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DEPÓSITO DE MINERAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Classificar os corpos mineralizados em função das relações geométricas com a rocha encaixante. > Descrever a estrutura dos corpos mineralizados. > Relacionar os diferentes tipos de textura do minério com o processo genético de mineralização. Introdução Corpos mineralizados possuem características únicas, cada qual com dimen- sões, estruturas e índices físico-químicos específicos, refletindo diretamente a forma como foram originados. A gênese desses minérios está intimamente relacionada aos processos mineralizantes que os formaram, os quais conferem as particularidades estruturais e texturais em resposta aos processos geológicos a que estão suscetíveis. Além dessa possibilidade de variação, os depósitos minerais podem ser subdivididos com base no formato do corpo mineralizado e nas relações com a rocha encaixante. Por consequência, depósitos de um mesmo metal podem possuir características e ocorrências muito distintas, a exemplo do cobre (Cu). Caracterização de minérios e corpos mineralizados Fernando Rodrigues da Luz Neste capítulo, vamos definir minérios, como são formados e quais são os tipos de relação desses materiais com suas rochas hospedeiras. Portanto, vamos explicar como se dão as interações que modificam as características do minério, como o ambiente pode imprimir, nos minérios, as mais diferentes texturas e estruturas, e como pode ocorrer a relação desses corpos com o contexto geológico das mais diversas áreas do Planeta. Rocha encaixante e minérios: uma relação geométrica Os minérios são constituídos por minerais metálicos ou não metálicos, ou por uma mistura de minerais com porções estéreis (ganga), que possuem um valor agregado e que podem ser minerados para fins econômicos (STANTON, 1972). Determinado tipo de rocha que tenha algum uso dentro de nossa linha produtiva ou que possa ser empregado com alguma finalidade na sociedade por relações de compra e venda também pode ser declarado como uma espé- cie de minério. Portanto, minérios são todos os bens minerais que possuem alguma aplicabilidade em nossas vidas. Para que sejam aplicados, precisam ser minerados e comercializados em nosso sistema de mercado. Porém, antes de os extrairmos, precisamos estudá-los. Um mineral? Um agregado de minerais? Minerais e rochas? É muito im- portante ter plena clareza do produto a ser minerado, conhecendo cada detalhe do minério de interesse. Para que isso ocorra, além de estudos sobre a composição química, as relações minerais, a geologia regional, etc., é de suma importância conhecer a relação do minério (ou do corpo mineralizado) com a rocha que lhe serve como encaixante. Essas relações permitem clas- sificar as diferentes ocorrências minerais em tipos específicos, facilitando o entendimento. Primeiramente, um minério pode possuir origem relacionada a processos singenéticos ou epigenéticos. A singênese se refere ao processo, fenômeno, estrutura, textura ou ma- terial desenvolvido junto com a deposição ou formação da rocha hospedeira. A palavra vem do latim: “sin” significa simultaneidade e “genesis”, origem. Portanto, um minério dito singenético é aquele formado ao mesmo tempo que a rocha em que ocorre, fazendo, muitas vezes, parte da sucessão estratigráfica local, como é o caso das formações ferríferas bandadas (ou BIFs, do inglês banded iron formations) (NUTMAN; BENNETT; FRIEND, 2017; MARTIN et al., 2006). Caracterização de minérios e corpos mineralizados2 Por sua vez, o termo epigenético se refere a processos, fenômenos, estru- tura, textura ou material desenvolvido após a constituição da rocha (Figura 1). O prefixo “epi”, do latim, traz o significado de posterior, então os minérios formados dessa maneira são superimpostos às rochas hospedeiras após sua cristalização ou sedimentação, como a mineralização de veios hidrotermais com ouro e cobre (Figura 1b) e a concentração de urânio em roll-fronts (frentes de rolagem) geradas pela percolação de água subterrânea em rochas per- meáveis (PARKER; HERBERT, 2000; RAMIREZ et al., 2017). Exemplos desse tipo de minério incluem os veios mineralizados, que são formados em resposta a fatores externos como pressão, temperatura, presença de fluídos, etc. Figura 1. a) Exemplo de depósito epigenético: a água subterrânea superaquecida dos gêiseres circula por falhas e fraturas, precipitando os elementos dissolvidos, formando veios que podem ser mineralizados. b) Detalhe de um veio de quartzo com minério de ouro e prata. Fonte: Grotzinger e Jordan (2013, p. 84). Outra forma de classificação dos minérios refere-se à concordância, ou não, dos corpos mineralizados com os pacotes, camadas ou estruturas pre- ferenciais de deposição das rochas. Portanto, os minérios podem ser ditos concordantes ou discordantes (EVANS, 1993). Com relação aos corpos mineralizados concordantes, temos os seguintes. 1. Rochas encaixantes sedimentares: corpos mineralizados concordantes em rochas sedimentares constituem importantes depósitos, como os de ferro. Esses minérios podem fazer parte da estratigrafia, em um modelo de geração singenético como das BIFs, ou estar relacionados Caracterização de minérios e corpos mineralizados 3 a processos posteriores, epigenéticos, como no caso de preenchi- mento dos espaços vazios das rochas. É comum encontrar a descrição “estratiforme” para esse tipo de depósito, o que se deve ao comum desenvolvimento em duas dimensões dos corpos. A primeira dimensão acompanha o acamadamento das rochas sedimentares, sendo a se- gunda dimensão perpendicular a esta (Figura 2). As rochas sedimentares podem constituir-se como encaixantes de vários tipos de minérios (EVANS, 1993), como listado abaixo. ■ Calcárias — constituem rochas encaixantes de depósitos de sulfetos singenéticos (tipo Mississippi Valey) e epigenético (tipo escarnitos), conforme discutido por Evans (1993). As sequências dominantemente carbonáticas possuem a mineralização tendendo a se desenvolver em determinados níveis onde a permeabilidade é aumentada por processos como a dolomitização ou faturamento. ■ Sedimentos argiláceos — os corpos mineralizados costumam se desenvolver com grande continuidade e extensão, de forma con- cordante com os pacotes argilosos de folhelhos, argilitos e lamitos. ■ Arenosas — podem formar depósitos de sulfetos e óxidos detritais, bem como minérios entre os espaços dos poros do sedimento. Os formatos dos corpos mineralizados são variados, podendo ocorrer nódulos, pods e corpos irregulares com mais de 3 m de espessura, acompanhando as estruturas sedimentares e as características deposicionais. Muitas das deposições ocorrem em pacotes de concentração de minerais pesados em sedimentos não litificados, conhecidos como depósitos tipo plácer. São descritos depósitos de sulfetos, cobre, urânio, vanádio, etc. ■ Rudáceas — formam depósitos plácer em conglomerados e cascalhos aluvionares, sendo descritos famosos depósitos de ouro. Os depósi- tos formados dessa forma são um dos únicos depósitos tipo plácer desenvolvidos em rochas completamente litificadas. O formato e a distribuição dos corpos mineralizados sugerem que os minérios ocupam os canais distributários dos sedimentos depositados. ■ Sedimentos químicos — ocorrem concentrações minerais dissemi- nadas através da coluna estratigráfica, formando pacotes muito extensos. Normalmente há concentração de ferro sedimentar, man- ganês, evaporitos e fosforitos. Caracterização de minérios e corpos mineralizados4 Figura 2. Destaque para a ocorrência de duas formas de mineralização em uma mesma rocha encaixante. Veios discordantes desenvolvidos em falhas (linhas escuras verticais) relacionados a lentes concordantes com o acamadamento dos folhelhos em zona de anticlinal. Fonte: Evans (1993, p. 33). 2. Rochas ígneas vulcânicas: os depósitos passíveis de serem formados nessas rochas consistem no preenchimento vesicular e em depósitos de sulfetos maciços. O primeiro tipo,formado em zona de topo de derrames de lava com permeabilidade gerada por autobrechação, não forma depósitos considerados de muita importância à geologia econômica, ao contrário do segundo tipo, que configura importante fonte de metais de base como prata e ouro. Trata-se de depósitos estratiformes, lenticulares ou do tipo lençol, desenvolvidos em zonas de interface litológica. Em geral, são depósitos associados a riolitos, comumente ocorrendo em grupos ou em número restrito de horizon- tes da sucessão vulcânica, representando mudanças na composição, mudança de vulcanismo para sedimentação e/ou parada nos proces- sos vulcânicos. Esses depósitos normalmente estão relacionados a stockworks, que são ocorrências de minérios em filonetes ou veios finos, regulares ou irregulares, que cortam a rocha hospedeira. Em sua porção superior, costumam ocorrer os depósitos de sulfetos maciços, na forma de lençol (Figura 3). Caracterização de minérios e corpos mineralizados 5 Figura 3. Corpo mineralizado do tipo stockwork em rocha encaixante vulcânica com pacote de sulfetos maciços em sua porção superior. Fonte: Adaptada de Gumiel et al. (2010). 3. Rochas ígneas plutônicas: em geral, as intrusões ígneas causam um processo de concentração mineral em bandas alternadamente máficas e félsicas bem desenvolvidas. Por vezes, minerais de interesse econômico como a cromita, a magnetita e a ilmenita são concentrados, formando pacotes estratiformes que podem se estender por quilômetros (Figura 4). Caracterização de minérios e corpos mineralizados6 Figura 4. Concentração mineral em estratos durante intrusão ígnea. Fonte: Adaptada de Kruger e Latypov (2020). 4. Rochas metamórficas: normalmente ocorrem substituições minerais que formam depósitos irregulares, em geral em contato com auréolas metamórficas. Concentram-se minerais como a wollastonita, a anda- lusita, a granada e a grafita. 5. Depósitos residuais: são formados quando a parcela de material que não representa o minério é removida. Um exemplo desse enriquecimento relativo ocorre com bauxitas superficiais ou que foram soterradas sobre sedimentos juvenis, formando pacotes basais. Depósitos de caolinita derivados da alteração e da lixiviação de rochas graníticas também ocorrem dessa forma. 6. Enriquecimento supergênico: são concentrações metálicas geradas quando uma rocha mineralizada sofre intemperismo, erosão e trans- porte de seus componentes, formando novos depósitos minerais con- centrados e com elevados teores. Caracterização de minérios e corpos mineralizados 7 Com relação aos corpos mineralizados discordantes, temos os seguintes. 1. Corpos com geometria regular. São classificados em tabulares e tubulares. ■ Corpos tabulares possuem grandes extensões em duas dimensões, ao passo que pouco desenvolvimento é descrito em uma terceira dimensão. Esses corpos são descritos como veios e comumente ocorrem em estruturas do tipo pinch and swell (Figura 5), formadas a partir de uma fratura inicial que sofre movimento relativo entre suas paredes, originando espaços abertos, chamadas de zonas de dilatância. Quando o minério é depositado nessas cavidades, um veio pode ser formado. Veios normalmente se formam em sistemas de falhas, demonstrando regularidade em sua orientação. Em alguns depósitos, podem ocorrer centenas de finos veios paralelos, com densidade alta de mais de 30 veios por metro. Figura 5. Concentração mineral em estratos durante intrusão ígnea. Fonte: Evans (1993, p. 27). ■ Corpos tubulares, por sua vez, possuem pequenas dimensões em duas direções e extensas em uma terceira. Chaminés são os corpos tubulares verticalizados, enquanto camadas tabulares em lençol são os corpos horizontalizados. Muitas chaminés são geradas pela interação do fluido vulcânico com a rocha encaixante, propiciando a dissolução parcial dos minerais mais reativos da rocha hospedeira e, consequentemente, produzindo espaços abertos interligados em uma sequência, comumente anastamosada, formando depósitos Caracterização de minérios e corpos mineralizados8 tubulares (verticais) ou tabulares (horizontais), alongados, com extensão variando desde centimétricos até alguns metros (Figura 6). Figura 6. Detalhe de um corpo mineralizado no for- mato tubular de chaminé. Fonte: Evans (1993, p. 29). 2. Corpos com geometria irregular: são caracterizados como depósitos disseminados ou de substituição. Os depósitos disseminados ocorrem quando os minerais de minério se encontram dispersos na matriz da rocha encaixante. O mais conhecido exemplo desse tipo de minério são os kimberlitos, pois constituem um dos maiores portadores de gemas com grande valor de mercado (diamantes). Via de regra, essas gemas se encontram distribuídas pelo kimberlito, o qual geralmente forma corpos irregulares e que podem interceptar diversos limites geológicos, ocorrendo repetidamente no formato cilíndrico (Figura 7). Caracterização de minérios e corpos mineralizados 9 Figura 7. Estrutura cônica clássica de um kimberlito. Fonte: Adaptada de Yakovlev (2019). Os depósitos irregulares de substituição são formados pela modificações ocorridas na rocha preexistente por meio de reações de substituição em temperaturas inferiores a 400°C. Alguns exemplos são corpos mineralizados de pirofilita em piroclastos (STUCKEY, 1967) e de siderite em calcários (POHL, 1986). Outro processo de substituição pode ocorrer sob altas temperatu- ras em intrusões ígneas de larga escala, estes conhecidos como escarnitos (skarns). Esses depósitos são muito irregulares, podendo formar estruturas semelhantes ao formato de línguas ao longo de estruturas planares, camadas, juntas, falhas, etc. Um erro comum entre os estudiosos é a confusão relacionada à classificação de intrusões tubulares irregulares na forma de chaminés (pipes) quanto a serem kimberlíticas ou lamproíticas. Ambas as rochas são reconhecidamente hospedeiras de minérios de grande interesse econômico e possuem, basicamente, a mesma morfologia de “cone invertido”, além de uma mineralogia muitas vezes semelhante, o que alimenta essas confusões. Mas fique atento às diferenças. Caracterização de minérios e corpos mineralizados10 Kimberlitos são rochas peridotíticas, ultrabásicas, subsaturadas em sílica (SiO2 = 25 a 35% em peso), de química alcalina potássica, com baixo conteúdo de alumínio (Al2O3 5% em peso), peralcalinas e com SiO2 variando entre 45 e 55%, ocorrendo na forma de pipes e como derrames e diatremas. Os lamproítos são caracterizados por maiores conteúdos de SiO2, Al2O3 e K2O do que os kim- berlitos, ao passo que são mais empobrecidos em MgO, CaO, H2O, CO2, Ni, Co e Cr (COSTA, 1996). Além das diferenciações químicas entre esses dois depósitos que podem for- mar chaminés, algumas de suas feições texturais podem ser citadas. Por exemplo, nos kimberlitos, ocorrem as fácies hipabissais (diques e sills), diatrema (aspecto fragmentado, xenólitos da encaixante e mantélicos) e cratera (piroclastos, epiclastos e possíveis lavas), ao passo que, nos lamproítos, ocorrem apenas as fácies hipoabissal (podem alcançar a superfície) e cratera (piroclastos e lavas). Portanto, ao contrário dos kimberlitos, os lamproítos ocorrem, principalmente, como rochas extrusivas e subvulcânicas. Veja a Figura 8. Figura 8: Kimberlito versus lamproíto. Fonte: Costa (1996, documento on-line). Caracterização de minérios e corpos mineralizados 11 Os corpos de minério e suas principais estruturas Conforme um corpo de minério é formado, uma variedade de estruturas pode ser constituída em conjunto em respostaà forma de concentração desses agregados, relações com a encaixante e a constituição geológica do ambiente. As principais estruturas dos depósitos minerais incluem maciços, brechoides, bandados, em veios, etc. A maioria dessas estruturas pode ser observada acima, descritas sucintamente, na seção referente às rochas encaixantes dos minérios. Nesta seção, essas estruturas serão mais bem detalhadas. Depósitos brechoides Os depósitos brechoides apresentam estruturas variadas, sempre relacionadas ao faturamento da rocha hospedeira. A origem desses fraturamentos pode estar relacionada tanto à pressão de fluidos quanto à autobrechação, a zonas de falhas, a intrusões ígneas, etc. Essas zonas brechadas ocorrem com vazios entre seus constituintes, espaços que são preenchidos por fluidos e/ou mine- rais de minério, onde ficam concentrados. Estruturas como limites de falhas, zonas de cisalhamento, zonas intrusivas contendo diques alimentadores ou corpos ígneos na forma de batólitos ou stocks são comuns nestes ambientes. Depósitos bandados Depósitos bandados são formados, em geral, pela segregação de determinados minerais de minério em bandas específicas dentro das rochas. Formam-se níveis horizontalizados, comumente regulares, com diferenciação de cores (normalmente bandas félsicas e máficas), determinadas pela deposição de cristais formados em um processo de cristalização fracionada ativo dentro das câmaras magmáticas. Nesse processo, os cristais são formados no líquido magmático, sendo concentrados no fundo da câmara e depletando o magma em determinados elementos. Assim, quando o líquido não contém mais os elementos químicos necessários à cristalização de uma fase mineral, outra começa a ser cristalizada (alternância de bandas). Os primeiros minerais cris- talizados e depositados são, então, compactados pelos que lhes sobrepõem, gerando pacotes que contêm uma grande relação minério/ganga. Um novo pulso magmático pode enriquecer o magma nos elementos utilizados na primeira fase mineral cristalizada, repetindo o ciclo de minerais depositados no fundo das câmaras. Caracterização de minérios e corpos mineralizados12 Um exemplo desse tipo de estrutura são os depósitos de Bushveld, na África do Sul, onde extensos pacotes tabulares de minério são explorados. Trata-se do mais extenso depósito mineral acamadado do mundo. Outro exemplo são as BIFs, concentrações químicas de óxido de ferro alternadas com cherts ou jaspe formadas nos oceanos, principalmente durante o período Pré-Cambriano. As BIFs são rochas sedimentares bandadas ou laminadas que con- sistem em porcentagens superiores a 15% de ferro. Ocorrem con- centrações de minerais de ferro em bandas que são alternadas entre outras de quartzo, chert ou carbonatos (GROSS, 1965; BEKKER et al., 2010). A depender do mineral de ferro ocorrente, James (1954, apud GROSS, 1973) classificou as BIFs em quatro fácies distintas: óxido, sulfeto, carbonato e silicato. Outra classificação proposta (baseou-se no ambiente tectônico de ocorrência e nas dimensões e associações litológicas das BIFs, sendo citados os tipos Algoma, Superior, Clinton e Minette. Os mais importantes, pela ocorrência global, são os tipos Algoma (sedimentação rica em ferro associada a vulcanismo submarino em cinturões verdes, os greenstone belts arqueanos) e Superior (sedimentação rica em ferro associada a amplas plataformas sedimentares paleozoicas) (JUSTO, 2018). As BIFs tipo Algoma podem ser correlacionadas a processos vulcânicos sob a interpretação das anomalias do elemento Eu (európio), sugerindo uma maior contribuição de emanações hidrotermais vulcânicas, associando esse tipo a greenstone belts. Esses minérios ocorrem próximos a arcos vulcânicos e centros de espalhamento de placa (GOURCEROL et al., 2016). Os componentes mais dominantes nessas formações são os cherts, a hematita e a magnetita. Essas rochas já foram datadas de diversos períodos da história da Terra, mas foram amplamente e predominantemente formadas durante a idade Pré-Cambriana (~545 Ma) (JAMES; TRENDALL, 1982). Especula-se que esses sedimentos foram depositados pela precipitação de óxidos de ferro e quartzo microcristalino pela ação de oxigênio presente nas águas dos intervalos fóticos dos oceanos em águas profundas, anóxicas e ricas em ferro dissolvido. A gênese e as texturas de minérios As texturas formadas nos minérios possuem uma importância imensa para que possamos compreender perfeitamente a gênese desses materiais e como evoluíram. A interpretação dessas feições é um amplo ramo do estudo geológico dos minérios, visto que um número grande de variáveis pode ser introduzido no processo, como a deposição em espaços abertos por meio de soluções aquosas ou silicáticas, a substituição mineral, o metamorfismo Caracterização de minérios e corpos mineralizados 13 posterior, etc. Veja, a seguir, algumas texturas e suas relações com a gênese dos materiais. 1. Precipitação em fluidos silicáticos: ocorre preenchimento dos espa- ços das rochas (fraturas, vesículas, brechas, limites e contatos) pela cristalização dos minerais. Óxidos, como a cromita, podem cristalizar cedo nesses líquidos, formando grãos euédricos. Essas cromitas, de- positadas em líquidos silicatados, podem sofrer posterior corrosão e parcial reabsorção, produzindo grãos com texturas de corrosão com limites arredondados. Quando óxidos e minerais silicatados cristalizam conjuntamente, texturas anédricas e subédricas são geradas. Já os sul- fetos, por possuírem baixos pontos de fusão, normalmente cristalizam como agregados arredondados, na forma de globos imiscíveis (Figura 9). Figura 9. Grãos de cromita (pretos) parcialmente reabsorvidos em textura de atol (também denominados cromita podiforme) em meio a grãos constituintes de rocha anortosítica. Fonte: Evans (1993, p. 40). 2. Substituição mineral: a substituição mineral se trata da dissolução de um mineral e a simultânea deposição de um outro mineral em seu lugar, sem o desenvolvimento de apreciáveis espaços abertos e, co- mumente, sem a mudança de volume. Essa textura é particularmente comum de ocorrer em depósitos minerais do tipo escarnitos (skarn), os quais se formam quando rochas carbonáticas são intrudidas por corpos ígneos. O maior indicativo de que ocorreu uma substituição em um depósito mineral é a ocorrência de pseudomorfismo. O termo Caracterização de minérios e corpos mineralizados14 “pseudomorfo” indica “forma falsa”, sendo utilizado para minerais que foram substituídos internamente, mas mantiveram seu hábito (forma) externo (Figura 10). Figura 10. Grão de calcita sendo transformado em fluorita por meio de reação de substituição. Fonte: Adaptada de Pedrosa et al. (2017). 3. Inclusões fluidas: são pequenas cavidades dos minerais preenchidas por fluidos aprisionados durante o crescimento dos grãos das rochas. Esses fluidos podem conter informações sobre a gênese dos depósitos minerais, além de suprir dados sobre seu transporte e suas formas de deposição. Inclusões ditas primárias são aquelas formadas durante a formação do mineral, sendo importantes para a descrição das condições de formação do depósito, além de servirem como ótimos geotermôme- tros. Um dos fatos mais interessantes sobre as inclusões fluidas é o da ocorrência de salmouras muito fortes, muito superiores às encontradas naturalmente em superfície (ROEDDER, 1972). Muitas dessas salmouras em inclusões fluidas estão relacionadas a estruturas de segunda ordem, intimamente relacionadas a fenômenos magmáticos e metamórficos tardios, como a formação de greissens, pegmatitos e depósitos de minério, bem como a alteração de rochas hospedeiras e processos de sericitização e cloritização. Esses fluidos são as evidências de que muitos depósitos de minério são formados sob altas temperaturas e em presença de soluções aquosas. As inclusões fluidas secundárias são formadas por qualquer processo superimposto às rochas após Caracterização de minériose corpos mineralizados 15 sua cristalização, como em limites planares com inúmeras pequenas inclusões formadas durante a abertura de fraturas. Esses tipos de inclusões são muito comuns em depósitos pórfiros de cobre, por conta dos repetidos processos de brechação da rocha. 4. Alteração da rocha encaixante: ocorre, com frequência, ao longo da rocha diretamente em contato com os corpos mineralizados, podendo exibir inúmeras colorações, texturas, mudanças mineralógicas e quími- cas, entre outras modificações. A alteração da rocha hospedeira não ocorre em todos os casos, podendo estar ausente em alguns depósitos, ao passo que podem ocorrer mudanças extensivas na mineralogia des- sas rochas em outros casos. Estudos sugerem que as relações espaciais e temporais da alteração desses corpos estão relacionadas a reações causadas pelos fluidos mineralizantes que permeiam porções da rocha encaixante (EVANS, 1993). Muitas auréolas de alteração apresentam uma zonação de associações minerais relacionadas às mudanças ocorridas na natureza das soluções hidrotermais. Existem dois tipos principais de alteração de rochas hospedeiras. Vejamos. ■ Hipogênico — a alteração hipogênica é causada por soluções hidro- termais de alta a média temperatura, geralmente associada com fluidos magmáticos, metamórficos, mantélicos e sedimentares. ■ Supergênico — é ocasionada pela infiltração de águas meteóricas, de baixa temperatura, que reagem com horizontes previamente mineralizados. A alteração supergênica está relacionada ao clima, à topografia, à natureza das rochas, à biosfera e ao controle de drenagem do ambiente. Esse processo engloba a desagregação física e a decomposição química e biológica das rochas e minerais, transformando minerais de estrutura complexa em outros, de es- trutura mais simples (MELFI et al., 1999; FORMOSO, 2006). Os estudos das paragêneses hidrotermais podem fornecer dados acerca da natureza e evolução dos fluidos mineralizantes. A interação fluido/rocha altera a rocha, produzindo zonas de alteração hidrotermal em que predomina um determinado mineral ou associação de minerais, que serve de critério para denominar o tipo (ou zona) de alteração hidrotermal, como exemplificado a seguir. � Argilização avançada, a qual é uma das mais intensas formas de al- teração, acumulando, em suas zonas centrais, muitos metais de base em veios ou depósitos do tipo pipe associados a stocks plutônicos. Caracterização de minérios e corpos mineralizados16 � Alteração fílica é um dos tipos mais comuns de alteração em rochas aluminosas, como por exemplo, granitos. Durante a seritização dessas rochas, os feldspatos e as micas podem ser transformados em sericita, com o quartzo aparecendo como produto dessa reação. � Alteração propilítica é caracterizada pela ocorrência dos minerais clo- rita, epidoto, albita e carbonatos. A zona de alteração propilítica, quando presente, é um ótimo guia prospectivo para indústria de exploração. Com a intensa propilitização das rochas, podemos ter processos de albitização, cabonatização e cloritização. � Turmanilização é um processo relacionado a depósitos de alta tempe- ratura. Muitos veios mineralizados com ouro possuem forte desenvol- vimento de turmalina nas paredes das rochas encaixantes e no próprio VEIO (EVANS, 1993). � Sulfetação é um processo de alteração hidrotermal no qual há intro- dução de S (enxofre) no sistema, ocorrendo a cristalização de minerais sulfetados que ocorrem em vários tipos de minério, como nos depósitos de cobre, ouro, zinco, etc. Os sulfetos mais frequentemente encontrados nos depósitos minerais são os de ferro (pirrotita, pirita e marcassita), de cobre (calcopirita, bornita e covelita), de zinco (esfalerita) e de chumbo (galena). Por vezes, no halo de sulfetação, podem ocorrer bismutinetos, teluretos, sulfoarsenetos (arsenopirita, saflorita, etc.), sulfoantimonetos, etc. Referências BEKKER, A. et al. 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