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1° MÓDULO – A REALIDADE DO ANALFABETISMO NO BRASIL 
 
Em 14 de novembro comemora-se o Dia Nacional da Alfabetização, em alusão à 
data de criação do Ministério da Educação e Cultura, em 1930. A ocasião tem o objetivo 
de conscientizar a população sobre a importância da implantação de melhores 
condições de ensino e aprendizagem no país. No Brasil, também se celebra o Dia 
Internacional da Alfabetização, em 8 de setembro, criado pela ONU, com vistas a 
fomentar a alfabetização em todos os países do mundo. 
Mais do que apenas o processo de decodificação de letras para se comunicar, 
interpretar, compreender e produzir conhecimento, a UNESCO considera a 
alfabetização "uma aquisição de habilidades cognitivas básicas que permitam a 
contribuição para o desenvolvimento socioeconômico e para a reflexão crítica como 
base de mudança pessoal e social". Ela também é uma ferramenta importante no 
combate à desigualdade social, e pode ser considerada a primeira etapa do processo de 
inclusão na sociedade. 
Para Paulo Freire, educador brasileiro conhecido mundialmente por seu 
programa de alfabetização para adultos, o processo de letramento depende de um 
projeto que garanta o direito a cada educando de afirmar sua própria voz, uma vez que 
compreende que "a alfabetização não é um jogo de palavras, é a consciência reflexiva 
da cultura, a reconstrução crítica do mundo humano, a abertura de novos caminhos. A 
alfabetização, portanto, é toda a pedagogia: aprender a ler é aprender a dizer a sua 
palavra.". 
No Brasil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece a alfabetização 
como foco principal da ação pedagógica nos dois primeiros anos do Ensino 
Fundamental. Trata-se de crianças de 6 e 7 anos que deveriam entrar no terceiro ano 
do Ensino Fundamental totalmente alfabetizadas. 
No entanto, a realidade é outra. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 
Contínua (Pnad Contínua), coordenada pelo IBGE, acompanha dados de educação e 
alfabetização no país. Em nota técnica divulgada em conjunto com a ONG Todos pela 
Educação, concluiu-se que 40,8% das crianças brasileiras entre 6 e 7 anos não sabiam 
ler ou escrever em 2021. Em 2019, o número de crianças não alfabetizadas nessa faixa 
etária era de 1,4 milhão (equivalente a 25,1%) e, em 2021, o número saltou para 2,3 
milhões - um aumento de 65,6%. Trata-se do mais alto patamar de analfabetismo em 
crianças dessa idade nos dez anos da Pnad Contínua, iniciada em 2012, quando a 
porcentagem era de 28,2%. 
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Fonte: IBGE/Pnad Contínua/Todos pela Educação 
 
O levantamento também destaca que, no segundo trimestre de 2021, houve um 
aumento de 171,1% daqueles que estavam fora das escolas, em comparação com o 
mesmo período de 2019. Além disso, a nota destaca que a pandemia teve um impacto 
acentuado sobre a educação da população negra: 47,4% das crianças pretas e 44,5% das 
pardas não sabiam ler e escrever em 2021, ante 35,1% das brancas. A pesquisa não 
analisou dados de amarelos, indígenas e não declarantes. 
 
 A cor do analfabetismo 
 
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Fonte: IBGE/Pnad Contínua/Todos pela Educação via G1 
 
Em um recorte de classe social, o que se percebe é um salto de 39,7%, em 2020, 
para 51%, em 2021, entre as crianças do grupo dos 25% mais pobres que não sabem ler 
e escrever. Entre os 25% mais ricos, essa porcentagem cai de 17,4%, em 2020, para 
16,6%, em 2021. 
 
Fonte: IBGE/Pnad Contínua/Todos pela Educação 
 
No caso dos jovens de 15 a 17 anos, a nota demonstra que, em 2021, 407 mil 
jovens de 15 a 17 anos não completaram o Ensino Médio. Além disso, percebe-se uma 
redução de 2,1% no percentual de matriculados no Ensino Médio Regular. Isso se deu, 
especialmente, por um aumento, em 2021, no número de jovens de 15 a 17 anos que 
estavam frequentando etapas anteriores (Ensino Fundamental Regular, EJA do 
Fundamental, ou Alfabetização de Jovens e Adultos). O número de jovens nesta situação 
subiu de, aproximadamente 1,6 milhão em 2020 para 1,9 milhão em 2021. 
Acompanhar estes indicadores é essencial para a garantia do direito à educação 
de todas as crianças e jovens e esses primeiros dados coletados do período de pandemia 
precisarão ser acompanhados nos próximos trimestres, para que se tenha a real 
dimensão desses impactos na educação. 
Do público beneficiado pelo trabalho do Instituto UNO em 2021, 34% participou 
do Projeto "Quero Saber...", cujo foco é a alfabetização de crianças e adolescentes. 
Como resultado, 83% evoluiu em, ao menos, uma etapa da alfabetização, sendo que 
metade tornou-se alfabetizado ao final de um ano de projeto. 
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Nós acreditamos que a alfabetização é parte fundamental do processo de 
desenvolvimento de crianças e adolescentes, de sua compreensão do mundo e de si, da 
participação cidadã crítica. 
Ajude-nos a possibilitar que mais crianças e adolescentes reconheçam a importância de 
sua voz e possam, como diz Paulo Freire, "dizer sua palavra". 
 
Fonte: Instituto UNO. Janela para sua palavra. 2022. Disponível em: 
. Acesso em 01 Nov. 2022. 
 
 
MILHÕES DE ANALFABETOS 
 
Apesar da queda na taxa de analfabetismo no País em 2022, os números ainda 
são altos, principalmente ao se tratar de idosos, da população do Nordeste e de pretos 
e pardos. É o que revela os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 
Contínua (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 
(IBGE) no início de junho deste ano. Essa realidade dificulta o cumprimento da meta do 
Plano Nacional de Educação (PNE) de erradicar o analfabetismo até 2024. 
 
Foto: reprodução 
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De acordo com os dados, a taxa de analfabetismo caiu de 6,1% em 2019 para 
5,6% em 2022, isso corresponde a uma redução de 0,5 ponto porcentual dessa taxa no 
País, ou seja, cerca de 490 mil analfabetos a menos. O levantamento mostrou também 
que mais da metade das pessoas que não sabiam ler e escrever tinham 60 anos ou mais 
e que a taxa de analfabetismo de pretos e pardos é duas vezes maior do que a dos 
brancos. Ao analisar as regiões do País, o Nordeste tinha a taxa mais alta, de 11,7%, e o 
Sudeste, a mais baixa, de 2,9%. 
Desde 2014, o Plano Nacional de Educação (PNE) possui metas e estratégias para 
a política educacional que deveriam ser cumpridas até 2024. A Meta 9 diz que o objetivo 
é elevar a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5% até 2015 
e, até o final do PNE, erradicar o analfabetismo absoluto, que compreende a 
incapacidade de ler e escrever, e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional, que 
é a incapacidade de compreender textos simples. 
Além disso, conforme os itens estimados, as taxas entre pessoas com 15 anos ou 
mais deveriam ter caído para 6,5% em 2015, porém, a meta intermediária só foi 
alcançada em 2017 pelo Brasil. 
 
Atraso multifatorial 
Zerar o número de analfabetos no País em menos de um ano é bem improvável, 
tendo em vista os números persistentes. Para a professora Soraya Maria Romano 
Pacífico, do curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão 
Preto (FFCLRP) da USP, erradicar o analfabetismo não se trata de uma questão exata, 
visto fatores históricos e o modo que a alfabetização, letramento, leitura e escrita são 
concebidos no Brasil. 
Em 1947, o então Ministério da Educação e Saúde promoveu a Campanha de 
Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA), sendo a primeira iniciativagovernamental 
para a educação de jovens e adultos com caráter de uma campanha massiva de 
alfabetização. Segundo Soraya, basta ter uma visão histórica para entender que essa 
questão não é simples, pois esse marco deveria ter acontecido há muito tempo. 
“Estamos no século 21 e ainda temos esse problema. É uma tragédia, uma 
vergonha para um país em um mundo de tecnologia digital, com tantos avanços 
científicos e tecnológicos, aceitar que ainda existem pessoas que não sabem ler e 
escrever. Acreditar que o analfabetismo pode acabar em um ano é impossível”, declara 
a professora. 
Além disso, Soraya pontua que os maiores desafios relacionados ao combate do 
analfabetismo estão ligados muito mais a questões sociais, políticas e ideológicas do que 
a questões metodológicas e pedagógicas. “Pensar em alfabetização e letramento não 
significa pensar somente na aquisição de um código escrito, no sentido restrito de 
 
 
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alfabetização, como a aquisição de um alfabeto ou a aprendizagem de um sistema 
linguístico, mas, sim, garantir que quem esteja aprendendo a ler e escrever realmente 
possa fazer uso da leitura e da escrita em suas práticas sociais”, explica. 
O professor José Marcelino de Rezende Pinto, da Faculdade de Filosofia, Ciências 
e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e especialista em políticas educacionais, 
acrescenta que a meta do PNE é de que pelo menos 25% das matrículas sejam na 
Educação de Jovens e Adultos (EJA), mas só temos 2,5%, ou seja, um décimo da meta. 
“Alfabetizar é algo que tem que estar ligado com a vida, tem que fazer sentido, por isso 
é que no PNE tem a meta que os programas de EJA estejam vinculados com a educação 
profissional”, declara o professor. 
Outro tópico ressaltado por Rezende Pinto foi a queda maior na taxa do 
analfabetismo entre os idosos, apesar de ainda ser um dos grupos que mais sofrem com 
essa defasagem. Infelizmente, o que explica isso não é uma boa notícia. Segundo o 
professor, isso ocorre pois os mais velhos vão morrendo e os que ainda não eram idosos 
e tiveram mais acesso à escolaridade atingem a idade com vantagens. “Isso ajuda a 
melhorar as estatísticas, mas não porque os programas de alfabetização com os mais 
velhos estão funcionando, mas simplesmente porque eles morrem”, pontua. 
 
Mudanças necessárias 
Uma pessoa analfabeta está sujeita a uma série de preconceitos, desde sua 
inserção social plena na sociedade até para conseguir um emprego. Conforme o 
educador e filósofo Paulo Freire, “a alfabetização é mais, muito mais, do que ler e 
escrever. É a habilidade de ler o mundo”. 
Nesse sentido, Soraya aponta que, segundo pesquisas, pelo efeito da ideologia 
dominante, os sujeitos não alfabetizados se culpabilizam por não terem estudado, por 
não saberem ler e escrever. “Como se tudo isso não fosse culpa de um sistema que 
privou as crianças da escola em sua fase escolar adequada”, diz. 
Para ela, essa causa deveria ser de todos, partindo do combate ao preconceito 
com essas pessoas e da luta para que os compromissos com a alfabetização realmente 
aconteçam, e para quem é professor, para quem está dentro das escolas, lutar para que 
haja realmente um entendimento do que é ensinar leitura e escrita. 
“Ensinar simplesmente por meio de cartilhas, de material didático, a lição com 
família silábica, isso não vai mudar o cenário da alfabetização no Brasil. Nós realmente 
precisamos entender que as práticas sociais de leitura e escrita são significativas para 
nós aqui fora da escola e elas têm que ser também significativas para os sujeitos dentro 
da escola. É uma mudança de concepção de sujeito, alfabetização, letramento, leitura, 
escrita e interpretação de texto,” ressalta a professora. 
 
 
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Para Rezende Pinto, nós não podemos cair nas armadilhas das campanhas de 
alfabetização. “Alfabetização não é vacinação, é algo que se dá ao longo da vida e esse 
ponto é central,” finaliza. 
 
Fonte: MARCELINO, José. Brasil tem 10 milhões de analfabetos, apesar da queda na taxa em 2022. Jornal 
da USP. Disponível em: . Acesso em 01 Jul. 2023.

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