Prévia do material em texto
BIOPROCESSOS AULA 4 Prof. Jayme Augusto Menegassi Azevedo 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, você é convidado a conhecer alguns aspectos acerca da aplicação dos bioprocessos no setor de energia renovável. Veja os temas que serão abordados: biomassa, etanol, biodiesel e bioquerosene de aviação, biogás e geração de bioeletricidade. Esses temas versam sobre a importância dos bioprocessos dentro de um contexto ambiental atual, que se refere à produção de energias limpas e renováveis em substituição ao uso de fontes não renováveis, que geralmente estão associadas à geração de maiores impactos ao meio ambiente. TEMA 1 – BIOMASSA Compreende a energia química que é armazenada nas plantas e nos animais (que se alimentam das plantas ou de outros animais). A formação de biomassa ocorre pelo processo de fotossíntese realizado pelas plantas (Figura 1). Por meio desse processo, as plantas absorvem o dióxido de carbono (CO2) do ar, a água do solo e luz, geralmente do sol, e convertem o CO2 em moléculas contendo carbono como açúcares, amido e celulose. Figura 1 – Diagrama que demonstra o processo de fotossíntese Créditos: Blue Ring Media/Shutterstock. 3 O CO2 entra pelos estômatos, a água é absorvida pelas raízes e transportada até as folhas pelo xilema, a luz solar fornece a energia necessária para a realização da fotossíntese, e o oxigênio é liberado pelos estômatos presentes nas folhas. Quando aplicado ao setor de geração de energia, entretanto, a biomassa compreende qualquer tipo de matéria orgânica recente derivada de plantas e animais que é utilizado para a geração de energias renováveis. As principais fontes de biomassa usadas para a produção de energias renováveis são apresentadas no Quadro 1. Quadro 1 – Fontes de biomassa usadas para a produção de energias renováveis Culturas agrícolas Origem de cultivos agrícolas para a produção de energia, como milho, cana-de-açúcar, cereais etc. Resíduos Florestais e agrícolas Produzida durante o corte de árvores e durante a colheita, por exemplo, resíduos de madeira, palha de milho, bagaço-de-cana etc. Orgânicos Efluentes domésticos, industriais e da agropecuária, resíduos sólidos urbanos. Subprodutos orgânicos Produtos secundários provenientes da conversão de uma matéria-prima em um produto original, por exemplo, vinhaça, glicerol residual da produção de biodiesel etc. Os combustíveis fósseis, apesar de também serem derivados da decomposição de matéria orgânica, como restos vegetais, algas, alguns tipos de plâncton e restos de animais marinhos, não são considerados recursos de natureza renovável, pois levam milhões de anos para se formar e as suas reservas estão se esgotando, por isso não são contabilizados como biomassa no contexto da geração de energia. 4 1.1 Métodos de produção de energia 1.1.1 Combustão direta (queima) Maneira mais prática de geração de energia utilizando a biomassa. Nesse processo, diferentes materiais podem ser usados, e a sua eficiência dependerá do teor de umidade e da densidade energética. 1.1.2 Combustão Combustão de biomassa é um recurso renovável e abundante, com outros combustíveis, principalmente, combustíveis fósseis, visando atenuar os impactos ambientais causados pelas emissões destes. 1.1.3 Gaseificação Reações termoquímicas na presença de oxigênio em menores quantidades quando comparadas às concentrações empregadas na combustão e vapor d’água, resultando na formação de gases – monóxido de carbono (CO), hidrogênio (H2), metano (CH4), dióxido de carbono (CO2) e traços de enxofre – que podem ser usados como fontes de energia térmica ou elétrico. 1.1.4 Fermentação Conversão da biomassa em álcool pela ação de microrganismos, por exemplo, cana-de-açúcar para produção de etanol. A fermentação para produção de etanol será abordada com maiores detalhes no tema 2. 1.1.5 Digestão anaeróbica Processo usado para a produção de biogás. Nesse processo há a conversão de matéria orgânica em metano, dióxido de carbono e lodo pela ação das bactérias em um ambiente com a ausência de oxigênio (anóxico). Esse biogás pode ser usado em sua forma bruta ou passar por um tratamento para separar o metano. https://www.catalisajr.com.br/biodigestores/ 5 TEMA 2 – ETANOL O etanol é uma fonte de energia renovável e limpa que pode ser originada de várias matérias-primas, como mandioca, batata, cana-de-açúcar, milho e beterraba (Figura 2). A cana-de-açúcar é a mais utilizada, uma vez que apresenta a maior produtividade, sendo o insumo agrícola usado no Brasil para a produção de etanol. Figura 2 – Diagrama simplificado da produção de etanol combustível Créditos: metamorworks/Shutterstock. 2.1 Produção de etanol utilizando a cana-de-açúcar As principais etapas de produção do etanol provenientes da cana-de- açúcar são: lavagem e moagem da cana, produção do melaço e eliminação de impurezas, fermentação, destilação, desidratação e armazenamento. As principais etapas para a produção de etanol pelo processo fermentativo estão esquematizadas na Figura 3. 6 Figura 3 – Principais etapas para a produção de etanol pela fermentação da cana-de-açúcar Créditos: Soorachet Khewhom; iPreech Studio; Kateryna Kon/Shutterstock. 2.1.1 Lavagem A cana-de-açúcar é submetida à lavagem para a retirada de poeira, solo, areia ou qualquer outro tipo de impureza. 2.1.2 Moagem A cana passa por trituradores para obtenção do caldo de cana que contém alto teor de sacarose. Esse caldo constitui, aproximadamente, 70% do produto original e parte sólida constitui 30% (bagaço de cana-de-açúcar). 2.1.3 Produção de melaço Com a finalidade de eliminar microrganismos (bactérias e fungos), o caldo é aquecido para obtenção do melaço. 2.1.4 Fermentação A fermentação do melaço é feita pelo processo chamado de Melle-Boinot, que envolve a recuperação da biomassa das leveduras e seu reúso após 7 tratamento. O melaço é colocado em tanques, denominados dornas de fermentação, onde é acrescentado, ainda, o fermento biológico constituído por Sacharomyces cerevisae, a levedura responsável pela conversão de sacarose se em etanol e CO2. Após um período de tempo de 4-12 horas, é obtido o mosto que contém cerca de 7-12% de seu volume total em etanol. Esse produto é centrifugado para separação e recuperação da biomassa das leveduras e segue para a destilação. 2.1.5 Destilação O mosto fermentado passa pelo processo de destilação fracionada que dá origem a uma solução com a seguinte composição: 96% de etanol e 4% de água. Uma parte desse etanol hidratado é armazenada e uma outra parte passa pelo processo de desidratação. Durante esse processo, ocorre a produção de grande quantidade de vinhaça ou vinhoto, um líquido escuro que possui alto teor de matéria orgânica, altamente poluente e agressivo ao meio ambiente, que deverá ter uma destinação/disposição adequada. 2.1.6 Desidratação Etapa em que parte do etanol hidratado, obtido na destilação, passa pelo processo de desidratação com monoetilenoglicol, um líquido miscível em água e que reduz a sua volatilidade, permitindo a evaporação do etanol, que é então separado. Após esse processo, é obtido o etanol anidro com 99,9%. 2.1.7 Armazenamento O etanol hidratado e o etanol anidro são armazenados em tanques. 2.2 Produção de etanol utilizando o milho O processo inicia com a limpeza dos grãos seguida por uma desintegração mecânica e térmica destes. Os grãos são moídos e cozidos em água fervente ou em vapor. Nessa etapa ocorre também, a gelatinização do amido (hidratação) em temperaturas de 65-80 °C. A sacarificação (hidrólise do amido) é realizada por meio de método enzimático chamado malteação, obtendo-se o mosto de milho sacarificado. Esse mosto é diluído em cerca de 15% de açúcare, posteriormente, colocado em dorna de fermentação, 8 adicionando-se nutrientes para o crescimento das leveduras e inóculo de leveduras previamente cultivado em uma dorna separada. Quando as leveduras se multiplicam, ocorre a produção etanol. A processo de fermentação para a produção de etanol utilizando o milho tem duração aproximada de 28-30 horas, o que permite a degradação de 94% dos açúcares presentes no mosto. A biomassa das leveduras, nesse processo, não pode ser separada e recuperada devido à natureza física do mosto de milho (mais denso e com material sólido em suspensão). Dessa forma, após fermentação, todo o conteúdo da dorna segue para a destilação, desidratação e armazenamento. A vinhaça obtida no processo de produção de etanol utilizando milho contém alta concentração de proteína. 2.3 Produção de etanol de segunda geração O processo de produção de etanol de segunda geração é basicamente o mesmo realizado para produção de etanol de primeira geração. Um matéria- prima rica em glicose é fermentada com a finalidade de converter o açúcar em etanol. Enquanto o etanol de primeira geração é produzido de matérias- primas também alimentícias, o etanol de segunda geração é produzido utilizando resíduos que são normalmente descartados pelo processo de produção do etanol de primeira geração, principalmente, palha e bagaço da cana-de-açúcar (Figura 4). Esses materiais são ricos em lignocelulose (hemicelulose, lignina e celulose), que compõe a estrutura das paredes celulares e de difícil degradação por microrganismos fermentadores. Figura 4 – Principais matérias-primas usadas na produção de etanol. Etanol de 1ª geração: A. Milho e B. Cana-de-açúcar e etanol de 2ª geração: C. Palha de cana-de-açúcar e D. Bagaço de cana-de-açúcar 1ª Geração 2ª Geração A C 9 Créditos: Tritanee; Bunnyphoto; Maggie Vong; Soorachet Kheawhom/Shutterstock. A produção do etanol de segunda geração envolve, inicialmente, um pré- tratamento que tem como objetivo ampliar a área de superfície da biomassa, aumentar a sua porosidade e reduzir a cristalinidade da celulose. Em seguida, é realizado o uso de substâncias ácidas ou enzimáticas que possibilitam a hidrólise da celulose em açúcares passíveis de degradação por microrganismos fermentadores (Figura 5). Figura 5 – Principais etapas para a produção de etanol; em verde são destacadas as etapas que envolvem a produção do etanol de segunda geração Fonte: Soorachet Kheawhom/Shutterstock; iPreech Studio/Shutterstock; Kateryna Kon/Shutterstock. A biomassa lignocelulósica constitui a principal fonte de energia renovável disponível atualmente. O uso da tecnologia de produção do etanol de segunda geração, utilizando a celulose contida em resíduos da produção do etanol de B D 10 primeira geração, permite o crescimento de forma mais sustentável, porque essa produção ocorre nas entressafras, permitindo o aumento do volume de etanol produzido sem a necessidade de expandir a área de plantio. TEMA 3 – BIODIESEL E BIOQUEROSENE DE AVIAÇÃO O biodiesel é um combustível derivado de fontes renováveis, produzido utilizando óleos vegetais ou gorduras animais por meio de diferentes processos, como craqueamento, esterificação e transesterificação (Quadro 2). Quadro 2 – Diferentes processos usados para a produção de biodiesel Processo Explicação Craqueamento Reação também chamada de pirólise. Nesse processo ocorre a quebra das moléculas dos triglicerídeos (presentes em óleos e gorduras) em moléculas menores, denominadas hidrocarbonetos. A pirólise de óleos vegetais e gorduras pode ser realizada por duas vias: térmica ou catalítica: Térmica: a degradação de óleos e gorduras ocorre pelo uso de altas temperaturas e catalisadores; Catalítica: nesse processo são usados catalisadores para otimizar as condições de craqueamento. Esterificação Essa reação se constitui em um processo reversível, sendo obtido como produto principal um éster. Um ácido carboxílico, quando aquecido, reage com um álcool produzindo éster e água. A obtenção de ésteres por meio da reação entre ácido graxo livre e um álcool de cadeia curta (etanol ou metanol) na presença de catalisador é usada para a produção de biodiesel. Transesterificação Reação que ocorre entre um éster e um álcool ou entre um éster e um ácido, originando um novo éster. A transesterificação de triglicerídeos presentes em óleos vegetais, ou na gordura animal, com metanol, na presença de hidróxido de sódio ou potássio como catalisador, é usada industrialmente para originar um éster com propriedades semelhantes ao diesel derivado de petróleo. 11 O biodiesel pode substituir total ou parcialmente o óleo diesel derivado de petróleo em motores de caminhões, tratores, camionetas, automóveis etc. Pode ser usado puro ou misturado ao diesel em diversas proporções. No Brasil, são inúmeras as plantas que podem ser utilizadas para a sua produção (Fig. 6), por exemplo, mamona, girassol, amendoim, soja, algodão, canola, babaçu, pinhão-manso, dendê, macaúba, entre outras. Figura 6 – Fontes vegetais para produção de biodiesel. A. Mamona. B. Girassol. C. Amendoim. D. Soja. E. Algodão. F. Canola. G. Babaçu. H. Pinhão-manso. I. Dendê. J. Macaúba. A B C D E F 12 Créditos: Alf Ribeiro; Spalnic; ZCW; Good Luck Images; Mayk.75; Roman Nerud; Guentermanaus; Elakshi Creative Business; lazyllama; Jaboticaba Images/Shutterstock. Do ponto de vista ambiental, a substituição do óleo diesel derivado de petróleo pelo biodiesel é extremamente benéfica, uma vez que há a redução de emissões de gases de efeito estufa. Por exemplo, a substituição do óleo diesel derivado do petróleo por ésteres derivados do óleo de soja reduz as emissões de CO2 (dióxido de carbono), CO (monóxido de carbono), hidrocarbonetos, material particulado e SOx (óxidos de enxofre). A soja, atualmente, é a principal fonte de matéria-prima para a produção de biodiesel. A Figura 7 apresenta o processo de transesterificação para obtenção de biodiesel do óleo de soja. G H I J 13 Figura 7 – Esquema do processo de transesterificação para obtenção de biodiesel utilizando óleo de soja O bioquerosene de avião é um combustível alternativo obtido de matérias- primas renováveis. Ele é constituído por compostos com características semelhantes ao querosene de avião. Para a sua produção são utilizados o etanol e um óleo vegetal (coco, palma, mamona etc.) ou material graxo (origem vegetal), também podem ser usadas microalgas. O uso de bioquerosene poderá substituir o combustível usado em aviões, reduzindo a emissão de poluição, uma 14 vez que não emite enxofre e compostos nitrogenados. Diferentes processos podem ser usados para a produção de bioquerosene: químicos, bioquímicos e termoquímicos. a. Químicos: por meio de uma reação de transesterificação ocorre a conversão total das moléculas de óleos vegetais ou gorduras animais, triglicerídeos com alto peso molecular, em moléculas viáveis para a combustão (queima) e com menor viscosidade, como ésteres metílicos ou etílicos e glicerina. Posteriormente, ocorrem as etapas de separação e purificação dos ésteres (Figura 8). Figura 8 – Processo químico para a obtenção de bioquerosene. Em A ocorre a retirada de oxigênio e uma descarbonilação (adição de hidrogênio) e em B o hidrocarboneto da etapa A é isomerado e o número de carbonos é reduzido (hidrogenação) Fonte: Bonassa et al., 2014. b. Bioquímicos: por meio de agentes biológicos, leveduras (Saccharomyces cerevisiae geneticamente modificada) ou bactérias (Escherichia coli modificada), ocorre a metabolização de matérias-primas açucaradas e conversão em hidrocarbonetos (CGEE, 2010). c. Termoquímicos: produção do bioquerosene por meio de processos de craqueamentocatalítico e gaseificação e síntese catalítica (CGEE, 2010). TEMA 4 – BIOGÁS É um gás inflamável com conteúdo energético obtido da fermentação anaeróbica de resíduos vegetais (folhas, palhas, restos de culturas), resíduos de 15 produção animal (esterco e urina), resíduos de atividades humanas (fezes, urina, resíduos domésticos) e resíduos industriais. O processo de digestão anaeróbia ocorre pela ação de uma cultura mista de micro-organismos, que são capazes de metabolizar materiais orgânicos complexos, como carboidratos, lipídios e proteínas, e produzir o metano (CH4), dióxido de carbono (CO2) e biomassa. O processo de biodigestão para a produção de biogás é apresentado na Figura 9. Figura 9 – Processo de biodigestão anaeróbica para a produção de biogás. 16 Conforme apresentado na Figura 9, a decomposição de resíduos orgânicos para a produção de biogás ocorre em quatro etapas: 4.1 Hidrólise Nessa etapa, bactérias hidrolíticas secretam enzimas extracelulares, que promovem cadeias complexas de carboidratos, proteínas e lipídios em compostos orgânicos mais simples, como açúcares, aminoácidos, peptídeos e lipídeos. 4.2 Acidogênese Essa etapa compreende o estágio de fermentação, quando os compostos orgânicos mais simples são fermentados em ácidos graxos voláteis, álcoois, hidrogênio e CO2. 4.3 Acetogênese Essa etapa é caracterizada pela formação de odores desagradáveis porque bactérias denominadas acetogênicas oxidam ácidos orgânicos como fonte de carbono e geram ácido acético (CH3COOH), hidrogênio (H2) e dióxido de carbono (CO2). 4.4 Metanogênese Bactérias chamadas metanogênicas atuam na decomposição dos produtos provenientes da acetogênese para produção do metano (CH4). O biodigestor constitui um equipamento fundamental para acelerar o processo de decomposição de matéria orgânica e produção de biogás (Figura 10). Durante a biodigestão são formados dois subprodutos, o biogás e o biofertilizante. O emprego de biodigestores para a biodigestão apresenta como principais vantagens: a produção do biogás, o reaproveitamento dos resíduos orgânicos e a obtenção de fertilizantes. 17 Figura 10 – Esquema do funcionamento básico do sistema de um biodigestor Créditos: Ioanna Alexa/Shutterstock. O biofertilizante é rico em nutrientes, por isso constitui um excelente adubo para ser aplicado no solo. A composição do biogás produzido é bastante variável, uma vez que depende dos compostos orgânicos usados e tipo de tratamento anaeróbio. No entanto, em linhas gerais, compreende uma mistura dos compostos apresentados no Quadro 3. Quadro 3 – Composição básica do biogás proveniente dos processos de biodigestão anaeróbica Composto químico Fórmula química Características % do volume de biogás produzido Metano CH4 Inodoro e incolor, pertencente ao grupo dos hidrocarbonetos 50 – 70 Dióxido de carbono CO2 Inodoro, incolor, não inflamável e levemente ácido 25 – 50 Hidrogênio H2 incolor, inodoro, não tóxico e altamente combustível 0 - 1 Gás sulfídrico H2S Incolor, com forte odor de ovos podres. É tóxico, corrosivo e inflamável 0 - 3 18 Oxigênio O2 Incolor e inodoro 0 - 2 Amoníaco NH3 Incolor, com odor muito forte e irritante, tóxico, corrosivo e inflamável 0 - 1 Nitrogênio N2 Incolor e inodoro 0 - 7 Fonte: Cetesb, S.d. Os biodigestores são classificados de acordo com a forma de abastecimento dos resíduos em: contínuo e batelada. O modelo contínuo é abastecido diariamente com matéria orgânica sólida e líquida (entrada dos compostos orgânicos para serem decompostos e saída do material tratado). Já o modelo batelada funciona com alimentação descontinuada, sendo abastecido com os compostos orgânicos somente após a digestão de todo um lote para que não ocorra a entrada de oxigênio. Vários são os modelos e tamanhos dos biodigestores, entre estes os modelos canadense, chinês, filipino, indiano, tailandês etc. Eles podem ser empregados para o tratamento de resíduos provenientes da agropecuária (Figura 11), em áreas rurais; de esgotos domésticos, em áreas urbanas; e resíduos industriais, especialmente das indústrias de alimentos. Créditos: Nowick/Shutterstock. 19 O uso do biogás dependerá principalmente da concentração dos gases presentes em sua composição. A energia química presente nas moléculas de metano, por meio de sua combustão controlada, é utilizada para a geração de energia, o que faz do metano o composto do biogás com o maior valor agregado. O biogás é chamado de biometano quando a concentração de metano é maior que 95% em sua composição. TEMA 5 – GERAÇÃO DE ELETRICIDADE A eletricidade constitui uma forma de energia natural utilizada para dar força elétrica e possibilitar o funcionamento de diversos aparelhos elétricos. Essa energia é obtida por meio da transformação de diversos recursos. Inúmeras são as fontes de energia, qualquer um desses recursos apresentados a seguir pode gerar energia. Na Figura 12 são apresentados os principais recursos usados mundialmente para a geração de energia. Figura 12 – Principais recursos usados para a geração de energia Fonte: K3Star/Shutterstock. 20 Os recursos usados para obtenção de energia são divididos em renováveis e não renováveis. Os renováveis são aqueles que podem ser utilizados repetidamente sem esgotar porque são substituídos naturalmente. Já os não renováveis, uma vez utilizados, não se renovam em período de tempo que garanta o suprimento das necessidades humanas. Há também outro tipo de fonte, por exemplo, hidrogênio (Figura 13). Figura 13 – Classificação das principais fontes de energia A produção de energia utilizando biomassa é fundamental para desenvolvimento das alternativas energéticas. A biomassa constitui uma das principais fontes renováveis para a geração de eletricidade (bioeletricidade) no Brasil. 5.1 Bioeletricidade A bioeletricidade é uma energia renovável obtida de biomassa, a qual pode ser cultivada (Figura 14A, 14B e 14C) ou obtida de diferentes resíduos, como o bagaço (Figura14D) e palha da cana-de-açúcar, palha de milho, cavacos de madeira (Figura 14E), cascas provenientes do beneficiamento de arroz (Figura 14F) e café (Figura 14G), resíduos sólidos urbanos (Figura 14H), dejetos suínos (Figura 14I) e bovinos etc. A biomassa é empregada, especialmente no Brasil, como fonte de energia das seguintes formas: • Produção de biocombustíveis, especialmente etanol combustível obtido da cana-de-açúcar, conforme exposto no item 2.1; • O bagaço de cana-de-açúcar, atualmente, é usado para a produção de calor e eletricidade; • Geração da energia elétrica utilizando o biogás. 21 Figura 14 – Diversas formas de biomassa usadas na geração de bioeletricidade. Cultivada: A. Girassol, B. Cana-de-açúcar, C. Milho. Residual D. Bagaço de cana-de-açúcar, E. Madeira, F. Casca de arroz, G. Casca de café, H. Resíduos sólidos urbanos, I. Dejetos suínos Fonte: Pablesku; Isen Stocker; Aedka Studio; Soorachet Kheawhom; Anze Furlan; Bowling_y; Anderson Piza; maerzkind; Thuwanan Krueabudda / Shutterstock As informações do Quadro 4 revelam as principais fontes de biomassa para a geração de eletricidade no Brasil, sua composição e a participação por setor segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel, 2017). Quadro 4 – Fontes de biomassa para a geração de eletricidade no Brasil Fontes de biomassa Capacidade instalada Nível 1 Nível 2 % capacidade total % capacidade total de biomassa Agroindustriais Bagaço de cana-de- açúcar 7,5 79,8 Biogás agrícola 0,0 0,0 Capim elefante 0,0 0,5 Casca de arroz 0,0 0,0 Biomassa cultivada Biomassa residual A B C D E F G H I 22 Biocombustíveis líquidos Óleos vegetais 0,0 0,0 Floresta Carvão vegetal 0,0 0,4Gás de alto forno 0,1 0,9 Lenha 0,0 0,1 Licor negro 1,4 14,7 Resíduos florestais 0,3 2,9 Resíduos animais Biogás animais 0,0 0,0 Resíduos sólidos urbanos Biogás urbano 0,1 0,7 Total de biomassa 9,4 100 Fonte: Aneel, 2017. O estado de São Paulo concentra 41% da capacidade instalada no Brasil, seguido por Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, ambos com 11% (Aneel, 2017). O processo empregado para a geração de bioeletricidade é sempre termoelétrico, por meio da queima direta da biomassa ou pela queima do biogás produzido por processos fermentativos (Castilla, 2016). No caso da geração da energia elétrica utilizando o biogás, deverá ser feita, posteriormente à sua produção, a conversão da energia química presente em suas moléculas em energia mecânica por meio de um processo de combustão controlada. Essa energia mecânica vai ativar um gerador que a converterá em energia elétrica. FINALIZANDO Nesta aula você conheceu os principais aspectos da aplicação dos bioprocessos no setor de energia renovável: o que caracteriza a biomassa, sua disponibilidade e usos; os bioprocessos empregados para a produção de etanol, biodiesel e bioquerosene de aviação; o bioprocesso para a obtenção de biogás e como ocorre a geração de eletricidade, com foco em bioeletricidade. Os conhecimentos apresentados nesta aula são fundamentais para a formação de um profissional alinhado a um contexto ambiental contemporâneo, uma vez que a preocupação com a produção de energias limpas e renováveis, que geram geração menores impactos ao meio ambiente, está presente no nosso dia a dia e compreende o futuro energético mundial. 23 REFERÊNCIAS ANEEL. Agência Nacional de Energia Elétrica. Biomassa como fonte de oportunidades. Brasília: Aneel, 2017. Disponível em: . Acesso em: 26 jan. 2022. BONASSA. G. et al. Bioquerosene: panorama da produção e utilização no Brasil. Revista Brasileira de Energias Renováveis, v. 3, p. 97-106, 2014. CASTILLA, L. R. C. Bioeletricidade como fonte de energia no Brasil. São Paulo: FEA-USP, 2016. Disponível em: . Acesso em: 26 jan. 2022. CGGE – Centro de Gestão e Estudos Estratégicos. Biocombustíveis aeronáuticos: progressos e desafios. Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, Brasília, n. 8, 2010. CETESB. Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. Biogás. Cetesb, S.d. Disponível em: . Acesso em: 26 jan. 2022. https://mudarfuturo.fea.usp.br/artigos/cop21-compromissos-de-paris/bioeletricidade-como-fonte-de-energia-no-brasil/ https://mudarfuturo.fea.usp.br/artigos/cop21-compromissos-de-paris/bioeletricidade-como-fonte-de-energia-no-brasil/ https://cetesb.sp.gov.br/biogas/ 1.1.1 Combustão direta (queima) 1.1.2 Combustão 1.1.3 Gaseificação 1.1.4 Fermentação 1.1.5 Digestão anaeróbica 2.1.1 Lavagem 2.1.2 Moagem 2.1.3 Produção de melaço 2.1.4 Fermentação 2.1.5 Destilação 2.1.6 Desidratação 2.1.7 Armazenamento 4.1 Hidrólise 4.2 Acidogênese 4.3 Acetogênese 4.4 Metanogênese FINALIZANDO REFERÊNCIAS CASTILLA, L. R. C. Bioeletricidade como fonte de energia no Brasil. São Paulo: FEA-USP, 2016. Disponível em: . Acesso em: 26 jan. 2022.