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FABIANO CAXITO FA B IA N O C A X ITO D IR E ITO S H U M A N O S E R E LA Ç Õ ES SO C IA IS Código Logístico I000128 ISBN 978-65-5821-053-5 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 5 3 5 Direitos humanos e relações sociais Fabiano Caxito IESDE BRASIL 2021 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2021 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito do autor e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: melitas/Shutterstock CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C377d Caxito, Fabiano Direitos humanos e relações sociais / Fabiano Caxito. - 1. ed. - Curiti- ba [PR] : IESDE, 2021. 124 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-053-5 1. Direitos humanos. 2. Direitos sociais. I. Título. 21-71941 CDU: 342.57 Fabiano Caxito Mestre em Administração Estratégica pela Universidade Nove de Julho (Uninove). MBA em Recursos Humanos pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Pós-graduado em Business Intelligence, Big Data e Analytics, pela Universidade Anhanguera; Língua Portuguesa: redação e oratória, pela Universidade São Francisco; Filosofia, pela Universidade Estácio de Sá; e Educação Corporativa, Educação Financeira, Tecnologias e Educação a Distância, Antropologia, Sociologia Política e Urbana e Coaching, pela União Brasileira de Faculdades (Faculdade UniBF). Licenciado em Filosofia pela Faculdade Mozarteum de São Paulo. Graduado em Administração Financeira pela Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Atuou nas áreas comerciais, de logística e de recrutamento e seleção e na área de treinamento e desenvolvimento em diversas empresas de distribuição e venda de bebidas. Foi coordenador de cursos de pós-graduação lato sensu. Atualmente, é professor universitário e influenciador digital. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Bases históricas dos direitos humanos 9 1.1 Origens filosóficas dos direitos humanos 10 1.2 Origens jurídicas dos direitos humanos 16 1.3 Origens políticas dos direitos humanos 18 1.4 Direitos humanos: contextualização histórica 21 1.5 Direitos humanos no Brasil 25 2 Relações étnico-raciais 32 2.1 Raça e etnia 33 2.2 Preconceito e discriminação 41 2.3 Cultura afro-brasileira e indígena 49 2.4 Políticas de ações afirmativas 51 2.5 Trabalho, produtividade e diversidade cultural 56 3 Gênero e sexualidade 63 3.1 Sexualidade e diversidade sexual 64 3.2 Identidade de gênero e orientação sexual 67 3.3 Movimentos feministas 70 3.4 Movimentos LGBTQIA+ 76 4 Alteridade, diversidade e multiculturalismo 83 4.1 Sujeito, identidade e alteridade 84 4.2 Diversidade e reconhecimento 89 4.3 Multiculturalismo e direitos humanos 91 4.4 Alteridade na sociedade contemporânea 95 5 Direitos humanos e inclusão 101 5.1 Participação social e inclusão 102 5.2 Movimentos sociais e sujeitos coletivos 107 5.3 Lutas sociais e direitos humanos 110 5.4 Direitos humanos: presente e futuro 114 Resolução das atividades 121 Embora a luta pelos direitos humanos esteja presente em grandes marcos da história da civilização, como na Revolução Francesa e na Declaração de Independência dos Estados Unidos, somente em meados do século XX, com a formação da Organização das Nações Unidas (ONU), é que o tema ganhou projeção global. Após mais de 70 anos, o que se observa na prática são parcelas cada vez mais significativas da população mundial tendo seus direitos mais básicos negados. Mesmo que legislações e tratados supranacionais definam os direitos humanos como base da relação entre os povos, o que observamos é uma grande distância entre o que as leis defendem e o que de fato acontece. O primeiro capítulo deste livro aborda o desenvolvimento histórico da discussão sobre os direitos humanos, desde as primeiras civilizações até a atualidade, traçando um paralelo entre direitos individuais e filosofia, política, legislações nacionais e tratados internacionais. No segundo capítulo é discutida a miscigenação étnico-racial do povo brasileiro, que se por um lado traz benefícios para o país, por outro alimenta o racismo, a discriminação, o preconceito e a xenofobia, temas que são abordados em seus contextos social, cultural, profissional e educacional, bem como os conceitos de raça e etnia. Os direitos humanos, as discriminações e os preconceitos relacionados ao gênero, à sexualidade e à diversidade sexual são debatidos no terceiro capítulo. Trata-se de temas urgentes e importantes na contemporaneidade, em especial em um país no qual as questões de gênero ainda causam perseguições, violência e mortes. Os movimentos LGBTQIA+ e feminista também são apresentados, bem como suas conquistas e seus desafios. O quarto capítulo tem como foco a discussão sobre identidade, alteridade e cultura. O reconhecimento das diferenças e da alteridade é fundamental para que os direitos humanos de todos que fazem parte da sociedade sejam respeitados. Também são examinados os aspectos APRESENTAÇÃOVídeo 8 Direitos humanos e relações sociais relacionados ao multiculturalismo, em um mundo no qual as fronteiras entre países e culturas são cada vez mais tênues. Por fim, no quinto capítulo trata da desigualdade social no Brasil, da cidadania, da inclusão social e das relações entre estas e os direitos humanos. A história do país é marcada por questões étnico-raciais, econômicas e culturais que resultaram em uma sociedade desigual, em que uma parte significativa da população ainda não tem seus direitos humanos plenamente garantidos. Altos níveis de desemprego e subemprego, falta de qualidade de estruturas e serviços públicos, dificuldade de acesso à educação e carência de espaços de lazer e acesso à cultura são apenas alguns dos exemplos que mostram como a inclusão social ainda não é uma realidade para toda a população brasileira. Ao final desta obra, esperamos que você passe por um despertar de sua consciência quanto à realidade dos direitos humanos tanto no Brasil como no mundo. Bases históricas dos direitos humanos 9 1 Bases históricas dos direitos humanos A discussão sobre os direitos humanos apresenta uma dicotomia ao mesmo tempo que todos os seres humanos têm os mesmos direitos com relação aos diversos fatores que compõem a vida em sociedade (direito à vida, à saúde, à educação e a oportunidades iguais). Por outro lado, na prática, o que se observa é que parcelas cada vez mais significativas da população têm seus direitos mais básicos negados. A pobreza, as guerras e as pandemias globais mostram que a socieda- de se divide entre um grupo que tem acesso a seus direitos e outro que se vê marginalizado e não é beneficiado pelo aumento da riqueza ou pelo desenvolvimento da humanidade. Apesar de as legislações globais e na- cionais definirem nitidamente os direitos humanos, colocá-los em prática requer mudanças profundas na organização política, econômica, jurídica e social. Ainda há uma grande distância entre o que as leis pregam e o que acontece no mundo. Neste capítulo, vamos abordar o desenvolvimento da discussão sobre os direitos humanos, desde as primeiras civilizações até o momento atual, traçando um paralelo entre direitos individuais e filosofia; esta discute a igualdade entre os seres humanos. Ainda, trataremos da relação entre os direitos humanos e a política, pois asAcesso em: 21 maio 2021. URI, A. P. T. P.; URI, L. T. P. Grupos minoritários, cultura e educação: desafios à formação docente na Educação Básica. Revista Recorte, v. 16, n. 2, 2019. Disponível em: http:// periodicos.unincor.br/index.php/recorte/article/view/5950. Acesso em: 21 maio 2021. http://revistas.ufpi.br/index.php/raj/article/view/1085 http://revistas.ufpi.br/index.php/raj/article/view/1085 https://news.un.org/pt/story/2019/12/1696261 https://www.scielosp.org/article/csc/2017.v22n12/3841-3848/pt/ https://anistia.org.br/informe/relatorio-anual-pena-de-morte-em-2019/ https://anistia.org.br/informe/relatorio-anual-pena-de-morte-em-2019/ https://www.ufrgs.br/sicp/wp-content/uploads/2015/09/1.-ROSA-Aruan%C3%A3-Emiliano-Martins-Pinheiro-A-Declara%C3%A7%C3%A3o-Universal-dos-Direitos-Humanos-de-1948-e-a-liberdade-de-orienta%C3%A7%C3%A3o-sexual-interpreta%C3%A7%C3%A3o-do-caso-brasileiro.pdf https://www.ufrgs.br/sicp/wp-content/uploads/2015/09/1.-ROSA-Aruan%C3%A3-Emiliano-Martins-Pinheiro-A-Declara%C3%A7%C3%A3o-Universal-dos-Direitos-Humanos-de-1948-e-a-liberdade-de-orienta%C3%A7%C3%A3o-sexual-interpreta%C3%A7%C3%A3o-do-caso-brasileiro.pdf https://www.ufrgs.br/sicp/wp-content/uploads/2015/09/1.-ROSA-Aruan%C3%A3-Emiliano-Martins-Pinheiro-A-Declara%C3%A7%C3%A3o-Universal-dos-Direitos-Humanos-de-1948-e-a-liberdade-de-orienta%C3%A7%C3%A3o-sexual-interpreta%C3%A7%C3%A3o-do-caso-brasileiro.pdf https://www.ufrgs.br/sicp/wp-content/uploads/2015/09/1.-ROSA-Aruan%C3%A3-Emiliano-Martins-Pinheiro-A-Declara%C3%A7%C3%A3o-Universal-dos-Direitos-Humanos-de-1948-e-a-liberdade-de-orienta%C3%A7%C3%A3o-sexual-interpreta%C3%A7%C3%A3o-do-caso-brasileiro.pdf https://www.ufrgs.br/sicp/wp-content/uploads/2015/09/1.-ROSA-Aruan%C3%A3-Emiliano-Martins-Pinheiro-A-Declara%C3%A7%C3%A3o-Universal-dos-Direitos-Humanos-de-1948-e-a-liberdade-de-orienta%C3%A7%C3%A3o-sexual-interpreta%C3%A7%C3%A3o-do-caso-brasileiro.pdf http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-85292015000200347&lng=en&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-85292015000200347&lng=en&nrm=iso https://www.scielo.br/pdf/soc/n16/a03n16.pdf http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/tosi/tosi_dudh_siginificado_1948.pdf http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/tosi/tosi_dudh_siginificado_1948.pdf http://periodicos.unincor.br/index.php/recorte/article/view/5950 http://periodicos.unincor.br/index.php/recorte/article/view/5950 32 Direitos humanos e relações sociais 2 Relações étnico-raciais A população brasileira é marcada pela miscigenação étnico-racial desde o início da formação da nação. Indígenas, portugueses e africanos formaram a base da constituição do povo brasileiro. Migrações de po- pulações europeias e asiáticas, no decorrer do século XX, além de, mais recentemente, povos latino-americanos, contribuíram ainda mais para a formação de um povo diverso e miscigenado. Se por um lado essa carac- terística traz benefícios para o país, por outro alimenta ações de racismo, discriminação e xenofobia. Neste capítulo, vamos estudar os conceitos de raça e etnia. Estes termos estão na base dos preconceitos e discriminações que impac- tam a vida de milhões de brasileiros, tirando deles direitos e opor- tunidades. A importância da cultura afro-brasileira e indígena para a formação cultural brasileira também é nosso objeto de estudo deste capítulo. Discutiremos, ainda, as ações afirmativas que buscam incluir as minorias raciais, dos pontos de vista cultural, educacional, econô- mico e profissional. Por fim, vamos abordar a diversidade étnica, racial e cultural no mercado de trabalho e o impacto do racismo sobre as oportunidades profissionais das minorias. Com o estudo deste capítulo você será capaz de: • compreender os conceitos de raça, etnia, racismo, precon- ceito e discriminação racial; • reconhecer a importância das culturas afro-brasileira e indí- gena na formação cultural do país; • conhecer as políticas de ação afirmativa no Brasil e no mundo; • compreender o impacto do racismo no trabalho, na cultura e na sociedade. Objetivos de aprendizagem Relações étnico-raciais 33 2.1 Raça e etnia Vídeo O discurso de Mano Brown, vocalista do grupo musical Racionais MC’s, durante show realizado em 2006, toca no ponto central da discri- minação racial no Brasil. Vejamos: “Tem que acreditar. Desde cedo, a mãe da gente fala assim: ‘Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor’. Aí, passados alguns anos, eu pensei: ‘como fazer duas vezes melhor, se você está pelo menos cem vezes atrasado? Pela es- cravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses, por tudo que aconteceu’. Duas vezes melhor como? Ou você é o melhor ou pior de uma vez. Sempre foi assim. Se você vai escolher o que estiver mais perto de você, o que estiver dentro de sua realidade, você vai ser duas vezes melhor como?” (BROWN, 2006). As minorias raciais, notadamente os negros e indígenas, sofrem com o preconceito que está inserido profundamente nas estruturas sociais, culturais e econômicas brasileiras. A discussão sobre racismo parte de uma ideia ultrapassada e cientificamente provada como incorreta: a de que existem diversas raças humanas. Biologicamente, a humanidade é composta de uma só raça: a humana (CAMPOS, 2017). Segundo Santos (2010), a ideia de que os seres humanos são divi- didos em raças surgiu por volta do século XVII, com as publicações de François Bernier e, principalmente, Carolus Linnaeus, que desenvolveu a estrutura de classificação das espécies vegetais e animais com base em uma hierarquia de reinos, classes, ordens, gêneros e espécies. Foi ele também o responsável pela criação da forma de se nomear as espécies, com dois termos em latim: o primeiro referente a gênero e o segundo, à espécie (FERNANDES; SANCHES; DIAS, 2018). O gêne- ro Homo, por exemplo, que nomeia todos os hominídeos, é dividido em diversas espécies, como Homo habilis, Homo erectus e Homo sapiens (CASETTA et al., 2018). Em sua classificação, Linnaeus (2018) divide o Homo sapiens em quatro variedades, de acordo com as origens geográ- ficas das populações (Quadro 1). 34 Direitos humanos e relações sociais Quadro 1 Classificação Homo sapiens Denominação Localização Características Homo sapiens americanus Habitante das Américas Indivíduo de mau temperamen- to, facilmente subjugável Homo sapiens asiaticus Proveniente dos países asiá- ticos Ganancioso Homo sapiens afer Originário da África Preguiçoso e impassível Homo sapiens europaeus Originário da Europa Considerado sério, inteligente leal e forte Fonte: Adaptado de Linnaeus, 2018. Linnaeus (2018) ainda relacionou essas classificações com a cor da pele. Os americanos foram nomeados vermelhos; os asiáticos, amarelos; os europeus, brancos; e os africanos, pretos (CASETTA et al., 2018; SANTOS et al., 2010). A classificação de Linnaeus foi desenvolvida por outros autores, como Blumenbach (SANTOS et al., 2010), que classificava a espécie humana em quatro variedades: a primeira incluía os europeus, a po- pulação branca da América do Norte e da parte leste da Ásia; a se- gunda, os indígenas australianos; a terceira, os negros africanos; e a quarta englobava os humanos de todas as demais áreas do chama- do novo mundo (SANTOS et al., 2010; FERNANDES, SANCHES, DIAS, 2018). Segundo Santos et al. (2010), a divisão da população em preten- sas raças passou a ser usada oficialmente depois do censo realizado nos Estados Unidos, em 1790. Este separou a população em brancos livres e outros indivíduos, classificação que incluía desde as popula- ções nativas até os escravos de origem africana. Um século depois, no censo de 1890, o governo americano já usava uma classificação mais ampla, separando os indivíduos em brancos, pretos, indígenas (nativos americanos), chineses e japoneses. Essa visão da divisão da espécie humana em raças, com base em uma visão científica, teve grande divulgação no Brasil, principalmen- te durante o século XIX e iníciodo século XX (SANTOS; SILVA, 2018). A ideia de classificar os seres humanos de acordo com o conceito de raça (usando para isso uma taxonomia com base em conceitos cien- Relações étnico-raciais 35 tíficos) foi usada para justificar e explicar a situação social brasileira após a abolição da escravatura (SKIDMORE, 2012). Nesse conceito, as raças eram classificadas hierarquicamente, de acordo com suas habilidades e sua inteligência; os brancos eram considerados superiores às demais raças, enquanto os indígenas e os negros ocupavam a mais baixa posição hierárquica (COELHO; COELHO, 2008; GUIMARÃES, 2002; SCHWARCZ, 2020). Um dos pontos centrais da discussão sobre racismo no Brasil es- tava relacionado à miscigenação, isto é, à mistura entre as raças. À época, alguns autores defendiam que a população brasileira pas- sava por um processo de embranquecimento, ou seja, a miscige- nação levaria a uma melhoria racial pela suposta superioridade da raça branca sobre as demais, segundo Skidmore (2012). Já outros autores e estudiosos acreditavam que a mistura racial levaria a uma degeneração, o que impediria o desenvolvimento do Brasil como uma nação civilizada (ORTIZ, 2003; SANTOS et al., 2010; FERNANDES, SANCHES, DIAS, 2018). A simples menção a essa divisão em raças e à ideia de que uma seja superior à outra, bem como a sugestão da possibilidade de melhoria racial ou, ao contrário, da degeneração, por meio da miscigenação, é hoje totalmente inconcebível. Contudo, é importante mostrar que essas ideias não só foram aceitas, como também defendidas por cientistas, sociólogos, políticos e intelectuais durante centenas de anos. Além disso, infelizmente, esse pensamento ainda está presente na sociedade atual e em processo de desconstrução. Viktoriia2696/Shutterstock A ideia de miscigenação ganhou destaque com o trabalho de Marvin Harris, no início do século XX. Para o autor, a criança nascida de um casal miscigenado pertenceria à raça considerada inferior, seja do ponto de vista biológico ou social. Com base nessa teoria, diversos países desenvolveram legislações para classificar a popu- lação de acordo com a porcentagem de miscigenação do indivíduo (VALENTINI, IJUIM, 2018; SOUZA, MELO, BEIERSDORF, 2017). 36 Direitos humanos e relações sociais A ideia de um povo puro, que representaria os mais nobres ideais da nação, ganhou ainda mais força com a publicação, em 1859, do trabalho de Charles Darwin. Em A origem das espécies, Darwin (2014) mostra que o processo evolutivo das espécies ocorre pelo cruzamen- to de indivíduos com determinadas características, o que poderia le- var a alterações profundas na espécie em apenas poucas gerações. Francis Galton, sobrinho de Darwin, parte da ideia da evolução das espécies para concluir que a espécie humana poderia também ser alterada ou, em sua visão, melhorada pela seleção das carac- terísticas dos indivíduos. Galton (apud BLACK, 2003), ao cunhar o termo eugenia, que significa “bem-nascido”, vai além: defende que é papel do Estado, por meio de políticas públicas, e da ciência, por meio de estudo e experimentos, acelerar o processo evolutivo da espécie humana, impedindo que indivíduos com características in- desejáveis se reproduzam. As ideias eugenistas obtiveram grande repercussão no momento político pelo qual passava o mundo, com o fortalecimento do nacio- nalismo e a consolidação dos estados (CENTURIÃO, 2009). A eugenia influenciou programas de governo em diversos países do mundo e foi uma das principais bases teóricas do nazismo. Os estudos de Harris se relacionam com o conceito da eugenia, corrente de pensamento que surgiu no século XIX, em um contexto político de formação dos modernos Estados-nações ocidentais, que buscavam fortalecer a ideia de que a nação deveria ser representa- da por um povo unido (SILVA, 2013). A pseudociência eugenista também encontrou espaço no Brasil, nas primeiras décadas do século XX. Porém, a intensa miscigenação da população brasileira fez com que a visão eugenista, que defendia a promoção de uma raça pura, se tornasse uma realidade inviável. Segundo Pereira (2001), no Brasil, a eugenia se difundiu mais como um conceito defendido por elites intelectuais do que como um pro- jeto institucionalizado pelo governo, como aconteceu em diversos países europeus. A visão mais difundida acabou sendo a de que as misturas raciais faziam parte da construção do país como nação e eram indissociáveis da história brasileira (SCHWARCZ, 2011). O documentário Homo sapiens 1900 mostra o conceito da eugenia, ideia desenvolvida por Francis Galton. Esta defendia que as capacidades humanas eram hereditárias e que determinadas raças, como os brancos, eram superiores a outras. O documentário mostra imagens de experimentos científicos realizados, com o objetivo de provar a superioridade racial, a qual influenciou as ideias nazistas da superioridade branca. Direção: Peter Cohen. Suécia, 1998. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=TPSjjElIIZM. Acesso em: 26 abr. 2021. Documentário https://www.youtube.com/watch?v=TPSjjElIIZM https://www.youtube.com/watch?v=TPSjjElIIZM Relações étnico-raciais 37 Entender o desenvolvimento histórico do racismo e da eugenia, bem como sua intrínseca relação com movimentos políticos que in- fluenciaram tanto as legislações quanto a cultura e a sociedade, em especial nos países ocidentais, é fundamental para entender como o racismo se encontra profundamente arraigado nas estruturas so- ciais contemporâneas. Mesmo quase um século após a compreensão de que as ideias eugenistas têm base em premissas falsas – como a existência de raças na espécie humana – e cerca de 70 anos após a ONU afirmar, no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos” (ONU, 1948), a desigualdade racial ainda está presente em diversos países, especialmente no Brasil. Segundo o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS, 2016), en- quanto no discurso público e nas legislações as ações e as atitudes de discriminação racial são condenadas, na prática, as populações negra e de origem indígena sofrem com o preconceito nas mais di- versas áreas da vida cotidiana. Como mostra a música Negro Drama, do grupo Racionais MC’s: Cabelo crespo e a pele escura A ferida, a chaga, à procura da cura [...] Tenta ver e não vê nada A não ser uma estrela longe, meio ofuscada Sente o drama, o preço, a cobrança (NEGRO..., 2002) As desvantagens das populações discriminadas podem ser obser- vadas no âmbito econômico e no acesso a oportunidades de trabalho, no nível de escolaridade e nas taxas de evasão escolar, bem como no acesso à saúde e na representatividade em espaços de poder. Segundo dados da Câmara de Deputados (2018), dos 513 repre- sentantes eleitos no ano de 2018, 75% dos deputados se autodecla- raram brancos, menos de 5% se declararam pretos e apenas uma deputada se declarou indígena. O Gráfico 1 mostra a divisão dos deputados federais de acordo com sua autodeclaração. 38 Direitos humanos e relações sociais O uso do termo raça para dividir ou segregar os indivíduos da espé- cie humana se baseia na dificuldade de se compreender que as aparen- tes diferenças entre dois indivíduos, como a cor da pele, não significam que existem diferenças entre as características que definem a espécie. O conceito de raça, dentro do estudo das espécies, está relacionado com características físicas associadas a uma determinada origem geo- gráfica (SANTOS; BRAGA; MAESTRI, 2007). A dificuldade em se utilizar esse conceito para se definir a raça de um indivíduo reside na com- plexidade de se determinar quais são essas diferenças e qual é a real importância delas. Segundo Santos, Braga e Maestri (2007), as diferenças aparentes ou externas, como cor da pele ou do cabelo, são meramente físicas, não tendo necessariamente relação com uma diferença genética. As diferenças das características externaspodem ocorrer mesmo dentro de uma mesma família. O caso das irmãs gêmeas inglesas, Marcia e Millie Biggs, tornou-se conhecido com a publicação da revis- ta National Geographic, que mostra como diferentes fenótipos podem ser gerados por meio da carga genética dos mesmos pais, já que as gêmeas são filhas de um casal birracial – mãe inglesa e pai jamaicano – e possuem traços semelhantes e tons de pele distintos (EDMONDS, 2018). Para Santos, Braga e Maestri (2007), o genótipo é o material here- ditário que cada indivíduo carrega em suas células, formado pela carga genética de seus ancestrais. Já o fenótipo são as características físicas que podem ser observadas externamente e que podem sofrer influên- cia de fatores externos, por exemplo o meio ambiente, como mostra o caso das irmãs inglesas. As diferenças fenotípicas, do ponto de vista fisiológico, não repre- sentam, segundo os autores, nenhuma vantagem, superioridade ou inferioridade. Contudo, do ponto de vista social, dão origem a discri- minações e preconceitos. Se a falta de entendimento sobre o conceito de raça na espécie humana causa debates que dificultam a tomada de ações efetivas para combater os impactos que a discriminação racial traz para o cotidiano de uma parcela significativa da população brasi- leira, o conceito de etnia é ainda menos compreendido. O termo negro é utilizado em documentos oficiais. O estatuto da igualdade racial (Lei n. 12.288/2010) usa o termo negro ou população negra 68 vezes em seu texto; já o termo preto, apenas uma. A filósofa Djamila Ribeiro defende o uso da palavra negro, por considerar que o termo inclui pessoas afrodescendentes, inde- pendentemente da cor da pele, uma caracterís- tica fenotípica. No vídeo Negro ou preto? É preto, publicado pelo canal Portal Raízes, o músico e ativista Nabby Clifford explica a diferença entre os termos e defende o uso de preto. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=3ccWLl0m4QA. Acesso em: 26 abr. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=3ccWLl0m4QA https://www.youtube.com/watch?v=3ccWLl0m4QA https://www.youtube.com/watch?v=3ccWLl0m4QA Relações étnico-raciais 39 Santos, Braga e Maestri (2007) afirmam que a etnia está ligada à origem de um determinado grupo social e se relaciona com a cultura, a religiosidade, a língua ou o dialeto e as práticas culturais e sociais. Essa ligação cultural entre os membros de uma etnia, segundo Rex (1988, apud SANTOS, BRAGA e MAESTRI, 2007, p. 16), “possui um poder de coação indescritível e por vezes esmagador de e em si própria”. Para Gomes (2005), enquanto o conceito de raça está relacionado às carac- terísticas genéticas e biológicas transmitidas por ligações de parentes- co e ancestralidade, a etnia se forma pelos processos de agrupamento históricos e pela formação de grupos sociais e culturais. Um exemplo prático da diferença entre os conceitos de raça e et- nia é dado por Santos et al. (2010), apontando que os povos indígenas brasileiros representam uma identidade racial própria que os difere dos demais grupos raciais que compõem a população brasileira. To- davia, os povos indígenas são compostos de diversas etnias diferentes, com culturas, ligações tribais, religiões, crenças, mitologias, tradições e línguas diversas. Segundo os autores, apenas no estado do Amazonas existem cerca de 65 etnias diferentes. Cashmore (2000) acredita que os conceitos de raça e etnia não são sinônimos, mas se reforçam, pois a discriminação racial e o preconceito atingem, de modo semelhante, tanto grupos raciais quanto étnicos. Já Munanga (2003) destaca a inter-relação entre raça e etnia e mostra que dentro de um mesmo grupo identificado como pertencente a uma raça pode haver diversas etnias diferentes. A etnia, para o autor, é definida pelo grupo social que compartilha a mesma origem histórica e mitoló- gica, a mesma língua ou o mesmo dialeto e divide a mesma cultura. Em geral, as etnias têm origem em uma mesma região ou território, mas mantêm sua ligação mesmo que se espalhem por outras regiões. Pela intrínseca relação entre os conceitos, é comum que se utilize, nas discussões acadêmicas, políticas, sociais e legais, o termo relações étnico-raciais. Em um país marcado pela miscigenação, como o Brasil, a inclusão social dos grupos étnico-raciais é um dos maiores desafios para o Estado e para a sociedade brasileira. A formação da população brasileira é marcada pela miscigenação desde o início da colonização. Para Bento e Santos (2019), a identidade brasileira como nação surge da miscigenação entre os povos indígenas O vídeo Kabengele Munanga – raça, racismo e etnia, publicado pelo canal Sociologia Animada, mostra resumidamente o conteúdo da palestra pro- ferida pelo cientista social Kabengele Munanga, que tem como foco de seus estudos as relações so- ciais na história e na so- ciedade contemporânea brasileira. A palestra foi proferida no 3º Seminário Nacional Relações Raciais e Educação, no Rio de Janeiro, em 2003. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=JTySjC1aQF4. Acesso em: 26 abr. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=JTySjC1aQF4 https://www.youtube.com/watch?v=JTySjC1aQF4 https://www.youtube.com/watch?v=JTySjC1aQF4 40 Direitos humanos e relações sociais e o português colonizador. O mameluco, nascido da mistura do euro- peu branco e do nativo, para os autores, é o primeiro representante do povo brasileiro. A mistura entre indivíduos de diferentes origens genéticas se inten- sifica com a escravidão. O mulato, fruto da miscigenação entre brancos e negros, surge, segundo Munanga (2019), com a transformação das mulheres negras escravizadas em objetos sexuais pelos senhores de escravos. Para o autor, a miscigenação racial que ocorreu nos primei- ros séculos da formação da nação brasileira não pode ser romantizada, pois tem um caráter violento e de dominação racial e étnica. No fim do século XIX e, principalmente, nas primeiras décadas do século XX, os fluxos migratórios oriundos de países europeus, es- pecialmente Itália e Alemanha, bem como Japão, trouxeram para o Brasil milhões de imigrantes. Segundo Frutuoso (2018), foram regis- tradas migrações de mais de 70 diferentes nacionalidades no perío- do. Esse movimento de migração também contribuiu para aumentar a miscigenação, característica do povo brasileiro. Mais recentemente, migrações oriundas de países latino-americanos, especialmente de Bolívia, Haiti e Venezuela se intensificaram, o que levará, ainda segun- do Frutuoso (2018), ao aumento da miscigenação étnico-racial na po- pulação brasileira. O grande e diverso caldeirão étnico-racial da população faz com que questões de discriminação, racismo, preconceito e xenofobia estejam presentes no cotidiano da sociedade brasileira. Mesmo sendo cientifi- camente comprovado que as características fenotípicas não represen- tam diferenças raciais, é por essas características externas, como cor de pele, tipo de cabelo e traços faciais, que acontecem e se institucio- nalizam o racismo e o preconceito. Os órgãos oficiais de Estado desenvolvem políticas públicas de acor- do com a divisão étnico-racial da população, em especial as políticas direcionadas para o enfrentamento das desigualdades e para a repa- ração histórica dos impactos trazidos pela discriminação étnico-racial. O principal órgão de informações estatísticas do Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), utiliza o conceito de cor, de- finido pelo próprio respondente em forma de autodeclaração. Entre as categorias consideradas pelo instituto estão indígenas, pretos, pardos, amarelos e brancos. Relações étnico-raciais 41 Gráfico 1 Composição da Câmara por raça 20,27% 75% 4,09% 0,38% 0,19% Pardos Pretos Amarelos Brancos Indígena Fonte: Agência Câmara de Notícias, 2018. Em uma sociedade na qual a cor ainda é usada como elemento de segregação e em que os direitos fundamentais são negados aos membros das minorias étnico-raciais, aautodeclaração gera cons- trangimento no respondente, criando um viés nas respostas; isso pode dificultar ou até mesmo inviabilizar a correta aplicação das po- líticas públicas. No ano de 2007, o caso dos irmãos gêmeos univitelinos Alan e Alex Teixeira da Cunha ganhou repercussão nacional. Os irmãos se candida- taram ao vestibular da Universidade de Brasília (UnB) pleiteando uma vaga na cota de 20% de alunos pretos e pardos oferecida pela insti- tuição, em dois cursos diferentes. Apesar de serem gêmeos idênticos e apresentarem o mesmo fenótipo, um dos irmãos foi aprovado para obter a bolsa como cotista, enquanto o outro foi reprovado por não se enquadrar na classificação de negro, de acordo com a banca examina- dora. Segundo Ferenz e Petry (2018, p. 665), candidatos ao sistema de cotas para negros da instituição – que define por meio de uma foto quem se encaixa ou não no critério de raça – Alan foi considerado negro. Alex, não [...]. A foto é anali- sada por uma banca, que decide quem é ou não negro. O caso trouxe à tona a discussão sobre como a avaliação sobre cor e raça pode dificultar a aplicação de uma política de inclusão ét- nico-racial, no caso, as bolsas de estudo oferecidas para indivíduos de grupos de minorias étnico-raciais. O fato de características feno- típicas ainda originarem ações e manifestações de racismo mostra 42 Direitos humanos e relações sociais como, mesmo com toda a miscigenação étnico-racial da população brasileira, ainda persistem o preconceito e a discriminação na socie- dade brasileira. 2.2 Preconceito e discriminação Vídeo Uma leitura atenta da palavra preconceito já mostra seu significa- do: preconceito é formado pela junção dos termos pré (com o senti- do de antes) e conceito. É, portanto, um conceito criado com base em julgamentos antecipados, sem se conhecer os fatos ou sem levar em consideração as características individuais de um sujeito. Segundo o dicionário Houaiss (2009), preconceito é definido como “1. qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico; 2. sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância”. No contexto da diversidade étnico-racial, o preconceito pode ser entendido como o julgamento ou a opinião sobre um determinado in- divíduo, um grupo ou povo, tendo como base características físicas e fenotípicas, ou origem, cultura, crenças, religiosidade e mitologias. Apesar de se concretizar nas ações individuais, o preconceito não é apenas fruto da desinformação, da falta de conhecimento sobre quem é diferente. Para Munanga (2005), o preconceito étnico-racial vai além da simples ignorância dos indivíduos, é institucionalizado nas relações políticas, econômicas, legais e nos comportamentos socialmente acei- tos. Para o autor, relacionar o preconceito ao desconhecimento é colo- car nos indivíduos a culpa de um problema que é da sociedade. Em seu Pequeno Manual Antirracista, Djamila Ribeiro afirma que o preconceito étnico-racial é um sistema institucionalizado de opressão e de negação de direitos humanos que vai além da vontade, do conhe- cimento ou da interpretação de um único indivíduo (RIBEIRO, 2019). O lugar do negro (e do indígena) na sociedade, segundo a música, é um lugar de exclusão, marginalidade, sofrimento, criminalidade e pobreza. O preconceito e a discriminação étnico-raciais estão incor- porados tanto nas relações pessoais e familiares quanto nos discur- sos políticos, nos critérios de seleção das instituições de ensino e das empresas; isso muitas vezes de maneira velada e despercebida, o que dificulta a identificação das ações e dos impactos sobre a vida dos indi- víduos discriminados. Analise suas experiências na escola, no trabalho ou em outros grupos sociais dos quais faz par- te e responda: quantos negros, indígenas ou representantes de quaisquer outras minorias étnico-raciais ocupam posições como professores, profissionais em cargos de chefia, gerência e direção de empresas e organiza- ções ou são profissionais liberais, como médicos, advogados, engenheiros, líderes religiosos, comunitários ou políticos na sociedade? Analise suas conclusões dentro do contexto social brasileiro e descreva, em um texto de 15 linhas, suas considerações. Desafio Relações étnico-raciais 43 O Estatuto da Igualdade Racial, promulgado no ano de 2010 (BRASIL, 2010), instrumento normativo que reúne legislações que abordam questões étnico-raciais, define a discriminação, no item I do parágrafo único do artigo 1º, como: toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exer- cício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liber- dades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública ou privada. A necessidade de se criar leis e instrumentos legais, especialmente desenvolvidos para proteger os direitos individuais básicos, mostram que a discriminação e a desigualdade étnico-raciais são realidades pre- sentes na sociedade brasileira. Discriminação e preconceito estão inti- mamente ligados. A discriminação étnico-racial é a materialização, na prática cotidiana, dos preconceitos que estão enraizados na cultura, na sociedade e nas instituições. Bento e Carone (2002) ampliam o conceito e defendem que, para entender a discriminação contra um determinado grupo étnico-racial, não basta entender as origens do preconceito, mas sim entender o seu contraponto: os privilégios de que outro grupo étnico-racial goza na mesma sociedade. Ribeiro (2019) chama a atenção para essa dicotomia, para essa di- ferença entre a discriminação sofrida por um dos grupos e os privi- légios de que outro grupo goza. Em seu Pequeno Manual Antirracista, dedica um dos capítulos a demonstrar os preconceitos sofridos pelos negros do Brasil, destacando que são vistos como inferiores ou desti- nados a ocupar lugares subalternos na estrutura social. Segundo relata a autora, como muitas pessoas negras que circulam em espaços de poder, já fui confundida com copeira, faxineira ou, no caso de hotéis de luxo, prostituta. Obviamente não estou questionando a dignida- de dessas profissões, mas o porquê de pessoas negras se verem reduzidas a determinados estereótipos. (RIBEIRO, 2019, p. 12) Da mesma forma que destaca as características e os desafios do que chama negritude, a autora também destaca, no capítulo seguinte de sua obra, os privilégios do grupo étnico-racial dominante no Brasil. O capítulo tem o sugestivo nome Reconheça os privilégios da branquitu- 44 Direitos humanos e relações sociais de (RIBEIRO, 2019, p. 15-18). Assim, a autora mostra que, para entender os desafios da negritude, é preciso entender os privilégios da branqui- tude, corroborando a afirmação de Bento e Carone (2002). Já o item II do parágrafo único do artigo 1º do Estatuto da Igualdade Racial define a desigualdade racial como: toda situação injustificada de diferenciação de acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas pública e priva- da, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica. (BRASIL, 2010) O texto legal mostra que a discriminação étnico-racial leva à viola- ção dos direitos humanos dos grupos minoritários, dificulta o acesso a oportunidades de desenvolvimento social, a bens e serviços públicos, além de expor os indivíduos do grupo minoritário a situações de humi- lhação, risco, violência e isolamento. Como mostra a profunda letra da música Negro Drama, do grupo Racionais MC’s: Uma negra e uma criança nos braços [...] Veja, olha outra vez o rosto na multidão A multidão é um monstro sem rosto e coração [...] [...] Família brasileira, dois contra o mundo Mãe solteira de um promissor vagabundo [...] Um bastardo, mais um filho pardo sem pai (NEGRO..., 2002) O trecho da música exemplifica de maneiradireta os impactos da discriminação racial no cotidiano dos indivíduos dos grupos minoritá- rios: a desagregação familiar, as expectativas traçadas desde o nasci- mento de que o indivíduo não terá oportunidades sociais por sua cor e origem. Ela mostra, também, como a sociedade trata as demandas e os direitos das populações minoritárias. A multidão, que representa a sociedade, é um monstro sem rosto, pois é formada tanto pelas faces dos sujeitos quanto pelas instituições e sem coração, pois não acolhe nem apoia aqueles que considera inferiores, a quem nega os direitos humanos. Nogueira (2007) afirma que existiu, no Brasil, durante muitos sé- culos, uma tendência, nas pesquisas acadêmicas e na sociedade, de subestimar ou até mesmo negar completamente a existência da dis- criminação étnico-racial, muitas vezes comparando a situação brasi- Branquitude, para Jesus (2021), são “as práticas daqueles indivíduos brancos que assumem e reafirmam a condição ideal e única de ser humano, portanto, o direito pela manutenção do privilégio perpetuado socialmente”. Negritude, segundo Do- mingues (2005, p. 25-26), no terreno político “serve de subsídio para a ação do movimento negro organizado. No campo ideológico, negritude pode ser entendida como processo de aquisição de uma consciência racial. Já na esfera cultural, negritude é a tendência de valorização de toda manifestação cultural de matriz africana”. Importante Relações étnico-raciais 45 leira com a realidade observada nos Estados Unidos, país que passou por marcos históricos semelhantes, como a colonização europeia dos povos nativos e a escravatura dos povos africanos. Nesse contexto, enquanto a miscigenação característica da formação da população bra- sileira dificulta a definição clara do grupo étnico-racial do indivíduo, a segregação racial ocorrida nos Estados Unidos fortaleceu e aprofundou a discriminação racial. Para Nogueira (2007), entretanto, negar a existência da discrimina- ção racial no Brasil é fechar os olhos para a realidade social do país. Na visão do autor, o que diferencia a questão racial nos dois países é que, nos Estados Unidos, a discriminação étnico-racial está ligada às origens genéticas e à ancestralidade do indivíduo (a qual o autor dá o nome de preconceito de origem); no Brasil, a discriminação está mais relacionada a características físicas fenotípicas, ou seja, os indivíduos são discriminados por sua aparência e seu fenótipo (que o autor chama de preconceito de marca). Essa diferença, apesar de parecer sutil e pouco importante, para o autor é fundamental na compreensão de como se institucionaliza o pre- conceito no país. O preconceito de marca, como ocorre no Brasil, tem como característica a subjetividade. Como os critérios de definição dos grupos étnico-raciais dependem de características fenotípicas não clara- mente estabelecidas, a definição de quem faz parte do grupo pode variar de acordo com quem faz o julgamento, podendo divergir da própria per- cepção que o indivíduo tem sobre si. Para Nogueira (2007), a distinção entre brancos, negros, mestiços e indígenas depende da região e do es- tado, do grau de miscigenação do indivíduo e de sua classe social, como mostram Gilberto Gil e Caetano Veloso na letra da música Haiti (1993). Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos Dando porrada na nuca de malandros pretos De ladrões mulatos E outros quase brancos Tratados como pretos Só pra mostrar aos outros quase pretos E são quase todos pretos Como é que pretos, pobres e mulatos E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados (GIL; VELOSO, 1993) 46 Direitos humanos e relações sociais Na concepção de Nogueira (2007), o indivíduo é julgado e classifica- do por seus traços. Assim, mesmo o indivíduo de ascendência negra ou indígena pode ser considerado branco, desde que seu fenótipo apre- sente as características relacionadas ao grupo étnico-racial europeu. O preconceito de marca é, segundo o autor, ligado a questões intelec- tuais e estéticas; o branco é considerado inteligente e belo, enquanto o negro e o indígena são considerados, mesmo que de maneira velada, incompetentes e feios. Ribeiro (2019, p. 13), com base em suas expe- riências pessoais, relata o seguinte: quando eu cursava filosofia, um colega se mostrou muito surpreso por eu ter tirado uma nota maior que a dele num trabalho e sugeriu que era porque o professor gostava de mim. Outro colega insinuou que me daria a parte mais fácil de um trabalho “para me ajudar”. Outra característica do preconceito de marca é que, quando se estabelecem relações interpessoais entre indivíduos de diferentes grupos étnico-raciais, as manifestações de preconceito se tornam me- nos evidentes. Em muitos casos, essa relação é usada como exemplo ou prova de que o indivíduo do grupo étnico-racial dominante não é racista. O vídeo Amiguinho, do grupo de humor Porta dos Fundos, mostra essa realidade diretamente, apresentando um casal branco que luta contra a expulsão de um aluno da escola pelo simples fato de ele ser negro. O texto do vídeo é composto de uma série de frases que podem parecer absurdas, mas que são proferidas cotidianamente no Brasil (AMIGUINHO, 2015). Observe o exemplo. — Sempre que alguém fala para mim que sou racista, digo: Não sou! Inclusive meu filho tem amigo preto, eu recebo preto na minha casa, ele almoça na nossa mesa. — Se você tira o João da minha vida, eu passo a ser racista agora? — Ele era nosso preto ostentação (PORTA DOS FUNDOS, 2015). O vídeo mostra que o sujeito pode manter relações de amizade, ad- miração e respeito para com um indivíduo particular de um grupo mi- noritário e mesmo assim ser preconceituoso contra as demais pessoas desse grupo étnico-racial. Relações étnico-raciais 47 Outra característica do racismo de marca, apontada por Nogueira (2007), é a valorização da miscigenação como forma de aper- feiçoamento da população, mostrando que as ideias eugênicas ainda se encontram na cultura e na sociedade. Para o autor, existe uma ideo- logia de branqueamento da população que perpassa as relações ét- nico-raciais, com base na expectativa de que os grupos minoritários, especialmente os negros e indígenas, poderão desaparecer da popula- ção com a miscigenação. Essa ideologia não diz respeito apenas às características físicas dos indivíduos, mas também pode ser identificada na assimilação de ele- mentos da cultura dos grupos minoritários. Enquanto alguns desses elementos são aceitos, assimilados e incorporados à cultura geral da sociedade, por serem considerados positivos (como a música, a dança e a estética), outros elementos são considerados negativos e são extir- pados até mesmo da cultura do grupo minoritário, tidos como margi- nais e não aceitos socialmente (como elementos da religiosidade e da língua). Mais uma vez, a música Negro Drama, do grupo Racionais MC’s, pode ser usada como exemplo. Vejamos: Inacreditável, mas seu filho me imita No meio de vocês ele é o mais esperto Ginga e fala gíria; gíria não, dialeto [...] Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu [...] Seu filho quer ser preto, ah, que ironia Cola o pôster do Tupac aí, que tal? Que cê diz? Sente o negro drama, vai, tenta ser feliz (NEGRO..., 2002) De maneira irônica e desafiadora, a música mostra como elementos da cultura negra, como o ritmo, a música e as gírias, passaram a ser usados pelos indivíduos de outros grupos sociais, sendo dominantes na cultura popular. Exatamente por serem dissimulados e não serem discutidos abertamente, a discriminação racial e o preconceito não são combatidos de modo intermitente no Brasil. A percepção sobre as ma- nifestações de racismo é episódica, em momentos em que situações de conflito ou de ações deliberadas de discriminação e humilhação são expostas. Essa realidade dificulta a percepção sobre o impacto do racis- mo estrutural que marca a sociedade brasileira. 48 Direitos humanos e relações sociais Almeida (2019) explica que o racismoestá impregnado na estrutu- ra da sociedade brasileira. Mesmo que não se manifeste abertamen- te, por atos ou palavras, a sociedade brasileira é racista. O silêncio ou a inação do indivíduo de qualquer grupo étnico-racial com relação ao racismo estrutural o torna conivente, do ponto de vista ético e moral, com a manutenção do racismo. Para o autor, “a mudança da sociedade não se faz apenas com denúncias ou com o repúdio moral do racismo: depende, antes de tudo, da tomada de posturas e da adoção de práti- cas antirracistas” (ALMEIDA, 2019, p. 52). Da mesma forma que a sociedade reage a episódios racistas sem agir de maneira contundente, para que o racismo estrutural deixe de existir, a reação dos sujeitos discriminados também tende a ser indi- vidual, de acordo com Nogueira (2007). Assim, a ascensão social dos indivíduos dos grupos minoritários possibilita que ele deixe de sofrer com a discriminação e o preconceito. O grupo Racionais MC’s também aborda essa característica do racismo brasileiro: [... ] Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias O dinheiro tira um homem da miséria Mas não pode arrancar de dentro dele a favela São poucos que entram em campo pra vencer A alma guarda o que a mente tenta esquecer [...] [...] Crime, futebol, música, Eu também não consegui fugir disso aí Eu sou mais um (NEGRO..., 2002) Como a discriminação racial impede o acesso aos direitos humanos, inclusive o direito à educação (MUNANGA, 2005), muitas vezes o único caminho para a ascensão social é por meio de competências físicas, como no caso dos esportes, ou culturais, como no caso da música, des- tacados na letra. Porém, como apresentado na música, “a alma guarda o que a mente tenta esquecer”. Mesmo com a ascensão na estrutura das classes sociais, o indivíduo carrega consigo as marcas das discrimi- nações e dos preconceitos que sofreu. Relações étnico-raciais 49 2.3 Cultura afro-brasileira e indígena Vídeo Durante a construção da história brasileira como nação, indígenas e negros foram fundamentais para o desenvolvimento econômico do país. Todavia, do ponto de vista cultural, a contribuição desses grupos étnico-raciais não é devidamente reconhecida, apesar de importantíssi- ma para a formação da cultura brasileira. Para Colares, Gomes e Colares (2010), tanto os povos indígenas quanto as pessoas negras escravizadas foram destituídos dos símbolos de sua cultura e de sua civilização, sen- do obrigados a assimilar e seguir a religião e a cultura do grupo domi- nante, colonizados pela cultura portuguesa e pelo catolicismo. Sena e Souza (2020) apontam que as representações culturais dos grupos dominados, sejam elas representadas pela linguagem, culiná- ria, música, dança e principalmente religiões e mitologias, sobrevive- ram de maneira clandestina, escondidas e disfarçadas em símbolos, ritos e manifestações adaptados à cultura dominante. A sociedade bra- sileira guarda uma relação dicotômica com a cultura negra, pois, ao mesmo tempo em que a discrimina, também a reconhece e a celebra como parte fundamental da cultura brasileira, como bem traduz a mú- sica Olhos Coloridos. Observe. Você ri da minha roupa Você ri do meu cabelo Você ri da minha pele Você ri do meu sorriso A verdade é que você (E todo brasileiro) Tem sangue crioulo (OLHOS..., 1982) A exclusão da produção cultural indígena e negra durante séculos do desenvolvimento cultural brasileiro representa uma grande perda para a sociedade brasileira, pois, de acordo com Sena e Souza (2020), as manifestações artísticas e culturais possibilitam compreender as emoções, as histórias, as vivências e os aprendizados de um povo. As- sim, uma parte significativa da história cultural brasileira foi esquecida e abandonada pela ação opressiva dos grupos sociais dominantes. O extermínio da cultura do grupo étnico formado pelos indígenas da tribo Pater Saruí é o foco do documentário Ex-pajé. As desigualdades sociais, a discriminação racial, o preconceito contra o indígena e sua cultura são exemplificados pela perda da identidade cultural da tribo, dizimada pela invasão de suas terras. Direção: Luiz Bolognesi. Brasil: Buriti Filmes, 2018. Documentário 50 Direitos humanos e relações sociais Mesmo no Brasil contemporâneo, a produção artística das popula- ções negras e indígenas ainda ocupam espaços periféricos e não rece- bem o devido reconhecimento e a valorização como representações legítimas da cultura dos grupos minoritários. Nesse sentido, a letra da música Sr. Tempo Bom, dos rappers Thaíde e DJ Hum, destaca a impor- tância das expressões culturais dos grupos negros. E fui crescendo rodeado pela cultura afro-brasileira Também sei que já fiz muita besteira Mas nunca me desliguei das minhas raízes Estou sempre junto dos blacks que ainda existem [...] Percebi o direito que temos como cidadãos De dar importância à situação Protestando para que achemos uma solução Por isso, o black power permanece vivo Só que de um jeito bem mais ofensivo Seja dançando break ou um DJ no scratch Mesmo fazendo graffiti ou cantando RAP (SR. TEMPO..., 1996) A arte e a cultura dos grupos minoritários têm se fortalecido nas úl- timas décadas, por meio da ocupação de espaços periféricos, especial- mente nas grandes metrópoles. A produção cultural indígena e negra ainda sofre com a invisibilidade, é pouco divulgada pela grande mídia e enfrenta dificuldades para ocupar os espaços oficiais e socialmente re- conhecidos, como teatros e museus. Assim, para se fortalecer, a cultura dos grupos minoritários busca ocupar novos espaços e se posicionar política e socialmente. Nesse sentido, a cultura negra se destaca pela ocupação de espa- ços, a partir das décadas de 1970 e 1980, com o crescimento da cultura do Hip Hop, composta de representações culturais ligadas à música, à dança e às artes visuais, principalmente o graffiti (FOCCHI, 2007). O desenvolvimento da internet e das redes sociais também representa um importante espaço para a divulgação da cultura negra e indígena. Segundo Bueno (2013, p. 14), muitos povos indígenas têm usado a rede para atingir um públi- co grande, dentro e fora do país. Os recursos on-line são usados para romper o isolamento em que muitas comunidades vivem e também para vencer a barreira da falta de espaço que esses povos têm nas mídias tradicionais. A internet possibilita aos in- dígenas divulgar suas culturas e potencialidades de forma mais A importância da internet e dos celulares para a defesa dos direitos e da cultura indígena é o tema do documentário Indígenas Digitais, filmado em grande parte pelos próprios indígenas, de diferentes etnias, prove- nientes de diversos es- tados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste brasileiras. Direção: Sebastian Gerlic. Brasil, 2010. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=T2I7ovB6E7k. Acesso em: 26 abr. 2021. Documentário https://www.youtube.com/watch?v=T2I7ovB6E7k https://www.youtube.com/watch?v=T2I7ovB6E7k https://www.youtube.com/watch?v=T2I7ovB6E7k Relações étnico-raciais 51 independente e autônoma, se fazendo conhecer e dialogando diretamente com a população nacional. Uma parte fundamental da cultura indígena e negra está relaciona- da à rica mitologia e às diversas manifestações religiosas dos diversos grupos étnicos que compõem essas minorias. Segundo Pereira (2019), as religiões de matriz africana e indígena foram e ainda são discrimi- nadas. Por não serem conhecidas, são mal interpretadas, confundidas e percebidas, pela maioria da população, de maneira estereotipada e preconceituosa. Essa visão deturpada gera repulsa, aversão, medo e até mesmo violência contra as manifestações culturais e religiosas das minorias étnico-raciais. Além disso, muitas vezes é alimentada e incentivada pelas instituições que representam os interesses dos gru- pos sociais dominantes, como a mídia, a escola, os partidos políticos, as igrejas cristãs e até mesmo as legislações, reafirmando o racismo estrutural e institucionalizado no Brasil.A religião tem um papel fundamental para a preservação da cultura de povos colonizados e escravizados, pois contribui para a manutenção e a transmissão de seus conhecimentos, histórias, mitologias, língua e repre- sentações culturais. A música, a dança, os termos, as palavras, as deidades e os mitos do povo estão presentes nas manifestações religiosas (LIMA, 2010). No caso dos indígenas, a catequização imposta pelos religiosos católicos ocorreu desde o início da colonização brasileira pelos portu- gueses. Para Sena e Souza (2020), as práticas culturais e religiosas dos povos indígenas foram demonizadas pelo grupo racial dominador. De modo semelhante, as religiões de matriz africana foram perseguidas e proibidas; seus seguidores sofreram e ainda sofrem com a intolerância religiosa (CAMPOS; RUBERT, 2014). Para reparar séculos de exclusão cultural e religiosa dos grupos mi- noritários, Estado e sociedade precisam desenvolver políticas e ações que reconheçam tanto a inclusão econômica e social quanto a aceita- ção e a valorização das culturas negra e indígena. 2.4 Políticas de ações afirmativas Vídeo A música Negro drama, do grupo Racionais Mc’s, retrata o que os séculos de discriminação, negação de direitos e falta de oportunidades causaram nas populações das minorias étnico-raciais. 52 Direitos humanos e relações sociais Periferias, vielas, cortiços Você deve tá pensando O que você tem a ver com isso? Desde o início, por ouro e prata Olha quem morre, então Veja você quem mata Recebe o mérito a farda que pratica o mal Me ver pobre, preso ou morto já é cultural Histórias, registros e escritos Não é conto nem fábula, lenda ou mito (NEGRO..., 2002) Ribeiro (2019, p. 4) aponta que, mesmo garantido por lei, o acesso à educação da população negra escravizada não era uma realidade: É importante lembrar que, apesar de a Constituição do Império de 1824 determinar que a educação era um direito de todos os cidadãos, a escola estava vetada para pessoas negras escraviza- das. A cidadania se estendia a portugueses e aos nascidos em solo brasileiro, inclusive a negros libertos. Mas esses direitos es- tavam condicionados a posses e rendimentos, justamente para dificultar aos libertos o acesso à educação. Reparar todo esse tempo de opressão é algo que demanda tempo e ação, pois gerações e gerações sofreram por toda a sua vida sem ter seus direitos humanos garantidos pela sociedade e pelo Estado. As ações afirmativas são uma importante ferramenta para garantir que os direitos das minorias étnico-raciais do presente e do futuro sejam respeitados. Dias e Freire (2002) explicam que as ações afirmativas incluem tanto políticas públicas desenvolvidas pelo Estado quanto ações de institui- ções privadas, que tem por objetivos combater a discriminação étnico- -racial e promover a garantia dos direitos das populações minoritárias que tenham sido historicamente discriminadas. Como as políticas públicas têm um papel fundamental na imple- mentação das ações afirmativas, mesmo as que são desenvolvidas por instituições privadas, é fundamental, também, definir o que são políti- cas públicas. Segundo Caxito (2020, p. 42), as políticas públicas “mos- tram como o governo enfrenta as questões públicas, quais ações serão tomadas para alcançar objetivos específicos e a forma como essas po- líticas influenciam a vida dos cidadãos”. Ainda segundo o autor, as políticas públicas podem ser classificadas em quatro diferentes formas, conforme mostra a figura a seguir. Relações étnico-raciais 53 Figura 1 Tipos de políticas públicas Políticas distributivas são ações ou decisões do governo com um escopo mais individual, buscando oferecer condições privilegiadas para determinados grupos ou mesmo regiões do país, sem, contudo, serem ações que atingem a totalidade da população. Essa limitação do alcance da política pode advir de uma limitação de recursos ou pode ter o objetivo de oferecer condições especiais para um determinado grupo que precise de incentivos. Podemos citar como exemplos de políticas distributivas os programas de crédito barato para pequenos empreendedores, os incentivos fiscais para alguns tipos de negócios que precisam se desenvolver, ou a realização de obras públicas em comunidades pouco desenvolvidas. Políticas regulatórias são aquelas ligadas a legislações que determinam limites ou obrigações e que envolvem os processos burocráticos, as organizações econômicas e as políticas e os grupos de interesse. Secchi (2012) explica que as políticas regulatórias são aquelas que definem padrões de comportamento, como as leis que obrigam o uso de capacetes por motociclistas, ou as que proíbem o fumo em locais fechados. Políticas redistributivas são aquelas que atingem a população como um todo e que têm aspecto universal. O sistema tributário, as mudanças na previdência e os programas de redistribuição de renda são exemplos dessa forma política. O programa Bolsa Família é um exemplo de política desse tipo, fundamentado no conceito de redistribuir renda usando os impostos cobrados sobre os rendimentos e sobre o consumo das parcelas mais ricas da população a fim de garantir uma renda mínima para as parcelas mais pobres. Políticas constitutivas são as normas e os procedimentos necessários para que as outras políticas públicas sejam colocadas em prática pelo governo. As políticas constitutivas orientam e organizam a formulação e a implementação do programa do governo. Secchi (2012) as chama de meta-policies e explica que esse tipo de política está acima das outras. São exemplos de políticas constitutivas a definição das competências de cada um dos três poderes, o sistema eleitoral e as formas de participação da sociedade civil nas decisões políticas. Fonte: Adaptado de Caxito, 2020, p. 42-43. 54 Direitos humanos e relações sociais As políticas públicas de ação afirmativa são classificadas como uma política distributiva, pois estão direcionadas a um determinado grupo específico, no caso as minorias étnico-raciais, e têm um caráter compen- satório ao incentivar a igualdade de tratamento e de oportunidades, nos âmbitos educacional, profissional e social, para os grupos étnico-raciais que, por motivos históricos, têm sua ascensão social dificultada ou im- pedida (BENTO, 2000). O caráter compensatório das políticas públicas de ação afirmativa, segundo Munanga (2007, p. 1): as chamadas políticas de ação afirmativa são muito recentes na história da ideologia antirracista. Nos países onde já foram im- plantadas (Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Índia, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia e Malásia, entre outros), elas visam ofe- recer aos grupos discriminados e excluídos um tratamento dife- renciado para compensar as desvantagens devidas à sua situação de vítimas do racismo e de outras formas de discriminação. Uma das mais conhecidas ações afirmativas são as cotas raciais que garantem um percentual de vagas nas universidades públicas. Ribeiro (2019) explica que as cotas raciais são necessárias, pois as populações minoritárias têm maior dificuldade de acesso a uma educação de qua- lidade, devido ao racismo estrutural que perpassa toda a sociedade brasileira. Segundo a autora, o alto nível de exigência e a grande quan- tidade de candidatos nos vestibulares das universidades públicas fa- zem com que alunos de alto poder aquisitivo e das classes econômicas superiores (que estudaram em boas escolas nos anos iniciais e tiveram acesso a cursos complementares e experiências, como intercâmbios) tenham vantagens competitivas frente aos indivíduos dos grupos étni- co-raciais historicamente discriminados, o que conclui que essa reali- dade reforça ainda mais o racismo estrutural da sociedade. Dias e Freire (2002), contudo, explicam que as ações afirmativas são muito mais amplas do que o sistema de cotas e incluem ações que visam oferecer condições que proporcionem tanto a inclusão quanto o incentivo ao desenvolvimento pessoal,educacional, profissional e so- cial dos grupos étnico-raciais discriminados. Por outro lado, as ações afirmativas não buscam culpar, prejudicar ou tirar direitos de outros grupos. Como afirma Ribeiro (2019, p. 17), não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a res- ponsabilidade leva à ação. Dessa forma, se o primeiro passo é desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo, o segundo é Relações étnico-raciais 55 criar espaços, sobretudo em lugares que pessoas negras não costumam acessar. As políticas públicas de ação afirmativa também são chamadas de discriminação positiva, segundo Silva Jr. (apud MUNANGA, 1996). O autor explica que o Estado tem o dever constitucional de reduzir as desigual- dades e abolir a marginalização. São também deveres do Estado pro- mover o bem de todos os cidadãos de modo igual, independentemente de origem, raça, credo ou gênero; além disso, deve garantir a integra- ção social dos grupos discriminados. Uma das formas que o Estado usa para cumprir esses deveres são as políticas públicas. Vinagre (2009) afirma que as políticas e as ações afirmativas discriminam positivamen- te, pois possibilitam que dívidas históricas possam ser reparadas. Myers (2003) aponta que as políticas públicas de ação afirmativa cor- rigem as desvantagens concretas, como a falta de acesso à educação, e as desvantagens simbólicas, como a discriminação que profissionais de grupos étnico-raciais minoritários sofrem em processos seletivos de empregos. As ações afirmativas, ainda segundo o autor, também têm o objetivo de promover a equidade de oportunidades. Ribeiro (2019, p. 21) distingue a questão da equidade e a meritocracia: Esse debate não é sobre capacidade, mas sobre oportunidades – e essa é a distinção que os defensores da meritocracia parecem não fazer. Um garoto que precisa vender pastel para ajudar na renda da família e outro que passa as tardes em aulas de idiomas e de natação não partem do mesmo ponto. O artigo Gestão na prática: meritocracia na sociedade é diferente de meritocracia dentro da empresa, do professor Fabiano Caxito, discute o conceito de me- ritocracia e mostra como, na sociedade, garantir a equidade é fundamental para que se possa proporcionar oportunidades a indivíduos que não tiveram as mesmas experiências. Acesso em: 26 abr. 2021. https://www.linkedin.com/pulsemeritocracia-na-sociedade-%C3%A9-diferente-de-dentro-da- empresa-caxito/?originalSubdomain=pt Artigo As políticas públicas de ação afirmativa são um importante instru- mento para diminuir o impacto dos séculos de discriminação e precon- ceito que os grupos étnico-raciais minoritários sofreram e não devem se restringir apenas a ações relacionadas à educação e a questões so- 56 Direitos humanos e relações sociais ciais. Tanto as ações do Estado quanto de instituições privadas são fun- damentais para gerar oportunidades de trabalho e de carreira para os indivíduos que sofrem com o preconceito racial. 2.5 Trabalho, produtividade e diversidade cultural Vídeo Durante os séculos iniciais do desenvolvimento da nação brasilei- ra, a economia teve base na extração de minérios, na agricultura e na pecuária, atividades que dependiam fortemente da mão de obra es- cravizada, inicialmente formada pelas populações nativas e, posterior- mente, por povos escravizados oriundos da África. Depois, durante a transição da economia brasileira para o modelo capitalista, principal- mente com a abolição da escravatura, foi construída uma imagem na sociedade de que o negro e o índio eram indivíduos inferiores e com baixa capacidade de aprendizagem, sendo, portanto, incompatíveis com o trabalho no novo modelo econômico do capitalismo industrial (HASENBALG, 2005; MARTINS, 2014). Martins (2013) aponta que um dos reflexos dessa visão discrimina- tória e preconceituosa foi o incentivo da imigração de europeus, espe- cialmente alemães e italianos, durante as primeiras décadas do século XX, como forma de atração de uma mão de obra vista como mais pre- parada para os desafios da industrialização. Segundo Theodoro (2008), na década de 1920 cerca de 52% dos operários contratados pelas in- dústrias nacionais eram estrangeiros, e uma parcela significativa dos demais operários eram descendentes diretos desses imigrantes euro- peus. A intensa imigração europeia empurrou a população das mino- rias étnico-raciais para o desemprego ou para a atuação em profissões menos valorizadas e mal remuneradas (HASENBALG, 2005). Os reflexos e as consequências dessa política de incentivo à imigra- ção podem ser identificados na sociedade e no mercado de trabalho contemporâneo. A discriminação e o preconceito, presentes nas rela- ções que ocorrem entre empregadores e trabalhadores, remontam ao período da escravidão, e a sua substituição pela mão de obra imigrante dificultou a inserção dos grupos étnico-raciais minoritários no mercado de trabalho e consequentemente na sociedade (OLIVEIRA; PICCININI, 2011; NEGRO; GOMES, 2006). Relações étnico-raciais 57 Diversos estudos mostram como a questão racial está presente no mercado de trabalho contemporâneo. Melo, Araújo e Marques (2003) mostram que tanto as oportunidades de ser escolhido para uma vaga de trabalho quanto a remuneração oferecida são diferentes, de acordo com o grupo étnico-racial do trabalhador. Brancos têm mais chance de serem contratados e recebem salários maiores do que negros, pardos e indígenas. Campante, Crespo e Leite (2004) chegam a conclusões se- melhantes e apontam que a diferença é causada pelo preconceito e pela discriminação, enraizados profundamente no mercado de traba- lho, que enxergam as minorias étnico-raciais como incapazes, incom- petentes e inferiores. Santos e Scopinho (2011) mostram que, mesmo séculos após a abolição da escravatura, os profissionais negros, especialmente os mais jovens, enfrentam grande dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Assim, muitos desses profissionais acabam atuando em trabalhos precários. Segundo estudo desenvolvido por Proni e Gomes (2015), na primeira metade da década de 2010, dois terços dos traba- lhadores informais faziam parte de grupos étnico-raciais minoritários. Já Oliveira (2013) faz uma relação entre raça e gênero e mostra que, se o mercado de trabalho discrimina as minorias étnico-raciais, as mu- lheres negras sofrem ainda mais com o preconceito. Além de sofrerem mais com o desemprego, o trabalho da mulher negra é ainda mais pre- cário e mal remunerado. A pesquisa é corroborada pelos dados coleta- dos por Guimarães (2004), que chega a outra importante conclusão: a quantidade de anos de estudo e a qualificação escolar dos indivíduos de grupos minoritários é menor, e a baixa escolaridade é diretamente relacionada à precariedade do trabalho e ao menor nível salarial. De modo complementar, Vilela e Monsma (2015) concluem que pro- fissionais brancos são mais bem remunerados do que profissionais negros com o mesmo nível educacional e com experiência profissional semelhante. De modo complementar, Cacciamali e Hirata (2005) mos- tram que as mulheres negras, entre profissionais com o mesmo nível educacional, são as que mais são discriminadas no mercado de trabalho. Os dados mostram que a grande maioria dos profissionais que ocupam cargos de gestão e liderança são brancos, enquanto os car- gos operacionais e básicos da estrutura hierárquica são predominante- mente ocupados por minorias étnico-raciais. O canal do YouTube Somos Mais que 1 (#+Q1) conta com palestras cur- tas sobre diversos temas relacionados ao mercado de trabalho. O pales- trante João Diamante, na palestra realizada em outubro de 2017, no Rio de Janeiro, conta a sua história de vida e mostra as dificuldades que um jovem negro enfrenta para se afirmar no merca- do de trabalho. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=oCpGjAZeMSI. Acesso em: 26 abr. 2021. Palestra No site Hypeness, é possível encontrara história em quadrinhos On the plate (De bandeja em português), do australiano Toby Morris. A obra ilustra como a falta de equidade impacta as oportunidades pro- fissionais de dois jovens de diferentes origens étnico-raciais e sociais. Disponível em: https://www. hypeness.com.br/2015/05/ quadrinho-resume-o-porque-de-a- historia-de-que-todo-mundo-tem- as-mesmas-chances-nao-e-tao- verdadeira-assim-2/. Acesso em: 26 abr. 2021. Leitura https://www.youtube.com/watch?v=oCpGjAZeMSI https://www.youtube.com/watch?v=oCpGjAZeMSI https://www.youtube.com/watch?v=oCpGjAZeMSI https://www.hypeness.com.br/2015/05/quadrinho-resume-o-porque-de-a-historia-de-que-todo-mundo-tem-as-mesmas-chances-nao-e-tao-verdadeira-assim-2/ https://www.hypeness.com.br/2015/05/quadrinho-resume-o-porque-de-a-historia-de-que-todo-mundo-tem-as-mesmas-chances-nao-e-tao-verdadeira-assim-2/ https://www.hypeness.com.br/2015/05/quadrinho-resume-o-porque-de-a-historia-de-que-todo-mundo-tem-as-mesmas-chances-nao-e-tao-verdadeira-assim-2/ https://www.hypeness.com.br/2015/05/quadrinho-resume-o-porque-de-a-historia-de-que-todo-mundo-tem-as-mesmas-chances-nao-e-tao-verdadeira-assim-2/ https://www.hypeness.com.br/2015/05/quadrinho-resume-o-porque-de-a-historia-de-que-todo-mundo-tem-as-mesmas-chances-nao-e-tao-verdadeira-assim-2/ https://www.hypeness.com.br/2015/05/quadrinho-resume-o-porque-de-a-historia-de-que-todo-mundo-tem-as-mesmas-chances-nao-e-tao-verdadeira-assim-2/ 58 Direitos humanos e relações sociais Os resultados dos estudos citados mostram a importância das ações afirmativas, tanto as relacionadas à educação quanto as relacionadas à inserção de negros e indígenas no mercado de trabalho. Segundo Ribeiro (2019, p. 24), a lei de cotas para universidades federais, promulgada em 2012, representou uma grande vitória. Uma pesquisa da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Su- perior (Andifes), com base em dados de 2018, mostrou que, nes- sas instituições, a maioria dos estudantes é negra (51,2%); 64,7% cursaram o ensino médio em escolas públicas e 70,2% vêm de famílias com renda mensal per capita de até um salário mínimo e meio. Para a autora, essa mudança ainda não se reflete de maneira sig- nificativa no mercado de trabalho. Porém, a crescente conscientização da sociedade quanto à questão racial e os resultados da implantação das políticas públicas de ação afirmativa, que, apesar de ainda tímidos, já são sentidos na sociedade, têm feito as empresas entenderem que a diversidade étnico-racial da equipe de colaboradores pode se transfor- mar em uma vantagem competitiva. Para Dias e Freire (2002), a diversidade traz muitos benefícios para as empresas, no ponto de vista econômico e na imagem. Segundo os autores, empresas com maior diversidade racial e de gênero têm me- nor rotatividade de colaboradores, além de equipes mais produtivas e satisfeitas; têm sua imagem fortalecida frente ao mercado e à opinião pública e sofrem menos ações trabalhistas. Segundo estudo realizado pelo extinto Ministério do Trabalho e Emprego (BRASIL, 2003), em um mercado cada vez mais globalizado, empresas com maior diversidade étnico-racial estão mais preparadas para compreender as diferentes demandas, bem como os hábitos e comportamentos de consumidores de diferentes culturas e países. As empresas investem para construir uma marca valorizada e re- conhecida pelos clientes que aumente o valor percebido de seus pro- dutos e serviços e fidelize os consumidores (KOTLER; KELLER, 2019). A diversidade étnico-racial mostra para o mercado que a empresa não adota práticas preconceituosas e que atua de maneira consciente, pro- movendo ações afirmativas contra a discriminação. Para Dias e Freire (2002), a promoção da diversidade étnico-racial pelas empresas traz uma série de benefícios, tanto para a empresa quanto para os indiví- duos e para a sociedade. A edição de 2020 do evento #+Q1, realizada em plataforma on-line, em junho de 2020, bus- cou apontar os caminhos para diminuir o desem- prego no Brasil após a pandemia de Covid-19. A palestra, realizada pelo psicólogo Gustavo Borges, teve como título Diversidade étnico–racial: como aproveitar as oportu- nidades. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=0r- 0pT4hDqk. Acesso em: 26 abr. 2021. Palestra https://www.youtube.com/watch?v=0r-0pT4hDqk https://www.youtube.com/watch?v=0r-0pT4hDqk https://www.youtube.com/watch?v=0r-0pT4hDqk Relações étnico-raciais 59 CONSIDERAÇÕES FINAIS Em pleno século XXI, pode parecer absurdo que ainda seja necessário discutir temas como preconceito e discriminação com base em raça ou et- nia, porém, os reflexos de séculos de negação dos direitos humanos dos grupos étnico-raciais minoritários ainda estão profundamente arraigados na sociedade brasileira, diminuindo as oportunidades de inserção social, educacional e profissional de indivíduos desses grupos. As ações afirmativas, sejam elas públicas ou de organizações privadas, têm um papel fundamental para incentivar uma mudança na cultura e na sociedade brasileira. A crescente conscientização da população quanto às questões raciais também colabora para que seja possível, em breve, construirmos uma sociedade fundamentada na igualdade e na equidade. ATIVIDADES 1. Explique o conceito de eugenia. 2. Explique as diferenças entre os termos raça e etnia. 3. Aponte quais ações podem ser tomadas para diminuir a desigualdade racial. REFERÊNCIAS ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019. AMIGUINHO. 2015. 1 vídeo (4 min.). Publicado pelo canal Porta dos Fundos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NxzUU-cZD1o. Acesso em: 26 abr. 2021. BENTO, M. A. Silva (Org.). Ação afirmativa e diversidade no trabalho: desafios e possibilidades. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000. BENTO, M. A. S.; CARONE, I. (org.). Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2002. BENTO, L. C.; SANTOS, L. D. Miscigenação, arianismo e nacionalismo. Fato & Versões-Revista de História, v. 11, n. 22, p. 112-125, 2019. Disponível em: https://trilhasdahistoria.ufms.br/ index.php/fatver/article/view/11408. Acesso em: 26 abr. 2021. BLACK, E. A guerra contra os fracos. São Paulo: A Girafa, 2003. BRASIL. Lei n. 12.288, de 20 de julho de 2010. 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Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade eduas áreas guardam uma profunda relação, visto que é papel do Estado garantir que os direitos das parcelas mais pobres e marginalizadas da população sejam garantidos. Portanto, discutiremos também as origens das legislações que abor- dam os direitos humanos e como elas evoluíram ao longo do tempo, mostrando como se organizam as declarações globais que orientam as legislações nacionais sobre o tema, especialmente no Brasil. 10 Direitos humanos e relações sociais Com o estudo deste capítulo você será capaz de: • conhecer a evolução do conceito de direitos humanos; • compreender a relação entre filosofia, política, legislação e direitos humanos; • acompanhar a evolução do debate sobre direitos humanos no Brasil. Objetivos de aprendizagem 1.1 Origens filosóficas dos direitos humanos Vídeo A discussão sobre os direitos humanos é central em nossa socieda- de contemporânea, marcada por grandes diferenças entre as parcelas mais ricas e as mais marginalizadas da população global. Questões po- líticas, econômicas, raciais, étnicas e sociais dividem os grupos huma- nos a ponto de impedir que uma parcela significativa da humanidade não tenha acesso aos seus direitos mais básicos. No entanto, os debates sobre os direitos individuais não são recen- tes. Na verdade, estão presentes desde os pensamentos dos primeiros filósofos clássicos. Logo, as bases dos conceitos que norteiam as legis- lações quanto aos direitos humanos podem ser rastreadas nas ideias da lei natural e do direito natural. Platão discute a lei natural em alguns de seus diálogos, como em Timeu, no qual o filósofo aponta o indivíduo como um ser social que deve agir de modo justo com os outros indivíduos (MATSUURA, 2019). A lei natural também é discutida por Platão em Górgias, outro de seus diálogos, publicado originalmente por volta do ano 403 a.C. Em uma discussão entre Sócrates e Cálicles a respeito da justiça, Platão (2006, p. 167) define: “não é, portanto, apenas em virtude da lei que é mais feio praticar algum ato injusto do que ser vítima de injustiça, e que a justiça consiste na igualdade, mas também por natureza”. Em uma de suas obras mais importantes, A República, o filósofo aprofunda as discussões sobre a justiça e sobre o que chama de direito natural, utilizando o termo physei dikaion (justo por natureza) para ex- plicar como esse direito é diferente do direito fundado nas leis escritas pelos seres humanos. Segundo Platão (2006), as ações humanas são O vídeo ‘Eu tenho um sonho’, publicado no canal O Tempo, apresenta o discurso realizado por Martin Luther King – líder da luta pelos direitos humanos – no ano de 1963, em Washington, DC, capital dos Estados Unidos, que contou com um público de mais de 250 mil pessoas. Conheci- do como “I have a dream”, o discurso é tido como um dos mais importantes já realizados, tanto pelo momento pelo qual pas- sava a luta pelos direitos dos negros americanos quanto pelo impacto que causou às discussões sobre a legislação segre- gacionista. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=aWlhPFHOl-Y. Acesso em: 21 maio 2021. Vídeo Bases históricas dos direitos humanos 11 mutáveis e individuais, portanto o direito humano é diferente do di- reito natural, que é sempre igual e imutável para todos (NEIVA, 2011). A discussão sobre o physei dikaion está presente também na obra Ética a Nicômaco (ARISTÓTELES, 2009), em que Aristóteles discute os conceitos de justiça e equidade. Para o filósofo, equidade e justiça es- tão interligadas. Contudo, não é possível afirmarmos que tudo o que é lei seja totalmente pleno e justo, pois não abarca todas as possibilida- des e realidades de todos os indivíduos. Mesmo que as leis desenvol- vidas pelo grupo social sejam justas, nem tudo que é justo, do ponto de vista da natureza humana e das relações sociais, é abarcado pela lei. Dessa forma, o direito natural deve estar acima dos códigos legais desenvolvidos pela sociedade (MIRANDA FILHO, 2013). São Tomás de Aquino (2005), um dos principais filósofos católicos, retoma o tema dos direitos naturais em Suma Teológica, obra na qual discute as diversas modalidades da lei e as classifica em quatro diferen- tes tipos – lei eterna, lei natural, lei humana e lei divina positiva. A lei eterna é aquela que está relacionada a Deus e dirige os atos dos indivíduos. Já a lei natural, segundo Aquino (2005), surge da relação entre a lei eterna e a ação moral do ser humano racional. Enquanto a lei eterna é infinita, a lei natural é finita e temporal, por se relacionar à humanidade e ao grupo social. A lei natural é, para o filósofo, a mani- festação da lei eterna no indivíduo, que possibilita a ele poder distin- guir entre o bem e o mal. Para que os princípios e as normas éticas da lei eterna e da lei natural possam ser colocados em prática no cotidiano das relações humanas, é necessário que sejam transcritos e traduzidos para regras específicas e normas explícitas. Essa é a origem da terceira lei, a lei humana, um ordenamento jurídico que possibilita a convivên- cia em sociedade. Como filósofo católico, Aquino (2005) desenvolve um quarto tipo de lei, a denominada lei divina positiva. Para ele, essa lei é necessária para que o ser humano seja virtuoso e possa agir tanto de acordo com a lei eterna quanto com a lei natural, e isso depende de ele receber ou não a revelação divina. O ser humano é falho e para ter a certeza de que suas ações não sejam fundamentadas em juízos equivocados, deve seguir a lei divina. As leis humanas dizem respeito apenas aos atos externos que ocorrem nas relações humanas. Entretanto, para ser virtuoso, o ser humano precisa seguir internamente os ensinamentos e as regras 12 Direitos humanos e relações sociais divinas. De acordo com o filósofo cristão, a lei humana não consegue controlar e castigar todos os males realizados pelo indivíduo. Assim, a lei divina pune aqueles que não são julgados pela lei humana. Aquino – assim como outro importante filósofo católico da idade medieval, Santo Agostinho – estabelece uma relação entre o direito na- tural, discutido pelos filósofos gregos, e a fé cristã, mostrando que a lei divina e a lei eterna são a base sobre a qual se estabelece a lei natural, que coloca todos os seres humanos como iguais. A lei humana, por ser imperfeita e incompleta, não garante que essa igualdade seja colocada em prática. Por isso, os direitos hu- manos, apesar de serem um direito de todos os indivíduos, não são totalmente garantidos pela lei humana. Martin Luther King Jr., um dos mais proeminentes líderes na luta pelos direitos humanos no século XX, apoiou algumas de suas ideias nessa visão da filosofia católica da era medieval, tanto nas ideias de Santo Agostinho quanto nas de São Tomás de Aquino. Conforme King: “todos os estatutos da segregação são injustos porque a segregação distorce a alma, prejudica a personalidade, dá ao segregacionista um sentido falso de superioridade e ao segregado um sentido falso de in- ferioridade” (KING, 1970 apud MIRANDA FILHO, 2013, p. 18). Para Miranda Filho (2013), estão presentes nas ideias e na luta de King aspectos relacionados à lei eterna e à lei natural. A lei humana, no momento histórico no qual se dá a luta de King, não garante a igual- dade, pois é segregacionista. Para o líder, só com o total respeito ao direito de todos os indivíduos, com equidade e justiça, a lei humana se aproximaria da justiça divina e natural. Durante a evolução da história humana, a ideia de igualdade entre os indivíduos não era comum. A existência da escravidão e a separação da sociedade em cidadãos que gozavam de plenos direitos e classes inferiores ou escravizadas era comum na sociedade grega, no desen- volvimento do Império Romano, assim como no Oriente. Nos estados absolutistas europeus, o poder econômico e político estava centralizado nas mãos dos nobres. Essa segregação entre os que tinham acesso aos direitos e aqueles a quem esses direitos eram negadosetnia. In: 3º SEMINÁRIO NACIONAL RELAÇÕES RACIAIS E EDUCAÇÃO PENESB-RJ. Anais [...]. Rio de Janeiro, 2003. MUNANGA, K. Superando o racismo na escola. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005. MUNANGA, K. Políticas de ação afirmativa em benefício da população negra no Brasil: um ponto de vista em defesa de cotas. Sociedade e cultura, v. 4, n. 2, 2007. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/fchf/article/download/515/464. Acesso em: 26 abr. 2021. MUNANGA, K. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. 5. ed. São Paulo: Editora Autêntica, 2019. MYERS, A. O valor da diversidade racial nas empresas. Estud. afro-asiát., Rio de Janeiro, v. 25, n. 3, p. 483-515, 2003. 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Os reflexos dos preconceitos e da discriminação baseados tanto no gênero quanto na sexualidade se fazem sentir nos mais diversos aspectos da vida social, como no mercado de trabalho, no acesso à saúde e à educação, na segurança contra a violência e na participação política e social. Na primeira parte deste capítulo vamos apresentar conceitos de sexualidade e de diversidade sexual, abordando as construções histó- rico-sociais da estrutura patriarcal centrada na heteronormatividade que caracteriza nossa sociedade. A segunda parte do capítulo vai aprofundar a discussão sobre iden- tidade de gênero e orientação sexual, discutindo os aspectos biológi- cos, psicológicos e sociais das classificações utilizadas nas discussões sobre os direitos humanos dos grupos minoritários. A terceira parte vai tratar do movimento feminista e sua busca pelos direitos da mulher em uma sociedade centrada na figura do homem como detentor dos poderes político, econômico e social. Também será mostrada a trajetória do movimento feminista e as lutas atuais pelos direitos femininos. A parte final discutirá o movimento LGBTQIA+ e as conquistas obti- das na luta pelos seus direitos. Em um dos países em que mais se mata pessoas LGBTQIA+, o mais básico dos direitos humanos – o direito à vida – ainda é negado a essas pessoas. 64 Direitos humanos e relações sociais Com o estudo deste capítulo você será capaz de: • compreender os conceitos de sexualidade e diversidade sexual; • reconhecer as diversidades sexual e de gênero; • refletir sobre as relações de normatividades de gênero e sexo na sociedade e no Judiciário em especial; • conhecer o papel dos movimentos feministas e LGBTQIA+ nas conquistas dos direitos humanos. Objetivos de aprendizagem 3.1 Sexualidade e diversidade sexual Vídeo Para que se possa discutir os direitos humanos dos grupos sociais mi- noritários relacionados ao gênero e à sexualidade, é fundamental apresen- tar alguns conceitos básicos que serão utilizados no decorrer do capítulo. O conceito de gênero, segundo Heilborn e Rodrigues (2018), evoluiu a partir do ponto de vista biológico, baseado na divisão dos indivíduos de uma determinada espécie em machos e fêmeas, para uma visão cultural e social. Nesse sentido, os indivíduos de um grupo social são ensinados a agir e se comportar de certo modo no grupo social, de acordo com um roteiro e um papel preestabelecido e considerado cultural e socialmente aceito pelo grupo. Assim, ao nascer com determinadas características anatômicas e bio- lógicas, o individuo é educado, desde o início da sua socialização, para cumprir determinados papéis e se portar de determinada forma. Des- vios quanto a essa conduta esperada são considerados transgressões ao arranjo social. Essa visão biológica do gênero do indivíduo pode ser demonstrada, segundo Preciado (2015), pelo trabalho do psicólogo John Money, desen- volvido durante a década de 1950, nos Estados Unidos, com crianças in- tersexo, ou seja, crianças nascidas sem a formação dos órgãos genitais. Para John Money, o sexo da criança deveria ser definido com base em uma análise genética e na aparência dos órgãos sexuais. A teoria de atribuição do sexo desenvolvida por Money orientou a prática médica durante décadas. Para Preciado (2015), a forma de definição de sexo es- tabelecida por Money é heteronormativa e baseada na visão de que só existem dois gêneros, definidos pelos órgãos sexuais do indivíduo. heteronormativo: que estabelece como norma a heterossexualidade e a instituição de categorias distintas, rígidas e comple- mentares de masculino e feminino, ou que é relati- vo a heteronormatividade. Glossário Gênero e sexualidade 65 Porém, essa divisão biológica entre homens e mulheres não é capaz de refletir toda a diversidade que envolve a sexualidade humana. Para Finco, Souza e Oliveira (2017), o conceito da sexualidade inclui aspectos biológicos, questões psicológicas do indivíduo, representações culturais, históricas e comportamentais do grupo social do qual ele faz parte; esses aspectos influenciam os aprendizados formais e informais sobre os com- portamentos tidos como aceitos ou esperados pelo grupo. Weeks (2018) corrobora essa visão sobre o conceito de gênero ao afirmar que as expressões da sexualidade são produtos da cultura de cada grupo social. O autor destaca, porém, que os papéis sociais espera- dos dos indivíduos de cada gênero não são fixos ou iguais em todos os grupos sociais e divergem de acordo com as circunstâncias, a cultura e o momento histórico de cada grupo social. Um exemplo dessa diversidade dos papéis sociais de gêneros em di- ferentes sociedades são os hijras, que, segundo Corrêa (2020), são uma comunidade presente em diversos países do subcontinente indiano, como a Índia e o Paquistão. O autor explica: “Vestidas comumente em trajes femininos, as hijras são indivíduos que nasceram com o sexo bio- lógico masculino – ou também mulheres que não possuem a capacidade de menstruar e, logo, de reproduzir” (CORRÊA, 2020, p. 278). A existência de grupos sociais como as hijras mostra que a divisão en- tre gêneros e os papéis sociais de cada um deles dependem de aspectos culturais e históricos de cada grupo social, como aponta Weeks (2018). Para Foucault (2017), as expectativas sobre papéis, posturas e comporta- mentos que homens e mulheres devem ocupar na sociedade reafirmam as relações e as estruturas de poder do grupo social. A visão da sexualidade heteronormativa, para Foucault (2017), é uma ferramenta construída pela sociedade ocidental nos últimos séculos como forma de controle e poder dos grupos sociais dominantes. Ela está presente tanto nos discursos, normas e comportamentos quanto nas práticas legais e sociais que orientam a sociedade. Finco, Souza e Oliveira (2017, p. 110) afirmam: a sexualidade é mais que uma questão pessoal, é social e é po- lítica, resultante de um processo de aprendizagem que se dá ao longo do processo de socialização e está intimamente rela- cionada ao modo como as relações de gênero estão organiza- das em um determinado contexto, servindo para constituir os sujeitos subjetivamente. O documentário Shabnam Mousi é baseado na bio- grafia da política indiana Shabnam Mousi, que lutou pelos direitos dos hijras, considerados, tanto social quanto legalmente, como um terceiro sexo na sociedade indiana. Apesar de serem aceitos, cumprirem um papel na estrutura social e terem parte de seus direitos garantidos pela legislação, principalmente a partir da luta de Shabnam, os hijras ainda sofrem preconcei- tos e discriminação. Direção: Yogesh Bhardwaj. India: Bollywood Films & Entertainments, 2005. Documentário 66 Direitos humanos e relações sociais Os discursos heteronormativos apontados por Foucault (2017) estão presentes nos mais variados grupos e ambientes sociais, a começar pela própria família, que muitas vezes critica e pune comportamentos por es- tarem em desacordo com as atitudes que são esperadas para o gênero daquele indivíduo. Esse julgamento se dá também em outros ambientes nos quais o in- divíduo está inserido em seu cotidiano, como a escola, o grupo de amigos e os ambientes profissionais. Em um ambiente mais geral, os discursos heteronormativos estão presentes também na mídia, nas comunidades religiosas e nos serviços públicos que negam atendimento ou discrimi- nam aqueles que não se enquadram na dualidade sexual homem/mu- lher, como na área de saúde e nos serviços de apoio social. Como instrumento de dominação social, a heteronormatividade tem o papel de definir não apenas como os indivíduosde cada gênero devem se comportar, mas também como deve ser a prática sexual de cada gê- nero. Não se trata de negar que a dimensão biológica tem uma influên- cia profunda sobre a sexualidade, mas a prática da vida sexual envolve também aprendizados, experiências, vivências e emoções do histórico de vida de cada indivíduo. 3.1.1 Questões de gênero Os conceitos de gênero e sexualidade não se refletem apenas na dis- criminação e no preconceito social contra indivíduos que não seguem os papéis heteronormativos esperados. Segundo Louro (2013), os papéis sociais masculinos e femininos são definidos de acordo com as caracte- rísticas de cada cultura e sociedade. Para a autora, a ideia de que o gênero masculino é mais forte, inteli- gente e poderoso do que o gênero feminino está embutida nesses con- ceitos, de gênero e sexualidade, realizando-se na prática do machismo e na estruturação de uma sociedade patriarcal. As mulheres, na grande maioria das sociedades e culturas contemporâneas – notadamente nas culturas ocidentais patriarcais e machistas –, são socialmente colocadas em uma posição de inferioridade, subordinação e dependência em rela- ção aos papéis masculinos. Essa estrutura social reflete uma ideologia de poder masculino passada de geração em geração. Para Amaral et al. (2016), os padrões culturais, nessas sociedades, definem o homem como provedor do núcleo familiar e atribui caracte- A letra da música Flutua, cantada por Johnny Hooker, mostra como o discurso heteronor- mativo está presente na sociedade. Ao relatar um romance entre dois homens, a letra diz: O que vão dizer de nós? Seus pais, Deus e coisas tais Quando ouvirem rumores do nosso amor? Baby, eu já cansei de me esconder Entre olhares, sussurros com você Somos dois homens e nada mais Eles não vão vencer Ao mostrar um casal homossexual sendo agredido, o clipe mostra a discriminação pala além das palavras. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=mYQd7HsvVtI. Acesso em: 25 jun. 2021. Música https://www.youtube.com/watch?v=mYQd7HsvVtI https://www.youtube.com/watch?v=mYQd7HsvVtI https://www.youtube.com/watch?v=mYQd7HsvVtI Gênero e sexualidade 67 rísticas como virilidade, inteligência, liderança, força física e capacidade de tomada de decisão como ligadas intrinsecamente à masculinidade. Já a mulher deve apresentar características como beleza, sensualidade, amabilidade e submissão. O papel social da mulher nesses contextos, segundo os autores, é de subordinação ao homem, a quem deve ser fiel e dedicada, e seu principal objetivo de vida deve ser a maternidade. Os papéis sociais definidos pela heteronormatividade estão, portan- to, ligados tanto a questões de sexualidade e gênero quanto a questões de poder e controle social. Para Miskolci (2009, p. 156-157): a heteronormatividade é um conjunto de prescrições que funda- menta processos sociais de regulação e controle, até mesmo aque- les que não se relacionam com pessoas do sexo oposto. Assim, ela não se refere apenas aos sujeitos legítimos e normalizados, mas é uma denominação contemporânea para o dispositivo histórico da sexualidade que evidencia seu objetivo: formar todos para serem heterossexuais ou organizarem suas vidas a partir do modelo su- postamente coerente, superior e “natural” da heterossexualidade. Segundo Butler (2003), os indivíduos que não se enquadram na nor- ma heterossexual são marginalizados e tidos como transgressores pelo grupo social, assim como as mulheres são oprimidas e têm seus direitos diminuídos ou negados. A organização da sociedade, com base na visão heteronormativa, abre espaço para que surjam discriminações e precon- ceitos baseados no gênero e nas identidades de gênero, na sexualidade, na diversidade sexual e na orientação social. 3.2 Identidade de gênero e orientação sexual Vídeo Corresponder às expectativas que são criadas com base nos papéis sociais definidos pela heteronormatividade traz desafios para os indi- víduos cuja sexualidade corresponde ao seu gênero biológico. Nessa visão idealizada dos gêneros, homens não choram, devem ser viris, não podem usar determinados tipos de roupas nem ter preocupações es- téticas. Por outro lado, mulheres precisam ser femininas, precisam se vestir de maneira recatada, devem ter como principal objetivo se casar e ter filhos e não podem exercer determinadas profissões. Simões e Facchini (2009) chamam de estratégia de diferenças essa determinação de papéis de acordo com o gênero. 68 Direitos humanos e relações sociais Se para os indivíduos cisgênero 1 a heteronormatividade já traz desafios, para aqueles cujo gênero biológico não corresponde à sua identidade de gênero, ou seja, os transgêneros, os desafios são infini- tamente maiores e mais amplos. Para entender os conceitos de cisgênero e transgênero, é neces- sário conhecer o conceito de identidade de gênero. Para Jesus (2012), a representação social dos gêneros masculino e feminino é carregada de convenções e comportamentos reconhecidos pelo grupo social, com base no sexo biológico e na genitália do indivíduo. Porém, não necessariamente a construção e a percepção do próprio indivíduo sobre sua identidade estão alinhadas a essas características físicas e biológicas. Para Simões e Facchini (2009), as identidades de gênero são cons- truídas por meio das experiências, vivências e emoções de cada in- divíduo. Apesar de estarem relacionadas, a identidade de gênero e a orientação sexual nem sempre estão alinhadas. As orientações sexuais, segundo Souza Filho (2018), são plurais e estão relacionadas a expressões dos desejos emocionais e sexuais do indivíduo. Para o autor, as orientações sexuais não são necessaria- mente fixas: o indivíduo, independentemente de se identificar como cisgênero ou transgênero, pode ter diferentes orientações sexuais, e estas podem se modificar durante a vida. Simões e Facchini (2009) destacam que, da mesma forma que os gêneros e a sexualidade socialmente aceitos são definidos histórica e culturalmente em cada grupo social, as identidades de gênero e orien- tações sexuais também são construídas socialmente. Assim, o que se espera com base na cultura heteronormativa e cisnormativa é que os indivíduos desejem sexualmente e se relacionem apenas com indi- víduos do sexo e do gênero oposto. Porém, segundo os autores, no plano do indivíduo, nem sempre esses elementos caminham juntos. As normas sociais e os comportamentos socialmente aceitos e va- lorizados buscam disciplinar e controlar as expressões de identidade de gênero e orientação sexual por meio de constrangimentos, discri- minações e preconceitos. A busca pelo espaço de expressão e pela aceitação social de indivíduos de diferentes identidades de gênero e orientações sexuais se torna, assim, instrumento político e social im- portante para que os direitos humanos sejam respeitados. Segundo Jesus (2012), o conceito de cisgênero foi desenvolvido na década de 1990 para designar indivíduos que se identifi- cam com o sexo biológico e gênero que lhes foram atribuídos no nascimento. 1 O documentário Disclosure: ser trans em Hollywood foi produzido por pessoas trans e apresenta um olhar profundo sobre a importância da represen- tatividade transgênera em filmes e na televisão. Tam- bém é discutido como a versão hollywoodiana tem impactado a vida dessas pessoas. Direção: Sam Feder. USA: Netflix, 2020. Filme Gênero e sexualidade 69 Para Louro (2013), a afirmação e o posicionamento público da identidade sexual dos indivíduos não heterossexuais e cisnormativos são fundamentais para que se construa uma sociedade mais justa e inclusiva, tanto no que diz respeito à diversidade de gênero quanto aos direitos das mulheres. O trabalho de Judith Butler é fundamental para a discussão sobre os conceitos de sexualidade, gênero, identidade de gênero e orien- tação sexual e sua relação com a sociedade, a cultura, a política e os direitos humanos. Para a filósofa, os movimentosque lutam pe- los direitos humanos relacionados ao gênero e à sexualidade, ao não aceitarem se ajustar à heteronormatividade e aos papéis sociais de- terminados para os gêneros, rompem as estruturas de poder e de do- minação social fazendo com que mulheres e pessoas com diferentes identidades de gênero e orientações sexuais tenham voz e espaço na sociedade (BUTLER, 2013). Para Louro (2013), ao criarem regras e comportamentos que de- vem ser seguidos, a heteronormatividade e a cisnormatividade geram as condições para que surjam indivíduos e movimentos que descons- truam e enfrentem essas regras. A conexão entre política, poder, gênero e sexualidade, apontada por Butler (2013), originou os movi- mentos feministas e LGBTQIA+ (conforme box a seguir), que buscam estabelecer mudanças na estrutura social – na qual a heteronormati- vidade é considerada não apenas como padrão, mas também como fonte de privilégios para os que nela se enquadram. A sigla LGBTQIA+ é formada pelas letras iniciais das palavras lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, queer, intersexuais e assexuais, além do símbolo “+”, que busca incluir todas as demais orientações sexuais e identidades de gênero. Ela é usada pelos movimentos de defesa e luta pelos direitos e pela inclusão social de indivíduos que não se enquadram nos conceitos de heterossexualidade e cisgeneralidade. O movimento LGBTQIA+ será estudado na quarta parte deste capítulo. Jackson (2006) aponta que as regras e normas relacionadas às questões de gênero definem um estilo de vida e comportamento ti- dos como normais, que incluem a submissão feminina e a exclusão social de indivíduos não heterossexuais, que sofrem discriminação, exploração, preconceito e desigualdade social e de direitos. Já Rich (2010) explica que a centralidade do papel do homem heterossexual na sociedade diminui os espaços e a representatividade social, cultu- ral e política de mulheres e de indivíduos LGBTQIA+. O documentário Questão de Gênero mostra o cotidiano de pessoas que não se identificam com seu gênero de nascimen- to. Durante um ano, a produção acompanhou a vida, as lutas, os conflitos, os preconceitos e as dis- criminações pelas quais passam sete pessoas que buscam apenas viver de acordo com sua própria identidade. Direção: Rodrigo Najar. Produção: Coletivo Catarse. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=_0fv4VZ5aiM. Acesso em: 28 jun. 2021. Documentário O documentário Os tabus sociais na percepção de gêneros e papéis sexuais mostra como os conceitos de gênero, sexualidade, identidade sexual e orien- tação sexual são pouco compreendidos pela maioria das pessoas, além de discutir, com base em conceitos psicológicos, filosóficos e legais, as vi- sões e normas presentes na sociedade. Direção: Julia Balthazar. Bra- sília: CEUB, 2017. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=8wDzXSlrs- 5Q&t=317s. Acesso em: 25 jun. 2021. Documentário https://www.youtube.com/watch?v=_0fv4VZ5aiM https://www.youtube.com/watch?v=_0fv4VZ5aiM 70 Direitos humanos e relações sociais 3.3 Movimentos feministas Vídeo Para que se possa entender e discutir o surgimento e o desenvolvi- mento dos movimentos feministas, é necessário entender o conceito de patriarcado, pois é com base na estrutura da sociedade em que o homem está no centro do poder político, econômico e social que a luta pelos direitos da mulher se faz necessária. Segundo Costa (2017, p. 3): o termo “patriarca” é primeiramente encontrado no Antigo Tes- tamento, como governo paternal de uma família, tribo ou igreja; “patriarcado” é uma categoria sociológica ou antropológica (mas poderíamos também dizer filosófica e política) a partir da qual se concebe um modo específico de organização social, a saber, uma or- ganização em que o homem mais velho tem a autoridade máxima. A origem histórica do termo, destacada por Costa (2017), mostra que o patriarcado se estabeleceu desde os primeiros momentos do de- senvolvimento das sociedades humanas. O poder e ascensão do homem sobre a mulher, os filhos e os fami- liares, como explica a autora, passou a ser replicado para a sociedade em geral. As mulheres, nessa organização familiar, deviam adotar uma postura de submissão e obediência, assim como também deviam ser submissas na estrutura da sociedade como um todo. Como afirma Saffioti (2015, p. 33), o poder social, econômico e po- lítico é “macho, branco e, de preferência, heterossexual”. Apesar de a autora incluir em sua definição questões relativas à orientação sexual e à raça, o uso do termo patriarcado para definir a centralização do poder social na figura do homem surgiu dos movimentos de defesa e luta pelos direitos das mulheres, que compreendem o patriarcado como a forma de organização social baseada na dominação masculina de modo sistemático, impedindo que as mulheres ocupem posições sociais, profissionais e políticas (COSTA, 2017). A organização da sociedade com base no patriarcado coloca as mu- lheres em uma posição em que seus direitos são negados ou diminuídos e abre espaço para que sofram preconceito, discriminação e violência. A dominação do homem sobre a mulher se dá não apenas no plano polí- tico e social, mas também econômico. Durante séculos, as mulheres fo- ram excluídas do mercado de trabalho, sendo totalmente dependentes financeiramente da figura do patriarca da família, seja o pai ou o marido. A frase “que comece o matriarcado” se tornou mundialmente conhecida depois de uma fala da personagem Nairobi, da série La Casa de Papel, produzida pela Netflix. Essas palavras represen- tam o anúncio do início da liderança da personagem na trama e também foram vistas como uma espécie de representação do poder feminino. Saiba mais Gênero e sexualidade 71 Essa posição histórica de submissão social e política e de dependên- cia econômica, para Saffioti (2015), serve aos interesses das classes e do gênero dominantes. Assim, o poder e o controle sobre as mulheres – base do patriarcado – são expressos no cotidiano das relações sociais por meio do machismo e do sexismo, ou seja, pelo preconceito e pela discriminação em relação à mulher, bem como pela perpetuação dos privilégios masculinos. O feminismo surge exatamente como uma resposta à centralidade da figura masculina na sociedade. Tiburi (2018, p. 5) define o feminis- mo como “o desejo por democracia radical voltada à luta por direitos daqueles que padecem sob injustiças que foram armadas sistematica- mente pelo patriarcado”. Já Alves e Pitanguy (2017) apresentam uma definição mais filosófica do que é o feminismo. Para as autoras, o feminismo está relacionado à construção de uma sociedade que não seja hierarquizada por gêne- ro ou sexo, na qual as estruturas e relações de poder, os espaços de participação social, econômica e política sejam igualmente distribuídos entre todos. Silva, Mata e Silva (2017) explicam que a luta pelos direitos da mulher sempre esteve presente no desenvolvimento histórico da sociedade, mas alguns marcos históricos são fundamentais para que se entenda o movimento feminista. Para as autoras, as origens do feminismo re- montam ao Iluminismo e a momentos históricos, como a Revolução Francesa e a Independência americana. Porém, para Pinto (2010), o movimento feminista como uma força organizada surgiu no fim do século XIX, com as lutas das mulheres in- glesas pelo direito ao voto. As sufragistas – mulheres que organizavam manifestações pedindo o direito de participar das decisões políticas da sociedade – representaram o primeiro movimento organizado pelos direitos da mulher. Apesar de ser uma luta por um direito específico, o movimento sufragista expôs a situação de negação dos direitos das mulheres, dando origem aos movimentos feministas. No Brasil, o direito ao voto foi conquistado pelas mulheres na dé- cada de 1930, o que colocou o país à frente dos direitos femininos, pois a grande maioria das nações ainda não garantia o direito ao voto femininonaquele momento (PINTO, 2010). O matriarcado, que pode ser entendido como a estrutura social na qual as mulheres se encontram em posição de poder, é tema do filme Eu não sou um homem fácil, produzi- do pela Netflix. Nele, um homem criado em uma sociedade patriarcal se muda para uma local em que o poder é exercido pelas mulheres. Diversas situações aparentemente cômicas mostram de modo contundente como a sociedade é machista e sexista. Direção: Éléonore Pourriat. França: Autopilot Entertainment, 2018. Filme 72 Direitos humanos e relações sociais Segundo Miguel e Biroli (2014), a partir da década de 1950, após a Segunda Guerra Mundial, as mulheres passam a ter, nos países ociden- tais, uma participação maior na sociedade, conquistando espaços na política e na economia. A luta dos movimentos feministas, antes direcionada à questão do voto, passou a incluir novas demandas por direitos relacionados à in- serção no mercado de trabalho, à garantia de direitos relacionados à saúde e à maternidade, assim como a uma nova posição da mulher na sociedade. Ainda segundo Miguel e Biroli (2014), a partir da década de 1980, o feminismo passou, globalmente, por uma profunda transformação, que envolvia tanto o desenvolvimento de uma base teórica e conceitual quanto a organização de entidades internacionais com o objetivo de lutar pela universalização dos direitos da mulher. No Brasil, a luta do movimento feminista, segundo Saffioti (2015), estava centrada na regulamentação legal dos direitos da mulher, nas mais variadas esferas da vida, como a economia, a educação, a saú- de, o mercado de trabalho, a política e a sociedade. A autora destaca, também, a luta pela criação de leis de proteção à mulher em relação à violência, principalmente aquela cometida dentro das próprias famílias por parentes e cônjuges. Nesse sentido, segundo Pitanguy (2017), a Constituição brasileira, promulgada em 1988, representa uma mudança de paradigma em re- lação aos direitos femininos. A autora destaca, no texto da Constitui- ção, dois artigos fundamentais, sendo um deles o artigo 5º, inciso I, que estabelece a igualdade entre homens e mulheres como um direito fundamental: Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros resi- dentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição. (BRASIL, 1988) Já o artigo 226, parágrafo 5º, estabelece que a igualdade entre ho- mens e mulheres também deve ocorrer no âmbito familiar: “Art. 226º. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 5º - Os Inspirado na luta das mulheres inglesas pelo direito ao voto, o filme As sufragistas, baseado em fatos e personagens reais, mostra as ações e as manifestações que deram origem aos movimentos feministas na transição entre os séculos XIX e XX. As manifestações, a princípio pacíficas, não foram suficientes para que as mulheres obtives- sem os direitos políticos pelos quais lutavam. O movimento passa a adotar ações mais radicais com o objetivo de atrair a atenção da sociedade para a causa. Direção: Sarah Gavron. Reino Unido: Pathé; Film 4, 2015. Filme Gênero e sexualidade 73 direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igual- mente pelo homem e pela mulher” (BRASIL, 1988). Para Pitanguy (2017), as conquistas relacionadas aos direitos da mu- lher na Constituição brasileira de 1988 foram resultado direto da luta de grupos relacionados ao movimento feminista, dentre eles o Conse- lho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM). Os avanços na legislação brasileira, segundo Amâncio (2013), con- tribuíram para que as mulheres ocupassem cada vez mais espaços na política, na sociedade e na economia, bem como fortaleceram a atua- ção dos movimentos feministas. Saffioti (2015) também destaca a importância dos movimentos fe- ministas na conscientização das mulheres em relação aos seus direitos. Para a autora, mais do que apenas garantir os direitos femininos, os movimentos feministas construíram uma nova postura da mulher na sociedade brasileira: aquela que busca ocupar seus espaços em todas as dimensões da sociedade, assumindo papéis sociais que antes eram desempenhados apenas por homens. Apesar de todas as conquistas legais obtidas pelas mulheres nas úl- timas décadas, a colocação desses direitos na prática ainda está longe de ser uma realidade na sociedade brasileira. Um exemplo significativo dessa realidade pode ser observado no mercado de trabalho. Os dados sobre atuação profissional, níveis salariais e cargos ocupados no merca- do de trabalho mostram que as mulheres ainda sofrem com o precon- ceito, a discriminação e a negação de direitos – até quando ocupam as mesmas posições profissionais as mulheres acabam sendo subordina- das a cargos ocupados por homens, além de serem mal remuneradas. Algumas profissões são percebidas como exclusivamente masculi- nas, enquanto outras são vistas como essencialmente femininas. Em geral, as profissões tidas como femininas são remuneradas em níveis menores do que aqueles registrados entre as profissões masculinas. Um exemplo dessa divisão entre profissões masculinas e femininas é dado por Iamamoto (2017) ao discutir a profissão de assistente social. Para a autora, a profissão é vista como feminina desde seus primór- dios, ligada às ações de caridade desenvolvidas pelas esposas e filhas de homens em posição de poder político e econômico. 74 Direitos humanos e relações sociais A prática daquilo que a autora chama de primeiro-damismo, ou seja, a atuação da primeira-dama (esposa do político que detém o Poder Executivo) em ações sociais, mostra como a profissão é ligada à figura da mulher. Um estudo desenvolvido por Madalozzo e Artes (2017) sobre a se- gregação profissional de acordo com o gênero mostra que, na socie- dade brasileira, existem profissões que são consideradas masculinas e outras, femininas. A escolha profissional tem um impacto direto sobre o nível salarial do trabalhador. O quadro a seguir mostra a classificação proposta pelos autores, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar, realiza no ano de 2013. Quadro 1 Classificação dos segmentos de indústria com relação às categorias ocupacionais feminina, integrada ou masculina Fonte: Adaptado de Madalozzo; Artes, 2017, p. 2. SEGMENTOS CLASSIFICAÇÃO construção masculina comércio integrada alojamento integrada transporte masculina administração masculina educação feminina doméstica feminina social feminina outras indústrias masculina outras atividades integrada Para definir a classificação de cada profissão, os autores levaram em consideração a porcentagem de profissionais de cada sexo. Assim, profissões em que mais de 60% dos profissionais são de um determi- nado sexo foram classificadas como masculinas ou femininas. Já as profissões em que há um equilíbrio entre a porcentagem de profissio- nais foram consideradas integradas. Madalozzo e Artes (2017) relacionaram essas classificações e con- cluíram que as profissões predominantemente masculinas são melhor remuneradas do que as profissões associadas às mulheres. No entan- to, os autores encontraram diferenças significativas no nível salarial Gênero e sexualidade 75 mesmo entre aqueles que atuam na mesma profissão. Essa diferença chega a 37% nas profissões integradas, e nas predominantemente mas- culinas os homens recebem cerca de 16% a mais do que as mulheres. A violência contra a mulher é outra realidade que mostra como os direitos femininos ainda não são plenamente respeitados no Brasil. So- mente no ano de 2006 foi promulgada uma lei específica para coibir a violência contra a mulher. A Lei n. 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006), cria juizados especiaispara lidar com a violência contra a mulher e estabelece diversas alterações no ordenamento jurídico brasileiro. O fato de uma lei dessa relevância para a garantia dos direitos da mulher ter sido promulgada somente no século XXI mostra como, na prática, os direitos femininos ainda não estão garantidos no Brasil. Cisne e Oliveira (2018) chamam a atenção para o fato de que a vio- lência contra a mulher é frequentemente associada apenas ao âmbito familiar. Apesar de ser no próprio lar que a mulher mais sofre com a violência e com a negação dos seus direitos, muitas vezes devido à dependência financeira e emocional quanto à figura patriarcal desem- penhada pelo pai ou pelo cônjuge, as autoras destacam que a mulher também sofre com a violência e a violação dos seus direitos na socieda- de e nos espaços de trabalho. Saffioti (2015) destaca que a luta pelos direitos da mulher ainda é um esforço cotidiano e contínuo, que passa pela análise dos novos pa- péis ocupados pela mulher na sociedade, considerando até que ponto os preconceitos e a discriminação são reproduzidos e mantidos de ma- neira sistêmica nos vários espaços sociais. Para Madalena (2016), embora existam divergências dentro dos mo- vimentos feministas quanto à forma de exercer a luta pelos direitos da mulher, tanto do ponto de vista conceitual quanto na prática política e nos tipos de manifestações e ações realizadas, as reivindicações e os princípios básicos funcionam como pontos de convergência entre as diversas vertentes do feminismo. Os movimentos feministas, no mundo contemporâneo, buscam assu- mir uma nova postura, na qual a luta por direitos específicos e pela cria- ção de legislações é substituída pela busca da construção de uma nova estrutura social, uma em que as relações não sejam estabelecidas com base em sexo ou gênero (MADALENA, 2016). Para a autora, essa nova 76 Direitos humanos e relações sociais forma de lutar pelos direitos da mulher traz resultados mais amplos, pois os direitos de outras minorias, como as étnico-raciais e LGBTQIA+, também fazem parte de uma sociedade mais justa e harmônica. 3.4 Movimentos LGBTQIA+ Vídeo Para que se possa discutir e conhecer o movimento LGBTQIA+, é preciso, antes, entender a sigla e compreender por que ela está em constante evolução. As letras que formam a sigla representam diversos tipos de identidades de gênero e orientações sexuais. As três primeiras letras estão relacionadas às orientações sexuais: o “L” representa as lésbicas e o “G”, os gays, indivíduos que sentem atração afetiva, amoro- sa ou sexual por pessoas do mesmo sexo e gênero. Já o “B” representa os bissexuais, indivíduos que se sentem atraídas por pessoas de ambos os sexos. As demais letras se relacionam às identidades de gênero e à diversi- dade sexual. O “T” refere-se às pessoas trans, ou transgêneros, ou seja, pessoas que não se identificam com o gênero de nascimento. O conceito de transgênero é, portanto, contrário ao termo cisgênero, mas abarca diversos conceitos diferentes – como os transexuais, que, por se identifi- carem com um gênero diferente do de nascimento, realizam mudanças corporais, utilizam símbolos, vestimentas e assumem comportamentos, estipulados pela sociedade, do gênero com o qual se identificam. Já as travestis, no caso das pessoas que se identificam com o gênero feminino, apesar de utilizarem vestimentas e adotarem comportamen- tos característicos do gênero oposto, não necessariamente se sentem desconectadas do seu gênero de nascimento. O termo transvestigênere 1 foi criado para reunir os conceitos relacionados à transgeneralidade. A letra “Q”, por sua vez, representa a palavra queer. O termo surgiu, originalmente, como algo pejorativo ou ofensivo, uma injúria direciona- da aos indivíduos que não seguem os padrões da heteronormativida- de. Sem tradução literal do inglês para o português, o termo queer pode ser entendido, segundo Bandeira (2020, p. 56), como: um insulto que tem paralelo com termos pejorativos ouvidos cotidianamente por aquelas e aqueles que transgridem as nor- mas no Brasil, e são taxadas como pessoas esquisitas, estranhas, anormais, bichas, boiolas, baitolas, quaquá, pocs, sapatões, ca- minhoneiras, pocheteiras, traveco etc. O termo transvestigênere, criado por Érika Hilton e pela ativista Indianara Siqueira, une as identifi- cações trans, travesti e transgênero. 1 Gênero e sexualidade 77 Apesar da origem ofensiva, o termo foi incorporado pelos movimen- tos LGBTQIA+ como forma de confronto. Ao assumir a própria trans- gressão, segundo Bandeira (2020), o movimento queer se posicionou contra o que é considerado normal pela heteronorma e pela cisnorma. A teoria queer ganhou força no Brasil a partir da década de 2000, com a publicação de estudos, artigos e livros de Foucalt (2017) e, principal- mente, Butler (2003). A letra “I” representa a palavra intersexual, que se refere aos indi- víduos que, por motivos genéticos ou biológicos, nascem com uma anatomia reprodutiva e sexual que não pode ser definida como tipica- mente masculina ou feminina. Segundo Santos (2013, p. 4): existem pessoas cujas características sexuais primárias ou secun- dárias não preenchem os requisitos médicos ou/e sociais passí- veis de integração num desses dois grupos. Por vezes, quando do nascimento, o sexo genital pode suscitar dúvidas [...]. Mas não só no nascimento se encontram ambiguidades. O que no início parecia ser “normal” pode revelar posteriormente discrepâncias nos órgãos genitais e/ou nas características sexuais secundárias. Em muitos casos, a definição do sexo da criança nascida com ca- racterísticas intersexuais é realizada pela própria equipe médica que realiza o parto, utilizando-se parâmetros físicos como o tamanho ou a forma do órgão sexual com o objetivo de encaixar o recém-nascido em um dos gêneros sexuais. Santos (2013) acredita que essa prática pode ser entendida como uma forma de normalização baseada em uma visão heteronormativa e sexista. Em muitos casos, o sexo desig- nado pela equipe médica não coincide com a identidade de gênero da criança, mas essa divergência só será percebida muitos anos depois, o que pode gerar sérios problemas de aceitação da identidade de gênero pelo indivíduo, pela família e pela sociedade. Os assexuais são representados, na sigla LGBTQIA+, pela letra “A”. A assexualidade é um termo pouco discutido e frequentemente confun- dido com uma escolha pessoal, como no caso do celibato seguido por religiosos, ou com uma disfunção sexual, seja de origem psicológica ou fisiológica. Porém, ela é mais complexa. Segundo Santos e Carvalho (2019, p. 2.711): o indivíduo assexual é aquele que não vivencia a atração sexual, algo que lhe é intrínseco e, portanto, difere do celibato que con- siste em uma escolha, o que faz da assexualidade uma orienta- ção sexual. Porém, esse conceito vai de encontro ao pressuposto 78 Direitos humanos e relações sociais de que todo ser humano sente desejo sexual, sendo que a falta dele implicaria prejuízos na saúde mental da pessoa e no surgi- mento de disfunções sexuais. A vivência de cada indivíduo assexual pode ser diferente, mas um ponto em comum é que o impulso sexual não está reprimido ou contro- lado pela vontade ou por uma decisão consciente. De acordo com San- tos e Carvalho (2019), a falta de interesse sexual não está ligada ao medo ou à aversão à experiência do ato sexual. A falta de interesse pelo sexo não impede que o indivíduo desenvolva relações afetivas ou amorosas. Por fim, a sigla termina no símbolo “+”, que representa a diversidade das identidades de gênero e orientações sexuais, incluindo pansexuais, polissexuais, pessoas não binárias e gender fluid (gênero fluido). A sigla está em constante atualização e modificação. Originalmente, eram usa- das apenas as letras GLS, significando gays, lésbicas e simpatizantes; à medida que se organizou, o movimento foi incorporando à sigla outras identidades e orientações, com ainclusão dos bissexuais e transgêne- ros (momento em que a sigla utilizada passou a ser LGBT) e, posterior- mente, as demais letras. Apesar de a sigla LGBTQIA+ ser a mais utilizada e aceita nos meios acadêmicos, políticos e no próprio movimento, existem versões que incluem outras identidades, como LGBTQIAP+, com a letra “P” repre- sentando os pansexuais, e LGBTQQICAPF2K+, significando lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis, queer, questionando, interse- xo, curioso, assexuais, pan e polissexuais, aliados, two-spirit 2 e kink 3 . A constante evolução da sigla mostra a intenção de abarcar toda a di- versidade de identidades e orientações sexuais. Independentemente da maneira de se referir ao movimento, as lutas das pessoas que não se enquadram nos padrões da heteronormatividade e da cisnormativi- dade são semelhantes. O movimento de luta pelos direitos desse grupo minoritário teve como primeiro grande evento um conflito entre a polícia da cidade de Nova York e os frequentadores de um bar, em 28 de junho de 1969. Nessa época, as pessoas LGBTQIA+ sofriam coerção e eram proibidas de ter relacionamentos homoafetivos, usar certas peças de roupas con- sideradas do gênero oposto e frequentar ou beber em alguns lugares. O bar Stonewall Inn era voltado para o público LGBTQIA+, sendo um local em que as pessoas podiam se sentir seguras e se expressar two-spirit: é uma identi- dade indígena americana antiga, que não possui o padrão de gênero da sociedade como homem e mulher. 2 kink: significa fetiche, ou seja, pessoas com fetiches. 3 Gênero e sexualidade 79 como desejassem, por isso foi muito importante para essas pessoas. A violenta abordagem policial ao local gerou uma grande reação dos frequentadores e esse episódio ficou conhecido como Rebelião de Sto- newall. Desde então a data é conhecida como o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Silva (2020) afirma que as conquistas sociais e legais, relacionadas à plena garantia dos direitos humanos dos indivíduos LGBTQIA+, fo- ram fragmentadas, mas significativas. Dentre essas conquistas, o autor cita a organização dos movimentos sociais, não só do ponto de vista da participação dos indivíduos como na forma de institucionalização e organização legal de associações, organizações não governamentais, órgãos públicos e entidades locais e globais que lutam pelos direitos desse grupo. A Parada do Orgulho LGBTQIA+, que surgiu da Rebelião de Stone- wall, tornou-se um evento anual organizado ao redor do mundo, além ter trazido maior conhecimento e exposição das demandas da comu- nidade para a sociedade, o que contribuiu para que alguns símbolos e comportamentos dos indivíduos LGBTQIA+ se tornassem parte da cul- tura da sociedade, diminuindo o preconceito e a discriminação. Algumas conquistas bastante relevantes estão relacionadas à for- ma como a homossexualidade é vista pela ciência e pelos órgãos oficiais ligados à saúde. Dentre essas mudanças, Silva (2020) destaca que a homossexualidade deixou de ser considerada como doença no ano de 1995, e a transidentidade foi incluída como condição re- lacionada à saúde sexual, em 2018, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). As conquistas legais também são bastante relevantes, segundo Silva (2020). Entre elas, incluem-se o reconhecimento dos direitos humanos dos indivíduos LGBTQIA+; a união civil de casais de mesmo sexo; no Brasil, o direito à alteração do nome e do sexo em documentos oficiais e a inclusão dos crimes contra esses indivíduos como crime de racismo. Isso mostra que tanto globalmente como no contexto do ordenamento jurídico brasileiro as lutas dos movimentos pela garantia dos direitos humanos têm obtido avanços relevantes. Porém, mesmo após meio século da Rebelião de Stonewall, os di- reitos humanos mais básicos ainda são negados a uma grande parcela dos indivíduos LGBTQIA+. Para Santos (2019, p. 1): O documentário Stonewall Uprising retrata o ocorrido em 28 de julho de 1969 quando a polícia invadiu o Stonewall Inn, um bar gay no bairro de Greenwi- ch Village, Nova York. Os protestos violentos duraram seis dias e foram o grande marco para uma importante virada no mo- vimento moderno pelos direitos civis dos gays nos Estados Unidos e em todo o mundo. Direção: David Heilbroner, Kate Davis. USA: First Run Features, 2010. Documentário A luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+ é o tema do documentário Os Tempos de Harvey Milk, baseado na história real de Harvey Milk. Ao se deparar, no ano de 1972, com o preconceito à ho- mossexualidade na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, ele se torna um líder político da comunidade LGBTQIA+, e se transforma em uma das mais importantes vo- zes da luta pelos direitos humanos. Direção: Rob Eptein. Portugal: Midas Filmes, 1984. Documentário 80 Direitos humanos e relações sociais a garantia de direitos da população LGBTQIA+ ao longo dos últi- mos anos tem se tornado uma construção política adquirida em conquistas fragmentadas e por meio de lutas dia após dia, onde se esbarra diretamente na crescente linha de movimentos e ata- ques homofóbicos que se apresentam na sociedade brasileira. Diversos países do mundo ainda criminalizam a homossexualidade e, em alguns deles, a punição é a pena de morte. A ascensão da extre- ma direita ao poder em diversos países ocidentais na segunda metade da década de 2010 trouxe diversos retrocessos na luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+. Segundo Silva (2020), mesmo que o aumento do conservadorismo não tenha, do ponto de vista legal, extinguido nenhum avanço jurídico, no que diz respeito à prática e ao cotidiano da sociedade, preconceitos e discriminações com relação aos indivíduos LGBTQIA+ voltaram a ser observados. Santos (2019) aponta que políticas públicas afirmativas e de inclusão social e econômica foram abandonadas ou paralisadas, o que representa um perigoso retrocesso nas conquistas dos direitos hu- manos dessa comunidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS As conquistas obtidas no passado pelos grupos minoritários relacio- nados a questões de gênero e sexualidade, como as mulheres e a co- munidade LGBTQIA+, e baseadas em uma dura e contínua luta cotidiana tanto dos indivíduos quanto dos movimentos organizados, apesar de re- presentarem grandes avanços, mostram como cada passo em direção à garantia dos direitos humanos é fundamental para a construção de uma sociedade mais inclusiva e justa. No mundo contemporâneo, grupos políticos ligados a uma visão con- servadora da sociedade defendem a manutenção da estrutura patriarcal, heteronormativa e cisnormativa, o que representa um grande risco para as recentes conquistas obtidas pelos movimentos feministas e LGBTQIA+. Além de garantir os direitos humanos por meio de legislações ade- quadas, é necessária uma mudança cultural na estrutura da sociedade para que todos sejam vistos como iguais, independentemente de gênero, identidade e orientação sexual. A educação, tanto dos adultos quanto – e principalmente – das crianças, desempenha um papel fundamental nessa mudança devido ao seu potencial de transformação cultural e social. O jornal El País veiculou, em março de 2019, a matéria Morrer por ser gay: o mapa-múndi da homo- fobia, apresentando as estatísticas de 70 países que condenam pessoas que não são heterosse- xuais e 123 nações em que relacionamentos homoafetivos são aceitos e não são punidos por lei. Essa matéria escancara a necessidade de mudanças na cultura desses países e reforça a importância da luta pelos direitos das pessoas LGBTQIA+. Leia a matéria completa no link a seguir. Disponível em: https://brasil.elpais. com/brasil/2019/03/19/interna- cional/1553026147_774690.html. Acesso em: 28 jun. 2021. Leitura https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.html https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.html https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.htmlGênero e sexualidade 81 ATIVIDADES 1. Explique a diferença entre os conceitos de gênero e sexualidade. 2. Explique o conceito de heteronormatividade. 3. Explique o que é identidade de gênero. REFERÊNCIAS ALVES, B. M.; PITANGUY, J. O que é feminismo. Brasília: Brasiliense, 2017. AMÂNCIO, K. C. B. “Lobby do Batom”: uma mobilização por direitos das mulheres. Revista Trilhas da História, Três Lagoas, v. 3, n. 5, p. 72-85, jul./dez. 2013. 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Na primeira parte deste capítulo discutiremos os conceitos de su- jeito e identidade e a importância de uma postura de alteridade nas relações que se estabelecem entre os indivíduos de uma comunidade e entre diferentes grupos sociais. Na segunda parte trataremos dos conceitos da diversidade e do reconhecimento. Por meio do reconheci- mento das diferenças e da alteridade, é possível integrar e incluir todos os grupos e indivíduos, garantindo o que há de mais básico: os direitos humanos de todos os que fazem parte da sociedade Em um mundo em que a informação é instantânea, em que po- demos viajar para qualquer lugar em menos de um dia, em que as redes sociais e a internet possibilitam conhecer outras culturas, o mul- ticulturalismo pode ser enxergado como uma grande oportunidade de aprender com as experiências milenares de sociedades que se desen- volveram a partir de diferentes contextos e histórias. Porém, o choque entre culturas diferentes tem sido a causa da gran- de maioria dos conflitos que ocorrem no mundo atual. Abordaremos esse choque de culturas na terceira e na quarta parte do capítulo. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • compreender a relação entre direitos humanos, multicultura- lismo e alteridade; • refletir sobre a questão da diversidade e do reconhecimento das diferenças; • entender os conceitos de multiculturalismo, diversidade e alteridade; • refletir sobre a diversidade na sociedade contemporânea. Objetivos de aprendizagem 84 Direitos humanos e relações sociais 4.1 Sujeito, identidade e alteridade Vídeo A discussão sobre a necessidade de inclusão de grupos sociais está presente no cotidiano da sociedade, seja na mídia, nos projetos educa- cionais, nos discursos políticos ou nas discussões que se estabelecem em meio à sociedade. Porém, nem sempre o conceito de inclusão é completamente com- preendido. Para Duschatzky et al. (2001), é comum que se pregue o res- peito às diferenças, que podem incluir questões de gênero, de origem étnico-racial, de orientação sexual, de educação, de religião ou de cul- tura, mas as transformações necessárias para que haja uma mudança profunda na sociedade com relação à inclusão dos grupos minoritários são complexas e de longo prazo. Por isso, é comum que ações pontuais ou eufemismos sejam utilizados para que se crie a ilusão de que a so- ciedade se tornou mais inclusiva. 4.1.1 Sujeito e identidade Identidade e diferença surgem a partir das interações entre os indi- víduos que fazem parte de um grupo social. Oliveira e Rodrigues (2020, p. 191) usam um interessante exemplo para ilustrar os conceitos: entre as sociedades de KwaZulu-Natal, província costeira da Áfri- ca do Sul, a saudação mais significativa é Sawubona, que signifi- ca “eu vejo você, tu és importante para mim e te valorizo”. Essa expressão nos propõe fazer alcançar nosso autêntico desejo de compreendê-lo, ver suas necessidades, desejos, medos, triste- zas, belezas e virtudes. Afinal, quem não gostaria de ser visto dessa maneira? Poucas coisas são tão enriquecedoras quanto tornar o outro visível, como lhes dar um espaço, presença, relevância em nossos cora- ções e importância dentro do grupo, do lar, da comunidade ou da organização. Quando um indivíduo se relaciona com outro, nasce a percepção de diferenças e o reconhecimento da própria identidade. A postura toma- da ao se perceber as diferenças pode ser de aceitação, como nos casos das tribos sul-africanas, ou de não aceitação, o que pode levar à exclu- são do indivíduo do grupo caso ele não tenha as características, não adote os comportamentos ou a obrigatoriedade de seguir as normas que são socialmente aceitas. Alteridade, diversidade e multiculturalismo 85 Segundo Bagatini e Schuck (2019), identidade e diferença estão ligadas às relações de poder no grupo social. Ao definir normas e pa- drões do que é aceito, que separam e classificam os sujeitos, o grupo estabelece fronteiras que são utilizadas para incluir ou excluir quem é diferente, para definir quem pertence ou não ao grupo. Para os autores, além de diferenciar, as normas e os padrões socialmente estabelecidos possibilitam classificar e hierarquizar os indivíduos dentro do grupo social. Os indivíduos que detêm o poder definem as normas e os padrões a serem seguidos. Aqueles cuja identidade não se adequa a esse padrão são marginalizados ou so- cialmente invisibilizados. Se a identidade de cada indivíduo é única e diversa, a imposição social de uma identidade padronizada e normatizada se torna uma ferramenta de poder e coerção (CUCHE, 2002). Castells (2013) acre- dita que a individualidade é a base da cultura do grupo social, pois é com as interações entre os diversos indivíduos nas redes de relacio- namento que se formam e evoluem a cultura e a sociedade. Segundo o autor, os indivíduos não se enxergam com base em sua posição social, seu gênero ou sua ocupação, mas se veem como sujeitos, como pessoas que podem tomar a decisão de aceitar ou não as imposições sociais do grupo, bem como agir em prol dele. Para isso, os indivíduos se conectam com as demais pessoas por meio dos relacionamentos sociais que seguem os padrões estabe- lecidos pelo grupo. Castells (2013) afirma que a base da sociedade são os indivíduos interconectados. Essas conexões são realizadas por meio das decisões de cada indivíduo e podem ser baseadas em alinhamentos de crenças e valores, sejam eles pessoais, políticos, econômicos ou sociais. É nesse contexto de grupos sociais formados por indivíduos diferen- tes – que criam uma identidade cultural compartilhada – que as dife- renças são muitas vezes usadas de maneira negativa para hierarquizar, dividir e segregar. Assim, o conceito de alteridade se faz necessário para que os direitos de todos os indivíduos sejam respeitados. Na música AmarElo, o rapper Emicida mostra que a exclusão so- cial causa cicatrizes profundas nos indivíduos, e eles passam a usar essas cicatrizes para se definirem como indivíduos excluídos: O curta-metragem Sawubona mostra a histó- ria de Mbali, uma menina de sete anos que desafia as normas sociais ao fazer amizade com um garoto da mesma idade. O filme, que recebeu diversos prêmios em festivais de cinema, mostra como a diversidade e a aceitação são importantes para a sociedade atual. Direção: Lungelo Kuzwayo. EUA: Columbia College Chicago Film & Video Department, 2015. Filme Manuel Castells, renoma- do sociólogo espanhol, aborda as questões daindividualidade e da coletividade em seus estudos. Na entrevista para o Canal Fronteiras do Pensamento, intitulada Manuel Castells – Indivíduo e coletividade, o sociólogo explica os conceitos de individualidade, indivi- dualismo e sociedade no mundo contemporâneo. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=rgmCjuNVLSg. Acesso em: 2 jul. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=rgmCjuNVLSg https://www.youtube.com/watch?v=rgmCjuNVLSg https://www.youtube.com/watch?v=rgmCjuNVLSg 86 Direitos humanos e relações sociais Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes. Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nós? Alvos passeando por aí Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes. Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência é roubar um pouco de bom que vivi Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes. Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes. É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nós sumir (AMARELO, 2019). Definir os indivíduos pelas cicatrizes psicológicas e sociais causadas pelas próprias imposições do grupo social, na visão dos compositores, significa fortalecer ainda mais os grupos dominantes por calar as vozes dissonantes e tornar os indivíduos marginalizados invisíveis. É importante entender a distinção entre diversos conceitos utiliza- dos para definir como se organizam as relações estabelecidas na so- ciedade. A exclusão é definida por Ribeiro (1999 apud NEVES; FREIRE; SUAIDEN, 2018, p. 12-13) como: o sentido, a imagem e realidade dos excluídos mostram contin- gentes humanos colocados ao lado de fora de uma sociedade cujos mecanismos de impermeabilização de suas fronteiras não permitem o retorno ou a possibilidade de estabelecer relações com os que estão dentro, os incluídos [...]. A categoria exclusão, nesse caso, não somente perde a perspectiva da relação e do movimento, como também designa aos excluídos um papel de meros objetos, seres amorfos que aceitam a inexorabilidade de sua exclusão. Um conceito relacionado à exclusão é a segregação, que, para Santos (2017), pode ser entendido como o fenômeno social no qual os indivíduos são marginalizados, separados ou isolados do grupo social. A segregação, do ponto de vista da sociologia, envolve a separação não apenas social e econômica, mas também espacial de grupos minoritá- rios, seja por suas origens étnico-raciais – como por questões religio- sas, educacionais, profissionais, de saúde –, seja por qualquer outro tipo de preconceito. Um exemplo da segregação social foram as políticas raciais coloca- das em prática durante séculos nos Estados Unidos da América, devido às quais negros eram proibidos de frequentar e utilizar os mesmos es- paços físicos que indivíduos brancos (MORRIS; TREITLER, 2019). O conceito da integração está relacionado à ideia de que os indiví- duos deixam de estar marginalizados e apartados da sociedade, mas A música AmarElo, do rapper Emicida, com a participação das cantoras Majur e Pabllo Vittar, que são trans e drag queen, respectivamente, recebeu o prêmio Grammy no ano de 2020. O videoclipe da música mostra histórias de indivíduos marginali- zados que buscaram a in- clusão social por meio de seus esforços pessoais. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=PTDgP3BDPIU. Acesso em: 9 jul. 2021. Música https://www.youtube.com/watch?v=PTDgP3BDPIU https://www.youtube.com/watch?v=PTDgP3BDPIU https://www.youtube.com/watch?v=PTDgP3BDPIU Alteridade, diversidade e multiculturalismo 87 ainda não estão totalmente incluídos na estrutura social. Para Neves, Freire e Suaiden (2018, p. 21), a integração pode ser entendida como: uma ação ou política que visa integrar em um grupo as minorias, sejam estas de origem racial, religiosa, social etc., constituindo um todo quando estas são afiliadas às partes que faltavam [...]. O maior sentido do conceito de integração social está na possi- bilidade de transitoriedade, se opondo e ao mesmo tempo so- bressaindo à perspectiva dialética, por ser um estado em que todas as partes envolvidas estão, simultaneamente, incluídas e excluídas em algo. Já a inclusão é definida por Camargo (2017) como a situação social na qual os indivíduos têm a sua identidade e a sua diversidade reconhe- cidas, aceitas e valorizadas, participando de modo efetivo e integral do grupo social. A figura a seguir mostra a relação dos diversos conceitos. Figura 1 Os conceitos de inclusão social Fo ur le afl ov er /Z oa rt St ud io /D ia na _K ar ch / Vo od oo Do t/ Sh ut te rs to ck Exclusão Integração Segregação Inclusão Fonte: Adaptada de Rezende, 2017, p. 3. 88 Direitos humanos e relações sociais Como você pode ser visto na figura, na exclusão e na segrega- ção os indivíduos e grupos minoritários se encontram à margem da sociedade, sem dela participar ou sem ter seus direitos garantidos. Na integração, apesar de fazerem parte da sociedade, os indivíduos e os grupos minoritários são tratados de maneira diferenciada, não estando plenamente incorporados ao tecido social. É somente na inclusão que os indivíduos têm os seus direitos plenamente garan- tidos, sendo totalmente incorporados à sociedade. 4.1.2 Alteridade Para Farinon (2018), a alteridade pode ser definida como a ca- pacidade de enxergar o outro e entender que os direitos huma- nos de cada indivíduo devem ser respeitados, apesar de qualquer tipo de diferença. As diferenças devem ser vistas como uma forma de enriquecimento do grupo social, não como uma ferramenta de exclusão. O autor destaca que, no contexto social, muitas vezes identida- de e diferença dão origem à exclusão. O que é diverso é enxergado pelo grupo como contrário, rival e perigoso e, por isso, deve ser tratado com indiferença, exclusão ou até mesmo violência. Segundo Rosa e Lazzari (2017), a alteridade se realiza por meio do contato com o outro, com identificação, escuta, compreensão, valorização e aceitação das diferenças, sem julgamento ou juízos de valor. Já para Farinon (2018), a alteridade pode ser entendida como a capacidade de entender que o sujeito com o qual se esta- belece uma relação de contraste ou diferença é distinto. Do ponto de vista filosófico, Abbagnano (2007) explica que a al- teridade está relacionada à construção do sujeito e da sua identi- dade, que se contrapõe ou se diferencia dos demais indivíduos. Ao constituir-se como indivíduo, o sujeito passa a enxergar o outro e nele identificar semelhanças e diferenças Para Hildebrando (2017) a alteridade está relacionada à empa- tia: é se colocar no lugar do outro e ver o mundo sob o ponto de vista dele. Somente é possível entender as demandas, as necessi- dades, os valores e as visões do outro quando o indivíduo enxerga a sociedade a partir do lugar do outro no mundo. O filme X-men traz discus- sões sobre a diversidade e a representatividade de pessoas que não se enquadram nos padrões da sociedade. Indivíduos com mutações genéticas e poderes especiais são discriminados, margina- lizados e segregados da sociedade. O filme mostra que a luta pela aceitação das diferenças passa por avanços e retrocessos, além de envolver batalhas políticas e a busca legal por direitos humanos. Direção: Brian Singer. Estados Unidos: 20th Century FoX; Marvel Enterprises, 2000. Filme Recomenda-se a leitura do artigo A mutação como metáfora para o discurso das diferenças: representa- ções práticas de racismo e de homofobia no discurso literário dos X-men? que aborda a temática do pre- conceito de modo muito claro e interessante. Disponível em: https:// periodicos. ufsc.br/index.php/ interthesis/article/view/1807- 1384.2019v16n1p56. Acesso em: 23 jul. 2021. Leitura Alteridade, diversidade e multiculturalismo 89 A alteridade ganha importância central em um mundo no qual, com os processos de globalização econômica e cultural, que são ace- lerados pelo desenvolvimento das tecnologias da comunicação, diver- sos povos com diferentes culturas e valores passaramera ainda mais evidente nessa época (DONNELLY, 2007). As intensas mudanças culturais e sociais pelas quais a Europa passou durante a Renascença, desde o século XIV, foram incentiva- O filme Lutero mostra a vida de Martinho Lutero, monge católico que, ao discordar da forma como a Igreja se organizava, desenvolveu um trabalho composto de 95 teses, nas quais discutia pontos importantes da fé católica. Excomungado pela Igreja, passou a defender suas ideias, que deram origem à Reforma Protestante, que acabou por impactar não apenas a Igreja, mas a própria organização política, so- cial e jurídica da Europa durante a transição da Idade Média para a Idade Moderna. Direção: Eric Till. EUA; Alemanha: MGM, 2003. Filme Bases históricas dos direitos humanos 13 das pelas mudanças econômicas e sociais trazidas pelo capitalismo e pelo fim gradativo do modelo feudal, seguidas pela Reforma Pro- testante a partir do século XVI, que diminuíram o poder da Igreja, trazendo mudanças religiosas e políticas. Apesar de os direitos humanos estarem presentes nas discussões filosóficas desde os escritos dos primeiros filósofos e tenham evoluído paralelamente ao desenvolvimento da filosofia ocidental, bem como possam ser identificados em outras tradições filosóficas, como afri- cana, islâmica e, principalmente, na filosofia oriental, passaram a ter um papel central no pensamento global com base nos ensaios dos filósofos chamados de contratualistas, entre eles Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau (CAXITO, 2020). A Renascença, segundo Jerónimo (2019), traz de volta a visão do humanismo da filosofia clássica, na qual o ser humano está no centro da sociedade. Já a Reforma Protestante diminuiu o poder da Igreja e reaproximou o indivíduo ao conhecimento religioso. O declínio do poder dos nobres e dos Estados absolutistas, somados ao crescimento do capitalismo, criou uma classe economicamente dominante. Todas essas mudanças têm em comum a importância da liberdade individual, da liberdade de opinião, de propriedade privada e apontam para a centralidade do indivíduo na sociedade. Para Jerónimo (2019), os filósofos contratualistas europeus, es- pecialmente da França e da Inglaterra, que desenvolveram suas ideias no decorrer dos séculos XVII e XVIII, foram os responsá- veis por introduzir no campo da política e, posteriormente, nas discussões jurídicas e legais as ideias sobre os direitos naturais e, consequentemente, sobre os direitos humanos. Para a autora, os direitos humanos, dentro do conceito de que é aceito, são um pro- duto das transformações políticas, econômicas, jurídicas, sociais e filosóficas da Europa Iluminista. O conceito do contrato social, que fundamenta a filosofia contratua- lista, tem como princípio a ideia de que os indivíduos nascem iguais e com o mesmo potencial de desenvolvimento de suas competências. Por isso, todos têm o direito de usufruir os resultados econômicos, po- líticos e sociais de seus esforços (CAXITO, 2020). Por outro lado, o ser humano é antissocial e, para que possa conviver em sociedade, precisa seguir regras e normas que garantam o respeito mútuo à proprieda- de e à posição social do outro. Quando mais de uma pessoa deseja O nome da rosa é um livro escrito pelo filósofo Um- berto Eco, um dos mais importantes do século XX. O livro foi transformado em um filme no ano de 1986 e é considerado um clássico do cinema. O enredo se passa duran- te a Idade Média e segue a história de um monge beneditino, Guilherme de Baskerville, que atua como investigador em uma série de assas- sinatos ocorridos em uma abadia, retratando o ambiente social da Idade Média, em que as liberdades e os direitos individuais são poucos e o Estado e a Igreja desempenham um papel controlador. Direção: Jean-Jacques Annaud. EUA: Warner Filmes, 1986. Filme 14 Direitos humanos e relações sociais a mesma propriedade ou a mesma posição política ou social, surgem discórdias que podem gerar conflitos sociais. De acordo com Caxito (2020, p. 16): para garantir a segurança de todos, surgiu um ente maior e imparcial: o Estado. Para conviver em sociedade, o ser huma- no aceita abrir mão de alguns aspectos de sua liberdade e se submete às normas que regem a relação entre cada cidadão e o Estado, que tem o papel de defender seus participantes, garantindo o bem comum, além de criar e garantir as condi- ções para que cada cidadão se desenvolva. De acordo com Hobbes (2014), o Estado, a que chama de Leviatã, é responsável por garantir que as normas e regras sejam seguidas pelos membros da sociedade. Todavia o indivíduo precisa aceitar as regras e normas impostas pelo Estado para garantir a convivên- cia social. Hobbes (2014) chama de contrato social essa aceitação tácita das normas que garantem a convivência em grupo. O filósofo dá o nome de estado de natureza à condição em que o ser humano é totalmente livre para exercer suas vontades, sem nenhuma forma de controle ou cerceamento. Já o denominado es- tado social, que é atingido por meio da aceitação do contrato social, possibilita aos indivíduos poderem conviver em grupo sem entrar em lutas, conflitos e guerras. A visão do homem antissocial é oposta à defendida pela filosofia clássica. Para Aristóteles (2009), o ser humano é um ser social, que busca conviver em grupo para se proteger e para conseguir atingir seus objetivos. Em um momento histórico de transição do mode- lo de poder do absolutismo para as democracias, Hobbes (2014) era um defensor da centralização do poder político do Estado na mão dos soberanos, uma vez que somente com o poder absoluto é possível garantir que o contrato social seja respeitado. Locke (2018) parte da mesma base filosófica sobre o contrato social que Hobbes, mas os filósofos divergem sobre qual é o papel do Estado com relação aos direitos individuais e à centralização do poder. Se para Hobbes o poder do soberano deve ser absoluto, para Locke a aceitação dos cidadãos ao contrato social é consensual. Assim, o poder do governante não pode estar acima dos direitos individuais, principalmente aqueles ligados à justiça e ao direito à O filme Zootopia – essa ci- dade é o bicho foi lançado em 2016. Além do enredo divertido, a animação também retrata alguns pensamentos do filósofo Hobbes, presentes na obra Leviatã, mostrando os efeitos iniciais e poste- riores do contrato social causados na população. Direção: Byron Howard; Rich Moore. EUA: Walt Disney, 2016. Filme Bases históricas dos direitos humanos 15 propriedade privada, pois os direitos naturais de cada indivíduo existem mesmo no estado natural. Para Locke (2018), se o Estado e os governantes no poder não garantirem os direitos naturais dos indivíduos, devem ser questio- nados e, em último caso, devem ser retirados da posição de poder. Locke (2018) também propõe a divisão dos poderes em: PODER EXECUTIVO Governantes que têm o poder de comandar a população e administrar interesses públicos. PODER LEGISLATIVO Papel do Estado em criar leis que garantam os direitos naturais dos indivíduos e possibilitem que o contrato social e a vida em sociedade sejam respeitados. Kuliperko/Shuterstock Essa divisão de poderes é a base da estrutura de poderes dos gover- nos democráticos atuais, com o estabelecimento de um terceiro poder, denominado Judiciário. O terceiro filósofo contratualista que foi fundamental para que as discussões sobre os direitos naturais e, consequentemente, para os direitos humanos se tornassem um tema central na filosofia e na polí- tica é Jean-Jacques Rousseau. Em sua obra Do contrato social, publicada originalmente em 1762, ele afirma que o contrato social que possibilita a vida em sociedade só é válido se os direitos individuais e os bens de cada pessoa forem protegidos, respeitados e preservados. De acordo com Rousseau (2013), o papel do Estado é garantir que os direitos naturais dos indivíduos sejam preservados. Se os governan- tesa se relacionar intensamente. Vivas et al. (2018) afirmam que a alteridade tem se tornado rara no contexto das relações que se estabelecem entre os povos e os países, pois, muitas vezes, a cultura e os valores que marcam a identidade de um povo ou de uma nação e que estão impregnados na individualidade dos sujeitos que fazem parte desse grupo se chocam com outras iden- tidades culturais. 4.2 Diversidade e reconhecimento Vídeo As primeiras décadas do século XXI foram marcadas por rápidas e intensas transformações sociais, aceleradas tanto pelo desenvolvi- mento de tecnologias de informação e de comunicação quanto por mudanças demográficas (como o aumento da expectativa de vida na maioria dos países desenvolvidos ou em desenvolvimento), por mu- danças econômicas (como a intensificação da globalização e da cria- ção de blocos econômicos supranacionais), por movimentos políticos (como o crescimento do neonacionalismo e do conservadorismo) e, principalmente, por mudanças sociais construídas por meio da ação de grupos de defesa dos direitos humanos de grupos minoritários que, em ritmos e intensidades diferentes em cada país, têm conse- guido, globalmente, amplificar a voz dos indivíduos marginalizados e mudar legislações, hábitos, costumes e comportamentos na socieda- de (BAUMAN, 1998; BERGMANN, 2020; ROSA; LAZZARI, 2017; GOMES, 2017; OLIVEIRA, 2017). Gomes (2017) destaca que, se por um lado podem ser observa- dos grandes avanços relacionados à garantia dos direitos humanos de grupos minoritários, por outro, a intensificação da globalização e, principalmente, das migrações causadas por crises econômicas e por conflitos entre povos e países tem como resultado o aumento da xe- nofobia, da intolerância religiosa, do racismo e, por consequência, de outros preconceitos como o machismo e a discriminação baseada em gênero e orientação sexual. 90 Direitos humanos e relações sociais A diversidade dos sujeitos e dos indivíduos que buscam o direito de exercer sua individualidade e sua identidade, se já está presente den- tro dos grupos sociais e étnicos-raciais que formam um povo, é ainda mais ampla e profunda quando diferentes culturas, histórias, crenças e visões de mundo de povos diversos se encontram e se chocam. Para Oliveira (2017), a alteridade, fundamental para que os indiví- duos do grupo social possam entender e aceitar o outro, torna-se ainda mais importante na relação entre diferentes povos, pois se faz necessá- rio o reconhecimento das diferenças culturais, de crenças e de valores. Leal (2017) aponta que o reconhecimento, como uma necessidade tanto dos indivíduos marginalizados quanto dos grupos minoritários, tem como origem diversos fatores, dentre eles as desigualdades de renda e de oportunidades causadas pelo preconceito e pela discrimi- nação social, a intolerância às diferenças culturais e de valores e a fra- gilidade da coesão social, tanto dentro dos países quanto na relação entre povos diversos. As manifestações culturais dos grupos minoritários, sejam eles de- finidos por questões étnico-raciais, de gênero, de identidade sexual, de crença ou de cultura, não encontram espaço nos canais culturais ofi- ciais e de amplo alcance, sejam eles públicos ou privados. Dessa forma, a cultura dessas minorias não é representada ou valorizada, tornando- -as ainda mais marginalizadas e invisíveis. A negação da participação, a falta de reconhecimento e a represen- tatividade não se resumem apenas à cultura: estende-se a todos os demais locais e esferas da cidadania, como na participação política, edu- cacional, nos espaços profissionais e sociais. Assim, o reconhecimento da diversidade que existe na sociedade está intimamente relacionado à garantia dos direitos humanos de todos os indivíduos (YÚDICE, 2015). Para Leal (2017), a institucionalização de modelos, valores, crenças, padrões e normas dos grupos dominantes gera injustiças sociais que só podem ser combatidas com o reconhecimento e a valorização da diversidade e das identidades dos indivíduos e dos grupos sociais mi- noritários, sejam eles integrantes do povo ou oriundos de migrações de outros povos. O reconhecimento possibilita a representação desses indivíduos nos espaços políticos, na vida cultural, econômica e social. Para a au- tora, além das políticas públicas e das ações afirmativas que busquem O documentário I am mostra as entrevistas realizadas pelo diretor de cinema Tom Shadyac, que percorreu o mundo conversando com filóso- fos, pensadores, líderes políticos e religiosos, como o cientista político Howard Zinn, a ativista Lynne McTaggart, o bispo Desmond Tutu, o poeta Coleman Barks e o linguista e filósofo Noam Chomsky, buscando respostas para questões fundamentais sobre a so- ciedade contemporânea e quais ações podem ser tomadas por indivíduos, grupos e nações para mudar os destinos da humanidade. Direção: Tom Shadyac. Estados Unidos: Flying Eye Production, 2011. Documentário Alteridade, diversidade e multiculturalismo 91 incluir esses indivíduos, é necessário desenvolver ações e políticas de reconhecimento que garantam a paridade de representação social em relação aos indivíduos e grupos dominantes. Para ser reconhecido, é preciso primeiro ser visível. Assim, reconhe- cimento e alteridade são conceitos interligados, como afirma a sau- dação Sawubona que vimos no início desta seção. Leal (2017, p. 102) corrobora essa visão ao comentar: “Em todas essas experiências so- ciais, para ser considerado é preciso estar visível para ser reconhecido pelo outro; assim, o indivíduo deve se ‘mediatizarʼ através de comuni- cações diretas a partir de relações simbólicas”. Gomes (2017) destaca que o reconhecimento significa, para o indivíduo, ser aceito pela sociedade, mesmo que não se enqua- dre nos padrões e nas normas estabelecidas. Porém, mais do que apenas a aceitação das diferenças, as lutas sociais dos grupos mi- noritários têm como objetivo modificar ou mesmo abolir a norma- tividade, pois, para que os direitos humanos sejam garantidos a todos, é preciso que a identidade de cada indivíduo seja vista, res- peitada e reconhecida. A série documental 100 humanos, produzida pela Netflix, mostra diversos experimentos sociais com a participação de 100 pessoas das mais variadas idades, níveis educacionais, condições sociais, histórias e crenças religiosas. Cada capítulo tem um tema central, e os participantes precisam tomar decisões baseadas em suas experiências. Os resultados mostram como a diversidade é muito mais complexa e profun- da do que se costuma imaginar. Direção: Neil DeGroot; Tom Kramer; David Wechter. Estados Unidos: Netflix, 2020. Documentário 4.3 Multiculturalismo e direitos humanos Vídeo No mundo contemporâneo, marcado pela integração econômica e cultural, a garantia dos direitos humanos e da plena cidadania está di- retamente relacionada à convivência entre as diferentes culturas que compõem a sociedade. O multiculturalismo é definido por Oliveira (2017, p. 13) como “reconhecimento de diferenças grupais em arenas públicas tais como a lei, políticas, discurso estatal, cidadania partilhada e identidade nacional”. Para o autor, o multiculturalismo tem uma dimensão coletiva e co- munitária, por meio da qual se acredita que a integração das diver- sas culturas que convivem na sociedade ocorre de modo natural, com a aceitação das diferenças e o reconhecimento das contribuições de cada cultura para a formação da sociedade. Porém, se nas discussões filosóficas, políticas e legais os direitos das minorias étnicos-raciais e as culturas marginalizadas estão presentes, na prática cotidiana da sociedade ainda se observa a exclusão e a se- gregação de indivíduos e grupos sociais. 92 Direitos humanos e relações sociais A identidade cultural de um grupo social é estabelecida historica- mente, e o indivíduo, ao nascer ou se integrar ao grupo, tem sua iden- tidade influenciada pela cultura. Por outro lado, ele também pode influenciare alterar a cultura do grupo, já que, para Castells (2013), a identidade cultural não é estática: ela passa por constantes evoluções e transformações por meio da influência dos indivíduos dominantes. Para Rosa e Lazzari (2017), as fronteiras são cada vez mais tê- nues no mundo contemporâneo, mas as relações entre os indiví- duos de diferentes culturas ainda são marcadas pela percepção da diferença e da diversidade. Mesmo que se busque o entendimen- to e a alteridade, crescem os confrontos e as reações de aversão e distanciamento. Há uma dicotomia na contemporaneidade: se, por um lado, o contato com diferentes culturas e indivíduos diversos faz com que o sujeito experimente e conheça novas formas de pensar, o que pos- sibilita a alteridade, por outro, fortalece o sentimento de pertenci- mento à sua cultura de origem e à identidade cultural do seu povo, o que leva ao estranhamento e a conflitos entre diferentes culturas. Para Takeuti (2004), a dicotomia está presente no próprio con- ceito da alteridade, que envolve tanto a construção do outro, por meio da aceitação e do respeito, quanto a sua destruição, por meio do ódio e da violência. O etnocentrismo 1 , segundo a autora, traduz o choque sentido pelo grupo social ao descobrir que outros grupos têm valores e culturas diferentes, levando à dificuldade de ele lidar com a diversidade Cuche (2002) acredita que, nas sociedades atuais, a identidade é mais ampla do que o próprio sujeito, pois está relacionada aos conceitos de povos e nações. O sentimento de pertencimento a um grupo é reforçado pela ideia de um povo, seja ela definida politica- mente, seja relacionada a origens étnico-raciais. É nesse contexto que, no século XXI, observamos uma crescen- te valorização do nacionalismo, a que Bergmann (2020) chama de neonacionalismo. O autor lista diversas características relacionadas ao neonacio- nalismo, como o surgimento de lideranças nacionais carismáticas, O site Playing For Change apresenta o movimento de mesmo nome que surgiu em 2002, quando os produtores Mark John- son e Whitney Kroenke viajaram por diversos países do mundo gra- vando a performance de artistas de rua dos mais variados estilos musicais, mostrando a diversida- de das manifestações culturais dos povos do mundo. Segundo Johnson, “através da música eles falam o mesmo idioma”. O movimento mostra que há muito o que se apren- der e construir quando se está disposto a conhecer e aceitar culturas diversas. Disponível em: https:// playingforchange.com/home-pt/. Acesso em: 2 jul. 2021. Site É uma visão de mundo de quem considera o seu grupo étnico, nação ou nacionalidade socialmen- te mais importante do que os demais. 1 https://playingforchange.com/home-pt/ https://playingforchange.com/home-pt/ Alteridade, diversidade e multiculturalismo 93 apoiadas por partidos conservadores e com um discurso que pre- ga o protecionismo da economia e da cultura nacional, tendo uma atuação internacional menos multilateral, colocando outros países e povos como inimigos da nação. O discurso neonacionalista é falsamente antielitista e usa a sim- plificação da realidade e o apelo emocional para convencer, bem como incita a divisão tanto dentro da própria população quanto da nação em relação aos outros países e povos. Dentre as diversas características citadas por Bergmann (2020), duas merecem especial destaque por estarem intimamente relacio- nadas à violação dos direitos humanos de indivíduos marginalizados. O nativismo é a primeira dessas características. O neonacionalis- mo é marcado por uma visão etnocêntrica e nativista, em que a his- tória é usada para criar uma visão ufanista que visa unificar o povo e diferenciá-lo dos demais grupos étnico-raciais. As origens históricas e mitológicas da nação são exacerbadas e destacadas. Se o povo é unido por sua história e origem, todo aquele que não faz parte disso deve ser visto com desconfiança e afastado do convívio social. A segunda característica é a exclusão, que está intimamente rela- cionada à primeira característica, o nativismo. A exclusão dá origem à discriminação em relação a imigrantes e minorias e, principalmen- te, à xenofobia, que faz com que os direitos humanos dos indivíduos marginalizados não sejam respeitados. O Conselho Federal de Serviço Social, em seu Caderno 5 – Xeno- fobia, da série Assistente Social no Combate ao Preconceito (CFESS, 2016, p. 7-8), afirma que a xenofobia é: o preconceito de classe que atinge a maioria dos/as imigran- tes, especialmente os/as que saem dos países mais pobres ou buscam refúgio, devido a guerras, conflitos, pobreza e outras mazelas provocadas pela geopolítica do capitalismo. Esse pre- conceito de classe se expressa em comportamentos que bei- ram o fascismo, destilando discursos de ódio e de repulsa ao “diferente”, ao/à estrangeiro/a, ao não familiar, vistos como ameaça a uma pretensa estabilidade da “ordem” e da econo- mia mundiais. Tais preconceitos dificultam a inserção e a per- manência dos/as migrantes [...]. 94 Direitos humanos e relações sociais Bauman (1998) aponta que o surgimento da identidade nacional é tanto um processo espontâneo, que ocorre pela ligação social e cultu- ral dos indivíduos de um grupo quanto um processo estratégico incen- tivado pelos grupos que detêm o poder político, econômico e social e buscam desenvolver uma consciência coletiva nacional, que traga a ideia de pertencimento e identificação. Para o autor, esse processo consciente é colocado em prática por meio da imposição do uso da língua oficial do país, pela definição da história nacional que é contada nos currículos escolares e pelas insti- tuições jurídicas e legais que regram as ações e os comportamentos dos indivíduos. Para que exista a ideia de uma nação homogênea e única, é preciso, ainda segundo Bauman (1998), erradicar, oprimir e excluir os diferen- tes, aqueles que não fazem parte dessa unidade nacional. Hall (2005) explica que ao separar, excluir e segregar o outro, aquele que não faz parte do povo e da nação, é possível bani-lo ou colocá-lo em seu devido lugar: de exclusão, de submissão, de segregação e de marginalização. Os conceitos de multiculturalismo e pluralismo estão relacionados. Uma sociedade multicultural é aquela que entende, respeita e aceita a pluralidade e as diferenças entre os indivíduos que a compõem. Cren- ças, línguas, hábitos, costumes, tradições e manifestações culturais de diferentes povos e grupos sociais não apenas devem coexistir, mas ter mais espaço, representatividade e reconhecimento. O respeito ao indivíduo está no centro das discussões sobre os di- reitos humanos. No entanto, os indivíduos não vivem sozinhos: eles interagem em grupos sociais formados nas mais diversas esferas da vida: na família, na comunidade, na educação, no trabalho, na cultura e na política. Assim, para garantir os direitos humanos dos indivíduos, é necessário também garantir os direitos dos grupos sociais, em especial dos minoritários e marginalizados. A cidadania só é plenamente possível quando o indivíduo é reco- nhecido, aceito e protegido pela sociedade. Reconhecer as diferenças individuais, o multiculturalismo, o pluralismo e adotar uma ética da al- teridade são os primeiros passos para a construção de uma sociedade mais justa. No livro Entre nós: ensaios sobre a alteridade, o filó- sofo Emmanuel Lévinas apresenta seu pensamen- to sobre a alteridade, a capacidade de identificar, entender, pensar e aceitar o outro. Lévinas mostra a fragilidade dos indivíduos frente aos demais sujeitos e ao grupo social. É uma leitura fundamental para entender como a alteridade é importante para estabelecer rela- ções sociais no mundo contemporâneo. LÉVINAS, E. 5. ed. São Paulo: Editora Vozes, 2010. Livro Alteridade, diversidade e multiculturalismo 95 4.4 Alteridade na sociedade contemporânea Vídeo No desenvolvimento histórico de povos e nações, a homo- geneidade do grupo étnico-racial é um dos pilares da forma-ção da identidade nacional. Para Flickinger (2018), no mundo contemporâneo, a diversidade substituiu a homogeneidade. A diversidade que observamos na sociedade atual tem várias origens. Surge como efeito do modelo econômico ca- pitalista – adotado por grande parte dos países do mundo –, que, ao concentrar riqueza em indivíduos e em países desen- volvidos, faz com que a cultura dos detentores do poder eco- nômico, político e social influencie e seja imposta aos demais indivíduos, povos e nações. Um dos fenômenos que mais impactam o aumento da diversidade social em muitos países é o crescimento dos movimentos de migração, sejam eles causados por ques- tões econômicos, sociais, religiosos e, principalmente, po- líticos. Para Flickinger (2011), os movimentos migratórios têm trazido rápidas mudanças culturais e sociais e repre- sentam um dos maiores riscos aos direitos humanos na atualidade. Para Hermann (2014), os conflitos, que ocorrem cada vez com mais frequência, têm como origem a falta de respeito aos direitos humanos e a intolerância quanto à cultura e aos costumes dos indivíduos que fazem parte dos grupos migrantes. O conceito da alteridade, discutido na primeira parte deste capítulo, é fundamental para que se possa buscar es- tratégias para lidar com o crescimento acelerado da diversi- dade trazida pelos movimentos migratórios. Para Flickinger (2018), a alteridade pode ser entendida com base em três diferentes pontos de vista: Dirigido por um dos mais influentes artistas e ativis- ta pelos direitos humanos, o chinês Ai Weiwei, o do- cumentário mostra crises e guerras que levaram a movimentos migratórios de refugiados em mais de 20 países. Além de abandonar casa, família e cultura, os migrantes passam por grandes privações e riscos durante os movimentos de migra- ção e são recebidos, na maioria das vezes, com preconceito e descon- fiança nos países em que buscam refúgio, ou são deportados e tratados como criminosos, ou, até mesmo, assassinados. Direção: Ai WeiWei. Alemanha: AC Films, 2017. Documentário 96 Direitos humanos e relações sociais 0101 0303 0202 No primeiro deles, a que o autor chama de relações pessoais desinteressadas, não há a criação de um laço ou relacionamento social, pois não há o interesse genuíno de um indivíduo em reconhecer a identidade do outro, ou seja, não há alteridade. ve to r s to ck /S hu tte rs to ck O segundo são as relações pessoais intencionais, em que o indivíduo busca estabelecer relações com o outro, mas apenas para atingir seus próprios objetivos pessoais. O outro é apenas uma ponte para que esses interesses sejam alcançados. Esse tipo de relação é muito comum nos meios empresariais e nas relações econômicas. Nesse contexto, há alteridade, mas ela é parcial. Se o outro não corresponde às expectativas ou às necessidades do sujeito, a relação é abandonada. Não há a intenção de entender e aceitar o outro em toda a complexidade da sua identidade. O terceiro baseia-se em uma relação interpessoal aberta, na qual o interesse pelo outro é genuíno e verdadeiro. O indivíduo exercita a alteridade ao perceber, compreender e aceitar o outro com todas as suas idiossincrasias e características individuais e de identidade cultural. idiossincrasia: caracte- rística comportamental própria a um grupo ou a uma pessoa. Glossário Lévinas (2005) afirma que as relações de alteridade, da mesma for- ma que acontecem nas relações interpessoais, também ocorrem na relação entre diferentes culturas. Para o autor, o primeiro contato com uma cultura diversa é marcado pelo estranhamento e pelo não enten- dimento das diferenças. Quanto mais distante da cultura do indivíduo, mais difícil é exercer a alteridade. Se o outro e sua cultura não apresen- tam nenhum ponto de acesso, referência ou interligação com a cultura do sujeito, mais difícil fica estabelecer relações. Língua, costumes, formas de se vestir, valores, crenças religiosas e comportamentos tidos como estranhos são, na verdade, apenas diferentes formas de entender o mundo. O que é incomum para um indivíduo é o natural para o outro, e vice-versa. Ao se deparar com uma cultura diversa, é necessário questionar suas próprias crenças e preconceitos. Alteridade, diversidade e multiculturalismo 97 A intensificação dos movimentos migratórios faz com que os indi- víduos sejam colocados em situações nas quais necessitam lidar com o diferente, com o outro, seja porque precisam migrar para outras re- giões em busca de segurança ou oportunidades, seja porque sua nação recebe os migrantes e refugiados. Mesmo que não deseje, o indivíduo precisa interagir com o outro e se sente em uma situação sobre a qual não tem controle. Flickinger (2018) cita como exemplo a situação do mercado de trabalho e sua relação com os imigrantes. A migração de trabalhadores tem trazido grandes questões sociais e políticas ao redor do mundo. Os imigrantes são acusados de roubar os empregos dos cidadãos do país (PEREIRA; ESTEVES, 2017; CASTORINO; BICALHO, 2021). Pereira e Esteves (2017) correlacionam o aumento do desemprego dos cidadãos portugueses entre os anos de 2010 e 2015 ao crescimento da quantidade de imigrantes, especialmente brasilei- ros, durante esse período. Flickinger (2011) mostra que há três formas utilizadas pelas nações para lidar com a força de trabalho formada por imigrantes. Na primei- ra forma, os trabalhadores são vistos apenas como mão de obra, ge- ralmente não remunerada e com poucas competências, ocupados em atividades e funções que não são desejadas pelos cidadãos. Porém, como o próprio autor destaca, é impossível desassociar a força de trabalho do ser humano que a realiza. Por mais que se busque segregar esses trabalhadores, eles trazem consigo suas crenças, lingua- gem e hábitos culturais, muitas vezes incompatíveis com a cultura local. Nesse contexto, os trabalhadores são, em geral, afastados do con- vívio social e vivem de maneira apartada, em guetos. As duas culturas não entram em contato e, por isso, os choques são menores e mais controlados. A segunda forma de lidar com a cultura dos imigrantes que fazem parte da força de trabalho é tentar fazê-los assimilar a cultura local, abandonando suas manifestações culturais, incluindo sua língua e suas crenças. A cultura do imigrante é subordinada à cultura local e, se pos- sível, totalmente suprimida por meio da repressão. Por fim, a integração é a forma mais adequada de se lidar com a cul- tura dos trabalhadores imigrantes. Nessa política, as duas culturas são No filme Distrito 9 seres alienígenas chegam ao planeta Terra em uma nave sucateada, em condições precárias de saúde, e são segregados e discriminados pelos humanos. Eles passam a viver em um gueto, alimentando-se de restos e dependendo da ajuda de órgãos governamen- tais que os escravizam e utilizam para experimen- tos e testes. O filme faz referência ao apartheid sul-africano: o Distrito Seis, na Cidade do Cabo, foi palco de intensos conflitos raciais na década de 1960. Direção: Neill Blomkamp. EUA: TriStar Pictures; Block / Hanson, 2009. Filme 98 Direitos humanos e relações sociais reconhecidas e as diferenças, respeitadas, colaborando para a constru- ção de uma nova cultura marcada pela ética da alteridade. A integra- ção também possibilita que os direitos humanos dos imigrantes sejam respeitados e garantidos. O exemplo da força de trabalho dado por Flickinger (2011) mostra apenas uma das áreas nas quais a questão da convivência entre po- vos e culturas traz grandes desafios para a garantia dos direitos huma- nos no mundo contemporâneo. Assim como no contexto profissional, áreas como educação, saúde, segurança pública, atendimento jurídico e manifestações culturais também apresentam riscos às garantias dos direitos humanos dos indivíduos e grupos minoritários. CONSIDERAÇÕES FINAIS Se é necessário discutir a inclusão social de grupos e de indivíduos que foram marginalizados pela sociedadee que se encontram em situação de vulnerabilidade quanto aos seus direitos humanos, é preciso entender os motivos pelos quais a exclusão acontece. Porém, tanto o conceito da inclusão quanto o da exclusão estão rela- cionados a outras realidades que precisam ser conhecidas para que pos- samos abordar a construção de uma sociedade em que os indivíduos não sejam julgados ou avaliados por seu gênero, por sua origem étnico-racial, identidade de gênero ou orientação social, imagem, condição financeira, escolaridade, condição de saúde ou posição social. Em um mundo cada vez mais diverso e multicultural, a alteridade se torna cada vez mais importante para o futuro da civilização humana. Para lidar com esse futuro incerto e cheio de desafios, a humanidade precisa aprender com a história e a cultura de cada povo e nação. Como ensinam as tribos sul-africanas: “Sawubona!”. ATIVIDADES 1. Explique os conceitos de exclusão, segregação, integração e inclusão. 2. Defina o conceito de alteridade. 3. Explique as características do neonacionalismo relacionadas ao nativismo e à exclusão. Vídeo Alteridade, diversidade e multiculturalismo 99 REFERÊNCIAS ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007. AMARELO. Intérpretes: Emicida, Belchior, Majur e Pabllo Vittar. Compositores: Antônio Carlos Belchior, Leandro Roque de Oliveira, Felipe Adorno Vassão e Eduardo dos Santos Balbino. In: AmarElo. Intéprete: Emicida. São Paulo: Laboratório Fantasma, 2019. (8:53 min) BAGATINI, F. A.; SCHUCK, R. J. O eu e o outro: as semelhanças e diferenças de uma identidade. Educere et Educare, v. 15, n. 33, p. 1-18, 2019. Disponível em: http://e-revista. unioeste.br/index.php/educereeteducare/article/view/19595. Acesso em: 2 jul. 2021. BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1998. BERGMANN, E. Neo-Nationalism: the rise of nativist populism. Cham, Suíça: Springer Nature, 2020. CAMARGO, E. P. Inclusão social, educação inclusiva e educação especial: enlaces e desenlaces. Ciência & Educação, Bauru, v. 23, n. 1, p. 1-6, 2017. 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Além disso, faltam infraestruturas básicas para a garantia da qualidade de vida de indivíduos e grupos em situação de risco, como moradias e estruturas de saneamento, saúde, transporte e segurança pública. Neste capítulo, será discutida a relação entre a cidadania, os direitos hu- manos e a inclusão social. Na primeira parte, serão vistos os conceitos de par- ticipação, inclusão e exclusão social. É por meio da participação do indivíduo e dos grupos nos espaços políticos, econômicos, culturais e sociais que se criam as condições para a inclusão social de todos os cidadãos. Na segunda parte, serão abordados os movimentos sociais organi- zados e os sujeitos coletivos, fundamentais para que a participação dos cidadãos seja possível no relacionamento com as instituições públicas e privadas da sociedade. Na terceira parte, serão debatidas as lutas sociais pela garantia dos direitos humanos de indivíduos e grupos minoritários defendidos pelos movimentos, bem como de sujeitos coletivos. Por fim, na quarta parte, serão apresentadas considerações sobre a situação atual dos direitos humanos e da cidadania tanto no Brasil quanto no mundo e as tendências para o futuro dos direitos humanos em uma sociedade que passa por profundas e intensas transformações sociais. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • analisar a relação entre inclusão e direitos humanos; • compreender o papel dos movimentos sociais nas discussões sobre os direitos humanos; • analisar as principais áreas de conflito social; • conhecer o cenário atual e refletir sobre os futurospossíveis para a discussão dos direitos humanos. Objetivos de aprendizagem 102 Direitos humanos e relações sociais 5.1 Participação social e inclusão Vídeo A luta pelos direitos humanos das populações marginalizadas e das minorias sociais é marcada por momentos de mobilização social e pela criação de movimentos organizados ligados tanto a demandas espe- cíficas de determinados grupos quanto ao seu aspecto mais amplo e generalizado (IVO, 2008). Para Gohn (2019), muitas das conquistas com relação à criação de legislações, ao desenvolvimento de políticas públicas e às mudanças efetivas na cultura da sociedade são resultado da participação dos mo- vimentos sociais nos campos jurídico, político, econômico e social. Na atualidade, tanto no âmbito global quanto no nacional, a par- ticipação social de grupos e movimentos organizados torna-se cada vez mais fundamental, pois possibilita um contraponto essencial à visão dominante na economia e na política, áreas que aumentaram ainda mais a concentração de riqueza e acentuaram as disparidades sociais, as quais representam retrocessos de conquistas sociais du- ramente obtidas. O filósofo e linguista Noam Chomsky, um dos mais respeitados pensadores da atualidade, em seu livro Réquiem para um sonho ame- ricano, aborda a questão das desigualdades sociais e sua relação com a política, os movimentos sociais e, principalmente, a concen- tração de poder e riquezas em uma parcela cada vez menor da so- ciedade. O autor aponta dez princípios que levam ao crescimento da desigualdade social (CHOMSKY, 2017). O primeiro é a redução da democracia. A concentração de poder em partidos ou figuras políticas, os quais diminuem a amplitude da democracia, leva a uma dualidade da sociedade, criando uma cultura de eles x nós. Como exemplo, o filósofo cita o bipartidarismo america- no (republicanos x democratas), mas essa característica é observada em diversos outros países, inclusive no Brasil (MIGUEL, 2019). Para concentrar poder político, a população deve ser, na visão de Chomsky (2017), passiva e despolitizada. Esse é o segundo princípio, o qual nomeamos de moldar a ideologia. De acordo com o filósofo, com o crescimento dos movimentos sociais que ocorreram nas décadas de 1960 e 1970 em diversos países do mundo, inclusive no Brasil, as elites políticas e econômicas repensaram a educação e o controle de infor- Direitos humanos e inclusão 103 mações com o objetivo de criar uma população menos consciente de seus direitos e moldar a forma de pensar dos indivíduos, com base em normas e modelos socialmente aceitos. Para Toynbee (2014 apud SILVA, 2014b, p. 37), “o maior castigo para aqueles que não se interes- sam por política é que serão governados pelos que se interessam”. O redesenho da economia, com a mudança da geração de valor da produção para o conhecimento, é o terceiro princípio. A gradati- va migração dos empregos industriais para os países em desenvol- vimento, em especial China, Índia e alguns do Oriente, mudou de modo profundo a matriz econômica dos países europeus e do conti- nente americano, inclusive o Brasil (CAXITO, 2021). Para o autor, no modelo econômico neoliberal e capitalista, o capital é livre para ser transferido entre países em um mundo sem fronteiras. De acordo com Piketty (2014), a especulação financeira e a desre- gulamentação das economias nacionais fazem com que grande parte dos resultados financeiros seja proveniente da especulação financeira, concentrando ainda mais a riqueza. No entanto, o trabalho e a mão de obra não têm a mesma liber- dade. Ao transferir a produção de um produto para outro país, uma empresa gera desemprego em seu país de origem. A diminuição dos postos de trabalho braçal aumenta a insegurança dos trabalhadores e diminui tanto a média de remuneração quanto os direitos trabalhistas, impactando diretamente a desigualdade social (CAXITO, 2021). Nas últimas décadas, houve uma gradativa concentração da co- brança de impostos sobre as parcelas mais pobres da população, sen- do esse o quarto princípio da concentração de riqueza. Os complexos sistemas tributários de diversos países causam uma situação na qual grande parte da carga tributária é paga pelos mais pobres. Empresas e indivíduos de alto poder aquisitivo têm acesso a me- canismos legais e financeiros, como os paraísos fiscais, que possi- bilitam o pagamento cada vez menor de impostos proporcionais ao patrimônio e à renda. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (POPULAÇÃO..., 2021), dados da econo- mia brasileira mostram que mais da metade dos impostos é paga pela parcela mais pobre da população, enquanto cerca de 18% da ar- recadação é proveniente de impostos pagos pela parcela mais rica, como mostram os dados do Quadro 1. O documentário Indústria americana, ganhador do Oscar de melhor documentário em 2020, mostra a realidade das pequenas cidades americanas que tiveram sua economia dizimada com o fechamento das indústrias responsáveis por grande parte dos empregos. A produção acompanha a compra de uma instalação industrial americana por uma em- presa chinesa e o choque cultural entre os modelos de gestão da nova insti- tuição com a forma de trabalho dos operários americanos. Além disso, aborda a precarização do trabalho e dos direitos dos trabalhadores. Direção: Julia Reichert. EUA: Higher Ground Productions; Participant Media, 2019. Documentário 104 Direitos humanos e relações sociais Tabela 1 Peso percentual da arrecadação de impostos por faixa salarial Faixas salariais População % sobre população % sobre arrecadação Até 3 salários mínimos 159.620.400 79,0% 53,8% De 3 a 5 salários mínimos 20.482.800 10,1% 12,7% De 5 a 10 salários mínimos 15.352.000 7,6% 16,6% De 10 a 20 salários mínimos 4.848.000 2,4% 9,6% Mais de 20 salários mínimos 1.696.800 0,8% 7,3% Totais 202.000.000 100,0% 100,0% Fonte: POPULAÇÃO..., 2021. Diminuir o sentimento de solidariedade entre os grupos sociais é o quinto princípio apontado pelo autor. Políticas públicas de divisão de renda e incentivo ao desenvolvimento social e de educação de parcelas mais pobres da população são, muitas vezes, vistas com desconfiança pelas parcelas mais ricas e recebem críticas quanto à sua eficiência e adequação. No Brasil, programas como o Bolsa Família, as cotas raciais de acesso à educação superior e o crescimento das vagas em universi- dades públicas direcionadas a indivíduos de baixa renda são exem- plos de políticas sociais combatidas e criticadas pelos grupos que detêm os poderes político e econômico (FERES JÚNIOR; DAFLON, 2015; SILVA, 2014a). A criação e a institucionalização de agências reguladoras de se- tores econômicos são o sexto princípio. Apesar de serem apresen- tadas como uma forma de controle do governo sobre as empresas privadas, o filósofo defende que, na prática, elas atuam de modo a defender os interesses privados e a aumentar o poder de empresas que se relacionam com os governos, seja por meio da corrupção, seja por legislações que socorrem empresas nos momentos de crise econômica (CABEZA; CAL, 2009; SALVADOR, 2010). Assim, para Chomsky (2017), essas organizações aumentam ainda mais a concentra- ção de riquezas. Um dos temas mais discutidos nos últimos anos, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa e no Brasil, é o controle sobre os processos eleitorais, sétimo princípio da concentração de riqueza. Os poderes po- O impacto das fake news sobre os processos eleito- rais de diversos países é o tema do documentário Fake news: baseado em fatos reais. Apesar de ser uma produção brasileira, o documentário tem como foco as eleições americanas em que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos e o referendo popular sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, conhecido como Brexit. Discutir o tema das fake news é cada vez mais importante nos processos eleitorais dos países democráticos. Direção: André Fran; Rodrigo Cebrian; FelipeUfo. Brasil: GloboNews, 2017. Documentário Direitos humanos e inclusão 105 lítico e econômico das elites que concentram as riquezas apresentam uma relação íntima. Os modelos eleitorais, fundamentados em doações a partidos e candidatos, trazem os interesses dos mais ricos em detri- mento das parcelas mais pobres da população (BATAGLIA; FARRANHA, 2018; SAAD-DINIZ; MARCANTONIO, 2015). Como forma de diminuir o poder da sociedade civil organizada, o oita- vo princípio é a desmobilização dos movimentos sociais. Sindicatos e ou- tros movimentos de defesa dos direitos de trabalhadores e outros grupos sociais têm perdido força e impacto nas últimas décadas (RIBEIRO, 2019). A tendência, identificada pelo filósofo na Europa e nos Estados Unidos, também pode ser observada no Brasil, em especial após as mudanças na legislação do trabalho e no financiamento dos sindica- tos, promulgadas na segunda metade da década de 2010 (OLIVEIRA; GALVÃO; CAMPOS, 2019). Com a diminuição da influência dos sin- dicatos, os trabalhadores perdem força nas negociações salariais e na defesa dos direitos adquiridos, o que traz impactos sobre a desi- gualdade social. A criação de modelos e padrões de consumo é o nono princípio, responsável pelo aumento das diferenças sociais. A mídia e, em es- pecial, as redes sociais são um importante instrumento de intensifi- cação das diferenças sociais. Ao definir e divulgar padrões de comportamento, beleza e con- sumo, os grupos minoritários são impactados de duas formas: os indivíduos que não se encaixam nos padrões são excluídos e colo- cados à margem da sociedade e as parcelas mais pobres se sentem pressionadas a consumir objetos que simbolizam o status dos gru- pos sociais dos quais almejam participar (MAGALHÃES; BERNARDES; TIENGO, 2017). O crescimento acelerado dos influenciadores digitais que vendem uma vida de sonho é um exemplo do poder da mídia como intensificadora das diferenças sociais (ALMEIDA, 2018). Por fim, o décimo e último princípio é a marginalização de grupos minoritários, especialmente daqueles ligados a questões étnico-raciais, de gênero e de sexualidade. Essa marginalização, para o filósofo, é re- flexo dos demais princípios e representa, na prática, os impactos da concentração de riqueza e poder sobre os direitos humanos das popu- lações minoritárias. 106 Direitos humanos e relações sociais Apesar de discutir as desigualdades sociais com base na realidade dos Estados Unidos, as conclusões a que Chomsky (2017) chega com suas análises podem ser identificadas também no Brasil. As ligações entre questões econômicas, políticas e culturais e a desigualdade social são analisadas e mostram que, para garantir que os direitos humanos dos grupos minoritários e indivíduos marginalizados sejam respeitados, é preciso uma solução integrada, que inclui mudanças nas mais diversas áreas da sociedade. Entre os princípios apontados por Chomsky (2017), dois são parti- cularmente importantes para a discussão a que este capítulo se pro- põe: a desmobilização dos movimentos sociais e a marginalização de grupos minoritários. A participação dos movimentos sociais organizados é fundamental para a luta pela garantia dos direitos humanos. Segundo Milani (2008), os processos participativos são parte integrante das relações sociais que se constroem na sociedade e refletem o contexto no qual ocorrem, tanto do ponto de vista histórico quanto do social. Para o autor, a par- ticipação social surge com a própria democracia. Entretanto, na atualidade, dada a cobrança por eficiência na solução de problemas sociais e a necessidade de agir com rapidez, os governos, muitas vezes, não abrem espaço ou não levam em consideração a par- ticipação da sociedade e dos grupos sociais organizados nas decisões e na definição de políticas públicas (GOHN, 2019). Para Lavalle (2011), a participação social está relacionada à demo- cracia, pois significa que os indivíduos e os grupos estão representados nas discussões sobre a organização da sociedade e as ações políticas em benefício dos cidadãos. Assim, para o autor, a participação social é a expressão maior da cidadania. Segundo Gohn (2016), a participação social é o instrumento que viabiliza a garantia dos direitos do cidadão nos âmbitos político, so- cial e econômico. Por outro lado, o oposto da participação é a ex- clusão: grupos e indivíduos não representados nas discussões que desenham as estruturas e definem o futuro da sociedade não têm sua identidade e suas demandas consideradas ou respeitadas e são excluídos da vida social. O livro Réquiem para o sonho americano, de Noam Chomsky, foi transformado em um documentário no ano de 2015, que apresenta as análises desenvolvidas pelo filósofo na tentativa de entender as desigual- dades sociais em uma das mais ricas economias do mundo. A produção é fundamental para se entender as relações entre economia, política e direitos humanos. Direção: Kelly Niks; Jared O. Scott. EUA: PF Pictures; Naked City Films, 2015. Documentário Com base no poema Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, o qual narra a vida de uma mulher que, ao tentar alcançar o céu, morre quando se joga no mar, pois viu o reflexo da lua nele, o com- positor Emicida escreveu a música homônima, que mostra como ocorre a marginalização dos gru- pos sociais minoritários: Primeiro cê sequestra eles, rouba eles, mente sobre eles Nega o deus deles, ofende, separa eles Se algum sonho ousa correr, cê para ele E manda eles debater com a bala que vara eles, mano Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=4pBp8hRmynI. Acesso em: 8 jul. 2021. Música Direitos humanos e inclusão 107 Ainda segundo Gohn (2016), a participação da população nos des- tinos da sociedade se dá em diversos níveis, sendo o voto um exem- plo. Ao escolher seus representantes, em teoria, o cidadão tem sua representação garantida. Porém, como mostra Chomsky (2017), um dos princípios da concentração de riqueza e poder é controlar os processos eleitorais por meio da influência do capital investido nas campanhas políticas e a manipulação da informação como uma ferra- menta de controle dos eleitores. A participação político-partidária em associações de classe e gru- pos comunitários e os movimentos que representam grupos específi- cos são exemplos de algumas formas de organização social, as quais Gohn (2016) chama de sujeitos sociais. Milani (2008) define a participação social cidadã como toda e qualquer forma de organização ou ação desenvolvida por meio da criação de redes de relacionamento em que os cidadãos, de maneira individual ou coletiva, relacionam-se com o objetivo de intervir e agir sobre a realidade social. A participação social é fundamental para o pleno exercício da cidadania por todos os indivíduos que fazem par- te da sociedade, independentemente de classe econômica, grupo étnico-racial, gênero ou identidade sexual. 5.2 Movimentos sociais e sujeitos coletivos Vídeo O conceito de movimentos sociais passou a ser discutido de modo mais intenso após a ocorrência de diversos protestos sociais que marca- ram a segunda metade da década de 1960 (STAMPA, 2010). O mundo passava por grandes transformações sociais, políticas e culturais, as quais deram origem a lutas pelos direitos de minorias, como os movimentos Black Power, intensificados com o assassinato do líder Martin Luther King Jr. em abril de 1968; Gay Power, com os even- tos de Stonewall em 1969; contra a Guerra do Vietnã, nos Estados Uni- dos, em 1968; feminista que cresceu de modo acelerado durante toda a década de 1960, em vários países europeus e americano; e estudantis, ocorridos a partir de maio de 1968 na França, que se espalharam por diversos países do mundo, inclusive no Brasil, em que a luta contra 108 Direitos humanos e relações sociais o regime militar, instaurado em 1964, chegou às ruas (PEREIRA, 2019; WOODS, 2016; SILVA, 2019; PERRONI et al., 2019; SILVA, 2018). Com base nesses intensos movimentos ocorridosnos últimos anos da década de 1960, foi a partir da década de 1970 que os movimentos sociais passaram a se organizar para agir de maneira coletiva na busca de direitos humanos e mudanças sociais. Segundo Stampa (2010), os estudos dos movimentos sociais na socio- logia seguem dois diferentes focos: a linha de pesquisa americana e a eu- ropeia. A primeira busca entender a forma de organização e composição dos movimentos sociais. Já a segunda busca estudar o contexto social no qual nascem esses movimentos, a identidade dos sujeitos coletivos que se formam por meio dos movimentos, as relações com a sociedade e as instituições econômicas, políticas e de governo. Essa linha de estu- do, que influenciou os sociólogos brasileiros, tem também o objetivo de entender a forma de ação dos movimentos sociais e como as manifesta- ções impactam a sociedade. Os movimentos sociais são, muitas vezes, confundidos com mani- festações de cunho essencialmente político e econômico, relacionadas aos movimentos socialistas ou comunistas. Essa visão simplista acaba por prejudicar o entendimento profundo da importância dos movimen- tos sociais na luta pelos direitos humanos e pela plena cidadania. Para Stampa (2010), a ligação dos movimentos sociais com o ambiente político é ainda mais forte no Brasil, pois, além de terem nascido na década de 1960, com os movimentos estudantis que luta- vam contra o regime militar, renasceram na década de 1970 e 1980, com o crescimento dos movimentos trabalhistas comandados pelos sindicatos de metalúrgicos de São Paulo, em especial na região de São Bernardo do Campo. Porém, os movimentos sociais não se restringem apenas aos es- forços políticos e trabalhistas. A luta pela moradia nas cidades, pela Reforma Agrária e por terra no campo, a defesa de minorias, como negros e indígenas, os direitos da mulher e dos grupos LGBTQIA+, a proteção do meio ambiente, o apoio a pessoas em situação de rua e a pessoas com dependência química, a inclusão de pessoas com deficiência e a defesa da cultura e das crenças religiosas são apenas alguns exemplos de movimentos sociais atuantes na sociedade bra- No vídeo Bom para todos: o que são os movimentos sociais?, publicado pelo canal TVT, são abordados movimentos sociais que lutam por diversas pautas, como acesso a creches públicas, defesa do meio ambiente e direitos de grupos minoritários e de categorias profissionais. Também é discutida a repressão do direito à ma- nifestação dos movimentos e à resiliência dos sujeitos coletivos na luta por suas demandas. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=4WjWDmCEL4E. Acesso em: 8 jul. 2021. Vídeo O documentário Paradoxos: 30 anos de democracia e direitos humanos no Brasil apre- senta uma visão histórica do desenvolvimento da democracia brasileira nas últimas décadas, após o processo de redemocrati- zação na década de 1980. O desenvolvimento dos movimentos sociais e a luta pelos direitos humanos são abordados com base na visão de alguns líderes desses movimentos. Direção: Vitor Blotta; Fabrício Bonni. Brasil: Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=Wu2a7exfkus. Acesso em: 8 jul. 2021. Documentário https://www.youtube.com/watch?v=Wu2a7exfkus https://www.youtube.com/watch?v=Wu2a7exfkus Direitos humanos e inclusão 109 sileira, que representam os interesses e as demandas de indivíduos, grupos sociais e sujeitos coletivos. Os sujeitos coletivos são definidos por Leal et al. (2015) como grupos ou outras formas de associação estruturados entre pessoas que compar- tilham crenças, pontos de vista, formas de pensar e demandas comuns e que agem de modo organizado e em conjunto na mediação entre os interesses dos indivíduos e das instituições nos espaços de discussão sobre as questões sociais. Segundo Lúcio (2015, p. 491), “reconhecer os sujeitos coletivos é dar materialidade política – voz e capacidade delibe- rativa – às pessoas inseridas na situação e no contexto em que ocorrem as disputas. Significa ir além da democracia representativa, chegando a uma forma mais direta de intervenção, debate e deliberação”. Ainda para Leal et al. (2015), muitas das conquistas legais, sociais e políticas alcançadas pelas minorias sociais e econômicas no Brasil, especialmente nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos do século XXI, estão relacionadas à atuação dos movimentos sociais, tanto aqueles organizados e institucionalizados na figura de sindicatos e instituições quanto aqueles que nascerem de maneira desestruturada por meio de demandas gerais da população, mas que se transformaram em grandes manifestações sociais que resul- taram em grandes mudanças. É importante salientar que nem todos os movimentos sociais e sujeitos coletivos buscam propor e implementar mudanças na socie- dade. Existem movimentos que almejam não apenas a manutenção das estruturas, das leis, das políticas e dos comportamentos como também defendem o retrocesso em questões de direitos humanos conquistados por outros movimentos e sujeitos coletivos, caso de grupos conservadores que lutam contra leis como a que legaliza o casamento homoafetivo e que protegem os indivíduos LGBTQIA+ (ROMANCINI, 2018). É nessa disputa entre as demandas, os interesses, as crenças e as ideias de diferentes movimentos, sujeitos coletivos e demais atores sociais que a sociedade se modifica e evolui. A participação social é fundamental, pois dá espaço para diferentes visões e demandas dos variados grupos sociais no processo de planejamento das políticas pú- blicas dos governos e na própria concepção de qual deve ser o papel do Estado e das organizações privadas na sociedade. Renato Janine, um dos mais destacados filósofos contemporâ- neos brasileiros, que atua como professor da Universidade de São Paulo, no documentário O Novo nas Ruas, faz uma profunda análise filosófica, sociológica e social das manifestações públicas ocorridas em todo o mundo durante o ano de 2013. No vídeo, ele comenta que as manifestações parecem acontecer por acaso e explodem de repente. O filósofo aponta que as redes sociais apresentam um importante papel na criação e na divulga- ção de movimentos ao facilitar o encontro de pessoas e grupos que lutam por seus direitos. O filósofo compara as manifestações com os movimentos estudantis de 1968. Disponível em: https://vimeo. com/74203386. Acesso em: 12 jul. 2021. Documentário 110 Direitos humanos e relações sociais Ao criar espaços e processos organizados que possibilitam a par- ticipação de movimentos e atores sociais nas discussões de interesse público, em especial no planejamento das ações de governo e políti- cas públicas, o Estado empodera os sujeitos coletivos, principalmente aqueles que representam as demandas de grupos marginalizados e indivíduos em situação de risco. 5.3 Lutas sociais e direitos humanos Vídeo As relações que se estabelecem na sociedade entre indivíduos, sujeitos coletivos e grupos sociais são mediadas por estruturas le- gais e instituições estatais que regulam e definem os direitos e de- veres dos indivíduos. Do ponto de vista histórico, a definição e a implementação dos di- reitos humanos nas sociedades não se deram de maneira natural e organizada, já que foram fruto de lutas políticas, étnico-raciais e sociais de indivíduos, grupos e movimentos sociais. Os direitos humanos po- dem ser entendidos, de acordo com Poker (2018), como um produto, uma construção que surge por meio da própria existência da civilização humana e da vida em sociedade. Para o autor, os direitos humanos não devem ser estudados apenas conceitualmente, mas sim compreendidos na realidade das sociedades e no contexto histórico no qual ocorreu cada luta e cada conquista de direitos. Segundo Salatini e Dias (2018), os movimentos sociais repre- sentam os indivíduos e os sujeitos coletivos na busca – ora pacífica, ora conflituosa – do equilíbrio entreos conflitos de interesses e as tensões sociais que se estabelecem dentro dos grupos e das sociedades. De acordo com os autores, os movimentos sociais testam os limites entre a inclusão e a exclusão social e as lutas podem ser mais pacíficas ou mais conflituosas, conforme a flexibilidade e a permeabilidade dos li- mites sociais. O rapper americano Tupac Shakur usa uma metáfora para explicar o que Salatini e Dias (2018 apud CANDOTTI, 2012, p. 132) afirmam: Se eu souber que nesse quarto de hotel tem comida boa todo dia e bato todo dia na porta pra comer e eles abrem a porta, me deixam ver a festa, me deixam vê-los jogando salame pra todo lado, isto é, simplesmente jogando comida pra todo lado, mas eles dizem que não tem comida. Todos os dias, saio e Um dos mais importan- tes rappers americanos, Tupac, foi assassinado no ano de 1996. O artigo 1992 – A via gangsta, de Fábio M. Candotti, discute a importância da música do cantor para a discussão social e a influência dele sobre os movimentos negros ame- ricanos e brasileiros. Disponível em: https:// www.researchgate.net/ publication/348707415_1992_- _a_via_gangsta. Acesso em: 8 jul. 2021. Saiba mais https://www.researchgate.net/publication/348707415_1992_-_a_via_gangsta https://www.researchgate.net/publication/348707415_1992_-_a_via_gangsta https://www.researchgate.net/publication/348707415_1992_-_a_via_gangsta https://www.researchgate.net/publication/348707415_1992_-_a_via_gangsta Direitos humanos e inclusão 111 tento passar minhas ideias através da música: “Temos fome, por favor, deixe-nos entrar. Temos fome, por favor, deixe-nos entrar”. Depois de uma semana, a música vai mudar para: “Temos fome, precisamos de comida!”. Depois de duas, três semanas, vai ser: “Me dê comida ou vou arrombar a porta!”. Depois de um ano, vai ser: “Estou forçando a fechadura, en- trando pela porta voando...”. Tipo assim: você tem fome, che- gou ao seu limite. Pedíamos há dez anos. Pedíamos com os Panteras. Pedíamos com eles, o movimento dos direitos civis. Essas pessoas que pediam morreram ou estão na cadeia. Então, agora, o que acha que vamos fazer? Pedir? Os movimentos sociais, além de lutarem para que os direitos humanos sejam garantidos aos indivíduos e aos grupos por eles representados, ajudam no entendimento das demandas e no de- senvolvimento de uma visão mais profunda do que são os direitos humanos e de como eles devem ser colocados em prática, tanto por meio de legislações quanto pela mudança de comportamentos e práticas morais da sociedade. Para Poker (2018), as lutas dos movimentos sociais expandem as fronteiras do que definimos como direitos humanos, ao traduzir as ne- cessidades, as demandas e as reivindicações dos indivíduos e dos gru- pos sociais por eles representados. A luta pelos direitos humanos tem um caráter político, no sentido de que se dá nos espaços públicos de discussão dos interesses en- tre grupos sociais dominantes, dominados e excluídos. Como afirma Alonso (2009), os movimentos sociais são a expressão da própria di- nâmica dos grupos sociais, marcada por tensões e conflitos entre os diversos indivíduos e sujeitos coletivos que os compõem. Essas tensões podem surgir por meio de lutas por inclusão, por no- vos direitos, pelo espaço de representação, pela defesa de direitos já conquistados ou pelo desejo de impedir que mudanças ocorram na estrutura da sociedade, como no caso dos grupos conservadores que buscam a manutenção das condições sociais a que estão habituados. A promulgação de novas leis e as mudanças no comportamen- to, nos padrões e nas normas socialmente aceitas são reflexo da atuação dos movimentos sociais, segundo Poker e Arbarotti (2015). Já Alonso (2009) acredita que os movimentos sociais representam a insatisfação dos grupos sociais e sujeitos coletivos com a atuação Criado em 1966, o parti- do dos Panteras Negras surgiu como um grupo que buscava denunciar o racismo, a perseguição policial e a exclusão social dos negros nos Estados Unidos. Ao denunciar questões relacionadas não só ao racismo, mas também à pobreza, à desigualdade social e à brutalidade policial con- tra negros, o movimento, nascido em um contexto de luta pelos direitos ci- vis, se tornou importante e conseguiu conquistar grandes avanços contra a segregação racial. Saiba mais O vídeo Reportagem especial: movimentos sociais – 16/05/14, produzido pelo canal da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, apesar de mostrar especificamente a história do desenvolvi- mento dos movimentos sociais no estado catari- nense, exemplifica como as lutas sociais estão na origem do surgimento de movimentos sociais organizados. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=N0MZKJxhszQ. Acesso em: 8 jul. 2021. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=N0MZKJxhszQ https://www.youtube.com/watch?v=N0MZKJxhszQ 112 Direitos humanos e relações sociais do governo e com a postura do Estado, das instituições e do orde- namento jurídico diante dos problemas sociais, como preconceitos, marginalização e exclusão social. Para Alves, Pocker e Ferreira (2015), os documentos históricos que discutem e definem os direitos humanos, como a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 (FRANÇA, 2015), a Constituição dos Estados Unidos da América, 1787, a Bill of Rights, 1791 (EUA, 2015) e a Declaração Universal de Direitos Huma- nos da Organização das Nações Unidas de 1948 (ONU, 1948), são a base conceitual sobre a qual os movimentos sociais definem e orga- nizam suas demandas e desenvolvem seus projetos e planos de mo- bilização e manifestação política a serem discutidos com os demais atores sociais e instituições. Todavia, como destaca Milani (2008), a prática dos direitos humanos discutidos conceitualmente nesses e em outros documentos que abor- dam os direitos humanos nem sempre é tão simples. Cada sociedade apresenta especificidades quanto às crenças, aos valores, à ética e à moral, bem como à sua história e à composição de seu povo. Assim, mesmo para garantir os direitos humanos mais básicos, como o direito à vida, diversos conflitos podem surgir entre os grupos sociais e sujeitos coletivos representados por esses movimentos, que muitas vezes podem até impedir a garantia dos direitos humanos. Essa diferença entre a discussão conceitual e a prática sobre os direitos humanos pode ser exemplificada por um tema constante- mente presente na sociedade contemporânea: o direito das mulhe- res ao aborto. Para Luna (2014), esse tema contrapõe dois movimentos sociais or- ganizados e atuantes: de um lado, os grupos pró-vida, os quais defen- dem que, mesmo antes de nascer, o feto representa uma vida humana e, portanto, deve ter seus direitos garantidos; de outro lado, os movi- mentos feministas, os quais defendem o direito de a mulher definir se deve dar continuidade à gestação. Klock e Lixa (2017) apontam que a criminalização do aborto no orde- namento jurídico brasileiro se encontra em desacordo com as legislações internacionais que regulam os direitos humanos, como a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário. Direitos humanos e inclusão 113 O tema da legalização do aborto torna-se ainda mais comple- xo quando se trata de gravidez decorrente de crime de estupro ou quando há a constatação de que o feto sofre de graves doenças ou má-formação. No ano de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) brasi- leiro discutiu o aborto de crianças anencéfalas. A legalização do aborto nessas condições, autorizada pelo STF, causou diversas manifestações de movimentos pró-vida. Esse exemplo mostra como a realização prática do mais bá- sico dos direitos humanos, o direito à vida, pode gerar profundas discussões na sociedade e como cada grupo e movimento social de- fende suas próprias convicções a respeito de como os direitos hu- manos devem ser implementados. Habermas (2002) destaca que a luta pela inclusão social dos grupos excluídos e marginalizadosé a força motriz dos movimentos que bus- cam a igualdade de direitos e o fim da discriminação e do preconceito étnico-racial, de gênero, de identidade sexual, de crença ou de qual- quer outra característica social que possa resultar em exclusão. As ações e manifestações dos movimentos sociais na busca pela efetivação dos direitos humanos para os indivíduos e grupos sociais por eles representados muitas vezes acabam gerando conflitos, es- pecialmente em uma sociedade marcada pelo multiculturalismo e pelas diferentes crenças e visões de mundo de cada grupo social, como mostra o exemplo das discussões a respeito do direito ao aborto e à vida. Segundo Habermas (2002), essa diversidade social e cultural traz uma grande complexidade para a efetivação dos direitos humanos, e a única forma de a sociedade evoluir é por meio da participação e da represen- tatividade dos movimentos e dos sujeitos coletivos nas discussões e nos espaços políticos, econômicos, legais, culturais e sociais. A efetiva prática dos direitos humanos que garantem a inclusão so- cial só é possível em uma sociedade na qual as diferenças são perce- bidas, entendidas e respeitadas e os sujeitos são aceitos com todas as suas características, individualidades, desejos e demandas. O cotidiano da sociedade é diverso e mutável. Novas realidades, cul- turas, formas de interação e demandas sociais surgem com a própria dinâmica de uma sociedade que se torna cada vez mais global, interco- nectada e multicultural. O passado das discussões sobre os direitos hu- Segundo Gomes (2018, p. 121), anencefalia é “uma má-formação rara do tubo neural, caracteri- zada pela ausência total ou parcial do encéfalo e da calota craniana, proveniente de defeito de fechamento do tubo neural nas primeiras semanas da formação embrionária. Ela traz como consequências pro- blemas como cegueira, surdez, inconsciência e incapacidade de sentir dor; grande parte dessas gestações evoluem para aborto espontâneo [...]”. Saiba mais O documentário Uma história Severina mostra a luta de uma mãe recifense que, em 2004, teve a autorização para realizar o aborto de um feto anencéfalo negada pelo Supremo Tribunal Federal. A batalha pelo di- reito ao aborto levou mais de 3 meses e, mesmo autorizado legalmente, a mulher teve que lutar contra o sistema de saú- de, entrando em trabalho de parto de uma criança natimorta. O caso de Severina levantou novas discussões sobre o aborto de fetos anencéfalos e, em 2012, o STF decretou decisão favorável ao procedimento. Direção: Debora Diniz; Eliane Brum. Brasil, 2010. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=65Ab38kWFhE. Acesso em: 8 jul. 2021. Documentário 114 Direitos humanos e relações sociais manos possibilita que, na atualidade, a sociedade possa implementar novas formas de garantir a inclusão social. Os desafios do presente dão a direção que orienta essas discussões no futuro. 5.4 Direitos humanos: presente e futuro Vídeo O mundo contemporâneo traz grandes desafios para a garantia dos direitos humanos. As crises econômicas, sociais e políticas que marca- ram a segunda metade da década de 2010 e o início da década de 2020, aprofundadas pelos efeitos da pandemia global causada pela Covid-19, trazem novos desafios para os movimentos sociais que buscam a inclu- são social de grupos marginalizados (SIQUEIRA et al., 2020). 5.4.1 Os direitos humanos no presente Para Poker (2018), a ascensão de grupos políticos conservadores, em diversos países do mundo, durante a década de 2010, trouxe à discussão os direitos humanos de grupos marginalizados que pare- ciam já ter sido totalmente institucionalizados. Legislações que protegem os direitos de minorias étnico-raciais, como as leis de cotas e a demarcação de terras indígenas, ou de po- pulações LGBTQIA+, como o direito ao casamento homoafetivo, volta- ram a ser objeto de discussão, com projetos de grupos e movimentos sociais conservadores que ganharam espaço e força na nova organi- zação política, tanto em países europeus e americanos, com a eleição de políticos conservadores, quanto em países asiáticos com governos ditatoriais. Para Marques (2020, p. 693): dificilmente deixaríamos de reconhecer que nos dias e mundo de hoje os chamados direitos civis são violados mais frequente- mente quando seus detentores são os mais vulnerabilizados pela estrutura social: trabalhadores, negros, integrantes de minorias, mulheres, moradores de periferias, politicamente minoritários, somando-se este fato como elemento a distinguir origem de significado concreto de tais direitos. A compreensão deste último só pode ser realizada na inserção do direito, em suas múltiplas dimensões, no contexto da realidade atravessada por conflitos e forças na qual toma parte. Salatini e Dias (2018) citam o Relatório da Anistia Internacional de 2017, que indica o Brasil como o país do continente americano em que O livro Direitos humanos no Brasil de 2020 aborda o impacto das mudanças políticas ocorridas devido à pandemia de Covid-19 e, principalmente, os seus reflexos nas discussões e na defesa dos direitos hu- manos no Brasil. Além dis- so, discute as tendências para os próximos anos com relação à garantia dos direitos humanos, em especial para os grupos marginalizados. A obra é escrita por diversos autores e organizada pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. STEFANO, D.; MENDONÇA, M. L. (org.). Brasília, DF: Expressão Popular; Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, 2020. Livro Direitos humanos e inclusão 115 líderes de movimentos de defesa aos direitos humanos mais correm risco de serem assassinados, com mais de três quartos das mortes ocorridas no ano de 2017. O grande desafio contemporâneo da luta pelos direitos humanos é equilibrar a proteção e a defesa das tradições culturais e os processos de desenvolvimento da sociedade, os quais são influenciados tanto pe- las mudanças tecnológicas que aproximam diferentes culturas que se chocam, influenciam-se e dão origem a mudanças sociais quanto pela ação dos movimentos sociais que precisam ser mediados pela inter- venção do Estado e pelas legislações nacionais e supranacionais. Um exemplo desse desafio é a questão indígena. Toma-se ainda como exemplo a controvérsia criada em torno das demarcações de terras indígenas e quilombolas no Brasil, em que de um lado, há o reconhecimento do direito ao território tradicio- nal concedido aos povos indígenas e quilombolas, versus o direito à propriedade de agricultores empresariais, também um direito presente na Declaração de 1948, como ficou claro nos conflitos pela demarcação da reserva Raposa Serra do Sol em Roraima, na argumentação constante da ação judicial envolvendo Estado e produtores agrícolas, que começou em 2005 e foi concluída no Supremo Tribunal Federal em 2007. (POKER, 2018, p. 225) Concatenar a tradição e a modernidade é desafiador, pois algu- mas tradições culturais são baseadas em diferenças de direitos en- tre grupos sociais que causam a exclusão social de indivíduos, como observamos nas questões relacionadas às relações étnico-raciais. O que é considerado tradição e um direito adquirido historicamente por determinado grupo social pode representar a exclusão social de outro. A superação desse tipo de conflito é complexa e pode ser ob- servada em vários contextos sociais no mundo contemporâneo, como pode ser exemplificado pelos conflitos entre palestinos e israelenses na Faixa de Gaza (GORGA, 2019). Marques (2020) chama a atenção para o fato de que o conceito da defesa dos direitos humanos pelos Estados e governos, apesar de ter suas origens na Revolução Francesa no século XVIII, só passou a ser efe- tivamente colocada em prática após o fim da Segunda Guerra Mundial, principalmente devido à Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU em 1948. O autor considera que a política e o papel do Estado contemporâneo têm os direitos individuais como um de seus pilares. A premiadafalham nessa missão, devem ser trocados. Para o filósofo, a única forma possível de se estruturar o Estado é a república. Ao resgatar as discussões sobre o direito natural no contexto da filosofia e relacioná-lo ao papel do Estado, em um momento histórico 16 Direitos humanos e relações sociais de grandes transformações sociais, os filósofos contratualistas pavi- mentaram o caminho para que os direitos humanos passassem a ser discutidos nos âmbitos políticos e legais, em especial nos países que estabeleceram governos democráticos nas décadas seguintes, como os Estados Unidos e a França. 1.2 Origens jurídicas dos direitos humanos Vídeo Com base nas discussões desenvolvidas pelos filósofos contratualis- tas, os direitos humanos passaram a ser incluídos nas legislações e nas constituições dos países democráticos com base em dois importantes documentos: a Constituição dos Estados Unidos da América, promulga- da em 1787, e a Constituição Francesa, de 1791. Após a Revolução Francesa, em 1789, foi instituída a Assembleia Nacional Constituinte, que votou e promulgou, no mesmo ano, os Ar- tigos da Constituição, que serviram de base para o desenvolvimento da Constituição Francesa, promulgada em 1791. O documento central da Assembleia é a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. O artigo 1º da Declaração define que: “os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum” (DECLARAÇÃO..., 2021). No mesmo período, os Estados Unidos da América, recém-funda- dos no ano de 1776, após a independência do jugo político da Ingla- terra, também passavam pelo processo de criação de sua constituição. Assinada em 1787, a Constituição Americana foi complementada, no ano de 1791, pelo documento conhecido como Bill of Rights (Carta de Direitos, em tradução livre), que define a garantia dos direitos humanos como um ponto central da legislação americana. A Constituição Francesa e a Americana eram inovadoras e repre- sentaram uma ruptura nos modelos de legislação característicos dos Estados absolutistas que dominaram a Europa e suas colônias durante grande parte da Idade Média e no início da Idade Moderna. A inclusão dos direitos humanos como base conceitual e ponto cen- tral das constituições dos dois países influenciou a criação e a altera- ção de constituições e do arcabouço jurídico de diversos outros países, tanto aqueles que realizaram a transição para formas democráticas de governo quanto os que mantiveram a forma de governo monárquico. No site da Biblioteca Vir- tual de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo, há um dos mais importantes documentos da história dos direitos humanos, a Constitui- ção Americana que é a constituição mais antiga ainda em uso, mantendo a escrita original de 1787. Disponível em: http://www. direitoshumanos.usp.br/index.php/ Documentos-anteriores-%C3%A0- cria%C3%A7%C3%A3o- da-Sociedade-das- Na%C3%A7%C3%B5es- at%C3%A9-1919/ constituicao-dos-estados-unidos- da-america-1787.html. Acesso em: 21 maio 2021. Site http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/constituicao-dos-estados-unidos-da-america-1787.html Bases históricas dos direitos humanos 17 Um exemplo de como a preocupação com os direitos humanos passou a ser presente nas legislações de diversos países pode ser ob- servado nas mudanças implementadas na Constituição de Portugal, realizada em 1822, que incluiu, em um de seus artigos, o objetivo de garantir a liberdade, os direitos individuais, a segurança e o direito à propriedade privada a todos os cidadãos portugueses. A crescente constitucionalização tornou os direitos humanos ainda mais importantes nas discussões políticas e jurídicas, com a promulgação, em diversos países, de leis positivas com o obje- tivo de garantir o acesso de todos os cidadãos aos seus direitos individuais. Apesar de ter como base filosófica a ideia do contrato social e dos direitos naturais, de acordo com as pressões políticas, caracte- rísticas culturais e influência de forças econômicas sobre o governo em cada país, as legislações dos direitos humanos foram adotadas e promulgadas com velocidades e intensidades diferentes. Um exemplo é a abolição da escravidão. Enquanto a Dinamarca promulgou a lei da abolição da escravatura no ano de 1792, nos Es- tados Unidos, um dos berços dos direitos humanos, somente no ano de 1863 os negros foram libertados da escravidão por Abraham Lin- coln, após a guerra civil conhecida como Guerra da Secessão, durante os anos de 1861 e 1865. Já no Brasil, a escravidão só foi abolida em 1888, mais de um sé- culo depois da promulgação das constituições francesa e americana que colocaram os direitos humanos no centro da discussão jurídica das constituições nacionais. Com o rápido crescimento econômico trazido pela industriali- zação e pela adoção do modelo capitalista de produção e o conse- quente crescimento das cidades, com a migração de trabalhadores em busca dos empregos nas indústrias, surgiram novas demandas sociais, notadamente entre os membros das classes proletárias (MARX; ENGELS, 2008). Entre as diversas demandas surgidas com a nova realidade so- cial, destacam-se o direito a um salário justo com relação ao traba- lho desenvolvido, o direito à saúde, à habitação digna e à educação (JERÓNIMO, 2019). A série Amend: The Fight For America apresenta e discute a 14ª emenda da Constituição Americana e a luta pela igualdade de direitos e o racismo estrutural e institucional nos Estados Unidos. Lançada em fevereiro de 2021, a série apresentada por Will Smith está dispo- nível na Netflix. Direção: Will Smith. Estados Unidos: Netflix, 2021. Série O livro 1º de Maio: cem anos de Luta – 1886-1996 mostra a luta pelos direitos trabalhistas, iniciada com uma greve na cidade americana de Chicago, em 1886, e relata as lutas dos trabalhadores brasileiros desde o início do processo de industrialização da eco- nomia brasileira, no início do século XX. Lançado no ano de 1986, o livro foi relançado em 2016 para comemorar os 130 anos da data. DEL ROIO, J. L. 2. ed. São Paulo: Centro de Memória Sindical, 2016. Livro 18 Direitos humanos e relações sociais Esses direitos sociais, que não estavam incluídos na visão filo- sófica dos direitos naturais, seguem a lógica de individualidade dos direitos. Da mesma forma que os direitosanimação brasileira Uma história de amor e fúria é composta de quatro partes e tem como tema central a vio- lência contra os grupos étnico-raciais minoritários e os movimentos sociais e políticos, abordando também a questão ambiental e o futuro dos direitos humanos. Direção: Luiz Bolognesi. Brasil: Buriti Filmes; Gullane; Lightstar Studios, 2013. Filme 116 Direitos humanos e relações sociais Nesse contexto, o Estado tem o papel de ser o garantidor dos direitos dos indivíduos. Essa configuração de poder, ainda segundo o estudioso, embute uma dicotomia: se por um lado o governo concentra todo o poder político, por outro ele é limitado pelos direitos dos indivíduos. 5.4.2 O futuro dos direitos humanos A ascensão de movimentos sociais e grupos políticos e econômicos conservadores, principalmente a partir da década de 1990, representa, para Marques (2020), uma nova realidade social, em que a centralidade dos direitos individuais, como base do poder do Estado, é questionada. Na visão dos grupos conservadores, os direitos dos indivíduos não se sobrepõem aos direitos e aos valores dos grupos sociais, es- pecialmente daqueles que historicamente detêm o poder econômi- co, político e social. Essa realidade aponta, na visão do autor, para um futuro no qual os direitos humanos não estarão no centro das decisões do Estado. Ao analisar o discurso das forças políticas conservadoras, Marques (2020) identifica algumas características marcantes, as quais podem ser encontradas em movimentos conservadores de diferentes países, como: • a denúncia contra um pretenso sistema de dominação social pe- las forças políticas liberais, para as quais o movimento conserva- dor se apresenta como uma alternativa antissistema; • a postura nacionalista e a idealização de um povo marcado por um passado glorioso, conceito que é usado para excluir os indi- víduos e os grupos que não fazem parte dessa história e cultura; • a desconfiança com relação aos movimentos sociais organiza- dos ou a qualquer instituição ou organização que represente interesses diferentes daqueles defendidos pelo grupo; • a deslegitimação das lutas e conquistas de direitos pelas minorias étnico-raciais, de gênero, de identidade e de crença. Os indivíduos que fazem parte de grupos sociais minoritários são vistos pelos movimentos conservadores como “ameaçado- res de degeneração social, nacional e buscadores de privilégios” (MARQUES, 2020, p. 695). O livro O fim dos direitos humanos aborda os cami- nhos que as discussões sobre os direitos huma- nos têm seguido nos últimos anos. De maneira crítica, o autor discute a visão a respeito da ideo- logia e dos paradoxos ló- gicos e humanísticos que baseiam essas discussões políticas e sociais. DOUZINAS, C. São Leopoldo: Unisinos, 2009. Livro https://www.amazon.com.br/s/ref=dp_byline_sr_book_1?ie=UTF8&field-author=Costas+Douzinas&text=Costas+Douzinas&sort=relevancerank&search-alias=stripbooks Direitos humanos e inclusão 117 O crescimento dos movimentos conservadores e nacionalistas coin- cide com o aumento dos processos migratórios motivados por ques- tões econômicas e, principalmente, pelos conflitos políticos e religiosos que marcam as primeiras décadas do século XXI. Para Gomes (2017), o aumento dos preconceitos relacionados a questões étnico-raciais, à xenofobia e à intolerância religiosa é reflexo palpável do choque de culturas causado pelas migrações, tendo como resultado o fortalecimento do conservadorismo e do nacionalismo. Nesse cenário, o papel dos movimentos sociais que defendem os direi- tos dos indivíduos marginalizados torna-se cada vez mais crucial para que se garantam os direitos humanos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em um país marcado pelas desigualdades sociais como o Brasil, discu- tir e lutar pela efetivação dos direitos humanos e pela plena cidadania é cada vez mais importante. No Brasil contemporâneo, violência, exclusão social, racismo, sexismo, preconceito contra a população LGBTQIA+, falta de oportunidades de educação e trabalho, exclusão econômica e margi- nalização estão não só presentes, como se aprofundam. Nesse contexto, o futuro da defesa dos direitos humanos tende a ser marcado pela intensificação dos conflitos e pelo aumento da importân- cia dos movimentos sociais como legítimos representantes dos grupos sociais e sujeitos coletivos. Nenhuma conquista e nenhum avanço em di- reção à inclusão total e à plena cidadania podem ser considerados con- solidados. A necessidade da luta pelos direitos humanos é cotidiana e contínua, seja hoje, seja no futuro! ATIVIDADES 1. Explique a relação entre a participação social e a democracia. 2. Qual é a importância do ano de 1968 para o surgimento e a organização dos movimentos sociais? 3. O que são sujeitos coletivos? Vídeo 118 Direitos humanos e relações sociais REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. I. S. de. et al. Quem lidera sua opinião? Influência dos formadores de opinião digitais no engajamento. Revista de Administração Contemporânea, Curitiba, v. 22, n. 1, p. 115-137, jan./fev. 2018. 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Os direitos de terceira geração se referem a questões supranacionais, como o direito à paz, a garantia da preservação do meio ambiente para que haja condições de vida para a humanidade. Os direitos de quarta geração são aqueles ligados aos direitos das próximas gerações. 3. Explique a importância da Constituição Francesa de 1791 e da Constituição Americana de 1787 para os direitos humanos. A Constituição Francesa e a Americana eram inovadoras e representaram uma ruptura nos modelos de legislação característicos dos Estados absolutistas que dominaram a Europa e suas colônias durante grande parte da Idade Média e no início da Idade Moderna. A inclusão dos direitos humanos como base conceitual e ponto central das constituições dos dois países influenciou a criação e a alteração de constituições e do arcabouço jurídico de diversos outros países, tanto aqueles que realizaram a transição para formas democráticas de governo quanto os que mantiveram a forma de governo monárquico. 122 Direitos humanos e relações sociais 2 Relações étnico-raciais 1. Explique o conceito de eugenia. O termo eugenia, que significa “bem-nascido”, criado por Francis Galton, parte da ideia da evolução das espécies para concluir que a espécie humana poderia também ser alterada ou, em sua visão, melhorada, com base na seleção das características dos indivíduos. 2. Explique as diferenças entre os termos raça e etnia. O conceito de raça, dentro do estudo das espécies, está relacionado às características físicas que estão ligadas a uma determinada origem geográfica. A dificuldade em se utilizar esse conceito para definir a raça de um indivíduo reside na complexidade de se determinar quais são essas diferenças e qual é a real importância delas. Já a etnia está ligada à origem de um determinado grupo social e se relaciona com a cultura, a religiosidade, a língua ou o dialeto e as práticas culturais e sociais. Enquanto o conceito de raça está relacionado às características genéticas e biológicas transmitidas por ligações de parentesco e ancestralidade, a etnia se forma a partir de processos de agrupamento históricos e a formação de grupos sociais e culturais. 3. Aponte quais ações podem ser tomadas para diminuir a desigualdade racial. Ações como o sistema de cotas em universidades, maior promoção de oferta de emprego para facilitar a capacitação e entrada no mercado de trabalho, investimentos em educação e saúde ajudam a minimizar e combater os efeitos da desigualdade racial. 3 Gênero e sexualidade 1. Explique a diferença entre os conceitos de gênero e sexualidade. O conceito de gênero, segundo Heilborn e Rodrigues (2018), evoluiu a partir do ponto de vista biológico, de uma visão baseada na divisão dos indivíduos de uma determinada espécie em machos e fêmeas para uma visão cultural e social. Já o conceito da sexualidade envolve, além dos aspectos biológicos, questões psicológicas, que vão além das representações culturais, históricas e comportamentais do grupo social do qual o indivíduo faz parte. Resolução das atividades 123 2. Explique o conceito de heteronormatividade. A heteronormatividade se relaciona à visão de que as posturas e os comportamentos heterossexuais são considerados como corretos e normais na sociedade, estando ligada aos papéis sociais que se esperam de cada gênero na sociedade e que estabelecem como norma a heterossexualidade e a instituição de categorias distintas, rígidas e complementares de masculino e feminino 3. Explique o que é identidade de gênero. A identidade de gênero pode ser entendida como a representação social dos gêneros masculino e feminino, com base nas convenções e nos comportamentos reconhecidos pelo grupo social, fundamentada no sexo biológico e na genitália do indivíduo. Porém, não necessariamente a construção e a percepção do próprio indivíduo sobre sua identidade estão de acordo com essas características físicas e biológicas. As identidades de gênero são construídas a partir das experiências, vivências e emoções de cada indivíduo. Apesar de estarem relacionadas, identidade de gênero e orientação sexual nem sempre estão alinhadas e isso não deve ser encarado como um problema pela sociedade. 4 Alteridade,diversidade e multiculturalismo 1. Explique os conceitos de exclusão, segregação, integração e inclusão. Na exclusão, os indivíduos são colocados do lado de fora de uma sociedade cujos mecanismos de impermeabilização de fronteiras não permitem o retorno ou a possibilidade de estabelecer relações com os que estão dentro. Na segregação, os indivíduos são marginalizados, separados ou isolados do grupo social. A integração está relacionada à ideia de que os indivíduos deixam de estar marginalizados e apartados da sociedade, mas ainda não estão totalmente incluídos na estrutura social. Já a inclusão é a situação social na qual os indivíduos têm sua identidade e diversidade reconhecidas, aceitas e valorizadas, participando de maneira efetiva e integral do grupo social. 2. Defina o conceito de alteridade. A alteridade pode ser definida como a capacidade de enxergar o outro e entender que os direitos humanos de cada indivíduo devem ser respeitados, independentemente de qualquer tipo de diferença. A alteridade se realiza no contato com o outro, com a identificação, a 124 Direitos humanos e relações sociais escuta, a compreensão, a valorização e aceitação das diferenças, sem julgamento ou juízos de valor. 3. Explique as características do neonacionalismo relacionadas ao nativismo e à exclusão. Dentre as diversas características do neonacionalismo, o nativismo está relacionado à visão etnocêntrica, em que a história é usada para criar uma visão ufanista que tem por objetivo unificar o povo e diferenciá-lo dos demais grupos étnico-raciais. As origens históricas e mitológicas da nação são exacerbadas e destacadas. Já a exclusão dá origem à discriminação aos imigrantes e às minorias e, principalmente, à xenofobia, que faz com que os direitos humanos dos indivíduos marginalizados não sejam respeitados. 5 Direitos humanos e inclusão 1. Explique a relação entre a participação social e a democracia. A participação social está relacionada à democracia, pois significa que os indivíduos e os grupos estão representados nas discussões sobre a organização da sociedade e as ações políticas em benefício do cidadão. A participação social é a expressão maior da cidadania. 2. Qual é a importância do ano de 1968 para o surgimento e a organização dos movimentos sociais? Na segunda metade da década de 1960, o mundo passou por grandes transformações sociais, políticas e culturais que deram origem a lutas pelos direitos de minorias, como os movimentos Black Power, intensificados com o assassinato do líder Martin Luther King Jr. em abril de 1968; Gay Power, com os eventos de Stonewall em 1969; contra a Guerra do Vietnã, nos Estados Unidos; feminista, em vários países ocidentais; e estudantis, ocorridos a partir de maio de 1968 na França, que se espalharam por diversos países do mundo, inclusive no Brasil, em que a luta contra o regime militar instaurado em 1964 chegou às ruas. 3. O que são sujeitos coletivos? Sujeitos coletivos são grupos ou outras formas de associação estruturais entre pessoas que compartilham crenças, pontos de vista, formas de pensar e demandas comuns e que agem de maneira organizada e conjunta na mediação entre os interesses dos indivíduos e das instituições nos espaços de discussão de questões sociais. FABIANO CAXITO FA B IA N O C A X ITO D IR E ITO S H U M A N O S E R E LA Ç Õ ES SO C IA IS Código Logístico I000128 ISBN 978-65-5821-053-5 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 5 3 5 Página em branco Página em brancohumanos e os direitos na- turais foram incluídos na maioria das constituições de diversos paí- ses, os direitos sociais também passaram a fazer parte do arcabouço jurídico de diversos países a partir da última década do século XIX e início do século XX. 1.3 Origens políticas dos direitos humanos Vídeo Antes de apontarmos as origens políticas das discussões sobre os direitos humanos, é necessário definirmos o termo política. A palavra é bastante utilizada no cotidiano e está presente na mídia diariamente. Afinal, as decisões tomadas pelos políticos, sejam eles do Poder Exe- cutivo, sejam do Poder Legislativo, impactam diretamente a vida dos indivíduos de uma sociedade. O termo política pode ser usado em diversos contextos diferentes e com significados diversos. Pode estar relacionado às políticas públi- cas, isto é, aos programas e às ações coordenadas pelo governo ou pelo Estado. Para Souza (2006), ao analisarmos as políticas públicas de determinado governo, é possível compreendermos as motivações, os valores e os objetivos do grupo político que está no poder. Na sua acepção mais conhecida e utilizada, política está relacionada à organização do Estado em poderes que se equilibram e ao processo eleitoral pelo qual os representantes do povo são escolhidos para exer- cer cargos nesses poderes. Segundo Caxito (2020, p. 39): assim, o governo é composto por um grupo de indivíduos elei- tos, que assumem posições nas quais têm alto poder de decisão sobre os rumos da sociedade. Porém, essas decisões são contra- balanceadas pelo sistema de freios, pelos contrapesos dos três poderes, pela atuação política, pelas estratégias dos partidos po- líticos, pelos interesses de grupos econômicos e, também, pelas ideologias que cada um desses grupos representa. É possível observarmos, na definição apresentada, que a palavra política aparece em vários contextos diferentes. Ela está relacionada ao próprio modelo de divisão de poderes, aos grupos de interesse que se organizam na cena pública, às ideologias defendidas e representadas por esses grupos e ao processo de negociação e mediação dos conflitos e interesses das diversas parcelas da sociedade. Bases históricas dos direitos humanos 19 Hannah Arendt, uma das principais filósofas a abordar o conceito de política apresenta em sua obra O que é política? (2002) diversos con- ceitos sobre o termo. Para ela, a política surge por meio da pluralidade dos indivíduos que fazem parte de um grupo social. Como as pessoas não são iguais e têm interesses, crenças e valores diferentes, é neces- sário haver uma forma de mediar essas divergências, e é por meio da política que a convivência entre diferentes é possível. Uma das definições dadas por Arendt (2002) de política é especial- mente importante no contexto das discussões no que diz respeito aos direitos humanos: o homem, tal como a filosofia e a teologia o conhecem, existe — ou se realiza — na política apenas no tocante aos direitos iguais que os mais diferentes garantem a si próprios. Exatamente na garantia e concessão voluntária de uma reivindicação juridica- mente equânime reconhece-se que a pluralidade dos homens, os quais devem a si mesmos sua pluralidade, atribui sua existên- cia à criação do homem. (ARENDT, 2002, p. 2) Já Rancière (2018) define a política tanto como um processo que agrega ao grupo social pela aceitação e pelo consentimento das dife- renças quanto como a organização do Estado em diferentes poderes equilibrados, formados por lugares, cargos e funções que são ocupados e distribuídos entre os grupos de interesse, de acordo com processos definidos – processos eleitorais, por exemplo. No contexto político, mesmo com as discussões referentes aos di- reitos humanos tendo iniciado nos séculos XVII e XVIII, como aborda- mos na primeira parte deste capítulo, houve a transição dos regimes absolutistas para o modelo democrático do Estado graças às ideias dos filósofos contratualistas. Foi somente após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que o tema passou a fazer parte das articulações políticas globais, com a publicação da Declaração Universal de Direitos Huma- nos pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948. De acordo com Salles (2015), a ONU foi criada no ano de 1945, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, como resultado de um esfor- ço de diversos países para promover a paz, a reorganização econômica e a reconstrução das relações entre as nações. Além da preocupação imediata com a reconstrução da Europa, em grande parte destruída pela guerra, a ONU nasceu também com a preocupação de promover o desenvolvimento social nos países em desenvolvimento. O documentário Nações Unidas: soluções urgentes para tempos urgentes foi realizado para comemo- rar o aniversário de 75 anos de criação da ONU e mostra o potencial de transformação do mundo na próxima década, abor- dando diversos aspectos relacionados aos direitos humanos, incluindo o impacto da pandemia de Covid-19 nas questões sociais globais. Além de atores, ativistas e embaixadores da Boa Vontade, a produção tem participação especial da Mensageira da Paz da ONU e Prêmio Nobel da Paz de 2014, Malala Yousafzai. Direção: Richard Curtis. EUA: ONU; Projeto Todos; 72 Filmes, 2020. Disponível em: https://www.youtu- be.com/watch?v=KucGm-5mOQ8. Acesso em: 14 jul. 2021. Documentário 20 Direitos humanos e relações sociais A Declaração Universal dos Direitos Humanos, segundo Rosa (2015), foi um dos principais documentos publicados pela ONU nos primeiros anos após sua formação. Conforme a autora, 50 países fo- ram signatários da Declaração que buscava garantir a proteção social e os direitos individuais que haviam sido sistematicamente desres- peitados durante a sequência de conflitos que marcaram a primeira metade do século. O contexto político no qual a Declaração foi publicada é fundamen- tal para entendermos cada um de seus artigos. Em seu preâmbulo, o documento destaca, entre outras considerações que fundamentam o documento, que: considerando que o desconhecimento e o desprezo dos Direitos Humanos conduziram a atos de barbárie que revoltam a cons- ciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração humanos; Considerando que é essencial a proteção dos Direitos Humanos através de um regime de direito, para que o homem não seja com- pelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão. (ONU, 1948, p. 1) As duas considerações estão relacionadas ao momento político glo- bal do pós-guerra, no qual o documento foi escrito. A primeira mostra que os motivos políticos que causaram as duas guerras mundiais leva- ram a situações de total desrespeito aos direitos humanos. O que se pretende, com a declaração, é lançar as bases para um mundo no qual as divergências políticas não ocasionem perdas de direitos individuais. A segunda consideração mostra o receio dos países signatários com o desenvolvimento de ditaduras nas quais os direitos humanos não sejam respeitados. No contexto político do momento, o mundo assistia ao início da divisão política entre o mundo ocidental, capita- neado pelos Estados Unidos, e os países comunistas, liderados pela União Soviética. Mesmo tendo sido aprovado pela esmagadora maioria dos paí- ses que compunham a ONU naquele momento, profundas divergên- cias marcaram a definição dos direitos que constam no documento. Essas divergências prenunciavam a divisão do mundo em duas di- ferentes visões econômicas e políticas que marcaram o período da Guerra Fria. Apesar de ter sido escrita há mais de 70 anos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos ainda é atual, pois muitos dos direitos básicos nela des- critos ainda não foram totalmente garantidos por diversos países. O documento, disponível no site do Ministério Público de Goiás, mostra como direitos funda- mentais dos indivíduos sãocomplexos de serem garantidos, mesmo que haja vontade política dos Estados e governos, pois envolvem aspectos cul- turais, religiosos e sociais arraigados nos diversos grupos sociais humanos. Disponível em: http://www. mp.go.gov.br/portalweb/hp/7/ docs/declaracao_universal_dos_ direitos_do_homem.pdf. Acesso em: 21 maio 2021. Site http://www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/7/docs/declaracao_universal_dos_direitos_do_homem.pd http://www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/7/docs/declaracao_universal_dos_direitos_do_homem.pd http://www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/7/docs/declaracao_universal_dos_direitos_do_homem.pd http://www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/7/docs/declaracao_universal_dos_direitos_do_homem.pd Bases históricas dos direitos humanos 21 Divergências sobre aspectos culturais e religiosos também mar- caram as discussões que deram origem à Declaração, em especial com relação às nações da África e Oriente Médio, como África do Sul e Arábia Saudita, para as quais a declaração apresentava uma visão ocidentalizada. Já para as nações socialistas do Leste Europeu e da Ásia, a Declara- ção apresentava uma visão capitalista e individualista, em contrapo- sição à visão da economia centralizada do comunismo. Assim, países como União Soviética, Iugoslávia, Bielorrússia, Polônia, Tchecoslováquia e Ucrânia se abstiveram durante a votação do documento. Para Alves (1994), o documento só foi aprovado por ter um caráter de declaração e orientação, não sendo nenhum país signatário obriga- do a implantar nenhuma de suas determinações. O autor aponta que foram necessários quase 20 anos para que a declaração passasse a ter peso de obrigatoriedade, com a aprovação no ano de 1966, do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e do Pacto In- ternacional de Direitos Civis e Políticos. Com base na Declaração da ONU, cada país passou a realizar al- terações jurídicas e foram criadas legislações específicas para orien- tar as políticas públicas com o objetivo de garantir a proteção dos direitos humanos. A obra Guerra e Paz, disponível no site da produtora cultural SP-Arte, do pintor brasileiro Candido Portinari, foi encomen- dada pelo governo brasileiro como um presente do país para a sede da Nações Unidas. A obra é composta de dois painéis em que são representados, separadamente, os horrores da guerra (pintada em tons sóbrios e carregados, com figuras que demonstram medo e desespero) e a esperança da paz (que usa tons alegres e tranquilos). Disponível em: https://www. sp-arte.com/editorial/conheca- o-painel-de-portinari-que-fez- historia-na-onu/. Acesso em: 21 maio 2021. Curiosidade 1.4 Direitos humanos: contextualização histórica Vídeo Segundo Tosi (2009), a discussão a respeito dos direitos humanos evoluiu à medida que o entendimento sobre o tema foi se tornando mais global, aprofundado e diversificado. Se em sua primeira versão, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU foi assinada por 48 países, nas décadas ini- ciais do século XX, o número de Estados participantes da organização e signatários da declaração se aproximou de 200 nações, mostrando que o tema é uma preocupação global. No decorrer da segunda metade do século XX e nas primeiras déca- das dos séculos XXI, a ONU e diversos outros organismos internacionais desenvolveram estudos, conferências, documentos e legislações sobre os direitos humanos, o que trouxe um conhecimento cada vez mais pro- fundo e extenso de diversos temas relacionados aos direitos humanos. https://www.sp-arte.com/editorial/conheca-o-painel-de-portinari-que-fez-historia-na-onu/ https://www.sp-arte.com/editorial/conheca-o-painel-de-portinari-que-fez-historia-na-onu/ https://www.sp-arte.com/editorial/conheca-o-painel-de-portinari-que-fez-historia-na-onu/ https://www.sp-arte.com/editorial/conheca-o-painel-de-portinari-que-fez-historia-na-onu/ 22 Direitos humanos e relações sociais À medida que as discussões se aprofundaram, também se diver- sificaram e especializaram. Se nos primeiros documentos os direitos humanos eram pensados para um indivíduo genérico, gradativamente se passou a enxergar a diversidade cultural, religiosa, etária, étnica e de gênero. Desse modo, as legislações passaram a ser desenvolvidas para garantir os direitos específicos dos diversos grupos sociais. Analisando essa evolução dentro do contexto histórico das discussões sobre os direitos humanos, Tosi (2009) classifica os direitos humanos em quatro gerações. A primeira geração está relacionada à conquista dos direitos ci- vis ou naturais, a que o autor chama de direitos negativos, uma vez que têm o objetivo de proibir os excessos do Estado. Esses direi- tos foram o foco das primeiras legislações que abordam os direitos humanos, como a Declaração dos Direitos Humanos e do Cidadão, publicada na França, e a Carta de Declaração dos Direitos, publicada nos Estados Unidos, no fim do século XVIII. Apesar de serem objeto tanto de legislações e declarações de orga- nismos globais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, os direitos civis ainda não são plenamente garantidos. Segundo dados da ONU (2019), o trabalho infantil ainda é uma realidade que afeta mais de 150 milhões de crianças, cerca de 25 milhões de pessoas vivem em situação análoga à escravidão e quase 5 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem exploração sexual. A Anistia Internacional (RELATÓRIO..., 2021), organização não gover- namental que luta pelos direitos humanos, calcula que, em 2019, cerca de 652 pessoas foram executadas em cumprimento a penas de morte. O número não considera as penas de morte na China, pois não exis- tem dados oficiais. A Anistia Internacional calcula que tenham ocorrido mais de mil execuções no país durante o ano. Apesar de a maioria dessas penas de morte e execuções te- rem ocorrido em países com governos não democráticos, como a China, o Irã, a Arábia Saudita, o Vietnã e o Iraque, mesmo a maior democracia do mundo em termos populacionais e econômicos, os Estados Unidos, executou 22 pessoas durante o ano de 2019 (RELATÓRIO..., 2021). A figura a seguir mostra a distribuição de exe- cuções no mundo em 2019. Bases históricas dos direitos humanos 23 Figura 1 Execuções pelo mundo em 2019 400 350 300 250 200 150 100 50 0 1,000s 251+ 184 100+ 32+ 22 14+ 12+ 11+ 7 4 3 3 2+ 2 1 1 + + + CH IN A IRAN SAU D I ARABIA IRAQ EG YPT U SA PAKISTAN SO M ALIA SO U TH SU D AN YEM EN SIN G APO RE BAH RAIN JAPAN BELARU S BAN G LAD ESH BO TSW AN A SU D AN N O RTH KO REA SYRIA VIET N AM 4. Iraque 2. Irã 1. China 5. Egito 6. EUA 9. Sudão do Sul 3. Arábia Saudita 8. Somália 7. Paquistão 13. Vietnã 10. Singapura 12. Coreia do Norte 11. Japão CH IN A IRà ARÁBIA SAU D ITA IRAQ U E EG ITO EU A PAQ U ISTÃO SO M ÁLIA SU D ÃO D O SU L IÊM EN SIN G APU RA BARÉM JAPÃO BIELO RRÚ SSIA BAN G LAD ESH BO TSU AN A SU D ÃO CO REIA D O N O RTE SÍRIA VIETN à Fonte: Relatório..., 2021, p. 4. Os direitos da primeira geração também estão relacionados aos direitos políticos, que foram conquistados gradativamente, no decorrer dos séculos XVIII, XIX e XX, à medida que países, em especial os ocidentais, alteraram suas formas de governo de monarquia para democracia. A luta pelos direitos políticos ainda se faz presente no mundo contemporâneo, seja nos países que adotam regimes ditatoriais, seja em países nos quais a democracia ainda não está plenamen- te estabelecida. A existência de presos e exilados políticos mostra como o tema é ainda bastante atual. Os direitos políticos são con- siderados por Tosi (2009) como direitos positivos, visto que buscam garantir a liberdade de expressão e a participação do indivíduo nas decisões e ações do grupo social. Já os direitos de segunda geração, estão ligados principalmente a aspectos econômicos e surgiram com as lutas da classe trabalha- 24 Direitos humanos e relações sociais dora pela garantiade condições dignas de trabalho e remuneração, as quais são asseguradas pelo Estado pelas legislações específicas que regulam as relações trabalhistas, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) brasileira (FERREIRA FILHO, 2005). Incluem-se também nos direitos dessa geração a garantia de igualdade e bem-estar social, como o direito à educação gratuita, à proteção de crianças e adolescentes (como a proibição do trabalho infantil) e às manifestações culturais. Segundo Tosi (2009), a maioria desses direitos de segunda geração ainda não estão totalmente ga- rantidos legalmente na maioria dos países. Bonavides (2003) e Ferreira Filho (2005) explicam que os direi- tos de segunda geração, mesmo quando garantidos pela legislação, eram vistos em muitos países, inclusive no Brasil, mais como normas e ideias a serem buscadas pelo governo, e não como regras de exe- cução imediata. Como exemplo, as legislações que versam sobre o direito à educação gratuita e de qualidade apontam os objetivos de médio e longo prazos a serem alcançados por meio do desenvolvi- mento de políticas sociais e programas de governo. Os direitos de terceira geração estão relacionados a questões supranacionais, que impactam diversos países ou a totalidade da humanidade. Entre eles, podemos citar o direito à paz, à garantia da preservação do meio ambiente – para que as condições de vida da humanidade sejam protegidas –, ao desenvolvimento social e à preservação da cultura de que o indivíduo faz parte. Para Bonavides (2003), esses direitos estão ligados à ideia de so- lidariedade entre as diversas nações que formam o mundo. A ga- rantia desses direitos é complexa, pois depende da colaboração de Estados e governos com ideologias e visões políticas e econômicas diferentes. Negociações e acordos globais, como o Acordo de Paris – com- promisso assumido por diversos países para diminuir as emissões globais de poluição –, são exemplos de ações desenvolvidas por ins- tituições e organizações globais com o objetivo de garantir os direi- tos de terceira geração. Contudo, como esses organismos não têm poder de obrigar que os países signatários cumpram as condições acordadas, os resultados dependem de aspectos políticos e econô- micos que podem ser alterados a qualquer momento. Bases históricas dos direitos humanos 25 Os direitos das três primeiras gerações podem ser identificados, com maior ou menor intensidade, nas constituições da maioria dos países democráticos, inclusive na constituição brasileira. Segundo Ferreira Filho (2005, p. 57), as três gerações dos direitos humanos podem ser assim entendidas: “a primeira geração seria a dos direi- tos de liberdade, a segunda, dos direitos de igualdade, a terceira, assim, complementaria o lema da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade”. Os direitos de quarta geração, como explica Tosi (2009), são aqueles ligados às próximas gerações. Cada geração tem um dever de garantir que as condições naturais, sociais, econômicas e tecnoló- gicas das gerações futuras sejam preservadas. Bonavides (2003) afir- ma que o Estado social estará totalmente institucionalizado assim que os direitos de quarta geração estiverem devidamente garanti- dos na constituição do país. Apesar de a classificação proposta pelo autor possibilitar enten- der de maneira organizada os diferentes tipos de direitos humanos, eles se entrelaçam e se interligam. Para que o indivíduo possa alcan- çar plenamente todo o seu potencial como ser humano, precisa ter acesso pleno a todos os seus direitos. O vídeo Acordo de Paris para as mudanças climáti- cas, publicado pelo World Wildlife Fund – WWF, explica de modo simples e direto a Conferência de Clima (COP) da ONU, realizada em 2015, com a participação de 195 países com o objetivo de negociar um acordo global para diminuir as emissões de gases preju- diciais ao meio ambiente. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=DMGmfforM3g. Acesso em: 21 maio 2021. Vídeo 1.5 Direitos humanos no Brasil Vídeo Existe uma relação intrínseca entre as legislações sobre os direitos humanos e os estados democráticos, pois respeitar os direitos dos in- divíduos é um dos principais valores da República e da democracia. Moraes (2003) estabelece uma relação entre os direitos humanos, a justiça e o arcabouço jurídico do país. Para o autor, sem respeito aos direitos individuais, não é possível garantir a justiça social. Conforme as Diretrizes Nacionais de Ensino em Direitos Humanos (BRASIL, 2013, p. 38), os valores que direcionam as legislações e os programas do governo brasileiro quanto aos direitos humanos como: por valores democráticos entendem-se: (a) O amor à igualdade e consequente horror aos privilégios; (b) A aceitação da vonta- de da maioria legitimamente formada, decorrente de eleições ou de outro processo democrático, porém com constante res- peito aos direitos das minorias; e (c) Em consequência dos tópi- cos acima, configura-se como conclusivo o respeito integral aos Direitos Humanos. 26 Direitos humanos e relações sociais No entanto, mesmo que as legislações existam e sejam adequa- das, garantir que os direitos humanos sejam respeitados no cotidiano da sociedade é uma tarefa complexa e ainda difícil de ser implemen- tada. Nogueira (2001) afirma que a democracia, na prática da política brasileira, ainda está mais ligada ao rito eleitoral do que à garantia real dos direitos humanos de todas as parcelas da população. Após mais de duas décadas sob regime militar, foi promulgada em 1988 uma nova constituição brasileira, que ficou conhecida como Constituição Cidadã. Foi o primeiro documento a determinar os direi- tos e os deveres dos cidadãos, também sendo reconhecido por insti- tucionalizar os direitos humanos no país. No artigo 5º da Constituição de 1988: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” (BRASIL, 1988). Ao institucionalizar os direitos humanos no país, a Constituição representou um grande avanço para a proteção dos direitos indivi- duais. Entretanto, mesmo depois de três décadas de sua promulgação, a garantia plena dos direitos dos cidadãos brasileiros ainda não foi alcançada. Por sua grande extensão territorial e grande diversidade cultural e étnica, com um povo composto de ondas migratórias provindas de diversas origens diferentes e sua história econômica fundada na ex- ploração das riquezas naturais e dos povos escravizados, o Brasil é um país com um grande débito com relação aos direitos humanos de uma parcela significativa de sua população (SANTOS; CHAUÍ, 2016). Mesmo nas grandes capitais brasileiras, o Estado não consegue ga- rantir a aplicação da lei que protege os direitos naturais do cidadão, nem mesmo o direito à vida – o mais básico deles. Situação ainda mais grave se observa quanto aos direitos de segunda e terceira ge- ração, que dependem, em alguns casos, de altos investimentos em programas e políticas sociais de longo prazo, que devem estar ligadas a um projeto de Estado, mas que muitas vezes sofrem alterações ou são abandonadas a cada troca de governo. Bases históricas dos direitos humanos 27 No Brasil, a garantia dos direitos humanos passa por outro gran- de desafio: reparar séculos de atraso no que diz respeito à defesa dos direitos das minorias, especialmente as minorias étnicas e de gênero. Para Paula, Silva e Bittar (2017, p. 3842) as minorias podem ser definidas como: um grupo humano ou social que esteja em uma situação de inferioridade ou subordinação em relação a outro, considerado majoritário ou dominante. Essa posição de inferioridade pode ter como fundamento diversos fatores, como socioeconômico, legislativo, psíquico, etário, físico, linguístico, de gênero, étnico ou religioso. A inclusão social dos grupos minoritários é uma das grandes dívi- das sociaisda sociedade brasileira (URI; URI, 2019), porém é um pro- cesso lento que não depende apenas da promulgação de leis positivas e ações afirmativas. A inclusão envolve mudanças conjuntas em po- líticas macroeconômicas e sociais que diminuam a concentração de riqueza e de renda, pois a distribuição de riqueza entre a população se torna cada vez mais desigual, o que aprofunda ainda mais as dívi- das históricas do Estado brasileiro para com os grupos minoritários. Segundo Martins e Siqueira (2017), o Brasil é signatário de gran- de parte dos instrumentos internacionais que abordam os direitos humanos, mas, mesmo assim, ainda apresenta grande desigualdade social e enfrenta dificuldades para garantir o acesso das populações mais pobres a seus direitos. Dornelles (1998) aponta a falta de conhecimento do cidadão quan- to a seus direitos e alerta que esse fato pode ser um empecilho para que se exija que o governo cumpra seu papel na garantia dos direitos humanos da população. Uma das formas de aumentar a percepção dos indivíduos vulneráveis a respeito de seus direitos é a educa- ção (SACAVINO, 2007). Com esse objetivo, em 2013, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República publicou o Caderno de Educação em Direitos Humanos, no qual define as diretrizes nacionais de educação sobre os direitos humanos (BRASIL, 2013). O Caderno de Educação em Direitos Humanos: Diretrizes Nacionais foi publicado com o objetivo de definir as diretrizes que norteiam o ensino no que se refere aos direitos humanos em cinco eixos da educação: 28 Direitos humanos e relações sociais Educação básica Educação dos profissionais de Justiça e Segurança Educação e mídia Educação superior Educação não formal Vyacheslavikus/Shutterstock Com o objetivo de consolidar na realidade a garantia dos direitos humanos presentes na Constituição, o Estado brasileiro lançou em 1996 o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). O progra- ma tinha como objetivo garantir tanto os direitos de primeira geração quanto os direitos políticos e civis, a proteção da vida, da liberdade e a promoção da igualdade de todos os cidadãos, além dos direitos de segunda geração, como a educação e a cidadania, e estava alinha- do com políticas e documentos internacionais de direitos humanos (FAISTING; GUIDOTTI, 2019). O programa foi ampliado e revisto em 2002, passando a ser conhe- cido como PNDH II. Nessa versão, incluiu-se direitos de segunda gera- ção, relacionados a questões de proteção econômica, como trabalho, moradia e alimentação, bem como questões relacionadas à cultura, ao lazer, à educação e à saúde. Foi novamente revisto no ano de 2009 e a versão conhecida como PNDH III trouxe avanços consideráveis para a concretização das leis de proteção dos direitos humanos. Para Dallari (2004), no que diz respeito aos direitos humanos, o texto da Constituição brasileira é rígido e descritivo, incluindo eviden- temente e de maneira inequívoca diversos direitos humanos da pri- meira, segunda e terceira gerações. Por outro lado, a Constituição é também aberta a mudanças e a novas demandas por direitos e neces- sidades sociais que surjam com o desenvolvimento da humanidade. Novas leis são promulgadas à medida que ocorrem mudanças sociais, econômicas, naturais e tecnológicas. São exemplos dessa constante renovação a Lei n. 12.965, conhecida como Marco Civil da Para saber mais sobre as Diretrizes Nacionais de Educação em Direitos Humanos, acesse o site da Secretaria em Direitos Humanos e leia Educação em Direitos Humanos: Diretrizes Nacionais. Esse documento apresenta os princípios da dignidade humana, considerando que todos os cidadãos têm igualdade de direitos, visando à aceitação das diferenças entre os indiví- duos, à diversidade social e buscando a sustentabi- lidade socioambiental. Disponível em: https://www.gov. br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/ educacao-em-direitos-humanos/ DiretrizesNacionaisEDH.pdf. Acesso em: 25 mar. 2021. Site https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/educacao-em-direitos-humanos/DiretrizesNacionaisEDH.pdf https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/educacao-em-direitos-humanos/DiretrizesNacionaisEDH.pdf https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/educacao-em-direitos-humanos/DiretrizesNacionaisEDH.pdf https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/educacao-em-direitos-humanos/DiretrizesNacionaisEDH.pdf Bases históricas dos direitos humanos 29 Internet (BRASIL, 2014), e a Lei n. 13.709, chamada de Lei Geral da Pro- teção de Dados (BRASIL, 2018), promulgadas para garantir o direito à privacidade dos dados pessoais dos indivíduos no contexto do de- senvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação, uma realidade que não existia no ano de 1988, quando a Constituição foi promulgada. CONSIDERAÇÕES FINAIS A busca pela garantia dos direitos humanos pode ser identificada em diversos momentos da história humana e tem raízes na filosofia, na polí- tica e na evolução das legislações nacionais. O tema ganhou centralidade por meio das grandes mudanças econômicas, sociais e políticas que mar- caram a transição da Idade Média para a Idade Moderna e, posteriormen- te, para a Idade Contemporânea. A partir da segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, o surgimento de organizações internacionais, como a ONU, fez com que a busca pela garantia dos direitos humanos se tornasse uma preocupação global. No Brasil, apesar de a Constituição de 1988 ter como um de seus prin- cípios a proteção dos direitos humanos, na prática cotidiana de nossa sociedade, uma grande parcela da população ainda não goza plenamente de seus direitos. ATIVIDADES 1. Explique os conceitos filosóficos de estado de natureza e estado social. 2. Conceitue os direitos humanos de primeira, segunda, terceira e quarta gerações. 3. Explique a importância da Constituição Francesa de 1791 e da Constituição Americana de 1787 para os direitos humanos. REFERÊNCIAS ALVES, J. A. L. A ONU e a proteção aos direitos humanos. Revista Brasileira de Política. Internacional, Brasília, v. 37, n. 1, p. 134-145, 1994. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/ lindgrenalves/lindgren_alves_onu_protecao_dh.pdf. Acesso em: 21 maio 2021. AQUINO, T. de. Suma teológica VI. São Paulo: Edições Loyola, 2005. ARENDT, H. O que é política? 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. de António de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009. Vídeo http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/lindgrenalves/lindgren_alves_onu_protecao_dh.pdf http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/lindgrenalves/lindgren_alves_onu_protecao_dh.pdf 30 Direitos humanos e relações sociais BONAVIDES, P. 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