Prévia do material em texto
AULA 3 DIREITO DE FAMÍLIA Prof. Ricardo Calderón 2 INTRODUÇÃO A parentalidade é uma das áreas que mais sofreu inovações no Direito de Família brasileiro contemporâneo, sendo um instituto que teve um incremento doutrinário e jurisprudencial, mesmo sem lei que a preveja. Prova maior disso é a multiparentalidade, que não adentrou no sistema por meio de uma lei, via processo legislativo, mas foi objeto de reconhecimento pelos nossos tribunais, resultado direto das demandas sociais que passaram a despontar com essa pretensão. O cenário de relacionamentos cada vez mais fugazes (líquidos) fez com que muitas crianças não convivessem longo tempo apenas com o seu pai biológico. Isso porque, após o desenlace de uma primeira união, passa a ser cada vez mais usual o surgimento de outra na sequência, em recombinações constantes. Esse ambiente faz surgir as chamadas paternidades socioafetivas. Essa fluidez faz com que muitos filhos passem a ter múltiplas referências parentais (e não mais apenas com seus pais biológicos, como de estilo, mas também com os seus pais socioafetivos). Saiba mais A referência a pai é citada apenas com vistas a uma facilitação didática, visto que se aplica para mães. O caso mais comum pode ser assim representado: um casal heteroafetivo jovem tem um filho, de modo que seu pai e mãe registrais são os seus pais biológicos. Ainda com a criança tendo tenra idade, esses pais se separam. A mãe resta com a moradia de referência da criança, com o pai convivendo com ela em períodos determinados. Pouco tempo depois, essa mãe casa com outro homem, com o qual convive maritalmente por décadas. Saiba mais A referência heteroafetiva aqui também se dá exclusivamente para fins didáticos, de modo a facilitar a explanação que se pretende fazer. Obviamente que o mesmo se aplica a casais homoafetivos É possível que, muito provavelmente, este segundo marido passe a exercer a função paterna do filho que ela já possuía (mesmo sem ter nenhum vínculo biológico com a criança), face ao longo tempo de convívio diário no mesmo lar. 3 Esta relação pode resultar em uma paternidade socioafetiva. Caso o filho siga convivendo com o seu pai biológico, ele terá duas referências paternas de fato: uma biológica e outra socioafetiva, concomitantes. Ou seja, essas alterações fáticas acabaram por fazer com que surgissem pretensões de declarações dessa dupla filiação, com o reconhecimento do pai socioafetivo, mas sem excluir o pai biológico. Com isso, surgiram demandas judiciais que visavam o reconhecimento jurídico desses dois pais de fato, exigindo o reconhecimento jurídico dessa paternidade dupla, de modo simultâneo (inclusive para fins de registro civil). Como se vê, foram as alterações fáticas que fizeram desabrochar as demandas por pedidos de reconhecimentos multiparentais, sendo mais um exemplo desse direito de família em movimento que estamos a presenciar. TEMA 1 – FILIAÇÃO E MULTIPARENTALIDADE Em muitas situações existenciais, as inovações acabam por exigir novas soluções para os seus impensados conflitos, mesmo sem lei prévia que as preveja, o que é singular e recorrente no direito de família. Face à ausência de lei prévia sobre tema, não raro a deliberação final do caso é concluída com base em uma interpretação civil-constitucional, utilizada pelo julgador para fazer justiça no caso concreto. Foi justamente esse o percurso do reconhecimento da multiparentalidade no cenário brasileiro. Pode-se afirmar que a multiparentalidade é resultado da força construtiva dos fatos sociais, o que gerou a sua assimilação doutrinária e jurisprudencial, paulatinamente percebida pelo direito de família brasileiro. Passaram a surgir decisões de primeiro e segundo grau por todo o Brasil reconhecendo multipaternidades, com pais biológicos e afetivos sendo admitidos concomitantemente. Esse foi o cenário de início, visto que atualmente também há vários casos de multimaternidades. Essa aceitação crescente é bem destacada pelo estudioso precursor no tema Christiano Cassettari, que desde 2013 escreve sobre o tema. Saiba mais CASSETTARI, C. Multiparentalidade e parentalidade socioafetiva: efeitos jurídicos. Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões, Porto Alegre, Magister; Belo Horizonte, IBDFAM, v. 34, jun./jul. 2013. 4 _____. Multiparentalidade e parentalidade socioafetiva. 3 ed. rev. atual. e amp. São Paulo: Atlas, 2017. A efervescência dessa questão foi acolhida por grande parte dos jusfamiliaristas, tanto que, mesmo antes do reconhecimento pelo STF, o acolhimento jurídico da multiparentalidade já era aprovado em Congresso Nacional do Instituto Brasileiro de Direito de Família, como se vê pelo Enunciado n. 9 do IBDFAM: Enunciado 9 /IBDFam – A multiparentalidade gera efeitos jurídicos. (IBDFAM, [S.d.]). Conforme já tivemos a oportunidade de sustentar, a multiplicidade de vínculos torna mais complexa a trama da parentalidade contemporânea. Ligações biológicas, socioafetivas, registrais, adotivas e presuntivas estão presentes no nosso sistema jurídico, todos a desfilar com o mesmo status hierárquico e com guarida na Constituição Federal. (Calderón, 2018) Sinteticamente, é possível afirmar que a multiparentalidade refere-se a situações existenciais nas quais uma pessoa possui vínculo de filiação com mais de dois ascendentes de primeiro grau, simultaneamente. Exemplificando: três ascendentes de primeiro grau: dois pais e uma mãe – com os três juridicamente registrados no assento civil (Calderón; Grubert, 2019). Multiparentalidade refere-se à possibilidade de pluralidade de ascendentes reconhecidos juridicamente, de modo simultâneo. Nesse sentido, passou a se admitir uma possibilidade múltipla, superando o antigo paradigma binário anterior (que era limitado a dois, sendo um pai e uma mãe, ou então – mais recentemente - dois pais ou duas mães, mas sempre no máximo dois). O reconhecimento da multiparentalidade rompe com esse paradigma da lógica de dois componentes e passa a aceitar que uma criança tenha três ascendentes ou mais (ex.: dois pais e uma mãe – ao mesmo tempo). Reverberando o pensamento de Bauman (2004), podemos compreender que essa situação está cada vez mais frequente por consequência do “amor líquido”, ou seja, os laços estão mais frágeis e mais dinâmicos, sendo que essa fluidez deixa marcas. Ainda, a complexidade citada pelo mesmo autor é bem retratada pela família multiparental. É cada vez mais comum nos depararmos com famílias constituídas pelos pais biológicos e um pai ou mãe chamada “de criação”, papel geralmente interpretado pelo novo companheiro. Hoje, no Brasil, admite-se que o vínculo filial 5 não precisa estar necessariamente ligado aos vínculos biológicos (aspectos genéticos), mas sim que podemos ter vínculos socioafetivos. Esse pensamento é evidente em diversas relações socioafetivas que apresentam uma pessoa exercendo o papel de pai/mãe na realidade e na vida da criança, sendo a relação conhecida por todos, pública, contínua, duradoura e apta a produzir efeitos jurídicos. Inúmeras situações fáticas, como a exemplificada, passaram a exigir uma resposta jurídica e as demandas de multiparentalidade começaram a figurar na literatura especializada de Direito de Família. Essa pluralidade de vínculos filiais é típico exemplo da atual complexidade das relações familiares, que no cenário brasileiro ainda não possui regulamentação em lei expressa. Ainda assim, doutrina e jurisprudência passaram a acolher a possibilidade jurídica dessa pluriparentalidade, de modo a permitir que uma pessoa venha a ter, reconhecidamente, dois pais (ou duas mães) de forma concomitante. (Calderón, 2017, p. 215) Um aspecto interessante é que, ao mesmo tempo que restou mais fácil comprovar o vínculo biológico (com o exame de DNA), disseminou-se no Brasil o ditadopopular “pai é quem cria”, ou seja, atualmente o contexto de paternidade é muito mais amplo do que meramente os vínculos de sangue. Com base nessas premissas, a jurisprudência é firme em manter vínculos de filiação, mesmo ausente o vínculo biológico DIREITO DE FAMÍLIA. AÇÃO NEGATÓRIA DE PATERNIDADE. EXAME DE DNA NEGATIVO. RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE SOCIOAFETIVA. IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO. 1. Em conformidade com os princípios do Código Civil de 2002 e da Constituição Federal de 1988, o êxito em ação negatória de paternidade depende da demonstração, a um só tempo, da inexistência de origem biológica e também de que não tenha sido constituído o estado de filiação, fortemente marcado pelas relações socioafetivas e edificado na convivência familiar. Vale dizer que a pretensão voltada à impugnação da paternidade não pode prosperar, quando fundada apenas na origem genética, mas em aberto conflito com a paternidade socioafetiva. 2. No caso, as instâncias ordinárias reconheceram a paternidade socioafetiva (ou a posse do estado de filiação), desde sempre existente entre o autor e as requeridas. Assim, se a declaração realizada pelo autor por ocasião do registro foi uma inverdade no que concerne à origem genética, certamente não o foi no que toca ao desígnio de estabelecer com as então infantes vínculos afetivos próprios do estado de filho, verdade em si bastante à manutenção do registro de nascimento e ao afastamento da alegação de falsidade ou erro. 3. Recurso especial não provido. (Brasil, 2012, grifo nosso) No art. 1.593 do Código Civil, está disciplinado o parentesco de “outra origem”, o que inclui o por socioafetividade: “Art. 1.593 O parentesco é natural ou civil, conforme resulte de consanguinidade ou outra origem” (Brasil, 2002) Também no art. 1.597 restam previstas as presunções da filiação, outras hipóteses não necessariamente ligadas aos vínculos biológicos: 6 Art. 1.597. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: I - nascidos cento e oitenta dias, pelo menos, depois de estabelecida a convivência conjugal; II - nascidos nos trezentos dias subsequentes à dissolução da sociedade conjugal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do casamento; III - havidos por fecundação artificial homóloga, mesmo que falecido o marido; IV - havidos, a qualquer tempo, quando se tratar de embriões excedentários, decorrentes de concepção artificial homóloga; V - havidos por inseminação artificial heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido. (Brasil, 2002) É possível constatar que o sistema do Código Civil de 2002 abriu a possibilidade para o reconhecimento de outras espécies de filiação para além da biológica e matrimonial. Com base na nossa atual tessitura jurídica, são admitidos os vínculos biológicos, registrais, adotivos, socioafetivos, presuntivos do matrimônio e presuntivos da reprodução assistida. Essa abertura para a pluralidade de filiação é que vai fazer emergir a pretensão pelo acúmulo de parentalidades. Conforme citado, em meados do ano de 2013 em diante, passam a surgir diversas decisões judiciais de primeiro e segundo grau reconhecendo relações multiparentais. Apenas em 2016 a matéria chega aos tribunais superiores, com um caso de multiparentalidade chegando ao Supremo pela primeira vez, ao qual foi classificada como a repercussão geral n. 6221. E foi no julgamento deste referido caso concreto que o Supremo Tribunal Federal reconheceu, pela primeira vez, a possibilidade jurídica da multiparentalidade, em acórdão de Relatoria do Ministro Luiz Fux RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. DIREITO CIVIL E CONSTITUCIONAL. CONFLITO ENTRE PATERNIDADES SOCIOAFETIVA E BIOLÓGICA. PARADIGMA DO CASAMENTO. SUPERAÇÃO PELA CONSTITUIÇÃO DE 1988. EIXO CENTRAL DO DIREITO DE FAMÍLIA: DESLOCAMENTO PARA O PLANO CONSTITUCIONAL. SOBREPRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA (ART. 1º, III, DA CRFB). SUPERAÇÃO DE ÓBICES LEGAIS AO PLENO DESENVOLVIMENTO DAS FAMÍLIAS. DIREITO À BUSCA DA FELICIDADE. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL IMPLÍCITO. INDIVÍDUO COMO CENTRO DO ORDENAMENTO JURÍDICO-POLÍTICO. IMPOSSIBILIDADE DE REDUÇÃO DAS REALIDADES FAMILIARES A MODELOS PRÉ- CONCEBIDOS. ATIPICIDADE CONSTITUCIONAL DO CONCEITO DE ENTIDADES FAMILIARES. UNIÃO ESTÁVEL (ART. 226, § 3º, CRFB) E FAMÍLIA MONOPARENTAL (ART. 226, § 4º, CRFB). VEDAÇÃO À DISCRIMINAÇÃO E HIERARQUIZAÇÃO ENTRE ESPÉCIES DE FILIAÇÃO (ART. 227, § 6º, CRFB). PARENTALIDADE PRESUNTIVA, 1 Tema 622 do STF - repercussão geral reconhecida - tese firmada: "A paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseada na origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios". 7 BIOLÓGICA OU AFETIVA. NECESSIDADE DE TUTELA JURÍDICA AMPLA. MULTIPLICIDADE DE VÍNCULOS PARENTAIS. RECONHECIMENTO CONCOMITANTE. POSSIBILIDADE. PLURIPARENTALIDADE. PRINCÍPIO DA PATERNIDADE RESPONSÁVEL (ART. 226, § 7º, CRFB). RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. FIXAÇÃO DE TESE PARA APLICAÇÃO A CASOS SEMELHANTES. (Brasil, 2019, grifo nosso) Nessa causa paradigmática para o direito de família brasileiro, o IBDFAM se habilitou e foi admitido como Amicus Curiae, sendo que tive a oportunidade de participar da defesa do Instituto, inclusive realizando a sustentação oral em seu nome na tribuna do STF. A tese aprovada pelo pleno do STF tem o seguinte teor: “A paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios”. Para Flávio Tartuce, o pronunciamento do STF, permitiu a igualdade entre as filiações biológicas e afetivas no direito de família: multiparentalidade um caminho sem volta do Direito de Família Contemporâneo, consolidando-se as novas teorias e os princípios constitucionais nesse campo do pensamento jurídico. A decisão do STF é o fim do caminho. A regra passou a ser a multiparentalidade, nos casos de dilemas entre a parentalidade socioafetiva e a biológica. Uma não exclui a outra, devendo ambas conviver em igualdade plena. (Tartuce, 2017, p. 455) A tese aprovada é explícita em afirmar a possibilidade de cumulação de uma paternidade socioafetiva concomitantemente com uma paternidade biológica, mantendo-se ambas em determinado caso concreto, admitindo-se, com isso, a possibilidade da existência jurídica de dois pais com todos os efeitos jurídicos. Com o reconhecimento da possibilidade jurídica da pluralidade de vínculos familiares, nossa Corte Suprema consagrou um importante progresso para o direito brasileiro. A decisão do STF permitiu um claro avanço, visto que conferiu maior dignidade ao vínculo socioafetivo, de forma que resta possível asseverar que dela resulta um aprimoramento das ferramentas jurídicas da parentalidade. TEMA 2 – PROJEÇÕES DECORRENTES DO RECONHECIMENTO DA MULTIPARENTALIDADE É incontroverso que o reconhecimento jurídico da multiparentalidade gera grandes reflexos na sociedade. Dentre eles, um aspecto que merece relevo é o 8 reconhecimento jurídico de ambas as paternidades, socioafetiva e biológica, em condições de igualdade hierárquica. Ou seja, sendo reconhecida, ambas as modalidades de vínculo parental passaram a possuir o mesmo status. Esta igualdade reverencia o princípio constitucional da igualdade dos filhos (art. 227, inciso VII, parágrafo 6º, CF), central quando cuidamos de relações parentais: “§ 6º Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação” (Brasil, 1988). Essa equiparação se constitui em uma conquista para o direito de família. Com base nisso, não resta possível afirmar aprioristicamente que uma modalidade prevalece sobre a outra, visto que ambas estão no mesmo patamar hierárquico abstrato.Apenas em cada caso concreto pode prevalecer uma ou outra. Um dos maiores avanços decorrentes dessa decisão foi o acolhimento expresso da possibilidade jurídica de pluriparentalidade. Com esse julgado, a tese aprovada pelo STF acolhe a possibilidade jurídica da multiparentalidade. “A importância desse julgado emanado da Suprema Corte brasileira é grandiosa. Primeiro, por reconhecer, de uma vez por todas, a igualdade entre a filiação biológica e socioafetiva. Segundo, por reconhecer expressamente a possibilidade da multiparentalidade” (Couto, 2021, p. 48). Assim, a partir dessa decisão tornou-se possível o reconhecimento jurídico da afetividade, a igualdade hierarquia jurídica entre os vínculos socioafetivo e biológico, a prevalência da parentalidade responsável, a possibilidade jurídica da multiparentalidade Ninguém duvida que famílias multiparentais sempre existiram e continuarão a existir. A diferença é que até recentemente eram condenadas à invisibilidade. A exclusão de direitos é resultado de uma perversa tentativa, de não ver o que foge do modelo do espelho. E esta falta de visão só vem em prejuízo dos filhos, que amam os seus pais, todos eles. (Dias, 2016) A decisão do Supremo Tribunal Federal tem efeito vinculante, de modo que, depois dela, vieram diversas outras decisões de tribunais estaduais e do STJ reconhecendo multiparentalidades: RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE. MODIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL. PATERNIDADE BIOLÓGICA. DNA. RECONHECIMENTO CONCOMITANTE DA PATERNIDADE BIOLÓGICA E SOCIOAFETIVA. 1. A paternidade não pode ser vista apenas sob enfoque biológico, pois é relevante o aspecto socioafetivo 9 da relação tida entre pai e filha. 2. As provas dos autos demonstram que o apelante estabeleceu forte vínculo com a menor, tanto que, com o divórcio dos genitores, a guarda e o lar de referência é o paterno. 3. A tese de multiparentalidade foi julgada pelo STF em sede de repercussão geral e decidiu que a paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante, baseado na origem biológica com os efeitos jurídicos próprios 4. Ante a existência dos dois vínculos paterno-filiais, que não podem ser desconstituídos, a orientação que melhor atende aos interesses das partes, notadamente o da menor, é o reconhecimento de ambos os vínculos paternos: o biológico e o socioafetivo, com as devidas anotações no seu registro civil. 5. Recurso conhecido e desprovido. (Distrito Federal, 2017, grifo nosso) Percebe-se, portanto, que essa alvissareira decisão do STF permitiu um claro avanço, pois conferiu maior dignidade ao vínculo socioafetivo, indicando que este não deve desaparecer – necessariamente – nos casos que os filhos investiguem seu ascendente genético e queiram ver essa filiação biológica reconhecida. Cabe registrar a respeitada posição do professor Rolf Madaleno, que coloca algumas ressalvas no tema: Foi o ascendente socioafetivo quem desempenhou a função parental e atuou como educador irradiador do afeto, amizade e compreensão. Foi ele quem, sem vacilar, emprestou seu nome para completar a personalidade civil daquele que acolheu por amor, não sendo aceitável que um decreto judicial atue como prenúncio da morte e da afeição, entre personagens ausentes […] Uma demanda ajuizada para desconstituir a relação afetiva e dar lugar ao frio vínculo puramente biológico, intentada depois da morte do genitor consanguíneo não deve encontrar respaldo na jurisprudência nacional, quando o investigante sempre teve pais socioafetivos e registrais, e não desconhecia a desconexão biológica dos seus pais do coração. […]. Ainda que pudesse ser evidenciada a possibilidade de ser investigada a filiação biológica quando preexistente vinculação socioafetiva, esta investigação processual precisa ser limitada aos direitos da personalidade, sem interferir no já existente estado de filiação proveniente da estabilidade fática ou registral dos laços afetivos, sobremodo quando construídos no cotidiano papel de genitor e prole. (Madaleno, 2008. p. 30-35) Ao permitir a coexistência de vínculos, a nossa Corte Suprema acertadamente conferiu um tratamento adequado do tema. TEMA 3 – EFEITOS FAMILIARES A multiparentalidade – como não poderia deixar de ser – gera diversos efeitos jurídicos, alguns pessoais e outros patrimoniais. Dentre os efeitos familiares do reconhecimento jurídico da multiparentalidade, encontramos a possibilidade de alteração do nome do filho, com a inclusão do sobrenome do ascendente que foi reconhecido. No entanto é 10 relevante dizer que essa alteração é opcional, ou seja, a mudança do nome ocorre em função do interesse do filho. Esse entendimento resta de acordo com o reconhecimento que o nome é uma expressão da personalidade da pessoa. Ainda, é possível o registro civil da dupla filiação, com a inclusão desse ascendente e também dos novos “avós”, como de estilo. Essa providência será tomada pelo cartório de registro civil de pessoas naturais competente, já existindo regramento administrativo sobre o tema. Um outro aspecto merece destaque: faz-se necessária a averbação da nova filiação no registro de nascimento, visto que isso é essencial para a segurança jurídica das partes e da própria coletividade, pois são diversos os seus efeitos jurídicos. Assim, esse registro deve ser necessariamente realizado. Com base no reconhecimento de nova maternidade ou paternidade, outras questões emergem. A guarda e convivência familiar é uma delas, mas esse tema não parece trazer dificuldades. Assim como nos demais casos, é sempre indicado que seja implementada a guarda compartilhada (na hipótese, entre os três ascendentes), bem como uma divisão equilibrada da convivência entre todos, de forma que a criança ou adolescente possa a vir a desfrutar de da convivência com os seus ascendentes. Quanto aos alimentos, os efeitos da multiparentalidade incidem sobre dois âmbitos: alimentos ao filho e alimentos aos pais idosos. A verba alimentar também sofrerá influxos com o reconhecimento da multiparentalidade, pois deverá ser arbitrada em função da nova realidade da criança e do adolescente (que agora tem mais um integrante no polo pagador). Essa divisão deverá ser analisada com base nos critérios da necessidade, possibilidade e proporcionalidade. Ainda, sempre sob a ótica do melhor interesse da criança. Por óbvio que essa divisão dependerá sempre do caso concreto a ser analisado, como é comum nessas situações. Mais uma vez, apenas o caso concreto poderá ditar a melhor solução, inexistindo solução única apriorística. Por exemplo, em algumas situações, nas quais a verba antes fixada para mãe e pai já seja suficiente para o bem-estar do filho, é possível que o valor outrora dividido entre os dois pais seja agora apenas dividido entre os três (mantendo-se a mesma quantia). Para outras situações, pode parecer mais indicado fixar um valor adicional para ser arcado pelo novo pai que foi recentemente reconhecido, em acréscimo ao que já era pago pelos outros (aumentando a quantia originária). Caso isso possa reverter em um benefício a mais ao filho, quando parecer indicado (por exemplo, para lhe permitir cursar uma língua estrangeira), essa pode ser uma solução. (Calderón, 2017, p. 231) 11 Se, na infância, ser filho em multiparentalidade pode parecer uma vantagem quando se fala em alimentos, cumpre lembrar que, na fase dos pais idosos, isso poderá trazer uma obrigação jurídica em face de todos esses ascendentes, face à regra que impele os filhos a suportarem os pais na velhice, em caso de necessidade. Podemos perceber que o vínculo parental é uma via de reciprocidade, então, nesse sentido, os filhos também podem vir, eventualmente, a ter que prestar alimentos aos pais idosos. Em geral, os efeitos familiares da multiparentalidade são os mais variados,visto que ela é reconhecida em todos os efeitos jurídicos da filiação. O que se percebe é que as balizas do nosso sistema jurídico são suficientes para equacionar bem todas essas projeções. TEMA 4 – EFEITOS SUCESSÓRIOS A multiparentalidade também gera efeitos sucessórios, pois este é um dos consectários da filiação. As projeções patrimoniais sucessórias são as que mais têm gerado questionamentos e discussões. Um dos aspectos que gerou um certo espanto inicial foi a possibilidade de um filho receber duas heranças, ou seja, herdar de mais de um pai. Em outras palavras, um filho de relação multiparental poderá receber três heranças, em face de três ascendentes (dois pais e uma mãe, por exemplo). O direito à herança é um direito que decorre diretamente da filiação, possuindo uma índole constitucional, de modo que não pode diferir na filiação múltipla. Nesse sentido, consolidou-se o entendimento doutrinário pela possibilidade do recebimento de mais de uma herança, apesar de ainda haver diversas opiniões opostas a esse pensamento. Atualmente, a doutrina majoritária também admite este direito a múltiplas heranças sem hesitar (entre outros: Zeno Veloso, José Fernando Simão, Ana Nevares, Anderson Schreiber etc.). Em conclusão, considerando a legislação constitucional e infraconstitucional vigente, a doutrina especializada e as primeiras inclinações dos tribunais superiores sobre o tema, parece possível afirmar que um filho pode herdar de todos os seus múltiplos ascendentes. (Calderón; Grubert, 2019, p. 289) No mesmo sentido, foi aprovado o Enunciado 33 do IBDFAM concordando com a possibilidade do recebimento da herança de múltiplos pais: 12 Enunciado 33 – O reconhecimento da filiação socioafetiva ou da multiparentalidade gera efeitos jurídicos sucessórios, sendo certo que o filho faz jus às heranças, assim como os genitores, de forma recíproca, bem como dos respectivos ascendentes e parentes, tanto por direito próprio como por representação. (IBDFAM, [S.d.]) Também nas Jornadas de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal foi aprovado um enunciado de conclusão similar: “Enunciado 632 /VIII Jornada de Direito Civil – Nos casos de reconhecimento de multiparentalidade paterna ou materna, o filho terá direito à participação na herança de todos os ascendentes reconhecidos” (Brasil, [S.d.b]). Outro aspecto que está gerando discussão diz respeito aos casos em que o filho venha a falecer, sem deixar descendentes nem cônjuge/companheiro, mas deixando três ascendentes de primeiro grau. Nesta hipótese, a herança sobe aos seus pais. A dúvida é em como se dividir essa herança. Duas hipóteses emergem: a. Aplicar a divisão por linhas, previstas no art. 1836, parágrafo segundo, do Código Civil, pela qual caberia cinquenta por cento para a linha paterna e cinquenta para a linha materna (Brasil, 2002); com isso, no nosso exemplo base, cada pai recebe 25% e a mãe 50%; tese sustentada, entre outros, por Luiz Paulo Vieira de Carvalho; b. Dividir igualmente a herança entre os três ascendentes, entregando um terço para cada um deles, de modo a respeitar a igualdade na divisão; tese sustentada, entre outros, por Ana Luiza Nevares. Embora o tema ainda pareça em aberto, já há um Enunciado aprovado na Jornadas de Direito Civil adotando a segunda hipótese, ou seja, indicando na divisão igualitária entre os três ascendentes: Enunciado 642 – Nas hipóteses de multiparentalidade, havendo o falecimento do descendente com o chamamento de seus ascendentes à sucessão legítima, se houver igualdade em grau e diversidade em linha entre os ascendentes convocados a herdar, a herança deverá ser dividida em tantas linhas quantos sejam os genitores. (Brasil, S.d.b) As projeções sucessórias da multiparentalidade são de várias ordens, sendo que muitas delas ainda estão sendo discutidas. Uma das que mais tem gerado polêmica são os pedidos de filiação post-mortem, com interesses sucessórios. Este é, certamente, um dos grandes desafios do atual direito de família e sucessões brasileiro. 13 TEMA 5 – REGISTRO EXTRAJUDICIAL DA FILIAÇÃO SOCIOAFETIVA E DA MULTIPARENTALIDADE Após o reconhecimento da multiparentalidade pelo Supremo Tribunal, houve outra alteração significativa na realidade brasileira: em 2017, o Conselho Nacional de Justiça aprova a possibilidade de reconhecimento dela pela via extrajudicial, copm base no Provimento 63/CNJ, que foi completado e alterado pelo Provimento 83/CNJ, mas cujo conteúdo principal segue o mesmo. Institui modelos únicos de certidão de nascimento, de casamento e de óbito, a serem adotadas pelos ofícios de registro civil das pessoas naturais, e dispõe sobre o reconhecimento voluntário e a averbação da paternidade e maternidade socioafetiva no Livro “A” e sobre o registro de nascimento e emissão da respectiva certidão dos filhos havidos por reprodução assistida. (Brasil, 2017) Esse regramento visa facilitar o reconhecimento dos vínculos socioafetivos, permitindo que sejam realizados diretamente no Cartório de Registro Civil, sem necessidade de ação judicial (como era até então) – desde que atendidos alguns requisitos: Atualmente, é possível o reconhecimento extrajudicial da filiação socioafetiva e, consequentemente, da multiparentalidade, tendo em vista o Provimento n. 63/2017 alterado pelo o de n. 83/2019. Isto é, verifica- se uma evolução no ordenamento jurídico brasileiro a respeito desse tema, desburocratizando e desjudicializando na medida do possível a busca pela concretização do direito à filiação. (Andrade; Silva, 2020, p. 129) O art. 14 do Provimento n. 63 permite expressamente a multiparentalidade extrajudicial: “Art. 14. O reconhecimento da paternidade ou maternidade socioafetiva somente poderá ser realizado de forma unilateral e não implicará o registro de mais de dois pais e de duas mães no campo FILIAÇÃO no assento de nascimento” (Brasil, 2017) Como resta possível perceber pela leitura do referido dispositivo, o registro extrajudicial é permitido dentro das seguintes possibilidades: unilateral (ou lado paterno ou materno – não é possível um registro bilateral) e que reconheça um segundo pai ou uma segunda mãe (até dois pais e até duas mães). Assim, resta possível o registro extrajudicial da multiparentalidade, desde que restem atendidas as demais condições dos referidos provimentos. Para arrematar com uma frase, seria possível dizer que “a afetividade chegou aos balcões dos cartórios”. 14 REFERÊNCIAS ANDRADE, C. A. M.; SILVA, M. O. P. L. Multiparentalidade: uma análise da divisão de direitos e deveres decorrentes da consanguinidade e da socioafetividade. Revista IBDFAM: Família e Sucessões, v. 40. Belo Horizonte: IBFAM, 2020. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. _____. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 11 jan. 2002. BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Provimento n. 83, de 14 de agosto de 2019. DJe/CNJ n. 191, 17 nov. 2017. BRASIL. Conselho de Justiça Federal. Enunciado 632. VIII Jornada de Direito Civil. CJF, S.d.a. Disponível em: . Acesso em; 24 ago. 2021. _____. Enunciado 642 /VIII Jornada de Direito Civil. CJF, S.d.b. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp. 1.059.214, 4ª Turma, rel. Min. Luis Felipe Salomão, unânime, julgado em 16 de fevereiro de 2012. DJ, 12 mar. 2012. BRASIL. Supremo Tribunal Fecderal. RE 898.060/SC, Rel. Min. Luiz Fux. DJe, 29 maio 2019. CALDERÓN, R. Princípio da afetividade no direito de família. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. _____. Multiparentalidade: a socioafetividade nos laços de filiação. Revista Juridica da Escola Superior de Advocacia da OAB-PR, n. 3, ago. 2018. CALDERÓN, R.; GRUBERT, C.Projeções sucessórias da multiparentalidade. In: TEIXEIRA, D. C. (Coord.) Arquitetura do planejamento sucessório. 2 ed. Belo Horizonte: Fórum, 2019. CASSETTARI, C. Multiparentalidade e parentalidade socioafetiva: efeitos jurídicos. Revista Brasileira de Direito das Famílias e Sucessões, Porto Alegre, Magister; Belo Horizonte, IBDFAM, v. 34, jun./jul. 2013. _____. Multiparentalidade e parentalidade socioafetiva. 3. ed. rev. atual. São Paulo: Atlas, 2017. 15 COUTO, C. Novos paradigmas da filiação socioafetiva. Revista IBDFAM: Família e Sucessões, v. 43. Belo Horizonte, IBFAM,2021. DIAS, M. B. Proibição das famílias multiparentais só prejudica os filhos. Consultor Jurídico, 1 maio 2016. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2021. DISTRITO FEDERAL. Tribunal de Justiça. Acórdão n. 1066380, 20160210014256APC, Relatora: Maria de Lourdes Abreu, 3ª Turma Cível, julgamento em 16 de novembro de 2017. DJe, 13 dez. 2017. IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família. Enhunciados do IBDFAM. IBDFAM, S.d. Disponível em: . Acesso em: 24 ago. 2021. MADALENO, R. Curso de direito de família. Rio de Janeiro: Forense, 2008. TARTUCE, F. Direito civil: direito de família. 12. ed. rev. atual. ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017. v. 5. p. 455 _____. Direito civil: direito de família. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021.