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Direito Processual Penal II - Prof. Carlos Eduardo Oliveira Conti

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Coerente a essa lógica, o júri pode até ser realizado sem a presença do acusado, contanto que ele expressamente declare que não deseja estar presente.
Por fim, não custa rememorar o brocado pas de nillité sans grief, para indicar que, se o Ministério Público for sustentar tese de absolvição ou que seja benéfica ao réu, por não haver prejuízo, o plenário poderá ser realizado, mesmo com sua ausência, sem comprometimento dos direitos fundamentais do indivíduo.
Assim, a intimação por edital da pronúncia constitui retrocesso nos direitos do cidadão, bem como a realização da sessão plenária sem a presença do acusado configura inconstitucionalidade patente, por afrontar o direito à plenitude de defesa, especificamente ao impedir a autodefesa em plenário.
Art. 421. Após a preclusão da pronúncia, se houver circunstância superveniente que altere a classificação do crime, o juiz ordenará a remessa dos autos ao Ministério Público para que proceda ao aditamento.
A princípio, há preclusão pro judicato com a decisão de pronúncia, não podendo os fatos serem alterados. Todavia, estabelece o art. 421, § 1º, que, ocorrendo circunstância superveniente à decisão de pronúncia que modifique a classificação do delito, o juiz ordenará a remessa dos autos ao Ministério Público. Apesar de não estar explícito, poderá ocorrer aditamento à denúncia para incluir esse novo fato, nova oportunidade de defesa e prolação de nova decisão de pronúncia incluindo esse fato novo, aplicando-se por analogia o art. 384, com sua redação dada pela Lei nº 11.719/08. Exemplo: se a vítima da tentativa de homicídio, que estava hospitalizada durante a instrução preliminar, morre após a pronúncia, é possível nova pronúncia por homicídio consumado. Nesta hipótese, o referido dispositivo condiciona a admissibilidade desta alteração da pronúncia, não sendo cabível, por exemplo, inclusão de qualificadora cuja prova já constava dos autos durante a instrução preliminar.
Exemplo: o acusado foi denunciado e pronunciado pela prática de homicídio tentado. A vítima veio a falecer em razão dos ferimentos que sofrera. A pronúncia deverá ser aditada.
IMPRONÚNCIA
Ocorre quando não há prova do crime ou não há indícios de autoria (art. 413, CPP).
A impronúncia está prevista no art. 414 e ocorre quando não há provas suficientes do crime. Tradicionalmente, a doutrina tem classificado a impronúncia como uma decisão interlocutória mista terminativa, pois a mesma põe fim ao processo sem julgamento de mérito (sua decisão não faz coisa julgada material, pois há possibilidade de reabertura do processo com o surgimento de novas provas).
A impronúncia encerra o processo (coisa julgada formal) sem pôr um fim definitivo à pretensão punitiva (não possui efeito de coisa julgada material). Assim, prevê o parágrafo único do art. 414 que “enquanto não ocorrer a extinção da punibilidade, poderá ser formulada nova denúncia ou queixa se houver prova nova”. Nessa situação, o surgimento de prova nova é uma condição de procedibilidade específica para a nova ação penal.
Trata-se de provas que já existiam e não foram produzidas no momento oportuno, ou de provas que surgiram após o encerramento do processo com a decisão de pronúncia.
Tradicionalmente, este efeito da impronúncia tem sido justificado ao argumento de que a pronúncia é uma mera decisão de admissibilidade da acusação e o juiz natural dos crimes dolosos contra a vida é o Tribunal do Júri. Assim, não sendo pronunciado, o acusado não foi submetido ao risco de ser condenado, não havendo violação à double jeopardy clause (proibição de ser submetido duas vezes ao risco de condenação, ou, no sistema derivado do europeu continental, ne bis in idem). A gravidade dos crimes dolosos contra a vida também tem justificado essa possibilidade de nova denúncia.
Na hipótese de atipicidade, caso esteja claramente provado que não houve dolo de matar (animus necandi) ou que o autor com certeza não foi autor da infração, ou ainda que o fato não existiu, não será caso de impronúncia, mas sim de absolvição sumária, conforme nova redação do art. 415, III. Antigamente, esta hipótese ensejava impronúncia, o que acabava sendo injusto, pois impedia a formação da coisa julgada material. Obviamente, no caso de ausência de dolo de matar, mas presença de outro tipo de dolo (v.g., de lesionar), não será caso de absolvição sumária, mas sim de desclassificação.
O processo pode ser reaberto quando surgirem novas provas.
Limite: até a prescrição.
Efeitos: se o réu estiver preso, deve ser solto imediatamente.
Recurso cabível: apelação – art. 416 do CPP.
Questão intrincada é a de surgirem novas provas da inocência cabal do acusado após a decisão de impronúncia. Nesta situação, deve ser admissível o ajuizamento de revisão criminal ou mesmo de ação declaratória (por analogia ao art. 4º do CPC) para que se gerem os efeitos da coisa julgada material, da mesma forma que o seria com a sentença de absolvição sumária.
Contra a decisão de impronúncia cabe recurso de apelação, conforma art. 416. Antes da reforma, esta era a hipótese de cabimento de recurso em sentido estrito pela acusação (neste sentido, a Lei nº 11.689/08 alterou a redação do art. 581, IV, para excluir a hipótese de impronúncia).
IMPRONÚNCIA E CRIMES CONEXOS
Exemplo: homicídio doloso e furto. Se o juiz impronunciar o réu por homicídio doloso, não poderá pronunciá-lo, absolvê-lo ou condená-lo pelo crime de furto, pois não terá competência para assim decidir. O juiz deverá aguardar o transcurso do prazo para a interposição do recurso de apelação ou seu improvimento para remeter o crime de furto para o juiz singular (PU do art. 81 do CPP).
IMPRONÚNCIA E EFEITOS CIVIS
Pode ser uma decisão de cunho meramente processual, não impede que a vítima ou seus parentes requeiram a responsabilidade civil do acusado que foi impronunciado.
A ação civil deverá ser proposta pelo processo de conhecimento, pois não é título executivo judicial. A impronúncia não é causa impeditiva da ação civil.
DESCLASSIFICAÇÃO DO CRIME
Natureza jurídica: decisão interlocutória mista não terminativa.
A desclassificação está prevista no art. 419 e ocorre quando, ao final do judicium accusationis, o juiz entender que não há prova de crime doloso contra a vida, mas de outro crime de competência do juiz comum. Trata-se de uma decisão interlocutória mista não terminativa. Nessa situação, deverá o juiz remeter os autos ao juízo comum para que prossiga no julgamento.
Estabelece o art. 411, § 3º, que “encerrada a instrução probatória, observar-se-á, se for o caso, o disposto no art. 384 deste Código”, que trata da mutatio libelli, agora obrigatoriamente com aditamento à denúncia pelo Ministério Público.
A antiga redação do art. 410, que tratava da desclassificação, estabelecia que, no juízo comum o processo prosseguiria com abertura de prazo para a defesa indicar novas testemunhas, diligências complementares pelas partes (antigo art. 499), alegações finais e sentença. Desta forma, previa-se que os atos processuais de instrução probatória praticados perante o juiz do judicium accusationis permanecem válidos. Apesar de a nova redação dada pela Lei nº 11.689/08 não regulamentar como será o procedimento perante o juízo comum, entendemos que esta situação de desclassificação é necessariamente uma hipótese de mutatio libelli, devendo ser aplicado por analogia o disposto no art. 411, § 3º c/c art. 384 do CPP, em respeito ao princípio da correlação e da inércia, havendo aditamento obrigatório, produção de novas provas, debates orais e nova sentença. Mesmo sem previsão expressa, entendemos que as provas produzidas perante o juiz do judicium accusationis podem ser utilizadas para respaldar a decisão condenatória no juízo comum, não havendo que se falar em violação ao princípio do juiz natural pois, naquele momento processual, aquele juiz era competente para apreciar a acusação.
No juízo comum, a classificação anterior do crime doloso contra a vida não pode ser restaurada, pois ocorreu a preclusão da questão. Assim, não cabe conflito