Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

AULA 3 
DIREITO DE FAMÍLIA 
Prof. Ricardo Calderón 
 
 
2 
INTRODUÇÃO 
A parentalidade é uma das áreas que mais sofreu inovações no Direito de 
Família brasileiro contemporâneo, sendo um instituto que teve um incremento 
doutrinário e jurisprudencial, mesmo sem lei que a preveja. Prova maior disso é a 
multiparentalidade, que não adentrou no sistema por meio de uma lei, via 
processo legislativo, mas foi objeto de reconhecimento pelos nossos tribunais, 
resultado direto das demandas sociais que passaram a despontar com essa 
pretensão. 
O cenário de relacionamentos cada vez mais fugazes (líquidos) fez com 
que muitas crianças não convivessem longo tempo apenas com o seu pai 
biológico. Isso porque, após o desenlace de uma primeira união, passa a ser cada 
vez mais usual o surgimento de outra na sequência, em recombinações 
constantes. Esse ambiente faz surgir as chamadas paternidades socioafetivas. 
Essa fluidez faz com que muitos filhos passem a ter múltiplas referências 
parentais (e não mais apenas com seus pais biológicos, como de estilo, mas 
também com os seus pais socioafetivos). 
Saiba mais 
A referência a pai é citada apenas com vistas a uma facilitação didática, 
visto que se aplica para mães. 
O caso mais comum pode ser assim representado: um casal heteroafetivo 
jovem tem um filho, de modo que seu pai e mãe registrais são os seus pais 
biológicos. Ainda com a criança tendo tenra idade, esses pais se separam. A mãe 
resta com a moradia de referência da criança, com o pai convivendo com ela em 
períodos determinados. Pouco tempo depois, essa mãe casa com outro homem, 
com o qual convive maritalmente por décadas. 
Saiba mais 
A referência heteroafetiva aqui também se dá exclusivamente para fins 
didáticos, de modo a facilitar a explanação que se pretende fazer. Obviamente 
que o mesmo se aplica a casais homoafetivos 
É possível que, muito provavelmente, este segundo marido passe a exercer 
a função paterna do filho que ela já possuía (mesmo sem ter nenhum vínculo 
biológico com a criança), face ao longo tempo de convívio diário no mesmo lar. 
 
 
3 
Esta relação pode resultar em uma paternidade socioafetiva. Caso o filho siga 
convivendo com o seu pai biológico, ele terá duas referências paternas de fato: 
uma biológica e outra socioafetiva, concomitantes. 
Ou seja, essas alterações fáticas acabaram por fazer com que surgissem 
pretensões de declarações dessa dupla filiação, com o reconhecimento do pai 
socioafetivo, mas sem excluir o pai biológico. Com isso, surgiram demandas 
judiciais que visavam o reconhecimento jurídico desses dois pais de fato, exigindo 
o reconhecimento jurídico dessa paternidade dupla, de modo simultâneo 
(inclusive para fins de registro civil). 
Como se vê, foram as alterações fáticas que fizeram desabrochar as 
demandas por pedidos de reconhecimentos multiparentais, sendo mais um 
exemplo desse direito de família em movimento que estamos a presenciar. 
TEMA 1 – FILIAÇÃO E MULTIPARENTALIDADE 
Em muitas situações existenciais, as inovações acabam por exigir novas 
soluções para os seus impensados conflitos, mesmo sem lei prévia que as 
preveja, o que é singular e recorrente no direito de família. Face à ausência de lei 
prévia sobre tema, não raro a deliberação final do caso é concluída com base em 
uma interpretação civil-constitucional, utilizada pelo julgador para fazer justiça no 
caso concreto. Foi justamente esse o percurso do reconhecimento da 
multiparentalidade no cenário brasileiro. 
Pode-se afirmar que a multiparentalidade é resultado da força construtiva 
dos fatos sociais, o que gerou a sua assimilação doutrinária e jurisprudencial, 
paulatinamente percebida pelo direito de família brasileiro. Passaram a surgir 
decisões de primeiro e segundo grau por todo o Brasil reconhecendo 
multipaternidades, com pais biológicos e afetivos sendo admitidos 
concomitantemente. Esse foi o cenário de início, visto que atualmente também há 
vários casos de multimaternidades. 
Essa aceitação crescente é bem destacada pelo estudioso precursor no 
tema Christiano Cassettari, que desde 2013 escreve sobre o tema. 
Saiba mais 
CASSETTARI, C. Multiparentalidade e parentalidade socioafetiva: efeitos 
jurídicos. Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões, Porto Alegre, 
Magister; Belo Horizonte, IBDFAM, v. 34, jun./jul. 2013. 
 
 
4 
_____. Multiparentalidade e parentalidade socioafetiva. 3 ed. rev. atual. 
e amp. São Paulo: Atlas, 2017. 
A efervescência dessa questão foi acolhida por grande parte dos 
jusfamiliaristas, tanto que, mesmo antes do reconhecimento pelo STF, o 
acolhimento jurídico da multiparentalidade já era aprovado em Congresso 
Nacional do Instituto Brasileiro de Direito de Família, como se vê pelo Enunciado 
n. 9 do IBDFAM: Enunciado 9 /IBDFam – A multiparentalidade gera efeitos jurídicos. 
(IBDFAM, [S.d.]). 
 Conforme já tivemos a oportunidade de sustentar, 
a multiplicidade de vínculos torna mais complexa a trama da 
parentalidade contemporânea. Ligações biológicas, socioafetivas, 
registrais, adotivas e presuntivas estão presentes no nosso sistema 
jurídico, todos a desfilar com o mesmo status hierárquico e com guarida 
na Constituição Federal. (Calderón, 2018) 
Sinteticamente, é possível afirmar que a multiparentalidade refere-se a 
situações existenciais nas quais uma pessoa possui vínculo de filiação com mais 
de dois ascendentes de primeiro grau, simultaneamente. Exemplificando: três 
ascendentes de primeiro grau: dois pais e uma mãe – com os três juridicamente 
registrados no assento civil (Calderón; Grubert, 2019). 
Multiparentalidade refere-se à possibilidade de pluralidade de ascendentes 
reconhecidos juridicamente, de modo simultâneo. Nesse sentido, passou a se 
admitir uma possibilidade múltipla, superando o antigo paradigma binário anterior 
(que era limitado a dois, sendo um pai e uma mãe, ou então – mais recentemente 
- dois pais ou duas mães, mas sempre no máximo dois). O reconhecimento da 
multiparentalidade rompe com esse paradigma da lógica de dois componentes e 
passa a aceitar que uma criança tenha três ascendentes ou mais (ex.: dois pais e 
uma mãe – ao mesmo tempo). 
Reverberando o pensamento de Bauman (2004), podemos compreender 
que essa situação está cada vez mais frequente por consequência do “amor 
líquido”, ou seja, os laços estão mais frágeis e mais dinâmicos, sendo que essa 
fluidez deixa marcas. Ainda, a complexidade citada pelo mesmo autor é bem 
retratada pela família multiparental. 
É cada vez mais comum nos depararmos com famílias constituídas pelos 
pais biológicos e um pai ou mãe chamada “de criação”, papel geralmente 
interpretado pelo novo companheiro. Hoje, no Brasil, admite-se que o vínculo filial 
 
 
5 
não precisa estar necessariamente ligado aos vínculos biológicos (aspectos 
genéticos), mas sim que podemos ter vínculos socioafetivos. 
Esse pensamento é evidente em diversas relações socioafetivas que 
apresentam uma pessoa exercendo o papel de pai/mãe na realidade e na vida da 
criança, sendo a relação conhecida por todos, pública, contínua, duradoura e apta 
a produzir efeitos jurídicos. 
Inúmeras situações fáticas, como a exemplificada, passaram a exigir 
uma resposta jurídica e as demandas de multiparentalidade começaram 
a figurar na literatura especializada de Direito de Família. Essa 
pluralidade de vínculos filiais é típico exemplo da atual complexidade das 
relações familiares, que no cenário brasileiro ainda não possui 
regulamentação em lei expressa. Ainda assim, doutrina e jurisprudência 
passaram a acolher a possibilidade jurídica dessa pluriparentalidade, de 
modo a permitir que uma pessoa venha a ter, reconhecidamente, dois 
pais (ou duas mães) de forma concomitante. (Calderón, 2017, p. 215) 
Um aspecto interessante é que, ao mesmo tempo que restou mais fácil 
comprovar o vínculo biológico (com o exame de DNA), disseminou-se no Brasil o 
ditadopopular “pai é quem cria”, ou seja, atualmente o contexto de paternidade é 
muito mais amplo do que meramente os vínculos de sangue. 
Com base nessas premissas, a jurisprudência é firme em manter vínculos 
de filiação, mesmo ausente o vínculo biológico 
DIREITO DE FAMÍLIA. AÇÃO NEGATÓRIA DE PATERNIDADE. 
EXAME DE DNA NEGATIVO. RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE 
SOCIOAFETIVA. IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO. 1. Em conformidade 
com os princípios do Código Civil de 2002 e da Constituição Federal de 
1988, o êxito em ação negatória de paternidade depende da 
demonstração, a um só tempo, da inexistência de origem biológica e 
também de que não tenha sido constituído o estado de filiação, 
fortemente marcado pelas relações socioafetivas e edificado na 
convivência familiar. Vale dizer que a pretensão voltada à impugnação 
da paternidade não pode prosperar, quando fundada apenas na origem 
genética, mas em aberto conflito com a paternidade socioafetiva. 2. No 
caso, as instâncias ordinárias reconheceram a paternidade socioafetiva 
(ou a posse do estado de filiação), desde sempre existente entre o autor 
e as requeridas. Assim, se a declaração realizada pelo autor por ocasião 
do registro foi uma inverdade no que concerne à origem genética, 
certamente não o foi no que toca ao desígnio de estabelecer com as 
então infantes vínculos afetivos próprios do estado de filho, verdade em 
si bastante à manutenção do registro de nascimento e ao afastamento 
da alegação de falsidade ou erro. 3. Recurso especial não provido. 
(Brasil, 2012, grifo nosso) 
No art. 1.593 do Código Civil, está disciplinado o parentesco de “outra 
origem”, o que inclui o por socioafetividade: “Art. 1.593 O parentesco é natural ou 
civil, conforme resulte de consanguinidade ou outra origem” (Brasil, 2002) 
Também no art. 1.597 restam previstas as presunções da filiação, outras 
hipóteses não necessariamente ligadas aos vínculos biológicos: 
 
 
6 
Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os 
filhos: 
I - nascidos cento e oitenta dias, pelo menos, depois de estabelecida a 
convivência conjugal; 
II - nascidos nos trezentos dias subsequentes à dissolução da sociedade 
conjugal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do 
casamento; 
III - havidos por fecundação artificial homóloga, mesmo que falecido o 
marido; 
IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões 
excedentários, decorrentes de concepção artificial homóloga; 
V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia 
autorização do marido. (Brasil, 2002) 
É possível constatar que o sistema do Código Civil de 2002 abriu a 
possibilidade para o reconhecimento de outras espécies de filiação para além da 
biológica e matrimonial. Com base na nossa atual tessitura jurídica, são admitidos 
os vínculos biológicos, registrais, adotivos, socioafetivos, presuntivos do 
matrimônio e presuntivos da reprodução assistida. Essa abertura para a 
pluralidade de filiação é que vai fazer emergir a pretensão pelo acúmulo de 
parentalidades. 
Conforme citado, em meados do ano de 2013 em diante, passam a surgir 
diversas decisões judiciais de primeiro e segundo grau reconhecendo relações 
multiparentais. Apenas em 2016 a matéria chega aos tribunais superiores, com 
um caso de multiparentalidade chegando ao Supremo pela primeira vez, ao qual 
foi classificada como a repercussão geral n. 6221. 
E foi no julgamento deste referido caso concreto que o Supremo Tribunal 
Federal reconheceu, pela primeira vez, a possibilidade jurídica da 
multiparentalidade, em acórdão de Relatoria do Ministro Luiz Fux 
RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL 
RECONHECIDA. DIREITO CIVIL E CONSTITUCIONAL. CONFLITO 
ENTRE PATERNIDADES SOCIOAFETIVA E BIOLÓGICA. 
PARADIGMA DO CASAMENTO. SUPERAÇÃO PELA CONSTITUIÇÃO 
DE 1988. EIXO CENTRAL DO DIREITO DE FAMÍLIA: 
DESLOCAMENTO PARA O PLANO CONSTITUCIONAL. 
SOBREPRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA (ART. 1º, III, DA CRFB). 
SUPERAÇÃO DE ÓBICES LEGAIS AO PLENO DESENVOLVIMENTO 
DAS FAMÍLIAS. DIREITO À BUSCA DA FELICIDADE. PRINCÍPIO 
CONSTITUCIONAL IMPLÍCITO. INDIVÍDUO COMO CENTRO DO 
ORDENAMENTO JURÍDICO-POLÍTICO. IMPOSSIBILIDADE DE 
REDUÇÃO DAS REALIDADES FAMILIARES A MODELOS PRÉ-
CONCEBIDOS. ATIPICIDADE CONSTITUCIONAL DO CONCEITO DE 
ENTIDADES FAMILIARES. UNIÃO ESTÁVEL (ART. 226, § 3º, CRFB) E 
FAMÍLIA MONOPARENTAL (ART. 226, § 4º, CRFB). VEDAÇÃO À 
DISCRIMINAÇÃO E HIERARQUIZAÇÃO ENTRE ESPÉCIES DE 
FILIAÇÃO (ART. 227, § 6º, CRFB). PARENTALIDADE PRESUNTIVA, 
 
1 Tema 622 do STF - repercussão geral reconhecida - tese firmada: "A paternidade socioafetiva, 
declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação 
concomitante baseada na origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios". 
 
 
7 
BIOLÓGICA OU AFETIVA. NECESSIDADE DE TUTELA JURÍDICA 
AMPLA. MULTIPLICIDADE DE VÍNCULOS PARENTAIS. 
RECONHECIMENTO CONCOMITANTE. POSSIBILIDADE. 
PLURIPARENTALIDADE. PRINCÍPIO DA PATERNIDADE 
RESPONSÁVEL (ART. 226, § 7º, CRFB). RECURSO A QUE SE NEGA 
PROVIMENTO. FIXAÇÃO DE TESE PARA APLICAÇÃO A CASOS 
SEMELHANTES. (Brasil, 2019, grifo nosso) 
Nessa causa paradigmática para o direito de família brasileiro, o IBDFAM 
se habilitou e foi admitido como Amicus Curiae, sendo que tive a oportunidade de 
participar da defesa do Instituto, inclusive realizando a sustentação oral em seu 
nome na tribuna do STF. 
A tese aprovada pelo pleno do STF tem o seguinte teor: “A paternidade 
socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento 
do vínculo de filiação concomitante baseado na origem biológica, com os efeitos 
jurídicos próprios”. 
Para Flávio Tartuce, o pronunciamento do STF, permitiu a igualdade entre 
as filiações biológicas e afetivas no direito de família: 
multiparentalidade um caminho sem volta do Direito de Família 
Contemporâneo, consolidando-se as novas teorias e os princípios 
constitucionais nesse campo do pensamento jurídico. A decisão do STF 
é o fim do caminho. A regra passou a ser a multiparentalidade, nos casos 
de dilemas entre a parentalidade socioafetiva e a biológica. Uma não 
exclui a outra, devendo ambas conviver em igualdade plena. (Tartuce, 
2017, p. 455) 
A tese aprovada é explícita em afirmar a possibilidade de cumulação de 
uma paternidade socioafetiva concomitantemente com uma paternidade 
biológica, mantendo-se ambas em determinado caso concreto, admitindo-se, com 
isso, a possibilidade da existência jurídica de dois pais com todos os efeitos 
jurídicos. 
Com o reconhecimento da possibilidade jurídica da pluralidade de vínculos 
familiares, nossa Corte Suprema consagrou um importante progresso para o 
direito brasileiro. A decisão do STF permitiu um claro avanço, visto que conferiu 
maior dignidade ao vínculo socioafetivo, de forma que resta possível asseverar 
que dela resulta um aprimoramento das ferramentas jurídicas da parentalidade. 
TEMA 2 – PROJEÇÕES DECORRENTES DO RECONHECIMENTO DA 
MULTIPARENTALIDADE 
É incontroverso que o reconhecimento jurídico da multiparentalidade gera 
grandes reflexos na sociedade. Dentre eles, um aspecto que merece relevo é o 
 
 
8 
reconhecimento jurídico de ambas as paternidades, socioafetiva e biológica, em 
condições de igualdade hierárquica. Ou seja, sendo reconhecida, ambas as 
modalidades de vínculo parental passaram a possuir o mesmo status. Esta 
igualdade reverencia o princípio constitucional da igualdade dos filhos (art. 227, 
inciso VII, parágrafo 6º, CF), central quando cuidamos de relações parentais: “§ 
6º Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os 
mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações 
discriminatórias relativas à filiação” (Brasil, 1988). 
Essa equiparação se constitui em uma conquista para o direito de família. 
Com base nisso, não resta possível afirmar aprioristicamente que uma 
modalidade prevalece sobre a outra, visto que ambas estão no mesmo patamar 
hierárquico abstrato.Apenas em cada caso concreto pode prevalecer uma ou 
outra. 
Um dos maiores avanços decorrentes dessa decisão foi o acolhimento 
expresso da possibilidade jurídica de pluriparentalidade. Com esse julgado, a tese 
aprovada pelo STF acolhe a possibilidade jurídica da multiparentalidade. “A 
importância desse julgado emanado da Suprema Corte brasileira é grandiosa. 
Primeiro, por reconhecer, de uma vez por todas, a igualdade entre a filiação 
biológica e socioafetiva. Segundo, por reconhecer expressamente a possibilidade 
da multiparentalidade” (Couto, 2021, p. 48). 
Assim, a partir dessa decisão tornou-se possível o reconhecimento jurídico 
da afetividade, a igualdade hierarquia jurídica entre os vínculos socioafetivo e 
biológico, a prevalência da parentalidade responsável, a possibilidade jurídica da 
multiparentalidade 
Ninguém duvida que famílias multiparentais sempre existiram e 
continuarão a existir. A diferença é que até recentemente eram 
condenadas à invisibilidade. A exclusão de direitos é resultado de uma 
perversa tentativa, de não ver o que foge do modelo do espelho. E esta 
falta de visão só vem em prejuízo dos filhos, que amam os seus pais, 
todos eles. (Dias, 2016) 
A decisão do Supremo Tribunal Federal tem efeito vinculante, de modo que, 
depois dela, vieram diversas outras decisões de tribunais estaduais e do STJ 
reconhecendo multiparentalidades: 
RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE. MODIFICAÇÃO DE 
REGISTRO CIVIL. PATERNIDADE BIOLÓGICA. DNA. 
RECONHECIMENTO CONCOMITANTE DA PATERNIDADE 
BIOLÓGICA E SOCIOAFETIVA. 1. A paternidade não pode ser vista 
apenas sob enfoque biológico, pois é relevante o aspecto socioafetivo 
 
 
9 
da relação tida entre pai e filha. 2. As provas dos autos demonstram que 
o apelante estabeleceu forte vínculo com a menor, tanto que, com o 
divórcio dos genitores, a guarda e o lar de referência é o paterno. 3. A 
tese de multiparentalidade foi julgada pelo STF em sede de repercussão 
geral e decidiu que a paternidade socioafetiva, declarada ou não em 
registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação 
concomitante, baseado na origem biológica com os efeitos jurídicos 
próprios 4. Ante a existência dos dois vínculos paterno-filiais, que não 
podem ser desconstituídos, a orientação que melhor atende aos 
interesses das partes, notadamente o da menor, é o reconhecimento de 
ambos os vínculos paternos: o biológico e o socioafetivo, com as devidas 
anotações no seu registro civil. 5. Recurso conhecido e desprovido. 
(Distrito Federal, 2017, grifo nosso) 
Percebe-se, portanto, que essa alvissareira decisão do STF permitiu um 
claro avanço, pois conferiu maior dignidade ao vínculo socioafetivo, indicando que 
este não deve desaparecer – necessariamente – nos casos que os filhos 
investiguem seu ascendente genético e queiram ver essa filiação biológica 
reconhecida. 
Cabe registrar a respeitada posição do professor Rolf Madaleno, que 
coloca algumas ressalvas no tema: 
Foi o ascendente socioafetivo quem desempenhou a função parental e 
atuou como educador irradiador do afeto, amizade e compreensão. Foi 
ele quem, sem vacilar, emprestou seu nome para completar a 
personalidade civil daquele que acolheu por amor, não sendo aceitável 
que um decreto judicial atue como prenúncio da morte e da afeição, entre 
personagens ausentes […] Uma demanda ajuizada para desconstituir a 
relação afetiva e dar lugar ao frio vínculo puramente biológico, intentada 
depois da morte do genitor consanguíneo não deve encontrar respaldo 
na jurisprudência nacional, quando o investigante sempre teve pais 
socioafetivos e registrais, e não desconhecia a desconexão biológica 
dos seus pais do coração. […]. Ainda que pudesse ser evidenciada a 
possibilidade de ser investigada a filiação biológica quando preexistente 
vinculação socioafetiva, esta investigação processual precisa ser 
limitada aos direitos da personalidade, sem interferir no já existente 
estado de filiação proveniente da estabilidade fática ou registral dos 
laços afetivos, sobremodo quando construídos no cotidiano papel de 
genitor e prole. (Madaleno, 2008. p. 30-35) 
Ao permitir a coexistência de vínculos, a nossa Corte Suprema 
acertadamente conferiu um tratamento adequado do tema. 
TEMA 3 – EFEITOS FAMILIARES 
A multiparentalidade – como não poderia deixar de ser – gera diversos 
efeitos jurídicos, alguns pessoais e outros patrimoniais. 
Dentre os efeitos familiares do reconhecimento jurídico da 
multiparentalidade, encontramos a possibilidade de alteração do nome do filho, 
com a inclusão do sobrenome do ascendente que foi reconhecido. No entanto é 
 
 
10 
relevante dizer que essa alteração é opcional, ou seja, a mudança do nome ocorre 
em função do interesse do filho. Esse entendimento resta de acordo com o 
reconhecimento que o nome é uma expressão da personalidade da pessoa. 
Ainda, é possível o registro civil da dupla filiação, com a inclusão desse 
ascendente e também dos novos “avós”, como de estilo. Essa providência será 
tomada pelo cartório de registro civil de pessoas naturais competente, já existindo 
regramento administrativo sobre o tema. 
Um outro aspecto merece destaque: faz-se necessária a averbação da 
nova filiação no registro de nascimento, visto que isso é essencial para a 
segurança jurídica das partes e da própria coletividade, pois são diversos os seus 
efeitos jurídicos. Assim, esse registro deve ser necessariamente realizado. 
Com base no reconhecimento de nova maternidade ou paternidade, outras 
questões emergem. A guarda e convivência familiar é uma delas, mas esse tema 
não parece trazer dificuldades. Assim como nos demais casos, é sempre indicado 
que seja implementada a guarda compartilhada (na hipótese, entre os três 
ascendentes), bem como uma divisão equilibrada da convivência entre todos, de 
forma que a criança ou adolescente possa a vir a desfrutar de da convivência com 
os seus ascendentes. 
Quanto aos alimentos, os efeitos da multiparentalidade incidem sobre dois 
âmbitos: alimentos ao filho e alimentos aos pais idosos. A verba alimentar também 
sofrerá influxos com o reconhecimento da multiparentalidade, pois deverá ser 
arbitrada em função da nova realidade da criança e do adolescente (que agora 
tem mais um integrante no polo pagador). Essa divisão deverá ser analisada com 
base nos critérios da necessidade, possibilidade e proporcionalidade. Ainda, 
sempre sob a ótica do melhor interesse da criança. Por óbvio que essa divisão 
dependerá sempre do caso concreto a ser analisado, como é comum nessas 
situações. 
Mais uma vez, apenas o caso concreto poderá ditar a melhor solução, 
inexistindo solução única apriorística. Por exemplo, em algumas 
situações, nas quais a verba antes fixada para mãe e pai já seja 
suficiente para o bem-estar do filho, é possível que o valor outrora 
dividido entre os dois pais seja agora apenas dividido entre os três 
(mantendo-se a mesma quantia). Para outras situações, pode parecer 
mais indicado fixar um valor adicional para ser arcado pelo novo pai que 
foi recentemente reconhecido, em acréscimo ao que já era pago pelos 
outros (aumentando a quantia originária). Caso isso possa reverter em 
um benefício a mais ao filho, quando parecer indicado (por exemplo, 
para lhe permitir cursar uma língua estrangeira), essa pode ser uma 
solução. (Calderón, 2017, p. 231) 
 
 
11 
Se, na infância, ser filho em multiparentalidade pode parecer uma 
vantagem quando se fala em alimentos, cumpre lembrar que, na fase dos pais 
idosos, isso poderá trazer uma obrigação jurídica em face de todos esses 
ascendentes, face à regra que impele os filhos a suportarem os pais na velhice, 
em caso de necessidade. 
Podemos perceber que o vínculo parental é uma via de reciprocidade, 
então, nesse sentido, os filhos também podem vir, eventualmente, a ter que 
prestar alimentos aos pais idosos. 
Em geral, os efeitos familiares da multiparentalidade são os mais variados,visto que ela é reconhecida em todos os efeitos jurídicos da filiação. O que se 
percebe é que as balizas do nosso sistema jurídico são suficientes para 
equacionar bem todas essas projeções. 
TEMA 4 – EFEITOS SUCESSÓRIOS 
A multiparentalidade também gera efeitos sucessórios, pois este é um dos 
consectários da filiação. As projeções patrimoniais sucessórias são as que mais 
têm gerado questionamentos e discussões. 
Um dos aspectos que gerou um certo espanto inicial foi a possibilidade de 
um filho receber duas heranças, ou seja, herdar de mais de um pai. Em outras 
palavras, um filho de relação multiparental poderá receber três heranças, em face 
de três ascendentes (dois pais e uma mãe, por exemplo). 
O direito à herança é um direito que decorre diretamente da filiação, 
possuindo uma índole constitucional, de modo que não pode diferir na filiação 
múltipla. Nesse sentido, consolidou-se o entendimento doutrinário pela 
possibilidade do recebimento de mais de uma herança, apesar de ainda haver 
diversas opiniões opostas a esse pensamento. 
Atualmente, a doutrina majoritária também admite este direito a múltiplas 
heranças sem hesitar (entre outros: Zeno Veloso, José Fernando Simão, 
Ana Nevares, Anderson Schreiber etc.). 
Em conclusão, considerando a legislação constitucional e 
infraconstitucional vigente, a doutrina especializada e as primeiras 
inclinações dos tribunais superiores sobre o tema, parece possível 
afirmar que um filho pode herdar de todos os seus múltiplos 
ascendentes. (Calderón; Grubert, 2019, p. 289) 
No mesmo sentido, foi aprovado o Enunciado 33 do IBDFAM concordando 
com a possibilidade do recebimento da herança de múltiplos pais: 
 
 
12 
Enunciado 33 – O reconhecimento da filiação socioafetiva ou da 
multiparentalidade gera efeitos jurídicos sucessórios, sendo certo que o 
filho faz jus às heranças, assim como os genitores, de forma recíproca, 
bem como dos respectivos ascendentes e parentes, tanto por direito 
próprio como por representação. (IBDFAM, [S.d.]) 
Também nas Jornadas de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal foi 
aprovado um enunciado de conclusão similar: “Enunciado 632 /VIII Jornada de 
Direito Civil – Nos casos de reconhecimento de multiparentalidade paterna ou 
materna, o filho terá direito à participação na herança de todos os ascendentes 
reconhecidos” (Brasil, [S.d.b]). 
Outro aspecto que está gerando discussão diz respeito aos casos em que 
o filho venha a falecer, sem deixar descendentes nem cônjuge/companheiro, mas 
deixando três ascendentes de primeiro grau. Nesta hipótese, a herança sobe aos 
seus pais. A dúvida é em como se dividir essa herança. Duas hipóteses emergem: 
a. Aplicar a divisão por linhas, previstas no art. 1836, parágrafo segundo, do 
Código Civil, pela qual caberia cinquenta por cento para a linha paterna e 
cinquenta para a linha materna (Brasil, 2002); com isso, no nosso exemplo 
base, cada pai recebe 25% e a mãe 50%; tese sustentada, entre outros, 
por Luiz Paulo Vieira de Carvalho; 
b. Dividir igualmente a herança entre os três ascendentes, entregando um 
terço para cada um deles, de modo a respeitar a igualdade na divisão; tese 
sustentada, entre outros, por Ana Luiza Nevares. 
Embora o tema ainda pareça em aberto, já há um Enunciado aprovado na 
Jornadas de Direito Civil adotando a segunda hipótese, ou seja, indicando na 
divisão igualitária entre os três ascendentes: 
Enunciado 642 – Nas hipóteses de multiparentalidade, havendo o 
falecimento do descendente com o chamamento de seus ascendentes à 
sucessão legítima, se houver igualdade em grau e diversidade em linha 
entre os ascendentes convocados a herdar, a herança deverá ser 
dividida em tantas linhas quantos sejam os genitores. (Brasil, S.d.b) 
As projeções sucessórias da multiparentalidade são de várias ordens, 
sendo que muitas delas ainda estão sendo discutidas. Uma das que mais tem 
gerado polêmica são os pedidos de filiação post-mortem, com interesses 
sucessórios. Este é, certamente, um dos grandes desafios do atual direito de 
família e sucessões brasileiro. 
 
 
13 
TEMA 5 – REGISTRO EXTRAJUDICIAL DA FILIAÇÃO SOCIOAFETIVA E DA 
MULTIPARENTALIDADE 
Após o reconhecimento da multiparentalidade pelo Supremo Tribunal, 
houve outra alteração significativa na realidade brasileira: em 2017, o Conselho 
Nacional de Justiça aprova a possibilidade de reconhecimento dela pela via 
extrajudicial, copm base no Provimento 63/CNJ, que foi completado e alterado 
pelo Provimento 83/CNJ, mas cujo conteúdo principal segue o mesmo. 
Institui modelos únicos de certidão de nascimento, de casamento e de 
óbito, a serem adotadas pelos ofícios de registro civil das pessoas 
naturais, e dispõe sobre o reconhecimento voluntário e a averbação da 
paternidade e maternidade socioafetiva no Livro “A” e sobre o registro 
de nascimento e emissão da respectiva certidão dos filhos havidos por 
reprodução assistida. (Brasil, 2017) 
Esse regramento visa facilitar o reconhecimento dos vínculos socioafetivos, 
permitindo que sejam realizados diretamente no Cartório de Registro Civil, sem 
necessidade de ação judicial (como era até então) – desde que atendidos alguns 
requisitos: 
Atualmente, é possível o reconhecimento extrajudicial da filiação 
socioafetiva e, consequentemente, da multiparentalidade, tendo em vista 
o Provimento n. 63/2017 alterado pelo o de n. 83/2019. Isto é, verifica-
se uma evolução no ordenamento jurídico brasileiro a respeito desse 
tema, desburocratizando e desjudicializando na medida do possível a 
busca pela concretização do direito à filiação. (Andrade; Silva, 2020, p. 
129) 
O art. 14 do Provimento n. 63 permite expressamente a multiparentalidade 
extrajudicial: “Art. 14. O reconhecimento da paternidade ou maternidade 
socioafetiva somente poderá ser realizado de forma unilateral e não implicará o 
registro de mais de dois pais e de duas mães no campo FILIAÇÃO no assento de 
nascimento” (Brasil, 2017) 
Como resta possível perceber pela leitura do referido dispositivo, o registro 
extrajudicial é permitido dentro das seguintes possibilidades: unilateral (ou lado 
paterno ou materno – não é possível um registro bilateral) e que reconheça um 
segundo pai ou uma segunda mãe (até dois pais e até duas mães). Assim, resta 
possível o registro extrajudicial da multiparentalidade, desde que restem 
atendidas as demais condições dos referidos provimentos. 
Para arrematar com uma frase, seria possível dizer que “a afetividade 
chegou aos balcões dos cartórios”. 
 
 
14 
REFERÊNCIAS 
ANDRADE, C. A. M.; SILVA, M. O. P. L. Multiparentalidade: uma análise da 
divisão de direitos e deveres decorrentes da consanguinidade e da 
socioafetividade. Revista IBDFAM: Família e Sucessões, v. 40. Belo 
Horizonte: IBFAM, 2020. 
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial 
da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. 
_____. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União, Poder 
Legislativo, Brasília, DF, 11 jan. 2002. 
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Provimento n. 83, de 14 de agosto de 
2019. DJe/CNJ n. 191, 17 nov. 2017. 
BRASIL. Conselho de Justiça Federal. Enunciado 632. VIII Jornada de Direito 
Civil. CJF, S.d.a. Disponível em: 
. Acesso em; 24 ago. 2021. 
_____. Enunciado 642 /VIII Jornada de Direito Civil. CJF, S.d.b. 
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp. 1.059.214, 4ª Turma, rel. Min. Luis 
Felipe Salomão, unânime, julgado em 16 de fevereiro de 2012. DJ, 12 mar. 2012. 
BRASIL. Supremo Tribunal Fecderal. RE 898.060/SC, Rel. Min. Luiz Fux. DJe, 
29 maio 2019. 
CALDERÓN, R. Princípio da afetividade no direito de família. 2. ed. Rio de 
Janeiro: Forense, 2017. 
_____. Multiparentalidade: a socioafetividade nos laços de filiação. Revista 
Juridica da Escola Superior de Advocacia da OAB-PR, n. 3, ago. 2018. 
CALDERÓN, R.; GRUBERT, C.Projeções sucessórias da multiparentalidade. In: 
TEIXEIRA, D. C. (Coord.) Arquitetura do planejamento sucessório. 2 ed. Belo 
Horizonte: Fórum, 2019. 
CASSETTARI, C. Multiparentalidade e parentalidade socioafetiva: efeitos 
jurídicos. Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões, Porto Alegre, 
Magister; Belo Horizonte, IBDFAM, v. 34, jun./jul. 2013. 
_____. Multiparentalidade e parentalidade socioafetiva. 3. ed. rev. atual. São 
Paulo: Atlas, 2017. 
 
 
15 
COUTO, C. Novos paradigmas da filiação socioafetiva. Revista IBDFAM: 
Família e Sucessões, v. 43. Belo Horizonte, IBFAM,2021. 
DIAS, M. B. Proibição das famílias multiparentais só prejudica os filhos. 
Consultor Jurídico, 1 maio 2016. Disponível em: 
. Acesso em: 24 ago. 2021. 
DISTRITO FEDERAL. Tribunal de Justiça. Acórdão n. 1066380, 
20160210014256APC, Relatora: Maria de Lourdes Abreu, 3ª Turma Cível, 
julgamento em 16 de novembro de 2017. DJe, 13 dez. 2017. 
IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família. Enhunciados do IBDFAM. 
IBDFAM, S.d. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2021. 
MADALENO, R. Curso de direito de família. Rio de Janeiro: Forense, 2008. 
TARTUCE, F. Direito civil: direito de família. 12. ed. rev. atual. ampl. Rio de 
Janeiro: Forense, 2017. v. 5. p. 455 
_____. Direito civil: direito de família. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021.

Mais conteúdos dessa disciplina