP – Campus Sorocaba,na Rua Joubert Wey, 290, telefone (15) 3212-9896. Este documento foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP. Caso aceite participar desta pesquisa, solicito a sua assinatura no item II deste documento. Desde já agradeço a sua atenção e coloco-me à disposição para quaisquer esclarecimentos sobre a pesquisa. Esse documento é feito em duas vias, sendo uma via do pesquisador e uma via entregue ao pesquisado. A pesquisadora estará a sua disposição para qualquer esclarecimento que considere necessário em qualquer etapa da pesquisa. ______________________________________ Assinatura do(a) pesquisador(a) responsável Considerando, que fui informado(a) dos objetivos e da relevância do estudo proposto, de como será minha participação, dos procedimentos e riscos decorrentes deste estudo, declaro o meu consentimento em participar da pesquisa, como também concordo que os dados obtidos na investigação sejamutilizados para fins científicos (divulgação em eventos e publicações). Estou ciente que receberei uma via desse documento. (…) , ____de _________de _________ ____________________________________________ Assinatura do participante ou responsável legal mailto:anapiccininep@gmail.com 67 APÊNDICE 3 Roda de Conversa: Caso 1 – Vida de Luxo Autora: Ana Paula Andrade Piccini Fonte: Revista Veja Online. Disponível em: https://vejasp.abril.com.br/blog/pop/mulheres-ricas-quem-e-a-mais-cafona-veja-o- resultado-da-nossa-enquete/ Agosto de 2020. Angela, 36 anos, mora em um bairro luxuoso na cidade de São Paulo. Ela é casada com Carlos, 42 anos, um executivo de sucesso do ramo do agronegócio. Sua empresa é responsável por oferecer cerca de 40% das carnes consumidas no estado. Angela não trabalha e gosta de passar o dia com as amigas nos shoppings mais caros de São Paulo, mesmo com a pandemia. Angela diz que “dinheiro existe pra gastar mesmo” e que não vai ser uma “gripezinha” que vai fazer ela ficar dentro de casa. Angela e Carlos moram em uma casa muito grande e empregam cerca de 5 pessoas para o gerenciamento das necessidades do lar. Um desses empregados, se chama Marcelo. Marcelo tem 54 anos e mora em um município no interior de São Paulo. Trabalha em uma empresa de limpeza de piscinas, então acaba viajando muito para poder realizar seus serviços. Em uma quarta-feira, dias após o passeio de Angela ao shopping, ela não estava se sentindo bem. Acordou indisposta, com dor de garganta. Passou em consulta médica, onde foi orientada a permanecer em isolamento por 14 dias por suspeita de COVID. Por apresentar sintomas leves, Angela não dispensou os funcionários contratados naquela semana, afinal “os sintomas eram muito leves!”. Marcelo realizou seus serviços de limpeza de piscina na casa de Angela na sexta-feira daquela mesma semana e depois retornou para seu município. Angela em momento algum comunicou https://vejasp.abril.com.br/blog/pop/mulheres-ricas-quem-e-a-mais-cafona-veja-o-resultado-da-nossa-enquete/ https://vejasp.abril.com.br/blog/pop/mulheres-ricas-quem-e-a-mais-cafona-veja-o-resultado-da-nossa-enquete/ 68 que estava em isolamento e também não utilizou máscara de proteção ao conversar com Marcelo. Roda de Conversa: Caso 2: A família de Marcelo Autora: Ana Paula Andrade Piccini Fonte: Seguros Unimed. Disponível em: https://blog.segurosunimed.com.br/seguro-vida-familia/ Marcelo mora em um município pequeno, no interior de São Paulo, há cerca de 10 anos. Ele é casado com Júlia e juntos são pais de 2 crianças. Júlia é funcionária pública municipal e atua como recepcionista em uma UBS do município. Sempre expressou preocupação com a saúde dos seus familiares, nunca deixando de tomar todas as medidas necessárias para evitar a disseminação da COVID-19. Por esse motivo, ficou muito preocupada quando seu marido começou a apresentar sintomas leves da doença. Febre no fim da tarde, dor de garganta e tosse. Marcelo foi atendido no Pronto Atendimento municipal, porém foi liberado após avaliação com um diagnóstico de “virose”. Júlia, muito preocupada, chegou a conversar com seus colegas de trabalho da UBS, conseguindo assim uma nova avaliação. Marcelo coletou o swab nasal e foi orientado a permanecer em isolamento. Alguns dias após, o resultado positivo para COVID-19 do exame de Marcelo foi liberado e entregue para a família. 69 Roda de Conversa: Caso 3: A perfeição da saúde de Facebook Autora: Ana Paula Andrade Piccini Fonte: SINDESC Curitiba-PR. Disponível em: http://www.sindescsaude.com.br/casos-de-sindrome-de-burnout-entre- profissionais-da-saude-dispararam-durante-pandemia/ Catarina é auxiliar de enfermagem e servidora pública municipal da prefeitura de um município no interior de São Paulo, há mais de 15 anos. Trabalha no Pronto Atendimento Municipal e gosta muito do que faz. O trabalho no município nunca foi fácil; há anos os profissionais apresentavam desmotivação, cansaço extremo, além de não terem mais direitos mínimos, como o abono que recebiam, assegurados. Com a pandemia do novo coronavírus, a situação piorou. A crise sucateou ainda mais os serviços de saúde. No Pronto Atendimento que trabalha, assume os plantões sempre com a equipe reduzida e médicos inexperientes. Além disso, os únicos profissionais fixos são os servidores públicos; devido à instabilidade da gestão municipal em saúde, profissionais bons desistem de permanecer no município. Porém, mesmo assim, as redes sociais da prefeitura mostram uma saúde muito diferente daquela que Catarina conhece. Catarina ama o que faz e mesmo cansada dá o seu melhor todos os plantões. Em uma noite domingo, foi informada que o oxigênio da unidade havia acabado; a equipe ficou tensa. Tentaram contato com o responsável imediato, sem sucesso. Não demorou muito para ouvirem a sirene do SAMU. Quando a porta se abriu, era Marcelo em insuficiência respiratória. Evoluiu para intubação orotraqueal, mas sem o suporte de oxigênio acabou não resistindo e faleceu 15 minutos depois. http://www.sindescsaude.com.br/casos-de-sindrome-de-burnout-entre-profissionais-da-saude-dispararam-durante-pandemia/ http://www.sindescsaude.com.br/casos-de-sindrome-de-burnout-entre-profissionais-da-saude-dispararam-durante-pandemia/ 70 APÊNDICE 4 Tabela de Análise de Dados da Primeira Fase da pesquisa – Categorização dos temas e subtemas TEMA 1: Percepção e fatores determinantes e consequentes da pandemia do coronavírus (COVID-19) Subtema A: Negacionismo, Fake News e Influência da Mídia Participante Unidades de Registro Participante 1 UR1: “(...) ninguém sabia nada por mais PHD, com experiência, com campo.” Participante 1 UR2: “Porque, a princípio, ela era uma gripezinha, né?” Participante 1 UR4: “(...) a Angela, ela não teve essa dimensão ainda de ver, entendeu? Porque assim não que ela era, vamos pôr aqui que nem o texto tá falando, uma deslumbrada, é, não é tão fácil de atentar, entendeu?” Participante 1 UR7: “(...) a gente não sabe ainda a maneira desse contágio...” Participante 1 UR8: “É claro que essas medidas são importantes, porém a gente não tem muita resposta.” Participante 1 UR9: “Por isso que tem muitas instruções quanto a isso, de economia, essas coisas, porém ainda tem muita resposta, ainda tem muita pesquisa pra gente ter mais uma certeza.” Participante 1 UR13: “A gente teve muitas questões políticas em cima disso.” Participante 1 UR17: “O cenário político tá atrapalhando muito, a ciência tá brigando com a política...” Participante 1 UR18: “A ciência não é muito comum no meio da gente, né? A gente não, não é todo mundo que vai pro meio da ciência.” Participante 1 UR19: “Hoje eu tenho que ouvir de profissionais, relatos de profissionais da área da saúde, “eu não vou tomar coronavac”, gente! A gente toma desde que a gente nasceu!” Participante 1 UR20: “Então, a Angela ela tá, uma pessoa que tá desconhecida, ela tá deslumbrada porque a doença ainda não chegou na casa dela, entendeu?” Participante 4 UR39: “Quantas pessoas mesmo com a vacina também não vieram à óbito, né...” Participante 5 UR40: “Ela está naquele meio lá das pessoas que subestimam a doença.” Participante 5 UR41: “...desde o início ela já foi subestimada, porque como é um vírus desconhecido...” Participante 5 UR42: “no início era só uma dorzinha de cabeça, outros só uma gripezinha.” Participante 5 UR45: “Mas eu acho que não é só o consumismo, em se tratando do dinheiro, tem o consumismo aí da vaidade, da auto suficiência, não vai acontecer isso comigo...” Participante 6 UR48: pra maioria, 90% da população, covid não existe mais...” Participante 1 UR52: “Quando a gente fala assim da economia, a mídia, ela tá muito focada na economia, é isso que eu tô falando, a ciência tá brigandocom a mídia, e a política, então tem como desvincular.” Participante 1 UR54: a mídia não tá muito divulgando, a mídia não tá dando muito essas normas de segurança, você só escuta assim, usar máscara, aí você olha lá o metrô lotado, não tem medida de segurança em nenhum lugar” Participante 1 UR55: “então a mídia ela não tá muito preocupada com essas medidas sanitárias.” Participante 1 UR56: “A gente é a mídia, a gente é a saúde, a gente é a política, não tem como desvincular da política.” 71 Subtema B: Incapacidade de tomada de decisões durante a pandemia Subtema C: Desigualdade social e de classes como determinante dos impactos, reações e vivências distintas no enfrentamento da pandemia Participante 1 UR59: “Na mídia é pouca gente que tem acesso a essa informação...” Participante 2 UR64: “E os fake News, né?” Participante 3 UR72: “Na mídia ás vezes mostra aquilo que tá acontecendo, a questão do metrô, os metros lotados, trens, ônibus, enfim, quem são os responsáveis por isso? Quem deve ser cobrado por isso? Quem deve ser cobrado pela situação estar do jeito que está?” Participante 5 UR75: “Eu acho que a gente tá vivendo uma terceira guerra mundial, uma guerra biológica. O pessoal fala, fala, fala, não tem muita diferença.” Participante 5 UR77: “A mídia tá lá fazendo o trabalho que ela acha certo, mas enquanto eles estiverem lá em cima brincando de gato e rato (impossível de ouvir...), vem as verbas... vem as verbas...” Participante 6 UR81: “E aí é que é a nossa diferença, né? A gente que tá na saúde, eu também achava que nã era assim até começar a trabalhar dentro de um hospital.” Frequência: 27 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR3: (...) Momento tardio para lidar com a importância para uma doença.” Participante 1 UR15: “É talvez faltou assim, investimento, pra vacina..” Participante 3 UR30: “(...) a gente já tem aí um histórico de pandemias, né, e aí com a pandemia a gente começa a refletir, o que que eu tenho feito? Participante 3 UR31: A gente tem uma cultura de que a gente terceiriza a questão da saúde, né...” Participante 3 UR32: “Como a gente não conseguiu prever isso? Essas medidas todas...” Participante 3 UR33: “a gente já deveria estar trabalhando nisso, quando falamos de prevenção da saúde, a gente fala tanto disso, defende tanto isso, mas a gente pratica isso na nossa vida? Participante 5 UR76: aí eu fico olhando aquele povo lá em cima, lá em Brasília, brigando entre si. Participante 2 UR104: “Faltou socorro pra ele.” Participante 2 UR105: “Faltou motivação sim, porque não existe só o pessoal de fora, tem os que estão dentro, né? E no fim tá todo mundo quase no mesmo barco, né? Assim, imóvel, né?” Participante 3 UR110: “Por que quem será que é o responsável por tudo isso que aconteceu? Existe um sujeito culpado? Será?” Participante 3 UR161: “Tudo isso que tá acontecendo é a forma que vocês estão levando, conduzindo a saúde no município..” Participante 3 UR162: “(A cidade) já é assim, ela é vista assim, vamos pra lá que lá o negócio é bagunçado. Lá ninguém faz nada...” Frequência: 12 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR6: “(...) então eu até nem critico muito a Angela aqui, porque até, não chegou na família dela, né?” Participante 1 UR20: “Então, a Angela ela tá, uma pessoa que tá desconhecida, ela tá 72 Subtema D: Importância da ciência e da vacina durante a pandemia Subtema E: Reconhecimento da importância de políticas públicas de saúde efetivas para a garantia do acesso e melhores condições de vida e saúde deslumbrada porque a doença ainda não chegou na casa dela, entendeu?” Participante 1 UR22: “então a Angela, essa vida de luxo, pelo consumismo, ela não tá tendo empatia com o próximo” Participante 5 UR44: “(...) eu acho que ela se acha Deus, que ela é intocável, que ela não ia pegar, que ela tem dinheiro, sei lá, pensa por esse lado, as pessoas que têm dinheiro, acham que estão imunes...” Participante 1 UR53: “Só que o pedreiro, ele tem que levar comida pra casa, o empresário, ele tem a empresa lá, não, a minha empresa tá segura, entendeu?” Participante 2 UR63: “O que era leve pra Angela, pro Marcelo não foi tão leve, né?” Participante 3 UR65: “(...) a Angela, ela tinha um outro mundo, né, uma outra visão, uma outra realidade, então pra ela era realmente uma gripezinha porque ela não sabia a dimensão...” Participante 3 UR68: “Você vê, uma pessoa que tem menos acesso a grandes, uma Angela da vida, ela tem acesso aos melhores hospitais, aos melhores...” Participante 1 UR95: “(...) o mundo tá acabando, as pessoas estão morrendo e ela não tá, ela tá querendo consumir, ela tá nessa ideia do consumismo, né, da economia, do sapato novo, do carro do ano...” Participante 3 UR111: “Tem a questão da desigualdade, de um lado temos uma madame, que, né, que querendo ou não, não precisaria estar saindo e casa pra se expor e expor o outro ao perigo, de outro lado temos um trabalhador que tecnicamente falando deveria estar em isolamento social, no meio de uma pandemia, porém ele precisa trabalhar pra sustentar sua família” Participante 3 UR112: “O sistema não permite que ele fique em casa.” Frequência: 11 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR10: “Eu valorizo muito pesquisas, porque essa teoria a gente já tem, desde que a gente nasce, ela tem uma solução, a vacina.” Participante 1 UR16: “Teve já um momento pandêmico (...) que foi combatido com vacina.” Participante 2 UR26: “Os cientistas logo detectaram o vírus né, e por ele ser um vírus...” Participante 2 UR27: “Então tinha recomendações, precauções, né, de como evitar o contágio.” Participante 2 UR28: “Porque antes da vacina não era possível imunidade de rebanho, né? Não teve imunidade de rebanho.” Participante 3 UR35: ““Na verdade a forma de contágio, ela já foi provada, né? É um vírus.” Participante 3 UR36: “É que a vacina, ela não protege 100%, né, ela diminui a chance de você desenvolver a doença.” Frequência: 7 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR11: “E a gente tem também o saneamento básico, e aí entram as questões das políticas, a gente tem o saneamento básico...” Participante 1 UR12: “A gente tem tudo para evitar várias doenças e não só a covid, então isso é fundamental, correto, a partir da prevenção a gente tem responsabilidade de 73 Subtema F: Modo de produção capitalista como responsável pelo surgimento de doenças Subtema G: Individualismo como agravante durante o manejo da pandemia saúde.” Participante 1 UR14: “Os locais, que ela, a doença enraizou mais, se você for ver, são as cidades que não tem saneamento básico, as cidades mais precárias...” Participante 6 UR46: “Eu acho que é que nem ela falou, se a cultura em si, tivesse esses costumes, talvez muitas coisas, a gente deveria, muitas bactérias, muitas pandemias, a gente teria evitado...” Participante 6 UR47: “Não é política nem nada, gente, é conscientização, se a gente tivesse isso de anos, uma cultura, teria evitado, gente.” Participante 3 UR66: “E aí tem a esposa do Marcelo, que é uma pessoa mais simples porém ela vivia uma outra realidade, ela trabalhava em uma unidade básica de saúde, ou seja, ela tinha mais acesso.” Participante 3 UR67: “O quanto é importante trabalhar cada vez mais as políticas públicas de saúde, prevenção, porque você vê, não tem nada a ver com poder aquisitivo, a gente tá falando aqui de medidas simples, de conscientização.” Participante 3 UR73: “A gente precisa falar mais sobre isso e até levantar hipótese, a gente como é um município pequeno, a gente tem que levantar estratégias pra fazer estratégias aqui dentro né de melhoria.” Frequência: 8 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR5: “(...) junto com ela várias outras doenças estão sendo desenvolvidas com a covid também.” Participante 1 UR23: “O homem cria, né, a doença.” Participante 1 UR24:“Alguma coisa trazida de algum lugar que o homem explorou, porque o homem gosta tanto de explorar, voltado só pra economia, voltado só pro crescimento.” Participante 1 UR25: “Então o homem, acho que o primeiro vídeo ele pontuou bem, ele vem crescendo, crescendo, crescendo, ele não tá olhando pra trás...” Participante 3 UR29: “Isso é uma tragédia anunciada”. Participante 3 UR30: “(...) a gente já tem aí um histórico de pandemias, né, e aí com a pandemia a gente começa a refletir, o que que eu tenho feito?” Participante 3 UR38: “Eu acho que o consumismo, né, ele é exacerbado, você utiliza mais do que você realmente necessita, é aí...” Participante 6 UR50: “Isso tá totalmente ligado com a covid, é uma coisa que querendo ou não, a gente não vai conseguir, como que se diz, de manipular, essa causa do consumismo.” Participante 3 UR113: “Eu acho que é o sistema como um todo. O nosso sistema tá levando a isso. É a realidade em que a gente vive.” Participante 3 UR114: “Eu acho que o grande, se existe algum sujeito, ou um culpado, é o próprio sistema que a gente tem hoje” Frequência: 10 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR4: “(...) a Angela, ela não teve essa dimensão ainda de ver, entendeu? Porque 74 Subtema H: Entendimento da importância da responsabilidade coletiva para a saúde Subtema I: Impacto da crise econômica evidenciada pela pandemia assim não que ela era, vamos pôr aqui que nem o texto tá falando, uma deslumbrada, é, não é tão fácil de atentar, entendeu?” Participante 1 UR21: “É uma doença que você atinge o próximo sem você nem perceber (...)” Participante 1 UR22: “(...) então a Angela, essa vida de luxo, pelo consumismo, ela não tá tendo empatia com o próximo.” Participante 3 UR33: “A gente já deveria estar trabalhando nisso, quando falamos de prevenção da saúde, a gente fala tanto disso, defende tanto isso, mas a gente pratica isso na nossa vida?” Participante 3 UR37: “ (...) nós temos uma cultura de não responsabilidade com a nossa saúde, e a gente tem uma cultura do consumismo, né, então juntam as duas...” Participante 5 UR43: “O povo já se acostumou, eu acho.” Participante 5 UR44: “(...) eu acho que ela se acha deus, que ela é intocável, que ela não ia pegar, que ela tem dinheiro, sei lá, pensa por esse lado, as pessoas que têm dinheiro, acham que estão imunes...” Participante 5 UR45: “Mas eu acho que não é só o consumismo, em se tratando do dinheiro, tem o consumismo aí da vaidade, da autossuficiência, não vai acontecer isso comigo...” Participante 6 UR49: “As pessoas estão querendo gastar, gastar, gastar, e quanto mais você fica em casa mais você gasta em forma de comida, luz, água, aluguel, e tudo mais...” Participante 6 UR50: “Isso tá totalmente ligado com a covid, é uma coisa que querendo ou não, a gente não vai conseguir, como que se diz, de manipular, essa causa do consumismo.” Participante 6 UR95: “O mundo tá acabando, as pessoas estão morrendo e ela não tá, ela tá querendo consumir, ela tá nessa ideia do consumismo, né, da economia, do sapato novo, do carro do ano...” Frequência: 11 Participante Unidades de Registro Participante 3 UR34: “Então eu acho que tudo isso traz uma reflexão da responsabilidade que a gente tem enquanto ser humano e da responsabilidade que a gente tem com a própria saúde...” Participante 6 UR46: “Eu acho que é que nem ela falou, se a cultura em si, tivesse esses costumes, talvez muitas coisas, a gente deveria, muitas bactérias, muitas pandemias, a gente teria evitado...” Participante 6 UR47: “Não é política nem nada, gente, é conscientização, se a gente tivesse isso de anos, uma cultura, teria evitado, gente.” Frequência: 3 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR51: “O começo da covid, o estoque de papel higiênico acabou, o arroz, o leite, é o que eu falo, anda junto com a economia...” Participante 1 UR52: “Quando a gente fala assim da economia, a mídia, ela tá muito focada na economia, é isso que eu tô falando, a ciência tá brigando com a mídia, e a política, então tem como desvincular.” Frequência: 2 75 Subtema J: Constatação da importância da política para transformar a sociedade Subtema K: Instrumentos e limitações da democracia neoliberal de manipulação econômica e política para a classe trabalhadora da saúde Participante Unidades de Registro Participante 1 UR56: “A gente é a mídia, a gente é a saúde, a gente é a política, não tem como desvincular da política.” Participante 1 UR57: “O que a covid tá discutindo lá reflete no município, reflete na nossa saúde e no SUS.” Participante 1 UR58: “A política, ela não é negativa, a gente não pode entender assim, ai, a política é tudo política, não, a política é positiva.” Participante 1 UR60: “A gente ver o que que é que eles estão determinando, aqueles deputados, trezentos e poucos deputados, novecentos e poucos deputados, o presidente, eles estão falando sobre a nossa saúde, sobre o nosso SUS, sobre a nossa local, sobre a nossa cidade...” Participante 1 UR61: “O povo é soberano, quando o povo é a soberania, isso é estudado, assim, em ciência e política, quem põe e quem tira é nós...” Participante 1 UR62: “A gente também tem que ir atrás da informação pra pode trazer e enraizar no nosso local, a gente também não pode ficar, ah, mas ninguém fez, não, a gente tem que cobrar, entendeu?” Participante 5 UR78: “A nossa vida é política.” Participante 5 UR79: “Tem a política e a politicagem, né? A política, isso tudo é política, a gente tem que ter educação política, se não a gente perder, o que que acontece?” Participante 1 UR103: “Tudo pode tá ligado à política, à economia, tem a saúde do trabalhador, a saúde do município, não pode ser passada despercebida.” Participante 2 UR106: “É a melhoria mesmo. O que é melhor pra minoria, mesmo, né, porque pra maioria não é.” Participante 3 UR109: “(...) então o que a gente pode fazer diante do que eu tenho pra que a gente continua, é me apegar àquilo que eu acredito que é certo.” Frequência: 11 Participante Unidades de Registro Participante 3 UR70: “O que você tá fazendo? Quando você tem a oportunidade, você se manifesta? Você procura saber o que tá acontecendo? (...)a gente fala muito de mudança, a gente quer a mudança, mas a gente tá colocando essa mudança na mão de quem?” Participante 3 UR72: “A mídia ás vezes mostra aquilo que tá acontecendo, a questão do metrô, os metros lotados, trens, ônibus, enfim, quem são os responsáveis por isso? Quem deve ser cobrado por isso? Quem deve ser cobrado pela situação estar do jeito que está?” Participante 5 UR76: “(...) aí eu fico olhando aquele povo lá em cima, lá em Brasília, brigando entre si.” Participante 5 UR77: “A mídia tá lá fazendo o trabalho que ela acha certo, mas enquanto eles estiverem lá em cima brincando de gato e rato (impossível de ouvir...), vem as verbas... vem as verbas...” Participante 5 UR80: “Ah são eles que estão dirigindo (...) O Brasil, a câmara dos deputados, o poder executivo...” Participante 2 UR106: “É a melhoria mesmo. O que é melhor pra minoria, mesmo, né, porque 76 TEMA 2: Processo de Trabalho e Gestão em Saúde Subtema A: Desmotivação, desumanização e/ou desvalorização dos trabalhadores da saúde para o exercício profissional pra maioria não é.” Participante 3 UR107: “Aqui a politicagem falou, fala mais alto que qualquer outra situação, né...” Participante 3 UR112: “O sistema não permite que ele fique em casa.” Participante 3 UR113: “Eu acho que é o sistema como um todo. O nosso sistema tá levando a isso. É a realidade em que a gente vive.” Participante 3 UR114: “(...) Eu acho que o grande, se existe algum sujeito, ou um culpado, é o próprio sistema que a gente tem hoje.” Participante 3 UR115: “A sensação que eu tenho é que de que a coisa quanto mais errada melhor é (...) para entre aspas os poderosos.” Participante 1 UR129: “Os contratosmilionários e nós?” Participante 1 UR130: “Não é tão simples você mexer com corrupção, não é tão simples você, se fosse gritar era mais fácil, pra você combater uma corrupção e uma coisa que é muita enraizada...” Participante 1 UR131: “A gente vê os vereadores e o prefeito, mas a gente não vê quem tá por trás deles, quem financiou eles, tem outra parte oculta que a gente não conhece, então tem interesses, muitos interesses.” Participante 3 UR154: “Ah, mas todo ano eles vêm e fazem promessa, é igual político, todo ano eles passam na casa da gente, passa? Passa, pedindo voto, não sei o quê, aí não acontece nada, mesma coisa acontece com a gente da saúde, vem com uma proposta e nada, toda vez, aí acabou.” Participante 3 UR157: “Pra eles é bom que o servidor desista e vá embora. Você entendeu?” Participante 3 UR162: “(A cidade) já é assim, ela é vista assim, vamos pra lá que lá o negócio é bagunçado. Lá ninguém faz nada...” Participante 3 UR166: “Essa organização criminosa toda, vamos dizer assim, eles conseguem persuadir até nós que somos maioria.” Participante 3 UR175: “Não tem democracia.” Participante 5 UR185: “Porque na cabeça deles é assim, eu sou funcionária pública, eu vou tirar todos os recursos, tá insatisfeito? Pede exoneração. E aí a gente fica quieto e aceita, né?” Participante 5 UR186: “E quando eles induzem os pacientes a desrespeitar a gente?” Participante 5 UR190: “Tá cheio de gente aí ganhando dinheiro, cabide de emprego, tem muito...” Participante 6 UR193: “Porque os outros quer, como disse ontem, as pessoas propõem pra gente, a gente diz que tudo bem e a gente se acomoda naquela situação.” Frequência : 24 Participante Unidades de Registro Participante 3 UR69: aqui nós temos a gestão em saúde e eu vou dar a saúde como exemplo porque é onde a gente tá inserido (... )poxa, tá tudo errado, todo mundo insatisfeito, não tá legal do jeito que as coisas estão indo, entra OS, sai OS e continua a mesma coisa...” Participante 1 UR84: aí eu volto naquela frase, porque hoje, que nem ela falou, o que que eu tô fazendo, eu acordo todos os dias, desmotivadíssima 77 Subtema B: Gestão municipal ineficiente e Interferência negativa de organizações sociais da saúde atuando em serviços públicos de saúde Participante 1 UR96: o nosso local de trabalho, ele tem que ser saudável, quando a desmotivação acontece, já não tá saudável, se eu sinto a vontade de não ir trabalhar, já não é saudável, então assim, é a saúde, entendeu, o principal é a saúde.” Participante 1 UR99: não tem muito essas respostas assim, uma pessoa assim mais preocupada, se ela tá trabalhando em excesso...” Participante 3 UR108: porque nós temos aí, né, mil razões, mil razões pra nos desmotivar, o cenário não tá ajudando muito, e eu falei, eu preciso continuar trabalhando, eu preciso continuar fazendo aquilo que eu acredito, então, onde que eu vou buscar motivação” Participante 1 UR120: “Mas a força, o servidor público, ele não é valorizado, ele não é enxergado, né?” Participante 1 UR128: Quer ver, quando foi a última vez que tivemos aumento? Quando foi a última vez que deram aumento pra todos os servidores? Né, nós não tivemos há anos, mas peraí, a arrecadação não caiu, o PIB, (o município) ainda tem uma arrecadação...” Participante 1 UR129: “Os contratos milionários e nós?” Participante 3 UR151: “Quanto tempo que a gente vive nessa infelicidade, a gente vive nessa coisa da gente reclamar da questão da saúde, quantos anos que a gente tá assim?” Participante 3 UR156: “As pessoas vão se incomodando com as situações e vão caindo fora, entendeu?” Participante 3 UR167: Acho que subestima a nossa capacidade.” UR176: “Vocês falam de humanização da assistência da saúde, mas o que é humanizar?” Participante 3 UR177: Existe uma diferença entre humanização e politicagem, né? E, assim, querem o apoio dos funcionários da saúde mas não dão autonomia...” Participante 3 UR178: “A gente briga por autonomia, a gente briga por valorização e a gente mesmo não se valoriza...” Participante 5 UR186: “E quando eles induzem os pacientes a desrespeitar a gente?” Participante 5 UR188: “Quem sente na pele é a gente, né?” Participante 3 UR192: “Porque daqui a pouco eles estão entrando até nos nossos atendimentos, dizendo como que a gente tem que atender.” Frequência: 17 Participante Unidades de Registro Participante 3 UR69: “Aqui nós temos a gestão em saúde e eu vou dar a saúde como exemplo porque é onde a gente tá inserido (...) poxa, tá tudo errado, todo mundo insatisfeito, não tá legal do jeito que as coisas estão indo, entra OSS, sai OSS e continua a mesma coisa...” Participante 1 UR93: Uma terceirizada, ela vem já com uma proposta, ela já tem um número, ela já tem aquele procedimento, mecânico.” Participante 1 UR99: “Não tem muito essas respostas assim, uma pessoa assim mais preocupada, se ela tá trabalhando em excesso...” Participante 2 UR104: “Faltou socorro pra ele.” 78 Subtema C: Ausência de participação dos trabalhadores da saúde na tomada de decisões Participante 2 UR105: “Faltou motivação sim, porque não existe só o pessoal de fora, tem os que estão dentro, né? E no fim tá todo mundo quase no mesmo barco, né? Assim, imóvel, né?” Participante 3 UR107: “Aqui a politicagem falou, fala mais alto que qualquer outra situação, né...” Participante 3 UR108: “Porque nós temos aí, né, mil razões, mil razões pra nos desmotivar, o cenário não tá ajudando muito, e eu falei, eu preciso continuar trabalhando, eu preciso continuar fazendo aquilo que eu acredito, então, onde que eu vou buscar motivação.” Participante 3 UR110: “Por que quem será que é o responsável por tudo isso que aconteceu? Existe um sujeito culpado? Será?” Participante 1 UR124: “É, eu tenho os meus direitos e os meus deveres, porém eles não estão cumprindo os deveres deles, né?” Participante 1 UR125: “A gente tem que lembrar que tem a corrupção também, né, a gente vai brigar contra a corrupção.” Participante 1 UR127: “Um momento tão delicado pro município, poderia convocar uma extraordinária pra ver quem vai entrar, quem vai sair, quem tá assumindo…” Participante 1 UR128: “Quer ver, quando foi a última vez que tivemos aumento? Quando foi a última vez que deram aumento pra todos os servidores? Né, nós não tivemos há anos, mas peraí, a arrecadação não caiu, o PIB, (o município) ainda tem uma arrecadação...” Participante 1 UR129: “Os contratos milionários e nós?” Participante 3 UR145: “Eu acho que falta organização. O que me incomoda é a velha e boa questão do organograma. Quem é responsável pelo quê.” Participante 3 UR155: “Então eu acho que a gente já esperou tempo suficiente, né? Pra gestão tomar atitude...” Participante 3 UR157: “Pra eles é bom que o servidor desista e vá embora. Você entendeu?” Participante 3 UR161: “Tudo isso que tá acontecendo é a forma que vocês estão levando, conduzindo a saúde no município..” Participante 3 UR162: “(A cidade) já é assim, ela é vista assim, vamos pra lá que lá o negócio é bagunçado. Lá ninguém faz nada...” Participante 3 UR167: “Acho que subestima a nossa capacidade.” Participante 3 UR168: “Parece que, gente, de verdade, uma bola de neve, a gente não sai disso, sabe areia movediça, não sai disso, entra gestão, sai gestão e a gente tá sempre fazendo a mesma coisa.” Participante 1 UR182: “A gente tem que se doar 100% pra poder ver se consegue 60% de um bom atendimento.” Participante 5 UR186: “E quando eles induzem os pacientes a desrespeitar a gente?” Participante 5 UR190: “Tá cheio de gente aí ganhando dinheiro, cabide de emprego, tem muito...” Participante 5 UR192: “Porque daqui a pouco eles estão entrando até nos nossos atendimentos, dizendo como que a gente tem que atender.” Frequência: 24 Participante Unidades de Registro Participante 3 UR70: “O que você tá fazendo? Quando você tem a oportunidade, você se manifesta? Vocêprocura saber o que tá acontecendo? (...)a gente fala muito de 79 Subtema D: Importância de organização coletiva para as transformações na saúde pública municipal mudança, a gente quer a mudança, mas a gente tá colocando essa mudança na mão de quem?” Participante 1 UR87: “Ás vezes você não tem voz. Eu acho que, assim, o faxineiro tem voz, o prefeito, o diretor, o técnico, ou seja quem for, tem voz.” Participante 1 UR90: “Tem gente que não sabe nem que a gente tem o nosso estatuto.” Participante 1 UR97: “É, falta união, né? Falta união. Falta união da equipe, união pro bem comum.” Participante 1 UR127: “Um momento tão delicado pro município, poderia convocar uma extraordinária pra ver quem vai entrar, quem vai sair, quem tá assumindo…” Participante 3 UR151: “Quanto tempo que a gente vive nessa infelicidade, a gente vive nessa coisa da gente reclamar da questão da saúde, quantos anos que a gente tá assim?” Participante 3 UR156: “As pessoas vão se incomodando com as situações e vão caindo fora, entendeu?” Participante 3 UR163: “Mas acontecem porque a gente não tá organizado. A gente não se organiza.” Participante 3 UR169: “Porque as pessoas não se organizam.” Participante 5 UR184: “Comunicação é muito prejudicada, é o que mais atrapalha.” Participante 6 UR193: “Porque os outros quer, como disse ontem, as pessoas propõem pra gente, a gente diz que tudo bem e a gente se acomoda naquela situação.” Frequência : 11 Participante Unidades de Registro Participante 3 UR70: O que você tá fazendo? Quando você tem a oportunidade, você se manifesta? Você procura saber o que tá acontecendo? (...)a gente fala muito de mudança, a gente quer a mudança, mas a gente tá colocando essa mudança na mão de quem? Participante 3 UR71: “Não pode ser uma ação individual, tem que ser uma ação coletiva.” Participante 3 UR73: a gente precisa falar mais sobre isso e até levantar hipótese, a gente como é um município pequeno, a gente tem que levantar estratégias pra fazer estratégias aqui dentro né de melhoria.” Participante 3 UR74: Esse é um exemplo, qual é a nossa participação, o que que é que a gente pode fazer naquele local que a gente for, quero dizer isso como um todo, aonde eu vou, posso fazer diferença aqui, ali...” Participante 1 UR89: não tem um apoio aos servidores públicos no município, pra gente poder expor e colocar os nossos anseios, as nossas dúvidas...” Participante 1 UR100: “agora se juntar, aí a força, aí cai no que você falou, são meia dúzias, mas entendeu? Então eu acho que por isso era bom, assim, ter, todo mundo falar a mesma linguagem.” Participante 1 UR101: Então eu acho que por isso era bom, assim, ter, todo mundo falar a mesma linguagem, dependente do, aí, eu não vou com a cara daquela menina, mas o que ela falou faz diferença, vamos juntar, então eu acho que dá força. Porque aí muda, se você não juntar...” Participante 1 UR102: “Que pena que não tem as pessoas que deveriam estar aqui pra ouvir, pra entender a situação, porque não é uma coisa simples, é uma coisa que faz muita diferença..” 80 Participante 2 UR106: É a melhoria mesmo. O que é melhor pra minoria, mesmo, né, porque pra maioria não é.” Participante 5 UR116: “Eu lembro da história da barilha. Uma só barilha e fácil de quebrar, mas se juntar um feixe alguém pode até suar, né?” Participante 1 UR119: “Temos que fazer um grupo porque daí junta, né?” Participante 1 UR121: “Sim, as enfermeiras, recepcionistas, as técnicas, a enfermagem é assim gente, por blocos, cada uma aí junta os anseios, com o que acha e não acha, e depois faz uma... porque se não se unir, assim, meia dúzia falar, cai no que ela tá falando...” Participante 1 UR122: “A gente tem que bagunçar pra eles verem que, opa, elas estão vendo, elas estão falando, tem fundamento, por isso que eu falo das leis, tem que chegar e falar com fundamento, porque falar, falar de atendimento, eles só querem o imediatismo, ali, hoje, o dia passou, a coisa é outra, mas quando começar a cutucar na lei, na coisa que é o direito mesmo, porque nós não temos essa...” Participante 1 UR123: “A gente tem que levantar uma bandeira do servidor público municipal (…), tem que levantar essa bandeira, gente, passou da hora.” Participante 1 UR124: “É, eu tenho os meus direitos e os meus deveres, porém eles não estão cumprindo os deveres deles, né?” Participante 1 UR133: “Porque pra não assustar a gente pode fazer assim, uma roda de conversa pra sugerir uma comissão.” Participante 1 UR137: “Mas é o que a gente tá falando, a gente vai ter que criar essa comissão.” Participante 1 UR138: “Tem que ter esse comitê. É um jeito de falar, né, de ser ouvido.” Participante 1 UR141: “Daqui a pouco a gente vai ser convidada pra uma reunião na câmara, viu? Numero e partido.” Participante 1 UR142: “É um caminho muito legal, né? Porque é o anseio de muita gente. É que assim é o que a gente tá colocando, tem que ser bem colocado, pontuado, ser bem desenvolvido, pra não parecer uma questão de ficar ali só importunando, entendeu? Participante 1 UR143: “Tem que ter uma organização.” Participante 3 UR146: “Falta a gente abraçar mesmo a causa, sabe? Se organizar enquanto equipes, enquanto profissionais, profissionais mesmo de saúde, é...” Participante 3 UR147: “Então, a equipe é muito boa. Mas eu acho que falta essa questão da organização.” Participante 3 UR148: “A gente poderia melhorar a comunicação entre nós, porque fazendo isso já íamos mostrar a força que a gente tem.” Participante 3 UR149: “A gente poderia montar um grupo de, da equipe, expor a situação toda e a gente se organizar, mostrar que a gente tem essa força, porque se a gente ficar esperando vir lá de cima não vai vir de forma efetiva.” Participante 3 UR153: “Eu acho que primeira coisa, a gente tem que se organizar enquanto equipe. Mas se organizar de verdade, entendeu, vamos lá, gente, vamos se reunir, a pandemia tá aí mas a gente usa máscara, a gente precisa se organizar!” Participante 3 UR160: “A saúde é apartidária, nós fazemos saúde independente de quem quer que esteja, nós fazemos saúde...” Participante 3 UR170: “Nós vamos montar uma comissão primeiro. Tem que montar uma comissão.” Participante 3 UR171: “Meu sonho sempre foi uma comissão...” Participante 3 UR172: “Porque queremos melhorias. Melhorar esse cenário.” Participante 3 UR174: Essa comissão todos os municípios deveriam ter. Falta a gente se apoiar.” Participante 5 UR180: “A gente carrega a saúde nas costas. Todos nós.” 81 Subtema E: Incapacidade de controle social através do Conselho Municipal de Saúde Subtema F: Reprodução mecânica do trabalho em saúde Subtema G: Medo dos riscos durante o exercício profissional durante a pandemia e Processo de adoecimento dos trabalhadores da saúde Subtema H: Percepção da perda dos direitos do trabalhador e medo de represálias Participante 5 UR181: “Se a gente não se unir, se a gente não se doar, não funciona a saúde. Os protagonistas somos nós, nessa história toda. E ok.” Participante 5 UR191: Participação popular.” Participante 6 UR195: “A gente vai começar a tentar fazer diferente pra não desistir e conseguir ou a gente vai até o final? Ou a gente vai se acostumar mais uma vez com tudo? Porque se eu entrar eu não vou entrar pra perder, vou entrar pra fazer diferente.” Frequência: 35 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR88: “eu vejo que não tem um conselho municipal de saúde, pra debater, eu vejo que não tem audiências públicas.” Frequência : 1 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR91: “…tem muitas pessoas que não, é muito mecânico, entendeu” Participante 1 UR 93: Uma terceirizada, ela vem já com uma proposta, ela já tem um número, ela já tem aquele procedimento, mecânico.” Participante 1 UR94: Então mecânico é claro, mecânico às vezes é por estresse, por cansaço, por desmotivação, ele tem vários fatores.” Participante1 UR99: não tem muito essas respostas assim, uma pessoa assim mais preocupada, se ela tá trabalhando em excesso...” Participante 3 UR177: Existe uma diferença entre humanização e politicagem, né? E, assim, querem o apoio dos funcionários da saúde mas não dão autonomia...” Participante 6 UR193: “Porque os outros quer, como disse ontem, as pessoas propõem pra gente, a gente diz que tudo bem e a gente se acomoda naquela situação.” Frequência: 6 Participante Unidades de Registro Participante 6 UR82: O sofrimento da pessoa, eu vi, eu passei, eu sei, o medo que eu tenho, de eu, de mim, do meu filho pegar porque o meu filho, ele tem problema respiratório, eu também, o meu esposo...” Participante 1 UR96: o nosso local de trabalho, ele tem que ser saudável, quando a desmotivação acontece, já não tá saudável, se eu sinto a vontade de não ir trabalhar, já não é saudável, então assim, é a saúde, entendeu, o principal é a saúde.” Participante 1 UR99: não tem muito essas respostas assim, uma pessoa assim mais preocupada, se ela tá trabalhando em excesso...” Participante 1 UR134: “Gente, pra nossa saúde mental porque isso a gente não vai aguentar.” Participante 1 UR135: Isso afeta geral, gente, eu sou prova disso, não aguento mais tomar três remédios...” Frequência: 5 82 da gestão municipal Subtema I: Importância do servidor público para o exercício da cidadania Participante Unidades de Registro Participante 6 UR82: O sofrimento da pessoa, eu vi, eu passei, eu sei, o medo que eu tenho, de eu, de mim, do meu filho pegar porque o meu filho, ele tem problema respiratório, eu também, o meu esposo...” Participante 1 UR83: “É uma sucessão de direitos privados, direitos que a gente tem adquirido que foram tirados” Participante 1 UR90: tem gente que não sabe nem que a gente tem o nosso estatuto Participante 1 UR98: “eu quero falar assim de uma questão aí que você tá falando, na questão dos direitos do trabalhador” Participante 1 UR124: “É, eu tenho os meus direitos e os meus deveres, porém eles não estão cumprindo os deveres deles, né?” Participante 1 UR128: Quer ver, quando foi a última vez que tivemos aumento? Quando foi a última vez que deram aumento pra todos os servidores? Né, nós não tivemos há anos, mas peraí, a arrecadação não caiu, o PIB, (o município) ainda tem uma arrecadação...” Participante 1 UR129: “Os contratos milionários e nós?” Participante 3 UR158: “A gente tem muita, justificativa pra greve a gente tem muita, baciada assim...” Participante 4 UR179: “Eu acho, assim, por a gente ser contratadas, igual ela, coitada, ela é frente de trabalho, se de repente ela comentar algo, é rua.” Participante 5 UR188: “Quem sente na pele é a gente, né?” Participante 6 UR196: “Porque as pessoas têm medo também, gente, de colocar voz, de colocar, juntar, disso, porque a gente é contratado.” Frequência: 11 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR85: quando eu fui ser servidora, eu fui por vontade, eu queria muito ser servidora pública, porque eu cheguei aqui nessa cidade, era uma cidade muito carente, eu vi pessoas, assim, muito simples, e pessoas que não têm acesso à informação...” Participante 1 UR86: “Eu não tenho essa veia política, mas eu vi assim muito no sentido da parte social, sendo servidora pública eu estaria ali na linha de frente tentando, tendo acesso às pessoas e às famílias, então eu ia contribuir...” Participante 1 UR87: “Ás vezes você não tem voz. Eu acho que, assim, o faxineiro tem voz, o prefeito, o diretor, o técnico, ou seja quem for, tem voz” Participante 1 UR102: “Que pena que não tem as pessoas que deveriam estar aqui pra ouvir, pra entender a situação, porque não é uma coisa simples, é uma coisa que faz muita diferença..” Participante 3 UR108: porque nós temos aí, né, mil razões, mil razões pra nos desmotivar, o cenário não tá ajudando muito, e eu falei, eu preciso continuar trabalhando, eu preciso continuar fazendo aquilo que eu acredito, então, onde que eu vou buscar motivação” Participante 3 UR109: “então o que a gente pode fazer diante do que eu tenho pra que a gente continua, é me apegar àquilo que eu acredito que é certo.” 83 TEMA 3: Educação Política em Saúde Subtema A: Compreensão da importância da participação política ativa dos trabalhadores da saúde Participante 1 UR123: “A gente tem que levantar uma bandeira do servidor público municipal (…), tem que levantar essa bandeira, gente, passou da hora.” Participante 3 UR160: “A saúde é apartidária, nós fazemos saúde independente de quem quer que esteja, nós fazemos saúde...” Participante 3 UR172: “Porque queremos melhorias. Melhorar esse cenário.” Participante 3 UR174: Essa comissão todos os municípios deveriam ter. Falta a gente se apoiar.” Participante 5 UR183: Nós somos protagonistas dessa história.” Participante 5 UR189: “Eles sabem que nós somos técnicos e a gente vai ter responsabilidade.” Frequência : 12 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR92: “Ah, mas não vai mudar, ah mas então, se você sentar, se você posicionar, você fundamentar, você tiver uma, você fundamentar o que você tá falando muda. Eu acredito nisso, entendeu?” Participante 1 UR97: É, falta união, né? Falta união. Falta união da equipe, união pro bem comum. Participante 1 UR100: “agora se juntar, aí a força, aí cai no que você falou, são meia dúzias, mas entendeu? Então eu acho que por isso era bom, assim, ter, todo mundo falar a mesma linguagem.” Participante 1 UR101: Então eu acho que por isso era bom, assim, ter, todo mundo falar a mesma linguagem, dependente do, aí, eu não vou com a cara daquela menina, mas o que ela falou faz diferença, vamos juntar, então eu acho que dá força. Porque aí muda, se você não juntar...” Participante 1 UR102: “Que pena que não tem as pessoas que deveriam estar aqui pra ouvir, pra entender a situação, porque não é uma coisa simples, é uma coisa que faz muita diferença..” Participante 2 UR106: É a melhoria mesmo. O que é melhor pra minoria, mesmo, né, porque pra maioria não é.” Participante 5 UR116: “Eu lembro da história da barilha. Uma só barilha e fácil de quebrar, mas se juntar um feixe alguém pode até suar, né?” Participante 1 UR118: “Eu acho que se juntar, todo mundo em uma questão só, porque pelo que eu tô avaliando que vocês falam, vocês falam tudo do mesmo contexto, só que quem que passa isso? Como que vocês transmitem isso pra alguém? Ou fica só naquelas conversas de corredor? Será que alguém, assim, não adianta eu sair e tentar resolver a minha situação, né?” Participante 1 UR119: “Temos que fazer um grupo porque daí junta, né?” Participante 1 UR121: “Sim, as enfermeiras, recepcionistas, as técnicas, a enfermagem é assim gente, por blocos, cada uma aí junta os anseios, com o que acha e não acha, e depois faz uma... porque se não se unir, assim, meia dúzia falar, cai no que ela tá falando...” Participante 1 UR122: “A gente tem que bagunçar pra eles verem que, opa, elas estão vendo, elas estão falando, tem fundamento, por isso que eu falo das leis, tem que chegar e falar com fundamento, porque falar, falar de atendimento, eles só querem o imediatismo, ali, hoje, o dia passou, a coisa é outra, mas quando começar a 84 Subtema B: Falta de união/articulação da classe trabalhadora da saúde para transformações das políticas em saúde cutucar na lei, na coisa que é o direito mesmo, porque nós não temos essa...” Participante 1 UR123: “A gente tem que levantar uma bandeira do servidor público municipal (…), tem que levantar essa bandeira, gente, passou da hora.” Participante 1 UR133: “Porque pra não assustar a gente pode fazer assim, uma roda de conversa pra sugerir uma comissão.” Participante 1 UR137: “Mas é o que a gente tá falando, a gente vai ter que criar essa comissão.” Participante 1 UR138: “Tem que ter esse comitê. É um jeito de falar, né, de ser ouvido.” Participante1 UR139: “É um corpo técnico que a gente precisa.” Participante 1 UR140: “Mas aí, um corpo técnico, são pessoas que tem mais, porque assim, tem vários assuntos pra serem abordados, tem que montar uma estratégia, uma coisa muito bem colocada pra poder ser ouvido, senão parece que você tá só ali levantando cartaz, entendeu?” Participante 1 UR141: “Daqui a pouco a gente vai ser convidada pra uma reunião na câmara, viu? Numero e partido.” Participante 1 UR142: “É um caminho muito legal, né? Porque é o anseio de muita gente. É que assim é o que a gente tá colocando, tem que ser bem colocado, pontuado, ser bem desenvolvido, pra não parecer uma questão de ficar ali só importunando, entendeu? Participante 1 UR143: “Tem que ter uma organização.” Participante 3 UR147: “Então, a equipe é muito boa. Mas eu acho que falta essa questão da organização.” Participante 3 UR148: “A gente poderia melhorar a comunicação entre nós, porque fazendo isso já íamos mostrar a força que a gente tem.” Participante 3 UR149: “A gente poderia montar um grupo de, da equipe, expor a situação toda e a gente se organizar, mostrar que a gente tem essa força, porque se a gente ficar esperando vir lá de cima não vai vir de forma efetiva.” Participante 3 UR153: “Eu acho que primeira coisa, a gente tem que se organizar enquanto equipe. Mas se organizar de verdade, entendeu, vamos lá, gente, vamos se reunir, a pandemia tá aí mas a gente usa máscara, a gente precisa se organizar!” Participante 3 UR158: “A gente tem muita, justificativa pra greve a gente tem muita, baciada assim...” Participante 3 UR170: “Nós vamos montar uma comissão primeiro. Tem que montar uma comissão.” Participante 3 UR171: “Meu sonho sempre foi uma comissão...” Participante 3 UR172: “Porque queremos melhorias. Melhorar esse cenário.” Participante 3 UR174: Essa comissão todos os municípios deveriam ter. Falta a gente se apoiar.” Participante 5 UR180: “A gente carrega a saúde nas costas. Todos nós.” Participante 5 UR181: “Se a gente não se unir, se a gente não se doar, não funciona a saúde. Os protagonistas somos nós, nessa história toda. E ok.” Participante 5 UR191: Participação popular.” Participante 6 UR195: “A gente vai começar a tentar fazer diferente pra não desistir e conseguir ou a gente vai até o final? Ou a gente vai se acostumar mais uma vez com tudo? Porque se eu entrar eu não vou entrar pra perder, vou entrar pra fazer diferente.” Frequência : 33 Participante Unidades de Registro 85 Subtema C: Necessidade de fundamentação/educação política e Despolitização/desinformação das ideologias e processos que envolvem a luta de classes/revolução popular Participante 1 UR117: “Ninguém levantou uma bandeira mais direta, então, assim, fala-se muito e age-se pouco.” Participante 1 UR118: “Eu acho que se juntar, todo mundo em uma questão só, porque pelo que eu tô avaliando que vocês falam, vocês falam tudo do mesmo contexto, só que quem que passa isso? Como que vocês transmitem isso pra alguém? Ou fica só naquelas conversas de corredor? Será que alguém, assim, não adianta eu sair e tentar resolver a minha situação, né?” Participante 3 UR144: Falta comunicação.” Participante 3 UR145: “Eu acho que falta organização. O que me incomoda é a velha e boa questão do organograma. Quem é responsável pelo quê.” Participante 3 UR146: “Falta a gente abraçar mesmo a causa, sabe? Se organizar enquanto equipes, enquanto profissionais, profissionais mesmo de saúde, é...” Participante 3 UR147: “Então, a equipe é muito boa. Mas eu acho que falta essa questão da organização.” Participante 3 UR152: “Ai eu pergunto, que que a gente faz? E o que a gente feito pra mostrar a nossa força? Nada.” Participante 3 UR156: “As pessoas vão se incomodando com as situações e vão caindo fora, entendeu?” Participante 3 UR163: “Mas acontecem porque a gente não tá organizado. A gente não se organiza.” Participante 3 UR166: “Essa organização criminosa toda, vamos dizer assim, eles conseguem persuadir até nós que somos maioria.” Participante 3 UR169: “Porque as pessoas não se organizam.” Participante 3 UR184: “Comunicação é muito prejudicada, é o que mais atrapalha.” Frequência: 12 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR79: Tem a política e a politicagem, né? A política, isso tudo é política, a gente tem que ter educação política, se não a gente perder, o que que acontece? Participante 1 UR122: “A gente tem que bagunçar pra eles verem que, opa, elas estão vendo, elas estão falando, tem fundamento, por isso que eu falo das leis, tem que chegar e falar com fundamento, porque falar, falar de atendimento, eles só querem o imediatismo, ali, hoje, o dia passou, a coisa é outra, mas quando começar a cutucar na lei, na coisa que é o direito mesmo, porque nós não temos essa...” Participante 1 UR132: A gente precisa pra até mesmo funcionar, né? Mas não é militância (...) Não é comunismo.” Participante 1 UR139: “É um corpo técnico que a gente precisa.” Participante 1 UR140: “Mas aí, um corpo técnico, são pessoas que tem mais, porque assim, tem vários assuntos pra serem abordados, tem que montar uma estratégia, uma coisa muito bem colocada pra poder ser ouvido, senão parece que você tá só ali levantando cartaz, entendeu?” Participante 1 UR142: “É um caminho muito legal, né? Porque é o anseio de muita gente. É que assim é o que a gente tá colocando, tem que ser bem colocado, pontuado, ser bem desenvolvido, pra não parecer uma questão de ficar ali só importunando, entendeu? 86 Subtema D: Consciência de que a classe trabalhadora é composta por todos os profissionais que integram a saúde e sua essencialidade para a produção da saúde Subtema E: Entendimento de que as rodas de conversa já foram o início da organização coletiva necessária Subtema F: Movimento feminista/união das mulheres em organizações coletivas Participante 1 UR143: “Tem que ter uma organização.” Frequência : 7 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR126: “Mas quando você cobra o seu vereador, seu prefeito, seu secretário, ele fica ali, opa se der uma greve aqui, se parar o PA aqui, eu não tenho funcionário.” Participante 3 UR150: “E nós somos a maioria!” Participante 3 UR158: “A gente tem muita, justificativa pra greve a gente tem muita, baciada assim...” Participante 3 UR159: não existe saúde sem funcionário. UR160: “A saúde é apartidária, nós fazemos saúde independente de quem quer que esteja, nós fazemos saúde...” Participante 3 UR164: “GREVE” Participante 3 UR165: “Porque independe se o profissional é contratado, tá todo mundo envolvido no serviço da saúde, eu acho assim, porque o funcionário público, ele tem mais força no sentido de que ele é funcionário público, tem ali essa questão da segurança, mas tem que inserir pessoas também.” Participante 5 UR180: “A gente carrega a saúde nas costas. Todos nós.” Participante 5 UR181: “Se a gente não se unir, se a gente não se doar, não funciona a saúde. Os protagonistas somos nós, nessa história toda. E ok.” Participante 5 UR183: Nós somos protagonistas dessa história.” Participante 5 UR187: “Basta uma de nós, eu, você, não comparecer um dia pra você ver.” Participante 5 UR189: “Eles sabem que nós somos técnicos e a gente vai ter responsabilidade.” Participante 6 UR194: “Eles são a minoria e nós somos a maioria.” Frequência : 13 Participante Unidades de Registro Participante 3 UR166: “Essa organização criminosa toda, vamos dizer assim, eles conseguem persuadir até nós que somos maioria.” Participante 3 UR173: “Acho que a gente já deu o primeiro passo, né?” Frequência : 2 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR136: “As feministas do Brasil são bem ativas...” Participante 6 UR197: “Vai ser talvez um choque a mais se a gente conseguir balançar eles, porque eu não sei como que são eles lá, se são mais homens ou mulheres, mas além da gente fazer diferençavai ser um grupo de mulheres que vai estar começando isso, você sabe que nesse meio tem muito, como se fala, preconceito com a mulher.” Frequência : 2 87 APÊNDICE 5 Tabela de Análise de Dados da Segunda Fase da pesquisa – Categorização dos temas e subtemas TEMA 1: Percepção das consequências e sentimentos gerados após as rodas de conversa Subtema 1: Entendimento do que foi proposto coletivamente na Fase de Planejamento e o que ocorreu na Fase de Ação Subtema 2: Repressão, medo e comodismo: o fazer política da gestão municipal e Representações sociais do que é política Participante Unidades de Registro Participante 1 UR1: “A gente tinha proposto, né, da gente se reunir mesmo, da gente formar como se fosse uma comissão.” Participante 1 UR2: “(...) Uma proposta de expor aquilo que a gente acredita, que a gente, não, como se diz, chegar com uma proposta mesmo aqui pro serviço de saúde, né, se organizar de forma política.” Participante 2 UR55: “Parou. Não fizemos nada. Ficou estacionado.” Total de Frequência: 3 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR3: “(…) tem essa cultura, assim, né, de oprimir mesmo aqueles que querem ter voz.” Participante 1 UR4: “E a gente acaba ficando mais, a princípio, né, mais preocupado, com medo de mudanças, porque até mesmo o pessoal que é efetivo tem um certo pé atrás de iniciar um movimento.” Participante 1 UR5: “(...) a política não é vista com o intuito de melhoria, eles não veem que são ideias diferentes, mas para melhorias.” Participante 1 UR6: “A política ela é vista como uma coisa de rivalidade, de briga, de luta por poder.” Participante 1 UR7: “(...) não conseguem enxergar isso, que a política não é, o objetivo na verdade não é esse, o objetivo é melhorias, né...” Participante 1 UR8: “(...) quando existe um grupo se movimentando para criar um processo de mudança com o objetivo de melhorar, isso é barrado, isso é reprimido.” Participante 1 UR9: “Porque aqueles que estão no poder, né, eles têm medo, eles não querem perder esse poder, então eles vão usar de alguma forma para reprimir.” Participante 1 UR11: “Esse olhar político, que não é um olhar politizado, é um olhar de politicagem.” Participante 1 UR10: “As pessoas de uma maneira geral, elas têm medo de mudança.” Participante 1 UR12: “Não conseguem ver a política como uma forma de melhoria, de crescimento, de evolução, eles reprimem aqueles que tem esse olhar, torna 88 inimigos mortais, lado A e lado B.” Participante 1 UR13: “(...) mesmo com cargos efetivos, a gente também tem medo da mudança.” Participante 1 UR14: “Porque por mais que eles não possam, por exemplo, mandar um funcionário que está se movimentando embora, ele vai mudar de setor, vai tentar fazer alguma coisa para prejudicar e aí a gente tem medo, né? As pessoas têm medo.” Participante 1 UR16: “Eu achava que era uma coisa muito pontual assim, que era, mas ai eu vi que era uma coisa meio que generalizada mesmo, essa coisa de não enxergar a política como ela deve ser vista.” Participante 1 UR18: “A gente tá tentando sobreviver, a gente tá nadando com a maré alta, e a gente tá se segurando ali onde está, pra conseguir viver minimamente e aí você se sente ameaçado.” Participante 1 UR19: “(...) qualquer movimento que você faça e isso provoque alguma mudança, vai tirar você da sua zona de conforto, e não é porque você vai sair da sua zona de conforto, que você enxerga um horizonte, uma luz no fim do túnel, do jeito que a gente tá, a gente não enxerga muita luz no fim do túnel, né?” Participante 1 UR20: “Como é que eu vou correr esse risco diante da atual situação que a gente está hoje? Então é bem complicado, é bem complexo.” Participante 1 UR22: “As pessoas confundem muito essa questão da política com a politicagem. Eu não vejo a política acontecendo, eu vejo a politicagem acontecendo.” Participante 1 UR28: “É quase uma ditadura mesmo (risos) meio que assim, mascarada, mas eu diria que a gente tá assim meio que em uma ditadura, né?” Participante 1 UR29: “(...) a gente está em pleno 2022 e a gente tem esse receio de se reunir pra falar sobre um tema que tá aí. Olha só o ponto que a gente está. Será que é realmente um país livre?” Participante 1 UR35: “(...) é uma cultura, né, a gente vai virar aí anos, “ai, mas o medo da mudança...” claro que não é fácil, né, a gente tem todos os porquês que já citamos, ainda mais agora essa questão da economia, né, mas eu ainda acredito que se houver movimento o negócio anda, nem que seja um pouquinho, tem que andar, a gente não pode ser tão fraco.” Participante 1 UR39: “Ah, com certeza. Eu acho que é o medo, acredito muito que sim, possa ser, mas eu ainda acho que tem aí um pouco de comodismo.” Participante 1 UR41: “(...) rola sim um medo, não tenho dúvidas, mas acho também que o medo também está muito atrelado à questão do comodismo, se você deixar o medo dominar, você acaba se acomodando naquela situação.” Participante 1 UR42: “(...) é que esse medo que tá gerando esse comodismo, não está gerando apenas uma consequência atual, isso gera uma consequência, consequências futuras até, para os nossos filhos, netos, bisnetos.” Participante 2 UR57: “É, eu acho que é o medo mesmo, entre aspas é.” Participante 2 UR58: “(...) tudo o que a gente faz, a gente faz porque a gente quer que aconteça e a gente não tem muito apoio, se você for mais além, você é taxado, você massacrado, sempre foi assim.” Participante 2 UR59: “(...) mas eu percebo o que está ao meu redor, então eu acho que a gente tem medo.” Participante 2 UR60: “Porque eles punem, né, Ana, eles punem a pessoa de alguma forma.” 89 Subtema 3: Necessidade de transformação política através da participação popular Participante 2 UR61: “(...) politicagem, é exatamente a ausência de educação política, né?” Participante 2 UR63: “(...) não sei de que forma poderá ser feito, porque na hora que iniciar pode também ter confusão e acharem que a gente também tá querendo fazer politicagem.” Participante 2 UR64: “De expor alguém e expor a gente, né, Aninha?” Participante 3 UR65: “Sobre a cidade, sobre a gestão que está na cidade que até então, é, a minha saída da saúde tem até a ver com isso que a gente conversou no dia da roda de conversa.” Participante 3 UR66: “(...) poucos querendo fazer mudanças, como a gente que estava ali tentando quebrar a cabeça e muito poder pra gente tentar dominar a situação porque envolve muita política, muitas pessoas maiores que a nossa vontade de querer fazer mudanças.” Participante 3 UR68: “(...) porque a política, em si, ela domina a gente, querendo ou não, a gente até tentar reverter, tentar mudar, mas parece que toda vez é a mesma coisa.” Participante 3 UR69: “(...) entra e sai mandato, e as coisas continuam a mesma, agora parece que piorando cada vez mais. Então talvez se tivesse seria bom, porque quem sabe mudaria um pouco pelo menos, certo que nunca a gente vai conseguir mudar 100%, mas algumas pessoas teriam alguma visão diferente sobre essa questão.” Participante 3 UR71: “Por causa do medo, as pessoas pensam que vai ser uma coisa em vão, como todas as vezes já foi, que tudo vai ser em vão novamente.” Participante 3 UR74: “(...) porque as pessoas acham que nada vai mudar, por mais que a gente não seja minoria, a gente não acredita que pode fazer a diferença, nem que seja 1%, mas que consiga fazer a diferença.” Participante 3 UR76: (...) o pessoal me conhece, sabe que eu não calo a minha boca também, tanto que eu tentei mudar, tentei falar, entrei mostrar e olha aí acabei, olha aí como eu acabei, por não aceitar devidas situações, por não aceitar ser manipulada do jeito que o poder queria eu acabei me prejudicando, mas nãome arrependo. Participante 3 UR77: “(...) eu não consigo ver as coisas e aceitar, por muitas vezes, por a gente querer mudar, por a gente querer fazer diferente, a gente muitas das vezes vai ter que lidar com a consequência, e ás vezes as consequências são como a que veio para mim.” Participante 3 UR78: “Eu acabei me prejudicando, mas eu vou continuar sendo assim, enquanto tiver que ser certa, falar, eu vou falar, eu vou dizer, porque eu prefiro do que acomodar, continuar me acomodando nessa situação e nada mudar e ser mais um dentro desse Brasil que é acomodado na situação, nessa politicagem, nessa coisa que eles fazem e nada muda, entra e sai e nada muda e...” Total de Frequência: 39 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR15: “(...) depois dessa experiência de sair do ninho, né, viver outras experiências, né, então eu acho que eu não tenho tanto receio mais, a gente 90 amplia os horizontes...” Participante 1 UR17: “(...) não é só a mudança pontual do local de trabalho, né, é o que aquela mudança, lá, do local do trabalho vai impactar na sua vida.” Participante 1 UR30: “Eu ainda acho que se a gente se organizar real, né, porque quando a gente se reúne, a gente se organiza, a gente consegue.” Participante 1 UR31: “(...) o negócio vai, entendeu, porque assim, está totalmente estagnado, a gente não tem nenhum tipo de organização, então precisa ter um movimento mínimo, que a gente não tem, a gente vê alguns municípios aí que conseguiram fazer alguma coisa.” Participante 1 UR32: “(...) são as cidades que, por exemplo, eram 40 horas e o pessoal conseguiu 30 horas, né, pra categoria toda, por quê? Porque se organizaram. Por quê? Porque enfrentaram o medo. Por quê? Porque enfrentaram a gestão.” Participante 1 UR34: “Eu acho que por mais que haja medo, a gente não pode deixar o medo nos dominar, eu acho que a gente tem que enfrentar esse medo.” Participante 1 UR35: “(...) é uma cultura, né, a gente vai virar aí anos, “ai, mas o medo da mudança...” claro que não é fácil, né, a gente tem todos os porquês que já citamos, ainda mais agora essa questão da economia, né, mas eu ainda acredito que se houver movimento o negócio anda, nem que seja um pouquinho, tem que andar, a gente não pode ser tão fraco.” Participante 1 UR36: “Eu acho que primeiro a gente precisa se juntar, formar uma organização e se apresentar, as nossas propostas. Quais são as nossas propostas, né, formar mesmo um grupo e juntar essas ideias mesmo, colocar essas ideias no papel, quais são os nossos objetivos, traçar um plano.” Participante 1 UR37: “E eu acho que quando a gente mostra que está organizado, a gente está interessado, a gente tem conhecimento sobre os temas, eu acho que isso acaba gerando respeito também, né, se não a gente...” Participante 1 UR38: “Ah, eu acho que sim. Fortalece as vozes.” Participante 1 UR43: “(...) você está alimentando um sistema que não é legal, é um sistema que você está deixando... que herança você está deixando? Eu acho que assim o que falta esse movimento mínimo.” Participante 1 UR44: “(...) outro dia eu escutei uma conversa assim, “ai, (a cidade) é muito politizada”, e eu, nã nã ni na não (risos) (a cidade) não tem nada de politizada, (a cidade) tem muita politicagem, é diferente.” Participante 1 UR45: “Sempre que eu tenho a oportunidade eu procuro conversar um pouquinho, não que eu saiba muita coisa, mas a gente tem que dar essa sacudidazinha aí, nessa árvore. Ver se o pessoal começa a se incomodar com a situação, né?” 91 Participante 1 UR46: “(...) a gente tem que enfrentar os nossos medos, inclusive o medo das mudanças que a gente tem e se organizar.” Participante 1 UR47: “Pode ter medo, mas não pode deixar que o medo nos pare, né, usar essa indignação que a gente tem, essa indignação que a gente está e usar isso pra gente fazer alguma coisa de melhorar.” Participante 1 UR48: “Só que chega uma hora que, eu pensei, tá bom, isso resolveu pra mim, só que não resolveu com a coletividade, né, não mudou, eu não fiz nada em prol do coletivo.” Participante 1 UR50: “Eu acho que gente tem que motivar as pessoas a fazer a diferença, a mudança, só que essa mudança de uma forma coletiva, não individual.” Participante 1 UR51: “Eu penso, Ana, que o seu trabalho, ele serviu, eu diria que é uma muda, não é uma sementinha, a gente tinha uma sementinha lá germinando dentro da gente, e ela estava abafadinha lá, e a gente achou essa oportunidade, né, pra gente expressar, colocar pra fora, essa sementinha virou uma muda que agora tá crescendo.” Participante 1 UR52: “(...) foi uma rega pra planta crescer e acreditar que é possível, né, inclusive falar sobre esse tema, e a gente às vezes se vê muito nesse comodismo, eu acho que isso é importante, pra gente começar a começar a refletir sobre isso.” Participante 1 UR53: “(...) eu acredito que esse tipo de trabalho, do meu ponto de vista, desde que a gente se reuniu pela primeira vez, isso vem crescendo.” Participante 1 UR54: “(...) talvez o resultado não venha hoje, até tem, né, porque a gente já tem um resultado imediato, a gente já tá sentindo essa necessidade de mudar, e a gente tá sentindo esse comichãozinho, a formiguinha tá cutucando a gente.” Participante 2 UR56: “Eu acho que o nosso contato. Eu acho que a gente se distanciou de alguma forma, por conta de muito trabalho, não sei.” Participante 3 UR67: “Sim, porque eu fui uma pessoa que ao invés de baixar a cabeça e fazer como muitas pessoas fazem, não, eu quis fazer o que a gente estava fazendo, impor o que é certo e isso, pra eles, como se diz, melhor tirar do que querer uma pessoa que é contra.” Participante 3 UR72: “(...) aquele tanto de pessoa que estava na roda que a gente ia, não conseguir mudar nada, porque em vista do poder que a gente tem, a gente ser minoria.” Participante 3 UR73: “(...) eu achei que muitas das pessoas iriam desistir, eu acho que até a Aninha, por não ter pessoas pra continuar, achei até que a Aninha ia desistir.” Participante 3 UR75: (...) se a gente não tiver a positividade de que eu, você, quatro pessoas, que seja, consiga fazer a diferença, se não isso tudo nunca vai mudar, isso tudo sempre vai continuar na mesma coisa de sempre, a gente sempre vai der dominado por essa situação.” Participante 3 UR77: “(...) eu não consigo ver as coisas e aceitar, por muitas vezes, por a gente querer mudar, por a gente querer fazer diferente, a gente muitas das vezes vai ter que lidar com a consequência, e ás vezes as consequências são como a que veio para mim.” 92 Subtema 4: Necessidade de Educação Política Crítica Participante 3 UR78: “Eu acabei me prejudicando, mas eu vou continuar sendo assim, enquanto tiver que ser certa, falar, eu vou falar, eu vou dizer, porque eu prefiro do que acomodar, continuar me acomodando nessa situação e nada mudar e ser mais um dentro desse Brasil que é acomodado na situação, nessa politicagem, nessa coisa que eles fazem e nada muda, entra e sai e nada muda e...” Total de Frequência: 28 Participante Unidades de Registro Participante 1 UR21: “A gente precisa compreender melhor, né, qual o verdadeiro papel da política.” Participante 1 UR23: “A gente vive a politicagem porque não temos esse hábito, a gente não tem essa cultura, de falar sobre política, de estudar política.” Participante 1 UR24: “(...) a escola, a formação escolar, né, lá na adolescência, nas fases escolares, a gente tá se formando cidadão e você não vê... todas as matérias, como é que você não vai falar de um assunto que vai afetar na sua vida, na vida de todos os cidadãos?” Participante 1 UR25: “(...) o nosso sistema ele quer justamente isso, porque quanto menos conhecimento eu tenho, mais fácil ser domado. Por que eu vou ensinar política nas escolas,por que eu vou falar o que é política, qual que é o papel de uma maneira profunda, se você levantar essa questão, se você começar a educar a população.” Participante 1 UR26: “(...) para o sistema não é viável que as pessoas conheçam a política.” Participante 1 UR27: “Se a gente quer alguma mudança a gente tem que partir daí, né, conhecer o que que é o tema, de verdade, porque atualmente só existe politicagem.” Participante 1 UR33: “(...) tudo uma questão de estudar sobre o tema, se organizar, mas de forma efetiva, se reunir de forma efetiva. Participante 1 UR35: “(...) é uma cultura, né, a gente vai virar aí anos, “ai mas o medo da mudança...” claro que não é fácil, né, a gente tem todos os porquês que já citamos, ainda mais agora essa questão da economia, né, mas eu ainda acredito que se houver movimento o negócio anda, nem que seja um pouquinho, tem que andar, a gente não pode ser tão fraco.” Participante 1 UR38: “Ah, eu acho que sim. Fortalece as vozes.” Participante 1 UR40: “(...) a gente acaba se acomodando também pela própria falta de conhecimento político, né, você não conhece, não busca o conhecimento, o que que é realmente a política, você acaba aceitando aquilo que te oferecem e consequentemente o futuro vai ser.” Participante 1 UR44: “(...) outro dia eu escutei uma conversa assim, “ai, (a cidade) é muito politizada”, e eu, nã nã ni na não (risos) (a cidade) não tem nada de politizada, (a cidade) tem muita politicagem, é diferente.” Participante 1 UR49: (...) eu, enquanto uma pessoa que acredita tanto na educação, no conhecimento, isso ficou um pouco apagado.” 93 Participante 1 UR51: “Eu penso, Ana, que o seu trabalho, ele serviu, eu diria que é uma muda, não é uma sementinha, a gente tinha uma sementinha lá germinando dentro da gente, e ela estava abafadinha lá, e a gente achou essa oportunidade, né, pra gente expressar, colocar pra fora, essa sementinha virou uma muda que agora tá crescendo.” Participante 1 UR52: “(...) foi uma rega pra planta crescer e acreditar que é possível, né, inclusive falar sobre esse tema, e a gente às vezes se vê muito nesse comodismo, eu acho que isso é importante, pra gente começar a começar a refletir sobre isso.” Participante 1 UR53: “(...) eu acredito que esse tipo de trabalho, do meu ponto de vista, desde que a gente se reuniu pela primeira vez, isso vem crescendo.” Participante 1 UR54: “(...) talvez o resultado não venha hoje, até tem, né, porque a gente já tem um resultado imediato, a gente já tá sentindo essa necessidade de mudar, e a gente tá sentindo esse comichãozinho, a formiguinha tá cutucando a gente.” Participante 2 UR62: “(...) a gente vai conversar com alguém sobre algum tema, alguns conceitos como você falou, já entra, a pessoa já briga, então a gente não consegue dar continuidade, por isso é importante sim a educação política.” Participante 2 UR63: “(...) não sei de que forma poderá ser feito, porque na hora que iniciar pode também ter confusão e acharem que a gente também tá querendo fazer politicagem.” Participante 2 UR70: “Sim, pra discutir as ideias.” Total de Frequência: 19 RESUMO 3 REFERENCIAL TEÓRICO Para o desenvolvimento da pesquisa e reflexão crítica da conjuntura econômica e política atual, optou-se pelo referencial teórico marxista. O materialismo histórico de Marx e Engels2 compreende de forma metodológica que as transformações do mundo ocor... Uma vez que enxergamos o mundo como ele é e entendemos nosso papel dentro dele, não há escapatória. Ainda bem. Articulando-se com a metodologia marxista, a pesquisa também traz à luz a Educação Popular de Paulo Freire14, instrumentalizando ainda mais a luta para o fortalecimento da classe trabalhadora e do Sistema Única de Saúde. 4 MÉTODOS 4.1 Natureza do estudo Os primeiros encontros realizados em julho de 2021 demonstraram a potência da articulação coletiva para o pensar político. Experimentou-se socializar os conhecimentos e as reflexões e construir coletivamente um despertar para a prática política no tra... Os impactos e resultados encontrados na primeira fase da pesquisa foram muito satisfatórios. Incômodos foram gerados, reflexões profundas acerca da realidade ganharam forma e estratégias de enfrentamento foram elaboradas. Porém, ficou a indagação: e a... A fim de compreender os caminhos percorridos pelo grupo após a Primeira Fase da Pesquisa, decidiu-se realizar uma nova etapa do estudo através de uma nova Roda de Conversa. As 6 participantes da primeira fase foram convidadas através da ferramenta Whatsapp. O primeiro convite ocorreu na semana seguinte à qualificação do trabalho, no início de abril de 2022. O convite foi realizado de forma muito honesta e objetiva, deixa... No dia da Roda de Conversa, porém, participaram 3 trabalhadoras. Das 5 confirmadas, apenas 1 deu retorno relatando problemas pessoais. Não se obteve resposta da outra trabalhadora. A Roda de Conversa contou com a presença da pesquisadora, da orientadora (observadora) e se iniciou com as boas-vindas a todos os participantes. Explicou-se a necessidade de um novo encontro para que fossem compreendidos em conjunto os sentimentos e i... Decidiu-se pela reprodução de um pequeno conjunto de quatro slides, em formato dinâmico, para relembrar as atividades realizadas na primeira fase, com duração de dois minutos. Após esse primeiro momento, em um espaço acolhedor e respeitoso, iniciou-se as reflexões dos impactos que ocorreram após a primeira fase da pesquisa. Questionou-se as mobilizações ocorridas, presença ou não da multiplicação das ideias discutidas e das... Procedeu-se a gravação em vídeo e áudio dessa nova Roda de Conversa e, posteriormente, a transcrição de todo o encontro. 6.2 Análise de dados e resultados APÊNDICE 1 Termo de autorização da instituição para pesquisa científica APÊNDICE 2 TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – TCLE APÊNDICE 3 APÊNDICE 4 APÊNDICE 5