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DIREITO ADMINISTRATIVO II 1 D E L E G A Ç Ã O D O S S E R V I Ç O S P Ú B L I C O S 1. Delimitação do tema Neste ponto convém recapitular o que foi estudado no item 7, da Aula 01, sobre a forma de prestação dos serviços públicos. Lá expusemos que a sua prestação pode se dar, basicamente, de três formas: 1) Direta: a prestação dos serviços é realizada a) pessoalmente pela Administração Pública Direta como, por exemplo, a varrição de ruas, ou b) com o auxílio de particulares, selecionados por meio de procedimento licitatório, como, por exemplo, a coleta de lixo feita por empresa terceirizada. A prestação direta, mesmo com o auxílio de particulares é feita sempre em nome do Estado, razão pela qual a responsabilidade civil é exclusiva deste. 2) Indireta por Outorga: a prestação dos serviços é realizada por meio de pessoas jurídicas especializadas criadas pelo Estado. É o que ocorre com as autarquias, fundações públicas, associações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista. Um exemplo dessa forma de prestação são os serviço postais exercido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos - EBCT. 3) Indireta por Delegação ou Colaboração: é aquela prestação realizada por meio de Delegatários (Concessionários e Permissionários), selecionados por meio de procedimento licitatório e, desde que a delegação tenha previsão em lei específica (concessão) ou autorização legislativa (permissão). Doravante, iremos nos concentrar nessa forma de prestação dos serviços públicos. DIREITO ADMINISTRATIVO II 2 2. Da Delegação dos serviços públicos A delegação de serviços públicos pode ocorrer por diversos instrumentos: lei (para entes da administração indireta); contratos administrativos (para concessão comum de serviços públicos, para a concessão especial e para a permissão de serviços públicos); e atos unilaterais (para autorização de serviço público). Atentemos, contudo, para o fato de que, muito embora venhamos a nos concentrar nos contratos administrativos e atos unilaterais relacionados à prestação de serviços públicos, existem, ainda, a concessão, a permissão e a autorização de uso de bem público, que não serão objeto de nosso estudo. A delegação de serviços públicos é um gênero e, precisamos, neste ponto de nossos estudos, sistematizar as suas espécies e subespécies, tal qual delineadas pela legislação infraconstitucional. A primeira forma de delegação que estudaremos é a Concessão de Serviços Públicos. Esta, por sua vez, é subdividida em duas modalidade: 1) Concessão Comum, regulada nas Leis n. 8.987/1995 e 9.074/1995). São de dois subtipos: A) Concessão de serviço público; e B) Concessão de serviço público precedida da execução de obra pública. 2) Concessão Especial, também denominadas de PPPs (Parcerias Público- Privadas), previstas na Lei n. 11.079/2004, mas também sujeitas a alguns dispositivos da Lei n. 8.987/1995. Também composta de dois tipos: A) Concessão patrocinada; e B) Concessão Administrativa. A segunda forma de delegação que estudaremos é a Permissão de Serviços Públicos. E, por fim, a terceira será a Autorização de Serviços Públicos. Feita essa sistematização passemos ao estudo de cada uma delas. DIREITO ADMINISTRATIVO II 3 3. Concessão de serviços públicos 3.1 Concessão Comum 3.1.1 Concessão de serviços públicos vs Concessão de serviços públicos precedida da execução de obra pública É recomendável o estudo conjunto dos dois tipos de concessão comum, dada a sua íntima ligação. Assim, iniciaremos, justamente, pela sua diferenciação para, em seguida, analisarmos todos os demais pontos, já que convergentes. Concessão de serviço público é a delegação de sua prestação, feita pelo poder concedente (União, Estados, DF ou Municípios), mediante licitação nas modalidades de concorrência ou diálogo competitivo, a pessoa jurídica ou consórcio de empresas que demonstre capacidade para o seu desempenho por sua conta e risco e por prazo determinado (o prazo irá variar conforme o serviço concedido), conforme insculpido no art. 2º, inciso II, da lei n. 8.987/95. O que diferencia a Concessão de serviços públicos precedida da execução de obra pública (prevista no art. 2º, inciso III, da lei n. 8.987/95), como o próprio nome sugere, é que antes da realização do serviço, é necessário a realização de uma obra pública. A lei define-a como sendo a construção, total ou parcial, conservação, reforma, ampliação ou melhoramento de quaisquer obras de interesse público, delegados pelo poder concedente, mediante licitação, na modalidade concorrência ou diálogo competitivo, a pessoa jurídica ou consórcio de empresas que demonstre capacidade para a sua realização, por sua conta e risco, de forma que o investimento da concessionária seja remunerado e amortizado mediante a exploração do serviço ou da obra por prazo determinado. A título de exemplo, temos a concessão, mediante certame licitatório, da construção e conservação de rodovia, com a consequente remuneração do concessionário mediante a cobrança de pedágios aos usuários da via. Percebe-se do exposto que a única diferença entre os dois tipos de concessão comum está no respectivo objeto. Na concessão simples, o objeto do contrato é unicamente a execução de determinada atividade caracterizada como serviço público; já na concessão de serviço público precedida da execução de obra pública há uma duplicidade de objeto. O primeiro deles é o ajuste entre o poder concedente e o DIREITO ADMINISTRATIVO II 4 concessionário para a execução de determinada obra pública; o segundo, a prestação do serviço público consistente na exploração econômica do serviço ou da obra Importante lembrar que a concessão de serviço público requer autorização legislativa específica para sua formalização. Pessoa física não podem receber a concessão da execução de um serviço público. O art. 2º, incisos II e III somente preveem que sejam concessionárias de serviços públicos as pessoa jurídica ou consórcio de empresas. Por fim, importante se ater ao fato que, de acordo com o parágrafo único do artigo 31, as contratações, feitas pela concessionária serão regidas pelas disposições de direito privado, inclusive as de mão-de-obra, que se regerão pela legislação trabalhista, não se estabelecendo qualquer relação entre os terceiros contratados pela concessionária e o poder concedente. 3.1.2 Encargos dos concessionários Diversas são as incumbências das concessionárias, dentre as quais destacamos: a) prestar serviço adequado, de acordo com a forma prevista em lei, nas normas técnicas aplicáveis e no contrato; b) manter em dia o inventário e o registro dos bens vinculados à concessão; c) prestar contas da gestão do serviço ao poder concedente e aos usuários, nos termos definidos em contrato; d) cumprir e fazer cumprir as normas de serviço e as cláusulas contratuais da concessão; e) Permitir aos encarregados da fiscalização livre acesso, em qualquer época, às obras, aos equipamentos e às instalações integrantes do serviço, bem como a seus registros contábeis; f) promover as desapropriações e constituir servidões autorizadas pelo poder concedente, conforme previsão editalícia e contratual g) zelar pela integridade dos bens vinculados à prestação do serviço, bem como segurá-los adequadamente; e, h) captar, aplicar e gerir os recursos financeiros necessários à prestação dos serviços. DIREITO ADMINISTRATIVO II 5 3.1.3 Direitos e obrigações dos Usuários Os artigos 7º e 7º-A da lei 8987/95 estabelecem os direitos e as obrigações dos usuários dos serviços públicos. São eles: a) receber serviço adequado, prestado com regularidade, continuidade, segurança, cortesia e atualidade; b) receber do poder concedente e da concessionária informações para a defesa dos interesses individuaise coletivos; d) obter e utilizar o serviço com liberdade de escolha entre os vários prestadores do serviço, quando for o caso, observadas as normas do poder concedente; e) ter, no mínimo de 6 datas opcionais disponibilizadas, dentro do mês de vencimento, para escolher entre os dias de vencimento de seus débitos; f) levar ao conhecimento do poder público e da concessionária as irregularidades de que tenham conhecimento referente aos serviços prestados; e, g) caso verifique a prática de atos ilícitos por parte da concessionária na prestação do serviço, deverá comunicar às autoridades competentes, contribuindo para a boa condição dos bens públicos por meio dos quais lhes são prestados os serviços. 3.1.4 Política tarifária A política tarifária, será estabelecida no procedimento licitatório, conforme artigos 9º a 13, da lei 8.987/95. Nesta oportunidade serão delimitados o valor, índice e a data de reajuste, regras de manutenção do equilíbrio econômico-financeiro etc. Via de regra, as concessionárias serão remuneradas mediante pagamento de tarifa pelos usuários do serviço público disponibilizado. Todavia, facultativamente, nos casos em que forem necessários investimentos muito elevados, de modo que o concessionário não consiga recuperar o seu investimento, dentro de período razoável, apenas por meio da cobrança de tarifas dos usuários, poderá haver a presença de recursos público para remunerar o concessionário. É possível, ainda, como forma de observância ao princípio da modicidade tarifária, a previsão contratual de receitas alternativas para a concessionária, permitindo, assim, a redução do custo dos serviços para os usuários. Podemos citar como exemplo de meios alternativos de receitas às concessionárias: a) utilização de espaços publicitários em ônibus; b) imposição de zona DIREITO ADMINISTRATIVO II 6 azul para estacionamento em via pública; c) colocação de outdoors às margens de rodovias concedidas etc. 3.1.5 Responsabilidade das Concessionárias Os concessionários de serviço público têm responsabilidade objetiva na prestação dos serviços concedidos, nos termos do §6º, do artigo 37, da CF/88. Nesse sentido: STF RE 591.874. Em nível infraconstitucional, a Lei 8.987/95, em seu art. 25 estabelece: Art. 25. Incumbe à concessionária a execução do serviço concedido, cabendo-lhe responder por todos os prejuízos causados ao poder concedente, aos usuários ou a terceiros, sem que a fiscalização exercida pelo órgão competente exclua ou atenue essa responsabilidade Segundo o supracitado excerto legal, a fiscalização exercida pela autoridade competente sobre o serviço público prestado, não exclui a responsabilidade da concessionária por eventuais prejuízos causados ao poder concedente, aos usuários ou a terceiros. Essa responsabilidade permanece também nos casos em que as concessionárias contratam terceiros para a realização de atividades necessárias à execução dos serviços ou a implantação de projetos associados, nos termos do §1º, do artigo 25. 3.1.6 Contratação com terceiros, transferência da Concessão, transferência do controle acionário da Concessionária e Subconcessão Para tratar desse tópico, ab initio, é preciso relembrar conceitos referentes à classificação dos contratos. Diversas podem ser as formas de classificação dos contratos e, uma em especial, é relevante para avançarmos nesta parte de nosso estudo. Os contratos de concessão são classificados como pessoais ou intuitu personae. Isso significa a pessoa de um dos contraentes é elemento determinante para a realização do contrato. Em caso de irrelevância jurídica da pessoa do contratante, estaríamos diante de um contrato classificado como impessoal. A decorrência prática do enquadramento do contrato de concessão como intuitu personae é que numa eventual transferência da concessão para outra pessoa jurídica DIREITO ADMINISTRATIVO II 7 ou do controle societário da concessionária, sem prévia anuência do poder concedente, ocorreria a extinção da concessão (art. 27). Em contrapartida, para que o pretendente obtenha a anuência do poder concedente, evitando a extinção da concessão, deverá comprovar que atende às exigências de capacidade técnica, idoneidade financeira e regularidade jurídica e fiscal necessária à assunção do serviço, bem como se comprometer a cumprir todas as cláusulas do contrato em vigor. Não obstante a inexistência de previsão legal, a doutrina aponta a necessidade de prévia licitação para que se proceda à transferência da concessão para outra pessoa jurídica. Ora, se a subconcessão, que é sempre parcial, depende de licitação (art. 26, § 1º), a transferência total do objeto do contrato, por motivos semelhantes e até mais intensos, também deveria se submeter a tal regra. Já a hipótese de transferência de controle acionário da concessionária é bastante distinta, pois a vencedora do certame licitatório que resultou na celebração do contrato de concessão foi a pessoa jurídica, e não seus acionistas controladores. Assim, sendo mantidas as partes signatárias do contrato de concessão, a precaução adotada pela Lei n. 8.987/1995 é, apenas, no sentido de evitar que a modificação repercuta negativamente na capacidade que tem o concessionário de cumprir com o objeto do contrato (capacidade técnica, idoneidade financeira e regularidade jurídica e fiscal). Registramos, também, que a Lei n. 8.987/1995 prevê a possibilidade de o poder concedente autorizar a assunção do controle ou a administração temporária da concessionária por seus financiadores e garantidores, com objetivo de que estes promovam sua reestruturação financeira e com isso seja assegurada a continuidade da prestação dos serviços (art. 27-A). Neste caso, a assunção do controle ou a administração temporária autorizada não alterará as obrigações da concessionária e de seus controladores para com terceiros, poder concedente e usuários dos serviços públicos. A subconcessão verifica-se quando parcela do objeto principal do contrato é transferida para um subconcessionário (art. 26, da Lei n. 8.987/1995). Para que a operação seja possível, devem ser atendidos os seguintes requisitos: a) a subconcessão deve estar prevista no contrato de concessão; b) o poder concedente deve autorizar a subconcessão; e c) o poder concedente deverá realizar nova licitação, na modalidade concorrência, para a escolha do subconcessionário. A única participação do concessionário na subconcessão é solicitar ao poder concedente que realize a transferência parcial do objeto, dentro do que está previsto DIREITO ADMINISTRATIVO II 8 no contrato. Daí em diante, caso o concedente concorde, realizará a licitação e escolherá o subconcessionário, que ficará responsável pela prestação de parte do objeto principal do contrato. Nesse caso, o subconcessionário se sub-rogará de todos os direitos e obrigações do subconcedente relativos àquela parte do objeto que foi subconcedido, passando o concessionário original a não ter mais qualquer responsabilidade sobre o objeto subconcedido. O caráter intuitu personae do contrato de concessão, no entanto, não impede a concessionária de contratar com terceiros o desenvolvimento de atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido, bem como a implementação de projetos associados (art. 25, § 1º). Tais contratos não afetam o caráter intuitu personae, pois não envolvem a própria prestação do serviço concedido. Como exemplo da contratação de terceiros pela concessionária, podemos citar um contrato de concessão de rodovia, em que os serviços de jardinagem dos canteiros podem ser terceirizados pela concessionária, mediante a contratação de outra pessoa jurídica. Celebrados entre a concessionária e terceiros, esses contratos são regidos pelo direito privado e não dependem de qualquer autorização do poder concedente, devendoapenas atender às normas regulamentares do serviço concedido. Não obstante, o concessionário continua responsável pelos serviços contratados com terceiros (terceirizados). A propósito, o STF declarou a constitucionalidade deste parágrafo(art. 25, §1º), deixando claro que não há restrições a terceirização das atividades da concessionária, quaisquer que sejam. Esse julgamento afastou o entendimento da Justiça do Trabalho que, com base na súmula 331 do TST, à época, pretendia restringir a possibilidade de terceirização apenas para atividades-meio (ADC 57) Nesses contratos de terceirização, a lei expressamente previu que os terceirizados não terão qualquer relação jurídica com o poder concedente e, que seus contratos com a concessionária serão regidos pelo direito privado, sem prejuízo do cumprimento das normas regulamentares da modalidade do serviço concedido. DIREITO ADMINISTRATIVO II 9 3.1.7 Formas de extinção da concessão A lei 8.987/95 prevê, em seu artigo 35, seis formas de extinção dos contratos de concessão: a) advento do termo contratual; b) encampação; c) caducidade; d) rescisão; e) anulação; e f) falência ou extinção da empresa concessionária e falecimento ou incapacidade do titular, no caso de empresa individual. Encerrada a concessão, todos os bens reversíveis, direitos e privilégios retornam ao poder concedente, conforme previsão editalícia e contratual (art. 35, § 1º). Bens reversíveis são aqueles que devem ser transferidos do concessionário para o poder concedente com a extinção do contrato. O poder concedente assume imediatamente o serviço e ocupa as instalações e bens reversíveis para garantir a continuidade do serviço público (art. 35, §§ 2º e 3º). Os bens reversíveis não amortizados ou depreciados devem ser indenizados ao concessionário, evitando o enriquecimento sem causa do concedente e incentivando investimentos contínuos (art. 36). Os valores de eventuais multas contratuais e danos causados podem ser descontado da indenização (art. 38, § 5º). A) advento do termo contratual: (art. 35, I) Termo do contrato de concessão se refere ao fim do prazo de vigência contratual, extinguindo a concessão. Trata-se, portanto, da hipótese mais natural e esperada pelas partes envolvidas. B) encampação: (art. 35, II) Também chamada de resgate, é a extinção da concessão devido à retomada do serviço pelo poder concedente, ainda durante o prazo de vigência da concessão, por motivos de interesse público. Nesta modalidade extintiva, não há inadimplência por parte do concessionário, mas o interesse da Administração em retomar o serviço. Trata-se de uma prerrogativa do Poder Público de extinguir unilateralmente o contrato administrativo. Para isso, são necessários três requisitos: interesse público, lei específica autorizando a encampação e indenização prévia ao concessionário pelos bens revertidos usados no serviço, não amortizados ou depreciados. Todavia, nestes casos, a lei não contempla a possibilidade de indenização à concessionária por lucros cessantes (a compensação pelo lucro que a concessionária obteria caso continuasse a executar o contrato até o término previsto). C) Caducidade: (art. 35, III) Também conhecida como decadência, consiste na extinção do contrato de concessão de serviço público em razão da inexecução total ou parcial do contrato, por razões imputáveis exclusivamente à concessionária. A caducidade da concessão poderá ser declarada pelo poder concedente nas hipóteses DIREITO ADMINISTRATIVO II 10 previstas no art. 38, § 1º, I a VII, o qual dispensa transcrição, mas não a sua leitura atenta. A declaração de caducidade é apenas uma faculdade do poder concedente, que poderá optar por efetuar essa declaração ou aplicar as sanções previstas no contrato, conforme melhor atenda ao interesse público. Além das hipóteses previstas no dispositivo legal citado, a lei prevê também, no seu art. 27, que a transferência da concessão ou do controle acionário da concessionária sem prévia anuência do poder concedente implicará a caducidade da concessão. Para que o poder concedente possa declarar a caducidade da concessão, é necessário observar as formalidades previstas nos §§ 2º ao 4º do art. 38. Primeiramente, deve haver a notificação da concessionária sobre os descumprimentos contratuais, sendo-lhe concedido um prazo para corrigir as falhas e transgressões apontadas e adequar-se aos termos contratuais. Caso a notificação não seja atendida, deverá ser instaurado um processo administrativo para apurar a inadimplência da concessionária, garantindo-lhe o direito ao contraditório e à ampla defesa. Comprovada a inadimplência no âmbito do processo administrativo, haverá, então, a decretação da caducidade, por meio de decreto do chefe do Executivo do poder concedente, independentemente de indenização prévia. A declaração de caducidade não exige indenização prévia. No entanto, se houver bens reversíveis ainda não amortizados ou depreciados, o poder concedente deve indenizar a concessionária após o processo, descontando multas contratuais e danos causados pela concessionária (art. 38, § 5º). D) Rescisão Contratual: (art. 35, IV) Trata-se da forma de extinção da concessão, por iniciativa da concessionária, motivada pelo descumprimento de normas contratuais por parte do poder concedente. Nesse caso, como autoexecutoriedade é privilégio aplicável apenas à Administração, para que o concessionário possa rescindir o contrato de concessão deverá propor ação judicial com esse objetivo. Os serviços prestados pela concessionária não poderão ser interrompidos ou paralisados até que a decisão judicial que determine a rescisão transite em julgado, isto é, dela não couber mais qualquer recurso. E) Anulação: A anulação é hipótese de extinção do contrato de concessão por motivo de vício de legalidade, que pode ser declarado na via administrativa (autotutela) ou na judicial. A Lei n. 8.987/1995, apesar de citar a anulação como causa de extinção da concessão, não disciplina seus efeitos econômico-financeiros. Assim, DIREITO ADMINISTRATIVO II 11 aplica-se à anulação da concessão, de forma subsidiária, a previsão contida no art. 148 da Lei n. 14.133/21. F) falência ou extinção da empresa concessionária e falecimento ou incapacidade do titular, no caso de empresa individual: Embora a Lei n. 8.987/1995 mencione essas formas de extinção da concessão, nada disciplina acerca dos efeitos dessas hipóteses de extinção. Para o professor Carvalho Filho, tais acontecimentos provocam a extinção de pleno direito do contrato, pela simples razão de que tornam inviável, de fato, a execução do serviço público objeto do ajuste. 3.2 Concessão Especial ou Parcerias Público-Privadas O Brasil inicia a década de 90 sofrendo as consequências das crises políticas e econômicas da década anterior, carecendo de reformas administrativas e políticas que ajudassem a superar essas mazelas. Até esse momento, o Estado era o único investidor para as grandes obras que se faziam necessárias (portos, aeroportos, telefonia etc.). Esse cenário culmina com a criação do Programa Nacional de Desestatização (PND), iniciado nos anos 1990, com o objetivo de promover melhorias na infraestrutura pública através de investimentos do setor privado. Importantes normas, também, foram criadas, como as Leis n. 8.666/93 e n. 8.987/95. Mas, isso não foi suficiente para atrair o setor privado. Assim, as Parcerias Público-Privadas (PPPs) foram introduzidas como uma solução para superar esse desafio, baseando-se em experiências bem-sucedidas de outros países, como o Reino Unido. A aprovação da Lei n. 11.079/2004 marcou o início formal das PPPs no Brasil, oferecendo um modelo que permite a participação de atores privados na gestão pública, favorecendo investimentos em setores com carência de recursos públicos. Essa estratégia buscava recuperar acapacidade de investimento estatal e aumentar a atratividade para o setor privado. Podemos conceituar concessão especial ou PPPs como sendo uma espécie de contrato administrativo de concessão de serviço público precedido ou não de obra pública, com prazo de vigência entre 5 a 35 anos, com um valor superior a dez milhões de reais, caracterizado especialmente pelo fato de haver uma contraprestação pecuniária paga pelo parceiro público ao privado. De acordo com o art. 2º da Lei n. 11.079/2004, existem apenas duas modalidades de parceria público-privada: a) Concessão Patrocinada; e b) Concessão Administrativa. DIREITO ADMINISTRATIVO II 12 A Concessão Patrocinada caracteriza-se apenas por haver adicionalmente à tarifa cobrada dos usuários a contraprestação pecuniária do parceiro público ao parceiro privado ponto a delegação da construção de manutenção de rodovia é um bom exemplo de concessão patrocinada pois além do aporte de dinheiro pelo poder público há também a cobrança de tarifa pelos usuários por meio dos pedágios A Concessão Administrativa tem como elemento distintivo o fato de a de a administração pública ser a usuária direta ou indireta dos serviços, ainda que envolva execução de obra ou fornecimento e instalação de bens. Podemos citar como exemplo as contratações para construção e manutenção de presídios, nas quais o usuário desse serviço é o Poder Público. 3.2.1 Do processo licitatório Segundo a Lei n. 11.079/2004, as PPPs serão licitadas nas modalidades concorrência ou diálogo competitivo. Todavia, conforme explica o professor Flávio Cabral1, por força da incidência das leis n. 8.987/95 e 14.133/2021, não se afasta a possibilidade da utilização da modalidade leilão. Na modalidade Concessão Patrocinada existe um requisito específico: a Administração Pública deve ser a responsável por mais de setenta por cento da remuneração do parceiro privado. Neste caso, a PPP dependerá de autorização legislativa específica. Em todas as contratações de PPPs a abertura do processo licitatório dependerá do atendimento às seguintes diretrizes, todas descritas no art. 4º da Lei 11.079/2004: a) autorização da autoridade competente, fundamentada em estudo técnico; b) estimativa do impacto orçamentário-financeiro nos exercícios em que deva vigorar o contrato de parceria público-privada; c) declaração do ordenador da despesa de que as obrigações contraídas pela Administração Pública no decorrer do contrato são compatíveis com a lei de diretrizes orçamentárias (LDO) e estão previstas na lei orçamentária anual (LOA); d) estimativa que demonstre a suficiência dos recursos públicos necessários ao cumprimento das obrigações do parceiro público; e) previsão do objeto da PPP no plano plurianual; f) submissão da minuta do edital e do contrato à consulta pública; e g) licença ambiental prévia ou expedição das diretrizes para o licenciamento ambiental do empreendimento, sempre que o objeto do contrato exigir. 1 CABRAL, F. G.; SARAI, L. Manual de direito administrativo, 2ª ed., Leme-SP: Mizuno, 2023, p. 533. DIREITO ADMINISTRATIVO II 13 O edital da licitação deve observar, no que couber, as mesmas normas das concessões comuns previstas na lei n. 8.987/95, quanto aos itens necessários, quanto a não aceitação de propostas inexequíveis, quanto às preferências para empresas brasileiras, quanto as regras para consórcios e, quanto a possibilidade de reembolso dos eventuais custos prévios de projetos, levantamentos e estudos. Facultativamente, o instrumento convocatório da PPP poderá exigir garantia de proposta, prever o uso de meios alternativos de resolução de disputas, inclusive a arbitragem, a ser realizada no Brasil e em português, e as garantias da contraprestação do parceiro público a ser concedida ao parceiro privado. Quanto aos critérios de julgamento, a lei admite: a) o menor valor da tarifa do serviço público a ser prestado; b) a melhor proposta em razão da combinação dos critérios de menor valor da tarifa do serviço público a ser prestado com o de melhor técnica, c) menor valor da contraprestação a ser paga pela Administração Pública, e d) a melhor proposta em razão da combinação da melhor técnica com o menor valor da contraprestação a ser paga pela Administração Pública. 3.2.2 Das garantias As garantias são uma ferramenta essencial para atrair investimentos e reduzir a insegurança dos investidores sobre a inclusão de recursos públicos no orçamento anual ou o possível inadimplemento por parte do parceiro público, especialmente considerando que os contratos são de longo prazo e envolvendo grandes quantias. Entre as garantias previstas na lei n. 11.079/2004 estão a) a vinculação de receitas, exceto as decorrentes de impostos (art. 167, IV da CF/88; b) a instituição ou utilização de fundos especiais previstos para isto; c) a contratação de seguro-garantia com companhias seguradoras que não sejam controladas pelo Poder Público; d) a garantia prestada por organismos internacionais ou instituições financeiras que não sejam controladas pelo Poder Público; e) a garantis prestada por fundo garantidor ou empresa estatal criada para esta finalidade; e f) outros mecanismos admitidos em lei. 3.2.3 Do Fundo Garantidor de PPP - FGP O art. 16 da Lei das PPPs autoriza a União, seus fundos especiais, suas autarquias, suas fundações públicas e suas empresas estatais a criarem o Fundo Garantidor de Parcerias Público-Privadas – FGP, com limite global de até R$ 6 bilhões, que terá por finalidade prestar garantia de pagamento de obrigações pecuniárias assumidas DIREITO ADMINISTRATIVO II 14 pelos parceiros públicos federais, distritais, estaduais ou municipais em virtude das parcerias de que trata esta Lei. A lei atribui natureza privada ao FGP e separa o seu patrimônio em relação ao patrimônio de seus cotistas, notadamente com o propósito de deixar clara a possibilidade de sua penhora e expropriação forçada (art. 18, §7°). As garantias podem ser acionadas em duas situações: a) ausência de pagamento de crédito líquido e certo constante de título exigível aceito, desde que ultrapassados 15 dias contados da data de vencimento; e b) débitos constantes de faturas emitidas e não aceitas pelo parceiro público após 45 dias contados da data de vencimento, desde que não tenha havido rejeição expressa por ato motivado. 3.2.4 Da Sociedade de Propósito Específico A Sociedade de Propósito Específico é outro instrumento de garantia do cumprimento dos compromissos envolvidos na parceria público-privada. Trata-se de uma pessoa jurídica distinta daquela que ganhou o processo licitatório para a concessão do serviço público, criada especificamente para implantar e gerir o objeto da parceria. A SPE poderá assumir a forma de sociedade por ações de natureza aberta, com valores mobiliários negociados no mercado. Para o parceiro público, de certa forma, a SPE representa a garantia de que eventuais problemas financeiros ou de outra natureza não prejudiquem a prestação do serviço público delegado. Por outro lado, para o parceiro privado, representa a garantia de que problemas na gestão pública não irão repercutir no adimplemento das obrigações assumidas pelo parceiro público. A transferência do controle da SPE sempre dependerá de autorização expressa da administração pública, observando-se a necessidade de manutenção dos requisitos de qualificação, de modo a assegurar a adequada prestação do serviço público. DIREITO ADMINISTRATIVO II 15 4. Permissão de serviços públicos Conforme se depreende do inciso IV, do art. 2º, da Lei n. 8.987/95, a permissão de serviço público é uma modalidade de delegação da prestação de serviços públicos, realizada a título precário pelo poder concedente, mediante prévia licitação, à pessoa física ou jurídica que demonstre capacidade para seu desempenho, por sua conta erisco. Esse dispositivo deve ser estudado em conjunto com o Art. 40 do mesmo Diploma legal, que define que as permissões de serviço público devem ser formalizadas mediante contrato de adesão, que observará os termos desta Lei, das demais normas pertinentes e do edital de licitação, inclusive quanto à precariedade e à revogabilidade unilateral do contrato pelo poder concedente. 4.1 A contratualização da Permissão de serviços públicos No Brasil, durante muito tempo se compreendeu a permissão de serviços públicos como tendo natureza jurídica de ato administrativo. Ainda hoje, doutrinadores como José dos Santos carvalho Filho defendem esse ponto de vista. Todavia, esse entendimento veio sendo alterado desde a promulgação da CF/88, que estabelece em seu art. 175: Art. 175. Incumbe ao Poder Público, na forma da lei, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, sempre através de licitação, a prestação de serviços públicos. Parágrafo único. A lei disporá sobre: I - o regime das empresas concessionárias e permissionárias de serviços públicos, o caráter especial de seu contrato e de sua prorrogação, bem como as condições de caducidade, fiscalização e rescisão da concessão ou permissão; O excerto legal supra já deixa claro que o constituinte atribuiu natureza jurídica de contrato à permissão de serviço público. Posteriormente, o art. 40 da Lei n. 8.987/95 estabeleceu que as permissões serão formalizadas por contrato, e não um simples contrato, mas um contrato de adesão. O STF já bateu o martelo acerca da questão no julgamento da ADI 1.491/98, reconhecendo a natureza jurídica contratual das permissões de serviços públicos. DIREITO ADMINISTRATIVO II 16 5. Autorização de serviços públicos Segundo a professora Licínia Rossi, “a autorização de serviços públicos não é vista com bons olhos pela doutrina, já que é um instituto simples demais, utilizado normalmente para serviços pequenos ou urgentes.” Trata-se de um ato administrativo por meio do qual a administração pública possibilita ao particular a realização de alguma atividade de predominante interesse deste. Tem caráter discricionário (a Administração avaliará a conveniência e a oportunidade) e precário (a Administração pode revogar a qualquer tempo a autorização, sem ônus da indenizar o autorizatários). Podemos citar como exemplos de autorização de serviços públicos a autorização para o transporte escolar privado, a autorização de funcionamento de uma rádio comunitária dentro de uma área restrita, autorização para vendedores ambulantes etc.