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SUSANA INÊS BASUALDO SOCIOLOGIA: Teorias e Aplicação 48 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 UNIDADE 2 SOCIOLOGIA CLÁSSICA: OBJETO E MÉTODO DE ANÁLISE INTRODUÇÃO Vamos abordar objeto sociológico: objetivismo e subjetivismo na Sociologia. Para isso, lançaremos mão de conceitos da teoria do conhecimento. Também faremos uma passagem pela abordagem histórica da construção do objeto da sociologia e veremos o modo como ela constrói suas abordagens entre objetivismo e subjetivismo nos clássicos e em alguns autores contemporâneos. Apresentar os clássicos da Sociologia (Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber) é um enorme desafio pela dimensão de suas produções. Para essa abordagem, iniciamos cada capítulo com uma retrospectiva histórica de cada autor, na perspectiva de que, a partir desse contexto, torne-se mais fácil compreender os pontos fundamentais da obra de cada autor. Ainda, acrescentaremos referências diversas para que você possa am- pliar a compreensão dos conceitos e das informações apresentadas. 1. OBJETO SOCIOLÓGICO: OBJETIVISMO E SUBJETIVISMO No âmbito da ciência, objeto é aquilo que se pretende estudar, o problema a ser des- vendado. Mas, afinal, qual é o objeto de estudo da sociologia? Para tentar compreender melhor, podemos lançar mão do significado do termo, a partir de sua etimologia: Em seu Curso de filosofia positiva, [Auguste Comte] utilizou o vocábulo “so- ciologia” pela primeira vez em 1839, composto pitorescamente de socius (latim, significando o “o ser que se relaciona com outros”) e logos (grego, “estudo racional”). O grande objetivo era chegar às leis sobre o comportamento humano em sociedade, que, por sua vez, dariam segurança à intervenção sobre essa realidade. (VÉRAS, 2014, p. 10-11) De acordo com Lakatos e Marconi (2019, p. 7), a Sociologia é entendida como “[e]studo da estrutura e funcionamento da sociedade humana. Estuda os fenômenos coletivos produzidos pela atividade social das pessoas no seu contexto histórico-cultural”. Em meados do século XIX na Europa, o surgimento das primeiras produções sociológi- cas direcionava seus estudos para as situações vinculadas às relações sociais. Segun- do Tomazzi (1993, p. 15 apud Ferreira, 2003, p. 32), são essas situações sociais que interessam a [sic] sociologia. Situações cujas causas não são encontradas na natureza ou na vontade individual, mas antes devem ser procuradas na sociedade, nos grupos sociais ou nas 49 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação situações sociais que as condicionam. É tentando explicar essas situações que a sociologia colocará como básico o relacionamento indivíduo e socie- dade. A sociologia volta-se o tempo todo para os problemas que o homem enfrenta no dia a dia de sua vida em sociedade. Inicialmente, o esforço da sociologia foi o de interpretar a sociedade em bases cientí- ficas, ultrapassando os conceitos baseados na religião, que dominou o pensamento e a sociedade durante a Idade Média, e das noções do senso comum. Utilizando-se da base de pensamento Iluminista, com a primazia da razão, e do avanço das ciências, propunha-se a inaugurar uma “física do social”. A expressão “física social”, elaborada por Comte, significa que os fenômenos sociais são submetidos a leis naturais invariá- veis. Por exemplo, a lei da distribuição das riquezas e do poder econômico, que deter- mina a “indispensável concentração das riquezas na mão dos senhores industriais”. Para Auguste Comte (1798-1857), este é um exemplo de lei invariável, natural, da so- ciedade, cujo estudo é tarefa da física social e, depois, da sociologia. Comte transfere as metodologias realizadas para entender o mundo natural para o social. O que se buscava entender no estudo da realidade social? Buscava-se explicar como as ações individuais se inseriam nas ações coletivas, como se estruturavam e incor- poravam normas de conduta e como o entendimento e a ação coletiva determinava o comportamento de diversos grupos sociais. Assim, a produção sociológica se volta para a necessidade de compreensão da relação que se estabelece entre indivíduo e sociedade, enquanto situações cujas causas estão além de atitudes ou decisões individuais, mas se estabelecem no âmbito social. 1.1 A DELIMITAÇÃO DO OBJETO NA SOCIOLOGIA A própria definição do objeto socioló- gico, de acordo com Fernandes (1960 apud Ianni, 2011, p. 74-120), tem sido demarcada segundo três orientações distintas, com predomínio da “tendên- cia a considerar os comportamentos sociais através de propriedades que parecem peculiares ao comportamento social humano” (IANNI, 2011, p. 75). Em que pese existirem discus- sões sobre a existência de diver- sas categorias, formas e níveis de interação entre outros seres vivos (animais ou vegetais), chegando à defesa, por alguns autores como Franklin Giddings (1855-1931), Eugène Dupréel (1879-1967), John Lewis Gillin (1871-1958) e John Philip Gillin (1907-1973), de que a sociologia seria uma “ciência inclusiva dos fenômenos sociais”, cabendo estu- dá-los em todos os níveis da vida, essa visão não encontrou eco na Sociologia. De maneira simplificada, podemos afirmar que existem diversos fatores que diferen- ciam as interações e associações existentes em outros seres vivos, no entanto, não Figura 01. A Sociologia estuda a sociedade, mas que aspecto dessa sociedade? Fo nt e: 1 23 R F. 50 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 há como equipará-las à complexidade das relações humanas, podendo apenas estas serem, de fato, denominadas interação social (IANNI, 2011, p. 76). Sendo assim, seria possível definir a sociologia como “ciência que tem por objeto es- tudar a interação social dos seres vivos nos diferentes níveis de organização da vida” (FERNANDES apud IANNI, 2011, p. 74-120). Fica evidente, nesse conceito, a ampli- tude do objeto apresentado e as diversas delimitações e abordagens metodológicas construídas ao longo da história para alcançar uma compreensão ampla da sociedade. Em uma leitura simplificada destas diferentes abordagens do objeto sociológico pode- mos destacar algumas diferenças encontradas no âmbito da sociologia, como exempli- ficaremos a seguir. Em suas obras, Comte e Spencer defendiam que o estudo da civilização em sua totalida- de era o objeto da sociologia, mas seu foco de análise se voltava à descrição das origens, desenvolvimento e instituições relevantes da civilização. No mesmo período, outras abor- dagens se voltaram aos impactos da industrialização na sociedade, como a de Frédéric Le Play (1806-1882) com seu amplo estudo sobre das condições sociais da classe traba- lhadora na Europa1. Alexis de Tocqueville (1805-1859), nesse mesmo período, se dedicou a estudar a influência dos costumes, estruturas sociais e instituições na América do Norte a partir da instituição da democracia e do desenvolvimento da revolução industrial. Herbert Spencer (1820-1903) foi um filósofo inglês, um dos maiores representantes do positi- vismo na Inglaterra, e um dos fundadores da teoria do darwinismo social, na qual as classes diferenciadas formariam a seleção natural na sociedade. Spencer influenciou grandes estu- diosos, como Durkheim. Para saber mais sobre o estudioso, visite o link abaixo. Disponível em: https://www.ebiografia.com/herbert_spencer/#:~:text=%C3%89%20con- siderado%20o%20fundador%20da,27%20de%20abril%20de%201820. Acesso em: 2 fev. 2020. SAIBA MAIS Estes são apenas alguns exemplos da ampla gama de estudos que a sociologia pode abarcar ao se propor a estudar a sociedade humana, pois, ao longo do curso, aborda- remos outros autores de modo mais detalhado. 1.2 OBJETIVISMO E SUBJETIVISMO NO CONHECIMENTO CIENTÍFICO A palavra episteme é utilizada pelo filósofo grego Platão (428/427 a.C.–348v347 a.C.) para referir-se à busca pelo conhecimento verdadeiro, sendo validado o termo epis- temologia pela filosofia do século XIX para denominar a ciência do conhecimento. A 1 Para saber mais, leiaA família na obra de Frédéric Le Play (BOTELHO, 2002). 51 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação epistemologia aborda diferentes aspectos da construção do conhecimento: natureza, etapas, hipóteses, limites, alcance e metodologia do conhecimento científico. A metodo- logia vem sendo abordada com destaque pela epistemologia, que tem seu olhar voltado para “o espaço de análise das condições e dos limites dos instrumentos de análise dos fenómenos e da linguagem usada na investigação” (LEITE, 2015, p. 1). Todo conhecimento é construído com base em um paradigma, que, segundo Thomas Kuhn (1970 apud LEITE, 2015, p. 1), se baseia em uma gama “de crenças, valores, técnicas etc., partilhados pelos membros de uma determinada comunidade” com o ob- jetivo de apresentar respostas “a problemas socialmente relevantes numa comunidade científica”. Nesse sentido, o paradigma representa “um modelo de procedimentos” que direcionam a produção do conhecimento científico. “A aprendizagem e a investigação científica implicam na aprendizagem prévia do modelo e das técnicas inerentes a esse paradigma” (LEITE, 2015, p. 1). Por outro lado, Leite (2015, p. 1-2) recorda que a ciência busca explicar fenômenos, ou seja, eventos observáveis. Portanto, essa observação se constitui como “experiência individual”, localizada e temporal, socialmente partilhada. Essa relação entre o sujeito (no caso, o cien- tista) e o objeto (o fenômeno de estudo) constitui o centro do debate epistemológico. Figura 02. Aspectos do concretiza na abordagem sociológica. Fonte: elaborada pela autora. OBSERVAÇÃO INVESTIGAÇÃO OBJETO OBJETIVISMO PARADIGMA SUJEITO Bazzanella (2012, p. 15) destaca o papel de Descartes (1596-1650) na modernidade do pensamento filosófico, ao construir a dualidade entre o sujeito pensante (res cogitans), 52 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 capaz de apreender, interpretar, refletir e conhecer os princípios constitutivos da realida- de, em sua materialidade (res extensa). Segundo Durkheim (1971 apud VÉRAS, 2014, p. 50), para garantir a objetividade “o estudo científico não pode ter juízo de valor”. Para isso, o objeto – aquilo a ser estudado – deve ser visto “como coisa” pelo sujeito – aquele produz conhecimento (VÉRAS, 2014, p. 50). Ainda, quando pesquisamos a respeito das características do conhecimento científico, encontramos: O conhecimento científico é rigoroso, positivo, metódico, experimental, ca- racterizando-se pelo distanciamento da convivência do ser. Quando um conhecimento se torna científico, ou se faz ciência? É quando ele indica seu objeto e fala claramente sobre ele. Esse conhecimento é, pelas dificul- dades inerentes a seu processo de construção, privilégio de poucos, uma vez que ele é planejado, programado, sistemático, obediente a métodos, orgânico, crítico, rigoroso e objetivo, nascendo da dúvida e consolidando- -se na certeza. (FERREIRA, 2003, p. 27) A postura aqui apresentada indicaria a necessidade de um distanciamento entre quem pesquisa, produz ciência, e seu objeto de estudo, realidade a ser observada, estudada e analisada, para não se arriscar a perder o foco racional nessa abordagem. Segundo Leite (2015, p. 2), este conhecimento, chamado objetivo, é considerado [...] para o senso comum, um conhecimento preciso, indubitável. Como tal contém uma verdade não questionável. O conhecimento científico é obje- tivo porque define que, em determinadas circunstâncias (condições) um determinado fenómeno acontece. A ciência estabelece uma relação entre causa e efeito e define uma lei (científica). Um conhecimento objetivo é uma teoria sobre o mundo. Algo que não depende do sujeito que observa, que é independente dele, mas que este (o sujeito) pode aprender. Mas será que esta metodologia é aplicável a todas as áreas do conhecimento? Como você imagina que seria realizar um estudo objetivo em um grupo de mulheres vitimi- zadas pela violência doméstica? Ou, então, realizar um estudo sobre as expectativas acerca do futuro junto a jovens de um grupo religioso? Seria possível manter distância? Seria possível olhar para essas pessoas como “coisa”? É preciso reconhecer a importância de Durkheim na consolidação da Sociologia como ciência, mas é preciso recordar que suas referências foram as ciências naturais, pois considerava que as abordagens sobre a sociedade eram mais literárias ou filosóficas que científicas (VÉRAS, 2014, p. 48). De fato, Durkheim, considerado “o verdadeiro fundador da sociologia”, trouxe o método indutivo para a sociologia, evidenciou a importância dos fatos sociais e a necessidade de “método para estudá-los” (VÉRAS, 2014, p. 48). Cardoso (1971 apud VÉRAS, 2014, p. 48), apresenta o cientista social como um “cien- tista concreto”, uma vez que o “sujeito que investiga” faz parte da mesma “realidade concreta”, do “mesmo cenário histórico” que o objeto pesquisado (CARDOSO, 1971 apud VÉRAS, 2014, p. 48-49). 53 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Sendo assim, seria praticamente impossível “tratar os fatos sociais de que faz parte como “coisas”, como pretendia Durkheim” (VÉRAS, 2014, p. 48, grifo do autor). Como você se sentiria ao fazer parte de um grupo de pesquisa cujo objeto de estudo seja uma comunidade, uma organização, movimento social ou grupo religioso com características semelhantes ao seu ou que você tenha proximidade? 01. Conseguiria separar suas emoções na abordagem? 02. Teria facilidade em evitar transpor situações vivenciadas por você para a realidade estudada? 03. Acha que não poderia participar dessa equipe? 04. Pensa que sua vivência, nesses espaços, pode acrescentar elementos para a construção da abordagem no seu grupo de pesquisa? PARA REFLETIR De fato, na análise da natureza, o conhecimento objetivo vem demonstrando grande relevância, mas, aplicado ao indivíduo e à sociedade, encontra certos limites. A mente, no seu confronto com o real, fragmenta para simplificar, classi- fica por agregação de semelhanças, estabelece leis para o compreender (dominar). As ciências fragmentam o mundo, procurando explicá-lo a partir dos seus lugares de enunciação. O mundo não é conhecido como um todo, mas é explicado através das suas partes. O total é apenas uma suposição da razão que não pode ser comprovado pela experiência. (LEITE, 2015, p. 2) O conhecimento científico precisa delimitar e focar no objeto para poder aproximar-se de modo satisfatório do real. Mas, o estudo da sociedade apresenta ainda outra dificul- dade, pois a realidade social não mostra apenas aspectos facilmente dimensionáveis, mas também aspectos subjetivos que entram em confronto com a experiência de quem a observa, exigindo abordagens distintas do fenômeno a ser estudado. Segundo Cardoso (1971 apud VÉRAS, 2014, p. 48), o pesquisador, em sua aproxima- ção com o objeto de estudo, além de trazer sua bagagem de experiências e conheci- mentos pessoais, também cria seu objeto de estudo a partir das teorias científicas em que se respalda. Se o cientista social tivesse que deixar de fora essa bagagem para assumir o “método científico”, “o método seria apenas uma técnica de coleta de dados, anulando o papel do sujeito de conhecimento” (VÉRAS, 2014, p. 48). Nesse sentido, segundo Cardoso (1971 apud VERÁS, 2014, p. 49), não haveria ga- rantia de objetividade nesse modo de abordar o método. Encarar o método como uma sucessão de etapas rígidas seria perder a construção que se dá na interação entre sujeito e objeto. Ainda, a construção do conhecimento não se faz a partir do nada, mas 54 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 parte de um “corpo teórico que lhe dá forma e significado”. Em outras palavras, uma referência para definir o recorte da realidade a ser estudado (CARDOSO, 1971 apud VÉRAS, 2014, p. 49). Para a autora, a ciência exige liberdade de espírito para que possa aprender “com os er- ros” e “com asrupturas” que possibilitam avançar e superar-se. A perspectiva é de que o objeto não é algo estanque para ser desvendado, mas ele se dá a conhecer nesse diálogo com o sujeito. Essa perspectiva joga por terra a ilusão de que o real seria plena- mente desvendado pela razão, pois “Nosso interesse seleciona o que denominaremos e recortaremos como um objeto de estudo e as teorias dão significado ao método” (VÉRAS, 2014, p. 49). A subjetividade, como teoria, parte da relevância do pensamento do sujeito sobre a sua experiência no mundo. A experiencia do mundo só é acessível através da consciência que o sujeito elabora. A consciência, a intenção e a ação são campos do pensamento subjetivo. (LEITE, 2015, p. 3) A ciência, como já dissemos, não pode prescindir da experiência do sujeito, sendo, tam- bém, construída para ele. A abordagem subjetivista estuda a experiência, as intuições, as condições em que experimenta o mundo. “Reconhece, explicitamente, que o lugar de observação e os instrumentos de observação influenciam a sua experiência e fazem parte dela” (LEITE, 2015, p. 3). Até aqui apresentamos apenas algumas referências para compreensão das diferenças básicas entre objetivismo e subjetivismo, que deverão auxiliar na compreensão dos paradigmas predominantes na Sociologia. 1.3 OBJETIVISMO E SUBJETIVISMO NOS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA Pensar no objetivismo-subjetivismo na sociologia nos remete diretamente à relação indivíduo e sociedade, a qual apresentaremos na obra dos pensadores clássicos da sociologia e de alguns sociólogos contemporâneos. KARL MARX Na teoria de Marx, a objetividade e a subjeti- vidade são apreendidas em sua evolução no tempo, ou seja, no movimento histórico-so- cial, baseado na concepção do materialismo dialético relativo à relação homem-natureza. Nessa relação, revela-se a “essência hu- mana criadora e generalizadora, enquanto subjetividade” expressa pelo trabalho, sen- do esta a objetivação da essência humana. Para Marx, o aspecto predominante que re- vela os conteúdos das relações sociais são as formas dominantes de trabalho nas so- ciedades (SILVA, 1996, p. 23). Figura 03. Alienação na venda da força de traba- lho e no distanciamento do domínio do processo de produção Fo nt e: 1 23 R F. 55 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Segundo Véras (2014), no livro A Ideologia Alemã, escrito conjuntamente por Marx e En- gels em 1845, os homens são diferenciados dos animais pela “capacidade do trabalho e modificação da natureza”, na busca de satisfazer suas necessidades. No entanto, nesse processo novas necessidades vão sendo criadas e, para satisfazê-las, surge a divisão do trabalho e, com ela, a desigualdade social. Para manter essa desigualdade, vão sendo criados argumentos que as justifiquem e esses argumentos passam a ser normalizados na consciência social. Para Marx e Engels, trata-se de uma relação dialética: a existência condi- ciona a consciência, mas esta não é mera fotografia e registro dessas ex- periências vividas. E sim reage, cria e transforma a realidade circundante. (VÉRAS, 2014, p. 75) Véras (2014) ressalta que essa relação entre prática (trabalho) e consciência como aspec- tos necessários para a transformação social corresponde ao conceito de práxis.Ainda, em Marx, é o homem quem faz a história, “não como deseja, mas sim a partir de circunstâncias determinadas objetiva e subjetivamente” (MARX, 1973 apud SILVA, 1996, p. 23). É nessa disputa entre as condições objetivas e a consciência (subjetividade) que se encontram tanto a manutenção das relações de exploração quanto as possibilidades de sua superação. Nesse sentido, Marx afirma que a sujeição do proletariado se deve à alienação do trabalho, que se torna mais intensa e elaborada no processo de produção capitalista. A alienação do trabalho consiste no fato de o trabalhador não ser mais o dono dos meios de produção e, por outro lado, a divisão do trabalho fazer com que ele não se reconheça no produto final dessa cadeia produtiva. A mercadoria produzida praticamente ganha vida própria e o trabalho do operário acaba sendo transformado em mercadoria, comprada a preço de um salário. Esse processo nega a essência criadora do indivíduo, eliminando sua identificação com o obje- to que produziu, provocando uma alienação da subjetividade do sujeito (SILVA, 1996, p. 23). No entanto, esta situação poderá ser superada com o desenvolvimento das condições adequadas. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade. Eis porque a humanidade não se propõe nunca senão os proble- mas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á sempre que o próprio problema só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir. (MARX, 2008, p. 48) Nessa afirmação podemos observar que as mudanças nas estruturas sociais não dependem unicamente da vontade dos indivíduos. Nesse sentido, segundo a análise da autora: Percebe-se que a teoria de Marx pretende apreender os fenômenos sociais em sua totalidade, partindo do aspecto produtivo do homem, e para tanto cria conceitos genéricos e abrangentes, que mesmo procurando dar conta dos aspectos objetivos e subjetivos tende a acentuar o aspecto objetivo da relação indivíduo e sociedade. (SILVA, 1996, p. 24) 56 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 No âmbito da análise de correntes epistemológicas na Sociologia, Marx é considerado o precursor da denominada Perspectiva do conflito, que desafia o status quo incentivando mudanças sociais. De acordo com Souza Martins, ` Para Marx, o método dialético é a chave para compreender a realidade social. ` Marx cria um artifício didático, infra e superestrutura, para explicar a organização da sociedade. ` Na infraestrutura estão as relações econômicas determinantes na sociedade. ` Na superestrutura encontram-se as instituições responsáveis pela elaboração do pensamento social, que serve de justificativa para as relações existentes na infraestrutura. ` A realidade não é aquilo que vemos num primeiro momento, a objetividade como quer o positi- vismo, não é a aparência que mostra o objeto, mas o que ele esconde. ` Não existe neutralidade para Marx, o pesquisador se envolve com o objeto e este com o pesqui- sador. (MARTINS, 2012, p. 48 apud LAKATOS; MARCONI, 2019, p. 33-34) Outro pensador de destaque nesta linha de pensamento é Antonio Gramsci (1891-1937). Para saber, ver Lakatos e Marconi (2019, p. 34). IMPORTANTE ÉMILE DURKHEIM Outro pensador de grande importância para a Sociologia é Durkheim, que já mencionamos acima ao abordarmos a objetividade nas Ciências Sociais. Segundo Silva (1996, p. 22), Durkheim defende que o indivíduo, mesmo fazendo parte da construção da sociedade e de suas regras para a garantia da coesão do tecido social, é subjugado pela sociedade, uma vez que sua vontade individual é moldada no processo de socialização. Nesse processo, é modificada sua natureza psíquica e o indivíduo passa a almejar o consenso na sociedade e identificar- se com os “interesses da sociedade de sua época”. [...] o indivíduo não o sente, tal como não sentimos a atmosfera que nos pesa sobre os ombros. Desde que o indivíduo foi criado, educado pela cole- tividade, dessa forma, quer naturalmente aquilo que ela quer, e aceita sem dificuldade o estado de sujeição ao qual está reduzido. (DURKHEIM, 1983 apud SILVA, 1996, p. 22) Esse processo, que visa garantir a coesão social, acaba por tornar as regras morais e sen- timentos sociais maiores que os indivíduos, seus criadores. Em sua obra, Durkheim (1983 apud SILVA, 1996, p. 22) chama isso de “consciência coletiva”. Ao cientista social caberia revelar no estudo das regrassociais seus valores e sua moral, “o conteúdo ‘espiritual’ da sociedade, objetivado na realidade”. (SILVA, 1996, p. 22) 57 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Em termos gerais, os argumentos do positivismo lógico são os seguintes: ` Uma proposição é significativa quando é verificada, no sentido de que a proposição possa ser julgada provável a partir da experiência. ` Uma proposição é verificável se é uma proposição empírica ou uma proposição da qual pode ser deduzida uma proposição empírica. ` A proposição é formalmente significativa só quando é verdadeira, em virtude da definição de seus termos – isto é, se ela for tautológica. ` As leis da lógica e da matemática são tautológicas. ` Uma proposição é literalmente significativa somente se for verificável ou tautológica. ` Considerando que as proposições da metafísica não são nem verificáveis, nem tautológicas, elas são literalmente insignificantes. ` Considerando que as proposições teológicas, éticas e estéticas não cumprem as condições, também são insignificantes em termos de conhecimento. ` Considerando que a metafísica, a ética, a filosofia da religião e a estética são eliminadas, a única tarefa da filosofia é a clarificação e a análise (LAKATOS; MARCONI, 2019, p. 25-26). Os sociólogos positivistas mais conhecidos são Auguste Comte (1798-1857) – França; Herbet Spencer (1820-1903) – Inglaterra; John Stuart Mill (1806-1876) – Inglaterra; Karl Popper (1902- 1994) – Áustria (LAKATOS; MARCONI, 2019, p. 28). IMPORTANTE São estas premissas que permitem pensar a sociedade objetivamente, pois a subjetividade é social, e para apreendê-la basta compreendermos como as sociedades se objetivam através de suas instituições, regras, controles, enfim, de sua consciência coletiva. (SILVA, 1996, p. 22) Silva (1996, p. 22) afirma que Durkheim desconsidera a subjetividade do indivíduo e torna a sociedade seu objeto de estudo, pois ela “existe de forma transcendental, exterior e superior aos indivíduos”, e essa exterioridade é que pode ser estudada, sendo que o indivíduo apenas executa aquilo a que é programado. “Durkheim julga resolver o problema de como o homem pensa e cria símbolos, pois a fonte do pensamento é da simbologia é a sociedade” (SILVA, 1996, p. 22). Para Durkheim (1983) o aspecto subjetivo da sociedade se manifesta nas seguintes premissas: a) os indivíduos criam coletivamente a sociedade, com regras que se colo- cam acima de todos para garantir a coesão do tecido social; b) os indivíduos internalizam essas regras morais através da educação e da coerção e passam a desejá-las, almejando apenas o que é consenso na sociedade, ou seja, sendo o homem que condiz com os interesses da socie- dade de sua época. (SILVA, 1996, p. 22) 58 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 No entanto, não há nesse modelo uma resolução da relação entre objetividade e subje- tividade no processo de construção do conhecimento. CLAUDE LÉVI-STRAUS Claude Lévi-Strauss (1908-2009), antropólogo, etnólogo e professor francês, foi o criador da antropologia estrutural, ao inverter a abordagem de Durkheim, considerando que “os sis- temas classificatórios e as organizações sociais se originam na vida psíquica”, ou seja, é a partir dos indivíduos em relação que se explica o social (SILVA, 1996, p. 22). Nessa concepção, o indivíduo não é apenas um ser em si, mas também depende da “posição que ocupa em relação a todos os outros do coletivo”. O modelo estruturalista estuda as “rela- ções entre os elementos”. Nesta abordagem, as ciências sociais buscam desvendar o “sistema de relações” entre os indivíduos que compõem a sociedade. A comunicação entre os elemen- tos será a base para a interpretação da sociedade, motivo pelo qual a cultura é estudada com relevância pelo estruturalismo, por ser considerada um “conjunto de sistemas simbólicos que permitem a comunicação entre os atores sociais” (LAKATOS e MARCONI, 2019, p. 28). O estruturalismo trabalha basicamente com estruturas mentais (represen- tações) e suas invariantes históricas. Para o estruturalismo, os fenômenos fundamentais da vida humana são determinados por leis de atividades in- conscientes. Portanto, o centro não é o indivíduo, mas o inconsciente como sistema simbólico. (LAKATOS, 2019, p. 29) Lakatos e Marconi (2019, p. 30) afirmam que “um modelo científico será considerado estruturado se satisfizer às seguintes condições”: ` Quando oferecer características de sistema, isto é, consistir em elementos tais que uma modifi- cação de um dos elementos produza modificações nos outros. ` Quando todo modelo pertencer a um grupo de transformações. Em outras palavras, como os elementos de um modelo estão ligados de maneira sistemática, a modificação de um deles ar- rasta consigo uma variação combinada dos outros, e, como consequência, uma transformação do modelo. Um modelo dado, porém, apenas pode sofrer as transformações que provêm de uma mesma matriz. ` Quando as condições anteriores permitirem prever as reações do modelo a modificações em algum de seus elementos. ` Quando o modelo der conta de todos os elementos. Seu funcionamento deve explicar todos os casos observados” (LAKATOS; MARCONI, 2019, p. 30). As mesmas autoras apresentam seus “Representantes mais importantes: Ferdinand de Saussure (1857-1913) – linguística; Claude Lévi-Strauss (1908-2009) – foi o primeiro a aplicar o estrutura- lismo à antropologia; Louis Althusser (1918-1990) – estruturalismo e sociologia; Pierre Bourdieu (1930-2002) e Jean C. Passeron (1930-) – estruturalismo e educação”. IMPORTANTE 59 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Precursor do Interacionismo simbólico, Weber exerceu grande influência na ciência social do sé- culo XX, colocando a ação social no centro da teoria sociológica, recuperando seu componente histórico. Assim, ele sugeriu dois tipos de compreensão: a. real, baseada no conhecimento da conduta visível dos outros, revelando a intenção imediata ou indireta; b. explanatória, voltada para o campo mais amplo dos motivos. Assim, para a compreensão do social, deve o sociólogo ser um técnico no diagnóstico da significação ou das intenções que motivam a conduta do indivíduo(LAKATOS; MARCONI, 2019, p. 45-46) IMPORTANTE MAX WEBER Segundo Silva (1996, p. 24), Max Weber apresenta uma postura crítica a Marx, assinalando que sua ênfase nos aspectos produtivos representaria um limite metodológico. Para Weber, o estudo dos fenômenos sociais apresenta seu ponto fundamental nas ações dos indivíduos, o conjunto de valores e razões que movem as ações individuais e sociais. Nesse sentido, Weber considera a questão da subjetividade como força fundamental nos fenômenos sociais. Seus estudos econômicos revelam o significado que os indivíduos atribuíam a determinados aspectos da vida social. A reflexão de Weber estabelece uma relação de condicionamento cultural do momento his- tórico sobre os conceitos generalizantes nas ciências humanas, revelado nestes problemas teóricos e empíricos. Dessa forma, o pesquisador social “necessita esclarecer ao máximo os conceitos utilizados, que serão diferenciados de acordo com o fenômeno estudado” (SILVA, 1996, p. 24). Ainda, Weber apresenta a possibilidade de síntese entre o objetivo e o subjetivo, ao perceber a importância do caráter subjetivo nos fenômenos culturais e no próprio cientista. OBJETIVISMO E SUBJETIVISMO EM BOURDIEU E GIDDENS Para abordar a objetividade e a subjetividade na sociologia na modernidade, daremos desta- que a dois sociólogos considerados referência em nossos tempos. A tentativa de superação da oposição objetividade e subjetividade na teoria contemporânea, segundo Silva (1996, p. 24), tem em Pierre Bourdieu um grande expoente. Bourdieu procura assimilar conhecimentos relevantes das teorias clássicas nos aspectos que podem contribuir para a produção de uma sociologia realmente científica, rejeitando aspectosconsiderados obstáculos para essa produção. 60 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 Diante das proposições de Durkheim (1983), Bourdieu ressalta a ênfase dada à socie- dade enquanto elemento determinante para as práticas sociais, mas refuta o excesso de objetivismo, por negar o caráter estruturante das práticas individuais. Também, res- salta o risco de distanciar-se do caráter estruturante e subjetivo das ações individuais (SILVA, 1996, p. 24). Quanto aos conceitos generalizantes em Weber, dentre os quais o de consciência co- letiva, Bourdieu entende que podem representar um risco de distanciar-se da realidade concreta, ao padronizar a leitura das práticas individuais. No que se refere a Marx, Bour- dieu apresenta uma crítica equivalente, pois, por basear-se em conceitos gerais para as análises do todo, prejudica sua leitura das práticas sociais específicas. Na perspec- tiva de decodificar a realidade macrossocial, a teoria de Marx considerou os aspectos simbólicos (culturais e ideológicos) “como mecanismos funcionais de reprodução das Figura 04. Pierre Bourdieu, sociólogo francês que constrói o construtivismo estruturalista Fo nt e: 1 23 R F. “Considerado um dos maiores sociólogos de língua francesa das últimas décadas, Pierre Bourdieu é um dos mais importantes pensadores do século 20. Sua produção intelectual, desde a década de 1960, estende-se por uma extensa variedade de objetos e temas de estudo. Embora contemporâ- neo, é tão respeitado quanto um clássico. Crítico mordaz dos mecanismos de reprodução das desi- gualdades sociais, Bourdieu construiu um importante referencial no campo das ciências humanas” (SECRETARIA DE EDUCAÇAÕ DO PARANÁ). Disponível em: http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?con- teudo=1247. Acesso em: 4 dez. 2020. SAIBA MAIS 61 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação relações de produção”, que mais adiante Althusser apresentaria, em uma leitura radical, a denominação de aparelhos Ideológicos de Estado (SILVA, 1996, p. 24). Essas teorias pensam a práxis social no plano do sistema de relações construídas teoricamente, não apreendendo essas práxis historicamente, não percebem que o processo real pode transformar a lógica provisória com que opera a ciência. (SILVA, 1996, p. 24) “Louis Althusser (1918-1990) dedicou parte de sua literatura no campo da Filosofia à realiza- ção de um debate social. Temas sobre o Estado, ideologia, hegemonia e aspectos de repro- dução cultural que são impostos a uma determinada sociedade foram amplamente discutidos nos textos produzidos pelo autor e impregnados por um viés marxista. Observa-se na obra de Althusser a preocupação em demonstrar a ação do Estado a partir de seus aparelhos tanto de repressão quanto ideológicos, e dentro destes últimos o aparato escolar como elemento de reforço à desigualdade social no âmbito da luta de classes que têm como resultado a pre- valência de determinada ideologia – “dominante” – em detrimento de outra – “dominada” – no corpo de uma organização social” (FERRARO, 2014, p. 4). Para saber mais, leia: “Althusser: Ideologia e aparelhos do Estado – velhas e novas questões”, de Ester Waisman. Disponível em: http://www4.pucsp.br/projetohistoria/downloads/volume33/artigo_12. pdf. Acesso em: 25 fev. 2021. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/rce/article/download/1712/1561. Aces- so em: 25 fev. 2021. SAIBA MAIS “Althusser, Educação, Estado e reprodução”, de José Luís Schifino Ferraro. Bourdieu propõe uma análise dos fenômenos sociais realizada a partir de agentes dos diversos campos que formam o social, como uma alternativa viável para o objetivismo, apresentando, neste aspecto, uma aproximação com Weber. Dessa maneira, ele revela o papel da ação individual na produção “dos significados e motivações causais ineren- tes aos fenômenos sociais”. Outra convergência com Weber é a rejeição a totalizações teóricas deterministas (SILVA, 1996, p. 25). A contribuição específica de Bourdieu é o que se chamou de “construtivismo es- truturalista”, por meio do qual se tenta “combinar os três pais da Sociologia” (NÓBREGA, 2004, p. 269). Por estruturalismo ou estruturalista, eu quero dizer que existem, no próprio mundo social [...], estruturas objetivas independentes da consciência e da vontade dos agentes, que são capazes de orientar ou limitar suas práticas ou suas representações. Por construtivismo, quero dizer que há uma gêne- 62 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 se social dos esquemas de percepção, de pensamento e de ação constitu- tivos do que chamo habitus por um lado, e, por outro lado, do que chamo de campo. (BOURDIEU, 1986 apud NÓBREGA, 2004, p. 269) O Habitus, em Bourdieu (1989), revela uma relação entre as estruturas sociais e seu processo de incorporação pelos indivíduos, de modo a garantir um “espaço de liber- dade à práxis social, ou seja, um espaço de ação do indivíduo com possibilidade de se impor à sociedade” (SILVA, 1996, p. 25). Nesse movimento, interagem as posturas de reprodução social com as de transformação, combatendo uma leitura baseada no determinismo social. Bourdieu (1989), segundo Silva (1996, p. 25), supera a oposição entre objetivismo e subjetivismo, ao considerar que toda experiência objetiva carrega intenção subjetiva, assim como toda experiência subjetiva revela uma objetividade. Segundo Vasconcelos Filho (2004, p. 6), Giddens também propõe uma mediação entre objetivismo e subjetivismo, apresentando, em sua Teoria da Estruturação, que o as- pecto da coerção social é um procedimento metodológico, mas não exerce um poder tão determinante, porque o sujeito é capaz de “manter de modo reflexivo sua própria conduta”. Por outro lado, também pode existir o que chama de “filtragem de informação seletiva”, realizada com o objetivo de interferir nas condições de reprodução do sistema, seja para a transformação ou reprodução do sistema (GIDDENS, 1989 apud VASCON- CELOS FILHO, 2004, p. 6). Giddens destaca que a complexidade social implica numa pluralidade de demandas que se manifestam em conflitos sociais (LIMA; FAZZI, 2018, p. 262). Embora sempre possuam uma “margem de possibilidades” para efetuar suas estratégias de realização dos próprios interesses – pondo em ação táticas de maximizar a conquista dos seus interesses pessoais na relação de força com os interesses coletivos (cf. Elster, 1999; 2009; 2010; Van Vel- sen, 2010) –, os agentes experimentam o conflito não somente entre suas metas e as metas coletivas, mas também entre suas metas particulares, elegendo as que são mais urgentes e as que podem ser adiadas. (ELS- TER, 2010 apud LIMA; FAZZI, 2018, p. 247) “Anthony Giddens (1938) é um sociólogo, conferencista e professor britânico, reconhecido por sua Teoria da Estruturação e por sua visão holística das sociedades modernas. Foi um dos pioneiros do conceito de Terceira Via. Anthony Giddens nasceu em Edmonton, em Londres, Inglaterra, no dia 18 de janeiro de 1938. Em 1959 graduou-se na Universidade de Hull, na Inglaterra. Em 1961 começou a le- cionar Psicologia Social na Universidade de Leicester. Nessa época, começou a desenvolver suas próprias teorias e foi considerado um dos precursores da sociologia britânica”. SAIBA MAIS Disponível em: https://www.ebiografia.com/anthony_giddens/. Acesso em: 25 fev. 2021. 63 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação A sociedade reflexiva, presente na obra de Giddens, implica a confrontação de grupos de interesses políticos, conhecimentos diferenciados e diversas esferas e conteúdos do social. Essa confrontação se dá, consequentemente, na própria sociedade consigo mesma e com o indivíduo, que encontra grande dificuldade de justificar suas ações diante de tantas visões. Nesta síntese da construção da Sociolo- gia feita sem a pretensão de esgotar a abordagem epistemológica, procuramos destacar aspectos fundamentaisentre o objetivismo e o subjetivismo. Como po- demos verificar, não existe uma resposta definitiva, mas os diferentes paradigmas tentam construir a abordagem que con- sideram mais consistente para desvelar os aspectos que procuram na sociedade. A evolução na elaboração metodológica também reflete a complexidade crescen- te da sociedade contemporânea. Nesse sentido, escolher o paradigma de abordagem, “óculos” de leitura da so- ciedade, é uma opção do cientista, do pesquisador, do profissional ou de cada pessoa que deseja compreender uma determinada realidade e que deve esco- lher qual entende ser a abordagem mais adequada para a situação a ser estudada. Como verão a seguir, nem Marx, Durkheim ou Weber apresentam ferramentas que possibilitam compreender a totalidade da sociedade, mas cada um oferece seu recorte de leitura da sociedade, que continua válido até hoje. 2. CIÊNCIA, IDEOLOGIA E CLASSES SOCIAIS E O OBJETO SOCIOLÓGICO DE MARX 2.1 TRAJETÓRIA INTELECTUAL DE MARX Karl Marx (1818-1883), nascido na Alemanha, é considerado, pelo conjunto de sua obra, filósofo, historiador, sociólogo e economista, fundador do materialismo histórico (FORACCHI, 1977, p. 17; IANNI, 1988, p. 9-16). Tendo iniciado os estudos superiores em seu país natal com o curso de Direito, transfe- riu-se para estudar Filosofia na Universidade de Berlim, que ainda contava com grande influência das ideias de Hegel. Após defender seu Doutorado em 1841, com uma tese em Filosofia, na qual abordava o materialismo na antiguidade, foi recusado como pro- fessor por seguir as ideias de Hegel. Figura 05. Em que medida nosso pensamento é condicionado socialmente ou consegue assumir um espaço de autonomia? Fo nt e: 1 23 R F. 64 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 Dedicou-se à produção de artigos, chegando a tornar-se chefe de redação da Gazeta Renana e, após seu fechamento, intensificou sua produção intelectual, nos percursos entre Paris, Bruxelas e Londres. A base hegeliana em formação intelectual, que fomentou sua crítica ao positivismo, e sua vivência na França e na Inglaterra, a qual possibilitou um conhecimento mais próximo das características dos países em estágios mais avançados no processo de industrialização, foram elementos fundamentais na construção do seu pensamento. Fazendo referência ao materialismo fundamentado por Feuerbach2, Marx estrutura sua leitura crítica da filosofia de Hegel, do qual assimilou, principalmente, o método dialéti- co. Também teve contato com o pensamento socialista francês do século XIX, principal- mente com as ideias de Saint-Simon e as de Fourier, as quais questionou denominan- do-as como socialismo utópico, do qual pretendia evoluir para o socialismo científico. Também teve contato com Proudhon, filósofo e economista político, considerado um dos teóricos mais influentes do anarquismo, autor do livro O que é a propriedade? – um estudo sobre o princípio do direito e do governo, publicado em 1841. Proudhon tinha, então, um conhecimento mais elaborado que Marx com relação à teoria econômica e ambos mantiveram contato por um tempo. Seu rompimento foi concretizado pelas críti- cas realizadas por Marx ao publicar, em 1847, A miséria da filosofia, que se tornou fonte de disputas entre marxistas e anarquistas. Em seus estudos da obra dos economistas clássicos ingleses, Adam Smith e David Ricardo, Marx construiu as bases de sua crítica ao pensamento econômico liberal, que sustentava a economia política burguesa. Construiu uma forte ligação intelectual e de amizade, que perdurou até sua morte, com Friedrich Engels (1820-1903), escritor do livro A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1845), em que registra aspectos da realidade social e da vida dos trabalha- dores no seio do capitalismo inglês. 2 REDYSON, Deyve. Ludwig Feuerbach e o jovem Marx: a religião e o materialismo antropológico dialético. Revista Argumentos, Ano 3, n. 5, 2011. Disponível em: http://www.periodicos.ufc.br/argumentos/ article/download/18979/29698. Acesso em: 29 nov. 2020. Friedrich Engels foi filósofo e teórico político alemão, além de ter sido escritor, economista e jornalista. Junto a Marx, Engels escreveu o Manifesto Comunista e desenvolveu o materialis- mo histórico dialético. Para mais informações, acesse: SAIBA MAIS https://brasilescola.uol.com.br/geografia/friedrich-engels.htm. Acesso em: 29 nov. 2020. 65 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Marx e Engels produziram juntos diversos escritos e cujas influências foram fundamen- tais para a construção de suas críticas radicais à sociedade capitalista. Figura 06. Monumento a Karl Marx e Friedrich Engels: diálogos e reflexões que marcaram o pensamento sobre a sociedade capitalista Fonte: 123RF. Segundo Aron (1987, p. 132-134), Marx foi um escritor muito fecundo que produziu diversos artigos, ensaios e livros em diferentes etapas de sua vida e momentos de sua evolução teórico-política. Essa leitura deve ser levada em conta para uma análise da sua produção intelectual. Têm sido consideradas duas etapas em seus escritos: a. Período da juventude: compreende seus trabalhos de 1841 a 1847-1848, sendo que alguns foram publicados após sua morte, e dentre os quais podemos destacar: Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, A Sagrada Famí- lia (juntamente com Engels), A Ideologia Alemã, A miséria da Filosofia e o Mani- festo Comunista, sendo que os três últimos marcam sua ruptura com essa fase. O Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels, é considerado uma obra clássica da literatura sociológica de propaganda, que expõe as ideias e diretrizes marxistas (ARON, 1987, p. 133). Sua publicação, nos primeiros meses ano de 1848, em Lon- dres, teria sido elaborada a pedido da Liga dos Comunistas a fins de 1847, em um 66 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 período no qual a Europa passava por grande mobilização revolucionária. Sua publi- cação foi apressada por motivo de eclosão, quando irrompeu a Revolução de Feve- reiro, na França, sendo considerada, à época, como o início de um processo que se estenderia por toda a Europa (FREITAS; FREITAS, 2018, p. 11-12). b. A partir de 1848, a produção de Marx supera um foco filosófico, estruturando-se seu caráter de sociólogo e economista, sendo este aspecto um componente essen- cial de sua obra. Marx tem uma certa visão filosófica do devenir histórico. É possível, e até mesmo provável, que tenha dado um sentido filosófico às contradições do capitalismo. Contudo, o essencial no esforço científico de Marx foi demons- trar cientificamente a evolução, a seus olhos inevitável, do regime capitalista. (ARON, 1987, p. 134) Neste período, escreve as duas obras de maior importância Contribuição à Crítica da Economia Política (1859) e O Capital (primeiro volume publicado em 1867). Para saber mais sobre a vida de Marx, vejas as sugestões abaixo: ` Artigo de Dilva Frazão, no ebiografia. Biografia de Karl Marx. Atualizado em 22/10/2020. Disponível em: https://www.ebiografia.com/karl_marx/. Acesso em: 7 dez. 2020. ` Cronologia de Karl Marx na Wikipedia (que tem como fonte o livro A ideologia alemã, publicado pela Boitempo Editorial e o Dicionário do pensamento marxista, de Tom Bottomore). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_da_ vida_de_Karl_Marx. Acesso em: 7 dez. 2020. ` Filme: O Jovem Marx. 28 de dezembro de 2017 / 1h 58min / Drama, Histórico, Biografia. Direção: Raoul Peck. Elenco: August Diehl, Stefan Konarske, Vicky Krieps. Nacionalidades: França, Alemanha, Bélgica. Assista ao trailer. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2bHVqtI16Ko. Acesso em: 7 dez. 2020. Mas, para não confundir ficção com realidade, vale a pena ler o artigo “Verdades e mitos sobre o fil- me O jovem Karl Marx”, de Raoul Peck. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2018/01/18/ verdades-e-mitos-sobre-o-filme-o-jovem-karl-marx-de-raoul-peck/. Acesso em: 7dez. 2020. Também pode assistir ao filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, lançado em 5 de fevereiro de 1936 (Nova Iorque) e que apresenta a situação do trabalhador e as contradições do capitalismo. SAIBA MAIS 67 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Após esta abordagem da trajetória de Marx, das influências na construção de seu pen- samento e fases de sua obra, abordaremos alguns aspectos de destaque em sua obra. 2.2 A ANÁLISE DA SOCIEDADE CAPITALISTA Segundo Aron (1987), Marx faz uma interpretação econômica da história a partir das forças de produção e relações de produção, considerando que estas são determinantes para o movimento da história e não o pensamento dos sujeitos. Portanto, para com- preender o processo histórico, é preciso compreender as relações entre as forças e as relações de produção, que estão acima das relações individuais. As forças de produção correspondem às estruturas materiais e tecnológicas que cada sociedade, em cada período histórico, dispõe para a produção de sua subsistência. As relações de produ- ção são as formas que a sociedade organiza o trabalho, de acordo com as forças de produção disponíveis. Nesse sentido, as relações entre os sujeitos históricos estão determinadas a seu mo- mento histórico, independentemente de suas vontades individuais (ARON, 1987, p. 134). Desse modo, a análise de Aron atribui a Marx uma visão mecanicista da história, mas esta visão não é consenso na literatura especializada. Outras análises da obra de Marx apresentam sua construção a partir da compreensão ma- terialista da história3, que utiliza para compreender o momento atual da sociedade capita- lista de seu tempo e sua perspectiva futura, no processo histórico. Vejamos o que diz Marx, em um trecho da introdução do seu livro Contribuição à crítica da Economia Política. Minhas investigações me conduziram ao seguinte resultado: as relações jurídicas, bem como as formas do Estado, não podem ser explicadas por si mesmas, nem pela chamada evolução geral do espírito humano; es- sas relações têm, ao contrário, suas raízes nas condições materiais de existência, em suas totalidades, condições estas que Hegel, a exemplo dos ingleses e dos franceses do século 18, compreendia sob o nome de “sociedade civil”. Cheguei também à conclusão de que a anatomia da so- ciedade burguesa deve ser procurada na Economia Política. [...] O resul- tado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para meus estudos, pode ser formulado, resumidamente, assim: na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais de- terminadas de consciência. (MARX, 2008, p. 47) Na teoria de Marx, as forças de produção e relações de produção são consideradas a infraestrutura da sociedade, enquanto a superestrutura compreende as instituições jurídi- cas e políticas (FORACCHI, 1977, p. 17), mas podemos acrescentar outros espaços de construção de sentido como a cultura e a religião, que são responsáveis pela manutenção 3 Sobre a concepção materialista da história, você pode assistir: https://youtu.be/RFZHte9wALg. Acesso em: 29 nov. 2020. 68 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 dos valores, normas e relações sociais. Mas, a favor de quem? Na concepção de Marx, a superestrutura é a sustentação ideológica da estrutura, ou seja, do sistema econômico vigente, como, por exemplo, foi a Igreja Católica para a estrutura econômica medieval. Ainda com referência à citação acima, quando Marx se refere ao processo de produção social no qual os homens se inserem para garantir sua subsistência, inserem-se ainda relações que independem de suas vontades, mas são determinadas pelo sistema eco- nômico. Então, fica a pergunta: Marx é determinista? Segundo Ianni (1988, p. 9-16), a teoria de Marx não apresenta uma visão determinista da história. A afirmação de Marx apenas constata que quem nasce em determinado momento histórico irá conviver e sobreviver de acordo com as condições, estruturas e ideologias desse momento. No entanto, isso não significa que os sujeitos não tenham como alterar essas condições, uma vez que a história não é estanque e as estruturas passam por transformações. Vejamos o trecho abaixo: Quando se consideram tais transformações, convém distinguir sempre a transformação material das condições econômicas de produção – que po- dem ser verificadas fielmente com ajuda das ciências físicas e naturais – e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resu- mo, as formas ideológicas sob as quais os homens adquirem consciência desse conflito e o levam até o fim. (MARX, 2008, p. 48) Esse trecho mostra que, durante o processo de mudanças estruturais, os conflitos ficam evidenciados e, quando os sujeitos tomam consciência destes conflitos, podem levar “até o fim” as transformações desejadas (IANNI, 1988, p. 9). Podemos reforçar essa negação do determinismo em Marx, a partir de Ianni (1988). Para ele, Marx é considerado o sociólogo e economista que estuda, “compreende e nega o capitalismo”, portanto, sua interpretação não é abstrata nem isenta, pois vai além de uma elaboração teórica, mas analisa as contradições do sistema capitalista e aponta o caminho para sua superação. “Para Marx, o pensamento – explicação científi- ca, sistema filosófico ou doutrina religiosa – pode transformar-se em elemento ativo das relações entre pessoas, grupos ou classes sociais” (IANNI, 1988, p. 9). Ainda, Ianni afirma que a teoria marxista deve ser considerada como uma interpretação crítica radical da sociedade capitalista. Sua radicalidade se manifesta na proposição de que a compreensão dialética da realidade vai além da necessidade de conhecimento, mas dá elementos concretos para sua superação. Nas palavras de Marx: A questão de saber se ao pensamento humano se pode atribuir uma ver- dade objetiva não é uma questão teórica, mas uma questão prática. É na prática que o homem deve demonstrar a verdade, isto é, a realidade, o poder, a precisão do seu pensamento. A controvérsia sobre a realidade ou não realidade do pensamento, isolado da prática, é uma questão puramen- te escolástica. (MARX, 1996 apud IANNI, 1988, p. 10) Ainda, segundo Ianni, “Marx encara o homem inserido no processo produtivo, ao mes- mo tempo que produzindo-se” (IANNI, 1988, p. 11). Nesse sentido, compreende que o trabalho e o pensamento humano podem coisificar e alienar o sujeito, mas também su- perar essa alienação, no processo de “transformação do real” (IANNI, 1988, p. 11-12). 69 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Para Marx, a leitura dialética é a única metodologia capaz de compreender de manei- ra abrangente o processo histórico, uma vez que o motor da história é a contradição entre as forças e relações de produção, considerando as forças de produção como a capacidade de cada sociedade enquanto acúmulo científico, estrutura técnica e organi- zação do trabalho coletivo (ARON, 1987, p. 135-156). O choque da contradição ocorre em certos períodos, considerados revolucionários, em que determinados aspectos das relações de produção se constituem em obstáculo para o desenvolvimento das forças produtivas, provocando sua evolução para novas configurações sociais. Para analisar o caráter contraditório do regi- me capitalista, aspecto central no pensamen- to de Marx, serão destacadas, a seguir, algu- mas de suas características. A burguesia, detentora dos meios de produ- ção, se empenha na evolução constante das tecnologias e dos processos produtivos, com vistas ao aumento de produçãoe ao aumento do lucro, objetivo principal do capitalismo; Marx analisa o capitalismo a partir da realida- de vista na Inglaterra, que considera em 1867 o “lugar clássico” deste regime, mas suas pesquisas indicarão as leis e as “tendências do capitalismo alemão, norte-americano e de outros países”. Sua análise do capitalismo o faz compreendê-lo como uma revolução de caráter universal. No entanto, para a concretização desse novo estágio de desenvolvimento econômico são necessárias as condições específicas de desenvolvimento das forças produtivas, das formas de organização das relações de produção e de um Estado direta ou indiretamente controlado pela classe capitalista, a quem protege pelo sistema legal, por exemplo, o que apresentamos acima como supe- restrutura. A essência do capitalismo é a mercantilização, não só enquanto processo de comercia- lização da produção, mas a mercantilização do das pessoas, seu trabalho, energia e tempo, compreendidas como força de trabalho. A força de trabalho é transformada em mercadoria quando os trabalhadores, que não detêm os meios de produção, vendem seu único bem, sua força de trabalho, e são de- nominados por Marx proletários. No entanto, para Marx o valor pago nessa relação de troca de força de trabalho pelo tempo dedicado à produção de mercadorias, para a burguesia, não é proporcional à produção de fato, realizada em sua jornada de trabalho. Essa diferença entre o produ- to do trabalho do proletário e o valor efetivamente pago pelo patrão representa horas de trabalho a mais empenhadas pelo trabalhador na produção para gerar o lucro do Figura 07. Para Marx, o objetivo principal do capitalismo é o lucro, produzindo a concentração da riqueza nas mãos de poucos e o empobrecimento da maioria Fo nt e: 1 23 R F. 70 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 empregador. Esta diferença é denominada mais-valia, que representa a exploração do proletariado pela burguesia. Será que o trabalho assalariado, o trabalho do proletário, cria propriedade para ele? De modo algum. Cria capital, quer dizer, propriedade que explora o trabalho assalariado e que só pode se multiplicar se criar mais trabalho assa- lariado que possa ser novamente explorado. (MARX; ENGELS, 2008, p. 33) A citação acima rebate os argumentos dos capitalistas na defesa da propriedade pri- vada, quando justificam que esta proprie- dade seria fruto do seu próprio trabalho. Marx afirma que a propriedade privada dos meios de produção é fruto da acumulação de riqueza, pelos capitalistas, por meio da exploração do trabalho do assalariado. Nesse sentido, a evolução tecnológica nos processos produtivos, que produz maior eficácia e produtividade, com me- nor esforço, poderia reverter na redução da carga de trabalho individual ou em sa- lários maiores. No entanto, no pensamen- to de Marx, a possibilidade de redução de jornada de trabalho ou aumento de sa- lário não é considerada pela burguesia, que vê nessa situação a possibilidade de aumentar seus lucros. Manter igual quantidade de horas de trabalho para a produção de maior quantidade de produtos reduz a possibilidade de empregar maior número de trabalhadores, que per- maneceriam fora do mercado de trabalho. Este contingente de desempregados constitui o que Marx denomina como exército industrial de reserva, que corresponde ao desem- prego estrutural inerente ao capitalismo. A demanda constante por vagas de trabalho representa uma ameaça constante aos que estão empregados, pois, caso reivindiquem melhores condições de trabalho e remuneração, podem ser facilmente substituídos por trabalhadores com menores exigências. Sendo assim, o aumento da rentabilidade decorrente dos avanços nos processos pro- dutivos não implica a distribuição desses recursos e consequentes melhorias nas con- dições de vida dos trabalhadores, mas produz o enriquecimento de poucos e o avanço da miséria de muitos. Outro aspecto do modo de produção capitalista é a alienação do trabalho, que desmem- bra as etapas de produção e, desse modo, distancia o trabalhador do reconhecimento pessoal e social do seu papel na produção da mercadoria. O caráter misterioso da mercadoria assenta, pura e simplesmente, em que projeta ante aos homens o caráter social dos seus trabalhos como se fosse um carácter material dos próprios produtos do trabalho, um dom Figura 08. O capitalismo busca sempre implantar avanços tecnológicos para garantir maior produtividade com menor custo Fo nt e: 1 23 R F. 71 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação social desses objetos; é como se, portanto, a relação social que medeia os produtores e o trabalho coletivo da sociedade fosse uma relação social estabelecida entre os próprios objetos, à margem dos seus produtores. (MARX, El Capital, tomo I, p. 570-575 apud IANNI, 1988, p. 13) Na teoria marxista, quando o proletariado consegue compreender-se sujeito da produ- ção e ter a verdadeira consciência de que é o seu trabalho que transforma e produz valor, ele atinge a consciência de classe, ou seja, a compreensão de seu lugar na socie- dade. A partir desse estágio, vem o chamado, “Proletários de todos os países, uni-vos!” (MARX; ENGELS, 2008, p. 66), que conclama para sua organização política, a qual possibilitará a superação da ordem atual baseada na exploração do trabalho. Por outro lado, essa constante necessidade de renovação tecnológica na busca de au- mento de produção e do lucro implicaria, ao longo do tempo, em um colapso do sistema produtivo, provocando a autodestruição do capitalismo. A leitura que se faz, na atualidade, dessa tendência evidenciada por Marx, ao colapso do sistema capitalista, identifica-se com as crises periódicas que vêm se sucedendo em diversos momentos da história. Ainda, o processo de exploração e empobrecimento do proletariado evidencia a exa- cerbação da luta de classes no seio do capitalismo, que, chegando ao ápice do conflito, levaria à revolução proletária e à derrocada do capitalismo. A história de todas as sociedades até agora tem sido a história das lutas de classe. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, membro das corporações e aprendiz, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em contraposição uns aos outros e envolvidos em uma luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre com a transformação re- volucionária da sociedade inteira ou com o declínio conjunto das classes em conflito. (MARX; ENGELS, 2008, p. 43-44) Na obra de Marx, as contradições do capitalismo produzirão crises sucessivas até atin- gir um estágio tal que que o melhor caminho seja sua superação. Com o fim da explora- ção do homem pelo homem, uma nova sociedade pode ser construída e a humanidade poderia alcançar um estágio superior de desenvolvimento: o comunismo. Uma vez que, no processo, desapareçam as diferenças de classe e toda a produção esteja concentrada nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para dominar outra. Se, em sua luta con- tra a burguesia, o proletariado necessariamente se constitui em classe, se por meio de uma revolução se converte em classe dominante e, como tal, suprime violentamente as velhas relações de produção, então, junto com elas, suprime os antagonismos de classes e as classes em geral e, com isso, abole sua própria dominação de classe. No lugar da velha sociedade burguesa, com suas classes e seus antagonismos de classe, surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é pressuposto para o livre desenvolvimento de todos. (MARX; ENGELS, 2008, p. 46-47) Mas, então, a obra de Marx estava certa ou errada? Pois o capitalismo continua e os pa- íses que tentaram suprimi-lo não tiveram sucesso. Afinal, ainda faz sentido dar a Marx papel de destaque no âmbito da sociologia ou ele só faz parte do passado? 72 Sociologia Clássica:Objeto e Método de Análise 2 A resposta a essas perguntas exigiria uma longa discussão, mas podemos apresentar apenas alguns pontos do pensamento de Marx que se mantêm atuais: o capitalismo e a desigualdade social; as crises do capitalismo; a globalização do capitalismo; a dialética como metodologia de análise social; análise das relações humanas em função da pro- dução material; o elemento identitário presente na formação de consciência de classe; o associativismo da classe burguesa em torno do lucro e do capital, entre outros aspectos. Encontramos, também, produções em várias áreas do conhecimento, além da filosofia, economia e sociologia, que utilizam referências ao pensamento de Marx, por exemplo: no âmbito jurídico (instrumentos de análise das relações jurídicas e sociais); na educa- ção (a utilização do método dialético como instrumento lógico de interpretação); estu- dos diversos sobre questões socioeconômicas. O pensamento de Marx tem significado na atualidade? Apresentamos alguns artigos sintéti- cos, mas você pode achar trabalhos acadêmicos a respeito disso: ` “Karl Marx se mantém extremamente atual”, de Kersten Knipp. Disponível em: https:// www.dw.com/pt-br/karl-marx-se-mant%C3%A9m-extremamente-atual/a-43629900. Aces- so em: 7 dez. 2020. ` 4 ideias de Karl Marx que seguem vivas apesar do fracasso da URSS e do comunismo de Max Seitz. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-41889653. Acesso em: 7 dez. 2020. ` “Pós-modernismo e a atualidade da teoria Marxista”, de Madalena Guasco Peixoto. Dispo- nível em: http://revistaprincipios.com.br/artigos/150/teoria/3190/posmodernismo-e-a-atua- lidade-da-teoria-marxista-.html. Acesso em: 7 dez. 2020. PARA REFLETIR 3. POSITIVISMO, NEUTRALIDADE E OBJETO SOCIOLÓGICO DE DURKHEIM Émile Durkheim (1858-1917), filósofo, sociólogo e antropólogo francês, de origem judai- ca, filho e neto de rabinos, foi preparado para manter a tradição familiar, mas rejeitou sua herança judaica. Estudou na Escola Normal Superior de Paris, graduando-se em Filosofia em 1882 e dedicando-se, após, a lecionar em diversos liceus franceses. Entre 1885 e 1886, Durkheim realizou estudos na Alemanha, especializando-se em Sociologia. Voltou seu interesse à Sociologia educacional e vinculou-se a uma corrente 73 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação denominada Pedagogia Social, tendo sido influenciado pelos métodos de psicologia experimental de Wilhelm Wundt4. Em 1887, Durkheim assumiu como professor a primeira cadeira de Ciências Sociais, re- lacionada à educação, na Universidade de Bordeaux, iniciando seus trabalhos teóricos em torno da questão social. Em 1896, com a fundação da revista “L’Année Sociologi- que”, Durkheim reuniu um eminente grupo de historiadores, antropólogos e cientistas sociais. Esta revista tem grande reconhecimento devido a seu papel na institucionaliza- ção da sociologia na França. A partir de 1902, passou a lecionar Sociologia e Pedagogia na Universidade de Sorbonne, permanecendo até sua morte5. Com base em Mucchielli (2001, p. 41-42), Durkheim nasceu dez anos depois do início, em 1848, das revoltas populares6 de operários de movimentos republicanos e socialis- tas utópicos, já no processo da Segunda Revolução Industrial (1850-1945). Também viveu no período da Guerra Franco-Prussiana, ou Guerra Franco-Germânica, (19 de ju- lho de 1870 — 10 de maio de 1871), conflito ocorrido entre o Império Francês e o Reino da Prússia (atual Alemanha) e os fatos da Comuna de Paris (1871). Elementos desta guerra e da Revolução do Século XVIII, que fazem parte das obras de Saint-Simon e de Comte, foram referência para Durkheim (GIDDENS, 2011, p. 105). 4 Wilhelm Maximilian Wundt (1832-1920) foi filósofo, médico e psicólogo alemão, considerado o pai da Psi- cologia por toda a sua contribuição para a área. Depois de estudar Medicina, Wundt trabalhou como um fisiologista na Universidade de Heidelberg e mais tarde na Universidade de Leipzig. Fonte: https://www.edu- camaisbrasil.com.br/cursos-e-faculdades/psicologia/noticias/voce-sabe-quem-e-considerado-o-pai-da-psico- logia. Acesso em: 7 dez. 2020. 5 Biografia de Émile Durkheim. Fonte: https://www.ebiografia.com/emile_durkheim/, https://www.ebiografia. com/emile_durkheim/. Acesso em: 7 dez. 2020. 6 Para saber mais sobre as Revoluções de 1848, acesse: https://www.infopedia.pt/$revolucoes-de-1848. Acesso em: 7 dez. 2020. Figura 09. Pintura da batalha durante a Guerra Franco-Prussiana em 1870, Museu do Exército Les Invalides, Paris, França Fo nt e: 1 23 R F. 74 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 Entre 1880 e 1900, foram os anos da fundação da Terceira República, que se encontra- va em crise “(em razão, por um lado, da crise econômica e do ascenso do socialismo no plano interno; por outro lado, das dificuldades nas colônias no plano externo)”, mesmo com a instalação do Estado de Bem-Estar. O advento da República trouxe a ideia de um “programa de transformação, precedido pelo conhecimento científico” e pela “descober- ta de leis que presidiriam o destino das sociedades”. Estas ideias são encontradas em praticamente todos os sociólogos da época, somadas ao avanço do uso das estatísticas nas ciências humanas. Desse modo, abriu-se caminho para que os novos sociólogos se apoiassem neste novo instrumento para fundamentar suas produções e construir leis direcionadas a diversos temas sociais (MUCCHIELLI, 2001, p. 42). A crise econômica da Terceira República, a partir de 1885, o fortalecimento das ideias socialistas e as dificuldades encontradas com as colônias francesas criaram o apelo para a busca de “uma nova coerência ideológica, uma nova política geral”, identificada com uma nova solidariedade. De fato, foi a época em que se instalou na França o Estado de bem-estar, caracterizado em particular pelo reforço do direito do trabalho, da assistên- cia médica, do princípio geral da seguridade social. Este contexto político é muito importante. Tentei mostrar em outro lugar como este contexto havia condicionado a recepção de Spencer na França. Após ter sido o filóso- fo mais importante e um modelo na França nos anos 1870-1885, porque encarnava a ideia de ciência e de evolução, tornou-se rapidamente um adversário porque encarna doravante o ultraliberalismo, o darwinismo so- cial, a oposição ao Estado de bem-estar e a ideia de solidariedade. Isto é importante para a compreensão de certas análises de Tarde, e sobretudo de todo o projeto de Durkheim em sua tese sobre a Divisão do trabalho social (1893). Durkheim foi considerado de fato, na época, como a principal referência científica do solidarismo. (MUCCHIELLI, 2001, p. 42) Durkheim preocupou-se, na construção do seu pensamento, em responder ao que iden- tificou como ‘’vazio moral da III República”, ao crescimento das ideias socialistas e à situação do capitalismo. Foi contemporâneo do neocolonialismo, da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da primeira da Revolução Russa de 1917 (LAKATOS; MARCO- NI, 2019, p. 47). Herbert Spencer (1820-1903) foi um filósofo inglês, um dos maiores representantes do posi- tivismo na Inglaterra. Para saber mais, acesse o link abaixo. https://www.ebiografia.com/herbert_spencer/#:~:text=Herbert%20Spencer%20 (1820%2D1903),a%20sele%C3%A7%C3%A3o%20natural%20na%20sociedade. Aces- so em: 7 dez. 2020. SAIBA MAIS 75 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação 3.1 A ANÁLISE DOS FENÔMENOS SOCIAIS Em seu livro As regras do método sociológico (1895), Durkheim expõe as diretrizes para o trabalho do sociólogo na análise dos fenômenos sociais: observação dos fatos sociais como “coisas”, de modo a afastar-se de concepções e preconceitos para poder proceder ao estudo e análise sociológica. Considerar os fatos sociais como “coisas” em oposição às “ideias” consiste em buscar no fato social seu próprio significado. No entanto, segundo Aron (1987, p. 359-368), sua perspectiva de assumir-seplenamente positivista, na proposta de estudar os fatos “do exterior e explicá-los da mesma forma como os especialistas nas ciências da natureza explicam os fenômenos”, apresenta uma dualidade entre a sociedade concreta e a sociedade ideal, “fonte de amor e respeito”. Se, por um lado, define a sociedade como meio social que condiciona suas instituições, não fica claro o que define o meio social. Em seus estudos, também se exprime como “se o meio social fosse suficientemente determinado para que se pudesse, conhecen- do-o, precisar as instituições que lhe são necessárias” (ARON, 1987, p. 360). Ainda, pode-se afirmar que, no empenho de buscar a coesão social, Durkheim tenha deixado de considerar que as sociedades são construções complexas e que, ao invés de tentar captar sua totalidade, seria necessário reconhecer sua pluralidade e voltar-se ao estudo dos grupos sociais que a compõem. O que é coerção? Todo agrupamento humano tem normas e códigos de convivência e as so- ciedades têm suas leis. A coerção social, na teoria de Durkheim sobre o fato social, constitui a pressão e/ ou repressão que a sociedade exerce sobre o indivíduo. Ela se apresenta na forma de normas, costumes, valores e leis que sustentam essa sociedade. Existem modos de coerção social aos quais estamos tão costumados que nem percebemos que são “imposições sociais”. IMPORTANTE 3.2 A DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL E OS TIPOS DE SOLIDARIEDADE Os estudos iniciais de Durkheim (ARON, 1987, p. 345-346), que dariam origem ao livro Da divisão do trabalho social (1893), evidenciam o problema da relação entre o indivi- dualismo e o socialismo. Abordando essa relação como seu problema sociológico, Durkheim se aproxima do pensamento de Comte ao retomar o tema do consenso e a concepção de que o pen- samento científico seria “a única forma de pensamento válida” nessa época. Essa afir- mação é sustentada pelo pressuposto de que “nenhuma doutrina moral ou religiosa, pelo menos em seu conteúdo espiritual, pode ser admitida, se não resiste à crítica da ciência”. Para Durkheim, apenas o pensamento científico preencheria as condições necessárias para oferecer os fundamentos da ordem social (ARON, 1987, p. 345-346). 76 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 Durkheim se contrapõe à tese de que o problema social é um problema econômico, sendo que este é componente efetivo das sociedades modernas. Seguindo o pensamento de Comte, defende que a organização da economia tem a capacidade de exercer uma influência positiva na organização da sociedade (ARON, 1987, p. 345-346). Para Durkheim, a questão social é essencial- mente um problema de socialização do indiví- duo, a quem devem ser inculcados “o respeito pelos imperativos, pelas obrigações e proibições sem as quais a vida coletiva se tornaria impos- sível” (ARON, 1987, p. 346). Dessa maneira, o indivíduo pode ser inserido como membro da comunidade. Em sua primeira obra, Da divisão do Trabalho Social, Durkheim apresenta sua posição diante do embate entre individualismo e socialismo, para o qual pretendia dar uma resposta científica, sem recorrer a teorias que ofereciam soluções abstratas e especu- lativas (ARON, 1987, p. 346). A questão central dessa obra são as relações entre os indivíduos e a coletividade, afir- mando que uma sociedade é mais do que uma coleção de indivíduos e que o caminho para atingir a “condição de existência social” é o consenso (ARON, 1987, p. 297). Na abordagem do científica desse problema social, ele apresenta dois tipos fundamen- tais de integração: a solidariedade orgânica e a solidariedade mecânica. Na solidariedade mecânica, que Durkheim compara às organizações sociais chamadas primitivas ou arcaicas, os membros de uma mesma coletividade são unidos elo compar- tilhamento de rituais, valores, costumes, sentimentos, símbolos e instrumentos. Essas sociedades são caracterizadas pela semelhança entre os indivíduos e pela coerência. Os indivíduos de um clã são, por assim dizer, intercambiáveis. O resultado, e esta é uma das ideias essenciais do pensamento de Durkheim, é que o indivíduo não vem, historicamente, em primeiro lugar. A tomada de consci- ência da individualidade decorre do próprio desenvolvimento histórico. Nas sociedades primitivas, cada indivíduo é o que são os outros; na consciên- cia de cada um predominam, em número e intensidade, os sentimentos comuns a todos, os sentimentos coletivos. (ARON, 1987, p. 298) Em contraposição à solidariedade mecânica, Durkheim apresenta a solidariedade orgâ- nica, cuja “unidade coerente” se realiza na diversidade, sendo que esta é concretizada pelo consenso. Como o próprio nome indica, esta forma de solidariedade é comparada com o corpo, cujos órgãos se diferenciam entre si e têm funções diferentes, mas juntos garantem a vida desse organismo. A divisão do trabalho é um fato social material que indica até que ponto as tarefas e responsabilidades foram especializadas. A solidarie- dade orgânica é própria da sociedade capitalista. Figura 10. O problema social pode ser solucionado pela coesão social, inculcando valores comuns aos indivíduos Fo nt e: 1 23 R F. 77 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Trata-se, portanto, de duas formas extremas de organização social, sobre as quais Foracchi (1977, p. 30-31) apresenta outras características: SOLIDARIEDADE MECÂNICA SOLIDARIEDADE ORGÂNICA Os indivíduos se parecem Os indivíduos são diferentes entre si O indivíduo está ligado diretamente ao coletivo O indivíduo depende da sociedade e das partes que a compõem Possui um conjunto maior ou menor grau de organização de um sistema comum de crenças e sentimentos Possui um sistema de funções diferentes e espe- ciais, ligados por relações definidas Tem maior força quanto mais as ideias e tendências comuns sejam maiores que as individuais Os indivíduos devem manter sua personalidade e esfera de ação própria Seu ponto máximo é quando a consciência coletiva suprime a individualidade A consciência coletiva preserva uma parte da indivi- dualidade, para garantir as funções especiais “Não somos mais nós mesmos, mas sim o coletivo” A diferença e a especialização individual fortalecem a coesão, nesse tipo de solidariedade Como moléculas de corpos inorgânicos, que não possuem movimentos próprios A individualidade do todo cresce com o crescimento das partes: como num corpo Punições jurídicas (passionais, baseadas em critérios morais coletivos) diante da transgressão/ desvio Castigos que atingem o indivíduo e inibem a comu- nidade de cometer o mesmo ato Regras jurídicas de sanção, baseadas na razão, especificando o dano que o crime causou à socie- dade e aplicando uma pena proporcional Regras positivas de cooperação e regulação das relações Tabela 01. Tipos de Solidariedade em Weber Fonte: adaptada de Foracchi e Martins (1977, p. 30-31).a Outro elemento importante, nesta análise, é o conceito de segmento, “que designa um grupo social onde os membros estão estreitamente integrados” (ARON, 1987, p. 298). Nesse sentido, a solidariedade mecânica pode ser considerada segmentária, pois ela se constitui em um “grupo situado localmente, relativamente isolado dos demais, tendo vida própria” e pouca comunicação exterior (ARON, 1987, p. 298). Segundo Durkheim, a consciência coletiva é “o conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma sociedade” (DURKHEIM, 1960 apud ARON, 1987, p. 300). Este conjunto, que se constitui a partir de elementos presentes nas consciências individuais, evolui IMPORTANTE 78 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 Por outro lado, mesmo que a sociedade segmentária seja aparentemente contraria à organicidade, existe a possibilidade de encontrar sociedades com alto grau de desen- volvimento na divisão do trabalho, nas quais subsiste uma certa estrutura segmentária. Durkheim (apud ARON, 1987, p. 298-299) apresenta, como exemplo, a Inglaterra, ondea avançada divisão econômica do trabalho manteve uma certa estrutura segmentária que pode ser notada na autonomia local e na tradição. Nesse sentido, a sociedade da Divisão do Trabalho Social também pode contar com segmentos, que, como os órgãos do corpo, cumprem suas funções, dentro do organis- mo social, de onde advém a denominação deste tipo de solidariedade. Esses segmen- tos, inseridos em relação solidária com o conjunto da sociedade, funcionam, no entanto, internamente e de certa maneira com regras de organização e controle. Sem dúvida, por mais circunscrita que seja, a atividade jamais é completa- mente original; mesmo no exercício de nossa profissão, conformamo-nos a usos e práticas que são comuns a toda nossa corporação. Mesmo assim, jugo ao qual nos submetemos é mais suave do que quando a sociedade inteira pesa sobre nós, deixando muito pouco lugar para o livre exercício da nossa iniciativa. (FORACCHI; MARTINS, 1977, p. 32) Em síntese, podemos afirmar que a vida em sociedade tem duas origens: de maneira autônoma de acordo com suas próprias leis, deixando de ser a manifestação ou mero desdobramento das consciências individuais e podendo persistir ao longo de gerações. Sua dimensão e intensidade é maior nas sociedades consideradas arcaicas, nas quais a individualidade é mais submetida ao pensamento coletivo, podendo ser menos potente em sociedades mais desenvolvidas. Exemplo: em sua família, comunidade ou grupo de amigas(os), não há algum tema, compor- tamento, código ou ritual que as pessoas precisam respeitar, mas que não está escrito em nenhum lugar e ninguém tem certeza de como ou quando começou a vigorar? ` A semelhança das consciências: os indivíduos são socializados porque, ao não possuí- rem uma individualidade própria, se integram e confundem no coletivo. Nesta coletividade, constroem-se regras repressivas de conteúdo moral. ` A divisão do trabalho social: consiste em um arcabouço legal que estabelece a natu- reza e as relações das diversas funções. Mesmo existindo o direito penal, cujas regras são acompanhadas por um conteúdo moral, que se aplica às práticas coletivas, ainda há necessidade de estabelecer regras da moral e do direito profissional que superem usos e costumes difusos, estabelecendo os deveres permanentes de cada tarefa. Como cada função é dependente das demais, a regulação garante a articulação das diversas funções em um sistema solidário. Esse processo vai, progressivamente, superando as estruturas segmentares dentro do corpo social. 79 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Garantir a estruturação das partes e do todo, com vistas ao funcionamento do sistema solidário, seria função de um poder regulador para a sociedade, como um todo, e para as diversas funções: Há um órgão, sobretudo, em vista do qual nossa dependência aumenta sempre: é o Estado. Multiplicam-se os pontos através dos quais estamos em contato com ele, bem como as ocasiões em que fica a seu cargo a ta- refa de fazer-nos voltar ao sentimento de solidariedade comum. (extraído do livro Da divisão do trabalho social (DURKHEIM, 1960 apud FORACCHI; MARTINS, 1977, p. 36) Finalmente, Durkheim afirma que à medida que ocorre o avanço no desenvolvimento da organização da estrutura da divisão do trabalho social vai ocorrendo, simultaneamente, a extinção da estrutura segmentar. Essa extinção da nivelação do sistema, em que as diferenças existentes entre os segmentos vão desaparecendo e a vida social se gene- raliza e as relações sociais se tornam mais numerosas, fortalece a densidade moral dessa sociedade. O processo denominado de condensação progressiva das sociedades produz, no pro- gresso da história, as seguintes maneiras básicas: 01. Da dispersão para a concentração, por exemplo, o movimento que leva os po- vos nômades ao sedentarismo e ao aumento no adensamento populacional; 02. A formação das cidades com o crescimento da natalidade, que estrutura, de for- ma mais organizada, a necessidade que os indivíduos têm de estabelecer contatos mais íntimos; 03. O aumento da densidade e a superação dos vazios existentes entre os segmen- tos sociais com o aumento acentuado das vias de comunicação e de transmissão. A multiplicação das relações intrassociais favorece um desenvolvimento maior dos indivíduos que compõem esta sociedade. Como já mencionado acima, e corroborado com o processo de construção das sociedades rumo à solidariedade social, podemos perceber a existência em Durkheim um entendimento positivo no papel da sociedade, enquanto espaço de construção e compartilhamento de valores, em seu movimento da solidariedade mecânica à solida- riedade orgânica. O que é anomia? Há momentos de crise social e/ou mudanças bruscas que deixam as re- gras sociais confusas ou ausentes. Nestes momentos, a busca por segurança, satisfação e estabilidade, pelos indivíduos, não encontra resposta no tecido a social. Essa situação é IMPORTANTE 80 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 De acordo com Giddens (2011), a proposição fundamental de Durkheim era a supe- ração da guerra do “todos contra todos”, manifesta por Hobbes, pelo consenso social diante da transição abrupta entre a sociedade tradicional e a sociedade moderna. Para ele, “[o] problema crucial que a sociologia devia encarar era o de definir quais eram as formas sociais capazes de realizar os ideais de liberdade e igualdade gerados pela transição a partir da ordem tradicional” (GIDDENS, 2011, p. 122). Durkheim não faz apologia ao passado, mas defende que o futuro da sociedade moder- na precisa estar calcado em uma nova moral. Os direitos e as liberdades não são coisas inerentes ao homem como tal... A sociedade consagrou o indivíduo e o tornou preeminentemente digno de respeito. A emancipação progressiva não implica um enfraquecimento, mas uma transformação dos vínculos sociais... Pois a liberdade do homem consiste na libertação das forças físicas, cegas e irracionais; ele a alcança ao contrapor-lhes a grande e inteligente força que é a sociedade, sob cuja proteção ele se abriga. (DURKHEIM, 1953 apud GIDDENS, 2011, p. 122) Durkheim é visto por alguns como determinista e por outros como um idealista otimista. Há quem faça longos estudos questionando as contradições ou lacunas de suas obras, mas não há como negar a influência fundamental que ele exerceu e exerce no campo do conhecimento da sociedade. Muitos aspectos da obra de Durkheim continuam presentes na sociedade atual, não apenas na sociologia e filosofia, mas na área da educação, na área jurídica e crimina- lística, nos estudos organizacionais, entre outros. Cabe a nós tentar compreender e estarmos abertos a conhecer mais. denominada por Durkheim como Anomia (do grego A = sem + Nomos = lei), que é a situação de enfraquecimento/ perda dos vínculos sociais, valores e tradições, bem como a perda da sociedade da capacidade de regular a vida dos indivíduos. Para Durkheim, esta seria uma situação transitória. A superação desse momento se daria na criação de novas regras/ tradi- ções ou no fortalecimento das existentes. Para compreender melhor alguns aspectos do pensamento de Durkheim, selecionamos al- guns textos que fazem reflexões sobre filmes que nos ajudam a pensar em aspectos das relações sociais: ` “Tragam o traidor pra cá!”: Algumas considerações sobre o filme A Onda. Disponível em: ht- tps://seer.ufs.br/index.php/tempopresente/article/view/4225/3522. Acesso em: 7 dez. 2020. ` Análise do filme A Vila. Disponível em: https://renatasallesazevedo.jusbrasil.com.br/arti- gos/454180527/analise-do-filme-a-vila. Acesso em: 7 dez. 2020. IMPORTANTE 81 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação 4. HISTORICISMO, VALORES E O OBJETO SOCIOLÓGICO DE WEBER7 Max Weber (1864-1920), jurista, historiador, sociólogo e pensador político alemão, nasceu em um ambiente erudito e intelectual, filho de um proeminente advogado e político do Parti-do Nacional-Liberal e de uma mulher culta e liberal com profundas marcas de sua fé pro- testante. Desde pequeno teve contato com as principais personalidades do mundo político e acadêmico da Prússia e aos 13 anos já escre- via ensaios históricos. Viveu sua infância em um período importante da história alemã, sob a liderança de Bismark, durante o processo no qual a Alemanha se torna um Estado-Nação. Mesmo nunca tendo ocupado cargos políti- cos, é marcante na sua vida e obra a conjun- ção de seus interesses políticos e intelectuais. Em 1882, iniciou seus estudos universitá- rios na área de Direito, mas também estu- dou História, Economia e Filosofia, tendo estudado em Heidelberg, Berlim e Gotinga. Suas primeiras produções acadêmicas fo- ram voltadas para a história econômica e o direito, tendo apresentado em seu primeiro exame de Direito em 1886 e seu doutorado em 1889 1886, período no qual escreveu sobre a propriedade na Roma antiga e, posteriormente, sobre a história das compa- nhias comerciais da Idade Média. Estes temas já demonstravam sua preocupação com o lento desenvolvimento do capitalismo na Alemanha ao lado do predomínio das gran- des propriedades fundiárias, evidenciando as tensões entre o mundo antigo, represen- tado pelas elites agrárias, e a modernidade, presente na ainda frágil burguesia. Sua obra será marcada pela preocupação com a estruturação da Alemanha como um Esta- do capitalista desenvolvido e forte, capaz de ser protagonista no cenário internacional. ` O filme “Borboletas Negras”: Uma análise a partir da teoria sociológica durkheimiana. Disponível em: https://revistacafecomsociologia.com/revista/index.php/revista/article/ view/614/pdf. Acesso em: 7 dez. 2020. ` “Vida de Inseto: uma análise sob a perspectiva das ideias dos sociólogos Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx”, publicado por Milca Leão. Disponível em: https://milcaleao. jusbrasil.com.br/artigos/338692159/vida-de-inseto-uma-analise-sob-a-perspectiva-das-i- deias-dos-sociologos-emile-durkheim-max-weber-e-karl-marx. Acesso em: 7 dez. 2020. Figura 11. Otto von Bismark (1815-1898), o primeiro chanceler do império alemão, foi objeto de análise e questionamentos por parte de Weber Fo nt e: 1 23 R F. 82 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 Em 1894, começou a lecionar Economia na Universidade de Friburgo, mas teve que afastar-se por um período, devido a uma crise depressiva. Em seu período de afas- tamento, ainda pôde encontrar espaço para estudar e produzir conteúdo significativo sobre as propriedades fundiárias da Prússia e assumir, junto com Sombart, a direção de uma revista importante na área de Ciências Sociais: o Arquivo para Ciências Sociais e Políticas Sociais. Em 1904, visitou os Estados Unidos, proferindo conferências, fazendo observações e coleta de material sobre burocracia e a relação da religião com o capitalismo. Concluiu, em 1905, seu livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Entre 1906 e 1910 participou ativamente de atividades e debates no meio inte- lectual de Heidelberg, período no qual redigiu dois ensaios sobre a Rússia: A Si- tuação da Democracia Burguesa na Rússia e A Transição da Rússia para o Constitucionalismo de Fachada. Vivenciou a 1ª Guerra Mundial, administrando hospitais em Heidelberg, durante a qual mantinha expectativa de que este acontecimento pudesse fortalecer a unidade e o sen- timento nacional alemão, mas, infelizmente, constatou que não ocorreu o que esperava, posto que a Alemanha saíra enfraquecida do conflito. Também tentou intervir, de certa maneira, enviando carta com sugestões táticas ao príncipe, além de compor a delega- ção que foi a França para acompanhar as exigências em torno do cessar-fogo. Como já mencionado, sua preocupação essencial era o fortalecimento da Alema- nha como sociedade capitalista e influente no contexto mundial, e se dedicou a es- tudar os diversas aspectos que poderiam favorecer ou dificultar esse avanço: influ- ência da guerra no fortalecimento do Es- tado, as oligarquias fundiárias tradicionais, a necessidade de uma liderança forte, a questão da emigração e imigração e a guarda das fronteiras, os tipos de poder, as relações e os significados das ações. Sua obra traz ao campo do conhecimento a abordagem racional da ação e do agente (ator), que mostra o processo em que os homens vão construindo e outorgando significados a sua ação, sendo que, nas relações recíprocas, tecem uma “malha de significados”. Weber faz a busca dos significados, a marca da racionalidade, que vai associando os homens entre si e tende a tornar-se mais densa. Morreu em 1920 por complicações pulmonares causadas pela gripe espa- nhola, aos 56 anos. Figura 12. Weber imaginava que a participação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial poderia fortalecer sua integração nacional Fo nt e: 1 23 R F. 83 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Produziu uma obra extensa, que Aron (1987, p. 463-464) classifica nas seguintes categorias: ` Estudos de metodologia, crítica e filosofia, como Ensaios sobre a Teoria da Ciência; ` Obras históricas que vão desde história de Roma até a situação econômica da Prús- sia oriental; ` Trabalhos de sociologia da religião, com destaque para A ética protestante e o espírito do capitalismo; ` Economia e Sociedade, sua obra prima que foi publicada após sua morte e foi considerada um tratado de sociologia geral. 4.1 TEORIA DA CIÊNCIA Weber inaugura, nas ciências sociais, uma nova abordagem a partir da ação e do ator. No seu livro Economia e Sociedade ([s. d.] apud FORACCHI; MARTINS, 1977, p. 139- 144), Weber apresenta seus conceitos de ação social e relação social, mas abordare- mos apenas alguns aspectos desse conteúdo. Para Weber ([s. d.] apud ARON, 1987, p. 464-469), a Sociologia, como ciência, é a bus- ca da compreensão da ação social, que ele classifica em quatro tipos: Figura 13. Weber traz, para a Sociologia, o ator e sua ação Fonte: 123RF 84 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 A compreensão que a Sociologia deve realizar implica na “percepção do sentido que o ator atri- bui a sua conduta”. Diferentemente de Marx e Durkheim, Weber oferece, em sua produção inte- lectual, um papel maior ao indivíduo, como quem realiza a ação: o ator. O ator e a ação serão o eixo de sua investigação. A classificação dos “tipos de ação” em Weber é um instrumento para a compreensão da socieda- de moderna: o tipo de ação que vigora em cada setor da sociedade e qual deveria estar presente, lembrando que ele tem, como pano de fundo, a preocupação da Alemanha, como nação forte, de- senvolvida e garantidora de direitos fundamentais. Não defendia algum modelo novo ideal de socie- dade e de Estado, como Marx, pois entendia que o capitalismo já era um modelo adequado. Sua proposta era a de entender como seu funciona- mento poderia ser aperfeiçoado, para construir uma nação racional e legalmente organizada, sem tolher a iniciativa do agente. A ação científica, em Weber, combinava dois tipos de ação: a racional com relação a um objetivo, a ciência; a racional com relação a um valor, a busca da verdade, pois esta busca era marcada por um juízo de valor, “um julgamento sobre o valor da verdade a ser demonstrada”. Portanto, a ciência alia a racionalidade com referência a um objetivo, definido a partir da ação racional relacionada a um valor (ARON, 1987, p. 466). A racionalidade científica está aliada ao respeito às regras da lógica, fundamentais para validar os resultados alcançados, ou seja, as características desta racionalidade são o comando do significado e do “alcance da verdade científica”. No entanto, entende que as ciências modernas, de modo geral, produzem um conhecimento sempre inacabado, pois sempre se pode avançar mais (ARON, 1987, p. 466-467). ` Ação racional com relação a um objetivo: quando o sujeito da ação (ator) elabora um objetivo e traça os meios para atingi-lo;` Ação racional com relação a um valor: o ator se engaja conscientemente em alguma ação para atingir um objetivo com base em crenças ou valores; ` Ação afetiva ou emocional: quando o ator reage de forma emocional a uma determinada situação, sem ter estabelecido um claro objetivo; ` Ação tradicional: é a ação que não estabelece um objetivo definido, mas se desenvolve movida por “hábitos, costumes ou crenças” incorporados ao longo de sua vida. Figura 14. A ação científica é voltada para um objetivo e para o valor da busca da verdade Fo nt e: 1 23 R F. 85 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação Ao tratar de relação social, Weber (1969) escreve: Por “relação” social deve-se entender uma conduta de vários – referida re- ciprocamente conforme seu conteúdo significativo, orientando-se por essa reciprocidade. A relação social consiste, pois, plena e exclusivamente, na probabilidade de que se agirá socialmente numa forma indicável (com sen- tido) [...]. (Weber, 1969 apud FORACCHI; MARTINS, 1977, p. 143) Não vamos nos deter nos diferentes modos de relação social, mas cabe ressaltar que o estudo da ação do ator, a partir de sua intencionalidade e da relação dos diversos atores, tem importância fundamental na obra de Weber. O termo compreensão, em Weber, é apresentado no sentido do entendimento, que apresenta diferenças quando se trata das ciências da natureza e das ciências sociais. As ações das pessoas podem ser compreendidas com observação e intuição, no entanto, isso não basta. O sociólogo precisa reconstruir essa leitura do comportamento com base em investigação, textos e documentos que possam comprovar a veracidade ou não essas impressões (ARON, 1987, p. 468-469). Os livros Política como Vocação e Ciência como Vocação, na edição brasileira, encontram-se juntos no livro Ciência e Política Duas vocações, indicado na bibliografia básica. SAIBA MAIS SUGESTÃO DE LEITURA A classificação dos tipos de ação, em Weber, estava associada também a uma preocu- pação pessoal sobre os “vínculos de solidariedade e de independência ente a ciência e a política”, indagando-se sobre a possibilidade de existir um “tipo ideal” do político e do cien- tista. Os livros Política como Vocação e Ciência como Vocação abordam essa discussão. No primeiro livro, quando Weber fala da política ele diferencia a direção política de determinado agrupamento, a direção dada na condução do Estado e as influências que podem ser dadas para a direção política do Estado, acabando por apresentar dois conceitos importantes: [...] devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território [...] reivindica o monopólio [...] do uso legítimo da violência física. [...] Por política entenderemos, consequentemente, o conjunto de esforços fei- tos com vistas a participar do poder ou influenciar a divisão do poder, seja entre Estados, seja no interior de um único Estado. (WEBER, [s. d.], p. 56) A política, portanto, seria um instrumento de atuação ou influência nas ações do Estado, ou seja, na definição dos rumos que a nação deveria tomar. Voltaremos a esse ponto 86 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 mais adiante, mas cabe ressaltar a importância que Weber dava para a construção de partidos fortes sem os vícios da burocracia. Nesse sentido, fica claro como a política abre possibilidade/ poder de ação em uma sociedade, aspecto que Weber considera intrínseco à política: a aspiração pelo poder. Esta aspiração, no entanto, pode ocorrer pelo fato de considerá-la um meio para con- quistar algum objetivo (que pode ser egoísta ou idealista) ou pelo desejo do prestígio que o poder confere. A existência de um poder, por outro lado, implica uma relação de dominação, como já diz o ditado popular “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Mas, de fato, para que alguém exerça o poder, é preciso que exista alguém que se submeta a sua auto- ridade, o que Weber denomina de legitimidade. Os fundamentos da legitimidade do poder para Weber são os seguintes: ` Poder tradicional: mantido pelos costumes, por uma autoridade que vem do passado sem ser questionada (como os reis e imperadores que herdam o poder); ` Poder carismático: baseado em qualidades pessoais do governante, como he- roísmo, confiança ou algum dom considerado extraordinário por seus seguidores (o guerreiro mais valente da tribo ou o que for considerado mais sábio etc.); ` Poder legal: sustentado pelas leis racionalmente estabelecidas (governante eleito) (WEBER, [s. d.], p. 57). 4.2 A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO Como já abordamos, Weber tinha uma grande preocupação em desvendar os ca- minhos para o pleno o desenvolvimento do capitalismo na Alemanha. Por outro lado, uma vez que sua produção científica se baseava na ação, no ator e nas relações dos diversos atores, Weber queria entender quais foram as intenções, qual foi o motor interno, que favoreceu o avanço do capi- talismo e principalmente no modo característi- co do desenvolvimento econômico alemão. Segundo Giddens (2011, p. 43-45), no livro A Ética Protestante e o Espírito do Capita- lismo Weber procura desvendar a influência da religião protestante, predominante entre as classes capitalistas alemãs, no modelo de desenvolvimento econômico em seu país. Analisando as diferenças entre os valores presentes na religião protestante, predomi- nante na Alemanha, ele pode perceber sua influência no modo como se desenvolveu o capitalismo nesta região. Desse modo, foi possível destacar a enorme a diferença entre Figura 15. Weber aborda a importância da subje- tividade na intenção que move as ações dos indivíduos Fo nt e: 1 23 R F. 87 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação capitalistas protestantes e capitalistas católicos. A partir daí Weber conclui que a ide- ologia protestante promoveu, de uma forma ou de outra, a construção do capitalismo. Em sua obra, Weber discute várias de suas preocupações com relação ao desenvolvimen- to do capitalismo na Alemanha, como a questão agrária, com grandes proprietários que mantêm uma relação com a política incompatível com a sociedade capitalista desenvolvida. Também, aborda o plano intelectual da estrutura social alemã, estudando, questionando e buscando em diversas linhas de pensamento, passando pelo marxismo e idealismo, tentan- do construir um entendimento das possibilidades reais de estruturação do Estado nacional. Quanto ao marxismo, em que pese concordar com alguns aspectos de sua abordagem, entendia que perdia ao ignorar a influência do conteúdo simbólico na compreensão da sociedade e, principalmente, o sistema religioso. Nesse sentido, no livro sobre a ética protestante e sua vinculação com o surgimento do capitalismo moderno Weber encontra uma possível ligação, ao analisar algumas religi- ões e o modo como abordam a riqueza. Seu estudo consegue vincular uma concepção de sucesso econômico vinculado à aprovação divina e não à ganância. Este teria sido o fator que impulsionou o uso da riqueza acumulada no investimento na produção, aliado à criatividade e a uma inspiração religiosa: o espírito empresarial capitalista. Não há, nesta análise, uma tentativa de esgotar todas as razões que levaram ao desenvolvi- mento do capitalismo, mas a intenção inicial desse processo. 4.3 PRINCIPAIS PREOCUPAÇÕES NA OBRA DE MAX WEBER Entender os aspectos originários na formação do capitalismo alemão e suas caracterís- ticas atuais eram elementos essenciais para projetar as ações necessárias para o futuro da Alemanha como Estado nacional. Nesse sentido, sua análise da conjuntura atual evidenciava alguns desafios. O primeiro aspecto consistia em perceber que a burguesia era pouco politizada e sem estrutura para exercer a liderança política necessária para impulsionar o processo de aceleração do capitalismo local, o que se refletia na “lentidão do desenvolvimentoeconômico alemão” (GIDDENS, 2011, p. 36). Por outro lado, a política nacional sofria grande influência das lideranças da estrutura agrária tradicional, que resistiam aos avanços na economia e na sociedade. A terceira preocupação dizia respeito à necessidade de transformar a pesada burocracia estatal existente em uma estrutura político-administrativa de Estado, moderna e racional, que fosse capaz de favorecer as condições para o avanço do desenvolvimento econômico. Entendia que estes três aspectos seriam essenciais para unificar a Alemanha e torná-la uma potência capitalista com projeção e protagonismo no cenário internacional. Esses e outros aspectos, segundo Giddens (2011), se encontram sintetizados em “um conjunto preliminar de princípios” que Weber organizou para uma aula inaugural e “re- aparecem na maior parte de seus escritos políticos subsequentes” (GIDDENS, 2011, p. 40-41), sendo eles os seguintes: (1) Os problemas mais significativos da política alemã são derivados do “legado de Bismark” [...]; (2) O futuro do Estado alemão dependeria da sua transformação em potência industrial desenvolvida. [...]; (3) A ame- 88 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 aça de uma “dominação burocrática incontrolada” de modo algum seria resolvida por meio dos programas dos socialistas revolucionários [...]; (4) O estabelecimento de um governo democrático seria incapaz [...] de re- duzir a “dominação do homem pelo homem” [...]; (5) O fortalecimento do Estado-Nação teria que ter a primazia sobre todos os outros objetivos [...]; (6) Todas as políticas, em última análise, envolveriam lutas pelo poder. (GIDDENS, 2011, p. 40-41) O primeiro ponto trata de uma estrutura de Estado centralizada e dominada por uma personalidade autoritária, que é comparada à figura de César, o imperador romano. Weber não vê possibilidade de modernização do Estado e de avanço em sua estrutu- ra política e econômica sem lideranças. A necessidade de fortalecimento dos partidos políticos e a formação de novas lideranças possibilitaria a modernização do Estado e a ampliação da disputa e das vozes dos diversos grupos de interesse da sociedade. A política autoritária e centralizada corresponde ao atraso, justamente o contrário que se espera de uma nação que quer ter protagonismo no cenário internacional. O segundo ponto está calcado na preocupação referente ao ritmo lento do desenvolvi- mento capitalista, pois Weber entende que a burguesia não conta com visão nem lide- rança política e que o Estado deveria incentivar os rumos do desenvolvimento. Também era necessário controlar o poder reacionário dos grandes proprietários rurais. Weber entendia que um estado moderno deve ser racional e legalmente estruturado. Para isso, precisa contar com uma burocracia eficiente, moderna e racional, mas sem concentrar poder e controle excessivos – que ele denominou “despotismo burocrático” (GIDDENS, 2011) – sobre a atividade política e produtiva. O político, para atender com agilidade às necessidades da nação, e a burguesia, para promover inovações para o avanço do capitalismo nacional econômico, não podem ser sufocados pela burocracia. Para Weber, o equilíbrio entre burocracia, política e burguesia era, portanto, indispen- sável para o fortalecimento do estado capitalista desenvolvido. O quarto ponto se refere, novamente, ao estado proposto pelos socialistas radicais, que, para Weber, não acabaria com a dominação, mas apenas concentraria poder nas mãos do Estado. Por outro lado, a concentração de poder em uma liderança centrali- zadora, como foi o governo de Bismark, ou nas mãos de um segmento tradicional, que atravanca o progresso, não seriam opções. O Estado alemão deveria formar novas lideranças para levar adiante seu fortalecimento e crescimento, e Weber entendia que estas lideranças deveriam vir da burguesia. Este ponto se une também ao último, pois a burguesia no momento tinha uma postura apolítica. Nesse sentido, a formação polí- tica, para Weber, era algo muito importante, pois iria suprir a necessidade de quadros adequados para as disputas políticas, que, em suma, são as disputas de interesses e necessidades entre os diversos segmentos sociais. Quanto ao último ponto, nem é preciso retomar a importância que Weber dava à criação do Estado-Nação. 4.4 O LEGADO DE MAX WEBER A produção de Weber nos oferece diversos elementos importantes para compreender a sociedade e que ainda permanecem presentes na atualidade, dentre os quais podemos 89 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação destacar: o papel do cientista social; os conceitos de do ator (indivíduo), ação e relação social e suas intenções; os aspectos relativos a poder, dominação e à legitimidade. Weber era um homem do seu tempo. Aprender com Weber é utilizar os instrumentos que ele ofereceu para compreensão da sociedade. Dentre os principais livros de Weber, estão: ` A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo ` Economia e sociedade ` Política como vocação ` Ciência como vocação ` Sociologia das Religiões ` Escritos políticos ` História agrária Romana ` Conceitos básicos de sociologia ` O direito na economia e na sociedade ` Metodologia das Ciências Sociais ` Ética econômica das religiões mundiais ` Conceitos sociológicos fundamentais ` Ensaios sobre a teoria das ciências sociais Para compreender melhor Max Weber, sugerimos: ` Clássicos da Sociologia – Max Weber, Univesp. Disponível em: https://youtu.be/ea-sXQ- 5rwZ4. Acesso em: 7 dez. 2020. ` “Obra de Weber mantém atualidade, nos 150 anos do sociólogo”, DW Brasil. Disponí- vel em: https://www.dw.com/pt-br/obra-de-max-weber-mant%C3%A9m-atualidade-nos- -150-anos-do-soci%C3%B3logo/a-17580345. Acesso em: 7 dez. 2020. SAIBA MAIS CONCLUSÃO Encontramos dois grandes desafios: abordar a questão do objetivismo e do subjetivis- mo a partir dos clássicos e de pensadores mais atuais e apresentar, de forma sintética, os três maiores sociólogos da história: Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber. 90 Sociologia Clássica: Objeto e Método de Análise 2 Procuramos trabalhar estes conteúdos de modo a possibilitar uma compreensão ampla dos assuntos abordados, mas claramente não é possível esgotar temas tão profundos e autores que são referência na Sociologia por gerações. 91 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Sociologia: Teorias e Aplicação REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRANTES, A. A.; MARTINS, L. M. A produção do conhecimento científico: relação sujeito-objeto e desen- volvimento do pensamento. Interface, Botucatu, v. 11, n. 22, p. 313-325, ago. 2007. Disponível em: http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832007000200010&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 4 dez. 2020. ARON, R. 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