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As origens da Guerra sino-indiana (20 de outubro a 21 de novembro de 1962). 
Introdução 
No fim da década de 1940, tanto a Índia quanto a China passaram por grandes 
transformações internas que provocaram mudanças em seus paradigmas e em sua política 
externa. Em 1949, o Estado chinês conquistou a unidade política com a fundação da 
República Popular da China (RPC) pelo Partido Comunista da China (PCC), após emergir de 
uma sangrenta guerra civil. Já a Índia, em 1947, conseguiu a independência dos britânicos em 
um longo e custoso processo, no qual baseou-se muito mais na desobediência civil e em 
apelos morais do que em conflitos armados. Apesar das diferenças nos processos de 
formação, Nova Delhi e Beijing viviam momentos de certa forma semelhantes. Em ambos, 
novos governos estavam se constituindo e possuíam ambições parecidas, isto é, a 
consolidação de suas nações como potenciais globais e a emergência do Terceiro Mundo no 
sistema internacional. 
Este texto se incumbira de expor e analisar as origens da guerra sino-indiana (20 de 
outubro a 20 de novembro de 1962), destacando como um cenário que parecia fertil à 
cooperação gerou um conflito profundo que culminou em graves embates e permanece sem 
solução definitiva até os dias atuais. 
 
Breve histórico das fronteiras do Tibete antes de 1947 
As fronteiras que separam a Índia, o Tibete e a China nunca foram precisamente 
demarcadas e acordadas, o que durante muito tempo aconteceu em razão da falta de vontade 
desses atores, tanto por razões geográficas quanto políticas. O Tibete está localizado em um 
planalto montanhoso, desértico e com condições climáticas extremas; além disso, é um Estado 
teocrático, comandado pelo mais alto líder religioso do budismo tibetano, o Dalai Lama, e tem 
uma organização feudal, com constantes instabilidades políticas. Assim, principalmente no 
caso do império britânico, a anexação direta do Tibete não era pensada e priorizavam o 
estabelecimento de relações comerciais e diplomáticas com o governo local. (Changsheng e 
Jr., 2017) 
Vale ressaltar que os britânicos realizaram expedições de exploração em áreas pouco 
ocupadas do Tibete, sendo a mais significativa delas, na região de Aksai Chin. Mas, mesmo 
assim, nunca chegaram a reclamar a região e já na segunda metade do século XIX admitiram 
que pertencia ao Tibete. (expandir) 
 
 
No entanto, a partir do século XX a questão das fronteiras começou a ganhar 
importância conforme as manobras políticas de três grandes impérios, o britânico, o chines e o 
russo. 
Em 1914, na convenção de Simla, os britânicos tentaram promover uma resolução 
sobre a questão fronteiriça, a fim de transformar a região tibetana em um Estado tampão entre 
a China e a Índia e mantê-la afastado da influência russa. O secretário dos negócios exteriores 
da Índia britânica, sir Arthur McMahon (1863-1949) foi o responsável por conduzir as 
negociações. Ele propôs que o Tibete fosse dividido em duas partes, uma porção interior (a 
atual província chinesa de Qinghai) e uma exterior (hoje, a região autónoma de Xizang da 
China, cuja capital é Lhasa). A China manteria o controle sobre todo o Tibete, contudo, o 
direito administrativo sobre o quinhão exterior seria concedido à Índia britânica. Com essa 
demarcação as fronteiras indo-tibetanas seriam empurradas em direção aos Himalaias, 
concedendo mais território à Ìndia. Por razões não relacionadas, a delegação chinesa se retirou 
da conferência e os acordos foram assinados somente entre os britânicos e os tibetanos. O 
império chines sempre repudiou a Convenção de Simla e nunca reconheceu o acordo ou os 
mapas que utilizam essa fronteira, que ficou conhecida como linha McMahon. E, na prática, 
nem mesmo os tibetanos levaram em consideração a divisória. (Changsheng e Jr., 2017) 
 
De 1947 a 1954 
Apesar dos esforços britânicos em oficializar a linha McMahon, principalmente nos 
em seus últimos anos de domínio sobre o subcontinente indiano, com a difusão de mapas que 
utilizavam a divisória, quando a Ìndia conquistou independência em 1947, o novo governo 
herdou as inconsistências em suas fronteiras. 
O recém chegado primeiro-ministro indiano, Jawaharlal Nehru (1889-1964) sustentava 
bandeiras de democracia, igualdade e resistência ao imperialismo, logo, a oficialização da 
linha McMahon, uma herança dos dominadores inglês, não era prioridade na Índia recém 
independente. Com os movimentos de descolonização no continente, Nehru tinha a visão de 
um ressurgimento das nações asiáticas enquanto atores de peso na arena internacional e 
ambicionava para Índia uma posição de liderança entre as nações emergentes, esta era a 
prioridade de sua gestão. E compreendia que para realizar as potencialidades indianas a 
cooperação e o apoio dos chineses seriam essenciais. Assim, de 1949 até 1957 o governo da 
Índia, apesar de eventuais incômodos, manteve relações amigáveis com a China; por exemplo, 
ainda em 1949 Nova Delhi já havia reconhecido a RPC. 
 
 
Este mesmo espírito de colaboração também perpassou a questão fronteiriça. Em 
1950, houve um ponto de tensão entre as duas nações. Desde meados do século XVIII a 
China exercia autoridade direta sobre a planície tibetana, no entanto, no começo dos anos 
1900, o país mergulhou em instabilidade e disputas internas com o fim da dinastia Qing, 
assim, fazendo uso do momento propício, em 1913 o 13o Dalai Lama proclamou a 
independência do Tibete, o que não teve reconhecimento chines. Em 1950, a recém fortificada 
RPC ocupou militarmente o Tibete em busca de restabelecer seu domínio. No entanto, Beijing 
tentou suavizar a natureza do ocorrido. A operação aconteceu sob a bandeira de “libertar” a 
região e o comando chinês tentou transpassar uma aparência de legitimidade, por exemplo, o 
território não foi diretamente ocupado, a China ofereceu “negociações” aos nacionais. 
Contudo, na prática, a delegação tibetana foi pressionada a assinar um acordo (“17-Point 
Agreement”) admitindo a soberania chinesa. O próprio acordo era contraditório: ao mesmo 
tempo que prometia o respeito às instituições tibetanas, inclusive ao seu governo teocrático, 
também anunciava mudanças socioeconômicas em direção a uma “reforma democrática" e 
uma incorporação gradual das estruturas governamentais da RPC. 
O Tibete tem um governo teocrático desde o século XIII e possui consolidadas 
instituições tradicionais, ainda que feudais, ligadas a aspectos religiosos e culturais de seu 
povo. Assim, mesmo que a região já sofra influência política chinesa desde o século XVII, 
iniciada na dinastia Qing, com variações de maior ou menor autoridade direta, o processo de 
assimilação cultural e controle político implementado pela RPC, desde o início, gerou tensões 
e movimentos de resistência tibetanos. 
Para a Índia estrategicamente seria ideal manter a planície tibetana como um Estado 
tampão independente entre seu território e o chinês. Além disso, enquanto o Tibete é mais 
ligado politicamente a China, principalmente sob o aspecto da proteção, os tibetanos e a Índia 
compartilham fortes laços culturais que os aproximam, principalmente no que diz respeito à 
religião. O budismo surgiu em território indiano e tem um papel essencial no 
desenvolvimento da história e da cultura dos dois povos. Todavia, mesmo que, nas palavras 
de Nehru, “Naturally, the tibetans have our sympathy"1, a Índia não se opôs à dominação da 
região, o que é justificado ainda em sua fala quando acrescenta “but sympathy does not take 
us far”1. O governo Nehru tinha consciência de que o país não era capaz de se opor à China a 
favor do Tibete e portanto não podia estimular a resistência tibetana, depois, o próprio Nehru 
tinha críticas quanto às instituições e a organização feudal tibetana. Assim, era preferível 
estimular a ami1zade com a RPC. 
1 .http://www.indiandefencereview.com/spotlights/tibet-and-the-larger-issues/. 
 
 
 Em 1954, a Índia e a Chinacelebraram um acordo sobre a região tibetana (Agreement 
between India and China on Trade and Intercourse Between Tibet Region of China and India), 
no qual Nova Delhi reconheceu o controle chinês sobre o Tibete e prometeu a retirada das 
tropas indianas bem como o repasse de suas estruturas de comando; por outro lado, a China 
assegurou privilégios políticos e econômicos indianos na região. Vale ressaltar que mesmo 
assim uma demarcação precisa das fronteiras não foi acordada. 
Ainda em 1954, outro importante passo foi dado para estreitar as relações 
sino-indianas. Em uma visita do primeiro-ministro chinês Zhou Enlai (1898-1976) à Nova 
Delhi, ambas as nações assinaram uma declaração se comprometendo com os 5 princípios da 
coexistência pacífica (Panchsheel) - sendo eles: respeito mútuo pela integridade territorial e 
soberania, não agressão, não interferência em assuntos internos, igualdade e benefício mútuo 
e, por fim, coexistência pacífica. Mais uma vez a incongruência chinesa é ressaltada. 
Enquanto reafirmava o seu compromisso com a Panchsheel, forçava a incorporação de suas 
instituições políticas e cultura no Tibete, e, com relação a própria Índia, oferecia suporte ao 
partido comunista indiano. 
 Nesta mesma ocasião, as fronteiras, que eram retratadas de forma diferente nos mapas 
indianos e chineses, foram discutidas pelos primeiros-ministros e Zhou Enlai garantiu a Nehru 
que o seu governo não tinha intenções de mudar as fronteiras. Assim, apesar de as fronteiras 
não estarem bem demarcadas, emergiu o consenso de que não seriam um problema entre as 
duas nações. 
 
O agravamento a partir de 1957 até a guerra em 1962 
Contudo, em setembro de 1957, a questão fronteiriça começou a sofrer 
tensionamentos. A China anunciou a finalização de uma estrada ligando o Tibete à província 
chinesa de Xinjiang passando pela região de Aksai Chin, que foi explorada pelos britânicos e 
era reivindicada pela Índia. 
Desde a proclamação da República Popular da China, Beijing não pretendia criar 
tensões com a Índia sobre a questão fronteiriça. O novo governo entendia que as fronteiras 
chinesas precisavam de demarcação e negociação com um grande número de países e a 
perspectiva adotada não era a de irredentismo, isto é, insistência em recuperar as “terras 
perdidas” em tratados desiguais, mas sim negociar em entendimento e acomodação recíproca. 
Assim, quanto à Índia, não é improvável que a China permitiria que o país mantivesse a maior 
parte dos territórios até a linha McMahon. Contudo, por questões estratégicas a RPC não 
podia abrir mão da região de Aksai Chin. A geografia do Tibete impõe diversas restrições ao 
 
 
acesso e a estrada recém construída era vital para a entrega de suprimentos e a manutenção 
das tropas chinesas no Tibete. 
A construção da estrada foi recebida como um choque por Nova Delhi. O governo 
chinês nunca havia mencionado a construção, mesmo sabendo que a Ìndia reivindicava o 
território, nem mesmo quando os dois primeiros ministros conversaram sobre as fronteiras. 
Assim, mediante a todas as incongruências ocorridas desde a formação da RPC, a gestão 
indiana passou a considerá-la pouco confiável e mudou a postura amigável que vinha 
adotando. Em outubro de 1958, lançou um protesto formal contra a estrada. 
Por outro lado, o primeiro ministro Zhou Enlai respondeu que a Índia havia 
interpretado mal a questão e que Aksai Chin sempre esteve sob jurisdição chinesa. Declarou 
também que todo o restante das extensas fronteiras compartilhadas entre os dois países 
estavam abertas para negociação, deixando implícito que Aksai Chin não estava. Mediante a 
desconfiança mútua de ambos os países, a animosidade nas fronteiras aumentou. Ainda em 
1958 Nova Delhi acusou a RPC de agressão após encontrar presença chinesa nas fronteiras 
perto do Nepal. Já a China descobriu e prendeu indianos em Aksai Chin. 
Em 1959 as tensões sino-indianas aumentaram ainda mais. Em março, as hostilidades 
que vinha se acumulando no Tibete desde a ocupação chinesa finalmente eclodiram em uma 
massiva revolta. A RPC reprimiu duramente os revoltosos e instalou um novo governo, 
intensificando as reformas social e agrária que vinha implementando no Tibete. A Índia foi 
arrastada para a disputa quando o próprio Dalai Lama e diversos seguidores tibetanos se 
refugiaram no país. Mediante as pressões populares e a proximidade cultural com o Tibete, 
Nova Delhi concedeu asilo aos refugiados. Em resposta, Beijing começou a criticar o governo 
indiano e suas pautas sobre a questão das fronteiras, alegando que a linha McMahon era um 
legado do imperialismo britânico. 
A partir de então, ambos os países começaram a enviar tropas para as fronteiras, o que 
é um solo fertil para que irrompam conflitos. Em agosto de 1959, houve confronto em torno 
da pequena vila Longjiu (no lado chinês da linha McMahon, na porção oriental das fronteiras 
compartilhadas) e um indiano foi morto. Logo depois, em outubro, aconteceu um conflito 
mais intenso em Ladakh, no lado indiano da linha, no qual alguns indianos foram mortos e os 
sobreviventes presos. Os conflitos continuaram acontecendo e sempre pela mesma razão: 
ambas as nações enviavam tropas para ocuparem as regiões que reclamavam. Diante da 
persistência dos confrontos e tendo em vista que as contínuas baixas indianas afetariam 
negativamente a imagem chinesa e agravariam seu isolamento internacional, Beijing adotou 
uma postura mais comedida e propôs negociações com Nova Delhi. 
 
 
O primeiro-ministro Zhou Enlai em um ato de boa vontade deslocou-se até Nova Delhi 
para conversar com Nehru sobre os impasses nas fronteiras. Durante o encontro ofereceu 
propostas muito generosas, sugeriu formularem uma declaração de cinco pontos com os 
princípios que deveriam governar a solução da disputa de Aksai Chin e o desengajamento das 
tropas nas fronteiras. Além disso, deixou claro a Nehru as razões estratégicas pelas quais a 
RPC não podia ceder Aksai Chin e propôs que as fronteiras compartilhadas a leste fossem 
acordadas conforme as reivindicações de Nova Delhi desde que Aksai Chin permanecesse sob 
domínio chinês. 
Por outro lado, o primeiro-ministro indiano mostrou-se endurecido e manteve-se firme 
em todas as reclamações indianas. Nehru negou a proposta, realizar a troca seria muito 
custoso para o governo. Nos anos anteriores houve a disseminação de propagandas e um forte 
discurso contra os atos chineses, as massas estavam agitadas acerca da questão e a opinião 
pública dificilmente aceitaria a decisão. A Índia estava convencida e convenceu sua 
população de que tinham argumentos fortes contra a China no que tange as fronteiras, 
enquanto seu rival tinha um histórico de desonestidade e uso da força militar. Assim, um 
sentimento de orgulho nacional e uma desconfiança generalizada quanto aos chineses havia se 
espalhado em território indiano. Além disso, em razão da organização política da Índia seria 
necessário a aprovação de dois terços do parlamento para ceder Aksai Chin, o que seria 
extremamente difícil de se conseguir. 
O encontro terminou em clima pessimista e sem avanços para resolução da questão. 
Na verdade, o consenso que emergiu em Nova Delhi após o evento foi diferente do 
pretendido. A partir de 1961 a Índia passou a adotar o que chamou de Forward Policy, isto é, 
uma política agressiva de patrulhamento constante e ocupação de áreas sem controle, 
buscando avançar cada vez mais e pressionar a China por suas demandas. Ainda assim, as 
tropas indianas estavam orientadas a evitar uma troca de tiros. A política pretendia usar a seu 
favor a posição de apaziguamento da China e pressioná-la a recuar. 
Em 11 de setembro de 1962, a Forward Policy atingiu seu pico. O governo de Nehru 
autorizou todos os postos e patrulhas a abrirem fogo contra qualquer tropa chinesa que 
avançasse para território indiano. Era esperado pelas autoridades indianas que houvesse trocade fogo esporádica, como de fato aconteceu entre 20 e 30 de setembro, e que com isso a 
China recuasse ainda mais. 
No entanto, Beijing seguiu por uma linha oposta à esperada. Em 20 de outubro, Mao 
Zedong, o presidente da RPC, decidiu lançar uma contra-ofensiva esmagadora. O objetivo era 
conter definitivamente a Forward Policy e infligir na Índia um derrota humilhante, que não 
 
 
deixaria outra opção a Nova Delhi a não ser aceitar as negociações ou declarar uma trégua 
duradoura. O ataque chinês foi massivo e arrasou rapidamente a estrutura de controle indiana 
nas fronteiras. Logo no início do conflito Beijing ofereceu uma proposta generosa ao governo 
de Nehru a fim de cessar o conflito, o que mais uma vez foi negado. Mesmo se recusando a 
acordar uma trégua, a Índia, apesar da agressiva Forward Policy, não estava preparada para 
uma guerra dessa proporção com a China e buscou ajuda militar dos Estados Unidos e do 
Reino Unido. 
Após um mês da guerra sino-indiana, a RPC declarou um cessar-fogo unilateral e 
“generosamente” retirou suas tropas para a posição de 1959. A questão fronteiriça permanece 
ainda hoje sem uma solução definitiva. Desde 1962, as fronteiras no leste praticamente 
seguem a linha McMahon, conforme as reivindicações indianas, e em Aksai Chin a linha de 
controle seguiu os moldes de como estava antes do conflito. 
 
Conclusão 
A guerra sino-indiano de 20 de outubro a 21 de novembro de 1962 foi um conflito 
singular, não só por sua duração como também por suas origens. A Índia e a China, além de 
serem civilizações vizinhas e antigas com culturas muito ricas, ainda viviam momentos 
semelhantes nos anos anteriores ao conflito. Ambos os países estavam sob a gestão de um 
novo governo e compartilhava muitas de suas principais pautas, como a ascensão do Terceiro 
Mundo, o anti-imperialismo e os princípios da cooperação pacífica; além de tudo, almejavam 
posições de liderança entre os países emergentes e dependiam da cooperação mútua para 
alcançar este objetivo. Portanto, conforme retratado nos sessões anteriores, havia vontade 
política nas duas nações de estabelecerem relações amigáveis e prósperas, o que perdurou até 
1957. No caso da Índia, isto se torna evidente, por exemplo, quando em 1954 mesmo tendo 
razões políticas e culturais para apoiar um Tibete independente, assinou um tratado 
reconhecendo a soberania chinesa sobre a planície. E, no caso da China, quando esboçou 
diversas vezes boa vontade nas propostas de negociação com o governo indiano para resolver 
a questão fronteiriça. 
No entanto, mesmo existindo este sentimento inicial de cooperação, as tensões entre os 
dois países envolvendo o Tibete, uma região montanhosa de clima extremo e sem aparente 
valor intrínseco, cresceram de forma irremediável a partir de 1957. 
A construção da estrada em Aksai Chin deu início às maiores hostilidades. Mesmo 
levando em consideração que a Índia reivindicava o território e estando disposta a negociar 
suas fronteiras de forma conciliadora, a China não podia ceder a região. Era uma questão 
 
 
central para o governo da RPC retomar o antigo controle que exercia sobre a planície tibetana 
e, por conta da difícil geografia do local, a estrada era essencial para a manutenção das tropas 
chinesas. Quanto à linha McMahon, os chineses simplesmente não podiam reconhecer sua 
validade. Reconhecê-la seria não só validar a Convenção de Simla (1914), a qual repudiam, 
como também legitimar que o Tibete naquele período era um país independente em plena 
condição de assinar acordos. Nesse caso, seus argumentos históricos para justificar a 
retomada de controle sobre a área tibetana perderiam a validade e suas ações seriam 
interpretadas como imperialismo ou agressão. 
Por outro lado, mesmo que a região Aksai Chin não tivesse nenhuma importância 
evidente para a Índia, diversos fatores se acumularam e impediram o governo Nehru de 
aceitar perdê-la. Primeiro, a Índia era um país recém independente, ainda consolidando seu 
orgulho nacional, e seria muito custoso abdicar de parte de seu território para outra nação. O 
fato de ser para a RPC ainda piorava a situação, pois, após 1957, principalmente em razão dos 
posicionamentos disseminados pela mídia, o governo chinês era visto como desonesto e 
pouco confiável pelo povo. Depois, a proximidade cultural com o Tibete e a presença do 
Dalai Lama na Índia como refugiado aumentaram a simpatia da população nacional pela 
situação enfrentada pelos tibetanos e um sentimento de recriminação pelos atos chineses 
espalhou-se de forma generalizada no país. Além de tudo, conseguir a aprovação mesmo no 
senado para ceder Aksai Chin seria muito difícil. 
Portanto, tendo em vista as divergências irreconciliáveis sobre Aksai Chin e a linha 
McMahon, o governo indiano adotou a Forward Policy. Neste momento, a Índia gozava de 
prestígio no sistema internacional, já a China enfrentava o isolamento, que era agravado por 
suas atitudes quanto ao Tibete e a questão fronteiriça. Assim, Nova Delhi acreditava que 
podia avançar nas fronteiras e pressionar a RPC a fim de conquistar os territórios que 
reclamava, apostando que a China estava em uma posição delicada e que optaria por recuar, 
tanto que não estava preparada para uma guerra. No entanto, Beijing escolheu realizar um 
contra-ataque massivo em resposta a Forward Policy. 
Por fim, a decisão chinesa se mostrou eficaz e a RPC alcançou todos os seus principais 
objetivos. A Índia foi apaziguada e direcionada a uma trégua e, em razão de suas ofertas 
generosas de negociação e da declaração unilateral de cessar-fogo, melhorou sua imagem no 
sistema internacional. Por outro lado, a recusa indiana em negociar e a insistência em 
preservar a linha McMahon, um legado imperialista, mancharam o prestígio que detinha. 
Além de tudo, sua bandeira de nação anti-imperialista foi questionada quando após o início da 
guerra requisitou ajuda militar dos Estados Unidos e do Reino Unido. 
 
 
Referências 
CHANGSHENG, Shu; MENEZES JR, Antonio Bezerra. AA GUERRA SINO-INDIANA DE 
1962:: CONTORNOS DE UM CONFLITO INEVITÁVEL. Revista da Escola Superior de 
Guerra, v. 29, n. 58, p. 180-200, 2014. 
 
GUPTA, Amit R. Das; LÜTHI, Lorenz M. (Ed.). The Sino-Indian War of 1962: New 
Perspectives. Taylor & Francis, 2016. 
 
LÜTHI, Lorenz. Sino-Indian Relations, 1954-1962. Eurasia Border Review, v. 3, n. Special 
Issue, p. 93-119, 2012.

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