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MODELAGEM DE SISTEMAS MECÂNICOS UNIDADE II MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA Autoria Pedro Augusto Fernandes Pereira Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO UNIDADE II MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA ............................................................5 CAPÍTULO 1 MÉTODO DE NEWTON-EULER ............................................................................................. 5 CAPÍTULO 2 MOMENTO DE INÉRCIA ..................................................................................................... 15 REFERÊNCIAS ........................................................................................................................22 5 UNIDADE II MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA CAPÍTULO 1 MÉTODO DE NEWTON-EULER 1.1. Introdução A formulação Newton-Euler, derivada da segunda lei de Newton, é uma técnica robusta e detalhada fundamental para analisar o movimento de corpos rígidos. Seu nome é derivado da combinação dos princípios fundamentais da segunda lei de Newton, que descreve as relações entre forças e movimento linear, com as equações angulares de Euler, que descrevem a rotação de um corpo rígido. Essa abordagem é especialmente valiosa quando é essencial compreender não apenas as variáveis cinemáticas, como posição, velocidade e aceleração, mas também as variáveis dinâmicas relacionadas às forças e torques que atuam sobre esses corpos complexos. Na mecânica clássica, as equações de Newton-Euler descrevem a dinâmica combinada de translação e rotação de um corpo rígido. Tradicionalmente, as equações de Newton-Euler consistem na combinação das duas leis de movimento de Euler para um corpo rígido em uma única equação com 6 componentes (para um sistema tridimensional, para o bidimensional serão 4 componentes), utilizando vetores coluna e matrizes. Essas leis relacionam o movimento do centro de gravidade de um corpo rígido com a soma das forças e torques (ou sinonimamente momentos) atuando sobre o corpo rígido. 1.1.1. Principais aspectos 1.1.1.1. Equações de movimento linear No contexto da formulação Newton-Euler, as equações de movimento linear são derivadas diretamente da segunda lei de Newton, focando na translação dos corpos rígidos. Nesse processo, as forças externas aplicadas ao corpo são consideradas, 6 UNIDADE II | MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA resultando na determinação da aceleração linear. Conforme vimos na primeira unidade, as equações de força para o movimento bidimensional são representadas pelas equações: ∑ = G xmxF a Eq. 37 ∑ = G ymyF a Eq. 38 1.1.1.2. Equações de movimento angular Quando nos dedicamos a compreender a rotação de um corpo rígido, adentramos o intrigante universo das equações angulares de Euler. Essa abordagem matemática fornece as ferramentas necessárias para estabelecer relações fundamentais entre os momentos aplicados ao corpo, os momentos de inércia associados e as acelerações angulares resultantes. Com as equações angulares de Euler, conseguimos desvendar os intricados padrões de movimento rotacional que um corpo rígido pode experimentar. Essas equações não apenas capturam a essência da dinâmica angular, mas também nos permitem prever como o corpo responde aos momentos aplicados, considerando a distribuição de sua massa e a resistência à variação da velocidade angular. Para o método Newton-Euler, são consideradas as equações que estabelecem relações entre os momentos aplicados ao corpo, os momentos de inércia e as acelerações angulares. Conforme vimos na primeira unidade da apostila: α∑ = ×O OIM Eq. 40 1.1.1.3. Sistema de coordenadas móveis Uma característica distintiva da formulação Newton-Euler é a utilização frequente de um sistema de coordenadas móveis, que é vinculado ao corpo rígido em análise. Essa abordagem simplifica a descrição do movimento, permitindo a análise simultânea de rotação e translação. Ou seja, a abordagem dada pelo método segue a descrita na Unidade I, capítulo 2, tópico intitulado “O movimento plano geral decomposto – Movimento relativo”. Note que o método acompanha o movimento de translação através do centro de gravidade do corpo, ao mesmo tempo em que considera a rotação em torno do centro de gravidade. 7 MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA | UNIDADE II 1.1.1.4. Algoritmo recursivo Um destaque notável é o uso do algoritmo recursivo, que desempenha um papel crucial no cálculo eficiente de variáveis cinemáticas e dinâmicas em relação aos segmentos do corpo. Essa abordagem facilita a análise hierárquica de sistemas articulados. 1.1.1.5. Considerações tridimensionais A formulação Newton-Euler demonstra uma eficácia particular na descrição de movimentos tridimensionais de corpos rígidos. Leva em conta as diferentes orientações possíveis e as complexas relações entre variáveis. 1.1.2. Aplicações 1.1.2.1. Robótica Na dinâmica de robôs, a formulação Newton-Euler é comumente empregada para calcular as forças e torques necessários em movimentos específicos, contribuindo para a precisão e eficiência do controle robótico. 1.1.2.2. Engenharia mecânica Em sistemas mecânicos complexos, como mecanismos articulados, a formulação Newton-Euler é valiosa para modelar e compreender os comportamentos dinâmicos, contribuindo para o projeto e otimização eficiente desses sistemas. 1.1.3. Vantagens 1.1.3.1. Precisão Proporciona resultados precisos para sistemas complexos, considerando simultaneamente movimentos de translação e rotação. 1.1.3.2. Versatilidade A formulação é adequada para sistemas tridimensionais e situações envolvendo movimentos simultâneos em diferentes direções, oferecendo uma abordagem abrangente para análises dinâmicas. 1.1.3.3. Eficiência computacional O algoritmo recursivo empregado pela formulação Newton-Euler é eficiente em termos computacionais, permitindo análises rápidas e precisas de sistemas complexos. 8 UNIDADE II | MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA 1.1.4. Desafios 1.1.4.1. Complexidade matemática A aplicação da formulação Newton-Euler envolve equações matemáticas complexas, demandando uma compreensão sólida de conceitos avançados de dinâmica. Quando possível resolver as equações considerando apenas um plano de rotação, elas são muito simplificadas, mas conforme a rotação exige uma solução considerando mais coordenadas, outros termos surgem na equação, e a decomposição do momento em cada direção exigirá o cálculo de momentos de inércia em todas as direções e combinações destes para a solução das equações. Uma análise mais detalhada será dada na Unidade III da apostila. 1.1.4.2. Implementação computacional A implementação prática do algoritmo recursivo pode ser desafiadora, exigindo uma compreensão profunda da teoria subjacente e habilidades computacionais avançadas. Em resumo, a formulação Newton-Euler emerge como uma ferramenta essencial para analisar movimentos complexos em corpos rígidos, sendo amplamente utilizada em diversos campos, desde a robótica até a engenharia mecânica avançada, proporcionando insights valiosos para o entendimento e aprimoramento desses sistemas. 1.2. O método Newton-Euler Um conjunto de forças vetoriais aplicadas em vários pontos de um corpo rígido é denominado distribuição de esforços, também referido como sistema de forças. Segundo os princípios da mecânica newtoniana, a influência coletiva dessas forças (totalizando 16 forças, nesse caso) sobre o movimento do corpo rígido pode ser completamente caracterizada por um par de vetores, expressos como (F, M), em que F representa a força resultante, também conhecida simplesmente como “resultante”, e M é o torque resultante da distribuição, comumente chamado de “binário”. O torque é sempre referente a um ponto específico no espaço, denominado polo do par (F, M). Esse par de vetores (F, M) descreve abrangentemente a influência da distribuição sobre o movimento do corpo rígido da seguintemaneira: duas distribuições distintas, que podem ser representadas pelo mesmo par (F, M) em relação a um mesmo polo, induzem exatamente as mesmas acelerações lineares e angulares no corpo rígido. Isso ocorre apesar das diferenças nos esforços internos, que são responsáveis por manter a rigidez do corpo e podem variar entre os dois casos. 9 MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA | UNIDADE II Em síntese, a solução das equações para um par (F, M) resultará em uma única solução de a e α. α= ∑ = × = ∑ = G G G G d I dt d m dt H M L F a Eq. 49 1.2.1. Procedimento geral para análise Problemas cinéticos envolvendo movimento plano geral de um corpo rígido podem ser resolvidos utilizando-se o procedimento indicado a seguir: Diagrama de corpo livre: » Estabeleça o sistema de coordenadas inercial x, y e crie o diagrama de corpo livre para o corpo. » Especifique a direção e o sentido da aceleração do centro de massa, aG, e da aceleração angular α do corpo. » Determine o momento de inércia I. » Identifique as incógnitas no problema. » Se a equação de movimento rotacional for necessária, considere desenhar o diagrama cinético para visualizar os momentos desenvolvidos pelas componentes m(aG)x, m(aG)y e Iα ao escrever os termos na soma dos momentos. Equações de movimento: » Aplique as três equações de movimento de acordo com a convenção de sinais estabelecida. » Quando o atrito está presente, considere a possibilidade de movimento sem deslizamento ou tombamento. Cada possibilidade de movimento deve ser considerada. Cinemática: » Utilize a cinemática se uma solução completa não puder ser obtida estritamente das equações de movimento. 10 UNIDADE II | MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA » Se o movimento do corpo for restrito devido aos seus suportes, obtenha equações adicionais utilizando aB = aA + aB/A, que relacionam as acelerações de quaisquer dois pontos A e B sobre o corpo. » Quando uma roda, disco, cilindro ou bola rola sem deslizar, então aG = αR, em que R é o raio do corpo.Parte superior do formulário 1.3. Aplicações das equações de Newton e Euler Neste tópico, iremos discutir a abordagem dessas equações para diferentes tipos de sistemas e condições, partindo do mais simples aos mais complexos. Muito do que será descrito aqui tem como referência o texto Zilio e Bagnato (2015). Muito do que será abordado neste capítulo pode ser visto como uma revisão de diversas disciplinas do curso de engenharia mecânica; sendo assim, será visto de forma mais simplificada. Para um melhor aprofundamento, é sugerido uma consulta ao material no qual este capítulo foi fundamentado: » ZILIO, S. C.; BAGNATO, V. S. Apostila do Curso de Física, Mecânica, calor e ondas, 2015. 1.3.1. Equilíbrio estático de um corpo rígido Conforme abordamos anteriormente, um corpo rígido pode manifestar movimentos tanto rotacionais quanto translacionais, associados, respectivamente, a um torque e a uma força externa. Dizemos que um corpo está em equilíbrio quando seu estado de movimento rotacional e translacional permanece constante ao longo do tempo (ou seja, aceleração angular α e aceleração linear a são ambas igual a zero). Em casos específicos, quando não há presença de movimento (velocidade linear v e velocidade angular ω iguais a zero), referimo-nos ao corpo como estando em equilíbrio estático, ou seja, em repouso. A condição essencial para que essa situação ocorra é: ∑ =O OIM Rotacional Eq. 50∑ =0F Translacional Aplicando em um caso simples de uma escada apoiada em uma parede e sem atrito com a parede (apenas com o solo), conforme a Figura 9: 11 MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA | UNIDADE II Figura 9. Escada apoiada em uma parede sem atrito. Fonte: Zilio e Bagnato (2015). Considerando a massa da escada como M, seu comprimento como L, e a presença de atrito com o chão com coeficiente μ, nosso objetivo é determinar o ângulo mínimo θ no qual a escada não escorrega. Como no caso de a escada não escorregar as acelerações (de translação e de rotação) serão zero, podemos calcular: ∑ = → − =20 0 Resulta Mg NxF Eq. 51 µ∑ = → − = − =1 1 20 0 Resulta atN F N NyF Eq. 52 ( )θ θ∑ = → − =10 ( sen ) 0 2 Resulta O LMgcos N LM Eq. 53 Note que o momento foi calculado em torno do ponto de contato da escada com o chão. Solucionando esse sistema de equações, teremos: Eq. 54 Repare que, nos balanços, N foi utilizado para denotar a força normal, que é a força de reação que a superfície faz na escada. Para esse caso, ambas serão dadas pela decomposição da força peso em cada coordenada. Além disso, é importante frisar que a força de atrito é dada como o coeficiente de atrito (estático, quando não há movimento, ou cinético, quando v ≠ 0) multiplicado pela força normal. 12 UNIDADE II | MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA 1.3.2. Aceleração constante Examinaremos agora a situação em que uma força externa atua sobre o corpo rígido, resultando em uma aceleração constante. Em geral, nessa situação, ocorre um movimento combinado de rotação e translação. Esses movimentos podem ser analisados de maneira independente e, posteriormente, relacionados. Podemos aplicar esses conceitos a um caso de um ioiô solto do repouso, sendo M a massa dele, R seu raio e T a tração na corda, conforme a Figura 10. Queremos encontrar ω(t) e v(t). Figura 10. Ioiô solto a partir do repouso. Fonte: Zilio e Bagnato (2015). Nesse caso, podemos considerar um eixo coordenado vertical y; dessa forma, somente teremos forças aplicadas ao longo desse eixo. Assim: ∑ = → − = Resulta G GM Mg T MyF a a Eq. 55 Para o cálculo do momento, podemos observar que P é um CI, e, portanto, de velocidade zero. Notamos também que o centro de gravidade gira em torno do ponto P com a aceleração aG = Rα. Ao aplicarmos o momento das forças em torno do centro de gravidade, vamos obter: αα α∑ = → = → = Resulta Resulta G II TR I T R M Eq. 56 Neste caso nossas incógnitas são α, T e a. Substituindo os resultados da Eq. 54 na Eq. 53 e lembrando que α ω= : 13 MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA | UNIDADE II α ω ω− → − = ResultaIMg Mg T MR R Eq. 55 Rearranjando, e notando que para um disco sólido = 2 /2I MR : ω = 2 3 g R Eq. 57 Podemos, então, integrar a equação no tempo para obtermos nossa solução: ( ) ( )ω = = 2 2 3 3 gt t ou v t gt R Eq. 58 1.3.3. Cilindro descendo um plano inclinado Vamos considerar agora um cilindro descendo por um plano inclinado sem deslizar, conforme a Figura 11. Figura 11. Cilindro descendo um plano inclinado. Fonte: Zilio e Bagnato (2015). Da mesma forma que anteriormente, podemos observar que o ponto de contato do cilindro com a rampa (P) é um CI, e, portanto, de velocidade zero em relação à rampa. Assim, fica subentendido, também, que o centro de gravidade gira em torno do ponto P com a aceleração aG = Rα e vG = Rω. Fazendo a análise a partir da equação para rotação: α α∑ = → = = 2 Resulta P G at G G at G I R I I R M F F a Eq. 59 14 UNIDADE II | MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA Para a translação, consideraremos um eixo y paralelo ao plano inclinado e um eixo x perpendicular ao plano. Resolvendo o balanço de forças para a coordenada x, e notando que somente há aceleração ao longo desse eixo: ( )θ∑ = → − = Resulta G at GM Mg sen MxF a F a Eq. 60 Substituindo a Eq. 58 na Eq. 59 e considerando novamente que = 2 /2I MR : ( ) ( ) θ θ = + = 2 3 2 G G G I Mg sen M R Mg sen M a a Eq. 61 Logo: ( ) ( ) θ θ = = 2 3 1 3 G at g sen Mg sen a F Eq. 62 15 CAPÍTULO 2 MOMENTO DE INÉRCIA 2.1. Introdução O momento de inércia, muitas vezes chamado de inércia rotacional, é uma característica intrínseca de corpos rígidos que desempenha um papel fundamental na análise do movimento rotacional. Esse conceito é uma extensão natural da inércia linear (que é definida pela massa do corpo), que se relaciona com a resistência de um objeto àmudança em seu estado de movimento translacional. No contexto rotacional, o momento de inércia expressa a relutância de um corpo em alterar seu estado de rotação em torno de um determinado eixo. A definição matemática do momento de inércia (I) está intimamente ligada à distribuição de massa de um objeto em relação ao eixo de rotação. Para um sistema contínuo de partículas ou uma distribuição discreta de massas, o momento de inércia pode ser expresso por integrais ou somatórios, respectivamente. No entanto, em muitos casos, especialmente para formas geométricas comuns, existem fórmulas específicas que simplificam o cálculo do momento de inércia. Por exemplo, considerando um eixo fixo em relação ao qual um corpo está girando, o momento de inércia (I) para objetos com formas simples, como discos, cilindros ou barras, pode ser calculado diretamente usando as dimensões físicas do objeto. Conforme vimos anteriormente nas resoluções de problemas envolvendo o movimento de corpos rígidos com aceleração constante, para um disco de raio R e massa uniformemente distribuída, o momento de inércia é dado por = 2 /2I MR , em que M é a massa total do disco. Devemos frisar que deve haver um cuidado especial ao utilizar essa equação, pois ela somente é válida para esses casos citados anteriormente. Para outros casos, teremos uma equivalente, baseada no raio de giração, que definiremos posteriormente. A importância do momento de inércia torna-se evidente ao analisar a segunda lei de Newton para rotação, que relaciona o torque (M) aplicado a um corpo ao seu momento de inércia e à aceleração angular (α), pela equação ΣM = Iα. Isso espelha a conhecida equação F = ma na dinâmica linear, destacando a analogia entre movimento translacional e rotacional. Ao explorar o movimento de corpos rígidos, o momento de inércia desempenha um papel crucial na determinação da aceleração angular resultante em resposta a um torque aplicado. Além disso, é uma peça fundamental na conservação do momento 16 UNIDADE II | MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA angular, um princípio que afirma que, em um sistema isolado, o momento angular total permanece constante, evidenciando a importância do momento de inércia em contextos mais amplos de física mecânica. A aplicação prática do momento de inércia é vasta e abrange diversas áreas, desde a engenharia de máquinas e veículos até a compreensão de fenômenos naturais, como a rotação de corpos celestes. Sua compreensão é crucial para engenheiros, físicos e cientistas que buscam modelar e prever o comportamento de sistemas rotacionais em diferentes contextos. Em resumo, o momento de inércia é uma ferramenta poderosa na análise e descrição do movimento rotacional, contribuindo para avanços significativos na compreensão do mundo físico que nos rodeia. Já vimos ao longo da apostila algumas aplicações de momento de inércia, por exemplo, no cálculo dos momentos e da energia cinética de rotação. Agora vamos ver um pouco mais atentamente essa variável tão importante. 2.2. Energia cinética rotacional e momento de inércia A energia cinética de rotação (Tr) de um corpo que está girando ao redor de um eixo, conforme foi discutido na Unidade I, é dada por: ω= 21 2rT I Eq. 44 Em que: » I é o momento de inércia do corpo em relação ao eixo de rotação. » ω é a velocidade angular do corpo. Essa equação reflete a quantidade de energia associada ao movimento de rotação de um corpo em torno de um eixo específico. O termo ω21 2 I representa a contribuição da rotação para a energia total do sistema. A definição matemática do momento de inércia é uma medida da distribuição de massa em relação ao eixo de rotação. Para um sistema contínuo de partículas, o momento de inércia (I) pode ser calculado por meio da integral: = ∫ 2I r dm Eq. 63 Em que: » r é a distância de uma partícula de massa infinitesimal (dm) ao eixo de rotação. 17 MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA | UNIDADE II Essa integral considera a soma de todas as contribuições infinitesimais de massa ao momento de inércia. Para corpos com formas geométricas específicas, existem fórmulas diretas para calcular o momento de inércia em relação a eixos específicos. Comparando a energia cinética de rotação com a de translação, vemos que o momento de inércia faz o papel da massa inercial e a velocidade angular faz o papel da velocidade tangencial. O momento de inércia de um corpo rígido é intrinsecamente vinculado à maneira como sua massa está distribuída em relação a um eixo específico ao redor do qual o corpo realiza rotação. Consequentemente, um corpo rígido único pode apresentar diversos momentos de inércia, os quais variam conforme os eixos de rotação selecionados. Considerando uma velocidade angular ω, a dependência do momento de inércia em relação ao eixo de rotação implica que a energia cinética associada também será influenciada por essa escolha específica de eixo. A determinação do momento de inércia para cada corpo e configuração foge ao escopo desse curso, sendo abordado tipicamente em cursos de Física 1 (mecânica). Temos ainda que considerar que o cálculo para algumas configurações mais complexas pode ser bem trabalhoso; sendo assim, vamos apresentar aqui algumas soluções tabeladas para alguns corpos e configurações com simetria axial, conforme a Figura 12. É importante notar que, embora algumas figuras estejam repetidas na tabela, o eixo de rotação é diferente, como podemos ver nos casos (c) e (d). Figura 12. Momento de inércia para algumas configurações. Anel fino em torno de um eixo central 𝐼𝐼 = 𝑀𝑀𝑅𝑅2 (a) (b) (c) (d) (e) (f) (i) (h) (g) 𝐼𝐼 = 1 2𝑀𝑀(𝑅𝑅12 + 𝑅𝑅22) 𝐼𝐼 = 1 2Τ 𝑀𝑀𝑅𝑅2 𝐼𝐼 = 1 2Τ 𝑀𝑀𝑅𝑅2 𝐼𝐼 = 1 2Τ 𝑀𝑀𝑅𝑅2 + 1 12Τ 𝑀𝑀𝐿𝐿2 𝐼𝐼 = 1 12Τ 𝑀𝑀𝐿𝐿2 𝐼𝐼 = 2 3Τ 𝑀𝑀𝑅𝑅2 𝐼𝐼 = 1 2Τ 𝑀𝑀𝑅𝑅2 𝐼𝐼 = 1 12Τ 𝑀𝑀(𝑎𝑎2 + 𝑏𝑏2) Cilindro oco (ou anel grosso) em torno de um eixo central Cilindro (ou disco) maciço em torno do eixo central Cilindro (ou disco) maciço em torno do diâmetro central Barra fina em torno de um eixo central perpendicular à maior dimensão Esfera maciça em torno de um diâmetro Casca esférica fina em torno de um diâmetro Anel fino em torno de um diâmetro Placa em torno de um eixo passando pelo centro Fonte: Halliday et al. (2009). 18 UNIDADE II | MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA O momento de inércia exibe diversas propriedades que frequentemente facilitam a execução de cálculos. Explorar as propriedades do momento de inércia torna-se crucial para simplificar e otimizar cálculos em situações diversas. Vamos agora aprofundar nosso entendimento sobre essas propriedades, destacando como elas influenciam a dinâmica rotacional dos corpos rígidos. 2.3. Teorema dos eixos paralelos (Teorema de Steiner) O Teorema dos Eixos Paralelos oferece uma abordagem eficaz para calcular o momento de inércia de um corpo rígido em torno de um eixo que não passa pelo seu centro de massa. Essencialmente, este teorema proporciona uma maneira prática de relacionar o momento de inércia em relação a um eixo paralelo a um eixo de referência que passa pelo centro de massa. Imagine que já conhecemos o momento de inércia IG de um corpo em relação a um eixo que passa pelo seu centro de massa G. Agora, se desejarmos calcular o momento de inércia I0 em relação a um eixo paralelo a esse eixo de referência, mas que não passa pelo centro de massa, o Teorema dos Eixos Paralelos é a ferramenta que nos permite realizar esse cálculo de forma mais eficiente. Matematicamente, o teorema expressa que o momento de inércia I0 em relação a um eixo paralelo a uma distância d do eixo que passa pelo centro de massa é obtido somando-se o momento de inércia IG em relação ao eixo que passa pelo centro de massa e o produto da massa total do corpo (m) pela distância ao quadrado (d2). Assim: I0 = IG + md2 Eq. 64 Podemos visualizar um exemplo dessecaso na Figura 13. O momento de inércia em relação ao eixo G que passa pelo centro de massa é de fácil determinação, sendo tabelado. Para saber o momento de inércia em relação a um eixo O, paralelo a G, e que tangencia o corpo em uma distância d igual ao raio do corpo, podemos utilizar o teorema dos eixos paralelos descrito na Eq. 63, bastando, para isso, conhecer o momento de inércia em relação ao eixo que passa pelo centro de gravidade. 19 MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA | UNIDADE II Figura 13. Corpo circular com indicativo de um eixo que passa pelo centro de massa (G) e um eixo paralelo que tangencia o corpo. Fonte: elaborada pelo autor, 2024. Essa formulação simplificada é de grande utilidade na prática, permitindo calcular o momento de inércia em relação a um eixo arbitrário sem a necessidade de detalhes intricados sobre a distribuição de massa ao longo do corpo. O Teorema dos Eixos Paralelos, portanto, emerge como uma ferramenta valiosa na análise dinâmica de corpos rígidos, facilitando os cálculos em situações em que o eixo de interesse não coincide com o centro de massa do objeto. Em resumo, ao simplificar o cálculo do momento de inércia em relação a eixos não passantes pelo centro de massa, o teorema dos eixos paralelos torna-se uma contribuição significativa para a compreensão e análise eficaz do movimento rotacional em sistemas mecânicos complexos. 2.3.1. Equação do momento em torno do ponto O Para as equações do movimento apresentadas, podemos observar que ambas as equações são utilizadas com base no centro de gravidade do corpo. Uma equação alternativa pode ser desenvolvida para o cálculo quando desejamos avaliar a somatória de momento em torno de um ponto O qualquer, o qual está a uma distância d do centro de gravidade desse corpo, como na Figura 13. Assim, tem-se: α∑ = + 2( )O GI mdM Eq. 65 Observando do teorema dos eixos paralelos que (IG + md2) é igual a I0 e substituindo: α∑ =O OIM Eq. 66 20 UNIDADE II | MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA 2.4. Teorema dos eixos perpendiculares O teorema dos eixos perpendiculares simplifica a determinação do momento de inércia de um corpo rígido em torno de um eixo perpendicular a outro eixo conhecido. Esse teorema proporciona uma maneira eficaz de relacionar os momentos de inércia em diferentes eixos perpendiculares, simplificando consideravelmente o processo de cálculo em problemas complexos de dinâmica de corpos rígidos. Esse teorema é válido para corpos planos, do tipo placa, como mostrado na Figura 14: Figura 14. Definição do teorema dos eixos perpendiculares. Fonte: elaborada pelo autor, 2024. Suponha que tenhamos conhecimento do momento de inércia Ix e Iy de um corpo em relação a um certo eixo x e y. Se desejarmos calcular o momento de inércia Iz em relação a um eixo perpendicular z, o teorema dos eixos perpendiculares estabelece que a soma dos momentos de inércia em relação a dois eixos perpendiculares contidos no plano do corpo é equivalente ao momento de inércia em relação a um terceiro eixo perpendicular ao plano do corpo, e que passa pela interseção dos dois primeiros. Quando esse terceiro eixo coincide com o centro de massa, é designado como o eixo polar. Matematicamente, podemos escrever: Iz = Ix + Iy Eq. 67 2.5. O raio de giração O raio de giração é uma propriedade geométrica que está intrinsicamente relacionada ao momento de inércia de um corpo em torno de um eixo específico. Ele fornece uma medida efetiva da distribuição da massa em relação a esse eixo, permitindo uma caracterização mais simplificada do comportamento rotacional do corpo. 21 MÉTODO DE NEWTON-EULER E MOMENTO DE INÉRCIA | UNIDADE II Definimos o momento de inércia I de um corpo em relação a um eixo específico como a soma ponderada das massas elementares multiplicadas pelo quadrado da distância de cada massa ao eixo de rotação. O raio de giração k é uma quantidade definida como a raiz quadrada do quociente entre o momento de inércia e a massa total do corpo (m): = Ik m Eq. 68 Essencialmente, o raio de giração representa uma medida média da distribuição de massa em relação ao eixo de rotação. Quanto maior o raio de giração, mais da massa do corpo está concentrada a uma distância maior do eixo, o que implica em um momento de inércia maior. Ao contrário, um raio de giração menor indica que a massa está mais concentrada em regiões mais próximas ao eixo. O raio de giração é particularmente útil porque permite que o momento de inércia seja expresso de uma forma mais compacta em equações relacionadas ao movimento rotacional. Em muitos casos, quando o raio de giração é conhecido, podemos usar a fórmula simplificada: I = mk2 Eq. 69 Essa relação é especialmente valiosa em situações práticas, como em problemas de engenharia e física, em que o conhecimento do raio de giração pode simplificar os cálculos relacionados à rotação de corpos rígidos. Além disso, o raio de giração é uma ferramenta útil na caracterização de propriedades geométricas e na comparação relativa de diferentes corpos em termos de sua distribuição de massa em relação a um eixo específico. 22 REFERÊNCIAS BEER, Ferdinand P.; JOHNSTON JUNIOR, Russel; CORNWELL, Phillip J.; Dinâmica: Mecânica Vetorial para Engenheiros. 9. ed. São Paulo: McGraw-Hill, 2012. BERNARDO, N. Conservação do Momento Angular: o que significa? 2017. 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