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CAPÍTULO QUINZE A Evolução da Psicologia Contemporânea As Escolas de Pensamento em Perspectiva Movimento Cognitivo na As Escolas de Pensamento em Psicologia As Influências Anteriores na Perspectiva Psicologia Cognitiva A Mudança do Zeitgeist na Física Vimos até aqui como cada uma das escolas de pensamen- A Fundação da Psicologia to da psicologia se desenvolveram, progrediram com o Cognitiva passar tempo e então com exceção da psicanálise tor- George Miller (1920- ) Centro de Estudos naram-se parte do pensamento psicológico contemporâ- Cognitivos neo geral. Observamos, ainda, que cada movimento Ulric Neisser (1928- ) extraiu forças da oposição à escola anterior e que, quan- A Metáfora do Computador do não havia mais motivo para protestos, quando a nova Desenvolvimento do escola havia esgotado as divergências, deixava de ser Computador Moderno A Inteligência Artificial revolucionária e tornava-se a ordem vigente, pelo menos A Natureza da Psicologia por algum tempo. Cognitiva Cada escola obteve êxito de modo particular e cada A Neurociência Cognitiva uma contribuiu substancialmente para a evolução da psi- Papel da Introspecção cologia. Esse fato se aplica até mesmo ao estruturalismo, A Cognição Inconsciente A Cognição Animal embora esse movimento tenha publicado pouco material Estágio Atual relacionado à psicologia como a conhecemos atualmen- A Psicologia Evolucionista te. Não existem mais estruturalistas como Titchener na As Influências Anteriores na psicologia moderna, e isso ocorre há décadas. Todavia o Psicologia Evolucionista A Influência da estruturalismo obteve enorme sucesso em promover a Sociobiologia empreitada iniciada por Wundt, estabelecendo uma ciên- Estágio Atual da cia da psicologia independente e livre das limitações da Psicologia Evolucionista filosofia. fato de estruturalismo haver fracassado em Comentários 424CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 425 dominar a psicologia, fazendo-o apenas por um curto período, não desvaloriza a sua rea- lização revolucionária como a primeira escola de pensamento da nova ciência e a fonte vital de oposição para sistemas seguintes. Analisemos sucesso do funcionalismo, que não conseguiu persistir como escola separada. Os funcionalistas buscavam apenas impor uma atitude ou um ponto de vista e, nesse aspecto, funcionalismo obteve êxito em penetrar no pensamento psicológico americano. Na medida em que a psicologia americana atual é vista mais como uma pro- fissão científica e suas descobertas são aplicadas praticamente em todos os aspectos da vida, a atitude funcional e utilitária realmente mudou a natureza da psicologia. E que dizer da psicologia da Gestalt? A escola da Gestalt, em uma escala mais modesta, também cumpriu sua missão. A oposição ao elementarismo, o apoio à aborda- gem da "totalidade" e o interesse na consciência influenciaram psicólogos da psicolo- gia clínica, da aprendizagem, da percepção, da psicologia social e do pensamento. Embora a escola da Gestalt não tenha transformado a psicologia da forma como espera- vam fundadores, exerceu considerável impacto e deve ser considerada um sucesso. Mesmo que as realizações do estruturalismo, do funcionalismo e da psicologia da Gestalt mereçam o devido destaque, esses movimentos ocupam o segundo lugar em comparação com impacto fenomenal do behaviorismo e da psicanálise. Os efeitos des- ses movimentos foram profundos, mantendo identidades próprias e independentes como escolas únicas de pensamento. Passada a época dos seus fundadores, Watson e Freud, tanto behaviorismo como a psicanálise dividiram-se internamente em várias posições. Nenhuma forma de beha- viorismo ou de psicanálise obteve adesão total dos membros de qualquer uma dessas escolas. surgimento de subescolas dividiu sistemas em concorrentes, cada uma com o próprio mapa para caminho da verdade. Todavia, apesar dessa diversidade interna, tanto behavioristas como psicanalistas mantêm-se firmes na oposição, uns contra outros, em relação às suas visões sobre a psicologia. Por exemplo: os behavio- ristas skinnerianos têm mais aspectos em comum com os sociobehavioristas seguidores de Bandura e de Rotter do que com adeptos da psicanálise de Jung e de Horney. A vita- lidade das duas escolas de pensamento é evidente na sua contínua evolução. Assim como a psicologia individual de Adler em relação à psicanálise, a psicologia de Skinner não é último estágio na evolução do behaviorismo. Vimos, ainda, que a psicologia humanis- ta, mesmo não conseguindo provocar impacto como escola de pensamento independen- te, influenciou a psicologia contemporânea, incentivando o crescimento do movimento da psicologia positiva. Por volta das décadas de 1960 e 1970, dois outros movimentos surgiram dentro da psicologia americana, cada um na tentativa de moldar uma nova definição para campo são eles a psicologia cognitiva e a psicologia evolucionista. Porém, façamos uma pausa para ler a história do mais famoso desafio de xadrez de todos os tempos, ocorrido na cidade de Nova York, em 1997. Não é necessário saber jogar xadrez para apreciar o inten- so drama humano envolvido. Garry Kasparov não era apenas mais um grande jogador de xadrez: ele era o mestre de todos grão-mestres. No consenso universal, era considerado o maior enxadrista da his- tória. Na primavera de 1997, com 34 anos, no auge do prolongado reconhecimento, vinha mantendo o título mundial por 12 anos. Jamais perdera uma única vez em uma competição de várias partidas contra um único oponente. Jamais exibira outra coisa que não a absoluta confiança na sua genialidade no xadrez. Sua atitude em relação a qual-426 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA quer rival chegava ao limite da indolência, traço exibido novamente ao vencer, como havia previsto, a primeira das seis partidas do anunciado reconfronto, naquele mês de maio em Nova York, contra o oponente que arrasara havia um ano. Ao reinício da partida, os especialistas em xadrez, reunidos para assistir ao grande campeão esmagar seu adversário, testemunharam algo tão inesperado que ficaram mudos. Milhões de observadores que acompanhavam intensamente a partida pela Internet e pela transmissão em cadeia mundial de televisões ficaram atônitos ao testemunhar Kasparov exibir sinais incomuns de perturbação. Primeiro, demonstrando muita dúvida, em segui- da, terror, desespero e perda de controle. Finalmente, parecia sofrer de um colapso emo- cional, demonstrando estar aterrorizado. primeiro sinal de que o campeão estava à beira de um colapso nervoso surgiu durante a segunda partida. Foi aí que Kasparov enfrentou algo inusitado na sua experiên- cia. No passado, ele sempre conseguiu explorar a fraqueza do oponente, aprendendo o padrão de pensamento adotado contra ele. Mas, dessa vez, não conseguiu. Essa segunda partida terminou empatada. Depois, outro empate. Em seguida, o opo- nente venceu uma partida. Quando os enxadristas retomaram o confronto no sábado, a série estava empatada. Kasparov iniciou de forma agressiva, brilhante; sabia que estava vencendo. o oponente respondeu com uma série de movimentos inspirados, até brutais, deixando Kasparov visivelmente abalado. Os grão-mestres estavam chocados em ver o campeão, pela primeira vez, parecer insignificante. Ele foi forçado a aceitar outro empa- te. Depois de um dia de folga na competição, o desfecho viria na segunda-feira. A atenção mundial se intensificou. As redes de televisão enviaram correspondentes para cobrir o evento para transmissão em horário nobre. A imprensa escrita enviou não apenas os analistas de xadrez como também os melhores jornalistas, e reservaram a pri- meira página para o resultado do confronto. Eles e milhões de telespectadores testemu- nharam pela televisão e pela Internet o grande Garry Kasparov, o incontestável campeão cuja suprema confiança comparava-se apenas à sua arrogância, dando lugar a um enxa- drista nervoso, encurvado, com olheiras e com o ar taciturno. Parecia derrotado, mesmo antes de executar o primeiro movimento. Kasparov ficava cada vez mais abatido, conforme os movimentos rápidos e implacá- veis do oponente iam-no deixando encurralado. Em um momento captado pelas ima- gens da televisão e, mais tarde, exibido nas capas dos jornais, depois de perder a rainha e com o rei perigosamente exposto em uma posição de xeque-mate, o campeão curvou-se sobre o tabuleiro. Colocou as mãos sobre rosto, tapando os olhos, e baixou a cabeça, desanimado. Esse momento consolidou-se como o retrato duradouro da expressão do desespero humano. Alguns momentos depois, Kasparov levantou-se de repente. Anunciava a desistên- cia da partida e da competição. Efetuara apenas 19 movimentos. Os grão-mestres ficaram espantados com o modo abrupto como o campeão desmo- ronou. "Foi um impacto como o de uma tragédia grega", disse presidente do comitê de xadrez, responsável pelo reconhecimento da competição. Kasparov reagiu com mais simplicidade. "Perdi meu espírito de luta", disse. "Não estava mesmo com vontade de jogar." Perguntado sobre o porquê, minutos depois, em uma tumultuada entrevista coleti- va, respondeu: "Sou um ser humano. Quando vejo algo além da minha capacidade de compreensão, sinto medo."¹ 1 "Deep (RS/6000 SP) Blue" extraído de The Best of Times, © 2001, de Haynes Johnson, reimpresso mediante autori- zação da Harcourt, Inc.CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 427 que Kasparov efetivamente viu que estava além da sua capacidade de compreen- são? que espantara tanto a ponto de não conseguir mais jogar jogo do qual era mestre? que isso tem a ver com a história da psicologia? Calma! Tudo será revelado mais adiante. Agora retomemos a evolução da psicologia cognitiva. Movimento Cognitivo na Psicologia Em 1913, no seu manifesto behaviorista, Watson insistia na eliminação da psicologia de qualquer referência à mente, à consciência ou aos processos conscientes. E, realmente, os psicólogos seguidores dos mandamentos de Watson eliminaram a menção desses con- ceitos e baniram toda a terminologia mentalista. Durante décadas, livros básicos de introdução à psicologia apresentavam descrições sobre funcionamento do cérebro mas não proporcionavam discussões acerca de qualquer conceito relacionado à mente. As pessoas comentavam, em tom de piada, que a psicologia "perdeu a consciência" ou "per- deu a cabeça", aparentemente para sempre. No entanto, de repente (embora a tendência já estivesse se formando há algum tempo), a psicologia resgatou a consciência. Palavras, antes consideradas politicamente incorretas, estavam sendo pronunciadas em alto e bom tom nos encontros e utilizadas nos trabalhos escritos. Em 1979, a publicação American Psychologist apresentou um arti- go intitulado "Behaviorism and the mind: a (limited) call for a return to introspection" ("O Behaviorismo e a mente: um apelo (limitado) para a retomada da (Lieberman, 1979), resgatando não apenas a mente como também a suspeita técnica de introspecção. Alguns meses antes, a revista publicara um artigo com um título bem sim- ples: Consciousness. Seu autor escreveu: "Depois de décadas de descaso proposital, a consciência passa novamente a ser alvo da investigação científica, com discussões sobre o tópico surgindo por toda parte na respeitada literatura da psicologia" (Natsoulas, 1978, p. 906). Em 1976, em seu discurso no encontro anual da APA, o presidente falou ao público presente sobre as mudanças que estavam ocorrendo na psicologia, afirmando que novo conceito incluía a retomada do enfoque na consciência. A imagem da psicologia a respeito da natureza humana estava sendo "humanizada e não mecanizada" (McKeachie, 1976, p. 831). Quando um representante da APA e uma publicação científi- ca de prestígio discutem a consciência de forma tão aberta e otimista, parece óbvio estar em andamento uma revolução, outro novo movimento. Em seguida, vieram as revisões dos livros básicos de introdução à psicologia, redefinindo o campo como uma ciência do comportamento e dos processos mentais e não apenas do comportamento, uma discipli- na em busca da explicação do comportamento manifesto, bem como das suas relações com os processos mentais. Os cursos universitários de psicologia da consciência torna- ram-se populares. Em uma pesquisa de 1987, realizada com alguns psicólogos, na qual se pedia para destacarem o aspecto mais surpreendente da psicologia moderna em compa- ração com as expectativas de 25 anos atrás, os entrevistados responderam ser surpreen- dente o rápido crescimento do movimento cognitivo (Boneau, 1992). Portanto, estava claro que a psicologia progredira muito além dos desejos e dos pla- nos de Watson e de Skinner. Uma nova escola de pensamento estava surgindo.428 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA As Influências Anteriores na Psicologia Cognitiva Assim como todos movimentos revolucionários da psicologia, o movimento cogniti- não surgiu de uma hora para outra. Muitas das características já haviam surgido antes. interesse na consciência era claro, no período inicial da psicologia, antes de a discipli- na ser considerada uma ciência formal. As obras dos filósofos gregos Platão e Aristóteles mencionavam os processos de pensamento, como também o faziam as teorias dos asso- ciacionistas e empiristas britânicos. Quando Wundt instituiu a psicologia como disciplina científica independente, seu trabalho concentrou-se na consciência. Ele pode ser considerado o precursor da psicolo- gia cognitiva contemporânea devido à ênfase do seu trabalho na atividade criativa da mente. As escolas de pensamento estruturalista e funcionalista abordavam a consciên- cia, estudando seus elementos e as suas funções. behaviorismo, no entanto, alterou radicalmente essa visão, descartando a consciência e ignorando-a por cerca de 50 anos. A retomada da consciência e o início formal do movimento da psicologia cognitiva remontam à década de 1950, embora já se observassem sinais aparentes na década de 1930. behaviorista E. R. Guthrie, ao final da sua carreira, criticava o modelo mecani- cista e afirmava nem sempre ser possível reduzir estímulos a termos físicos. Ele sugeria que psicólogos deviam descrever estímulos em termos cognitivos ou perceptuais, de modo que tornassem significativos para o organismo reagente (Guthrie, 1959). Por se tratar de um processo cognitivo ou mentalista, conceito de significado não pode ser descrito exclusivamente em termos behavioristas. behaviorismo intencional de E. C. Tolman foi outro precursor do movimento cog- nitivo. Sua forma de behaviorismo reconhecia a importância das variáveis cognitivas e contribuiu para o declínio da visão de estímulo-resposta. Tolman propôs o mapa cogniti- vo, atribuiu comportamento intencional aos animais e enfatizou as variáveis intervenien- tes como uma forma de definir operacionalmente estados internos não-observáveis. Rudolf Carnap, filósofo positivista, exigia retorno da introspecção. Em 1956, Carnap afirmou: "a consciência que o indivíduo tem do próprio estado de imaginação, sentimento etc. deve ser reconhecida como um tipo de observação, em princípio, seme- lhante à observação externa e, portanto, uma fonte legítima de conhecimento" (apud Koch, 1964, p. 22). Até mesmo Bridgman, o físico que proporcionou ao behaviorismo a noção de definições operacionais, criticou o behaviorismo e insistiu em que relatos introspectivos fossem usados para dar significado às análises operacionais. A psicologia da Gestalt também influenciou a psicologia cognitiva por causa do enfoque "na organização, na estrutura, nas relações, no papel ativo do objeto e na par- ticipação importante da percepção na aprendizagem e na memória" (Hearst, 1979, p. 32). A escola de pensamento da Gestalt ajudou a manter vivo ao menos um pouco do interesse na consciência durante os anos em que o behaviorismo dominava a psicologia americana. Outro precursor da psicologia cognitiva foi o psicólogo suíço Jean Piaget (1896- 1980),² que escreveu seu primeiro trabalho científico com 10 anos e viria, mais tarde, a estudar com Jung. Piaget também trabalhou com Théodore Simon, que, juntamente com Alfred Binet, desenvolveu primeiro teste psicológico de habilidade mental (veja 2 Piaget gostava de caminhar nas montanhas para caçar lesmas, enquanto comia pão amanhecido coberto de maio- nese e alho.CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 429 no Capítulo 8). Piaget ajudava a aplicar testes nas crianças. Posteriormente se tornaria importante por seu trabalho sobre o desenvolvimento infantil não com base nos estágios psicossexuais, conforme propunha Freud, mas em função dos estágios cognitivos. As hipóteses iniciais de Piaget, publicadas entre 1920 e 1930, embora altamente influentes na Europa, não foram muito bem-aceitas nos Estados Unidos por sua incom- patibilidade com a posição behaviorista. Os primeiros teóricos cognitivos, no entanto, receberam bem a ênfase de Piaget nos fatores cognitivos. E, à medida que as idéias da psi- cologia cognitiva tomavam conta da psicologia americana, a importância dos conceitos de Piaget ficava ainda mais evidente. Em 1969, ele foi o primeiro psicólogo europeu a receber o Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica. enfoque do seu trabalho na criança ajudou a ampliar o campo de aplicação da psicologia cognitiva. A Mudança do Zeitgeist na Física Quando ocorre uma grande mudança na evolução de uma ciência, ela é entendida como um reflexo das modificações já concretizadas no Zeitgeist intelectual. Sabemos que a ciência, como uma espécie viva, adapta-se às condições e exigências do ambiente. Qual foi a atmosfera intelectual que favoreceu o movimento cognitivo e amenizou as idéias behavioristas, readmitindo a consciência? Mais uma vez, observa-se aqui Zeitgeist da física, modelo para a psicologia há bastante tempo, e que tem influenciado a área desde o seu início como ciência. No início do século XX, surge uma nova visão desenvolvida a partir dos trabalhos de Albert Einstein, Neils Bohr e Werner Heisenberg. Eles rejeitavam o modelo mecanicis- ta do universo, originário da época de Galileu e Newton e protótipo para a visão meca- nicista, reducionista e determinista da natureza humana adotada pelos psicólogos desde Wundt até Skinner. A nova perspectiva da física descartava a necessidade de total obje- tividade e a completa separação entre o universo externo e o observador. Os físicos reconheciam a provável interferência de qualquer tipo de observação feita sobre o universo natural. Seria necessário tentar estabelecer uma relação na lacuna arti- ficial entre observador e observado, entre o universo interior e o exterior e entre men- tal e material. Desse modo, a investigação científica passou do universo independente identificável objetivamente para a observação do universo pelo indivíduo. Os cientistas modernos não podem mais permanecer tão distantes do foco da observação. Em certo sentido, devem se tornar "observadores participativos". Conseqüentemente, o ideal da realidade totalmente objetiva agora era considerado inatingível. A física passou a se caracterizar pela crença de que o conhecimento objetivo na verdade é subjetivo e dependente do observador. Essa idéia de que todo conhecimento é pessoal parece muito semelhante à proposta por Berkeley há 300 anos: que o conheci- mento é subjetivo porque depende da natureza do observador. Um escritor comentou que nossa visão de mundo, "bem longe de ser uma verdadeira reprodução fotográfica da realidade que está 'lá fora', na verdade, [está] mais para uma pintura: uma criação subje- tiva da mente que reproduz uma imagem semelhante, jamais uma réplica" (Matson, 1964, p. 137). A rejeição dos físicos do objeto de estudo mecanicista e objetivo e, ao mesmo tempo, o reconhecimento da subjetividade restabeleceram papel vital da experiência conscien- te como uma forma de obter informações acerca do mundo real. Essa revolução na física430 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA foi um argumento efetivo para tornar novamente a consciência uma parte legítima do objeto de estudo da psicologia. Embora o sistema psicológico científico tenha resisitido à nova física por meio século, atendo-se a um modelo desatualizado e definindo-se insis- tentemente como uma ciência objetiva do comportamento, a disciplina acabou reagindo ao Zeitgeist e modificando-se, de modo que readmita processos cognitivos. A Fundação da Psicologia Cognitiva Uma análise retrospectiva do movimento cognitivo deixa a impressão de uma rápida transição que solapou as bases behavioristas da psicologia em alguns poucos anos. Ao mesmo tempo, é claro, essa transição não foi totalmente evidente. A mudança, agora percebida como drástica, ocorreu gradual e silenciosamente, sem alardes. Um psicólogo afirmou: termo talvez não seja adequado. Não houve acontecimentos cataclísmicos; a mudança ocorreu lentamente, nos diferentes subcampos, ao longo de 10 a 15 anos; não houve nenhum momento e nenhum líder de destaque" (Mandler, 2002a, p. 339). Geralmente, progresso histórico fica evidente somente depois do acontecimento. A fundação da psicologia cognitiva não ocorreu da noite para o dia nem deve ser atribuí- da ao carisma de uma pessoa que como Watson transformou a área praticamente sozinha. Assim como a psicologia funcional, movimento cognitivo não apresenta um fundador único, talvez porque nenhum dos psicólogos atuantes na área ambicionasse a liderança do novo movimento. Seu interesse era pragmático, apenas dar continuidade ao trabalho de redefinição da psicologia. Em retrospecto, a história identifica dois pesquisadores que não foram fundado- res, no sentido formal da palavra, mas contribuíram com o trabalho inovador e influente na forma de um centro de pesquisa e de livros considerados marcos no da psicologia cognitiva. São eles George Miller e Ulric Neisser. As suas histórias indicam alguns fatores pessoais envolvidos na formação de novas esco- las de pensamento. George Miller (1920-) George Miller formou-se em inglês na University of Alabama, onde completou mestra- do em fala, em 1941. Durante esse período na universidade, demonstrou interesse pela psicologia e ganhou uma bolsa de estudos para, em troca, trabalhar como uma espécie de professor assistente, dando 16 aulas de introdução à psicologia, sem jamais haver fre- qüentado um curso na área. Dizia que depois de lecionar sobre a mesma coisa 16 vezes por semana, começou a acreditar no que ensinava. Miller foi para a Harvard University, onde trabalhou no laboratório de psicoacústi- ca, lidando com problemas de comunicação oral, obtendo Ph.D em 1946. Cinco anos depois, publicou um livro sobre psicolingüística, considerado um marco divisório, Language and communication (1951). Miller reconhecia a escola de pensamento behavio- rista, afirmando não ter outra alternativa, já que os behavioristas mantinham as posições de liderança nas principais universidades e associações profissionais.CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 431 poder, as honras, a autoridade, os livros, lucros, tudo relacionado à psicologia esta- va nas mãos da escola behaviorista (...) aqueles que desejassem ser psicólogos científicos não podiam opor-se ao behaviorismo. Senão, ficariam desempregados. (Miller, apud Baars, 1986, p. 203) Em torno de meados da década de 1950, após investigar a teoria estatística da apren- dizagem, a teoria da informação e modelos de mente baseados no computador, Miller chegou à conclusão de que o behaviorismo, literalmente, não iria "funcionar". As seme- lhanças entre os computadores e funcionamento da mente humana o impressionaram e sua visão voltou-se mais para a orientação cognitiva. Ao mesmo tempo, desenvolveu uma alergia grave a pêlos e descamações de animais, não podendo mais fazer pesquisas com ratos de laboratório, e trabalhar apenas com seres humanos era uma desvantagem no universo dos behavioristas. A mudança de Miller para a psicologia cognitiva também foi motivada por seu tempe- ramento rebelde, típico de muitos da sua geração de psicólogos. Estavam sempre dispostos a se revoltar contra a psicologia ensinada e praticada no momento, prontos para oferecer sua nova abordagem, seu enfoque no fator cognitivo em lugar do comportamental. Em 1956, Miller publicou um artigo que, desde então, tornou-se um clássico, intitu- lado The magical number seven, plus or minus two: some limits on our capacity for processing information (O mágico número sete, mais ou menos dois: alguns limi- tes da nossa capacidade de processamento de informação). Nesse trabalho, Miller demonstrou que a capacidade consciente do indivíduo de lembrar números por um curto prazo (ou, igualmente, palavras ou cores) limita-se a aproximadamente sete "pedaços" de informação. Essa é a capacidade individual de processamento em determinado momento. A importância, o impacto dessa descoberta reside no fato de lidar com a experiência consciente ou cognitiva em uma época em que o behaviorismo ainda dominava o pensamento psicológico. Ademais, uso que ele fez da frase "proces- samento de informações" indicava a influência do modelo da mente humana baseado no computador. História On-Line Esse site apresenta texto do artigo de Miller a respeito do mágico número sete. Centro de Estudos Cognitivos Em parceria com Jerome Bruner (1915-), seu colega da Harvard, Miller criou um centro de pesquisa para investigar a mente humana. Miller e Bruner pediram ao reitor da uni- versidade um espaço físico e, em 1960, foi-lhes oferecida a casa em que William James morara. Não havia lugar mais apropriado, já que James abordou de modo tão requintado a natureza da vida mental no seu livro Principles. A escolha do nome para o novo centro não foi uma tarefa comum. Devido ao fato de estar associado a Harvard, o centro tinha potencial para exercer grande influência na psicologia. Optaram pela palavra "cogni- ção", para denotar objeto de estudo, e decidiram chamar local de Centro de Estudos Cognitivos.432 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA Ao usarmos a palavra "cognição", estávamos nos colocando à parte do behaviorismo. Desejávamos algo relacionado a mental, no entanto, "psicologia mental" parecia extre- mamente redundante. "Psicologia do senso comum" podia dar a entender alguma espécie de investigação antropológica, e "psicologia do povo", a psicologia social de Wundt. Que palavra usar para rotular esse conjunto de conceitos? Optamos por cogni- ção. (Miller, apud Baars, 1986, p. 210) Mais tarde, dois estudantes do centro lembraram-se de que, naquela época, ninguém conseguia lhes explicar o significado do termo cognição ou as idéias supostamente pro- movidas ali. centro havia sido criado com um objetivo em particular; fora cria- do para se opor a algo. importante não era saber o que era e sim saber o que não era" (Norman e Levelt, 1988, p. 101). Não era o behaviorismo, não era a autoridade vigente, o sistema predominante ou a psicologia do presente. Ao definir o centro, os fundadores demonstravam quão dife- rentes eram dos behavioristas. Como já vimos, todo novo movimento anuncia a sua posição ou atitude como sendo diferente da escola de pensamento corrente; esse é um estágio preliminar necessário para definir o objetivo e as alterações propostas. Miller, no entanto, atribuiu o devido crédito ao Zeitgeist. "Nenhum de nós deve receber muitos créditos pelo sucesso do Centro. Foi apenas uma idéia ocorrida no tempo certo" (Miller, 1989, p. 412). Miller não considerava a psicologia cognitiva uma verdadeira revolução, apesar das diferenças em relação ao behaviorismo. Chamava-a de "acréscimo", uma mudança mediante um lento crescimento ou acúmulo. Enxergava movimento como sendo mais evolucionário que revolucionário e acreditava ser um retorno à psicologia do senso comum, que reconhecia e ratificava a preocupação psicológica com a vida mental e com o comportamento. Os pesquisadores do centro investigavam ampla variedade de temas: linguagem, memória, percepção, formação de conceito, pensamento e psicologia do desenvolvimen- to. A maioria dessas áreas havia sido eliminada do vocabulário dos behavioristas. Mais tarde, Miller criou um programa de ciências cognitivas na Princeton University. Miller tornou-se presidente da APA em 1969 e recebeu Prêmio de Destaque pela Contribuição Científica e a Medalha de Ouro da Fundação Americana de Psicologia pelas Realizações na Aplicação da Psicologia. Em 1991, recebeu a Medalha Nacional da Ciência. Em 2003, recebeu da APA o Prêmio pela Extraordinária Contribuição à Psi- cologia. Outro reconhecimento do significado do seu trabalho é a quantidade de labo- ratórios de psicologia cognitiva criados tendo seu centro como modelo, além do rápido e a formalização da abordagem à qual ele se dedicara com afinco para definir. Ulric Neisser (1928-) Nascido em Kiel, na Alemanha, Ulric Neisser foi para os Estados Unidos, juntamente com pais, aos três anos. Iniciou estudos universitários na Harvard, formando-se em física. Impressionado com um jovem professor de psicologia chamado George Miller, Neisser chegou à conclusão de que física não era assim tão interessante. Mudou para a psicologia e freqüentou, com menção honrosa, curso de Miller sobre a psicologia da comunicação e teoria da informação. Ele conta também que foi influenciado pelo livroCAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 433 de Koffka, Principles of Gestalt psychology. Depois de obter a graduação como bacharel em Harvard, em 1950, Neisser recebeu o título de mestrado na Swarthmore College, estu- dando sob a orientação do psicólogo da Gestalt, Wolfgang Köhler. Retornou a Harvard para obter o Ph.D, que completou em 1956. Apesar do crescente interesse pela abordagem cognitiva da psicologia, Neisser não via como escapar do behaviorismo, já que desejava seguir a carreira acadêmica. "Não havia outra opção. Estávamos em uma era em que o fenômeno psicologia seria conside- rado real somente se demonstrado em um rato de laboratório" (apud Baars, 1986, p. 275). No entanto, Neisser teve sorte, pois sua primeira posição acadêmica foi na Brandeis University, onde o diretor do departamento de psicologia era Abraham Maslow. Naquela época, Maslow estava se afastando da sua formação behaviorista para desenvolver a abor- dagem humanista ao campo. Maslow não conseguiu convencer Neisser a se tornar psicó- logo humanista, ou em transformar a psicologia humanista na terceira força da disciplina, mas proporcionou a Neisser a oportunidade de perseguir seu interesse nas questões cogni- tivas. (Mais tarde, Neisser afirmou ser a psicologia cognitiva e não a humanista a terceira força da psicologia.) Em 1967, Neisser publicou a obra Cognitive psychology e alegou ser esse um livro pes- soal, uma tentativa de definir a si próprio e o tipo de psicólogo que almejava ser. o traba- lho também foi um marco divisório na história da psicologia, uma tentativa de definir um novo tratamento para a disciplina. A obra tornou-se extremamente conhecida, e Neisser sentia-se constrangido por ser identificado como o "pai" da psicologia cognitiva. Embora não desejasse fundar nenhuma escola de pensamento, seus trabalhos ajudaram a afastar a psicologia do behaviorismo, empurrando-a em direção ao cognitivismo. Mesmo assim, Neisser enfatizava que o estudo das questões cognitivas devia constituir apenas parte da psicologia e não caracterizar a disciplina toda. Neisser definia a cognição como processos pelos quais "a informação sensorial recebida é transformada, reduzida, elaborada, armazenada, recuperada e usada. (...) cog- nição está envolvida em tudo que o ser humano é capaz de realizar" (Neisser, 1967, p. 4). Assim, a psicologia cognitiva está relacionada com a sensação, a percepção, a forma- ção de imagens, a memória, a solução de problemas, o pensamento e as demais ativida- des mentais relacionadas. Apenas nove anos depois, Neisser publicou Cognition and reality (1976), expressando a insatisfação com a restrição da posição cognitiva e a dependência da coleta de dados em laboratório e não no mundo real. Insistia em afirmar que os resultados da pesquisa psicológica deviam ter validade em termos ecológicos. Com isso, quis dizer que os resul- tados deviam ser generalizados para as situações além dos limites do laboratório. Além disso, alegava que a psicologia cognitiva devia permitir a aplicação das descobertas aos problemas práticos, ajudando as pessoas a lidarem com as questões cotidianas particula- res e profissionais. Assim, Neisser mostrava-se decepcionado, concluindo que o movi- mento da psicologia cognitiva tinha pouco a contribuir com a psicologia, no sentido de compreender como as pessoas lidam com as situações. Desse modo, a principal figura na fundação da psicologia cognitiva tornara-se seu crítico audaz, desafiando o movimento, como fizera anteriormente com behaviorismo. Depois de 17 anos na Cornell University, onde seu escritório ficava perto do local em que foi guardado o cérebro conservado de Titchener, Neisser mudou-se para a Emory University, em Atlanta, retornando a Cornell em 1996.434 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA A Metáfora do Computador Os relógios e robôs foram as metáforas do século XVII para a visão mecânica do uni- verso e, por analogia, para a mente humana. Essas máquinas bem conhecidas eram modelos fáceis de entender daquilo que se acreditava ser o funcionamento da mente. Hoje, modelo do universo mecânico e a psicologia behaviorista baseados nessas máqui- nas foram superados por outras visões como a aceitação da subjetividade na física e movimento cognitivo da psicologia. relógio não é mais um exemplo útil para a visão moderna da mente. Uma máquina do século XX, o computador, surgiu para servir de modelo, como uma nova metáfora para funcionamento da mente. Um historiador da ciência comentou: veículo responsável pela reintrodução da mente e um agente vital da derrocada do behaviorismo foi a noção da mente comparada ao computador. Essa afirmação transformou-se em senso comum na literatura histórica da cognitiva'." (Crowther-Heyck, 1999, p. 37) Os psicó- logos tomam como base as operações do computador para explicar fenômeno cogniti- Dizem que computadores exibem uma inteligência artificial e normalmente são descritos em termos humanos. A capacidade de armazenagem chama-se memória; os códigos de programação, linguagem, e as novas gerações de computadores, evoluções. O funcionamento dos programas de computador, basicamente formados de conjun- tos de instruções para tratamento de símbolos, é semelhante ao da mente humana. Tanto o computador como a mente recebem do ambiente e processam grande quantida- de de informações (estímulos sensoriais ou dados). Ambos compilam essas informações, manipulando, armazenando e recuperando dados, atuando de várias maneiras. Desse modo, a programação do computador foi sugerida como base para a visão cognitiva humana do processamento de informações, do raciocínio e da solução de problemas. É o programa (o software) e não computador em si (o hardware) que serve como explica- ção para as operações da mente. Os psicólogos cognitivos estão interessados na seqüência de manipulação dos sím- bolos envolvida nos processos de pensamento humano. Em outras palavras, estão preo- cupados em descobrir como a mente processa a informação. Eles têm como objetivo descobrir programa que cada indivíduo tem armazenado na memória, padrões de pensamento que lhe permitem compreender e articular as idéias, lembrar e resgatar os acontecimentos e os conceitos, e assimilar e resolver um problema novo. Em quase 125 anos de história, a psicologia partiu do simples relógio até chegar aos sofisticados com- putadores como modelos de objeto de estudo, mas é importante observar que ambos são máquinas. Esse aspecto demonstra a continuidade histórica na evolução da psicologia, desde as mais antigas escolas de pensamento, até as mais recentes. É possível observar também uma continuidade histórica na própria evolução dos computadores. Desenvolvimento do Computador Moderno Os trabalhos de Charles Babbage e Henry Hollerith visavam ao desenvolvimento de uma máquina capaz de "pensar" como homem. No entanto, um problema prático surgido durante primeiros dias da Segunda Guerra Mundial provocou início da moderna era dos computadores. Em 1942, o exército americano precisava desespera- damente encontrar uma forma de realizar com mais rapidez cálculos necessáriosCAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 435 para disparar as peças de artilharia. A mira perfeita do canhão para o projétil atingir o alvo envolvia (e até hoje envolve) um processo muito complicado, bem mais comple- que o procedimento de soldado mirar um rifle e apertar o gatilho. Por exemplo: "Para mirar um canhão, o atirador tinha de efetuar diversos ajustes. Esse procedimen- to exigia o uso de uma série de tabelas [matemáticas] para calcular todas as variáveis que afetam a trajetória do projétil, como a direção e a velocidade do vento, a umida- de do ar, a temperatura, a elevação e até mesmo a temperatura da pólvora" (Keiger, 1999, p. 40). manual de ajustes para cada tipo de artilharia continha centenas, até milhares de tabelas de cálculos. Esse trabalho era realizado pelas mulheres, recém-contratadas durante período da guerra, que usavam calculadores manuais. (Essas mulheres eram chamadas de "computadoras".) Todavia, um ano depois, elas foram superadas, pois não conseguiam acompanhar a demanda. A situação era tão crítica que alguns canhões che- garam a ser abandonados em combate por falta de tabelas com cálculos para atirar. Essa necessidade incentivou o desenvolvimento do primeiro computador de grande porte, o Eniac Electronic Numerical Integrator and Calculator. Concluída em 1943, a máquina em formato de ferradura ocupava três paredes de uma sala enorme, com "bra- ços de 24 metros de comprimento e altura aproximada de 2,4 metros, pesando em torno de 30 toneladas. Continha cerca de 17.468 válvulas eletrônicas (...) além de 10.000 capa- citores, 70.000 resistores, 1.500 relés e 6.000 chaves manuais, uma quantidade tão grande de peças eletrônicas que exigia enormes ventiladores para dissipar o calor produzido" (Waldrop, 2001, p. 45). As máquinas com capacidade para realizar operações mentais percorreram um longo caminho desde a época da calculadora de Babbage. Basta comparar o tamanho e a capacidade de um laptop ou palmtop para perceber o quão primitivo era o Eniac. A evolução das máquinas para a realização de funções mentais prossegue em um ritmo tão rápido que nos leva, inevitavelmente, a questionar se elas realmente demonstram inteligência. A Inteligência Artificial Os psicólogos cognitivos aceitavam computadores como modelo para o funcionamento cognitivo humano, afirmando que as máquinas exibiam inteligência artificial e pro- cessamento de informação semelhantes aos do homem. É possível supor, então, que a inteligência do computador seja igual à do homem? Será que o computador é capaz de pensar? No século XVII, os robôs simulavam a fala e movimento humanos. No século XXI, será que as novas gerações de computadores simularão o pensamento humano? No início, cientistas da computação e psicólogos cognitivos acolheram com grande entusiasmo a noção da inteligência artificial. Já em 1949, quando os computado- res ainda eram relativamente primitivos, o autor de um livro intitulado Giant brains afir- mou: "...a máquina manipula informações; realiza cálculos, chega a conclusões e faz opções; a máquina faz uma quantidade razoável de operações com os dados. A máqui- na, portanto, pensa" (apud Dyson, 1997, p. 108). Em 1950, o gênio da computação Alan Turing (1912-1954) propôs uma maneira de verificar a hipótese de que computador seria capaz de pensar. Chamado de Teste de Turing, o processo consistia em convencer um indivíduo de que o computador com o qual estava se comunicando era realmente uma pessoa, e não uma máquina. Se indi-436 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA víduo não conseguisse distinguir entre as respostas do computador e as humanas, a máquina estaria exibindo inteligência semelhante à do homem. Teste de Turing fun- ciona da seguinte forma. entrevistador [um indivíduo] estabelece duas formas diferentes de "conversação" com o programa interativo do computador. entrevistador deve tentar descobrir qual das duas partes seria uma pessoa usando o computador para se comunicar e qual seria a pró- pria máquina respondendo. entrevistador formula qualquer tipo de pergunta. Entretanto, o computador tenta enganar o entrevistador, ou seja, tenta fazê-lo acreditar ser uma pessoa, enquanto a pessoa de verdade tenta mostrar que ela é humana. com- putador é aprovado no Teste de Turing se o entrevistador não conseguir fazer a distinção entre a máquina e o indivíduo. (Sternberg, 1996, p. 481-482) Nem todos concordavam com a premissa do Teste de Turing. John Searle, um filó- sofo que elaborou o problema da sala chinesa, foi quem apresentou as mais veementes objeções (Searle, 1980). Imagine-se sentado em uma cadeira, de frente para uma parede com duas aberturas. Pedaços de papel contendo um conjunto de ideogramas chineses aparecem um de cada vez na abertura da esquerda. A sua tarefa é combinar, de acordo com o formato, o conjunto de símbolos com de um livro. Quando você consegue encontrar conjunto correto, deve copiar outro conjunto de símbolos do livro em um pedaço de papel e passá-lo pela abertura da direita. que está acontecendo aqui? Você está sendo alimentado com as informações pela abertura da esquerda e transmitindo dados pela da direita, obedecendo às instru- ções (o programa) recebidas. Assim maioria dos ocidentais, não se espera que você leia ou compreenda chinês. Você está apenas seguindo as instruções de forma mecânica. No entanto, se um psicólogo chinês estivesse observando a uma distância bem razoável da parede com as aberturas, não conseguiria perceber que você não sabe chinês. As comunicações chegam a você em chinês e, por sua vez, você responde corretamente em chinês, copiando-as do livro. Não importa quantas mensagens você receba ou a quantas responda, ainda continua não sabendo chinês. Você não está pensando, está apenas seguindo instruções. Não está demonstrando inteligência, apenas obedecendo a ordens. Searle afirmava que os programas de computador que parecem compreender dife- rentes tipos de dados recebidos e responder a essas informações de forma inteligente estariam funcionando como a pessoa do problema da sala chinesa. computador não entende as mensagens, tanto como você não sabe chinês. Nesses exemplos, tanto você como o computador estão funcionando exatamente de acordo com o conjunto de regras programadas. Vários psicólogos cognitivos chegaram a concordar que computador passa no Teste de Turing e simula a inteligência sem realmente ser inteligente. Conclusão: o com- putador ainda não é capaz de pensar. Mas seu desempenho parece simular o pensamen- to, e isso nos remete às partidas de xadrez de 1997 que devastaram o campeão mundial Garry Kasparov. que o deixara tão abatido, levando-o a abandonar o jogo? seu opo- nente era um computador. Fabricado pela IBM, o computador se chamava Deep Blue. Pesava cerca de 3 tonela- das, e cada uma das suas duas torres media mais de 1,80 m de altura. Tinha uma capaci-CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 437 dade de processamento de 200 milhões de posições por segundo; em três minutos con- seguia processar 50 bilhões de movimento. Não foi à toa que até maior mestre do xadrez rendeu-se, desesperado. Todavia, com toda essa capacidade, o Deep Blue estava realmente pensando? A conclusão geral foi de que a máquina não pensava, embora se "comportasse" como se estivesse pensando. Um escritor científico britânico, interessado em máquinas de jogos de xadrez, concluiu: "Apesar do incansável aperfeiçoamento do desempenho do computador, houve pouco progresso na busca pela inteligência da máquina para aplica- ção geral. (...) Deep Blue mostrou que a criação de um computador capaz de jogar xadrez como qualquer ser humano revela muito pouco sobre a inteligência em geral" (Standage, 2002, p. 241). computador, apesar do fantástico desempenho exibido, ainda precisa ser programado por um ser humano pensante. Em 2003, Kasparov voltou a jogar, dessa vez contra o Deep Junior, uma nova geração de computador enxadrista. Antes da partida ele disse: "Estou aqui representando a raça humana. Prometo fazer o melhor". Quando Kasparov aceitou o empate em 3 a 3, foi vaiado pelo público. Seu desempenho novamente mostrou que a inteligência artificial não atingira o nível e a complexidade da inteligência humana ainda. História On-Line Esse site do Arquivo de Turing da História da Computação contém informa- ções sobre Alan Turing e o Teste de Turing. http://www.aaai.org/ http://www.ai.mit.edu/ http://www.ai-depot.com/ Esses sites a respeito da inteligência artificial são, na ordem, da American Association for Artificial Intelligence (Associação Americana para a Inteli- gência Artificial), do Artificial Intelligence Laboratory (Laboratório de Inte- ligência Artificial) da Massachusetts Institute of Technology (MIT), e da Artificial Intelligence Depot (Depósito de Inteligência Artificial). A Natureza da Psicologia Cognitiva No Capítulo 11, vimos como a inclusão dos fatores cognitivos nas teorias da aprendiza- gem social de Albert Bandura e de Julian Rotter alterou o behaviorismo americano. Hoje, impacto do movimento cognitivo é observado não apenas na psicologia behaviorista. Os fatores cognitivos são observados por pesquisadores em diversas áreas da disciplina: a teoria da atribuição da psicologia social, a teoria da dissonância cognitiva, a motivação e a emoção, a personalidade, a aprendizagem, a memória, a percepção e o processamen- to da informação na tomada de decisões ou solução de problemas. Nas áreas aplicadas, como a psicologia clínica, comunitária, educacional e industrial-organizacional, também se observam a ênfase nos fatores cognitivos.438 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA A psicologia cognitiva é diferente do behaviorismo em vários aspectos. Primeiro, psicólogos cognitivos dedicam-se a estudar o processo de aquisição do conhecimento e não apenas a mera resposta ao estímulo. Os principais fatores são os fatos e processos mentais e não as conexões estímulo-resposta; a ênfase é dada à mente e não ao compor- tamento, o que não quer dizer que psicólogos cognitivos ignorem comportamento mas que as reações comportamentais não consistem no único enfoque da pesquisa. As respostas comportamentais constituem fontes de dedução para se chegar à conclusão sobre processos mentais associados a essas reações. Segundo, psicólogos cognitivos estão interessados em saber como a mente estru- tura ou organiza as experiências. Os psicólogos da Gestalt, assim como Piaget, argumen- tavam em favor da tendência inata de organizar a experiência consciente (as sensações e as percepções) em unidades e padrões de significado. A mente dá forma e coerência à experiência mental; esse processo é o objeto de estudo da psicologia cognitiva. Os empi- ristas e associacionistas britânicos e a psicologia do século XX derivada dessas teorias, behaviorismo skinneriano, insistiam em que a mente não é dotada de capacidade orga- nizacional inata. Terceiro, OS psicólogos cognitivos acreditam na atuação ativa e criativa do indivíduo em organizar estímulos recebidos do ambiente. indivíduo é capaz de participar da aquisição e aplicação do conhecimento, participando de alguns fatos e optando por associá-los à memória. indivíduo não é, como afirmavam behavio- ristas, respondente passivo às forças externas ou folhas em branco para o registro da experiência sensorial. A Neurociência Cognitiva As pesquisas sobre mapeamento das funções cerebrais datam dos séculos XVIII e XIX e estão presentes nos trabalhos de Hall, Flourens e Broca (veja no Capítulo 3). Empregando métodos como a extirpação e choques elétricos, primeiros psicólogos tentaram determinar as partes específicas do cérebro controladoras das várias funções cognitivas. Essa investigação continua até hoje na disciplina chamada neurociência cognitiva, um híbrido da psicologia cognitiva e da neurociência. Os objetivos desse campo são determinar "como as funções cerebrais originam a atividade mental" e "correlacionar aspectos específicos do processamento de informação com as regiões específicas do cére- bro" (Sarter, Bernston e Cacioppo, 1996, p. 13). Os pesquisadores da neurociência cognitiva obtiveram avanços extraordinários no mapeamento cerebral, principalmente devido ao desenvolvimento e à aplicação das sofisticadas técnicas de utilização de imagens. Por exemplo: o eletroencefalograma (EEG registra as variações na atividade elétrica de partes selecionadas do cérebro. A leitura da tomografia axial computadorizada (CAT Computerized Axial Tomography) revela perfis detalhados do cérebro. exame de resso- nância magnética (MRI Magnetic Resonance Imagery) produz imagens tridimensio- nais do cérebro. Enquanto essas técnicas produzem imagens estáticas, a varredura da tomografia por emissão de pósitron (PET Positron Emission Tomography) produz ima- gens ao vivo de várias atividades cognitivas. Essas e outras técnicas de uso de imagens vêm oferecendo aos cientistas um grau de precisão e de detalhes impossível de ser obti- do até então.CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 439 História On-Line Esses dois sites contêm informações a respeito da neurociência cognitiva e são, na ordem, da Cognitive Neuroscience Society (Sociedade de Neuro- ciência Cognitiva) da Duke University, e do Center for Cognitive Neuroscience (Centro de Neurociência Cognitiva) da Dartmouth College. Papel da Introspecção A aceitação das experiências conscientes fez os psicólogos cognitivos reconsiderarem a primeira abordagem de pesquisa da psicologia científica, o método introspectivo intro- duzido por Wundt há mais de um século. Em uma declaração que podia ser de Wundt ou Titchener, um psicólogo fez uma afirmação óbvia, no final do século XX, de que se vamos estudar a consciência, devemos adotar a introspecção juntamente com relatos introspectivos" (Farthing, 1992, p. 61). Os psicólogos tentaram quantificar relatos introspectivos a fim de permitir análises estatísticas mais objetivas e manipuláveis. Uma das abordagens, a avaliação fenomenológica retrospectiva, consiste em pedir ao indiví- duo que avalie a intensidade das experiências subjetivas durante a resposta a uma situa- ção de estímulo anterior. Em outras palavras, o indivíduo avalia retrospectivamente as experiências subjetivas ocorridas durante um período anterior, quando lhe pediram para responder a um dado estímulo. Apesar dessa readmissão da introspecção, alguns psicólogos questionavam se o indi- víduo seria realmente capaz de acessar os próprios processos mentais, principalmente que envolvem tomadas de decisão e julgamentos. Em um artigo intitulado, "Telling more than we can know", psicólogos Richard Nisbett e Timothy Wilson concluíram que não somos dotados desse livre acesso aos nossos processos de pensamento. Portanto, a introspecção e o auto-relato seriam inválidos (Nisbett e Wilson, 1977). Eles descreve- ram diversos estudos elaborados para determinar se o ser humano seria capaz de relatar as causas do próprio comportamento e chegaram à conclusão de que não. indivíduo não é capaz de especificar que estímulo teria provocado a resposta ou de que modo teriam ocorrido os efeitos. Os psicólogos descobriram, ainda, que as respostas (os efeitos relatados do estímulo) não seriam baseadas na introspecção, mas nas crenças prévias sobre as relações causais entre estímulos e respostas. Por exemplo: se ao indivíduo foi ensinado que o fato A sempre provoca o fato B, então, a tendência será de ele explicar o fato (a resposta) do fato A (o estímulo) em ter- mos daquela crença consolidada, e não realizando alguma real dos proces- de pensamento. "Deduzimos que nosso comportamento foi determinado por um estímulo específico, não por meio da introspecção dos verdadeiros processos mentais, mas avaliando se o estímulo é representante da categoria de estímulos que normalmen- te provocam esse tipo de comportamento" (Farthing, 1992, p. 156). A comprovação experimental de Nisbett e Wilson de que a pessoa pode não ter ime- diato acesso introspectivo às causas do próprio comportamento convenceu alguns psicó-440 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA logos de que a não seria uma técnica válida.³ Outros psicólogos foram mais otimistas acerca da validade da (veja Farthing, 1992; Pekala, 1991). A solu- ção dessa questão é crucial para o futuro da psicologia cognitiva, pois grande parte da pesquisa dessa área depende do relato introspectivo. A Cognição Inconsciente estudo do processo mental consciente motivou um renovado interesse nas atividades cognitivas inconscientes. "Depois de cem anos de descaso, desconfiança e frustração, o processo inconsciente voltou com firmeza na mente coletiva dos psicólogos" (Kihlstrom, Barnhardt e Tataryn, 1992, p. 788). Entretanto, essa não é a mente inconsciente de que falava Freud, transbordando as lembranças e os desejos reprimidos trazidos ao conscien- te somente por meio da psicanálise. Esse novo inconsciente é mais racional que emocio- nal e está envolvido no primeiro estágio da cognição de resposta a um estímulo. Desse modo, o processo inconsciente forma uma parte integrante da aprendizagem e é passí- vel de estudo objetivo. Para distinguir a versão moderna de inconsciente cognitivo da versão psicanalítica (e dos estados físicos de inconsciência, sonolência ou comatoso), alguns psicólogos cogniti- vos preferem empregar o termo "não-consciente". Em geral, pesquisadores cognitivos concordam que a maioria dos processos mentais do homem ocorre no nível não-cons- ciente. "Hoje, acredita-se ser o estado inconsciente mais 'alerta' do que se pensava, sendo capaz de processar informações visuais e verbais complexas e até prever (e planejar) acon- tecimentos futuros. (...) Não mais um simples depositário do ímpeto e do impulso, o inconsciente parece desempenhar importante papel na solução de problemas, no teste de hipóteses e na criatividade" (Bornstein e Masling, 1998, p. xx). Uma abordagem conhecida no estudo do processamento não-consciente envolve a percepção subliminar (ou ativação subliminar), na qual estímulos são apresentados abai- do nível de consciência do indivíduo. Apesar da incapacidade do indivíduo de perce- bê-los, a estimulação ativa o processo consciente e comportamento da pessoa. Desse modo, esse tipo de pesquisa demonstra que o indivíduo pode ser influenciado por um estímulo que não vê ou não ouve. Essas e outras descobertas semelhantes convenceram psicólogos cognitivos de que o processo de aquisição do conhecimento (dentro ou fora do ambiente laboratorial) ocorre tanto no nível consciente como no não-conscien- te, mas a maior parte do trabalho mental envolvido na aprendizagem ocorre no nível não-consciente. A pesquisa também indica que o processamento da informação não- consciente pode ser mais rápido, mais eficiente e mais sofisticado do que as atividades semelhantes do nível consciente. Se maior volume de informações é processado no nível não-consciente, conclui-se, então, que nenhuma análise introspectiva é capaz de revelar o seu funcionamento. Nem faz sentido pedir até mesmo aos observadores mais bem treinados para relatarem sobre algo de que não têm consciência. Obviamente, essa conclusão limita a aplicabilidade da introspecção como método de pesquisa da psicologia cognitiva. 3 Se essa conclusão parece familiar, lembre-se dos protestos dos behavioristas contra a introspecção, décadas atrás.CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 441 A Cognição Animal movimento cognitivo resgatou a consciência não apenas dos seres humanos, como também dos animais. Realmente, a psicologia comparativa e a animal fecharam o círculo completo, desde as observações da vida mental do animal relatadas por Romanes e Morgan nas décadas de 1880 e 1890, passando pelo estudo do condicionamento mecâni- por estímulo-resposta dos behavioristas skinnerianos nas décadas de 1950 e 1960, até a restauração contemporânea da consciência pelos psicólogos cognitivos. Desde a década de 1970, os estudiosos da psicologia animal tentam demonstrar como animal "codifica, transforma, computa e manipula as representações simbólicas das texturas espacial, temporal e causal do mundo real para adaptar e organizar o próprio comportamento" (Cook, 1993, p. 174). Em outras palavras, o sistema de processamento de informações semelhante ao do computador que se acredita operar nos humanos tam- bém está sendo estudado nos animais. As primeiras pesquisas de cognição animal utiliza- vam estímulos simples como luzes coloridas, sons e cliques. Esses estímulos talvez tenham sido básicos demais para permitir uma compreensão do processo cognitivo ani- mal, pois não permitiam aos animais exibirem a gama completa de capacidades de processamento de informação. Pesquisas posteriores utilizavam estímulos mais realis- tas e complexos, tais como fotos coloridas de objetos conhecidos. Esses estímulos foto- gráficos revelaram capacidades conceituais até então não atribuídas aos animais. Observou-se ainda uma memória animal complexa e flexível e pelo menos alguns processos cognitivos operando de modo semelhante no animal e nos seres humanos. Os animais de laboratório são capazes de aprender conceitos variados e sofisticados. Eles exibem processos mentais tais como a codificação e organização de símbolos, a capaci- dade de formar abstrações espaciais, temporais e numéricas e perceber as relações de causa e efeito. Além disso, o uso que fazem de ferramentas e outros acessórios implica um sentido básico de raciocínio (Wynne, 2001). A cognição animal também é um tópico popular para a mídia. Na década de 1990, revistas como a Time e a Newsweek publicaram extensos artigos a respeito da aprendiza- gem e do raciocínio dos animais. No entanto, alguns estudiosos da psicologia animal afirmam que as pesquisas realizadas até hoje não oferecem comprovações suficientes para generalizar a afirmação de que a cognição animal funcione de modo semelhante à humana. A lacuna entre funcionamento da mente animal e o da mente humana pro- posta por Descartes no século XVII conserva o seu apelo. Os psicólogos comportamentais ainda rejeitam a noção de consciência, tanto em animais como nos seres humanos. Um behaviorista afirmou, sobre os psicólogos cogni- tivos animais: "Eles são os George Romaneses de hoje. Especular sobre memória, racio- cínio e consciência dos animais não é menos ridículo do que era há 100 anos" (Baum, 1994, p. 138). Um historiador famoso apresentou uma opinião contraditória: Será que os animais demonstram todos os aspectos observáveis da consciência? As evi- dências biológicas apontam para uma clara resposta positiva. Teriam, então, também, o lado subjetivo? Dada a longa e crescente lista de semelhanças, parece-me que o peso da evidência está inexoravelmente tendendo para uma resposta afirmativa. (...) Sinto que a comunidade científica agora inclinou-se a seu favor. Os fatos básicos acabaram retornan- do à origem. Não somos os únicos seres conscientes do planeta. (Baars, 1997, p. 33)442 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA História On-Line http://www.pbs.org/wnet/nature/animalmind/intelligence.html http://www.pigeon.psy.tufts.edu/psych26/default.htm http://panther.bsc.edu/~spitts/cognitive/projects/animal.html Esses sites oferecem links relacionados com a pesquisa contemporânea e his- tórica a respeito da cognição animal, bem como informações sobre a cons- ciência e a capacidade de comunicação e de aprendizagem do animal. Estágio Atual Com o movimento cognitivo na psicologia experimental e a ênfase na consciência den- tro da psicologia humanista e da psicanálise pós-freudiana, é possível observar que a consciência estava exigindo a posição central que ocupou quando do início formal da disciplina. Uma análise de 95 discursos presidenciais da APA mostra que a visão predo- minante do objeto de estudo da psicologia oscilou dos fatos subjetivos para objetivos, retornando aos subjetivos (Gibson, 1993). A retomada da consciência ocorreu de forma vigorosa e substancial. Como escola de pensamento, a psicologia cognitiva vangloria-se das aparências exter- nas do sucesso. Na década de 1970, o movimento obteve tantos adeptos que conseguiu sustentar as próprias revistas especializadas: Cognitive Psychology (publicada primeiro em 1970), Cognition (1971), Cognitive Science (1977), Cognitive Therapy and Research (1977), Journal of Mental Imagery (1977) e Memory and Cognition (1983). A revista Consciousness and Cognition começou a ser publicada em 1992, e a Journal of Consciousness Studies, em 1994. Em uma ocasião, Jerome Bruner descreveu a psicologia cognitiva como "uma revo- lução cujos limites ainda não podem ser previstos" (Bruner, 1983, p. 274). cientista Roger Sperry, ganhador do prêmio Nobel, comentou que a revolução da consciência ou cognitiva, comparada às revoluções psicanalítica e behaviorista na psicologia, é "a revi- ravolta mais radical; a mais revisionista e mais transformadora" (Sperry, 1995, p. 35). impacto da psicologia cognitiva é sentido na maioria das áreas de interesse das comunidades de psicologia americana e européia. Ademais, os psicólogos cognitivos têm tentado aprofundar e consolidar trabalho de diversas grandes disciplinas em um estu- do unificado de aquisição do conhecimento. Essa perspectiva, intitulada ciência cogniti- va, é uma fusão de psicologia cognitiva, lingüística, antropologia, filosofia, ciência da computação, inteligência artificial e neurociência. Embora George Miller questionasse em que se transformaria a união de campos de estudo tão distintos (ciências cognitivas, ele sugeriu, em vez de ciência cognitiva), não há como negar crescimento da aborda- gem multidisciplinar. Vários laboratórios e institutos de ciência cognitiva foram criados nas universidades dos Estados Unidos; alguns departamentos de psicologia passaram a se chamar departamentos de ciência cognitiva. Qualquer que seja nome, a abordagem cognitiva para estudo do fenômeno mental e dos processos mentais passou a dominar a psicologia e as disciplinas aliadas. Todavia, nenhuma revolução, mesmo bem-sucedida, escapa das críticas. Por exemplo: a maioria dos psicólogos behavioristas posiciona-se contrária ao movimento cognitivo.CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 443 Mesmo que apóiam o movimento apontam suas limitações e seus pontos fracos, obser- vando que existem poucos conceitos com os quais a maioria dos psicólogos cognitivos concorda, ou que considera importantes, e ainda há muita confusão em torno da termino- logia e das definições. Outra crítica está relacionada à ênfase excessiva na cognição em detrimento das outras influências sobre pensamento e comportamento, tais como a motivação e a emoção. A literatura especializada em motivação e emoção diminuiu ao longo das últi- mas décadas, enquanto as' publicações relacionadas à cognição aumentaram. Ulric Neisser afirmou ser o resultado uma abordagem limitada e improdutiva do campo. pensamento humano envolve paixão e emoção, as pessoas atuam sob motivações com- plexas. programa de computador, ao contrário, (...) não trabalha por emoção e é monomaníaco na sua ingenuidade" (Neisser, apud Goleman, 1983, p. 57). Ele percebe o risco da fixação excessiva da psicologia cognitiva nos processos de pensamento do mesmo modo que o behaviorismo se concentrou excessivamente no comportamento manifesto. Jerome Bruner alertou estar a ciência cognitiva restringindo-se a questões cada vez mais limitadas, até mesmo triviais (Bruner, 1990). Uma crítica mais agressiva aponta o fracasso em unificar os diversos campos de estudo relacionados ao funciona- mento cognitivo. Um crítico observou que, até agora, "não existe uma visão comum sobre a mente" (Erneling, 1997, p. 381). Apesar dessas críticas, a primazia da posição cognitiva é amplamente aceita na psi- cologia. Esse domínio foi confirmado em uma análise empírica englobando 19 anos de dissertações de doutorado e artigos publicados e citados nas quatro publicações da psi- cologia geral: American Psychologist, Annual Review of Psychology, Psychological Bulletin e Psychological Review (Robins, Gosling e Craik, 1999). A psicologia cognitiva não está terminada. Está ainda em evolução, marcando lugar na história em andamento, portanto, ainda é cedo demais para avaliar suas contribuições definitivas. A disciplina é dotada de características de uma escola de pensamento: publi- cações próprias especializadas, laboratórios, encontros, jargões e bem como zelo dos adeptos. Podemos falar de cognitivismo, assim como falamos do funcionalismo e do behaviorismo. A psicologia cognitiva já atingiu o estágio alcançado pelas outras esco- las de pensamento em cada época, ou seja, tornar-se parte da psicologia geral. E essa situa- ção, como já vimos, é progresso natural das revoluções bem-sucedidas. A Psicologia Evolucionista A abordagem mais recente da psicologia, a psicologia evolucionista, afirma que indi- víduos são criaturas "ligadas" ou programadas pela evolução para se comportarem, pen- sarem e aprenderem segundo as formas que favoreceram a sobrevivência ao longo de várias gerações passadas. Essa abordagem é baseada na afirmação de que as pessoas com certas tendências comportamentais e cognitivas têm mais chances de sobreviver, perdu- rar e criar proles. Conforme comentou um psicólogo evolucionista, "Os seres humanos que defende- ram territórios, alimentaram filhos e lutaram pela dominação foram mais propensos a se reproduzir com êxito do que que não o fizeram; resultando que seus últimos des- cendentes membros da atual geração normalmente demonstram todas as tendên- cias comportamentais semelhantes" (Funder, 2001, p. 209). Os genes relacionados a esses comportamentos facilitadores da sobrevivência "passam de geração a geração por-444 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA que se adaptam, aperfeiçoando a forma de sobrevivência e o sucesso reprodutivo, e aca- bam disseminados, tornando-se instrumento-padrão" (Goode, 2000, p. D9). Assim, o ser humano é moldado em grande parte, se não na maioria, pelo meio bio- lógico e não pela aprendizagem. Sem negar que as forças sociais e culturais influenciam o comportamento humano pela aprendizagem, psicólogos evolucionistas afirmam que o indivíduo é predisposto, ao nascer, a certas formas de comportamento moldadas pela evolução. Os psicólogos evolucionistas abordam quatro questões fundamentais (Buss, 1999). Alguns desses itens já fizeram parte do estudo de outras escolas de pensamento da psi- cologia discutidas anteriormente. Quais os fatores determinantes da natureza atual da mente humana; de que modo a mente foi moldada ou foi criada da maneira como é? Como se formam ou estão organizados os componentes, as partes e processos mentais? Quais são as funções da mente, ou para que serve a mente? De que forma os estímulos do ambiente interagem com as predisposições gene- ticamente determinadas da mente para produzir o comportamento atual? A psicologia evolucionista é um campo extenso e faz uso das descobertas de pesqui- sas das outras disciplinas, incluindo o comportamento animal, a biologia, a genética, a neuropsicologia e a teoria da evolução (Caporael, 2001). História On-Line http://psych.ucsb.edu/research/cep/ Esse é site oficial do Center for Evolutionary Psychology (Centro de Psicologia Evolucionista) da University of California, em Santa Bárbara. As Influências Anteriores na Psicologia Evolucionista Claramente, qualquer movimento que se denomina psicologia evolucionista deve ofere- cer os créditos a Charles Darwin, bem como a Herbert Spencer e sua noção a respeito da sobrevivência do mais apto. A idéia de que somente aqueles dotados de algumas carate- rísticas sobrevivem e reproduzem uma espécie com as mesmas qualidades parece ser a base da psicologia evolucionista, assim como fora para Darwin e Spencer. Em 1890, 31 anos depois da publicação do monumental trabalho de Darwin a respei- to da evolução, William James utilizou o termo "psicologia evolucionista" em seu livro, The principles of psychology. James previu que um dia a psicologia se basearia na teoria da evolução. Também propôs que a maior parte do comportamento humano é programada no nascimento por predisposições genéticas chamadas instinto. Esses comportamentos instintivos seriam passíveis de modificação por meio da experiência ou da aprendizagem, mas são inicialmente formados independentemente das experiências. James acreditava ser instintiva uma ampla variedade de comportamentos, incluindo o medo de objetos específicos como cobras, animais estranhos e de altura, todos envol-CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 445 vendo claramente o valor de sobrevivência. Outros comportamentos instintivos, afirmava James, seriam moldados pelos pais o amor, a sociabilidade e a pugnacidade (a propen- são à luta e à disputa). Afirmava que os comportamentos instintivos eram uma evolução mediante a seleção natural e adaptações destinadas a lidar com os problemas específicos de sobrevivência e de reprodução. Durante o reinado do behaviorismo, de 1913 a cerca de 1960, a noção de determi- nação genética do comportamento era vista como uma espécie de maldição. Todo com- portamento era aprendido, afirmavam os behavioristas, mas mesmo assim, durante esse período de supremacia e efetiva dominação do behaviorismo na psicologia, surgiam tra- balhos a respeito da precedência das influências genéticas e das tendências herdadas sobre as respostas condicionadas. Por exemplo: no Capítulo 11, vimos o trabalho dos alunos de Skinner, os Brelands, que treinavam animais para apresentações em circos, propagandas de televisão e feiras comerciais. Alguns desses animais demonstravam propensão à transferência instintiva. Os animais às vezes substituíam o comportamento instintivo por outros, reforçados por alimento, mesmo quando o instintivo interferia na obtenção de comida, uma violação clara do princípio básico behaviorista de que reforço seria predominante. Há um trabalho conhecido do psicólogo Harry Harlow, que realizou uma pesquisa sobre o amor materno dos macacos (Harlow, 1971). Harlow criou filhotes de macacos com mães artificiais de dois tipos. Ambas eram construídas de armações de arame, mas uma era coberta de tecido de pelúcia macio e aconchegante, enquanto a outra era descoberta e dura, mas com mamilos para fornecer leite. Para os skinnerianos, era óbvia a associação do reforço apenas com a mãe que fornecia a recompensa do leite. Entretanto, quando os macacos ficavam assustados, agarravam-se na mãe coberta de pelúcia e não na que sem- pre lhes fornecera o reforço. Parecia haver outra força atuando, impossível de ser explica- da pelo condicionamento operante e pelo reforço. Uma pesquisa realizada por Martin Seligman, iniciador da psicologia positiva (dis- cutida no Capítulo 14), demonstrou a facilidade de condicionamento do indivíduo a temer cobras, insetos, cães, altura e túneis. No entanto, percebeu-se que é mais difícil condicionar o indivíduo a temer objetos menos ameaçadores e mais neutros como um automóvel ou uma chave de fendas (Seligman, 1971). medo de cobras sempre serviu para a sobrevivência e, conseqüentemente, para a evolução, e assim, presume-se que o indivíduo já nasça com essa predisposição. Por outro lado, o medo de objetos neutros não teve valor para a sobrevivência ao longo de várias gerações, não sendo, portanto, transmitido. Seligman chamou esse fenômeno de preparo biológico. Esse conceito sugere que "as fobias realmente são aprendidas por meios clássicos de condicionamento, mas que certos medos, que podem ter servido a algum propósito adaptador nos ambientes ancestrais, são mais facilmente condicionáveis" Ward, 2002, p. 244). A revolução cognitiva também foi precursora da psicologia evolucionista. movi- mento cognitivo comparava a mente humana a um computador, capaz de processar qualquer tipo de informação recebida. Parte da metáfora do computador aplicada à mente humana consiste na percepção de que, assim como o computador, ela deve ser programada para desempenhar suas diversas tarefas. Os psicólogos evolucionistas afirmam que a revolução cognitiva não seguiu adiante porque omitiu a fonte e objetivo da capacidade humana de processar informações. "A psicologia evolucionista encontrou a peça faltante no quebra-cabeça ao fornecer uma446 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA vasta especificação dos tipos de questões que envolvem o processamento de informação destinados à mente humana solucionar problemas de sobrevivência e de reprodução" (Buss, 1999, p. 30) A Influência da Sociobiologia Surgiu um ímpeto mais contemporâneo da psicologia evolucionista, em 1975, quando o biólogo Edward O. Wilson publicou um livro totalmente inovador, intitulado Sociobiology: a new synthesis (Wilson, 1975), o qual tanto foi aclamado como veementemente criticado. Dois anos depois, era capa da revista Time. Nesse mesmo ano, Wilson ganhou a Medalha Nacional da Ciência e, durante a reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência, sociedade não caracterizada pela violência física, ele recebeu um balde de água gelada na cabeça. A tese simples e corajosa de Wilson era uma afronta para muitas pessoas porque o trabalho desafiava a crença nutrida pela igualdade da criação humana, e da atuação das forças sociais e ambientais motivando ou limitando desenvolvimento humano. Wilson motivou a ira das pessoas por parecer dar maior ênfase às influências genéticas que às culturais. Se todo comportamento for geneticamente determinado, então, não há esperanças na mudança de atitude, mediante as práticas de criação e educação da crian- ça ou por outro método. No entanto, não era esse o ponto central de Wilson, embora adotasse uma visão hereditária muito forte em uma época na qual esse tipo de perspec- tiva era malvisto. Wilson escreveu: ser humano herda a propensão a adquirir estruturas sociais e comportamentais, ten- dência compartilhada por uma quantidade suficiente de indivíduos para ser chamada de natureza humana. Os traços determinantes incluem a divisão de tarefas entre os sexos, a ligação entre pais e filhos, o grande altruísmo entre os semelhantes mais próximos, a rejei- ção do incesto, outras formas de comportamento ético, a suspeita de estranhos, o triba- lismo, as ordens dominantes entre os grupos, total domínio masculino e as agressões territoriais diante da limitação de recursos. Embora o indivíduo seja dotado de livre-arbí- trio e de escolha das decisões, os canais do desenvolvimento psicológico são embora muitos de nós desejássemos o contrário mais determinados pelos genes em algumas direções do que em outras. (Wilson, 1994, p. 332-333) Como resultado do enorme protesto contra o livro de Wilson, a palavra sociobiologia acabou criando uma conotação tão negativa que caiu em desuso. Em 1989, quando um grupo de cientistas americanos decidiu criar uma associação profissional para estudar campo iniciado por Wilson, deram nome de Human Behavior and Evolution Society (Sociedade de Evolução e Comportamento Humano) e procuravam evitar a palavra socio- biologia nos encontros. História On-Line http://www.ship.edu/~cogboeree/sociobiology.html Esse site oferece uma visão geral do campo da sociobiologia.CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 447 O campo de estudo iniciado por Wilson foi incorporado às visões modificadas de vários psicólogos americanos que chamavam seus trabalhos de psicologia evolucio- nista. Com esse nome aparentemente mais aceitável, o campo tornou-se imensamen- te popular. A psicologia evolucionista lida com mecanismos psicológicos evoluídos que são liga- dos ou programados no comportamento e na cognição humana porque foram bem-suce- didos em solucionar problemas específicos de sobrevivência e de reprodução na história da evolução do Estágio Atual da Psicologia Evolucionista Apesar da sua popularidade, a psicologia evolucionista vem gerando muitas críticas. Como mencionamos anteriormente, as pessoas que acreditam no ser humano exclusiva- mente, ou pelo menos principalmente, como produto da aprendizagem se opõem a qualquer discussão a respeito de determinantes biológicas do comportamento. Se a natu- reza humana é determinada apenas pelo dom natural genético, não há possibilidade de as forças culturais e sociais positivas alterarem o comportamento para melhor, ou de as pessoas tentarem exercer o livre-arbítrio. A resposta dos psicólogos evolucionistas para essa crítica é observar, como fez Wilson, que eles não afirmam ser todo tipo de comportamento imutável e determinado pelos genes. comportamento humano é modificável; nós continuamos livres para escolher. As forças sociais e culturais são influentes e, algumas vezes, superam ou alteram a programação herdada para responder de determinada forma. Outras críticas à psicologia evolucionista referem-se à ampla variedade de compor- tamentos com a qual a disciplina lida. Algumas pesquisas do campo parecem cobrir todo tipo de atividade humana, incluindo a seleção do companheiro, altruísmo, a agressão e o espírito guerreiro, a rejeição do incesto, a suspeita de estranhos, o domínio masculi- no, o conflito entre homens e mulheres, o status e o prestígio, as preferências alimenta- res, de moradia e local, as habilidades dos pais e a psicologia da amizade. Os opositores argumentam que a amplitude do campo "dificulta a testagem convin- cente da teoria. A capacidade da psicologia evolucionista de explicar praticamente tudo não é nenhuma virtude" (Funder, 2001, p. 210). Os críticos também questionam como é possível identificar com clareza uma história de adaptação em um comportamento específico, através de várias gerações, até chegar aos povos primitivos, quando o valor de sobrevivência possivelmente teria iniciado. Comentários Observamos em todo o livro que todas as abordagens da psicologia e as tentativas de definir campo receberam críticas e apresentaram pontos de aparente vulnerabilidade. Como no caso da psicologia cognitiva, ainda é cedo demais para julgar se a psicologia evolucionista terá seu valor legitimado. Também esse campo faz parte da história em andamento. Um defensor do movimento da psicologia evolucionista resumiu estágio atual da área nos seguintes termos: "Penso que ainda não sabemos realmente como trabalhar com a psicologia evolucionista. Enfrentamos muitas dificuldades para formular as hipó-448 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA teses, e ainda mais obstáculos para descobrir como testar as afirmações. No momento, temos um princípio poderoso que acabará fornecendo a base para uma psicologia mais profunda e mais enriquecida. No entanto, ainda temos de trabalhar muito" (Randolph Nesse, apud Goode, 2000, p. D9). Assim, a busca pela abordagem verdadeiramente final da psicologia, pela escola de pensamento definitiva que venha a caracterizar o campo por mais de algumas décadas, continua. Será que a psicologia evolucionista ou a psicologia cognitiva se tornará o juiz final e definirá a psicologia e o seu objeto de estudo? Com base no que foi visto até aqui, provavelmente não. A única afirmação possível fundamentada na história da psicologia estudada até aqui é que, quando um movimento se formaliza em uma escola, ficará em evidência até que um novo movimento apresente idéias que a superem com êxito. Quando isso ocorre, as arté- rias desobstruídas do até então jovem e vigoroso movimento começam a endurecer. A fle- xibilidade transforma-se em rigidez, a paixão revolucionária começa a ser protetora da sua posição e olhos e a mente se fecham para as novas idéias. É dessa maneira que nasce um novo sistema. Assim acontece no progresso de qualquer ciência, uma construção evolucio- nista para níveis mais elevados de desenvolvimento. Não há complementação nem final, apenas um processo interminável de crescimento, como as novas espécies evoluem das antigas e tentam se adaptar a um ambiente eterno de mudanças. Temas para Discussão 1. Descreva as realizações, os fracassos e os destinos finais das principais esco- las de pensamento da psicologia. 2. Quem foram precursores da psicologia cognitiva? De que maneira a mudança no Zeitgeist da física influenciou a psicologia cognitiva? 3. Quais primeiros indícios do surgimento da revolução cognitiva na psico- logia? Quais fatores pessoais que motivaram Miller e Neisser? 4. Qual a diferença entre a psicologia cognitiva e a behaviorista? que Neisser queria dizer ao se referir à validade ecológica? 5. Qual foi a necessidade prática na Segunda Guerra Mundial que levou ao desenvolvimento do computador moderno? que é Eniac? 6. que demonstrou a famosa partida de xadrez do século XX sobre a capaci- dade de pensar da máquina? 7. De que forma computador serve como metáfora dos processos mentais? Como foram usados Teste de Turing e o problema da sala chinesa para exa- minar a proposição da capacidade de pensar do computador? 8. Descreva a neurociência cognitiva e as técnicas usadas para mapear cére- bro. Qual a relação entre a neurociência cognitiva e as primeiras tentativas de explicar o funcionamento do cérebro? 9. Qual papel da introspecção na psicologia cognitiva? Descreva as idéias atuais sobre as atividades cognitivas inconscientes. 10. Discuta estágio atual da cognição animal na psicologia. Qual a diferença entre as pesquisas contemporâneas e as anteriores, sobre a cognição animal?CAPÍTULO 15 A EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA CONTEMPORÂNEA 449 Sugestões de Leitura Baars, B. J. The cognitive revolution in psychology. Nova York: Guilford, 1986. Descreve a transição do behaviorismo pós-watsoniano para a psicologia cognitiva. Inclui entre- vistas realizadas com Miller, Neisser e outros psicólogos cognitivos. Miller, G. A. Autobiography. In Lindzey, G. (Ed.). A history of psychology in autobiography. Stanford, CA: Stanford University Press, 1989, V. 8, p. 391-418. Inclui as lembranças de Miller sobre professores que influenciaram a sua carreira na psicologia. Pinker, S. The blank slate: the modern denial of human nature. Nova York: Viking, 2002. Ilustra temas evolucionistas comuns na natureza humana entre culturas bem distin- tas e defende a aceitação da herança genética. Também avalia conceitos populares do passado sobre a natureza humana, tais como "papel em branco", o "bom sel- vagem" e o "fantasma da Rychlak, J. F. In defense of human consciousness. Washington, D. C.: American Psycho- logical Association, 1997. Veja principalmente o Capítulo 7, que trata de computado- res e da consciência, com máquinas como metáforas das funções mentais humanas. Skinner, B. F. Whatever happened to psychology as the science of behavior? American Psychologist, 42, p. 780-786, 1987. Apresenta a visão de Skinner sobre a psicolo- gia humanista e a psicologia cognitiva, como sendo obstáculos para a aceitação do seu programa de análise experimental do comportamento na psicologia. Sperry, R. W. The impact and promise of cognitive revolution. In Solso, R. L.; Massaro, D. W. (Eds.). The science of the mind: 2001 and beyond. Nova York: Oxford University Press, 1995, p. 35-49. Descreve a transferência para o cognitivismo como sendo uma mudança mais radical do que as revoluções anteriores ocorridas na psicologia, pro- movidas por John B. Watson (behaviorismo) e de Sigmund Freud (psicanálise). Sugere que o movimento cognitivo mantém a promessa de proporcionar à psicolo- gia um novo conceito de mente, valores e crenças para lidar com os desafios do novo século. Vauclair, J. Animal cognition: an introduction to modern comparative psychology. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1996. Chama atenção para as abordagens experimen- tais no estudo da linguagem, consciência, inteligência e outras habilidades mentais do animal. Enfoca ampla variedade de espécies, desde formigas e outros insetos até pássaros, leões-marinhos, macacos e lobos.