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A ESCOLA METÓDICA

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quando o conhecimento “positivo” nas ciências naturais começa a partir daí, da relação direta entre observador e objeto;
o seu “ideal de conhecimento verdadeiro”: o da objetividade “absoluta”, conquistada pela imparcialidade, pela ausência de paixões ou de quaisquer a priori e pela extração do fato “em si”, contido no real; o historiador não constrói o seu fato, ele o encontra já nos documentos;
a sua “herança”: a crítica textual e a sua exigência de rigor, de dúvida, de certeza, de verdade. Esses três elementos, para Chartier e Revel, teriam como resultado um conhecimento considerado “positivo”: uma imagem a mais próxima possível daquela que teria dado a observação direta do fato passado.
O objetivo dos “positivistas”, parece-nos, pode ser comparado ao da organização de um museu, embora o conceito de museu, talvez, seja mais complexo. No museu, os objetos de valor histórico são resgatados, recuperados e expostos à visitação pública, com uma ficha com seus dados ao lado, e o observador posta-se diante de uma “coisa que fala por si”. O observador mantém uma relação direta com um objeto-coisa, definitivamente reconstituído. Assim, também, procederia o historiador metódico - através dos documentos, reconstituiria descritivamente, “tal como se passou”, o fato do passado, que, uma vez reconstituído, se tornaria uma “coisa-aí, que fala por si”. Ao historiador não competiria o trabalho da problematização, da construção de hipóteses, da reabertura do passado e da releitura de seus fatos. Ele reconstituiria o passado minuciosamente, por uma descrição definitiva. Tratados dessa maneira, os fatos históricos se tornariam verdadeiros seres, substâncias, objetos que se pode admirar do exterior, copiar, contemplar, imitar, mas jamais desmontar, remontar, alterar, reinterpretar, rever, problematizar, reabrir. Uma vez “estabelecidos” os fatos passados, a não ser que aparecessem novos documentos que alterassem sua descrição, tornando-a mais “verdadeira”, eles seriam uma “coisa que fala por si”. Claro que esse projeto é impraticável plenamente, e sustentar que há obras históricas que o realizaram é “caricaturar” a produção histórica “positivista”. Entretanto, tal projeto foi uma “orientação” da pesquisa histórica que, se não o realizou inteiramente, pois impossível, se deixou conduzir por seus princípios e objetivos.
Quanto às duas primeiras intenções declaradas, rejeição da filosofia da história e busca da objetividade, a historiografia positivista (talvez fosse melhor defini-la como “metódica”, por se apoiar em e superestimar o seu “método crítico”) revelou-se bem sucedida apenas em parte: seu “espírito positivo” só pôde prevenir o historiador dos perigos dos a priori e subjetivismos, e seu método crítico, embora eficiente tecnicamente, era usado para legitimar os pontos de vista., não explicitados, do historiador.
E quanto à terceira declaração de intenções, a da aceitação dos eventos e das diferenças temporais? A julgar pelas declarações, aparentemente a historiografia dita positivista deixou para trás todas as formas de evasão da história e assumiu o evento, em sua singularidade e irrepetibilidade. A transcendência do presente mítico, o absoluto da fé e do Espírito-Liberdade parecem ter sido definitivamente abolidos da perspectiva histórica, que se quer mergulhada na temporalidade “acontecimental”, descontínua, dispersiva. Entretanto, parece-nos, essa é a forma mais desesperada de fuga da história, que é tentada por todos os meios já conhecidos e cria outro meio - o do esforço de "objetividade científica". Mito, fé, utopia e objetividade, todos os meios possíveis para se recusar a experiência vivida da história foram utilizados.
Nora (1974) parece intuir a contradição maior dessa história científica, cultuadora do evento. Para ele, o que caracteriza nossa época, a partir do final do século XIX, é a produção vertiginosa de eventos: guerras mundiais, revoluções, rapidez das comunicações, penetração das economias modernas nas tradicionais, mobilização de massas, imperialismo, descolonização. Essa circulação intensa e generalizada da percepção histórica culmina em um evento novo: a produção vertiginosa de eventos e o culto do evento. Nessa fase transbordante de acontecimentos - que se inicia entre 1870 e 1914 -, uma geração de historiadores constituiu uma história científica que tem como princípio a ênfase no evento passado, separado do presente. O evento só entra para a história se já “morreu”. Os positivistas tomam emprestado ao seu presente o principal de seus elementos - o evento - para dar-lhe validade somente em um passado inofensivo. Dá-se a recusa do evento presente pelo culto do evento passado. Além de ser passado (o que não significa que ele seja “morto”, pelo contrário), a intervenção historiográfica o domina, controla, desvitaliza, subinterpreta, esquematiza e “arquiva”: tem-se, então, a lembrança de uma coisa endurecida, desvitalizada, sem qualquer efeito explosivo no presente. Afirma Nora: “À condição de que o presente, dominado pela tirania do evento, fosse impedido de habitar a história, era claro que a história seria construída sobre o evento. ” (1974, p. 211-2)
Dos eventos passa dos, o historiador tornou-se proprietário; é privilégio de sua função determinar-lhes o lugar, o valor, e nenhum deles entra para a história sem o seu apoio. O evento passado é o oposto do evento presente - este é emergência, novidade, revolução, transtorno; aquele, uma petrificação do vivido. Temendo o caráter incontrolável do evento contemporâneo, do qual não se conhecem as consequências, os ditos positivistas escapavam do evento presente e de seu caráter explosivo pelo culto do evento passado, embalsamando-o e “arquivando-o”; sugerindo, talvez, o que propunham se fizesse com os eventos do presente. Assim se constitui a estratégia objetivista de evasão da história: o historiador procura se separar de seu objeto, o vivido humano. Distanciando-se, o sujeito se retira do evento e o observa do exterior, como se o evento não o afetasse, como se fosse uma “coisa-aí” sem qualquer relação com o seu próprio vivido. A narração histórica separa-se do vivido e se refere a ele “objetivamente”, narrando-o e descrevendo-o do exterior. Trata-se de uma “racionalização” da tensão, da ameaça da dispersão, da fragmentação do vivido. Esses historiadores realizam também, além da “fuga objetivista”, uma evasão mítica. Para Langlois e Seignobos, o historiador tem por vocação a de educador cívico. O valor da história é sobretudo pedagógico, o método crítico combate a credulidade e a submissão à autoridade. Os eventos passados são instrumentos da educação cívica. É o fato histórico exemplar, único, irredutível à comparação, estabelecido pelos documentos, que cativa o aluno e o situa na evolução da nação, dando-lhe a noção de uma mudança progressiva rumo a “democracia” e inspirando-lhe o temor às mudanças bruscas (cf. CARBONELL e LIVET, 1983, p. 84-8). Na educação cívica, os fatos históricos e os grandes homens são cuidadosamente reconstituídos e embalsamados para a instrução da juventude. Faz-se uma “história comemorativa”, que legitima os rituais cívicos. Nesses rituais, realizados nas datas (dia e mês) que coincidem com as do evento passado, quando os grandes heróis produziram os seus grandes feitos, procura-se a coincidência do “atual com o eterno”, em um presente intenso.
Produzem também, estes historiadores, a evasão pela utopia: os grandes eventos são feitos por “grandes sujeitos”, que atuam na direção da história, favorecendo o desenvolvimento da nação e a realização da “democracia”. Tais eventos só podem ser compreendidos e “valorizados” quando inseridos em uma “continuidade” histórica, que aponta para determinado sentido da história. O futuro e o final utópico é que dão aos eventos presentes e passados seu sentido e sua realidade.
E, finalmente, há a evasão pela fé: os membros protestantes do grupo mantêm o ensinamento rankiano: cada povo é imediato a Deus. O evento é divinizado pela introdução nele

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