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16 TRANSFERENCIA Robert L. Tyson Cláudio Laks Eizirik A transferência, uma das mais importantes não é vista como central ao processo tera- descobertas de Freud, constitui um ingre- pêutico e à forma de trabalho do terapeuta. diente central de qualquer forma de psi- Muita coisa foi escrita, em diversas coterapia. emprego ou a interpretação línguas, sobre transferência. Talvez em um adequada da transferência é um veículo dos artigos mais proveitosos, Brian Bird¹ importante e decisivo, por meio do qual revisa as ideias originais desenvolvidas por mudanças psíquicas permanentes podem Freud sobre transferência e refere-se a ela ser feitas no curso da psicoterapia de orien- como um "fenômeno universal e a parte tação psicanalítica. Há, no entanto, menos mais difícil do tratamento". concordância sobre como reconhecer a transferência, como diferenciar formas di- versas de transferência e como, quando e Concordamos com Bird e muitos outros auto- por que interpretá-la. res que veem a transferência, em um significa- Neste capítulo, apresentamos uma es- do mais amplo, como ubíqua, no sentido de que trutura segundo a qual o psicoterapeuta de experiências de relacionamentos passados afe- orientação psicanalítica pode organizar sua tam nossas relações presentes, embora de ma- experiência com o paciente à medida que neiras complexas, das quais não temos cons- o tratamento e a transferência se desenvol- ciência. vem. Também sugerimos algumas formas construtivas de trabalho com a transferên- cia em benefício do paciente. Um pressu- Entretanto, a transferência pode ser posto básico dessa discussão é que estamos convenientemente definida em um sentido nos referindo àquela forma de psicotera- mais restrito: nesta visão, a transferência pia geralmente denominada de orientação do paciente aparece no tratamento quan- psicanalítica e que leva em consideração a do a relação paciente-terapeuta é afetada, existência e a importância da transferência de modo inconsciente, por experiências no curso do tratamento. Todavia, reconhe- revistas e remodeladas de relacionamentos ce-se que há muitas variedades de psicote- passados e desenvolve-se além dos mode- rapia nas quais a transferência pode desem- los costumeiros de relação e sentimento penhar um papel importante, mas em que interpessoal. Por essa definição, tanto pa-294 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.) ciente quanto terapeuta evidenciam ma- transtornos que ele acreditava serem sen- nifestações de transferência. Para fins de síveis ao tratamento psicanalítico; a outra, discussão e esclarecimento, limitaremos o para descrever um tipo de relacionamento termo "transferência" a certos aspectos dos intenso com o analista, no qual alguns ele- sentimentos do paciente sobre o terapeuta mentos do passado eram revividos em uma e consideraremos a transferência do tera- nova edição transferência e neurose de peuta para o paciente sob a denominação transferência eram, basicamente, sinôni- geral de (Uma abor- mos. Ainda que, nos anos posteriores, ele dagem mais abrangente do conceito de tendesse a referir-se apenas à "transferên- contratransferência pode ser encontrada cia" de uma maneira geral, podemos supor no Capítulo 17.) que não parou de usar os conceitos que pas- saram a ser incluídos na noção de neurose de transferência. Estes envolvem questões importantes, como a ideia de que a transfe- A maioria dos terapeutas parece concordar que um atributo especial da situação de tratamen- rência surge, desenvolve-se ou progride no to é facilitar a geração ou 0 surgimento de fe- decorrer de um tratamento. nômenos transferenciais. Outro atributo espe- Em nossa visão contemporânea, neu- cial é fornecer um setting relativamente estável rose de transferência consiste em uma de para a observação desses fenômenos. várias manifestações de transferência que tipicamente aparecem à medida que o tra- tamento progride. Hoje, não há razão, a Entretanto, tal observação não é uma não ser o uso comum, para manter "neu- questão simples. Em nossa experiência, o rose" como parte da expressão "neurose terapeuta, em geral, não tem consciência de uma vez que a neurose imediata de quando a transferência, no sen- está envolvida em todas as manifestações tido mais estrito, surge pela primeira vez. de transferência.² Desse ponto de vista, a Aparecendo de uma forma que vai além do expressão pode tornar-se redundante. Po- relacionamento inicial, mais superficial, ela rém, o termo está difundido, e sua popu- afeta a maneira de o paciente relacionar- laridade pode, portanto, ser um indicativo -se (i.e., tipos de sentimentos e compor- da importante necessidade clínica de con- tamentos) com o terapeuta, agora nova e ceitualizar e discriminar diferentes tipos diferente na situação de tratamento. No ou formas de elaboração de transferência, momento em que o terapeuta reconhece a como os aqui propostos. Certamente, con- presença das manifestações de transferência cordamos com Cooper,³ segundo o qual o desse tipo, elas já estavam ativas por algum esclarecimento é necessário, mas, em vez período. Portanto, o terapeuta tem uma vi- de eliminar o termo "neurose de transfe- são mais clara da transferência retrospecti- rência" ou complicar as coisas inventando vamente; pode-se dizer que a transferência um outro termo, preferimos incluí-la co- nasce primeiro no escuro. Isso aumenta as mo uma das formas de transferência. dificuldades em diferenciar as várias formas Nesta discussão, usaremos "neurose de manifestações de transferência. de transferência" para nos referirmos à na- Freud usava a expressão "neurose de tureza do relacionamento do paciente com transferência" de duas formas. Uma era pa- o terapeuta após certo grau de evolução ra referir-se a uma categoria diagnóstica de e elaboração da interação transferência-Psicoterapia de orientação analítica 295 -contratransferência, uma progressão afe- riáveis. Entretanto, ela não é vista como tada pelas intervenções e pelo comporta- uma medida de sucesso do tratamento e, mento do terapeuta. Quando esse ponto de acordo com Reed,⁶ nem como medida é alcançado, o terapeuta observa, no re- para determinar se o tratamento é ou não lacionamento do paciente para com ele, a psicanálise. Ela é empregada como parte de progressiva proeminência e persistência de uma hipótese a partir da qual os dados clí- relativamente poucos temas; estes derivam nicos podem ser ordenados.⁷ A dissecação, de interações anteriores, de significado a partir da experiência clínica, de caracte- patogênico na vida do paciente. Eles são rísticas de forma e conteúdo pode bem ter revividos em uma versão que agora tende mais do que um valor heurístico; com uma a se focalizar, ainda que não de modo ex- conceitualização mais clara, as interpreta- clusivo, na pessoa do terapeuta e nas cir- ções do terapeuta ganham em especificida- cunstâncias atuais. O novo relacionamento de e, espera-se, em eficácia terapêutica. passa a dominar o trabalho psicoterapêu- tico de um modo que tende a tornar-se mais persistente do que episódico, embora FORMA uma preocupação exclusiva com ele pos- sa representar um beco sem saída.⁴ Além Há várias maneiras de descrever a forma da disso, com frequência, é acompanhado por transferência; a escolha pode ser feita com uma relativa diminuição de manifestações base na utilidade teórica ou clínica. Ao de conflito na vida de relação do paciente. analisar crianças e adolescentes, existe uma Torna-se um tema importante para o tra- necessidade clínica premente de distinguir balho interpretativo, com o objetivo global entre transferência e fatores do desenvol- de alcançar uma resolução nova e mais sa- vimento, entre uso do terapeuta como ob- tisfatória de conflitos preexistentes. jeto de transferência ou como objeto real Assim, a neurose de transferência re- e entre o impacto sobre a transferência da presenta um conceito no intrusão ambiental ou sobre a revivência de qual uma configuração particular do re- experiências passadas. Portanto, mais aten- lacionamento é vista sob a perspectiva do ção tem sido dada às formas de manifes- terapeuta. Considerando uma criança com tações de transferência em pacientes mais desenvolvimento estrutural suficiente para jovens do que no tratamento de adultos. permitir regressão e, portanto, um passado Por essa experiência, foi criada uma clas- psíquico, com um ego e um superego fun- sificação útil, embora um pouco arbitrária cionando suficientemente bem para parti- e esquemática, das formas de transferência. cipar no trabalho do tratamento, uma neu- Essa classificação fornece uma estrutura rose de transferência pode aparecer já na dentro da qual o terapeuta pode começar fase edípica, dentro de uma perspectiva da a fazer tais distinções e monitorar o desen- psicologia do ego. Do ponto de vista klei- volvimento da transferência à medida que niano ou pós-kleiniano, naturalmente, esse o tratamento Trata-se de uma fenômeno pode ser observado bem antes. maneira de ordenar os dados clínicos e que Se uma neurose de transferência, no apresenta, conforme descobrimos, uma sentido a ser elaborado, aparecerá ou não aplicação útil também no tratamento de ou será reconhecida ou não no curso de adultos. Visto que nenhuma situação ou vi- uma psicoterapia depende de muitas va- nheta pode ser inteiramente "pura", qual-296 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.) quer ilustração dos cinco tipos de transfe- inicial de relacionamento com uma figura rência a serem descritos deveria ser consi- de autoridade, representada pelo terapeu- derada simplesmente um demonstrativo da ta, pode ser a que o paciente habitualmente preponderância da forma em questão. usa nesse tipo de situação. A constelação se- guinte pode ser simplesmente outra forma comum que se segue à primeira, por exem- plo, o resíduo caracterológico de ressenti- Elas são: formas habituais de relacionamen- mento por uma desidealização precoce e to, transferência predominantemente de rela- cionamentos presentes, transferência predomi- dolorosa. Naturalmente, é possível que ela nantemente de experiências passadas revivi- seja capaz de revelar atributos de evolução das, neurose de transferência e representação de transferência, e o terapeuta deve estar de fantasias inconscientes. alerta para tal possibilidade. Apesar da na- tureza estereotipada dessas formas iniciais, é possível haver elementos particulares que se tornam mais destacados e transformam- Formas habituais -se, aos poucos, em outras formas, à medi- de relacionamento da que surgem no tratamento. "Presteza de 11,12 "fo- Formas particulares de estabelecer víncu- me de transferência" e "transferência flu- los interpessoais, ligações ou padrões de tuante" são termos que se aplicam às ati- interação tornam-se aparentes no início da tudes conscientes e pré-conscientes de um situação de tratamento. Em geral, são con- paciente em relação a um tipo particular de sideradas parte do caráter da pessoa. São relacionamento, as quais são descobertas entendidas como transferência apenas no no primeiro encontro com ele. sentido mais amplo, não como modifica- ções no relacionamento paciente-terapeuta que aparecem como parte e consequência Tais atitudes e desejos refletem formas habituais do trabalho terapêutico. É importante ter de relacionamento e podem vir à tona quando 0 em mente essa distinção. paciente procura certas qualidades em um tera- O paciente pode usar diferentes for- peuta antes de decidir iniciar 0 tratamento. mas de relacionamento para diferentes si- tuações, dependendo de como o terapeuta é percebido pela primeira vez. Por exemplo, um advogado iniciou Como exemplo comum, um paciente tratamento após algumas sessões de ava- inicialmente reage ao terapeuta com reser- liação mútua. Suas primeiras palavras fo- va, respeito e submissão. Essa postura po- ram sobre o quanto ele estava aliviado por de, de forma gradual, transformar-se, após começar o tratamento com um terapeuta algumas semanas, em uma atitude agressi- que ele sentia que poderia convidar para va, desafiadora, não cooperativa e desagra- um drinque em sua casa, e ele esperava po- dável, sem que outras alterações tenham der fazer isso brevemente. paciente não ocorrido. Não que o paciente idealize o te- abandonou esses desejos à medida que o rapeuta como uma pessoa especial na fase tratamento progredia; eles voltaram de vá- inicial, mas o papel do terapeuta não a rias formas e tornaram-se ligados a diversas sua pessoa pode ser idealizado. A forma fantasias reprimidas. Influenciaram a for-Psicoterapia de orientação analítica 297 ma de transferência desenvolvida e, mais lheres pareciam desmoronar quando elas tarde, chegaram a um estado mais acessível não conseguiam corresponder às suas ex- à interpretação. pectativas. Ele tinha grandes esperanças no Transferência "pré-formada" refere-se tratamento e, ao mesmo tempo, estava ter- à situação em que o paciente foi afetado por minando dolorosamente sua mais recente algum conhecimento do terapeuta, como relação. Já havia iniciado diversas outras sua reputação, ou por contato extratra- formas de terapia sob circunstâncias se- tamento anterior de algum tipo. Nos dias melhantes. Após alguns meses, encontrou atuais, muitos pacientes procuram infor- outra mulher que lhe pareceu ideal e estava mações no Google ou em redes sociais, fa- em êxtase em relação ao futuro. Como se zendo, assim, uma pré-seleção de seu futu- poderia esperar, passou a descrever frustra- ro terapeuta. ções com seu terapeuta e com o tratamen- to, que ele sentia não serem responsáveis de modo algum por seu sucesso atual com es- Aqui, as fantasias e expectativas do paciente sa namorada. terapeuta sobreviveu a isso em relação ao terapeuta e ao tratamento pre- e a diversos outros ciclos com dificuldade. cisam ser entendidas como tais, em vez de se- Entretanto, devemos enfatizar que, nesse rem vistas como manifestações de transferên- ponto, ele estava simplesmente sendo usa- cia referindo-se especificamente à pessoa do do em um ciclo repetitivo das formas ha- terapeuta e surgindo conforme 0 tratamento bituais de relacionamento do paciente, não progride. limitadas a mulheres, e que estas não eram manifestações de transferência positiva ou negativa. Elas também eram usadas a servi- De fato, essas formas habituais de rela- ço da resistência tanto ao desenvolvimento cionamento podem transmitir uma grande de transferência quanto a sua consciência quantidade de informação sobre o paciente, dela. progresso do tratamento só foi pos- embora não em uma forma acessível à inter- sível porque o terapeuta interpretou essa venção terapêutica efetiva na ocasião. resistência sempre que possível. Como exemplo mais complexo, um paciente escolheu o terapeuta porque seu nome tinha sido sugerido por fontes que Transferência ele respeitava; porque, quando ele fez uma entrevista de avaliação com seu futuro tera- predominantemente de peuta, achou que este se aproximava de sua relacionamentos presentes ideia de como um terapeuta deveria ser; e porque, quando examinou os antecedentes paciente pode estar bastante envolvido do terapeuta, concluiu que eram de quali- em algum conflito presente, sentir intensa- dade suficiente para que tivesse confiança mente um desejo ou ser apanhado em uma em sua capacidade de tratá-lo todas indi- reação presente a uma pessoa importante. cações claras do estado narcisístico do pa- Parte disso pode "respingar" ou ser, de ciente. Este estava buscando ajuda devido modo defensivo e inconsciente, deslocada, a sua incapacidade de encontrar uma mu- externalizada ou projetada na situação de lher adequada. Após um início promissor, tratamento. Essa manifestação deve ser di- todos os seus relacionamentos com mu- ferenciada de formas habituais repetitivas298 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.) de relacionamento que podem aparecer em mas importantes, do passado podem es- ciclos. tar escondidos naquelas situações que são transferidas ou deslocadas para relaciona- mentos presentes, dando ao terapeuta um sinal de alerta precoce sobre o desenvolvi- Na transferência de relacionamentos presentes, 0 terapeuta é usado não porque se tornou a pes- mento da transferência. De modo gradu- soa mais importante para 0 paciente naquele al, aparecem mais evidências da revivência momento, mas pelo motivo oposto ele não é de experiências passadas, e a transferência a mais importante. Sua importância para 0 pa- de relacionamentos presentes dá lugar à ciente está no fato de que, na percepção deste, categoria seguinte, transferência predo- 0 terapeuta é uma pessoa segura para ele usar minantemente de experiências passadas dessa forma. revividas. Por exemplo, após vários dias agra- Transferência dáveis junto com seu marido e sem o co- predominantemente nhecimento de seu terapeuta, uma paciente teve uma discussão intensamente inflama- de experiências da com o primeiro, no decorrer da qual ele passadas revividas disse que estava decepcionado com ela. A paciente terminou a discussão responden- Esse tipo de transferência do que não queria ouvir mais nada sobre isso e saiu da sala. Quando chegou para sua [...] refere-se à forma na qual experi- ências, desejos, fantasias, conflitos e sessão, no dia seguinte, repreendeu com se- defesas passados são revividos no de- veridade o terapeuta por não apreciar o es- correr do tratamento, como uma con- forço que ela estava fazendo no tratamento sequência do trabalho terapêutico, e e declarou se sentir decepcionada pelo que que agora dizem respeito à pessoa do considerava ser indiferença e expectativas terapeuta no conteúdo pré-consciente excessivas da parte dele. Após vários dias, manifesto ou latente.⁸ ficou evidente para o terapeuta que o que ela descrevia de seu relacionamento con- Os sentimentos do paciente em rela- jugal parecia muito feliz se comparado ção ao terapeuta e suas atitudes para com com as tempestuosas sessões de tratamen- ele passam, agora, por uma mudança sig- to. Por fim, o terapeuta ficou sabendo da nificativa com respeito a um evento espe- discussão com o marido. Então, tornou-se cífico ou fragmento de material de trata- possível começar a reconhecer sua identifi- mento. cação com o agressor, a cisão defensiva de sua ambivalência e o deslocamento de seus sentimentos negativos para o tratamento, Nessas ocasiões, há uma nova vivência, repre- usando o terapeuta como um objeto para sentação ou reencenação de experiências pas- o qual ela podia transferir sua raiva com sadas e de fantasias, associadas em um arran- jo novo e diferente. É uma nova configuração segurança, enquanto preservava o relacio- que contém temas particulares do passado e na namento prazeroso com o marido. qual 0 terapeuta desempenha um papel espe- Esse tipo de conflito atual, muitas cial para 0 paciente. vezes, ativa um antigo. Elementos sutis,Psicoterapia de orientação analítica 299 A menos que o paciente tenha uma ver o que acontecia no banheiro, mas agora capacidade incomum de auto-observação, relatava que ficara atônita e paralisada ao ele não percebe, a princípio, que alguma ver que sua filha estava brincando com o coisa está inadequada ou mesmo diferen- pênis ereto de seu marido enquanto ele fi- te em relação às suas respostas ou que há cava sentado calmamente lendo o jornal na algum determinante primitivo de seus sen- banheira. Ela saiu sem dizer uma palavra. timentos presentes sobre o terapeuta. Em Nesse ponto, a sessão de sexta-feira chegou geral, as auto-observações, aos poucos, vão ao fim. Na segunda-feira, a paciente esta- se tornando acessíveis com a interpretação va bastante deprimida, sentindo-se desa- e a elaboração de inúmeros episódios de nimada e abandonada por seu terapeuta. transferência de conflitos presentes e de ex- Desesperada para sentir-se melhor, ela co- periências passadas. meçara a imaginar como poderia arrumar Como exemplo dessa forma de trans- um caso e com quem. terapeuta disse- ferência, tem-se o caso de uma mulher ca- -lhe que seus sentimentos pareciam ligados sada de 35 anos que buscou tratamento em ao momento em que ele terminara a sessão uma tentativa de dar fim a sua infidelidade na sexta-feira, comentário que resultou em compulsiva. Sempre que seu marido viaja- um acesso de depreciação sarcástica por va, o que a profissão dele frequentemente parte da paciente, em um tom que ele nun- exigia, ela escolhia para seu amante um ho- ca havia ouvido dela antes. Apenas após mem que fosse tímido, deprimido e impo- vários dias sua fúria diminuiu o suficien- tente. Então se deliciava com sua capacida- te para ela considerar o que havia ocorri- de para seduzi-lo a tornar-se audaz, feliz e do. Ela e o terapeuta foram percebendo, potente. Em geral, ela realizava seu "triun- paulatinamente, o que havia sido, de fato, fo terapêutico" pouco antes do retorno do uma revivência de sentimentos da infância marido, quando rompia o relacionamento e uma representação na qual o terapeuta, extraconjugal. Naturalmente, o casamento um homem, tinha desempenhado o papel tinha suas dificuldades, mas era, apesar dis- de sua mãe, que, muitas vezes, a deixava so, estável. brincando com um ou outro dos pensio- terapeuta apenas de forma gradual nistas da sua casa, muitos dos quais tinham ficou sabendo de alguns de seus aspectos abusado sexualmente dela. perturbados, à medida que a própria pa- Nesse exemplo, o tratamento progre- ciente tornou-se mais capaz de tolerar o co- diu a um ponto em que as lembranças re- nhecimento do terapeuta sobre eles. Após primidas de experiências sexuais da infân- cerca de um ano e meio de tratamento e cia foram revividas, o que a paciente então quase um ano em que não teve casos, ela expressou em uma representação comple- passou a se posicionar com mais clareza, xa. Esta envolveu o uso de uma resposta es- por exemplo, insistindo com o marido que perada do terapeuta para expressar a expe- seu filho de 8 anos era muito jovem para riência de estar desprotegida e abandona- ter o rifle que ele lhe havia dado, depois de da. fato de ele ter terminado a sessão no o menino ter atirado na própria mão com momento em que ela descrevia o incesto do a arma. Um dia, ela relatou ter ido ao ba- pai com a filha reacendeu seus sentimentos nheiro, onde sua filha de 3 anos estava to- de abandono e, portanto, teve um signifi- mando banho com o marido, uma prática cado de transferência não reconhecido por costumeira que ela não havia contado a seu nenhum deles no momento. Apenas após terapeuta. A paciente nunca antes havia ido essa ocorrência transferencial foi possível300 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.) entender o significado dos envolvimentos O que Greenacre classifica como sexuais durante a ausência do marido. "imagens de transferência" inclui as duas categorias de transferência: de conflito pre- sente e de experiências passadas revividas. que ele denomina "processamento pa- Tendo conhecimento suficiente sobre 0 pacien- norâmico", no qual essas imagens se fun- te, 0 terapeuta pode conscientizar-se de que ele está tentando evocar uma resposta que repete dem umas com as outras para formar uma uma experiência do passado¹³ e que pode en- "estrutura é outra forma volver uma variedade de mecanismos de de- de descrever a neurose de transferência no fesa. sentido aqui proposto. Ou seja, há uma fu- são de manifestações de transferência epi- sódicas em uma estrutura complexa de ma- Essa percepção da contratransferên- nifestações relacionadas, entrelaçadas e so- cia do terapeuta ou de sua forma de res- brepostas. A "fusão" e a "clareza especial", ponder a um papel, entretanto, deve ser di- conforme percebidas pelo terapeuta, não ferenciada de seu modo habitual de reagir a têm durabilidade inerente e podem ir e vir. traços de caráter particulares, uma vez que Uma questão semelhante é levantada por usar esses traços como base para entender o outros autores, como Glover,¹⁵ que defende: paciente provavelmente será improdutivo. "a neurose de transferência deve ser revela- As transferências de relacionamentos da [...], ela não aparece espontaneamente na presentes e de experiências passadas revi- regra do tratamento", e Bird:¹ vidas ocorrem como episódios no fluir do trabalho terapêutico. Na situação de trata- [...] a neurose de transferência nem sempre está disponível para ser tra- mento suficientemente boa, essas formas balhada. Sendo uma coisa intermiten- de transferência originam-se a partir do te, como acredito que seja, pode ha- estabelecimento inicial do relacionamento ver longos períodos em que ela não é do paciente com o terapeuta, começando perceptível. com as formas habituais de relação. Em al- guns pacientes, estas se ampliarão e serão A duração dos períodos em que a es- ainda mais elaboradas dentro da neurose trutura da neurose de transferência é explí- de transferência. cita varia, em nossa experiência, de pacien- te para paciente e de tempos em tempos para o mesmo paciente. Ela pode estar pre- Neurose de transferência sente durante alguns dias a alguns meses ou mais tempo. Greenacre¹⁴ descreveu a neurose de trans- ferência como: [...] um processamento panorâmico Na medida em que a estrutura transferencial constante de imagens de transferên- persiste, muito mais esforço terapêutico é ne- cia fundindo-se umas com as outras cessário com os sentimentos e as reações do ou momentaneamente separando-se paciente em relação ao terapeuta e às suas in- com especial clareza, de uma forma tervenções. Além disso, mais aspectos da vida frequentemente menos constante do e preocupações do paciente estão envolvidos que os sintomas e outras manifesta- com 0 tratamento e com 0 terapeuta. ções da própria neurose.Psicoterapia de orientação analítica 301 Ao mesmo tempo, observa-se que e produzem motivações novas, mais menos aspectos dos conflitos do paciente saudáveis, próprias, aparecem em outras partes de sua vida, e o terapeuta pode ouvir relatos sobre o quan- ou seja, após os novos significados serem to ele está melhor agora, mesmo que, como adequadamente analisados. dizem alguns pacientes, seu único proble- ma seja com o terapeuta. Quer dizer, o tér- mino da psicoterapia seria a "cura" óbvia. Representação de A chamada cura transferencial baseia-se fantasias inconscientes nesse mecanismo, visto que as manifesta- ções externas do conflito neurótico estão A transferência como uma representação diminuídas, na medida em que elas reapa- de fantasias inconscientes é outro signifi- recem de várias formas na transferência. cado possível, que passou a ser observado aparecimento de um novo sintoma como resultado das contribuições de Me- na transferência é tomado como indicação lanie Klein e de seus seguidores. Talvez um da presença de uma neurose de transferên- dos fatores importantes em sua revisão do cia, e há exemplos para documentar esse conceito de transferência tenha sido o fato argumento, 16-18 o que pode ser considera- de que ela trabalhava com crianças, algu- do um critério qualitativo. Entretanto, com mas de apenas 2 anos, e em uma época na o maior reconhecimento de que a psicopa- qual os eventos traumáticos supostamente tologia não se limita à formação de sinto- estavam ocorrendo. Assim, as manifesta- mas, e com a consciência de que um sin- ções transferenciais de crianças não são do toma pode significar diferentes coisas em passado distante, mas de suas experiências diferentes momentos, muitos terapeutas imediatas. Os jogos infantis incluem uma utilizam o conceito de neurose de transfe- série de representações de todos os tipos de rência sem exigir a formação de novo sin- acontecimentos e relacionamentos. que toma como uma condição elas representam em seu brinquedo? Klein Um aspecto qualitativo mais importante e supunha que isso estava relacionado às suas sempre presente é a revisão da experiência vidas de fantasia. brinquedo seria a for- anterior que ocorre com a revivência. Co- ma de a criança relacionar-se consigo mes- mo Harley²⁰ salienta, ma, com seus piores medos e ansiedades. Os relacionamentos representados na sala Esta revisão previsivelmente resulta de análise constituiriam, então, as expres- da acumulação de experiências gené- sões das tentativas da criança de incluir a ticas e transformações do desenvolvi- vivência traumática como ela experimenta mento que ocorreram no decorrer do em sua vida cotidiana. tempo, geralmente com uma correla- ção entre a extensão do intervalo de tempo e a complexidade das revisões. Aplicando essa ideia à prática da análise e da De acordo com Loewald,⁵ a revisão psicoterapia de adultos, ela pode ser conside- significa, essencialmente, rada uma representação de experiências de fantasias presentes, da mesma maneira que 0 [...] que um significado é criado pelas brinquedo da criança é uma representação da interações entre paciente e terapeu- elaboração de seus traumas em fantasia. ta, que têm novas tensões dinâmicas302 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.) Tal visão da transferência como se analista e o significado que ele dá a sua in- originando das dificuldades presentes no terpretação. E isso pode ser observado pelo aqui e agora da sessão foi estimulada pelo que acontece na relação terapêutica, não só desenvolvimento e pela ênfase da noção de pelo que o paciente diz, mas também pe- fantasia inconsciente. Todavia, essa ideia la maneira como fala e pelos sentimentos condiz com a noção de que a transferência que desperta no terapeuta.²²⁻²⁵ (Uma revi- é moldada nos mecanismos infantis com os são mais abrangente dos desenvolvimentos quais o paciente lidava com sua experiência kleinianos e pós-kleinianos do conceito de há muito tempo. De acordo com Klein,²¹ transferência pode ser encontrada no Ca- pítulo 4.) [...] o paciente certamente lidará com seus conflitos e ansiedades experi- mentados agora em relação ao analis- NEUROSE INFANTIL E ta pelos mesmos métodos que usava no passado. Isso quer dizer que ele se NEUROSE DE TRANSFERÊNCIA afasta do analista como ele tentava se afastar de seus objetos primitivos. A neurose infantil costuma ser mencionada como central ao processo de tratamento e Ainda que Klein também tenha intro- como estando no coração da transferência, duzido o conceito de identificação projeti- va, ela não parece ter considerado seu uso uma vez que, em última análise, os confli- na análise da transferência da forma que tos da neurose infantil é que são revividos logo se desenvolveu entre seus colegas. e experimentados novamente. Seja qual for a maneira como se conceitue a neurose in- fantil, ela não é simplesmente reproduzida por sua revivência modificada na forma de Bion sugeriu que a interpretação da transferên- eventos de mas pode ser cia poderia ser feita a partir da maneira como reconstruída pelo processo de interpreta- seus pacientes estavam tentando despertar ção da transferência. Mais uma vez, reme- nele sentimentos que não podiam tolerar em si te-se aos comentários sucintos de Greena- mesmos, mas que, inconscientemente, dese- javam expressar e que podiam ser entendidos pelo analista como uma comunicação. termo neurose infantil pode ser usado em dois sentidos um pouco di- ferentes: um significando a eclosão de Outro passo importante nesse desen- sintomas neuróticos manifestos no volvimento foi a ideia formulada por Jo- período da infância, i.e., aproximada- seph, da transferência como situação total mente antes dos 6 anos de idade; o se- no curso de um tratamento. Essa autora sa- gundo significando a estrutura inte- rior de desenvolvimento infantil, com lientou a importância de entender a trans- ou sem sintomas manifestos, que for- ferência como um relacionamento vivo, no ma, entretanto, a base de uma neuro- qual há constante movimento e mudança. se posterior. Além disso, tudo o que o analista é ou diz provavelmente terá uma resposta mais de O primeiro sentido é o significado acordo com a própria constituição psíqui- clínico, historicamente original, referindo- ca do paciente do que com as intenções do -se a um grupo de conflitos específicos cen-Psicoterapia de orientação analítica 303 trados em questões edípicas. Com base no Podemos tratar um paciente do jeito segundo significado, mais metapsicológico, que preferirmos, mas ele sempre tra- então a presença de sintomas manifestos tará a si mesmo psicoterapicamente, na infância ou na idade adulta não é uma quer dizer, com a transferência. (gri- fo omitido) condição sine qua non para a existência de complexo edípico ou de conflito neurótico Portanto, embora ubíquas, as formas na infância ou mais tarde. Se, além disso, particulares como as influências transfe- o conceito for reformulado para referir-se renciais aparecem na vida de uma pessoa à estrutura interior do desenvolvimento dependem do que se considera necessário psíquico, ele fornece uma base valiosa para ser "tratado". entender o que se transforma, a fim de apa- A repetição, a representação ou a re- recer em uma nova edição nas revivências vivência de determinado prazer, uma certa transferenciais de experiências passadas e frustração, o esforço para dominar uma da neurose de transferência. ansiedade específica são exemplos de expe- riências na interação com os outros desde o início da vida que, com frequência, são encontradas ao examinarem-se relaciona- Mesmo reconhecendo 0 impacto organizador sobre 0 desenvolvimento do complexo de Édipo, mentos interpessoais presentes e que ilus- aquela fase particular não é vista como com- tram o comentário de Freud. Em termos ponente obrigatório da transferência nessa for- mais gerais, pode-se perceber nesses exem- mulação da neurose infanti.²⁹ Tal formulação plos a tendência a estabelecer uma identi- permite incluir elementos pré-edípicos e pré- dade de percepções por meio da repetição -verbais nas manifestações de transferência. de experiências passadas. Ela também possibilita a inclusão de dificulda- des pós-edípicas que surgem quando a elabo- ração necessária e apropriada de soluções pri- mitivas falha em níveis posteriores do desen- A situação terapêutica fornece a oportunidade volvimento. de focalizar outras partes, de articular as fan- tasias associadas, de lembrar as memórias re- lacionadas e de evocar a participação de ou- tras camadas da personalidade no trabalho Mas o que determina os conteúdos terapêutico, de tal modo que dificuldades an- de qualquer forma particular de manifes- teriormente repelidas podem ser trazidas para tação transferencial e a sequência na qual a transferência. esses conteúdos aparecem? Ou, nesse sen- tido, o que determina a forma tomada por uma manifestação transferencial particular Conforme Freud,³¹ "na psicanálise e decide se as complexidades da neurose [...], todas as tendências do paciente, in- de transferência se tornarão manifestas ou cluindo as hostis, são provocadas". Assim, não? E quais são as consequências para a si- o conteúdo dos temas transferenciais pode tuação clínica? Ainda não temos respostas variar, mas, em geral, fixa-se em algumas muito conclusivas, mas uma primeira abor- questões de importância central para esta- dagem desses problemas foi fornecida por belecer determinada dificuldade no desen- Freud, conforme relatado por Ferenczi,³⁰ volvimento, na adaptação e nos relaciona- que afirma: mentos do paciente.304 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.) REGRESSÃO mentos presentes não são particularmente profundas, duradouras ou elaboradas, mas, Em relação ao esquema, há pouco descri- sob outra perspectiva, se não for permitida to; a forma tomada pela transferência de a regressão, então nenhuma transferência tempos em tempos no curso do tratamento poderá ocorrer. reflete o grau em que a regressão ocorre. Com a paciente que era compulsiva- Com a forma habitual de relacionamen- mente infiel a seu marido, a vívida revivên- to, não ocorre nova regressão na relação cia da experiência passada acarretou uma com o terapeuta. Por exemplo, um pacien- regressão em seu relacionamento com o te que queria convidar seu terapeuta para terapeuta a uma dimensão semelhante à do drinques no primeiro encontro não estava relacionamento com sua mãe na infância, envolvido, naquele momento, em uma re- em uma época em que ainda tinha cons- gressão transferencial. Essa forma habitual ciência de sua raiva por ela, embora tivesse de relacionar-se, como qualquer traço de reprimido a razão disso. Essa experiência caráter, tinha uma história genética asso- transferencial relativamente elaborada e ciada a seu relacionamento com o pai; en- duradoura foi seguida por outras, que vie- tretanto, teria sido uma falácia ram a fundir-se ou sobrepor-se, da forma ignorar a autonomia secundária conquis- descrita por Greenacre,¹⁴ formando a "es- tada por esse comportamento e supor que trutura transferencial" de uma neurose de um desejo originalmente envolvido em sua transferência. As regressões envolvidas são gênese ainda estivesse ativo, consciente, essencialmente as mesmas na transferência pré-consciente ou inconscientemente. de experiências passadas e na neurose de Na transferência de relacionamentos transferência e constituem parte das expe- presentes, dois elementos podem ser reco- riências sobrepostas nesta última. nhecidos no trabalho com a paciente que Outras maneiras de descrever a forma um dia estava irritada com o terapeuta, em da transferência, por exemplo, uma trans- vez de com seu marido. Um era conside- ferência idealizada, uma transferência ma- rar seu terapeuta uma pessoa segura, com terna, entre outras, referem-se às qualida- quem desabafar sua raiva, repetindo um des da relação objetal, que podem ou não relacionamento da infância com uma avó ser aquelas revividas no processo terapêu- amorosa e tolerante; a paciente dispunha tico, representando ou não uma regressão de vários desses refúgios de segurança. Um no relacionamento com o terapeuta. Por- segundo elemento tornou-se mais evidente tanto, são consideradas auxiliares para as na sequência, em termos de regressão a um cinco categorias descritas. período de relações sadomasoquistas com sua mãe; conforme isso se tornava mais evidente no relacionamento terapêutico, CONTRATRANSFERÊNCIA também se manifestavam os episódios de transferência da revivência de experiências Bird¹ enfatizou um aspecto ainda pouco passadas. Tal concordância ilustra como avaliado da experiência do terapeuta com essas formas, conforme descrevemos, não a neurose de transferência quando diferen- estão, de fato, nitidamente separadas umas ciada de outras reações transferenciais. Ele das outras. Descobrimos que as regressões salientou que que é específico em rela- envolvidas na transferência de relaciona- ção à neurose de transferência é o envol-Psicoterapia de orientação analítica 305 vimento ativo do terapeuta na constituição a esta do que em função das necessidades central deste que do paciente. Ou pode reagir inconsciente- mente a determinada pessoa que manifeste [...] o paciente deve ser autorizado a conflitos semelhantes aos seus, o que talvez incluir o terapeuta em sua neurose, o impeça de identificar e compreender os ou, por assim dizer, compartilhar sua neurose com o terapeuta¹ conflitos do paciente, pelo receio de reco- nhecer também os significados inconscien- e que uma "neurose de transferência é me- tes dos seus.²⁵ ramente uma nova edição da neurose ori- ginal do paciente, mas comigo nela".¹ As extraordinárias dificuldades que tornam o COMENTÁRIOS SOBRE TÉCNICA tratamento da neurose de transferência a parte mais complexa do trabalho do tera- Ao comparar-se a psicanálise com a psi- peuta estão relacionadas "ao desgaste des- coterapia de orientação psicanalítica, é ta experiência abrasiva" de estar no centro habitual reconhecer inúmeras diferenças dessa dolorosa inclusão.¹ Para o terapeuta importantes. Entre elas está o fato de que assim envolvido com a neurose do pacien- a intensidade associada à alta frequência te, o processo interpretativo não é apenas de sessões e outros aspectos da situação um instrumento terapêutico, mas também psicanalítica predispõem à maior elabora- o meio de elaborá-la e tentar solucioná-la ção de manifestações de transferência nas junto com o paciente. formas que descrevemos. Mas também é Por fim, embora reconhecendo que importante reconhecer que a frequência reações de contratransferência podem re- maior fornece mais oportunidades para o pelir o aparecimento da neurose de trans- analista trabalhar com o paciente as ques- ferência e limitar o tratamento a uma "arte tões de transferência. Portanto, o trabalho embora útil, Bird¹ também psicoterápico, por comparação, tem uma era da opinião de que envolvimento da limitação específica, porque não propicia a própria transferência do terapeuta é neces- mesma liberdade e oportunidade de traba- sentimento que encontrou eco em lhar sistematicamente as manifestações da Loewald:³³ "A contratransferência é o meio transferência. indispensável para entender a transferência Na psicoterapia, esse trabalho pode do paciente". Essa visão contemporânea ocorrer de tempos em tempos e ser mais da contratransferência surgiu mais recen- vulnerável às intromissões da realidade ex- temente no curso da evolução desse con- terna, mas, mesmo assim, pode ser bastante ceito.³⁴ Entretanto, é importante ter em efetivo e benéfico. Uma psicoterapia analí- mente que a interação entre as resistências tica pode ser limitada com mais frequên- do paciente e as contrarresistências do te- cia também de outras maneiras, como, rapeuta pode conspirar para prejudicar ou por exemplo, na duração do tratamento. impedir a evolução de manifestações da De maneira ideal, não há estabelecimento transferência. Por exemplo, o terapeuta po- de limite de tempo para uma psicanálise, de deixar de interpretar tudo o que poderia e isso corresponde aos seus objetivos mais sentir e entender por meio da contratrans- ambiciosos, que podem mudar e evoluir no ferência normal e, perdido em sua própria decorrer do tempo. Os objetivos na psico- neurose, posicionar-se mais em relação terapia de orientação psicanalítica tendem306 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.) a ser menos ambiciosos em termos de alte- ração da personalidade e mais focalizados em, pelo menos, três circunstâncias: no início no alívio do sintoma ou na abordagem de do tratamento, sobre as ansiedades paranoides conflitos específicos ou problemas da vida despertadas pelo novo relacionamento; para entender resistências e acting outs durante 0 do paciente. A experiência mostra que, se curso da psicoterapia; e para elaborar os está- o terapeuta tem objetivos mais ambiciosos gios finais desta. que o paciente, o tratamento tende a ser interrompido.³⁵ Tanto a psicanálise como a psicoterapia estão sujeitas a um excesso Também pode ser necessário exami- de investimento por parte do terapeuta, tal nar e interpretar expressões transferenciais como a noção de que tudo deve ser ime- em outros momentos e situações, quando diatamente interpretado como dizendo o paciente deseja comunicar ideias e senti- respeito a sua pessoa, esquecendo a impor- mentos que apenas podem ser entendidos tância da interpretação não transferencial nesses termos ou quando ele expressa sen- (ou "extratransferencial").3 timentos e fantasias diretos em relação ao Outro excesso de investimento ou terapeuta. mito é o de que a transferência deve ser completamente "resolvida" para o trata- mento ser efetivo. Hoje, em geral, se sabe Sem exagerar na utilização das interpretações que expressões positivas de transferência transferenciais, nem evitar a necessidade de ou seja, sentimentos positivos em relação estar atento às expressões da transferência ao terapeuta podem servir como defesas descritas neste capítulo e sua oportuna comu- contra sentimentos negativos, e vice-ver- nicação, a experiência clínica permite ao tera- sa. Também pode haver defesas contra a peuta sentir-se progressivamente mais à von- transferência e contra sua conscientização. tade com esse instrumento. Trabalhar com a transferência e en- Uma preocupação exclusiva com a transferência, na psicanálise ou na psicoterapia, pode levar à tendê-la é uma questão complexa que pode distorção do processo de tratamento como uma ser aprendida com o tempo, tornando-se consequência de escutar apenas 0 conteúdo, isto um dos principais recursos para estabele- é, como um todo, a transferência, em vez de es- cer uma relação produtiva com aqueles que cutar 0 material e 0 contexto no qual ele surge. buscam psicoterapia de orientação analí- tica. Portanto, as funções defensivas da transferência podem ser esquecidas se ela CONSIDERAÇÕES FINAIS for considerada apenas uma recapitulação da história do indivíduo.³⁷ Em síntese, descrevemos e diferenciamos cinco formas ou categorias de relaciona- mento paciente-terapeuta que podem ser Como orientação, pensamos que interpreta- usadas para monitorar o desenvolvimento ções da transferência no decorrer da psicotera- da transferência no curso do tratamento: pia analítica devem ser feitas, necessariamente, formas habituais de relação, transferên- cia de relacionamentos presentes, transfe-Psicoterapia de orientação analítica 307 rência de experiências passadas revividas, primitivo. É possível que fatores de resis- neurose de transferência e representação tência do paciente e de contratransferência de fantasias inconscientes. Nesse esquema, do terapeuta impeçam o desenvolvimento, a neurose de transferência é vista como o aparecimento e o reconhecimento de ma- uma de várias manifestações transferen- nifestações da transferência. ciais que se desenvolvem no tratamento. clássico trabalho de Freud sobre a Ela não é considerada um requisito para a dinâmica da transferência completou há validade ou a adequação do processo tera- pouco seu centenário. Além dele, trabalhos pêutico. Essa classificação é proposta como recentes sobre esse conceito fundamental um meio de ordenar dados clínicos, e não da técnica psicanalítica e da psicoterapia como medida de analisabilidade, tratabili- destacam sua centralidade dade ou diferenciação do tratamento como no trabalho clínico, em todas as escolas de psicanálise ou psicoterapia. pensamento psicanalítico. Evidenciam-se, desenvolvimento da transferência é assim, o fato de que se trata de uma repe- descrito como dependente da interação pa- tição, mas não só de uma repetição; sua ciente-terapeuta. Ela reflete mais a estrutu- íntima relação com a contratransferência; ra interior do desenvolvimento psíquico à a necessidade de desenvolver uma escuta medida que a regressão do paciente e o en- cada vez mais fina para captar sua presen- volvimento do terapeuta nos conflitos do ça, ostensiva ou latente; o potencial criativo paciente aumentam. Quando ela aparece, a ou destrutivo de intensas expressões trans- estrutura complexa de temas relacionados ferenciais; e a necessidade de estar atento que constituem a neurose de transferência à transferência e a sua contrapartida para emerge de revivências transferenciais mais que se possa evoluir à procura de uma co- episódicas de experiências passadas, a par- municação cada vez mais próxima com a tir das quais o terapeuta pode reconstruir emoção presente e viva no campo analí- os contornos do desenvolvimento psíquico tico. PONTOS-CHAVE DO CAPÍTULO 1. A transferência é um fenômeno que está presente em todas as formas de psicoterapia. 2. Em psicanálise e em psicoterapia de orientação analítica, a transferência e sua interpretação ade- quada constituem um veículo decisivo para que ocorram mudanças psíquicas. 3. Podem ser descritas cinco formas de transferência: formas habituais de relacionamento; transferência predominantemente de relacionamentos presentes; transferência predominantemente de experiências passadas revividas; neurose de transferência; representação de fantasias inconscientes. 4. Há uma relação sempre presente entre transferência e contratransferência, e, muitas vezes, é apenas a partir do que 0 terapeuta percebe em si que pode chegar a perceber e a abordar a transferência. 5. A interpretação da transferência é recomendável diante das ansiedades de um início de psicoterapia, sempre que surgem atuações e resistências, nas etapas finais do tratamento e quando suas expressões diretas ou aludidas são úteis para entender e analisar sentimentos, ideias ou fantasias que possam ampliar a compreensão sobre 0 mundo interno do paciente.308 Eizirik, Aguiar & Schestatsky (orgs.) REFERÊNCIAS 17. Gann E. 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