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RESUMO DE LITERATURA
Quinhentismo
O Quinhentismo é um movimento mais documental e histórico do que literário e só existiu no Brasil. Abriga a literatura de informação, de catequese e alguns tratados relacionados à dominação portuguesa do território brasileiro que, até então, era pertencente aos povos originários que foram denominados pelos europeus como “povos indígenas”. 
Portugal apossou-se do território brasileiro, que passou a servir aos interesses da metrópole. A principal finalidade das grandes navegações era a expansão do comércio, mas os povos originários do Brasil não eram nem compradores nem vendedores de nada. Restou o objetivo da exploração econômica da terra encontrada aliada a um processo violento de aculturação da população nativa. 
Assim, esse período nos estudos literários e históricos retrata apenas o projeto colonial português, que incluiu duas frentes: a religiosa e a laica, ou seja, a Fé e o Império. E duas estratégias: a exploração econômica e a catequese. Daí também derivam dois tipos de textos: a literatura de viagem (informação sobre a terra) e a literatura proselitista católica (a sedução do nativo para se converter à religião católica).
A literatura de informação
De grande valor documental, a produção escrita nesse período traça um detalhado perfil da terra sob a ótica de um colonizador surpreso com o que acabara de encontrar, tão diferente a seus olhos. Os mínimos sinais da natureza eram registrados como indícios de mensagens de Deus aos conquistadores. 
A Carta de Pero Vaz de Caminha nos passa a impressão de que a harmonia indivíduo-natureza não havia sido rompida. O mito da bondade natural é lembrado no fato de os selvagens andarem despidos como se desfrutassem do estado bíblico de inocência. Não tinham comido ainda o fruto do bem e do mal. Caminha fixou uma das primeiras imagens do bom selvagem, mito que seria formulado de maneira mais abrangente pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau no século XVIII. Em síntese, esse mito concebe o ser humano como bom por natureza e a vida em sociedade como agente que o corrompe.
Outro mito fundante criado pelos colonizadores foi o mito do Eldorado, que confere um cunho ufanista (exaltação do novo espaço) a diversos textos de informação sobre a terra, inclusive a Carta de Caminha. Esse mito, também conhecido como mito da idade do ouro, nasce na cultura greco-latina e aparece em outros escritos dos séculos XV, XVI e XVII.
A Carta de Pero Vaz de Caminha é também um diário de bordo e uma crônica de viagem, a primeira crônica escrita no Brasil, gênero que tem sido modificado ao longo dos últimos séculos. O sentido do termo, na época de Caminha, é de narrativa vinculada ao registro de acontecimentos históricos. Na Idade Média e no Renascimento, esse era o significado de crônica em praticamente todos os países da Europa, incluindo Portugal. No século XVIII, o termo começa a ser substituído por História, ramo do conhecimento que registra os acontecimentos e também sua interpretação. O sentido de crônica como gênero literário passa a ter expressão, no Brasil e em Portugal, somente a partir do século XIX. 
A Carta é datada de primeiro de maio de 1500, mas só foi publicada pela primeira vez em 1817. Ela traz as primeiras impressões da frota de Cabral sobre a terra aonde chegaram e seus habitantes, tratando dos acontecimentos que vão da partida da expedição de Portugal, em 9 de março de 1500, até o envio de uma nau de volta, em primeiro de maio, informando ao rei o que foi encontrado na terra nova. 
A Carta pode ser dividida em três partes. A primeira mostra a travessia marítima, uma expressão da largueza dos itinerários lusitanos. Mas, para isso, vale-se de poucos parágrafos sumários. Quando surgem os primeiros sinais de terra, inicia-se a segunda parte da Carta e o relato torna-se minucioso. Essa parte termina com a visão paradisíaca das índias nuas. A terceira parte é um painel mostrando os esforços do colonizador para começar a absorver a terra no processo comercial, religioso e simbólico, introduzido pelas grandes navegações. Os maiores conflitos viriam depois.
Ainda que o objetivo da correspondência fosse informativo, Caminha não deixou de utilizar o bom domínio da escrita que possuía, podendo ser considerado um escrivão-escritor. O valor fundamental da Carta está no fato de que o cronista, embora identificado com uma das culturas em tensão, deixa que a outra se manifeste e lhe confere viva expressão. Um traço importante no estilo do cronista é o visualismo. Caminha coloca as cenas diante dos olhos do leitor. Ele é um mestre da cor e da imagem, virtudes herdadas de seu antecessor, o cronista Fernão Lopes. O ângulo visual de Caminha restringe-se à amurada do navio ou a breves visitas à praia para relacionar-se com a população nativa. A terra quase sempre é vista do mar. E o narrador demora-se mais no espetáculo humano que no da natureza.
O encontro entre as duas culturas não é mostrado como choque. Um bom exemplo das diferenças entre elas está na reunião que os portugueses promovem na nau Capitania quando trazem, pela primeira vez, dois indígenas a bordo:
O capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem-vestido, com um colar de ouro bem grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele, vamos sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram (os dois indígenas). Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém. 
GUERREIRO, M. Viegas. In: CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a el-rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1974. p. 40.
Vale lembrar que o fato de o choque entre os portugueses e as populações indígenas não ser narrado na Carta de Caminha não significa que ele não tenha existido. Só temos acesso a documentos e registros portugueses, logo é um ponto de vista unilateral. Caminha inclusive afirma, na Carta, que os indígenas eram “muito mais nossos amigos que nós seus”.
Não há dúvida de que a Carta vai muito além de um registro burocrático dos fatos. E esse “além” encontra-se na literariedade do texto: a beleza das imagens, a expressividade das palavras, as sugestões cromáticas e cinéticas, a riqueza de uma linguagem já exercitada na prosa de outros cronistas. À medida que a leitura da Carta avança, é possível perder de vista o narratário definido na figura de D. Manuel e compreender que Caminha dirige-se a um leitor mais geral, dentro do qual você se sente incluído. E esse poder de inclusão vem dos recursos literários do autor.
 Tratado da Terra do Brasil e História da Província de Santa Cruz
Na literatura de informação merecem destaque o Tratado da Terra do Brasil, escrito por volta de 1570, e a História da Província de Santa Cruz, impressa em 1576, ambos de Pero Magalhães Gandavo. No Tratado, a prioridade é mostrar as riquezas da terra, os recursos naturais nela existentes, para que os portugueses se animem a povoá-la, o que fica explícito nas palavras do autor no “Prólogo ao leitor”:
Minha tenção não foi outra, neste sumário, senão denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil, para que (com) esta fama venha a notícia de muitas pessoas que nestes reinos vivem com pobreza, e não duvidem escolhê-la para seu remédio por pobres e desamparados que sejam. [...].
GÂNDAVO, Pero Magalhães. Tratado da Terra do Brasil e História da Província Santa Cruz. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1980. p. 22. [Fragmento]
A atividade pedagógica (ensino do latim), a ação missionária (cristianizar) e a função moralizante (casamentos) compõem a missão dos jesuítas. 
Percebe-se também que havia indígenas escravizados, já que são mencionados os “forros” (livres). Gandavo, às vezes, critica duramente os costumes indígenas, como neste comentário de ordem linguística e moral: 
 	[...] A língua deste gentio toda pela costa é uma: carece de três letras, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei,nem Rei; e desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente [...].
GÂNDAVO, Pero Magalhães. Tratado da Terra do Brasil e História da Província Santa Cruz. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1980. p. 52. [Fragmento]
Os assuntos que mais interessavam a Gandavo eram o comportamento sexual dos indígenas e os rituais de antropofagia, haja vista que esses povos eram aculturados pelos portugueses e tinham seus costumes submetidos ao olhar, sem alteridade, de outra sociedade. Outro ponto que sempre interessou aos colonizadores, e que está presente na História da Província de Santa Cruz, são as riquezas materiais que as terras novas podem oferecer à metrópole.
Literatura de catequese
Os padres jesuítas exerceram uma relevante função didática e moral nos primeiros séculos da colonização portuguesa no Brasil, tentando estabelecer um modelo teocrático de civilização por meio de suas escolas. Nesse modelo, o indígena era a matéria-prima de uma nova sociedade. Muitas vezes os jesuítas entraram em choque com o patriarcalismo agricultor leigo, que via no nativo apenas a mão de obra escrava.
A contribuição de Padre José de Anchieta
Na história da Literatura Brasileira, o Padre José de Anchieta ocupa lugar importante por sua condição de sermonista, poeta e dramaturgo, servindo-se dos seguintes idiomas: latim, castelhano, português e tupi (língua geral). Toda sua obra poética e teatral tem objetivos missionários para alcançar indígenas, soldados e colonos.
A poesia lírica de Anchieta preserva a medida velha (redondilhas menores e maiores) da poesia medieval, porque são versos curtos, fáceis de memorizar e de cantar nas cerimônias litúrgicas. Muito lembradas são essas redondilhas a Santa Inês:
Cordeirinha linda,
Como folga o povo
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo
[...]
Morro porque vejo
Que este nosso povo
Não anda faminto
Deste trigo novo.
[...]
Não se vende em praça
Este pão de vida,
Porque é comida
Que se dá de graça.
[...]
ANCHIETA, José de. A Santa Inês. In: FAUSTINO, Mário (org.). Evolução da poesia brasileira.Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993. p. 18. [Fragmento]
José de Anchieta e o teatro
As primeiras realizações teatrais em terras brasileiras são os autos do Padre José de Anchieta, uma espécie de teatro-catecismo para incutir os valores cristãos nos indígenas, sobretudo nas crianças. Os autos de Anchieta buscam tocar diretamente os corações, evitando raciocínios abstratos. Figuras alegóricas (exposição de um pensamento sob forma metafórica) representam a morte, os pecados, anjos e demônios, suscitando temor e terror diante dos castigos e a aceitação das verdades da fé católica. Portanto, a arte dramática do Padre Anchieta é um instrumento didático, comprometido com os fins religiosos da catequese. Esse teatro reconstrói, a seu modo, um pouco do momento inicial da nossa história.
O Auto de São Lourenço, representado em 10 de agosto de 1583, em Niterói, foi composto por Anchieta em tupi, espanhol e português. Apresenta personagens alegóricas tipicamente medievais, como “Amor de Deus” e “Temor de Deus”. O caráter maniqueísta (divisão entre bem e mal, certo e errado), que ajudava a promover a doutrinação do público-alvo, está no conflito entre as forças da salvação (São Sebastião, São Lourenço, Anjo) e as da perdição (Guaixará, rei dos diabos, e Aimbirê e Saravaia, seus criados). Uma das técnicas utilizadas para mostrar a superioridade do colonizador foi colocar a fala do Anjo em português e a do demônio em tupi.
Leia os trechos a seguir para perceber como o texto teatral de Anchieta é construído conforme os preceitos da contrarreforma, isto é, difundir a fé católica por meio das artes. Neste fragmento do segundo ato, Guaixará, Ambirê e Saravaia representam a perdição / o pecado.
[...]
Que bom costume é bailar! 
Adornar-se, andar pintado, 
tingir pernas, empenado 
fumar e curandeirar, 
andar de negro pintado. 
Andar matando de fúria, 
amancebar-se, comer 
um ao outro, e ainda ser 
espião, prender Tapuia, 
desonesto a honra perder. 
Para isso com os índios convivi. 
Vêm os tais padres agora 
com regras fora de hora 
pra que duvidem de mim. 
Lei de Deus que não vigora.
[...]
ANCHIETA, José de. O Auto de São Lourenço. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 48. [Fragmento]
O “antídoto” contra esses pecados está nesta fala de São Lourenço:
Mas existe a confissão, 
bem remédio para a cura. 
Na comunhão se depura 
da mais funda perdição a alma que o bem procura. 
Se depois de arrependidos 
os índios vão confessar 
dizendo: “Quero trilhar
o caminho dos remidos”. 
– o padre os vai abençoar.
ANCHIETA, José de. O Auto de São Lourenço. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 66.
O teatro de Anchieta representa o esforço dos jesuítas para incorporar os povos indígenas brasileiros às raízes da civilização cristã e promover a integração social entre o indígena e o português. São do Padre José Anchieta as primeiras expressões líricas da poesia e as manifestações inaugurais do teatro em terras brasileiras.

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