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PSICOTERAPIA, MEDITAÇÃO 
(RESPIRAÇÃO, RITMO E MOVIMENTO) 
 
2 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de 
empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de 
Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como 
entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a 
participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua 
formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, 
científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o 
saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Sumário 
NOSSA HISTÓRIA ..................................................................................................... 2 
Unidade 1: Psicoterapias: Conceitos Introdutórios Para Estudantes Da Área Da 
Saúde ......................................................................................................................... 4 
Seção 1.1: Aspectos históricos e conceituais ............................................... 4 
Seção 1.2: Psicoterapias: semelhanças e diferenças ................................... 5 
Seção 1.3: Psicoterapias: psicanalíticas/psicodinâmicas .............................. 6 
Seção 1.4: Conceitos teóricos básicos em psicodinâmica ............................ 6 
Seção 1.5: Conceitos técnicos básicos em psicodinâmica ........................... 9 
Seção 1.6: Tipos de psicoterapias psicodinâmicas ..................................... 10 
Seção 1.7: Indicações para as modalidades psicoterápicas psicodinâmicas
 ............................................................................................................................... 15 
Seção 1.8: Terapia cognitivo-comportamental (TCC) ................................. 16 
Seção 1.9: Psicoterapia de grupo ............................................................... 26 
Unidade 2: Técnicas De Respiração Para A Redução Do Estresse Em Terapia 
Cognitivo-Comportamental .................................................................................... 29 
Seção 2.1: Introdução ................................................................................. 29 
Seção 2.2: Estresse e respiração: Aspectos psicofisiológicos .................... 30 
Seção 2.3: Treino de respiração como resposta de relaxamento ............... 33 
Seção 2.4: Treino de respiração em TCC ................................................... 36 
Seção 2.5: Considerações .......................................................................... 43 
Unidade 3: O Ritmo Da Vida No Pulsar Da Energia E Da Respiração: Seus 
Processos E Sua Integração Nas Práticas Da Psicologia Corporal E Da 
Meditação ................................................................................................................. 44 
Seção 3.1: Introdução ................................................................................. 44 
Seção 3.2: Considerações .......................................................................... 58 
Referências .............................................................................................................. 59 
 
 
4 
Unidade 1: Psicoterapias: Conceitos Introdutórios Para 
Estudantes Da Área Da Saúde 
 
Seção 1.1: Aspectos históricos e conceituais 
A palavra psicoterapia tem origem nas palavras gregas Psykê (mente) e 
Therapeuein (curar), e desde o final do século XIX, vem sendo utilizada como uma 
forma de tratamento (‘cura pela fala’). 
Suas origens remetem ao hipnotismo, especialmente a Josef Breuer, um 
médico e fisiologista austríaco, que começou a utilizar o mesmo, como forma de 
tratamento de pacientes histéricas por meio da catarse. Sigmund Freud, neurologista 
de formação, interessado nos estudos e resultados obtidos por tal método, passou 
também a utilizálo, observando, contudo seus efeitos transitórios, muitas vezes, o 
fracasso do tratamento e a importância da relação médico-paciente para a efetividade 
da técnica. 
Diante disto, abandonou o uso do método hipnótico-catártico e passou a evocar 
os eventos relatados por meio da hipnose, durante os estados de consciência do 
paciente, utilizando de estratégias de associação livre, interpretação dos sonhos e uso 
do divã. Em 1905, durante o tratamento de uma paciente histérica (conhecido como o 
‘Caso Dora’) Freud passou a entender e trabalhar com o papel da resistência (forças 
psíquicas que impedem que conteúdos patogênicos tenham acesso à consciência) e 
transferência (deslocamento daquilo sentido diante de pessoas e situações do 
passado, às pessoas do presente, em especial, o terapeuta), criando uma nova 
ciência, com referenciais teóricos e técnicos próprios, específicos e consistentes. 
Surge assim, a Psicanálise, reconhecida como a primeira forma de psicoterapia. 
Hoje, a psicoterapia pode ser definida como um método de tratamento, 
embasado em conceitos teóricos e técnicos, que deve ser realizado por um 
profissional treinado. Utiliza-se de princípios psicológicos como a comunicação verbal 
e a relação terapêutica e seu objetivo principal é influenciar o paciente, auxiliando-o a 
modificar problemas de ordem emocional, cognitiva e comportamental. 
Diferentemente do início do século XX, quando a psicanálise era a única forma 
de psicoterapia, na atualidade depara-se com uma grande diversidade de escolas 
teóricas e técnicas, estimando-se que existam cerca de 250 modalidades 
psicoterápicas, mais de 10 mil livros publicados sobre este tema, além de milhares de 
 
5 
artigos científicos. Sua eficácia vem sendo comprovada por meio de estudos clínicos 
randomizados, de neuroimagem e metanálises, colocando-a como um importante 
método/ recurso de tratamento e ajuda no contexto da saúde mental, seja no 
tratamento dos transtornos mentais e dos problemas de saúde e comportamento, seja 
na busca de autoconhecimento e melhor qualidade de vida. 
Segundo Schnyder, a psicoterapia é uma das terapêuticas mais eficazes em 
Medicina. Na mesma direção, Wampold já referia que, considerando-se as revisões e 
metanálises sobre o tema, poder-seia estimar que o tamanho do efeito deste 
tratamento é de cerca de 0,80. 
Prova disto é sua inclusão no Rol dos Procedimentos e Eventos em Saúde da 
Agência Nacional de Saúde, tornando-a um benefício cuja cobertura é obrigatória aos 
usuários de planos de saúde desde 2008 (Resolução Normativa 167/02 – ANS) 
Segundo estudo realizado em uma instituição pública de saúde, os principais 
motivos para busca de psicoterapia são: humor depressivo (53%), ansiedade (53%), 
problemas conjugais (53%) e familiares (47%), stress/ somatização (12%), anorexia/ 
bulimia (12%), perda de peso (6%), álcool e drogas (24%). 
 
Seção 1.2: Psicoterapias: semelhanças e diferenças 
Apesar da grande diversidade de modelos e concepções em psicoterapia, 
pode-se dizer que as mesmas apresentam alguns importantes elementos comuns. 
São eles: a) necessidade de uma relação de confiança emocionalmente carregada 
em relação ao terapeuta; b) crença por parte do paciente de que o terapeuta irá ajudá-
lo e de que os objetivos serão alcançados; e c) pressuposição da existência de uma 
modelo conceitual que prevê uma explicação possível para o sintoma/ problema e um 
procedimento para ajudar o paciente a resolvê-lo. 
Contudo, é justamentede 
luta ou fuga, e que pode ser potencializada por práticas e/ou técnicas terapêuticas 
tradicionais, tais como: técnicas de respiração, meditação de concentração e/ou de 
insight ou atenção plena (mindfulness), atividade física, oração, relaxamento 
muscular, yoga, imaginação guiada, entre outros. As principais mudanças fisiológicas 
decorrentes do estresse e da resposta de relaxamento são resumidas no quadro 1. O 
sistema nervoso autônomo parassimpático, a acetilcolina e o óxido nítrico são alguns 
dos componentes da resposta de relaxamento que ativam o funcionamento anabólico, 
ou seja, a regeneração ou desenvolvimento celular. (Esch et al, 2002; Esch et al, 2003; 
Seaward, 2004; Stefano et al, 2008). 
 
 
 
 
 
 
 
 
33 
Adaptado de Neves Neto (2010a). 
 
Seção 2.3: Treino de respiração como resposta de relaxamento 
Por definição a respiração consiste em: (a) uma série de reações químicas que 
permitem que organismos convertam a energia química armazenada nos alimentos 
em energia que pode ser usada pelas células, denominada por respiração interna e 
(b) o processo pelo qual um animal retira o oxigênio de seu ambiente e descarrega 
dióxido de carbono nele, denominado por respiração externa (American Psychiatry 
Association, 2010). A respiração é uma contração e expansão rítmicas que envolvem 
diversos sistemas e músculos e permitem um fluxo continuo de ar para dentro e fora 
dos pulmões. A ventilação pulmonar é formada pela inspiração, que promove a 
entrada de ar nos pulmões, e acontece pela contração da musculatura do diafragma 
e dos músculos intercostais. O diafragma abaixa e as costelas elevam-se, 
promovendo o aumento da caixa torácica, com consequente redução da pressão 
interna (em relação à externa), forçando o ar a entrar nos pulmões. Já a expiração, 
que promove a saída de ar dos pulmões, acontece pelo relaxamento da musculatura 
do diafragma e dos músculos intercostais. O diafragma eleva-se e as costelas 
abaixam, o que diminui o volume da caixa torácica, com aumento da pressão interna, 
forçando o ar a sair dos pulmões (Andreassi, 2000; Gervitz, Schwartz, 2003). 
A respiração é controlada automaticamente por um centro respiratório nervoso 
localizado no bulbo, de onde partem nervos responsáveis pela contração dos 
músculos respiratórios, sendo estes sinais enviados via coluna espinhal para os 
músculos da respiração. O diafragma recebe sinais respiratórios através do nervo 
frênico. A respiração é afetada tanto por estímulos involuntários (ex. estímulos 
sensoriais) quanto por estímulos voluntários (ex. estados emocionais). O centro 
 
34 
respiratório é capaz de aumentar e de diminuir tanto a frequência como a amplitude 
dos movimentos respiratórios, pois possui quimiorreceptores que são bastante 
sensíveis ao pH do plasma. Essa capacidade permite que os tecidos recebam a 
quantidade de oxigênio que necessitam, além de remover adequadamente o gás 
carbônico. Quando o sangue torna-se mais ácido devido ao aumento do gás 
carbônico, o centro respiratório induz a aceleração dos movimentos respiratórios. 
Dessa forma, tanto a frequência quanto a amplitude da respiração tornam-se 
aumentadas devido à excitação do centro respiratório, ao contrário, com a depressão 
do centro respiratório, ocorre diminuição da frequência e amplitude respiratórias. Caso 
o pH fique abaixo do normal (acidose), o centro respiratório é excitado, aumentando 
a frequência e a amplitude dos movimentos respiratórios. O aumento da ventilação 
pulmonar determina eliminação de maior quantidade de CO2, o que eleva o pH do 
plasma ao seu valor normal, ao contrário, caso o pH do plasma esteja acima do normal 
(alcalose), o centro respiratório é deprimido, diminuindo a frequência e a amplitude 
dos movimentos respiratórios. Com a diminuição na ventilação pulmonar, há retenção 
de CO2 e maior produção de íons H+, o que determina queda no pH plasmático até 
seus valores normais (Andreassi, 2000; Dixhoorn, 2007; Fried, 1999; Gervitz, 
Schwartz, 2003). 
O estresse e outros estados emocionais negativos promovem liberação de 
adrenalina que, frequentemente levam também à hiperventilação, algumas vezes de 
tal intensidade que o indivíduo torna seu meio interno alcalótico, eliminando grande 
quantidade de dióxido de carbono, precipitando, assim, contrações dos músculos de 
todo o corpo (Fried, 1999; Gervitz, Schwartz, 2003). Além do conhecimento milenar 
advindo dos praticantes de yoga (Brown, Gerbag 2005a;2005b; Gharote, 2008; 
Brown, Gerbag, 2009) e de outras práticas terapêuticas corporais (ex. qi-gong, 
meditação, entre outros) e das psicoterapias corporais contemporâneas (Bloch , 
1989); Kignel (2005) estudou o efeito das emoções nas alterações dos ritmos 
respiratórios (ex. amplitude, frequência e complexidade dos movimentos 
respiratórios), concluindo sobre a possibilidade de se induzir um estado emocional 
levando o sujeito a reproduzir o ritmo respiratório característico daquele estado (Neves 
Neto, 2003b; 2003c). 
Homma, Masaoka (2008) apontam para uma estreita relação entre o processo 
respiratório e os estados emocionais (ex. alegria, tristeza, medo, raiva e nojo), 
sugerindo que desde os estudos com animais até os estudos com seres humanos são 
 
35 
demonstradas relações intrínsecas entre a função olfatória e o centro respiratório, 
particularmente sobre estudos da atividade do complexo piriforme – amigdala e o ritmo 
respiratório. Outros estudos, também encontraram uma estreita relação entre o 
estresse e as alterações do ritmo respiratório (Bass, Gardner, 1985; Masaoka, 
Homma, 1999). 
O aumento da frequência respiratória (na resposta de luta-fuga ou estresse) 
será associado a maior condutância elétrica da pele (Siemens), ou diminuição da 
resistência galvânica da pele (Ohm), ambos controlados pela ativação das glândulas 
sudoríparas presentes na pele e diretamente influenciadas pelo sistema nervoso 
autônomo simpático (Bacon, Poppen, 1985; Cea Ugarte et al., 2010). Na figura 1, são 
ilustradas as variações da condutância elétrica da pele (Siemens), em resposta: (a) 
respiração livre ( 30 resp/min). 
Figura 1- Registro psicofisiológico da atividade eletrodérmica da pele 
(Siemens), em voluntário hígido, nas condições: (a) respiração livre ( 30 resp/min), obtidos através do 
equipamento de biofeedback (Procomp Infiniti System, Thought Technology 
Ltd., Canadá) e do software E-Z Air (Thought Technology Ltd., Canadá). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O aumento da condutância elétrica da pele (Siemens) é resultado da maior 
ativação das glândulas sudoríparas presentes na superfície da pele dos dedos das 
mãos, que são controlados pela resposta do sistema nervoso autônomo simpático 
(resposta de luta-fuga) que também são influenciados pelos estados emocionais e 
pela frequência respiratória. Quanto maior a frequência respiratória, mais atividade 
simpática e ativação das glândulas sudoríparas serão observadas, sendo uma queixa 
comum na presença do estresse intenso (Esch, Stefano, 2010). 
 
 
36 
Seção 2.4: Treino de respiração em TCC 
Segundo Friedman et al (1983), as técnicas de relaxamento, incluindo os 
treinos baseados na respiração, vem se expandindo na formação médica norte- -
americana, inclusive como uma proposta de integrar as terapias complementares na 
medicina oficial, sendo que das 62 escolas médicas avaliadas, 58% já ofereciam 
algum treinamento no uso terapêutico de técnicas de relaxamento em cursos 
regulares e/ou eletivos. Em nosso meio, por exemplo, a Unidade de Medicina 
Comportamental do Departamento de Psicobiologia da UNIFESP, é pioneira na 
realização de cursos eletivos regulares para os acadêmicos de medicina sobre as 
técnicas de relaxamento, respiração, meditação e biofeedback, associadas à TCC 
(Neves Neto 2003a; Neves Neto, 2011a; 2011b; 2011c). 
A TCC é uma abordagem psicoterápicaque reconhece o papel das cognições 
disfuncionais e/ou limitantes na geração da resposta psicofisiológica do estresse. As 
pessoas podem reagir de forma repetitiva e automática às situações adversas 
eliciadores de estresse, através de alguns erros cognitivos comuns, tais como: 
catastrofização, pensamento dicotômico ou “tudo ou nada”, generalização, diminuir o 
lado positivo, leitura mental, previsão do futuro, magnificação ou minimização, 
rotulação, entre outros (Neves Neto, 2003a; Dobson, 2006; Leahy, 2007). Além de 
promover a reestruturação cognitiva, a expressão emocional reguladora e o 
desenvolvimento de um repertório de comportamentos mais adaptativos, a TCC utiliza 
frequentemente de técnicas de relaxamento e de respiração com a finalidade de 
diminuir a função do sistema nervoso autônomo simpático e os neurohormônios do 
estresse e promover a função parassimpática e os neurohormônios implicados na 
resposta de relaxamento (Benson, Stuart, 1993; Fried, 1999; Dobson, 2006; King et 
al, 2007; Lehrer et al, 2007). 
As técnicas de relaxamento são ferramentais importantes na prática clínica da 
TCC, mas frequentemente carecem de embasamentos psicofisiológicos de sua 
prática (Lehrer, Carrington, 2003). 
Alguns autores questionam sobre a falta de um modelo cognitivo e 
comportamental das práticas de relaxamento que sustentem a sua utilização, mas 
concluem que pelo menos existam três efeitos distintos: (a) redução da estimulação 
ambiental; (b) desenvolvimento de habilidades cognitivas, tais como: concentração, 
passividade e receptividade e (c) aquisição de estruturas cognitivas mais complexas 
capazes de dar suporte ao relaxamento (Smith, 1988). 
 
37 
Outros autores ainda questionam sobre a possibilidade de que exista uma 
especificidade entre as diferentes técnicas de relaxamento em TCC, ou seja, 
diferentes técnicas são totalmente equivalentes ou possuem efeitos específicos? 
Lehrer et al (1994), concluem que existem pelo menos três vias de ação do 
relaxamento: (a) métodos com orientação cognitiva (ex. imaginação guiada) têm 
efeitos cognitivos específicos (ex. distração e/ ou reestruturação cognitiva) e seriam 
mais indicados para problemas comportamentais (ex. fobia social); (b) métodos com 
orientação autonômica (ex. respiração diafragmática) têm efeitos autonômicos 
específicos (ex. diminuição da atividade simpática e aumento da atividade 
parassimpática) e seriam mais indicados para redução da atividade autonômica e 
problemas associados (ex. estresse, hipertensão arterial) e (c) métodos com 
orientação muscular (ex. relaxamento muscular) têm efeitos musculares específicos 
(ex. diminuição do tônus muscular) e seriam mais indicados para problemas 
musculares (ex. cefaléia tensional). 
Diversos autores defendem a utilização das técnicas de respiração em TCC 
(Smith, 1988; Fried, 1990a; 1990b; Lehrer et al, 1994), mas com orientações e 
objetivos diferentes, tais como: exercícios respiratórios orientados a ampliação da 
consciência e da atenção plena (ex. respiração consciente da meditação de insight ou 
mindfulness) (Delgado et al, 2010; Feldman et al, 2010; Roemer, Orsillo, 2010); 
exercícios respiratórios orientados a regulação do sistema nervoso autônomo e 
redução do estresse (ex. respiração diafragmática) (Bacon, Poppen, 1985; Légeron, 
1993; Pal et al, 2004; Sydorchuk, Tryniak, 2005; Gaab et al, 2006; Esch, Stefano, 
2010; Martarelli et al, 2009; Kang, 2010) e exercícios respiratórios coadjuvantes de 
outras técnicas de relaxamento (ex. relaxamento muscular progressivo) (Ley, 1994; 
1999; 2001; 1999; Van Dixhoorn 1998; Sardinha et al, 2009). 
Para Lehrer e Carrington (2003), além da maior especificidade psicofisiológica 
entre as diversas técnicas, o treinamento deveria basear-se em uma graduação 
ascendente, das estratégias mais físicas (somáticas) para as mais cognitivas 
(abstratas), por exemplo, ensinar aos pacientes inicialmente técnicas de relaxamento 
muscular ou de respiração costuma ser mais simples do que as técnicas baseadas na 
meditação ou imaginação guiada. Considerar a possibilidade de se associar o 
biofeedback no treino de relaxamento é considerado uma importante estratégia 
motivacional (Fried, 1987). 
 
 
38 
O biofeedback como um processo psicoeducacional em TCC, utiliza 
sofisticados equipamentos eletrônicos capazes de monitorar os sinais vitais 
relevantes (ex. variabilidade da frequência cardíaca, atividade eletrodérmica, 
temperatura periférica, tônus muscular, frequência respiratória, ondas cerebrais, entre 
outros) para o treino comportamental (condicionamento operante visceral de Neal 
Miller) e de outros processos cognitivos (ex. cognições disfuncionais de Aaron Beck, 
auto-eficácia de Albert Bandura, estilo atributivo de Martin Seligman, estratégias de 
coping de Arnold Lazarus, entre outros). (Neves Neto, 2010d). 
Os sensores de biofeedback mais utilizados para o treino de técnicas de 
respiração são: frequência e amplitude respiratória (torácica e abdominal), de 
variabilidade da frequência cardíaca (VFC) e do tônus muscular (músculos escaleno 
e trapézio) (Pepper, Tibbetts, 1997; Schwartz, Andrasik, 2003; Lehrer et al, 2007). 
Na figura 2, são demonstradas as alterações da VFC (bpm), através de um 
equipamento de biofeedback, em três situações distintas, sendo: (a) respiração livre, 
(b) respiração diafragmática com ritmo de 6 tempos de inspiração para 6 tempos de 
expiração (6:6) e (c) observação da respiração baseada em mindfulness. 
Figura 2- Registro psicofisiológico da VFC (bpm), em voluntário hígido, em três 
situações distintas: (a) respiração livre (5 min); (b) respiração diafragmática 
com ritmo respiratório 6:6 (5 min) e (c) observação da respiração (mindfulness) 
(5 min), obtido através do equipamento de biofeedback (Emwave PC – 
Coherence Training Software for PC, HeartMath LLC, EUA e do software E-Z 
Air (Thought Technology Ltd., Canadá). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
39 
A variabilidade da frequência cardíaca (VFC), como visto na figura 2, é distinta 
nas situações: (a) respiração livre com baixa VFC e (b; c) respiração diafragmática e 
“observação da respiração” com alta VFC. 
A VFC é influenciada tanto por ramo do sistema nervoso autônomo simpático 
quanto do parassimpático, mas as emoções e os ritmos respiratórios também afetam 
esse marcador fisiológico (Bernardi et al, 2000; McCraty et al, 2001; Culbert et al, 
2007; Moss, Shaffer, 2008; Combatalade, 2010; DeBeck et al, 2010; Neves Neto, 
2011a, 2011b). 
A variabilidade da frequência cardíaca (VFC) é um importante marcador de 
saúde do sistema nervoso autônomo e do coração (McCraty et al, 2001). No campo 
da psicofisiologia, a VFC tem sido associada à presença do estresse, da ansiedade e 
da depressão, além de ser uma poderosa ferramenta para o treino de biofeedback 
voltado ao tratamento das condições psicossomáticas (ex. síndrome do intestino 
irritável, asma, hipertensão arterial, entre outros). (McCraty et al, 2001). 
Ao apresentar inicialmente um exercício de respiração, é importante estimular 
os pacientes a observarem o seu padrão respiratório natural, seja ele com 
predominância de movimentos torácicos e/ou abdominais. É comum os pacientes não 
estarem conscientes da sua própria respiração, portanto solicita-se que o mesmo 
feche os olhos e inicialmente coloque uma das mãos na região torácica e outra na 
região umbilical, sempre com respiração nasal, após alguns instantes (ex. 2 ou 3 
minutos) solicita-se que o mesmo descreva a mão que mais se movimentou durante 
a sua respiração, o que levará ao reconhecimento do padrão respiratório, seja ele 
torácico ou abdominal. Algumas práticas de meditação de concentração também 
utilização a observação da respiração, sem influenciá-la, em média por 15 a 20 
minutos (Roemer, Orsillo, 2010). 
Ainda é importante ressaltar que apesar da respiração diafragmática (ritmo 6:6) 
e a observação da respiração domindfulness produzirem o aumento da VFC, ou seja, 
do equilíbrio do sistema nervoso autônomo, a experiência subjetiva é normalmente 
distinta, sendo que na respiração diafragmática, pode-se observar “calmaria”, 
“relaxamento”, “sonolência” e na observação da respiração, observa-se “clareza 
mental”, “foco”, “atenção relaxada”, entre outros. (Smith, 1988; Moss et al, 2003). 
Durante a respiração diafragmática o objetivo principal é treinar o aumento da 
utilização do músculo diafragma durante o ciclo respiratório. O paciente pode ser 
instruído a colocar uma das mãos na região torácica e outra na região abdominal, 
 
40 
desta vez ele deve influenciar o movimento, de forma consciente, até perceber que a 
mão próxima a região umbilical é a que mais se movimenta durante a respiração. O 
objetivo dessa respiração é aprofundar e diminuir o ciclo respiratório, que pode estar 
sofrendo influencias do neurohormônios do estresse e da ansiedade. O paciente não 
deve congelar o movimento torácico, apenas aumentar o movimento do músculo 
diafragmático. Às vezes instrui-lo a imaginar que esta enchendo um balão de gás em 
seu abdômen, pode tornar o exercício mais fácil, para outros é importante realizá-lo 
inicialmente em decúbito dorsal, facilitando a aprendizagem correta desta respiração. 
Ainda existem variações que utilizam: contagem (Lehrer, Carrington, 2003; Lehrer et 
al, 2007), música (Fried, 1990a; 1990b), dispositivos especiais (ex. Breath Pacer®, 
Coherence Clock®, EZ-Air Plus®, Resperate Ultra®), entre outros. 
Após a observação da respiração (levando ao aumento da consciência 
corporal) e da prática de respiração diafragmática (levando ao aumento da 
consciência corporal e da auto-regulação) , resultando em um padrão respiratório 
lento, profundo, regular e sem esforço, alguns pacientes podem também ser 
beneficiados pela alteração voluntária da duração dos ciclos respiratórios, técnicas 
inspiradas nos pranayamas yogues. 
Atualmente se discute a descoberta da frequência ressonante do ciclo 
respiratório, capaz de afetar a frequência cardíaca, a pressão arterial e outros ritmos 
biológicos, tais como as ondas cerebrais. Alguns autores defendem uma razão de 6:6, 
ou seja, 6 tempos de inspiração para 6 tempos de expiração, como um meio de se 
atingir a frequência ressonante (Elliott, Edmonson, 2006), outros sugerem que a 
frequência ressonante pode ser encontrada através da avaliação personalizada de 
diferentes ritmos respiratórios e que podem ser encontradas através de 
monitoramento por equipamento de biofeedback, exemplos: 4:6 e 12:12 (Lehrer et al, 
2007). 
Não é o objetivo deste trabalho esgotar todas as técnicas de respiração para a 
redução do estresse utilizadas em TCC, mas apenas descrever as formas mais 
comuns, demonstrando suas bases psicofisiológicas e esclarecendo aos profissionais 
interessados o essencial de cada procedimento adotado. 
Quanto aos dados sobre a utilização das técnicas de respiração na saúde, o 
Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa dos Institutos Nacionais 
de Saúde dos EUA (2011) estima que o treino de respiração (ex. respiração 
diafragmática) é o segundo recurso mais utilizado pela população adulta norte-
 
41 
americana como estratégia terapêutica complementar em saúde, com uma 
prevalência de 12,7% da população e o terceiro recurso mais utilizado por crianças, 
com uma prevalência de 2,2% da população. Em outro estudo, as técnicas de 
relaxamento e de respiração representaram 16,3% da utilização pela população 
adulta norte-americana, sendo o método terapêutico complementar (mind-body 
therapies) mais utilizado, seguido por: meditação (10%), imaginação guiada (4,5%), 
hipnose (1,2%) e biofeedback (1%), entre outros (Astin et al, 2003). 
As queixas mais comuns tratadas com esse recurso complementar são: dor 
crônica, artrite, ansiedade, estresse, insônia, entre outros. No Brasil, segundo dados 
do programa de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (2008) o treino de 
respiração, desenvolvido no âmbito de práticas mentais e corporais da medicina 
tradicional chinesa (ex. tai chi chuan, lian gong, meditação, entre outros), varia entre 
7 a 20% dos municípios que oferecem acupuntura. 
Os benefícios das técnicas de respiração (ex. respiração diafragmática) na 
literatura são bastante amplos, mas em síntese os efeitos no organismo são: 
estabilização do sistema nervoso autonômico, aumento da variabilidade da frequência 
cardíaca, diminuição da pressão arterial (sístole e diástole), aumento da função 
pulmonar, aumento da função imune, aumento do fluxo de sangue e linfa, melhora da 
digestão, melhora da qualidade e padrão do sono e aumento do bem-estar 
biopsicossocial e qualidade de vida (Dixhoorn, 2007; Rakel, 2007). No quadro 2 são 
descritos estudos sobre condições específicas. 
 
42 
 
Apesar de a literatura sugerir uma ampla utilização das técnicas de respiração 
para a redução do estresse e de outras doenças associadas, nem sempre é um 
procedimento inócuo. Alguns autores apontam para a possibilidade das técnicas de 
relaxamento, incluindo as técnicas de respiração, induzirem a estados de ansiedade, 
provavelmente por promoverem uma forma de exposição interoceptiva, ou da 
consciência corporal de estados de tensão antes não percebidos, ou da sensação de 
perda do controle ou de estados alterados de consciência. (Sultanoff, 2002; Lehrer, 
Carrington, 2003). Portanto, as técnicas de respiração devem ser foco de estudo e de 
aplicação prática na saúde, de profissionais competentes e com treinamento nas 
bases anatomofisiológicas e psicológicas da respiração, capazes de instruírem seus 
pacientes de forma segura e eficaz. A escolha da técnica adequada para o paciente 
e de suas possíveis adaptações, duração, formato, regularidade do treino, entre 
outros, dependerá do desenvolvimento de novas pesquisas e da disponibilização de 
mais treinamentos voltados aos profissionais da área da saúde. 
 
 
 
43 
Seção 2.5: Considerações 
As técnicas de respiração são baseadas nas medicinas tradicionais, porém a 
medicina e psicologia contemporâneas têm uma importante contribuição ao estudar 
os mecanismos psicofisiológicos de tais práticas, voltadas a redução do estresse e de 
outras patologias modernas. O baixo custo das técnicas de relaxamento, sua relativa 
segurança quando aplicada por profissional capacitado, faz dos exercícios 
respiratórios um tema importante para os profissionais da área da saúde. Tanto a TCC 
ou a Medicina Comportamental quanto o biofeedback (VFC) podem ser associados 
às técnicas de respiração, visando uma sinergia entre diferentes procedimentos 
terapêuticos, capazes de responder à complexidade dos problemas humanos. Ensinar 
corretamente os pacientes a dominarem simples técnicas de respiração, poderá se 
tornar uma prática clínica corrente além de ser ensinada desde os anos iniciais de 
formação na escola médica, e também de outras áreas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
44 
Unidade 3: O Ritmo Da Vida No Pulsar Da Energia E Da 
Respiração: Seus Processos E Sua Integração Nas Práticas 
Da Psicologia Corporal E Da Meditação 
 
Seção 3.1: Introdução 
A respiração permeia todas as experiências vividas pelo corpo, este corpo que 
vivencia em si emoções e sensações e se inspira criativo e se anima cheio de ânima 
(vento, alma ou mente), pleno de prana (sopro de vida), de ar e de energia; um corpo 
que age, realiza e se expressa, se expande e alcança o infinito na liberdade do 
movimento rítmico total. 
Nas palavras de Sarmento (2015, p. 173), “Seria a respiração um fluido, um ar 
vital emanado do Criador? Seria alento, fogo que mantém acesa a vida? Seria algo 
invisível, intangível, função destinada ao movimento de fole dos pulmões? [...] Sim, a 
respiração pode ser assim percebida. [...] a respiração é uma experiência 
corporificada”. Todos os processos relativos à biomecânicada respiração se 
manifestam no corpo, um corpo que respira como um todo, e não apenas pulmões 
que respiram, e assim, “[...] alterações da postura, do movimento e da relação com a 
vida fazem parte da doença respiratória e que, ao tratar a postura, o movimento e a 
relação com a vida, tratamos a respiração. [...] a respiração é uma ação corporificada 
que está presente em cada atitude do indivíduo”. (SARMENTO, 2015, p. 173). 
Lowen e Lowen (1985, p. 13) afirmam que “A boa respiração é essencial a uma 
saúde vibrante. Através da respiração conseguimos o oxigênio para manter acesso o 
fogo do nosso metabolismo, e isto nos assegura a energia de que precisamos. Mais 
oxigênio cria um fogo mais quente e produz mais energia.” 
O ritmo da respiração, inalação/contração e exalação/expansão, promove o 
entrelaçamento e a integração entre corpo, mente, alma, emoções, sensações, 
pensamentos, movimentos e energia, assim a respiração tem influência sobre os 
processos físicos e psíquicos, como tensões, estresse, bloqueios, angústias, 
ansiedades, dores e, também, estados de paz, serenidade, relaxamento, prazer e 
fluidez. 
Como afirma Gunaratana (2005), a respiração é um processo que ocorre aqui 
e agora, ela flui continuamente no momento presente, e a percepção das sensações 
de inspirar e expirar o ar nos coloca em contato com a instância mente-corpo. Quanto 
 
45 
mais sutil a respiração se torna, mais se percebe uma sensação de calma, 
tranquilidade, relaxamento e paz. A respiração é elemento fundamental para a 
conquista de equilíbrio e fluidez energética e assim obtenção de saúde e bem-estar, 
da mesma forma que possibilita o acesso às questões emocionais e psíquicas que 
estão bloqueadas e ocultas em nossos corpos. Os movimentos da respiração estão 
diretamente relacionados aos movimentos de circulação de energia no corpo, e 
repercutem nos equilíbrios e desequilíbrios físicos, emocionais, mentais e espirituais. 
Para Sarmento (2015), a respiração é um estado de espírito e não apenas um 
ato mecânico, pois a ação do indivíduo será limitada se os músculos do seu corpo não 
receberem oxigênio suficiente. “Se o cérebro sofre falta de oxigênio, instala-se a 
apatia, a insensibilidade e a desatenção. Se, [...] o cérebro recebe oxigênio em 
demasia, como nos estados de ansiedade, o indivíduo é impelido a agir”. 
(SARMENTO, 2015, p. 174). 
Sobre a respiração e as funções biológicas básicas de contração e expansão, 
Reich (1984) explica que o sistema nervoso parassimpático estimula os órgãos para 
deixar a totalidade do organismo num agradável estado de expansão, e o sistema 
nervoso simpático, por sua vez, estimula todos os órgãos quando o organismo está 
no angustioso estado de contração. “Isto nos permite compreender o processo da 
vida, particularmente a respiração, como uma condição da oscilação contínua, na qual 
o organismo se alterna continuamente entre a expansão parassimpática (exalação) e 
a contração simpática (inalação).” (REICH, 1984, p. 252). 
Cabe enfatizar a relação entre energia e corpo, visto que há uma relação direta 
entre tensões e bloqueios versus não fluidez de energia, ou seja, a harmonia e o 
equilíbrio emocional, mental e físico estão relacionados à circulação ou não circulação 
de energia no corpo e no ambiente. 
Os processos energéticos do corpo são funções básicas da vida, em que a 
respiração e o metabolismo produzem energia e o movimento promove a descarga 
desta energia. A respiração profunda aumenta o nível de energia, assim como uma 
respiração reduzida indica um nível baixo de energia e de todas as outras funções 
vitais. As respostas dadas às situações da vida estão em relação à quantidade de 
energia disponível e como se faz uso desta energia, ao manifestá-la em movimento e 
expressão, o que também permite a resolução de questões emocionais e a percepção 
do potencial que se tem para o prazer e a alegria de viver. Para uma completa 
vitalidade e bem-estar emocional, toda rigidez e tensão crônica deve ser aliviada, pois 
 
46 
diminui a vitalidade e rebaixa a energia, o que resultará em restrição da motilidade e 
da autoexpressão. (LOWEN; LOWEN, 1985). 
Navarro (1995a, p. 20) refere-se à Reich: “[...] ele fala de uma ‘energia cósmica 
e universal operando no corpo’ [...]”. Os processos de distribuição, repartição, 
economia e destino desta energia estão em relação com os processos fisiológicos, o 
equilíbrio neurovegetativo, as tensões orgânicas e em relação também com a vida 
emocional. “O ser vivo é o que é porque é dotado de uma carga energética que tem 
uma circulação pulsante e um metabolismo próprio. A pulsação energética é cósmica, 
inscrita na matéria. [...] O corpo humano deve ser considerado como uma estrutura 
energética que interage dialeticamente com o meio.” (NAVARRO, 1995a, p. 25). 
Reich (1984), afirma a existência de uma força criadora regendo a vida, cujo 
movimento chamou de fórmula do orgasmo ou “fórmula da vida” (REICH, 1984, p. 
244) – “[...] tensão mecânica / carga energética / descarga energética / relaxamento 
mecânico – fórmula que ele reintegrou a um ritmo energético universal e elementar de 
expansão-contração, ritmo característico da matéria viva”. (NAVARRO, 1995a, p. 12). 
Esta fórmula que exprime o ritmo da vida pode ser percebida em todos os seres vivos 
através do sistema respiratório, do ritmo energético em harmonia com o ritmo da 
respiração. “As funções biológicas fundamentais de contração e expansão aplicavam-
se tanto ao campo psíquico quando ao somático”. (REICH, 1984, p. 244). 
Sarmento (2015) fala sobre o sistema respiratório, cujos músculos trabalham 
junto com os pulmões para desempenhar sua função que é 
[...] deslocar a parede torácica ritmicamente, bombeando ar para dentro e 
para fora dos pulmões. [...] os músculos respiratórios não trabalham de forma 
isolada e sim inseridos em um sistema que atua por meio de coordenações 
que possibilitam atividades funcionais; estas, por sua vez, concedem ao ser 
humano a possibilidade de realização global de seus desejos e anseios. 
(SARMENTO, 2015, p. 173). 
 
Como um sistema aberto, o ser humano recebe energia do meio, transforma e 
utiliza esta energia e a devolve para o meio ambiente, num movimento contínuo de 
circulação, troca, transformação e uso. 
O ser humano faz uso de um conjunto de fatores de reciprocidade e adapação 
a fim de estabelecer um bom contato entre ele mesmo, os outros e o meio, e isto 
implica numa troca energética contínua. Se este sistema encontra-se bloqueado, 
provoca uma deficiência ou estase energética que resulta em consequências ou 
sintomas que se manifestam no plano físico e psíquico; estes sintomas sempre serão 
 
47 
a expressão de uma emoção. A emoção pode ser expressa ou reprimida, e é a 
resposta a um estimulo que pode ser gratificante ou frustrante. A emoção se traduz 
pelo comportamento e também pela contração e pelo relaxamento dos músculos do 
corpo. (NAVARRO, 1995a). 
Lowen e Lowen (1985) afirmam que em estado de total relaxamento ou de 
sensações intensas, podem ser sentidas ondas pulsatórias que fluem por todo o 
corpo, e que a vitalidade está relacionada à vibração, ou seja, a saúde vibrante ou 
estar vibrantemente vivo é condição para se estar totalmente vivo. O corpo vivo está 
em constante movimento, e esta motilidade ou atividade espontânea é consequência 
do estado de excitação interna que irrompe continuamente na superfície, em 
movimento. 
“Em todos os seres vivos, verifica-se essa resposta de expansão e de 
contração, conforme as condições sejam respectivamente gratificantes, favoráveis ou 
frustrantes e desfavoráveis” (NAVARRO, 1995b, p. 26). Trata-se de uma reação 
neurovegetativa e muscular que expressa o caráter, ou seja, o jeito do indivíduo agir 
e reagir aos acontecimentos e experiências da vida. O caráter é a forma característica 
do próprio corpo, é o modo do eu e do corpo se manifestar no mundo, e isto implica,também, na maneira de andar, de falar, nas relações com as coisas e pessoas, nas 
atitudes, nas expressões faciais e gestos ou posturas como um todo. Há dois 
princípios econômicos na formação do caráter, que é evitar a angústia ou reter a 
angústia – quando não é possível evitá-la –, para que não provoque prejuízos e 
sofrimentos. Assim, o organismo pode dar respostas de expansão, que estão 
relacionadas às condições gratificantes e favoráveis, e respostas de contração, que 
estão relacionadas às condições frustrantes e desfavoráveis. (NAVARRO, 1995b). 
Reich (1984) afirma que a alternância entre expansão e contração de forma 
contínua constitui o processo vital de impulsos e sensações biológicos e, ao mesmo 
tempo, atua a nível psíquico, em que a expansão é experimentada como prazer e a 
contração como angústia ou desprazer. “[...] o sistema nervoso parassimpático opera 
na direção da expansão ‘para fora do eu, em direção ao mundo’, do prazer e da 
alegria; ao contrário, o sistema nervoso simpático opera na direção de contração ‘para 
longe do mundo, para dentro do eu’, da tristeza e do desprazer”. (REICH, 1984, p. 
245-246). 
Ao pensar nas práticas corporais, tanto os exercícios de Bioenergética quanto 
os actings da Vegetoterapia buscam o trabalho com a respiração em sincronia com 
 
48 
os movimentos e gestos, com a intenção de proporcionar uma percepção de si mais 
consciente e uma mobilização de energia no sentido de promover desbloqueios e 
liberações. Da mesma forma, com a prática da meditação, através da respiração, 
busca-se mobilizar o corpo e reduzir tensões e restaurar a autorregulação. A 
meditação apresenta-se como uma forma auxiliar no reestabelecimento da economia 
energética do indivíduo. 
Segundo Gunaratana (2005), a meditação reduz a tensão, o medo e as 
preocupações, traz calma ao praticante e a agitação diminui. A finalidade da 
meditação é a transformação pessoal: “O ‘eu’ que entra de um lado da meditação não 
é o mesmo ‘eu’ que aparece do outro lado. [Ao tornar o praticante] profundamente 
consciente de seus próprios pensamentos, palavras e atos, ela modifica seu caráter 
pelo processo de sensibilização.” (GUNARATANA, 2005, p. 21). A respiração é o 
objeto ideal da meditação, pois, apesar da sua sensação ser sutil, ela é uma espécie 
de janela de comunicação entre os mundos interior e exterior, “[...] é um ponto de 
ligação e de transferência de energia, em que o material que vem do mundo exterior 
se transfere para o interior e se transforma em parte do que chamamos de ‘eu’, e onde 
uma parte do ‘eu’ segue adiante e mergulha no mundo exterior.” (GUNARATANA, 
2005, p. 70). 
A respiração evidencia nossa conexão com a totalidade da vida e durante a 
meditação conduz a mente e o corpo a um estado de tranquilidade, equilíbrio, 
conscientização e visão interior. Este olhar para dentro leva à compreensão de si 
mesmo e também conduz a uma sensação de bem-estar, saúde, percepção corporal, 
sensação de órgão, liberação de tensões, autorregulação, transformação e fluidez 
energética. 
Pela conexão com a totalidade da vida proporcionada pela meditação, o corpo 
que respira no aqui e agora, relaxa, e, nas palavras de Lowen e Lowen (1985), pode 
sentir-se integrado e conectado como um todo: 
No relaxamento completo, as ondas respiratórias atravessam o corpo em 
cada inspiração ou expiração. Em estados emocionais intensos, ondas de 
sensação espalham-se pelo corpo. [...] Usualmente, entretanto, nós não nos 
permitimos relaxar totalmente, respirar profundamente, ou sentir 
intensamente. [...] quando as vibrações atravessam o corpo em sua 
plenitude, a pessoa se sente conectada e integrada, como um todo. [...] a 
sensação de unidade e integridade leva a uma sinceridade natural de 
pensamento e ação. Se uma pessoa desenvolve a graça corporal, 
desenvolve a correspondente atitude psicológica de ser graciosa. (LOWEN; 
LOWEN, 1985, p. 06-07). 
 
 
49 
Há uma prática Budista de meditação chamada Vipassana, cujo objeto está 
especialmente na respiração. Gunaratana (2005) diz que o Budismo afirma o acesso 
direto ao mundo espiritual ou divino – sem intermediações de deidades – através de 
uma investigação plena da realidade da vida e do processo de percepção humana. A 
prática budista reconhece que mente e corpo estão fortemente ligados, influenciando-
se mutuamente, e ao observarmos nossa mente e corpo percebemos certas coisas, 
e esta percepção consciente “[...] nos liberta das raízes profundas do sofrimento 
psicológico e espiritual. A prática da plena atenção é a prática de ser honesto consigo 
mesmo cem por cento.” (GUNARATANA, 2005, p. 49). A técnica da Meditação 
Vipassana vem proporcionar justamente esta consciência. 
A Meditação Vipassana, traduzida como Meditação do Insight ou Consciência 
Clara, tem como objetivo fornecer uma consciência clara ou insight da natureza da 
realidade, uma compreensão precisa de como todas as coisas funcionam no exato 
momento em que acontecem, através da atenção plena e compreensão dos 
processos internos da realidade, o que resulta em uma transformação completa e 
libertação permanente. (GUNARATANA, 2005). 
Na atenção plena, coração da Meditação Vipassana, observa-se o universo 
interior, todos os fenômenos físicos, mentais e emocionais, e este é um processo 
holístico. Ela consiste na observação participativa das emoções e sensações físicas, 
em que se está ao mesmo tempo observando e sentindo; é uma participação ativa e 
alerta no movimento do viver. A plena atenção “[...] reflete o que está acontecendo no 
momento, e exatamente da maneira que está acontecendo. Não há distorções, [...] é 
uma observação sem julgamento [...] ver as coisas sem condenação ou julgamento” 
(GUNARATANA, 2005, p. 130). “O propósito da Meditação Vipassana não é nada 
menos do que a transformação permanente e radical de toda sua experiência 
sensorial e cognitiva.” (GUNARATANA, 2005, p. 147). 
A respiração, na Bioenergética, tem como objetivo ajudar a pessoa a ter mais 
vitalidade e uma maior consciência de si mesmo e do outro; trata-se de promover uma 
respiração natural, de deixar que a pessoa respire de forma fácil, profunda e 
espontânea. 
Os exercícios de Bioenergética buscam perceber e sentir como o indivíduo 
reduz sua vitalidade ao limitar a respiração e seus movimentos, como inibe e bloqueia 
o fluxo de excitação do corpo e reduz a autoexpressão. “O objetivo da terapia é um 
corpo cheio de vida, capaz de experienciar totalmente prazeres e dores, alegrias e 
 
50 
tristezas da vida. Quanto mais vitais somos, mais toleramos um maior grau de 
excitação na nossa vida cotidiana e no sexo.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 06). A 
capacidade para o prazer é aumentada conforme se dissolve tensões e bloqueios 
musculares, sentimentos suprimidos e conflitos reprimidos. O estado vibratório do 
corpo pode ser percebido na expansão e contração pulsáteis totais do organismo e 
em seus sistemas respiratório, circulatório ou digestivo, e como sensações que fluem 
pelo corpo e se refletem no fluxo da excitação. (LOWEN; LOWEN, 1985). 
A Vegetoterapia trabalha com exercícios corporais ou actings que visam a 
dissolução das couraças musculares nos diferentes segmentos do organismo, com a 
finalidade de desfazer tensões musculares, desarranjos neurovegetativos e inibições 
psíquicas, “[...] para que o indivíduo possa chegar, em seu corpo, em suas emoções 
e em suas estruturas psicológicas, à percepção e ao sentimento de uma circulação 
suficientemente boa, desembaraçada, flexível e fluída da energia.” (NAVARRO, 
1995a, p. 13). 
Os pensamentos, as emoções e os sentimentos podem estabelecer tensões 
correspondentes no corpo, as quais podem se localizar em áreas específicas, como 
contração nos músculos do pescoço, nos ombros ou tensão na área do tórax, do 
diafragma, do abdômen ou da pélvis, por exemplo. 
As tensões, ao se localizarem no diafragma, provocam a sua contração, o que 
interferediretamente na respiração. A contração do diafragma resulta em alterações 
e impedimentos nos processos da inspiração e da expiração do ar durante a 
respiração. Além disso, a contração do diafragma repercute nos outros níveis ou 
segmentos de tensões (olhos, boca, pescoço, alto do tórax, abdômen e pélvis). Estes 
diferentes grupos de músculos pertencem a uma só unidade funcional no sentido 
vegetativo. (NAVARRO, 1995a). 
O músculo diafragmático começa a funcionar com a vida extrauterina, como 
uma bomba para a respiração na qual intervêm indiretamente os músculos 
espinhais, escapulares, occipitais e costais. Por isso há também uma 
respiração (inspiração) começando pela nuca (ligando o pescoço-diafragma 
também no sentido psicológico). O importante para a expiração é a ligação 
diafragma-abdômen através do músculo transverso; na respiração 
contribuem também os músculos da pélvis (o períneo é chamado diafragma 
inferior); dessa forma há também uma respiração pélvica, o que confirma a 
ligação diafragma-pélvis. (NAVARRO, 1995b, p. 69-70). 
 
A Bioenergética busca ajudar na percepção e liberação das tensões que 
impedem o indivíduo de ter uma respiração fácil, profunda e natural. “Exercícios de 
respiração ajudam um pouco, mas não fazem nada para reduzir tensão e restaurar o 
 
51 
padrão respiratório natural.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 13). O ato de não respirar 
naturalmente se deve a “[...] padrões desorganizados de respiração, devido a tensões 
musculares crônicas, que distorcem e limitam a respiração.” (LOWEN; LOWEN, 1985, 
p. 13). Para restaurar o padrão respiratório natural é necessário reduzir as tensões 
(que desviaram o padrão respiratório do seu natural), entender os padrões naturais e 
saber como eles se desorganizaram. 
Sobre a relação entre a respiração, as emoções e os músculos, Navarro 
(1995a) afirma: 
A respiração é um meio de comunicação e de expressão independente da 
palavra: a tristeza diminui a profundidade da respiração, o prazer a aumenta. 
Os ansiosos respiram superficialmente, irregularmente, prolongando a 
inspiração às custas da expiração, sempre incompleta. As emoções 
influenciam a respiração: é comum ver-se uma respiração entrecortada de 
suspiros no caso de angústia, uma dificuldade para respirar em caso de medo 
ou, ainda, uma sensação de sufocamento ou de opressão torácica. 
(NAVARRO, 1995a, p. 75). 
 
Segundo Navarro (1995a), os movimentos do diafragma deveriam ter um 
equilíbrio rítmico, pois sua função de inspiração-expiração é essencial à vida, e a 
saúde depende de uma circulação equilibrada e fluida de energia em todos os níveis. 
O movimento de inspiração antecede uma ação, é um momento de atividade; já a 
expiração é um momento de repouso e relaxamento, e também de expressões como 
gritos, soluços, riso, choro, palavras. 
Segurar o choro ou os gritos, sufocar seus sons e expressões provoca também 
a constrição na garganta que leva à limitação da respiração, pois a respiração está 
relacionada à voz. A emissão de sons se dá pelo deslocamento de ar através da 
laringe. Ao emitir um som claro que ressoa no corpo, ocorre uma vibração intensa 
semelhante às vibrações que se induz na musculatura ao se realizar exercícios de 
Bioenergética. Emitir um som e se deixar respirar, não restringir a respiração, é 
permitir-se ser ouvido; a negação do direito de uso da própria voz pode resultar em 
pessoas sem voz ativa em seus próprios assuntos. (LOWEN; LOWEN, 1985). 
O diafragma, segundo Navarro (1995a), ao se movimentar para baixo, conduz 
energia até a pélvis; assim, uma boa respiração pode gerar excitação e sensação de 
bem-estar próxima do erotismo, enquanto a agitação dos ansiosos é resultado de uma 
respiração deficiente, cujo impulso energético se direciona para o alto, no tórax. “A 
manifestação emocional ligada ao funcionamento do diafragma é a ansiedade, que 
não é mais do que o temor, o medo da ocorrência de um perigo ou de uma punição, 
 
52 
o que dá origem ao masoquismo. A educação repressiva, as ameaças e os castigos, 
ou as chantagens afetivas, determinam a estrutura de quem tolera e sofre.” 
(NAVARRO, 1995a, p. 86). 
“A ansiedade corta a respiração porque provoca uma expectativa de alguma 
coisa... [...]” (NAVARRO, 1995a, p. 90), e esta expectativa traz à tona a emoção do 
medo perante conflitos afetivos. Traduz-se em ansiedade, em uma espera de que algo 
desagradável vai acontecer, como punição, dor ou morte. Isto envolve o diafragma, 
pois, pela ação energética do sistema simpático, o medo ou a culpa atuam nos 
músculos respiratórios, e causa o bloqueio da funcionalidade do diafragma, que se 
manifesta como a ansiedade. (NAVARRO, 1995a, 1995b). 
Ao falar sobre o masoquismo, Navarro (1995b) diz que sua localização está no 
diafragma e sua origem está nas emoções que provocam ansiedade e medo. Isto faz 
com que esteja ligado à fisiologia da respiração. O masoquista tem a habilidade de 
transformar prazer em desprazer. Se, como afirma Reich (1984), expansão e 
contração estão em relação com prazer e desprazer respectivamente, com o trabalho 
sobre os padrões de respiração pode-se fazer com que se flexibilize este traço 
caracterial, e que a estase energética se desfaça, modificando esta condição psíquica 
e somática. Navarro (1995b), diz que “A ansiedade do masoquista se aplaca quando 
ele pode viver o desprazer, e assim encontra alívio de [...] respirar (expirar). 
(NAVARRO, 1995b, p. 73). Este desprazer é vivenciado quando o masoquista inala o 
ar. A contração é mantida pelo ato de suspender a respiração na inalação, “[...] 
prender a respiração na ansiedade masoquista só pode ser suportado, obviamente, 
até certo ponto, sendo depois necessário expirar. O tolerar, suportar, ‘engolir’ 
bloqueiam a respiração até o ponto da explosão da respiração.” (NAVARRO, 1995b, 
p. 73-74). 
Para Lowen e Lowen (1985), a respiração deixa de ser saudável quando os 
padrões de respiração sofrem distúrbios, ou seja, os movimentos da respiração 
deixam de ser uma ação integrada do corpo todo e “[...] uma parte do corpo se move 
em oposição a uma outra.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 14). Isto significa que haverá 
um bloqueio na respiração, por exemplo, se, ao inspirar, o peito se expande e a barriga 
se contrai resultando no impedimento do movimento descendente dos pulmões; a 
pessoa passa a respirar para cima e para baixo ao invés de expandir as cavidades do 
corpo respirando para fora e para dentro. Ou ainda, como afirmam Lowen e Lowen 
(1985, p. 14), o padrão mais comum é aquele, onde “[...] os movimentos respiratórios 
 
53 
estão limitados à área do diafragma, com pouco envolvimento do abdômen ou tórax. 
Esta é uma típica respiração superficial. Algumas vezes acontecem certos 
movimentos abdominais, mas o peito mantém-se rigidamente contido.” 
Sobre a biomecânica da respiração, Souchard (1989, p. 31-32) afirma o que 
segue: 
A função respiratória do diafragma é indissociável dos músculos que são seus 
antagonistas e complementares: os abdominais e, em especial, o transverso, 
que se insere sobre as mesmas vértebras lombares que ele. Tal função é 
também indissociável da massa visceral abdominal e períneo que a contém 
no nível inferior. Enfim, ela não pode ser encarada independentemente do 
diafragma superior, que constitui o conjunto faringe-laringe. 
 
A barriga contraída e tensa resulta na eliminação dos sentimentos e controle 
do choro e do riso. Soltar a barriga significa estar sujeito às lágrimas e soluços e 
também às gargalhadas de sacudir. Bloquear a barriga é bloquear sua própria 
plenitude de ser uma pessoa vibrantemente viva. (LOWEN; LOWEN, 1985). 
Nos processos da respiração, a região abdominal ou plexo solar, que é 
chamado de sede das emoções, tem sua importância, pois as tensões abdominais 
bloqueiam o movimento da corrente vegetativa natural e resultam em sintomas de 
perturbações respiratórias. “[...] a pressão exercida sobre o plexo solar, de cima pelodiafragma, de frente pela parede abdominal e de baixo, pelo assoalho pélvico 
contraído, reduzia de modo considerável a cavidade abdominal”. (REICH, 1984, p. 
271). Assim, a neurose é a expressão de uma perturbação crônica do equilíbrio 
vegetativo e da motilidade natural. “A inibição respiratória e fixação do diafragma é 
sem dúvida um dos primeiros e mais importantes atos na supressão das sensações 
de prazer no abdômen, e também na redução da ‘angústia abdominal’. Somada a isso, 
a atitude respiratória é o efeito da pressão abdominal.” (REICH, 1984, p. 260). 
Segundo Reich (1984), um padrão de respiração curta ocorre devido à emoção 
do medo, quando uma pessoa assustada ou em situação de perigo involuntariamente 
aspira o ar e prende a respiração. Como a respiração não pode cessar 
indefinidamente, a pessoa respirará outra vez e a expiração será superficial, não será 
completa. A pessoa expirará o ar aos poucos, numa respiração curta. Em estado de 
medo, involuntariamente, se inspira. O diafragma contraise e exerce pressão sobre o 
plexo solar, de cima para baixo. “É prendendo a respiração que as crianças costumam 
lutar contra os estados de angústia, contínuos e torturantes, que sentem no alto 
 
54 
abdômen. Fazem a mesma coisa quando sentem sensações agradáveis no abdômen 
ou nos genitais e têm medo dessas sensações.” (REICH, 1984, p. 260). 
Em relação aos bloqueios ou couraças musculares que se localizam em várias 
partes do corpo e os impedimentos que causam nos movimentos naturais ou impulsos 
vegetativos, Reich (1984) afirma o que segue: 
Uma cobra, ou uma lombriga, apresenta um movimento uniforme, ondulante, 
rítmico, que governa o organismo inteiro. Imaginemos agora que alguns 
segmentos do corpo são paralisados ou de algum modo restringidos, de 
modo que não podem mover-se com o ritmo do corpo todo. Neste caso, as 
outras partes do corpo não se moverão, como antes, em conjunto; o ritmo 
total terá sido perturbado por causa da exclusão de grupos de músculos 
individuais. Assim, a perfeição da harmonia e da motilidade do corpo 
dependem da uniformidade, da totalidade e da liberdade, sem perturbações, 
dos impulsos do corpo. (REICH, 1984, p. 275). 
 
Reich (1984) se refere a uma técnica de respiração, que é a forma mais 
importante de liberação desta harmonia e motilidade do corpo, promovendo a 
integração gradual das partes separadas e que assim são envolvidas no desempenho 
total. A respiração é usada para reativar as excitações emocionais vegetativas 
naturais. “Respirando fundo, sentimentos fortes de prazer ou de angústia aparecem 
no abdômen. Mas é precisamente a anulação desses sentimentos que se cumpre pelo 
bloqueio respiratório.” (REICH, 1984, p. 277). 
Esta técnica está relacionada com a expiração profunda e uniforme, feita de 
um só fôlego, oposta à exalação fragmentada em que se volta rapidamente à inalação, 
“A inalação profunda provoca uma obstrução da atividade biológica dos centros 
vegetativos, resultando em uma irritabilidade reflexa aumentada.” (REICH, 1984, p. 
280). Na exalação profunda, o diafragma se eleva devido a seu relaxamento, e diminui 
assim a pressão abdominal. “A exalação repetida reduz a estase e, com isso, a 
irritabilidade angustiosa.” (REICH, 1984, p. 280). Reich (1984) faz referência à 
contradição que o bloqueio da exalação profunda produz, pois “[...] o bloqueio serve 
para abafar as excitações de prazer que surgem do mecanismo vegetativo central. 
Entretanto, é esse bloqueio preciso que cria um aumento da susceptibilidade à 
angústia, e uma irritabilidade reflexa”. (REICH, 1984, p. 280-281). Segundo Navarro 
(1995b), ao conquistar o desbloqueio do diafragma com as práticas da Vegetoterapia, 
“[...] aparecem movimentos involuntários pré-orgásticos que costumam provocar no 
sujeito manifestações de angústia”. (NAVARRO, 1995, p. 70-71). 
Lowen e Lowen (1985, p. 13) descrevem o processo da respiração e afirmam 
que “A respiração saudável é uma ação do corpo todo; todos os músculos do corpo 
 
55 
estão envolvidos, em algum grau.” Os movimentos respiratórios ocorrem como ondas 
que fluem de baixo para cima e de cima para baixo. Há um padrão respiratório que 
ocorre devido a uma necessidade urgente de oxigênio (os músculos do tórax são 
mobilizados), onde o corpo movimenta-se como se fosse uma única peça, a 
respiração é feita com a barriga e com o tórax de forma profunda e plena, e se percebe 
as ondas respiratórias fluírem para cima e para baixo. Também há o padrão da 
respiração relaxada, em que o indivíduo toma o máximo de ar com um mínimo de 
esforço; é uma respiração predominantemente abdominal, e ocorre quando o 
indivíduo não se encontra em estado de forte emoção ou grande esforço. (LOWEN; 
LOWEN, 1985). 
O padrão de respiração relaxada [...] é para baixo e para cima na inspiração 
(inalação de ar). O diafragma se contrai e desce, permitindo a expansão dos 
pulmões quando eles inflam. Esta é a direção de menor resistência para a 
expansão dos pulmões. O abdômen se alarga através de um movimento para 
fora das paredes do mesmo, para dar espaço ao movimento descendente 
dos pulmões. A contração do diafragma também levanta as costelas 
inferiores, cujo movimento é acompanhado pela contração dos músculos 
intercostais (aqueles que ligam uma costela a outra). [...] Este movimento da 
pelve para frente é auxiliado pela contração dos músculos abdominais. A 
expiração, contudo, é um processo basicamente passivo, melhor 
exemplificado por um suspiro. (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 13). 
 
Lowen e Lowen (1985) afirmam que a inspiração inicia como uma onda que flui 
de baixo para cima, desde o fundo da pelve até a boca, e à medida que esta onda 
sobe, as cavidades largas do corpo – o abdômen, o tórax, a garganta e a boca – se 
expandem para sugar o ar. Fundamental é a expansão da garganta durante a 
inspiração, pois dela depende a respiração profunda. Assim, sua contração serve para 
abafar sensações e sentimentos, principalmente a vontade de chorar e gritar. “É muito 
comum no trabalho bioenergético acontecer que, após a pessoa ter chorado bastante, 
sua respiração se torne mais profunda e fácil. Permitir-se soluçar libera a tensão na 
garganta e também abre o ventre.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 13). As pessoas que 
têm medo de ir ativamente ao encontro do mundo, têm dificuldade de inspirar e 
sentem-se aterrorizadas ao abrirem suas gargantas para uma inspiração profunda. 
Já a onda expiratória começa na boca, flui para baixo e induz ao relaxamento 
de todo o corpo. Ao se liberar o ar retido nos pulmões libera-se qualquer outra 
retenção. O medo de se soltar leva às dificuldades para expirar o ar, que é ao mesmo 
tempo uma defesa contra o pânico de não ser capaz de conseguir ar suficiente. Devido 
ao pânico que sente ao exalar totalmente o ar, reage-se inalando mais ar e retendo 
 
56 
uma reserva de ar ao inflar novamente o peito. Assim, mantém-se nesta segurança 
ilusória, por medo. (LOWEN; LOWEN, 1985). 
Reich (1984) fala sobre uma prática respiratória, que consiste em inspirar e 
expirar profundamente, sem a intenção de fazer qualquer exercício respiratório, trata-
se de uma respiração natural e profunda; “Depois de cinco ou dez movimentos, a 
respiração em geral se torna mais profunda, e emerge a primeira inibição. Quando 
uma pessoa expira natural e profundamente, a cabeça se move com espontaneidade 
para trás no fim do movimento [...] Na exalação profunda, os ombros relaxam-se com 
naturalidade e se movem suave e levemente para a frente”. (REICH, 1984, p. 278). 
Outra forma é colocar os dedos de ambas as mãos num ponto entre o esterno e o 
umbigo, enquanto a pessoa inspira e expira fundo. Durante a expiração se aplica uma 
suave pressão neste ponto do alto abdômen, e isto pode provocar reações diversas 
como contrações ondulantes no abdômen, ou puxar a pélvis para traz e arquear as 
costas. Se a exalação profunda é continuada durante certo tempo, uma paredeabdominal tensa e dura torna-se macia. A pessoa sente-se melhor ao ceder por 
completo. 
A atitude de entrega é a mesma que a da rendição: a cabeça desliza para 
trás, os ombros movem-se para a frente e para cima, o meio do abdômen se 
encolhe, a pélvis move-se para a frente e as pernas separam-se 
espontaneamente. A expiração profunda produz a atitude de rendição 
(sexual). [...] Uma abertura frouxa da boca parece contribuir para o 
estabelecimento da atitude de rendição. (REICH, 1984, p. 278-279). 
 
Sobre a natureza do ser humano, os budistas dizem que “[...] nossa essência 
última ou natureza de Buda é pura, sagrada e inerentemente boa. A única razão de 
os seres humanos parecerem o contrário disto é que a experiência desta essência 
última tem sido bloqueada, detida como água dentro de uma represa.” 
(GUNARATANA, 2005, p. 160). Com a prática da meditação, as barreiras e 
impedimentos se extinguem, são eliminados, as paredes do ego vão sendo 
quebradas, assim como a defensividade e a rigidez se afrouxam, diminuem, e a 
pessoa se torna aberta e flexível, compartilhando sua bondade amorosa. 
(GUNARATANA, 2005). 
Uma forma de trabalhar estas barreiras e desfazer bloqueios é levar a prática 
da atenção plena para as experiências da vida diária, como a meditação em 
movimento, em que a atenção plena está, ao mesmo tempo no momento presente, 
na respiração e no movimento do corpo. Pode-se meditar ao realizar atividades no 
 
57 
dia-a-dia, ao fazer um exercício físico ou uma caminhada, percebendo as sensações 
dos movimentos do corpo, sentindo as tensões, os pés, as pernas, a respiração, o ar, 
o sol, o vento, a natureza, as emoções e pensamentos que acompanham este 
caminhar e, assim, conectarmos conosco mesmos e com a totalidade. 
Movimentamo-nos num ritmo que pode ser harmônico ou não. A desarmonia 
se dá devido às estagnações ou bloqueios em cada um dos sete níveis. Navarro 
(1995b) fala sobre os bloqueios que alteram a percepção da realidade, relacionados 
ao primeiro nível – olhos, ouvidos e nariz – os quais, no nascimento, deveriam ser 
imediatamente integrados num funcionalismo unitário e harmônico, pois, do contrário, 
o indivíduo perde contato com a realidade e sua percepção fica alterada, visto que os 
telerreceptores colocam o ser humano em contato com a realidade, e interferem na 
capacidade de aceita-la ou de suportá-la. Os olhos bloqueados são aqueles que 
olham, mas não veem, ou evitam o contato com o olhar. 
A Vegetoterapia utiliza-se de um acting que provoca o abaixamento do 
diafragma e isto faz com que a energia se movimente para baixo, para o abdômen. 
Este acting é proposto em casos de bloqueio no primeiro nível (olhos, ouvidos e nariz) 
e está relacionado aos quadros de depressão. Sua prática “[...] consiste em fazer o ar 
entrar e sair pelo nariz mostrando os dentes ao mesmo tempo, como um felino, o que 
corresponde à expressão da agressividade.” (NAVARRO, 1995a, p. 49). 
A meditação possibilita o desbloqueio e a transmutação desse olhar, e assim, 
tirar o indivíduo de suas ilusões e fantasias sobre sua realidade interna e sua vida, o 
coloca em contato com a verdade. A meditação traz também uma consciência 
corporal, e uma compreensão das sensações e sentimentos; consciência e insights 
virão, brotarão em cascatas de clareza e sabedoria, com respostas e compreensões 
que surgem diante desses olhos. 
Para Gunaratana (2005), os insights resultantes da meditação nos tiram da 
visão superficial dos nossos olhos e nos colocam diante da possibilidade de “ver” as 
coisas como elas são em si mesmas, com sabedoria e profundidade. Ver com 
sabedoria significa ver as coisas na complexa estrutura corpo-mente, onde se percebe 
as sensações da inspiração e da expiração, mas também se percebe os sons, os 
cheiros, os pensamentos, as recordações, as memórias, preconceitos ou 
parcialidades, cobiças, raiva, desilusões, nossos desejos, opiniões, nosso ego, self, 
estados de consciência. Sem um ponto de referência fixo, a pessoa se perderá nas 
incessantes ondas de mudanças que fluem e circulam dentro da mente e do corpo, e 
 
58 
a respiração é então o foco, o ponto de referência vital, a partir do qual a mente divaga 
e é trazida de volta a partir da percepção e sensação do corpo. 
Esta prática de “ver as coisas como elas são”, de focalizar a atenção total na 
respiração para chegar ao insight e à sabedoria, o processo de autodescoberta e a 
investigação pessoal, esta forma especial de ver a vida, de ver a realidade e as 
próprias experiências com clareza e precisão nos “[...] abre os olhos para uma nova 
visão da realidade e uma nova visão do aspecto mais central da realidade, o nosso 
‘eu’”. (GUNARATANA, 2005, p. 40 e 47). 
 
Seção 3.2: Considerações 
As práticas corporais da Bioenergética, da Vegetoterapia e da Meditação 
integram-se num encontro harmônico de preceitos, ideias e fundamentação, e seus 
movimentos estão direcionados ao mesmo objetivo de proporcionar saúde e bem 
estar através de uma boa respiração, de um corpo livre em sua motilidade e 
mobilidade, de uma circulação fluida e liberada de energia, de uma percepção mais 
consciente de si mesmo, de seu corpo, de sua psique e suas emoções. O ritmo da 
vida está no pulsar da energia e da respiração – o ritmo tensão-relaxamento, 
contração-expansão, inspiração-expiração, integrados à totalidade da vida. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Wolpe J. Theem função deste modelo conceitual e técnico que 
residem as principais diferenças das psicoterapias. Em relação aos modelos/ 
referenciais teóricos podem-se destacar as teorias psicanalíticas/ psicodinâmicas (e 
seus principais representantes Sigmund Freud, Melaine Klein, Wilfred Bion, Carl Jung, 
Donald Winnicott, entre outros), comportamentais (Burrhus Skinner), cognitivas (Aron 
Beck), existenciais-humanistas (Carl Rogers), psicodramáticas (Jacob Levy Moreno), 
sistêmicas (Salvador Minuchin), construtivistas (Robert Neimeyer), narrativas (Sluzki) 
e do construcionismo social (Knneth Gergen). 
 
 
6 
Em relação às especificidades técnicas, as principais diferenças se relacionam 
aos objetivos e recursos utilizados (interpretação, exposição, psicoeducação), 
frequência das sessões e tempo de duração do tratamento, setting (grupal, familiar, 
individual), treinamento exigido aos terapeutas, prérequisitos dos pacientes, alcances 
e resultados a serem atingidos. 
Considerando-se os objetivos deste artigo, destacar-se-ão as psicoterapias 
psicanalíticas/psicodinâmicas, as cognitivo-comportamentais e as psicoterapias de 
grupo, detalhando-as em termos de seus aspectos teóricos, técnicos e indicações. 
 
Seção 1.3: Psicoterapias: psicanalíticas/psicodinâmicas 
O termo psicodinâmica é empregado geralmente como uma forma de 
compreensão dos fenômenos mentais que tem sua origem nos conhecimentos 
psicanalíticos. Neste sentido, pode-se fazer uma compreensão psicodinâmica dos 
casos clínicos a serem estudados, pode-se pensar em uma psiquiatria psicodinâmica, 
ou ainda, em uma interpretação de testes psicológicos sobre a luz do referencial 
teórico psicodinâmico. Mas quais seriam, entretanto, os pressupostos centrais que 
norteiam a psicodinâmica? Para responder a esta questão, apresentar-se-á os 
conceitos teóricos fundamentais. 
 
Seção 1.4: Conceitos teóricos básicos em psicodinâmica 
A psicanálise tem como marco para seu início o trabalho de Freud intitulado ‘A 
interpretação dos Sonhos’, considerada, por ele mesmo, sua obra mais importante. 
Para Freud, os sonhos seriam a forma através da qual se teria acesso à dimensão 
inconsciente da vida psíquica, sendo eles uma expressão dos desejos mais íntimos 
do indivíduo e dos mecanismos de censura que operam para mascarar tais desejos, 
conhecidos como repressão. Embora o conceito de inconsciente se amplie ao longo 
da evolução da teoria psicanalítica, o inconsciente freudiano já surge como um ‘lugar’ 
de grande influência sobre o Homem e a partir de ‘onde’ as ações, escolhas e formas 
de compreensão do mundo são estabelecidas. O conteúdo deste sistema está ligado, 
fundamentalmente, às pulsões (representantes mentais da vida instintual) e às 
primeiras experiências sexuais infantis. 
Segundo Mabilde, Freud estabelece que “o inconsciente, como sistema, 
funciona de acordo com leis especiais, que estão desprovidas da lógica da noção de 
 
7 
tempo, espaço e causalidade, formando o que se denomina processos primários do 
psíquico” (p.65). O primeiro modelo de mente exclusivamente psicanalítico, conhecido 
como primeira tópica, estabeleceu que a vida mental estava dividida entre os sistemas 
consciente, pré-consciente (local onde o ato psíquico ainda não é consciente, mas 
pode se tornar) e inconsciente. Como explica Laplanche, os conteúdos reprimidos 
inconscientes procuram retornar ao sistema consciente e préconsciente, porém 
apenas a partir das deformações causadas pela censura tais conteúdos tem acesso 
a estes sistemas. 
Em 1914, na obra ‘Recordar, repetir e elaborar’, Freud estabeleceu que os 
conteúdos reprimidos, ainda que não fossem lembrados pela memória, seriam 
‘lembrados’ no comportamento (atuações, sintomas), de modo que seriam sempre 
repetidos com a finalidade de serem elaborados. Neste sentido, esta repetição seria 
a responsável pelo estabelecimento da transferência (reedição com o terapeuta de 
relações significativas do passado), em uma tentativa de se reviver o que precisa ser 
elaborado e, ao mesmo tempo, uma forma de resistência, por favorecer a continuidade 
dos atos comportamentais atuados. 
Ao longo de suas experiências clínicas e das produções científicas 
desenvolvidas entre os anos de 1900 e 1923, Freud passou a conjecturar uma nova 
divisão do aparelho psíquico, complementar à primeira, porém mais ‘dinâmica’ e que 
pudesse abarcar a complexidade do funcionamento mental. Em 1923, introduz a 
divisão do aparelho psíquico em três instâncias: Ego, Superego e Id, conhecida como 
‘Segunda Tópica’. 
Em ‘O Eu e o Id’, Freud define as três instâncias que compõem o aparelho 
psíquico, estabelecendo que o Id é a parte pulsional/instintual (com conteúdos de 
natureza libidinal e agressiva, por exemplo) e a mais primitiva da mente, a partir da 
qual, uma porção se diferenciará pela influência do mundo externo e que será 
denominada Ego. Ao Ego são atribuídas as funções de percepção, atenção, 
motilidade, memória e pensamento, sendo esta instância reguladora da vida psíquica 
que sofre influência e é influenciado pelo Id. Já o Superego, classicamente é definido 
como uma instância com funções normativas, a partir do qual, os limites e regras são 
estabelecidos internamente. 
Numa perspectiva freudiana, é o interjogo entre estas instâncias, que vai 
determinar o funcionamento mental em um indivíduo: a luta entre o Id e o mundo 
externo, resultaria em uma estrutura de personalidade psicótica, cuja vida instintual 
 
8 
do Id se impõe diante da realidade comprometendo a capacidade de adaptação deste 
indivíduo que passa a recriar a realidade por meio dos delírios e alucinações. A 
neurose, por sua vez, seria o resultado dos conflitos entre o Id e o Ego, a partir do 
qual um impulso instintual poderoso é impedido de ser descarregado pelo Ego e pelas 
forças repressivas (Superego), surgindo, então, os sintomas neuróticos (p.ex. fobias, 
pensamentos obsessivos) como formações de compromisso. Hoje, entendem-se tais 
formações como características do funcionamento mental de todos os indivíduos e, 
neste sentido, os próprios traços de caráter são representantes destes compromissos 
que tem nos sintomas neuróticos sua variante patológica. 
Na atualidade, com o desenvolvimento do pensamento psicanalítico, observa-
se uma ampliação da compreensão de neurose e psicose. Bion (1897-1979), um dos 
maiores representantes do pensamento psicanalítico atual, estabeleceu a ideia de 
uma ‘parte psicótica da personalidade’, a partir da qual, todos os indivíduos conservam 
em sua mente uma fração mais regredida em que predomina um funcionamento mais 
primitivo caracterizado por um baixo limiar de tolerância à frustração, ódio às verdades 
e predomínio de pulsões agressivas e destrutivas. 
Dentre os conceitos centrais da teoria psicanalítica, os mecanismos de defesa 
têm grande destaque. Alguns impulsos instintivos não podem ser manifestados, pois 
sua satisfação também traria problemas adaptativos para o Ego; como forma de se 
opor a estas forças surge a repressão. Os mecanismos defensivos estão a favor da 
repressão, ajudando o Ego a se proteger das exigências instintuais do Id. Segundo 
Gabbard, “todos nós temos mecanismos de defesa, e as defesas que utilizamos 
revelam muito a nosso respeito” (p.37). A compreensão destes mecanismos é de 
grande importância para a prática clínica, orientando o raciocínio diagnóstico 
psicodinâmico e o planejamento terapêutico. 
Os mecanismos defensivos podem ser organizados de acordo com uma 
hierarquia que vai das mais primitivas como a negação (de aspectos difíceis da 
realidade) e a somatização (conversão da dor emocional em sintomas físicos), até as 
mais maduras como o humor (encontrar elementos cômicos em situações difíceis) e 
a sublimação (dar um destino socialmente aceitável a afetos 
inaceitáveis/desadaptados). 
O modelo freudiano de mente tem sido transformado/reformulado/ampliado ao 
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Zimerman DE. Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed; 
2004.desenvolvimento da teoria, culminando no surgimento de várias 
‘escolas psicanalíticas’, dentre as quais se destacam Melanie Klein (1882-1960) e 
 
9 
Wilfred Bion (1897-1979). A partir das contribuições de Melanie Klein, a psicanálise 
com crianças alcançou grandes avanços, com o estabelecimento do brinquedo e dos 
jogos como instrumento de grande importância para o trabalho psicanalítico. Klein 
ainda reformulou e ampliou vários conceitos psicanalíticos freudianos, sendo que sua 
influência se reflete nos trabalhos de vários autores posteriores. 
Ao contrário de Freud, que não acreditava na possibilidade do trabalho 
psicanalítico com pacientes psicóticos, Bion destinou-se a investigar a vida mental 
destes pacientes com importantes achados que norteiam o pensamento clínico 
psicanalítico atual. Além disso, Bion também se preocupou com a função analítica, 
estabelecendo conceitos e vértices que promovem uma maior compreensão do 
funcionamento do par analítico paciente-analista, fundamentando parâmetros novos 
para o desenvolvimento da própria função psicanalítica. 
 
Seção 1.5: Conceitos técnicos básicos em psicodinâmica 
A técnica psicanalítica foi desenvolvida (e está em constante desenvolvimento) 
com a finalidade de permitir o acesso ao inconsciente do paciente. Para facilitar este 
processo, estabeleceu-se como regra fundamental da psicanálise, a associação livre, 
a partir da qual o paciente deve relatar espontaneamente tudo o que lhe vem à mente 
durante a sessão, independente do paciente as julgar relevantes ou não. Este aspecto 
se manifesta tanto nas verbalizações (escolhas das palavras), como na forma de se 
expressar e desenvolver o pensamento, de maneira que o discurso livre permite que 
o terapeuta se aproxime dos conteúdos latentes da dimensão inconsciente da mente. 
A transferência é um dos pontos centrais na técnica psicanalítica, 
representando o ambiente a partir do qual se dá a problemática de um tratamento 
psicanalítico. Ao reencenar através da relação com o psicoterapeuta suas formas de 
relação mais primordiais (com pais, irmãos, figuras importantes do passado), cria-se 
uma condição para o surgimento de fantasias, desejos e impulsos afetivos que 
estavam imersos no inconsciente e que devem ser compreendidos, por representarem 
o mundo interno do paciente, a forma como viveu suas relações e como as vive até o 
presente. 
A contratransferência pode ser definida como um “conjunto das reações 
inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à 
transferência deste” (p.102). Hoje a contratransferência também é entendida com um 
 
10 
importante canal de comunicação primitiva entre as mentes do paciente e do 
terapeuta, podendo ser um poderoso instrumento a favor da empatia. Tanto a 
transferência como a contratransferência são conceitos que vem sendo ampliados até 
o presente e que vão ganhar diferenças a partir de cada escola psicanalítica, 
entretanto, ambos os fenômenos se mostram presentes nas relações humanas e 
devem ser observados, principalmente nas relações de cuidado. 
A terminologia ‘Atividade interpretativa’, preferida por Zimerman em seu 
trabalho ‘Manual de Técnica psicanalítica: uma re-visão’ oferece um parâmetro 
importante para se entender a complexidade desta função dentro da relação 
psicanalítica. Nas palavras do mesmo autor: “mais do que uma decodificação do 
conflito pulsional (...) a interpretação consiste na construção de novos sentidos, 
significados e na nomeação das velhas, bem como das novas, e difíceis experiências 
emocionais” (p.179). Segundo Gabbard, é a partir da interpretação que se pode (re) 
estabelecer uma maior conexão entre um pensamento, um comportamento e/ou um 
sintoma com o seu sentido inconsciente. 
Segundo Zimerman, o setting relaciona-se às regras que permeiam o contato 
psicoterapêutico e, neste sentido, abrange questões que vão desde a quantidade de 
sessões semanais, horários e honorários até o uso ou não do divã ou da posição 
frente a frente entre outros acordos que procuram normatizar o processo 
psicoterapêutico. O mesmo autor ainda pontua que o setting, por si só, já constitui um 
importante fator terapêutico por possibilitar o surgimento de um espaço de projeção 
dos aspectos inconscientes do paciente e onde o terapeuta pode, entre outros fatores, 
estabelecer a realidade exterior por meio das regras acordadas. 
Todos estes aspectos técnicos são comuns aos diferentes tipos de psicoterapia 
psicodinâmica, num continuum que vai da psicoterapia de apoio à expressiva. Embora 
as questões teóricas e técnicas tratadas até o momento tenham como enfoque o 
contato psicoterápico individual, cabe ressaltar que estes mesmo fatores estão 
presentes em outras modalidades como, por exemplo, as terapias de grupo. 
 
Seção 1.6: Tipos de psicoterapias psicodinâmicas 
Dentro do extenso grupo de técnicas psicoterápicas que trabalham com o 
referencial psicodinâmico, observa-se um amplo espectro que vai desde o 
apoio/orientação até as terapias expressivas, voltadas para o insight, as quais 
 
11 
pressupõem elaboração e mesmo uma reestruturação da personalidade. A Figura 1 
destaca os principais recursos técnicos, considerando as modalidades de intervenção 
neste continuum. 
As categorias de intervenções ilustradas na Figura 1, representam estratégias 
a partir das quais o trabalho psicoterápico se desenvolverá, considerando que quanto 
mais uma modalidade psicoterápica psicodinâmica se localiza próxima do pólo 
expressivo, menos reasseguramentos são feitos e mais se trabalhará com a 
confrontação e com as interpretações. 
Figura 1: Principais recursos técnicos utilizados nas psicoterapias, 
considerando-se as modalidades de intervenção (adaptado de Cordioli et al22) 
 
O termo psicanálise define tanto o arcabouço teórico a partir do qual se 
desenvolveram as psicoterapias psicodinâmicas (apresentadas a seguir), como uma 
modalidade terapêutica específica localizada no extremo pólo da direita como a 
representante máxima das intervenções expressivas: a análise psicanalítica. 
A seguir, serão discutidos os tipos de psicoterapia psicodinâmica que se 
destacam a partir dos extremos deste continuum apoio-expressivo. Cabe destacar 
que, conforme ressaltado por Gabbard, estes extremos são intercambiantes durante 
o processo psicoterapêutico de alguns tipos de pacientes, havendo possibilidades de 
num determinado momento, um paciente que, por exemplo, iniciou a terapia de apoio 
viver um momento de maior insight e vise versa. 
Segundo Fiorini, a psicoterapia de apoio busca reduzir ansiedades em 
momentos de crise, descompensação e atenuar ou mesmo suprimir sintomas. Neste 
sentido, conforme o mesmo autor, o terapeuta tem uma posição mais ativa dentro do 
setting, adotando uma postura mais diretiva e tranquilizadora e visando não estimular 
 
12 
o estabelecimento de vínculos transferenciais profundos que possam dificultar o 
diálogo entre terapeuta e paciente. A terapia é focada nos aspectos conscientes e 
centrada nas dificuldades práticas. A postura mais ativa do terapeuta também é 
manifestada a partir da posição frente a frente assumida pelo paciente e uma 
frequência menor de sessões, podendo ser semanais, quinzenais, ou mesmo 
mensais, além da limitação temporal fixada desde o início - geralmente por algumas 
semanas e eventualmente se estendendo por anos. 
Para ilustrar este modelo de intervenção, apresentar-se-á uma pequena 
vinheta clínica: Raquel é uma moça solteira, de 25 anos, universitária, que recebeu 
um diagnóstico de neoplasia de mama. Apesar de contar com o apoio familiar, Raquel 
ficou muito angustiada diante da notícia, reagindo de forma enérgica contra a 
indicação cirúrgica e/ou qualquer possibilidade de tratamento quimioterápico. Parou 
de frequentar as aulas da faculdade, referindo não ver mais razão em estudar ou 
buscar uma carreira, terminou seu relacionamento amoroso de trêsanos e passou a 
ser mais agressiva com os familiares e os profissionais de saúde que a assistiam, não 
aceitando conversar com ninguém sobre suas decisões. Os pais de Raquel, 
preocupados com a reação da filha, buscaram ajuda por meio da psicoterapia de 
apoio. Embora contrariada, Raquel aceitou realizar sessões semanais durante dois 
meses, a partir dos quais ela pode entrar em contato com suas fantasias a respeito 
da doença, analisar com maior clareza suas reais possibilidades de tratamento e 
restabelecer seu funcionamento prévio. 
Nesta intervenção psicoterápica, houve predomínio de recursos técnicos como 
o reasseguramento de suas possibilidades reais de tratamento, orientação, conselho 
e validação empática de seu sofrimento, como forma de acolher suas dificuldades e 
ampliar seus recursos de enfretamento da realidade. 
Assim como na análise psicanalítica, na psicoterapia de orientação 
psicanalítica, objetiva-se o insight, através do qual o paciente terá a possibilidade de 
elaborar conflitos inconscientes, contudo, na psicoterapia de orientação psicanalítica, 
buscase um foco (associado a uma fonte de sofrimento e motivação para mudança), 
a partir do qual o trabalho interpretativo se aterá. Nesta modalidade de psicoterapia, 
o setting também apresenta algumas características próximas à da psicoterapia de 
apoio, como a posição frente a frente do paciente em relação ao terapeuta. Entretanto, 
utiliza-se um número maior de sessões (uma a três sessões semanais) e o 
acompanhamento pode perdurar por meses ou mesmo anos. 
 
13 
Outro instrumento importante da psicoterapia de orientação psicanalítica é o 
uso da transferência, que embora seja explorada em um grau diferente de 
profundidade do que na análise psicanalítica, é a partir deste vértice que as 
interpretações se orientam para o foco eleito no trabalho psicoterapêutico. 
Como exemplo desta modalidade de acompanhamento apresenta-se a 
seguinte vinheta clínica: Marília (nome fictício) era uma senhora casada de 53 anos, 
com três filhos adultos e que trabalhava com serviços de estética. Nos últimos anos, 
passou a se sentir angustiada, ter problemas para dormir durante a noite (o que a 
fazia ingerir álcool com alguma frequência na semana, antes de adormecer), relatava 
sentir uma ‘tristezinha’ (sic) que não conseguia entender de onde vinha e em alguns 
momentos apresentava ‘crises de nervoso’ (sic) em que tinha seus membros 
superiores paralisados. Após procurar ajuda psiquiátrica e realizar alguns exames 
clínicos, descartou-se a presença de um quadro orgânico e a paciente recebeu o 
diagnóstico de transtorno conversivo, sendo medicada e encaminhada a procurar 
ajuda psicoterápica. Iniciou acompanhamento duas vezes por semana em 
psicoterapia de orientação psicanalítica. Por sempre ser muito independente e prática, 
passava por várias situações em que precisava resolver os problemas cotidianos de 
seus familiares, os quais sempre recorriam a ela em momentos de apuro. Marília, por 
sua vez, sempre se mostrava disponível, desmarcando compromissos pessoais para 
socorrer a quem precisasse, emprestando dinheiro ou fazendo empréstimos em banco 
para seus filhos. 
Nas sessões, Marília sempre se mostrava muito desejosa da companhia da 
psicoterapeuta, alegava que ninguém em sua família a valorizava e que todos 
estavam sempre ‘sugando suas energias’ (sic). Com o desenvolvimento da 
psicoterapia, foi sendo possível observar as formas de se relacionar de Marília, a qual 
sempre se mostrava em suas relações como aquela que tudo resolve e que não 
encorajava seus filhos a buscar alternativas independentes (de maneira que estes 
viviam na dependência dela, mesmo a filha casada). Em uma sessão, 
especificamente, Marília chega dizendo à psicoterapeuta que gostaria de lhe dar um 
presente, mas não sabia o que. A psicoterapeuta fica incomodada com o desejo de 
Marília e a questiona sobre esta ‘necessidade’. Marília diz que gosta de agradar as 
pessoas, que assim será lembrada por sua psicoterapeuta e em seguida, começa a 
falar de seus filhos e de seu marido, ‘sugadores de energia’. Refere que sempre tem 
que deixar seus planos pessoais para depois porque tem que agradar alguém de sua 
 
14 
família. A psicoterapeuta, então, lembrando-se do presente que a paciente pretendia 
dar a ela, pergunta a Marília se ela sente que precisaria sempre se sacrificar por seus 
familiares e que caso contrário eles não gostariam/se lembrariam dela (assim como, 
no passado, quando foi abandonada por sua mãe e criada por outra família; neste 
contexto, sentia que tinha que fazer tudo o que a família desejasse para se sentir parte 
dela). Ao logo do processo psicoterapêutico, foi possível para Marília apropriar-se de 
sua forma de se relacionar, observando melhor as fantasias inconscientes 
despertadas por estas relações e o lugar que ocupa nestas, em sua vida. 
Nesta modalidade psicoterápica, embora se tenha feito uso de técnicas como 
a validação empática, houve predomínio de recursos como o encorajamento para 
elaboração, a clarificação e a interpretação. 
A análise picanalítica, principal representante do extremo ‘expressivo’, 
enquanto modalidade terapêutica, diferencia-se entre as modalidades 
psicodinâmicas, sobretudo do ponto de vista da técnica, a começar pela não exigência 
de um eixo inicial/foco, a partir do qual o trabalho psicoterapêutico deva se concentrar, 
pela utilização do divã como forma de estimular uma maior regressão para níveis 
inconscientes das associações do paciente e por promover o estabelecimento de 
relações transferências mais profundas. 
A projeção de conteúdos inconscientes, facilitada pelo setting psicanalítico, traz 
um maior conhecimento da realidade interna do paciente e favorece a sua mudança 
psíquica. Segundo Eizirik e Hauck, na análise psicanalítica há um uso de mais 
sessões semanais (de três a cinco vezes) e predomínio das interpretações 
transferenciais, a partir dos quais se pretende uma “elaboração do conflito primário” 
(p.159). Este último pode ser entendido como as primeiras experiências fundamentais 
de vida de um indivíduo (figuras parentais ou substitutos destes) e que determinam 
seus padrões de relacionamentos, a capacidade de lidar com sentimentos, suas 
fantasias e formas de interpretar o mundo. 
Como forma de se ilustrar esta modalidade de psicoterapia, apresentar-se-á 
uma nova vinheta clínica, de um paciente com diagnóstico de transtorno de 
personalidade narcisista: Carlos (nome fictício), 43 anos, solteiro, muito inteligente (o 
que o fez ocupar um cargo de destaque no universo empresarial) sempre se mostrou 
impulsivo, autoritário e competitivo. Demonstrava muitas dificuldades de se relacionar 
com outras pessoas, tanto socialmente quanto de forma íntima. Não conseguia manter 
amigos, pois sempre rompia a relação diante do pensamento de que ‘as pessoas só 
 
15 
querem se aproveitar umas das outras’ (sic), interpretando qualquer pensamento 
diferente do seu como suficiente para interromper o vínculo. Teve várias namoradas, 
pois é um homem de aparência atraente e discurso sedutor, porém não conseguiu 
manter nenhum relacionamento duradouro, já que sempre que percebia a 
companheira de forma realista (menos idealizada), a relação chegava ao fim. Uma 
dessas namoradas teve maior importância para ele, dado que, de forma honesta, tinha 
o hábito de lhe dizer o que gostava e o que não gostava em seu comportamento. 
Diante destes apontamentos, Carlos tinha uma postura surpreendente, fazendo 
reflexões sobre o que ela dizia e tentando mudar. Carlos tem vários interesses 
dispendiosos, troca de carro pelo menos duas vezes ao ano, mantém um guarda-
roupa caro e custeia festas para seus colegas de trabalho, regadas a muitas bebidas 
e mulheres. 
Após vários anos em que se percebeu sozinho, ‘sem poder confiar em ninguém’ 
(sic), Carlos resolve procurar um vínculo analítico, na esperança de poder contar com‘o silêncio e a discrição de alguém mediante pagamento’ (sic). Assim inicia as sessões 
de psicanálise, pois se percebe sempre muito insatisfeito, irritado e com frequência 
entristecido, (embora ele não nomeie como tristeza, prefere o termo ‘incomodado’), 
que o faz ter dificuldades para adormecer e se sentir indisponível para atividades que 
antes lhe davam prazer como trabalhar, ir a festas e fazer viagens. A análise 
possibilitou que Carlos entrasse em contato consigo mesmo e com seu modo de 
funcionar diante do mundo, tornando aspectos de seu funcionamento que são 
disfuncionais, porém harmônicos a sua personalidade, menos automáticos e mais 
passíveis de sofrer a influência do pensar analítico. 
Em análise psicanalítica, a confrontação e o trabalho interpretativo ganham 
destaque, visando um maior conhecimento de ‘quem se é’ e ampliar o ‘alcance’ da 
elaboração psíquica. As mudanças em níveis mais profundos, que envolvem a 
estrutura de personalidade do indivíduo, tendem a se instaurar de forma mais 
consistente, possibilitando mudanças de hábitos e de formas de se escolher na vida. 
 
Seção 1.7: Indicações para as modalidades psicoterápicas 
psicodinâmicas 
Para todos os tipos de psicoterapia é necessário que haja motivação e 
capacidade de estabelecer um bom vínculo terapêutico. Na Tabela 1, destacam-se as 
 
16 
principais indicações e contra-indicações de cada modalidade psicoterápica 
psicodinâmica, considerando suas especificidades e características técnicas. 
Tabela 1: Indicações e contra-indicações das modalidades psicoterápicas. 
(*) Adaptado de Cordioli; (**) Adaptado de Keidann e Zot. 
 
Seção 1.8: Terapia cognitivo-comportamental (TCC) 
Conceitos teóricos em TCC 
Ao longo dos tempos a TCC vem evoluindo em seus modelos conceituais e 
teóricos na tentativa de aprimorar o entendimento do funcionamento psicológico 
humano e aumentar a eficácia dos tratamentos oferecidos. Nos últimos anos, 
convencionou-se dividir a história das terapias de base cognitiva e comportamental 
em três períodos - a depender da fundamentação das intervenções emergentes e 
prevalentes no momento -, que são referidos como “ondas”. A ‘primeira onda’ é 
caracterizada por uma confluência de diversas modalidades terapêuticas 
comportamentais, que compartilhavam os objetivos de eliminar comportamentos e 
emoções inadequadas, baseadas nos princípios experimentais, que existiam antes da 
revolução cognitiva dos anos 1960. Com o advento dos modelos cognitivos, no final 
da década de 1950 e início de 1960, principalmente com as teorias de Aaron Beck e 
Albert Ellis, surge a ‘segunda onda’, com um novo paradigma cognitivo e novas formas 
de intervenção clínica que hoje são chamadas especificamente de TCCs. Assim, as 
atuais TCCs caracterizam-se pelo conjunto de abordagens teóricas e intervenções 
clínicas embasadas na lógica comum do modelo cognitivo. A ‘terceira onda’ retoma a 
visão externalista da primeira onda, mantendo o foco na cognição, trazido pelas TCCs, 
mas passando de seu conteúdo para seu contexto, voltando-se para a compreensão 
 
17 
e aceitação das sensações e sentimentos, integrando, para isso, técnicas de 
diferentes abordagens. 
É importante destacar que esta é a história da constituição das ondas norte-
americana, frequentemente encontrada nas publicações nacionais e internacionais. 
No Brasil, temos uma “cronologia invertida”, pois enquanto nos EUA foi necessária a 
chegada da terceira onda para a popularização das terapias com foco externalista, no 
Brasil, as terapias deste tipo, representadas pela Terapia Analítico-Comportamental, 
entre outras, já estavam estabelecidas desde a primeira onda brasileira, por volta dos 
anos de 1970. 
Além disso, vale lembrar a inexistência de superioridade das ondas mais 
recentes em relação às mais antigas, estando a divisão nestes três momentos mais 
relacionada a uma organização didática e histórica das ideias. 
 A primeira onda: terapia comportamental 
O termo Terapia Comportamental foi introduzido por pelos menos três 
diferentes grupos de pesquisadores: 1) Lindsley, Skinner e Solomon, nos Estados 
Unidos, utilizaram-no pela primeira vez em 1953, para se referir à intervenção 
baseada no condicionamento operante, realizada com pacientes psicóticos 
hospitalizados, a fim de reduzir suas alucinações; 2) Eysenck, na Inglaterra, em 1959, 
apresentou uma nova modalidade de terapia, caracterizada pela aplicação das teorias 
da aprendizagem para tratamento dos transtornos psicológicos, por meio da utilização 
do condicionamento operante e do clássico e da modelação; e 3) Lazarus, que em 
1958, patenteou o termo para se referir à incorporação de procedimentos objetivos de 
laboratório à psicoterapia, considerando a terapia comportamental como uma parte 
dos procedimentos característicos de sua proposta de intervenção denominada 
Terapia Multimodal. 
Apesar desta diversidade de intervenções abarcadas pelo termo Terapia 
Comportamental durante a primeira onda, é possível encontrar algumas 
características compartilhadas por estas propostas. Seu principal objetivo era a 
eliminação das respostas indesejadas e das reações emocionais avaliadas como 
inadequadas por meio de técnicas. Além disso, este grupo de terapias era 
caracterizado por um rigor experimental que, segundo alguns autores, limitou o estudo 
de questões humanas menos objetivas, que foram relegadas para tradições menos 
empíricas. 
 
 
18 
O modelo comportamental tem uma de suas origens no final do século XIX, 
com os trabalhos de Pavlov que, ao estudar a digestão em cães, descreveu o 
processo mais tarde chamado de Condicionamento Pavloviano, Clássico ou 
Respondente. O condicionamento respondente é o processo por meio do qual um 
estímulo anteriormente neutro para uma determinada resposta reflexa, após diversas 
apresentações emparelhadas com um estímulo incondicionado para esta resposta, 
passa a eliciar uma resposta topograficamente semelhante a ela. Este processo de 
aprendizagem tem um importante valor de sobrevivência para os indivíduos, mas se 
refere apenas a uma parte pequena do repertório comportamental humano já que, por 
meio do condicionamento respondente não são aprendidas novas respostas, apenas 
novas relações entre estímulos novos e respostas pré-existentes. 
Outros trabalhos como os de Watson e Mary Cover Jones, Skinner, entre 
outros, foram necessários para que o desenvolvimento das intervenções que mais 
tarde vieram a ser chamadas de Terapia Comportamental se constituíssem como uma 
modalidade de tratamento psicológico. Os trabalhos de Watson deram origem ao 
chamado Behaviorismo Metodológico, que surge como oposição às propostas 
mentalistas, e se propõe a estudar o comportamento observável por meio do método 
científico experimental, a fim de prevê-lo e controla-lo. A introspecção, enquanto 
método para acessar a subjetividade, é abandonada, e os aspectos subjetivos deixam 
de fazer parte da ciência, já que esta ainda não possui métodos confiáveis para 
acessa-la. O Behaviorismo de Watson não deixava de ser dualista, apenas propunha 
que os aspectos internos fossem deixados de lado até que a ciência pudesse 
acessalos de forma eficiente. 
Os Neobehaviorismos Mediacionais, como o Behaviorismo Intencional de 
Tolman e o de Hull, também tiveram papel importante nos fundamentos das Terapias 
Comportamentais. Muitas das técnicas respondentes utilizadas por importantes 
terapeutas da primeira onda tem origem não só nas ideias de Pavlov e Watson, mas 
também destes neobehavioristas. Exemplos são a dessensibilização sistemática, a 
exposição imaginária/ao vivo e a exposição com prevenção de respostas. 
Já a proposta de Skinner, chamada de Behaviorismo Radical, traz dentre suas 
inovações o monismo materialista e a ideia da construção social do mundo subjetivo. 
Diferentemente de Watson, adota uma modelo causal de seleção por consequências, 
ao invés de um modelo mecanicista,e afirma que a maior parte do repertório 
comportamental humano é do tipo operante e não respondente. 
 
19 
A noção de operante foi uma de suas maiores contribuições para os modelos 
comportamentais. O conceito de comportamento operante refere-se à ideia de que 
aquilo que um organismo faz, ou seja, seu comportamento, tem um efeito no mundo 
ao seu redor e este efeito retroage sobre o organismo, podendo alterar a probabilidade 
do comportamento ocorrer novamente. As consequências reforçadoras são aquelas 
que, quando seguem uma resposta, aumentam sua probabilidade futura de 
ocorrência. As consequências punidoras são aquelas que tem como efeito imediato a 
supressão da resposta, além de seus efeitos colaterais. 
Segundo Skinner, é o comportamento do tipo operante que dá origem à maioria 
dos problemas humanos. Um exemplo típico, no contexto da terapia, é a chamada 
birra infantil. Este é um comportamento operante que, quando seguido de 
consequências reforçadoras, como atenção frequentemente é, aumenta de 
frequência. Outro exemplo são as respostas de esquiva fóbica, em que o paciente 
consegue alívio dos sintomas de ansiedade evitando a situação fóbica (por exemplo, 
lugares fechados e aglomerados). 
A extinção é um outro conceito apresentado por Skinner que consiste na 
suspensão do reforço produzido pela resposta emitida, ou na quebra da relação de 
contingência entre resposta e consequência, levando ao retorno da frequência da 
resposta a seus níveis operantes. Este conceito é bastante utilizado na clínica 
comportamental na redução de comportamentos indesejados. Retomando-se o 
exemplo da birra infantil, esta resposta pode ser colocada em extinção, por meio da 
retirada da consequência reforçadora (atenção como no exemplo) após a ocorrência 
da resposta de birra. Além da diminuição na frequência da resposta, este 
procedimento leva a reações emocionais intensas, o que, mais recentemente em 
levado os clínicos a utilizala em conjunto com o reforçamento diferencial de outras 
respostas consideradas adequadas. 
No início de 1970 houve um grande questionamento das práticas 
comportamentais, uma vez que eram consideradas demasiadamente rígidas. Tal 
situação culminou na tentativa de acrescentar componentes cognitivos às técnicas 
existentes, o que facilitou o surgimento das abordagens cognitivas. Neste movimento, 
vale ressaltar o trabalho de Albert Bandura (1925). Seus estudos sobre aprendizagem 
social enfatizam a modificação do comportamento do indivíduo através da interação 
e observação de outros indivíduos. Para ele, a aprendizagem pode ocorrer por meio 
da exposição do indivíduo a contingências sociais (relação de dependência entre 
 
20 
variáveis do organismo e do ambiente social), mas também, sem que o indivíduo 
tenha sido diretamente exposto às situações, ou seja, indiretamente, por meio da 
observação das contingências às quais outros indivíduos foram expostos. Segundo 
ele, a maior parte do comportamento humano seria aprendido pela observação de 
outros, em processo chamado modelação. 
Após Bandura houve um avanço nas pesquisas que acrescentam os processos 
cognitivos aos modelos comportamentais, o que contribuiu para o surgimento da 
abordagem cognitivo-comportamental. 
 A segunda onda: o modelo cognitivo 
A segunda onda das TCCs surgiu com o modelo cognitivo. O modelo cognitivo 
propõe que os transtornos psicológicos são derivados de um modo 
distorcido/disfuncional de perceber a si mesmo, os outros/o mundo e o futuro 
(denominada tríade cognitiva). Neste sentido, estas distorções de pensamento 
influenciam e são afetadas pelas emoções e pelo comportamento. 
É possível dividir as abordagens da segunda onda em Racionalistas e 
Construtivistas. As abordagens Racionalistas pressupõem a primazia do pensamento 
sobre a emoção. Sendo assim, a atividade cognitiva desencadearia uma resposta 
emocional, fisiológica e comportamental subjacente. Já as abordagens Construtivistas 
enfatizam o papel das emoções na atividade cognitiva. Entretanto, ambas as 
abordagens são consideradas abordagens das terapias cognitivas, pois são 
fundamentadas no conceito de influência mútua entre razão e emoção. 
Alguns principais autores da segunda onda são Albert Ellis, teórico da Terapia 
Racional EmotivoComportamental; Aaron Beck, autor da Terapia Cognitiva; e Michael 
Mahoney, autor da Terapia Cognitiva Construtivista. As abordagens de Beck e de Ellis 
são consideradas abordagens Racionalistas, pois visam à reformulação de padrões 
disfuncionais de pensamentos, responsáveis por alterações no estado de humor e 
comportamentos. Por outro lado, a abordagem Construtivista de Mahoney prioriza as 
emoções como ponto central do entendimento do funcionamento mental. 
Dentre as TCCs de segunda onda, dar-se-á ênfase à Terapia Cognitiva (TC) 
por ser a mais pesquisada e com maior número de protocolos de tratamentos testados 
e validados. A TC foi desenvolvida por Aaron T. Beck como uma prática de 
psicoterapia baseada em evidências, inicialmente desenvolvida para o tratamento de 
depressão. Dentre os pressupostos básicos TC tem-se que: a) a cognição afeta as 
emoções e comportamentos; b) a atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada; 
 
21 
e c) alterando as cognições pode-se modificar as emoções e comportamentos 
subjacentes. 
Segundo a TC, são as interpretações dos fatos, e não os fatos em si, que estão 
entre as causas das patologias e trazem sofrimento ao indivíduo. A maneira com que 
esses fatos são percebidos é expressa na forma de pensamento automático (PA), os 
quais podem ser definidos como pensamentos espontâneos, diretamente ligados a 
situações e disponíveis à consciência após um treino adequado. Os PAs distorcidos 
são freqüentes nos transtornos psicológicos e apresentam distorções cognitivas, 
como por exemplo, inferência arbitrária (tirar conclusões a partir de poucas 
evidências), abstração seletiva (presta-se atenção em apenas alguns aspectos e não 
se consegue ver o todo), previsão de futuro (antecipar o futuro de forma tão horrível 
que será insuportável), desqualificação do positivo (desqualificar e descontar as 
experiências e acontecimentos positivos insistindo que estes não contam), leitura 
mental (acredita-se tem certeza dos pensamentos ou intenções do outro sem 
evidências suficientes). 
A origem dos PAs está nas crenças centrais (ou nucleares). As crenças centrais 
constituem o modo mais profundo da estrutura cognitiva e são compostas por ideias 
rígidas e globais que o indivíduo tem sobre si mesmo, sobre os outros, o mundo e 
também sobre o futuro. Estas crenças se desenvolvem na infância como uma tentativa 
de organização do mundo interno e externo. Quando essas crenças são formadas a 
partir de experiências favoráveis, o indivíduo desenvolve conceitos positivos sobre si 
como: ‘eu sou competente’, ‘eu sou adequado’. Caso contrário desenvolverá crenças 
negativas sobre si como ‘eu sou incapaz’, ‘eu sou indigno de ser amado’. Mesmo após 
novas experiências que contestem as crenças centrais, estas permanecem 
convincentes na vida adulta. Elas influenciam o modo como indivíduo lida com o 
mundo, levando-o a selecionar detalhes sobre o ambiente e a lembrar dados 
relevantes que confirmem esta crença. 
A partir das crenças centrais, desenvolvemse outras categorias de crenças 
denominadas crenças intermediárias (também denominadas crenças condicionais ou 
crenças regra). As crenças intermediárias não estão diretamente ligadas a situações 
e costumam ocorrer em forma de suposições ‘se... então...’ ou regras ‘tenho que’, 
‘deveria’. As crenças intermediárias revelam as estratégias compensatórias, que são 
comportamentos por meio dos quais o indivíduo imagina que suas crenças centrais 
negativas serão encobertas ou não se manifestarão. Por exemplo, se uma pessoa 
 
22 
com a crença central ‘eu sou incompetente’ ativada e associada à crença intermediária 
‘se eu sou incompetenteentão tenho que me empenhar o máximo’, pode engajar-se 
em tarefas extremamente difíceis (estratégia compensatória) para encobrir a crença 
central ‘sou incompetente’. As crenças intermediárias refletem ideias ou 
entendimentos mais resistentes à mudança que os pensamentos automáticos. 
Segundo a TC, as distorções cognitivas não são os únicos fatores associados 
aos transtornos mentais. Outros fatores como predisposição genética, alterações 
bioquímicas, conflitos interpessoais também estão relacionados aos transtornos 
mentais e as distorções cognitivas os agravam ou os mantém. 
 A terceira onda: abordagens integrativas 
As abordagens da Terceira Onda foram desenvolvidas no início da década de 
1990, quando analistas do comportamento norte-americanos propuseram um modelo 
de terapia baseado na análise do comportamento, com o objetivo de se diferenciar 
dos ecléticos terapeutas comportamentais, dando origem à clínical behavior analysis 
(análise do comportamento clínica). São propostas que adotam o externalismo da 
análise do comportamento, mantém o foco na cognição e na emoção, das TCCs, 
substituindo a ideia de modificação dos comportamentos e sentimentos/cognições, 
característicos da primeira e segunda onda, respectivamente, pela aceitação dos 
mesmos, enfatizando a relação do indivíduo com os eventos psicológicos. A ideia é 
que os pensamentos não devem controlar diretamente a ação, mas sim os valores do 
indivíduo. 
Outra característica marcante da terceira onda é a integração de diferentes 
conceitos e técnicas. A maioria destas abordagens compartilha os pressupostos das 
abordagens de base cognitiva ou comportamental e utilizam suas técnicas. 
Entretanto, integram à sua prática clínica estratégias do tipo Mindfulness, técnicas da 
Gestalt Terapia, aceitação e outras escolas de psicoterapia. Além disso, muitas delas 
fundamentam seu entendimento (além das ciências cognitivas, neurociências e de 
análise do comportamento) em teorias como Teoria Evolucionista, Teoria do Apego e 
Psicanálise. Exemplos de modelos integrativos são: Terapia de Aceitação e 
Compromisso, Psicoterapia Analítca Funcional, Terapia do Esquema, a Terapia 
Comportamental Dialética, e Terapia Cognitiva Processual. 
Conceitos da técnicos em TCC 
A TCC é um tipo de intervenção psicoterápica breve (de 10 a 20 sessões), com 
foco na resolução dos problemas atuais do cliente. Em casos específicos, como 
 
23 
determinados transtornos de personalidade, a duração do processo terapêutico pode 
ser estendido por até dois ou três anos. 
Na prática clínica, a TCC enfatiza o estilo terapêutico colaborativo e 
psicoeducativo. O terapeuta ensina ao cliente o modelo cognitivo, a natureza de seus 
sintomas, o processo terapêutico e a prevenção de recaída. Além disso, para 
generalização dos efeitos da terapia, utiliza-se da tarefa de casa. Elas consistem em 
experimentos e exercícios entre as sessões de terapia. 
As sessões de psicoterapia possuem uma estrutura em que o cliente participa 
ativamente de sua construção. Na estrutura das sessões tem-se: a) verificação do 
humor (como o paciente sente-se naquele dia e semana anterior); b) discussão da 
agenda para a sessão (organiza-se tópicos a serem conversados na sessão do dia); 
c) feedback da sessão anterior (se e como a sessão anterior ajudou o paciente); d) 
revisão da tarefa de casa (dificuldades e aprendizados com a tarefa de casa); e) 
discussão dos itens da agenda e planejamento nova tarefa de casa (o cliente elabora 
ativamente sua tarefa de casa baseado nos tópicos da sessão); f) resumo a sessão e 
feedback (no início do tratamento o terapeuta faz o resumo da sessão, posteriormente 
o cliente faz o resumo). A estruturação da sessão visa o aprendizado do cliente na 
forma da terapia e a otimização do tempo da sessão. 
O objetivo principal da TCC é a reestruturação cognitiva do cliente, envolvendo 
seus esquemas, crenças e atitudes. Para atingir esta meta utiliza-se de técnicas 
cognitivas e comportamentais como: identificação de distorções cognitivas e crenças 
disfuncionais, busca de evidências, e busca de pensamento alternativo. No início do 
processo terapêutico o objetivo é avaliar e conceitualizar o caso. O cliente é treinado 
a identificar e registrar as situações em que emoções, pensamentos e 
comportamentos disfuncionais ocorrem, dando início a formulação de sua 
conceitualização cognitiva. Adicionalmente, outras técnicas cognitivas podem ser 
utilizadas como: questionamento socrático, descatastrofização, significado 
idiossincrático, avaliação de vantagens e desvantagens, reatribuição, identificação de 
distorções cognitivas, registro diário de pensamento disfuncional, continuum cognitivo, 
gráfico de pizza, cartões de enfrentamento, seta descendente, resolução de 
problemas e tomada de decisão, etc. Dentre as técnicas comportamentais, destaca-
se treino de respiração diafragmática e treino de relaxamento, exposição (in vivo e 
cognitiva; gradual ou inundação), intenção paradoxal, distração, exposição e 
prevenção de resposta, reversão de hábito, modelação, modelagem, role-play, 
 
24 
planejamento de atividades, ensaio comportamental, treino de habilidades sociais, 
entre outras. 
Exemplificar-se-á o processo terapêutico e o uso de algumas das técnicas 
acima apontadas com o caso de Raul (nome fictício), 23 anos, estudante universitário, 
solteiro. Raul compareceu à consulta com queixa de taquicardia, sudorese, sensação 
de sufocamento e desmaio em situações inespecíficas. Relatou ainda que não tinha 
mais controle sobre suas emoções e que julgava estar ficando louco. Esses sintomas 
o impediam de viajar, atrapalhavam seus estudos e sua vida social, pois tinha medo 
de ter os ataques a qualquer momento. Foram descartadas quaisquer explicações 
orgânicas para os sintomas. Sua meta com a terapia era controlar esses sintomas e 
‘voltar a ter vida normal’ (sic). O primeiro passo do processo terapêutico caracterizou-
se pela avaliação e conceitualização do caso em termos diagnósticos, concluindo-se 
pela presença de Transtorno de Pânico, o que norteou as intervenções planejadas e 
descritas a seguir. 
O segundo passo relacionou-se ao uso da psicoeducação, tendo-se por 
referência o modelo cognitivo (neste processo discutiu-se sobre como a TCC aborda 
o tratamento da ansiedade, o ciclo do pânico, como a respiração influencia na 
fisiologia da ansiedade e o papel da evitação das situações fóbicas na manutenção 
do transtorno). O uso da técnica da psicoeducação promove a adesão e cooperação 
do cliente ao tratamento de TCC. 
Posteriormente, para manejo dos sintomas fisiológicos do pânico foram 
ensinadas treino de respiração diafragmática (passado como tarefa de casa até que 
Raul conseguisse executá-la facilmente). Para romper o ciclo do pânico, utilizou-se a 
estratégia A.C.A.M.E.-S.E., uma estratégia de oito passos cujo anagrama consiste 
em: A: Aceite sua ansiedade; C: Comtemple as coisas a sua volta; A: Aja com sua 
ansiedade; L: Libere o ar de seus pulmões; M: Mantenha os passos anteriores; E: 
Examine seus pensamentos; S: Sorria, você conseguiu!; E: Espere o futuro com 
aceitação. 
A partir do momento que Raul passou a apresentar manejo dos sintomas de 
ansiedade, iniciouse a conceitualização cognitiva com o registro de situações, PA, 
emoções e comportamentos nas situações de pânico. Em situações em que seu 
coração disparava, Raul tinha PAs como ‘estou perdendo o controle e isso é terrível’, 
‘vou desmaiar’, ‘vou morrer’, o que remetia a suas crenças centrais de vulnerabilidade. 
Visando a reestruturação cognitiva, o paciente foi treinado a buscar evidências a favor 
 
25 
e contra seus PAs e sua crença central de vulnerabilidade, bem como identificar 
pensamentos alternativos mais adaptativos. Raul passou a questionar o que mais 
‘coração disparado’ poderia significar, levantando hipóteses como ‘tomei muito café’. 
Para habituação aos sintomas fisiológicosdo Pânico, foi feito exposição interoceptiva, 
que consiste em expor o paciente aos sintomas através da hiperventilação, por 
exemplo. Com isso, ele passa a perceber que muitos dos sintomas que ele 
interpretava como ameaçadores, são inofensivos. 
No decorrer da terapia, Raul identificou que era perfeccionista e que por isso 
se engajava em tentativas de controle das situações e de seus sintomas. Durante a 
conceitualização cognitiva, o paciente percebeu como a estratégia de controle 
influenciava e mantinha seus sintomas de pânico. Com essa percepção, Raul decidiu 
envolver-se mais em situações prazerosas, aumentando seu relaxamento físico e 
mental. À medida que Raul conseguia manejar seus sintomas de ansiedade e 
reestruturar sua crença de vulnerabilidade, foi preparada a prevenção de recaída que 
consistiu em registrar as estratégias aprendidas durante a terapia. Posteriormente, as 
sessões de terapia foram espaçadas para quinzenais e mensais até finalizar o 
processo terapêutico com a alta do paciente. 
Indicações da terapia cognitivo-comportamental 
Inicialmente, a TCC fora desenvolvida para tratamento de depressão. 
Atualmente existem diversos estudos demonstrando evidências de sua eficácia para 
diferentes tipos de transtornos mentais, tais como depressão, transtorno de ansiedade 
generalizada, ansiedade social, transtorno de pânico, tabagismo, transtorno 
obsessivo-compulsivo, fobia especifica, transtornos alimentares, disfunções sexuais, 
esquizofrenia, transtornos da personalidade, problemas conjugais, dentre outros. 
Como trata-se de uma abordagem que preconiza a participação ativa do paciente, é 
pré-requisito que estes possuam alta motivação, boa capacidade de tolerância àa 
ansiedade, boa aliança terapêutica. Por outro lado, a TCC é contra-indicada para 
pacientes com alto nível de ansiedade, dificuldade de vínculo, ausência de motivação, 
psicose aguda e deficiência mental grave (nesses casos, há necessidade de 
adaptação das técnicas). 
 
 
26 
Seção 1.9: Psicoterapia de grupo 
O interesse pelo estudo do comportamento e da psicologia dos grupos data do 
século 20, onde se destacam as contribuições de Le Bom e Freud, a cerca da 
influência dos fenômenos sociais/grupais na constituição do sujeito. 
Os primeiros relatos do uso psicoterapêutico dos grupos ocorreram nos EUA, 
no início dos anos 1900, com as experiências de Pratt, Lazel e Marsh. Em 1908, 
Joseph Pratt, um médico americano, considerado hoje o precursor da psicoterapia de 
grupo, adotou o uso de tais grupos no tratamento de pacientes tuberculosos por 
motivos econômicos e de ordem prática. Duas vezes por semana, realizava encontros 
com cerca de 20 a 30 pacientes, discutindo aspectos da saúde e da condição de vida 
(por meio de conselhos, instruções e apoio), observando melhoras consideráveis 
nestes quesitos, sobretudo em função do reconhecimento, por parte dos doentes, de 
que não eram os únicos com vivências de sofrimento, e que o mesmo poderia ser 
compartilhado e acolhido. 
E.W. Lazell, em 1921, publicou um artigo no periódico Psychoanalytic Review 
intitulado “The group treatment of dementia praecox’, relatando sua experiência na 
condução de um grupo de pacientes internados com demência precoce (hoje 
denominada esquizofrenia), onde temas diversos eram discutidos com um enfoque 
psicanalítico. Ele apontou que a participação dos pacientes nos grupos favorecia um 
avanço no tratamento do transtorno. 
Marsh, se apropriando destas experiências prévias, iniciou uma atividade de 
grupo com pacientes psicóticos internados, reunindo cerca de 200 a 400 deles, três 
vezes por semana com o objetivo de “integrar a mente, a emoção e a atividade motora” 
(p.3). Posteriormente estendeu este tipo de trabalho aos familiares dos pacientes, 
trazendo esta contribuição inovadora. 
Com o passar do tempo, esta prática foi sendo apropriada por outros 
psiquiatras, no tratamento de pacientes psiquiátricos institucionalizados, e 
posteriormente a nível ambulatorial. Destaca-se a grande expansão desta modalidade 
de tratamento durante e pós 2ª Guerra Mundial, em função da grande demanda de 
problemas emocionais associados à guerra e a escassez de equipes de tratamento, 
sendo importantes os trabalhos desenvolvidos por S.H. Foulkes, W. Bion e Moreno, 
estimulando e expandindo o uso de tal recurso para uso com outras populações 
específicas nas áreas da saúde, social, educacional e organizacional. 
 
 
27 
Assim como na psicoterapia individual, as psicoterapias de grupo são 
realizadas tendo-se por referência diferentes abordagens teóricas e técnicas, e 
diferentes objetivos, entre eles: alívio de sintomas, informação, auto-ajuda, 
reestabelecimento do funcionamento psicossocial (intervenção em crise), 
acolhimento, treinamento de habilidades sociais e manejo de situações/ doenças 
médicas específicas. 
Sob a perspectiva da técnica, os grupos podem ser fechados ou abertos 
(número fixo ou não de membros), homogêneos ou heterogêneos (quanto às queixas, 
características clínicas, sociodemográficas, entre outras), ter duração pré-
determinada ou não, número de participantes e periodicidade (diário, mensal) 
variados. A opção por alguma destas especificidades se associa diretamente aos 
objetivos terapêuticos do grupo e às características da população-alvo. 
Os grupos terapêuticos são vistos como um contexto privilegiado para o 
aprendizado do relacionamento humano. Segundo Bechelli e Santos os grupos 
“facilitam a identificação, a revelação de particularidades e intimidades, o oferecimento 
de apoio ao semelhante, o desenvolvimento de um objetivo comum, e a resolução das 
dificuldades e dos desafios que se assemelham” (p.6). 
Fora isto, os grupos apresentam fatores terapêuticos específicos e únicos 
conforme apontado brilhantemente na obra de Vinogradov e Yalon. Estes autores 
destacaram a presença de pelo menos 11 fatores terapêuticos grupais: instilação de 
esperança, universalidade, oferecimento de informação, altruísmo, desenvolvimento 
de técnicas de socialização, comportamento imitativo, catarse, reedição corretiva do 
grupo primário, fatores existenciais, coesão e aprendizagem interpessoal. 
A efetividade das psicoterapias de grupo é também comprovada por inúmeros 
estudos e sua aplicação tem espaço consolidado no tratamento, sobretudo dos 
sintomas/transtornos mentais, seja como terapia primária ou coadjuvante. Destaca-se 
também o fator econômico associado à efetivação de tal modalidade de tratamento, 
onde a taxa custo/benefício é quase sempre vantajosa. 
Aplicações práticas das psicoterapias de grupo 
Baseado nas experiências prévias de uma das autoras e nos relatos da obra 
de Mello Filho et al., 55 destacar-se-á na Tabela 2, algumas experiências com a 
psicoterapia de grupo. 
 
 
 
28 
Tabela 2: Caracterização dos objetivos e aspectos técnicos de algumas 
experiências com psicoterapia de grupo 
 
 
 
 
 
29 
Unidade 2: Técnicas De Respiração Para A Redução Do 
Estresse Em Terapia Cognitivo-Comportamental 
 
Seção 2.1: Introdução 
O uso de técnicas baseadas no controle voluntário da respiração para a 
redução do estresse e promoção do bem-estar biopsicossocial e espiritual tem sua 
origem em tradições médicas remotas, tais como nos rituais e cânticos xamânicos, na 
ayurveda e yoga da Índia, no qi-gong e acupuntura da China, nas práticas espirituais 
da medicina tibetana e também na medicina hipocrática da Grécia (Jonas, Levin, 
1999; Helman, 2003; Elliott, Edmonson, 2006; Harrington, 2008). 
Apesar da longa tradição de utilização das técnicas de respiração na saúde, 
alguns médicos contemporâneos refletem: “Na escola médica, aprendemos sobre a 
anatomia do sistema respiratório e sobre as doenças do trato respiratório, mas eu 
nada escutei sobre o poder da respiração.” (Weil, 2005). Também na formação do 
psicólogo clínico em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o ensino e/ou 
treinamento em técnicasde respiração não é valorizado, sendo muitas vezes relegado 
a um papel inferior ou secundário dentro do treinamento das técnicas de relaxamento 
tradicionais, tais como: relaxamento muscular progressivo de Jacobson, relaxamento 
autógeno de Schultz, hipnose, imaginação guiada, meditação de concentração ou 
atenção plena (mindfulness), entre outros (Hossri, 1978; Sandor, 1982; Criqui, 1966; 
Astin et al, 2003; Lehrer, Carrington, 2003; Neves Neto, 2003; Davis et al, 2008), 
exceção talvez ocorra em algumas abordagens psicoterápicas corporais, tais como: 
vegetoterapia de Reich, bioenergética de Lowen, biossíntese de Boadella, entre 
outros (Kignel, 2005). 
A utilização de técnicas de respiração para a redução do estresse em TCC e 
na prática da Medicina Comportamental carece de mais estudos sobre as bases 
psicofisiológicas e de evidências científicas sobre eficácia e segurança na gestão do 
estresse e de doenças associadas (Smith, 1988; Fried, 1990a; 1990b; Lehrer et al, 
1994; Astin et al, 2003; Sharma, 2005; Neves Neto, 2010a). 
Revisar as principais técnicas de respiração utilizadas para a redução do 
estresse em TCC e na prática da Medicina Comportamental, além de ilustrar as 
alterações psicofisiológicas (atividade eletrodérmica e variabilidade da frequência 
cardíaca) através da utilização de equipamentos de biofeedback. 
 
30 
Revisão narrativa (não sistemática) das bases psicofisiológicas do treino de 
respiração aplicada à redução do estresse em TCC e Medicina Comportamental. 
Utilização do banco de dados (do autor) de mensurações psicofísicas efetuadas na 
aula de Medicina Comportamental do curso de pós-graduação em “Terapia Cognitivo-
Comportamental em Saúde Mental” do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de 
Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de 
São Paulo (AMBAN- -IPQ-HCFMUSP), através dos equipamentos de biofeedback: 
Procomp Infiniti System (Thought Technology Ltd., Canadá), E-Z Air (Thought 
Technology Ltd., Canadá), Emwave PC – Coherence Training Software for PC 
(HeartMath LLC, EUA). 
 
Seção 2.2: Estresse e respiração: Aspectos psicofisiológicos 
Sobre a inter-relação da respiração, dos processos mentais e as emoções, há 
observações já realizadas na prática do yoga sobre o controle da respiração 
(pranayamas) no texto secular do Hatha Pradipika: “Enquanto a respiração estiver 
irregular, a mente estará instável, mas, quando se aquieta a respiração, a mente 
também o fará e o yogin viverá longo tempo; deverá, então controlar sua respiração.” 
(Souto, 2009). No tratado clássico de acupuntura Su Wen: “Quando a energia tiver em 
excesso, irá ocorrer respiração acelerada, tosse e reversão ascendente da energia do 
paciente; quando a energia estiver insuficiente, irá ocorrer respiração difícil e pouco 
alento.” (Wang, 2001). Na bíblia cristã: “E formou o senhor Deus o homem do pó da 
terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” 
(Gênesis 2:7). Curiosamente em diversas culturas, o termo designado para a 
respiração é o equivalente ao espírito ou a energia vital, tais como: prana (sânscrito), 
qi (chinês), pneuma (grego), ruach (hebraico) e spiritus (latim). 
Quanto ao estresse, pesquisadores estimam que entre 60 a 90% de todas as 
visitas médicas são em grande parte devido a fatores psicológicos, emocionais e 
comportamentais, ou seja, relacionados diretamente ao estresse excessivo (Kroenke, 
Mangelsdorff, 1989; Stoudemire, 2000; Benson, 2010; Neves Neto, 2010a; 2010b; 
2010c; 2010 d; 2010e). Segundo a Organização Mundial da Saúde, o estresse está 
associado a sete entre cada 10 das principais causas de morte em países 
desenvolvidos (World Health Organization, 1994; Quick, Cooper, 2003). Os efeitos do 
estresse também são associados a um custo econômico de aproximadamente US$ 
 
31 
300 bilhões por ano nos EUA, devido a perdas de produtividade, absenteísmo, licença 
médica e etc. (Benson, 2005). Tais constatações levaram a Organização das Nações 
Unidas (ONU) a declarar o estresse como “A doença do século XX” e a OMS de 
“Epidemia mundial” (Neves Neto, 2010b;c). 
No Brasil, diversos pesquisadores se dedicam ao estudo do estresse nos 
campos da saúde, educação e trabalho (Lipp, 1996; Rossi et al, 2005; Limongi-França, 
Rodrigues, 2007; Neves Neto, 2009; Neves Neto 2010a; 2010b; 2010c; Zannelli, 2010; 
Neves Neto 2011a; 2011b; 2011c). Alguns estudos, por exemplo, apontam: 62% dos 
pacientes atendidos no ambulatório de Gastroenterologia apresentavam sintomas 
clínicos de estresse, diagnosticados durante consulta médica ambulatorial (Neves 
Neto, 2001). Em outro estudo com estudantes que cursavam um programa de pós-
graduação (MBA), encontrou que 63,5% apresentavam sintomas relevantes de 
estresse ocupacional e 71,4% baixa qualidade do sono, sendo que as principais fontes 
de estresse encontradas nesta população foram: sobrecarga de trabalho (63,5%), 
falta de feedback (57,7%) e estresse interpessoal (57,7%) (Neves Neto, 2009). 
A importância da identificação da presença de sintomas de estresse (ex. 
queixas funcionais e/ou somatizações, mudanças no humor, irritabilidade, insônia, 
baixa libido, fadiga, entre outros) durante consultas médicas, psicológicas e de outros 
profissionais da saúde, em diferentes níveis de atendimento e contextos clínicos, 
torna-se fundamental para: reduzir custos médicos-hospitalares, diminuir erro médico, 
aumentar adesão ao tratamento, distinguir entre a sintomatologia do estresse e outros 
diagnósticos clínicos, além de promover o bem-estar biopsicossocial e qualidade de 
vida, entre outros (Benson, 2010; Coyne et al, 2002; ; Moss, 2003; Lehrer et al, 2007; 
Neves Neto, 2010a; 2010b). 
O estresse (resposta de luta ou fuga) (século XX) ou carga alostática pró-
inflamatória (século XXI) é uma reação psicofísica natural do organismo frente a 
necessidade de adaptação, e envolve diversos mecanismos 
“psiconeuroendócrinoimunológicos” que promovem o funcionamento catabólico do 
metabolismo, tais como: ativação do eixo hipotálamo, hipófise e adrenal (eixo HPA), 
ativação do sistema nervoso autônomo simpático, aumento da produção de 
catecolaminas (ex. adrenalina e noradrenalina), glicocorticóides (ex. cortisol), 
mineralocorticóides (ex. aldosterona), vasopressina (hormônio antidiurético), tiroxina 
(hormônio tirotrópico), ondas cerebrais beta (14 – 30 Hz), além da diminuição da 
produção de óxido nítrico, serotonina (5HT) e dopamina, podendo afetar também a 
 
32 
expressão genética associadas às doenças, a telomerase e apoptose celular, entre 
outros mecanismos psicofisiológicos. (Esch et al, 2002; Esch et al, 2003; McEwen, 
Lasley, 2003; Moreira, 2003; Seaward, 2004; Stefano et al, 2008). 
Benson (2010) resume os efeitos do estresse cumulativo e prejudicial ao 
funcionamento do organismo, como: aumento da frequência cardíaca, aumento da 
frequência respiratória, aumento do tônus muscular, aumento do metabolismo e 
diminuição da função imune, ou seja, efeitos deletérios sobre a capacidade natural de 
retorno do organismo ao equilíbrio homeostático anterior ao estresse. O médico 
cardiologista e pesquisador Herbert Benson (Benson, Klipper, 1995; Benson, 2010) 
foi o responsável pelo descobrimento da resposta de relaxamento (relaxation 
response), na década de 1970, na Harvard Medical School (EUA), curiosamente no 
mesmo laboratório que serviu para o descobrimento da resposta de luta ou fuga (fight- 
-or-flight response) realizada pelo fisiologista Walter Cannon, no final do século XIX. 
A resposta de relaxamento pode ser compreendida como uma capacidade 
natural dos organismos a retornarem ao seu estado basal (ex. homeostase e 
alostase), uma vez cessada a fonte de estresse ou os estímulos adversos (internos 
e/ou externos), mas Benson (2010; 1993) também alerta para o fato de que a resposta 
de relaxamento não é mobilizada com tanta rapidez como ocorre com a resposta

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