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Ansiolíticos Aula 14 - Parte I: Ansiedade e Insônia ● Definição de Ansiolíticos e Hipnóticos ○ Ansiolíticos são fármacos utilizados para reduzir os sintomas e a intensidade das crises de ansiedade. ○ Hipnóticos são medicamentos que induzem sonolência, facilitando o início ou a manutenção do sono. ○ Sedativos: Muitos desses fármacos também são considerados sedativos, pois em pequenas doses provocam uma sensação de bem-estar e relaxamento. ○ Efeito Dose-Dependente: A ação desses fármacos é influenciada pela dose administrada: ■ Pequenas doses: Causam sedação. ■ Doses maiores: Induzem hipnose (sono). ■ Doses ainda maiores: Podem levar à anestesia cirúrgica. ○ Tanto ansiolíticos quanto hipnóticos são classificados como depressores do sistema nervoso central (SNC). ● Ansiedade Patológica ○ Difere da ansiedade fisiológica (passageira) por ser muito duradoura e perturbar a personalidade da pessoa. ○ É um estado desagradável de tensão, apreensão ou inquietude, um temor que parece surgir de uma fonte desconhecida, manifestando-se como fobia, pânico ou ansiedade doentia. ● Tipos de Ansiedade ○ Fobia Específica: Medos específicos, como de altura, insetos ou lugares fechados. ○ Fobia Social: Medo de interagir socialmente, conversar ou falar em público. ○ Pânico e Agorafobia: Crises de pânico que podem ser desencadeadas em ambientes públicos, impedindo a permanência da pessoa no local. ○ Depressão Ansiosa. ○ Estresse Pós-Traumático: Crises de ansiedade após um evento traumático (ex: assalto, acidente). ○ Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC): Caracterizado por rotinas rígidas; a não execução dessas rotinas pode gerar grandes crises de ansiedade. ● Sintomas da Ansiedade ○ A ansiedade pode afetar diversos sistemas do corpo: ■ Cardiovascular: Aumento da frequência cardíaca, palpitações, aumento da pressão arterial (hipertensão) e vermelhidão na pele. ■ Respiratório: Hiperventilação e aumento da frequência respiratória. ■ Endócrino: Elevação de corticosterona e cortisol plasmático, alterações na função da tireoide (aumento de hormônios) e, em mulheres, irregularidades no ciclo hormonal. ■ Gastrointestinal: Aumento das secreções estomacais (levando a gastrites e úlceras) e aumento do peristaltismo (causando diarreia). ■ Sistema Nervoso Central: Aumento da intensidade da transmissão neuronal, resultando em insônia, agitação e dificuldades de concentração. ● Ciclo Vigília-Sono ○ Vigília: Estado de consciência ou atenção, onde o indivíduo é capaz de responder ao ambiente (estado acordado ou desperto). Caracterizado por ondas cerebrais de alta frequência e baixa amplitude. ○ Sono: Estado de inconsciência do qual o indivíduo pode ser despertado, com diminuição dos níveis cerebrais. ○ Importância: A privação do sono prejudica significativamente a saúde, afetando o sistema imunológico, o funcionamento do SNC, o aprendizado e o crescimento celular. ● Estágios do Sono ○ O sono é dividido em cinco estágios: ■ Estágio 1 (Sonolência): Muito próximo da vigília, corresponde a 3-6% do sono total. As ondas cerebrais são de alta frequência e baixa amplitude, indicando intensa atividade. ■ Estágio 2 (Sono Leve): Fácil de despertar, representando 40-52% do sono total. As ondas cerebrais são mais lentas (frequência diminuída, amplitude aumentada), indicando menor transmissão neuronal. Hipnóticos atuam principalmente nesta fase, aumentando sua duração e encurtando outras fases. ■ Estágio 3 e 4 (Sono Profundo): O Estágio 3 corresponde a 5-8% do sono e o Estágio 4 a 10-19%. Caracterizam-se por ondas cerebrais com amplitudes maiores e frequências menores. A insônia geralmente não altera o Estágio 4. ■ Sono REM (Rapid Eye Movement): Um sono profundo com relaxamento muscular intenso e movimentos oculares rápidos, onde geralmente ocorrem os sonhos. Corresponde a 23-34% do sono total. No eletroencefalograma, apresenta frequências altas e amplitudes pequenas, similar ao estado acordado. ● Insônia ○ Definição: Diminuição da quantidade ou qualidade do sono, resultando em redução do bem-estar durante o dia. ○ É um sintoma de alguma doença, não uma doença em si. ○ Pode manifestar-se no início do sono, durante a noite (com despertares noturnos) ou no final do sono (despertar precoce). ○ Populações Vulneráveis: Idosos frequentemente apresentam menor duração e maior número de interrupções do sono, tornando-os mais suscetíveis à insônia. Recém-nascidos também têm mais interrupções, mas maior duração do sono que adultos. ○ Classificações (Associação Americana de Distúrbios do Sono): ■ Transitória: Dura poucos dias, causada por eventos estressantes específicos (ex: exames, entrevistas de emprego, viagens). ■ Breve: Dura de duas a três semanas, associada a eventos estressantes de maior gravidade e duração. ■ Crônica: Dura semanas, podendo ser influenciada por condições médicas, psiquiátricas ou alterações do ritmo circadiano. ○ Causas Principais: Estresse, depressão, ansiedade, dores (ocasionais ou crônicas), alguns fármacos, uso de cafeína e álcool, alterações do ciclo circadiano, e alterações comportamentais, fisiológicas ou patológicas. ● Mecanismo de Ação de Ansiolíticos e Hipnóticos (Foco no Sistema GABA) ○ GABA (Ácido Gama-Aminobutírico): É o principal neurotransmissor inibitório do SNC. É biossintetizado a partir do glutamato (um neurotransmissor excitatório). ○ Receptores GABA: Atua em receptores ionotrópicos (GABAA ou GABAC) e metabotrópicos. ○ Atuação dos Fármacos: Os benzodiazepínicos e barbitúricos agem principalmente nos receptores ionotrópicos do tipo GABAA. ○ Receptor GABAA: ■ É uma proteína pentamérica que forma um canal iônico para o transporte de íons cloreto. ■ A ligação do GABA a este receptor promove a abertura do canal de cloreto. ■ A entrada de cloreto na célula causa a sua hiperpolarização. ■ A hiperpolarização do neurônio o torna mais resistente à despolarização. Isso diminui a intensidade da transmissão neuronal, aliviando a ansiedade e promovendo o sono. ■ Possui sítios de ligação distintos para barbitúricos e benzodiazepínicos. ○ Diferenças na Ação entre Benzodiazepínicos e Barbitúricos no GABAA: ■ Benzodiazepínicos (BDZ): ■ Possuem afinidade por um sítio benzodiazepínico específico no receptor GABAA (formado pelas subunidades Alfa 1, 2 ou 3). ■ São dependentes da presença de GABA. ■ Ao se ligarem, potencializam a ligação do GABA ao seu receptor, aumentando a frequência de abertura do canal de cloreto. Isso resulta em uma maior entrada de cloreto e hiperpolarização prolongada da célula. ■ Barbitúricos: ■ São independentes da presença de GABA. ■ Ligam-se aos seus próprios sítios no receptor GABAA e aumentam o tempo de abertura dos canais de cloreto. ■ Podem promover a abertura do canal mesmo na ausência de GABA, resultando em uma hiperpolarização mais prolongada e intensa. ■ Por esse mecanismo de diminuição da transmissão neuronal, também são utilizados em crises epilépticas e convulsões. Aula 14 - Parte II: Barbitúricos e Benzodiazepínicos Esta segunda parte aprofunda-se nas características específicas dos principais grupos farmacológicos, suas aplicações clínicas, farmacocinética e efeitos adversos. ● Barbitúricos ○ Uso Atual e Abandono como Ansiolíticos/Hipnóticos: Embora já tenham sido amplamente usados, foram praticamente abandonados como ansiolíticos e hipnóticos devido à sua substituição pelos benzodiazepínicos, que são tão eficazes e significativamente mais seguros. ○ Principais Usos Atuais: ■ Principalmente como anticonvulsivantes. ■ Como hipnóticos e anestésicos, especialmente para indução rápida da anestesia (ex: Tiopental, administrado via intravenosa). ■ Também servem como sedativos. ○ Barbitúricos Notáveis: Amobarbital, Fenobarbital, Pentobarbital, Secobarbital, Tiopental. ○ Classificação por Tempo de Ação: ■ Ação Longa: Duração de 1 a 2 dias (ex: Fenobarbital). ■ Ação Curta: Duração de 3 a 8 horas(ex: Pentobarbital, Secobarbital, Amobarbital). ■ Ação Ultra Curta: Duração de aproximadamente 20 minutos, usados principalmente como indutores anestésicos (ex: Tiopental). ○ Efeitos Adversos e Desvantagens: ■ Elevado potencial de causar dependência física e psíquica, além de abuso. ■ Podem causar sonolência (quando não desejado como efeito terapêutico), náuseas, vertigens e tremores. ■ Indução Enzimática: Uma das principais desvantagens. Induzem enzimas do citocromo P450 (ex: CYP3A4, CYP2C19 - informação sobre CYP específica para BDZ, mas o princípio da indução enzimática geral se aplica aos barbitúricos), acelerando o metabolismo de outros fármacos e provocando interações medicamentosas. ■ Induzem tolerância e podem causar sintomas de abstinência. ○ Farmacocinética: ■ Administrados principalmente por via oral, exceto os indutores anestésicos que são intravenosos. ■ São ácidos fracos, absorvidos predominantemente no estômago. ■ Possuem alta lipossolubilidade, sendo inicialmente distribuídos para tecidos com alta perfusão sanguínea e depois redistribuídos para o tecido adiposo. ■ Sofrem metabolismo hepático, renal e pulmonar. ● Benzodiazepínicos (BDZ) ○ Vantagens Notáveis em Relação aos Barbitúricos: ■ Considerados muito mais seguros. ■ Apresentam um índice terapêutico significativamente maior, o que significa uma grande margem entre a dose terapêutica e a dose letal (ex: a dose letal de Diazepam pode ser mil vezes maior que a dose terapêutica para ansiedade/insônia, enquanto para o Fenobarbital é cerca de 50 vezes). ■ Possuem menor potencial de causar dependência física e psíquica, embora ainda possam causar. ■ Não induzem enzimas metabolizadoras de fármacos, evitando interações medicamentosas comuns aos barbitúricos. ○ Principais BDZ Utilizados (como ansiolíticos, hipnóticos e outros usos): ■ Ansiolíticos: Alprazolam, Bromazepam, Clonazepam, Diazepam, Lorazepam. ■ Hipnóticos: Diazepam, Flurazepam, Nitrazepam. ■ Anticonvulsivantes: Clonazepam e Diazepam (embora os barbitúricos sejam mais amplamente usados para isso). ■ Sedação em procedimentos médicos/odontológicos: Midazolam. ■ Relaxante muscular: Podem ser usados em doses mais elevadas. ○ Indicações Dependentes da Dose: A dose de BDZ influencia seu uso e efeito: ■ Menores doses: Ansiolíticos. ■ Doses aumentadas: Anticonvulsivantes. ■ Doses maiores que para anticonvulsivantes: Hipnóticos ou indutores de amnésia. ■ Doses ainda maiores: Relaxantes musculares. ■ Dose letal: Pode causar perda de consciência. ○ Classificação por Tempo de Ação: ■ Ação Longa: 1-3 dias (ex: Clordiazepóxido, Diazepam, Flurazepam). O tempo de ação prolongado de alguns se deve também à formação de metabólitos ativos de longa duração. ■ Ação Curta: 3-8 horas (ex: Oxazepam, Triazolam). ■ Ação Intermediária: 10-20 horas (ex: Alprazolam, Estazolam, Lorazepam, Temazepam). ○ Classificação por Potência: ■ Alta Potência: Alprazolam, Clonazepam, Lorazepam, Midazolam. ■ Média Potência: Estazolam. ■ Baixa Potência: Clordiazepóxido, Temazepam. ○ Efeitos Adversos Comuns: ■ Cansaço, sonolência e "ressaca" (sensação de sonolência e lentidão na manhã seguinte). ■ Mais raros: Ganho de peso, erupções cutâneas, prejuízo da função sexual em mulheres, irregularidades menstruais, e anormalidades sanguíneas (redução de células sanguíneas). ○ Síndrome de Abstinência (após retirada): ■ Surgimento de sintomas como confusão mental, visão borrada, diarreia, perda de apetite, perda de peso. ■ Ansiedade de rebote (se usado como ansiolítico) e insônia de rebote (se usado como hipnótico), onde os sintomas voltam com maior intensidade. ■ Pode haver perturbação da função intelectual e da destreza manual. A interrupção do Triazolam, por exemplo, frequentemente resulta em insônia de rebote. ○ Farmacocinética (Biotransformação): ■ Os BDZ são biotransformados no fígado, e a maioria deles produz metabólitos ativos. ■ Metabólitos Ativos: A formação de metabólitos ativos justifica o tempo de ação prolongado de alguns BDZ (ex: Clordiazepóxido é metabolizado em desmetil-clordiazepóxido, demoxepam e desmetil-diazepam, que são todos ativos. O oxazepam é um metabólito ativo comum a vários BDZ). O tempo de meia-vida do fármaco original é somado ao tempo de meia-vida de seus metabólitos ativos. ■ BDZ que Passam Apenas pela Fase 2 (Conjugação): Alguns BDZ são metabolizados exclusivamente por reações de fase 2 (conjugação), sem passar pela fase 1, que envolve enzimas do citocromo P450 (CYP3A4 e CYP2C19). ■ Exemplos: Lorazepam, Temazepam, Oxazepam, Triazolam, Estazolam. ■ Estes são mais indicados para pacientes idosos, com cirrose hepática ou fumantes, pois o fígado desses pacientes pode estar comprometido e a fase 1 pode ser menos eficiente. ■ Tempo de Meia-Vida: Prolongado em idosos e pacientes com doenças hepáticas, o que reforça a importância de usar BDZ que passam somente pela fase 2 nesses grupos, para evitar o acúmulo de metabólitos ativos de longa duração. ● Transtornos da Ansiedade e seu Tratamento (Sugestões da Associação Brasileira de Psiquiatria) ○ Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG): ■ Primeira alternativa: Antidepressivo Venlafaxina. ■ Segunda alternativa: Benzodiazepínicos (Bromazepam, Clonazepam, Clorazepato, Alprazolam). ○ Transtorno do Pânico: ■ Primeira alternativa: Antidepressivos tricíclicos. ■ Segunda alternativa: Antidepressivos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS). ■ Terceira alternativa: Benzodiazepínicos (Alprazolam, Clonazepam). O Alprazolam é o fármaco de escolha para esse transtorno. ○ Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC): ■ Primeira alternativa: Antidepressivos ISRS. ■ Segunda alternativa: Antidepressivos tricíclicos. ○ Fobia Social: ■ Primeira alternativa: Antidepressivos inibidores da monoamina oxidase (IMAO). ■ Segunda alternativa: Antidepressivos ISRS. ■ Terceira alternativa: Clonazepam (um benzodiazepínico). ○ Fobia Específica: O tratamento principal é a psicoterapia. ○ Transtorno do Estresse Pós-Traumático: Alguns fármacos incluem Lamotrigina, Topiramato e ISRS. ● Outros Fármacos Ansiolíticos/Hipnóticos (Não-BDZ/Barbitúricos) ○ Buspirona: ■ Desvantagens: Início de ação mais lento que os BDZ. Não possui atividade anticonvulsiva nem relaxante muscular. Causa mais náuseas, tonturas e cefaleias. ■ Vantagens: Útil para o tratamento de longa duração da ansiedade crônica com sintomas de irritabilidade e hostilidade. Não potencializa a depressão do SNC com álcool. Apresenta baixo potencial de dependência. É uma melhor opção para idosos, pois não compromete muito a concentração e causa menos sonolência. ○ Fármacos Z (Zaleplona, Zopiclona, Zolpidem): ■ Desvantagens: Não possuem propriedades anticonvulsivas nem relaxantes musculares. ■ Vantagens: Causam mínimos efeitos de abstinência e insônia de rebote mínima. Apresentam pouca ou nenhuma tolerância com o uso prolongado. A Zopiclona é eficaz por até seis meses. ○ Ramelteona: ■ Desvantagens: Apresenta efeitos mínimos nas medidas objetivas de eficácia do sono. Aula 14 - Parte I: Ansiedade e Insônia Aula 14 - Parte II: Barbitúricos e Benzodiazepínicos