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1) DIREITO DAS COISAS - Conceito: “complexo das normas reguladoras das relações jurídicas referentes às coisas suscetíveis de apropriação pelo homem” (Clóvis Beviláqua). - Tem como traço a materialidade. - Regula o poder do homem sobre certos bens suscetíveis de valor e os modos de sua utilização econômica. - Tem seus contornos definidos pelo princípio da função social. - Não é sinônimo de direitos reais, haja vista possuir configuração mais ampla, abrangendo, além dos direitos reais, a posse e os direitos de vizinhança. 2) CARACTERÍSICAS DOS DIREITOS REAIS - Absolutismo: os direitos reais concedem a seu titular situação de dominação sobre um objeto. Esse poder de agir sobre a coisa é oponível erga omnes. Não decorre do poder ilimitado de seus titulares sobre os bens que estão sob sua autoridade, haja vista ter o Direito relativizado a sacralidade da propriedade, havendo uma ponderação de valores (função social): *os direitos subjetivos reais apresentam três elementos: sujeitos, objeto e relação jurídica. *em decorrência dessa característica do absolutismo, surgiram duas teorias doutrinárias quanto à relação jurídica: .teoria realista: o direito real compreende a relação jurídica entre pessoa e coisa. .teoria personalista: o direito real compreende a relação jurídica entre o sujeito ativo (titular do direito real) e o sujeito passivo (generalidade anônima das pessoas – sociedade – têm o dever de não prejudicar o titular do direito real), partindo da premissa kantiana de só existem relações jurídicas entre pessoas. *como conseqüência ao princípio do absolutismo, surge o princípio da publicidade para os bens imóveis, sendo que os direitos reais somente podem ser exercidos erga omnes se houver sua publicidade, que ocorre com o registro do título aquisitivo (art. 1227 CC). - Seqüela: corresponde à submissão do bem ao titular do direito real, podendo este perseguir o bem em poder de terceiros onde quer que se encontre; *relaciona-se ao princípio da inerência ou aderência, no sentido do direito real aderir à coisa e a perseguir. - Preferência: trata-se do privilégio do titular do direito real em obter o pagamento de um débito com o valor do bem. Por isso, está presente predominantemente nos direitos reais de garantia (credor hipotecário ou pignoratício). Esses credores preferem a todos os outros, pois o direito real prevalece sobre o direito obrigacional nesse caso. Não são preferenciais, entretanto, quanto aos créditos privilegiados (trabalhistas e acidentários) – art. 958 e par. ún. do art. 1442 do CC. - Numerus clausus: os direitos reais são numerus clausus, ou seja, são de enumeração taxativa, localizados no rol do art. 1225 do CC (incluem-se aqui a propriedade fiduciária – art. 1361 CC – e a promessa de compra e venda – art. 1417 CC). *exclui-se a possibilidade de a autonomia privada criar direitos reais, ou seja, não respeitado o rol taxativo, não será o direito tido como real e produzirá efeitos obrigacionais. *multipropriedade (time sharing): o proprietário tem o direito exclusivo de usufruir de determinado imóvel por um período pré-determinado de tempo no ano e apenas uma vez por ano; como o sistema do ordenamento brasileiro é numerus clausus, não se pode elencar como um direito real (por não haver adequação ao princípio numerus clausus) e enquanto não se regula a multipropriedade imobiliária no Brasil, a sua criação será realizada através da constituição de sociedade por cotas multiproprietárias, cuja finalidade da sociedade será a construção e incorporação, com registro da convenção de condomínio no Registro de Imóveis. Pode a multipropriedade ser transferida inter vivos ou causa mortis. O mesmo ocorre com os shopping center’s. Percebe-se, nesse caso, que os tipos de direito real são abertos, pois a autonomia privada tem espaço para se manifestar, desde que não sejam criadas figuras atípicas, ou seja, que não estejam previstas em lei. É a aplicação do princípio da função social da propriedade. 3) CLASSIFICAÇÃO DOS DIREITOS REAIS - Propriedade: é o único direito real originário; a partir do desdobramento dos poderes dominiais surgem os direitos de fruição, de garantia e de aquisição. - Direitos na coisa alheia ou direitos limitados: são os demais direitos reais previstos no art. 1225 CC; são de duração temporária, com a vitaliciedade como prazo máximo no usufruto (art. 1410,II, CC) e prazo máximo de 30 anos de duração para a hipoteca (art. 1485 CC). Subdividem-se em: *direitos reais de gozo e fruição: usufruto, servidão, uso e habitação. *direitos reais de garantia: penhor, hipoteca e anticrese. *direito real à aquisição: promessa de compra e venda. - A propriedade fiduciária e a propriedade superficiária (direito de superfície) se tratam de direitos reais em coisa própria, mas não são direito de propriedade convencional, pois carecem da característica da perpetuidade, pois se trata de propriedade resolúvel. - Observações: *O CC não fez distinção entre propriedade e domínio, utilizando-os como sinônimos, quando na verdade não o são, segundo a doutrina. Domínio implica a situação de poder do titular sobre a coisa, bem como as suas faculdades de uso, fruição e disposição (elemento interno); a propriedade se refere à relação do titular com a coletividade face ao direito material de abstenção universal (elemento externo). O titular do direito de propriedade pode fracionar os poderes do domínio. *Nem todos os títulos levados a registro geram direitos reais. Existem direitos obrigacionais que quando registrados no Registro de Imóveis adquirem eficácia real, mas não se convertem em direitos reais face ao princípio numerus clausus. *Obrigações propter rem: também conhecidas como obrigações mistas, pois assimilam características de direitos reais e de direitos obrigacionais; estão vinculadas à titularidade do bem, sendo esta a razão pela qual será satisfeita determinada prestação; seu cumprimento se impõe a todos que sucederem o titular. .as obrigações propter rem podem ser repassadas, ou seja, solvidas por outrem, como no caso da locação, mas isso não implica em transferência da obrigação. .as obrigações propter rem não está vinculada ao registro, bastando a posse no imóvel para que o comprador do imóvel seja responsável por elas, de acordo com o STJ. 4) POSSE 4.1- Considerações históricas - A origem da posse é justificada no poder físico sobre as coisas e na necessidade de o homem se apropriar dos bens. - A necessidade de proteção da posse deu ensejo a várias teorias que a justificam, sobressaindo-se Savigny e Ihering: *Teoria Subjetiva de Savigny: #A posse seria o poder que a pessoa tem de dispor materialmente de uma coisa, apresentando-se dois elementos constitutivos: .corpus: refere-se ao controle material da pessoa sobre a coisa, apoderando-se, servindo-se e dispondo da coisa, bem como podendo se opor perante terceiros. .animus: refere-se à vontade, na intenção da pessoa (possuidor) de exercer o direito como se proprietário fosse. #Savigny defende sejam os dois elementos agregados para que seja caracterizada a posse, utilizando a fórmula: P=C+A. #Nas hipóteses em que uma pessoa atuar sobre a coisa sem o animus, haveria mera detenção (ex. locatários, usufrutuários e comodatários). #Por dar ênfase demasiada ao animus, ou seja, ao aspecto psicológico, a teoria foi denominada subjetiva. #Crítica: sobrelevar sobremaneira o papel da autonomia da vontade, ou seja, o animus domini, o que camufla o ser humano concreto e que tem com cerne a proteção à moradia, ao trabalho, á defesa dos direitos da personalidade e da dignidade da pessoa humana. #Mérito: elevar a posse à situação merecedora de tutela e, consequentemente, de proteção à pessoa, paz social e estabilizaçãopelos condôminos, pois se presume que os atos de ocupação advêm de mera tolerância: #mas a inércia do condomínio por longos anos pode gerar a supressio, que é a impossibilidade de o condomínio recuperar a coisa face à sua desídia e dos demais condôminos; assim, a situação será consolidada, ou seja, o condômino ocupante da área poderá nela permanecer, mas sem adquirir-lhe a propriedade pela usucapião. *vaga de garagem somente poderá ser usucapida se for autônoma ao imóvel, ou seja, deve ter matrícula e fração ideal autônomas. - Requisitos formais: *para qualquer modalidade de usucapião: #tempo. #posse mansa e pacífica. #animus domini. *para a modalidade de usucapião ordinária: #todos os requisitos gerais. #justo título. #boa-fé. *para a modalidade de usucapião urbana: #todos os requisitos gerais. #moradia. *para a modalidade de usucapião rural: *todos os requisitos gerais. *trabalho. 6.8.2.1) Usucapião extraordinária - Art. 1238 CC prevê a usucapião extraordinária. - Art. 1238, par. único, CC prevê a usucapião extraordinária pela função social. - Requisito tempo: *Pode ser através da posse simples ou da posse qualificada. *Posse simples é a definida pelo art. 1196 do CC, ou seja, aquela que se satisfaz com o exercício de fato pelo usucapiente de algum dos poderes inerentes à propriedade – nesse caso o caput do art. 1238 prevê o tempo de 15 anos como requisito para a usucapião. *Posse qualificada é a definida pelo art. 1196 do CC, mas qualificada pela ocupação do bem para moradia ou se houver realizado obra produtiva, dando função social – nesse caso o par. único do art. 1238 prevê o tempo de 10 anos como requisito para a usucapião. *O poder imediato de fato sobre a coisa pode ser exercido por terceiros sem que isso prejudique o prazo aquisitivo daquele que não exerce o poder imediato, exceto para as usucapiões que exigem a moradia como requisito. *Se o pedido for julgado improcedente pelo fato de o tempo não estar completo, a decisão não faz coisa julgada material, podendo ser ajuizada nova ação quando se completar o prazo aquisitivo. *Se o prazo aquisitivo se completar no curso da ação, o juiz deverá sentenciar com base no direito superveniente, julgando procedente o pedido, a teor do art. 462 do CPC. - Requisito posse: *A posse deverá ser mansa, pacífica e contínua, o que indica não haver interrupção ou oposição à posse. *Para que cesse a pacificidade da posse a oposição deverá ser judicial, bem como que haja a procedência, transitada em julgada, na ação possessória ou na ação petitória movida contra o usucapiente. *A posse será descontínua quando o possuidor abandonar o poder físico sobre a coisa por prazo relevante sem deixar qualquer pessoa que o represente, seja funcionário, seja possuidor direto através de uma relação jurídica. *Poderá haver a soma de posses, somando o atual possuidor a posse de seu antecessor para fins de contagem do prazo aquisitivo, desde que ambas as posses sejam contínuas e pacíficas – art. 1243 CC: #sucessio possessionis: o herdeiro continua a posse do falecido art. 1207 CC. #accessio possessionis: o possuidor atual pode somar à sua posse a de seu antecessor – art. 1207 CC; a prova pode ser testemunhal. *Na usucapião extraordinária pela função social, a posse deverá ser comprovada com fins de moradia ou realização de obras de caráter produtivo (realização de investimentos econômicos); tb poderá haver soma de posses nesse caso, mas tb a do antecessor deverá ser com a mesma destinação. 6.8.2.2) Usucapião ordinária - Art. 1242 CC prevê a usucapião ordinária. - Art. 1242, par. único, CC prevê a usucapião ordinária pela função social. - Justo título: *É o instrumento que leva o possuidor a acreditar que através dele é proprietário. *Apresenta-se como instrumento formalmente idôneo, mas apresenta algum defeito que impede a aquisição da coisa. *Tem de ter a aparência de legítimo e válido a ponto de incidir a pessoa em equívoco quanto à situação real sobre a coisa. *Exs. escritura de compra e venda, contrato de compromisso de compra e venda, carta de arrematação, formal de partilha, etc. *O prazo aquisitivo sana o vício, os defeitos, do título, convertendo-se num justo título para pleitear a usucapião. *Vícios que podem converter um ato jurídico defeituoso em justo título para a usucapião: #venda a non domino: .o transmitente não é o dono da coisa, mas o adquirente acredita que o seja, pois o título tem aparência perfeita. .a princípio não há transmissão da propriedade, pois quem vendeu não era dono, mas o tempo poder erradicar o vício. .o verdadeiro proprietário pode reivindicar a coisa contra o titular atual, mesmo que tenham sido realizadas várias vendas posteriores, pois não participou dos negócios e houve falsificação de escrituras ou adulteração de documentos, ou seja, é negócio inexistente para o proprietário; reivindicação esta que poderá ocorrer mesmo se os compradores tiverem efetuado o registro do título, através de ação declaratória para obter o cancelamento do registro. .se o adquirente tiver adquirido o prazo aquisitivo poderá alega- lo para obstar a reivindicatória. #título com vício que gera invalidade: .o transmitente do bem é o próprio proprietário, mas o ato jurídico contém vício passível de nulidade ou anulabilidade. .mesmo em se tratando de negócio jurídico nulo poderá haver a conversão para justo título se presentes os requisitos para a usucapião. .conversão para justo título pelo decurso do tempo se justifica pelo fato de que nenhum direito poderá sobreviver à inércia indefinida de seu titular. #título que não atende ao plano da eficácia: .o transmitente do bem é próprio proprietário e não há causa de nulidade ou anulabilidade, mas há fator de eficácia que não foi atendido. .a promessa de compra e venda a prazo é aceita como justo título, desde que tenha o adquirente quitado integralmente as parcelas. - Boa-fé (também chamada de opinio domino): *É o estado de ignorância do possuidor quanto à existência de vício ou obstáculo que impede a aquisição da coisa – art. 1201 CC. *Na usucapião, significa a convicção de que a coisa lhe pertence. *Gera a falsa percepção no possuidor de ser o dono. *Para fins de usucapião ordinária, a boa-fé está vinculada ao justo título, ou seja, somente há boa-fé se existir justo título. Mas a presunção é iuris tantum, ou seja, relativa, sendo que pode haver justo título e estar o possuidor de má fé por conhecer o vício do título, caso em que caberá à parte contrária a prova da má-fé do usucapiente. - Na usucapião ordinária pela função social, a posse deverá ser comprovada com fins de moradia ou realização de obras de investimentos econômicos, bem como deverá ter sido uma aquisição onerosa e o título registrado com posterior cancelamento (cancelamento após cinco anos de posse, que é o prazo aquisitivo, pois do contrário interrompe o curso de referido prazo). 6.8.2.3) Direito intertemporal nas usucapiões extraordinária e ordinária - Art. 2029 CC estabelece acréscimo de dois anos na contagem dos novos prazos até dois anos a contar de 11/01/2003 (data da vigência do CC/02). - O art. 2029 CC somente se refere às usucapiões com função social previstas nos par. único do artigo 1238 CC e par. único do art. 1242 CC. - As usucapiões que não se referem à função social terão o direito intertemporal regulado pelo art. 2028 CC. - O período aquisitivo iniciado sob a égide do CC/16 será regido pela lei nova de acordo com as regras do direito intertemporal sem prejudicar os elementos realizados de forma válida pela norma anterior. - Exemplos. 6.8.2.4) Usucapião especial urbana - Demonstra claramente o princípio da função social da propriedade. - Aplica-se àqueles que, com animus domini, residem no imóvel, reduzindo o prazo aquisitivo. -Dispensa o requisito do justo título e da boa-fé. - Basta a presença da posse com animus domini, mansa e pacífica. - Compreende a posse de área urbana de até 250m² e ocupação por 05 (cinco) anos ininterruptos, não podendo o usucapiente (os demais membros da família podem) ser proprietário de outro imóvel no período aquisitivo. - Art. 183 CF/88 (o prazo de cinco anos deve ser contado da vigência da CF/88 para frente, pois esta criou um direito novo, não alcançando posse anterior a sua vigência). - Art. 1240 CC repete o texto constitucional, respeitando a ordem maior. - Deve haver pessoalidade da posse, ou seja, uma pessoa não poderá adquirir a propriedade por outra pessoa, face à especialidade e o requisito pessoal da usucapião em questão. - A habitação deve ter fins residenciais, mas se a destinação for mista caberá a usucapião. - Não é admitida em terreno sem construção, face ao requisito moradia. Não caberá sequer se houver barracas de camping, devendo ter acessão por mais simples que o seja. - Pessoa jurídica não pode usucapir através da especial urbana, face ao requisito pessoalidade. - A moradia pode ser individual, dos cônjuges, dos companheiros e de toda e qualquer entidade familiar – art. 226, §§ 3º e 4º, CF/88. - Não cabe accessio possessionis, tendo em vista o requisito da pessoalidade, ou seja, deve haver a posse pessoal por cinco anos ininterruptos. - Poderá haver sucessio possessionis, pois o que se defere é a proteção à entidade familiar, e não apenas a um de seus membros, mas o sucessor deverá habitar o imóvel. - A área tem de ter no máximo 250m², o que não significa que a edificação também o tenha, ou seja, pode haver uma construção de 600m² desde que ocupando a área de 250m2, como a construção de um prédio de três andares (parte da doutrina entende de forma contrária, pois defende que a intenção do instituto foi proteger o sem-teto e sua família, e não possibilitar grandes construções). Deverá ser analisado o caso concreto, mediante ponderação de interesses (proprietário x possuidor). - Se o possuidor ocupar uma área maior do que 250m², não poderá usucapir até o limite de 250m², ou seja, deve efetivamente ocupar no máximo 250m² para poder usucapir na modalidade especial (estaria burlando o dispositivo constitucional e prejudicaria o proprietário que estava inerte para em outro momento tomar a medida cabível, já que seria hipótese de usucapião extraordinária com largo prazo aquisitivo). Se a área for maior, mas o usucapiente a cercou em até 250m2, somente ocupando esta, poderá usucapir, caso em que, sendo procedente a usucapião, haverá desmembramento do registro. - Apartamento urbano de até 250m² também é usucapível, a teor do art. 9º da lei 10.257/01, que fala em qualquer edificação urbana. - Se o usucapiente for proprietário de outro imóvel que não seja possível residir com a família, parte da doutrina defende a possibilidade da usucapião especial urbana. - A usucapião especial urbana somente poderá ocorrer uma vez, ou seja, ainda que o usucapiente venha a alienar o imóvel que adquiriu por essa modalidade de usucapião, não poderá usucapir outro imóvel nas mesmas condições – art. 183, §2º, CF/88 e art. 1240, §2º, CC. Mas poderá alcançar a usucapião de outro imóvel nas modalidades ordinária e extraordinária. - Usucapião coletiva – art. 10, Lei 10.257/01 – a cada família será atribuída uma fração ideal do imóvel, possibilitando a urbanização racional da área como um todo (já que não poderá haver usucapião individual de área menor àquela estabelecida no plano diretor do município): *é permitida a acessio possessionis – art. 10, §1º, Lei 10.257/01, pois se trata de usucapião para uma coletividade e não individualmente. *o juiz levará em consideração para a contagem do prazo a área como um todo, ou seja, se esta está ocupada por uma coletividade há mais de cinco anos, e não contando cinco anos para cada ocupante. *as vias existentes na área coletiva passarão à propriedade do Município por ocupação, como bens de uso comum do povo (art. 99, I, CC). *não há legitimidade ad causam para os possuidores individualmente ajuizarem a usucapião coletiva, nem mesmo através de um litisconsórcio ativo, cabendo a legitimidade a entes coletivos que defendam interesses comunitários – substituição processual pela associação dos moradores desde que autorizadas pelos possuidores, através de realização de assembléia – art. 12 , Lei 10.257/01. *o MP não tem legitimidade para o ajuizamento pelo Lei 10.257/01, mas pela Lei 7.347/85, que trata da ação civil pública, através da tutela da ordem urbanística. - Medida Provisória nº 2.220/01 – criou a concessão especial de uso para fins de moradia nas áreas de terras públicas urbanas ocupadas até 30 de junho de 2001 nos moldes da usucapião especial urbana. A outorga da concessão se trata de mera concessão de uso, transmitida inter vivos ou causa mortis, mas sem transmissão de propriedade. Poderá ser registrada a concessão em Cartório de Registro de Imóveis. 6.8.2.5) Usucapião rural - Criada pela CF de 1934 e regulada inicialmente pela Lei 4.504/64 (Estatuto da Terra). - Lei 6.969/81 regula até hoje inteiramente a matéria, com as alterações dos artigos não recepcionados pela CF/88: *artigo 1º não recepcionado: passou para 50 hectares. *artigo 2º não recepcionado, pois o par. único do art. 193 da CF/88 não admite usucapião de quaisquer bens públicos. *há discussão doutrinária e jurisprudencial sobre serem as terras sem dono terras devolutas e, por conseguinte, de propriedade do Poder Público. *se o prazo aquisitivo em terras devolutas ocorreu antes da CF/88, poderá ajuizar a usucapião mesmo depois da vigência desta que terá o direito reconhecido, pois somente com a CF/88 está proibida a usucapião em qualquer área do Poder Público, sendo que, antes, era permitido para as terras devolutas. - Compreende a posse de área de terra em zona rural, não superior a 50 hectares, com ocupação por 05 anos ininterruptos, sendo o imóvel produtivo pelo trabalho e local de moradia da família – art. 191 CF/88. - Art. 1239 CC repete o texto constitucional, respeitando a ordem maior. - O usucapiente não pode ser proprietário de outro imóvel no prazo aquisitivo. 6.8.2.6) Efeitos da usucapião - A sentença tem efeito declaratório, reconhecendo o domínio que surgiu ao completar o prazo aquisitivo. - A sentença figura como título para ser levado ao registro junto ao Cartório de Registro de Imóveis – art. 1241, par. único, CC; art. 945 CPC. - Se na sentença constar descrição do imóvel diversa da constante no registro imobiliário, aquela deverá prevalecer – art. 226, Lei 6015/73. - Argüição em defesa nas ações petitórias e possessórias: *a usucapião deve ser alegada em defesa, na contestação, sob pena de preclusão – art. 474 CPC; o silêncio importará em renúncia tácita. *mas a improcedência da reivindicatória face ao acatamento da defesa na usucapião, na ação reivindicatória, não faz com a sentença sirva para registro da propriedade no Cartório. *alguns doutrinadores defendem a possibilidade de o réu na contestação alegar a usucapião e na reconvenção pleitear a declaração da usucapião para que em uma única sentença o juiz julgue a reivindicatória e a usucapião, face ao princípio da economia e celeridade processual; outros defendem a impossibilidade, devendo a ação de usucapião ser ajuizada de forma autônoma, pois requer a participação do Poder Público e dos confinantes. *nas ações reivindicatórias em que a defesa alegue usucapião urbano ou rural especial, a sentença de improcedência reconhece a usucapião e serve como título hábil a registro. - O possuidor converte-se em proprietário a contar do primeiro dia da posse, consoante doutrina (princípio da aparência), pelo que: não está obrigado a restituiros frutos referentes ao prazo aquisitivo; os atos praticados pelo possuidor no curso do prazo aquisitivo serão validados; a criação de ônus reais pelo proprietário perderão a eficácia. - Não há a incidência de ITBI, haja vista se tratar a usucapião de modo aquisitivo originário de propriedade. - As dívidas de IPTU ou ITR serão do novo proprietário (usucapiente), haja vista se tratar de obrigação propter rem. 6.8.3) Acessão - É modo originário aquisitivo de propriedade. - O proprietário de um bem passa a adquirir a titularidade de tudo que a ele se adere. - Se ambas as coisa pertencerem ao mesmo proprietário não se falará em acessão. - Pode ocorrer de imóvel a imóvel – aluvião, avulsão, formação de ilhas, álveo abandonado. - Pode correr de móvel a imóvel – plantações e construções. - Subdivide-se em: *acessão natural (aluvião, avulsão, formação de ilhas e álveo abandonado). *acessão artificial (plantações e construções). - Acessões artificiais não se confundem com benfeitorias – estas são coisas acessórias e se tratam de obras ou despesas feitas em coisa alheia para conservá-la, melhorá-la ou embelezá-la, enquanto aquelas que se tratam de aquisição de propriedade imobiliária, consistindo em obras que criam coisa nova, aderindo à propriedade preexistente. - Gera direito de retenção, apesar de haver dispositivo expresso nesse sentido (utiliza-se o direito de retenção por benfeitorias por analogia). - Centra-se em dois problemas: *a quem atribuir a propriedade da coisa acedente à principal – deve ser solucionada a questão de forma que o acessório segue o principal. * quais as conseqüências patrimoniais decorrentes da acessão – sempre que possível, deverá o titular desfalcado da propriedade ser indenizado. 6.8.3.1) Formação de ilhas - Somente nos rios particulares, que são os não navegáveis (se navegáveis pertencem ao Poder público). - Somente beneficiará um particular quando, por força natural, surgir um pedaço de terra, o qual passará a pertencer aos proprietários ribeirinhos fronteiros, se formada no meio do rio; se formada entre a linha mediana e uma das margens pertence ao proprietário do mesmo lado. - Art. 1249 CC. 6.8.3.2) Aluvião - É o acréscimo de terras que o rio deixa naturalmente nos terrenos ribeirinhos ou o acréscimo que se forma quando o álveo (leito do rio) se descobre face ao afastamento das águas. - Tem como requisito ocorrer de forma lenta, paulatina, sucessiva e imperceptível, sem que seja possível verificar de onde a terra se desprendeu. - Se ocorrer em rios navegáveis o acréscimo pertencerá ao Poder Público; se ocorrer em rios não navegáveis o aluvião será do proprietário dos terrenos marginais. - Art. 1250 CC. 6.8.3.3) Avulsão - É o desprendimento, por força natural, violenta e abrupta, de uma porção considerável e reconhecível de um prédio, que se junta ao prédio de outro proprietário. - Há prazo decadencial de um ano para que o titular do prédio acrescido opte entre determinar que se remova a parte acrescida ou indenizar o dono da propriedade donde houve o deslocamento da terra. - Se o proprietário do prédio desfalcado se mantiver inerte por mais de um ano, a terra será incorporada de forma definitiva e gratuita ao domínio do dono do prédio acrescido. - Somente ocorre com porção de terra; se forem outros objetos serão considerados coisas perdidas. - Art. 1251 CC. 6.8.3.4) Álveo abandonado - Álveo é a “superfície que as águas cobrem sem transbordar para o solo natural e ordinariamente enxuto” (art. 9º do Código das Águas) – é o leito do rio. - Há total e permanente abandono do antigo leito situado em propriedade particular (rio não navegável); fica inteiramente descoberto e passa a pertencer aos proprietários ribeirinhos das duas margens. - Deve se originar de forças naturais, pois se oriundo de motivo de utilidade pública passa a pertencer ao Poder Público. 6.8.3.5) Plantações e construções - Resulta de um comportamento humano, e não de um fato da natureza. - Ocorre quando a titularidade das sementes, plantas e materiais de construção não coincide com a do terreno a que acedem. - Aplica-se a regra de que o acessório segue o principal. - Presume-se que toda plantação e construção existente em um terreno pertence a seu proprietário, até prova em contrário – art. 1253 CC: *a presunção poderá ser elidida se o autor das acessões comprovar que agiu amparado em uma relação contratual com o proprietário ou que é titular de direito real em coisa alheia. - Possibilidades: *semeadura, plantação ou construção em terreno próprio com sementes, plantas ou materiais alheios – art. 1254 CC: #se estava de boa-fé pagará ao proprietário o valor das sementes, das plantas e dos materiais. #estando de má-fé, além dos valores responderá por perdas e danos. *semeadura, plantação ou construção em terreno alheio com sementes, plantas e materiais próprios: #perderá em favor do proprietário do terreno as sementes, plantas e materiais, se estiver de má-fé; mas se estava de boa-fé (acreditava ser o terreno de sua propriedade com base em justo título) terá direito à indenização – art. 1255 CC. #acessão inversa: par. único do art. 1255 CC; a indenização do terreno será fixada pelo juiz caso as partes não entre em acordo. #má-fé de ambas as partes – art. 1256 CC. #construção em terreno próprio que excede os limites deste e invade terreno do vizinho – arts. 1258 e 1259 CC – seria uma espécie de minidesapropriação no interesse privado do possuidor de boa-fé. - Se houver ajuste prévio entre as partes no sentido de não haver indenização, o acordo entre as partes deverá ser preservado. 6.9) Modos de perda da propriedade - Pode-se perder a propriedade imobiliária e mobiliária: *voluntariamente: alienação, renúncia e abandono – art. 1275, I, II e III do CC. *involuntariamente: perecimento e desapropriação – art. 1275, IV e V, CC. - O art. 1275 CC é exemplificativo, consoante mencionado no próprio caput. Exs: a usucapião e a acessão, que são modos de aquisição originária de propriedade também, são modos de perda da propriedade por parte do proprietário desidioso; a morte do proprietário; o casamento pelo regime da comunhão universal de bens para aquele que possuía patrimônio antes do casamento; arrematação; adjudicação; propriedade resolúvel; na lei penal os bens perdidos pelo contrabando; etc. - Alienação: *ocorre quando o proprietário, pela autonomia da vontade, transfere, onerosa ou gratuitamente, o seu direito sobre coisa móvel ou imóvel. *negócio jurídico bilateral. *se valor da alienação for superior a 30 salários mínimos, a lei requer ato solene para a negociação, que é a escritura pública – art. 108 CC. *o efeito da alienação estará vinculado à tradição no caso de bens móveis e ao registro no caso de bens imóveis arts. 1226 e 1227 CC. *poderá ocorrer, de forma excepcional, sem a anuência do titular atual, como na retrovenda, em que o vendedor reserva para si o direito de recobrar a coisa imóvel no prazo decadencial de 03 anos – art. 505 CC. - Renúncia: *o proprietário declara formal e expressamente a intenção de se despojar do direito de propriedade. *negócio jurídico unilateral. *não há transmissão da coisa para ninguém, convertendo-se a coisa em res nullius. *depende de escritura pública – art. 108 CC. *mesmo renunciando, poderá manter-se no poder fático sobre a coisa, mantendo sua posse. *modalidade de renúncia que acarreta a imediata aquisição patrimonial por novo proprietário: renúncia à herança em favor do monte mor – art. 1804, par. único, CC (se for renúncia a favor de herdeiro(s) determinado será verdadeira alienação gratuita, ou seja, doação). *não se aplica aos bens móveis, haja vista a própria formalidade inerente ao ato da renúncia; com relação aos bens móveishaverá o abandono. - Abandono: *ato pelo qual o proprietário desfaz-se da coisa por não mais pretender ser o seu dono. *deve conter o ato sinais evidentes de querer abandonar a coisa, não bastando o mero desprezo físico da coisa. *negócio jurídico unilateral. *não se confunde com a perda involuntária da coisa: quem perde a coisa não perde a sua propriedade, mas apenas está privado momentaneamente de exercê-la. *imóvel abandonado poderá ser declarado como bem vago e ser arrecadado para após três anos passar a propriedade ao Município, ao Distrito Federal ou à União – art. 1276 e par. único CC: #dispensa a formalidade do registro, mas a eficácia da perda da propriedade somente ocorrerá quando a titularidade no registro for alterada com a inserção do nome do novo proprietário. #o fato de o proprietário ter abandonado o bem imóvel não implica necessariamente na arrecadação por parte do Estado, posto que se estiver na posse de outrem estará este dando função social e poderá usucapir após o prazo aquisitivo. #há discussão doutrinária acerca da inconstitucionalidade do dispositivo por configurar ofensa ao devido processo legal (art. 5º, LVI, CF/88), por não poder haver perda da propriedade sem a respectiva indenização, haveria ofensa ao princípio do contraditório (art. 5º, LV, CF/88), haveria ofensa ao art. 150, IV, da CF/88, que veda a adoção de tributo com efeito de confisco. - Perecimento: *é a perda das qualidades essenciais ou do valor econômico da coisa de forma completa. *ex. erosão física, provocada pelo homem ou pela natureza, em que perece o imóvel. *se ocorrer perecimento parcial não haverá a perda da propriedade, pois esta subsistirá de alguma forma – ex. incêndio que devasta o prédio, mas subsiste o terreno. - Desapropriação: *modo originário de aquisição e perda da propriedade imobiliária. *ocorre através de ato administrativo formal resultante da intervenção estatal na propriedade privada. *Decreto-Lei nº 3365/41, com as modificações posteriores, regula a matéria. *Modalidades: #por razões de utilidade pública para satisfazer interesses coletivos (art. 5º, Decreto-lei nº 3365/41). #por necessidade pública, face a questões urgentes de segurança e salubridade pública. #por interesse social para fins de reforma agrária (art. 184 CF/88). #desapropriação sanção (art. 182, §4º, CF/88, art. 8º, Lei 10257/01). #confisco (art. 243 da CF/88 e Lei nº 8.257/91). *Deve ser previamente paga uma justa indenização em dinheiro. *Fases: #a primeira, que é a fase administrativa, consiste na declaração pelo Poder Público do interesse sobre o bem através da promulgação do decreto expropriatório. #a segunda, que é a fase judicial, ocorre quando não há acordo quanto ao valor da indenização, movendo o Poder Público ação contra o titular da propriedade, a fim de que o juiz determine o preço a ser pago. *A perda da propriedade na desapropriação ocorre com o pagamento da indenização, que gera a transferência do bem. 6.10) Modos de aquisição da propriedade móvel 6.10.1) Ocupação - Modo originário de aquisição de propriedade móvel. - Alguém se apropria de forma imediata de coisas sem dono, seja porque foram abandonadas pelos seus donos (res derelictae) seja porque nunca foram apropriadas (res nullius). - Art. 1263 CC. - Pode ter como objeto seres vivos e coisas inanimadas, recaindo sobre animais sob a forma de caça e pesca, substâncias minerais, vegetais ou animais lançados à praia pelo mar. Incluirá também dinheiro e outros objetos abandonados. - Deve-se atentar para a legislação especial, como ocorre com animais silvestres, em que não é cabível a ocupação. - As coisas de uso comum não são passíveis de ocupação, como ocorre com o mar e o ar. - Não se confunde com coisa perdida, pois esta tem proprietário; nesse caso há obrigatoriedade de devolução da coisa (descoberta). - Tem como requisito o abandono intencional. 6.10.2) Achado do tesouro - “Tesouro em o depósito antigo de moedas ou coisas preciosas enterradas ou ocultas, cujo dono é desconhecido”. (Nelson Rosenvald e Cristiano Chaves de Farias) - Art. 1264 CC. - Requisitos: *o depósito das preciosidades deve ser realizado por obra humana. *estar enterrado ou oculto. *não haver conhecimento de quem seja proprietário. - Não importa o tempo em que foi oculta, basta comprovar os requisitos acima. - O problema central do achado do tesouro consiste em saber a quem pertencem os bens encontrados. - Soluções para algumas situações: *tesouro achado pelo proprietário do terreno, ainda que através de prepostos contratados para pesquisas: pertence ao proprietário – art. 1265 CC. *tesouro encontrado por pessoa que não é proprietária (descobridor), tem direito á metade como recompensa – art. 1264 CC. *aqueles que se encontraram na posse direta do imóvel mediante relação jurídica e o funcionário do proprietário que casualmente encontrarem casualmente o tesouro serão considerados estranhos e, portanto, descobridores. *se descobridor entrar em prédio alheio sem autorização com o objetivo de encontrar o tesouro não terá direito a nada, pois não se permite a vantagem mediante esbulho – art. 1265 CC. - Se terceiro comprovar a propriedade do achado não se falará em achado do tesouro. 6.10.3) Especificação - Modo originário de aquisição de propriedade mobiliária. - Ocorre mediante transformação de matéria-prima em espécie nova por meio do trabalho do especificador. - Se a matéria-prima pertencer ao especificador, dele será a titularidade do bem especificado, assim também o será se parte da matéria-prima pertencer ao especificador e não for possível retornar o produto à forma original – art. 1269 CC. - Não se trata de espécie de acessão, pois nesta há junção de uma coisa à outra, enquanto na especificação há transformação de uma coisa em outra. - Requisitos: *matéria-prima trabalhada não pertença ao especificador, pelo menos em parte. *haja transformação em espécie nova pelo especificador. - O problema central da especificação consiste em saber a quem pertence a propriedade da coisa nova. - Quando o especificador trabalha com matéria-prima alheia em parte, a obra será sua se não puder retornar à condição anterior – art. 1269 CC. - Se a matéria-prima pertencer integralmente a terceiro, dever-se-á levar em consideração a boa ou a má-fé: *se de boa-fé e não puder retornar ao estado anterior, pertencerá ao especificador – art. 1270 CC. *se de má-fé a coisa nova pertencerá ao dono da matéria-prima, não cabendo sequer indenização para que não haja estímulo à malícia e ao enriquecimento sem causa – art. 1270, §1º, c/c art. 1271 CC. *se o valor da coisa nova for muito superior ao da matéria-prima, ainda que haja má-fé a coisa nova será do especificador que deverá indenizar o dono da matéria-prima – art. 1271 CC. 6.10.4) Confusão, comissão e adjunção - Trata-se de modo originário de aquisição de propriedade móvel. - Possuem regras semelhantes, pois em todas as hipóteses coisas que pertencem a proprietários distintos terminam por se mesclar, formando uma só coisa, sem que se possa separá-las sem deterioração. - Comissão: *o CC se equivocou ao nominar de comissão; trata-se de comistão. *é a mistura de coisas secas ou sólidas, pertencentes a diferentes donos, sem que possam ser separadas e sem que se produza coisa nova. *mantém-se a natureza originária das coisas misturadas. *exemplo: café de duas qualidades. - Confusão: *é a mistura de coisas líquidas de diferentes pessoas, nas mesmas condições. - Adjunção: *é a justaposição de uma coisa sólida à outra, de tal modo que não possam mais se separadas sem deterioração do bem formado. - Na verdade, são formas de acessão de móvel para móvel. - Diferencia-se da especificação, pois nesta a junção de coisas produz uma espécienova, enquanto aqui nada de distinto das coisas originais é gerado. - Se a mescla for intencional, os proprietários decidirão o que fazer com o produto de forma consensual. - Art. 1272 CC: *se não for intencional e ambos os proprietários estiverem de boa-fé, bem como não havendo a possibilidade de separação, a propriedade será daquele que era proprietário da coisa principal, ou seja, com maior volume, sendo o outro indenizado. *se não puder concluir por qual das coisas era a principal, incidirá condomínio forçado, ou seja, cada um dos donos terá quinhão proporcional. - Art. 1273 e art. 1274 CC: se houve má-fé unilateral: *a parte inocente terá o direito de adquirir a propriedade do todo constituído, ressarcindo o valor da parte que não era sua com abatimento de indenização que lhe é devida pelo ato ilícito. *a parte inocente pode preferir renunciar à propriedade da coisa, recebendo ressarcimento e perdas e danos. 6.10.5) Usucapião - Modo de aquisição originária de propriedade móvel. - Assemelha-se à usucapião de bens imóveis. - Usucapião ordinária: *art. 1260 CC. *posse mansa, pacífica, ininterrupta e sem oposição. *prazo aquisitivo de 3 anos. *animus domini. *justo título e boa-fé. - Usucapião extraordinária: *art. 1261 CC. *posse mansa, pacífica e ininterrupta. *prazo aquisitivo de 5 anos. *animus domini. *dispensa justo título e boa-fé. - É possível a acessio possessionis e a sucessio possessionis. - Aplicam-se as causas impeditivas, suspensivas e interruptivas da prescrição extintiva – art. 1264 CC. - Usucapião de direito de uso: é considerado bem móvel para todos os efeitos legais (art. 83, II, CC), pelo que pode sofrer os efeitos da prescrição aquisitiva. - Furto ou roubo de veículo: *se aquele que adquiriu o bem do praticante do crime não o sabia e estava de boa-fé, poderá usucapir, desde que preenchidos os demais requisitos como o tempo, o justo título e a boa-fé. *quanto ao praticante do delito há duas correntes: .não poderá usucapir, sob o argumento de que a má-fé não pode gerar direito a favor de ninguém, diante da prática de um delito tipicado. .poderá usucapir pela forma extraordinária já que ela não exige justo título e boa-fé, desde que preenchidos os demais requisitos; o prazo aquisitivo iniciará contagem após cessada a violência; se o MP denuncia pelo crime, cessa a posse mansa e pacífica e ele perderá o bem com a condenação. - Efeitos: dispensa o registro, sendo suficiente a tradição da coisa; para haver oponibilidade contra terceiros, basta o registro no Cartório de Títulos e Documentos. 6.10.6) Tradição - É modo derivado de aquisição de propriedade mobiliária. - É a entrega do bem móvel pelo transmitente ao adquirente, com a intenção de lhe transferir a propriedade, mediante negócio jurídico. - Art. 1267 CC. - Desdobra-se em duas etapas: *convenção: é o negócio jurídico que serve como causa da tradição; não se impõe, a princípio, a forma escrita, exceto se o valor for superior a 10 salários mínimos para fins de se fazer prova em juízo, a teor do art. 227 do CC. *execução: mediante entrega da coisa pelo alienante concretiza-se o negócio jurídico; com a execução o direito obrigacional se converte em direito real a teor do art. 1226 do CC. - A tradição restringe-se às transferências de propriedade mobiliária entre vivos; se causa mortis, fala-se em saisine (art. 1784 CC). - O casamento também é modo de aquisição de propriedade mobiliária (assim como imobiliária), dispensando-se a tradição, pois o matrimônio pelo regime da comunhão total acarreta a imediata incorporação da meação e o matrimônio pelo regime da comunhão parcial estende os bens adquiridos após o casamento imediatamente à meação (art. 1660 CC). - Modalidades de transferência de bens móveis: *tradição real: é a forma usual de transferência, consistindo na entrega material da coisa ao adquirente. *tradição simbólica: traduz-se no ato representativo de transferência, não havendo entrega real, a qual é substituída por coisa equivalente. *tradição consensual ou ficta: é a que resulta de acordo de vontade dos interessados, por aposição de cláusula contratual, sem qualquer alteração fática. - Princípio do nemo plus iuris: ninguém pode transferir a outrem mais direito do que possui – art. 1268 CC – a tradição não aliena a propriedade se for realizada por quem não era o dono: *entretanto, se o bem móvel foi adquirido em leilão ou em estabelecimento comercial, o terceiro de boa-fé não perderá o bem, cabendo ao proprietário real requerer indenização contra o alienante, em decorrência da aplicação da teoria da aparência e do princípio da confiança. *admite-se a exceção e favor do adquirente de boa-fé se, depois, o alienante vier a adquirir a propriedade do bem. - Não se opera a tradição decorrente de negócio jurídico nulo – art. 1268, §2º, CC. 6.11) Propriedade resolúvel e ad tempus - Em duas situações distintas a propriedade poderá ser revogada, provocando a destituição da titularidade, seja por imposição da autonomia privada seja por imposição da lei: trata-se da propriedade resolúvel e da propriedade ad tempus. - Propriedade resolúvel: *art. 1359 CC. *ocorre quando a titularidade já nasce com a perspectiva de durabilidade subordinada a um acontecimento futuro e certo (termo final) ou incerto (condição resolutiva). *há uma cláusula no negócio jurídico que determina a extinção do direito subjetivo para certo tempo. *o proprietário resolúvel age como qualquer proprietário enquanto não verificado o evento futuro, exercitando todos os poderes dominiais sobre o bem. *efetivando-se o termo final, resolve-se a propriedade, que será titularizada pelo proprietário diferido. *o efeito é ex tunc, pelo que: # o novo proprietário poderá reivindicar a coisa do poder de terceiros que negociaram com o proprietário resolúvel; o terceiro não poderá alegar boa- fé, pois a cláusula resolutiva decorre de registro no ofício imobiliário. #se a propriedade foi gravada pelo proprietário resolúvel com ônus reais este estará extinto. - Propriedade ad tempus: *art. 1360 CC. *a extinção do direito de propriedade decorre de um evento superveniente, inexistindo cláusula contratual. *como a propriedade se extingue por fato posterior à transmissão do direito, não há efeitos retroativos, sendo preservados os atos praticados pelo proprietário antes da extinção da propriedade; portanto tem efeito ex nunc. *se foi adquirida por terceiros, a alienação valerá, cabendo ao prejudicado tão somente direito indenizatório (no valor do bem) contra aquele que alienou o bem. *surge nas transmissões gratuitas, pois toda liberalidade pode ser revogável por evento futuro. 6.12) Propriedade superficiária - “O direito de superfície consiste na faculdade que o proprietário possui de conceder a um terceiro, tido como superficiário, a propriedade das construções e plantações que este efetue sobre ou sob o solo alheio, por tempo determinado ou sem prazo, desde que promova a escritura pública no registro imobiliário”. (Nelson Rosenvald e Cristiano Chaves de Farias) - Em princípio as construções e plantações são acessões e se realizadas em solo alheio pertencerão ao proprietário. - No direito de superfície haverá a suspensão temporária dos efeitos da acessão na medida em que a propriedade da construção ou da plantação realizada em solo alheio será daquele que o fez, permanecendo a propriedade do solo com seu proprietário. - O superficiário e o proprietário do solo atuam em esferas distintas: enquanto o superficiário adquire a propriedade resolúvel das acessões, o proprietário mantém a titularidade sobre o solo. - Não há desdobramento dos poderes dominiais, mas a criação de duas propriedades autônomas, mantendo-se cada qual os atributos dominiais. - Não há relação de subordinaçãoentre as duas propriedades. - Constitui-se em direito real após a celebração de um contrato solene, firmado por escritura pública e obrigatoriamente levado registro, independentemente do valor – art. 1369 CC. - Pode ser deixado como legado em testamento. - O proprietário perceberá uma renda pela concessão da superfície e estará dando função social à propriedade. - O Estatuto da Cidade tb prevê o direito de superfície, sendo que subsistem suas normas mesmo com o advento do CC/02, pois este visa atender interesses e necessidades privadas e aquele visa promove a função social da cidade (política de desenvolvimento urbano) para evitar a subutilização de espaços urbanos e incrementar a criação de empregos. - Tem natureza de verdadeira propriedade e de direito real em coisa alheia, pois sua formação resulta de uma concessão do titular do solo e é proprietário da construção ou plantação que concretizou. - Conteúdo: *o direito de superfície integra o patrimônio de seu titular, podendo ser transferido inter vivos e causa mortis – art. 1372 CC; há direito de preferência do proprietário do solo – art. 1373 CC. *toda forma de transmissão do direito valerá apenas pelo prazo fixado no negócio jurídico originário. *o superficiário poderá reivindicar a coisa de terceiros, bem como ajuizar ações possessórias, pois é titular da propriedade e da posse da área objeto da concessão; o proprietário do solo tem o mesmo direito. *o superficiário poderá ceder poderes dominiais, como usufruto, servidão e direito de habitação, bem gravar com garantia. *no CC somente admite-se a constituição de superfície em negócios jurídicos com prazo, enquanto a Lei 10257/01 a permite sem prazo (art. 21). *a legislação não expressa tempo mínimo e máximo de constituição. *pode ser gratuita visando que as obras revertam ao final para o patrimônio do proprietário do solo ou pode haver remuneração paga de uma só vez ou mediante pagamento mensal (solarium) – art. 1370 CC. *os tributos que incidam sobre o imóvel será de responsabilidade do superficiário – art. 1371 CC, mas poderão dispor de forma diversa no contrato, sendo que poderá o Poder Público cobrar o tributo de ambos. - Extinção: *a extinção deve ocorrer mediante cancelamento no Cartório de Registro de Imóveis. *o proprietário do solo passa a ter a titularidade plena, adquirindo as acessões edificadas pelo superficiário, sem indenização a este se o contrato não constou de forma diversa – art. 1375 CC. *se não houver prazo fixado no negócio jurídico, deverá o superficiário ser interpelado judicial ou extrajudicialmente pelo proprietário do solo comunicando da resolução contratual, concedendo prazo razoável para utilização do terreno – arts. 397, p. único, 473 CC (se não conceder prazo razoável, o juiz poderá suspender a resolução e permitir a utilização em decorrência dos investimentos realizados). *se o superficiário der destinação diversa da combinada ou nada executar no solo, poderá ser a superfície extinta antes do prazo – art. 1374 CC; pode cumular pedido de indenização se o proprietário do solo tiver tido prejuízo. *pode o proprietário do solo se utilizar das ações cominatórias de obrigação de fazer e de não fazer, caso não queira extinguir a superfície, com base no art. 461 CPC. *o inadimplemento do superficiário quanto ao pagamento do solarium ou outras cláusulas contratuais também é causa de resolução. *poderá haver aquisição de direito de superfície por usucapião – mas há discussão doutrinária acerca da possibilidade. *se houver desapropriação do imóvel na constância da relação de superfície, a indenização caberá proporcionalmente ao proprietário do solo e ao superficiário – art. 1376 CC. 7- DIREITOS DE VIZINHANÇA 7.1) Considerações gerais - Nos direitos de vizinhança, a norma jurídica limita a extensão das faculdades de usar e gozar por parte dos proprietários e possuidores de prédios vizinhos, sendo a eles imposto um sacrifício para que a propriedade de cada um seja respeitada e haja convivência social pacífica. - O conflito de vizinhança nasce quando um ato do proprietário ou do possuidor de um prédio repercute no prédio vizinho, causando incômodo ao morador ou ao seu imóvel. - Visa preservar a harmonia entre os vizinhos e, consequentemente, a função social da propriedade. - A expressão “propriedade vizinha” não se aplica apenas aos prédios confinantes, mas também a todos os prédios que puderem sofrer repercussão dos atos propagados de prédios próximos. - O vocábulo prédio não se aplica apenas a imóveis urbanos, mas também aos rurais, independente da destinação residencial, comercial ou industrial. O terreno não edificado também em proteção. Enfim, imóvel lato sensu. - A natureza jurídica dos direitos de vizinhança é, para a maioria dos doutrinadores, de obrigação propter rem, pois vinculam-se ao prédio, assumindo- os quem quer que esteja em sua posse. - Podem ser: *gratuitos – quando não geram indenização, por serem compensados por idêntica limitação ao vizinho. *onerosos – quando a supremacia do interesse público impõe uma invasão na órbita dominial do vizinho para a sobrevivência do outro, gerando indenização por não haver reciprocidade. - Exemplos de deveres cooperativos entre os vizinhos: passagem de cabos e tubulações. 7.2) Uso anormal da propriedade - O proprietário ou o possuidor (direto ou indireto) não podem exercer seu direito de forma que venha a prejudicar a segurança, o sossego e a saúde dos que habitam o prédio vizinho. - A legitimidade ativa para a propositura de ações estende-se aos aparentes proprietários, sejam titulares de direitos reais sejam titulares de direitos obrigacionais, pois exercitam ingerência socioeconômica sobre o imóvel na qualidade de possuidores. - É proibida qualquer utilização do bem que extrapole o uso normal e acarrete uma imissão nociva na posse ou na propriedade alheia a ponto de acarretar lesão á saúde, sossego ou segurança dos prédios vizinhos. - Segurança: atos que possam comprometer a solidez e a estabilidade material do prédio e a incolumidade pessoal de seus moradores. - Sossego: conectado ao direito à privacidade; possibilidade de afastar ruídos excessivos que comprometam a incolumidade (da mente) da pessoa (ex. bailes, algazarras, animais e vibrações intensas). - Saúde: referente à salubridade física ou psíquica que pode ser afetada por moléstia à integridade dos vizinhos; as ofensas ao sossego podem implicar em atentado à saúde. - Art. 1277 Cc – numerus clausus, não comportando interpretação extensiva. - Se as ofensas não repercutirem na saúde, segurança ou sossego, a questão não será atinente aos direitos de vizinhança. - A segurança, o sossego e a saúde são direitos de personalidade inerentes a qualquer ser humano. - O mau uso da propriedade dá-se pela prática de atos ilegais, abusivos ou excessivos: *atos ilegais: #consistem na conduta voluntária lesiva ao interesse de vizinhos. #o proprietário ou possuidor viola um dever legal de cuidado, intencionalmente ou pela inobservância da cautela devida. #já é situação tutelada pelo CC, no art. 186, tendo suporte nas normas de responsabilidade civil. *atos abusivos: #consiste no exercício de um direito reconhecido ao proprietário ou possuidor, mas com desvio de finalidade. #é considerado um ato ilícito pelo CC – art. 187. *atos excessivos: #praticados com a finalidade legítima, mas ainda assim geram danos anormais e injustos, passives de indenização. - A distinção entre atos ilícitos, abusivos e excessivos é meramente doutrinária, pois em sede de direitos de vizinhança qualquer ato que importe em uso anormal ou normal da propriedade que acarrete interferências no imóvel vizinho ensejará as cominações dos direitos de vizinhança. - Há uma margem de incômodo que deve ser tolerado pelos vizinhoscomo parâmetro mínimo de convivência e civilidade, devendo ser analisado o caso concreto – art. 1277, p. único, CC. - Há o uso anormal pelo não uso, em que o imóvel está abandonado, podendo ser aplicadas as regras dos direitos de vizinhança. - Uso normal, causando incômodos normais, tem como conseqüência danos lícitos e atos lícitos, pelo que nenhum direito há para o prejudicado. - Uso normal, causando incômodos anormais, mas socialmente necessários, tem como conseqüência danos ilícitos e atos ilícitos, havendo direitos do prejudicado à indenização: *arts. 1278 e 1279 CC. *o juiz deverá utilizar do juízo de ponderação no caso concreto. - Uso anormal, causando danos anormais, sem justificação social por não existir interesse coletivo na atividade, tem como conseqüência dano ilícito oriundo de ato ilícito, havendo direito de o prejudicado exigir a cessação do uso: *pode ser utilizada ação cominatória (art. 287 CPC), com tutela inibitória (art. 461 CPC); cautelar (arts. 798 e ss.) do CPC; dano infecto – dano iminente e provável ao morador (art. 1280 CC) se houver justo receio de ser prejudicado pela ruína de prédio vizinho); nunciação de obra nova (art. 934 CC) para embargar a obra vizinha. *cabe ação civil pública se afetar toda a comunidade. 7.3) Árvores limítrofes - Se o tronco da árvore estiver na linha divisória dos imóveis, presume-se, iuris tantum, pertencer aos dois vizinhos em condomínio necessário, em partes iguais – art. 1282 CC. - Quando os frutos caírem naturalmente (não pode ser a queda provocada) no terreno vizinho, em local próximo à linha divisória, pertencerão ao dono do local da queda – art. 1284 CC (é a exceção ao fato de o acessório seguir o principal, a fim de evitar invasões em terrenos alheios contendas futuras). Se os frutos caírem em solo público, pertencerão ao dono da árvore, incidindo aquele que os colher no crime de furto. - Quando os ramos e raízes ultrapassarem a divisão dos prédios, o dono do terreno invadido poderá corta-los até a divisa sem que haja autorização prévia – art. 1283 CC. 7.4) Passagem forçada - Benefício reconhecido ao titular de prédio encravado urbano ou rural. - Art. 1285 CC. - O proprietário vizinho deve conceder a passagem forçada, como forma de imposição de solidariedade social, a fim de que o imóvel encravado não se torne inacessível ou improdutivo. - Para a doutrina tradicional o encravamento deverá ser absoluto, sem qualquer saída para a via pública; se tiver saída, ainda que precária e penosa, deverá utilizá-la. - Para a doutrina moderna, o juiz poderá dar interpretação extensiva à norma e, em havendo penosidade e periculosidade do percurso, poderá impor a passagem forçada, até mesmo como uma forma de atender a exploração econômica do imóvel, dando-lhe função social. - Trata-se de direito de vizinhança oneroso: o vizinho onerado poderá exigir indenização para composição dos prejuízos oriundos do trânsito. Pode ser acordado amigavelmente ou judicialmente. - Extingue-se a passagem com a verificação da cessação da necessidade. - Tanto proprietário como possuidor podem propor ação para fixação da passagem. - Não se confunde com servidão de passagem. 7.5) Passagem de cabos e tubulações - O proprietário será obrigado a tolerar a passagem, através do seu imóvel, eis que se trata de serviços públicos essenciais. - Art. 1286 CC. - Prevalece o interesse social dos proprietários vizinhos. - Somente ocorrerá se de outro modo não puder o vizinho realizar a passagem ou o for de forma excessivamente onerosa. - Aplica-se apenas ao subterrâneo, não se estendendo ao espaço aéreo ou à superfície. - Caberá indenização em proveito do proprietário pela restrição à sua faculdade de fruição sobre o imóvel, podendo o proprietário impedir a obra enquanto não for pago. - Se as instalações oferecerem riscos, o proprietário do prédio poderá exigir realização de obras de segurança – art. 1287 CC. 7.6) Águas - Código das águas – Decreto nº 24.643/32. - O CC/02 somente revogou o Código das Águas naquilo em que se contradizem. - O CC somente trata das águas quanto ao conflito de vizinhança – art. 1288 CC. - O proprietário ou possuidor do prédio inferior é obrigado a receber e a escoar as águas pluviais (nascentes ou correntes) do superior, sem direito à indenização. - Poderá o proprietário do prédio inferior exigir a realização de obras no superior para reduzir o impacto da passagem das águas. - Poderá o proprietário do prédio inferior realizar obras para aproveitar a água que oriunda do prédio superior, desde que não prejudique fluxo normal do escoamento. - Excluem-se da obrigação do art. 1288 CC as águas obtidas pelo proprietário através de máquinas e bombas, por vias de cisternas e poços. Nesses casos o proprietário inferior não terá de recebê-las, pois não atingiram seu terreno de forma natural: *nesse caso poderá exigir obras que alterem o fluxo das águas, bem como indenização por prejuízos – art. 1289 CC. - Não pode o proprietário superior realizar obras para impedir que o inferior também tenha acesso a elas, mesmo se a nascente estiver em seu terreno – art. 1290 CC. (deve ser aplicado o princípio da solidariedade) - O proprietário superior não poderá poluir as águas destinadas ao inferior, sob pena de realização de obras para restabelecer o estado primitivo, que, se não for possível, deverá indenizar – art. 1291 CC. - Artigos 1293 a 1296 CC cuidam da servidão de aqueduto, que assegura ao necessitado (proprietário ou possuidor) o direito de canalizar ou conduzir águas através de prédios alheios, ás suas expensas, indenizando previamente os prédios prejudicados pelo uso do terreno e também em virtude de potenciais danos que eventuais falhas no aqueduto possam causar ao imóvel vizinho. - Aplica-se ao caso o regime jurídico da passagem de cabos e tubulações – arts. 1294 c/c 1286 CC. - O proprietário apenas poderá edificar canais para receber águas a que tenha direito quando estas se mostrem indispensáveis às primeiras necessidades da vida – art. 1293 CC: *o aqueduto não pode inibir que o proprietário onerado possa edificar ou cercar seu imóvel, bem como que utilize as águas que excedam às necessidades do titular do aqueduto para também satisfazer suas necessidades vitais. 7.7) Limites entre prédios e direito de tapagem - O direito de tapagem consiste em cercar, murar ou tapar seu prédio, de acordo com o previsto nas normas administrativas. - Basta o desejo de realizar a obra, não necessitando justificativa. - O proprietário pode constranger seu confinante a proceder com ele a demarcação entre dois prédios, fixando linhas divisórias, bem como a renovar marcos destruídos. - Art. 1297 CC. - Há presunção juris tantum de comunhão de muros, cercas e tapumes divisórios – art. 1297, §1º, CC (há condomínio necessário – art. 1327 CC). - As defesas de construção deverão ser repartidas entre os confrontantes – art. 1297, §2º, CC. - Poderá haver determinação judicial para a construção, dividindo as despesas. - Se forem necessários tapumes especiais, a responsabilidade pelo pagamento da especialidade será daquele que necessitar (ex. tapume para manter afastados animais de pequeno porte como aves, cães e gatos). - As ações demarcatórias de terras particulares são reguladas pelo CPC (art. 946), enquanto que as de terras devolutas são reguladas pela lei 6383/76. - Para fins de ação demarcatória, o conceito de vizinhança é restrito, compreendendo somente aquele prédio limítrofe que possui relação de continuidade imediata com o confinante. - A maior parte da doutrina e da jurisprudência restringe ao proprietário a legitimidade para a propositura da ação demarcatória, não cabendo ao possuidor o manejo da ação, ao contrário dos demais direitos de vizinhança. - Para Nelson Rosenvald e CristianoChaves de Farias, também o poderá o possuidor, sob a analogia da extensão da ação de nunciação de obra nova, a teor do art. 942, I, CPC. - Caberá a legitimidade ativa da ação demarcatória também ao condômino – art. 952 CPC, devendo requerer a citação dos demais condôminos para figurarem no pólo ativo da demanda. - Regras para solucionar o conflito de limites – art. 1298 CC: *demarcação será realizada com base nos títulos apresentados pelos confinantes. *sendo os títulos insuficientes, será privilegiado aquele que detiver a posse justa (art. 1200 CC). *sendo inconclusivo o critério possessório, a divisão será realizada equitativamente, em partes iguais. *não sendo possível a divisão da área entre os litigantes, será ela adjudicada a um deles com indenização ao outro, sendo que caberá ao juiz indicar quem adjudicará face a omissão da lei. - Poderá o possuidor alegar em defesa na ação demarcatória a usucapião se preenchidos os seus requisitos – Súmula 237 STF. - Demarcação não se confunde com divisão: aquele visa estremar limites, enquanto esta visa partilhar a coisa comum divisível entre condôminos (art. 967 CPC). Mas ambas podem ser cumuladas (art. 947 CPC). 7.8) Direito de construir - Não poderá ser exercitado de forma irrestrita. - Limites do direito de construir: *limitações oriundas de cláusulas contratuais. *limitações impostas por regulamentos administrativos. *limitações impostas pelo direito de vizinhança (art. 1299 CC). *limitações impostas pela função social da propriedade (ex. construir mais ou menos andares em decorrência da necessidade pela função social da propriedade). - Código Civil: *artigo 1300 CC. *proibição do direito de abrir janelas (terraço e varanda) em prédios urbanos a menos de metro e meio da linha divisória – art. 1301 CC (visa proteger a privacidade e evitar queda de objetos): #a legislação local poderá alargar a distância. #a distância é contada da linha divisória e não da outra janela do vizinho. *na zona rural, as edificações não poderão ser levantadas a menos de três metros do terreno vizinho – art. 1303 CC. *ação cabível para embargar a obra: nunciação de obra nova – arts. 934 e ss. do CPC. *se a obra já estiver finda e não tiver ajuizado ação de nunciação de obra nova, caberá ajuizar ação demolitória, pleiteando desfazimento da obra e indenização se ocorreu prejuízo – essa ação tem prazo decadencial de ano e dia, a contar da conclusão da obra, quando da expedição do “habite-se” – art. 1302 CC. *pode cumular ação de nunciação de obra nova com demolitória, caso se mostre o embargo liminar inviável. *ação de dano infecto refere-se a obra velha que ameaça ruir – art. 1280 CC. *a obra finda e não demolida construída sem a distância exigida, no que tange à abertura e passagem para a luz, não acarreta impedimento para que o prédio prejudicado construa e impeça a passagem de luz para aquele, pois não há que se falar em usucapião se servidão de luz, a qual poderá existir somente se as partes celebrarem negócio jurídico – art. 1302, p. único, CC. *a construção e utilização das paredes divisórias somente será possível se o prédio já existente suportar a construção, o que poderá ser apurado mediante perícia – arts. 1304 a 1307 CC: #não poderá colocar em risco a parede do vizinho, devendo, se for o caso, realizar obras de acautelamento prévias e, se ainda assim, houver prejuízo, terá direito a ressarcimento – art. 1311 CC. *O Município pode embargar a obra administrativamente; se a ordem não for cumprida, poderá ajuizar as ações já mencionadas.das relações jurídicas. Vislumbra-se superficialmente a função social da posse. *Teoria Objetiva de Ihering: #A posse seria o mero exercício da propriedade. #Admite que a posse é anterior à propriedade para justificar a inferioridade daquela em relação a esta. #A posse seria o poder de fato e a propriedade o poder de direito sobre a coisa. #O possuidor seria aquele que desse destinação econômica à propriedade, comportando-se como se fosse o proprietário. #Não concebe espaço ilimitado à vontade do possuidor, pois esta tem limites na norma. #Não é o elemento vontade que revela a posse, mas sim como o poder de fato da pessoa sobre a coisa é exteriorizado. Utiliza, pois, a fórmula P=C. #Por defender que a distinção entre possuidores e detentores advém do ordenamento jurídico, ou seja, este explicitará a diferença, e não o elemento vontade, a teoria foi denominada objetiva. #Mérito: essa teoria é considerada um avanço do ponto de vista econômico e prático, posto que, abdicando do elemento animus, amplia o rol de possuidores, estendendo aos então meros detentores a qualidade de possuidores. #Crítica: subordina a posse à propriedade, desconsiderando integralmente a sua autonomia; reduz a posse a um direito ínfimo como mera exteriorização do direito de propriedade. - O Código Civil de 1916 adotou a teoria objetiva. E o mesmo se repetiu como Código Civil de 2002, consoante conceito expresso no artigo 1196: *Não obstante, o CC de 2002 fez concessão à teoria subjetiva quando se refere à usucapião como modo aquisitivo de propriedade que requer animus domini. - As teorias subjetiva e objetiva, nos dias atuais, são consideradas incapazes de justificar o fenômeno possessório frente aos direitos fundamentais. Antes, privilegiava-se o ter sobre o ser. Hodiernamente, frente ao Estado Democrático de Direito e os princípios e garantias fundamentais, a concepção patrimonialista foi reduzida (função social), inclusive no CC de 2002, exceto na parte em que conceitua a posse. 4.2- Conceito - Artigo 1196 do Código Civil de 2002. 4.3- Natureza jurídica - Possui três dimensões: *quando possuidor e proprietário são a mesma pessoa – natureza jurídica de direito real. *quando o objeto é a coisa, e não o direito de posse em si, como ocorre nos contratos de locação, comodato e promessa de compra e venda, o fato jurídico que atribui posse a determinadas pessoas é a relação jurídica obrigacional – natureza jurídica de direito obrigacional. *a posse não se situa no âmbito dos negócios jurídicos e, portanto, não teria natureza jurídica de direito real e nem de direito obrigacional; trata-se de posse decorrente de situação fática de apossamento ou ocupação da coisa, cuja natureza não se encaixa nas teorias tradicionais; nesse âmbito é que se vislumbra a função social da posse. 4.4- Função social da posse - Proteger a posse no intuito de zelar pela propriedade é uma forma de relegar o seu aspecto social. - Os doutrinadores modernos reinterpretam a posse, consubstanciados em valores sociais. - A posse é tutelada como um direito especial, qual seja direito de moradia (art. 6º da CF/88 – EC nº 26/01). - A posse, em decorrência, é oponível erga omnes, não por condição de direito real patrimonial, mas pelo atributo de proteção da moradia, como local de resguardo de privacidade e desenvolvimento familiar e do ser humano. - A posse passa a ser despatrimonializada. - A função social da posse cuida de uma expressão natural da necessidade. - Colisão de princípios: direito à propriedade (art. 5º, XXII, CF/88) e função social da propriedade (art. 5º, XXIII, CF/88) – juízo de ponderação: *o titular do direito de propriedade tem um direito fundamental, mas tem responsabilidades perante a sociedade, sendo penalizado por uma conduta ilegítima, estimulando o direito fundamental à moradia à luz do princípio da dignidade da pessoa humana. *analisa-se a atuação do possuidor sobre a coisa que o titular desvirtuou de sua função social. *exs.: art. 1228, §4º, CC – desapropriação indireta judicial em favor da coletividade que deu função social à posse; par. único do art. 1238 e do art. 1242, CC – redução do prazo aquisitivo de usucapião aos possuidores que derem função social à posse; art. 1210, §2º, CC – eliminou o direito de opor exceção de propriedade, privilegiando a posse e sua função social. *jurisprudência. *observações: #a desapropriação indireta é uma modalidade de desapropriação por interesse social e, por isso, não cabe dizer que é inconstitucional por pretensamente ferir o princípio constitucional que garante o direito de propriedade. Até porque o legislador tem a faculdade de definir interesse social nos termos do inciso XXIV do art. 5º da CF/88; #na desapropriação indireta o proprietário deverá ser indenizado pelos possuidores ou pelo Poder Público, analisado o caso concreto; a indenização deve ser justa, o que não significa valor de mercado, pois ressarcir o proprietário integralmente é premiar o abuso; se os possuidores realizarem benfeitorias, estas não serão indenizadas. #o juiz não pode de ofício suscitar a desapropriação indireta, a qual deve ser alegada pelos réus da ação reivindicatória (ação de natureza dúplice, com pedido contraposto na contestação). #a desapropriação indireta não se confunde com a usucapião coletiva prevista no Estatuto das Cidades (Lei 10.257/01, art. 10), pois nesta tem de ser população de baixa renda, imóvel urbano, exige animus domini, dispensa boa-fé, não tem que ser argüida necessariamente em defesa, cada possuidor não pode possuir mais de 250m². #a desapropriação indireta não visa beneficiar desfavorecidos, atinge todo e qq. imóvel urbano ou rural, não dispensa boa-fé, dispensa animus domini, somente pode ser alegada em via de defesa, tem ser área extensa, não há metragem mínima para cada morador; gera indenização ao proprietário. - A função social da propriedade está expressamente positivada (art. 1228, §1º, CC; art. 5º, XXIII, CF/88)); a função social da posse não. Não obstante esta é aplicável com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais e por analogia à função social da propriedade. - Optar pela defesa do proprietário que não concedeu função social à propriedade em detrimento do possuidor que a concedeu implica em validar o abuso do direito de propriedade a configurar ato ilícito nos termos do art. 187 do CC. 4.5- Objeto da posse - Somente as coisas corpóreas, ou seja, que podem ser vistas e tocadas, podem ser objeto da posse, posto que apenas sobre elas se pode exteriorizar um poder fático. - Não são objeto de posse os direitos pessoais ou da personalidade, como, por exemplo, os direitos autorais. Ex. Sumula 228 do STJ. 4.6- Desdobramento da posse - Somente ocorre quando faculdades do domínio são entregues a outrem pelo proprietário. - A posse desdobra-se em: *direta ou imediata: é a adquirida pelo não proprietário e é marcada pela temporariedade – art. 1197 CC. *indireta ou mediata: é a conservada pelo proprietário quando cede temporariamente o poder de fato sobre a coisa. - A posse direta não se confunde com a detenção. O detentor não exerce atos possessórios, pois não pratica atos de posse em nome próprio, mas em nome alheio – art. 1198 c/c 1204, CC. - A posse direta sempre será uma. - O possuidor direto pode defender sua posse do possuidor indireto enquanto perdurar o negócio jurídico. - Tanto o possuidor direto quanto o indireto podem defender a posse com relação a terceiros que a agridam. Não é necessário o litisconsórcio ativo. 4.7- Composse - Posse comum e de mais de uma pessoa sobre a mesma coisa, que se encontra em estado de indivisão – art. 1199 CC (na propriedade tem-se o condomínio; na posse, tem-se a composse). 4.8- Detenção - O poderde fato exercido pela coisa é desqualificado como posse pelo ordenamento jurídico. - Hipóteses de detenção: *Os servidores da posse: são as pessoas que detém o poder físico sobre a coisa em relação de subordinação para com terceiro – art. 1198 CC. Ex. caseiro: #se o servidor da posse receber citação em uma ação possessória deverá nomear á autoria (art. 62 do CPC) o empregador, pois este é o verdadeiro possuidor. #o servidor não tem legitimidade ativa para ajuizar a ação possessória, mas pode utilizar o desforço imediato para defender a posse. *Atos de permissão ou tolerância: o possuidor coloca a coisa à disposição de outrem sem formalizar um negócio jurídico; tem como caracaterística a transitoriedade – art. 1208 CC. Ex. espectador que assiste a um filme não se torna possuidor da poltrona; utilização de vaga de garagem do vizinho: #a permissão é a autorização expressa do verdadeiro possuidor para que o terceiro utilize a coisa. #a tolerância é o consentimento tácito ao uso da coisa. *Atos de violência ou clandestinidade: quando as pessoas utilizam de violência ou da clandestinidade para se apossar da coisa. *Atuação em bens públicos de uso comum do povo ou de uso especial: são bens inalienáveis – art. 100 CC. Em decorrência, o particular que ocupa esse bem o faz na mera condição de detentor: #o que importa é a afetação do bem, ou seja, a destinação dada a ela, pois se estiver diante de bem público dominical, ou seja, que são utilizados pelo Poder Público como particulares, sem destinação pública e alienáveis, poderá haver atuação possessória. - O detentor pode figurar no pólo passivo das ações reivindicatórias – art. 1228 CC. Mas essa disposição somente será aplicada nas hipóteses de atos de violência ou clandestinidade, posto que a coisa julgada não poderá alcançar o real possuidor nas demais hipóteses de detenção se ele não participou da relação processual por ferir o princípio do devido processo legal. 4.9- Classificação da posse - Quanto aos vícios objetivos: *posse justa: aquela cuja aquisição não é repugnada pelo Direito, isto é, que não for violenta, clandestina ou precária – art. 1200 CC. *posse injusta: aquela cuja aquisição ocorre de modo proibido, tendo interpretação restrita, ou seja, se o imóvel foi abandonado pelo proprietário não que se falar em posse injusta; subdivide-se em: #posse violenta: adquirida pelo uso da força ou da ameaça. #posse clandestina: adquirida de forma oculta, sem dar publicidade á ocupação. A ocultação refere-se á pessoa que tem interesse em recuperar a coisa, pelo que pode ser eventualmente constatada por terceiros que continuará sendo clandestina. O desejo de clamuflar a posse deve ser demonstrado, não bastando o mero desconhecimento. A vítima tem de ter condições reais de conhecer a violação ao seu direito. #posse precária: advém do abuso de confiança do possuidor que retém a coisa indevidamente após o término do negócio jurídico que originou a posse. *Apesar de se falar em posse violenta e em posse clandestina, somente se falará em posse quando cessarem os vícios, pois enquanto se faz uso da violência e da clandestinidade haverá mera detenção. - Quanto ao vício subjetivo: *posse de boa-fé: quando o possuidor ignora o vício ou o obstáculo que impede a aquisição da coisa – art. 1201 CC. O desconhecimento do fato decorre de comportamento que observou os deveres de cuidado e diligência: .incorreta análise da realidade; pensa estar agindo nos limites de um direito. *posse de má-fé: decorre da ciência do possuidor quanto ao fato de sua posse ser ilegítima. - A posse pode ser justa e de má-fé. - A posse pode ser injusta e de boa-fé. - A distinção entre boa-fé e má-fé na posse terá aplicação prática para: *percepção dos frutos – art. 1214 CC: são as utilidades que a coisa produz periodicamente, preservando a coisa: *indenização pela evicção – art. 457 CC. *direito de retenção por benfeitorias – art. 1219 CC. *reduzir prazo aquisitivo da usucapião quando munido de justo título – par. único do art. 1210 CC. 4.10- Interversão da posse - Trata-se da alteração do caráter da posse. - A princípio, mantém a posse o mesmo caráter da aquisição – art. 1203 CC. - Porém, excepcionalmente, pode ocorrer a interversão (inversão) da posse, em duas situações decorrentes de fatores externos: *fato de natureza jurídica: decorre de uma relação jurídica de direito real ou de direito obrigacional; o possuidor que mantém posse viciada sana os vícios de origem, alterando o seu caráter – ex. alguém que tenha adquirido a posse de forma violenta adquire o imóvel por contrato de compra e venda, convertendo, assim, a posse injusta em posse justa. A interversão nesse caso é bilateral, ou seja, depende de acordo de vontades. *fato de natureza material: á a manifestação por atos exteriores e prolongados do possuidor no sentido de privar o proprietário do poder de disposição que tem sobre a coisa: #a alteração do caráter da posse nesse caso não é aceita pela maioria dos doutrinadores e dos tribunais, sob o argumento de que nesse caso a posse jamais poderia convalescer, ou seja, inverter, por ser precária, a teor do art. 1208 do CC – ex. servidor da posse que permanece no imóvel após demissão; locatário que permanece no imóvel após o término do contrato sem pagamento de aluguéis e encargos ou qualquer avença (passaram a ter posse precária). #não obstante, em alguns casos, a inércia do proprietário e diante da função social da posse, o possuidor que mantém a posse por longos anos e sem oposição não poderá ser privado do direito à usucapião. 4.11- Aquisição e perda da posse 4.11.1- Aquisição - Adquire-se a posse no momento em que se torna possível exercer em nome pp. quaisquer dos poderes inerentes à propriedade; isso face á teoria objetiva de Ihering adotada pelo CC – art. 1204. - Distingue-se em: *aquisição da posse natural: surge do apossamento, do controle material sobre a coisa; a pessoa de forma pública exerce poderes inerentes à propriedade; não há base negocial. É modo originário de aquisição da posse, pois não há relação jurídica entre o novo possuidor e o antigo possuidor ou proprietário. *aquisição de posse civil (ou jurídica): adquirido através de um título, ou seja, está condicionada aos requisitos de validade do negócio jurídico; independe de apreensão material da coisa. É modo derivado de aquisição da posse. - Sujeitos da aquisição da posse: *pode ser adquirida pelo representante (legal, judicial ou convencional) da pessoa que deseja a posse, bem como pelo seu gestor de negócios – art. 1205, I e II, CC. - Constituto possessório: *há uma inversão no título da posse com base em uma relação jurídica. *aquele que possuía em nome pp., com animus domini, passa a possuir em nome alheio, ou seja, continua com o poder de fato sobre a coisa, mas não mais como proprietário e sim com outro título. *o legislador foi omisso quanto à aquisição da posse pelo constituto possessório; entretanto essa forma de aquisição não está suprimida face à natureza das coisas, eis que sendo a posse um direito pode ela ser transmitida através de acordo de vontades; até porque está expressamente previsto no CC em outras seções como no art. 1267. - União das posses: continuação da posse; soma das posses do atual possuidor a de seus antecessores – art. 1207 CC; subdivide-se nas seguintes espécies: *sucessio poossessionis: não há propriamente uma aquisição da posse, mas a passagem de todo o patrimônio; os herdeiros continuam a posse dos bens que compões a herança. *accessio possessionis: ocorre entre vivos e por meio de uma relação jurídica; o sucessor atual/singular pode somar à sua posse a de seu antecessor – ex. contrato de compra e venda. *usucapião extraordinária e ordinária: é possível asoma de posses, tanto pela sucessio como pela acessio – art. 1243 CC. *usucapião especial urbana e rural (arts. 183 e 191 CF/88): não pode haver soma de posses pela acessio, pois há quebra do requisito da pessoalidade. *usucapião especial coletiva (Estatuto das Cidades – Lei 10.257/01): pode haver soma de posses pela acessio e pela sucessio, pois o que está em relevo é o benefício a um grande grupo de possuidores de baixa renda, pelo que o requisito da pessoalidade é minimizado. 4.11.2- Perda - Perde-se a posse qdo. cessa o poder de fato sobre o bem – art. 1223 CC. - Não há mais o exercício dos poderes inerentes à propriedade. 4.12- Efeitos da posse 4.12.1- Direito aos frutos - Percepção dos frutos – art. 1214 CC: são as utilidades que a coisa produz periodicamente, preservando a coisa: *não se confunde com produto, pois este é produzido aleatoriamente e com progressiva diminuição da coisa principal. *quanto à origem, os frutos têm três categorias: #frutos naturais: provém diretamente da coisa; decorre de sua força orgânica e renova-se periodicamente por força da natureza. #frutos industriais: decorre da atuação do engenho humano; a interferência do homem é fator determinante. #frutos civis: consiste nas rendas periódicas advindas do uso e gozo da coisa. #art. 1215 CC. #arts. 1232 e 1214 CC. *quanto ao estado em que se encontram, os frutos podem ser: #percebidos: são os que já foram separados da coisa principal ao tempo da citação (em ação) e colhidos de boa-fé. #pendentes: são os que ainda estão aderidos naturalmente à coisa e não podem ser colhidos. #colhidos com antecipação: são os percebidos de forma prematura, ou seja, qdo. ainda eram pendentes. #percepiendos: são os que deviam ter sido colhidos, mas não o foram no momento da citação; nesse caso deverá haver ressarcimento com base no valor que seria obtido qdo. da colheita ao possuidor de boa-fé. #o possuidor de boa-fé tem direito aos frutos percebidos antes da citação, ou seja, da cessação da boa-fé – art. 1214 CC. #o possuidor de boa-fé não tem direito aos frutos pendentes e nem aos colhidos com antecipação, mas deverá ser ressarcido das despesas de produção e custeio – art. 1214, p. ún., CC. #o possuidor de má-fé não tem direito aos frutos, mas tem o direito de ser restituído nas despesas de produção e custeio (do contrário haveria enriquecimento sem causa). 4.12.2- Responsabilidade civil do possuidor - Trata-se do dever de indenizar do possuidor na hipótese de perda ou deterioração da coisa. - Os efeitos da responsabilidade civil estão vinculados à presença ou não da boa- fé. - Somente responderá o possuidor de boa-fépela perda ou deterioração a que der causa – art. 1217 CC – trata-se de responsabilidade civil subjetiva; a culpa tem de ser provada pela vítima (proprietário). - O possuidor de má-fé responderá por qualquer perda ou deterioração, mesmo sendo acidental, sendo a culpa presumida pela má-fé, exceto de provar caso fortuito ou força maior; inverte-se o ônus da prova, devendo o possuidor provar a excludente de responsabilidade – art. 1218 CC. 4.12.3- Direito às benfeitorias - São obras ou despesas realizadas com o objetivo de conservação, melhoramento ou embelezamento da coisa; tem cunho complementar à coisa já existente. - Podem ser (art. 96 CC): *necessárias: para evitar a deterioração da coisa e sua normal utilização. *úteis: para incrementar a utilidade, aumentando o valor da coisa. *voluptuárias: para oferecer recreação ou lazer. *não se deve adotar conceitos rígidos para definir as benfeitorias, devendo ser avaliada a sua relação com a coisa diante do caso concreto. - Não se confunde com acessão, pois esta se trata de construção ou plantação nova, ou seja, não procedem de algo já existente. - As benfeitorias realizadas pelo possuidor incorporam-se ao patrimônio do proprietário; por isso, aquele tem direito à indenização e à retenção pelas benfeitorias. - A indenização pela realização de benfeitorias tem como pressuposto a boa ou a má-fé do possuidor: *o possuidor de boa-fé tem direito a ser indenizado pelas benfeitorias necessárias e pelas úteis, bem como tem direito de reter a coisa até que seja ressarcido dessas benfeitorias – art. 1219 CC. *as benfeitorias voluptuárias não são indenizáveis nem mesmo se o possuidor estiver de boa-fé, sendo que este poderá levantá-las se não danificar a coisa e o de má-fé não terá direito sequer de levantá-las. *o possuidor de má-fé somente terá direito ao ressarcimento das benfeitorias necessárias, mas não terá direito de retenção, pelo que deverá ajuizar ação de indenização – art. 1220 CC. - Direito de retenção (jus retentionis): *é um meio de defesa dado ao credor, que tem a faculdade de deter a coisa alheia até que seja indenizado; é um meio coercitivo de pagamento de seu crédito. *é exceção a ser invocada em ação possessória ou petitória, com a finalidade de paralisar a eficácia da pretensão autoral, retardando a devolução do bem para o momento do ressarcimento das benfeitorias; a alegação e o pedido de retenção devem ser feitos na pp. contestação, não dependendo de peça autônoma. *se não for alegado em defesa, poderá ajuizar ação autônoma; entretanto, uma vez tendo optado por uma das vias que lhe é possível e não obtendo êxito não poderá adotar a outra. *a natureza do direito de retenção é de direito obrigacional, pois não está incluído no rol taxativo dos direitos reais previsto no art. 1225 do CC; mas um direito obrigacional sui generis, pois deriva de uma norma jurídica e é oponível erga omnes. *se assemelha a uma espécie de obrigação propter rem, pois ainda que haja alteração na titularidade da coisa o proprietário atual tem a obrigação de indenizar o possuidor nas benfeitorias realizadas. *o retentor terá a posse direta do bem na qualidade de depositário, não sendo mero detentor por estar retendo a coisa além do prazo que lhe era permitido, pois a norma lhe dá o direito de retenção, pelo que poderá praticar atos de defesa da posse. *direito de retenção do locatário – art. 578 CC e art. 35 da lei 8.245/91; não é oponível erga omnes, a teor da Súmula 158 do STF, salvo se expressamente previsto e o contrato averbado no registro imobiliário. *direito de retenção do comodatário – somente pelas benfeitorias necessárias, a teor da corrente doutrinária e jurisprudencial majoritária. *direito de retenção do promitente comprador de lotes – art. 34 da Lei 6.766/79 – o promitente comprador será indenizado pelas benfeitorias necessárias e úteis realizadas no lote, bem como terá direito de retenção apesar da omissão da lei nesse sentido. *cláusula de renúncia ao direito de retenção inserida no contrato – se for de adesão será a cláusula nula, a teor do art. 424 do CC. 4.12.4- Direito à usucapião - É a via pela qual a situação fática do possuidor será convertida em direito de propriedade. - Além da posse de fato sobre a coisa, deve estar presente o animus domini, ou seja, a intenção de dono. 5- AÇÕES POSSESSÓRIAS 5.1- Fundamentos da proteção possessória - Para Savigny a posse merecia defesa porque se deve preservar a ordem jurídica. - Para Ihering a posse merecia defesa porque seria uma forma célere de aliviar a defesa dos poderes dominiais. - Para a corrente atual do Direito a posse merece defesa porque é capaz de satisfazer a necessidade fundamental de moradia e fruição da coisa (função social da posse). - A demanda possessória deve girar em torno de uma agressão a uma relação possessória preexistente, sem vínculo com eventual titularidade. 5.2- Tutela jurisdicional da posse - Jus possessionis (possessório) tutela o direito de possuir pelo fato de uma posse preexistente ter sido agredida de forma concreta, não se cogitando sobrepropriedade. - Jus possidendi (petitório) tutela o direito de possuir como um dos atributos conseqüentes do direito de propriedade ou negócio jurídico transmissivo de direito real ou obrigacional. - A tutela possessória pressupõe uma situação anterior de poder de fato sobre o bem; pode ser emanada de um ato-fato (ocupação do bem), de um direito real (usufruto), de um direito obrigacional (locação) ou do direito de propriedade. - Em todos os casos o fundamento da pretensão deverá ter como base a posse, e não a qualidade de seu título, ou seja, eventual domínio. - Exemplos. - Artigo 1210, §2º, do CC – proíbe a exceção de propriedade (exceptio proprietatis), ou seja, a defesa fundada em propriedade nas ações possessórias; por ser a proibição de ordem pública, é verificável ex officio pelo juiz: *assim, o proprietário, na ação possessória, deverá apresentar defesa com base na relação possessória existente. *transitada em julgado a sentença que julgou a possessória, poderá o proprietário ajuizar ação petitória, se vencido na possessória. *isso porque a causa petendi é diferente em ambas (posse e propriedade), bem como para se evitar decisões contraditórias. *não se quer dizer com isso que o proprietário será sempre vitorioso na petitória, pois neste deverá provar a função social da propriedade. *Súmula 237 do STF – tem como finalidade gerar a improcedência da pretensão à qual a alegação de usucapião se opõe, devendo-se após o trânsito em julgado ajuizar ação de usucapião. Ou seja, não se permite a exceptio proprietatis, mas se permite a exceptio dominis: #na ação de usucapião urbana especial (art. 13 da Lei 10.57/01) e rural (art. 7º da lei 6.969/81) a usucapião alegada em defesa, uma vez reconhecida em sentença fará com seja expedido o mandado de registro, não dependendo, pois, de ação autônoma de usucapião. 5.3- Ações possessórias em espécie - Como já dito, a posse deverá ser tutela como situação de fato preexistente, não podendo ser embaralhada com a propriedade. - É vedado o ajuizamento de ação possessória pelo proprietário do imóvel que pretende recuperar uma posse que não exercia ao tempo em que a coisa foi ocupada por outrem, cabendo ajuizar ação petitória (se ajuizar aquela o processo será extinto sem julgamento de mérito por falta de interesse processual, pois não há adequação entre a pretensão e a roupagem jurídica a ela emprestada). Ou seja, o proprietário tem direito a ação possessória desde que possua efetivamente a posse. - A proteção possessória é deferida a qq. possuidor, independente da qualidade de sua posse (direta ou indireta, natural ou civil, nova ou velha, justa ou injusta, originária ou derivada, de boa-fé ou de má-fé), o que não significa acolhimento de mérito. - Os meros detentores estão excluídos da proteção possessória, exceto: *autoexecutoriedade – art. 1210 CC. *detenção independente – qdo detentor é vítima de esbulho praticado por terceiro – art. 1211 CC. *detentor que se converte em possuidor (após cessar violência, clandestinidade ou precariedade) será legitimado a promover tutela possessória. - As ações possessórias são: reintegração de posse, manutenção de posse e interdito proibitório. - A opção por uma das ações está relacionada ao grau de agressão à posse em ordem crescente de hostilidade: *ameaça = interdito proibitório. *turbação = manutenção de posse. *esbulho = reintegração de posse. - Princípio da fungibilidade das ações possessórias, podendo, ajuizada uma, converter na outra. - Natureza dúplice, podendo o réu formular pedido na contestação. - As ações de embargos de terceiro, nunciação de obra nova e imissão de posse não são ações possessórias, mas instrumentos de defesa complementares à defesa da posse já que buscam a aquisição ou a recuperação da posse. 5.3.1- Reintegração de posse - É remédio processual para a restituição da posse àquele que a perdeu em razão de esbulho. - Tem de provocar a perda do poder de fato sobre a coisa. - Tem como pretensão recuperar o poder de fato sobre a coisa. - O esbulho pode ser total (perde a posse de todo o bem) ou parcial (perde a posse de parte do bem, permanecendo na posse quanto ao restante). - Se o proprietário não demonstrar sua condição de possuidor ao tempo do esbulho, faltar-lhe-á interesse processual, pelo que o feito deverá ser extinto sem resolução do mérito, salvo: *inserção da cláusula de constituto possessório no contrato, em que há a tradição ficta da posse. - Se há esbulho judicial (perda da posse provém de ordem judicial e não de atos materiais), não cabe reintegração de posse, mas sim embargos de terceiro a teor do art. 1046 do CPC. - Esbulho pacífico (aquisição da posse à luz do dia e sem uso de violência) – há controvérsias quanto a ensejar ação possessória pelo fato de o proprietário não estar exercendo efetivamente a posse e não estar dando função social ao bem. - Em determinadas relações jurídicas, o proprietário não poderá recuperar de forma imediata a coisa esbulhada. - Nos negócios jurídicos de compra e venda, arrendamento mercantil e promessa de compra e venda, havendo o inadimplemento, deverá ser ajuizada ação de resolução contratual que poderá ser cumulada como reintegração de posse, mesmo se houver cláusula contratual resolutiva expressa (arts. 474 e 475 CC). - Esbulho praticado pelo Poder Público – cabe ação possessória por parte do particular, mas não cabe liminar (art. 928, par. ún., CPC). Se após o apossamento o Poder Público realizar obra no imóvel o bem será incorporado ao patrimônio público não mais cabendo ação possessória, mas ação indenizatória cujo prazo prescricional é de 03 anos a teor do art. 206, § 3º, III, CC. - Se for locação e findo o prazo para desocupação não houver restituição pelo locatário, a ação cabível é a ação de despejo (art. 5º da lei 8245/91). - Na alienação fiduciária, a retomada do bem dar-se-á pela ação de busca e apreensão de acordo com o Decreto Lei 911/69, com as alterações introduzidas pela Lei 10.931/04. - Para caracterizar o esbulho, não haverá influência da boa ou da má-fé – art. 1228 CC, salvo: *art. 1212 CC – não cabe ação possessória contra terceiro possuidor de boa-fé, cabendo apenas ação petitória se o possuidor tb o for proprietário; se não for proprietário caberá apenas indenização contra o possuidor originário. 5.3.2- Manutenção de posse - Ocorre quando o possuidor é perturbado em sua posse; quando é severamente incomodado no exercício de sua posse. - A agressão não é intensa o suficiente para excluir o poder físico sobre a coisa. - Visa interromper a prática de atos de turbação e impor ao turbador a obrigação de se abster da prática de atos contrários ao exercício da posse do possuidor. - A agressão deve ser atual, concreta e efetiva. Deve tolher a atividade do possuidor. - A reintegração de posse é classificada como ação executiva latu sensu e a manutenção de posse como ação de natureza mandamental: *na reintegração, a sentença que reintegra também executa. *na manutenção, o juiz determina medidas de cunho coercitivo, determinando que o agressor atenda às determinações sob pena de multa diária ou por descumprimento (astreintes). - Contagem do prazo de ano e dia na hipótese de turbação: *se os atos turbativos são vários e de natureza homogênea: a contagem começa a fluir do primeiro ato de agressão à posse. *se os atos turbativos tiverem natureza distinta e heterogênea: a contagem será realizada de forma independente, ou seja, cada qual tem seu início de prazo a ser contado. *se a agressão somente se configura após uma série de atos preparatórios, que individualmente não são considerados atos de turbação, somente a partir da conclusão do ato complexo é que será caracterizada a turbação e o início da contagem do prazo. 5.3.3- Interdito proibitório- É defesa preventiva da posse, diante da ameaça de iminentes atos de turbação ou esbulho (violência iminente). - Agressão iminente não significa agressão atual, mas próxima, jamais distante. - Objetiva impedir o ato de violência temido – art. 932 do CPC. - A pretensão é obter uma liminar que obrigue o agressor a abster-se de concretizar a agressão, mediante imposição de preceito proibitório, com cominação de multa diária em caso de descumprimento (astreintes). - É ação de cunho satisfativo, e não cautelar de cunho assecuratório. - As ameaças deverão ter sua gravidade, seriedade e motivação provadas. Mera cogitação de temor não dá ensejo ao deferimento do remédio processual. Se comprovar, falta interesse processual. - O mandado proibitório tem natureza mandamental e é dotado de autoexecutoriedade. - Se o agressor réu descumprir a ordem e concretizar a ameaça, turbando ou esbulhando, além da execução da multa o mandado interdital será convertido em ordem de manutenção ou reintegração para que a coisa seja restituída ao estado anterior – art. 920 c/c 933 CPC. Pode será instaurado ainda inquérito policial pelo delito de desobediência à ordem judicial primitiva – art. 330 CP. - O exercício regular de um direito não será considerado ameaça – art. 153 do CC. - Direito autoral não é protegido por interdito proibitório – Súm. 228 STJ. Não se admite posse sobre bens incorpóreos, mas apenas a propriedade. A Lei 9610/98, no art. 102, prevê ação de busca e apreensão para a proteção de direitos autorais. Igualmente para turbação e esbulho. - Ameaça a posse de bens do empregador no exercício do direito de greve – cabe interdito proibitório, mas a competência para processo e julgamento é da Justiça do Trabalho, a teor da EC 45/04. 5.4- Autoexecutoriedade - O possuidor está legitimado a defender prontamente a posse através do desforço imediato e da legítima defesa da posse. - É uma extensão do direito às ações possessórias e pode ser utilizada em quaisquer das formas de agressão à posse. - Está submetida ao controle do princípio da proporcionalidade. Qualquer risco à integridade de pessoas em decorrência de tutela patrimonial deve ser ponderado com parcimônia. Deve haver moderação. - A posição dos tribunais é no sentido de não permitir que a função social constitucional (direito de moradia) seja implementada pelo uso da violência. No confronto entre direito de propriedade - Autoexecutoriedade não se confunde com legítima defesa, pois nesta a pessoa protege a sua própria essência. - Somente é cabível nas hipóteses de turbação ou esbulho, não cabendo na mera ameaça, eis que nesta não se configurou agressão. - Deve ser praticada em seqüência imediata à agressão, sob pena de praticar delito de exercício arbitrário das próprias razões (art. 345 CP). - Se a agressão ocorrer por várias pessoas, pode o possuidor se valer da ajuda de terceiros. - Pode ser utilizada também pelo possuidor indireto. - O servidor da posse pode se utilizar, mesmo sendo a lei omissa, pois deve zelar pela coisa pela própria relação de dependência. Igualmente o preposto de pessoa jurídica. 5.5- Aspectos processuais - Ação possessória de força nova: ajuizada dentro do prazo de ano e dia; há a adoção do rito especial previsto pelos artigos 920 e ss. do CPC, inclusive com liminar. - Ação possessória de força velha: ajuizada após o prazo de ano e dia; a tramitação do processo será do rito ordinário, sem liminar. - O prazo de ano e dia é decadencial; se não ajuizada no referido prazo, continua tendo direito a ação possessória, porém pelo rito ordinário e com prazo prescricional geral do art. 205 do CC. - Ao interdito proibitório não se aplica o prazo de ano e dia, haja vista se tratar de mera ameaça, tanto que o art. 924 do CPC somente faz menção às ações de reintegração e de manutenção de posse. - Se o valor da causa for inferior a sessenta salários mínimos o rito para a ação possessória será o sumário, consoante art. 275, I, CPC. - Foro competente: da situação do imóvel – art. 95 CPC – trata-se de competência territorial funcional absoluta; se bem móvel será o foro do domicílio do réu – art. 94 CPC. - Contagem do prazo de ano e dia. - Não se pode confundir a ausência de posse com o fato de o possuidor não estar momentaneamente no poder físico sobre a coisa; naquela há o abandono do bem e, assim, não cabe possessória, enquanto nesta o possuidor pode estar, por exemplo, viajando, mas continua com sua posse, somente não no bem momentaneamente. - A liminar poderá ser concedida sem oitiva da parte contrária ou após justificação prévia em audiência designada para esse fim – art. 928 CPC. - A liminar possessória é provisória e revogável. - O juízo para concessão ou não da liminar está adstrito aos requisitos previstos no art. 927 do CPC, e não faculdade do juiz o deferimento ou não, uma vez presentes os requisitos deverá conceder. - Recurso cabível da concessão ou não da liminar. - Ônus da prova – art. 927 CPC. - Provas plausíveis: *documentos, fotos, publicações em periódicos; o boletim de ocorrência e a declaração de testemunhas não vêm sendo aceita pelos tribunais pelo fato de serem declarações unilaterais despidas do contraditório. *testemunhal - Cabível a interposição contra o Poder Público, não cabendo apenas a liminar – art. 928, par. único, CPC. - Após o saneamento do processo, com a concessão ou não da liminar, o processo assumirá o rito ordinário – art. 931 CPC. - A tutela antecipada, para a maior parte da doutrina, não poderá ser utilizada nas ações possessórias por se tratar de ações de rito especial e aquela ser objeto de ação de rito comum; mas há uma parte da doutrina que admite pelo fato de a ação assumir, posteriormente, o rito comum. - O mais aconselhável após o decurso do prazo de ano e dia é o ajuizamento da ação reivindicatória, na qual caberá a tutela antecipada prevista pelo art. 273 do CPC, haja vista ser uma ação de rito comum. 5.6- Natureza dúplice das possessórias - O réu poderá deduzir pedido contraposto em face no autor. - Não exige formalismo da reconvenção. - Tem como pressuposto o princípio da economia processual. - Os pedidos a serem deduzidos em contestação poderão ser: com relação à própria posse, indenização, retenção, ou seja, inseridos nos permissivos constantes do art. 922 do CPC. - A sentença será una, em que o juiz julgará os pedidos do autor e os pedidos do réu. - Não cabe pedido de liminar na contestação por ser incompatível com a sistemática processual, não havendo disposição que o permita. - Se pretende deduzir pedido contraposto que não esteja previsto no artigo 922 do CPC, terá de utilizar a via da reconvenção ou ação autônoma. 5.7- Fungibilidade das possessórias - O princípio da correlação impõe que os limites da lide são impostos pelo pedido e pela causa de pedir, sob pena de decisão citra, ultra ou extra petita. - Entretanto, o art. 920 do CPC excepciona referido princípio, autorizando a conversão de uma ação possessória em outra, em duas situações: *quando na petição inicial se descrever equivocadamente a agressão à posse. *quando a agressão originária da ação se intensificar no curso desta. - O juiz poderá adaptar a cauda de pedir ao pedido e conceder a proteção adequada ao caso pela fungibilidade das possessórias. - A conversão somente é cabível entre as ações possessórias, não sendo possível converter possessória em petitória. - Não será possível a conversão após o trânsito em julgado da decisão proferida na primeira ação possessória, tendo que ajuizar outra se houver nova ou elevação da agressão. 5.8- Cumulação de pedidos - É possível a cumulação de pedidos nas ações possessórias para: condenação em perdas e danos, cominação de pena para caso denova turbação ou esbulho, desfazimento de construção ou plantação – art. 921 CC. - As perdas e danos englobam tanto os danos materiais quanto os extrapatrimoniais, para parte da doutrina e jurisprudência. - A cumulação nas ações possessórias não leva á adoção do rito comum consoante previsto no art. 292 , §2º, do CPC, prevalecendo o rito especial. - Somente as cumulações permitidas no art. 921 mantém o rito especial da demanda; se cumular outros pedidos, a ação terá rito comum. 6) PROPRIEDADE 6.1- Breve histórico - Em Roma, a aquisição da propriedade imobiliária ocorria pela simples tradição. - Na Idade Média, a propriedade tinha sua base no feudo, em que o senhor feudal concedia a seu vassalo uma porção de terra e troca de respeito e fidelidade. - Nos séculos XVIII e XIX (Iluminismo e Jusnaturalismo) o contrato e a propriedade passam a ser os dois maiores pilares do direito privado; tudo em decorrência da manifestação livre de pensamento e da vontade para fins de circulação do capital: *No Estado liberal clássico, apesar de ser um paradoxo à liberdade, mantém-se o tratamento absoluto da propriedade resguardando o patrimônio da burguesia. *A autonomia privada é valorizada, conferindo-se direitos subjetivos aos cidadãos e a propriedade será alcançada segundo a capacidade e o esforço de cada um. *Surge a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789, em que a propriedade passa a ser asilo inviolável e sagrado do indivíduo, dando-lhe garantia de exclusividade de poderes sobre a mesma. *No Código Napoleônico de 1804, a propriedade era considerada um fato econômico de utilização exclusiva da coisa, em que o bem comum tinha como sinônimo a soma dos bens individuais; afirma-se o sistema capitalista. *O Código Tedesco (Alemanha), em 1900, mantém a noção individualista da propriedade, mesmo na iminência de conflitos sociais. * No Brasil, a propriedade imobiliária sofreu longo processo de saída do patrimônio público para ingresso na esfera particular: #não houve estrutura feudal #domínio da coroa portuguesa #apropriação do patrimônio da coroa por particulares gradativamente por três vias: usucapião, cartas de sesmarias e posses sobre terras devolutas, havendo monopolização de terras por senhores de escravos, formando-se os latifúndios. #O CC de 1916 chega tardio, conferindo a concepção patrimonialista de família de 1800. No momento em que o valor fundamental já era o indivíduo, o CC de 1916 mantém uma normatização individualista e conservadora. 6.2- Estrutura - É o direito real por excelência. - É um direito fundamental que compõe a norma do artigo 5º da CF/88. - O reconhecimento da propriedade como direito humano está relacionado à função de proteção pessoal de seu titular. - É um direito subjetivo através do qual o titular exercita o domínio sobre um objeto, o que implica em um comportamento negativo por parte da coletividade. - Propriedade e domínio não são sinônimos: *propriedade (titularidade do bem): consiste na relação entre aquele que detém a titularidade formal do bem (proprietário) e a coletividade de pessoas; para bens imóveis a propriedade nasce com o registro; o objeto da relação jurídica é o dever geral de abstenção. *domínio (conteúdo interno da propriedade): consiste na relação material de submissão da coisa ao poder de seu titular, pelas faculdades de uso, gozo e disposição. *o proprietário exercita ingerência sobre a coisa (domínio) e pede a colaboração das pessoas (propriedade). *o domínio é instrumentalizado pelo direito de propriedade. *somente na propriedade plena verifica-se a concentração em uma só pessoa do direito de propriedade e de todos os poderes de domínio. *muitas vezes o proprietário não é aquele que exerce o domínio. *a reivindicatória emerge da lesão ao direito de propriedade. - Na CF/88, a conceituação de propriedade é ampla, servindo a qualquer espécie de titularidade aferível patrimonialmente (bens corpóreos ou incorpóreos). - A função social da propriedade surgiu para promover o princípio da solidariedade, devendo o titular dar destinação social a sua propriedade. 6.3- Faculdades inerentes ao direito de propriedade - Conceito de propriedade – art. 1228 CC – não qualifica como sendo uma relação jurídica, cingindo-se a dispor sobre seu conteúdo interno ao se referir às faculdades inerentes ao domíno. - As faculdades compõem a estrutura do domínio e, portanto, não são direitos autônomos, mas intrinsicamente ligadas à propriedade. - Podem ser destacadas pelo seu titular, o que levará à formação de direitos reais em coisa alheia, havendo harmônico convívio com o direito de propriedade. - São elas: *Direito de usar #é a faculdade de o proprietário servir-se da coisa de acordo com a sua destinação econômica; #o uso pode ser direito ou indireto, dependendo da utilização pessoal do bem por parte de terceiro. #concede ao titular o acesso aos frutos naturais da coisa (aquele que está no direito de usar – proprietário ou terceiro cuja faculdade lhe foi outorgada pelo proprietário). #as faculdades não prescrevem com o não uso – ex. casa de praia, em que somente se utiliza no verão; nas demais épocas do ano continua disponível para o uso, estando o bem ao alcance. #a faculdade de usar por vezes, é convertida de poder a dever, pois se a falta de utilização se mostrar anti-social poderá haver a desapropriação por interesse social pelo fato da inércia do proprietário em dar função social à coisa. #art. 1412 CC. *Direito de gozar (fruir) #é a faculdade que o proprietário tem de explorar economicamente a coisa, através da extração de frutos e produtos que não os simplesmente naturais. #art. 1232 CC. #no direito de fruir está também o direito do proprietário às pertenças (estas não se aderem aos bens imóveis – art. 93 CC, mantendo-se sua autonomia). *Direito de dispor #é a faculdade que o proprietário tem de alterar a própria substância da coisa. #pode ser disposição material (atos como a destruição do bem ou o seu abandono), em que o proprietário pratica atos físicos que importam em perda da propriedade – art. 1275, III e IV, CC. #pode ser disposição jurídica: ..total, quando o proprietário pratica atos de mutação subjetiva do direito real; ..parcial, quando o proprietário institui ônus reais sobre o bem, dispondo parcialmente da coisa; o proprietário mantém a titularidade do bem, mas convive com um direito real em coisa alheia. #quando proprietário loca, arrenda, entrega em comodato ou entrega a posse a outrem mediante relação obrigacional não se fala em disposição da coisa, pois não há transferência de poderes dominiais, mantendo, nesses casos, a propriedade plena para si (ele cede apenas a fruição imediata da coisa). *Direito de reivindicar #é chamado de elemento externo ou jurídico da propriedade (os demais são internos – domínio), pois representam a pretensão do titular da coisa de excluir terceiros de indevida ingerência sobre a coisa, permitindo que o proprietário mantenha a dominação sobre o bem. # a ação reivindicatória é a extensão ao direito de seqüela ao titular da propriedade; é a pretensão ajuizada pelo proprietário não possuidor contra o possuidor não proprietário (vai ser discutido o direito subjetivo de titularidade da propriedade). #para fins de reivindicatória (art. 1228 CC), a noção de posse injusta é mais ampla que a prevista no art. 1220 CC. #a reivindicatória tem por escopo a recuperação dos poderes dominiais e não o reconhecimento do direito de propriedade; a restituição da coisa levará ao retorno das faculdades de uso e fruição. #o réu na ação possessória deverá provar que sua posse não é injusta e poderá alegar em defesa a usucapião se tiver atingido o prazo aquisitivo. #prazo prescricionalda ação reivindicatória – regra geral – art. 205 CC – 10 anos (não há que se falar em imprescritibilidade face a função social da propriedade, de acordo com parte da doutrina). #arts. 1228, §4º, 1276, CC – hipóteses em que o proprietário perde a pretensão de reivindicar como sanção pelo não uso contrário à função social, independente de ter se dado a usucapião ou a prescrição; o abandono do imóvel por vários anos e o ingresso posterior de reivindicatória pode implicar em abuso de direito em face daquele que exerceu a posse de forma pacífica (art. 187 CC). 6.4- Extensão do direito de propriedade - Art. 1229 CC delimita a extensão vertical da propriedade, abrangendo o espaço aéreo e subsolo correspondente. - Não poderá haver oposição injustificada contra atuação de terceiros a uma altura e a uma profundidade que não haja interesse legítimo. - A propriedade do solo não abrange as jazidas, minas, recursos minerais em geral, potenciais de energia hidráulica e os monumentos arqueológicos – art. 1230 CC e art. 20, incisos IX e X, CF. - A exploração das jazidas e demais recursos minerais poderá ser realizada pelo proprietário desde que adquira a concessão da lavra (Código de Mineração – art. 84, Decreto-Lei 227/67). - Os recursos minerais de emprego imediato na construção civil podem ser explorados pelo proprietário – art. 1230, par. único. - Se não houver riquezas minerais no subsolo poderá o proprietário no mesmo construir, haja vista que são bens imóveis tudo aquilo que se incorpora ao solo de forma natural ou artificial – art. 79 CC. - Deve ser utilizado o juízo de proporcionalidade no caso concreto para se estabelecer se está ou não havendo prejuízo para o proprietário no que se refere à atuação de terceiros sobre o espaço aéreo e o subsolo. 6.5- Atributos da propriedade - A propriedade presume-se plena e exclusiva até prova em contrário – art. 1231 CC. - São eles: *exclusividade: #é um princípio que se dirige ao domínio, pois não pode haver mais de um domínio sobre o mesmo bem. #somente uma pessoa pode usar, fruir e dispor da coisa. #no condomínio tradicional não há elisão do atributo, pelo fato de que cada proprietário tem uma fração ideal do todo, ou seja, muitos podem ter a propriedade sem que implique no afastamento da unidade do domínio, pois este é indivisível – o domínio é qualitativamente igual e a propriedade é quantitativamente diferente. *perpetuidade: #a duração da propriedade é ilimitada, sendo que subsiste independentemente do seu exercício pelo titular. #a propriedade é transmitida por direito hereditário aos sucessores. #por esse motivo, a doutrina tradicional defende que a ação reivindicatória é perpétua, enquanto que outra parte defende que há prazo prescricional (art. 205 CC) sob pena de abuso de direito de propriedade. #a usucapião não afasta o atributo da perpetuidade, pois se trata de posse reiterada do usucapiente e forma de aquisição de propriedade, sendo que esta somente subsistia formalmente, ou seja, no registro imobiliário. #Há uma exceção em que a propriedade perde a qualidade de ser perpétua, que é a hipótese de propriedade resolúvel – a duração do direito de propriedade está subordinada a evento futuro constante em cláusula incluída no próprio título constitutivo – art. 1359 CC. *elasticidade e consolidação: #em regra o domínio é elástico, ou seja, concentra todas as faculdades (usa, fruir, dispor e reivindicar), o que se denomina de propriedade plena. #eventualmente, é possível a contração do domínio, ou seja, a cisão dos poderes dominiais em favor de outras pessoas, daí decorrendo a propriedade limitada. #a propriedade se mantém intacta, sem qualquer restrição na titularidade formal, sendo que somente o domínio é sofre contração. 6.6- Descoberta - É o fato jurídico de alguém encontrar coisa alheia perdida – art. 1233 CC. - Impõe ao descobridor uma obrigação de fazer, qual seja entregar a coisa ao proprietário. - Caso não encontre o proprietário deverá entregar a coisa à autoridade competente – art. 1233, par. único, CC. - Se após 60 dias de publicado o edital não aparecer o proprietário a coisa será levada à hasta pública – art. 1237. - Se a coisa achada for de pequeno valor dispensa-se o edital e faz publicidade da mesma no Fórum – art. 1237 CC. - A descoberta gera direito a uma recompensa a favor de quem encontrou (chamado inventor) que não poderá ser inferior a 5% do valor da coisa encontrada. Será paga pelo proprietário ou retirada do produto da venda em hasta pública (neste caso, o remanescente reverte-se a favor do Município). - O descobridor tem direito a ser ressarcido das despesas que teve para conservar o bem – art. 1234 CC. - O descobridor não tem a obrigação de conservar a coisa, mas se dolosamente tiver diminuído o valor da coisa terá de indenizar o proprietário – art. 1235 CC. - O descobridor pode exercer o direito de retenção até que seja recompensado. - Em caso de abandono do bem por parte do proprietário ou do Município, que não o queiram para não pagar a recompensa, por exemplo, o descobridor adquirirá a propriedade da coisa – art. 1234 e art. 1237, par. único, CC. - Os objetos deixados em hotéis, oficinas, lavanderias ou outros estabelecimentos do tipo, se não forem reclamados dentro de um mês serão objeto do processo de arrecadação – art. 1175 CC. As cláusulas dos contratos desses estabelecimentos que prevêem a venda da coisa para ressarcimento de despesas são abusivas. Aos estabelecimentos é permitida tão somente a retenção da coisa até o pagamento de eventuais débitos do consumidor. - Quanto às bagagens dos hóspedes inadimplentes, são os hospedeiros depositários dos bens – art. 649 CC – pelo que poderão promover a execução do crédito, face à garantia pignoratícia – art. 1467, I, CC. - Os artigos 1170 a 1176 do CPC estão derrogados face ao CC de 2002. 6.7- Função social da propriedade - Todo poder na esfera privada é concedido pelo ordenamento com a condição de que seja satisfeitos determinados deveres perante a sociedade. - O sistema apenas legitima a satisfação de interesses particulares à medida que o seu exercício seja preenchido por uma valoração socialmente útil. - A propriedade é modo de garantir o funcionamento do mercado e a operabilidade da ordem econômica, tendo o proprietário o direito de usar, fruir, dispor e reivindicar. O direito de propriedade é uma garantia constitucional – art. 5º, inciso XII, CF/88. - Não obstante, a propriedade tem de ser utilizada de forma positiva para que promova os valores sociais e constitucionais, sendo proibido atos meramente emulativos (incomodativos) que visam apenas incomodar terceiros – art. 1228, §2º, CC, que caracterizam o abuso de direito. - A função social da propriedade traz para o proprietário, além dos direitos e poderes que já possuía, deveres, passando a tutela da propriedade a ser condicionado ao adimplemento de deveres sociais. O exercício da propriedade não pode atentar contra o bem comum (o bem comum é justamente o interesse social) – art. 5º, inciso XIII, CF/88, e art. 1228, §1º, CC (este cuida de rol exemplificativo – trata-se de cláusula geral, em que se descreve valores e se remete a princípios). - Propriedade e função social são princípios de mesma hierarquia, havendo uma relação de complementaridade. - Função social da propriedade não se confunde com as limitações ao direito de propriedade previstas no ordenamento. Estas são normas de direito de vizinhança (art. 1277 do CC) e direito administrativo (ex. desapropriação). Tanto é que a função social serve para impedir a penhora de imóvel residencial familiar, para subsidiar a instalação de indústrias em determinadas localidades, dentre outros. - Com a função social da propriedade, osinteresses patrimoniais estão submetidos aos direitos fundamentais – “o descumprimento do dever social de proprietário significa uma lesão ao direito fundamental de acesso à propriedade” (Fábio Comparato). - No caso concreto, deverá ser utilizado o juízo de ponderação de valores sociais, sendo que para analisar cada pólo de interesses será valorada a finalidade. - O que se relativiza ou humaniza com a função social da propriedade é o direito de propriedade, posto que é este que impinge obrigações ao seu titular em favor da coletividade, não podendo ser tolhido, por conseguinte, nas suas faculdades de domínio, exceto nos casos restrição previstos em lei. - Propriedade urbana: *art. 182 da CF/88, regulamentado pela Lei 10.257/01 (Estatuto das Cidades) – estabelece normas de ordem pública e interesse social, regulando o uso da propriedade em benefício do bem coletivo, da segurança e do bem estar dos cidadãos. *o plano diretor do município é o instrumento de intervenção deste na política urbana, para que possa garantir o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e combater a crise urbana e habitacional. *o art. 182, §4º, da CF prevê sanções para o descumprimento da função social: IPTU progressivo, desapropriação-sanção e parcelamento ou edificação compulsórios. *destina-se à moradia. - Propriedade rural: *art. 184 a 191 CF/88, Lei 8629/93 (regulamenta CF quanto a reforma agrária) e Lei 4.504/64 (Estatuto da Terra) – estabelece normas de ordem pública e interesse social, regulando a terra como bem de produção, a fim de desempenhar função social. *devem ser observados dois fatores: exploração de no mínimo 80% da área explorável do imóvel e observância de índices de produtividade de acordo com a microrregião em que o imóvel se situa. *devem ser preservadas as normas ambientais, adequando a exploração do bem às características naturais da região. *imóvel rural produtivo não poderá ser desapropriado para fins de reforma agrária, ainda que não se esteja cumprindo regras ambientais e trabalhistas, a teor do art. 185, II, CF. *sanções para descumprimento da função social: desapropriação, ITR progressivo (art. 153, §4º, CF). *destina-se à produção de riquezas e geração de empregos. - Tem-se por propriedade todo bem, corpóreo ou incorpóreo, de valor patrimonial e que serve à atuação econômica. - Todo e qualquer propriedade deverá atender a sua função social – ex. arts. 40 e 42 da Lei 9279/96 garantem prazo de 20 anos de vigência de patente, que poderá ser “quebrada” se não se lhe der destinação social e for de interesse fundamente à vida e à dignidade, como ocorreu com os remédios para a AIDS. 6.8- Modos de aquisição da propriedade imobiliária 6.8.1) Registro *é uma tradição solene que demanda formalidade, qual seja processamento perante o ofício imobiliário. *o título traslativo da propriedade deve ser levado a registro no Registro de Imóveis para fins de transferência da propriedade entre vivos – art. 1245 CC. *art. 1227 CC. *o registro não conduz a uma presunção absoluta da propriedade: #vinculação do modo ao título: a eficácia do registro está condicionada à validade do título, pois se este contiver vício poderá contaminar o registro. #relatividade da presunção de propriedade: em regra, quem registra é dono, mas se o teor do registro não exprimir a verdade, poderá o prejudicado, através de provas, invalidá-lo. *o registro torrens implica em presunção absoluta da propriedade e domínio (somente cabe para imóveis rurais) – arts. 277 e SS. da Lei 6015/73; somente poderá ser questionado se houver fraude na emissão do certificado ou se a ação proposta por terceiro estiver fundada em certificado idôneo emitido anteriormente. *distinções terminológicas: #matrícula: é a primeira inscrição da propriedade do imóvel, sendo realizada ao tempo do primeiro registro; há correspondência entre a unidade da matrícula à unidade do imóvel; terá permanência indefinida, pois nela serão lançados todos os registros e averbações que forem realizados no mesmo imóvel. #registro: ato subseqüente à matrícula, tendo como fundamento ato de disposição total ou parcial da propriedade, além de atos constitutivos de direitos reais sobre coisas alheias (usufruto, hipoteca) ou ônus e limitações a estes equiparados (penhora, bem de família). #averbação: são alterações secundárias que não modificam a essência do registro, mas apenas alteram as características físicas do imóvel (construção, demolição) ou a qualificação do titular (casamento, separação), bem como os atos que cancelam os gravames que incidiam sobre o vem (hipoteca). 6.8.2) Usucapião - Conceito: é modo originário de aquisição de propriedade pela posse da coisa por um prazo prolongado e desde que haja o cumprimento de requisitos legais. - Modo de aquisição originário: o novo proprietário não mantém qualquer relação de direito real ou obrigacional com o anterior proprietário, ou seja, não obtém o bem do proprietário, mas contra ele. A coisa é transferida em toda a sua plenitude, sem quaisquer vícios. - Modo de aquisição derivado: há relação entre anterior e atual proprietário, este adquiriu o bem daquele através de uma relação jurídica. A coisa é transferida com os mesmo atributos e restrições de antes. - Fundamento: consolidação da propriedade. - O registro da usucapião está condicionado às obrigações fiscais – art. 945 CPC, a exceção da usucapião especial rural a teor do art. 8º da Lei 6969/81 que prevê imunidade tributária. - Requisitos pessoais: *aplica-se à usucapião as causas impeditivas e suspensivas da prescrição previstas nos artigos 197 e 198 do CC. *a interrupção prevista no art. 202 CC, não se aplica integralmente à usucapião: #mera notificação extrajudicial não é capaz de interromper o prazo prescricional aquisitivo. #a citação em ação reivindicatória por si só não interrompe a prescrição aquisitiva, pois se a ação for julgada improcedente não haverá qualquer interrupção do prazo aquisitivo. #somente poderá ocorrer a interrupção uma única vez. #usucapião por condômino: .se o bem for divisível, a causa suspensiva que aproveite a um condômino não se estenderá a outro. .se o bem for indivisível, a causa suspensiva que aproveite a um condômino se estenderá aos demais – art. 201 CC. - Requisitos reais: *somente os bens que estão no comércio são passíveis de ser usucapidos. *os bens fora de comércio são inusucapíveis, como os bens públicos de qualquer natureza (art. 183, §3º, e 191, par. único, CF; art. 102 CC). *bens das sociedades de economia mista e das empresas públicas – há duas correntes: #usucapíveis, pois são pessoas jurídicas de direito privado e, portanto, seus bens são privados. #inusucapíveis, desde que se trate de bens cuja natureza está vinculada à finalidade do serviço, sendo este o entendimento do STF (RE nº 220.906). *bens das terras que não se encontram registradas em nome de ninguém (res nullius-coisa de ninguém) podem ser usucapidas: #há uma corrente que defende se tratar de terras devolutas (art. 225, §5º, CF) e, portanto, indisponíveis e pertencentes ao Poder Público; entretanto, o STJ já se manifestou a favor do particular, cabendo o Poder Público provas a titularidade. *imóvel gravado como bem de família: pode ser usucapido, em decorrência do princípio da função social da propriedade, não tendo o proprietário dado a finalidade desejada, qual seja bem de família. *terras ocupadas pelos índios: são terras públicas e, portanto, inusucapíveis – art. 231, §2º; art. 20, XI; CF). *remanescentes das comunidades de quilombos são beneficiados pela usucapião das terras que suas gerações sempre ocuparam até a edição da CF/88, mesmo em se tratando de terras públicas – art. 68 ADCT. *áreas comuns nos condomínio edilícios não são usucapíveis