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Processos de Negócio e de Suporte AUTOR José Osvaldo De Sordi Acadêmicos, Esta aula tem por objetivo escrever os processos de negócio diferenciando-os dos processos de suporte e discernir o processo de negócio dos seus demais entes constituintes, explicitando como ele se decompõe em processos, estes em subprocessos, até alcançar o menor nível de decomposição denominado de atividades. Processo de Negócio (PN) O conceito de divisão do trabalho em atividades e a percepção do resultado desse trabalho pelo cliente final são as características principais das definições de processo de negócio. Apresentamos, a seguir, algumas dessas definições elaboradas pelos principais autores da área de processos de negócio (PN). Hammer and Champy (1993, p. 38) definiram business process como “uma coleção de atividades que a partir de uma ou mais tipos de entradas (insumo) cria uma saída (produto/serviço) de valor para o cliente”. Davenport (1993, p. 18) indicou que “um processo é simplesmente um conjunto estruturado e mensurável de atividades projetadas para produzir uma saída específica para um cliente ou mercado específico”. Harrington (1991, p. 9) descreveu um processo de negócio como “qualquer atividade ou grupo de atividades que recebe uma entrada, agrega valor a ela e fornece uma saída para um cliente interno ou externo”. Finalmente, Rummler e Brache (1990, p. 65) indicam que “um processo de negócio é uma série de etapas destinadas a produzir um produto ou serviço [...] entregue a um cliente externo à organização”. A globalização e grande competitividade das empresas por novos mercados trouxe a necessidade da especialização, de as empresas terem foco em algumas competências essenciais e em produtos e serviços entregues a partir destas competências diferenciatórias. Em função disso, uma empresa deve ter alguns poucos PNs. Alguns autores sugerem algo não superior a 6 (seis). A seguir, alguns exemplos: Entreter cliente (exemplo de PN de um resort). Manejar bagagem (exemplo de PN de uma empresa de transporte aéreo). Reservar acomodação (exemplo de PN de uma rede hoteleira). Transportar trabalhadores (exemplo de PN de uma empresa de fretamento). Servir refeição (exemplo de PN de um restaurante). Termos sinônimos para Processos de Negócio A depender da técnica (diagrama), do método, da ferramenta (software de especificação), ou do autor do livro/artigo, a designação do Processo de Negócio pode variar. Em suma, não há uma nomenclatura amplamente adotada como padrão. Daí a importância de referenciar autoria quando da adoção de um rótulo em textos científicos. A título de exemplo, apresentamos a seguir, dois textos/autores que utilizam técnicas e nomes distintos para retratar os Processos de Negócio: Processos centrais / Core processes (Dumas et al., 2018); e Atividades chave / Key activities (Voigt, Buliga e Michl, 2017). Ao descrever os processos de negócio da empresa de Transporte Público de Viena, Dumas et al. (2018, p. 48) utilizaram o termo Processos centrais (Core processes), conforme pode ser observado na Figura 2.1. Figura 2.1 – Processos de negócio da empresa de Transporte Público de Viena A técnica Business Model Canvas (BMC) para definição do plano de negócios das empresas pede que os estrategistas informem os processos de negócio da empresa. Na estrutura de informações do BMC há um conjunto de metainformação denominado de atividades-chave (key activities). Voigt, Buliga e Michl (2017, p. 84) apresentaram o BMC da empresa Google, ver Figura 2.2, destacando dois processos de negócios da empresa: Criar lista ordenada por critérios (ranking) de interesse do leitor; e Publicar anúncios pertinentes com a pesquisa do cliente que roeu a lista. Figura 2.2 – Processos de negócio da empresa Google O aspecto importante de se observar é que o Processo de Negócio como um elemento importante e estratégico da empresa é discutido em múltiplos contextos que vão além da gestão de operações. Ele é discutido, definido e atualizado pela alta cúpula da empresa, em conjunto com os diversos stakeholders da empresa, sendo transmitido e utilizado pelas diferentes áreas da organização, entre elas, a área responsável pela gestão de operações. Características do Processo de Negócio De forma mais detalhada e explicativa, descrevemos, a seguir, diversas características associadas ao processo de negócio apontadas por diversos pesquisadores (Cao et al., 2013; Shafagatova & Van Looy, 2021; Smith et al., 2002): Centrado no cliente Projetado tendo em vista a criação de valor para os clientes de forma única e diferenciada, atendendo às necessidades explícitas e/ou implícitas destes; Intangível e abstrato Um processo de negócio volta-se para o que deve ser feito (concepção lógica) e não para o como deve ser feito (concepção física). O como pode ser obtido a partir da análise de outros elementos menores, que serão estruturados a partir da compreensão e visão do processo de negócio. Por elementos menores, entende-se: processos, subprocessos e demais decomposições até se chegar no nível de atividade, todas ordenadas no tempo e no espaço a partir da concepção inicial do processo de negócio; Extenso e complexo Envolve grande diversidade e quantidade de fluxos de informações entre empresas. Alguns exemplos destes fluxos seriam os relacionados a pagamentos, autorizações, movimentações de materiais, solicitações, notificações de recebimento, acates de pedidos e de comprometimento entre as empresas; Distribuído e segmentado São executados dentro dos limites de uma ou mais empresas, por meio de diversas aplicações ou sistemas de informações, operando em diferentes plataformas tecnológicas e com diferentes configurações e especificações; Duradouro A execução de uma das suas ocorrências (instância do processo) pode levar anos ou mesmo décadas para ser completada, por exemplo, o financiamento da casa própria; Difícil compreensão Em função da diversidade de atores e atividades, complexidade e dinamismo do ambiente em que operam (mudam constantemente), bem como de sua natureza abstrata, os processos de negócio requerem muito expertise de modelagem e documentação (sempre atualizado); Raro e restrito Assim como os macro-objetivos de uma organização são limitados a alguns poucos, os processos de negócios também são alguns poucos dentro de uma organização. Caso os processos de negócios compreendidos sejam numerosos (mais de algumas poucas unidades) provavelmente deve estar havendo algum problema conceitual, considerando-se “processo” como “processo de negócio”; Relevante e estratégico para a organização Volta-se ao atendimento de um objetivo da organização diretamente vinculado aos interesses dos clientes, ou seja, interferem diretamente no desempenho da organização como um todo; Dinâmico e não rotineiro Requerem muita agilidade para responder às diversas demandas do ambiente de negócio, como novas preferências dos clientes ou novo posicionamento da concorrência, mudanças políticas e legais, entre outros eventos que ocorrem em sistemas abertos. Destaca-se, ainda, a flexibilidade para atender e acomodar aspectos imprevistos e aleatórios (ad-hoc) de instâncias específicas; Automatizado Na maior extensão das atividades do processo de negócio, há muitos softwares de diferentes porte e natureza sendo utilizados para execução e controle das atividades. Lembrando que essas atividades do processo de negócio, geralmente, são executadas por muitas entidades internas e externas à empresa, como fornecedores, clientes, órgãos públicos e outros atores; Dependente de pessoas O julgamento e a inteligência de pessoas são constantemente requeridos, devido à necessidade de se tratar as exceções, bem como nem todas as atividades serem estruturadas o suficiente para uma automação completa. Decomposição do Processo de Negócio em Processos, Subprocessos e Atividades Para fins de exemplificação dos conceitos de processo e subprocesso,apresentamos a decomposição do processo de negócio Gestão de Relacionamento com Cliente (n) ou CRM (acrônimo derivado do nome em inglês, Customer Relationship Management), em termos de processos (n-1), bem como de subprocessos (n-2) para um dos seus processos. Srivastava et al. (1999) decompuseram o CRM em dez processos: 1. selecionar e qualificar os fornecedores desejados; 2. estabelecer e gerir a logística interna; 3. desenhar e gerir a logística interna; 4. estabelecer e gerir a logística externa; 5. desenhar o fluxo de trabalho na montagem do produto/solução; 6. execução de fabricação em lote; 7. adquirir, instalar e manter tecnologia de processo; 8. processamento e atendimento de pedidos; 9. gestão de múltiplos canais e 10. gerenciamento de serviços ao cliente, como instalação e manutenção, para permitir o uso do produto. Como exemplo de subprocesso, apresentaram a decomposição do processo “viii) processamento e atendimento de pedidos” em cinco subprocessos: “tomada de pedido”, “transmissão de pedido interno”, “conclusão de pedido”, “envio de pedido” e “conclusão de pagamento” (Srivastava et al., 1999, p. 169). Um processo deve ser decomposto tanto horizontalmente, em diferentes subprocessos, quanto verticalmente em diversos níveis conforme a sua essência operacional e gerencial. Assim, a resposta à tradicional pergunta, “Até que ponto devemos decompor um processo?”, está no contexto do próprio negócio, ou seja, até o ponto em que seja satisfatório para atender às demandas gerenciais e operacionais do processo. A ideia de dividir o trabalho em atividades sequenciais surgiu em meados do século XVIII, no início da Revolução Industrial, quando a mecanização exigiu a divisão do trabalho. Exemplo clássico está no célebre Inquérito sobre a natureza A compreensão vem do processo de análise e analisar significa decompor em partes. Assim, se queremos ter compreensão de como realizar um processo, como acompanhar e gerenciar um processo, faz sentido termos visões de partes ou de fases do processo, decompondo-o em subprocessos. e as causas da riqueza das nações, sólido livro em dois volumes, com mais de mil páginas, publicado em 1776, por Adam Smith. Este texto apresenta uma das primeiras descrições de processo, mais especificamente as dezoito atividades para fabricação de alfinetes (Smith, 1985, p. 6): Um homem puxa o fio; outro o endireita; um terceiro corta; um quarto aponta; um quinto [...] e o importante negócio de fazer um alfinete é, dessa maneira, dividido em dezoito operações distintas, as quais, em algumas fábricas, são todas realizadas por mãos distintas, embora em outras o mesmo homem, às vezes, executa duas ou três delas. O menor nível de decomposição é a “atividade”, que corresponde a uma unidade lógica de trabalho executado dentro de um processo. Essa atividade pode ser totalmente manual ou automatizada e utilizar recursos tecnológicos, como por meio do emprego de softwares. Como sinônimo de atividade também são empregados os termos “processo elementar” ou “tarefa” (De Sordi, 2018). Assim, a atividade é a menor unidade de atenção operacional e gerencial da empresa, que demanda ações de: treinamento, mensuração, especificação de recursos necessários, entre outros cuidados. Como exemplo, observe a Figura 2.3, que descreve cinco atividades do subsubprocesso “preparar ovos”, uma parte para a realização do processo de negócio servir “café da manhã”. Observe que não faz sentido para essa operação continuar decompondo “aquecer panela” (heat pan) em: “acender o fogão” + “levar panela sobre o fogo” + “verificar temperatura da panela”. Da mesma forma, não faz sentido decompor as atividades “despejar mistura” (pour mixture) ou “mexer a mistura” (stir mixture) ou ... A questão aqui é bom senso do analista que está configurando e modelando o processo, considerando o nível de complexidade da atividade em relação aos níveis de maturidade profissional e intelectual dos seus executores. Figura 2.3 – Atividades para execução do subsubprocesso “preparar ovos” Processos de Suporte Uma outra dimensão para análise dos processos da empresa ocorre entre a sua serventia direta ou indireta aos clientes. Os processos de negócio, conforme sua definição, são percebidos pelos clientes por agregarem valor, utilidade a eles. Os processos indiretos ou não finalísticos, aqueles não percebidos pelos clientes, são denominados de processos de suporte. Há um diagrama bastante difundido, o de cadeia de valor, que evidencia, com muita clareza, esses dois tipos de processos. Conforme modelo (template) proposto por Porter (1999) para elaboração da cadeia de valor, ver Figura 2.4, o diagrama se divide em dois grandes grupos, os processos primários e os processos de suporte. Observe que a Figura 2.1 apresenta uma variação da cadeia de valor para a empresa de Transporte Público de Viena, sendo os processos de suporte apresentados na parte inferior da figura, composto por processos, como os de gestão de pessoal, das finanças, de materiais, entre outros. Figura 2.4 – Estrutura para elaboração da cadeia de valor de uma organização Fonte: Porter (1999, p. 35). Até a próxima aula!