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Modelos de Qualidade de Água Prof. Cristina Ono Horita, DSc. One day a king arrived at a town inhabited by the sightless. Along with his troops, he brought a large elephant. Several of the inhabitants visited the king’s encampment and tried to gather information by touching some part of the beast. When they returned, their fellow citizens gathered around to learn about its form and shape. The man who felt the trunk said: “An elephant is long, thick, and flexible, like a snake.” One man who had touched the tail countered: “No, it is thin like a rope.” Another who had felt its leg said: “It is solid and firm, like a tree trunk.” Finally, na individual who had climbed on its back remarked: “You’re all wrong, an elephant is rough and textured like a brush.” Each had been misled by feeling one part out of many. All imagined something incorrect because they did not perceive the whole elephant. From Tales of the Dervishes (Shan, 1970) E aí???? Qual a relação do conto com modelos de qualidade de água? Modelos foram originalmente desenvolvidos para resolver problemas. Mas eles possuem uma função “maior”. Eles permitem a visualização do “todo”. Além de resolver um problema em particular, os modelos nos dão subsídios para entender como o ambiente funciona como uma unidade. Engenheiros & Qualidade de Água Originalmente existiam 2 tipos de engenheiros: militar e civil; ⚫ Militar: tecnologia de guerra, fortes, submarinos, armas, etc. ⚫ Civil: todas as outras tecnologias como estradas e habitações. Revolução industrial: novas tecnologias começaram a ser desenvolvidas. Habilidades específicas da engenharia se tornaram necessárias: criação da eng. elétrica, mecânica e química. Início do século XX os eng. civis eram responsáveis principalmente pela construção de estruturas, sistemas de transportes e projetos de barragens e aquedutos. Engenheiros & Qualidade de Água Final do século XIX: projetos de sistemas de águas de abastecimento e de esgotos. Lançamento de efluentes brutos nas águas receptoras → rios, lagos e estuários se transformariam em grandes esgotos. “Super” ETE → água fica mais limpa que a água dos corpos d’água, mas a um custo exorbitante. Ambos extremos são inaceitáveis. A qualidade da água deve ser tal que proteja o meio ambiente de forma econômica. Para determinar o nível de tratamento adequado, é necessário prever a qualidade da água em função da carga do efluente. Poluição das águas “Entende-se pela adição de substâncias ou de formas de energia que, direta ou indiretamente, alterem a natureza do corpo d’água de uma maneira tal que prejudique os legítimos usos que dele são feitos” (Von Sperling, 1996) Delimitação do estudo Poluição por esgotos domésticos ⚫ Maior ênfase ao tópico consumo de OD. Formas da fonte de poluentes ⚫ Pontual ⚫ Difusa Quantificação das cargas poluidoras É necessária para a avaliação do impacto da poluição e da eficácia das medidas de controle. São necessários levantamentos de campo na área de estudo. Caso não seja possível, pode-se complementar com dados de literatura. Informações típicas a serem obtidas em um levantamento sanitário de uma bacia hidrográfica são (Mota, 1988): ⚫ Dados físicos da bacia ⚫ Aspectos geológicos, precipitação, variações climáticas, temperatura, evaporação, etc. ⚫ Comportamento hidráulico ⚫ Vazões máxima e mínima, volume dos reservatórios, velocidade do escoamento, profundidade, etc. ⚫ Uso e ocupação do solo ⚫ Tipos, densidades, perspectivas de crescimento, distritos industriais, etc. ⚫ Caracterização sócio-econômica ⚫ Demografia, desenvolvimento econômico, etc. ⚫ Usos múltiplos das águas ⚫ Requisitos de qualidade de água para o corpo d’água ⚫ Localização, quantificação e tendência das principais fontes poluidoras ⚫ Diagnóstico da situação atual da qualidade da água ⚫ Características físicas, químicas e biológicas. Quantificação dos Poluentes Deve ser apresentada em termos de carga (massa por unidade de tempo). ⚫ = concentração x vazão (esgotos domésticos/industriais) ⚫ = contribuição per capita x população (esgotos domésticos) ⚫ = contribuição por unidade produzida x produção (esgotos industriais) ⚫ = contribuição por unidade de área x área (drenagem superficial) Caracterização da Quantidade de Esgotos Vazão doméstica ⚫ Corresponde aproximadamente ao consumo de água. ou onde: Qdméd = vazão doméstica média de esgotos (m3/d ou l/s) QPC = quota per capita de água (l/hab.d) R = coeficiente de retorno esgoto/água (valores típicos variam de 60 a 100%, sendo o valor usual igual a 80%, R = 0,80). )/( 1000 ×× = 3 dm RQPCPop Qdméd )/( 86400 ×× = sl RQPCPop Qdméd Variações de vazão. Vazões máxima e mínima Coeficientes de variação da vazão média de água: ⚫ K1 = 1,2 (coef. do dia de maior consumo) ⚫ K2 = 1,5 (coef. da hora de maior consumo) ⚫ K3 = 0,5 (coef. da hora de menor consumo) médmédmín médmédmáx QdKQdQd QdKKQdQd ×=×= ×=××= 5,0 8,1 3 21 Caracterização da Qualidade dos Esgotos Esgotos domésticos são aproximadamente 99,9% de água. Principais parâmetros: ⚫ Sólidos ⚫ Indicadores de matéria orgânica ⚫ Nitrogênio ⚫ Fósforo ⚫ Indicadores de contaminação fecal Matéria Orgânica Carbonácea Causadora do principal problema de poluição das águas: consumo de OD nos processos metabólicos e estabilização da matéria orgânica. Métodos para a determinação da MO: ⚫ Indiretos: medição do consumo de OD ⚫ Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) ⚫ Demanda última de Oxigênio (DBOu ou L) ⚫ Demanda Química de Oxigênio (DQO) ⚫ Diretos: medição do carbono orgânico ⚫ Carbono Orgânico Total (COT) DBO “Mede” a força da poluição pelo consumo do OD. Quantificação por cálculos estequiométricos (DTeO – Demanda Teórica de Oxigênio) Definição: “Quantidade de Oxigênio requerida para estabilizar, através de processos bioquímicos, a matéria orgânica carbonácea.” Padronização: ⚫ Análise no 5º dia à temperatura de 20ºC Esgotos domésticos possuem cerca de 300 mg/l, 1 litro de esgoto consome cerca de 300 mg de O2 em 5 dias. DBOu Corresponde ao consumo de O2 exercido até o momento em que este se torna desprezível. Para esgotos domésticos, considera-se 20 dias. Vários autores adotam, de maneira geral, a relação DBOu/DBO5 igual a 1,46. Se DBO5 = 300 mg/l → DBOu = 300x1,46 = 438 mg/l. DQO Mede o consumo de O2 ocorrido durante a oxidação química da matéria orgânica, obtida através de um forte oxidante (dicromato de potássio) em meio ácido. Para esgotos domésticos brutos a relação DQO/DBO5: 1,7 a 2,4. Relação DQO/DBO5 pode fornecer informações sobre a biodegrabilidade dos despejos e o processo de tratamento a ser empregado. COT Medida direta, onde mede-se todo o carbono liberado na forma de CO2. Formas inorgânicas devem ser removidas antes da análise ou corrigida no cálculo. Tem-se mostrado satisfatório em amostras com reduzidas quantidades de matéria orgânica. Relações dimensionais entre carga e concentração Carga per capita – contribuição de cada indivíduo por unidade de tempo (g/hab.d) ⚫ Valor usual: 54 g/hab.d Carga – quantidade de poluente (massa) por unidade de tempo. Exemplos 1. Os habitantes de uma comunidade geram uma contribuição per capita de DBO de 54 g/hab.d, e uma contribuição per capita de esgotos de 180 l/hab.d. Calcular a concentração de DBO nos esgotos em mg/l. 2. Calcular a carga de nitrogênio total afluente, em kg/d, a uma ETE, sendo dados: ⚫ Concentração = 45 mgN/l ⚫ Vazão=50 l/s 3. Nesta mesma estação, calcular a concentração de fósforo total afluente, em mg/l, sabendo-se que a carga afluente é de 60 kgP/d. Poluição por MO e Auto- depuração dos Cursos d’água Consumo de OD após o lançamento de esgotos é importante para: ⚫ determinação da qualidade permitida para o efluente a ser lançado; ⚫ nível de tratamento necessário; ⚫ e a eficiênciaa ser atingida na remoção de DBO. Autodepuração Definição: “Restabelecimento do equilíbrio no meio aquático, por mecanismos essencialmente naturais, após as alterações induzidas pelos despejos afluentes”. Compostos orgânicos são convertidos em compostos inertes, como gás carbônico e água, e não prejudiciais do ponto de vista ecológico. Autodepuração Deve-se considerar uma água depurada quando as suas características não sejam mais conflitantes com a sua utilização. Não existe depuração absoluta. Conhecimento do fenômeno e sua quantificação é importante para: ⚫ Utilizar a capacidade de assimilação dos rios; ⚫ Impedir o lançamento de despejos acima do que possa suportar o corpo d’água. É um processo que se desenvolve ao longo do tempo. Zonas de autodepuração Zona de Degradação Zona de Decomposição Ativa Zona de Recuperação Zona de Águas Limpas Balanço de OD Principais fenômenos interagentes: Balanço de OD Principais fenômenos interagentes: ⚫ Consumo: ⚫ Oxidação da MO (respiração) ⚫ Demanda bentônica (lodo de fundo) ⚫ Nitrificação (oxidação da amônia) ⚫ Produção ⚫ Reaeração atmosférica ⚫ fotossíntese Oxidação da Matéria Orgânica MO nos esgotos: ⚫ Suspensão → forma lodo de fundo ⚫ Dissolvida → principal consumo de OD ⚫ Respiração dos microorganismos decompositores Matéria orgânica + O2 + bactérias → CO2 + H2O + bactérias + energia Bactérias crescem e reproduzem enquanto tiver MO e O2. Demanda Bentônica Lodo de fundo também precisa ser estabilizado. ⚫ Grande parte em condições anaeróbias; ⚫ Interface lodo/água (fina camada) em condições aeróbias. ⚫ Denomina-se demanda bentônica ou demanda de oxigênio pelo sedimento. Reintrodução da MO na massa líquida (revolvimento do lodo de fundo). Difícil quantificação. Bell jar ou Incubadora interface sedimento-água Nitrificação Consumo de OD: demanda nitrogenada ou de 2o estágio, após reações carbonáceas. Reaeração atmosférica Frequentemente é o principal fator responsável pela introdução de O2 no meio líquido. Gradiente de concentração de O2 → transferência em busca de novo equilíbrio. Transferência de O2 por: ⚫ Difusão molecular ⚫ Difusão turbulenta Fotossíntese Principal processo utilizado pelos seres autotróficos para a síntese da MO. Equação simplificada: CO2 + H2O + energia luminosa → MO + O2 Inverso da respiração para a oxidação / estabilização da MO. Modelos Simplificados Serão considerados: ⚫ Consumo de oxigênio: oxidação da matéria orgânica (respiração) ⚫ Produção de oxigênio: reaeração atmosférica. Será restrito a trechos dos corpos d’água que apresentam condições aeróbias. Representação hidráulica Modelos hidráulicos para um curso d’água: ⚫ Fluxo em pistão (dispersão nula) ⚫ Predominantemente linear ⚫ Não há intercâmbios entre as seções de jusante e montante. ⚫ Cada seção funciona como um êmbolo, no qual a qualidade da água é a mesma em todos os pontos. ⚫ Mistura completa (dispersão total) ⚫ Todos os pontos da massa líquida têm a mesma concentração. ⚫ Lagos e represas bem misturadas. ⚫ Reatores de mistura completa em série ⚫ Representação entre fluxo de pistão e mistura completa ⚫ Fluxo disperso ⚫ Caracterizados por coeficientes de dispersão ⚫ Rios sob influência estuarina ou com velocidades de fluxo bem baixas. Curva do OD Depleção do oxigênio: decréscimo do OD na massa líquida. Gráfico → perfil de OD. ⚫ Eixo y: concentrações de OD ⚫ Eixo x: distância ou tempo de percurso, ao longo do qual se processam as transformações bioquímicas. Curva do OD Pela análise do gráfico pode-se obter: ⚫ Identificação das conseqüências da poluição ⚫ Vinculação da poluição com as zonas de autodepuração ⚫ Importância relativa do consumo e da produção de oxigênio ⚫ Ponto crítico de menor concentração de OD ⚫ Comparação entre a concentração crítica de oxigênio no corpo d’água e a concentração mínima estabelecida pela legislação ⚫ Local onde o curso d’água volta a atingir as condições desejadas Cinética de Desoxigenação DBO remanescente: [ ] MO remanescente na massa líquida em um dado instante. DBO exercida: O2 consumido acumulado para estabilizar a MO até este instante. Cinética da reação da MO remanescente: L = [ ] DBO remanescente (mg/l) t = tempo (d) k1 = coeficiente de desoxigenação (d-1) Integrando entre os limites L = L0 e L = Lt e t = 0 e t = t: 1(- ) 0 k tL L e= L = DBO reman. em um tempo qquer (mg/l) L0 = DBO reman. em tempo = 0 (mg/l) 1- 0 0- (1- )k ty L L y L e= = y = DBO exercida em um tempo qquer (mg/l) 1 dL k L dt = − Exemplo 1. A interpretação de análises de laboratório de uma amostra de água de um rio a jusante de um lançamento de esgotos conduziu aos seguintes valores: ⚫ Coeficiente de desoxigenação: k1 = 0,25 d-1; ⚫ Demanda última (L0) = 100 mg/l Calcular a DBO exercida a 1, 5 e 20 dias. Calcular também a % de MO já estabilizado em 5 dias. 2. Uma comunidade de 1000 habitantes despeja seus efluentes brutos em uma enseada. A vazão desta é de 4800 m3/d. Cada habitante contribui com 113,4 g/hab.d de DBO. Se k1 = 0,1 d-1, calcular a DBO exercida a 1, 5 e 20 dias em mg/l. Coeficiente de desoxigenação (k1) Depende das características da MO, temperatura e presença de substâncias inibidoras. Quanto maior k1 → maior taxa de consumo de O2. Origem k1 (d-1) Esgoto bruto concentrado 0,35 – 0,45 Esgoto bruto de baixa concentração 0,30 – 0,40 Efluente primário 0,30 – 0,40 Efluente secundário 0,12 – 0,24 Rios com águas limpas 0,09 – 0,21 Água para abastecimento públicomenor a CS. Exercício: Determinar a CS para um estuário com temperatura de 20oC e salinidade de 25 ppm. 1 3 2 2 1,0754.10 2,1407.10 ln ln 1,7674.10SS Sf a a C C S T T − = − − + Pressão (Zison et al., 1978) onde CSp = Concentração de saturação de OD a uma pressão p (mg/l). CSf = concentração de saturação de OD a 1 atm (mg/l). elev = elevação acima do nível do mar. CS diminui com o aumento da elevação. Cinética da reaeração: Dk dt dD 2−= D = déficit de OD (= CS – C) (mg/l) t = tempo (d) k2 = coeficiente de reaeração (d-1) Integrando a equação acima com D0 em t = 0: tk eDD 2 0 − = D0 = Déficit de oxigênio inicial (mg/l) Quanto maior D, maior a taxa de transferência. Coeficiente de reaeração (k2) Pode ser determinado em uma amostra d’água ou em um curso d’água. ⚫ Amostra: determinação através de métodos estatísticos (regressão): ⚫ Entrada: valores de OD a diversos t. ⚫ Saída: CS e k2. ⚫ Curso d’água: ⚫ Valores médios tabelados; ⚫ Valores em função das características hidráulicas do corpo d’água; ⚫ Valores correlacionados com a vazão do curso d’água. Coeficiente de reaeração (k2) Seleção do valor de k2 tem maior influência nos resultados do balanço de OD do que kd, pelo fato das faixas de variação do último serem mais estreitas. Valores médios tabelados Mais rasos e mais velozes tendem a possuir maior k2. Valores desta tabela são usualmente menores do que os obtidos pelos outros métodos. Corpo d’água k2 (d-1) Profundo Raso Pequenas lagoas 0,12 0,23 Rios vagarosos, grandes lagos 0,23 0,37 Grandes rios com baixa velocidade 0,37 0,46 Grandes rios com velocidade normal 0,46 0,69 Rios rápidos 0,69 1,15 Corredeiras e quedas d’água > 1,15 > 1,61 Valores em função das características hidráulicas A literatura relata diversas fórmulas, conceituais e empíricas, sendo que nenhuma é universal ou melhor que as demais, para todas as aplicações. onde: v = velocidade do curso d’água (m/s) H = altura da lâmina d’água (m) Pesquisador Fórmula Faixa de aplicação O’Connor e Dobbins (1958) 3,93.v0,5H-1,5 0,6m ≤ H