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Novos Atores na Educação Superior Brasileira Dilemas e Possibilidades Organizadores Antonio Miranda Galleão Maria Amélia Santoro Franco Editora CRVCopyright © da Editora CRV Ltda. Conselho Editorial: Comitê Científico: Editor-chefe: Railson Moura Diagramação e Capa: Designers da Editora CRV Aldira Guimarães Duarte Domínguez (UNB) Altair Alberto Fávero (UPF) Andréia da Silva Quintanilha Sousa (UNIR/UFRN) Ana Chrystina Venancio Mignot (UERJ) Imagem de Capa: Freepik Anselmo Alencar Colares (UFOPA) Andréia N. Militão (UEMS) Revisão: Os Autores Antônio Pereira Gaio Júnior (UFRRJ) Anna Augusta Sampaio de Oliveira (UNESP) Carlos Alberto Vilar Estêvão (UMINHO PT) Barbara Coelho Neves (UFBA) Carlos Federico Dominguez Avila (Unieuro) Cesar Gerónimo Tello (Universidad Nacional Carmen Tereza Velanga (UNIR) de Três de Febrero Argentina) Celso Conti (UFSCar) Cristina Maria D'Avila Teixeira (UFBA) Cesar Gerónimo Tello (Univer .Nacional Diosnel Centurion (UNIDA PY) DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Três de Febrero Argentina) Eliane Rose Maio (UEM) CATALOGAÇÃO NA FONTE Eduardo Fernandes Barbosa (UFMG) Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Bibliotecária responsável: Luzenira Alves dos Santos CRB9/1506 Elione Maria Nogueira Diogenes (UFAL) Fauston Negreiros (UFPI) Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Francisco Ari de Andrade (UFC) Élsio José Corá (UFFS) Gláucia Maria dos Santos Jorge (UFOP) N935 Fernando Antônio Gonçalves Alcoforado (IPB) Helder Buenos Aires de Carvalho (UFPI) Francisco Carlos Duarte (PUC-PR) Ilma Passos A. Veiga (UNICEUB) Gloria Fariñas León (Universidade Inês Bragança (UERJ) Novos Atores na Educação Superior Brasileira: dilemas e possibilidades / Antonio Miranda de La Havana Cuba) Maria Amélia Santoro Franco (organizadores) Curitiba CRV, 2023. José de Ribamar Sousa Pereira (UCB) Guillermo Arias Beatón (Universidade Jussara Fraga Portugal (UNEB) 172 de La Havana Cuba) Kilwangy Kya Kapitango-a-Samba (Unemat) Jailson Alves dos Santos (UFRJ) Lourdes Helena da Silva (UFV) Bibliografia João Adalberto Campato Junior (UNESP) Lucia Marisy Souza Ribeiro de Oliveira (UNIVASF) ISBN Digital 978-65-251-4424-5 Josania Portela (UFPI) Marcos Vinicius Francisco (UNOESTE) ISBN Físico 978-65-251-4423-8 Leonel Severo Rocha (UNISINOS) Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC) DOI 10.24824/978652514423.8 Lídia de Oliveira Xavier (UNIEURO) Maria Eurácia Barreto de Andrade (UFRB) Lourdes Helena da Silva (UFV) Maria Lília Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) 1. Educação superior 2. Universidade 3. Pedagogia crítica I. Galleão, Antonio Miranda, org. Luciano Rodrigues Costa (UFV) Míghian Danae Ferreira Nunes (UNILAB) Franco, Maria Amélia Santoro, org. III. Título IV. Série. Marcelo Paixão (UFRJ e UTexas US) Mohammed Elhajji (UFRJ) Maria Cristina dos Santos Bezerra (UFSCar) Mônica Pereira dos Santos (UFRJ) CDU 378 CDD 378 Maria de Lourdes Pinto de Almeida (UNOESC) Najela Tavares Ujiie (UNESPAR) Maria Imbiriba Sousa Colares (UFOPA) Nilson José Machado (USP) Índice para catálogo sistemático Paulo Romualdo Hernandes (UNIFAL-MG) Sérgio Nunes de Jesus (IFRO) 1. Educação superior 378 Renato Francisco dos Santos Paula (UFG) Silvia Regina Canan (URI) Sérgio Nunes de Jesus (IFRO) Sonia Maria Ferreira Koehler (UNISAL) Simone Rodrigues Pinto (UNB) Sonia Maria Chaves Heracemiv (UFPR) Solange Helena Ximenes-Rocha (UFOPA) Suzana dos Santos Gomes (UFMG) Sydione Santos (UEPG) Vânia Alves Martins Chaigar (FURG) Tadeu Oliver Gonçalves (UFPA) Vera Lucia Gaspar (UDESC) Tania Suely Azevedo Brasileiro (UFOPA) Este livro passou por avaliação e aprovação às cegas de dois ou mais pareceristas ad hoc. 2023 Foi feito depósito legal conf. Lei 10.994 de 14/12/2004 Proibida a reprodução parcial ou total desta obra sem autorização da Editora CRV Todos os direitos desta edição reservados pela: Editora CRV Tel.: (41) 3039-6418 E-mail: sac@editoracrv.com.br Conheça os nossos lançamentos: www.editoracrv.com.brSUMÁRIO APRESENTAÇÃO 9 Antonio Miranda Galleão Maria Amélia Santoro Franco UNIVERSIDADE ONTEM E HOJE: inserção e inclusão 13 Sérgio Castanho TRABALHO DOCENTE NA EDUCAÇÃO SUPERIOR PRIVADA LUCRATIVA NO BRASIL: implicações das políticas educacionais sob a influência do neoliberalismo 31 Elimar Rodrigues Alexandre ENFRENTANDO A EDUCAÇÃO SUPERIOR COM CORAGEM 53 Maria Eugênia Castanho NOVOS PÚBLICOS NO ENSINO SUPERIOR: que dizem estudantes de bacharelados interdisciplinares 67 Ana Maria Freitas Teixeira O TRABALHO DOCENTE NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR MERCANTIL 87 Maria Isabel de Almeida Alda Roberta Torres O INÉDITO VIÁVEL NA PRÁXIS DIDÁTICA UNIVERSITÁRIA: tensões e possibilidades para curso de Pedagogia 107 Rosana Aparecida Ferreira Pontes Selma Garrido Pimenta PRÁTICA PEDAGÓGICA DOCENTE MEDIADA PELA VIGILÂNCIA CRÍTICA COMO POSSIBILIDADE PARA TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS 123 Mary Gracy e Silva Lima Marcia Raika e Silva Lima POR UMA PEDAGOGIA CRÍTICA NA EDUCAÇÃO SUPERIOR: reflexões em torno de dados de ingresso e permanência de alunos trabalhadores 139 Daniella Gardini Scalet Maria Amélia Santoro Franco86 NEIVA, Kathia Maria Costa. Processos de escolha e orientação profissional. O TRABALHO DOCENTE NO São Paulo: Vetor, 2007. CONTEXTO DA EDUCAÇÃO OIT ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO. Global SUPERIOR MERCANTIL Employment Trends for Youth 2017: Paths to a better working future. Dispo- nível em: Maria Isabel de Almeida Acesso em: 17 jan. 2021. Alda Roberta Torres PAIS, José Machado. Culturas juvenis. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2003. [...] ensinar não pode ser um puro processo, como tanto tenho dito, de transferência de conhecimento do ensinante ao aprendiz. PAIS, José Machado. Ganchos Tachos e Biscates. 2. ed. Porto: Âmbar, 2005. Transferência mecânica de que resulte a memorização maquinal que já critiquei. Ao estudo crítico corresponde um ensino SACRISTÁN, José Gimeno. La transición a la educación secundaria. igualmente crítico que demanda necessariamente uma forma Madrid: Morata, 1997. crítica de compreender e de realizar a leitura da palavra e a leitura do mundo, a leitura do contexto (FREIRE, 2001, p. 264). SEI DE ESTUDOS ECONÔMICOS E SOCIAIS DA BAHIA. Textos para discussão. Panorama socioeconômico da população Nesse capítulo, discutimos a reestruturação do trabalho docente decor- negra da Bahia. n. 17, 2020. Disponível em: rente da expansão da educação superior privada e mercantilizada no Brasil, centralmente pautada pelo alcance do lucro. O trabalho docente tem sido uma 12 jan. 2021. temática pesquisada no meio acadêmico a partir de diversas abordagens que possibilitam suas compreensões política e pedagógica. Articulá-lo à identidade SOARES, Dulce Helena Pena. A escolha profissional: do jovem ao adulto. e à profissionalização docentes, compreender sua intensificação e sua precarie- São Paulo: Sumus, 2002. dade; investigar as condições de trabalho nas quais os docentes desenvolvem suas atividades profissionais; problematizar as questões de gênero e étnicas TERRAIL, P. L'issue scolaire: de quelques histoires de transfuges. In: Destins que o atravessam; são algumas possibilidades de aproximações investigativas ouvriers: la fin classe?. Paris: PUF, 1990. que encontramos para analisar a categoria trabalho docente. Todavia aqui, apresentamo-lo a partir do contexto de expansão da educação superior privada VERAS, Renata Meira; LEMOS, Denise Vieira da Silva; MACEDO, Brian brasileira. Todavia aqui, apresentamo-lo a partir do contexto de expansão Teles Fonseca. A trajetória da criação dos bacharelados interdisciplinares na da educação superior privada brasileira, cuja questão central que nos move Universidade Federal da Bahia. Avaliação, Campinas, V. 20, n. 3, 2015. é inquerir como o trabalho docente está sendo reestruturado no contexto da Educação Superior privada-mercantil no Brasil? VIEIRA, Carolinne Montes Baptista; VERAS, Renata Meira. Os fatores A subordinação do país às diretrizes neoliberais de organismos suprana- predominantes na escolha pelos cursos de Bacharelado Interdisciplinar da reguladoras das políticas públicas e indutoras do processo acelerado Universidade Federal da Bahia. Educação, n. 40, 2017. de privatização da educação, faz com que a política educacional brasi- leira venha incidindo sobre a organização do trabalho docente de forma ZAGO, Nadir. Do acesso à permanência no ensino superior: percursos de estudantes universitários de camadas populares. Revista Brasileira de Edu- cação, 11, n. 32, p. 226-237, 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/ 22 Organismos supranacionais como UNESCO, OCDE, BM, BID, FMI, OMC, OIT, CEPAL, OREALC, MER- COSUL têm assumido papel decisivo nas orientações de ordem política, técnica, metodológica financeira pdf/rbedu/v11n32/a03v11n32.pdf Acesso em: 13 jan. 2019. em múltiplas dimensões da vida nos países em desenvolvimento, particularmente no campo da educação superior, que no caso brasileiro pode ser considerado paradigmático.88 NOVOS ATORES NA EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRA: dilemas e possibilidades estreitamente vinculada ao processo de expansão e privatização da educação produção de conhecimentos válidos socialmente. Ou como evidencia a epigrafe superior, modificando as relações profissionais, pedagógicas e políticas neste desse capítulo, esta lógica impõe limites a uma educação estruturada num ensino campo. Em sintonia com o movimento global da reestruturação do capital, crítico que demande uma forma igualmente crítica de compreender e de realizar estas políticas, fincadas nos princípios neoliberais, deterioram o sentido do a leitura do contexto. trabalho, redimensionam o papel do Estado e reestruturam as formas de pro- Por certo, tal qual acontece em outras regiões do mundo globalizado, a dução do conhecimento, tomando a educação superior como um mercado atuação das organizações²⁴ mercadológicas de educação superior se desen- rentável e sujeito aos ditames da mercantilização. volve apoiada numa atualização da epistemologia da educação bancária, Outrossim, as políticas educacionais nos últimos 30 anos possibilitaram tão bem analisada e criticada por Freire (2005) as informações estão uma transformação da formação em nível superior no Brasil passando de organizadas em aparatos tecnológicos e redes de informação e são repassa- um ensino altamente elitizado a uma massificação desse nível de formação, das, por um preço determinado, ao "estudante cliente" por professores que embora ainda estejamos longe de oferecê-lo à maioria da nossa juventude. operam essa engrenagem pseudopedagógica. Barnett (2001) desmascara Essa transformação sustentou-se, em grande parte, no domínio da iniciativa fosso existente nesta "engenharia formativa" quando afirma que as infor- privada na educação superior, como se evidencia no Quadro 1 abaixo: mações só ganham sentido quando passam por algum tipo de intervenção Quadro 1 Números de IES, cursos, vagas, ingressantes e conceitual, pois sem análise, interpretação e compreensão, a informação matrículas de graduação por categoria é cega. O autor enfatiza ainda que num mundo de transformações tão rápidas como é o que nos cabe viver, a capacidade de lidar com volume Categoria N° de cursos de N° de IES N° de vagas em cursos N° de matrículas Administrativa crescente de informações e de dados pressupõe compreensão sabedoria, graduação de graduação de graduação elementos que, ao contrário da informação e dos dados, não podem ser Total Geral 2.608 100% 40.427 100% 16.425.302 100% 8.603.824 100% comprados ou vendidos numa economia que mercantiliza a formação em Pública bancos de conhecimento. Privada 15.587.493 94,9% 6.523.678 75,8% Para desenvolver as ideias que introdutoriamente apresentamos, orga- Fonte: Elaborado pelas autoras com base no Resumo Técnico do nizamos o capítulo em duas partes. Na primeira, discutimos papel do Censo da Educação Superior 2019 (BRASIL, 2021). trabalho como constitutivo da sociedade humana para então problemati- Em números absolutos e relativos, é possível ver claramente o predomínio zar o trabalho docente realizado nas organizações privado-mercantis de da iniciativa privada na educação superior brasileira quando observamos este educação superior junto a estudantes majoritariamente oriundos da classe cenário composto por 88,4% de IES privadas, ofertando 94,9% de vagas nos trabalhadora. A ênfase analítica recai sobre o processo de transformação 73,5% de cursos de graduação existentes nesta categoria administrativa que da educação em mercadoria, o que cerceia o trabalho docente e impõe absorve 75,8% do total de matrículas. Estes números também podem nos ajudar professores e professoras as mais difíceis relações de Na segunda a enxergar as assimetrias se comparados àqueles que representam a categoria parte, abordamos as interferências da gestão do ensino mercantilizado nas administrativa pública. No entanto, o nosso objetivo em apresentá-los resvala na práticas docentes, constituindo um verdadeiro campo de disputas sobre fundamental importância de articulá-los a negligência das políticas educacionais, os modos de atuação de professoras e professores, o que acaba por retirar dando guarida à exploração capitalista ao não assumir a Educação Superior deles a possibilidade de decisão sobre sua atuação formadora junto a seus como direito. Os limites dessa lógica apresentada em dados estão, sobretudo, alunos. Numa direção contraofensiva, buscamos apontar possibilidades para na efetivação da perda de qualidade da Educação Superior, deslocando suas que o trabalho docente possa ser compreendido e realizado criticamente funções precípuas de criticidade e de problematização da realidade, com vista à na perspectiva da transformação social. 24 Assumimos neste texto a distinção feita por Chauí entre instituição e organização educacional adolamos 23 Em razão dos objetivos deste texto, na elaboração do quadro as autoras consideraram os números, inde- a denominação "organização" para nos referirmos aos empreendimentos mercantilistas de educação pendentemente das modalidades de ensino (presencial e educação a distância), dos tipos de vagas (novas, superior caracterizada por como sendo aquela com foco nas "[...] de gestão, remanescentes e programas especiais) e das organizações acadêmicas (universidades, centros universitários, previsão, controle interessando por] discutir ou questionar sua própria existência, sua função, Institutos Federais Centros Federais de Educação seu lugar 2003,O trabalho docente frente aos limites impostos pela expansão da na sala de aula, a fim de produzirmos coletivamente uma práxis que resista educação superior privada e enfrente o desafio da camisa de força do capital (CORREA; ALMEIDA, 2020). Esta relação entre o todo e a parte é irrefutável, pois o trabalho docente Para discutir o trabalho docente julgamos que é importante delinearmos vivenciado em sala de aula não acontece apartado das influências capitalis- nossa compreensão sobre a categoria trabalho numa perspectiva mais ampla. tas. Pelo contrário, ao problematizá-lo em meio à realidade social, estamos Nosso entendimento é de que o trabalho constitui a realidade social e está envidando esforços para compreendê-lo em sua historicidade e contradições, intimamente imbricado com a historicidade da humanidade, conduzindo-nos ou seja, como fatos passíveis do conhecimento humano num movimento a problematizá-lo a partir das contradições e disputas das classes sociais. dialético (KOSIK, 1976). O trabalho docente, como uma das formas específicas da categoria traba- Podemos afirmar, com base em Marx (2004), que o trabalho está direta- mente ligado à produção da existência do ser humano, por isso suas dimensões lho, não diferentemente, passa por mudanças profundas, sendo a expansão da ontológica, histórica e social. Desse modo, como discute Frigotto (2009), educação superior orientada pelo ideário neoliberal e pela lógica do capital, numa sociedade capitalista é fundamental o entendermos como uma cons- uma das suas maiores expressões. Mancebo (2004) analisou como a produção trução social vinculada às classes sociais, entre as quais há um processo de acadêmica abordou a temática trabalho docente ao longo do espaço-tempo dominação de uma sobre as outras. Conforme esta acepção, o trabalho está de 1968 a 2000, totalizando um período de 32 anos. Na análise qualitativa vinculado à produção social, à existência humana e subordinado ao capital, realizada nos 335 documentos encontrados, há importantes diferenças ao se destarte afetado pelos processos econômicos e culturais, em vista dos lucros, considerar os três subperíodos. uma vez que "Para o capitalista, a aplicação mais útil do capital é aquela que No primeiro (1968-1977), ela aponta que a produção é marcada pela Reforma Universitária de 1968, na qual os trabalhos estavam submetidos lhe rende, com igual segurança, o maior ganho" (MARX, 2004, p. 46). Isto silenciamento da época, trazendo temáticas mais técnicas sobre a profissão coloca a vital necessidade da difusão ideológica capitalista como base de docente. No segundo subperíodo (1978-1996) há uma mudança no perfil dos apoio para a manutenção do sistema e impulsiona as investidas políticas para capturar a educação e subordiná-la à implementação desse interesse. documentos que aparecem com temáticas sobre as condições do trabalho Segundo Mészáros (2008), a vida cotidiana é dominada pelo ethos capi- docente, além de reinvindicações, surgimento das associações de classe e talista, sendo importante que a educação rompa com a internalização deste questionamento quanto a "[...] política educacional do governo, bem como valor. Ao tratar da lógica do capital na contemporaneidade, o autor argumenta ao modo hierárquico e autoritário das instituições universitárias se organiza- que as políticas educacionais estão articuladas com a reprodução dos valores rem" (MANCEBO, 2004, p. 240). Não obstante, são indicados trabalhos que capitalistas na busca permanente por criar consenso social de modo a preservar já anunciavam a busca pela modernização da educação superior tendo como seus próprios princípios através da internalização do seu ideário por parte da eixo as políticas neoliberais que priorizam o gerenciamento e o controle das sociedade. Para ele, o poder do dinheiro e da busca do lucro têm efeitos alie- instituições e do trabalho docente com vistas à produtividade, eficiência e nantes e desumanizantes, o que nos permite inferir que a história foi e continua racionalização de recursos. Já no terceiro subperíodo (1990-2000) houve crescimento e a complexificação dos trabalhos, abordando a produtividade, sendo falseada com o propósito de manter os interesses dominantes do capital, não sendo possível para a educação, se eximir da participação efetiva na luta qualificação, flexibilidade, polivalência no magistério, privatizações na edu- contra a sociedade mercantil, enfrentando este processo de internalização cação superior e seus reflexos nas práticas docentes, crises nas atividades ideológica em busca da superação desse estado de coisas na perspectiva de sindicais entre outras temáticas que estão intimamente articuladas às políticas eliminar a profunda desigualdade social e buscar a emancipação humana. neoliberais na educação. Evidenciam-se as mudanças provocadas pelo pro- Nesta seara, o trabalho docente realizado nas organizações privado-mer- cesso da globalização que acontece de forma desigual entre os países ricos e cantis de educação superior junto a estudantes majoritariamente oriundos da os empobrecidos, reservando para os últimos o lugar de preparação de mão classe trabalhadora, assume centralidade. Para compreendê-lo em suas múlti- de obra, cujo processo produtivo transforma o conhecimento em mercadoria, plas determinações é importante problematizar a articulação entre o todo e a imprimindo um modo de educar baseado no mercado. parte, ou seja, compreender o sistema político e a educação superior em suas Enquanto Mancebo já identificava que a tecnologia mostrava sua face em várias dimensões e articulações, tendo em vista como estes macromovimentos documentos analisados no subperíodo de 1990-2000, evidenciando as mudan- interferem nas formas de organização do trabalho docente e suas reverberações ças advindas da globalização e do avanço do neoliberalismo afetando o trabalho92 NOVOS ATORES NA EDUCAÇÃO SUPERIOR BRASILEIRA: dilemas possibilidades 03 acadêmico, desde a sua produção até a "[...] superficialidade das comunica- O reconhecimento desta realidade é igualmente estudado por Sguis- ções virtuais e dos produtos acadêmicos, muitas vezes 'requentados' diante sardi (2017, p. 152) que, a partir de suas pesquisas identifica que "O traço da exigência da rápida produção" (MANCEBO, 2004, p. 246), Antunes mais característico do regime de trabalho docente das IES privadas é (2019) analisa a reestruturação do mercado de trabalho, evidenciando que de professor horista (pago por hora-aula), que atinge quase 50% do total a classe média tem sido fragmentada e que o setor de serviço, gerido pela de docentes dessas Com essas condições, nas organizações indústria da tecnologia, tem distanciado os trabalhadores do trabalho inte- de educação superior privado-mercantis, cujas raízes estão fincadas, no lectual, ainda que este tipo de trabalho seja o que melhor caracteriza esta processo de expansão da educação superior, no solo movediço do neo- classe. Diante disto, dentro da própria classe média encontramos o referido liberalismo, os contratos e o trabalho docente vão sendo violentamente fracionamento entre os trabalhadores da área de serviços e aqueles que alterados, assim como as condições de sua atuação, sempre alinhadas às realizam trabalhos intelectuais, como os profissionais liberais e, no caso medidas racionalizadoras e de eficiência, nas quais o ensino, a pesquisa específico da nossa análise, os professores. e a extensão sofrem impactos profundos. Sob o escrutínio desta lógica, Vale a pena trazermos um pouco mais das análises de Antunes (2019), surgem a diversificação de instituições e de cursos; a cultura de avaliação que evidenciam o quanto o capitalismo produtivista com rankings institucionais; as parcerias público-privadas; e amplia o surgimento do trabalho intermitente, criando modalidades distintas a mensuração da produtividade acadêmica, colocando o papel problema- nas quais, sob a aparência do não valor, aumenta a produtividade, a inten- tizador e ético do ensino superior em mais uma crise. sificação e a diversificação do trabalho. Para este estudioso, esta realidade Com relação a tal contexto, Sguissardi (2015) postula que na economia reinventa novas maneiras de exploração do trabalho sob o manto do aparato ultraliberal há uma anulação das fronteiras entre o público e privado- das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), fazendo com que -mercantil de baixa qualidade, reverberando na transformação da educação "[...] a lógica destrutiva do capital seja múltipla em sua aparência, mas como direito e como serviço público em serviço comercial ou mercadoria. una em sua essência [...]" por isso "[...] profundamente adversa ao traba- Para ele, esta realidade pode ser facilmente apreendida a partir do esta- lho" (ANTUNES, 2019, p. 21-22). Nas suas formulações, Antunes (2019) tuto jurídico das instituições e da educação superior, do vultoso número entende que apesar da diversificação de tipos de trabalho sejam intermi- de matrículas, da oferta do ensino noturno e da educação a distância, da tentes, temporários, informais, autônomos todos são desregulamentados concentração dos cursos e matrículas por área de conhecimento e, especial- e se encontram fora de um arcabouço legal protetivo social do trabalho. mente, da presença de fundos de investimentos nacionais e transnacionais Com fundamento nas análises de Antunes (2019), é possível entender neste campo. Com efeito, argumenta ele que a mercantilização da educação que os professores, mesmo estando na classe média e exercendo trabalho superior no Brasil teve um aparato jurídico fundamental com a mudança intelectual, têm suas condições de trabalho cada vez mais precarizadas e estatutária e de regime administrativo das IES privadas, que conforme as interpeladas pela lógica do capital que, por ser altamente colonizadora, palavras do pesquisador "[...] irão legalizar o negócio mercantil da educa- transforma a educação em mercadoria, cerceia o trabalho docente e sub- ção" (2015, p. 874). Para ele, a expansão da educação superior precarizou mete os professores à flexibilização dos seus contratos, fazendo surgir ainda mais o trabalho docente, que tem realidades muito contrastantes na professores substitutos, horistas, temporários, tutores, mediadores e tantos distribuição dos docentes por regime de trabalho segundo as categorias outros "tipos" de professores e de contratos de trabalho. Os argumentos administrativas públicas federal e privada: do autor nos possibilitam afirmar que apesar da diversidade de "tipos" de professores e da flexibilização dos contratos de trabalho, há uma unicidade nas condições e na intensificação do trabalho docente, sempre precarizado, sem direitos trabalhistas e proteção social assegurados. Esta realidade é coronavírus, ainda não identificado em seres humanos. Já em 11 de março de 2020, admitiu-se ser uma atualmente agudizada com o trabalho remoto emergencial em decorrência pandemia, tendo em vista a distribuição geográfica da doença e não necessariamente a sua gravidade, da pandemia causada pela denominando-a de covid-19. No Brasil, as primeiras medidas regulamentares oficiais sobre a pandemia foram: a Portaria MS n° 188, de 3 de fevereiro de 2020, que declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) em decorrência da Infecção Humana pelo Novo Coronavirus e a Lei Federal 25 Conforme a Organização Mundial de Sáude (OMS), em 31/12/2019 apareceram casos de pneumonia na de 6 de fevereiro de 2020, que dispôs sobre medidas para enfrentamento da citada emergência cidade de Wuhan, de Hubei, na República Popular da foi verificado um novo tipo de de saúde pública de importânciaNOVOS ATORES NA SUPERIOR BRASILEIRA: dilemas e possibilidades 95 O regime de trabalho dos docentes das IES federais assim se distribui: 1% horistas; 8% tempo parcial; e 91% tempo integral. O regime de trabalho crítica, a problematização da realidade e o desnudamento da brutalidade do dos docentes das IES privadas: 41% horistas; 34% tempo parcial; e 24% capitalismo no sentido de superar a situação denunciada poderá resistir aos tempo integral (SGUISSARDI, 2015, p. 884). ditames do ensino mercantilizado como parte do projeto de uma sociedade massificada e submissa ao neoliberalismo. Esta é a tarefa que nos ocuparemos Ademais, complementa o autor, "A relação professor/alunos nas 108 na próxima seção deste capítulo. universidades públicas, em 2012, é 1/13; a das 85 universidades privadas é de 1/33. A relação tempo integral/matrículas é de 1/16 nas universidades A prática docente em disputa no contexto do ensino mercantilizado públicas e 1/88 nas universidades privadas" (2015, p. 884). Esses dados fortemente díspares evidenciam que a expansão da educação superior foi A contradição estruturante do mercado da educação superior impõe, orientada pelos princípios neoliberais que movem a economia e o mercado, como visto, uma condição de trabalho aos seus professores e professoras e de assegurando uma lógica produtivista e racionalizadora às políticas educa- formação aos seus estudantes constitutiva de um modelo de organização for- cionais moduladas pelo Estado. madora que se caracteriza, acima de tudo, pela busca do lucro, entrando em O trabalho docente caracterizado com todos estes aspectos e influen- colisão frontal com as expectativas e sentidos historicamente sedimentados ciado por todo este contexto, foi novamente mudado, quando em 2020 acerca da compreensão de que a formação profissional é parte constitutiva fomos mundialmente assolados pela pandemia causada pela covid-19. Este da formação humana. Ou, como considera Chauí (2003), toda formação fenômeno impactou a sociedade na sua totalidade, e no caso do Brasil, significa, antes de tudo, a inserção dos sujeitos na cultura socialmente acu- agravou a situação da população em todas as suas dimensões, expondo as mulada, de modo que ela possa fertilizar as relações reflexivas e críticas fraturas que o capitalismo já tinha causado ao redor do mundo. Este cenário com o presente. Portanto, ela não se reduz à profissionalização de pessoas, foi imperativo no desenvolvimento do trabalho docente de todos os níveis ao preparo para o mundo do trabalho e do mercado e à busca de sucesso. de ensino na educação brasileira, mas, em particular, na educação superior Porém, diante de tamanha responsabilidade formativa, o que se viven- privado-mercantil, na qual o professorado passa por demissões em massa, cia é o oposto, o que nos leva a empreender esforços para desnudar os perde a prerrogativa de avaliar seus alunos, é substituído por robôs e assis- mecanismos que (des)orientam e (re)configuram as práticas docentes no tem à aglutinação de turmas, gerando assim salas de aulas com número ambiente privado mercantil, esvaziando sua dimensão transformadora e exacerbado de estudantes. Aqueles que não foram demitidos, ficaram obri- emancipadora. Avessas às teorias pedagógicas críticas, as organizações gados a assumir mais funções administrativas e pedagógicas, além de turmas educacionais mercantis e os organismos públicos que lhes dão sustenta- gigantes, tudo justificado pelo momento pandêmico. Contudo, na verdade, ção fazem coro para realçar a importância da dimensão prática da for- trata-se do aproveitamento desse momento pandêmico para dar consecução mação, exaltando as compreensões de senso comum, levando à repetição ao projeto barateado de expansão da educação a distância o que com a mecânica de ações no contexto da formação dos estudantes. Trata-se de pandemia chamou-se de ensino remoto emergencial por meio das ações um movimento de captura das práticas docentes, direcionando-as para a que substituíram imediatamente o ensino presencial. Se o trabalho docente já sofria impactos advindos do modelo de expansão da educação superior, reprodução de relações mediadoras com o conhecimento de modo instru- mental, engessado, mecânico e passivo. com a pandemia esta situação foi exponencialmente piorada. Diante desse quadro é possível afirmar que o trabalho docente, enquanto De quais práticas docentes falamos aqui? Em oposição às intenciona- atividade histórico-social, sofre com os efeitos dos limites impostos pela lidades empresariais formativas, compreendemos que as práticas docen- expansão da educação superior mercantilizada, pois dos professores e pro- tes precisam se apoiar em concepções pedagógicas que lhes assegurem o fessoras é retirada a possibilidade de interrogar e questionar seu papel e seu direcionamento intencional do fazer que amalgama a relação entre pro- lugar na produção do conhecimento e na formação de sujeitos sociais, o fessor e seus alunos e de ambos com a sociedade. Direcionamento este que passa necessariamente pelo rigor da crítica, do compromisso ético, da que defendemos focado na perspectiva emancipatória e de constituição de responsabilidade social. Cabe-nos indagar como este trabalho realizado sujeitos profissionais compromissados com o bem comum. Práticas tecidas na concreticidade da sala de aula e centrado numa didática que promova a nessa perspectiva estão circunscritas às situações didático-pedagógicas que tomam ensino e a aprendizagem como núcleos fundamentais do processoformativo, no qual humano não está subordinado ao técnico-instrumental desejado pelo mercado. mesmo diante das evidências de que cada situação didática é única e irre- petível. Essa prática orientada pelo ideário do mercado impõe, entre outras Porém, das professoras e professores vem sendo retirada a possibili- dade de desenvolverem práticas criativas, com finalidade intencionalmente questões: diretrizes curriculares pautadas em noções abstratas de aprender estabelecida, planejamento, acompanhamento, vigilância, responsabilidade a aprender e educação ao longo da vida; desenvolvimento de competências social, atributos necessários ao enfrentamento dos desafios do seu trabalho, e habilidades descontextualizadas e fragmentadas; deslocamento do foco de modo a contribuir com estudantes cada vez mais distintos em termos de do ensino para a aprendizagem; processos de avaliação, recursos didáti- histórias de vida e de bagagem educacional e cultural. cos, organização do espaço/tempo de aula de modo estandardizados. Ela continua sendo prática docente, mas se efetiva distante de um processo de Nas últimas três décadas temos acompanhado, por meio da realização de pesquisas e orientações²⁶, o ingresso de estudantes com perfis cultural- aprendizagem verdadeiro, ou como considera Saviani (2000, p. 17), "capaz de produzir em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida mente muito heterogêneos, com inúmeras dificuldades não equacionadas na escolarização básica e limitações para o estudo resultantes da sobrecarga do histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens". Na mesma direção, trabalho e das distâncias entre casa-trabalho-estudo, e discutido os desafios trazemos o argumento de Frigotto (2021), que afirma que nas sociedades capitalistas às professoras e aos professores é atribuída a função sublimi- que esse contexto impõe às práticas docentes. nar de naturalizar as desigualdades, os insucessos profissionais e pessoais, Diante desses alunos e alunas, como realizar uma prática docente camuflando as contradições de classe e as injustiças sociais que vitimam que se afaste do paradigma da reprodução e desenvolva a compreensão da realidade social articulada com os conhecimentos específicos das diversas as maiorias populacionais, consolidando as relações sociais de dominação áreas? Faz-se mais que necessário o desenvolvimento de uma formação pro- e enraizando a noção de autorresponsabilização acerca dos fracassos dos fissional em nível superior ancorada em valores constitutivos da formação excluídos. Assim, essas transformações trazem repercussões às práticas humana com compromissos éticos, sociais e emancipadores; no respeito à docentes, o que repercute no processo formativo de futuros profissionais vida, à dignidade das pessoas, às necessidades sociais, à diversidade cul- (CAMPOS; ALMEIDA, 2019; TORRES, 2014). tural na direção ao combate das desigualdades e dos preconceitos; valores Certamente é possível encontrarmos professores e professoras que aca- tam essa subjugação do seu trabalho aos ditames das transformações imple- que expressam a concepção pedagógica do trabalho docente. Estes são, mentadas pela lógica neoliberal. Isso pode ser explicado pela fragilidade ao nosso ver, os elementos constitutivos do campo de batalha no qual os docentes podem exercer uma prática alicerçada em conhecimentos didáti- da formação dos docentes para a educação superior (TORRES; ALMEIDA, 2013, 2017, 2018; TORRES, 2014; ALMEIDA, 2012), comumente centrada co-pedagógicos que assegure condições para o desenvolvimento intelectual na pesquisa das áreas de conhecimento em cursos de pós-graduação e longe e humanizador da juventude. De acordo com Franco (2016, p. 543), dos conhecimentos pertinentes ao ensino. Assim, diante da falta de com- O professor, no exercício de sua prática docente, pode ou não se exercitar preensão da trama de fatores que sustentam a prática docente, sentem-se pedagogicamente. Ou seja, sua prática docente, para se transformar em prática até aliviados das responsabilidades de atuarem com base em fundamentos pedagógica, requer, pelo menos, dois movimentos: o da reflexão crítica de sua pedagógicos e didáticos, o que envolveria, na compreensão de Libâneo prática e o da consciência das intencionalidades que presidem suas práticas. (2014, p. 69), "dominar os instrumentos de trabalho, ou seja: as teorias, os conceitos, os métodos, mas também os modos de fazer, os procedimentos, No entanto, esses pressupostos que alicerçam uma prática docente as técnicas de Com isso, tornam-se presas fáceis das políticas transformadora vão de encontro ao contexto mercantilizado que promove oficiais e institucionais intencionalmente dirigidas à tutela das práticas uma prática reprodutora, com aulas previamente estruturadas por outrem, docentes e à implementação de uma didática colonizadora que solapa a autonomia de seu trabalho. 26 MATOS, M. S.; PIMENTA, S. G.; ALMEIDA, M. OLIVEIRA, M. A. C. impacto do Programa de Inclusão Mas há também inúmeros profissionais que buscam encontrar brechas, Social da Universidade de São Paulo no acesso de estudantes de escola pública. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, V. 93, p. 720-742, 2012.; BELLETATI, V. C. F. Dificuldades de alunos ingressantes tal qual a água em meio às rochas, para que sua atuação extrapole o espaço na universidade pública: indicadores para reflexões sobre a docência Orientadora: Maria da prática asséptica, descontextualizada e verticalizada, e alcance espaço Isabel de 2011. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011. para realmente ensinar por meio do desafio, do estabelecimento de relações, da crítica, da problematização, da intencionalidade transformadora. Sãoparticipantes do movimento de resistência às transformações neoliberais político-pedagógicas capazes de sustentar sua ação de ensinar que tem, na da educação superior e buscam reencontrar e construir sentidos para a mediação, um princípio estruturante do fazer docente e visa à constituição necessária autonomia docente, o trabalho intelectual, o compromisso social de sujeitos autônomos e à transformação da realidade. Esse é o caminho e ético da profissão (LAVAL, 2004). para superação da ideia da aula como um espaço apolítico, apartado das Por fazermos parte desse movimento, seguimos na trilha provocativa pos- relações com a sociedade, evidenciando como o ensino é território em dis- tulada por Freire (2005) ao apontar que é preciso ir da denúncia ao anúncio. puta. Essa concepção está em sintonia com a consideração de Freire (1980, Por isso consideramos fundamental construir possibilidades para que o trabalho p. 39) quando afirma que docente possa ser compreendido e realizado na perspectiva da transformação social, o que requer entender o ensino núcleo central da atuação docente em é preciso que a educação esteja em seu conteúdo, em seus programas e em meio ao conjunto das contradições que o envolvem e o colocam em disputa na seus métodos adaptada ao fim que se persegue: permitir ao homem chegar contemporaneidade. Ensinar requer escolhas, intencionalidades, diálogo, experi- a ser sujeito, construir-se como pessoa, transformar o mundo, estabelecer mentos voltados para que a aprendizagem se efetive. Falamos então dos modos com os outros homens relações de reciprocidade, fazer a cultura e a história. como a docência se efetiva enquanto prática social complexa, com sustentação pedagógica e didática capaz de fomentar seu sentido Acreditamos que a aula é um espaço-tempo de construção coletiva do O ensino enquanto núcleo estruturante do trabalho docente desenvol- conhecimento, que envolve os sujeitos a partir dos seus contextos sociocul- ve-se majoritariamente na aula. Peterson (1999, p. 25) afirma que "se a aula é turais para questionar e problematizar o conhecimento, a realidade histórica ensino, o é na medida em que consiste, antes e acima de tudo, em uma refe- e social, além dos lugares que cada um ocupa ou deseja ocupar no mundo. rência de leitura". Esse é um entendimento importante, pois se a ideia de que Com as tecnologias da informação favorecedoras da EaD e, especialmente, "leitura" é, antes de tudo, leitura do mundo, é ela que propicia a compreensão com a reconfiguração do ensino em decorrência da pandemia da covid-19, do objeto em estudo, que se realiza na interação com o mundo e torna mais a aula não está mais circunscrita à sala de aula e a uma grade-horária, pois próximo o domínio da cotidianidade (FREIRE, 2001). Daí compreendermos abrange e se conecta com espaços sociais externos, quebrando barreiras tem- que a aula é espaço-tempo de múltiplas leituras críticas do mundo, necessa- porais e espaciais. Porém, no cenário do ensino superior mercantil, o uso das riamente problematizadoras e contextualizadoras do conhecimento, o que é tecnologias mais avançadas tem se prestado a alterar a relação pedagógica e a antítese da concepção verticalizada de transmissão de um conhecimento à organização do trabalho didático, infelizmente de modo bastante lesivo ao único, correto e definitivo. Por essa razão, referimo-nos a "leituras", no plural. processo de ensino-aprendizagem. O ato de ensinar, enquanto ação teórico-prática, nutre-se da didática para Mas independentemente do modo e de onde a aula acontece, uma dimen- a realização da sua função social. É neste campo específico do vasto campo são profunda e importante do fazer docente, que é marcada pela intencionali- da pedagogia, dedicado à produção das teorias do ensino, que os docentes dade, é contribuir para a constituição do sujeito que aprende, dando relevância encontram os fundamentos pertinentes à sua atuação profissional. Almeida e a orientações acerca de como estudar, como aprender, como questionar, como Pimenta (2014) apontam que a didática se sustenta em um claro compromisso se organizar. Usando as palavras de Roldão (2007), a essência do trabalho ético-político e se opõe à visão tecnicista, instrumental e fornecedora de receitas docente não é propriamente ensinar, mas fazer aprender. Para além desses e modelos, portanto, advogam que a didática "ajuda a criar respostas novas, aspectos relativos à constituição do sujeito, há outros tantos igualmente impor- assumindo ao mesmo tempo um caráter explicativo, compreensivo e projetivo tantes na organização e no desenvolvimento didático-pedagógico da prática sobre a natureza do ensino, seus problemas e suas causas, suas consequências, docente como, por exemplo, a construção do conhecimento enquanto fenô- meno social; a problematização e a análise das distintas teorias que lhe são suas possibilidades e seus limites na construção do humano" (ALMEIDA; PIMENTA, 2014, p. 27). subjacentes e os tipos de práticas que elas fundamentam; as articulações teo- ria-prática, conteúdo-forma, intencionalidades-objetivos como estruturadoras Falamos então de uma fundamentação da prática docente que poten- dos processos formativos; as abordagens multi, inter e transdisciplinares do cializa desenvolvê-la enquanto práxis pedagógica, onde os docentes tenham conhecimento, de modo a proporcionar condições para os diálogos necessários acesso a aportes teórico-epistemológicos que permitam delinear com clareza às compreensões mais alargadas e contextualizadas dos campos de formação a concepção de educação, de ensino-aprendizagem, e possam fazer escolhas e de atuação (ALMEIDA, 2012).100 NOVOS ATORES NA SUPERIOR As bases pedagógica e didática constitutivas das práticas docentes evi- trazido fortes críticas à educação superior que deslocam sua função social, denciam o quanto a formação para a docência se mostra imprescindível àque- reconfigurando as relações de trabalho dos professores e professoras e alte- les que a ela se dedicam e pretendem desenvolver sua atuação pautada pelo rando o cotidiano das práticas docentes materializadas no ensino e na aula exercício de uma prática crítica, dialética e transformadora. Crítica no sentido como núcleos centrais da atuação do professor. Esta realidade potencializa de efetivar uma análise fundamentada no conhecimento pedagógico científico a exploração do trabalho docente desde a inclusão salvífica dos aparatos produzido historicamente no mundo a ser transformado. Dialética porque se tecnológicos que tentam subordinar o humano ao técnico, até as imposições ocupa em compreender a articulação dinâmica entre teoria e prática e suas de produtividade e de eficiência que secundarizam a prática docente funda- mentada em conhecimentos pedagógicos e didáticos, sobretudo no que se contradições, sem perder de vista a totalidade da prática docente. Transfor- refere ao trabalho intelectual materializado pelos professores. Se a educa- madora no seu sentido revolucionário de superação da realidade orientada ção superior transformada em mercadoria cria a flexibilização no trabalho por princípios que servem como crítica a ela mesma. docente, a fragmentação nos mais diversos tipos de contratos de trabalho, a Falamos, então, de adotar uma postura sustentada na compreensão, como captura das práticas docentes na direção de fazer da aula um espaço apolítico nos propõe Franco (2015), de que as nossas práticas pedagógicas requerem e afastado das relações com a sociedade, a ação do Estado brasileiro é de posicionamento, atitude, força e decisão no enfrentamento da ausência de anuência a tal realidade. Neste contexto histórico, a educação se torna mais reflexão, do tecnicismo exagerado, das desconsiderações aos processos de um segmento a serviço do acúmulo de capitais nas mãos dos empreendedores contradição e de diálogo. Só assim é possível se contrapor às dificuldades empresariais, diminuindo o papel e a esfera da atuação pública neste campo, presentes nas situações de ensino que esvaziam a prática docente e transfor- mas sem abrir mão da apropriação dos recursos públicos. É a consagração da mam o estudante em cliente e o conhecimento em produto. privatização da educação superior, processo em curso, como vimos, e com espaço para crescimento em detrimento da educação pública com compro- Considerações finais misso social transformador. A ingerência dos interesses privatistas na dimensão pedagógica do tra- O objetivo deste capítulo foi o de discutir a reestruturação do trabalho balho docente evidencia o tamanho do desafio colocado às professoras e aos docente decorrente da expansão da educação superior privada mercantilizada professores, pois a escolha da resistência à desestruturação de seu trabalho no Brasil, pautada pelo lucro. Para tanto, demostramos, por meio dos dados embora fundamental por si mesma, não assegura a realização de práticas do último censo, como o campo da educação superior está dominado pela críticas e emancipadoras. Mas consideramos importante que se compreenda iniciativa privada no Brasil, transformando as relações de trabalho que resva- que elas são possíveis, requerem fundamentos teóricos dos campos da peda- lam no campo educacional de maneira imperiosa. Essas mudanças têm sido gogia e da didática, bem como condições para serem desejadas, planejadas, paradigmáticas quanto ao papel da educação na sociedade contemporânea, discutidas e analisadas criticamente no confronto com a prática. Procuramos constituindo-se num fenômeno mundial ancorado no entendimento de que evidenciar que a prática docente, que tem no ensino seu núcleo estruturante, é possível transformar a educação em mercadoria, de modo a alcançar lucro precisa ser regida por princípios e compromissos ético-políticos e se opor às com sua realização. A supremacia da iniciativa privada frente aos serviços instrumentações tecnicistas, às receitas replicáveis, tão ao gosto das políti- públicos, faz com que as políticas públicas adquiram caráter suplementar cas e diretrizes educacionais contemporâneas. O que queremos destacar é a aos interesses do capital. Nesse enfoque, a educação não só deixa de ser necessidade e a possibilidade de os docentes reinventarem cotidianamente suas compreendida como direito, passando a ser explorada financeiramente como práticas por meio da reflexão crítica, do apoio das teorias, do diálogo entre um serviço, mas também tem reconfiguradas sua função social, a responsa- pares e com os estudantes. Estes são pontos de referência para a compreensão bilidade do Estado na sua realização e os modos como passa a se caracterizar da própria prática e sua ressignificação constante. Escolhemos, como epígrafe deste capítulo, um escrito de Paulo Freire pedagógica e didaticamente. No cerne do debate sobre a educação superior brasileira existem muitas que critica o ensino mecânico baseado na transferência e memorização e advoga um ensino problematizador que possibilite a leitura crítica do disputas orquestradas pelos organismos multilaterais que desenvolvem nar- contexto. Nessa direção, escolhemos para finalizar o capítulo, a reflexão rativas sincronizadas com os princípios do mercado que dizem das necessi- dades formativas como sendo adaptativas ao contexto da economia. Isto temdesenvolvida por Streck (2021), ao analisar as considerações de José Martí²⁷ REFERÊNCIAS acerca da universidade latino-americana. Indaga Streck: que são os óculos [referidos por Martí] se não as perspectivas epistemológicas para ler o mundo? Sendo acessórios necessários para ver, José Martí provoca-nos ALMEIDA, Maria Isabel. Formação do professor do ensino superior a pensar sobre o tipo de óculos adequado, sua procedência e o que permite desafios se políticas institucionais. São Paulo: Cortez, 2012. enxergar ou o que fica oculto à visão". Para nós, a constituição dos "óculos" é um dos pontos-chave do trabalho docente para propiciar uma formação ALMEIDA, Maria Isabel; PIMENTA, Selma G. Pedagogia Universitária humanizadora, crítica e compromissada com as classes trabalhadoras a fim valorizando o ensino e a docência na universidade. Revista Portuguesa de de possibilitar uma leitura crítica das relações de trabalho na sociedade Educação, Univ. do Minho, p. 7-31, 2014. capitalista com vista à luta coletiva para sua superação. Por isso mesmo os "óculos" se constituem em espaço de disputa. Resta-nos a pergunta: com ANTUNES, Ricardo. Proletariado digital, serviços e valor. In: ANTUNES, quais "óculos" enxergamos o trabalho docente diante da expansão mercantil Ricardo (org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV: trabalho digi- da educação superior brasileira? tal, autogestão e expropriação da vida: o mosaico da exploração. São Paulo: Boitempo, 2019. p. 9-23. BARNETT, R. Los limites de la competencia el conocimiento, la educa- ción superior y la sociedad. Barcelona: Ed. Gedisa, 2001. BRASIL. Ministério da Educação. 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Acesso em: 31 jan. 2022. A complexa realidade do Ensino Superior brasileiro, marcada pela falta de um projeto de nação verdadeiramente democrático para a educação, constitui um grande desafio à formação e ao desenvolvimento profissional do docente universitário. A essa lacuna, juntam-se condicionantes da práxis didática, ainda distinguida pelo excesso de academicismo que separa o ensino da pesquisa. Outro aspecto a destacar é que praticamente inexiste no Brasil formação pedagógica e didática para os professores atuarem nos cursos de graduação. É bastante comum encontrarmos bacharéis ministrando aulas em cursos como Medicina, Engenharia, Administração, Direito, entre outros (PIMENTA; ANAS- TASIOU, 2010). Nos cursos de Licenciatura, essa realidade não é tão diferente, uma vez que se acredita que o professor licenciado sabe o suficiente de Didática, ignorando-se que a Didática no Ensino Superior tem suas especificidades, os estudantes são outros e o ensino demanda uma abordagem investigativa. Há ainda as disputas presentes no campo da formação de professores no país, provenientes do movimento de reformadores da educação (FREITAS, 2012) que atuam diretamente dentro do MEC e são responsáveis pelas atuais políticas públicas²⁸ educacionais. Políticas essas que impactam o trabalho dos formadores de professores para a Educação Básica, nas IES/Universidades e que, a partir da BNC Formação de Professores, Resolução CNE/CP 2/2019 (BRASIL, 2019) elaborada a portas fechadas e sem diálogo com as entidades acadêmicas, científicas e sindicais da área a pesquisa está ausente. Desse modo, as atuais orientações legais para a Formação de res, assim como para a educação básica, estão voltadas para os resultados, para as dicotomias teoria prática e ensino pesquisa, para a fragmenta- ção das áreas de conhecimento, a padronização e o controle. Contradições 28 Freitas (2012) denuncia a influência nefasta dessas políticas no Brasil, em que conglomerados privatistas formados por empresários, institutos diversos, mídia, pesquisadores, intitulados Reformadores Empresa- rias da Educação propagam as ideias de responsabilização dos professores pelo fracasso escolar; dos testes para avaliação dos resultados do ensino/aprendizagem; da meritocracia (com bônus aos melhores das escolas da privatização por meio de bolsas de estudos concedidas pelo Estado, beneficiando escolas/IES como influenciam diretamente a formação de professores.