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1 PSICOTERAPIA, MEDITAÇÃO (RESPIRAÇÃO, RITMO E MOVIMENTO) 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 Sumário NOSSA HISTÓRIA ..................................................................................................... 2 Unidade 1: Psicoterapias: Conceitos Introdutórios Para Estudantes Da Área Da Saúde ......................................................................................................................... 4 Seção 1.1: Aspectos históricos e conceituais ............................................... 4 Seção 1.2: Psicoterapias: semelhanças e diferenças ................................... 5 Seção 1.3: Psicoterapias: psicanalíticas/psicodinâmicas .............................. 6 Seção 1.4: Conceitos teóricos básicos em psicodinâmica ............................ 6 Seção 1.5: Conceitos técnicos básicos em psicodinâmica ........................... 9 Seção 1.6: Tipos de psicoterapias psicodinâmicas ..................................... 10 Seção 1.7: Indicações para as modalidades psicoterápicas psicodinâmicas ............................................................................................................................... 15 Seção 1.8: Terapia cognitivo-comportamental (TCC) ................................. 16 Seção 1.9: Psicoterapia de grupo ............................................................... 26 Unidade 2: Técnicas De Respiração Para A Redução Do Estresse Em Terapia Cognitivo-Comportamental .................................................................................... 29 Seção 2.1: Introdução ................................................................................. 29 Seção 2.2: Estresse e respiração: Aspectos psicofisiológicos .................... 30 Seção 2.3: Treino de respiração como resposta de relaxamento ............... 33 Seção 2.4: Treino de respiração em TCC ................................................... 36 Seção 2.5: Considerações .......................................................................... 43 Unidade 3: O Ritmo Da Vida No Pulsar Da Energia E Da Respiração: Seus Processos E Sua Integração Nas Práticas Da Psicologia Corporal E Da Meditação ................................................................................................................. 44 Seção 3.1: Introdução ................................................................................. 44 Seção 3.2: Considerações .......................................................................... 58 Referências .............................................................................................................. 59 4 Unidade 1: Psicoterapias: Conceitos Introdutórios Para Estudantes Da Área Da Saúde Seção 1.1: Aspectos históricos e conceituais A palavra psicoterapia tem origem nas palavras gregas Psykê (mente) e Therapeuein (curar), e desde o final do século XIX, vem sendo utilizada como uma forma de tratamento (‘cura pela fala’). Suas origens remetem ao hipnotismo, especialmente a Josef Breuer, um médico e fisiologista austríaco, que começou a utilizar o mesmo, como forma de tratamento de pacientes histéricas por meio da catarse. Sigmund Freud, neurologista de formação, interessado nos estudos e resultados obtidos por tal método, passou também a utilizálo, observando, contudo seus efeitos transitórios, muitas vezes, o fracasso do tratamento e a importância da relação médico-paciente para a efetividade da técnica. Diante disto, abandonou o uso do método hipnótico-catártico e passou a evocar os eventos relatados por meio da hipnose, durante os estados de consciência do paciente, utilizando de estratégias de associação livre, interpretação dos sonhos e uso do divã. Em 1905, durante o tratamento de uma paciente histérica (conhecido como o ‘Caso Dora’) Freud passou a entender e trabalhar com o papel da resistência (forças psíquicas que impedem que conteúdos patogênicos tenham acesso à consciência) e transferência (deslocamento daquilo sentido diante de pessoas e situações do passado, às pessoas do presente, em especial, o terapeuta), criando uma nova ciência, com referenciais teóricos e técnicos próprios, específicos e consistentes. Surge assim, a Psicanálise, reconhecida como a primeira forma de psicoterapia. Hoje, a psicoterapia pode ser definida como um método de tratamento, embasado em conceitos teóricos e técnicos, que deve ser realizado por um profissional treinado. Utiliza-se de princípios psicológicos como a comunicação verbal e a relação terapêutica e seu objetivo principal é influenciar o paciente, auxiliando-o a modificar problemas de ordem emocional, cognitiva e comportamental. Diferentemente do início do século XX, quando a psicanálise era a única forma de psicoterapia, na atualidade depara-se com uma grande diversidade de escolas teóricas e técnicas, estimando-se que existam cerca de 250 modalidades psicoterápicas, mais de 10 mil livros publicados sobre este tema, além de milhares de 5 artigos científicos. Sua eficácia vem sendo comprovada por meio de estudos clínicos randomizados, de neuroimagem e metanálises, colocando-a como um importante método/ recurso de tratamento e ajuda no contexto da saúde mental, seja no tratamento dos transtornos mentais e dos problemas de saúde e comportamento, seja na busca de autoconhecimento e melhor qualidade de vida. Segundo Schnyder, a psicoterapia é uma das terapêuticas mais eficazes em Medicina. Na mesma direção, Wampold já referia que, considerando-se as revisões e metanálises sobre o tema, poder-seia estimar que o tamanho do efeito deste tratamento é de cerca de 0,80. Prova disto é sua inclusão no Rol dos Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde, tornando-a um benefício cuja cobertura é obrigatória aos usuários de planos de saúde desde 2008 (Resolução Normativa 167/02 – ANS) Segundo estudo realizado em uma instituição pública de saúde, os principais motivos para busca de psicoterapia são: humor depressivo (53%), ansiedade (53%), problemas conjugais (53%) e familiares (47%), stress/ somatização (12%), anorexia/ bulimia (12%), perda de peso (6%), álcool e drogas (24%). Seção 1.2: Psicoterapias: semelhanças e diferenças Apesar da grande diversidade de modelos e concepções em psicoterapia, pode-se dizer que as mesmas apresentam alguns importantes elementos comuns. São eles: a) necessidade de uma relação de confiança emocionalmente carregada em relação ao terapeuta; b) crença por parte do paciente de que o terapeuta irá ajudá- lo e de que os objetivos serão alcançados; e c) pressuposição da existência de uma modelo conceitual que prevê uma explicação possível para o sintoma/ problema e um procedimento para ajudar o paciente a resolvê-lo. Contudo, é justamentede luta ou fuga, e que pode ser potencializada por práticas e/ou técnicas terapêuticas tradicionais, tais como: técnicas de respiração, meditação de concentração e/ou de insight ou atenção plena (mindfulness), atividade física, oração, relaxamento muscular, yoga, imaginação guiada, entre outros. As principais mudanças fisiológicas decorrentes do estresse e da resposta de relaxamento são resumidas no quadro 1. O sistema nervoso autônomo parassimpático, a acetilcolina e o óxido nítrico são alguns dos componentes da resposta de relaxamento que ativam o funcionamento anabólico, ou seja, a regeneração ou desenvolvimento celular. (Esch et al, 2002; Esch et al, 2003; Seaward, 2004; Stefano et al, 2008). 33 Adaptado de Neves Neto (2010a). Seção 2.3: Treino de respiração como resposta de relaxamento Por definição a respiração consiste em: (a) uma série de reações químicas que permitem que organismos convertam a energia química armazenada nos alimentos em energia que pode ser usada pelas células, denominada por respiração interna e (b) o processo pelo qual um animal retira o oxigênio de seu ambiente e descarrega dióxido de carbono nele, denominado por respiração externa (American Psychiatry Association, 2010). A respiração é uma contração e expansão rítmicas que envolvem diversos sistemas e músculos e permitem um fluxo continuo de ar para dentro e fora dos pulmões. A ventilação pulmonar é formada pela inspiração, que promove a entrada de ar nos pulmões, e acontece pela contração da musculatura do diafragma e dos músculos intercostais. O diafragma abaixa e as costelas elevam-se, promovendo o aumento da caixa torácica, com consequente redução da pressão interna (em relação à externa), forçando o ar a entrar nos pulmões. Já a expiração, que promove a saída de ar dos pulmões, acontece pelo relaxamento da musculatura do diafragma e dos músculos intercostais. O diafragma eleva-se e as costelas abaixam, o que diminui o volume da caixa torácica, com aumento da pressão interna, forçando o ar a sair dos pulmões (Andreassi, 2000; Gervitz, Schwartz, 2003). A respiração é controlada automaticamente por um centro respiratório nervoso localizado no bulbo, de onde partem nervos responsáveis pela contração dos músculos respiratórios, sendo estes sinais enviados via coluna espinhal para os músculos da respiração. O diafragma recebe sinais respiratórios através do nervo frênico. A respiração é afetada tanto por estímulos involuntários (ex. estímulos sensoriais) quanto por estímulos voluntários (ex. estados emocionais). O centro 34 respiratório é capaz de aumentar e de diminuir tanto a frequência como a amplitude dos movimentos respiratórios, pois possui quimiorreceptores que são bastante sensíveis ao pH do plasma. Essa capacidade permite que os tecidos recebam a quantidade de oxigênio que necessitam, além de remover adequadamente o gás carbônico. Quando o sangue torna-se mais ácido devido ao aumento do gás carbônico, o centro respiratório induz a aceleração dos movimentos respiratórios. Dessa forma, tanto a frequência quanto a amplitude da respiração tornam-se aumentadas devido à excitação do centro respiratório, ao contrário, com a depressão do centro respiratório, ocorre diminuição da frequência e amplitude respiratórias. Caso o pH fique abaixo do normal (acidose), o centro respiratório é excitado, aumentando a frequência e a amplitude dos movimentos respiratórios. O aumento da ventilação pulmonar determina eliminação de maior quantidade de CO2, o que eleva o pH do plasma ao seu valor normal, ao contrário, caso o pH do plasma esteja acima do normal (alcalose), o centro respiratório é deprimido, diminuindo a frequência e a amplitude dos movimentos respiratórios. Com a diminuição na ventilação pulmonar, há retenção de CO2 e maior produção de íons H+, o que determina queda no pH plasmático até seus valores normais (Andreassi, 2000; Dixhoorn, 2007; Fried, 1999; Gervitz, Schwartz, 2003). O estresse e outros estados emocionais negativos promovem liberação de adrenalina que, frequentemente levam também à hiperventilação, algumas vezes de tal intensidade que o indivíduo torna seu meio interno alcalótico, eliminando grande quantidade de dióxido de carbono, precipitando, assim, contrações dos músculos de todo o corpo (Fried, 1999; Gervitz, Schwartz, 2003). Além do conhecimento milenar advindo dos praticantes de yoga (Brown, Gerbag 2005a;2005b; Gharote, 2008; Brown, Gerbag, 2009) e de outras práticas terapêuticas corporais (ex. qi-gong, meditação, entre outros) e das psicoterapias corporais contemporâneas (Bloch , 1989); Kignel (2005) estudou o efeito das emoções nas alterações dos ritmos respiratórios (ex. amplitude, frequência e complexidade dos movimentos respiratórios), concluindo sobre a possibilidade de se induzir um estado emocional levando o sujeito a reproduzir o ritmo respiratório característico daquele estado (Neves Neto, 2003b; 2003c). Homma, Masaoka (2008) apontam para uma estreita relação entre o processo respiratório e os estados emocionais (ex. alegria, tristeza, medo, raiva e nojo), sugerindo que desde os estudos com animais até os estudos com seres humanos são 35 demonstradas relações intrínsecas entre a função olfatória e o centro respiratório, particularmente sobre estudos da atividade do complexo piriforme – amigdala e o ritmo respiratório. Outros estudos, também encontraram uma estreita relação entre o estresse e as alterações do ritmo respiratório (Bass, Gardner, 1985; Masaoka, Homma, 1999). O aumento da frequência respiratória (na resposta de luta-fuga ou estresse) será associado a maior condutância elétrica da pele (Siemens), ou diminuição da resistência galvânica da pele (Ohm), ambos controlados pela ativação das glândulas sudoríparas presentes na pele e diretamente influenciadas pelo sistema nervoso autônomo simpático (Bacon, Poppen, 1985; Cea Ugarte et al., 2010). Na figura 1, são ilustradas as variações da condutância elétrica da pele (Siemens), em resposta: (a) respiração livre ( 30 resp/min). Figura 1- Registro psicofisiológico da atividade eletrodérmica da pele (Siemens), em voluntário hígido, nas condições: (a) respiração livre ( 30 resp/min), obtidos através do equipamento de biofeedback (Procomp Infiniti System, Thought Technology Ltd., Canadá) e do software E-Z Air (Thought Technology Ltd., Canadá). O aumento da condutância elétrica da pele (Siemens) é resultado da maior ativação das glândulas sudoríparas presentes na superfície da pele dos dedos das mãos, que são controlados pela resposta do sistema nervoso autônomo simpático (resposta de luta-fuga) que também são influenciados pelos estados emocionais e pela frequência respiratória. Quanto maior a frequência respiratória, mais atividade simpática e ativação das glândulas sudoríparas serão observadas, sendo uma queixa comum na presença do estresse intenso (Esch, Stefano, 2010). 36 Seção 2.4: Treino de respiração em TCC Segundo Friedman et al (1983), as técnicas de relaxamento, incluindo os treinos baseados na respiração, vem se expandindo na formação médica norte- - americana, inclusive como uma proposta de integrar as terapias complementares na medicina oficial, sendo que das 62 escolas médicas avaliadas, 58% já ofereciam algum treinamento no uso terapêutico de técnicas de relaxamento em cursos regulares e/ou eletivos. Em nosso meio, por exemplo, a Unidade de Medicina Comportamental do Departamento de Psicobiologia da UNIFESP, é pioneira na realização de cursos eletivos regulares para os acadêmicos de medicina sobre as técnicas de relaxamento, respiração, meditação e biofeedback, associadas à TCC (Neves Neto 2003a; Neves Neto, 2011a; 2011b; 2011c). A TCC é uma abordagem psicoterápicaque reconhece o papel das cognições disfuncionais e/ou limitantes na geração da resposta psicofisiológica do estresse. As pessoas podem reagir de forma repetitiva e automática às situações adversas eliciadores de estresse, através de alguns erros cognitivos comuns, tais como: catastrofização, pensamento dicotômico ou “tudo ou nada”, generalização, diminuir o lado positivo, leitura mental, previsão do futuro, magnificação ou minimização, rotulação, entre outros (Neves Neto, 2003a; Dobson, 2006; Leahy, 2007). Além de promover a reestruturação cognitiva, a expressão emocional reguladora e o desenvolvimento de um repertório de comportamentos mais adaptativos, a TCC utiliza frequentemente de técnicas de relaxamento e de respiração com a finalidade de diminuir a função do sistema nervoso autônomo simpático e os neurohormônios do estresse e promover a função parassimpática e os neurohormônios implicados na resposta de relaxamento (Benson, Stuart, 1993; Fried, 1999; Dobson, 2006; King et al, 2007; Lehrer et al, 2007). As técnicas de relaxamento são ferramentais importantes na prática clínica da TCC, mas frequentemente carecem de embasamentos psicofisiológicos de sua prática (Lehrer, Carrington, 2003). Alguns autores questionam sobre a falta de um modelo cognitivo e comportamental das práticas de relaxamento que sustentem a sua utilização, mas concluem que pelo menos existam três efeitos distintos: (a) redução da estimulação ambiental; (b) desenvolvimento de habilidades cognitivas, tais como: concentração, passividade e receptividade e (c) aquisição de estruturas cognitivas mais complexas capazes de dar suporte ao relaxamento (Smith, 1988). 37 Outros autores ainda questionam sobre a possibilidade de que exista uma especificidade entre as diferentes técnicas de relaxamento em TCC, ou seja, diferentes técnicas são totalmente equivalentes ou possuem efeitos específicos? Lehrer et al (1994), concluem que existem pelo menos três vias de ação do relaxamento: (a) métodos com orientação cognitiva (ex. imaginação guiada) têm efeitos cognitivos específicos (ex. distração e/ ou reestruturação cognitiva) e seriam mais indicados para problemas comportamentais (ex. fobia social); (b) métodos com orientação autonômica (ex. respiração diafragmática) têm efeitos autonômicos específicos (ex. diminuição da atividade simpática e aumento da atividade parassimpática) e seriam mais indicados para redução da atividade autonômica e problemas associados (ex. estresse, hipertensão arterial) e (c) métodos com orientação muscular (ex. relaxamento muscular) têm efeitos musculares específicos (ex. diminuição do tônus muscular) e seriam mais indicados para problemas musculares (ex. cefaléia tensional). Diversos autores defendem a utilização das técnicas de respiração em TCC (Smith, 1988; Fried, 1990a; 1990b; Lehrer et al, 1994), mas com orientações e objetivos diferentes, tais como: exercícios respiratórios orientados a ampliação da consciência e da atenção plena (ex. respiração consciente da meditação de insight ou mindfulness) (Delgado et al, 2010; Feldman et al, 2010; Roemer, Orsillo, 2010); exercícios respiratórios orientados a regulação do sistema nervoso autônomo e redução do estresse (ex. respiração diafragmática) (Bacon, Poppen, 1985; Légeron, 1993; Pal et al, 2004; Sydorchuk, Tryniak, 2005; Gaab et al, 2006; Esch, Stefano, 2010; Martarelli et al, 2009; Kang, 2010) e exercícios respiratórios coadjuvantes de outras técnicas de relaxamento (ex. relaxamento muscular progressivo) (Ley, 1994; 1999; 2001; 1999; Van Dixhoorn 1998; Sardinha et al, 2009). Para Lehrer e Carrington (2003), além da maior especificidade psicofisiológica entre as diversas técnicas, o treinamento deveria basear-se em uma graduação ascendente, das estratégias mais físicas (somáticas) para as mais cognitivas (abstratas), por exemplo, ensinar aos pacientes inicialmente técnicas de relaxamento muscular ou de respiração costuma ser mais simples do que as técnicas baseadas na meditação ou imaginação guiada. Considerar a possibilidade de se associar o biofeedback no treino de relaxamento é considerado uma importante estratégia motivacional (Fried, 1987). 38 O biofeedback como um processo psicoeducacional em TCC, utiliza sofisticados equipamentos eletrônicos capazes de monitorar os sinais vitais relevantes (ex. variabilidade da frequência cardíaca, atividade eletrodérmica, temperatura periférica, tônus muscular, frequência respiratória, ondas cerebrais, entre outros) para o treino comportamental (condicionamento operante visceral de Neal Miller) e de outros processos cognitivos (ex. cognições disfuncionais de Aaron Beck, auto-eficácia de Albert Bandura, estilo atributivo de Martin Seligman, estratégias de coping de Arnold Lazarus, entre outros). (Neves Neto, 2010d). Os sensores de biofeedback mais utilizados para o treino de técnicas de respiração são: frequência e amplitude respiratória (torácica e abdominal), de variabilidade da frequência cardíaca (VFC) e do tônus muscular (músculos escaleno e trapézio) (Pepper, Tibbetts, 1997; Schwartz, Andrasik, 2003; Lehrer et al, 2007). Na figura 2, são demonstradas as alterações da VFC (bpm), através de um equipamento de biofeedback, em três situações distintas, sendo: (a) respiração livre, (b) respiração diafragmática com ritmo de 6 tempos de inspiração para 6 tempos de expiração (6:6) e (c) observação da respiração baseada em mindfulness. Figura 2- Registro psicofisiológico da VFC (bpm), em voluntário hígido, em três situações distintas: (a) respiração livre (5 min); (b) respiração diafragmática com ritmo respiratório 6:6 (5 min) e (c) observação da respiração (mindfulness) (5 min), obtido através do equipamento de biofeedback (Emwave PC – Coherence Training Software for PC, HeartMath LLC, EUA e do software E-Z Air (Thought Technology Ltd., Canadá). 39 A variabilidade da frequência cardíaca (VFC), como visto na figura 2, é distinta nas situações: (a) respiração livre com baixa VFC e (b; c) respiração diafragmática e “observação da respiração” com alta VFC. A VFC é influenciada tanto por ramo do sistema nervoso autônomo simpático quanto do parassimpático, mas as emoções e os ritmos respiratórios também afetam esse marcador fisiológico (Bernardi et al, 2000; McCraty et al, 2001; Culbert et al, 2007; Moss, Shaffer, 2008; Combatalade, 2010; DeBeck et al, 2010; Neves Neto, 2011a, 2011b). A variabilidade da frequência cardíaca (VFC) é um importante marcador de saúde do sistema nervoso autônomo e do coração (McCraty et al, 2001). No campo da psicofisiologia, a VFC tem sido associada à presença do estresse, da ansiedade e da depressão, além de ser uma poderosa ferramenta para o treino de biofeedback voltado ao tratamento das condições psicossomáticas (ex. síndrome do intestino irritável, asma, hipertensão arterial, entre outros). (McCraty et al, 2001). Ao apresentar inicialmente um exercício de respiração, é importante estimular os pacientes a observarem o seu padrão respiratório natural, seja ele com predominância de movimentos torácicos e/ou abdominais. É comum os pacientes não estarem conscientes da sua própria respiração, portanto solicita-se que o mesmo feche os olhos e inicialmente coloque uma das mãos na região torácica e outra na região umbilical, sempre com respiração nasal, após alguns instantes (ex. 2 ou 3 minutos) solicita-se que o mesmo descreva a mão que mais se movimentou durante a sua respiração, o que levará ao reconhecimento do padrão respiratório, seja ele torácico ou abdominal. Algumas práticas de meditação de concentração também utilização a observação da respiração, sem influenciá-la, em média por 15 a 20 minutos (Roemer, Orsillo, 2010). Ainda é importante ressaltar que apesar da respiração diafragmática (ritmo 6:6) e a observação da respiração domindfulness produzirem o aumento da VFC, ou seja, do equilíbrio do sistema nervoso autônomo, a experiência subjetiva é normalmente distinta, sendo que na respiração diafragmática, pode-se observar “calmaria”, “relaxamento”, “sonolência” e na observação da respiração, observa-se “clareza mental”, “foco”, “atenção relaxada”, entre outros. (Smith, 1988; Moss et al, 2003). Durante a respiração diafragmática o objetivo principal é treinar o aumento da utilização do músculo diafragma durante o ciclo respiratório. O paciente pode ser instruído a colocar uma das mãos na região torácica e outra na região abdominal, 40 desta vez ele deve influenciar o movimento, de forma consciente, até perceber que a mão próxima a região umbilical é a que mais se movimenta durante a respiração. O objetivo dessa respiração é aprofundar e diminuir o ciclo respiratório, que pode estar sofrendo influencias do neurohormônios do estresse e da ansiedade. O paciente não deve congelar o movimento torácico, apenas aumentar o movimento do músculo diafragmático. Às vezes instrui-lo a imaginar que esta enchendo um balão de gás em seu abdômen, pode tornar o exercício mais fácil, para outros é importante realizá-lo inicialmente em decúbito dorsal, facilitando a aprendizagem correta desta respiração. Ainda existem variações que utilizam: contagem (Lehrer, Carrington, 2003; Lehrer et al, 2007), música (Fried, 1990a; 1990b), dispositivos especiais (ex. Breath Pacer®, Coherence Clock®, EZ-Air Plus®, Resperate Ultra®), entre outros. Após a observação da respiração (levando ao aumento da consciência corporal) e da prática de respiração diafragmática (levando ao aumento da consciência corporal e da auto-regulação) , resultando em um padrão respiratório lento, profundo, regular e sem esforço, alguns pacientes podem também ser beneficiados pela alteração voluntária da duração dos ciclos respiratórios, técnicas inspiradas nos pranayamas yogues. Atualmente se discute a descoberta da frequência ressonante do ciclo respiratório, capaz de afetar a frequência cardíaca, a pressão arterial e outros ritmos biológicos, tais como as ondas cerebrais. Alguns autores defendem uma razão de 6:6, ou seja, 6 tempos de inspiração para 6 tempos de expiração, como um meio de se atingir a frequência ressonante (Elliott, Edmonson, 2006), outros sugerem que a frequência ressonante pode ser encontrada através da avaliação personalizada de diferentes ritmos respiratórios e que podem ser encontradas através de monitoramento por equipamento de biofeedback, exemplos: 4:6 e 12:12 (Lehrer et al, 2007). Não é o objetivo deste trabalho esgotar todas as técnicas de respiração para a redução do estresse utilizadas em TCC, mas apenas descrever as formas mais comuns, demonstrando suas bases psicofisiológicas e esclarecendo aos profissionais interessados o essencial de cada procedimento adotado. Quanto aos dados sobre a utilização das técnicas de respiração na saúde, o Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (2011) estima que o treino de respiração (ex. respiração diafragmática) é o segundo recurso mais utilizado pela população adulta norte- 41 americana como estratégia terapêutica complementar em saúde, com uma prevalência de 12,7% da população e o terceiro recurso mais utilizado por crianças, com uma prevalência de 2,2% da população. Em outro estudo, as técnicas de relaxamento e de respiração representaram 16,3% da utilização pela população adulta norte-americana, sendo o método terapêutico complementar (mind-body therapies) mais utilizado, seguido por: meditação (10%), imaginação guiada (4,5%), hipnose (1,2%) e biofeedback (1%), entre outros (Astin et al, 2003). As queixas mais comuns tratadas com esse recurso complementar são: dor crônica, artrite, ansiedade, estresse, insônia, entre outros. No Brasil, segundo dados do programa de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (2008) o treino de respiração, desenvolvido no âmbito de práticas mentais e corporais da medicina tradicional chinesa (ex. tai chi chuan, lian gong, meditação, entre outros), varia entre 7 a 20% dos municípios que oferecem acupuntura. Os benefícios das técnicas de respiração (ex. respiração diafragmática) na literatura são bastante amplos, mas em síntese os efeitos no organismo são: estabilização do sistema nervoso autonômico, aumento da variabilidade da frequência cardíaca, diminuição da pressão arterial (sístole e diástole), aumento da função pulmonar, aumento da função imune, aumento do fluxo de sangue e linfa, melhora da digestão, melhora da qualidade e padrão do sono e aumento do bem-estar biopsicossocial e qualidade de vida (Dixhoorn, 2007; Rakel, 2007). No quadro 2 são descritos estudos sobre condições específicas. 42 Apesar de a literatura sugerir uma ampla utilização das técnicas de respiração para a redução do estresse e de outras doenças associadas, nem sempre é um procedimento inócuo. Alguns autores apontam para a possibilidade das técnicas de relaxamento, incluindo as técnicas de respiração, induzirem a estados de ansiedade, provavelmente por promoverem uma forma de exposição interoceptiva, ou da consciência corporal de estados de tensão antes não percebidos, ou da sensação de perda do controle ou de estados alterados de consciência. (Sultanoff, 2002; Lehrer, Carrington, 2003). Portanto, as técnicas de respiração devem ser foco de estudo e de aplicação prática na saúde, de profissionais competentes e com treinamento nas bases anatomofisiológicas e psicológicas da respiração, capazes de instruírem seus pacientes de forma segura e eficaz. A escolha da técnica adequada para o paciente e de suas possíveis adaptações, duração, formato, regularidade do treino, entre outros, dependerá do desenvolvimento de novas pesquisas e da disponibilização de mais treinamentos voltados aos profissionais da área da saúde. 43 Seção 2.5: Considerações As técnicas de respiração são baseadas nas medicinas tradicionais, porém a medicina e psicologia contemporâneas têm uma importante contribuição ao estudar os mecanismos psicofisiológicos de tais práticas, voltadas a redução do estresse e de outras patologias modernas. O baixo custo das técnicas de relaxamento, sua relativa segurança quando aplicada por profissional capacitado, faz dos exercícios respiratórios um tema importante para os profissionais da área da saúde. Tanto a TCC ou a Medicina Comportamental quanto o biofeedback (VFC) podem ser associados às técnicas de respiração, visando uma sinergia entre diferentes procedimentos terapêuticos, capazes de responder à complexidade dos problemas humanos. Ensinar corretamente os pacientes a dominarem simples técnicas de respiração, poderá se tornar uma prática clínica corrente além de ser ensinada desde os anos iniciais de formação na escola médica, e também de outras áreas. 44 Unidade 3: O Ritmo Da Vida No Pulsar Da Energia E Da Respiração: Seus Processos E Sua Integração Nas Práticas Da Psicologia Corporal E Da Meditação Seção 3.1: Introdução A respiração permeia todas as experiências vividas pelo corpo, este corpo que vivencia em si emoções e sensações e se inspira criativo e se anima cheio de ânima (vento, alma ou mente), pleno de prana (sopro de vida), de ar e de energia; um corpo que age, realiza e se expressa, se expande e alcança o infinito na liberdade do movimento rítmico total. Nas palavras de Sarmento (2015, p. 173), “Seria a respiração um fluido, um ar vital emanado do Criador? Seria alento, fogo que mantém acesa a vida? Seria algo invisível, intangível, função destinada ao movimento de fole dos pulmões? [...] Sim, a respiração pode ser assim percebida. [...] a respiração é uma experiência corporificada”. Todos os processos relativos à biomecânicada respiração se manifestam no corpo, um corpo que respira como um todo, e não apenas pulmões que respiram, e assim, “[...] alterações da postura, do movimento e da relação com a vida fazem parte da doença respiratória e que, ao tratar a postura, o movimento e a relação com a vida, tratamos a respiração. [...] a respiração é uma ação corporificada que está presente em cada atitude do indivíduo”. (SARMENTO, 2015, p. 173). Lowen e Lowen (1985, p. 13) afirmam que “A boa respiração é essencial a uma saúde vibrante. Através da respiração conseguimos o oxigênio para manter acesso o fogo do nosso metabolismo, e isto nos assegura a energia de que precisamos. Mais oxigênio cria um fogo mais quente e produz mais energia.” O ritmo da respiração, inalação/contração e exalação/expansão, promove o entrelaçamento e a integração entre corpo, mente, alma, emoções, sensações, pensamentos, movimentos e energia, assim a respiração tem influência sobre os processos físicos e psíquicos, como tensões, estresse, bloqueios, angústias, ansiedades, dores e, também, estados de paz, serenidade, relaxamento, prazer e fluidez. Como afirma Gunaratana (2005), a respiração é um processo que ocorre aqui e agora, ela flui continuamente no momento presente, e a percepção das sensações de inspirar e expirar o ar nos coloca em contato com a instância mente-corpo. Quanto 45 mais sutil a respiração se torna, mais se percebe uma sensação de calma, tranquilidade, relaxamento e paz. A respiração é elemento fundamental para a conquista de equilíbrio e fluidez energética e assim obtenção de saúde e bem-estar, da mesma forma que possibilita o acesso às questões emocionais e psíquicas que estão bloqueadas e ocultas em nossos corpos. Os movimentos da respiração estão diretamente relacionados aos movimentos de circulação de energia no corpo, e repercutem nos equilíbrios e desequilíbrios físicos, emocionais, mentais e espirituais. Para Sarmento (2015), a respiração é um estado de espírito e não apenas um ato mecânico, pois a ação do indivíduo será limitada se os músculos do seu corpo não receberem oxigênio suficiente. “Se o cérebro sofre falta de oxigênio, instala-se a apatia, a insensibilidade e a desatenção. Se, [...] o cérebro recebe oxigênio em demasia, como nos estados de ansiedade, o indivíduo é impelido a agir”. (SARMENTO, 2015, p. 174). Sobre a respiração e as funções biológicas básicas de contração e expansão, Reich (1984) explica que o sistema nervoso parassimpático estimula os órgãos para deixar a totalidade do organismo num agradável estado de expansão, e o sistema nervoso simpático, por sua vez, estimula todos os órgãos quando o organismo está no angustioso estado de contração. “Isto nos permite compreender o processo da vida, particularmente a respiração, como uma condição da oscilação contínua, na qual o organismo se alterna continuamente entre a expansão parassimpática (exalação) e a contração simpática (inalação).” (REICH, 1984, p. 252). Cabe enfatizar a relação entre energia e corpo, visto que há uma relação direta entre tensões e bloqueios versus não fluidez de energia, ou seja, a harmonia e o equilíbrio emocional, mental e físico estão relacionados à circulação ou não circulação de energia no corpo e no ambiente. Os processos energéticos do corpo são funções básicas da vida, em que a respiração e o metabolismo produzem energia e o movimento promove a descarga desta energia. A respiração profunda aumenta o nível de energia, assim como uma respiração reduzida indica um nível baixo de energia e de todas as outras funções vitais. As respostas dadas às situações da vida estão em relação à quantidade de energia disponível e como se faz uso desta energia, ao manifestá-la em movimento e expressão, o que também permite a resolução de questões emocionais e a percepção do potencial que se tem para o prazer e a alegria de viver. Para uma completa vitalidade e bem-estar emocional, toda rigidez e tensão crônica deve ser aliviada, pois 46 diminui a vitalidade e rebaixa a energia, o que resultará em restrição da motilidade e da autoexpressão. (LOWEN; LOWEN, 1985). Navarro (1995a, p. 20) refere-se à Reich: “[...] ele fala de uma ‘energia cósmica e universal operando no corpo’ [...]”. Os processos de distribuição, repartição, economia e destino desta energia estão em relação com os processos fisiológicos, o equilíbrio neurovegetativo, as tensões orgânicas e em relação também com a vida emocional. “O ser vivo é o que é porque é dotado de uma carga energética que tem uma circulação pulsante e um metabolismo próprio. A pulsação energética é cósmica, inscrita na matéria. [...] O corpo humano deve ser considerado como uma estrutura energética que interage dialeticamente com o meio.” (NAVARRO, 1995a, p. 25). Reich (1984), afirma a existência de uma força criadora regendo a vida, cujo movimento chamou de fórmula do orgasmo ou “fórmula da vida” (REICH, 1984, p. 244) – “[...] tensão mecânica / carga energética / descarga energética / relaxamento mecânico – fórmula que ele reintegrou a um ritmo energético universal e elementar de expansão-contração, ritmo característico da matéria viva”. (NAVARRO, 1995a, p. 12). Esta fórmula que exprime o ritmo da vida pode ser percebida em todos os seres vivos através do sistema respiratório, do ritmo energético em harmonia com o ritmo da respiração. “As funções biológicas fundamentais de contração e expansão aplicavam- se tanto ao campo psíquico quando ao somático”. (REICH, 1984, p. 244). Sarmento (2015) fala sobre o sistema respiratório, cujos músculos trabalham junto com os pulmões para desempenhar sua função que é [...] deslocar a parede torácica ritmicamente, bombeando ar para dentro e para fora dos pulmões. [...] os músculos respiratórios não trabalham de forma isolada e sim inseridos em um sistema que atua por meio de coordenações que possibilitam atividades funcionais; estas, por sua vez, concedem ao ser humano a possibilidade de realização global de seus desejos e anseios. (SARMENTO, 2015, p. 173). Como um sistema aberto, o ser humano recebe energia do meio, transforma e utiliza esta energia e a devolve para o meio ambiente, num movimento contínuo de circulação, troca, transformação e uso. O ser humano faz uso de um conjunto de fatores de reciprocidade e adapação a fim de estabelecer um bom contato entre ele mesmo, os outros e o meio, e isto implica numa troca energética contínua. Se este sistema encontra-se bloqueado, provoca uma deficiência ou estase energética que resulta em consequências ou sintomas que se manifestam no plano físico e psíquico; estes sintomas sempre serão 47 a expressão de uma emoção. A emoção pode ser expressa ou reprimida, e é a resposta a um estimulo que pode ser gratificante ou frustrante. A emoção se traduz pelo comportamento e também pela contração e pelo relaxamento dos músculos do corpo. (NAVARRO, 1995a). Lowen e Lowen (1985) afirmam que em estado de total relaxamento ou de sensações intensas, podem ser sentidas ondas pulsatórias que fluem por todo o corpo, e que a vitalidade está relacionada à vibração, ou seja, a saúde vibrante ou estar vibrantemente vivo é condição para se estar totalmente vivo. O corpo vivo está em constante movimento, e esta motilidade ou atividade espontânea é consequência do estado de excitação interna que irrompe continuamente na superfície, em movimento. “Em todos os seres vivos, verifica-se essa resposta de expansão e de contração, conforme as condições sejam respectivamente gratificantes, favoráveis ou frustrantes e desfavoráveis” (NAVARRO, 1995b, p. 26). Trata-se de uma reação neurovegetativa e muscular que expressa o caráter, ou seja, o jeito do indivíduo agir e reagir aos acontecimentos e experiências da vida. O caráter é a forma característica do próprio corpo, é o modo do eu e do corpo se manifestar no mundo, e isto implica,também, na maneira de andar, de falar, nas relações com as coisas e pessoas, nas atitudes, nas expressões faciais e gestos ou posturas como um todo. Há dois princípios econômicos na formação do caráter, que é evitar a angústia ou reter a angústia – quando não é possível evitá-la –, para que não provoque prejuízos e sofrimentos. Assim, o organismo pode dar respostas de expansão, que estão relacionadas às condições gratificantes e favoráveis, e respostas de contração, que estão relacionadas às condições frustrantes e desfavoráveis. (NAVARRO, 1995b). Reich (1984) afirma que a alternância entre expansão e contração de forma contínua constitui o processo vital de impulsos e sensações biológicos e, ao mesmo tempo, atua a nível psíquico, em que a expansão é experimentada como prazer e a contração como angústia ou desprazer. “[...] o sistema nervoso parassimpático opera na direção da expansão ‘para fora do eu, em direção ao mundo’, do prazer e da alegria; ao contrário, o sistema nervoso simpático opera na direção de contração ‘para longe do mundo, para dentro do eu’, da tristeza e do desprazer”. (REICH, 1984, p. 245-246). Ao pensar nas práticas corporais, tanto os exercícios de Bioenergética quanto os actings da Vegetoterapia buscam o trabalho com a respiração em sincronia com 48 os movimentos e gestos, com a intenção de proporcionar uma percepção de si mais consciente e uma mobilização de energia no sentido de promover desbloqueios e liberações. Da mesma forma, com a prática da meditação, através da respiração, busca-se mobilizar o corpo e reduzir tensões e restaurar a autorregulação. A meditação apresenta-se como uma forma auxiliar no reestabelecimento da economia energética do indivíduo. Segundo Gunaratana (2005), a meditação reduz a tensão, o medo e as preocupações, traz calma ao praticante e a agitação diminui. A finalidade da meditação é a transformação pessoal: “O ‘eu’ que entra de um lado da meditação não é o mesmo ‘eu’ que aparece do outro lado. [Ao tornar o praticante] profundamente consciente de seus próprios pensamentos, palavras e atos, ela modifica seu caráter pelo processo de sensibilização.” (GUNARATANA, 2005, p. 21). A respiração é o objeto ideal da meditação, pois, apesar da sua sensação ser sutil, ela é uma espécie de janela de comunicação entre os mundos interior e exterior, “[...] é um ponto de ligação e de transferência de energia, em que o material que vem do mundo exterior se transfere para o interior e se transforma em parte do que chamamos de ‘eu’, e onde uma parte do ‘eu’ segue adiante e mergulha no mundo exterior.” (GUNARATANA, 2005, p. 70). A respiração evidencia nossa conexão com a totalidade da vida e durante a meditação conduz a mente e o corpo a um estado de tranquilidade, equilíbrio, conscientização e visão interior. Este olhar para dentro leva à compreensão de si mesmo e também conduz a uma sensação de bem-estar, saúde, percepção corporal, sensação de órgão, liberação de tensões, autorregulação, transformação e fluidez energética. Pela conexão com a totalidade da vida proporcionada pela meditação, o corpo que respira no aqui e agora, relaxa, e, nas palavras de Lowen e Lowen (1985), pode sentir-se integrado e conectado como um todo: No relaxamento completo, as ondas respiratórias atravessam o corpo em cada inspiração ou expiração. Em estados emocionais intensos, ondas de sensação espalham-se pelo corpo. [...] Usualmente, entretanto, nós não nos permitimos relaxar totalmente, respirar profundamente, ou sentir intensamente. [...] quando as vibrações atravessam o corpo em sua plenitude, a pessoa se sente conectada e integrada, como um todo. [...] a sensação de unidade e integridade leva a uma sinceridade natural de pensamento e ação. Se uma pessoa desenvolve a graça corporal, desenvolve a correspondente atitude psicológica de ser graciosa. (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 06-07). 49 Há uma prática Budista de meditação chamada Vipassana, cujo objeto está especialmente na respiração. Gunaratana (2005) diz que o Budismo afirma o acesso direto ao mundo espiritual ou divino – sem intermediações de deidades – através de uma investigação plena da realidade da vida e do processo de percepção humana. A prática budista reconhece que mente e corpo estão fortemente ligados, influenciando- se mutuamente, e ao observarmos nossa mente e corpo percebemos certas coisas, e esta percepção consciente “[...] nos liberta das raízes profundas do sofrimento psicológico e espiritual. A prática da plena atenção é a prática de ser honesto consigo mesmo cem por cento.” (GUNARATANA, 2005, p. 49). A técnica da Meditação Vipassana vem proporcionar justamente esta consciência. A Meditação Vipassana, traduzida como Meditação do Insight ou Consciência Clara, tem como objetivo fornecer uma consciência clara ou insight da natureza da realidade, uma compreensão precisa de como todas as coisas funcionam no exato momento em que acontecem, através da atenção plena e compreensão dos processos internos da realidade, o que resulta em uma transformação completa e libertação permanente. (GUNARATANA, 2005). Na atenção plena, coração da Meditação Vipassana, observa-se o universo interior, todos os fenômenos físicos, mentais e emocionais, e este é um processo holístico. Ela consiste na observação participativa das emoções e sensações físicas, em que se está ao mesmo tempo observando e sentindo; é uma participação ativa e alerta no movimento do viver. A plena atenção “[...] reflete o que está acontecendo no momento, e exatamente da maneira que está acontecendo. Não há distorções, [...] é uma observação sem julgamento [...] ver as coisas sem condenação ou julgamento” (GUNARATANA, 2005, p. 130). “O propósito da Meditação Vipassana não é nada menos do que a transformação permanente e radical de toda sua experiência sensorial e cognitiva.” (GUNARATANA, 2005, p. 147). A respiração, na Bioenergética, tem como objetivo ajudar a pessoa a ter mais vitalidade e uma maior consciência de si mesmo e do outro; trata-se de promover uma respiração natural, de deixar que a pessoa respire de forma fácil, profunda e espontânea. Os exercícios de Bioenergética buscam perceber e sentir como o indivíduo reduz sua vitalidade ao limitar a respiração e seus movimentos, como inibe e bloqueia o fluxo de excitação do corpo e reduz a autoexpressão. “O objetivo da terapia é um corpo cheio de vida, capaz de experienciar totalmente prazeres e dores, alegrias e 50 tristezas da vida. Quanto mais vitais somos, mais toleramos um maior grau de excitação na nossa vida cotidiana e no sexo.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 06). A capacidade para o prazer é aumentada conforme se dissolve tensões e bloqueios musculares, sentimentos suprimidos e conflitos reprimidos. O estado vibratório do corpo pode ser percebido na expansão e contração pulsáteis totais do organismo e em seus sistemas respiratório, circulatório ou digestivo, e como sensações que fluem pelo corpo e se refletem no fluxo da excitação. (LOWEN; LOWEN, 1985). A Vegetoterapia trabalha com exercícios corporais ou actings que visam a dissolução das couraças musculares nos diferentes segmentos do organismo, com a finalidade de desfazer tensões musculares, desarranjos neurovegetativos e inibições psíquicas, “[...] para que o indivíduo possa chegar, em seu corpo, em suas emoções e em suas estruturas psicológicas, à percepção e ao sentimento de uma circulação suficientemente boa, desembaraçada, flexível e fluída da energia.” (NAVARRO, 1995a, p. 13). Os pensamentos, as emoções e os sentimentos podem estabelecer tensões correspondentes no corpo, as quais podem se localizar em áreas específicas, como contração nos músculos do pescoço, nos ombros ou tensão na área do tórax, do diafragma, do abdômen ou da pélvis, por exemplo. As tensões, ao se localizarem no diafragma, provocam a sua contração, o que interferediretamente na respiração. A contração do diafragma resulta em alterações e impedimentos nos processos da inspiração e da expiração do ar durante a respiração. Além disso, a contração do diafragma repercute nos outros níveis ou segmentos de tensões (olhos, boca, pescoço, alto do tórax, abdômen e pélvis). Estes diferentes grupos de músculos pertencem a uma só unidade funcional no sentido vegetativo. (NAVARRO, 1995a). O músculo diafragmático começa a funcionar com a vida extrauterina, como uma bomba para a respiração na qual intervêm indiretamente os músculos espinhais, escapulares, occipitais e costais. Por isso há também uma respiração (inspiração) começando pela nuca (ligando o pescoço-diafragma também no sentido psicológico). O importante para a expiração é a ligação diafragma-abdômen através do músculo transverso; na respiração contribuem também os músculos da pélvis (o períneo é chamado diafragma inferior); dessa forma há também uma respiração pélvica, o que confirma a ligação diafragma-pélvis. (NAVARRO, 1995b, p. 69-70). A Bioenergética busca ajudar na percepção e liberação das tensões que impedem o indivíduo de ter uma respiração fácil, profunda e natural. “Exercícios de respiração ajudam um pouco, mas não fazem nada para reduzir tensão e restaurar o 51 padrão respiratório natural.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 13). O ato de não respirar naturalmente se deve a “[...] padrões desorganizados de respiração, devido a tensões musculares crônicas, que distorcem e limitam a respiração.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 13). Para restaurar o padrão respiratório natural é necessário reduzir as tensões (que desviaram o padrão respiratório do seu natural), entender os padrões naturais e saber como eles se desorganizaram. Sobre a relação entre a respiração, as emoções e os músculos, Navarro (1995a) afirma: A respiração é um meio de comunicação e de expressão independente da palavra: a tristeza diminui a profundidade da respiração, o prazer a aumenta. Os ansiosos respiram superficialmente, irregularmente, prolongando a inspiração às custas da expiração, sempre incompleta. As emoções influenciam a respiração: é comum ver-se uma respiração entrecortada de suspiros no caso de angústia, uma dificuldade para respirar em caso de medo ou, ainda, uma sensação de sufocamento ou de opressão torácica. (NAVARRO, 1995a, p. 75). Segundo Navarro (1995a), os movimentos do diafragma deveriam ter um equilíbrio rítmico, pois sua função de inspiração-expiração é essencial à vida, e a saúde depende de uma circulação equilibrada e fluida de energia em todos os níveis. O movimento de inspiração antecede uma ação, é um momento de atividade; já a expiração é um momento de repouso e relaxamento, e também de expressões como gritos, soluços, riso, choro, palavras. Segurar o choro ou os gritos, sufocar seus sons e expressões provoca também a constrição na garganta que leva à limitação da respiração, pois a respiração está relacionada à voz. A emissão de sons se dá pelo deslocamento de ar através da laringe. Ao emitir um som claro que ressoa no corpo, ocorre uma vibração intensa semelhante às vibrações que se induz na musculatura ao se realizar exercícios de Bioenergética. Emitir um som e se deixar respirar, não restringir a respiração, é permitir-se ser ouvido; a negação do direito de uso da própria voz pode resultar em pessoas sem voz ativa em seus próprios assuntos. (LOWEN; LOWEN, 1985). O diafragma, segundo Navarro (1995a), ao se movimentar para baixo, conduz energia até a pélvis; assim, uma boa respiração pode gerar excitação e sensação de bem-estar próxima do erotismo, enquanto a agitação dos ansiosos é resultado de uma respiração deficiente, cujo impulso energético se direciona para o alto, no tórax. “A manifestação emocional ligada ao funcionamento do diafragma é a ansiedade, que não é mais do que o temor, o medo da ocorrência de um perigo ou de uma punição, 52 o que dá origem ao masoquismo. A educação repressiva, as ameaças e os castigos, ou as chantagens afetivas, determinam a estrutura de quem tolera e sofre.” (NAVARRO, 1995a, p. 86). “A ansiedade corta a respiração porque provoca uma expectativa de alguma coisa... [...]” (NAVARRO, 1995a, p. 90), e esta expectativa traz à tona a emoção do medo perante conflitos afetivos. Traduz-se em ansiedade, em uma espera de que algo desagradável vai acontecer, como punição, dor ou morte. Isto envolve o diafragma, pois, pela ação energética do sistema simpático, o medo ou a culpa atuam nos músculos respiratórios, e causa o bloqueio da funcionalidade do diafragma, que se manifesta como a ansiedade. (NAVARRO, 1995a, 1995b). Ao falar sobre o masoquismo, Navarro (1995b) diz que sua localização está no diafragma e sua origem está nas emoções que provocam ansiedade e medo. Isto faz com que esteja ligado à fisiologia da respiração. O masoquista tem a habilidade de transformar prazer em desprazer. Se, como afirma Reich (1984), expansão e contração estão em relação com prazer e desprazer respectivamente, com o trabalho sobre os padrões de respiração pode-se fazer com que se flexibilize este traço caracterial, e que a estase energética se desfaça, modificando esta condição psíquica e somática. Navarro (1995b), diz que “A ansiedade do masoquista se aplaca quando ele pode viver o desprazer, e assim encontra alívio de [...] respirar (expirar). (NAVARRO, 1995b, p. 73). Este desprazer é vivenciado quando o masoquista inala o ar. A contração é mantida pelo ato de suspender a respiração na inalação, “[...] prender a respiração na ansiedade masoquista só pode ser suportado, obviamente, até certo ponto, sendo depois necessário expirar. O tolerar, suportar, ‘engolir’ bloqueiam a respiração até o ponto da explosão da respiração.” (NAVARRO, 1995b, p. 73-74). Para Lowen e Lowen (1985), a respiração deixa de ser saudável quando os padrões de respiração sofrem distúrbios, ou seja, os movimentos da respiração deixam de ser uma ação integrada do corpo todo e “[...] uma parte do corpo se move em oposição a uma outra.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 14). Isto significa que haverá um bloqueio na respiração, por exemplo, se, ao inspirar, o peito se expande e a barriga se contrai resultando no impedimento do movimento descendente dos pulmões; a pessoa passa a respirar para cima e para baixo ao invés de expandir as cavidades do corpo respirando para fora e para dentro. Ou ainda, como afirmam Lowen e Lowen (1985, p. 14), o padrão mais comum é aquele, onde “[...] os movimentos respiratórios 53 estão limitados à área do diafragma, com pouco envolvimento do abdômen ou tórax. Esta é uma típica respiração superficial. Algumas vezes acontecem certos movimentos abdominais, mas o peito mantém-se rigidamente contido.” Sobre a biomecânica da respiração, Souchard (1989, p. 31-32) afirma o que segue: A função respiratória do diafragma é indissociável dos músculos que são seus antagonistas e complementares: os abdominais e, em especial, o transverso, que se insere sobre as mesmas vértebras lombares que ele. Tal função é também indissociável da massa visceral abdominal e períneo que a contém no nível inferior. Enfim, ela não pode ser encarada independentemente do diafragma superior, que constitui o conjunto faringe-laringe. A barriga contraída e tensa resulta na eliminação dos sentimentos e controle do choro e do riso. Soltar a barriga significa estar sujeito às lágrimas e soluços e também às gargalhadas de sacudir. Bloquear a barriga é bloquear sua própria plenitude de ser uma pessoa vibrantemente viva. (LOWEN; LOWEN, 1985). Nos processos da respiração, a região abdominal ou plexo solar, que é chamado de sede das emoções, tem sua importância, pois as tensões abdominais bloqueiam o movimento da corrente vegetativa natural e resultam em sintomas de perturbações respiratórias. “[...] a pressão exercida sobre o plexo solar, de cima pelodiafragma, de frente pela parede abdominal e de baixo, pelo assoalho pélvico contraído, reduzia de modo considerável a cavidade abdominal”. (REICH, 1984, p. 271). Assim, a neurose é a expressão de uma perturbação crônica do equilíbrio vegetativo e da motilidade natural. “A inibição respiratória e fixação do diafragma é sem dúvida um dos primeiros e mais importantes atos na supressão das sensações de prazer no abdômen, e também na redução da ‘angústia abdominal’. Somada a isso, a atitude respiratória é o efeito da pressão abdominal.” (REICH, 1984, p. 260). Segundo Reich (1984), um padrão de respiração curta ocorre devido à emoção do medo, quando uma pessoa assustada ou em situação de perigo involuntariamente aspira o ar e prende a respiração. Como a respiração não pode cessar indefinidamente, a pessoa respirará outra vez e a expiração será superficial, não será completa. A pessoa expirará o ar aos poucos, numa respiração curta. Em estado de medo, involuntariamente, se inspira. O diafragma contraise e exerce pressão sobre o plexo solar, de cima para baixo. “É prendendo a respiração que as crianças costumam lutar contra os estados de angústia, contínuos e torturantes, que sentem no alto 54 abdômen. Fazem a mesma coisa quando sentem sensações agradáveis no abdômen ou nos genitais e têm medo dessas sensações.” (REICH, 1984, p. 260). Em relação aos bloqueios ou couraças musculares que se localizam em várias partes do corpo e os impedimentos que causam nos movimentos naturais ou impulsos vegetativos, Reich (1984) afirma o que segue: Uma cobra, ou uma lombriga, apresenta um movimento uniforme, ondulante, rítmico, que governa o organismo inteiro. Imaginemos agora que alguns segmentos do corpo são paralisados ou de algum modo restringidos, de modo que não podem mover-se com o ritmo do corpo todo. Neste caso, as outras partes do corpo não se moverão, como antes, em conjunto; o ritmo total terá sido perturbado por causa da exclusão de grupos de músculos individuais. Assim, a perfeição da harmonia e da motilidade do corpo dependem da uniformidade, da totalidade e da liberdade, sem perturbações, dos impulsos do corpo. (REICH, 1984, p. 275). Reich (1984) se refere a uma técnica de respiração, que é a forma mais importante de liberação desta harmonia e motilidade do corpo, promovendo a integração gradual das partes separadas e que assim são envolvidas no desempenho total. A respiração é usada para reativar as excitações emocionais vegetativas naturais. “Respirando fundo, sentimentos fortes de prazer ou de angústia aparecem no abdômen. Mas é precisamente a anulação desses sentimentos que se cumpre pelo bloqueio respiratório.” (REICH, 1984, p. 277). Esta técnica está relacionada com a expiração profunda e uniforme, feita de um só fôlego, oposta à exalação fragmentada em que se volta rapidamente à inalação, “A inalação profunda provoca uma obstrução da atividade biológica dos centros vegetativos, resultando em uma irritabilidade reflexa aumentada.” (REICH, 1984, p. 280). Na exalação profunda, o diafragma se eleva devido a seu relaxamento, e diminui assim a pressão abdominal. “A exalação repetida reduz a estase e, com isso, a irritabilidade angustiosa.” (REICH, 1984, p. 280). Reich (1984) faz referência à contradição que o bloqueio da exalação profunda produz, pois “[...] o bloqueio serve para abafar as excitações de prazer que surgem do mecanismo vegetativo central. Entretanto, é esse bloqueio preciso que cria um aumento da susceptibilidade à angústia, e uma irritabilidade reflexa”. (REICH, 1984, p. 280-281). Segundo Navarro (1995b), ao conquistar o desbloqueio do diafragma com as práticas da Vegetoterapia, “[...] aparecem movimentos involuntários pré-orgásticos que costumam provocar no sujeito manifestações de angústia”. (NAVARRO, 1995, p. 70-71). Lowen e Lowen (1985, p. 13) descrevem o processo da respiração e afirmam que “A respiração saudável é uma ação do corpo todo; todos os músculos do corpo 55 estão envolvidos, em algum grau.” Os movimentos respiratórios ocorrem como ondas que fluem de baixo para cima e de cima para baixo. Há um padrão respiratório que ocorre devido a uma necessidade urgente de oxigênio (os músculos do tórax são mobilizados), onde o corpo movimenta-se como se fosse uma única peça, a respiração é feita com a barriga e com o tórax de forma profunda e plena, e se percebe as ondas respiratórias fluírem para cima e para baixo. Também há o padrão da respiração relaxada, em que o indivíduo toma o máximo de ar com um mínimo de esforço; é uma respiração predominantemente abdominal, e ocorre quando o indivíduo não se encontra em estado de forte emoção ou grande esforço. (LOWEN; LOWEN, 1985). O padrão de respiração relaxada [...] é para baixo e para cima na inspiração (inalação de ar). O diafragma se contrai e desce, permitindo a expansão dos pulmões quando eles inflam. Esta é a direção de menor resistência para a expansão dos pulmões. O abdômen se alarga através de um movimento para fora das paredes do mesmo, para dar espaço ao movimento descendente dos pulmões. A contração do diafragma também levanta as costelas inferiores, cujo movimento é acompanhado pela contração dos músculos intercostais (aqueles que ligam uma costela a outra). [...] Este movimento da pelve para frente é auxiliado pela contração dos músculos abdominais. A expiração, contudo, é um processo basicamente passivo, melhor exemplificado por um suspiro. (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 13). Lowen e Lowen (1985) afirmam que a inspiração inicia como uma onda que flui de baixo para cima, desde o fundo da pelve até a boca, e à medida que esta onda sobe, as cavidades largas do corpo – o abdômen, o tórax, a garganta e a boca – se expandem para sugar o ar. Fundamental é a expansão da garganta durante a inspiração, pois dela depende a respiração profunda. Assim, sua contração serve para abafar sensações e sentimentos, principalmente a vontade de chorar e gritar. “É muito comum no trabalho bioenergético acontecer que, após a pessoa ter chorado bastante, sua respiração se torne mais profunda e fácil. Permitir-se soluçar libera a tensão na garganta e também abre o ventre.” (LOWEN; LOWEN, 1985, p. 13). As pessoas que têm medo de ir ativamente ao encontro do mundo, têm dificuldade de inspirar e sentem-se aterrorizadas ao abrirem suas gargantas para uma inspiração profunda. Já a onda expiratória começa na boca, flui para baixo e induz ao relaxamento de todo o corpo. Ao se liberar o ar retido nos pulmões libera-se qualquer outra retenção. O medo de se soltar leva às dificuldades para expirar o ar, que é ao mesmo tempo uma defesa contra o pânico de não ser capaz de conseguir ar suficiente. Devido ao pânico que sente ao exalar totalmente o ar, reage-se inalando mais ar e retendo 56 uma reserva de ar ao inflar novamente o peito. Assim, mantém-se nesta segurança ilusória, por medo. (LOWEN; LOWEN, 1985). Reich (1984) fala sobre uma prática respiratória, que consiste em inspirar e expirar profundamente, sem a intenção de fazer qualquer exercício respiratório, trata- se de uma respiração natural e profunda; “Depois de cinco ou dez movimentos, a respiração em geral se torna mais profunda, e emerge a primeira inibição. Quando uma pessoa expira natural e profundamente, a cabeça se move com espontaneidade para trás no fim do movimento [...] Na exalação profunda, os ombros relaxam-se com naturalidade e se movem suave e levemente para a frente”. (REICH, 1984, p. 278). Outra forma é colocar os dedos de ambas as mãos num ponto entre o esterno e o umbigo, enquanto a pessoa inspira e expira fundo. Durante a expiração se aplica uma suave pressão neste ponto do alto abdômen, e isto pode provocar reações diversas como contrações ondulantes no abdômen, ou puxar a pélvis para traz e arquear as costas. Se a exalação profunda é continuada durante certo tempo, uma paredeabdominal tensa e dura torna-se macia. A pessoa sente-se melhor ao ceder por completo. A atitude de entrega é a mesma que a da rendição: a cabeça desliza para trás, os ombros movem-se para a frente e para cima, o meio do abdômen se encolhe, a pélvis move-se para a frente e as pernas separam-se espontaneamente. A expiração profunda produz a atitude de rendição (sexual). [...] Uma abertura frouxa da boca parece contribuir para o estabelecimento da atitude de rendição. (REICH, 1984, p. 278-279). Sobre a natureza do ser humano, os budistas dizem que “[...] nossa essência última ou natureza de Buda é pura, sagrada e inerentemente boa. A única razão de os seres humanos parecerem o contrário disto é que a experiência desta essência última tem sido bloqueada, detida como água dentro de uma represa.” (GUNARATANA, 2005, p. 160). Com a prática da meditação, as barreiras e impedimentos se extinguem, são eliminados, as paredes do ego vão sendo quebradas, assim como a defensividade e a rigidez se afrouxam, diminuem, e a pessoa se torna aberta e flexível, compartilhando sua bondade amorosa. (GUNARATANA, 2005). Uma forma de trabalhar estas barreiras e desfazer bloqueios é levar a prática da atenção plena para as experiências da vida diária, como a meditação em movimento, em que a atenção plena está, ao mesmo tempo no momento presente, na respiração e no movimento do corpo. Pode-se meditar ao realizar atividades no 57 dia-a-dia, ao fazer um exercício físico ou uma caminhada, percebendo as sensações dos movimentos do corpo, sentindo as tensões, os pés, as pernas, a respiração, o ar, o sol, o vento, a natureza, as emoções e pensamentos que acompanham este caminhar e, assim, conectarmos conosco mesmos e com a totalidade. Movimentamo-nos num ritmo que pode ser harmônico ou não. A desarmonia se dá devido às estagnações ou bloqueios em cada um dos sete níveis. Navarro (1995b) fala sobre os bloqueios que alteram a percepção da realidade, relacionados ao primeiro nível – olhos, ouvidos e nariz – os quais, no nascimento, deveriam ser imediatamente integrados num funcionalismo unitário e harmônico, pois, do contrário, o indivíduo perde contato com a realidade e sua percepção fica alterada, visto que os telerreceptores colocam o ser humano em contato com a realidade, e interferem na capacidade de aceita-la ou de suportá-la. Os olhos bloqueados são aqueles que olham, mas não veem, ou evitam o contato com o olhar. A Vegetoterapia utiliza-se de um acting que provoca o abaixamento do diafragma e isto faz com que a energia se movimente para baixo, para o abdômen. Este acting é proposto em casos de bloqueio no primeiro nível (olhos, ouvidos e nariz) e está relacionado aos quadros de depressão. Sua prática “[...] consiste em fazer o ar entrar e sair pelo nariz mostrando os dentes ao mesmo tempo, como um felino, o que corresponde à expressão da agressividade.” (NAVARRO, 1995a, p. 49). A meditação possibilita o desbloqueio e a transmutação desse olhar, e assim, tirar o indivíduo de suas ilusões e fantasias sobre sua realidade interna e sua vida, o coloca em contato com a verdade. A meditação traz também uma consciência corporal, e uma compreensão das sensações e sentimentos; consciência e insights virão, brotarão em cascatas de clareza e sabedoria, com respostas e compreensões que surgem diante desses olhos. Para Gunaratana (2005), os insights resultantes da meditação nos tiram da visão superficial dos nossos olhos e nos colocam diante da possibilidade de “ver” as coisas como elas são em si mesmas, com sabedoria e profundidade. Ver com sabedoria significa ver as coisas na complexa estrutura corpo-mente, onde se percebe as sensações da inspiração e da expiração, mas também se percebe os sons, os cheiros, os pensamentos, as recordações, as memórias, preconceitos ou parcialidades, cobiças, raiva, desilusões, nossos desejos, opiniões, nosso ego, self, estados de consciência. Sem um ponto de referência fixo, a pessoa se perderá nas incessantes ondas de mudanças que fluem e circulam dentro da mente e do corpo, e 58 a respiração é então o foco, o ponto de referência vital, a partir do qual a mente divaga e é trazida de volta a partir da percepção e sensação do corpo. Esta prática de “ver as coisas como elas são”, de focalizar a atenção total na respiração para chegar ao insight e à sabedoria, o processo de autodescoberta e a investigação pessoal, esta forma especial de ver a vida, de ver a realidade e as próprias experiências com clareza e precisão nos “[...] abre os olhos para uma nova visão da realidade e uma nova visão do aspecto mais central da realidade, o nosso ‘eu’”. (GUNARATANA, 2005, p. 40 e 47). Seção 3.2: Considerações As práticas corporais da Bioenergética, da Vegetoterapia e da Meditação integram-se num encontro harmônico de preceitos, ideias e fundamentação, e seus movimentos estão direcionados ao mesmo objetivo de proporcionar saúde e bem estar através de uma boa respiração, de um corpo livre em sua motilidade e mobilidade, de uma circulação fluida e liberada de energia, de uma percepção mais consciente de si mesmo, de seu corpo, de sua psique e suas emoções. O ritmo da vida está no pulsar da energia e da respiração – o ritmo tensão-relaxamento, contração-expansão, inspiração-expiração, integrados à totalidade da vida. 59 Referências Abreu CN, Valle LG, Roso MC. Terapia cognitiva construtivista. Rev Psiquiatr Clín (São Paulo). 2001; 28: 356-60. American Psychological Association (APA). Stress in America. Washington (D.C): APA; 2010. Andreassi JL. Psychophysiology. Human behavior & Physiological response. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates; 2000. 565p. Astin JA, Shapiro SL, Eisenberg DM, Forys KL. Mind-body medicine: state of the science, implications for practice. J Am Board Fam Pract. 2003; 16:131-47. Bacon M, Poppen R. A behavioral analysis of diaphragmatic breathing and its effects on peripheral temperature. J Behav Ther Exp Psychiatry. 1985;16:15-21. Bandura A. Social Learning Theory. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1977. Barbosa JIC, Borba A. 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Em relação aos modelos/ referenciais teóricos podem-se destacar as teorias psicanalíticas/ psicodinâmicas (e seus principais representantes Sigmund Freud, Melaine Klein, Wilfred Bion, Carl Jung, Donald Winnicott, entre outros), comportamentais (Burrhus Skinner), cognitivas (Aron Beck), existenciais-humanistas (Carl Rogers), psicodramáticas (Jacob Levy Moreno), sistêmicas (Salvador Minuchin), construtivistas (Robert Neimeyer), narrativas (Sluzki) e do construcionismo social (Knneth Gergen). 6 Em relação às especificidades técnicas, as principais diferenças se relacionam aos objetivos e recursos utilizados (interpretação, exposição, psicoeducação), frequência das sessões e tempo de duração do tratamento, setting (grupal, familiar, individual), treinamento exigido aos terapeutas, prérequisitos dos pacientes, alcances e resultados a serem atingidos. Considerando-se os objetivos deste artigo, destacar-se-ão as psicoterapias psicanalíticas/psicodinâmicas, as cognitivo-comportamentais e as psicoterapias de grupo, detalhando-as em termos de seus aspectos teóricos, técnicos e indicações. Seção 1.3: Psicoterapias: psicanalíticas/psicodinâmicas O termo psicodinâmica é empregado geralmente como uma forma de compreensão dos fenômenos mentais que tem sua origem nos conhecimentos psicanalíticos. Neste sentido, pode-se fazer uma compreensão psicodinâmica dos casos clínicos a serem estudados, pode-se pensar em uma psiquiatria psicodinâmica, ou ainda, em uma interpretação de testes psicológicos sobre a luz do referencial teórico psicodinâmico. Mas quais seriam, entretanto, os pressupostos centrais que norteiam a psicodinâmica? Para responder a esta questão, apresentar-se-á os conceitos teóricos fundamentais. Seção 1.4: Conceitos teóricos básicos em psicodinâmica A psicanálise tem como marco para seu início o trabalho de Freud intitulado ‘A interpretação dos Sonhos’, considerada, por ele mesmo, sua obra mais importante. Para Freud, os sonhos seriam a forma através da qual se teria acesso à dimensão inconsciente da vida psíquica, sendo eles uma expressão dos desejos mais íntimos do indivíduo e dos mecanismos de censura que operam para mascarar tais desejos, conhecidos como repressão. Embora o conceito de inconsciente se amplie ao longo da evolução da teoria psicanalítica, o inconsciente freudiano já surge como um ‘lugar’ de grande influência sobre o Homem e a partir de ‘onde’ as ações, escolhas e formas de compreensão do mundo são estabelecidas. O conteúdo deste sistema está ligado, fundamentalmente, às pulsões (representantes mentais da vida instintual) e às primeiras experiências sexuais infantis. Segundo Mabilde, Freud estabelece que “o inconsciente, como sistema, funciona de acordo com leis especiais, que estão desprovidas da lógica da noção de 7 tempo, espaço e causalidade, formando o que se denomina processos primários do psíquico” (p.65). O primeiro modelo de mente exclusivamente psicanalítico, conhecido como primeira tópica, estabeleceu que a vida mental estava dividida entre os sistemas consciente, pré-consciente (local onde o ato psíquico ainda não é consciente, mas pode se tornar) e inconsciente. Como explica Laplanche, os conteúdos reprimidos inconscientes procuram retornar ao sistema consciente e préconsciente, porém apenas a partir das deformações causadas pela censura tais conteúdos tem acesso a estes sistemas. Em 1914, na obra ‘Recordar, repetir e elaborar’, Freud estabeleceu que os conteúdos reprimidos, ainda que não fossem lembrados pela memória, seriam ‘lembrados’ no comportamento (atuações, sintomas), de modo que seriam sempre repetidos com a finalidade de serem elaborados. Neste sentido, esta repetição seria a responsável pelo estabelecimento da transferência (reedição com o terapeuta de relações significativas do passado), em uma tentativa de se reviver o que precisa ser elaborado e, ao mesmo tempo, uma forma de resistência, por favorecer a continuidade dos atos comportamentais atuados. Ao longo de suas experiências clínicas e das produções científicas desenvolvidas entre os anos de 1900 e 1923, Freud passou a conjecturar uma nova divisão do aparelho psíquico, complementar à primeira, porém mais ‘dinâmica’ e que pudesse abarcar a complexidade do funcionamento mental. Em 1923, introduz a divisão do aparelho psíquico em três instâncias: Ego, Superego e Id, conhecida como ‘Segunda Tópica’. Em ‘O Eu e o Id’, Freud define as três instâncias que compõem o aparelho psíquico, estabelecendo que o Id é a parte pulsional/instintual (com conteúdos de natureza libidinal e agressiva, por exemplo) e a mais primitiva da mente, a partir da qual, uma porção se diferenciará pela influência do mundo externo e que será denominada Ego. Ao Ego são atribuídas as funções de percepção, atenção, motilidade, memória e pensamento, sendo esta instância reguladora da vida psíquica que sofre influência e é influenciado pelo Id. Já o Superego, classicamente é definido como uma instância com funções normativas, a partir do qual, os limites e regras são estabelecidos internamente. Numa perspectiva freudiana, é o interjogo entre estas instâncias, que vai determinar o funcionamento mental em um indivíduo: a luta entre o Id e o mundo externo, resultaria em uma estrutura de personalidade psicótica, cuja vida instintual 8 do Id se impõe diante da realidade comprometendo a capacidade de adaptação deste indivíduo que passa a recriar a realidade por meio dos delírios e alucinações. A neurose, por sua vez, seria o resultado dos conflitos entre o Id e o Ego, a partir do qual um impulso instintual poderoso é impedido de ser descarregado pelo Ego e pelas forças repressivas (Superego), surgindo, então, os sintomas neuróticos (p.ex. fobias, pensamentos obsessivos) como formações de compromisso. Hoje, entendem-se tais formações como características do funcionamento mental de todos os indivíduos e, neste sentido, os próprios traços de caráter são representantes destes compromissos que tem nos sintomas neuróticos sua variante patológica. Na atualidade, com o desenvolvimento do pensamento psicanalítico, observa- se uma ampliação da compreensão de neurose e psicose. Bion (1897-1979), um dos maiores representantes do pensamento psicanalítico atual, estabeleceu a ideia de uma ‘parte psicótica da personalidade’, a partir da qual, todos os indivíduos conservam em sua mente uma fração mais regredida em que predomina um funcionamento mais primitivo caracterizado por um baixo limiar de tolerância à frustração, ódio às verdades e predomínio de pulsões agressivas e destrutivas. Dentre os conceitos centrais da teoria psicanalítica, os mecanismos de defesa têm grande destaque. Alguns impulsos instintivos não podem ser manifestados, pois sua satisfação também traria problemas adaptativos para o Ego; como forma de se opor a estas forças surge a repressão. Os mecanismos defensivos estão a favor da repressão, ajudando o Ego a se proteger das exigências instintuais do Id. Segundo Gabbard, “todos nós temos mecanismos de defesa, e as defesas que utilizamos revelam muito a nosso respeito” (p.37). A compreensão destes mecanismos é de grande importância para a prática clínica, orientando o raciocínio diagnóstico psicodinâmico e o planejamento terapêutico. Os mecanismos defensivos podem ser organizados de acordo com uma hierarquia que vai das mais primitivas como a negação (de aspectos difíceis da realidade) e a somatização (conversão da dor emocional em sintomas físicos), até as mais maduras como o humor (encontrar elementos cômicos em situações difíceis) e a sublimação (dar um destino socialmente aceitável a afetos inaceitáveis/desadaptados). O modelo freudiano de mente tem sido transformado/reformulado/ampliado ao longo dos anos dePractice of Behavior Therapy. England: Pergamon Press Limited; 1973 World Health Organization (WHO). World Health Statistics Annual 1993, Geneva: WHO; 1994:D114-17. Yan Q, Sun Y, Lin J. [A quantitative study on the effect of breathing exercises in improving respiratory muscle contraction.] Zhonghua Nei Ke Za Zhi. 1996; 35: 235-8. 67 Young JE, Klosko JS, Weishaar ME. Terapia do Esquema: Guia de técnicas cognitivo- comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed; 2008. Zanelli JC. Estresse nas organizações de trabalho. Compreensão e intervenção baseadas em evidências. Porto Alegre: Artmed; 2010. 128p. Zimerman DE. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica- uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed; 1999. Zimerman DE. Manual de técnica psicanalítica: uma revisão. Porto Alegre: Artmed; 2004.desenvolvimento da teoria, culminando no surgimento de várias ‘escolas psicanalíticas’, dentre as quais se destacam Melanie Klein (1882-1960) e 9 Wilfred Bion (1897-1979). A partir das contribuições de Melanie Klein, a psicanálise com crianças alcançou grandes avanços, com o estabelecimento do brinquedo e dos jogos como instrumento de grande importância para o trabalho psicanalítico. Klein ainda reformulou e ampliou vários conceitos psicanalíticos freudianos, sendo que sua influência se reflete nos trabalhos de vários autores posteriores. Ao contrário de Freud, que não acreditava na possibilidade do trabalho psicanalítico com pacientes psicóticos, Bion destinou-se a investigar a vida mental destes pacientes com importantes achados que norteiam o pensamento clínico psicanalítico atual. Além disso, Bion também se preocupou com a função analítica, estabelecendo conceitos e vértices que promovem uma maior compreensão do funcionamento do par analítico paciente-analista, fundamentando parâmetros novos para o desenvolvimento da própria função psicanalítica. Seção 1.5: Conceitos técnicos básicos em psicodinâmica A técnica psicanalítica foi desenvolvida (e está em constante desenvolvimento) com a finalidade de permitir o acesso ao inconsciente do paciente. Para facilitar este processo, estabeleceu-se como regra fundamental da psicanálise, a associação livre, a partir da qual o paciente deve relatar espontaneamente tudo o que lhe vem à mente durante a sessão, independente do paciente as julgar relevantes ou não. Este aspecto se manifesta tanto nas verbalizações (escolhas das palavras), como na forma de se expressar e desenvolver o pensamento, de maneira que o discurso livre permite que o terapeuta se aproxime dos conteúdos latentes da dimensão inconsciente da mente. A transferência é um dos pontos centrais na técnica psicanalítica, representando o ambiente a partir do qual se dá a problemática de um tratamento psicanalítico. Ao reencenar através da relação com o psicoterapeuta suas formas de relação mais primordiais (com pais, irmãos, figuras importantes do passado), cria-se uma condição para o surgimento de fantasias, desejos e impulsos afetivos que estavam imersos no inconsciente e que devem ser compreendidos, por representarem o mundo interno do paciente, a forma como viveu suas relações e como as vive até o presente. A contratransferência pode ser definida como um “conjunto das reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste” (p.102). Hoje a contratransferência também é entendida com um 10 importante canal de comunicação primitiva entre as mentes do paciente e do terapeuta, podendo ser um poderoso instrumento a favor da empatia. Tanto a transferência como a contratransferência são conceitos que vem sendo ampliados até o presente e que vão ganhar diferenças a partir de cada escola psicanalítica, entretanto, ambos os fenômenos se mostram presentes nas relações humanas e devem ser observados, principalmente nas relações de cuidado. A terminologia ‘Atividade interpretativa’, preferida por Zimerman em seu trabalho ‘Manual de Técnica psicanalítica: uma re-visão’ oferece um parâmetro importante para se entender a complexidade desta função dentro da relação psicanalítica. Nas palavras do mesmo autor: “mais do que uma decodificação do conflito pulsional (...) a interpretação consiste na construção de novos sentidos, significados e na nomeação das velhas, bem como das novas, e difíceis experiências emocionais” (p.179). Segundo Gabbard, é a partir da interpretação que se pode (re) estabelecer uma maior conexão entre um pensamento, um comportamento e/ou um sintoma com o seu sentido inconsciente. Segundo Zimerman, o setting relaciona-se às regras que permeiam o contato psicoterapêutico e, neste sentido, abrange questões que vão desde a quantidade de sessões semanais, horários e honorários até o uso ou não do divã ou da posição frente a frente entre outros acordos que procuram normatizar o processo psicoterapêutico. O mesmo autor ainda pontua que o setting, por si só, já constitui um importante fator terapêutico por possibilitar o surgimento de um espaço de projeção dos aspectos inconscientes do paciente e onde o terapeuta pode, entre outros fatores, estabelecer a realidade exterior por meio das regras acordadas. Todos estes aspectos técnicos são comuns aos diferentes tipos de psicoterapia psicodinâmica, num continuum que vai da psicoterapia de apoio à expressiva. Embora as questões teóricas e técnicas tratadas até o momento tenham como enfoque o contato psicoterápico individual, cabe ressaltar que estes mesmo fatores estão presentes em outras modalidades como, por exemplo, as terapias de grupo. Seção 1.6: Tipos de psicoterapias psicodinâmicas Dentro do extenso grupo de técnicas psicoterápicas que trabalham com o referencial psicodinâmico, observa-se um amplo espectro que vai desde o apoio/orientação até as terapias expressivas, voltadas para o insight, as quais 11 pressupõem elaboração e mesmo uma reestruturação da personalidade. A Figura 1 destaca os principais recursos técnicos, considerando as modalidades de intervenção neste continuum. As categorias de intervenções ilustradas na Figura 1, representam estratégias a partir das quais o trabalho psicoterápico se desenvolverá, considerando que quanto mais uma modalidade psicoterápica psicodinâmica se localiza próxima do pólo expressivo, menos reasseguramentos são feitos e mais se trabalhará com a confrontação e com as interpretações. Figura 1: Principais recursos técnicos utilizados nas psicoterapias, considerando-se as modalidades de intervenção (adaptado de Cordioli et al22) O termo psicanálise define tanto o arcabouço teórico a partir do qual se desenvolveram as psicoterapias psicodinâmicas (apresentadas a seguir), como uma modalidade terapêutica específica localizada no extremo pólo da direita como a representante máxima das intervenções expressivas: a análise psicanalítica. A seguir, serão discutidos os tipos de psicoterapia psicodinâmica que se destacam a partir dos extremos deste continuum apoio-expressivo. Cabe destacar que, conforme ressaltado por Gabbard, estes extremos são intercambiantes durante o processo psicoterapêutico de alguns tipos de pacientes, havendo possibilidades de num determinado momento, um paciente que, por exemplo, iniciou a terapia de apoio viver um momento de maior insight e vise versa. Segundo Fiorini, a psicoterapia de apoio busca reduzir ansiedades em momentos de crise, descompensação e atenuar ou mesmo suprimir sintomas. Neste sentido, conforme o mesmo autor, o terapeuta tem uma posição mais ativa dentro do setting, adotando uma postura mais diretiva e tranquilizadora e visando não estimular 12 o estabelecimento de vínculos transferenciais profundos que possam dificultar o diálogo entre terapeuta e paciente. A terapia é focada nos aspectos conscientes e centrada nas dificuldades práticas. A postura mais ativa do terapeuta também é manifestada a partir da posição frente a frente assumida pelo paciente e uma frequência menor de sessões, podendo ser semanais, quinzenais, ou mesmo mensais, além da limitação temporal fixada desde o início - geralmente por algumas semanas e eventualmente se estendendo por anos. Para ilustrar este modelo de intervenção, apresentar-se-á uma pequena vinheta clínica: Raquel é uma moça solteira, de 25 anos, universitária, que recebeu um diagnóstico de neoplasia de mama. Apesar de contar com o apoio familiar, Raquel ficou muito angustiada diante da notícia, reagindo de forma enérgica contra a indicação cirúrgica e/ou qualquer possibilidade de tratamento quimioterápico. Parou de frequentar as aulas da faculdade, referindo não ver mais razão em estudar ou buscar uma carreira, terminou seu relacionamento amoroso de trêsanos e passou a ser mais agressiva com os familiares e os profissionais de saúde que a assistiam, não aceitando conversar com ninguém sobre suas decisões. Os pais de Raquel, preocupados com a reação da filha, buscaram ajuda por meio da psicoterapia de apoio. Embora contrariada, Raquel aceitou realizar sessões semanais durante dois meses, a partir dos quais ela pode entrar em contato com suas fantasias a respeito da doença, analisar com maior clareza suas reais possibilidades de tratamento e restabelecer seu funcionamento prévio. Nesta intervenção psicoterápica, houve predomínio de recursos técnicos como o reasseguramento de suas possibilidades reais de tratamento, orientação, conselho e validação empática de seu sofrimento, como forma de acolher suas dificuldades e ampliar seus recursos de enfretamento da realidade. Assim como na análise psicanalítica, na psicoterapia de orientação psicanalítica, objetiva-se o insight, através do qual o paciente terá a possibilidade de elaborar conflitos inconscientes, contudo, na psicoterapia de orientação psicanalítica, buscase um foco (associado a uma fonte de sofrimento e motivação para mudança), a partir do qual o trabalho interpretativo se aterá. Nesta modalidade de psicoterapia, o setting também apresenta algumas características próximas à da psicoterapia de apoio, como a posição frente a frente do paciente em relação ao terapeuta. Entretanto, utiliza-se um número maior de sessões (uma a três sessões semanais) e o acompanhamento pode perdurar por meses ou mesmo anos. 13 Outro instrumento importante da psicoterapia de orientação psicanalítica é o uso da transferência, que embora seja explorada em um grau diferente de profundidade do que na análise psicanalítica, é a partir deste vértice que as interpretações se orientam para o foco eleito no trabalho psicoterapêutico. Como exemplo desta modalidade de acompanhamento apresenta-se a seguinte vinheta clínica: Marília (nome fictício) era uma senhora casada de 53 anos, com três filhos adultos e que trabalhava com serviços de estética. Nos últimos anos, passou a se sentir angustiada, ter problemas para dormir durante a noite (o que a fazia ingerir álcool com alguma frequência na semana, antes de adormecer), relatava sentir uma ‘tristezinha’ (sic) que não conseguia entender de onde vinha e em alguns momentos apresentava ‘crises de nervoso’ (sic) em que tinha seus membros superiores paralisados. Após procurar ajuda psiquiátrica e realizar alguns exames clínicos, descartou-se a presença de um quadro orgânico e a paciente recebeu o diagnóstico de transtorno conversivo, sendo medicada e encaminhada a procurar ajuda psicoterápica. Iniciou acompanhamento duas vezes por semana em psicoterapia de orientação psicanalítica. Por sempre ser muito independente e prática, passava por várias situações em que precisava resolver os problemas cotidianos de seus familiares, os quais sempre recorriam a ela em momentos de apuro. Marília, por sua vez, sempre se mostrava disponível, desmarcando compromissos pessoais para socorrer a quem precisasse, emprestando dinheiro ou fazendo empréstimos em banco para seus filhos. Nas sessões, Marília sempre se mostrava muito desejosa da companhia da psicoterapeuta, alegava que ninguém em sua família a valorizava e que todos estavam sempre ‘sugando suas energias’ (sic). Com o desenvolvimento da psicoterapia, foi sendo possível observar as formas de se relacionar de Marília, a qual sempre se mostrava em suas relações como aquela que tudo resolve e que não encorajava seus filhos a buscar alternativas independentes (de maneira que estes viviam na dependência dela, mesmo a filha casada). Em uma sessão, especificamente, Marília chega dizendo à psicoterapeuta que gostaria de lhe dar um presente, mas não sabia o que. A psicoterapeuta fica incomodada com o desejo de Marília e a questiona sobre esta ‘necessidade’. Marília diz que gosta de agradar as pessoas, que assim será lembrada por sua psicoterapeuta e em seguida, começa a falar de seus filhos e de seu marido, ‘sugadores de energia’. Refere que sempre tem que deixar seus planos pessoais para depois porque tem que agradar alguém de sua 14 família. A psicoterapeuta, então, lembrando-se do presente que a paciente pretendia dar a ela, pergunta a Marília se ela sente que precisaria sempre se sacrificar por seus familiares e que caso contrário eles não gostariam/se lembrariam dela (assim como, no passado, quando foi abandonada por sua mãe e criada por outra família; neste contexto, sentia que tinha que fazer tudo o que a família desejasse para se sentir parte dela). Ao logo do processo psicoterapêutico, foi possível para Marília apropriar-se de sua forma de se relacionar, observando melhor as fantasias inconscientes despertadas por estas relações e o lugar que ocupa nestas, em sua vida. Nesta modalidade psicoterápica, embora se tenha feito uso de técnicas como a validação empática, houve predomínio de recursos como o encorajamento para elaboração, a clarificação e a interpretação. A análise picanalítica, principal representante do extremo ‘expressivo’, enquanto modalidade terapêutica, diferencia-se entre as modalidades psicodinâmicas, sobretudo do ponto de vista da técnica, a começar pela não exigência de um eixo inicial/foco, a partir do qual o trabalho psicoterapêutico deva se concentrar, pela utilização do divã como forma de estimular uma maior regressão para níveis inconscientes das associações do paciente e por promover o estabelecimento de relações transferências mais profundas. A projeção de conteúdos inconscientes, facilitada pelo setting psicanalítico, traz um maior conhecimento da realidade interna do paciente e favorece a sua mudança psíquica. Segundo Eizirik e Hauck, na análise psicanalítica há um uso de mais sessões semanais (de três a cinco vezes) e predomínio das interpretações transferenciais, a partir dos quais se pretende uma “elaboração do conflito primário” (p.159). Este último pode ser entendido como as primeiras experiências fundamentais de vida de um indivíduo (figuras parentais ou substitutos destes) e que determinam seus padrões de relacionamentos, a capacidade de lidar com sentimentos, suas fantasias e formas de interpretar o mundo. Como forma de se ilustrar esta modalidade de psicoterapia, apresentar-se-á uma nova vinheta clínica, de um paciente com diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista: Carlos (nome fictício), 43 anos, solteiro, muito inteligente (o que o fez ocupar um cargo de destaque no universo empresarial) sempre se mostrou impulsivo, autoritário e competitivo. Demonstrava muitas dificuldades de se relacionar com outras pessoas, tanto socialmente quanto de forma íntima. Não conseguia manter amigos, pois sempre rompia a relação diante do pensamento de que ‘as pessoas só 15 querem se aproveitar umas das outras’ (sic), interpretando qualquer pensamento diferente do seu como suficiente para interromper o vínculo. Teve várias namoradas, pois é um homem de aparência atraente e discurso sedutor, porém não conseguiu manter nenhum relacionamento duradouro, já que sempre que percebia a companheira de forma realista (menos idealizada), a relação chegava ao fim. Uma dessas namoradas teve maior importância para ele, dado que, de forma honesta, tinha o hábito de lhe dizer o que gostava e o que não gostava em seu comportamento. Diante destes apontamentos, Carlos tinha uma postura surpreendente, fazendo reflexões sobre o que ela dizia e tentando mudar. Carlos tem vários interesses dispendiosos, troca de carro pelo menos duas vezes ao ano, mantém um guarda- roupa caro e custeia festas para seus colegas de trabalho, regadas a muitas bebidas e mulheres. Após vários anos em que se percebeu sozinho, ‘sem poder confiar em ninguém’ (sic), Carlos resolve procurar um vínculo analítico, na esperança de poder contar com‘o silêncio e a discrição de alguém mediante pagamento’ (sic). Assim inicia as sessões de psicanálise, pois se percebe sempre muito insatisfeito, irritado e com frequência entristecido, (embora ele não nomeie como tristeza, prefere o termo ‘incomodado’), que o faz ter dificuldades para adormecer e se sentir indisponível para atividades que antes lhe davam prazer como trabalhar, ir a festas e fazer viagens. A análise possibilitou que Carlos entrasse em contato consigo mesmo e com seu modo de funcionar diante do mundo, tornando aspectos de seu funcionamento que são disfuncionais, porém harmônicos a sua personalidade, menos automáticos e mais passíveis de sofrer a influência do pensar analítico. Em análise psicanalítica, a confrontação e o trabalho interpretativo ganham destaque, visando um maior conhecimento de ‘quem se é’ e ampliar o ‘alcance’ da elaboração psíquica. As mudanças em níveis mais profundos, que envolvem a estrutura de personalidade do indivíduo, tendem a se instaurar de forma mais consistente, possibilitando mudanças de hábitos e de formas de se escolher na vida. Seção 1.7: Indicações para as modalidades psicoterápicas psicodinâmicas Para todos os tipos de psicoterapia é necessário que haja motivação e capacidade de estabelecer um bom vínculo terapêutico. Na Tabela 1, destacam-se as 16 principais indicações e contra-indicações de cada modalidade psicoterápica psicodinâmica, considerando suas especificidades e características técnicas. Tabela 1: Indicações e contra-indicações das modalidades psicoterápicas. (*) Adaptado de Cordioli; (**) Adaptado de Keidann e Zot. Seção 1.8: Terapia cognitivo-comportamental (TCC) Conceitos teóricos em TCC Ao longo dos tempos a TCC vem evoluindo em seus modelos conceituais e teóricos na tentativa de aprimorar o entendimento do funcionamento psicológico humano e aumentar a eficácia dos tratamentos oferecidos. Nos últimos anos, convencionou-se dividir a história das terapias de base cognitiva e comportamental em três períodos - a depender da fundamentação das intervenções emergentes e prevalentes no momento -, que são referidos como “ondas”. A ‘primeira onda’ é caracterizada por uma confluência de diversas modalidades terapêuticas comportamentais, que compartilhavam os objetivos de eliminar comportamentos e emoções inadequadas, baseadas nos princípios experimentais, que existiam antes da revolução cognitiva dos anos 1960. Com o advento dos modelos cognitivos, no final da década de 1950 e início de 1960, principalmente com as teorias de Aaron Beck e Albert Ellis, surge a ‘segunda onda’, com um novo paradigma cognitivo e novas formas de intervenção clínica que hoje são chamadas especificamente de TCCs. Assim, as atuais TCCs caracterizam-se pelo conjunto de abordagens teóricas e intervenções clínicas embasadas na lógica comum do modelo cognitivo. A ‘terceira onda’ retoma a visão externalista da primeira onda, mantendo o foco na cognição, trazido pelas TCCs, mas passando de seu conteúdo para seu contexto, voltando-se para a compreensão 17 e aceitação das sensações e sentimentos, integrando, para isso, técnicas de diferentes abordagens. É importante destacar que esta é a história da constituição das ondas norte- americana, frequentemente encontrada nas publicações nacionais e internacionais. No Brasil, temos uma “cronologia invertida”, pois enquanto nos EUA foi necessária a chegada da terceira onda para a popularização das terapias com foco externalista, no Brasil, as terapias deste tipo, representadas pela Terapia Analítico-Comportamental, entre outras, já estavam estabelecidas desde a primeira onda brasileira, por volta dos anos de 1970. Além disso, vale lembrar a inexistência de superioridade das ondas mais recentes em relação às mais antigas, estando a divisão nestes três momentos mais relacionada a uma organização didática e histórica das ideias. A primeira onda: terapia comportamental O termo Terapia Comportamental foi introduzido por pelos menos três diferentes grupos de pesquisadores: 1) Lindsley, Skinner e Solomon, nos Estados Unidos, utilizaram-no pela primeira vez em 1953, para se referir à intervenção baseada no condicionamento operante, realizada com pacientes psicóticos hospitalizados, a fim de reduzir suas alucinações; 2) Eysenck, na Inglaterra, em 1959, apresentou uma nova modalidade de terapia, caracterizada pela aplicação das teorias da aprendizagem para tratamento dos transtornos psicológicos, por meio da utilização do condicionamento operante e do clássico e da modelação; e 3) Lazarus, que em 1958, patenteou o termo para se referir à incorporação de procedimentos objetivos de laboratório à psicoterapia, considerando a terapia comportamental como uma parte dos procedimentos característicos de sua proposta de intervenção denominada Terapia Multimodal. Apesar desta diversidade de intervenções abarcadas pelo termo Terapia Comportamental durante a primeira onda, é possível encontrar algumas características compartilhadas por estas propostas. Seu principal objetivo era a eliminação das respostas indesejadas e das reações emocionais avaliadas como inadequadas por meio de técnicas. Além disso, este grupo de terapias era caracterizado por um rigor experimental que, segundo alguns autores, limitou o estudo de questões humanas menos objetivas, que foram relegadas para tradições menos empíricas. 18 O modelo comportamental tem uma de suas origens no final do século XIX, com os trabalhos de Pavlov que, ao estudar a digestão em cães, descreveu o processo mais tarde chamado de Condicionamento Pavloviano, Clássico ou Respondente. O condicionamento respondente é o processo por meio do qual um estímulo anteriormente neutro para uma determinada resposta reflexa, após diversas apresentações emparelhadas com um estímulo incondicionado para esta resposta, passa a eliciar uma resposta topograficamente semelhante a ela. Este processo de aprendizagem tem um importante valor de sobrevivência para os indivíduos, mas se refere apenas a uma parte pequena do repertório comportamental humano já que, por meio do condicionamento respondente não são aprendidas novas respostas, apenas novas relações entre estímulos novos e respostas pré-existentes. Outros trabalhos como os de Watson e Mary Cover Jones, Skinner, entre outros, foram necessários para que o desenvolvimento das intervenções que mais tarde vieram a ser chamadas de Terapia Comportamental se constituíssem como uma modalidade de tratamento psicológico. Os trabalhos de Watson deram origem ao chamado Behaviorismo Metodológico, que surge como oposição às propostas mentalistas, e se propõe a estudar o comportamento observável por meio do método científico experimental, a fim de prevê-lo e controla-lo. A introspecção, enquanto método para acessar a subjetividade, é abandonada, e os aspectos subjetivos deixam de fazer parte da ciência, já que esta ainda não possui métodos confiáveis para acessa-la. O Behaviorismo de Watson não deixava de ser dualista, apenas propunha que os aspectos internos fossem deixados de lado até que a ciência pudesse acessalos de forma eficiente. Os Neobehaviorismos Mediacionais, como o Behaviorismo Intencional de Tolman e o de Hull, também tiveram papel importante nos fundamentos das Terapias Comportamentais. Muitas das técnicas respondentes utilizadas por importantes terapeutas da primeira onda tem origem não só nas ideias de Pavlov e Watson, mas também destes neobehavioristas. Exemplos são a dessensibilização sistemática, a exposição imaginária/ao vivo e a exposição com prevenção de respostas. Já a proposta de Skinner, chamada de Behaviorismo Radical, traz dentre suas inovações o monismo materialista e a ideia da construção social do mundo subjetivo. Diferentemente de Watson, adota uma modelo causal de seleção por consequências, ao invés de um modelo mecanicista,e afirma que a maior parte do repertório comportamental humano é do tipo operante e não respondente. 19 A noção de operante foi uma de suas maiores contribuições para os modelos comportamentais. O conceito de comportamento operante refere-se à ideia de que aquilo que um organismo faz, ou seja, seu comportamento, tem um efeito no mundo ao seu redor e este efeito retroage sobre o organismo, podendo alterar a probabilidade do comportamento ocorrer novamente. As consequências reforçadoras são aquelas que, quando seguem uma resposta, aumentam sua probabilidade futura de ocorrência. As consequências punidoras são aquelas que tem como efeito imediato a supressão da resposta, além de seus efeitos colaterais. Segundo Skinner, é o comportamento do tipo operante que dá origem à maioria dos problemas humanos. Um exemplo típico, no contexto da terapia, é a chamada birra infantil. Este é um comportamento operante que, quando seguido de consequências reforçadoras, como atenção frequentemente é, aumenta de frequência. Outro exemplo são as respostas de esquiva fóbica, em que o paciente consegue alívio dos sintomas de ansiedade evitando a situação fóbica (por exemplo, lugares fechados e aglomerados). A extinção é um outro conceito apresentado por Skinner que consiste na suspensão do reforço produzido pela resposta emitida, ou na quebra da relação de contingência entre resposta e consequência, levando ao retorno da frequência da resposta a seus níveis operantes. Este conceito é bastante utilizado na clínica comportamental na redução de comportamentos indesejados. Retomando-se o exemplo da birra infantil, esta resposta pode ser colocada em extinção, por meio da retirada da consequência reforçadora (atenção como no exemplo) após a ocorrência da resposta de birra. Além da diminuição na frequência da resposta, este procedimento leva a reações emocionais intensas, o que, mais recentemente em levado os clínicos a utilizala em conjunto com o reforçamento diferencial de outras respostas consideradas adequadas. No início de 1970 houve um grande questionamento das práticas comportamentais, uma vez que eram consideradas demasiadamente rígidas. Tal situação culminou na tentativa de acrescentar componentes cognitivos às técnicas existentes, o que facilitou o surgimento das abordagens cognitivas. Neste movimento, vale ressaltar o trabalho de Albert Bandura (1925). Seus estudos sobre aprendizagem social enfatizam a modificação do comportamento do indivíduo através da interação e observação de outros indivíduos. Para ele, a aprendizagem pode ocorrer por meio da exposição do indivíduo a contingências sociais (relação de dependência entre 20 variáveis do organismo e do ambiente social), mas também, sem que o indivíduo tenha sido diretamente exposto às situações, ou seja, indiretamente, por meio da observação das contingências às quais outros indivíduos foram expostos. Segundo ele, a maior parte do comportamento humano seria aprendido pela observação de outros, em processo chamado modelação. Após Bandura houve um avanço nas pesquisas que acrescentam os processos cognitivos aos modelos comportamentais, o que contribuiu para o surgimento da abordagem cognitivo-comportamental. A segunda onda: o modelo cognitivo A segunda onda das TCCs surgiu com o modelo cognitivo. O modelo cognitivo propõe que os transtornos psicológicos são derivados de um modo distorcido/disfuncional de perceber a si mesmo, os outros/o mundo e o futuro (denominada tríade cognitiva). Neste sentido, estas distorções de pensamento influenciam e são afetadas pelas emoções e pelo comportamento. É possível dividir as abordagens da segunda onda em Racionalistas e Construtivistas. As abordagens Racionalistas pressupõem a primazia do pensamento sobre a emoção. Sendo assim, a atividade cognitiva desencadearia uma resposta emocional, fisiológica e comportamental subjacente. Já as abordagens Construtivistas enfatizam o papel das emoções na atividade cognitiva. Entretanto, ambas as abordagens são consideradas abordagens das terapias cognitivas, pois são fundamentadas no conceito de influência mútua entre razão e emoção. Alguns principais autores da segunda onda são Albert Ellis, teórico da Terapia Racional EmotivoComportamental; Aaron Beck, autor da Terapia Cognitiva; e Michael Mahoney, autor da Terapia Cognitiva Construtivista. As abordagens de Beck e de Ellis são consideradas abordagens Racionalistas, pois visam à reformulação de padrões disfuncionais de pensamentos, responsáveis por alterações no estado de humor e comportamentos. Por outro lado, a abordagem Construtivista de Mahoney prioriza as emoções como ponto central do entendimento do funcionamento mental. Dentre as TCCs de segunda onda, dar-se-á ênfase à Terapia Cognitiva (TC) por ser a mais pesquisada e com maior número de protocolos de tratamentos testados e validados. A TC foi desenvolvida por Aaron T. Beck como uma prática de psicoterapia baseada em evidências, inicialmente desenvolvida para o tratamento de depressão. Dentre os pressupostos básicos TC tem-se que: a) a cognição afeta as emoções e comportamentos; b) a atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada; 21 e c) alterando as cognições pode-se modificar as emoções e comportamentos subjacentes. Segundo a TC, são as interpretações dos fatos, e não os fatos em si, que estão entre as causas das patologias e trazem sofrimento ao indivíduo. A maneira com que esses fatos são percebidos é expressa na forma de pensamento automático (PA), os quais podem ser definidos como pensamentos espontâneos, diretamente ligados a situações e disponíveis à consciência após um treino adequado. Os PAs distorcidos são freqüentes nos transtornos psicológicos e apresentam distorções cognitivas, como por exemplo, inferência arbitrária (tirar conclusões a partir de poucas evidências), abstração seletiva (presta-se atenção em apenas alguns aspectos e não se consegue ver o todo), previsão de futuro (antecipar o futuro de forma tão horrível que será insuportável), desqualificação do positivo (desqualificar e descontar as experiências e acontecimentos positivos insistindo que estes não contam), leitura mental (acredita-se tem certeza dos pensamentos ou intenções do outro sem evidências suficientes). A origem dos PAs está nas crenças centrais (ou nucleares). As crenças centrais constituem o modo mais profundo da estrutura cognitiva e são compostas por ideias rígidas e globais que o indivíduo tem sobre si mesmo, sobre os outros, o mundo e também sobre o futuro. Estas crenças se desenvolvem na infância como uma tentativa de organização do mundo interno e externo. Quando essas crenças são formadas a partir de experiências favoráveis, o indivíduo desenvolve conceitos positivos sobre si como: ‘eu sou competente’, ‘eu sou adequado’. Caso contrário desenvolverá crenças negativas sobre si como ‘eu sou incapaz’, ‘eu sou indigno de ser amado’. Mesmo após novas experiências que contestem as crenças centrais, estas permanecem convincentes na vida adulta. Elas influenciam o modo como indivíduo lida com o mundo, levando-o a selecionar detalhes sobre o ambiente e a lembrar dados relevantes que confirmem esta crença. A partir das crenças centrais, desenvolvemse outras categorias de crenças denominadas crenças intermediárias (também denominadas crenças condicionais ou crenças regra). As crenças intermediárias não estão diretamente ligadas a situações e costumam ocorrer em forma de suposições ‘se... então...’ ou regras ‘tenho que’, ‘deveria’. As crenças intermediárias revelam as estratégias compensatórias, que são comportamentos por meio dos quais o indivíduo imagina que suas crenças centrais negativas serão encobertas ou não se manifestarão. Por exemplo, se uma pessoa 22 com a crença central ‘eu sou incompetente’ ativada e associada à crença intermediária ‘se eu sou incompetenteentão tenho que me empenhar o máximo’, pode engajar-se em tarefas extremamente difíceis (estratégia compensatória) para encobrir a crença central ‘sou incompetente’. As crenças intermediárias refletem ideias ou entendimentos mais resistentes à mudança que os pensamentos automáticos. Segundo a TC, as distorções cognitivas não são os únicos fatores associados aos transtornos mentais. Outros fatores como predisposição genética, alterações bioquímicas, conflitos interpessoais também estão relacionados aos transtornos mentais e as distorções cognitivas os agravam ou os mantém. A terceira onda: abordagens integrativas As abordagens da Terceira Onda foram desenvolvidas no início da década de 1990, quando analistas do comportamento norte-americanos propuseram um modelo de terapia baseado na análise do comportamento, com o objetivo de se diferenciar dos ecléticos terapeutas comportamentais, dando origem à clínical behavior analysis (análise do comportamento clínica). São propostas que adotam o externalismo da análise do comportamento, mantém o foco na cognição e na emoção, das TCCs, substituindo a ideia de modificação dos comportamentos e sentimentos/cognições, característicos da primeira e segunda onda, respectivamente, pela aceitação dos mesmos, enfatizando a relação do indivíduo com os eventos psicológicos. A ideia é que os pensamentos não devem controlar diretamente a ação, mas sim os valores do indivíduo. Outra característica marcante da terceira onda é a integração de diferentes conceitos e técnicas. A maioria destas abordagens compartilha os pressupostos das abordagens de base cognitiva ou comportamental e utilizam suas técnicas. Entretanto, integram à sua prática clínica estratégias do tipo Mindfulness, técnicas da Gestalt Terapia, aceitação e outras escolas de psicoterapia. Além disso, muitas delas fundamentam seu entendimento (além das ciências cognitivas, neurociências e de análise do comportamento) em teorias como Teoria Evolucionista, Teoria do Apego e Psicanálise. Exemplos de modelos integrativos são: Terapia de Aceitação e Compromisso, Psicoterapia Analítca Funcional, Terapia do Esquema, a Terapia Comportamental Dialética, e Terapia Cognitiva Processual. Conceitos da técnicos em TCC A TCC é um tipo de intervenção psicoterápica breve (de 10 a 20 sessões), com foco na resolução dos problemas atuais do cliente. Em casos específicos, como 23 determinados transtornos de personalidade, a duração do processo terapêutico pode ser estendido por até dois ou três anos. Na prática clínica, a TCC enfatiza o estilo terapêutico colaborativo e psicoeducativo. O terapeuta ensina ao cliente o modelo cognitivo, a natureza de seus sintomas, o processo terapêutico e a prevenção de recaída. Além disso, para generalização dos efeitos da terapia, utiliza-se da tarefa de casa. Elas consistem em experimentos e exercícios entre as sessões de terapia. As sessões de psicoterapia possuem uma estrutura em que o cliente participa ativamente de sua construção. Na estrutura das sessões tem-se: a) verificação do humor (como o paciente sente-se naquele dia e semana anterior); b) discussão da agenda para a sessão (organiza-se tópicos a serem conversados na sessão do dia); c) feedback da sessão anterior (se e como a sessão anterior ajudou o paciente); d) revisão da tarefa de casa (dificuldades e aprendizados com a tarefa de casa); e) discussão dos itens da agenda e planejamento nova tarefa de casa (o cliente elabora ativamente sua tarefa de casa baseado nos tópicos da sessão); f) resumo a sessão e feedback (no início do tratamento o terapeuta faz o resumo da sessão, posteriormente o cliente faz o resumo). A estruturação da sessão visa o aprendizado do cliente na forma da terapia e a otimização do tempo da sessão. O objetivo principal da TCC é a reestruturação cognitiva do cliente, envolvendo seus esquemas, crenças e atitudes. Para atingir esta meta utiliza-se de técnicas cognitivas e comportamentais como: identificação de distorções cognitivas e crenças disfuncionais, busca de evidências, e busca de pensamento alternativo. No início do processo terapêutico o objetivo é avaliar e conceitualizar o caso. O cliente é treinado a identificar e registrar as situações em que emoções, pensamentos e comportamentos disfuncionais ocorrem, dando início a formulação de sua conceitualização cognitiva. Adicionalmente, outras técnicas cognitivas podem ser utilizadas como: questionamento socrático, descatastrofização, significado idiossincrático, avaliação de vantagens e desvantagens, reatribuição, identificação de distorções cognitivas, registro diário de pensamento disfuncional, continuum cognitivo, gráfico de pizza, cartões de enfrentamento, seta descendente, resolução de problemas e tomada de decisão, etc. Dentre as técnicas comportamentais, destaca- se treino de respiração diafragmática e treino de relaxamento, exposição (in vivo e cognitiva; gradual ou inundação), intenção paradoxal, distração, exposição e prevenção de resposta, reversão de hábito, modelação, modelagem, role-play, 24 planejamento de atividades, ensaio comportamental, treino de habilidades sociais, entre outras. Exemplificar-se-á o processo terapêutico e o uso de algumas das técnicas acima apontadas com o caso de Raul (nome fictício), 23 anos, estudante universitário, solteiro. Raul compareceu à consulta com queixa de taquicardia, sudorese, sensação de sufocamento e desmaio em situações inespecíficas. Relatou ainda que não tinha mais controle sobre suas emoções e que julgava estar ficando louco. Esses sintomas o impediam de viajar, atrapalhavam seus estudos e sua vida social, pois tinha medo de ter os ataques a qualquer momento. Foram descartadas quaisquer explicações orgânicas para os sintomas. Sua meta com a terapia era controlar esses sintomas e ‘voltar a ter vida normal’ (sic). O primeiro passo do processo terapêutico caracterizou- se pela avaliação e conceitualização do caso em termos diagnósticos, concluindo-se pela presença de Transtorno de Pânico, o que norteou as intervenções planejadas e descritas a seguir. O segundo passo relacionou-se ao uso da psicoeducação, tendo-se por referência o modelo cognitivo (neste processo discutiu-se sobre como a TCC aborda o tratamento da ansiedade, o ciclo do pânico, como a respiração influencia na fisiologia da ansiedade e o papel da evitação das situações fóbicas na manutenção do transtorno). O uso da técnica da psicoeducação promove a adesão e cooperação do cliente ao tratamento de TCC. Posteriormente, para manejo dos sintomas fisiológicos do pânico foram ensinadas treino de respiração diafragmática (passado como tarefa de casa até que Raul conseguisse executá-la facilmente). Para romper o ciclo do pânico, utilizou-se a estratégia A.C.A.M.E.-S.E., uma estratégia de oito passos cujo anagrama consiste em: A: Aceite sua ansiedade; C: Comtemple as coisas a sua volta; A: Aja com sua ansiedade; L: Libere o ar de seus pulmões; M: Mantenha os passos anteriores; E: Examine seus pensamentos; S: Sorria, você conseguiu!; E: Espere o futuro com aceitação. A partir do momento que Raul passou a apresentar manejo dos sintomas de ansiedade, iniciouse a conceitualização cognitiva com o registro de situações, PA, emoções e comportamentos nas situações de pânico. Em situações em que seu coração disparava, Raul tinha PAs como ‘estou perdendo o controle e isso é terrível’, ‘vou desmaiar’, ‘vou morrer’, o que remetia a suas crenças centrais de vulnerabilidade. Visando a reestruturação cognitiva, o paciente foi treinado a buscar evidências a favor 25 e contra seus PAs e sua crença central de vulnerabilidade, bem como identificar pensamentos alternativos mais adaptativos. Raul passou a questionar o que mais ‘coração disparado’ poderia significar, levantando hipóteses como ‘tomei muito café’. Para habituação aos sintomas fisiológicosdo Pânico, foi feito exposição interoceptiva, que consiste em expor o paciente aos sintomas através da hiperventilação, por exemplo. Com isso, ele passa a perceber que muitos dos sintomas que ele interpretava como ameaçadores, são inofensivos. No decorrer da terapia, Raul identificou que era perfeccionista e que por isso se engajava em tentativas de controle das situações e de seus sintomas. Durante a conceitualização cognitiva, o paciente percebeu como a estratégia de controle influenciava e mantinha seus sintomas de pânico. Com essa percepção, Raul decidiu envolver-se mais em situações prazerosas, aumentando seu relaxamento físico e mental. À medida que Raul conseguia manejar seus sintomas de ansiedade e reestruturar sua crença de vulnerabilidade, foi preparada a prevenção de recaída que consistiu em registrar as estratégias aprendidas durante a terapia. Posteriormente, as sessões de terapia foram espaçadas para quinzenais e mensais até finalizar o processo terapêutico com a alta do paciente. Indicações da terapia cognitivo-comportamental Inicialmente, a TCC fora desenvolvida para tratamento de depressão. Atualmente existem diversos estudos demonstrando evidências de sua eficácia para diferentes tipos de transtornos mentais, tais como depressão, transtorno de ansiedade generalizada, ansiedade social, transtorno de pânico, tabagismo, transtorno obsessivo-compulsivo, fobia especifica, transtornos alimentares, disfunções sexuais, esquizofrenia, transtornos da personalidade, problemas conjugais, dentre outros. Como trata-se de uma abordagem que preconiza a participação ativa do paciente, é pré-requisito que estes possuam alta motivação, boa capacidade de tolerância àa ansiedade, boa aliança terapêutica. Por outro lado, a TCC é contra-indicada para pacientes com alto nível de ansiedade, dificuldade de vínculo, ausência de motivação, psicose aguda e deficiência mental grave (nesses casos, há necessidade de adaptação das técnicas). 26 Seção 1.9: Psicoterapia de grupo O interesse pelo estudo do comportamento e da psicologia dos grupos data do século 20, onde se destacam as contribuições de Le Bom e Freud, a cerca da influência dos fenômenos sociais/grupais na constituição do sujeito. Os primeiros relatos do uso psicoterapêutico dos grupos ocorreram nos EUA, no início dos anos 1900, com as experiências de Pratt, Lazel e Marsh. Em 1908, Joseph Pratt, um médico americano, considerado hoje o precursor da psicoterapia de grupo, adotou o uso de tais grupos no tratamento de pacientes tuberculosos por motivos econômicos e de ordem prática. Duas vezes por semana, realizava encontros com cerca de 20 a 30 pacientes, discutindo aspectos da saúde e da condição de vida (por meio de conselhos, instruções e apoio), observando melhoras consideráveis nestes quesitos, sobretudo em função do reconhecimento, por parte dos doentes, de que não eram os únicos com vivências de sofrimento, e que o mesmo poderia ser compartilhado e acolhido. E.W. Lazell, em 1921, publicou um artigo no periódico Psychoanalytic Review intitulado “The group treatment of dementia praecox’, relatando sua experiência na condução de um grupo de pacientes internados com demência precoce (hoje denominada esquizofrenia), onde temas diversos eram discutidos com um enfoque psicanalítico. Ele apontou que a participação dos pacientes nos grupos favorecia um avanço no tratamento do transtorno. Marsh, se apropriando destas experiências prévias, iniciou uma atividade de grupo com pacientes psicóticos internados, reunindo cerca de 200 a 400 deles, três vezes por semana com o objetivo de “integrar a mente, a emoção e a atividade motora” (p.3). Posteriormente estendeu este tipo de trabalho aos familiares dos pacientes, trazendo esta contribuição inovadora. Com o passar do tempo, esta prática foi sendo apropriada por outros psiquiatras, no tratamento de pacientes psiquiátricos institucionalizados, e posteriormente a nível ambulatorial. Destaca-se a grande expansão desta modalidade de tratamento durante e pós 2ª Guerra Mundial, em função da grande demanda de problemas emocionais associados à guerra e a escassez de equipes de tratamento, sendo importantes os trabalhos desenvolvidos por S.H. Foulkes, W. Bion e Moreno, estimulando e expandindo o uso de tal recurso para uso com outras populações específicas nas áreas da saúde, social, educacional e organizacional. 27 Assim como na psicoterapia individual, as psicoterapias de grupo são realizadas tendo-se por referência diferentes abordagens teóricas e técnicas, e diferentes objetivos, entre eles: alívio de sintomas, informação, auto-ajuda, reestabelecimento do funcionamento psicossocial (intervenção em crise), acolhimento, treinamento de habilidades sociais e manejo de situações/ doenças médicas específicas. Sob a perspectiva da técnica, os grupos podem ser fechados ou abertos (número fixo ou não de membros), homogêneos ou heterogêneos (quanto às queixas, características clínicas, sociodemográficas, entre outras), ter duração pré- determinada ou não, número de participantes e periodicidade (diário, mensal) variados. A opção por alguma destas especificidades se associa diretamente aos objetivos terapêuticos do grupo e às características da população-alvo. Os grupos terapêuticos são vistos como um contexto privilegiado para o aprendizado do relacionamento humano. Segundo Bechelli e Santos os grupos “facilitam a identificação, a revelação de particularidades e intimidades, o oferecimento de apoio ao semelhante, o desenvolvimento de um objetivo comum, e a resolução das dificuldades e dos desafios que se assemelham” (p.6). Fora isto, os grupos apresentam fatores terapêuticos específicos e únicos conforme apontado brilhantemente na obra de Vinogradov e Yalon. Estes autores destacaram a presença de pelo menos 11 fatores terapêuticos grupais: instilação de esperança, universalidade, oferecimento de informação, altruísmo, desenvolvimento de técnicas de socialização, comportamento imitativo, catarse, reedição corretiva do grupo primário, fatores existenciais, coesão e aprendizagem interpessoal. A efetividade das psicoterapias de grupo é também comprovada por inúmeros estudos e sua aplicação tem espaço consolidado no tratamento, sobretudo dos sintomas/transtornos mentais, seja como terapia primária ou coadjuvante. Destaca-se também o fator econômico associado à efetivação de tal modalidade de tratamento, onde a taxa custo/benefício é quase sempre vantajosa. Aplicações práticas das psicoterapias de grupo Baseado nas experiências prévias de uma das autoras e nos relatos da obra de Mello Filho et al., 55 destacar-se-á na Tabela 2, algumas experiências com a psicoterapia de grupo. 28 Tabela 2: Caracterização dos objetivos e aspectos técnicos de algumas experiências com psicoterapia de grupo 29 Unidade 2: Técnicas De Respiração Para A Redução Do Estresse Em Terapia Cognitivo-Comportamental Seção 2.1: Introdução O uso de técnicas baseadas no controle voluntário da respiração para a redução do estresse e promoção do bem-estar biopsicossocial e espiritual tem sua origem em tradições médicas remotas, tais como nos rituais e cânticos xamânicos, na ayurveda e yoga da Índia, no qi-gong e acupuntura da China, nas práticas espirituais da medicina tibetana e também na medicina hipocrática da Grécia (Jonas, Levin, 1999; Helman, 2003; Elliott, Edmonson, 2006; Harrington, 2008). Apesar da longa tradição de utilização das técnicas de respiração na saúde, alguns médicos contemporâneos refletem: “Na escola médica, aprendemos sobre a anatomia do sistema respiratório e sobre as doenças do trato respiratório, mas eu nada escutei sobre o poder da respiração.” (Weil, 2005). Também na formação do psicólogo clínico em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o ensino e/ou treinamento em técnicasde respiração não é valorizado, sendo muitas vezes relegado a um papel inferior ou secundário dentro do treinamento das técnicas de relaxamento tradicionais, tais como: relaxamento muscular progressivo de Jacobson, relaxamento autógeno de Schultz, hipnose, imaginação guiada, meditação de concentração ou atenção plena (mindfulness), entre outros (Hossri, 1978; Sandor, 1982; Criqui, 1966; Astin et al, 2003; Lehrer, Carrington, 2003; Neves Neto, 2003; Davis et al, 2008), exceção talvez ocorra em algumas abordagens psicoterápicas corporais, tais como: vegetoterapia de Reich, bioenergética de Lowen, biossíntese de Boadella, entre outros (Kignel, 2005). A utilização de técnicas de respiração para a redução do estresse em TCC e na prática da Medicina Comportamental carece de mais estudos sobre as bases psicofisiológicas e de evidências científicas sobre eficácia e segurança na gestão do estresse e de doenças associadas (Smith, 1988; Fried, 1990a; 1990b; Lehrer et al, 1994; Astin et al, 2003; Sharma, 2005; Neves Neto, 2010a). Revisar as principais técnicas de respiração utilizadas para a redução do estresse em TCC e na prática da Medicina Comportamental, além de ilustrar as alterações psicofisiológicas (atividade eletrodérmica e variabilidade da frequência cardíaca) através da utilização de equipamentos de biofeedback. 30 Revisão narrativa (não sistemática) das bases psicofisiológicas do treino de respiração aplicada à redução do estresse em TCC e Medicina Comportamental. Utilização do banco de dados (do autor) de mensurações psicofísicas efetuadas na aula de Medicina Comportamental do curso de pós-graduação em “Terapia Cognitivo- Comportamental em Saúde Mental” do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (AMBAN- -IPQ-HCFMUSP), através dos equipamentos de biofeedback: Procomp Infiniti System (Thought Technology Ltd., Canadá), E-Z Air (Thought Technology Ltd., Canadá), Emwave PC – Coherence Training Software for PC (HeartMath LLC, EUA). Seção 2.2: Estresse e respiração: Aspectos psicofisiológicos Sobre a inter-relação da respiração, dos processos mentais e as emoções, há observações já realizadas na prática do yoga sobre o controle da respiração (pranayamas) no texto secular do Hatha Pradipika: “Enquanto a respiração estiver irregular, a mente estará instável, mas, quando se aquieta a respiração, a mente também o fará e o yogin viverá longo tempo; deverá, então controlar sua respiração.” (Souto, 2009). No tratado clássico de acupuntura Su Wen: “Quando a energia tiver em excesso, irá ocorrer respiração acelerada, tosse e reversão ascendente da energia do paciente; quando a energia estiver insuficiente, irá ocorrer respiração difícil e pouco alento.” (Wang, 2001). Na bíblia cristã: “E formou o senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” (Gênesis 2:7). Curiosamente em diversas culturas, o termo designado para a respiração é o equivalente ao espírito ou a energia vital, tais como: prana (sânscrito), qi (chinês), pneuma (grego), ruach (hebraico) e spiritus (latim). Quanto ao estresse, pesquisadores estimam que entre 60 a 90% de todas as visitas médicas são em grande parte devido a fatores psicológicos, emocionais e comportamentais, ou seja, relacionados diretamente ao estresse excessivo (Kroenke, Mangelsdorff, 1989; Stoudemire, 2000; Benson, 2010; Neves Neto, 2010a; 2010b; 2010c; 2010 d; 2010e). Segundo a Organização Mundial da Saúde, o estresse está associado a sete entre cada 10 das principais causas de morte em países desenvolvidos (World Health Organization, 1994; Quick, Cooper, 2003). Os efeitos do estresse também são associados a um custo econômico de aproximadamente US$ 31 300 bilhões por ano nos EUA, devido a perdas de produtividade, absenteísmo, licença médica e etc. (Benson, 2005). Tais constatações levaram a Organização das Nações Unidas (ONU) a declarar o estresse como “A doença do século XX” e a OMS de “Epidemia mundial” (Neves Neto, 2010b;c). No Brasil, diversos pesquisadores se dedicam ao estudo do estresse nos campos da saúde, educação e trabalho (Lipp, 1996; Rossi et al, 2005; Limongi-França, Rodrigues, 2007; Neves Neto, 2009; Neves Neto 2010a; 2010b; 2010c; Zannelli, 2010; Neves Neto 2011a; 2011b; 2011c). Alguns estudos, por exemplo, apontam: 62% dos pacientes atendidos no ambulatório de Gastroenterologia apresentavam sintomas clínicos de estresse, diagnosticados durante consulta médica ambulatorial (Neves Neto, 2001). Em outro estudo com estudantes que cursavam um programa de pós- graduação (MBA), encontrou que 63,5% apresentavam sintomas relevantes de estresse ocupacional e 71,4% baixa qualidade do sono, sendo que as principais fontes de estresse encontradas nesta população foram: sobrecarga de trabalho (63,5%), falta de feedback (57,7%) e estresse interpessoal (57,7%) (Neves Neto, 2009). A importância da identificação da presença de sintomas de estresse (ex. queixas funcionais e/ou somatizações, mudanças no humor, irritabilidade, insônia, baixa libido, fadiga, entre outros) durante consultas médicas, psicológicas e de outros profissionais da saúde, em diferentes níveis de atendimento e contextos clínicos, torna-se fundamental para: reduzir custos médicos-hospitalares, diminuir erro médico, aumentar adesão ao tratamento, distinguir entre a sintomatologia do estresse e outros diagnósticos clínicos, além de promover o bem-estar biopsicossocial e qualidade de vida, entre outros (Benson, 2010; Coyne et al, 2002; ; Moss, 2003; Lehrer et al, 2007; Neves Neto, 2010a; 2010b). O estresse (resposta de luta ou fuga) (século XX) ou carga alostática pró- inflamatória (século XXI) é uma reação psicofísica natural do organismo frente a necessidade de adaptação, e envolve diversos mecanismos “psiconeuroendócrinoimunológicos” que promovem o funcionamento catabólico do metabolismo, tais como: ativação do eixo hipotálamo, hipófise e adrenal (eixo HPA), ativação do sistema nervoso autônomo simpático, aumento da produção de catecolaminas (ex. adrenalina e noradrenalina), glicocorticóides (ex. cortisol), mineralocorticóides (ex. aldosterona), vasopressina (hormônio antidiurético), tiroxina (hormônio tirotrópico), ondas cerebrais beta (14 – 30 Hz), além da diminuição da produção de óxido nítrico, serotonina (5HT) e dopamina, podendo afetar também a 32 expressão genética associadas às doenças, a telomerase e apoptose celular, entre outros mecanismos psicofisiológicos. (Esch et al, 2002; Esch et al, 2003; McEwen, Lasley, 2003; Moreira, 2003; Seaward, 2004; Stefano et al, 2008). Benson (2010) resume os efeitos do estresse cumulativo e prejudicial ao funcionamento do organismo, como: aumento da frequência cardíaca, aumento da frequência respiratória, aumento do tônus muscular, aumento do metabolismo e diminuição da função imune, ou seja, efeitos deletérios sobre a capacidade natural de retorno do organismo ao equilíbrio homeostático anterior ao estresse. O médico cardiologista e pesquisador Herbert Benson (Benson, Klipper, 1995; Benson, 2010) foi o responsável pelo descobrimento da resposta de relaxamento (relaxation response), na década de 1970, na Harvard Medical School (EUA), curiosamente no mesmo laboratório que serviu para o descobrimento da resposta de luta ou fuga (fight- -or-flight response) realizada pelo fisiologista Walter Cannon, no final do século XIX. A resposta de relaxamento pode ser compreendida como uma capacidade natural dos organismos a retornarem ao seu estado basal (ex. homeostase e alostase), uma vez cessada a fonte de estresse ou os estímulos adversos (internos e/ou externos), mas Benson (2010; 1993) também alerta para o fato de que a resposta de relaxamento não é mobilizada com tanta rapidez como ocorre com a resposta