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OS MOVIMENTOS HUMANISTA- EXISTENCIAL E FENOMENOLÓGICO- EXISTENCIAL NA PSICOLOGIA: E�������������� H��������� �� ��� N�������� B���� Marcus Cézar Belmino OS MOVIMENTOS HUMANISTA- EXISTENCIAL E FENOMENOLÓGICO- EXISTENCIAL NA PSICOLOGIA: E�������������� H��������� �� ��� N�������� B���� Marcus Cézar Belmino Simplíssimo Livros Copyright 2021 © Marcus Cézar Belmino Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida, sob quaisquer formas ou meios, sem prévia autorização por escrito. As opiniões expressas nesta obra são de responsabilidade do autor e não expressam necessariamente a opinião da Simplíssimo Livros Ltda. Publicado por: Simplíssimo Livros Praça Conde de Porto Alegre, 37/11 Porto Alegre / RS, 90020-130 – Brasil simplissimo.com.br | falecom@simplissimo.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Marcus Cézar Belmino Os movimentos humanista-existencial e fenomenológico-existencial na Psicologia: [recurso eletrônico]: entrelaçamentos históricos em uma narrativa breve / Marcus Cézar Belmino. – 1. ed. – Porto Alegre : Simplíssimo, . Recurso digital. Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 9786558902539 1. Psicologia humanista. 2. Psicologia Clínica. 3. História da Psicologia. I. Título. CDD: 150.7 Table of Contents Apresentação Prefácio Introdução I As Psicologias Humanistas-Existenciais e o Nascimento do Movimento Humanista-Existencial nos Estados Unidos 1.1) O nascimento do movimento humanista- existencial: o contexto americano 1.2) As principais influências para a construção da psicologia humanista-existencial II O movimento fenomenológico-existencial na filosofia, na psicoterapia e na psicopatologia europeia 2.1) O contexto europeu de emergência das correntes fenomenológicas-existenciais 2.2) O pensamento psicanalítico como crítica à racionalidade moderna 2.3) O movimento fenomenológico e existencial na filosofia 2.3.1) O movimento existencialista 2.3.2) A fenomenologia como método de investigação da experiência [ 2 ] 2.3.3) A perspectiva fenomenológico-existencial na filosofia 2.4) A perspectiva fenomenológica existencial na psicoterapia e psicopatologia III Encontros e desencontros entre as psicologias humanistas- existenciais e as psicologias fenomenológicas-existenciais Considerações Finais Referências Sumário Apresentação Prefácio Introdução I As Psicologias Humanistas-Existenciais e o Nascimento do Movimento Humanista-Existencial nos Estados Unidos 1.1) O nascimento do movimento humanista- existencial: o contexto americano 1.2) As principais influências para a construção da psicologia humanista- existencial II O movimento fenomenológico-existencial na filosofia, na psicoterapia e na psicopatologia europeia 2.1) O contexto europeu de emergência das correntes fenomenológicas- existenciais 2.2) O pensamento psicanalítico como crítica à racionalidade moderna 2.3) O movimento fenomenológico e existencial na filosofia 2.3.1) O movimento existencialista 2.3.2) A fenomenologia como método de investigação da experiência [ 2 ] 2.3.3) A perspectiva fenomenológico-existencial na filosofia 2.4) A perspectiva fenomenológica existencial na psicoterapia e psicopatologia III Encontros e desencontros entre as psicologias humanistas-existenciais e as psicologias fenomenológicas-existenciais Considerações Finais Referências Apresentação Esse livro me remonta às minhas origens na formação em psicologia. Sempre me interessei diretamente pela história das psicologias, sendo um tema que me atravessou durante toda a minha graduação. Por mais que meus trabalhos acabem focando mais nos aspectos específicos da gestalt- terapia, o interesse pela história e atravessamento das diferentes psicologias sempre foi alvo de estudos e interesses. Nos últimos anos, tenho me dedicado muito mais às pesquisas clínicas, buscando compreender as sutilezas dos modos de ouvir na clínica gestáltica. Sendo assim, o campo das experiências psicóticas, das experiências neuróticas, das formas de violência e opressão social me levam a questionar quais as especificidades que permeiam nosso lugar de ouvir essas experiências que são tão amplas e tão singulares. Acompanhar o processo formativo de terapeutas me empurra constantemente para pensar como podemos refinar os debates em torno do modo de se fazer a clínica (no sentido ampliado). Mas, nos últimos meses, procurei retomar esse lugar da discussão histórica, para dar conta de outras necessidades que já vinham surgindo há bastante tempo. Desde 2009, ministro aulas no curso de graduação em psicologia do Centro Universitário Dr. Leão Sampaio (UNILEÃO) e, apesar de ter passado por diferentes disciplinas, sempre mantive o trabalho na disciplina de “Teorias Psicológicas: Humanismo-Existencial” (já chamada, em um currículo anterior, de “teorias psicológicas: fenomenologia-existencial”), que eu procuro apresentar a história do movimento humanista-existencial e seus principais teóricos, buscando explorar tanto as vertentes americanas da psicologia humanista quanto as correntes europeias das psicologias fenomenológicas-existenciais, compreendendo suas enlaces e desencontros. Assim, contar e recontar essa história faz parte dos meus últimos 12 anos e, por isso, sempre procurei modos de contar essa história melhor. Sou professor também do Programa de Pós-Graduação em Ensino em Saúde (mestrado profissional) da mesma instituição, e meu campo de pesquisa é justamente sobre o campo curricular na área da saúde, mais especificamente na psicologia. Tenho colegas fantásticos que pesquisam metodologias ativas e modos cada vez mais arrojados de produzir um modelo de sala de aula e de tecnologias que possam desenvolver estratégias cada vez melhores de aprendizado significativo. Não sei desenvolver propriamente essas metodologias, ou na verdade, produzo de um modo distinto. Como pesquisador e como professor me interesso mais especificamente em conseguir contar uma história de maneira cada vez melhor, criar interlocuções que produzam desejo naqueles que escutam. A cada semestre, sempre foram novos textos, novos livros, procurando aprimorar a forma como se conta essa história, enfatizando diferentes pontos, pensando como cada detalhe pode contribuir mais ou menos na formação dessas futuras psicólogas. Por esse motivo nasceu a necessidade de escrever esse livro. Queria um livro que reunisse os principais pontos que nesses 12 anos eu entendi que eram importantes para a compreensão histórica desses movimentos. Pensar que ênfases essa história precisaria ter e como dar conta da multiplicidade de abordagens e caminhos históricos e geográficos que elas possuem se tornou uma questão fundamental, ou, mais especificamente, um problema que eu entendia ser fundamental resolver. Eu sempre digo que escrevo os livros primeiramente para mim. Eu precisava organizar essa história na minha cabeça, para manter o compromisso de contá-la de maneira cada vez melhor. Sendo assim, a tentativa de sistematização aqui é um ponto de vista, um modo de contá-la que reúne as pesquisas desenvolvidas nestes anos de ensino e pesquisa no campo da história das psicologias humanistas e‐ fenomenológicas-existenciais. Esse livro é dedicado a todas (os/es) alunas (os/es) do curso de psicologia que passaram por essa disciplina ou que ainda vão passar. Espero que o alcance deste livro possa contribuir com o processo formativo de todas aquelas pessoas que se interessam por essa história, sejam estudantes ou profissionais. Aqui, quero agradecer profundamente a UNILEÃO, espaço em que me dedico há tantos anos à docência e no qual essas ideias foram gestadas diariamente dentro de sala de aula nessa instituição. Também agradeço à Raphaella Maciel Duarte, pelo suporte na construção desse texto e de sua revisão, mas também pelo carinho e cuidado para que eu tivesse condição de produzir esse e outros trabalhos. Agradeço ao Gabriel e à Alice, por me mostrarem todos os diastextos de importantes psicoterapeutas e psicopatologistas do cenário europeu, como Eugene Minkowski, Ludwig Bisnwanger, Von Gebsatel, entre outros. Essa obra vai ser crucial para a sedimentação de um movimento existencial na psicologia americana, que irá desenvolver-se conjuntamente ao pensamento humanista. Além disso, muitos teóricos europeus que estavam construindo suas práticas psicoterapêuticas tendo como base as leituras existencialistas e/ou fenomenológicas, ou então que, de algum modo, sofriam uma influência cultural e política desses movimentos, estavam migrando para os Estados Unidos entre a década de 1930 e 1960 e sendo acolhidos pelos autores do movimento humanista- existencial americano. Por isso, é fundamental pensar como essas influências das perspectivas fenomenológicas- existenciais atravessam o campo da filosofia e servem de base para que vários psicanalistas reformulem suas teorias e práticas como forma de apresentar novas perspectivas clínicas. Para tanto, se faz necessário discutir como a psicanálise reformula o lugar da clínica e apresenta um novo paradigma de entendimento acerca da experiência humana, para que possamos pensar como o existencialismo e a fenomenologia vão poder servir de base para reler esse pensamento. 2.2) O pensamento psicanalítico como crítica à racionalidade moderna A clínica psicoterapêutica nasce em solo europeu através das práticas chamadas de sugestão e dos modelos que buscam a catarse, mas sem dúvidas ganhou novos contornos a partir da construção do pensamento psicanalítico de Sigmund Freud (1856-1939). Freud começa seu trabalho buscando compreender um tipo de enfermidade que havia se tornado o calcanhar de Aquiles da medicina, a saber, as formas de adoecimento em que não se conseguia encontrar uma causa orgânica. Herdeiro da hipnose, Freud buscava compreender como a mente poderia gerar formas de adoecimento e, com isso, desvendar o seu funcionamento. Por isso, para além da descoberta de uma nova forma de clínica, Freud conseguiu produzir um saber que rompeu radicalmente com as bases racionalistas da modernidade europeia. Assim, para que possamos entender essa mudança paradigmática produzida pelo pensamento freudiano, é fundamental fazer uma retomada das ideias básicas da modernidade para entender o contexto que a psicanálise aparece como crítica. Se pensarmos a ideia da racionalidade ocidental, encontramos explicitamente uma tradição de negação ou demonização do corpo, do afeto e da irreflexão. A nova compreensão humanista que se instaura após o período do renascimento tem como princípio a soberania da racionalidade do ser humano, seja pela via racionalista iniciada com René Descartes (1596-1650) ou pela via empirista que podemos encontrar em Francis Bacon (1561-1626). Nessas tradições, mesmo que cada qual a seu modo, o que aparece como compreensão básica daquilo que constitui nossa humanidade é a capacidade racional e preponderância do espírito livre como forma de entendimento, mas também como nossa capacidade de dominação da natureza. Assim, somos algo diferente da natureza e, por isso, podemos dominá-la e transformá-la a partir de nossas ferramentas racionais. A ideia básica que atravessa a modernidade é que a razão é a nossa capacidade de compreender, representar e apreender a verdade das coisas e da totalidade do mundo e, por isso, não há limites para o conhecimento humano a partir da nossa racionalidade. Assim, um dos pontos que poderia gerar algum tipo de limite na experiência humana é justamente nossa dimensão afetiva, justamente porque ela é o que impede o total funcionamento de nossa racionalidade. Entretanto, o afeto é justamente aquilo que nos conecta com o corpo, com o desconhecido de nós mesmos, com o incontrolável, ou porque não dizer, com nossas paixões. Em John Locke (LOCKE, 1983), por exemplo, as paixões são aquilo que atrapalha o funcionamento da mente; em René Descartes (DESCARTES, 2011) o corpo e o afeto são o limite das ideias claras e distintas; e, em Immanuel Kant, a paixão é um câncer que corrói a razão (BORGES, 2012). Encontramos então, nessa tradição atravessada por essa concepção de hegemonia da racionalidade, o problema que serve de ponto de partida para que possamos entender muitas das críticas à racionalidade moderna que vão aparecer na teoria psicanalítica e nas perspectivas fenomenológicas- existenciais na psicologia e psicoterapia, principalmente no que diz respeito à separação entre corpo, mente e afeto. Nesse sentido, em nossa construção ocidental, entendemos que o corpo é um mero objeto que nós possuímos, e o afeto, por ser algo pelo qual somos passivos, é tido como algo também exterior a nós mesmos. Costumeiramente dizemos que “fomos tomados pela raiva”, e não que “eu também sou a raiva”. Nossa sociedade ocidental nega o corpo, demoniza o afeto, supervaloriza a razão instrumental e ainda aliena as ações humanas como meros instrumentos de produção dentro de uma lógica capitalista. Por outro lado, normalmente, entendemos que os limites do corpo são empecilhos que se impõem para nós (e a tecnologia aliada com a medicina tenta a todo custo superá-los), e não nossos próprios limites. Além disso, também em nossa tradição ocidental, entendemos que há um abismo entre eu e o outro e entre eu e o mundo. Temos como resultado disso um eu soberano racional (também chamado por muitos filósofos de espírito), que é diferente do afeto, que é diferente do corpo, que é diferente do outro e que é diferente do mundo. Por isso, dentro dessa perspectiva, a razão é a parte mais importante de nós mesmos e qualquer forma de irracionalidade era tida como um erro, uma doença ou uma falha em nossa natureza. O louco era tido como um irracional (os desarrazoados tal como eram chamados no século XVII) que sucumbiu aos afetos ou às paixões e por elas foi dominado. É aqui onde entram as grandes contribuições de S. Freud (GARCIA- ROZA, ٢٠٠٤) que integra na medicina pelo menos três grandes contribuições fundamentais: (١) Ele traz para o campo da clínica médica a atenção e a escuta cuidadosa do discurso do paciente, colocando o seu discurso como prioridade, sem buscar desqualificá-lo em nome de um saber prévio. Na lógica médica, se pressupõe que quem menos sabe sobre sua doença é o paciente, por isso, Freud inaugura um lugar de escuta ao paciente: o paciente é quem, em primeira pessoa, narra seu sofrimento e pode então significá-lo. Além disso, (2) é também na teoria freudiana que se torna mais conhecida a ideia de que o sintoma aparece como um efeito do excesso de repressão, principalmente da repressão sexual, o que abre para algo que irá reaparecer de diferentes formas em outras psicoterapias, a saber, a ideia de que o sintoma não é um problema, mas sim uma caminho possível para tentar uma solução. Ao contrário da lógica médica tradicional que via no sintoma um problema a ser corrigido e um caminho para a doença, Freud vai trazer a ideia do sintoma como uma tentativa (por muitas vezes malograda) de operar com a repressão e com a dimensão insuportável do trauma e, por isso, o sintoma é sinal de potência do psiquismo e não um sinal de sua fraqueza. É nesse contexto que se entende que o psicoterapeuta deve buscar ouvir o sintoma buscando compreender os sentidos que ele produz, mais do que tentar curá-lo. O sintoma psíquico não comunica uma doença, mas sim uma tentativa de lidar com o sofrimento que pode ser compreendido e ressignificado. Por último, (3) Freud também apresenta à comunidade científica uma outra contribuição revolucionária: a busca de uma teoria que esteja subscrita pela ciência e pela medicina (mesmo Freud rompendo diretamente com a ciência e a medicina tradicional da época, é importante perceber que seus trabalhos iniciais estão comprometidos com essas perspectivas) que apresente os fundamentos da proeminência da experiência irracional e inconsciente das pessoas. A tradição do romantismo (principalmente alemão), que estava atravessada pelo protestantismo, pelo pensamento kierkegaardiano e mais tarde pelo pensamentonietzschiano e pelos debates vitalistas, já trazia para a filosofia esse lugar de destaque das nossas paixões, porém, a ciência psicológica e a psiquiátrica ainda eram fundamentalmente racionalistas. Nesse sentido, a proposta de que somos mediados muito mais por uma dimensão não consciente do que por nossa reflexividade foi um golpe certeiro na tradição racionalista da época, isso porque, a busca de uma fundamentação baseada na experiência clínica como fundamento de suas pesquisas, dava a Freud um rigor que a ciência dificilmente conseguia contestar. Além disso, Freud entendia que era justamente essa dimensão inconsciente que poderia adoecer, assim, as pacientes com sintomas histéricos não eram pessoas adoecidas do corpo ou que tinham uma falha em sua dimensão racional, mas justamente alguém que adoecera de sua dimensão inconsciente a partir das repressões dessa dimensão (GARCIA- ROZA, 1998). De certa forma, a psicanálise foi um modo muito peculiar de buscar compreender a gênese dessa dimensão irrefletida do nosso comportamento, podendo assim nos ajudar a compreender o que orienta os nossos atos, e os limites do entendimento em torno da vontade e do arbítrio. Afinal de contas, Freud foi o responsável por entender que, na experiência histérica, o sofrimento não era fruto de um ato de vontade (por exemplo, achar que ela havia se convencido de que estava doente), de um erro de entendimento (achar que ela foi convencida de que estava doente), mas também não era um adoecimento puramente somático (achar que ela tem uma doença que não estava sendo corretamente diagnosticada). Na verdade, a paciente histérica sofria de uma outra dimensão, algo que mais tarde Freud entenderá como um campo pulsional, e, por conseguinte, relacionado a sexualidade (NASIO, 1991). Assim, Freud irá produzir estudos que serão conhecidos como sua metapsicologia, sendo justamente a sistematização de sua teoria que busca os mecanismos de funcionamento d’Isso que não se deixa apreender pela razão e que está ligado diretamente com a sexualidade (GARCIA-ROZA, 1998). Porém, a metapsicologia freudiana não foi totalmente aceita pela comunidade em geral, incluindo vários psicanalistas. Ao contrário do que normalmente se imagina, a psicanálise não foi um movimento unificado e constituído somente pela voz de Freud. Na verdade, a construção inicial do pensamento psicanalítico foi formada de tensões, contradições, divergências e cisões (CHEMOUNI, 1991). As teses desenvolvidas por Freud apontavam para a hegemonia da sexualidade, a compreensão da formação psíquica a partir dos mecanismos de funcionamento inconscientes, a formação do complexo de édipo, e, tecnicamente, para a emergência da associação livre como substituição da hipnose e das práticas de sugestão. Mais adiante em sua obra, Freud irá desenvolver sua compreensão acerca da pulsão de morte e uma nova metapsicologia (a noção de eu, supereu e isso) e uma nova leitura em torno do modo como psiquicamente o prazer e o desprazer se constituem, o que ficou conhecido como segunda tópica freudiana. Por fim, a partir das críticas de vários de seus colegas acerca da posição da psicanálise perante a cultura, e também a partir da própria leitura crítica de Freud acerca do que acontecia na Europa naquele período, Freud irá desenvolver suas leituras sociais e culturais, buscando apresentar novos caminhos éticos para o pensamento psicanalítico, rompendo de uma vez por todas com a ideia de que a psicanálise seria uma forma de tratamento médico ou uma prática de cura de doenças, ou até mesmo uma maneira de salvação perante o sofrimento (BUCHER, 1989). Muitos analistas discordaram desses pontos, desde os aspectos teóricos até os aspectos mais voltados para a técnica analítica. Essas reformulações do pensamento psicanalítico foram desde mais brandas, mantendo os autores dentro do movimento psicanalítico, até leituras mais radicais que rompem diretamente com o movimento, criando diferentes teorias e perspectivas clínicas. Alguns analistas reconheceram diretamente aquelas intuições teóricas produzidas por Freud, mas procuraram apresentar novas técnicas terapêuticas, outros procuraram manter a técnica, mas buscaram apontar outros caminhos compreensivos acerca da experiência humana. Por isso, a questão agora não tem mais a ver com negar que somos mediados por algo muito além (ou muito aquém) da razão, mas sim tentar compreender como funciona essa dimensão atravessada pelo sexual e o passional. Dessa forma, todas as psicoterapias pós-freudianas vão reconhecer em alguma medida esse algo irrefletido e, por isso, vão se dedicar a trazer um entendimento clínico sobre como se constitui essa dimensão. Por exemplo, Carl Gustav Jung (1875-1961) amplia a noção de libido e desenvolve a noção de inconsciente coletivo não enfatizando mais a sexualidade como centro da problemática psíquica; Medard Boss (1903- 1990) busca entender essa dimensão a partir da noção heideggeriana de dasein; Viktor Frankl (1905-1997), buscou compreender a dimensão espiritual que transcende as questões puramente psíquicas, compreendendo a importância do sentido como condutor da experiência humana; Fritz Perls (1883-1970) buscou substituir a metapsicologia freudiana por uma noção de organismo calcada nas novas compreensões advindas do gestaltismo e do holismo; e assim por diante. Esses novos modelos terapêuticos passam por uma reformulação da teoria e da técnica analítica buscando compreender novos caminhos para esse pensamento. Um desses caminhos possíveis foi reler a psicanálise a partir de teorias também extremamente potentes da época, a saber, a fenomenologia e o existencialismo. Isso porque, se a psicanálise apresentava uma crítica radical à modernidade e à hegemonia da racionalidade, o existencialismo também apontava para esse caminho e procurava apresentar uma leitura crítica das teorias cientificistas e sobre as formas de objetificação do ser humano. A fenomenologia, por mais que fosse herdeira da modernidade e da racionalidade, apontava para uma compreensão radicalmente nova sobre como podemos investigar a experiência humana e, com isso, poderia apresentar intuições importantes sobre a forma como poderíamos investigar a experiência humana e desenvolver novas estratégias interventivas para o campo da psicoterapia. Por isso, iremos agora compreender de forma mais aprofundada o que caracteriza o movimento fenomenológico e existencial na filosofia para poder compreender como ele servirá de base para reler o pensamento psicanalítico. 2.3) O movimento fenomenológico e existencial na filosofia Tal como discutido anteriormente, as filosofias existencialistas e fenomenológicas foram fundamentais para a reformulação de várias perspectivas na psicanálise e na psicopatologia. As filosofias existencialistas e fenomenológicas nascem separadas, e inclusive mantém caminhos teóricos que sustentam essa separação. O existencialismo nasce em meados do século XIX, e a fenomenologia só irá aparecer no início do século XX, porém, a partir de 1927, com a publicação de Ser e Tempo (HEIDEGGER, 2007) de Martin Heidegger, esses dois movimentos se unem e possibilitam um terceiro caminho (por mais que Heidegger não se reconhecesse como existencialista, na história da filosofia é comum reconhecê-lo como o pioneiro na aplicação do método fenomenológico em debates existenciais). Por isso, iremos agora compreender o movimento existencialista, depois o movimento fenomenológico para, em seguida, compreender a sua união no que ficou conhecido como filosofia fenomenológica-existencial. 2.3.1) O movimento existencialista A problemática levantada pelo movimento existencialista é bastante antiga na história da filosofia, apesar de que é relativamente recente à oficialização desse movimento. De forma geral, podemos compreender Sören Kierkegaard (1813-1855) como o pai do existencialismo. Suas críticas ao pensamento de George W. F. Hegel (1770-1831) e sua ênfase nos aspectos subjetivos da experiência humana, principalmente ao modo peculiar como vivemos as vicissitudespróprias do existir, criaram uma verdadeira revolução no modo de fazer filosofia. Para Kierkegaard é a dimensão fundamental do existir que deve ser compreendida, sem buscar na metafísica ou no essencialismo o caminho lógico para que sejamos capazes de explicar a totalidade do humano. É na concretude e nos paradoxos próprios da existência, que somos capazes de apreender a disposição fundamental que nos constitui como humanos (BLANC, 2003). Porém, a crítica ao essencialismo na filosofia não é novidade na história do pensamento ocidental, por mais que ela não tenha sido a lógica hegemônica por quase toda a sua história até hoje. Na história da filosofia pré-socrática até a filosofia moderna, foi a compreensão essencialista que se tornou mais conhecida e divulgada. De fato, desde os pré-socráticos essa questão vem sendo posta e esse debate remonta por volta de quinhentos anos antes de Cristo. Se pensarmos em um filósofo pré-socrático como Parmênides, sua ênfase era fundamentalmente sobre como podemos definir o ser das coisas. Sendo um dos precursores da lógica e da metafísica de Platão, Parmênides lançou uma tese fundamental para toda a história da filosofia: “Aquilo que é é, e aquilo que não é não é” essa frase que a primeira vista poderia ser compreendida como óbvia estabelece um princípio que é levado a cabo pela humanidade, a saber, a de que uma coisa não pode ser outra coisa que não ela mesma, estabelecendo assim o princípio da identidade. Assim a mudança, o movimento e a transformação, não fariam parte das coisas, sendo uma mera ilusão a percepção desses movimentos (MARCONDES, 2010). Essa compreensão de que as coisas possuem algo imutável e universal que as definem foi constitutiva do pensamento ocidental, e atravessou centenas de filósofos que buscaram compreender quais seriam as características de algo que poderia tornar esse objeto como sendo ele mesmo. Essa busca pela essência, ou seja, pela substância que define uma coisa como sendo ela mesma, foi o grande propósito de uma área da filosofia chamada de metafísica mas que também ganharia novos contornos nas ontologias modernas e contemporâneas. A metafísica aparece no pensamento de Platão e Aristóteles e será retomada pela filosofia medieval de São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, mas a busca pela essência das coisas e do humano continuará no racionalismo de René Descartes e no empirismo de Francis Bacon, e terá novas configurações nas teorias de Immanuel Kant e Hegel. Por outro lado, desde os pré-socráticos que essa tese da imutabilidade é questionada. Um filósofo pré-socrático como Heráclito, já apontava para a descrição do movimento, da mudança e da transformação das coisas. Entendendo que a substância primeira seria o fogo, Heráclito compreende no cerne de sua filosofia o entendimento de como as coisas estão em um eterno “vir-a-ser”, conhecido pela máxima que não seria possível entrar em um mesmo rio duas vezes, porque você não seria mais o mesmo e o rio também não, e assim a mudança e o movimento são partes da nossa humanidade e da natureza como um todo. Porém, as ideias de Heráclito não conquistaram tanta força quanto a de seu rival Parmênides. (MARCONDES, 2010) Ainda assim, Heráclito teve suas teses retomadas por vários outros filósofos na história, como por exemplo Friedrich Nietzsche, que foi um importante nome do existencialismo que iremos abordar melhor mais à frente (MOSÉ, 2018). Por isso, por mais que a ideia de que há uma essência imutável e universal das coisas tenha se tornado muito forte no pensamento ocidental, é possível encontrar brechas e fraturas nesse movimento, apresentando outras perspectivas a essa questão. As filosofias essencialistas acabaram focando principalmente nos aspectos objetivos e racionais, buscando critérios científicos de compreensão da experiência humana e sua relação com os objetos. Focando na universalidade, as filosofias evoluíram para uma compreensão cada vez mais aprofundada daquilo que poderia tornar a experiência mais geral e replicável em diferentes contextos e momentos históricos. Isso aconteceu, por exemplo, com a filosofia de Hegel que ficou conhecido como o último (ou um dos últimos) grandes sistemas filosóficos da história ocidental. Seu foco era entender como a razão (enquanto espírito) se apresenta de maneira histórica, e como o espírito caminha para a evolução e o desenvolvimento, dando mais ênfase a como a razão se transforma na história, se desdobrando no campo epistemológico (teoria do conhecimento), no campo estético (teoria do belo ou do prazer), no campo ético (teoria da moral e dos costumes), no campo político (teoria do funcionamento da lei e do estado) e outros campos. Pensar como a experiência humana faz parte de um grande sistema que caminha para o absoluto foi uma das grandes marcas da teoria hegeliana (MARCONDES, 2010). É nesse contexto que irá aparecer o pensamento de Sören Kierkegaard. Kierkegaard era dinamarquês e estudou para se tornar pastor luterano, apesar de nunca ter se ordenado. Crítico ferrenho à filosofia e à teologia da época, Kierkegaard teve uma vida difícil, atravessada por perdas e desilusões amorosas. Escreveu sobre política, moral, religião, estética e tantos outros temas, sendo sempre atravessado por uma escrita literária quase autobiográfica e profundamente implicada. No campo religioso criticou duramente a fé cristã da época, colocando no cerne de seus estudos o ato subjetivo de tornar-se cristão (BLANC, 2003). Kierkegaard era radicalmente contra à ênfase universalista do pensamento hegeliano, assim como a integração que esta apresentava entre o campo da racionalidade, da fé e da construção do estado. Para os cristãos da época, ser cristão era um ato de profunda coerência racional, e por isso, a religião precisava andar de mãos dadas com a filosofia, a política e a ciência. Muitos filósofos procuraram mostrar como a crença em Deus e a dedicação à fé era um ato racional, e, por isso, os descrentes eram pessoas que não conseguiam fazer o bom uso da racionalidade. Kierkegaard reconhece a fé como uma das maiores paixões humanas e, na esteira de Lutero, reconhece Deus como desconhecido e incognoscível. Deus não é passível de ser apreendido pela razão, afinal de contas, Deus é sempre muito maior do que aquilo que a experiência humana é capaz de abarcar. Por isso, a fé não tem a ver com um ato racional, mas sim, um profundo salto na incerteza. O crente é aquele que não busca provas, mas sim, aquele que mergulha em sua própria experiência subjetiva e se entrega no lugar que a razão jamais será capaz de abarcar. O amor cristão não tem a ver com um sistema filosófico explicativo, mas com uma comunicação direta com a vida, em que os preceitos da vida cristão são tidos como irracionais e absurdos para qualquer um que não as vive em sua carne (KIERKEGAARD, 2007) Assim, a vivência religiosa é inteiramente subjetiva e apartada de qualquer dado objetivo da sociedade e do estado, e nesse sentido, não deve ser reduzida às relações institucionais. Em suas investigações, Kierkegaard reconhece a necessidade de superação da busca pela satisfação pela via do prazer (o que ele chamou de estágio estético) mas também a superação da busca da certeza no campo institucional da moral e da ciência (o que ele chamou de estágio ético). Para Kierkegaard é no salto na vivência religiosa que é possível encontrar-se com o verdadeiro lugar cristão, que é atravessado por uma noção de fé que não se constitui pela via do prazer o da moral. Na verdade, a fé é justamente o salto solitário no desconhecido, indo ao âmago de si mesmo na entrega à mais absoluta incerteza (isso que ele chamou de estágio religioso). O reconhecimento subjetivista da fé abre para a filosofia reformulações importantes que terão repercussões importantíssimas para a história da filosofia contemporânea. Kierkegaard vai na contramão de Hegel no sentido de olhar para a singularidade e não para o absoluto. Para Kierkegaard, interessa aquilo que temos de mais particular, mais íntimo e mais distinto dequalquer definição universal. Interessa a Kierkegaard os temas próprios das vicissitudes humanas, reconhecendo o caráter existencial dessa investigação. Por isso, interessa a Kierkegaard a vivência paradoxal da fé, a angústia, o desespero e o olhar para si, ao contrário do que pode ser descrito em termos da história, da sociedade, do universal ou do racional. Assim, Kierkegaard inaugura um subjetivismo que vai muito além da leitura moderna do liberalismo. Se para os liberais o sujeito é pleno de direitos e livre para produzir suas escolhas, a ênfase de Kierkegaard é para a liberdade subjetiva em que o sujeito angustia-se por reconhecer sua liberdade absoluta, sua finitude e sua responsabilidade em suas ações (CASTRO, 2020). Por isso, a fé em Kierkegaard é aquilo que se mostra de modo mais subjetivo e passional. O ser humano se reconhece no paradoxo e, por isso, crer é ir além das instituições, das leis, dos prazeres. Para Kierkegaard, a existência caminha para seu lugar autêntico quando a pessoa se distancia de uma ética voltada aos prazeres e as leis e começa a voltar-se mais profundamente para si e para sua experiência no instante (KIERKEGAARD, 2008). Olhar para si mesmo, investigar-se e colocar-se em questão é o caminho para a verdadeira experiência da fé. Por isso que na leitura de Kierkegaard, só o verdadeiro crente se angustia, pois ele é capaz de colocar de lado todas as certezas e desconstruir-se perante as definições dos templos, das leis e da sociedade. Ele retoma Abraão como o pai da fé, mostrando o ato de colocar o filho ao sacrifício como o reconhecimento do ato transgressor da fé, que vai além da lei, do bom senso e da razão. (REYNOLDS, 2013). Por isso que, para além da perspectiva religiosa, Kierkegaard inaugura o existencialismo (sua vertente conhecida como existencialismo cristão) como uma forma radicalmente distinta de se fazer filosofia. O existencialismo se torna então um modo de criticar as verdades absolutas e a hegemonia racional, e trazer uma filosofia que parte da experiência concreta, buscando compreender muito mais a singularidade da experiência humana, trazendo os aspectos do reconhecimento da finitude, da angústia, do sofrimento como tão constituintes quanto a alegria, a beleza e o conhecimento. Ainda assim, a angústia torna-se uma das questões fundamentais do pensamento kierkegaardiano. É pela via da angústia que torna-se possível colocar-se em questão, sendo assim, a possibilidade da filosofia só aparece a partir da angústia, e isso permite uma nova forma radical de olhar para as questões filosóficas. Nesses termos, a angústia não é uma patologia ou uma falha racional, mas o verdadeiro encontro com os paradoxos e com a finitude. É porque somos capazes de nos reconhecer como transcendentes, livres e finitos, que somos capazes de nos angustiar. A angústia não é constituída como o medo, justamente porque o medo tem um objeto, já a angústia se constitui justamente pelo encontro com o nada (Heidegger irá retomar e ampliar essa discussão, tal como veremos mais à frente). (KIERKEGAARD, 2010) Outro filósofo também considerado um importante nome do início do existencialismo é Friederich Nietzsche (1844-1900). Nietzsche ficou conhecido por suas ideias que, em muitos aspectos, parecem ir na contramão do pensamento de Kierkegaard devido a sua crítica ferrenha à religião e a toda tradição judaico-cristã. Porém, na verdade, a preocupação de Nietzsche ia além especificamente do cristianismo, pois procurava atacar todas as bases da filosofia ocidental moderna. Tendo sua formação como filólogo (aquele que estuda a origem das palavras), Nietzsche começou seu trabalho estudando a filosofia e a tragédia grega. Em sua trajetória, percebeu que toda a tradição cristã se constitui por uma inversão dos valores que estavam na base do pensamento grego pré platonista, colocando como valoroso aquele que é fraco, submisso e reprimido. Assim, a tradição cristã aliou-se com o platonismo e criou o que há de pior na história ocidental: a ideia de que esse mundo precisa ser vivido na subserviência em função da promessa de uma vida melhor em outro mundo ou outro plano (MOSÉ, 2018). Dessa forma, há uma negação da potência da vida, do corpo, do sexo, da agressão em nome da culpa, do pecado e da submissão. Para Nietzsche toda a tradição ocidental, baseada na lógica judaico-cristã e na filosofia de Platão, baseia-se em formas de vida fracas, facilmente domináveis pelos discursos que se colocam em nome da verdade. A filosofia nietzscheana ataca diretamente toda forma de se pensar a verdade e moral como categorias universais e necessárias, pois entende que toda vez que se impunha a noção de verdade, de bem ou de certo, faz-se isso em nome de uma estratégia de dominação do outro. Nietzsche dedica-se a investigar a gênese das formas morais e percebe como aquilo que é tido como virtuoso ou como o bem, não são outra coisa senão formas de um grupo dominar o outro, e faz isso não pela via direta da coerção, mas pela instauração da culpa e das formas de negação de si mesmo (NIETZSCHE, 1998). Sendo assim, para Nietzsche, toda a tradição ocidental constitui-se como forma de negação do prazer, do belo, do corpo e da vida, em nome da moralidade, da racionalidade e da verdade. Sua forma de fazer filosofia era atravessada pelo discurso da crítica e por aquilo que ele chamava de genealogia, a saber, um modo peculiar de estudar a história através dos jogos de poder e das formas discursivas de dominação. Para Nietzsche mais importante do que analisar a história de forma linear e progressiva, era importante compreender a história a partir de suas fraturas, rupturas e descontinuações (MACHADO, 1999). Além disso, Nietzsche era um ferrenho crítico à lógica moderna de tornar a razão como a característica humana mais importante. Para Nietzsche, a racionalidade moderna era uma forma de atraso, dado que ela tinha como pressuposto as formas de controle da natureza, controle do corpo e negação dos afetos. Isso retiraria da vida seu caráter mais potente, tornando os seres humanos na modernidade cada vez mais fracos, culpados e submissos. Somente através da reabilitação do lugar afetivo, da sensibilidade, da arte e da entrega, que seria possível descortinar a lógica ilusória da modernidade. A vida civilizatória como um espaço racional, progressivo e igualitário não passava de um instrumento de dominação de poucos em relação a muitos. Assim, Nietzsche também vai trazer para o existencialismo a importância da potência da vida, do lugar da irracionalidade e da sensibilidade como formas de ultrapassar as amarras sociais construídas a partir da lógica platonista e judaico-cristã. Nietzsche reconhecia o Deus grego Apolo como o representante da vida civilizatória dominada pela lógica racionalista e moralista, enquanto via no deus grego Dionísio a representação da arte, da embriaguez, da vida e da potência. Por isso, sua forma de fazer filosofia era buscando diminuir a ênfase na lógica apolínea e ampliar a lógica dionisíaca. Nietzsche não era um filósofo que acreditava no equilíbrio ou na síntese da experiência, afinal, como um apreciador da obra de Heráclito, Nietzsche acreditava que a potência acontecia a partir das tensões e dos movimentos, nunca dos equilíbrios (MOSÉ, 2018). Esses dois filósofos são considerados por alguns como os pais do existencialismo e por outros como os precursores do existencialismo (REYNOLDS, 2013). Isso porque, a ideia de um movimento existencialista será mais fortemente preconizada por Jean Paul Sartre já no século XX. Com o fortalecimento das ideias sartreanas, muitos historiadores entenderam que outros filósofos faziam parte também desse movimento, mesmo sem se utilizar diretamente dessa ideia para definir suas construções teóricas. Sartre foi responsável por popularizar o termo existencialismo, e sua obra foi atravessada por filósofos dessa época, mas também pelo pensamento fenomenológico de Edmund Husserl. Por isso, cabe agora compreender o que foi o pensamento fenomenológico para compreendermoscomo essa filosofia atravessa algumas perspectivas mais contemporâneas do existencialismo, também conhecidas como filosofias fenomenológico-existenciais. 2.3.2) A fenomenologia como método de investigação da experiência [ 2 ] Temos buscado nesse capítulo apontar as bases que permitem que possamos compreender as correntes conhecidas chamadas de fenomenológico-existenciais. Chamamos de movimento fenomenológico- existencial justamente pela integração dessas duas correntes da filosofia que nascem de contextos distintos, mas que, em determinado momento da história (mais especificamente depois de 1920), se encontram enquanto possibilidade de interlocução. O existencialismo nasce no século XIX, mas é somente no século XX que ganha reconhecimento. A fenomenologia nasce oficialmente na passagem do século XIX ao século XX, mais especificamente com a publicação do livro Investigações Lógicas em 1901 escrito pelo filósofo e matemático Edmund Husserl (1859-1938). Husserl era alemão e dedicou seus estudos ao campo da lógica e da teoria do conhecimento. Inicialmente buscou compreender em que medida o conhecimento poderia ser produzido e compartilhado, e quais critérios poderiam tornar algo verdadeiro ou não. Influenciado pelo filósofo Franz Brentano (1838-1917), que foi o principal rival de Wundt na construção da psicologia, Husserl começa a reformular seu pensamento em um movimento que nunca foi totalmente concluído. Escreveu milhares de páginas e até hoje vários de seus escritos são mantidos ainda inéditos guardados em uma universidade em Leuven, na Bélgica. Sendo considerado um dos filósofos mais importantes do século XX, Husserl influenciou muitos dos movimentos filosóficos contemporâneos, sendo considerado o pai da Fenomenologia. Seus escritos atravessaram dezenas de temas: da lógica à teoria do conhecimento, da ética à psicologia e, por isso, Husserl é também um dos filósofos mais difíceis do século XX dado a vastidão de sua obra, mas que abriu vários caminhos e interpretações possíveis. É importante, todavia, ressaltar que o principal propósito da fenomenologia husserliana foi o de encontrar um novo fundamento para a verdade, ou seja, uma investigação sobre os fundamentos de uma ciência realmente rigorosa. Suas críticas dirigiam-se diretamente aos desdobramentos que a ciência positivista havia alcançado até o final do século XIX. Na leitura de Husserl (HUSSERL, ٢٠١٢) a crise do alcance do conhecimento se fez, desde o Renascimento até o fim do século XIX, a partir de um caminho percorrido pela ciência até chegar, por um lado, ao que ficou conhecido como psicologismo e, por outro lado, ao positivismo. Para Husserl, tornava-se necessária uma nova reflexão sobre as ciências, mas também sobre o contexto de sua crise e, principalmente, a crise de sua legitimidade (HUSSERL, 2012), afinal de contas, a crença na incorruptibilidade da ciência e sua pureza foi colocada em xeque no início do século XX. É como se, na leitura de Husserl, as correntes irracionalistas, ceticistas ou místicas atacassem os fundamentos da filosofia e da ciência tornando-as afastadas de sua preocupação com sua sustentação genuína. O psicologismo foi uma dessas perspectivas que atacou a possibilidade de um conhecimento puro. Assim, a psicologia, ou, mais precisamente, a subjetividade como fundamento do conhecimento, é um dos pontos fundamentais que atravessa toda a obra husserliana. É chamado de psicologismo toda forma de redução do problema do conhecimento a questões relacionadas à subjetividade e ao funcionamento psicológico. Dessa maneira, Husserl (HUSSERL, 2012) irá dizer que é na psicologia do final do século XIX que podemos encontrar o problema mais basilar da crise na teoria do conhecimento, afinal, quando reduzimos a lógica à questões psicológicas perdemos nossa relação intrínseca com o mundo, logo, o autor das investigações lógicas (HUSSERL, 2012) propõe uma crítica direta ao psicologismo por perceber nele a fonte de uma nova forma de relativismo. Husserl percebe que, se entendermos as leis da lógica pela via da consciência individual (reduzindo-as ao conhecimento produzido por uma consciência empírica) estaríamos, ainda, abrindo mão completamente da possibilidade de apontar algo como o conhecimento verdadeiro. Isso porque, reduzir o problema do conhecimento a uma consciência empírica é reduzir o conhecimento ao relativismo (XIRAU, 2015). A ideia que perpassa o psicologismo é a de que seria possível encontrar a verdade em mim, e não a verdade em si. O recurso da verdade em mim possibilita que outra consciência não apreenda o mesmo predicado que julgo ser verdadeiro. Nessa perspectiva, o positivismo recai em um problema parecido. Para Husserl, o positivismo não consegue levar a cabo a sua própria proposta de ater-se àquilo que aparece como fenômeno. O positivismo abandona seus próprios preceitos buscando hipóteses e teorias que possam explicar o dado investigado. Para Husserl, a ciência faz o oposto da ênfase na experiência imediata, pois ela se preocupa muito mais com as teorias hipotéticas do que de fato em se ater ao fenômeno tal como ele aparece (XIRAU, 2015). Nesses termos, Husserl entende que é necessário abandonar uma atitude natural, ingênua, que procura compreender o mundo a partir de sua independência em relação à consciência. A proposta de Husserl é de ater-se aos fenômenos e à intuição originária que é produzida por eles (Dartigués, 2005). Desta forma, Husserl irá procurar uma atitude eminentemente descritiva da consciência, tentando, assim, um novo método de busca da verdade. Afinal de contas, é na investigação da consciência que é possível entender as condições de possibilidade de investigação de um dado fenômeno, ou mais do que isso, tal como veremos mais adiante, é possível investigar como a consciência participa do fenômeno. Para Husserl (2008), diferenciando-se da atitude natural, a filosofia, torna-se novamente capaz de investigar as condições do conhecimento, torna-se uma ciência de rigor. Sendo Husserl um matemático, muitas de suas investigações partem da premissa matemática, isso porque, ao contrário das teorias naturalistas, a matemática é puramente descritiva e não procura recursos exteriores a ela para fundamentar sua coerência. Uma ideia matemática não pode ser uma formulação puramente individual, isso porque ela transcende o campo psicológico para assumir um aspecto universal (Muller-Granzotto e Muller- Granzotto, 2007). Por isso, a descrição da consciência proposta por Husserl não pode cair em um subjetivismo, mas, sim, em um modo de investigação de uma dimensão que foi chamada de transcendental. Assim, na contramão de seu professor Franz Brentano – de quem Husserl se afastara devido ao recurso ao psicologismo, mas sempre procurara retomar suas teses para relê-las (Husserl, 2012, 2012, p. ex.) – o pai da fenomenologia vai tentar pensar as vivências (ou essências) para além da dimensão puramente intrapsíquica e individual, mas a partir da dimensão constitutivamente relacional entre a consciência e o mundo (Muller-Granzotto e Muller- Granzotto, 2007, p. 50). Husserl (2012), então, encontrará o fundamento da verdade em uma releitura da teoria brentaniana da intencionalidade da consciência. O transcendental tem a ver justamente com aquilo que transcende a consciência empírica ou a um eu no sentido individual. Por isso, quando Husserl fala de consciência, ele não tem em vista o eu empírico, mas o campo amplo da experiência, no qual a consciência está inserida como um dos polos, precisamente, o polo subjetivo, o qual, a sua vez, é impensável sem seu correlato objetivo, que é o mundo ele mesmo como domínio das possibilidades de transcendência que se oferecem à consciência. A intencionalidade seria justamente a dupla implicação entre os atos da consciência e seus correlatos, dupla implicação essa a qual Husserl denomina de “a priori da correlação” (Husserl, 2012, p. 130). Por isso que na compreensão de Husserl, investigar descritivamente a consciência é, na verdade, investigar essa correlaçãointencional constitutiva das experiências, a saber, a correlação apriorística entre consciência e mundo. Pensar o mundo como já dado e anterior à consciência é um contrassenso à própria estrutura do conhecimento (Husserl, 2008). Husserl usa como recurso a própria dúvida metódica cartesiana, mas a leva ao extremo: ao invés de retornar à confiança no mundo a partir do argumento da existência de Deus, Husserl mantém a suspensão da crença no mundo para ficar somente com o fenômeno dado, a intuição direta e possível de ser apreendida, esse movimento que Husserl chamou de epoché fenomenológica (Husserl, 1992, p.15). A fenomenologia poderia dar conta de uma nova investigação da experiência em seu caráter transcendental, sem recorrer a uma lógica individualista, mas também sem que isso se torne um sociologismo. O foco da fenomenologia é, então, compreender a estrutura da consciência a partir dessa noção que será fundamental para a formulação do pensamento fenomenológico, a saber, a noção de intencionalidade. A teoria da intencionalidade de Husserl rompe radicalmente com as compreensões clássicas acerca da consciência, pois ela permite o entendimento de uma consciência não ociosa e que não é puramente passiva, ideia que, de alguma forma, esteve presente na psicologia associacionista. Essa ideia de uma consciência pautada em uma referência biologicista e passiva trazia uma referência direta ao modelo psicologista, que focava no funcionamento do eu empírico sem referência a uma estrutura transcendental. Dessa forma, a consciência transcendental, que pode ser pensada muito além de qualquer tipo de existência concreta, é uma consciência que se faz não como evidência resumida a si mesma, mas, muito pelo contrário, se faz como ligação direta entre a consciência e o mundo. A consciência, ao invés de ser tida como uma substância individual e encerrada em si mesma, ela se faz como ato, como consciência intencional, ou seja, o entendimento que consciência é, antes de qualquer coisa, “consciência de algo” (Husserl, 2006, p. 190). Assim, essa nova compreensão de consciência a partir da noção de intencionalidade desconstruía o foco egocêntrico e autocentrado da psicologia, e restabelecia o papel da investigação dos aspectos relacionais da consciência e seus objetos correlacionados (SOKOLOWSKI, 2000). Por isso, para Husserl (2006), a consciência intencional se desprende de seu caráter naturalista agarrado a um mundo de presença física e, dessa forma, apreende outra forma de pensar o objeto: objeto é tudo aquilo que é ou pode ser a conclusão da atividade intencional do sujeito, não importa se o objeto é irreal, fantasioso, ou se pode ser apreendido de forma concreta (Xirau, 2015). Essa perspectiva inaugura uma compreensão que será fundamental para construir novas bases para as ciências humanas, afinal de contas, o foco do pensamento fenomenológico é alcançar essa intuição originária, esse lugar primordial da experiência que antecede qualquer divisão entre sujeito e mundo. Mais do que conhecer a pessoa em si ou o objeto em si, o foco da investigação fenomenológica é alcançar esse a priori da correlação e apreender o ato de produção de sentido a partir de uma atitude pré-teorética. A busca por esse movimento de alcançar essa dimensão transcendental e anterior ao naturalismo e a objetificação, Husserl chamou de redução fenomenológica. Desta forma, a redução fenomenológica tornou-se partícula fundamental para trazer novos caminhos para a filosofia europeia. Diferente do positivismo (que investigava os objetos em si) ou do psicologismo (que queria estudar a estrutura da consciência em si) a fenomenologia possibilitava um novo caminho para a compreensão, a saber, a busca por aquilo que se estabelece entre conhecedor e conhecido, anterior às definições sujeito e objeto. Na esteira de Wilhelm Dilthey (1833-1911) que procurou apresentar a necessidade de métodos distintos para as ciências da natureza e as ciências do espírito (as chamadas ciências humanas), Husserl também apresentou, com a fenomenologia, a possibilidade de um novo caminho para compreender a experiência humana. Dilthey já havia mostrado a importância da diferenciação entre as ciências da natureza e as ciências do espírito, e como as ciências do espírito precisam de uma posição que investigue a experiência humana em todas as suas facetas, sem reduzi-la ao campo meramente objetivo (DARTIGUÉS, ٢٠٠٥). Por isso o método de Husserl foi tão importante para a construção de novos caminhos nas ciências humanas, afinal de contas, sua ênfase na descrição dos processos pré-reflexivos, pré-teóricos e da correlação primordial entre consciência e mundo, possibilitou que a investigação focasse na estrutura da experiência buscando apreender os sentidos constitutivos de como algo é vivenciado. Assim, diferente das teorias explicativas que naturalizam o objeto de estudo, a descrição fenomenológica ancorada na redução fenomenológica, procura suspender toda e qualquer teoria pré-estabelecida, buscando, antes de qualquer coisa, a forma imediata da vivência. Por mais que os trabalhos iniciais de Husserl focassem na busca da verdade e na busca das essências, sua metodologia foi aos poucos abandonando essa pretensão idealista. Em seus últimos trabalhos, Husserl compreendeu que a fenomenologia retoma a importância do mundo-da- vida, da experiência imediata e das formas intuitivas de entendimento. Isso possibilitou a abertura do pensamento fenomenológico para vários outros campos, e discípulos e discípulas de Husserl buscaram aplicar a fenomenologia a praticamente todos os campos do conhecimento. Porém, essa ênfase em um método que buscasse apreender a experiência concreta, imediata e a experiência em seu estado mais primordial, interessou diretamente àqueles que buscavam compreender a existência em sua forma concreta, ou melhor, em seu caráter existencial. Assim, muitos teóricos que estudavam as contribuições de Kierkegaard, Nietzsche e outros, perceberam na metodologia husserliana um caminho possível de compreensão da existência e, nesse sentido, propuseram a integração entre o movimento existencialista com a leitura fenomenológica, o que desenvolveu, então, a leitura fenomenológica-existencial na filosofia. 2.3.3) A perspectiva fenomenológico-existencial na filosofia Apesar de existirem posições contraditórias, é possível identificar a reunião das ideias fenomenológicas e existencialistas a partir da proposta fenomenológica-hermenêutica de Martin Heidegger com a publicação de seu trabalho intitulado Ser e Tempo em 1927, assim como a interlocução entre o pensamento fenomenológico e existencialista do francês Jean Paul Sartre a partir do seu ensaio O Ser o e Nada publicado em 1943. Ambos os autores procuraram integrar as ideias advindas da proposta fenomenológica de Husserl com as temáticas existenciais advindas do pensamento de Kierkegaard e Nietzsche. Se formos rigorosos, o termo existencialismo só foi popularizado por Sartre, que passou a utilizar o termo para definir sua filosofia. De fato, nem Kierkegaard nem Nietzsche chamavam suas filosofias de existencialismo, e o próprio Heidegger não aceitou essa terminologia para definir seu pensamento, preferindo usar o termo analítica existencial, já que sua proposta tinha muito mais a ver com uma busca ontológica de esclarecimento acerca do ser. Vários autores contemporâneos do século XX também procuraram integrar as preocupações existencialistas e fenomenológicas, apontando possibilidades de maior ou menor proximidade com cada uma dessas vertentes. Autores como Paul Tillich, Gabriel Marcel, Albert Camus, Maurice Merleau-Ponty, Karl Jaspers, Emanuel Lévinas entre outros ficaram muito conhecidos pela aproximação com essas filosofias, apesar de nem sempre assumirem fazer parte desses movimentos. Autoras como Simone de Beauvoir(1908-1986) e Hannah Arendt (1906-1975), também tinham influências desses movimentos para construir suas discussões políticas, porém, também não fizeram parte diretamente da construção desse movimentofilosófico, mas sendo responsáveis por outros desdobramentos mais ético-políticos. É importante perceber que, na história da filosofia, a denominação desses movimentos sempre se faz de modo mais ou menos arbitrário, com uma tentativa muito mais didática de aproximar os autores e autoras dentro de um movimento específico do que de fato fazer jus ao modo como essas pessoas se reconheciam. Por isso, por mais que as ideias de Simone de Beauvoir tenham muita proximidade com as ideias de Sartre (que foi seu companheiro durante muitos anos de suas vidas) suas ideias estão mais presentes no campo da filosofia política contemporânea e com bastante ênfase na construção das teorias feministas. Hannah Arendt foi muito influenciada pelas ideias de seu mestre, Martin Heidegger, mas seus ensaios sobre o totalitarismo e o nazismo a colocaram como um dos nomes mais importantes da filosofia e da ciência política contemporânea. Sendo assim, na história da filosofia, são tidos como filósofos do movimento fenomenológico-existencial aqueles que propuseram uma aproximação entre essas duas teorias, dando ênfase ao modo de investigação das características fundamentais da existência a partir de preceitos fenomenológicos. A preocupação desses autores foi justamente como pensar a existência humana sem recair nas amarras naturalistas, objetivistas ou cientificistas. Reduzir o ser humano a um mero ente como os outros e tentar pensá-lo a partir de categorias das ciências naturais retira o caráter existencial da experiência humana. Por isso, olhando para temas como a finitude, angústia, a morte, o desespero e a construção histórica das formas de moralidade e dominação, foi possível pensar filosofias que reponham o lugar do humano em questão, e, com isso, restabelecer a importância da filosofia como lugar de questionamento da experiência concreta. Esse foi o caso do pensamento de Martin Heidegger (1889-1976). Heidegger estudou teologia e filosofia na Alemanha, dedicando-se aos estudos escolásticos e de retomada do pensamento grego. Foi auxiliar de Husserl e assumiu seu lugar como reitor durante a vigência do nazismo e, mesmo com divergências em relação ao seu mestre, tornou-se um dos fenomenólogos mais importantes e mais lidos na história do século XX. Sua preocupação era, antes de qualquer coisa, com o esquecimento do ser na filosofia ocidental. Para ele, o naturalismo havia reduzido a experiência humana a um mero ente, ou seja, como uma coisa dentre as outras coisas, tentando reduzi-lo a uma mera categoria da natureza como qualquer outra. Porém, diferente de uma pedra que pode ser definida como algo, mas que não questiona seu próprio ser, o humano é o único ente que pode colocar seus modos de ser em questão. Assim, mais do que investigar as condições objetivas de nossa experiência, tal como a biologia, a psicologia, a sociologia etc., Heidegger busca retomar a investigação ontológica, ou seja, o questionamento sobre o que constitui o sentido do nosso ser (HEIDEGGER, 2007) Porém, essa pergunta, na leitura de Heidegger, só pode ser feita a partir de uma investigação de nossa experiência cotidiana, da nossa condição inevitável de ligação com o mundo. Por isso, questionar-se sobre seu próprio ser é questionar-se sobre a nossa condição de vivente e de participante de um horizonte de mundo já dado. Por isso, a pergunta sobre o ser precisa ser feita a partir de nossa condição concreta, ou porque não dizer, existencial. Heidegger constrói a sua reflexão sobre o ser a partir de nossa condição de existente e lançado ao mundo constituídos a partir de nossa facticidade e possibilidades que se formam na história. Somos um ente lançado no mundo (a palavra existência vem de Ek-sistire que quer dizer, aquilo que ocupa uma posição fora) e que se constitui enquanto um ser-no-mundo ou Dasein [ 3 ]. Ao questionarmos nosso próprio ser saímos da função de objetos para entendermos com alguém que se constitui em sua intrínseca dimensão fática, alguém que se constitui a partir de sua historicidade, mas também alguém que se constitui a partir de possibilidades ainda não dadas, não estabelecidas e, por isso, com a capacidade de transcender (SÁVIO PASSAFARO PERES e MACHADO, 2019). Assim, Heidegger reconhece o dasein como esse ente que se constitui enquanto um ser de possibilidades. Assim, nós enquanto humanos somos dotados de possibilidades que transcendem a nossa condição fática, e, por isso, dotados de uma liberdade em seu sentido ontológico. Diferente de uma liberdade jurídica ou como é concebida nos termos de um livre arbítrio, a liberdade no sentido heideggeriano tem a ver com a indefinição prévia das possibilidades de ser enquanto dasein. Nós enquanto humanos não podemos ser definidos de forma causal pelo mundo, apesar de que essas dimensões da facticidade nos constituem. Mas se o já dado (a cultura, a história, a economia etc.) nos constituem, não somos reféns dessa condição, muito menos podemos moldar quem somos a partir exclusivamente de nossa vontade, isso porque o futuro é sempre um campo infinito de possibilidades, e por isso, sempre somos capazes de transcender a própria condição fática. É importante salientar que a liberdade em Heidegger não é um convite à meritocracia. Na verdade, a liberdade é o reconhecimento da indefinição do ser e, por isso, não podemos ser definidos pelo que ainda não está dado (CASTRO, ٢٠٢٠). Porém, esse lugar de indefinição esbarra diretamente no campo da finitude. O humano é um ente que se reconhece como finito, que reconhece a morte como constante campo possível. A morte não é um dado objetivo que nos possibilita o reconhecimento de que um dia todos vamos morrer, mas na verdade, a morte é o reconhecimento do caráter totalmente singular da finitude. A finitude é o reconhecimento do limite, da impossibilidade e da quebra de qualquer certeza. É como se Heidegger retomasse o argumento de Kierkegaard do paradoxo entre a finitude e a infinitude e sua relação com a angústia, mas sem o campo teológico circunscrito nele: somos seres infinitos de possibilidades, mas finitos enquanto existência. Reconhecer-se como finitos e livres nos leva a condição existencial mais importante no pensamento de Heidegger: a angústia (HEIDEGGER, 2007). Em Heidegger, seguindo os passos de outros existencialistas, a angústia não é uma patologia ou uma falha, a angústia é a própria condição existencial que nos joga de frente com nossos modos de ser. Isso porque a angústia não tem rosto e não tem objeto, ela é diferente do medo que possui um objeto próprio. A angústia é o encontro com o não ser, com o nada. A angústia é o que nos possibilita o reconhecimento do nosso ser justamente porque nos mostra nossa finitude atrelada ao nosso lugar de liberdade e da capacidade de nos colocar em questão. Assim, Heidegger mantém a orientação kierkegaardiana de que a angústia e outras tonalidades afetivas são aquilo que constituem nossa possibilidade de filosofar, e não somente a nossa capacidade de racionalizar. Assim, Heidegger vai chamar de autenticidade o reconhecimento de nossa angústia e, por conseguinte, o reconhecimento de nossa dimensão existencial de vivente. Como forma de fuga da angústia, recolhemo-nos na inautenticidade ou impropriedade que é o ato de nos escondermos de nós mesmos. Assim, nos alienamos nos objetos, nas tecnologias, nas ciências e nas religiões como modos de negar nossa condição existencial de liberdade. É como se, ao perdermo-nos nesses campos, perdêssemos também nossa capacidade de nos colocar em questão e reconhecer a nossa implicação na capacidade de abertura e transcendência (CASTRO, 2020). Assim, em termos heideggerianos, pela inautenticidade nos afastamos do ser e reduzimos nossa experiência à meras casualidades. Sentimos que nossa vida é definida pela biologia, pela história, pela sociedade e não nos perguntamos como participamos de nossa própria existência. Abandonamos nossa condição de projetos e, com isso, reduzimo-nos a meros efeitos de situações já dadas. Também nos alienamos nas geringonças tecnológicas(hoje em dia, cada vez mais em celulares, tablets, computadores, redes sociais e programas midiáticos) e permitimos sermos definidos por esses aparelhos. Na nossa cultura contemporânea, a nossa condição existencial foi reduzida a meras patologias e por isso, a lógica social é medicalizada e as experiências afetivas são reduzidas a doenças. Ao invés de nos questionarmos sobre nossa ansiedade, tristeza, medo, tédio e desespero, reduzimos essas questões às condições biológicas e as neurociências assumiram o papel de definir nossos comportamentos a componentes cerebrais (CASTRO, 2020). Jean Paul Sartre (1905-1980) também fez questão de apontar o lugar da angústia e das escolhas como constituintes de nossa experiência humana, trazendo inclusive uma posição mais política do que a defendida por Heidegger. Sartre radicaliza a problemática da liberdade, tanto em seu aspecto político quanto ontológico. Na esteira de Husserl, Sartre retoma a tese da intencionalidade da consciência e assume o entendimento de que a consciência é um nada. Isso significa que a consciência não é uma estrutura a priori que pode ser reduzida às teses das psicologias mentalistas ou cognitivistas. A consciência é o próprio desdobrar-se sobre o mundo, constituindo-se sempre das vivências que atravessam a nós mesmos a cada segundo. Assim, nada nos define a priori e nossa humanidade tem a ver justamente com essa total ausência de determinantes que possam nos definir completamente (SARTRE, 1997). Ser livre torna-se então um fardo que devemos carregar, e cabe a nós eticamente assumirmos essa posição de sermos sempre projeto. Construímos e reconstruímos a nós mesmos a cada momento, mesmo que atravessados pela facticidade. Ser livre é assumir constantemente nossa posição de autores de nossas ações, buscando a responsabilidade radical por aquilo que fazemos de nós mesmos. Tentar fugir dessa liberdade, nos naturalizando ou retirando de nós mesmos a responsabilidade perante o mundo nos leva à má-fé e à sempre malograda tentativa de autoengano. Não se trata de uma liberdade concebida como os liberais a pensam, no sentido de que ser livre é decidir racionalmente cada ato que produzimos em nossa própria vida. Ser livre tem a ver com bancarmos nossas escolhas, que não são outra coisa senão tudo aquilo que fazemos mesmo quando não estamos escolhendo deliberadamente (SARTRE, 1997). Aqui, aparece uma tese quase nietzscheana de amar o destino (o que Nietzsche chamava de amor fati), mas que aparece enquanto compromisso ético consigo, com suas escolhas e com a forma como me posiciono perante a facticidade. Responsabilidade não se resume aqui à uma noção de culpa, mas sim a uma forma de assumir o que nos acontece e nos posicionar sempre de maneira ativa perante a vida, afinal de contas, sem qualquer definição a priori, e sem qualquer futuro pré-definido, a vida é um constante movimento de indefinição e projeto. Deparar-se com essa indefinição e completa ausência de certezas, nos impõe um mal-estar, uma vertigem fundamental. A compreensão sartriana de angústia tinha a ver fundamentalmente com esse deparar-se com a não certeza e com a estranheza perante as coisas. Afinal de contas, se não somos capazes de nos definir a priori, se a vida é uma constante reformulação de seu próprio sentido, se não pudermos estabelecer um projeto a priori que garanta sentido essencial da vida, por que insistimos na vida? Qual o propósito da vida humana? Um autor como Albert Camus (1913-1960), contemporâneo de Sartre, chegou a afirmar que é esse olhar para o absurdo que nos coloca de frente com a questão mais importante da filosofia, a saber, porque insistimos em estar vivos. Assim, Sartre (assim como Camus, mas também a grande maioria dos filósofos de orientação existencialistas), buscou na arte, mais especificamente na literatura e no teatro, modos de colocar essa questão, buscando explicitar o lugar de busca humana por um lugar e um sentido. Seus personagens sempre atravessavam a crise existencial de perceberem-se vivos, e a partir disso, radicalmente responsáveis por suas escolhas. Sartre viveu a segunda grande guerra de maneira intensa, tendo sido um grande ativista político, indo além das discussões da ontologia para o campo da filosofia política e da filosofia prática. A liberdade não era só uma questão teórica, ela era uma questão que precisava ser colocada constantemente, afinal de contas, em um mundo de guerras que cerceiam nossa liberdade, reconhecer-se como finito e responsável por nossa própria condição, exige um posicionamento constante perante as formas de opressão política e econômica, e, assim, a liberdade deixa de ser uma questão individual para se tornar uma luta coletiva necessária. Na esteira dessas problemáticas políticas e existenciais, poderíamos citar vários outros autores e autoras que fizeram parte dos debates dessa época. Atravessados pelas ideias de Husserl, Heidegger e Sartre, o século XX apresentou vários teóricos que buscavam investigar os paradoxos da vida humana. Autores como Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), Gabriel Marcel (1889-1973), Emmanuel Levinás (1906-1995) e outros, dialogaram diretamente com esses e outros autores da tradição fenomenológica e existencialista, e problematizaram questões fundamentais acerca da ética, da estética, da política e da ontologia. Além disso, é importante salientar a importância da obra de Simone de Beauvoir (1908-1986) que apontou questões fundamentais acerca do feminino. Na esteira dos debates existencialistas (Simone de Beauvoir foi uma importante interlocutora de Sartre e sua companheira durante muitos anos, porém, nem sempre ela é reconhecida como atuante na história do existencialismo, mas sim nos debates acerca da filosofia política e do movimento feminista), ela procurou mostrar como o feminino não pode ser reduzido a perspectivas biológicas ou religiosas, mas que precisa ser compreendido enquanto processo histórico, e que, como qualquer processo histórico, pode ser desconstruído e transgredido na ação humana de implicação e reconhecimento. Assim, a autora mostra um importante estudo de como a ideia de mulher é construída como uma categoria secundária ao homem, e, por isso, completamente dominada pela lógica patriarcal. Enquanto um “segundo sexo”, a ideia de servidão da mulher em relação ao homem é construída a partir de fatores históricos, sociais e religiosos, criando a falsa ilusão de que essa servidão seria natural. Porém, se o feminino é uma categoria historicamente construída, isso daria margem para compreender que ela também pode ser reconstruída (BEAUVOIR, 1967;1980). Assim, Simone de Beauvoir torna-se uma importante figura política na busca de libertação das mulheres em relação à dominação patriarcal. Por isso as perspectivas existencialistas e fenomenológicas-existenciais contemporâneas possibilitaram uma profunda reflexão sobre o humano enquanto um ser vivente, político, que precisa se colocar em questão e reconhecer na concretude de sua experiência a sua implicação na construção da sua história e daqueles de seu entorno. Essas ideias atravessaram muitos campos, desde a arte em todas as suas formas (a música, o cinema, a literatura, as artes plásticas e a poesia), passando pelo campo da ética e da política, até adentrar no campo da medicina e da psicoterapia. Por isso, as ideias existencialistas vão ter um grande impacto direto e indireto em vários autores que estavam construindo suas releituras em relação à psicanálise, à psicoterapia e à psicopatologia. Essas ideias vão ser cruciais para uma série de releituras que o pensamento freudiano vai sofrer criando formas diferentes de se pensar a escuta clínica psicoterápica. Porém, também elas terão um grande impacto na construção das ideias da psicopatologia e das práticas psiquiátricas, servindo de influência inclusive para uma série de reformas radicais que a psiquiatria e as instituições manicomiais irão sofrer. Por isso, agora cabe descrever como essas ideias adentraram a esses novos campos. 2.4) A perspectiva fenomenológicaexistencial na psicoterapia e psicopatologia Tal como dito anteriormente, as ideias advindas do movimento fenomenológico, existencialistas e das propostas de interlocução entre essas duas teorias chamadas de correntes fenomenológicas-existenciais, foram cruciais para a reformulação de vários campos do conhecimento que estavam se desenvolvendo em solo europeu. Um deles, sem dúvidas, é o campo da psicopatologia. Foi Karl Jaspers (1883-1969) quem trouxe as primeiras contribuições fenomenológicas e, de certa forma, existenciais para a compreensão da psicopatologia. Apesar de ser uma discussão polêmica, encontramos vários historiadores que consideram Jaspers o pai da psicopatologia fenomenológica, enquanto outros defendem sua importância na construção das bases que permitirão a emergência dessa vertente da psicopatologia (MOREIRA, 2011). Sendo considerado um dos grandes nomes do existencialismo do século XX, Jaspers era filósofo e médico e, juntamente com Heidegger, trouxe contribuições fundamentais para a filosofia alemã contemporânea. Apesar de nem sempre Jaspers ser considerado um fenomenólogo, dado que ele mesmo não compreendia seu método como rigorosamente fenomenológico, Jaspers se baseia nas contribuições de E. Husserl para buscar uma leitura descritiva da experiência psicopatológica apontando para uma leitura completamente distinta daquela estabelecida pela medicina da época. Publicou em 1913 o livro Psicopatologia Geral ( JASPERS, 1987), sendo considerado por muitos o pai da psicopatologia contemporânea, dado que pela primeira vez, buscou-se apresentar a psicopatologia como uma ciência independente. Nesse trabalho, Jaspers abandona o paradigma naturalista para tentar descrever o sofrimento psíquico a partir de uma leitura interna, subjetiva, que rompe com a ideia de que só seria possível um rigor científico se o médico fosse se ater a questões puramente objetivas do comportamento psicopatológico ( JASPERS, 1987). Outros autores também procuraram ampliar as influências fenomenológicas no campo da psicopatologia. Eugene Minkowski (1885- 1972) foi outro autor que procurou aplicar as ideias de Husserl no campo da psicopatologia. Porém, de maneira mais direta, Minkowski procurou integrar seus estudos sobre a fenomenologia de Edmund Husserl e as contribuições do filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), na forma como era possível entender as pessoas em sofrimento psíquico. Publicou em 1927 o livro intitulado “A esquizofrenia” e, depois, o “O tempo vivido” em 1933, além do importante “Tratado de Psicopatologia”, publicado em 1966. Estudou com Eugen Bleuler (1857-1939) na Suíça, autor importante para a construção das ideias acerca da esquizofrenia. Bleuler era um dos principais nomes da escola suíça de estudos em psiquiatria, mas lá Minkowski também pôde estudar com outros membros desse grupo, tais como Carl Gustav Jung (1875-1961) e Ludwig Binswanger (1881-1966), de quem teve influência e que iremos falar mais adiante. Sua hipótese fundamental era a de que o estudo das experiências psicopatológicas precisava ser constituído a partir uma investigação profunda da experiência vivida do paciente, salientando seu modo peculiar de compreender sua forma de se relacionar com o mundo, consigo e com os outros (COSTA e MEDEIROS, 2009). Seus estudos sobre a experiência vivida do tempo foram fundamentais para a compreensão dos modos de expressão da depressividade. Isso porque, no entendimento de Minkowski, para além do tempo descrito pela física clássica, é fundamental compreender a experiência subjetiva do tempo, e é esse modo de vivenciar o tempo que se encontra prejudicado na vivência depressiva ou melancólica (TATOSSIAN, 2006). Por mais que ele tenha estudado psicanálise, Minkowski era completamente contra as teses freudianas, e por isso, suas contribuições para a psicopatologia buscaram caminhos muito diferentes daqueles apresentados pelo pensamento freudiano. É importante frisar a importância das influências existencialistas e fenomenológicas nos movimentos de luta contra o poder psiquiátrico. Psiquiatras como Ronald Laing (1927-1989) e David Cooper (1931-1986) foram fundamentais na construção do movimento chamado de antipsiquiatria no Reino Unido, que buscava romper com a leitura patologizante da loucura, ou mais do que isso, do modo como o poder médico encontrava formas de segregação social com base em critérios de saúde mental. A crítica às violências manicomiais foi abordada por esses autores, assim como à redução da pessoa ao seu diagnóstico. Principalmente em relação a esse último ponto, Laing tinha uma forte influência existencialista, buscando romper com a ideia de que alguém poderia ser reduzido a questões puramente biológicas apriorísticas (DELACAMPAGNE, 2004). Também é importante ressaltar que Franco Basaglia (1924-1980), um dos principais nomes da reforma psiquiátrica e crítica ao modelo manicomial na Itália (e tendo influenciado praticamente o mundo inteiro), também tinha forte influência fenomenológica e existencialista para a construção de suas ideias (PACHECO, 2009). Porém esses movimentos possuem uma forte influência das ideias existencialistas e fenomenológicas para a construção de suas ideias e crítica aos modelos institucionais e biologizantes da loucura, mas não podemos inserir diretamente esses teóricos dentro das correntes da psicopatologia fenomenológica. Para seguir rigorosamente o caminho das teorias que ficaram conhecidas como psicologias fenomenológicas- existenciais, precisamos compreender o pensamento dos autores que procuraram apresentar uma maior interlocução entre o pensamento fenomenológico e o campo da teoria freudiana. Afinal de contas, se a psicanálise possibilitava uma escuta em primeira pessoa sobre o sofrimento, muitos psicanalistas entenderam que a ação analítica é um questionamento acerca de nossa dimensão existencial, ou porque não dizer, sobre o que dá sentido à nossa existência. Porém, de algum modo, para eles, a metapsicologia freudiana ainda caia em um certo tipo de naturalismo, reduzindo o funcionamento psíquico a processos inconscientes que poderiam ser universalizados e reduzidos à nossa dimensão pulsional e sexual. Assim, nascem as releituras fenomenológicas-existenciais (principalmente a partir das ideias de Heidegger, mas não só dele) da psicanálise, possibilitando a emergência de novas perspectivas que podem estabelecer novos caminhos para a compreensão das vicissitudes humanas. Um primeiro importante autor desse movimento, é Ludwig Binswanger (1881-1966). Binswanger também faz parte do ciclo suíço, tendo estudado com Bleuler, Jung e Minkowski. Ele se interessa inicialmente pela clínica psicanalítica, mas aos poucos vai abandonando as teses freudianas em nome de uma aproximação com as ideias de Husserl e Heidegger. Binswanger foi o primeiro a trazer as ideias heideggerianas ao campo da psicopatologia, buscando compreender como as categorias centrais de seus estudos acerca da dimensão ontológica e ôntica da experiência humana poderiam ser aplicadas ao âmbito da psicopatologia e da psicoterapia. Ao invés de uma analítica da pulsão ou da sexualidade, esse autor propõe uma analítica do dasein, ou seja, da dimensão básica de ser-no-mundo, possibilitando com isso uma superação da dicotomia sujeito-objeto (CARDINALLI, 2004). Assim, ao invés de uma teoria explicativa sobre os mecanismos metapsicológicos, a fenomenologia poderia buscar alcançar a dimensão íntima a partir de uma postura descritiva da experiência psicopatológica. Se utilizando das categorias fundamentais de Heidegger, Binswanger procura criticar o naturalismo da psicopatologia clássica e da psicanálise, buscando apreender a dimensão transcendente da experiência do paciente, não reduzindo sua experiência a nenhuma categoria naturalista prévia (BINSWANGER, 2013). Em sua teoria, Binswanger apresentou uma série de divergência com o pensamento de Heidegger, muitas vezes estando mais próximo das ideias de Husserl. Isso fez com que o próprio Heidegger apresentasse críticas à Binswanger,o que gerou um afastamento entre esses dois autores. Por isso, por mais que Binswanger utilizasse inicialmente o termo Daseinsanalyse (analítica do Dasein) para definir sua proposta, mais tarde ele preferirá chamar sua compreensão de Análise Antropológica-Fenomenológica. Hoje sua proposta também é conhecida como Análise Existencial, apesar do próprio autor não gostar dessa definição em função do receio de associarem suas ideias com as ideias de Jean Paul Sartre (MOREIRA, 2011). Medard Boss (1903-1990) também foi um psiquiatra que procurou integrar no pensamento psicanalítico as ideias de Heidegger. Também suíço, foi sócio de Jung e trabalhou com Bleuler, além de ter sido analisado pelo próprio Freud. Seu interesse no campo das psicoses o levou a se afastar cada vez mais das teses psicanalíticas e se aproximar dos debates da daseinsanalyse (MOREIRA, 2011). Boss percebeu que Binswanger apresentava críticas aos métodos naturalistas da psiquiatria tradicional, conseguindo trazer um olhar mais compreensivo para o campo psiquiátrico. O recurso de Binswanger ao pensamento de Husserl e Heidegger fez com que Boss procurasse se aproximar cada vez mais das ideias fenomenológicas. Porém, não seguiu completamente as propostas construídas por Binswanger justamente por concordar com as críticas que Heidegger endereçou à daseinsanalyse de Binswanger. Para Heidegger, Binswanger não levou a cabo suas ideias acerca da ontologia fundamental e, por isso, acabou desvirtuando algumas compreensões acerca do Dasein que ele apresentou. Por esse motivo, Boss manteve uma constante troca de cartas com Heidegger, chegando a convidá-lo para uma série de seminários em sua casa em Zollikon com o propósito de formar uma equipe de psiquiatras na leitura heideggeriana e poder aplicar isso no campo da psicoterapia e da psicopatologia. Esses seminários foram chamados de Seminários de Zollikon (HEIDEGGER, 2001). Por essa aproximação com o pensamento de Heidegger, Boss mantém o nome de sua abordagem de Daseinsanalyse ou Daseinsanálise (em português). A Daseinsanálise procura pensar uma clínica que não recaísse em um lugar puramente ôntico, ou seja, focado no ente, naturalizando o ser humano. Assim a Daseinsanálise se torna uma abordagem que coloca no cerne de sua teoria o questionamento existencial do ser, trazendo isso para singularidade da clínica. É o campo do sentido da própria existência que se torna o propósito fundamental da clínica daseinsanalítica, sendo o psicoterapeuta um facilitador do processo de encontro do paciente consigo mesmo. As patologias não podem, então, ser reduzidas a meros efeitos de uma falha anatomofisiológica, mas como formas de cristalização da experiência e de impossibilidades de ser. O sofrimento tem muito mais a ver com essas formas pelas quais cristalizamos nossas possibilidades e nos fixamos em uma forma única de conduzir nossa experiência, impedindo nossa condição de transcendência. Assim, diferente de uma clínica que tente acabar com a angústia por patologizá-la, a clínica daseinsanalítica pensa a angústia como o motor que possibilita o atravessamento do sofrimento, dado que ela tem a ver com o lugar de recobrar nossa capacidade de olhar para nós mesmos e nos colocar em questão (CARDINALLI, 2004). Outros teóricos, também pós-freudianos, produziram dissidências a partir de releituras fenomenológicas, existenciais ou fenomenológicas- existenciais da psicanálise. Foi o caso também de Alfred Adler (1870-1937) e Viktor Frankl (1905-1997). Adler foi um importante membro do círculo inicial de psicanalistas que depois veio a se afastar das ideias freudianas. Adler rompe com o pensamento Freudiano desenvolvendo o que ele chamou de psicologia individual. Para Adler, Freud deu muita ênfase à problemática sexual e ignorou os processos relacionados à busca de superioridade e poder. Para além de questões políticas específicas, a necessidade humana de crescimento e desenvolvimento é fundamental para a construção do psiquismo, tendo uma grande influência da ideia nietzschiana de vontade de potência. A busca de superar nosso complexo de inferioridade construído na relação com os outros, dava a Adler uma compreensão mais ambiental e social na construção do comportamento, indo além das questões exclusivamente psíquicas. Adler foi muito importante para o contexto da psicologia vienense e sua escola foi fundamental para a criação de várias correntes dissidentes ao pensamento freudiano, assim como as práticas de terapias breves e outros contextos de aplicação das ideias psicoterápicas, mesmo que hoje em dia suas ideias diretas não tenham mais tanto reconhecimento (FADIMAN e FRAGER, 2008). Por mais que Adler tenha, em alguma medida, uma base nietzschiana, foi Viktor Frankl que apresentou uma compreensão mais existencial para a clínica tendo sido responsável pelo desenvolvimento do que ficou conhecido como terceira escola vienense, buscando se diferenciar das ideias de Freud e Adler (que seriam as duas primeiras grandes escolas). Para isso, Frankl teve uma forte influência do pensamento fenomenológico de Max Scheler (1874-1928) mas também de autores do movimento existencialistas como Kierkegaard, Sartre e outros. (LIMA NETO, 2013) Frankl era judeu, e suas vivências preso em campos de concentração o levaram a repensar as bases da motivação humana e de nossa constituição. Frankl percebeu nos campos de concentração que o que muitas vezes tornava suportável o desespero vivido pelas pessoas naqueles contextos era a construção de um sentido para para suas vidas. Assim, ele colocará o sentido da vida como o cerne da experiência humana e, com isso, irá entender o sofrimento justamente como a ausência ou perda desse sentido. Para Frankl, mais do que olhar para a dimensão somática ou psíquica, era necessário também compreender a dimensão noológica, ou seja, a dimensão espiritual ou a dimensão do sentido. A clínica, mais do que resolver patologias, teria como propósito resgatar esse lugar do sentido e capacidade do indivíduo buscar reconhecer-se como condutor da própria vida. Com isso, Frankl inaugura a análise existencial, mais conhecida como Logoterapia (FRANKL, 1991). Por isso, em um caminho diferente daquele produzido pela daseinsanálise que buscava uma compreensão ontológica a partir da noção de dasein, a análise existencial de Frankl reconhecia a espiritualidade como fio condutor da experiência humana, e estabelecia que a perda do sentido e do encontro com a nossa transcendência (muito além ou muito aquém da religiosidade) nos levava a um sofrimento muito maior do que aquele traduzido nas discussões em torno da neurose. Outras teorias como a Gestalt-terapia e o Psicodrama também começaram a ser desenvolvidas na Europa, e por isso, também sofreram profunda influência dos movimentos existencialistas e fenomenológicos que ganhavam força naquele período em solo Europeu. Fritz Perls (1893- 1970) era um médico psiquiatra alemão também psicanalista, mas que teve uma forte influência das filosofias da vida alemãs, como por exemplo, o pensamento de Nietzsche. Fritz produz uma série de críticas ao pensamento psicanalítico a partir de suas influências advindas do gestaltismo, ou mais especificamente da leitura organísmica de Kurt Goldstein. Juntamente com sua esposa Laura Perls (1905-1990), Fritz coloca no cerne de sua teoria a ideia de que o organismo precisa ser compreendido como um todo, e que a neurose é uma produção social advinda de nossa cultura judaico-cristã. Por isso, nos tornamos evitativos, incapazes de sustentar nossas experiências de constante transformação e ampliação da consciência, em nome da manutenção daquilo que é seguro e previsível. Diferentes de outros psicoterapeutas europeus que desenvolveram suas novas abordagens ainda na Europa, Fritz e Laura migram para os Estados Unidos em meados da década de 1940 e fundam, juntamente com o anarquista, crítico social e crítico educacional americano Paul Goodman (1911-1972), a Gestalt-terapia em 1951. Por mais que esses três tenham sido os principais autores dao que realmente é importante na vida. Por último, mas não menos importante, agradeço ao Paulo Coelho Castelo Branco, professor do curso de graduação e de pós-graduação em psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), pela leitura cuidadosa e por ter aceitado tão prontamente o convite de prefaciar esse livro, mas mais do que isso, agradeço pelos mais de 15 anos de amizade, que sempre resultou em muito aprendizado, trocas e muitas gargalhadas. Marcus Cézar Belmino Juazeiro do Norte, Setembro de 2021 Prefácio Conheci Marcus Cézar de Borba Belmino – ou como eu o chamo: “Cézar” – nos anos de graduação na Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Posteriormente, trabalhei com ele no Centro Universitário Dr. Leão Sampaio (UNILEÃO). Desde então, Cézar sempre me foi uma referência em Gestalt-Terapia e interlocutor nos mais diversos assuntos além e aquém dos humanismos. Particularmente, aprendo muito com a produção e difusão do seu conhecimento sobre os aspectos teóricos, históricos, epistemológicos, ontológicos e práticos da abordagem gestáltica. Nesse sentido, assumo a missiva de prefaciar seu novo trabalho que versa uma narrativa histórica sobre os movimentos humanistas, existenciais e fenomenológicos que interessam à Psicologia. Como humanista, psicoterapeuta, autor e professor, Cézar se preocupa em responder ao desafio de expor uma narrativa histórica oriunda de seus anos de docência para (in)formar estudantes sobre os elementos, nem sempre concordantes e articulados, que compõem uma estrutura psicológica humanista, existencial e fenomenológica. Eis o mote propulsor deste material didático que extrapola a experiência pessoal-docente de Cézar para beneficiar aqueles que o leem e se interessam em entender os pontos que constituem tal estrutura. Partindo do todo para depois examinar as suas partes, Cézar narra o nascimento do movimento humanista- existencial, para depois apresentar suas influências na Psicologia Humanista-Existencial. Em seguida, faz o mesmo com o movimento fenomenológico- existencial para examinar suas articulações com as ideias modernas, as psicanálises freudiana e pós-freudianas e as filosofias e psicoterapias existenciais e fenomenológicas. Finalmente, analisa o que esses variados entrelaces proporcionaram na consolidação e no diálogo entre as psicologias humanistas- existenciais e as psicologias fenomenológicos-existenciais. A partir de um ponto de vista familiar, como historiador e estudioso da Psicologia Humanista, indico que, com a obra em mãos, o(a) leitor(a) possui uma narrativa de cunho introdutório intencionalmente escrita para proporcionar um entendimento panorâmico e breve sobre as principais ideias, expoentes e abordagens que conjecturadas compõe o que Cézar indica como o movimento humanista-existencial e o movimento fenomenológico-existencial. Estes possuem variados entrelaçamentos com os saberes psicológicos (científicos, personalistas, funcionalistas e gestaltistas), filosóficos (humanistas, fenomenológicos, existenciais e pragmatistas), psicoterapêuticos (freudianos e pós-freudianos), além de manifestações políticas e culturais. Destarte, a narrativa de Cézar nos ajuda a entender tais entrelaces. Durante a leitura, recomenda-se que o(a) leitor(a) encare cada parágrafo, tópico e subtópico como guias ou vetores que acenam para aprofundamentos e estudos ulteriores sobre as ideias e expoentes humanistas, nológicos e existenciais apresentados e entrelaçados pela narrativa em tela. Logo, a obra de Cézar possui uma simplicidade que precisa ser encarada em toda a sua complexidade; e apresenta uma complexidade de informações que precisam ser entendidas de forma simples e fluida. Afinal, toda boa história é boa não só pelo seu conteúdo, mas porque também foi bem contada. Eis a beleza da obra de Cézar, a qual demonstra que as imprecisões relacionadas aos movimentos humanista- existencial e fenomenológico- existencial, na realidade, são desconhecimentos sobre os elementos que os compõem e precisam ser (re)organizados e (re)contados em suas histórias. Leitores(as), tenham a certeza de que existem muitas histórias que foram contadas e, ainda, poderão ser contadas sobre os movimentos humanista- existencial e fenomenológico-existencial. Contudo, usufruam do presente que Cézar nos provê em sua fértil e sucinta narrativa. Paulo Coelho Castelo Branco Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará. Introdução Muito se fala sobre a psicologia humanista e seus desdobramentos, mas para compreender a história de forma mais rigorosa é mais interessante falar em um movimento humanista-existencial do que somente em uma psicologia humanista-existencial. Nas universidades, de maneira geral, as disciplinas são muitas vezes divididas entre as teorias psicológicas de fundamentos psicanalíticos (ou psicodinâmicos), as de fundamentos comportamentais e as de fundamentos humanistas ou fenomenológico- existenciais. Essa divisão acaba ajudando a compreender como esses movimentos se constituem, mas não deixam de ser polêmicos em cada um dos casos. Isso porque, quando falamos em história da psicologia, é importante perceber que, como qualquer movimento histórico, ela é repleta de tensões, mudanças, atravessamentos e ambiguidades. A verdade é que essas histórias se atravessam, e esses movimentos possuem muitos pontos de afastamento, mas também de aproximações, releituras e reconfigurações a partir das críticas que essas diferentes correntes apresentam umas às outras. Por isso, quando falamos em história nesse texto, estamos nos referindo a uma compreensão plural, ambígua e atravessada por rupturas e tensões, e não a leitura clássica de que a história é contínua, linear e progressiva. Assim, se olharmos especificamente para as assim chamadas psicologias humanistas, essas tensões ficam ainda mais explícitas. Nas universidades ou nos livros de história da psicologia é comum integrar nas psicologias humanistas, abordagens como a Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers; a Gestalt-terapia de Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman; o Psicodrama de Jacob Levi Moreno; a Psicologia Humanista de Abraham Maslow e, às vezes, abordagens como a Daseinsanálise de Ludwig Binswanger e Merdard Boss; a Logoterapia de Viktor Frankl; e em alguns casos também são incluídas abordagens corporais e até transpessoais dentro desse movimento. Essa amplitude de perspectivas integra tanto as psicologias americanas (nascidas em meados do século XX que se constituem a partir da crítica às teorias psicodinâmicas, às teorias funcionalistas clássicas e às correntes behavioristas), como também algumas teorias europeias (que nascem das críticas ao pensamento psicanalítico freudiano) bastante atuantes no cenário da psicoterapia global, a saber, as chamadas psicoterapias de base fenomenológico-existenciais. Isso ocorre também devido à integração que há, para alguns historiadores, entre as psicologias humanistas-existenciais que nascem prioritariamente em solo americano e as abordagens tidas de base fenomenológicas-existenciais, desenvolvidas no contexto europeu. Essa integração aparece, muitas vezes, de maneira confusa na compreensão da história das psicologias, principalmente porque há aproximações e distanciamentos dessas perspectivas. Por exemplo, as psicologias humanistas americanas nascem de uma crítica às teorias psicodinâmicas e comportamentalistas, elas a fazem a partir de uma preocupação científica (no caso de Carl Rogers e Abraham Maslow) que funda uma nova compreensão de ciências humanas, mas com uma forte base organísmica e vitalista buscando a todo custo se afastar das psicologias laboratoriais. Essas psicologias aparecem como formas de psicologia aplicada, procurando se diferenciar do modelo laboratorial ou baseado na testagem psicológica e o nascimento das investigações em torno da noção de personalidade. Suas contribuições aparecem inicialmente no campo do aconselhamento psicológico (por ex., Rogers e Rollo May) e da psicologia industrial (por ex., Abrahamconstrução teórica e prática da abordagem, Fritz, Laura e Goodman desenvolveram um grupo de trabalho chamado grupo dos sete, que foram fundamentais para a construção dos debates que levaram ao desenvolvimento da abordagem. A gestalt-terapia passou a ser bastante reconhecida nos EUA, principalmente devido à proximidade entre as ideias da abordagem e os movimentos de contracultura da época. Fritz Perls chegou a ser considerado o “rei dos hippies” na década de 1960, e Paul Goodman foi uma voz extremamente atuante na chamada nova esquerda americana. Esse destaque possibilitou o interesse dos teóricos da psicologia humanista. Essa aproximação fez com que Fritz afirmasse em vários contextos diferentes que a gestalt-terapia era uma abordagem humanista-existencial (BELMINO, 2020). Jacob Levy Moreno (1989-1974) foi um psiquiatra que nasceu na Romênia e se instaurou em Viena, sendo contemporâneo dos debates em torno da emergência da teoria psicanalítica e das dissidências produzidas naquela época. Diferente de alguns de seus contemporâneos, não foi psicanalista e buscou mostrar em alguns de seus trabalhos, as principais divergências entre as suas ideias e as de Freud. Teve forte influência existencialista, mas foi o teatro sua principal ferramenta de pesquisa e prática no campo terapêutico. Desde seus primeiros trabalhos, encontrou no campo da ação dramática a oportunidade de explorar sentimentos, vivências traumáticas e o desenvolvimento de ações espontâneas e criativas perante as vicissitudes existenciais vividas pelos seus pacientes. Criou a metodologia psicodramática desenvolvendo publicamente ações de improvisação, em que ele montava um palco onde as pessoas poderiam encenar seus dramas pessoais e que deu origem ao que ele chamou de Teatro Espontâneo. Em 1925, migrou para o Estado Unidos ampliando sua proposta psicodramática para o campo da psicoterapia de grupo, desenvolvendo a socionomia e a sociometria, que são os desdobramentos de suas pesquisas sobre os processos grupais. Por esse motivo, Moreno é considerado um dos grandes nomes da psicoterapia de grupo, tendo implementado várias pesquisas nesse campo em solo americano. (SCHMIDT, 2007) Tal como dito anteriormente, esses teóricos acabam migrando para os EUA no período de guerras, e influenciando fortemente a construção do movimento humanista-existencial. Podemos dizer que houve uma dimensão mais acadêmica desenvolvida por Maslow e Rogers, em que ambos buscaram desenvolver metodologias cada vez mais arrojadas a fim de inserir a psicologia humanista dentro do campo científico, inclusive buscando integrá-la à associação americana de psicologia (APA). Mas o movimento humanista também estava fora dos muros da academia, estando diretamente ligado aos movimentos de contracultura e crítica social. Fritz Perls e Jacob Levi Moreno, por exemplo, tiveram participações no campo dos debates da psiquiatria (Moreno) e das teorias neopsicanalíticas americanas (Perls), mas seus workshops e atividades reuniram pessoas de vários campos e lugares diferentes. Sendo assim, é importante ressaltar a diferenciação entre o que estamos chamando de movimento humanista- existencial, que é um movimento mais amplo, integrando teóricos e psicoterapeutas americanos e europeus na construção de uma nova força na psicologia e psicoterapia, engajados na ideia de desenvolvimento de autonomia, crescimento, transformação e a construção de novos caminhos para a pesquisa e a prática clínica, que não recaíssem nos modelos psicanalíticos ou behavioristas. Já os autores da psicopatologia fenomenológica e das releituras fenomenológicas existenciais da psicanálise, são associados ao movimento humanista-existencial muito mais por terem suas ideias apreendidas por esse grupo. As ideias de Binswanger, Minkowski, e outros, eram traduzidas para o inglês e foram sendo popularizadas a partir do esforço de Rollo May. O próprio Rollo May foi muito influenciado pelas ideias de Kierkegaard e Sartre, e levou para os EUA as reflexões sobre a angústia do ponto de vista existencial, retirando seu caráter patológico, pensando-a como o motor da experiência. Viktor Frankl também não estava ligado diretamente ao movimento humanista-existencial, mas foi professor visitante em Harvard e foi nos Estados Unidos que suas ideias se popularizaram mais fortemente. Por isso, ele também acabou sendo um autor bastante lido pelos simpatizantes dessas novas formas de se fazer e pensar a psicologia e a psicoterapia. Assim, o movimento americano e o movimento europeu se atravessam, apesar de terem marcas muito específicas. Alguns autores preferem mostrar como as psicologias humanistas americanas nascem em conjunto com as psicologias fenomenológicas-existenciais, por isso, elas estariam diretamente ligadas em uma grande corrente. Outros autores preferem demarcar mais explicitamente esses dois movimentos, mostrando que há aproximações, mas principalmente diferenças entre as correntes americanas das psicologias Humanistas-Existenciais e as correntes europeias Fenomenológicas-Existenciais, por mais que reconheçam a influência das segundas nas primeiras. Por isso, cabe agora explorar um pouco mais essas aproximações e diferenciações desses movimentos. 2 Esse tópico é uma releitura da investigação acerca da fenomenologia que produzi no segundo capítulo do livro A Ontologia Gestáltica de Paul Goodman e seus desdobramentos clínicos, políticos e educacionais: Gestalt-terapia, anarquia e desescolarização (BELMINO, 2017) 3 O termo utilizado em alemão é Dasein, que pode ser traduzido literalmente como “ser-aí”, mas também é traduzido por alguns autores como “presença” ou “ser-no-mundo”. III Encontros e desencontros entre as psicologias humanistas-existenciais e as psicologias fenomenológicas-existenciais De fato, existem diferenças significativas entre as psicologias que nascem em solo americano e as psicologias europeias. Essas diferenças se mostram de maneiras explícitas, mas a proximidade entre a construção dessas ideias é extremamente interessante. Rollo May foi um dos grandes nomes da psicologia humanista-existencial americana, mas ele foi profundamente influenciado pelas filosofias fenomenológicas e existencialistas. Fritz Perls constrói suas principais críticas ao pensamento psicanalítico em solo europeu, mas a influência que ele sofre do gestaltismo organísmico de Goldstein, da psicanálise culturalista de Karen Horney e a sua compreensão de auto atualização torna sua teoria muito próxima das ideias de Carl Rogers, por mais que eles nunca tenham tido uma interlocução direta. No Brasil, essa interlocução se torna mais visível, fazendo as abordagens se tornarem praticamente irmãs em solo brasileiro (MOREIRA, 2010). Essas interfaces entre essas psicologias fazem com que elas sejam muitas vezes aproximadas e até confundidas. Mas essa confusão não é à toa, afinal de contas, elas ganham notoriedade no mesmo período e, de fato, possuem atravessamentos que as tornam extremamente próximas. Porém, de forma didática podemos apontar algumas diferenças gerais entre os movimentos. De modo mais geral, é possível encontrar uma matriz mais vitalista e otimista da experiência humana dentro das perspectivas americanas. Os teóricos humanistas tinham uma compreensão mais voltada para o campo individual, buscando compreender o funcionamento da personalidade em sua integração com dimensão total do organismo (é importante ressaltar que a noção de organismo enquanto totalidade estava presente nas correntes funcionalistas, mas com a migração de Kurt Goldstein para os EUA e sua participação nos debates das psicologias humanistas, essa noção se tornou ainda mais forte no contexto americano) (BRANCO, 2019). Por isso, as teorias americanas estavam mais focadas no reconhecimento de uma dimensão positiva, capaz de levar a pessoa a uma maior integração e harmonia, que ficou conhecido como autorrealização ou auto atualização, uma herança direta das correntes funcionalistas, vitalistas e organísmicas. Isso levou essas psicologias a dar grandeênfase à compreensão individual, sendo inclusive um ponto de crítica contemporânea a essas correntes (MOREIRA, 2007). Essas correntes americanas foram se desenvolvendo a partir desses princípios e uma série de ações foram se desenvolvendo entre as décadas de 1950 e 1960. A partir da aproximação de autores como Rogers, Maslow, Goldstein e outros, foi possível começar a desenvolver uma compreensão mais organizada sobre as propostas dessas novas psicologias. A criação de espaços acadêmicos de debate dessas novas psicologias, aliado com a criação de uma revista especializada na área, permitiu que uma associação (a associação americana de psicologia humanista) pudesse se desenvolver e, com isso, ter mais critérios do que de fato poderia ser enquadrado nas psicologias humanista-existencial. Na busca de uma definição acerca das psicologias humanistas, Maslow (BRANCO e SILVA, 2017) procurou apresentar quatro questões fundamentais para a psicologia humanista, a saber, 1) a busca de critérios científicos para o debate de questões humanistas. Maslow (assim como Rogers) acreditavam na necessidade de um rigor científico na construção de suas proposições, mesmo nos estudos daquelas questões que nem sempre eram exploradas pelos psicólogos laboratoriais de modo geral, como o amor, a capacidade de realização, a criatividade, etc. Mesmo que tendo como pano de fundo uma ciência mais holística, era necessário a manutenção do rigor nessas perspectivas; 2) A psicologia humanista possui certa aproximação com as teorias fenomenológicas e existencialistas, o que abria espaço para a articulação com essas abordagens europeias, por mais que esses autores tivessem algumas ressalvas em relação à maneira como elas vinham sendo trabalhadas no contexto europeu, justamente pelo afastamento em relação ao campo da cientificidade; 3) O compromisso das psicologias humanistas com questões sociais e políticas. Por mais que elas tenham um grande fundo acadêmico (e naquela época o abismo entre a política e academia era ainda maior), a psicologia humanista contribui para pensar as relações humanas de um modo geral e isso tem um impacto diretamente na maneira como pensamos as relações de poder entre os indivíduos e, por último, 4) o apontamento para um campo além do pessoal, entendendo a dimensão da transcendência como algo a ser investigado (inclusive cientificamente) e problematizado no campo da psicologia. Assim se abre uma possibilidade de uma quarta força na psicologia vinculada a um campo transpessoal. Essas ideias vão ser base do campo humanista, e vão aparecer de certa forma também na obra de Carl Rogers. Rogers reconhece a importância de se pensar uma política da pessoa, que reconheça a potência desse conceito como forma de entendimento do humano como positivo, harmonioso e racional, e que uma pessoa pode desenvolver cada vez mais a sua congruência tendo como ponto de partida a confiança nos seu próprio processo, nas suas potencialidades, e na sua capacidade de atualização (ROGERS, 1997). Ainda assim, em seus últimos trabalhos, tanto Rogers quanto Maslow apontam para a necessidade de olhar para algo além do ponto de vista pessoal, olhando para um processo mais ecológico, da dinâmica da experiência em seu aspecto relacional ou até mesmo cósmico, caminhando para um debate muito mais transpessoal. Porém, essa dimensão mais formativa e menos individualista, não foi suficientemente explorada em suas obras (CAVALCANTE e SOUSA, 2008). Na perspectiva humanista, o sofrimento é fruto do processo de incongruência e afastamento do próprio processo atualizante do organismo, perdendo assim a confiança em seu próprio potencial e se afastando da confiança intuitiva em si mesmo. Isso denota a própria matriz psicológica dessas correntes, dado que elas vêm das pesquisas em psicologia, das práticas de aconselhamento e de desdobramentos ligados à educação (que difere das psicoterapias europeias, que são desdobramentos psicanalíticos, ou seja, vem de uma matriz médica, tal como discutiremos adiante). É importante lembrar que o nascimento das psicologias humanistas está situado no âmbito dos estudos sobre as teorias da personalidade, interessadas em compreender o seu funcionamento. Por isso, as psicologias humanistas mantêm uma terminologia psicológica, e Rogers, por exemplo, fez questão de buscar afastar-se da linguagem médica construindo todo um conjunto de terminologias diferente das utilizadas pelas psicoterapias de orientação psicanalítica. Por exemplo, Rogers prefere falar em cliente ao invés paciente, assim como evita usar o termo neurose e adoecimento, preferindo falar em sofrimento e incongruência (ROGERS, 1992). Uma exceção importante desse movimento foi o psicólogo americano Rollo May. Podemos dizer que ele foi uma das principais pontes entre o movimento americano e europeu. Se Rollo May participa do grupo seleto de debatedores sobre os rumos da psicologia humanista-existencial, ele também pode levar para os EUA autores fundamentais na construção das ideias de uma psicologia existencial. Os americanos só conheceram a obra de Binswanger, Minkowski e outros, graças ao empenho de Rollo May de popularizar essas ideias em solo americano (MAY, 1980). Essas ideias eram fundamentais para a construção de um discurso que pensasse a psicologia fora do status quo definido pela ciência tradicional. Essas ideias rompiam com o cientificismo funcionalista e behaviorista, mas também apontavam para um caminho completamente diferente daquele construído pela psicanálise. Por isso é possível encontrar algumas perspectivas mais próximas das correntes europeias dentro do contexto americano. Ainda assim, Rollo May acaba sendo uma exceção a partir de sua psicologia existencial, e as ideias de Maslow e Rogers vão ser bastante difundidas e dar os principais contornos do modo como a psicologia humanista vai se constituir. Já as correntes europeias nascem de uma matriz diferente. Por mais que elas tenham uma forte crítica ao campo psiquiátrico (seja nas vertentes da psicopatologia fenomenológica ou nas releituras existencialistas ou fenomenológicas da psicanálise) a matriz dessas psicoterapias vem de uma compreensão médica. Termos como neurose e psicose, e uma compreensão ampliada de adoecimento é discutida nessas teorias, mesmo que de maneira a desconstruir a leitura médica psiquiátrica tradicional. Na verdade, essas clínicas nascem da busca de desnaturalizar a experiência, e com isso, se afastam de qualquer compreensão vitalista ou biológica acerca do ser humano. Por isso estariam mais focadas na dimensão da experiência sem definição prévia, de um sujeito que se constitui enquanto abertura de possibilidade e enquanto angústia de reconhecer-se como finito (FEIJOO e MATTAR, 2016). Sendo assim, a preocupação mais ontológica dessas psicologias (principalmente a daseinsanálise) retira dela qualquer substrato psicologista ou biologicista da experiência. Não podemos ser definidos pelos nossos instintos, ou por qualquer tendência natural, como por exemplo uma tendência à autorrealização. Não podemos também nos restringir a um eu individual e autossuficiente, afinal de contas, pela própria condição da intencionalidade, somos sempre uma consciência que se constitui enquanto relação. Nessa perspectiva, frente à uma consciência que se constitui como um não-ser, ou seja, enquanto pura abertura ao porvir, a liberdade se torna constitutiva dessa perspectiva. Porém, a liberdade reconhecida perante a finitude apresenta uma tonalidade afetiva fundamental da condição humana, a saber, a angústia. Assim, a angústia se torna uma disposição eminentemente humana, justamente porque ela denuncia nossa condição existencial de liberdade e finitude. Dessa forma, a angústia não se trata de um mal-estar causado por algo (diferente, por exemplo, do medo), mas uma tonalidade afetiva constitutiva da própria indefinição da experiência humana (RODRIGUES, 2020). Por isso, no trabalho clínico, não se busca eliminar a angústia, mas sim, reativá-la em um processo de colocar-se em questão. Aose colocar em questão, é possível que o sujeito restabeleça o lugar de sentido de sua experiência, buscando meios de ressignificar seu sofrimento. A clínica é um lugar de produção de sentido, em que as experiências podem ser cada vez mais desnaturalizadas e redefinidas a partir de um lugar hermenêutico. As psicopatologias também são pensadas a partir dessa desnaturalização. Dentro de uma perspectiva muito mais descritiva, a ideia é compreender a dinâmica existencial do adoecer, de como elas afetam essas tonalidades afetivas e produzem cristalizações e impedimentos na capacidade de fluir livremente do paciente acompanhado. Sendo assim, o adoecimento não é reduzido a questões anatomofisiológicas, mas é compreendido a partir de questões constitutivas das condições de ser-no-mundo, explorando o mundo-da-vida do paciente, apreendendo o sentido do adoecimento no modo como ele vive sua temporalidade, espacialidade, liberdade, etc. (CARDINALLI, 2004). Ainda assim, para além das divergências entre cada um desses movimentos (o europeu e o americano), é importante reconhecer a singularidade de cada abordagem e como elas pensam sua forma de intervenção, mas também de compreensão da experiência humana. De fato, seria muito injusto reduzir abordagens tão plurais como a Abordagem Centrada na Pessoa, a Daseinsanálise, a Gestalt-terapia e o Psicodrama (para citar algumas) a um mesmo bojo, ou dizer que todas são a mesma coisa. Por isso a insistência de que possamos compreender a interlocução entre essas abordagens em um grande movimento, que mais do que integrar epistemologicamente essas teorias, ele as integra politicamente. Nos EUA, enquanto havia um movimento mais acadêmico e científico, que permitiu o reconhecimento da psicologia humanista na associação americana de psicologia e dentro dos redutos de pesquisa científica, havia também um movimento mais político e cultural, que acontecia fora dos muros da universidade. Por isso, fora dos muros da universidade essas teorias pareciam produzir uma nova esperança para os caminhos tortuosos produzidos pelo contexto de guerras. Os movimentos de contracultura se tornavam cada vez mais fortes, tanto dentro quanto fora da universidade. O movimento beat, o movimento hippie e os movimentos estudantis ganhavam cada vez mais força, e, por isso, encontravam eco nos debates produzidos por essas psicologias. Cada vez mais pessoas queriam aprender o modelo rogeriano de pensar a potência das relações humanas e da educação centrada na pessoa (ROGERS, 2001). Por mais que fosse completamente avesso ao campo acadêmico, Fritz Perls juntava dezenas de pessoas em seus workshops e cursos, com pessoas de todo o lugar do mundo. Isso fez com que Fritz fosse reconhecido como “rei dos hippies”, e depois da década de 1960, Paul Goodman foi considerado um dos principais profetas dos movimentos de contracultura, possibilitando que as ideias gestálticas alcançassem lugares extremamente amplos no mundo político (BELMINO, 2020). Moreno também não estava presente nos debates da psicologia humanista acadêmica, mas a socionomia, a sociometria e o psicodrama se tornaram práticas revolucionárias em solo americano, também despertando interesse de vários membros do movimento humanista de um modo geral. (SCHMIDT, 2007). Assim, as influências das ideias produzidas pelas psicologias desse movimento passaram a ter um grande impacto na construção de lutas sociais e críticas políticas produzidas no contexto americano da década de 1960. Por isso é importante diferenciar a psicologia humanista enquanto movimento acadêmico, que buscava um fundamento científico para questões que eram, até então, completamente negligenciadas pela ciência de um modo geral (a problemática do amor, da liberdade, da criatividade, etc.) do que vamos chamar de movimento humanista-existencial, que é um processo mais amplo que congrega não só aqueles que estavam presente nos debates acadêmicos, mas também as ideias dessas teorias que foram se unindo aos poucos e produzindo espaços mais amplos de interlocução. Isso integrou as teorias europeias que chegaram aos Estados Unidos, e que também eram atravessadas por diferentes vozes e perspectivas, mas que também tinham uma posição crítica perante o modelo behaviorista, psicanalítico e funcionalista. Cabe ainda muitos estudos sobre a pluralidade dessas psicologias. Compreender a maneira como cada teoria dessa participa do movimento humanista-existencial, como elas produzem interlocuções ou críticas é algo fundamental para o desenvolvimento de uma história crítica da psicologia. Porém, uma coisa é certa, compreender a pluralidade da psicologia é compreender os diferentes caminhos, as ranhuras, as inconformidades e paradoxos da própria condição histórica. Reduzir a história da psicologia a movimentos paralelos e incomunicáveis é perder toda a potência da maneira como essas histórias se misturam e tornam o objeto psicológico, por definição, profundamente plural. Considerações Finais Esse livro se propõe a um trabalho introdutório, histórico e voltado à contextualização de um movimento que é extremamente amplo. Pensar as psicologias humanistas e as psicologias fenomenológicas-existenciais é pensar um mundo de caminhos e possibilidades que perpassam matrizes, histórias e contextos muito diferentes. Fazer um livro introdutório sempre cai no risco de fazer algo superficial e simplista, não permitindo que as ideias de fato possam dar conta do propósito assumido. Por isso, esse livro se propõe a contar uma história, e, para isso, procurei muito mais falar dessa história do que me aprofundar em cada um dos autores e autoras aqui discutidos. A ideia é situar quem a lê nesses diferentes caminhos, nessas formas convergentes e divergentes que essas correntes se apresentam. Construir essa história não se trata de algo ainda não feito, afinal de contas, temos muitos trabalhos incríveis que discutem a histórias das diversas correntes da psicologia humanista e da psicologia fenomenológica- existencial. O propósito aqui foi o de reunir em um só texto, esses diferentes campos já bastante discutidos, mas muitas vezes de maneira segregada. De fato, seria necessário mais outros vários livros para dar conta de cada uma das teorias desses movimentos, o que de fato já existe. É necessário ressaltar que existem excelentes pesquisas sobre cada um dos e das diferentes autores e autoras aqui citados e citadas, e, sem dúvidas, podemos encontrar na literatura estrangeira e brasileira, muito material de altíssima qualidade que busca esmiuçar cada uma dessas teorias de forma brilhante. Eu poderia apontar vários pesquisadores brasileiros e pesquisadoras brasileiras que se debruçaram a compreender esses diferentes movimentos, mas eu poderia acabar recaindo em uma injustiça de esquecer alguma dessas pessoas. Procurei apontar vários desses comentadores na bibliografia, mas sem dúvida, a lista é bem maior. Por isso, esse trabalho tem um propósito didático: reunir essas pesquisas e facilitar para quem lê o acesso à como essas diferentes correntes se atravessam. A forma como essas psicologias aparecem no Brasil é também bastante peculiar. Aqui, possuímos uma história muito singular de como a fenomenologia, o existencialismo, as correntes humanistas, se encontram e se desenvolvem, a partir de novas possibilidades e novas correntes, atravessadas por modos que dizem respeito ao contexto histórico, cultural e político que acontecia em nosso país no momento que essas teorias chegam em solo nacional. Frente à dificuldade de acesso aos textos originais das abordagens, e também pela própria formação crítica construída no Brasil, abordagens como a Gestalt-terapia, a abordagem centrada na pessoa e o psicodrama foram vistas como epistemologicamente frágeis, e por isso era preciso criar bases mais sólidas nesses pensamentos. Então, durante as décadas de 1970 até o início dos anos 2000, houve um movimento muito intenso de releitura dessas abordagens a partir de uma maior interlocução com o pensamento fenomenológico-existencial,produzindo releituras importantíssimas no solo nacional. Essa história peculiar de como essas abordagens se desenvolvem no Brasil e ganham colorações mais intensas a partir dos fundamentos fenomenológicos-existenciais também já foi explorada por vários outros autores e autoras, e, por isso, também não busquei dar conta dessa história nesse livro. O modo como aprendemos essas psicologias é um capítulo à parte na história da psicologia brasileira, que se mistura com o contexto da ditadura e da redemocratização, passando por toda história recente de transformações em nosso solo. Por isso, se o objetivo desse livro é introdutório, ainda assim acredito que ele pode servir de base para que possamos compreender esse contexto amplo de discussões e permitindo a emergência de outros campos de pesquisa, que possam aprofundar as lacunas aqui deixadas, e permitindo a construção de novos olhares sobre a pluralidade da psicologia e da psicoterapia. Referências BEAUVOIR, S. D. O segundo Sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão europeia do livro, 1980. 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Apresentação Prefácio Introdução I As Psicologias Humanistas-Existenciais e o Nascimento do Movimento Humanista-Existencial nos Estados Unidos 1.1) O nascimento do movimento humanista- existencial: o contexto americano 1.2) As principais influências para a construção da psicologia humanista-existencial II O movimento fenomenológico-existencial na filosofia, na psicoterapia e na psicopatologia europeia 2.1) O contexto europeu de emergência das correntes fenomenológicas-existenciais 2.2) O pensamento psicanalítico como crítica à racionalidade moderna 2.3) O movimento fenomenológico e existencial na filosofia 2.3.1) O movimento existencialista 2.3.2) A fenomenologia como método de investigação da experiência [ 2 ] 2.3.3) A perspectiva fenomenológico-existencial na filosofia 2.4) A perspectiva fenomenológica existencial na psicoterapia e psicopatologia III Encontros e desencontros entre as psicologias humanistas-existenciais e as psicologias fenomenológicas-existenciais Considerações Finais ReferênciasMaslow), e procuram desenvolver uma aplicação prática da psicologia, buscando um desenvolvimento do potencial humano sem cair nas leituras normativas e cientificistas da época. Já as correntes europeias são quase que hegemonicamente nascidas de dissidências do pensamento psicanalítico, buscando apresentar uma nova compreensão clínica que se diferenciasse da leitura médica tradicional da época. Por isso, aqui já temos diferenças gritantes da gênese dessas perspectivas: as correntes americanas nascem das diferenciações das psicologias laboratoriais e dos debates em torno das teorias da personalidade, enquanto as europeias nascem da crítica à clínica médica e da clínica psicanalítica. Ainda assim, devido a uma série de contextos históricos, políticos e sociais, essas psicologias se encontram em solo americano e possibilitam a emergência de um movimento extremamente potente e, também, profundamente plural. Apesar dos esforços de muitos historiadores da psicologia de buscar criar uma unidade nessas teorias, o movimento existencial-humanista se constitui muito mais fortemente como um movimento político de contraposição às teorias hegemônicas da época, o que possibilitou, principalmente a partir da década de 1960, o fortalecimento de vozes muito diferentes daquelas produzidas nas psicologias psicanalíticas americanas (por exemplo a chamada psicologia do ego), nas teorias funcionalistas e nas teorias behavioristas. A maneira como essas correntes se encontram é feita de maneira muito peculiar, pois ao mesmo tempo que teóricos como Carl Rogers e Abraham Maslow estavam produzindo novos caminhos na psicologia científica e aplicada nos EUA dentro do contexto acadêmico, vários psicoterapeutas dissidentes do movimento psicanalítico – e que apresentavam críticas ao modelo freudiano baseado em releituras advindas da fenomenologia e do‐ existencialismo – migravam para os EUA e eram recebidos por pessoas ligadas às correntes humanistas recém criadas. Além disso, um outro psicólogo americano importante ao movimento humanista-existencial, chamado Rollo May, traduziu vários dos teóricos das psicoterapias e psicopatologias de base fenomenológica e/ou existencial para a língua inglesa. Isso permitiu o acesso das ideias desses autores até então desconhecidos em solo americano. Por isso, se podemos falar, na década de 1960, da oficialização da psicologia humanista como uma corrente reconhecida pela psicologia americana dentro do âmbito acadêmico e da associação americana de psicologia, vamos também ver como essas outras correntes iam se integrando a um movimento mais amplo nos EUA e ganhando força política e social, para além dos muros da academia e da psicologia. Por isso que, mais do que falar de uma psicologia humanista-existencial, é importante falar de um movimento humanista-existencial com vários atravessamentos, com diferentes perspectivas e leituras teóricas que se aproximam e se afastam do núcleo mais central da psicologia humanista americana, mas que permeiam outros caminhos importantes na história do campo da saúde mental, como as leituras da psicopatologia fenomenológica, as abordagens daseinsanalíticas europeias e até os movimentos anti psiquiátricos. Por isso, a ideia é criar uma linha imaginária que une essas diferentes perspectivas, buscando mostrar de maneira sucinta (ou pelo menos tentar) os modos como essas correntes europeias e americanas se encontram e permitem algum nível de atravessamento. Afinal de contas, muitas vezes as psicologias humanistas-existenciais são chamadas de psicologias fenomenológicas-existenciais, e a aproximação dessas correntes é, no mínimo, polêmica. Mas o objetivo desse livro é tentar mostrar como se constituem esses diferentes movimentos e como eles apontam para caminhos que podemos caminhar juntos. Por isso, esse livro busca apresentar essa história de atravessamento e interlocuções entre esses dois movimentos e como eles se integram em suas diferenças para trazer contribuições fundamentais para a psicologia, a psicoterapia e a psicopatologia contemporânea. Para tanto, vamos no capítulo I compreender o nascimento da psicologia humanista-existencial americana a partir de seus principais autores e suas influências. No Capítulo II vamos compreender as correntes‐ fenomenológicas-existenciais, compreendendo seus fundamentos filosóficos e seus desdobramentos para novas correntes da psicoterapia (a partir de dissidências do pensamento psicanalítico) e da psicopatologia (a chamada psicopatologia fenomenológica). Por último, no capítulo III, vamos retomar esse campo de aproximações e diferenças, possibilitando a compreensão de como essas psicologias apresentam enlaces e afastamentos que caracterizam tão fortemente esses movimentos. I As Psicologias Humanistas-Existenciais e o Nascimento do Movimento Humanista-Existencial nos Estados Unidos 1.1) O nascimento do movimento humanista- existencial: o contexto americano A psicologia do início do século XX nos Estados Unidos era profundamente influenciada pela psicologia estruturalista de Edward Titchener (1867-1927), e ganhou mais força a partir das correntes funcionalistas e, mais tarde, behavioristas. Sendo uma disciplina eminentemente acadêmica, o objetivo da psicologia dessa época era o de desenvolver pesquisas sobre o funcionamento do comportamento humano, e, também, o funcionamento dos processos mentais (GODWIN, 2005). Atravessada pelo início das testagens psicológicas, mas também pelo comportamentalismo, a psicologia tentava encontrar estratégias cada vez mais arrojadas de transformar o campo psicológico em algo possível de ser cientificamente analisado. Após as contribuições de John Watson (1878- 1958), o foco no comportamento observável tornou o objeto psicológico ainda mais passível de previsão e controle, o que permitiu pesquisas mais potentes em relação ao campo da modificação do comportamento. É importante lembrar que até o final do século XIX, as tentativas de desenvolver uma ciência que pudesse dar respostas concretas sobre o funcionamento mental eram sempre malogradas, tornando a psicologia uma área muito mais vinculada ao campo da filosofia do que da psicologia. Foi com Wilhelm Wundt (1832-1920), no laboratório de Leipzig, que a psicologia se tornou oficialmente científica, porém, foi a partir do comportamentalismo watsoniano e das correntes funcionalistas que foi possível pensar a psicologia como uma psicologia aplicada (MARX e HILLIX, 1973). Essa compreensão determinista e cientificista do comportamento foi profundamente criticada, mas possibilitou uma entrada ainda maior da psicologia científica ao campo das ciências aplicadas nos Estados Unidos. Isso aconteceu principalmente devido ao contexto pragmaticista americano que exigiu que a psicologia científica laboratorial fosse paulatinamente sendo substituída pelas pesquisas em torno da aplicabilidade dessas pesquisas, condicionando o seu financiamento às possibilidades de aplicabilidade para além do contexto laboratorial. A atuação da psicologia clínica (por mais que ainda tímida) era voltada para a testagem psicológica e para o trabalho com correção de comportamento de crianças e adolescentes “desajustadas” no contexto educacional (GODWIN, 2005). Assim, psicólogos e psicólogas podiam, no ambiente acadêmico, desenvolver pesquisas que possibilitassem a investigação e compreensão dos fenômenos psicológicos, mas podiam também aplicar essas pesquisas no âmbito educacional e na tentativa de correção de comportamentos problemas. Nesse período (início do século XX) era muito utilizada também uma teoria que ficou conhecida como Traço-Fator, que buscava identificar, pela via da testagem, potencialidades e fragilidades nas pessoas com o intuito de desenvolver esses aspectos por meio de práticas educacionais. Isso permitiu as primeiras pesquisas sobre o funcionamento da personalidade humana, ganhando força nas décadas seguintes e servindo de base também às práticas de aconselhamento psicológico. Assim, o conselheiro, como era chamado na época esseprofissional de psicologia, podia identificar que aspectos na personalidade daquela pessoa precisavam ser desenvolvidos com base em uma bateria de testes e, com isso, desenvolver um programa educativo para o desenvolvimento daquelas capacidades (SCHMIDT, 2009). A testagem psicológica também começou a ser aplicada no campo industrial, podendo ajudar no processo de avaliação de trabalhadores, assim como na triagem de imigrantes que chegavam foragidos da Europa e de outros continentes. O exército também se utilizava do trabalho da psicologia na avaliação de soldados, seja antes ou depois de situações de combate. O aumento dos espaços da psicologia se deu também no âmbito das pesquisas voltadas para o campo das vendas mas, também, no auxílio de médicos-psiquiatras na formulação de diagnósticos. Além disso, para além das testagens, a psicologia começou a integrar em suas práticas os métodos de modificação do comportamento, entendendo que o comportamento poderia ser condicionado tendo como base a transposição das pesquisas sobre o comportamento animal e as técnicas de condicionamento para o campo humano. Pesquisadores como J. B. Watson e outros contemporâneos também começaram a investigar as possibilidades do uso dessas técnicas para problemas de ajustamento social, principalmente no campo educacional (GODWIN, 2005). Por outro lado, na primeira metade do século XX, a psicanálise também chegou em solo americano. Vinda com vários psicanalistas foragidos das guerras e do regime nazista, a psicanálise se tornou forte em solo estadounidense. Tendo nascido da medicina, mas com fortes críticas ao modelo médico da época, a psicanálise se constituiu como uma forma de tratamento médico às doenças tidas como psíquicas a contragosto do próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), que tanto havia insistido que a psicanálise era muito além de uma forma específica de tratamento. Ele também tinha duras críticas ao pertencimento da psicanálise exclusivamente à medicina. Porém, nos EUA, a psicanálise era praticada quase que exclusivamente por médicos, e ela acabou se desenvolvendo dentro dos hospitais, principalmente com o propósito de tratamento de pessoas e famílias que sofriam com os traumas das guerras (CHEMOUNI, 1991). Assim, por mais que a psicanálise não fosse amplamente aceita nos ambientes acadêmicos, e em alguns momentos duramente questionada, ela se tornou parte dos programas de treinamento médico no campo da neurologia e da psiquiatria. A psicanálise, principalmente em uma de suas vertentes americanas conhecida como psicologia do ego ou psicanálise do ego, buscou criar instrumentos cada vez mais assertivos e rápidos para os processos de tratamento das doenças psíquicas. Na vertente original freudiana, o objetivo da análise era uma escuta ao inconsciente, buscando dar estatuto ético ao que é dito, retirando da psicanálise a ideia de que ela era um tratamento em prol de uma cura. Na leitura freudiana, a análise era um espaço onde o não dito pode se dizer e, como repercussão disso (e não como propósito principal), os sintomas poderiam ser reduzidos. Já a psicologia do ego entendia que era necessário fortalecer o ego perante a super exigência superegóica e os impulsos do id, e por isso o tratamento se fazia com o propósito da remissão de sintomas e com o fortalecimento dos aspectos racionais e deliberativos dos pacientes (BLANCK e BLANCK, 1983). Assim, o objetivo terapêutico era tornar a pessoa mais consciente, mais reflexiva e com maior autocontrole. Isso modificou radicalmente a forma de trabalho analítico. Em solo americano, a ideia de um tratamento analítico, que poderia ocorrer diariamente durante anos, foi paulatinamente substituída pelas práticas que buscavam reduzir o tempo e a frequência das sessões, assim como pensar intervenções mais diretivas e casadas com outras formas terapêuticas (medicamentosas ou de outras áreas). Nos hospitais, a demanda por tratamento clínico de traumas advindos da guerra se tornou enorme, chegando, em alguns hospitais, a ter mais demanda de sofrimento psíquico do que de acometimentos físicos. Isso obrigou os médicos psicanalistas a pensarem estratégias de intervenção que pudessem ser feitas com uma frequência menor (semanalmente ao invés de diariamente) e com tempo menor (em torno de uma hora ou cinquenta minutos por sessão). Essas mudanças serviram de base para o que mais tarde vai se chamar de psicoterapia breve-focal (SOMMERS-FLANAGAN e SOMMERS-FLANAGAN, 2006). Algumas instituições de formação em psicologia acabaram também integrando algumas ideias psicanalíticas quando se falava dos processos diagnósticos, mas a prática psicológica ainda era fundamentalmente behaviorista ou funcionalista. Nesse sentido, é importante compreender o panorama geral desse contexto na primeira metade do século XX nos EUA. Por um lado, a medicina aplicada ao campo da saúde mental era fundamentalmente psicanalítica, mais especificamente a psicologia do Ego e a prática da psicoterapia breve-focal. Por outro lado, a academia era prioritariamente focada nos estudos laboratoriais. Havia uma briga constante entre a psicologia laboratorial e os defensores da psicologia aplicada, mas ambos tinham como fundo as pesquisas produzidas em laboratório a partir de fundamentos positivistas ou pragmatistas, sejam as teorias comportamentalistas ou as teorias funcionalistas (GODWIN, 2005). Assim, em meados da década de 1940, começa um movimento de psicólogos, mas também médicos, artistas, e outras profissionais de outras áreas, que buscavam questionar a hegemonia dessas duas perspectivas psicológicas. A psicologia acadêmica focava demais no que era descoberto nos laboratórios, mas parecia ignorar quase que completamente as vicissitudes da vida em sua cotidianidade. Além disso, a redução do comportamento humano a dados empíricos estatísticos, assim como a redução dos processos mentais a dados mensuráveis eram completamente contrárias à ideia de um ser humano livre, criativo e espontâneo. Isso porque, essas teorias ou caiam no determinismo ambiental das correntes behavioristas, ou na ideia de que a inteligência e outros aspectos psicológicos eram definidos pela hereditariedade (comum em algumas correntes da testagem psicológica da época). A prática psicanalítica também era acusada de determinista, isso porque o determinismo psíquico analítico partia do pressuposto que a experiência humana era fruto dos traumas psíquicos infantis que constituíam os processos inconscientes e a estrutura da personalidade. Além disso, o foco das investigações era quase que exclusivamente na parte adoecida do ser humano, mais especificamente na formação das neuroses, das psicoses e dos transtornos de personalidade (tema que começa a ser explorado nessa época, e que ganhará força nas décadas seguintes, principalmente na investigação das experiências narcisistas e borderlines). Outro ponto também criticado era a compreensão da natureza humana apontada pela psicanálise como negativa, entendendo o ser humano como constitutivamente egoísta e destrutivo. Essa compreensão também é questionada por esse movimento, e por isso buscam reconhecer o aspecto positivo da natureza humana, assim como, investigar as potencialidades e capacidades de desenvolvimento do indivíduo (sem cair na leitura objetivista das correntes das testagens psicológicas) (BUYS, 2007). Esse movimento se fortaleceu nas décadas seguintes e passou então a ser chamado, na década de 1960, de “Terceira Força em Psicologia” ou “Psicologia Existencial- Humanista”, ou, simplesmente, “Psicologia Humanista”. Mais do que uma abordagem específica, o movimento humanista-existencial acabou congregando uma série de teóricos que buscavam questionar o status quo no campo da psicologia e da psicoterapia, tentando encontrar teorias menos patologizantes, deterministas e pessimistas da experiência humana. Tendo como principais atores os psicólogos Abraham Maslow, Rollo May e Carl Rogers, esse movimento foi mais tarde integrado por várias outras importantes correntes (algumasde maneira mais direta e outras de maneira mais indireta), como a Logoterapia de Viktor Frankl; a Gestalt-terapia de Frederick Perls, Laura Perls e Paul Goodman; o Psicodrama de Jacob Levy Moreno; a Bioenergética de Alexander Lowen entre outros. O movimento humanista-existencial acabou integrando essas diferentes perspectivas que tinham em comum a valorização do potencial humano, mas também o questionamento direto ao campo das teorias psicanalíticas, assim como, das perspectivas behavioristas. Por isso, mais do que uma teoria unificada, o movimento humanista-existencial integrava essas diferentes leituras críticas e, por mais que pudessem ter bases conceituais distintas, buscaram se unir em prol de construir um movimento forte que conseguisse ter voz perante a hegemonia médica da psicanálise e acadêmica do behaviorismo (GODWIN, 2005). O movimento buscava resgatar a ideia de dignidade humana e conseguir restituir o entendimento do humano como princípio, tratando-o como um ser livre, capaz e dotado de potencialidades e capacidades de crescimento, para além de alguém restrito às determinações biológicas ou ambientais, ou reduzido a impulsos sexuais destrutivos. Assim, o termo humanismo buscava resgatar os debates dos antigos movimentos históricos humanistas, que encontravam na arte e na filosofia o reconhecimento de nossa humanidade para além desses determinismos. Assim, podemos falar que o movimento humanista-existencial congregou diferentes correntes que buscavam reconhecer essa capacidade humana de desenvolvimento, e isso teve um forte apelo político e social, integrando inclusive com os movimentos de contracultura da época, em que os debates acerca dos direitos humanos advindos das tragédias da guerra mostravam a necessidade de se retomar o debate da vida humana como princípio. Por isso, para além de uma psicologia específica, o movimento humanista- existencial integrou muitas correntes que nasciam e chegavam nos EUA nesse período. Porém, no âmbito acadêmico também nascia um interesse por produzir pesquisas que rompessem com essas leituras deterministas. Essas pesquisas se desdobram em práticas que reconhecem a potência de um novo olhar no campo acadêmico, mas também prático, por exemplo, no aconselhamento, na psicoterapia, na educação e em outros espaços. É aí que nasce a Psicologia Humanista ou a Psicologia Humanista-Existencial que foi encabeçada por diferentes autores e que serviu de farol para que as outras correntes que irão integrar o movimento maior (o movimento humanista- existencial) pudessem ir se aproximando. Por isso, vamos apresentar brevemente três desses autores que foram fundamentais na construção da Psicologia Humanista-Existencial. Abraham Maslow (1908-1970) foi um dos pioneiros do movimento. Sua formação foi voltada para a psicologia experimental, porém abandonou a pesquisa com animais para se dedicar a compreender os processos de desenvolvimento e crescimento humano. Foi um dos primeiros nos Estados Unidos a integrar na psicologia as ideias das chamadas teorias organísmicas, tendo tido uma forte influência das releituras do gestaltismo aplicadas à neurofisiologia (essas ideias serão mais bem discutidas à frente), buscando investigar como se desenvolve a capacidade de autorrealização das pessoas. Esse conceito, que foi retomado por vários outros teóricos na mesma época, partia do pressuposto que todos os seres humanos possuem uma capacidade intrínseca de desenvolvimento e crescimento, e o aconselhamento psicológico (e mais tarde a psicoterapia) deveria servir para favorecer o encontro de cada um com suas próprias potencialidades. Maslow dedicou boa parte do seu trabalho aos estudos da motivação e das capacidades de autorealização das pessoas. Ao invés de se dedicar ao estudo das pessoas adoecidas, Maslow buscou entender a experiência daqueles que tinham uma maior fluidez em suas vidas, sendo capazes de atravessar as situações de adversidade e se desenvolver, para isso, investigou desde pessoas de seu convívio até personalidades históricas como Albert Einstein. Em seu legado, a teoria que ficou conhecida como “pirâmide de Maslow” busca mostrar justamente como que para o desenvolvimento da capacidade de autoatualização é necessário satisfazer necessidades mais básicas do ser humano, incluindo as necessidades fisiológicas. Somente nesse processo de ir solucionando os diferentes níveis de necessidades (fisiológicas, de segurança, de amor e afiliação, de estima de si e dos outros) é que poderíamos alcançar a nossa necessidade de autorrealização e desenvolvimento, problematizando, inclusive a noção de felicidade (HALL, LINDZEY e CAMPBELL, 2000). A partir de 1954, Maslow compilou uma lista de correspondência que integrava psicólogos de várias vertentes, mas que apresentavam leituras críticas sobre a perspectiva comportamentalista, funcionalista e psicanalítica. Chamada de Rede Eupsiquiana, essa rede foi fundamental para a fomentação de estudos e debates que deram origem à psicologia humanista e que gerou, em 1961, a criação do Jornal de Psicologia Humanista. Maslow também participou da criação da Associação Americana de Psicologia Humanista e foi presidente da Associação Americana de Psicologia. Mais tarde, na década de 1970, já depois da morte de Maslow, a APA instituiu a criação de uma divisão específica para a discussão da psicologia humanista, incluindo em seu escopo o reconhecimento oficial dessas práticas em seu rol de compreensões acerca da psicologia. Ainda assim, Maslow foi o responsável por apresentar os aspectos fundamentais que tornavam a psicologia humanista científica, apontando a necessidade de rigor científico em suas práticas, mas integrando uma nova compreensão de ciência que rompesse com os modelos ortodoxos. Isso também possibilitou uma maior abertura para as leituras europeias da filosofia (como a fenomenologia e o existencialismo) e com a necessidade de se estudar fenômenos humanos negligenciados pela ciência positiva da época, tais como a felicidade, o amor, a criatividade e, inclusive abrindo espaço para novas perspectivas na psicologia (a chamada quarta força na psicologia ou psicologia transpessoal), os estudos relacionados à espiritualidade e à transcendência (BRANCO e SILVA, 2017). Rollo May (1909-1994) formou-se em teologia e psicologia clínica e dedicou-se a compreender uma nova forma de pensar o aconselhamento diferente daquela constituída a partir de um modelo pedagógico e normativo. Estudou na Grécia e teve forte influência das filosofias europeias, tais como o pensamento advindo dos movimentos existencialistas e fenomenológicos, a partir de autores como S. Kierkegaard, F. Nietzsche e J. P. Sartre (iremos retomar esses autores no capítulo II). Também nesse período estudou arte e pintura, podendo compreender mais a fundo a importância da experiência estética na experiência humana. No período que morou na Europa, pôde também estudar com Alfred Adler (1870-1937), psicanalista dissidente que nessa época já desenvolvia suas ideias que ficaram conhecidas como psicologia individual. De volta aos EUA, estudou Teologia e teve contato com as ideias do filósofo existencialista Paul Tillich (1886-1965), e estudou psicanálise com os culturalistas neofreudianos, tendo interlocuções com Harry Stack Sulivan e Erich Fromm (que também exploraremos mais adiante). Doutorou-se em psicologia clínica em 1949 e nesse período contraiu tuberculose, o que fez com que ele passasse um ano e meio internado em tratamento (PONTE e SOUSA, 2011). Atravessado pelas ideias de Freud e Kierkegaard, May dedicou-se a compreender o significado da ansiedade e da angústia, compreendendo o sentido existencial dessa experiência. Mais do que buscar os aspectos científicos da personalidade, May passou a compreender que a psicologia deveria deter-se a um caminho mais existencial, compreendendo as vicissitudes e paradoxos da própria vida mais do que olhar para os aspectos científicos ou racionais da experiência. A experiência da liberdade, da autoconsciência, da ansiedade e a dimensãoestética da existência concreta ganham contornos mais explícitos em sua obra. (MAY, 1980) Sendo assim, para ele a prática do aconselhamento psicológico, e mais tarde a psicoterapia, tinha a ver com uma forma de olhar para a angústia (ou ansiedade) e encontrar a partir dela os motores para uma vida com mais sentido e integração (SOMMERS-FLANAGAN e SOMMERS- FLANAGAN, 2006). Rollo May foi um dos principais membros do movimento que levou aos Estados Unidos as ideias do existencialismo europeu, sendo um dos principais nomes responsáveis pela tradução de vários autores do movimento fenomenológico-existencial, da psicopatologia fenomenológica e das psicologias de base fenomenológica e existencial, tendo produzido, por exemplo, a publicação em 1958 do livro Existence: a new dimension in psychiatry and psychology (MAY, ANGEL e ELLENBERGER, 1958) entre vários outros trabalhos que foram fundamentais para a popularização das teses existencialistas e fenomenológicas nos Estados Unidos. Carl Rogers (1902-1987) foi também um importante membro desse grupo inicial. Criador da Terapia Centrada no Cliente e, mais tarde, da Abordagem Centrada na Pessoa, questionou as bases da psicologia da época, por demais centrada na perspectiva positivista e laboratorial e buscou pensar uma prática de aconselhamento psicológico que não fosse focada no ajustamento dos comportamentos dos indivíduos ou constituída a partir da testagem psicológica. Desenvolveu pesquisas mostrando a importância da presença e da relação terapêutica para o sucesso do processo terapêutico e que o(a) conselheiro(a)/psicólogo(a) deveria focar muito mais em criar as condições de crescimento de alguém do que diagnosticar deficiência e criar programas de correção de comportamentos-problemas. A ênfase na congruência do terapeuta, na empatia e na aceitação radical do cliente tal como ele é, possibilitou que Carl Rogers criasse um modelo terapêutico radicalmente distinto das práticas médicas (que focava no entendimento da doença do indivíduo) e das práticas pedagógicas (que buscavam uma correção daquilo que a norma social entendia como desajustado). Suas contribuições que se iniciaram no aconselhamento psicológico, possibilitaram a emergência de um modelo psicoterapêutico completamente original chamado de Terapia Centrada no Cliente (ROGERS, 1992) o que foi crucial para o movimento de autorização de psicólogos(as) na prática psicoterapêutica. Tal como dito anteriormente, somente a classe médica poderia praticar a psicoterapia nos EUA, e, por isso, Rogers foi fundamental para o movimento que possibilitou que a psicologia também pudesse desenvolver essa prática. Ainda assim, se suas ideias nascem da prática do aconselhamento psicológico e passam para a psicoterapia, no decorrer de sua obra Rogers amplia seu debate para pensar o campo da educação, das relações familiares, das relações de trabalho, ou seja, para as relações humanas de um modo geral, compreendendo os modos como o poder pode ser reconfigurado em prol do desenvolvimento pessoal (ROGERS, 2001). A ampliação de sua compreensão sobre a sociedade e a educação, o colocou em embates importantes com outros teóricos da época. Um dos mais conhecidos foi o criador do Behaviorismo Radical, B. F. Skinner (1904-1990) que resultou tanto em críticas apresentadas em seus próprios livros como, também, debates públicos em seminários sobre a divergência entre suas compreensões acerca da aprendizagem e do funcionamento do comportamento humano (ROGERS e SKINNER, 1979) Se Rogers foi um dos membros mais atuantes da comunidade da psicologia clínica americana para a autorização da prática psicoterapêutica por psicólogos(as), o seu entendimento acerca da prática psicoterapêutica destoava bastante do modelo de psicoterapia estabelecido pela psicanálise do ego americana. Para Rogers, na esteira também das teorias organísmicas, o objetivo da psicoterapia deveria ser possibilitar que o cliente recobre a sua confiança em sua própria tendência ao crescimento e desenvolvimento, chamada por ele de tendência à autoatualização (ROGERS, 2001). Sua teoria da personalidade é profundamente discutida, até porque, Rogers buscou apresentar suas pesquisas e contribuições a partir de um rigor científico bem severo. Apesar de criticar as psicologias de laboratório (que reduziam o comportamento a algo objetivo e mensurável) e as correntes positivistas aplicadas à psicologia, Rogers buscou desenvolver uma psicologia científica baseada em pesquisas rigorosas e pragmáticas, avaliando os resultados e as potencialidades de suas proposições. A busca de construir uma ciência humana que rompesse o paradigma tradicional da psicologia, foi um dos grandes propósitos do pensamento rogeriano (ROGERS, 1997) . Sendo assim, esses autores foram fundamentais para a criação do movimento humanista-existencial e a sedimentação desse movimento na história da psicologia americana. Entendendo que as outras teorias tinham grande influência no campo da universidade e na medicina, esses autores entendiam que mais do que buscar uma unidade teórica, era necessário integrar o movimento com diferentes vertentes que se empenhassem na construção de novas perspectivas na psicologia. Por isso, quando falamos em movimento humanista existencial, estamos falando de um esforço conjunto de vários teóricos, que, alguns de maneira mais direta e outros de maneira mais indireta, entenderam que era necessário se unir para ter força política para criar espaço nos debates da psicologia da época. Desde o período da década de 1950, Abraham Maslow, Carl Rogers, Rollo May e vários outros teóricos começam a discutir suas ideias, publicar seus estudos e buscar interlocução entre os pares para fortalecer o acesso a essas novas correntes. A criação da Rede Eupsiquiana no início da década de 1950 por Maslow possibilitou o intercâmbio de teóricos que já tinham certo prestígio na comunidade estadunidense (como Carl Rogers, Gordon Allport e outros) com outros que ainda não tinham posição de tanto destaque. Por isso essa rede foi fundamental para possibilitar a publicação de textos de autores que não conseguiam espaço de publicação por suas pesquisas não estarem dentro das perspectivas comportamentais ou funcionalistas da época. O jornal de Psicologia Humanista fundado em 1961 também foi um marco fundamental de integração dessas diferentes correntes, e possibilitando uma maior circulação de ideias de vários autores, nesse jornal, era possível encontrar como conselheiros editoriais, autores importantíssimos para o desenvolvimento da psicologia humanista americana como Abraham Maslow, Kurt Goldstein, Rollo May, Lewis Mumford, Clark Moustakas, Andras Angyal e Erich Fromm, ou seja, teóricos que atravessavam as discussões das filosofias de base fenomenológicas e existenciais europeias, as perspectivas organísmica e vitalistas na psicoterapia, as discussões políticas que integravam humanismo e marxismo, etc. Essa multiplicidade sempre foi uma marca importante do movimento humanista-existencial, o que possibilita uma leitura ampla acerca dos desdobramentos da experiência humana. Porém, foi em 1963 que nasceu a Associação Americana de Psicologia Humanista, sendo oficialmente integrada à Associação Americana de Psicologia em 1971 (BRANCO e SILVA, 2017). Com isso, houve uma pluralidade de terminologias que esse movimento adotou. Oficialmente, podemos dizer que essas correntes americanas passam a ser chamadas de Psicologia Humanista a partir do reconhecimento da Associação Americana de Psicologia, mas também o movimento de um modo geral foi popularizado com o nome de movimento Existencial-Humanista ou Humanista-Existencial pela interlocução com as ideias do existencialismo europeu. O termo psicologia existencial- humanista aparece na pena de Rollo May na publicação da segunda edição de seu livro Psicologia Existencial (MAY, 1980) no final da década de 1960. No mesmo período, o psicólogo Tom Greening publica o livro Psicologia Existencial-Humanista (GREENING, 1975), buscando integrar vários teóricos dessaépoca como forma de ampliar as interlocuções entre os autores que defendiam essas novas perspectivas. Também é nesse período que esse movimento começa a ser chamado de “terceira força da psicologia” com o uso dessa expressão por Abraham Maslow para falar dessas correntes de pensamento que buscam uma alternativa para as perspectivas behavioristas e psicanalíticas ( (FEIJOO e MATTAR, 2016). Também é nessa época que as obras de autores como Viktor Frankl (1905- 1997) – criador da Logoterapia – e Jacob Levy Moreno (1889-1974) – criador do Psicodrama – começam a ser popularizadas em língua inglesa e vários autores da fenomenologia e do existencialismo europeus também começam a ter suas obras traduzidas e introduzidas em solo americano, como Martin Heidegger, Maurice Merleau-Ponty, entre outros. Nesse período, Fritz Perls (1893-1970), um ex-psicanalista judeu foragido da Alemanha e um dos fundadores da Gestalt-terapia, juntamente com sua esposa Laura Perls (1905-1990) e o anarquista e escritor americano Paul Goodman (19011- 1972), também começam a associar as suas ideias ao movimento existencial-humanista. Principalmente devido ao trabalho de Fritz, a Gestalt-terapia se torna uma abordagem extremamente popular, principalmente nos movimentos de contracultura da época. Os workshops públicos praticados por Fritz, e a sua participação em programas de televisão e entrevistas, o torna uma figura reconhecida no movimento hippie, mas também como um grande nome da psicoterapia da época. Por mais que essas teorias tenham diferentes perspectivas e caminhos, é possível encontrar algumas bases comuns que possibilitaram a emergência desses movimentos. Aqui, iremos explorar algumas dessas bases para que possamos compreender o solo que torna possível a emergência dessas psicologias. 1.2) As principais influências para a construção da psicologia humanista-existencial A psicologia humanista que se desenvolve em solo americano, de um modo geral, buscou compreender os aspectos positivos da experiência humana. Muitos teóricos do movimento concordavam com a tese organísmica e vitalista de que há uma capacidade de todo organismo vivo de se integrar e se desenvolver, buscando assim a manutenção da vida e a ampliação da consciência (no caso humano). Baseado nessa premissa, cada teórico, ao seu modo, vai problematizar essa tendência, mas vão concordar que o objetivo geral da psicoterapia é favorecer o encontro da pessoa com suas próprias potencialidades, mais do que buscar corrigir comportamentos problemas ou curar doenças. A psicoterapia fica então pautada na busca de experiências significativas de atualização e crescimento, possibilitando ao cliente o desenvolvimento de sua autonomia, de maior consciência de si e de maior capacidade de enfrentamento das situações adversas. Essas ideias rompiam, ao mesmo tempo, com o pessimismo psicanalítico e sua tese da pulsão de morte e, também, com a leitura mecanicista das correntes behavioristas mais tradicionais. Assim, a psicologia humanista foi profundamente influenciada por algumas correntes de pensamento que se desenvolviam nos EUA no final do século XIX e início do século XX, como o funcionalismo e o pragmatismo, mas houve também a influência de uma série de correntes psicológicas e filosóficas que estavam chegando aos EUA devido a imigração em massa de europeus foragidos das guerras e da ocupação nazista, tal como a teoria organísmica e o gestaltismo; a psicanálise culturalista; e, de algum modo, algumas correntes do movimento fenomenológico e existencial europeu. A primeira grande influência nas correntes humanistas- existenciais são as teorias funcionalistas americanas. A psicologia funcionalista nasceu nos EUA como forma de se contrapor ao modelo de Wilhelm Wundt e Edward Titchener da psicologia fisiológica. Enquanto esses autores buscavam compreender o comportamento na sua relação direta com a fisiologia, os funcionalistas queriam entender as funções do comportamento e compreender a sua relação direta na sua ação com o mundo. Sendo assim, enquanto a corrente estruturalista apostava no introspeccionismo como estratégia de investigação da relação entre os fenômenos psicológicos e a anatomia (o chamado paralelismo psicofísico), os funcionalistas buscavam entender a função do comportamento em uma tentativa de suspender as compreensões clássicas de divisão mente e corpo. Esse movimento foi bastante influenciado pela filosofia pragmatista e pelas pesquisas sobre a consciência de William James (1842-1910) mas também teve contribuições de um outro grande expoente do pragmatismo, o filósofo, psicólogo e educador John Dewey (1859-1952) (GODWIN, 2005). Enquanto várias correntes do funcionalismo apostavam nas pesquisas de laboratório e nas pesquisas acadêmicas, John Dewey entendia que a pesquisa precisava ser aplicada nas formas de desenvolvimento da qualidade de vida das pessoas e em uma sociedade mais justa e democrática. Assim, Dewey investiu suas descobertas em propostas de uma educação progressista que focava mais no aluno do que no conteúdo e entendia que a atitude do educando precisava ser a de um pesquisador, e pela via da ação e da descoberta, construir na criança a curiosidade e interesse pelo mundo. A psicologia precisava ser integrada com os aspectos práticos da vida, buscando desenvolver ferramentas mais fortes para o desenvolvimento da educação e das relações humanas de um modo geral. Para Dewey, o papel da filosofia não é o da discussão abstrata da realidade e do mundo, mas na verdade, seu papel é a construção de investigações que possibilitem a transformação da sociedade e do mundo (CUNHA, 2001; BELMINO, 2017) Assim, a filosofia pragmatista de Dewey e James e suas discussões na psicologia funcionalista tiveram grande impacto nas teorias da psicologia tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, tendo sido compreensões importantes que tornaram a psicologia uma ciência aplicada e capaz de resolver problemas nos mais variados contextos. Muitos dos psicólogos humanistas foram formados em universidades de orientação funcionalista, e as contribuições de Dewey na busca da aplicabilidade da psicologia, assim como na inserção de uma discussão sobre a capacidade de adaptabilidade entre organismo vivo e ambiente, foram fundamentais para que esses psicólogos produzissem a ideia de que somos dotados de uma capacidade intrínseca de autorrealização e desenvolvimento. Nesse mesmo caminho, temos a importante influência das reformulações sobre o pensamento psicanalítico desenvolvido nos EUA. Autores como Erich Fromm (1900-1980), Karen Horney (1855-1952) e Otto Rank (1884- 1939) foram para os EUA na primeira metade do século XX, e, juntamente com o psiquiatra americano Harry Sullivan (1892-1949), produziram importantes influências ao movimento humanista-existencial e à psicologia americana de um modo geral. Todos esses teóricos apresentaram fortes críticas ao movimento psicanalítico, apesar de considerarem que suas propostas tinham mais a ver com a construção de uma reforma da psicanálise do que um rompimento com essa corrente. Erich Fromm e Karen Horney ficaram conhecidos por suas contribuições na releitura acerca do papel da cultura na constituição do sujeito segundo a psicanálise. Sendo chamadas de psicanálise culturalista, suas propostas tinham a ver com repensar os conceitos psicanalíticos dando mais ênfase às construções culturais do que ao campo biológico e instintual. A psicanálise culturalista entendia que a neurose e os conflitos básicos do ser humano eram construídos pelas contradições próprias da lógica capitalista ou das construções culturais que buscavam destituir e desqualificar a nossa condição humana. Erich Fromm foi um dos pioneiros em buscar interlocuções entre o pensamento marxista e o pensamento freudiano. Ele é considerado por suas contribuições ao movimento da escola de Frankfurt e, como sociólogo, entendia que o pensamento psicanalítico poderia preencher uma série de lacunas deixadas pelo pensamento marxista (FADIMAN e FRAGER, 2008). Além disso,suas reflexões sobre o amor, a empatia e a solidariedade entre as pessoas, possibilitaram o reconhecimento de uma dinâmica mais positiva das relações humanas, mas que foi desintegrada pela busca de poder e a acumulação de capital que caracterizam a sociedade ocidental contemporânea (FROMM, 1971; FROMM, 1987). Karen Horney produziu uma série de releituras também culturalistas do pensamento de Freud. Para ela, várias questões levantadas pela psicanálise precisavam ser reanalisadas a partir da dinâmica da cultura, como por exemplo, a ideia de que o feminino se constitui a partir da inveja do pênis. Para Horney, se isso é verdade, é porque tem muito mais a ver com a formação de uma sociedade patriarcal que submete o feminino a uma categoria secundária do que uma ideia calcada nos instintos intrapsíquicos. Por isso, se há esse desejo feminino de invejar e querer estar socialmente no mesmo patamar que o masculino, é justamente porque há na lógica social uma desigualdade estrutural advinda do patriarcalismo. Além disso, a autora entendia que a neurose era fruto desses conflitos culturais, que se apresentavam na forma de ressentimento, culpa e sentimento de inadequação da criança nas suas relações parentais. Isso ocorre devido às relações parentais marcadas pelo desamor, pela falta de cuidado e carinho com a criança em suas relações familiares. Isso cria uma ideia de si mesmo que se reconhece como falho. Por isso, haveria aí um distanciamento considerável entre aquilo que a pessoa se reconhece (seu eu-real) e aquilo que ela sente que deveria ser (eu-ideal). A pessoa se sente inferior, inadequada, desconfiada e solitária em suas relações cotidianas e, por isso, vive uma relação de culpa por não ser aquilo que, a partir das idealizações submetida em suas relações sociais, entende que deveria ser (FADIMAN e FRAGER, 2008). Por isso, para Karen Horney, essas relações sociais malogradas que fazem com que as pessoas se sintam inadequadas e desqualificadas desde criança (e por isso completamente distantes de um eu-ideal que na verdade é impossível) são o núcleo da neurose contemporânea o que as afastam completamente de sua capacidade de autorrealização. Horney critica veementemente a ideia freudiana de que seríamos constituídos pulsionalmente pela destrutividade e pelo egoísmo e que por isso precisaríamos sublimar esses impulsos em fórmulas culturais. Na verdade, para Horney, a destrutividade e o egoísmo não advêm dos instintos, mas sim, da lógica neurótica que foi construída na sociedade ocidental. A autora compreende que temos, na verdade, uma capacidade intrínseca de autorrealização, mas que é barrada pelas defesas construídas caractereologicamente pela nossa cultura individualista, hedonista e constituída na competitividade (HORNEY, 1983). Essa compreensão de que há uma tendência à autorrealização também pode ser encontrada na leitura de Otto Rank, que buscou também criticar a psicanálise por ela entender o ser humano como constitutivamente destrutivo e egoísta. Mas a contribuição mais importante de Otto Rank para a psicologia humanista foi a ênfase que ele trará à compreensão e à empatia no campo terapêutico. Diferente da leitura freudiana da intervenção interpretativa, Rank colocou no cerne de seu modo de pensar a clínica a importância do analista ser capaz de demonstrar uma postura compreensiva tanto dos aspectos afetivos quanto racionais do analisando. Isso trazia a ênfase da análise muito mais para estrutura presente e o modo como a relação terapêutica se estabelecia do que a ênfase nos aspectos do passado e da infância do paciente (BRANCO, 2019). Essa ênfase na estrutura presente e na relação terapêutica, também foi o principal foco da teoria de Harry Stack Sullivan, que entendia que se a neurose tem a ver com as relações interpessoais, a psicoterapia precisa focar nas questões interpessoais para desfazer esses padrões neuróticos (GODWIN, 2005). Assim a psicanálise culturalista traz contribuições muito importantes para as psicologias humanistas tais como, 1) a ideia de que somos dotados de uma capacidade intrínseca de autorrealização; 2) do entendimento de que a neurose é uma construção social, e, por isso, vivemos uma crise em função da maneira como nos percebemos e como nos idealizamos, e, também, 3) a construção de uma clínica que foque nos aspectos da relação terapêutica, da empatia e da compreensão. Essas ideias foram fundamentais para o desenvolvimento de uma série de formulações do movimento humanista- existencial (BRANCO, 2019). Uma última corrente importante que influenciou profundamente o movimento humanista-existencial americano foi o movimento gestaltista. A psicologia da Gestalt [ 1 ] (ou gestaltismo) diz respeito a um movimento do início do século XX que, a partir da influência das ideias da fenomenologia de Husserl, mas também de outras bases, produziu uma psicologia laboratorial de orientação completamente diferente daquela feita pela psicologia fisiológica de Wundt ou as discussões comportamentalistas de Ivan Pavlov (1849-1936). Como uma crítica aos modelos associacionista e às ideias do paralelismo psicofísico da escola estruturalista, os gestaltistas queriam compreender os fundamentos da percepção (e mais tarde de outros processos psicológicos) e do comportamento a partir de uma investigação do modo como a percepção se apresenta em um campo que só pode ser compreendido se for investigado a totalidade do fenômeno, e não as suas partes. Assim, era necessário compreender os processos perceptivos sem cair na divisão, puramente didática, entre a sensação e a percepção. Iniciada na Alemanha Max Wertheimer (1880-1943), seus estudos laboratoriais iam contra a ideia de que a percepção se fazia de forma passiva e a partir da associação de diferentes estímulos. A ideia de que a percepção é sempre de uma totalidade estrutural que transcende a soma das partes foi aprofundada por seus discípulos tais como Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886-1941) (MARX e HILLIX, 1973). Para esses autores, o comportamento precisa ser compreendido em seu aspecto funcional e relacional, e não como fruto de uma causa específica encontrada no passado ou uma associação de partes que construiria uma imagem. Os gestaltistas mostraram que é preciso compreender determinado fenômeno (por exemplo, a percepção) a partir do modo como ele se configura em sua totalidade, e, por isso, a investigação das partes da experiência não nos permite a compreensão dessa totalidade. Isso porque os gestaltistas inserem na investigação psicológica o entendimento de que as coisas possuem uma configuração própria que só pode ser compreendida quando analisamos a totalidade, e que perde completamente o sentido, se dividirmos o fenômeno para tentar entender cada parte de forma particular. Assim, a maneira como os objetos se relacionam são fundamentais para que possamos compreender os modos como iremos percebê-lo. Essa ideia de estrutura ou a configuração de um dado fenômeno como base para a compreensão do processo perceptivo foi fundamental para que essas ideias fossem ampliadas para outros contextos de investigação. Isso porque, essa noção possibilita uma investigação dos fenômenos a partir de seus modos de relação, e não mais como objetos isolados (MULLER-GRANZOTTO e MULLER-GRANZOTTO, 2007; BELMINO, 2020). Essa noção estrutural permitiu uma nova forma de investigação dos comportamentos, mas também pôde ser aplicada no entendimento das formações culturais e até no entendimento da dinâmica da vida nos organismos vivos. Na verdade, a noção de estrutura permite a compreensão de uma dinâmica constituída na situação concreta que se reconfigura a partir do modo peculiar como os dados da situação se relacionam e formam uma nova totalidade (ou gestalt) (MULLER-GRANZOTTO e MULLER- GRANZOTTO, 2007). Essa compreensão já pode ser percebida no comportamento animal. Se um macaco irá usar um galho para pegar formigas para se alimentar, ou se vai usar como um instrumento para alcançar uma fruta em uma árvore, ou se irá usá-lo paracoçar as suas costas, isso não depende de um aprendizado prévio e de um comportamento automatizado pela repetição, mas sim de uma teia extremamente complexa de referências que vão servir de fundo (ambiente, passado, campo, possibilidades futuras, configuração biológica, etc.) para a emergência de uma ação naquela situação concreta, a saber, a figura (BELMINO, 2020). Depois dessa primeira geração de psicólogos da gestalt, essas ideias foram rediscutidas por outros pesquisadores que releram essas teses em novos campos, como na biologia – a partir das ideias de Kurt Goldstein (1878- 1965) e Adhemar Gelb (1887 -1936) e do comportamento humano, principalmente em contextos grupais, a partir de Kurt Lewin (1890-1947) para citar alguns. As contribuições para o campo da biologia, ficaram conhecidas como Teoria Organísmica. Para romper com a compreensão tradicional acerca do comportamento animal produzida pelas teorias comportamentalistas, a leitura organísmica baseia-se na aplicação da compreensão gestaltista à investigação do comportamento dos organismos vivos (MARX e HILLIX, 1973). Na leitura de Goldstein, a vida tenderia a um processo contínuo de autorregulação, ou seja, a um processo de adaptação, mas também de criação perante as diferentes situações concretas as quais ela se encontra em sua correlação primária com o ambiente. Assim, já nas formas mais rudimentares de vida, incluindo as células, mas também nos organismos vivos mais complexos, era possível encontrar um modo de funcionamento que busca um equilíbrio entre o meio e o organismo, e que essa busca de equilíbrio orientava os atos desse organismo. Essa orientação organísmica ao equilíbrio chegou ao contexto da psicologia humanista-existencial integrando a ideia de que a tendência à auto realização, ao crescimento e ao desenvolvimento poderiam ser encontradas em todos os seres vivos. Esse debate nos EUA se tornou mais intenso porque, por mais que Goldstein fosse alemão, ele se refugiou nos EUA e participou ativamente dos debates das psicologias humanistas-existenciais e teve importantes contribuições políticas e conceituais a esse movimento (HALL e LINDZEY, 1984). Essa orientação ao equilíbrio e ao desenvolvimento poderia romper com as bases de entendimento filosófico que buscava particionar a experiência, seja em aspectos mentais ou físicos, seja em aspectos conscientes ou inconscientes. Outra importante contribuição de Goldstein era de que ele trazia, de um modo distinto do modelo apresentado por Freud, uma maneira de pensar a angústia a partir da compreensão do adoecimento do organismo, isso porque, a angústia seria justamente o sinal de um desequilíbrio organísmico, que se apresentava a partir do horror de reconhecer a própria finitude. Além disso, o foco na experiência particular também foi uma importante contribuição de Goldstein à psicologia científica americana. Ao pensar o organismo como um todo, Goldstein estabeleceu que o único critério possível de investigação do processo de saúde e doença do organismo é olhar para a própria experiência do organismo. Ao invés de estabelecer critérios a priori de saúde e doença, era necessário comparar o organismo com ele mesmo, e assim, perceber através da angústia (no ser humano) ou pela desorganização (no caso de organismos menos complexos), o processo de adoecimento e, ao mesmo tempo, o potencial de autorregulação intrínseco de cada um (BELMINO, 2020) Essa amplitude de referências foram fundamentais para a construção das diferentes perspectivas que fizeram parte do movimento humanista- existencial e, cada uma delas, umas mais e outras menos para cada um dos teóricos, foram formando novas perspectivas de entendimento acerca dos fenômenos psicológicos, acerca do sofrimento humano e acerca do método psicoterapêutico de intervenção nesses contextos. Sendo assim, esse fundo de amálgama cultural e científica que se estabeleceu nos EUA foi fundamental para que se pudessem criar ideias sobre a experiência humana e um movimento potente de contraposição às teorias já sedimentadas em solo americano. Porém, o termo existencial utilizado nas psicologias humanistas não foi à toa. Ela foi também influenciada por uma série de teorias recém-chegadas nos EUA que tinham um fundo forte das correntes filosóficas europeias, principalmente as correntes fenomenológicas e existencialistas. Por mais que Maslow, Rogers e outros não tenham sido diretamente influenciados por essas correntes (ou que essas correntes não tenham tido um papel tão decisivo na construção de suas teorias) outros teóricos como Rollo May apontavam uma ligação direta com essas filosofias. Além disso, correntes como a Gestalt-terapia e o Psicodrama, em que seus criadores eram europeus, tinham influências mais diretas dessas perspectivas. Outros teóricos como Merdard Boss, Ludwig Binswanger, Karl Jaspers, Viktor Frankl dentre outros (iremos explorar esses teóricos mais adiante), eram europeus, e produziram importantes transformações na psicologia e psiquiatria europeia, mas também tiveram suas ideias produzindo repercussões importantes na construção do pensamento humanista- existencial americano (por mais que alguns fossem mais reconhecidos explicitamente que outros). Esses teóricos foram sistematicamente, na história da psicologia americana, sendo integrados ao movimento, por mais que eles não tenham participado diretamente da criação da psicologia humanista. Por isso, vamos discutir no próximo capítulo a emergência dessas psicologias europeias construídas, principalmente, a partir das ideias fenomenológicas e existenciais. 1 É importante diferenciar a psicologia da gestalt da Gestalt-terapia. A Gestalt-Terapia aparecerá somente na metade do século XX, a partir do pensamento de Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman, e sofre influência das ideias gestaltistas, porém, também apresentará críticas ferrenhas a esse modelo. Por isso, não podemos dizer que a Gestalt-Terapia é uma aplicação do gestaltismo, mas sim que o gestaltismo é uma das influências que tornaram possível a Gestalt-Terapia. II O movimento fenomenológico-existencial na filosofia, na psicoterapia e na psicopatologia europeia 2.1) O contexto europeu de emergência das correntes fenomenológicas-existenciais Tendo discutido o nascimento do movimento humanista-existencial, é importante apresentar um outro movimento que também terá um impacto fundamental na construção da terceira força em psicologia, a saber, as psicologias fenomenológicas-existenciais europeias. Além das influências pragmatistas, da psicanálise culturalista e do gestaltismo, a psicoterapia de base fenomenológica- existencial e as correntes da filosofia existencialista e fenomenológicas também foram importantes influências na construção do pensamento humanista-existencial nos EUA. Afinal de contas, as filosofias existencialistas e fenomenológicas pareciam apresentar um novo paradigma que poderiam servir de base para se pensar a clínica rompendo com o cientificismo behaviorista e a metapsicologia psicanalítica. No contexto europeu, as filosofias fenomenológicas e existencialistas foram fundamentais para construir as ideias de vários psicanalistas que apresentam críticas à teoria freudiana, e, também, a fenomenologia e o existencialismo vão ser importantes para a emergência de novas compreensões dos fenômenos psicopatológicos, diferenciando-se das compreensões clássicas da psiquiatria e da leitura freudiana. Assim, as filosofias fenomenológicas e existencialistas vão servir de base para a construção de novas correntes na psicanálise e na psiquiatria, e essas perspectivas irão fazer parte do que serão chamadas de psicoterapias fenomenológicas-existenciais. Quando Rollo May vai passar uma temporada na Europa, ele acaba sendo influenciado por essas novas correntes e leva aos EUA muitas das ideias dessas novas perspectivas da psicologia e da psicoterapia, sendo um dos responsáveis, inclusive, pela publicação do livro “Existence” em 1958 (MAY, ANGEL e ELLENBERGER, 1958), em que foram traduzidos para o inglês