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CASO 1 (...) Histórias desse tipo ocorrem também aqui no Brasil. Eu mesma tive a oportunidade de atender Sônia, uma mulher casada havia mais de dez anos, cujo pai tinha coreia de Huntington, uma doença neurodegenerativa que, em geral, só se manifesta após os quarenta anos de idade. A doença, que se caracteriza por uma perda progressiva dos neurônios (as células nervosas), não tem cura e costuma progredir muito rapidamente. Indivíduos de ambos os sexos são igualmente afetados. O risco de um descendente de uma pessoa afetada herdar a mutação também é de 50%. A nossa conduta é desestimular adultos em risco que queiram se submeter a esses testes genéticos enquanto não houver tratamento adequado ou preventivo. Não testamos crianças mesmo que esta seja a vontade dos pais. Em vez de trazer benefícios, um diagnóstico positivo pode significar um peso enorme que a pessoa terá que carregar durante toda a juventude. É como uma bomba-relógio cujo prazo para detonar não pode ser previsto nem interrompido. A situação de Sônia, porém, era diferente. Após dez anos de casamento, ela queria ter um filho, mas temia passar o gene da doença paterna para seus descendentes. E vivia um dilema: se fizesse o teste, e o resultado fosse positivo, teria de conviver com o drama. Se não se submetesse ao teste, não teria coragem de engravidar. Na primeira consulta de aconselhamento genético, Sônia veio acompanhada do marido e da mãe. Enquanto o primeiro, vendo o seu sofrimento, a aconselhava a desistir do teste, a mãe, por outro lado, insistia em que ela levasse o caso adiante. Estranhamos a sua atitude porque, em geral, as mães querem poupar seus filhos dessa carga. Mas, depois que o casal deixou a sala, a mãe revelou o motivo de sua insistência. Disse que o pai de Sônia não era de fato seu pai biológico, mas ela não tinha coragem de contar para a filha, mesmo vendo todo o seu sofrimento, porque temia que Sônia não a perdoasse. Fica novamente a pergunta: em casos como esse, devemos entrar no jogo familiar e realizar o teste, mesmo sabendo que é desnecessário, porque não há mutação a ser revelada? Contaríamos a Sônia que ela não era portadora e o motivo que nos levava a afirmar isso? Ou nos recusaríamos a fazer o teste esperando que a mãe se manifestasse? Não há consenso, como foi mostrado na situação anterior pelos colegas holandeses. Discutimos esse caso com a equipe da Clínica de Psicanálise que assessora nossos estudos do Genoma Humano. O nosso sentimento era de raiva daquela mãe, por deixar a sua filha sofrer tanto tempo sem necessidade. Afinal, seria tão mais fácil contar-lhe a verdade. Dizer que ela poderia perseguir o seu sonho de ser mãe sem susto porque não era portadora daquela mutação. E, ainda por cima, que estava livre para sempre do terror de poder vir a manifestar a doença no futuro. Mas o grupo de psicanalistas nos orientou e preferiu manter em suspenso aquela tensão no domínio familiar, apostando que as posições, especialmente a da mãe, mudariam. Sônia não voltou a nos procurar e engravidou. Desconfio que a mãe tenha afinal contado a verdade (...). CASO 2 (...) Outra questão muito importante que costumamos enfrentar: é ético testar crianças para doenças que só se manifestam em adultos? Esses testes são frequentemente solicitados pelos pais. Quando surgiram os primeiros testes genéticos para doenças de início tardio, na década de 1990, não tínhamos nos dado conta do impacto que pode provocar a descoberta de um gene causador de um problema grave em uma criança. Hoje somos totalmente contra, como expliquei no caso relatado no primeiro capítulo. Antes, testávamos todas as crianças que pertenciam a famílias de risco, mesmo sem apresentar sintomas para doenças, desde que fosse a pedido dos pais. Quando decidimos interromper esse procedimento, os resultados que já tínhamos foram arquivados e mantidos em confidencialidade. O acerto dessa medida foi comprovado por uma história que conto a seguir. Certa vez, João, um rapaz que havia acabado de fazer dezoito anos, nos procurou porque desejava ser testado para coreia de Huntington, doença neurológica bastante grave e incurável, que geralmente acomete o indivíduo com quarenta anos ou mais, e provoca deterioração intelectual e distúrbios psiquiátricos. Como a doença tem em geral um início tardio, quando o diagnóstico é estabelecido o paciente frequentemente já está em idade reprodutiva. O pai de João já estava bastante comprometido e ele sabia que tinha 50% de chance de também ser afetado. Sabia ainda que não havia cura para a doença. É fácil imaginar o impacto que um teste positivo nesse caso teria sobre o rapaz, que enfrentaria o diagnóstico de uma vida mais curta, cuja parte final seria de grande sofrimento. Nesses casos, nossa orientação é fornecer todas as informações e deixar bem claro que a pessoa interessada só deve fazer o teste se tiver condições emocionais — após uma avaliação por psicanálise — de enfrentar qualquer que seja o resultado. Em teoria talvez, mas, na prática, me questiono se alguém pode estar preparado para saber que tem uma mutação para uma doença de início tardio, incurável. Por isso, hoje só concordamos em fazer o teste depois de muito diálogo com os consulentes. Numa dessas conversas de aconselhamento genético, ficou evidente que João não estava muito seguro. Ele chorou várias vezes e acabou indo embora, indeciso com a promessa de voltar para conversar quando quisesse. Depois que João saiu, descobrimos por acaso que ele fizera parte daqueles procedimentos que haviam sido testados no passado, quando ainda não tínhamos decidido que crianças não deveriam se submeter a esses testes. E que, felizmente, ele não era portador da mutação. Decidimos chamá-lo de novo para explicar o que havia acontecido e dar-lhe a boa notícia. Quando ele entrou na minha sala, e antes que eu abrisse a boca, ele exclamou imediatamente: “Você tinha razão, não estou pronto para ser testado”. Mas eu não podia mais guardar aquele segredo. Impossível descrever a emoção quando João soube por que o havíamos convocado. Choramos juntos. Muitos anos depois, eu soube que ele fora entrevistado por uma jornalista e dissera que não sabia se era portador ou não. Fiquei surpresa. Será que havia esquecido? Ele depois nos contou que havia preferido negar que sabia estar livre da doença para proteger os irmãos que não tinham sido testados e ainda corriam o risco de ter a mutação, mas nada podiam fazer, por se tratar de uma doença incurável (...). Fonte: ZATZ, Mayana. Genética: escolhas que nossos avós não faziam. 1ª ed., 2012.