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Como citar este artigo: Antas EMV, Brito KKG, Santana EMF, Nóbrega MM, Queiroz XSBA, Oliveira SHS, Soares MJGO. Qualidade de vida e condição clínica de indivíduos com hanseníase. REME - Rev Min Enferm. 2022[citado em ____ ___ __];26:e-1466. Disponível em: ______________ DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 QUALIDADE DE VIDA E CONDIÇÃO CLÍNICA DE INDIVÍDUOS COM HANSENÍASE QUALITY OF LIFE AND CLINICAL CONDITION OF INDIVIDUALS WITH LEPROSY CALIDAD DE VIDA Y ESTADO CLÍNICO DE LAS PERSONAS CON LEPRA REME • Rev Min Enferm. 2022;26:e-1466 DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 RESUMO Objetivo: analisar a qualidade de vida dos indivíduos com hanseníase em tratamento na rede de Atenção Básica e Especializada de saúde e realizar uma comparação de acordo com as condições clínicas dos pacientes. Método: estudo transversal, de caráter analítico, realizado na Atenção Básica e Especializada de saúde em João Pessoa, Paraíba, Brasil. A amostra foi coletada entre os meses de janeiro e março de 2017, sendo composta por 96 indivíduos em tratamento para doença, na faixa etária acima de 18 anos de idade. As informações foram coletadas a partir de um formulário semiestruturado contendo variáveis sociodemográficas e clínicas e o instrumento validado World Health Organization Quality of life Assessment bref. Os dados foram analisados com base nas técnicas de análise descritiva, tendo sido aplicados os testes de Normalidade (Kolmogorov-Smirnov), Levene, t paramétrico e ANOVA (teste post hoc tukey). Resultados: o escore geral para qualidade de vida entre os 96 participantes da pesquisa se manteve intermediário (x̅ =57,04) sendo o domínio físico mais afetado negativamente (x̅ =54,09). As questões contidas nos domínios “Recreação e lazer” (x̅ =31,41), “Sentimentos negativos” (x̅ =35,16), “Recursos Financeiros” (x̅ =35,68) e “Dor e desconforto” (x̅ =35,68) apresentaram menor escore médio. Pacientes com condições clínicas “osteoporose e artrose” (p = 0,011) e “neurite atual” (p = 0,001) obtiveram qualidade de vida em nível intermediário. Conclusão: evidenciou–se que pessoas com hanseníase têm qualidade de vida em nível intermediário, principalmente quando associada à neurite e a comorbidades, o que ressalva a necessidade de acompanhamento contínuo dos participantes da pesquisa. Palavras-chave: Hanseníase; Qualidade de vida; Enfermagem; Neurite; Osteoporose; Osteoartrite. ABSTRACT Objective: to analyze the quality of life of individuals with leprosy undergoing treatment in the Basic and Specialized Health Care network and to perform a comparison according to the clinical conditions of the patients. Method: cross-sectional, analytical study carried out in Primary and Specialized Health Care in João Pessoa, Paraíba, Brazil. The sample was collected between January and March 2017, consisting of 96 individuals undergoing treatment for the disease, aged over 18 years. Information was collected using a semi-structured form containing sociodemographic and clinical variables and the validated instrument World Health Organization Quality of life Assessment bref. Data were analyzed based on descriptive analysis techniques, using the Normality (Kolmogorov-Smirnov), Levene, parametric t and ANOVA (post hoc Tukey test) tests. Results: the overall score for quality of life among the 96 research subjects remained intermediate (x̅ =57.04), with the Physical domain being most negatively affected (x̅ =54.09). The questions contained in the domains “recreation and leisure” (x̅ =31.41), “negative feelings” (x̅ =35.16), “Financial Resources” (x̅ =35.68) and “Pain and distress” (x̅ = 35.68) had a lower mean score. Patients with clinical conditions “osteoporosis and arthrosis” (p = 0.011) and “current neuritis” (p = 0.001) had an intermediate quality of life. Conclusion: it was shown that people with leprosy have an intermediate quality of life, especially when associated with neuritis and comorbidities, which highlights the need for continuous monitoring of research subjects. Keywords: Leprosy; Quality of Life; Nursing; Neuritis; Osteoporosis; Osteoarthritis. RESUMEN Objetivo: analizar la calidad de vida de los individuos con lepra en tratamiento en la red de Atención Primaria y Especializada y su comparación según las condiciones clínicas de los pacientes. Método: estudio transversal, de carácter analítico, realizado en la Asistencia Sanitaria Básica y Especializada de João Pessoa, Paraíba, Brasil. La muestra se recogió entre enero y marzo de 2017, formada por 96 individuos en tratamiento por la enfermedad, mayores de 18 años. La información se recogió mediante un formulario semiestructurado que contenía variables sociodemográficas y clínicas, y el instrumento validado World Health Organization Quality of life Assessment bref. Los datos se analizaron a partir de las técnicas de análisis descriptivo y se aplicaron las pruebas de normalidad (Kolmogorov-Smirnov), Levene, t paramétrica y ANOVA (prueba de tukey post hoc). Resultados: la puntuación global de la calidad de vida entre los 96 participantes en la investigación se mantuvo en un nivel intermedio (x̅ =57,04) y el dominio físico fue el más afectado negativamente (x̅ =54,09). En cuanto a las preguntas contenidas en los dominios, "Recreación y ocio" (x̅ =31,41), "Sentimientos negativos" (x̅ =35,16), "Recursos económicos" (x̅ =35,68) y "Dolor y malestar" (x̅ =35,68) mostraron puntuaciones medias más bajas. Los pacientes con condiciones clínicas de "osteoporosis y artrosis" (p = 0,011) y "neuritis actual" (p = 0,001) obtuvieron una calidad de vida de nivel intermedio. Conclusión: se evidenció que las personas con lepra tienen un nivel intermedio de calidad de vida, especialmente cuando se asocia a neuritis y comorbilidades, lo que pone de manifiesto la necesidad de un seguimiento continuo de los participantes en la investigación. Palabras clave: Lepra; Calidad de Vida; Enfermería; Neuritis; Osteoporosis; Osteoartritis. Ester Missias Villaverde Antas1 Karen Krystine Gonçalves de Brito2 Emanuelle Malzac Freire de Santana3 Matheus de Medeiros Nóbrega1 Xênia Sheila Barbosa Aguiar Queiroz1 Simone Helena dos Santos Oliveira1 Maria Julia Guimarães Oliveira Soares1 ¹Universidade Federal da Paraíba - UFPB, Centro de Ciências da Saúde - CCS, Programa de Pós Graduação de Enfermagem. João Pessoa, PB - Brasil. ²Faculdade Nova Esperança - FACENE, Enfermagem. João Pessoa, PB - Brasil. ³Faculdade Nova Esperança - FACENE, Fisioterapia. João Pessoa, PB - Brasil. Autor Correspondente: Ester Missias Villaverde Antas E-mail: ester_villaverde@yahoo.com.br Contribuições dos autores: Análise Estatística: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Simone H. S. Oliveira, Maria J. G O Soares; Coleta de Dados: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Emanuelle M. F. Santana, Matheus M. Nóbrega, Maria J. G O Soares; Conceitualização: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Emanuelle M. F. Santana, Matheus M. Nóbrega, Xênia S. B. A. Queiroz, Simone H. S. Oliveira, Maria J. G O Soares; Gerenciamento de Recursos: Ester M. V. Antas, Maria J. G O Soares; Gerenciamento do Projeto: Ester M. V. Antas, Maria J. G O Soares; Investigação: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Maria J. G O Soares; Metodologia: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Emanuelle M. F. Santana, Matheus M. Nóbrega, Xênia S. B. A. Queiroz, Simone H. S. Oliveira, Maria J. G O Soares; Redação - Preparação do Original: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Emanuelle M. F. Santana, Matheus M. Nóbrega, Xênia S. B. A. Queiroz, Simone H. S. Oliveira, Maria J. G O Soares; Redação - Revisão e Edição: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Emanuelle M. F. Santana, Matheus M. Nóbrega, Xênia S. B. A. Queiroz, Simone H. S. Oliveira, Maria J. G O Soares; Software: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Maria J. G O Soares; Supervisão: Ester M. V. Antas, Simone H. S. Oliveira, Maria J. G O Soares; Visualização: Ester M. V. Antas, Karen K. G. Brito, Emanuelle M. F. Santana, Matheus M. Nóbrega, Xênia S. B.A. Queiroz, Simone H. S. Oliveira, Maria J. G O Soares. Fomento: Não houve financiamento. Submetido em: 02/08/2021 Aprovado em: 20/06/2022 Editores Responsáveis: Mariana Santos Felisbino-Mendes Luciana Regina Ferreira da Mata PESQUISA https://orcid.org/0000-0002-6464-3617 https://orcid.org/0000-0002-2789-6957 https://orcid.org/0000-0003-4704-6666 https://orcid.org/0000-0003-4040-896X https://orcid.org/0000-0003-3218-4759 https://orcid.org/0000-0002-9556-1403 https://orcid.org/0000-0001-8025-9802 https://orcid.org/0000-0001-5321-5708 https://orcid.org/0000-0002-5080-4643 2 Qualidade de vida e condição clínica de indivíduos com hanseníase DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 REME • Rev Min Enferm. 2022;26:e-1466 INTRODUÇÃO A hanseníase consiste numa patologia infectocon- tagiosa de processo crônico e com forte poder inca- pacitante, fazendo parte do grupo das dez Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN’s). Apesar dos esforços mundiais traçados por meio de metas globais e estraté- gias específicas, os indicadores da doença ainda apon- tam um caminho de perpetuação de morbidade. Nesse ínterim, a mais recente estratégia global de enfrenta- mento à hanseníase modifica seu escopo: antes era con- centrada na sua eliminação como problema de saúde pública; agora, passa a focar na interrupção da trans- missão e na obtenção de zero casos autóctones.1 Epidemiologicamente, o perfil da epidemia tem sido modificado - embora lentamente. No ano de 2019, foram diagnosticados o total de 202.256 novos casos da doença em 118 países (26 casos por milhão de habitantes). Des- ses, 96% foram relatados pelos 23 países prioritários glo- bais, sendo que 79% foi na Índia, no Brasil e na Indo- nésia. Sessenta e seis países relataram menos de 100 casos. Sobre os casos com Grau de Incapacidade 2 (IG2), detectados já no momento do diagnóstico, foram 10.816, os quais são majoritariamente distribuídos no Sudeste Asiático, na África e na Américas (respectivamente).1 Tratando-se especificamente do Brasil, nos últi- mos cinco anos foram reportados 137.385 casos novos de hanseníase. Em 2020, foram 17.979 casos novos, dos quais 1.504 com IG2. A detecção de casos com Grau de Incapacidade 2 evidencia o diagnóstico tar- dio, devido ao maior comprometimento físico oca- sionado pela hanseníase. Nesse sentido, o indicador acompanha a tendência da detecção geral de casos.2 Levando em consideração o indicador Disability- -adjusted life years (DALYs) - que representa os anos de vida saudável perdidos, seja pela mortalidade da doença ou pelo potencial para gerar deficiência -, em 2016, no Brasil, as taxas mais altas do DALYs se concen- travam em indivíduos de faixas etárias mais avançadas quando acometidos por doenças tropicais negligencia- das, incluindo a hanseníase. Devido à imunossenescên- cia, é necessário priorizar o cuidado longitudinal desses indivíduos, no qual se espera uma relação terapêutica que envolva a responsabilidade por parte do profissio- nal de saúde e a confiança por parte do usuário.3 O poder epidemiológico da hanseníase atinge patamares sociais ainda mais relevantes quando se entende seu poder incapacitante. Fisiologicamente, está atrelado à capacidade de o bacilo acometer as células de Schwann paulatinamente, acarretando processos inflamatórios e/ou respostas imunológicas que, por sua vez, agravam o quadro e repercutem dire- tamente na capacidade dos indivíduos acometidos res- ponderem a estímulos nervosos, motores, sensoriais e/ou autônomos. O ciclo patológico da hanseníase envolve lesões primárias e secundárias que variam em suas gravidades e geram deformidades e incapa- cidades, especialmente na face, nas mãos e nos pés.4 Isto posto, sugere-se (na ausência de dados verificáveis) que 3 a 4 milhões de pessoas vivam com incapacidades físicas visíveis devido à hanseníase, dado isoladamente suficiente para suscitar pesquisas na temática.1 Contudo, agregando potencial, há uma associação das peculia- ridades da doença com o quão é afetada a maneira de percebê-la na condição física, emocional, social, cultu- ral, entre outros aspectos que reverberam na qualidade de vida desses indivíduos. Em abordagens sobre Qualidade de Vida (QV), é necessário ter atenção à multiplicidade de questões que envolvem esse universo. Não há consenso conceitual de QV relacionada à saúde. Os instrumentos de mensura- ção de QV permitem, a partir da percepção individual, trazer informações inerentes ao bem-estar físico, às relações com família e amigos, às condições financei- ras que norteiam questões referentes a moradia, lazer, transporte, oportunidades de adquirir novas informa- ções e habilidades, ao acesso aos serviços de saúde, à educação, à espiritualidade, às crenças pessoais, ao bem-estar e à satisfação com a vida.5-7 Por QV, adota-se, neste estudo, a conceituação do grupo WHOQOL, em que ela é entendida como “a percep- ção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto de sua cultura e no sistema de valores em que vive e em relação a suas expectativas, seus padrões e suas preocupações”.8 Consubstanciando tamanha importância da hanse- níase no contexto social, econômico, político e da saúde, tem-se o trabalho desempenhado pelos profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), os quais desenvolvem trabalho de assistência repleto de arestas, seja na Aten- ção Básica, porta de entrada para toda rede de atenção à saúde, seja na atenção especializada, referenciada e contrarreferenciando o cuidado que deve ser integral e por memorizar a percepção de cada indivíduo sobre seu processo de adoecimento, cura e/ou adaptação à nova condição de vida.9 A relação entre a hanseníase e a qualidade de vida tem sido alvo de estudos que reconhecem essa doença como causa de um sofrimento que ultrapassa a dor e o mal-estar estritamente vinculado ao prejuízo físico, tendo grande impacto social e psicológico.10,11 3 Qualidade de vida e condição clínica de indivíduos com hanseníase DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 REME • Rev Min Enferm. 2022;26:e-1466 No entanto, as diferenças regionais do Brasil corro- boram para o ensejo de pesquisas que apontem como as variáveis sociodemográficas e clínicas podem aju- dar a compreender os determinantes sociais na saúde dessa população. Diante o exposto, apenas tratar a doença hanseníase não é suficiente: é necessário considerar as necessidades relacionadas à QV dos indivíduos, tendo em vista que as incapacidades físicas, as deformidades e o estigma relacionado à doença restringem as atividades laborais e sociais, potencializam o desequilíbrio do estado de completo bem-estar físico, mental e social dos acome- tidos pela doença, comprometendo a QV.12 Portanto, o objetivo desde estudo é analisar a qualidade de vida dos indivíduos com hanseníase em tratamento na rede de Atenção Básica e Especializada de saúde e sua compara- ção de acordo com as condições clínicas dos pacientes. MÉTODO Trata-se de estudo transversal, de caráter analítico, realizado nos meses de janeiro a março de 2017, na Aten- ção Básica (em 19 Unidades Saúde da Família distribuí- das em 5 distritos sanitários) e Especializada de saúde (Ambulatório dermatológico de hanseníase do Hospi- tal de Doenças Infectocontagiosas Doutor Clementino Fraga Filho) na cidade de João Pessoa, Paraíba, Brasil. No intuito de garantir a apresentação de alta qualidade do presente estudo, foram utilizadas as diretrizes da Declaração de fortalecimento do Relatório de Estudos Observacionais em Epidemiologia (STROBE).13 Para compor a amostra, foram adotados os seguin- tes critérios de inclusão: indivíduos maiores de 18 anos de idade que estivessem em tratamento poliquimiote- rápico para hanseníase e que possuíssem cognição pre- servada. A faixa etária adotada se deu pelo fato de o atendimento exclusivo de adultos no serviço hospitalar ocorrer no turno que os pesquisadores tinham dispo- nível para a realização a pesquisa. Foram excluídos os indivíduos com confirmação de diagnóstico há menosde 30 dias e/ou que estivessem tratando apenas rea- ção hansênica. A população elegível foi composta por 171 indiví- duos cadastrados no serviço de dermatologia do refe- rido hospital. Admitindo-se o nível de confiança de 95% e com base na margem de erro de 5%, obteve- -se a amostra estimada de 84 indivíduos, sendo 22 na Atenção Básica (amostra realizada segundo método de alocação proporcional ao número de pacientes das unidades por distrito) e 62 da Atenção Especializada. Tendo em vista o número de pacientes agendados para consulta no período de coleta, a amostra foi ampliada por conveniência, perfazendo o total de 96 indivíduos. Para operacionalização da coleta de dados, foram necessários 4 pesquisadores participantes, os quais foram previamente instruídos por meio de aula expo- sitiva e dialogada sobre os aspectos fisiopatológicos e clínicos da hanseníase, bem como sobre os objetivos e a aplicabilidade dos instrumentos desta pesquisa. Res- salta-se que a equipe em questão já estava inserida na atuação de pesquisas envolvendo a temática, pois cons- tituem o subgrupo de pesquisa “HANSEN”, que inte- gra o Grupo de Pesquisas em Tratamento de Feridas - GEPEFE, vinculado à Universidade Federal da Paraíba. As entrevistas foram realizadas in loco (seja no hos- pital de referência, seja nas unidades básicas de saúde), com duração aproximada de 20 minutos. Para tanto, utilizaram-se dois formulários de coleta: 1) formulário semiestruturado contendo variáveis sociodemográficas (sexo, idade, estado civil, número de filhos, escolaridade, renda familiar e número de familiares que residem na mesma casa) e clínicas [classificação operacional – Pau- cibacilar (PB) e Multibacilar (MB), forma clínica - inde- terminada (PB), tuberculóide (PB), dimorfa (MB), vir- chowiana (MB) -, baciloscopia , Grau de Incapacidade Física - GIF no diagnóstico, GIF na última avaliação, reação hansênica, doenças associadas - hipertensão, dia- betes mellitus, osteoporose, artrose, úlceras plantares/ palmares e neurite]; e 2) formulário World Health Orga- nization Quality of life Assessment bref- WHOQOL-bref. Este último é um instrumento validado pela Orga- nização Mundial de Saúde (OMS) para analisar a Qua- lidade de Vida dos participantes do estudo. Consiste em uma versão abreviada do WHOQOL 100, podendo ser uti- lizado em pesquisas envolvendo indivíduos saudáveis ou acometidas com doenças crônicas, como diabetes melli- tus, hanseníase e outras. O instrumento é composto de 26 questões, sendo 2 voltadas à percepção da QV e à satisfa- ção com a saúde, e 24 questões distribuídas nos domínios físico, relações sociais, ambiente e psicológico.14 Levando em consideração que o instrumento WHOQOL-bref utiliza uma escala do tipo Likert, optou-se por considerar o escore de respostas dos participantes na mesma modalidade, ou seja, divididos e classifica- dos em quartis. Dessa forma, os resultados da QV foram classificados em cinco categorias: QV muito ruim (escore varia de 0 a 24 pontos); QV ruim (escore varia de 25 a 49 pontos); QV intermediária (escore varia de 50 a 74 pontos); QV boa (escore varia de 75 a 99 pontos); QV muito boa (> 99 pontos).14 4 Qualidade de vida e condição clínica de indivíduos com hanseníase DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 REME • Rev Min Enferm. 2022;26:e-1466 Os dados foram analisados por meio do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) ver- são 21.0, com base nas técnicas de análise descritiva dos dados. Foram aplicados os seguintes testes estatís- ticos, ao nível de 5% de significância: teste t paramé- trico, para comparação das médias de duas amostras independentes, satisfeito o teste de Kolmogorov-Smirnov para normalidade dos dados; teste Levene, para com- paração da igualdade da variância; teste ANOVA, para comparação de várias médias e, no caso de significância estatística, para “neurite” foi utilizado o teste Post Hoc Tukey para ANOVA (apresentando significância para os grupos “neurite atual” e “neurite nunca teve” com p valor = 0,003 < α = 0,01).15 Os dados ausentes são justificados pela falta de informações clínicas nos prontuários dos participan- tes da pesquisa, como classificação operacional (2), reação hansênica (1), neurite (1), GIF no diagnóstico (13), GIF da última avaliação (12), úlcera plantar/ palmar (1) e forma clínica (9). O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Uni- versidade Federal da Paraíba do Centro de Ciências da Saúde por meio de adendo a um projeto mais amplo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Enfer- magem no nível mestrado da autora principal, sob parecer favorável de nº: 3.889.691 Os participantes do estudo foram orientados, antes da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sobre a partici- pação voluntária, o anonimato e a liberdade em desistir do estudo em qualquer momento. A presente pesquisa foi realizada com base nos aspectos éticos em pesquisa envolvendo seres humanos, preconizados pela Resolu- ção 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.16 RESULTADOS Esta pesquisa envolveu 96 indivíduos com hanse- níase. A análise dos resultados demonstrou que a maioria dos indivíduos eram do sexo masculino (55,20%), com idade média na faixa economicamente ativa de 45,5 anos, casados (53,10%), baixo nível instrucional (54,20%) e renda de um salário-mínimo (60,90%). No que diz res- peito à característica clínica da hanseníase, temos mul- tibacilares (85,40%), forma dimorfa (45,80%). No diag- nóstico, 45,83% tiveram GIF zero e 18,1% apresentaram GIF 2; 55,80% nunca apresentaram reação hansênica e 88,40% nunca tiveram neurite. No que se refere à investigação da QV dos indivíduos com hanseníase, infere-se, a partir do gráfico a seguir, que a média total do escore global se classifica como intermediária. Quantos aos domínios presentes no WHOQOL-bref, o físico, o psicológico e o ambiente influenciaram na dimi- nuição da média da QV intermediária, enquanto o domí- nio relações sociais atuou no aumento da média da QV intermediária (Figura 1). Detalhadamente, os domínios expressos pelo WHO- QOL - bref são compostos por questões sobre as quais se constatam aspectos relevantes para a QV. A ques- tão “Recreação e lazer” (x̅ =31,41), do domínio Meio ambiente; “Sentimentos negativos” (x̅ =35,16), ligado ao domínio Psicológico; “Recursos Financeiros” (x̅ =35,68), direcionadas ao domínio Meio Ambiente; “Dor e descon- forto” (x̅ =35,68), relacionada ao domínio Físico, apre- sentaram menor escore médio, influenciando na dimi- nuição da média sobre os domínios ao qual pertencem, bem como sobre a QV intermediária. Já as questões “autoestima” (x̅ =68,23), do domí- nio Psicológico; “suporte e apoio pessoal” (x̅ =67,19) e “relações pessoais” (x̅ =66,93), referentes ao domínio Relações Pessoais; e “mobilidade” (x̅ =66,67), perten- cente ao domínio físico, evidenciaram maior escore médio. Consequentemente, influenciaram aumentando a média do domínio ao qual pertencem, assim como a QV intermediária (Figura 2). Ao comparar a média do escore do WHOQOL-bref com a condição clínica dos indivíduos com hanseníase, observou-se que aqueles com osteoporose e artrose (p < 0,011) e neurite (p < 0,001) tiveram média de QV inferior se comparados àqueles sem essas condi- ções, osteoporose, artrose (x̅ =78,4) e com neurite atual (x̅ =66,6) (Tabela 1). Figura 1 - Escores médios da Qualidade de vida segundo os domínios do instrumento WHOQOL-bref dos indivíduos com hanseníase atendidos na rede de Atenção Básica e Especializada da saúde. João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2017 Fonte: Pesquisa direta, 2017. Domínio físico Domínio ambiente Qualidade de vida intermediária Domínio psicológico Domínio relações sociais 54,09 57,99 65,54 55,99 57,04 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 5 Qualidade de vida e condição clínica de indivíduos com hanseníase DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 REME • Rev Min Enferm. 2022;26:e-1466 Figura 2 – Médias dos escores por questão do instrumento WHOQOL-brefdos indivíduos com hanseníase atendidos na rede de Atenção Básica e Especializada da saúde, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2017 Fonte: Pesquisa direta, 2017. DOMÍNIO FÍSICO Capacidade de trabalho Atividade de vida cotidiana Sono e repouso Mobilidade Energia e fadiga Dependência de medicação ou de tratamento Dor e desconforto DOMÍNIO PSICOLÓGICO Sentimentos negativos Auto-estima Imagem corporal e aparência Pensar, aprender, memória e concentração Espiritualidade/religião/crenças pessoais Sentimentos positivos DOMÍNIO RELAÇÕES PESSOAIS Suporte e apoio pessoal Atividade sexual Relações pessoais DOMÍNIO AMBIENTE Transporte Cuidados de saúde e sociais disponibilidade e qualidade Ambiente no lar Oportunidades de recreação e lazer Oportunidades de adquirir novas oportunidades Recursos financeiros Ambiente físico Segurança física e proteção 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 61,72 65,63 35,68 55,47 31,51 65,63 65,63 62,24 55,99 66,93 62,5 67,19 65,54 48,18 65,36 65,63 65,36 68,23 35,16 57,99 35,68 44,27 58,33 66,67 56,51 61,72 55,47 54,09 Tabela 1 - Comparação do escore médio do WHOQOL-bref segundo as condições clínicas dos indivíduos com hanseníase atendidos na rede de Atenção Básica e Especializada da saúde, João Pessoa, Paraíba, Brasil, 2017 Variáveis(a),(b) n % Média Desvio padrão p - valor Diabetes Não 85 88,5 88,2 15,94 p = 0,380(c)Sim 11 11,5 83,8 11,09 HAS Não 81 84,4 89,0 14,88 p = 0,065(c)Sim 15 15,6 80,9 17,39 Osteoporose e artrose Não 81 84,4 89,4 15,51 p = 0,011*(c)Sim 15 15,6 78,4 11,83 Úlceras plantar/palmar Prévia 5 5,3 78,2 20,4 p = 0,163(c)Nunca teve 90 94,7 88,2 15,2 Classificação operacional Paucibacilar 12 12,8 80,4 15,44 p = 0,066(c)Multibacilar 82 87,2 89,1 14,96 GIF no diagnóstico GIF 0 44 53,0 90,9 13,20 p = 0,084(d)GIF 1 24 28,9 82,9 16,42 GIF 2 15 18,1 90,1 14,19 GIF da última avaliação GIF 0 45 53,6 90,7 15,10 p = 0,390(d)GIF 1 24 28,6 85,5 14,86 GIF 2 15 17,9 88,7 13,79 Forma clínica Indeterminada 5 5,7 82,6 7,77 p = 0,280(d) Tuberculóide 7 8,0 77,6 19,52 Dimorfa 44 50,6 89,3 15,79 Virchowiana 28 32,2 89,2 12,35 Neural Pura 3 3,4 93,0 6,08 Neurite Atual 7 7,4 66,6 21,35 p = 0,001**(d)Prévia 4 4,2 85,8 21,08 Nunca teve 84 88,4 89,4 13,52 Reação hansênica Tipo I 27 28,4 84,6 15,81 p = 0,477(d)Tipo II 11 11,6 86,3 14,36Já teve em outro momento 4 4,2 87,0 14,58 Nunca teve 53 55,8 90,1 15,40 (*) p-valor < 0,05 e (**) p-valor < 0,01. (+) Teste t paramétrico (c). (+) Anova paramétrica (d). Teste Poc Hoc Tukey para ANOVA. Grau de Incapacidade Física - GIF Fonte: Pesquisa direta, 2017. 6 Qualidade de vida e condição clínica de indivíduos com hanseníase DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 REME • Rev Min Enferm. 2022;26:e-1466 DISCUSSÃO O perfil sociodemográfico (homens, idade média 45,5 anos, casados, baixa escolaridade, renda menor que um salário-mínimo) e as características clínicas (baciloscopia positiva, multibacilar, dimorfa, GIF zero no diagnóstico, nunca apresentaram reação hansênica, neurite, úlcera plantar e palmar) dos participantes do presente estudo assemelham-se com achados de pesquisas que abordam a mesma temática no Brasil.17-24 A partir do instrumento WHOQOL-bref, a avaliação da QV dos sujeitos da pesquisa apresentou classificação geral intermediária, sendo que os domínios físico, psicológico e ambiente - sobretudo a questão “oportunidades de recrea- ção e lazer” (x̅ = 31,5) - influenciaram na diminuição da média da QV intermediária, ao passo que o domínio rela- ções sociais colaborou para o aumento da média geral da QV. As variáveis osteoporose, artrose e neurite atual apresenta- ram significância estatística relacionada à QV intermediária. Semelhante aos achados desta pesquisa, um estudo realizado com pacientes que receberam alta por cura em hanseníase em Natal-RN evidenciou que os menores esco- res da QV foram encontrados nos casos em que a incapaci- dade física se fazia presente, com significância estatística para o âmbito físico, psicológico e ambiente.6 No que se refere ao domínio físico, a análise das ques- tões, isoladamente, sugere influência negativa dos aspectos “Dor e desconforto” e “Dependência de medicação ou Trata- mento” sobre essa dimensão. Esses resultados podem estar diretamente relacionados à neuropatia desmielinizante, que gera processos inflamatórios reconhecidos por episódios de dor aguda intensa (espontânea ou à palpação) e espessa- mento neural. Isso vai ao encontro de um estudo realizado na região Norte do Brasil, que, por meio da Escala Visual Analógica (EVA), classifica a dor de moderada a grave em indivíduos com hanseníase.25 A dor também pode reper- cutir na diminuição da QV dos acometidos pela doença.26 Além disso, em períodos de manifestação das rea- ções hansênicas, presente em aproximadamente 44,2% da amostra, a intensidade da dor é agravada pela reação inflamatória exacerbada, o que gera a necessidade de, além da utilização da poliquimioterapia única (PQT-U), adição de analgésicos e anti-inflamatórios para essa nova condição de saúde, o que contribui para a dependência medicamentosa.27 Outros problemas comuns, como as síndromes compressivas, ocasionadas pela compressão e espessamento devido ao edema dos nervos nos canais osteoligamentares (regiões do cotovelo, punho, joelho e tornozelo), causam dor, perda de força, disestesia, comprometimento da circulação e distúrbios motores.4 Nesse contexto, a QV é diretamente influenciada pelas manifestações inflamatórias da hanseníase, em especial no que se refere às dores e ao desconforto. A exteriorização da dor e o envolvimento neural eviden- ciam que a doença ainda requer atenção, visando prevenir ou minimizar a progressão de lesões neuronais permanentes e sequelas incapacitantes para diminuir o impacto sobre a QV. A dor neuropática ultrapassa o limite físico do corpo, pois gera impactos psicológicos, prejuízos à vida diária, interferên- cias nas relações interpessoais e influência negativa na QV.28 Um estudo de abordagem socioantropológica anali- sou a experiência de mulheres com reações hansênicas, e o aspecto que se destaca é o manejo da dor. Ao explicarem sua origem, as reações são inseridas em contextos abran- gentes e situações de estresse ou tristeza. As participantes da pesquisa demonstram que ter reações é “pior” do que ter hanseníase, pois nem sempre é possível prevê-las ou controlá-las.29 Em conformidade a esse achado, pesquisa que investigou a QV em idosos com hanseníase mostrou que a dor, considerada o quinto sinal vital, os impediam de fazer as atividades laborais no dia a dia.30 O valor da média da questão “Dependência de medi- cação ou Tratamento” evidencia o desafio de manter o tra- tamento até o final do esquema padrão de acordo com a classificação operacional do doente (paucibacilar 6 meses e multibacilar 12 meses), mesmo diante dos possíveis efeitos colaterais. Infere-se que os efeitos provenientes da poliqui- mioterapia geram instabilidade na QV, podendo estar rela- cionada à hiperpigmentação da pele, à gastrite, aos distúr- bios digestivos, à síndrome nefrótica, à anemia hemolítica, a hepatites tóxicas, entre outros.31 Outra vertente de pos- sível influência é a submissão prolongada do tratamento dos casos multibacilares (12 meses), maioria presente neste estudo (85,4%), tornando-se entrave para adesão da PQT.4 Embora a terapia seja de grande relevância para curar e interromper a cadeia transmissão do bacilo, uma pesquisa aponta desvantagens que interferem na adesão da PQT, tais como: falta de confiança dos pacientes na equipe de saúde, o que está atrelado à credibilidade do tratamento prescrito por esses profissionais; dificuldade de adesão de indivíduos com idades ativas no mercado de trabalho, devido à obje- ção de se adequarem aos horários de serviços de saúde; e fato de pacientes já curados apresentarem recidivas.31 No tocante ao domínio Meio ambiente, nas ques- tões sobre “Recursos financeiros” e “Recreação e lazer”, é possível observar médias baixasque distanciam os par- ticipantes da pesquisa da melhor QV. Ao partir da ideia de que ter o nível superior e trabalhar pode indicar o acesso à renda, aqueles indivíduos com menor qualifi- cação profissional são, portanto, mal remunerados.32 7 Qualidade de vida e condição clínica de indivíduos com hanseníase DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 REME • Rev Min Enferm. 2022;26:e-1466 Nesse sentido, na perspectiva de articular alguma ati- vidade extra ou meio (pensão por morte previdenciá- ria, aposentadoria por idade ou invalidez, auxílio do governo, entre outros) que gere renda ao indivíduo com hanseníase, reforça-se a ideia que os menos favorecidos, o desemprego e as incapacidades que essa doença pode gerar e repercutir nas atividades afetam diversos aspec- tos da vida, o que aprofunda as dificuldades sociais, aspecto que requer atenção dos profissionais de saúde.32 Levando em consideração que 47% dos entrevis- tados já têm algum grau de incapacidade física no momento do diagnóstico, supõe-se que o paciente pode enfrentar dificuldades para obter ou se manter em ocu- pação profissional, devido às incapacidades e às defor- midades nos sítios corporais.33 Assim, provedores dos lares provavelmente são limitados ou impossibilitados de gerar recursos financeiros para a família, visto que, quando a enfermidade atinge indivíduos na idade pro- dutiva de trabalho, atrelado à baixa renda familiar, torna-se fator de risco à saúde, porque é motivador de sentimentos negativos (mau humor, depressão, deses- pero e ansiedade), influenciando na diminuição da QV. Sobre o domínio Psicológico, a segunda pior média de todas as questões do instrumento são os “Sentimen- tos negativos”, que contribuem fortemente para a dimi- nuição da média geral. É provável que esses sentimen- tos estejam relacionados à dependência de medicação por outras doenças, PQT prolongada ou aos episódios de reação hansênica (antes, durante e após a PQT). Estu- dos mencionam pior percepção da QV por associarem a doença a sentimentos negativos como a tristeza (depres- são), além da vulnerabilidade do isolamento social.34,35 A baixa autoestima dos participantes também pode estar relacionada a sentimento de vergonha, devido às mudanças corporais que sofrem durante o tratamento da doença, seja pelo espessamento dos nervos que pre- judicam os movimentos, seja pelos efeitos colaterais das medicações (sobretudo da Clofazimina, que altera a coloração da pele), ou mesmo pelas reações hansê- nicas, que podem manifestar sinais sistêmicos, como infiltração ou aparecimento de novas manchas e/ou nódulos. É importante ressaltar que os paciente que apresenta necessidade de atendimento psicológico ou psiquiátrico deve ser encaminhado para acompanha- mento em saúde mental na própria unidade básica ou em serviço de referência.4,34 No que diz respeito ao domínio social, as questões de maior percentual foram “autoestima”, “suporte e apoio social”, “relações pessoais” e, por último, a questão “mobilidade”. Tais pontos corroboraram para o aumento da média geral da QV. Diante do exposto, os resultados são singulares, visto que, resgate histórico social da doença, assim como pesqui- sas nacionais atuais denotam que os indivíduos com hanseníase ainda são vítimas de exclusão social, pre- conceito e estigma, retratando a influência da hanse- níase nos doentes e os afastando de suas atividades sociais comuns e até mesmo de familiares.36,37 Partindo para uma análise mais abrangente, veri- ficou-se a comparação entre as médias dos escores do WHOQOL-bref e a condição clínica dos participantes da pesquisa, tendo sido identificada influência da osteopo- rose e artrose sobre a diminuição do escore geral da QV dos participantes da presente pesquisa. Acredita-se que a condição de acumular várias comorbidades potencializa a exacerbação do quadro álgico da hanseníase e aumenta a dependência de medicações devido às dores articulares, ao inchaço, à rigidez, à diminuição da mobilidade arti- cular e à perda de flexibilidade, comprometendo a rea- lização das atividades da vida diária ou produtivas.38,39 Mantendo enfoque sobre a influência do perfil clí- nico, a média geral da QV entre os indivíduos que “nunca apresentaram neurite” foi 22,8 pontos acima daqueles que relataram “neurite atual”. A neurite se caracteriza pelo aparecimento de dor (nervo inflamado ou edema- ciado) espontânea ou a compressão dos nervos periféricos (ulnar, fibular, tibial posterior, facial e auricular grande), acompanhada ou não de comprometimento da função neurológica.39 O dano primário ao nervo - neurite - pro- voca perdas das funções sensitivas, motoras e autonômi- cas, predispondo o indivíduo a lesões secundárias (trau- máticas, úlcera plantar, queimaduras).40 Inicialmente, quando o nervo está lesionado, o indi- víduo pode apresentar início ou piora de queixas pares- tésicas, dormência e sensação de queimação nos sítios corporais. Posteriormente, a neuropatia pode originar danos irreversíveis, sendo muitas vezes um problema incapacitante para realizar tarefas laborais simples, como “cortar as unhas”.4 Essas incapacidades ocasio- nam prejuízos que se estendem aos aspectos físico e psi- cológico, que estão diretamente relacionados ao maior comprometimento da QV. Também é possível ocorrer neurite silenciosa, em que o comprometimento dos nervos pode se desenca- dear sem dor ou hipersensibilidade à palpação, mesmo na presença de alterações sensitivas e motoras. Sendo assim, faz-se necessária a avaliação neurológica sistema- tizada e periódica. A extensão e a intensidade da lesão nervosa, o grau de perda da sensibilidade e a paralisia dependem da forma clínica da doença, da duração dos episódios reacionais e da idade do indivíduo.41 8 Qualidade de vida e condição clínica de indivíduos com hanseníase DOI: 10.35699/2316-9389.2022.40403 REME • Rev Min Enferm. 2022;26:e-1466 Alguns aspectos avaliados pelos WHOQOL-bref estão ao alcance de ações dos profissionais de saúde em sua prática clínica, tais como: reconhecer as necessidades psicossociais, econômicas e biológicas do indivíduo; ensi- nar e incentivar o autocuidado, assim como a partici- pação em grupos de autocuidado para evitar sequelas da doença; prevenir a instalação de incapacidades; e implementar intervenções individualizadas com trei- namento para reabilitação e delineamento de tecnolo- gias assistivas.42 Assim, mostra-se pertinente que esses profissio- nais de saúde adotem uma postura que amplie a visi- bilidade sobre os aspectos sociais, clínicos e psicológi- cos, com enfoque na prevenção de incapacidades para possibilitar êxito na QV do indivíduo com hanseníase. Portanto, o modelo de assistência precisa ir além do modelo biomédico quando se trata da hanseníase, em razão das problemáticas sociais que surgem para o indi- víduo com a doença. A equipe de Enfermagem, como agente de mudança, deve identificar vulnerabilidades do indivíduo com hanseníase, apresentar estratégias interventivas e empo- derar os doentes para realizarem seu próprio ato de cuidado, promover a prevenção de incapacidades e promoção em saúde e identificar as necessidades indi- viduais para prescrever o plano individualizado de cuidado. Dessa forma, é fundamental que os profis- sionais da Atenção Básica e Especializada da saúde, por meio da educação em saúde - estratégia transfor- madora do cuidado -, adotem medidas de promoção, prevenção e recuperação da saúde para melhorar a QV dos doentes e atender às suas necessidades biop- sicossociais de acordo com a individualidade de cada caso, respeitando os princípios de equidade e integra- lidade do Sistema Único de Saúde do Brasil. No que se refere às limitações do estudo, relevan- tes dados clínicos da hanseníase provavelmente não foram avaliados e/ou considerados pelos profissio- nais de saúde responsáveis pelo preenchimento das informações dos prontuários dos pacientes, ficando, portanto, os dados do estudo condicionados a esses registros,dificultando a realização de algumas infe- rências por parte dos pesquisadores. Como o instrumento estudado não possui preconi- zação no que se refere à periodicidade de sua utiliza- ção, faz-se necessária a realização de novas pesquisas que fomentem melhor a viabilidade de periodicidade de uso do WHOQOL-bref na prática clínica dos servi- ços de saúde. CONCLUSÃO O estudo permitiu evidenciar, por meio do questio- nário WHOQOL-bref, que indivíduos com hanseníase em tratamento na rede de Atenção Básica e Especializada de saúde apresentaram QV intermediária, e que o perfil clí- nico de neurite atual, osteoporose e artrose influenciaram significativamente a QV. Reforça-se a necessidade de priorizar a atenção da hanseníase como condição crônica inserida efetiva- mente na rede de atenção do SUS, assim como a reco- mendação do uso do WHOQOL-bref como rotina na Atenção Básica e Especializada para fomentar estraté- gias de ações de qualidade para assistência. Ademais, é importante subsidiar ferramentas para que os profis- sionais de Enfermagem possam estar aptos para iden- tificar nuances da doença, como as incapacidades e deformidades físicas, identificar fatores que estejam interferindo na QV e orientar os pacientes sobre prá- ticas de autocuidado na face, nas mãos e nos pés para evitar danos secundários (fissuras, úlceras, deformida- des) decorrentes de trauma, pressão anormal e infec- ções. Sobretudo, deve-se estimular a implementação de ações educativas para promover a adesão às práticas de autocuidado, assim como a conscientização da família e da sociedade para apoiar a prevenção de incapacidades. REFERÊNCIAS 1. 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