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Teologia Sistemática
II
(Cristologia e Pneumatologia)
Dr. Marcos Orison Nunes de Almeida
Outubro / 2016
Professor/Autor: Dr. Marcos Orison Nunes de Almeida
Coordenador Geral de Ensino a Distância: Gedeon J. Lidório Jr
Coordenador de Graduação a Distância: Edrei Daniel Vieira
Projeto Gráfico/Capa: Mauro S. R. Teixeira
Revisão: Éder Wilton Gustavo Felix Calado
Impressão: 
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por:
Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano - Londrina - PR
86055-670 Tel.: (43) 3371.0200
03
SUMÁRIO
UNIDADE 1 – CRIAÇÃO GERAL..............................................................................05
1- O sacerdote como ungido
2- O rei como ungido
3- O profeta como ungido
UNIDADE 2 – CRISTOLOGIA ALTA E BAIXA.......................................................13
1- Cristologia alta
2- Cristologia Baixa 
UNIDADE 3 – CRISTO NO ANTIGO TESTAMENTO I.........................................23
1- Cristo nos Patriarcas
2- Cristo na tradição mosaica
UNIDADE 4 – CRISTO NO ANTIGO TESTAMENTO II.......................................33
1- Cristo na tradição davídica
2- Cristo na tradição profética e apocalípitica
UNIDADE 5 – CRISTO NO NOVO TESTAMENTO...............................................43
1- Cristo nos evangelhos
2- Cristo na igreja primitiva
3- Cristo na compreensão apostólica
UNIDADE 6 – CRISTO: PROFETA E SACERDOTE...............................................53
1- O ofício de profeta
2- O ofício de sacerdote
UNIDADE 7 – CRISTO: REI E MESTRE....................................................................61
1- O ofício de rei
2- O ofício de mestre
UNIDADE 8 – CRISTO: CAMINHO, VERDADE E VIDA.....................................69
1- O Evangelho de João e a cultura grega
2- O Logos nas Escrituras
3- Verdade
4- Caminho
5- Vida
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia04
UNIDADE 09 – O ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO TESTAMENTO...............83
1- Espírito: vento de Deus
2- Espírito: criação e fonte da vida
3- Espírito: intervenção histórica e capacitação
4- Espírito: motivação, inclinação e sentimento
UNIDADE 10 – O ESPÍRITO SANTO NO NOVO TESTAMENTO...................95
1- Espírito: Nova Criação e fonte de nova vida
2- Espírito: Representação de pessoalidade
3- Espírito: Propulsor da Missão
UNIDADE 11 – O ESPÍRITO SANTO E A TRINDADE.....................................103
1- A elaboração da Trindade
2- O Espírito Santo e o Pai
3- O Espírito Santo e o Filho
4- O Espírito Santo por si mesmo
UNIDADE 12 – O ESPÍRITO SANTO NO LIVRO DOS ATOS DOS 
APÓSTULOS I................................................................................................113
1- A descida do Espírito na festa Pentecostes
2- Nova consciência sobre o Espírito
UNIDADE 13 – O ESPÍRITO SANTO NO LIVRO DOS ATOS DOS 
APÓSTULOS II..............................................................................................121
1- O Espírito como propulsor da missão
2- O batismo com o Espírito Santo
UNIDADE 14 – O ESPÍRITO SANTO E A PESSOA I...................................129
1- A santificação no Antigo Testamento
2- A santificação no Novo Testamento
UNIDADE 15 – O ESPÍRITO SANTO E A PESSOA II.................................141
1- Espiritualidade e carnalidade
2- Desenvolvimento da espiritualidade
UNIDADE 16 – O ESPÍRITO SANTO, A IGREJA E O MUNDO....................151
1- A santificação, a coletividade e os dons
2- O Espírito nos confins da terra
3- O Espírito e a natureza
05
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 1
Introdução
A disciplina de Teologia Sistemática 2 segue o estudo 
das principais doutrinas cristãs, subdividas em pares no 
currículo da FTSA, compreendendo as áreas clássicas 
do eixo teológico. Especificamente, serão abordados nas 
duas seções da disciplina os temas da Cristologia e da 
Pneumatologia. Iniciando a primeira seção, a Cristologia 
estuda a pessoa de Jesus Cristo, seus ofícios, ministério e 
significado para a fé. O termo Cristo é uma adjetivação 
grega associada à pessoa de Jesus oriunda de um 
conceito da fé hebraica, registrada no Antigo Testamento, 
representada pela expressão Messias. Ambas as expressões 
possuem a mesma tradução, mas foi a expressão grega que 
prevaleceu designando a própria identidade religiosa que se 
fundamentou na pessoa de Jesus, chamada de cristianismo. 
Esta unidade procurará investigar a origem e significado da 
expressão Cristo ou Messias.
Objetivos
1) Estudar o significado da terminologia Cristo ou Messias; 
2) Estabelecer fundamento para o estudo da Cristologia.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia06
Introdução
Cristo não era o sobrenome de Jesus, como alguns podem vir a 
pensar. Estamos falando de uma época em que não havia o registro 
de sobrenomes. As referências dos nomes vinham da localização, 
profissão, filiação ou outra característica marcante da pessoa. Sendo 
Jesus (iesous) a forma helenizada do nome hebraico Josué (yehoshua), 
podemos dizer que era um nome comum. Em seu ministério terreno 
ele era identificado como Jesus de Nazaré ou Jesus, o nazareno, 
referindo-se à cidade onde fora criado. Outra maneira de identificá-
lo foi como Jesus, filho de José, o carpinteiro. Mais tarde também foi 
identificado como Jesus, o mestre (rabi).
A associação da adjetivação Cristo à pessoa de Jesus só veio 
a ser firmada após a sua morte e ressurreição pelos seus discípulos 
e igreja. Por trás desta associação está, de fato, uma compreensão 
teológica e afirmação de fé. O que estava em jogo era a identificação 
da pessoa de Jesus com o Messias de Israel, aquele que havia sido 
prometido nas Escrituras do Antigo Testamento, aquele em torno de 
quem havia se criado uma expectativa e esperança. Podemos perceber, 
principalmente nos relatos dos evangelhos, que essa associação entre 
Jesus de Nazaré e o Messias de Israel, que demandava a interpretação 
da esperança messiânica construída nas Escrituras, não se deu sem 
conflitos e certa confusão.
Assim sendo, nossa primeira tarefa será a de investigar a origem e 
construção da figura do Messias desenvolvida pela teologia do Antigo 
Testamento para depois entendermos o Cristo, que veio a ser expresso 
na vida e ministério de Jesus e, posteriormente, elaborado pela igreja, 
dando origem ao cristianismo.
1- O sacerdote como ungido
A Cristologia poderia ser chamada “messianologia” ou 
“messiologia”, pois, o título Cristo (Χριστός – christos) é a tradução 
grega para Messias (x:yvIm” – mashiah) que significa “ungido”. A ideia 
de ungir alguém era uma prática comum nas religiões do Antigo 
Oriente. O ritual consistia em derramar óleo aromático ou azeite sobre 
a cabeça de uma pessoa. Esse ato ocorria em uma cerimônia pública, 
à vista de todos, com a intenção de comunicar que se atribuía àquela 
07
pessoa uma posição ou função de destaque perante as outras. Dadas às 
características culturais do Antigo Oriente, o ato da unção carregava 
um grande peso religioso, ou seja, atrelava-se com aquele ritual uma 
espécie de função ou aval divino à pessoa, em suma, ocorria uma 
separação, consagração, sacralização ou santificação dela.
Seguindo a ordem dos livros bíblicos, ou seja, a sequência como 
estão apresentados no compêndio das Escrituras, a primeira figura que 
surge como sendo ungida é a do sacerdote. Na opinião de Roland de 
Vaux, no entanto, essa era uma prerrogativa dos reis. Para ele, são os 
reis que inauguram esse ato ritual dada a sua importância na liderança 
política da nação. Apenas em um tempo posterior na história de Israel, 
com a ausência da figura do rei, após o exílio babilônico, é que acabou-
se transferindo para o sacerdote esse ritual, uma vez que ele passou a 
representar a liderança religiosa e, de certa forma, política, do povo:
Segundo o ritual pós-exílico, o sumo sacerdote era ungido, 
Ex 29:7; Lv 8:12 etc., e a redação final do Pentateuco estendeu 
a unção a todos os sacerdotes, Ex 40:12-15 etc. Mas é bem 
provável que esse rito não existisse antes do Exílio e que ele seja 
a transferênciapara se referir a 
si mesmo:
Em minha visão à noite, vi alguém semelhante a um filho de 
homem, vindo com as nuvens dos céus. Ele se aproximou do 
ancião e foi conduzido à sua presença. Ele recebeu autoridade, 
glória e o reino; todos os povos, nações e homens de todas as 
línguas o adoraram. Seu domínio é um domínio eterno que não 
acabará, e seu reino jamais será destruído (Daniel 7:13-14).
Vale ressaltar que o uso da expressão “Filho do Homem” por 
Jesus parecia ser proposital para causar dubiedade em seus ouvintes, 
uma vez que, ao mesmo tempo em que carregava a informação do 
Messias de Daniel, também afirmava a sua humanidade, por ser ele o 
filho de José e Maria. Note que o uso dessa expressão também servia 
para caracterizar, de maneira geral, a condição humana de uma pessoa, 
como usada no texto de Ezequiel 43:7: “E disse-me: Filho do homem, 
este é o lugar do meu trono, e o lugar das plantas dos meus pés, onde 
habitarei no meio dos filhos de Israel para sempre [...]”.
Assim, ao identificar-se como Filho do Homem, Jesus, ao mesmo 
tempo, associava-se ao Messias, mas não permitia qualquer acusação 
por parte dos chefes da religião judaica, fariseus, escribas e saduceus, 
que constantemente tentavam encontrar um motivo para condená-lo.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia40
Conclusão
Vimos nesta unidade quais os conteúdos presentes nas 
tradições davídica e profética, além da contribuição da apocalíptica, 
que colaboraram na formação da teologia messiânica do Antigo 
Testamento. Obviamente há outros textos distribuídos nos diversos 
livros do Antigo Testamento que indicam caminhos semelhantes ou 
complementares. Entretanto, as ideias centrais tendem a ser as até aqui 
apresentadas.
Olhando, então, para toda a construção da figura do Messias, 
assim como da esperança que pairava em torno dele, podemos 
observar que não houve uma estruturação clara desse personagem 
no que se refere aos textos bíblicos e suas respectivas tradições. A 
impressão que temos, principalmente ao concentramos nossa atenção 
nos desdobramentos dessa teologia no Novo Testamento, é que a 
ideia do Messias se desenvolveu no período intertestamentário, sem 
qualquer registro bíblico, como uma teologia popular que produziu 
novos contornos. O ideal de uma espécie de rei, que viria retomar o 
seu lugar na condução da nação de Israel, levando-a a uma situação de 
autonomia e prosperidade, certamente, foi o elemento mais presente 
nessa expectativa. Nisso enxergamos também a associação de um 
componente soteriológico, ou salvífico, ao papel do Messias, ainda 
que mais próximo à história de Moisés e da libertação do Egito. Uma 
das ações principais do Messias seria salvar o povo das dominações 
das nações estrangeiras, como vemos os indícios no livro de Daniel. 
A partir dessa ótica, cada vez mais a imagem do Ungido foi se 
consolidando como um ser especial, mítico, capacitado por Deus para 
ações grandiosas.
Não havia, contudo, uma compreensão explícita sobre a salvação 
de um estado de corrupção moral e de desobediência a Deus e sua 
Lei como sendo intermediada pelo Messias. Esse componente até 
aparece em alguns profetas, mostrando como o Servo perfeito, não 
imediatamente associado ao Ungido, seria aquele que obedeceria 
radicalmente aos mandamentos de Deus e obteria, portanto, a sua 
41
aprovação. O aspecto salvífico, vicário e substitutivo do Messias, 
relacionado ao pecado, não constitui um elemento teológico até que 
sobre ele, Jesus, convergisse todo o peso e responsabilidade da história 
de revelação de Deus para a humanidade, havendo a necessidade de 
uma interpretação e construção posterior. Isso é o que veremos na 
teologia messiânica do Novo Testamento.
Referências
DOUGLAS, J. D. (ed.). Novo dicionário da bíblia. 2 ed. São Paulo: Vida 
Nova, 1995.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia42
Anotações
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Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 5
Cristo no Novo Testamento
Introdução
A esperança messiânica, construída teologicamente a 
partir da experiência histórica do povo de Israel, registrada 
nos textos do Antigo Testamento, encontra a sua realização 
na pessoa de Jesus de Nazaré. Esta unidade discute o 
encontro da esperança messiânica judaica com a realidade 
de vida e ministério de Jesus, tendo como base os relatos do 
Novo Testamento.
Objetivos
1) Investigar entendimento bíblico do Messias no 
Novo Testamento;
2) Observar a concretização da esperança messiânica 
na pessoa de Jesus e seus desdobramentos para a igreja.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia44
O quanto Jesus se aproxima do Messias revelado nas Escrituras 
e esperado pelo povo de Israel? As primeiras impressões escritas 
foram produzidas pelo entendimento do apóstolo Paulo, uma vez que 
suas cartas e epístolas são de autoria mais antiga que os evangelhos. 
A associação que Paulo faz entre Jesus e o Messias judaico, embora 
carregue o conteúdo da esperança construída no Antigo Testamento, 
parece construir uma nova ideia para a comunidade helênica que 
formava a igreja primitiva e não possuía a mesma esperança. Paulo usa 
a expressão grega christos, que tem o mesmo significado da expressão 
meshiah, ou seja, ungido. Assim, ele passa a incorporar ao nome de 
Jesus o título de Cristo (christos).
Como comentado, embora tendo sido elaborados em época 
tardia, alguns anos após a morte de Jesus, foram os evangelhos que 
procuraram abordar o cumprimento da esperança messiânica judaica 
na sua pessoa. Tomamos por hipótese que eles registraram com 
boa fidelidade esse momento crítico para a religiosidade judaica 
e consequente formação da fé cristã. Invertendo, então, a ordem 
cronológica dos textos, iniciaremos a observação do desenvolvimento 
da Cristologia começando pelos evangelhos, seguindo para a vivência 
da igreja primitiva registrada no livro de Atos e, finalmente, encerrando 
com os textos apostólicos.
1- Cristo nos evangelhos
Um fato bastante importante para a compreensão da 
complexidade que o tema do Messias impunha à teologia judaica, 
é aquilo que o apóstolo João afirma em seu evangelho, dizendo que 
Jesus não foi reconhecido como o enviado de Deus pelos seus irmãos 
judeus: “Veio para o queera seu, mas os seus não o receberam” (João 
1:11). Essa constatação acabou se tornando a tonalidade da relação 
de Jesus com o seu povo, principalmente com os líderes religiosos. 
Jesus aparece pretensamente cumprindo a esperança messiânica, mas 
que é entendida apenas parcialmente, mesmo por seus discípulos 
durante o seu ministério. Após a sua morte e ressurreição, ocorre 
um entendimento mais cabal de sua messianidade. De fato, é a 
ressurreição que insere o principal elemento nessa compreensão a 
45
posteriori. A encarnação e a ressurreição podem ser considerados, em 
certo sentido, temas irmãos, pois, ambos tratam da perspectiva especial 
e divina de Jesus como o Messias. Por isso, houve a intencionalidade 
dos evangelistas em esclarecer, principalmente na citação de textos do 
Antigo Testamento, como Jesus era de fato o Messias de Israel. Os autores 
chegaram ao ponto de ampliar a interpretação de vários textos, até então 
não considerados como messiânicos, na construção dessa teologia.
Alguns autores serão bem enfáticos na questão de tentar 
esclarecer a esperança messiânica que se cumpre na pessoa de Jesus ao 
fazerem os seus registros, sendo Mateus o que mais se dedica a isso. A 
seguir apresento alguns textos que demonstram esse fato:
•	Mateus 1:1 – “Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de 
Davi, filho de Abraão”;
•	Mateus 1:22 – “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o 
que o Senhor dissera pelo profeta [Isaías]”;
•	Mateus 2:15, 17, 23 – “[...] onde ficou até a morte de Herodes. 
E assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta 
[Oséias]: ‘Do Egito chamei o meu filho’ [...] Então se cumpriu o 
que fora dito pelo profeta Jeremias [...]e foi viver numa cidade 
chamada Nazaré. Assim cumpriu-se o que fora dito pelos 
profetas [Isaías]: “Ele será chamado Nazareno”;
•	Lucas 3:30-31 – “filho de Simeão, filho de Judá, filho de José, 
filho de Jonã, filho de Eliaquim, 31 filho de Meleá, filho de 
Mená, filho de Matatá, filho de Natã, filho de Davi”;
•	Lucas 4:17-21 – “Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. 
Abriu-o e encontrou o lugar onde está escrito: O Espírito do 
Senhor está sobre mim [...] e ele começou a dizer-lhes: “Hoje se 
cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir”;
•	Lucas 24:27 – “E, começando por Moisés e todos os profetas, 
explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as 
Escrituras”;
•	João 1:45 – “Filipe encontrou Natanael e lhe disse: “Achamos 
aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei e a respeito de quem 
os profetas também escreveram: Jesus de Nazaré, filho de José”;
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia46
•	 João 5:39 – “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, 
porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as 
Escrituras que testemunham a meu respeito”;
•	João 12:37-41 – “Mesmo depois que Jesus fez todos aqueles 
sinais milagrosos, não creram nele. 38 Isso aconteceu para se 
cumprir a palavra do profeta Isaías [...] Por esta razão eles não 
podiam crer, porque, como disse Isaías noutro lugar [...] Isaías 
disse isso porque viu a glória de Jesus e falou sobre ele”.
Mesmo se olhássemos para Jesus apenas como um personagem 
histórico teríamos que admitir que as coincidências entre a sua pessoa 
e as profecias bíblicas são grandes. Exemplos delas são: a descendência 
davídica (Isaías 11:1); o nascimento em Belém (Miquéias 5:2); as vestes 
sorteadas (Salmo 22:18); a condenação e morte entre ladrões (Isaías 
53:12); o sofrimento que o desfigura (Isaías 52:14) e o abandono e 
desprezo na morte (Isaías 53:1-5).
Por outro lado, observando o comportamento de Jesus relatado 
nos evangelhos, ainda que pudesse ter consciência de sua messianidade, 
ele optou por ter uma vida comum. Ele foi identificado como um 
simples galileu (Mateus 26:69), ou nazareno (Marcos 10:47), ou 
carpinteiro (Marcos 6:3), ou como apenas o filho de José (João 1:45). 
Ele teve uma família como as pessoas comuns, mas escolheu deixá-la 
em segundo plano em função de sua missão (Mateus 13:55-56). Sua 
primeira projeção social, indo além do cidadão comum, aconteceu 
no papel de mestre (João 1:38; Marcos 10:18), mas aos poucos Jesus 
foi sendo reconhecido como um profeta semelhante aos grandes do 
passado e isso em função dos sinais e maravilhas que fazia, assim 
como pelos seus ensinamentos (Mateus 16:13-14). O reconhecimento 
popular também indica uma identificação com a messianidade no uso 
da expressão Filho de Davi (Marcos 10:47) e Filho de Deus (Mateus 
14:33). Porém, como já mencionado em outra unidade, Jesus assume 
a expressão Filho do Homem para falar de si mesmo (Mateus 8:20).
Em algumas raras ocasiões Jesus se autoidentificou como o 
Messias. Foi assim na experiência com a mulher samaritana (Lucas 4:24-
25) e na chamada confissão de Pedro (Mateus 16:20). Mas como regra, 
ele preferiu manter o fato em oculto. Em outras ocasiões, ele optou por 
deixar a dúvida no ar como se tivesse o objetivo de que o reconhecimento 
47
por parte das pessoas de sua messianidade fosse algo que devesse brotar 
do íntimo, de uma aproximação de fé, tendo efeito apenas na vida 
cotidiana sem que isso tomasse maiores proporções (Mateus 11:1-5). Já 
ao término de seu ministério, ele finalmente se autoidentificou como o 
Messias, o que o levou a receber a ira dos religiosos e a articulação de um 
plano para tirar-lhe a vida (Marcos 14:60-65).
Em nenhum momento, no entanto, Jesus assumiu explicitamente 
a expectativa mais importante da religiosidade judaica sobre o Messias, 
associada à tomada de poder ou domínio político frente à dominação 
romana. Pelo contrário, Jesus foi enfático ao estabelecer os princípios 
do seu reino como algo que extrapolava tanto aquela expectativa 
quanto às outras formas humanas de estruturação sócio-políticas 
(Lucas 17:20-21; João 18:36).
2- Cristo na igreja primitiva
O livro de Atos é tido como uma continuação do livro de Lucas, ou seja, 
ele segue um entendimento sequencial daquilo que os evangelhos tratam. 
Ainda assim, considerando que a intenção do autor é narrar os primeiros 
anos da expansão missionária promovida pelos apóstolos na formação da 
igreja, podemos ter uma noção de como se deu o desenvolvimento da 
compreensão da messianidade de Jesus nesse período.
É fundamental notar que o evento que conecta o fim do evangelho 
com o início da narrativa da missão da igreja é a ressurreição de Cristo 
e seus desdobramentos. Como já mencionado, a ressurreição de 
Jesus confirmou a sua messianidade para os apóstolos e discípulos, 
dirimindo qualquer dúvida que ainda pairasse sobre esse fato. Dado, 
porém, o surgimento de um novo grupo ou de uma nova concepção 
de povo, formado pelos judeus-cristãos, foi na igreja primitiva, judaica 
e depois gentílica, que a construção da identificação de Jesus como o 
Messias veio a ser mais significativa.
Pela narrativa de Lucas dos episódios da igreja primitiva no livro 
de Atos, vemos um desenvolvimento do pensamento e compreensão 
da messianidade de Jesus e todas as implicações que isso trouxe 
para a fé nascente. Os vários discursos presentes no livro mostram a 
argumentação lógica, histórica e teológica, que demonstram ser Jesus 
o Messias judaico prometido.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia48
Os dois primeiros discursos registrados são feitos pelo apóstolo 
Pedro. O primeiro ocorre durante a festa de Pentecostes, por ocasião 
da descida do Espírito Santo, em que ele argumenta com os judeus ali 
presentes que os acontecimentos que haviam ocorrido cinquenta dias 
antes, naquela mesma cidade de Jerusalém, eram a confirmação de 
que Jesus era o Messias:
Israelitas, ouçam estas palavras: Jesus de Nazaré foi aprovado 
por Deus diante de vocês por meio de milagres, maravilhas 
e sinais que Deus fez entre vocês por intermédio dele, como 
vocês mesmos sabem. Este homem foi entregue por propósito 
determinado e pré-conhecimento de Deus; e vocês, com a ajuda 
de homens perversos, o mataram, pregando-o na cruz. Mas 
Deus o ressuscitou dos mortos, rompendoos laços da morte, 
porque era impossível que a morte o retivesse [...] Portanto, 
que todo o Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês 
crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo (Atos 2:22-36).
Novamente, agora perante o Sinédrio (Atos 4:1-27), Pedro 
oferece a mesma argumentação afirmando, como conclusão, que Jesus 
era o Messias, ainda que rejeitado pela liderança do povo:
Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: “Autoridades 
e líderes do povo! Visto que hoje somos chamados para prestar 
contas de um ato de bondade em favor de um aleijado, sendo 
interrogados acerca de como ele foi curado, saibam os senhores 
e todo o povo de Israel que por meio do nome de Jesus Cristo, o 
Nazareno, a quem os senhores crucificaram, mas a quem Deus 
ressuscitou dos mortos, este homem está aí curado diante dos 
senhores. Este Jesus é a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, 
e que se tornou a pedra angular. Não há salvação em nenhum 
outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos 
homens pelo qual devamos ser salvos (Atos 4:8-12).
Algum tempo depois, também perante o Sinédrio (Atos 7), 
Estevão, o primeiro mártir da igreja, discursa de maneira ainda mais 
eloquente, fazendo uma apresentação histórica ampla da teologia 
judaica, demonstrando uma argumentação organizada da interpretação 
do evento Cristo, à luz da compreensão do Antigo Testamento, para 
finalmente identificar Jesus como o Messias de Israel:
49
Qual dos profetas os seus antepassados não perseguiram? Eles 
mataram aqueles que prediziam a vinda do Justo, de quem 
agora vocês se tornaram traidores e assassinos — vocês, 
que receberam a Lei por intermédio de anjos, mas não lhe 
obedeceram. Ouvindo isso, ficaram furiosos e rangeram 
os dentes contra ele. Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, 
levantou os olhos para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus em 
pé, à direita de Deus, e disse: “Vejo os céus abertos e o Filho do 
homem em pé, à direita de Deus” (Atos 7:52-56).
Saindo um pouco do ambiente judaico, Lucas relata que Filipe 
pregava na cidade de Samaria afirmando que Jesus era o Messias: “E, 
descendo Filipe à cidade de Samaria lhes pregava a Cristo” (Atos 8:5). 
Em outra ocasião, em seu proposital encontro com um eunuco etíope, 
na região de Gaza, ele explica a passagem do livro de Isaías como sendo o 
cumprimento da promessa messiânica na pessoa de Jesus (Atos 8:26-40).
A partir daí, o restante do livro de Atos irá se concentrar na 
vida e ministério do apóstolo Paulo. Pela formação farisaica rígida 
que teve, é ele quem trará a maior contribuição para a igreja gentílica, 
porém, ainda fundamentada em sua compreensão da teologia judaica. 
Toda essa experiência encontra-se baseada na visão que ele teve de 
Jesus ressurreto, fazendo com que tivesse que reinterpretar tudo o 
que conhecia a partir dessa nova realidade, entendendo que ele era o 
Messias, o Filho de Deus (Atos 9:20). Os seus discursos e pregações 
passaram a ter a seguinte mensagem como centro: Jesus de Nazaré 
é o Filho de Deus, o Messias prometido, que morreu e ressuscitou e, 
assim, oferece o perdão dos pecados e a salvação a todos os que creem 
(Atos 13:16-41; 17:16-31; 22:1-21; 26:1-23).
3- Cristo na compreensão apostólica
A introdução de quase todas as cartas e epístolas do Novo 
Testamento traz a expressão Senhor Jesus Cristo. Chama à atenção a 
associação direta do nome Jesus ao título Cristo, ou Messias, ao ponto 
de se confundir com o próprio nome de Jesus. É também a partir dessa 
associação e expressão que aqueles que criam nessa mensagem foram 
chamados de cristãos (Atos 11:26).
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia50
Também muito importante foi o uso do título Senhor aplicado 
à pessoa de Jesus. Esse título, ou referência, era o mesmo usado 
para Deus no Antigo Testamento, quando identificado como Javé. A 
tradução das Escrituras hebraicas para o grego, especificamente na 
Septuaginta, que foi a versão usada na citação dos textos do Antigo 
Testamento pelos autores do Novo, traduziu Iahweh como kyrios (e.g., 
Êxodo 5:2). Imaginamos que o uso da expressão kyrios pelos autores 
do Novo Testamento tenha sido intencional para fazer essa associação 
entre Javé e seu Ungido, atribuindo-lhe tratamento e consideração 
igual. Por outro, alguns enxergam uma segunda aplicação no uso desse 
título para fazer contraposição ao imperador romano, que também era 
assim tratado, em sua condição de governante supremo, recebendo 
veneração por características pretensamente divinas ao ponto de 
prestarem culto público. Certamente essa não foi a priorização do 
uso da expressão, mas pode ser levada em conta ao considerarmos 
situações e contextos históricos posteriores de embate ideológico e 
religioso, principalmente na igreja gentílica.
Embora o maior desenvolvimento da interpretação de Jesus 
como Messias seja encontrado nos evangelhos e na vivência da 
igreja primitiva, o ápice dessa compreensão foi alcançado no livro de 
Apocalipse. É nesse livro, atribuído ao apóstolo João, que encontramos 
Jesus, de maneira mais clara, em sua condição divina. O livro que 
procura apresentar uma visão simbólica das regiões celestiais, apresenta 
Jesus como o Messias escatológico glorificado. A primeira imagem 
fornecida é a de um ser místico com características além do humano 
(Apocalipse 1:12-15). A segunda é a de sua origem histórica e direta 
relação com o Messias de Israel, associada a um Cordeiro, também 
místico e estranho (Apocalipse 5:5-6). O simbolismo do Cordeiro é 
o que permeia a maior parte da visão até que ele é, explicitamente, 
chamado de Ungido, ou Cristo: “E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, 
e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram 
a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” 
(Apocalipse 11:15). O Cristo celeste que domina sobre toda a criação é, 
portanto, o último estágio da construção dessa figura, restando apenas 
a expectativa de seu retorno para julgar todas as coisas e estabelecer 
uma nova criação. 
51
Conclusão
Embora seja no tempo do Novo Testamento que Jesus apareça 
como o Messias prometido, percebemos que essa compreensão não 
foi algo que aconteceu imediatamente. Se por um lado, a maioria dos 
judeus não viu em Jesus a realização do cumprimento da esperança 
messiânica, por outro, mesmo os seus discípulos tiveram que 
paulatinamente ir assimilando essa perspectiva, assim como tiveram 
a tarefa de construir uma teologia ainda mais abrangente que aquela 
até então apresentada pelo Antigo Testamento. Os diversos textos do 
Novo Testamento iniciam a sua compreensão do Messias fazendo uma 
associação de Jesus com os textos do Antigo Testamento, mas incluem 
novas realidades que trazem a novidade da ressurreição e do governo 
cósmico e escatológico do Cristo.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia52
Anotações
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Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 6
Cristo: Profeta e Sacerdote
Introdução
Após investigarmos como se deu a construção bíblica 
do Messias, tendo como base os textos do Antigo Testamento, 
e o entendimento do cumprimento da esperança messiânica 
na pessoa de Jesus, sob a perspectiva do Novo Testamento, 
nesta unidade e na seguinte, voltamos a nossa atenção para 
os chamados ofícios de Cristo, iniciando pelos ofícios de 
profeta e sacerdote.
Objetivos
1) Estudar os ofícios de profeta e sacerdote como 
constituintes da figura do Cristo;
2) Observar como Jesus cumpre e realiza os ofícios de 
profeta e sacerdote.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia54
Não é tarefa fácil descrever a pessoa de Jesus e nem circunscrever 
em possíveis estereótipos tudo o que ele fez e representou durante a 
sua vida. É até natural que se tente associar suas atividades, possíveis 
funções, ou posições assumidas durante o seu ministério àquilo que 
se conhecia ou se tinha por referência na época. É importante notar 
que Jesus não passou por qualquer processo de formação e iniciação 
para o exercício de uma função religiosa oficial ou ordenada. Mesmo 
pensando em seu batismo que, de certa forma, o associa a João 
Batista e seu ministério profético específico, com a possibilidade de 
identificação com os essênios, Jesus não segue aquele padrão. João 
Batista, que era seu primo, filho de sacerdote (Lucas 1:5, 59, 60), 
mesmo tendo a prerrogativa, não seguiu o ofício sacerdotal. Jesus, 
por outro lado, não pertencia à tribo de Levi e, portanto, não tinha a 
mesma prerrogativa. Ele também não era escriba, fariseu ou saduceu.
Tratando-se de uma sociedade altamente religiosa, era comum 
naquele tempo a convivência com profetas e pregadores itinerantes em 
Israel. No entanto, observando a breve história ministerial de Jesus, 
vemos que ele viveu de forma independente das instituições e do 
centro da religião. Ele não se aproximou do Templo e suas estruturas, 
nem da liderança religiosa, nem de qualquer grupo organizado. O seu 
ministério prático se deu na periferia, na Galiléia dos gentios, como o 
mestre (rabi) de um grupo pequeno de discípulos e na atração de muitas 
pessoas que queriam ouvi-lo ou serem curadas por ele. A princípio, 
ele não incomodou a ninguém, ainda que sempre causasse estranheza 
e questionamentos por parte dos religiosos mais conservadores. 
Contudo, a liderança religiosa de Jerusalém se sentiu ameaçada pela 
popularidade de Jesus, perseguindo-o até conseguir tirá-lo de cena. 
Nos relatos dos últimos acontecimentos da vida de Jesus, podemos 
perceber que nem a liderança religiosa, nem as autoridades, nem o 
povo, foram capazes de identificar Jesus com algum ofício específico.
Nossa investigação, então, sobre os chamados ofícios de Cristo se 
dará nesse ambiente, com base nos relatos bíblicos, tendo em mente a 
construção teológica anterior que informa quem era ou deveria ser o 
Messias na expectativa religiosa e popular.
55
1- O ofício de profeta
O primeiro ofício de Cristo que queremos investigar é o de 
profeta. Lembrando aquilo que foi tratado na primeira unidade, a 
principal ideia da figura do profeta tem sua origem em Moisés. O 
profeta era entendido como um “homem de Deus” que falava em seu 
nome. Ele era também reconhecido por seu caráter distinto, elevado, 
e, em um período mais remoto, por também realizar sinais. No tempo 
de Jesus o profeta profissional ligado à corte já não existia, também 
não temos o reconhecimento religioso dos profetas escritores. O que 
vemos são os profetas autônomos e a sua distinção em relação aos 
falsos profetas, cujas palavras não se cumpriam e que deveriam ser 
identificados e combatidos.
O profeta, primeiramente, seria aquele que falava a Palavra de 
Deus por meio de vaticínios, denúncias, chamadas ao arrependimento 
e conversão, declaração de juízo, prognósticos e conhecimento de 
mistérios. Vejamos alguns relatos que apontam para Jesus atuando 
como um profeta:
•		Mateus 11:20-24 – “Então Jesus começou a denunciar as cidades 
em que havia sido realizada a maioria dos seus milagres, porque 
não se arrependeram. ‘Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! 
Porque se os milagres que foram realizados entre vocês tivessem 
sido realizados em Tiro e Sidom, há muito tempo elas se teriam 
arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. 
Mas eu afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Tiro 
e Sidom do que para vocês. E você, Cafarnaum, será elevada até 
ao céu? Não, você descerá até o Hades! Se os milagres que em 
você foram realizados tivessem sido realizados em Sodoma, ela 
teria permanecido até hoje. Mas eu afirmo que no dia do juízo 
haverá menor rigor para Sodoma do que para você’”;
•			Mateus 13:54-58 – “Chegando à sua cidade, começou a ensinar 
o povo na sinagoga. Todos ficaram admirados e perguntavam: 
‘De onde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes milagrosos? 
Não é este o filho do carpinteiro? O nome de sua mãe não é 
Maria, e não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Não 
estão conosco todas as suas irmãs? De onde, pois, ele obteve 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia56
todas essas coisas?’ E ficavam escandalizados por causa dele. 
Mas Jesus lhes disse: ‘Só em sua própria terra e em sua própria 
casa é que um profeta não tem honra’. E não realizou muitos 
milagres ali, por causa da incredulidade deles”;
•	Mateus 23:13-36 – “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, 
hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! 
Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que 
gostariam de fazê-lo [...] Assim, testemunham contra vocês 
mesmos que são descendentes dos que assassinaram os profetas 
[...]Por isso, eu estou enviando profetas, sábios e mestres. A uns 
vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas sinagogas 
de vocês e perseguirão de cidade em cidade [...] Eu asseguro 
que tudo isso sobrevirá a esta geração”.
Jesus pregava o arrependimento e conversão, e a Palavra de 
Deus com autenticidade profética. Além disso, ele mesmo alertava 
o povo para o distanciamento que deveriam ter dos falsos profetas: 
“Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados 
em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores” (Mateus 7:15). Essa 
era uma prática que encontrava vários paralelos com os profetas de 
Israel, inclusive com o mesmo estilo de textos registrados no Antigo 
Testamento. Podemos, então, dizer que vemos Jesus cumprindo 
esse tipo ofício. O próprio povo o entende dessa maneira sem 
necessariamente o identificar como o Messias:
Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos 
seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem 
é?”. Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, 
Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas”. “E vocês?”, 
perguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou?”. Simão Pedro 
respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Respondeu 
Jesus: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não foi 
revelado a você por carne ou sangue, mas por meu Pai que está 
nos céus (Mateus 16:13-17).
É claro, no texto, o contraste entre a percepção popular e 
a declaração de Pedro, indicada por Jesus como sendo um caso de 
revelação divina. Ao acompanhar o ministério de Jesus, parece que a 
57
associação com o ofício de profeta era mais imediatado que uma possível 
associação com o Messias. Talvez isso se devesse ao tipo de expectativa 
que havia entre o povo, conforme já explicado anteriormente, de um 
líder político e não de um pregador. Entender que Jesus exercia um 
ministério profético não era problema. Contudo, entender que ele era 
o Ungido de Deus requeria um entendimento mais profundo, um tipo 
de conversão, ou como afirma o texto, uma revelação.
2- O ofício de sacerdote
Apesar da confusa construção da figura do sacerdote, que parece 
ter sido abusada por alguns grupos interessados no controle da religião 
de Israel, seu papel possui um destaque especial apontado no próprio 
Novo Testamento. A origem desse ofício religioso remonta à tradição 
mosaica, mas sua grande força surgiu após o exílio babilônico com o 
segundo templo de Jerusalém. Muitos textos bíblicos são originários 
dessa época, procurando construir a imagem e importância do sacerdote 
na religiosidade popular. Essa construção atribui a origem do ofício a 
Arão e seus filhos, como vemos no relato de Êxodo 28:1: “Faze também 
vir para junto de ti Arão, teu irmão, e seus filhos com ele, dentre os filhos 
de Israel, para me oficiarem como sacerdotes, a saber, Arão e seus filhos 
Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar”. Posteriormente, esse ofício, ou um tipo 
de ofício auxiliar, foi estendido a toda a tribo de Levi: 
O Senhor disse a Moisés: “Mande chamar a tribo de Levi e 
apresente-a ao sacerdote Arão para auxiliá-lo. Eles cuidarão das 
obrigações próprias da Tenda do Encontro, fazendo o serviço 
do tabernáculo para Arão e para toda a comunidade. Tomarão 
conta de todos os utensílios da Tenda do Encontro, cumprindo 
as obrigações dos israelitas no serviço do tabernáculo. Dedique 
os levitas a Arão e a seus filhos; eles serão escolhidos entre os 
israelitas para serem inteiramente dedicados a Arão. Encarregue 
Arão e os seus filhos de cuidar do sacerdócio; qualquer pessoa 
não autorizada que se aproximar do santuário terá que ser 
executada” (Números 3:5-10).
A imagem do sacerdote acabou sendo composta a partir da 
noção de perfeição, santidade e pureza, cuja lei específica determinava 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia58
que o estilo de vida para ele deveria ser mais rígido do que para o resto 
do povo. Observamos isso no texto de Levítico, capítulo 21.
A função principal do sacerdote era encarregar-se dos rituais 
religiosos do Templo. No caso, eles funcionavam como intermediários 
entre o povo e Javé. Lembrando que o culto do Templo consistia, 
basicamente, nas ofertas de animais, para serem sacrificados, e ofertas, 
chamadas pacíficas, de alimentos agrícolas em geral. Ficava sob a 
responsabilidade do povo apenas o ato de levar as ofertas até o local de 
culto, entregando-as nas mãos os sacerdotes. Todo o resto, ou seja, os 
rituais que aconteciam dentro do Templo eram feitos pelos sacerdotes.
A teologia construída em torno dos rituais do Templo e da casta 
sacerdotal foi a de indicar uma extrema distância entre Javé e os seres 
humanos e a inacessibilidade a ele. O problema não era devido apenas 
à questão do pecado, porém, a um tipo de impureza que perpassava até 
mesmo as áreas comuns da vida. Ninguém poderia pensar em chegar 
perto das coisas de Javé, por isso apenas algumas pessoas especiais eram 
preparadas para ter esse acesso. Esses eram os sacerdotes e levitas. Na 
verdade, este rigor era ainda maior se levarmos em conta que Javé não 
habitava no Templo como um todo; ele habitava numa porção isolada 
chamada de Santo Lugar ou Santo dos Santos. Ali, naquele pequeno 
espaço, separado por grossas cortinas, onde se guardava a Arca da 
Aliança, nem os sacerdotes podiam entrar. Apenas o sumo-sacerdote, 
o chefe dos sacerdotes, entrava, e apenas uma vez ao ano.
Olhando para esse pano de fundo histórico e teológico e buscando 
pontes com a pessoa e ministério de Jesus, percebemos que a associação 
entre uma coisa e outra não pode se dar de maneira direta. Primeiro, 
porque Jesus não era descendente da tribo de Levi e sim de Judá, ao 
contrário de seu primo João Batista. Depois, porque não vemos qualquer 
relato de Jesus participando ou realizando rituais no Templo.
Assim, a função sacerdotal de Jesus parece ter ficado circunscrita 
a um entendimento posterior baseado em uma argumentação mais 
simbólica no que se refere a esse ofício. Por exemplo, a sua filiação e 
messianidade estabelece-se como uma forma de intermediação entre 
Deus e os seres humanos na ótica de João: “[...] ninguém vem ao Pai, 
a não ser por mim [...] quem me vê, vê o Pai” (João 14:6,9). Ainda, 
quando da ressurreição de Jesus, o relato dos evangelistas é intencional 
59
ao indicar que as cortinas do Santo Lugar do Templo de Jerusalém, 
chamadas de véu, se rasgaram, significando que tanto Jesus havia 
entrado naquele lugar quanto o acesso agora estaria desimpedido 
às pessoas comuns (Mateus 27:51; Marcos 15:38; Lucas 23:45). Em 
outras palavras, todos se tornaram sacerdotes. No entanto, é o autor 
de Hebreus quem irá interpretar em maior profundidade a função 
sacerdotal de Jesus que é exercida muito mais como algo celestial do 
que vista em seu ministério terreno:
•	 Hebreus 4:14-16 – “Portanto, visto que temos um grande 
sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, 
apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois 
não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-
se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, 
passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim, 
aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a 
fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos 
ajude no momento da necessidade”;
•	Hebreus 5:1-6 – “Todo sumo sacerdote é escolhido dentre 
os homens e designado para representá-los em questões 
relacionadas com Deus e apresentar ofertas e sacrifícios pelos 
pecados. Ele é capaz de se compadecer dos que não têm 
conhecimento e se desviam, visto que ele próprio está sujeito 
à fraqueza. Por isso ele precisa oferecer sacrifícios por seus 
próprios pecados, bem como pelos pecados do povo. Ninguém 
toma essa honra para si mesmo, mas deve ser chamado por 
Deus, como de fato o foi Arão. Da mesma forma, Cristo não 
tomou para si a glória de se tornar sumo sacerdote, mas Deus lhe 
disse: ‘Tu és meu Filho; eu hoje te gerei’. E diz noutro lugar: ‘Tu 
és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”;
•	 Hebreus 7:23-28 – “Ora, daqueles sacerdotes tem havido 
muitos, porque a morte os impede de continuar em seu ofício; 
mas, visto que vive para sempre, Jesus tem um sacerdócio 
permanente. Portanto, ele é capaz de salvar definitivamente 
aqueles que, por meio dele, se aproximam de Deus, pois vive 
sempre para interceder por eles. É de um sumo sacerdote 
como esse que precisávamos: santo, inculpável, puro, separado 
dos pecadores, exaltado acima dos céus. Ao contrário dos 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia60
outros sumos sacerdotes, ele não tem necessidade de oferecer 
sacrifícios dia após dia, primeiro por seus próprios pecados e, 
depois, pelos pecados do povo. E ele o fez uma vez por todas 
quando a si mesmo se ofereceu. Pois a Lei constitui sumos 
sacerdotes a homens que têm fraquezas; mas o juramento, que 
veio depois da Lei, constitui o Filho perfeito para sempre”.
Apesar do intrincado processo de argumentação, inovador e 
curioso, adotado pelo autor de Hebreus, tentando construir uma 
associação entre o ofício sacerdotal instituído no Antigo Testamento e 
a representatividade da obra de Cristo, o que vemos é a transferência 
desse ofício para uma esfera mística e celestial em que o Messias 
intercede pelos seres humanos junto ao trono de Deus Pai.
Conclusão
Estudamos nessa unidade dois ofícios associados ao Messias, 
entendendo-os por meio da observação da vida e ministério de Jesus 
bem como da interpretação dada pelos autores do Novo Testamento. 
Esses primeiros ofícios, o de profeta e sacerdote, recebem tratamentos 
distintos dos autores bíblicos, sendo afunção profética observada no 
uso da palavra que Jesus faz em seus discursos e a função sacerdotal 
como algo de interpretação simbólica e observada na esfera celestial 
habitada pelo Cristo ressurreto. 
61
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 7
Cristo: Rei e Mestre
Introdução
Continuando a investigação sobre os ofícios de 
Cristo, tendo visto na unidade anterior os ofícios de profeta 
e sacerdote, nesta unidade a atenção estará voltada para 
os ofícios de rei e mestre. A intenção é compararmos as 
expectativas que compõem a figura do Messias com suas 
possíveis realizações na pessoa de Jesus durante o seu 
ministério.
Objetivos
1) Estudar os ofícios de rei e mestre como constituintes 
da figura do Cristo;
2) Observar como Jesus cumpre e realiza os ofícios de 
rei e mestre.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia62
Com base nas argumentações da unidade anterior podemos 
afirmar que Jesus surpreende os seus contemporâneos no que diz 
respeito ao cumprimento das expectativas messiânicas. Considerando 
aquilo que, talvez, fosse o cerne da teologia e vida religiosa da tradição 
judaica, ou seja, os papéis de profeta e sacerdote, Jesus assume, em 
parte, a vocação profética, porém, distancia-se da função sacerdotal. 
A profecia de Jesus tem a ver com a inauguração de um novo 
tempo caracterizado pela consciência do reino de Deus e, por isso, 
os seus discursos estão marcados por ela. Já o sacerdócio de Jesus é 
desenvolvido na esfera celestial, na intercessão junto ao Pai, isto é sem 
qualquer proximidade com suas ações ministeriais em vida.
Essa atitude é justificada pela ideia, também indicada na unidade 
anterior, de que Jesus exerceu o seu ministério independentemente 
das estruturas e do centro da religião. Em torno dessa mesma atitude 
intencional, Jesus também se distancia das esferas políticas e do centro 
de poder, tanto político quanto religioso. Assim, a realização dos 
ofícios de Cristo, no que se refere às funções de rei e mestre, se dará 
nesse ambiente paradoxal de aproximação e distanciamento de seu 
povo em sua expectativa quanto ao Messias. Ao mesmo tempo em que 
há uma esperança histórica do Messias, latente na fé do povo de Israel, 
sua realização não se dá na mesma proporção e concretude.
1- O ofício de rei
Lembrando os conteúdos estudados sobre o Cristo no Antigo 
Testamento em unidades anteriores, certamente é em torno da figura 
do rei que a expectativa messiânica é mais desenvolvida. É na esperança 
da retomada da autonomia e soberania política que Israel deposita a sua 
confiança no Messias. Para a vida do povo judeu não há separação entre 
religião e política, tudo está debaixo do controle de Javé e por isso a função 
de rei é tão importante para todos. O rei é aquele que exerce um serviço de 
governo outorgado pelo verdadeiro soberano sobre a terra, que é Javé. Em 
tese, o rei é o ungido de Deus, o escolhido e capacitado, para o exercício 
desse importante ofício na vida comum do povo de Israel.
O Messias, na função de rei, compunha a esperança popular, 
mas ao mesmo tempo funcionava como uma ameaça para o rei judeu 
63
vigente. Foi nesse ambiente que Jesus nasceu. O Evangelho de Mateus 
registra a preocupação de Herodes, o rei judeu oficial, que atuava 
como fantoche do imperador romano, que instigado pelo indício da 
possibilidade de realização da promessa messiânica, toma uma atitude 
radical contra o seu próprio povo mandando matar meninos abaixo 
de dois anos de idade que poderiam vir a ser o Messias (Mateus 2:16).
Jesus, em seu ministério, jamais se aproximou dessa possibilidade 
de relação formal ou busca pelo poder político. É emblemática a sua 
atitude e reação em face de uma situação curiosa em que o povo, 
entusiasmado com sua liderança, cuidado, discurso e milagres, tenta 
criar uma ação simbólica de sua proclamação como rei. O evangelista 
João é quem registra o episódio: 
Depois de ver o sinal milagroso que Jesus tinha realizado, o povo 
começou a dizer: ‘Sem dúvida este é o Profeta que devia vir ao 
mundo’. Sabendo Jesus que pretendiam proclamá-lo rei à força, 
retirou-se novamente sozinho para o monte (João 6:14-15).
A clássica cena de Jesus entrando em Jerusalém montado em um 
jumento e sendo ovacionado por um grupo de pessoas, provavelmente 
de maioria humilde e proveniente da Galiléia, é outro elemento 
representativo para toda a relação que se deu entre Jesus, em seu 
ministério, e a expectativa popular do rei messiânico:
Quando ele já estava perto da descida do monte das Oliveiras, 
toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus 
alegremente e em alta voz, por todos os milagres que tinham 
visto. Exclamavam: “Bendito é o rei que vem em nome do 
Senhor! Paz no céu e glória nas alturas! (Lucas 19:37-38).
É claro que a cena é em si curiosa. Vemos um homem montado 
em um jumento sendo aclamado por pessoas simples, ao entrar em 
Jerusalém, a cidade do rei da Davi, onde se encontrava o Templo de 
Javé. Considerando que a cena ocorreu durante o período da Festa 
da Páscoa em que muita gente afluía em caravanas de peregrinação 
para Jerusalém, o fato deve ter sido considerado pelos romanos como 
pitoresco ou jocoso, porque não se importaram com ele, chegando a 
tratá-lo com escárnio (Mateus 27:29). Entretanto, o evento não passou 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia64
despercebido pela liderança religiosa que não admitia ter a figura 
divina do Messias associada ao nazareno Jesus.
Naquele momento histórico em que Jesus viveu os seus últimos 
dias de vida, já estava estabelecido o seu discurso e prática que 
reinterpretava a esperança do reino de Deus. Era óbvia a tentativa de 
associação que o povo fazia entre esse novo discurso e a expectativa de 
restauração do reino político de Israel, como vemos no questionamento 
que os discípulos fazem em Atos 1:6: “Então os que estavam reunidos 
lhe perguntaram: ‘Senhor, é neste tempo que vais restaurar o reino a 
Israel?’”. No entanto, a construção teológica feita por Jesus demonstrava 
um distanciamento da expectativa histórica no sentido de qualidade, 
tempo e espaço. O tema do reino de Deus, ou dos céus, foi um dos mais 
abordados por Jesus, porém, o seu foco era a justiça e a ética própria 
daqueles que compreendem como deve se dar a vivência da fé em Deus, 
que transcende as estruturas sociais, políticas e econômicas humanas.
O reino pregado por Jesus era algo associado à esfera celeste, 
portanto, o soberano era o próprio Deus. Jesus, sendo considerado 
o Messias, ou o Filho de Deus, seria o príncipe herdeiro, possuindo 
uma autoridade delegada. Dessa forma, o cumprimento do seu papel 
messiânico incluía o uso de autoridade, a delegação dessa autoridade 
e o reconhecimento dela pelas pessoas (Mateus 9:6; 10:1; 21:23; Lucas 
10:17-19; 11:20). Sua autoridade também estava na coerência com que 
falava, com que representava as pessoas e se conduzia socialmente 
(Mateus 7:29; 8:8-9; 20:25-28). Mas em nada o reino de Deus pregado e 
vivido ministerialmente por Jesus se aproximava da figura do Messias 
associada a expectativa popular.
O outro aspecto do entendimento do ofício de rei exercido por 
Jesus como o Messias está na interpretação escatológica, que fica ainda 
mais clara à medida que ele se encaminha para a morte. Temos três 
registros dessa perspectiva nos evangelhos: o diálogo de Jesus com a 
mãe de Tiago e João, a conversa com Pilatos e as palavras do ladrão na 
crucificação:
•	 Mateus 20:21 – “’O que você quer?’, perguntou ele. Ela 
respondeu: ‘Declara que no teu Reino estes meus dois filhos se 
assentarão um à tua direita e o outro à tua esquerda’”;
65
•	João 18:33-37 – “Pilatos então voltou para o Pretório, chamou 
Jesus e lhe perguntou: “Você é o rei dos judeus? [...] Disse Jesus: 
‘O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos 
lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas 
agora o meu Reino não é daqui’. ‘Então, você é rei!’, disse Pilatos. 
Jesus respondeu: ‘Tu dizes que sou rei’ [...]”;•	 Lucas 23:42 – “Então ele disse: ‘Jesus, lembra-te de mim 
quando entrares no teu Reino’”.
Independente de como se deu essa construção, é no reino 
escatológico que Jesus se torna efetivamente o rei messiânico. É o 
Cristo cósmico, desenvolvido teologicamente pelo apóstolo Paulo e 
por João em seu Apocalipse, que assume o reino eterno prometido a 
Davi. Jesus, o Cristo, é aquele que se assenta no trono celestial, ao lado 
de Deus, para reinar sobre tudo e todos.
2- O ofício de mestre
O ofício de mestre não é algo que esteja diretamente relacionado 
à construção teológica do Messias. Também não parece fazer parte da 
esperança popular ao longo da história. Talvez, a maior aproximação que 
possamos fazer esteja na compreensão de que seria óbvia a expectativa de 
que o Messias fosse alguém cheio de sabedoria. Vale lembrar a importância 
que essa temática recebe nas Escrituras, sendo a sabedoria até mesmo 
representada como a essência de Deus. Outra possível associação que 
poderíamos fazer, usando um texto messiânico para tal, é ver na expressão 
“Maravilhoso Conselheiro” essa função de mestre, conforme a descrição 
presente no livro de Isaías:
Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo 
está sobre os seus ombros.
E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, 
Pai Eterno, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6). 
Independente de não havermos considerado a função de mestre 
em nosso estudo anterior da construção teológica do Messias, somos 
forçados a admiti-la ao revés. Quer dizer, olhando para a vida e 
ministério de Jesus concluímos que essa parece ter sido a função que 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia66
mais o identificou. O início de sua vida pública se deu na composição 
de um colegiado de discípulos que ele se encarregou de convidar para 
segui-lo como sendo seu mestre ou rabi. A forma de tratamento usada 
por esses discípulos e registrada nos evangelhos indica essa relação 
(Mateus 9:11; Marcos 4:38; Lucas 5:5; João 4:31).
O tipo de ensino característico dos mestres daquele tempo 
incluía leitura, estudo, exposição, questionamento, mas também, em 
igual proporção, a imitação de ações e atitudes. Essa escola ocorria na 
caminhada, ou seja, no desenrolar da vida, e gradativamente o mestre 
transferia autonomia ou delegava funções aos discípulos para que 
praticassem aquilo que haviam aprendido. Nas suas ações, na ausência 
do mestre, o objetivo último deles seria o de se tornarem mestres de 
outros ou, em outras palavras, fazerem discípulos. A chamada Grande 
Comissão carrega um pouco dessa ideia. (Mateus 10:5-15; 14:16; 
17:16; João 20:21).
Além dessa relação mais íntima com os discípulos, Jesus também 
priorizou o ensino quando estava na presença da multidão. Um 
resumo das atividades ministeriais de Jesus é dado por Mateus: “Jesus 
ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, 
pregando as boas-novas do Reino e curando todas as enfermidades e 
doenças” (Mateus 9:35). Embora muitos o procurassem por causa dos 
sinais e prodígios, e em particular para serem curados, esses milagres 
tinham a intenção de atrair as pessoas para perto dele para ouvirem 
a mensagem e o ensino que poderia transformar as suas vidas. Veja a 
argumentação apresentada por João:
Algum tempo depois, Jesus partiu para a outra margem do mar 
da Galileia (ou seja, do mar de Tiberíades), e grande multidão 
continuava a segui-lo, porque vira os sinais milagrosos que 
ele tinha realizado nos doentes [...]Então Jesus tomou os pães, 
deu graças e os repartiu entre os que estavam assentados, 
tanto quanto queriam; e fez o mesmo com os peixes. Depois 
que todos receberam o suficiente para comer, disse aos seus 
discípulos: “Ajuntem os pedaços que sobraram. Que nada seja 
desperdiçado [...] Vendo, pois, os homens o sinal que Jesus 
67
fizera, disseram: Este é, verdadeiramente, o profeta que devia 
vir ao mundo [...] Jesus respondeu: “A verdade é que vocês estão 
me procurando, não porque viram os sinais milagrosos, mas 
porque comeram os pães e ficaram satisfeitos. Não trabalhem 
pela comida que se estraga, mas pela comida que permanece 
para a vida eterna, a qual o Filho do homem dará a vocês. Deus, 
o Pai, nele colocou o seu selo de aprovação. Então perguntaram-
lhe: “O que precisamos fazer para realizar as obras que Deus 
requer? [...] Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele 
que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o 
ressuscitarei no último dia (João 6:1-40).
Em seu ensino, Jesus queria conduzir as pessoas a uma nova 
forma de ver a vida, a um novo modo de vida. Ele ensinava nas 
sinagogas, nas ruas e em espaços amplos e abertos afastados das 
cidades. Perceba que o estilo usado para proferir a maioria de seus 
discursos possuía um tom professoral. Também as suas conversas 
tinham a intenção de orientar, corrigir, estimular e, principalmente, 
levar à reflexão e mudança de vida e atitude. O maior dos exemplos 
talvez seja o conhecido Sermão do Monte, cuja introdução do relato 
feito por Mateus é clara ao dizer: “Vendo as multidões, Jesus subiu 
ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele 
começou a ensiná-los, dizendo [...]” (Mateus 5:1-2).
Ainda uma última nota curiosa sobre a priorização do ensino 
no ministério de Jesus é a sua relação com o Templo. Não há qualquer 
registro de outra atividade feita por Jesus no Templo a não ser a do 
ensino, nem mesmo oração. Os evangelhos sinóticos concentram os 
relatos de Jesus no Templo em seus últimos dias antes de ser morto. 
João, no entanto, estabelece outra cronologia, mais espaçada ao longo 
de todo o ministério de Jesus (Mateus 21:23; 26:55; Marcos 11:15-17; 
12:35; Lucas 2:46; 19:47; João 7:14, 28; 8:1, 20; 18:20).
O que percebemos no ofício de mestre desempenhado por Jesus 
é que, embora não correspondesse à expectativa messiânica, foi por 
meio dessa transmissão próxima de conhecimento e sabedoria que 
ele deixou um legado a ser seguido. Seus ensinamentos, também 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia68
considerados mandamentos, a partir da ótica da relação servo-Senhor, 
são muito mais relevantes para a vida humana prática que qualquer 
outra consequência advinda dos outros ofícios.
Conclusão
Após termos estudado na unidade anterior os ofícios de profeta 
e sacerdote, vimos nessa unidade mais dois ofícios de Cristo que são 
os de rei e mestre. O ofício de rei, embora seja o mais importante na 
construção teológica oriunda do Antigo Testamento, não é aquele que 
mais caracteriza o ministério de Jesus. O reinado de Jesus se dá em 
outra esfera de atuação e possui uma realização voltada para o tempo 
escatológico. Por outro lado, o ofício de mestre, que não aparece 
claramente na construção teológica da expectativa messiânica, é 
justamente o mais exercido por Jesus em seu ministério terreno, 
tornando-se talvez a sua característica mais marcante e atrativa para 
a séria consideração da importância da cristologia baixa para a igreja.
69
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 8
Cristo: Caminho, Verdade e Vida
Introdução
O estudo da Cristologia, proposto nesta disciplina, se 
encerra com esta unidade que investigará uma perspectiva 
mais filosófica da figura do Cristo. Ela tratará do tema que 
gira em torno da autoidentificação feita por Jesus, conforme 
registrada no Evangelho de João, de ser ele o caminho, a 
verdade e a vida.
Objetivos
1) Apresentar um pano de fundo histórico, filosófico 
e bíblico para a identificação do Cristo como o caminho, a 
verdade e a vida;
2) Oferecer uma plataforma de diálogo para o 
entendimento da identificação de Cristo no contexto atual.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia70
É bastante conhecida a afirmação feita por Jesus, conforme 
registrada no Evangelho de João, em que ele se autoidentifica em uma 
tríplice expressão: “Respondeu Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e 
a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (João 14:6).
Interessantenotar que ao longo da história muito se pregou, 
falou e repetiu sobre o conteúdo dessa afirmação, porém, poucos se 
propuseram a destrinchá-la em profundidade. No caso específico do 
estudo da Cristologia não é comum encontrar abordagens baseadas 
nesse texto ou a tentativa de se construir algum conteúdo proposicional 
acerca dessa tríplice caracterização de Cristo.
O que torna essa investigação interessante é a atualidade 
dos termos caminho, verdade e vida para o nosso contexto. A pós-
modernidade, ou modernidade líquida, ou qualquer outra maneira 
que possamos identificar o tempo contemporâneo parece oferecer um 
ambiente bastante propício para a investigação de Cristo a partir desse 
conteúdo. É com esse objetivo de interagirmos com o pensamento 
contemporâneo, buscando um diálogo em que a pessoa de Cristo 
possa fazer sentido para as pessoas, que iniciamos a discussão.
1- O Evangelho de João e a cultura grega
A fim de investigarmos a expressão “caminho, verdade e vida”, 
com certa profundidade, precisamos considerar que ela ocorre dentro 
da argumentação de um livro. Sua interpretação só faz sentido quando 
feita considerando todo o contexto e desenvolvimento de ideias que 
compõem o Evangelho de João. O livro foi escrito tendo como público 
alvo a igreja primitiva inserida em um contexto greco-romano. A 
maioria da igreja, gentílica, não tinha em sua formação a tradição 
religiosa judaica, ainda que tivesse acesso às Escrituras Sagradas, pela 
Septuaginta, uma tradução do Antigo Testamento, além do contato 
com as cartas e epístolas dos apóstolos.
Já na introdução do livro, podemos perceber a intenção de 
diálogo com o mundo grego e sua cultura proposta pelo autor. João 
inicia seu texto falando do Logos e sua encarnação em Jesus de Nazaré: 
“No princípio era aquele que é a Palavra (Logos). Ele estava com Deus 
e era Deus [...] Aquele que é a Palavra (Logos) tornou-se carne e viveu 
71
entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, 
cheio de graça e de verdade” (João 1:1-14).
O conceito de Logos era uma tentativa da cultura grega de conceber 
o princípio gerador da existência humana e do mundo em geral ou a 
divindade. No grego clássico, a ideia de Logos significava tanto “razão” 
quanto “palavra”, no sentido de que toda palavra implica um pensamento 
anterior à sua produção. Dessa forma, denota-se a existência da razão 
prévia, que é concebida na mente, e que se expressa pela palavra, escrita 
ou falada. A tradução de Logos feita para o Português como Palavra ou 
Verbo não exprime bem o conceito do termo grego.
A filosofia grega buscava um princípio único para explicar o 
universo. O uso da expressão Logos não consistia, primeiramente, na 
proposição da existência de um ser pessoal, ou seja, um Deus como o 
bíblico, mas indicava um princípio racional e gerador da existência. O 
filósofo Heráclito propunha que tudo seria parte de um fluxo. Para ele, 
não podemos dizer as coisas “são” e sim que “vêm a existir” e passam 
adiante. Seria esse um estado de perpetuamente “tornar-se”. Ele usou a 
metáfora do fogo para explicar a ideia. O fogo manifesta-se pelo fluxo 
da chama, da brasa e da fumaça, em que um traz o outro à existência 
a partir da mesma origem. O fluxo, no entanto, segue seus próprios 
parâmetros, governados por uma lei racional e inalterável. A esse 
princípio, Heráclito denominou-o Justiça, Harmonia, Razão, Logos e 
deus ou divindade. Logos e deus seriam a mesma coisa, uma eterna 
energia do universo que perpassa todas as coisas preservando a sua 
unidade. Ele não o caracteriza, no entanto, como uma ideia definida, 
consciente e pessoal.
Anaxágoras adicionou a esse desenvolvimento a ideia de um 
princípio intelectual supremo usando o termo mente (nouos). A questão 
que essa proposta trouxe é que é difícil diferenciar ou conceber a mente 
à parte da matéria corporal. Ainda assim, foi proposto um conceito 
de dualismo entre a realidade da mente e da matéria. Essa corrente 
influenciou outros pensadores, entre eles Platão. Platão, por sua vez, 
não explorou tanto o conceito de Logos. Ele sugeriu a distinção entre o 
mundo dos sentidos e dos pensamentos. Deus pertenceria ao mundo 
dos pensamentos e as pessoas ao mundo dos sentidos. Uma vez que o 
primeiro é quem gera o segundo, a verdadeira realidade consistiria nas 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia72
“ideias”, que concebem os pensamentos. Consequentemente, as ideias 
residem na mente divina antes da criação do mundo.
Os filósofos estoicos, contemporâneos de Paulo e João (Atos 
17:18), produziram o conceito de que o universo forma um todo 
conectado. Para eles, todas as expressões particulares da existência 
são formas assumidas pelo poder primitivo que perpassa tudo. Essa 
atividade eterna ou poder universal divino foi chamado de Logos 
ou Deus. Assim, a divindade ou poder produtivo, princípio gerador 
do mundo, era denominado logos spermatikoi, uma força formativa 
que energiza a natureza e a vida. A subordinação das expressões 
particulares da existência ao Logos constitui a ordem racional das 
coisas e pressupõe a norma de regulação da vida. Na esfera moral, 
outra grande preocupação da filosofia era viver “de acordo com a 
natureza”, era ser governado pela lei determinante de conduta.
Quando João utiliza o conceito de Logos para identificar Jesus, 
ele não apenas incita a sua divinização, como aquele que dá origem a 
todas as coisas, mas abre um precedente imediato de discussão sobre 
a plausibilidade da manifestação do Cristo na forma humana sem que 
ele venha a constituir-se em algo derivado ou menor.
2- O Logos nas Escrituras
O próximo passo em nossa análise do pensamento de João, 
tentando compreender a tríplice expressão caminho-verdade-vida, 
em função da construção que ele faz a partir da cultura grega, é 
tentarmos conjugar esse encaminhamento também em função de sua 
formação teológica judaico-cristã. João estava tentando comunicar 
o seu entendimento teológico sobre Jesus Cristo a uma cultura 
originalmente diferente da sua, usando conceitos daquela cultura, 
porém, com um pano de fundo de sua própria formação teológica 
que incluía as Escrituras hebraicas. Por isso, tentaremos enxergar, 
no Antigo Testamento, possíveis pontes entre temas ali presentes e o 
conceito de Logos que ele utiliza em sua introdução do livro.
De antemão, não encontramos uma direta associação entre Javé 
ou Deus com o termo Logos; pelo menos analisando a tradução do 
Antigo Testamento para o grego, ou seja, na Septuaginta. Por outro 
73
lado, encontramos uma associação de Logos com o termo hebraico 
dabar (rb”D”) e suas derivações. Dabar e suas variantes foram traduzidas 
para o português como falar, dizer, palavra, discurso. Vejamos alguns 
exemplos:
•	Números 11:23 – “O SENHOR respondeu a Moisés: “Estará 
limitado o poder do SENHOR? Agora você verá se a minha 
palavra se cumprirá ou não”;
•	 Salmo 119:105 – “A tua palavra é lâmpada que ilumina os 
meus passos e luz que clareia o meu caminho”;
•	Oséias 1:1 – “Palavra do SENHOR que veio a Oseias, filho de 
Beeri, durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis 
de Judá, e de Jeroboão, filho de Jeoás, rei de Israel”.
Teologicamente, há uma direta relação entre Deus e a sua fala 
ou palavra. Na perspectiva do salmista, a palavra está presente no 
princípio criativo quando afirma “Mediante a palavra do SENHOR 
foram feitos os céus, e os corpos celestes, pelo sopro de sua boca” 
(Salmo 33:6). Nesse sentido, há uma aproximação desse conceito com 
a ideia do Logos grego como um princípio gerador daquilo que existe, 
e isso procedendo de Deus.
Outra relação direta, e ainda mais importante teologicamente, 
é a relação entre a palavra de Deus e a Lei Mosaica que estabeleceu a 
referência mais importante da religiosidade do povo de Israel. O Salmo 
119, como um todo, é um bom exemplo do tratamento dado a essa 
relação. Nessa poesia, cuja introdução mostra que o tema principal é 
a Lei de Deus, vemos a associação dessas ideias:“Como são felizes os 
que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do 
SENHOR” (Salmo 119:1), e “A explicação das tuas palavras ilumina 
e dá discernimento aos inexperientes” (Salmo 119:130). O pano de 
fundo histórico da associação entre a palavra ou discurso de Deus e a 
Lei está no relato do livro de Êxodo:
Disse o Senhor a Moisés: “Escreva essas palavras; porque é de 
acordo com elas que faço aliança com você e com Israel”. Moisés 
ficou ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem 
comer pão e sem beber água. E escreveu nas tábuas as palavras 
da aliança: os Dez Mandamentos (Êxodo 34:27-28).
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia74
Parece plausível sugerir que João, ao construir o seu argumento 
sobre o Cristo, estabeleceu essa ponte entre o conceito da Palavra de 
Deus do Antigo Testamento e o conceito do Logos grego, podendo 
afirmar na introdução de seu texto que “No princípio era aquele que 
é a Palavra (Logos). Ele estava com Deus e era Deus. Ele estava com 
Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; 
sem ele, nada do que existe teria sido feito” (João 1:1-3).
Como vimos, o termo Logos, independente do conceito mais 
filosófico explicado anteriormente, também traduz a ideia de 
declaração, discurso ou narrativa. Algumas vezes ele foi usado nos 
textos do Novo Testamento para indicar a manifestação da palavra de 
Deus no que se refere à sua revelação ou às Escrituras. O próprio João 
se utiliza dessa expressão o que nos leva a associar esse uso com toda 
a sua elaboração do Cristo e em consonância com a perspectiva do 
Antigo Testamento. Vejamos alguns usos aplicativos:
•	João 8:37-38 – “Eu sei que vocês são descendentes de Abraão. 
Contudo, estão procurando matar-me, porque em vocês não 
há lugar para a minha palavra. Eu estou dizendo o que vi na 
presença do Pai, e vocês fazem o que ouviram do pai de vocês”;
•	João 10:35 – “Se ele chamou ‘deuses’ àqueles a quem veio a 
palavra de Deus (e a Escritura não pode ser anulada)”;
•	 1 Coríntios 14:36 – “Acaso a palavra de Deus originou-se 
entre vocês? São vocês o único povo que ela alcançou?”;
•	Hebreus 4:12 – “Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais 
afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o 
ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os 
pensamentos e as intenções do coração”.
O apóstolo Paulo, de maneira diferente, tendo produzido seus 
textos em tempo anterior a João, talvez mais centrado na teologia 
judaica, não fez uso do termo Logos para se referir à Cristo. Ele preferiu 
utilizar outros conceitos que, para efeito deste estudo, podemos perceber 
alguma proximidade com a ideia do Logos desenvolvido por João:
75
a. Criador e “molde” de criação – “para nós, porém, há um único 
Deus, o Pai, de quem vêm todas as coisas e para quem vivemos; 
e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem vieram todas 
as coisas e por meio de quem vivemos” (1 Coríntios 8:6; ver 
também 1 Coríntios 15:45-49);
b. Fonte de todas as coisas criadas sendo a imagem de Deus – 
“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito sobre toda a 
criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na 
terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos sejam soberanias, 
poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e 
para ele” (Colossenses 1:15-16);
c. Plenitude – “Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse 
toda a plenitude” (Colossenses 1:19);
d. Receptáculo da sabedoria e conhecimento – “[...] a fim de 
conhecerem plenamente o mistério de Deus, a saber, Cristo. 
Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria (sofia) e 
do conhecimento (gnose)” (Colossenses 2:2-3).
É fundamental, portanto, entender que o esforço de João não é 
direcionado ao público judeu que já possuía em sua história e religião 
a expectativa do Messias. Sua interpretação particular do grande 
evento do Deus encarnado, que se concretiza em Jesus de Nazaré, 
é oferecer o entendimento radical que isso traz a todas as pessoas, 
começando com o público imediato, responsável pela transição 
histórica daqueles que carregam adiante a fé em Javé, o Deus único, 
o Deus de Israel, que é a igreja gentílica de cultura grega. Ainda que 
o texto de João esteja distante do tempo em que vivemos, podemos 
perceber a atualidade de seu conteúdo para a cultura que nos cerca. 
Como veremos, a investigação do Cristo como o caminho, a verdade e 
a vida, pode ser interessante e útil para um diálogo mais profícuo com 
a contemporaneidade. Apenas por uma questão de argumentação, 
optarei por alterar a ordem de análise dos termos presentes na tríplice 
expressão, começando pelo estudo do conceito de verdade, para 
depois explorar os desdobramentos dessa análise para os conceitos de 
caminho e vida.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia76
3- Verdade
Tradicionalmente, no meio evangélico, a principal interpretação 
da expressão “verdade” tem sido feita com base em uma perspectiva 
reducionista como algo que é oposto à mentira. Nessa rápida maneira 
de se entender a expressão, talvez esteja uma preocupação do nosso 
subconsciente teológico em mantermos uma postura ética que esteja 
comprometida com o falar a verdade em nossas relações pessoais. 
Talvez esteja presente, ainda, uma interpretação dualista da realidade, 
em que tudo se apresenta como divido entre Deus e o diabo. Logo nos 
vem à mente alguns versículos, como um do próprio Evangelho de João, 
porém, sem a devida interpretação que considera todo o contexto do 
livro no qual ele aparece:
Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o 
desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou 
à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua 
própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira (João 8:44).
Em nossa ingênua interpretação, olhamos apenas para as 
expressões que ali estão, tais como “profere” e “fala”, e às associamos 
aos nossos atos de proferir ou falar, usando uma lógica simplista de 
que a verdade e a mentira são algo que falamos no dia a dia em nossos 
diálogos. Assim, nessa lógica, se falo uma mentira, sou do diabo, 
porque ele é o pai da mentira. O problema é que nem esse texto nem 
o que identifica Jesus como a verdade estão tratando da fala expressa 
em nossas conversas corriqueiras. É claro que há um desdobramento 
sobre a compreensão mais profunda que devemos ter sobre o conceito 
de verdade e o falar mentiras, mas o conceito em si é mais profundo.
Outra maneira com que temos nos acercado da ideia de verdade 
tem sido a partir da apologética cristã. Atualmente, o tipo de teologia 
mais comum no meio evangélico é aquele que é afetado por uma 
apologética que é decorrente da filosofia iluminista e humanista. 
Procurando entender um pouco o desenvolvimento da teologia, 
podemos dizer que no início da igreja cristã a apologética surgiu para 
tentar defender a fé cristã nascente da cultura pagã greco-romana e 
dos argumentos filosóficos que passaram a influenciar diretamente 
a compreensão teológica. Após um longo tempo, durante a Idade 
Média, em que a teologia ditava os rumos do pensamento, com o 
77
advento do iluminismo humanista, a razão humana passou a ser a 
referência para o conhecimento da realidade. Baseado nas perspectivas 
mecanicistas, objetivistas e cartesianas, o discurso teológico passou a 
ser proposicional, ou seja, a maneira para explicar a Deus e a fé tornou-
se um discurso feito com as frases certas para responder as perguntas 
certas. A fé e a teologia ficaram aprisionadas em sistemas teológicos 
pretensamente exatos e controlados, que a tudo responde e explica.
O resultado disso para a teologia foi que a verdade ficou 
refém desse estado de mente. A verdade passou a ser aquilo que é 
explicado por uma proposição ou um discurso correto elaborado 
pela teologia. O grande problema é que não existe uma única 
teologia ou um único discurso. A maior prova disso é a assustadora 
variedade de denominações e correntes teológicasque defendem 
ser representantes fiéis de Deus no mundo. Talvez motivados por 
controle ou poder, alguns grupos pertencentes a correntes e tradições 
teológicas e denominacionais acabam adotando uma postura radical 
e monológica. Em nome da defesa da sã doutrina e da fé correta, esses 
grupos tornam-se fiscais dos outros grupos e reduzem a verdade a seus 
próprios discursos. Nesse cenário, quem seria o detentor da verdade? 
Qual tradição, denominação, grupo, corrente teológica ou discurso 
pode garantir que possui a verdade em detrimento dos outros?
Partindo do pressuposto de que João tem como pano de fundo 
a cultura grega, ao usar a expressão grega aletheia (verdade) para 
identificar o Cristo, ele está se referindo ao sentido absoluto daquilo 
que é real, completo, oposto ao que é irreal e incompleto. Esta não 
é uma abordagem simples. Ele está tratando de um pressuposto 
filosófico ontológico e metafísico, assim como o faz no uso de Logos. 
O conceito de verdade está relacionado à realidade e à existência como 
um todo. Esclarecendo um pouco mais aquilo que parece estar sendo 
exposto por João, vejamos outro texto do mesmo Evangelho que relata 
o diálogo entre Jesus e Pilatos:
Então, você é rei!”, disse Pilatos. Jesus respondeu: “Tu dizes que 
sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: 
para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me 
ouvem”. “Que é a verdade?”, perguntou Pilatos. Ele disse isso 
e saiu novamente para onde estavam os judeus, e disse: “Não 
acho nele motivo algum de acusação (João 18:37-38).
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia78
O argumento de Jesus é que ele, o Messias, ou o Logos, havia 
vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Há uma direta 
associação entre esse texto e o do capítulo 1:
No princípio era aquele que é a Palavra (Logos). Ele estava com 
Deus e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as 
coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que 
existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos 
homens [...] Ele veio como testemunha, para testificar acerca 
da luz, a fim de que por meio dele todos os homens cressem. 
Ele próprio não era a luz, mas veio como testemunha da luz. 
Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todos 
os homens [...] Veio para o que era seu, mas os seus não o 
receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em 
seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus [...] 
Aquele que é a Palavra (Logos) tornou-se carne e viveu entre 
nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, 
cheio de graça e de verdade (João 1:1-14).
O Logos, que é Jesus, o Cristo, é também Deus, por meio de quem as 
coisas vêm à existência, por meio de quem a vida surge. O Cristo é a verdadeira 
luz, que é Deus, que ilumina o caminho de todos os seres humanos para 
o conhecimento do próprio Deus. O Logos encarnado é, então, cheio de 
verdade, pois é a expressão da única fonte de existência, afinal todo o resto 
é criado. Portanto, na argumentação de Jesus com Pilatos, a verdade não é 
uma fórmula teológica proposicional, ela é a realidade. Por isso, não se trata 
de falar ou dizer a verdade mas de ser da verdade, de pertencer à verdade ou 
de ser iluminado pela verdade que é Deus.
É a partir dessa interpretação ampla do conceito de verdade que 
devemos ler também outros textos do Evangelho de João (João 8:31-
32; 14:16-17; 16:12-13), entendendo que não estamos lidando com um 
sistema teológico e lógico de afirmações e sim com a essência daquilo 
que traduz a realidade existente.
79
4- Caminho 
Tendo essa concepção da identificação do Cristo como a verdade, 
que possui uma intrínseca relação com o conceito do Logos, tecerei 
alguns comentários mais sucintos sobre a ideia por trás da expressão 
caminho. Ainda tendo como base o texto já citado, do primeiro capítulo 
do Evangelho de João, podemos observar que o Logos funciona como 
uma testemunha, uma luz que aponta para Deus, a fim de que os seres 
humanos se tornem seus filhos. Relembrando o texto,
Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha 
nas trevas, e as trevas não a derrotaram. Surgiu um homem 
enviado por Deus, chamado João. Ele veio como testemunha, 
para testificar acerca da luz, a fim de que por meio dele todos 
os homens cressem. Ele próprio não era a luz, mas veio como 
testemunha da luz. Estava chegando ao mundo a verdadeira 
luz, que ilumina todos os homens (João 1:4-9).
O Logos é descrito como vida e como luz que ilumina todos as 
pessoas para que encontrem a Deus em meio as trevas. Poderíamos, 
portanto, interpretar essa ideia com o chamado caminho da salvação, 
o retorno à casa do Pai. É importante ressaltar que a identificação 
feita pela tríplice expressão caminho-verdade-vida surge durante um 
diálogo de despedida de Jesus com seus discípulos:
Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam 
também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; 
se não fosse assim, eu teria dito a vocês. Vou preparar lugar 
para vocês. E, quando eu for e preparar lugar, voltarei e os 
levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver. Vocês 
conhecem o caminho para onde vou”. Disse-lhe Tomé: “Senhor, 
não sabemos para onde vais; como então podemos saber o 
caminho?” Respondeu Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e 
a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim (João 14:1-6).
Jesus ao se despedir diz que estaria indo para a casa do Pai e 
que estando lá prepararia um lugar para os seus discípulos com a 
finalidade de que todos estivessem juntos no futuro. Ele afirma que os 
discípulos conhecem esse caminho para a casa do Pai. Tomé, contudo, 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia80
diz o contrário. Mais que isso, Tomé parece dizer que não sabe onde 
fica a casa do Pai ou o caminho para chegar lá. A partir dessa paradoxal 
conversa entre Jesus e seus discípulos, ele se identifica como sendo o 
próprio caminho.
Parece óbvio que toda a conversa gira em torno de uma linguagem 
figurativa, simbólica, parabólica, a ponto do jogo de palavras criar uma 
confusão típica dos diálogos promovidos por Jesus. Ao dizer que está 
de partida e indo para a casa do Pai, Jesus estaria deixando implícito 
que para fazer isso ele seguiria por algum caminho. Então, ele diz aos 
discípulos que eles já conhecem esse caminho. No entanto, diante do 
questionamento de Tomé, que pergunta como eles poderiam saber 
qual o caminho que leva à casa do Pai, Jesus se identifica como sendo 
ele mesmo o caminho. A confusão surge porque Jesus diz que seguiria 
para o Pai, deixando implícito que seguiria por um caminho, mas 
esse caminho acaba sendo ele próprio. O caminho que Jesus toma é 
algo que não está fora dele mesmo, ou seja, ele segue pelo caminho de 
sua própria existência. Mas não apenas isso, ao identificar-se como o 
caminho ele complementa a ideia dizendo que ele também é a verdade 
e a vida, ampliando essa ideia.
Acredito que a maior parte da teologia evangélica tenha 
interpretado a ideia de Jesus como o caminho desde uma perspectiva 
mais soteriológica que ontológica. Alguns pensam Jesus como o 
caminho a partir de uma perspectiva pragmática desde uma construção 
teológica baseada na interpretação literalista de alguns versículos. 
Assim entendido, o caminho se torna um tipo de senha de acesso à 
casa do Pai por meio de uma confissão de fé verbal que precisamos 
fazer sobre a crença ou aceitação da morte substitutiva de Jesus, em 
nosso lugar, como punição dos nossos pecados. Esse caminho, nos 
daria a salvação e nos levaria para a casa do Pai, nos céus. Mas o texto 
de João não trata Jesus como esse tipo de caminho. Ainda que haja um 
componente soteriológico embutido, a argumentação é mais profunda 
envolvendo a totalidade da vida e existência. O caminho não se 
apresenta como um processo mecânico de dizer coisas, ou de repetir 
frases, ou responder a um apelo como se isso funcionasse como um 
passaporte de entrada na casa do Pai. O caminho,de uma prerrogativa real ao sumo sacerdote, líder 
da nova comunidade.
Não havia, pois, no antigo Israel, uma “ordenação” de sacerdotes, 
eles assumiam sua função sem que um rito religioso lhes 
conferisse uma graça ou poderes especiais. Mas, por suas próprias 
funções, o sacerdote era santificado, sacralizado (2003, p. 386).
Na construção, portanto, da religião de Israel, e que se tornará 
componente da expectativa messiânica, vemos a instituição desse 
ritual de unção no ofício sacerdotal, que ocorreu principalmente no 
Templo de Jerusalém. O texto que faz alusão à unção do sacerdote 
procura remontar suas origens a Arão, seus filhos, e posteriormente 
aos pertencentes à tribo de Levi. O que se faz é atribuir ao ofício 
sacerdotal uma posição diferenciada, de destaque, para a qual eles 
passaram a ser ungidos.
Assim você os consagrará, para que me sirvam como sacerdotes: 
separe um novilho e dois cordeiros sem defeito. Com a melhor 
farinha de trigo, sem fermento, faça pães e bolos amassados 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia08
com azeite, e pães finos, untados com azeite. Coloque-os numa 
cesta e ofereça-os dentro dela; também ofereça o novilho e os 
dois cordeiros. Depois traga Arão e seus filhos à entrada da 
Tenda do Encontro e mande-os lavar-se. Pegue as vestes e vista 
Arão com a túnica e o peitoral. Prenda o colete sacerdotal sobre 
ele com o cinturão. Ponha-lhe o turbante na cabeça e prenda 
a coroa sagrada ao turbante. Unja-o com o óleo da unção, 
derramando-o sobre a cabeça de Arão. Traga os filhos dele, 
vista cada um com uma túnica 9 e um gorro na cabeça. Ponha 
também os cinturões em Arão e em seus filhos. O sacerdócio 
lhes pertence como ordenança perpétua. Assim você dedicará 
Arão e seus filho (Êxodo 29:1-9).
Observando mais detalhadamente a descrição do ritual, atribuída 
editorialmente à tradição mosaica, vemos algumas características 
dignas de nota. A primeira é a explícita intenção de consagração. A 
palavra usada é qadosh que significa separar, santificar. Depois vemos 
que o ritual é acompanhado dos atos religiosos de sacrifícios de animais 
e oferta de manjares. A seguir é indicado que o ato era feito à porta 
da Tenda do Encontro, ou seja, do lado de fora do Tabernáculo, na 
“praça pública” e não em um lugar fechado, exclusivo. Assim, o ritual 
era testemunhado por todo o povo, indistintamente. Acompanhava 
o ritual uma forma de perpetuação da lembrança daquele ato pela 
identificação dos consagrados, no dia a dia, com o uso de uma 
vestimenta diferenciada. Uma vez que o ritual da unção era único, ou 
seja, ocorria uma única vez na vida de cada uma daquelas pessoas, 
elas passavam a ser identificadas, ou distinguidas como consagrada ou 
ungidas, no meio do povo, por sua roupa e por seu ofício particular.
A figura do sacerdote, embora importante para a sociedade 
judaica, não parece ter exercido grande influência na construção da 
figura do Messias, o grande Ungido esperado. Talvez, a contribuição 
desse componente tenha ficado mais na compreensão social da 
diferenciação e tratamento especial que os ungidos recebiam por 
parte do povo comum do que no entendimento de que o Messias teria 
funções sacerdotais perante esse mesmo povo.
09
2- O rei como ungido
Como sugerido por Vaux, a ideia do ungido tem sua origem 
principal na figura do rei, ou seja, na unção real. Isso já acontecia em 
outras culturas como, por exemplo, no Egito, com os Faraós. Os reis 
eram consagrados para o ofício de governo, assim como os sacerdotes 
eram consagrados, ou separados do povo comum, para o ofício 
religioso. De certa forma, talvez não tão fortemente quanto em outras 
culturas, houve em Israel uma conotação de divinização da pessoa 
do rei ou, no mínimo, de íntima relação com Deus. Entendia-se na 
religiosidade de Israel que o governo sobre a terra estava originalmente 
nas mãos de Deus e que em determinado momento ele foi repassado 
ao rei como seu representante. A construção histórica desse rei ungido 
é encontrada primeiro no caso de Saul e depois no caso de Davi, que 
acabou se constituindo na referência para todos os outros que vieram 
depois. É no primeiro livro de Samuel que encontramos os relatos dos 
rituais de unção dos dois primeiros reis de Israel:
•	 1 Samuel 10:1, 5-6; 12:5 – “Samuel apanhou um jarro de 
óleo, derramou-o sobre a cabeça de Saul e o beijou, dizendo: ‘O 
Senhor o ungiu como líder da herança dele’ [...] Depois você irá 
a Gibeá de Deus, onde há um destacamento filisteu. Ao chegar 
à cidade, você encontrará um grupo de profetas que virão 
descendo do altar do monte tocando liras, tamborins, flautas 
e harpas; e eles estarão profetizando. O Espírito do Senhor se 
apossará de você, e com eles você profetizará e será um novo 
homem [...] Todavia, se vocês desobedecerem ao Senhor e se 
rebelarem contra o seu mandamento, sua mão se oporá a vocês 
da mesma forma como se opôs aos seus antepassados”;
•	 1 Samuel 16:1, 13 – “O Senhor disse a Samuel: ‘Até quando 
você irá se entristecer por causa de Saul? Eu o rejeitei como rei 
de Israel. Encha um chifre com óleo e vá a Belém; eu o enviarei 
a Jessé. Escolhi um de seus filhos para fazê-lo rei’ [...] Samuel 
apanhou o chifre cheio de óleo e o ungiu na presença de seus 
irmãos, e, a partir daquele dia, o Espírito do Senhor apoderou-
se de Davi. E Samuel voltou para Ramá”.
É importante notar que nessa construção inicial do rei como uma 
pessoa ungida, consagrada, indica-se uma capacitação especial com o 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia10
Espírito de Javé (SENHOR). Vale ressaltar que para a teologia do Antigo 
Testamento esse fenômeno da atribuição da atuação do Espírito de 
Deus sobre alguém era algo raro. No relato sobre a experiência de Saul 
é dito que essa influência do Espírito é atestada pela ação profética. 
Sem entrar em muitos detalhes, que fogem do escopo dessa disciplina, 
a experiência de Saul foi participar de um evento religioso juntamente 
com os videntes (1 Samuel 9:9), também conhecidos como homens de 
Deus, que envolveu um ritual extático. Parece que a inclusão do relato 
da experiência profética, no caso de Saul, tem a intenção de demonstrar 
a autenticação de Deus na sua escolha como rei, além de provocar a 
aceitação dos líderes das tribos até então independentes de um poder 
central. No resto da história de Saul, vemos ainda que foi necessário a 
comprovação de sua competência militar na condução dos exércitos de 
Israel, alcançando vitória sobre os principais inimigos, os filisteus, para 
que ele pudesse ter o seu governo aceito pelas tribos, demonstrando 
outra habilidade importante para o cargo naquele contexto.
No caso de Davi, não houve a mesma necessidade de associação 
da unção com a experiência profética, talvez porque que a ideia de 
monarquia já estava em processo mais avançado de construção. No 
entanto, sabemos de todas as histórias de vitórias em batalhas de Davi, 
quando ainda era apenas um candidato ao trono, o que lhe trouxe fama e 
concedeu certa autenticidade para o cargo (1 Samuel 18:7; 21:11; 29:5). 
Vale lembrar que tanto Saul quanto Davi cometeram grandes erros em 
suas vidas pessoais, mostrando que qualquer que fosse a associação do 
rei com a divindade não os livrava da imperfeição humana. O mesmo 
se pode dizer de todos os reis que os sucederam. Independente disso, 
a expectativa de um reino terrestre eterno sob a dinastia davídica foi 
um fator de grande relevância para a esperança do Messias de Israel.
3- O profeta como ungido
Um terceiro ofício que contribuiu para a construção da ideia de 
ungido foi o dos profetas. Na realidade, se atentarmos para o início 
dessa construção, ainda no que se refere aos sacerdotes, é atribuído 
a Moisés a responsabilidade de ungi-los. Também no caso dos reis, 
coube a Samuel essa responsabilidade. O que teriam em comum 
Moisés e Samuel? A resposta é que ambos eram considerados videntes, 
11
homens de Deus ou profetas.
A progressão do chamado homem de Deus para a função de 
profetaaqui, não é um ato 
pragmático de aceitar a Cristo como salvador e como consequência 
81
poder seguir para a casa do Pai nos céus. A afirmação de Jesus é bem 
mais profunda que isso. Pensando o caminho como uma questão 
ontológica, que trata da vida em si, ou da jornada da existência, o que 
o texto nos apresenta é que só há uma maneira de se viver plenamente 
a vida humana. Se fomos criados para estarmos com o Pai o único 
caminho é o Logos, o Cristo. Esse caminho é ser como ele. É viver como 
ele viveu. Ele, Jesus Cristo, em sua complexidade de Deus encarnado, é 
a verdade, aquilo que é a única realidade e representação da existência 
e, portanto, o caminho de vida para todo ser humano.
5- Vida
A tríplice expressão caminho-verdade-vida não tem a intenção de 
mostrar três aspectos de Cristo ou três diferentes facetas, propriedades 
e atribuições. A tríplice expressão é uma típica maneira judaica de 
apresentar uma ideia por meio de sinônimos e paralelos. Jesus ao se 
identificar como a verdade e o caminho quer dizer que ele é a própria 
vida ou aquilo que é a essência da existência. Sendo o Logos, ele é o 
criador, o gerador da vida, conforme já argumentado por João na 
introdução do livro: “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” 
(João 1:4).
Explorando um pouco mais essa perspectiva, João a amplia ao 
longo de seu Evangelho ao mostrar Jesus Cristo por meio de outras 
metáforas referentes ao conceito de vida:
a. Água da vida – “Jesus lhe respondeu: ‘Se você conhecesse o 
dom de Deus e quem está pedindo água, você lhe teria pedido e 
dele receberia água viva [...] mas quem beber da água que eu lhe 
der nunca mais terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der 
se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna’” 
(João 4:10,14); “No último e mais importante dia da festa, Jesus 
levantou-se e disse em alta voz: ‘Se alguém tem sede, venha a 
mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu 
interior fluirão rios de água viva’” (João 7:37,38);
b. Pão da vida – “Então Jesus declarou: ‘Eu sou o pão da vida. 
Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim 
nunca terá sede [...] Eu sou o pão da vida. Os seus antepassados 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia82
comeram o maná no deserto, mas morreram. Todavia, aqui está 
o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer. 
Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste 
pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei 
pela vida do mundo’” (João 6:35, 48-51).
Jesus Cristo, portanto, é aquele que sacia a busca por Deus, pela 
verdade, pelo caminho a seguir, pelo significado da existência. Isso é ter 
sede e fome existencial. A vida humana só possui significado quando 
tem como referência a pessoa de Cristo, o Deus encarnado, que é a 
expressão da verdade, ou seja, daquilo que é real e não daquilo que é 
uma sombra do que podemos ser. Ele é o modelo de ser, de existir, de 
viver humanamente. Ele é o caminho existencial a ser percorrido, pela 
simples imitação e obediência a seus ensinamentos, com o objetivo de 
alcançarmos a plenitude da vida humana, que é estar na casa do Pai e 
desfrutar de sua companhia.
Conclusão
No contexto atual em que convivemos com pessoas diferentes, 
com aqueles que não pensam necessariamente como nós, o diálogo 
é uma necessidade. É fundamental entendermos que a identificação 
de Jesus Cristo como o caminho, a verdade e a vida, não passa pela 
unicidade de uma fórmula proposicional. A unicidade do Cristo, 
vivido na encarnação em Jesus, é uma plataforma de diálogo que sugere 
a investigação de questões mais amplas para a existência humana, 
assim como foi feito por João para os gregos. Jesus não se apresenta 
como uma imposição doutrinária sistematizada por quem quer que 
seja, mas como uma livre investigação, até mesmo comparativa, entre 
aquilo que ele foi e fez, diante das outras opções da sociedade. Se ele é 
o que diz ser, a essência daquilo que é real para a existência humana, 
a conclusão a que chegamos é que será inevitável a convergência de 
qualquer pensamento para a sua pessoa, pois apenas ele, o Cristo, é 
capaz de trazer sentido pleno à nossa busca.
83
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 9
O Espírito Santo no Antigo Testamento
Introdução
Esta unidade inicia a segunda parte da disciplina 
voltando sua atenção para o estudo da Pneumatologia, ou 
seja, o estudo sobre o tema do Espírito Santo. Seguindo 
o mesmo raciocínio metodológico adotado até aqui, que 
prioriza a investigação bíblico-teológica, investigaremos 
a construção da ideia do Espírito na Bíblia, iniciando 
pelo Antigo Testamento. Consideramos, contudo, que as 
pessoas já trazem em sua experiência de vida e de atuação 
ministerial conceitos, sistematizados ou não, sobre o 
Espírito Santo que são constantemente confrontados 
à medida que vivenciam a fé. Ao provocar a ativação da 
memória sobre os conceitos que trazemos a respeito do 
tema e ao compará-los com os fundamentos bíblicos, 
criamos um ambiente de curiosidade, “dúvida produtiva” 
e interesse, úteis para o desenvolvimento da disciplina, na 
intenção de se obter um entendimento sólido do tema.
Objetivos
1) Promover uma visitação aos conceitos bíblicos 
sobre o Espírito no Antigo Testamento;
2) Buscar a interação e diálogo entre o entendimento 
pessoal do tema e a fundamentação bíblica apresentada.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia84
Vivemos em uma atmosfera pentecostal com respeito à 
Pneumatologia. As maiores denominações evangélicas no Brasil, na 
contemporaneidade, são pentecostais e as noções mais difundidas 
sobre o Espírito Santo provém dessa corrente. Mesmo as igrejas 
tradicionais, que historicamente se assumiram a sistematização da 
teologia no passado, são influenciadas pela noção pentecostal sobre 
quem é, o que faz e como se relaciona conosco o Espírito Santo. Esse 
impacto tem sido tão forte que chegou até mesmo a influenciar a igreja 
católica gerando o movimento carismático, que enfatiza as ações e 
manifestações do Espírito.
A diferença básica entre a teologia tradicional sistematizada 
e a teologia pentecostal é, por assim dizer, a sua metodologia de 
apreensão. O teólogo chileno pentecostal Juan Sepúlveda (1996) 
discute essa questão afirmando que o protestantismo histórico possui 
uma teologia marcada pela separação entre o que vem a ser a revelação 
divina e a experiência humana. A revelação divina seria o resultado 
do entendimento racional, lógico e objetivo dos textos bíblicos. A 
experiência humana, por sua vez, seria a percepção intuitiva e subjetiva 
daquilo que ocorre em nossa vida prática diária, religiosa ou não. Por 
exemplo, os sistemáticos tradicionais defendem um único batismo no 
Espírito Santo, sem a manifestação do dom de línguas, apoiando-se em 
uma lógica própria de análise dos textos bíblicos. Alguns pentecostais 
defendem o segundo batismo, acompanhado da manifestação do dom 
de línguas, porque é assim que acontece em sua experiência cotidiana 
na igreja. Ainda que usem alguns textos bíblicos para sustentarem essa 
percepção teológica, seu maior fundamento é a própria experiência. 
A conclusão de Sepúlveda é a de que “como a experiência não pode 
ser reduzida a conceitos, uma teologia que nasce da experiência deve, 
necessariamente, ser uma teologia narrativa, como o é, em grande 
dose, a teologia bíblica” (1996, p. 68). Teologia narrativa, aqui, significa 
o compartilhar das experiências por meio das conversas e também dos 
testemunhos orais, que podem ser parte integrante do próprio culto.
Reconhecemos que as experiências pessoais são importantes na 
vida cristã e têm seu lugar próprio, porém, as Escrituras não podem ser 
deixadas de lado quando analisamos qualquer tema da teologia cristã, 
principalmente o tema do Espírito. As experiências pessoais, embora 
85
importantes, podem também confundir nossa compreensão sobre o 
Espírito por estarem carregadas de emoções, sentimentos, invenções,exageros ou até mesmo, no caso oposto, de certa frieza, como ocorre 
em muitas correntes tradicionais.
Como há poucas referências bibliográficas sobre a teologia 
pentecostal e uma grande variedade de experiências, tentaremos 
abordar o assunto da Pneumatologia a partir de referências tradicionais, 
considerando alternativas que nos auxiliem a entender a contribuição 
pentecostal. Nosso primeiro percurso, portanto, será o de fazer uma 
investigação bíblica acerca do Espírito, entendendo que é ela que deve 
exercer papel predominante no estudo desta doutrina. Comecemos, 
portanto, pelo Antigo Testamento.
1- Espírito: vento de Deus
A palavra “espírito” no Antigo Testamento é a tradução do termo 
hebraico ruach. John Barton Payne, explica o que esse termo significa:
A idéia básica de rûah (grego pneuma) é “ar em movimento”, 
tanto o ar que não pode passar entre as escamas de um 
crocodilo (Jó 41.16 [8]) até a ventania de uma tempestade (Is 
25.4; Hc 1.11). Os “quatro rûhôt [ventos]” descrevem os quatro 
cantos ou os quatro lados do mundo (Jr 49.36; Ez 37.9). Nos 
seres vivos o rûah é a sua respiração, quer de animais (Gn 7:15; 
Sl 104.25, 29), de seres humanos (Is 42.5; Ez 37.5) ou ambos 
(Gn 7.22-23); é o ar inalado (Jr 2.24) nos lábios (Is 11.4; cf. Jó 
9.18; contrastem-se os ídolos mortos, Jr 10.14; 51.17). Deus o 
cria: “o rûah [‘espírito’; ARA, ‘sopro’ [da parte] de Deus está em 
minhas narinas” (Jó 27.3).
As conotações de sopro incluem força (1 Rs 10.5, em que se 
diz que a rainha de Sabá não tinha mais rûah, i.e., ela ficou 
com a respiração suspensa, surpresa), coragem (Js 2.11; 5.1, em 
que literalmente se diz que não “permanece mais espírito” nos 
inimigos de Israel; ARA, “desmaiar-se o coração de (alguém)”) 
e valor (Lm 4.20, que declara que o rei da dinastia davídica 
era literalmente “o fôlego de nossas narinas”, isto é, “a valiosa 
esperança” — uma frase tomada de empréstimo de uma 
expressão egípcia comum t3wn fnd.sn, “o fôlego das narinas 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia86
deles”). De outro lado, falsos profetas se tornam rûah, “vento”, 
porque lhes falta a palavra (Jr 5.13), sendo que aí a conotação é 
de vacuidade, a futilidade do simples “vento” (Jó 7.7; Is 41.29). 
Com o sentido de um movimento forte e rápido de ar, de uma 
bufada pelas narinas, rûah descreve emoções de agressividade 
(Is 25.4) ou ira (Jz 8.3; Pv 29.11). Uma última conotação de 
“sopro” ou “respiração” é atividade e vida. O “espírito” da 
pessoa se consome quando ela fica doente ou fraca (Jó 17.1), 
mas volta como um novo fôlego e a pessoa revive (Jz 15.19; 1 
Sm 30.12; cf. Gn 45.27). Nas mãos de Deus se encontra o rûah, 
“fôlego” de toda a humanidade (Jó 12.10; Is 42.5). De modo que 
a melhor tradução de Gênesis 6:3 é “o meu espírito [‘o fôlego 
de vida’ que vem da parte de Deus] não habitará [tradução que 
segue a LXX] no homem para sempre, pois ele é carne (ou seja, 
é ‘mortal’], mas seus dias [até o dilúvio] serão cento e vinte anos 
(cf. Jó 34.14-15) (1998, pp. 1407-1408).
Essa longa explicação mostra que a palavra hebraica ruach, 
traduzida para o Português como espírito, não carrega, a princípio, 
nenhuma conotação teológica ou religiosa. Ela era uma palavra do uso 
comum associada ao ar em movimento, entendida (às vezes) como 
vento ou sopro, mas que possuía uma série de aplicações diferentes 
quando associadas às situações da vida e do próprio ser humano.
Julgo ser interessante chamar a atenção para a associação do 
termo a Deus. O Antigo Testamento se refere ao espírito como Espírito 
de Deus (ruach Elohim) ou Espírito do SENHOR (ruach Yahweh) e em 
apenas duas passagens encontramos a fórmula Espírito-Santo (ruach 
qadosh), que ficou perpetuada nos textos do Novo Testamento, mas 
sem a mesma ênfase ou perspectiva:
•		Salmo 51:11 – “Não me expulses da tua presença nem tires de 
mim o teu Santo Espírito”;
•	 Isaías 63:10-11 – “Apesar disso, eles se revoltaram e 
entristeceram o seu Espírito Santo. Por isso ele se tornou 
inimigo deles e lutou pessoalmente contra eles. Então o seu 
povo recordou o passado, o tempo de Moisés e a sua geração: 
Onde está aquele que os fez passar através do mar, com o pastor 
do seu rebanho? Onde está aquele que entre eles pôs o seu 
Espírito Santo?”.
87
Para melhor esclarecer essa argumentação, iremos tratar 
de algumas aplicações do termo nos textos Antigo Testamento, 
procurando separá-las em função de alguma ideia central.
2- Espírito: criação e fonte da vida
Como vimos na explicação de Payne sobre o termo ruach, a ideia 
de vento ou ar em movimento parece ser a sua principal caracterização 
no Antigo Testamento, levando-nos à compreensão de que há uma 
grande relação entre essa expressão e a realização de alguma ação. 
Assim, percebemos que a primeira grande ação do ruach é a criação do 
universo e da vida, que lemos logo no início do texto sagrado, no livro 
do Gênesis, ao afirmar que ele pairava ou “ventava” sobre as águas do 
caos: “Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, 
e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gênesis 1:2). De 
maneira indireta, uma vez que não aparece explicitamente a expressão 
ruach no texto, também podemos entender a sua ação na criação do 
ser humano transmitindo-lhe o sopro de vida: “Então o Senhor Deus 
formou o homem do pó da terra e soprou [naphah] em suas narinas 
o fôlego de vida [nashamah], e o homem se tornou um ser vivente 
[nephesh]” (Gênesis 2:7). Milton Fisher esclarece:
Este substantivo [neshama], quando empregado como referência 
ao homem, tem em geral o sentido de “fôlego de vida”. É, com 
frequência, usado junto com rûah, “espírito”, e parece ser uma 
palavra sinônima de nephesh, “alma” (q.v.). Às vezes, é traduzida 
por “espírito” (Jó 26.4; Pv 20.27). Quanto a Provérbios 20.27, 
alguns crêem que a palavra denote mente ou o intelecto. Em 
Isaías 2.22 a referência ao homem, “cujo fôlego está no seu nariz”, 
é uma figura da fragilidade humana (1998, p. 1012).
A interpretação que temos da explicação de Payne é que essa 
ação criadora é também mantenedora da vida. O ruach não apenas foi 
soprado para gerar a vida, mas é como se ele estivesse continuamente 
sendo soprado, mantendo a vida de todos os seres, humanos e animais. 
Ele é, dessa forma, uma ação contínua, que se interrompida, significa 
a morte. Vejamos algumas passagens bíblicas que apoiam essa ideia:
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia88
•	 Gênesis 6:3 – “Então disse o SENHOR: “Por causa da 
perversidade do homem, meu Espírito não contenderá com ele 
para sempre; ele só viverá cento e vinte anos”;
•	Jó 34:14-15 – “Se fosse intenção dele, e de fato retirasse o seu 
espírito e o seu sopro, a humanidade pereceria toda de uma vez, 
e o homem voltaria ao pó”;
•	 Isaías 42:5 – “É o que diz Deus, o SENHOR, aquele que 
criou o céu e o estendeu, que espalhou a terra e tudo o que 
dela procede, que dá fôlego aos seus moradores e vida aos que 
andam nela”;
•	Ezequiel 37:9 – “A seguir ele me disse: ‘Profetize ao espírito; 
profetize, filho do homem, e diga-lhe: Assim diz o Soberano, 
o Senhor: Venha desde os quatro ventos, ó espírito, e sopre 
dentro desses mortos, para que vivam’”.
Uma ilustração que pode nos auxiliar a entender essa ideia é 
aquilo que ocorre com aqueles brinquedos infláveis usados em festas 
infantis tipo tobogãs, escorregadores e pula-pulas, ou ainda aqueles 
bonecos que servem para chamar a atenção de transeuntes que ficam 
com os braços em movimento. Esses objetos apenas funcionam 
por causa do constante sopro de ar que os mantêm inflados ou em 
movimento. Caso o ar pare de ser soprado em seus interiores, eles 
murcham ou desmontam-se. Essa seria a ideia do vento de Deus que 
sopra constantemente sobre os seres mantendo-os vivos.
3- Espírito: intervenção histórica e capacitação
Outra ação que demonstra a manifestação de Deus por meio do 
ruach é o próprio vento na natureza realizando alguma transformação 
que representa uma intervenção na história do seu povo.O maior 
dos exemplos é a passagem sobre o Mar Vermelho descrita em Êxodo 
14:21: “Então Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor afastou o 
mar e o tornou em terra seca, com um forte vento oriental que soprou 
toda aquela noite. As águas se dividiram”. Ainda no mesmo contexto 
de libertação do povo de Israel do Egito, Deus já havia agido com seu 
vento na ocasião da oitava praga: “E o Senhor fez soprar com muito 
mais força o vento ocidental, e este envolveu os gafanhotos e os lançou 
no mar Vermelho. Não restou um gafanhoto sequer em toda a extensão 
89
do Egito” (Êxodo 10:19). De modo semelhante vemos a providência 
divina no texto de Números 11:31: “Depois disso, veio um vento da 
parte do Senhor que trouxe codornizes do mar e as fez cair por todo 
o acampamento, a uma altura de noventa centímetros, espalhando-as 
em todas as direções num raio de um dia de caminhada”. 
Mais especificamente, ao tratar do ser humano, o ruach de Deus 
é apresentado como provedor de capacitação para atividades especiais. 
Provavelmente essa foi a linha de raciocínio que o apóstolo Paulo 
utilizou para apresentar os dons do Espírito Santo em suas cartas. 
Seguem alguns exemplos:
•	Êxodo 31:1-5 – “Disse então o SENHOR a Moisés: ‘Eu escolhi 
Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi 
do Espírito [ruach] de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e 
plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos 
em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, para 
entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal’”;
•	Juízes 3:10 – “O Espírito [ruach] do SENHOR veio sobre ele, 
de modo que liderou Israel e foi à guerra. O SENHOR entregou 
Cuchã-Risataim, rei da Mesopotâmia, nas mãos de Otoniel, que 
prevaleceu contra ele”.
Essa forma de capacitação especial é a mesma que ocorria com a 
profecia, que também podemos entender como inspiração ou sopro divino:
•	Números 11:25 – “O SENHOR desceu na nuvem e lhe falou 
e tirou do Espírito que estava sobre Moisés e o pôs sobre as 
setenta autoridades. Quando o Espírito [ruach] veio sobre elas, 
profetizaram, mas depois nunca mais tornaram a fazê-lo”;
•	 1 Crônicas 12:18 – “Então o Espírito [ruach] veio sobre 
Amasai, chefe do batalhão dos Trinta, e ele disse: ‘Somos teus, ó 
Davi! Estamos contigo, ó filho de Jessé! Paz, paz seja contigo, e 
com os teus aliados, pois o teu Deus te ajudará’. Davi os recebeu 
e os nomeou chefes dos seus grupos de ataque”;
•	2 Crônicas 24:20 – “Então o Espírito [ruach] de Deus apoderou-
se de Zacarias, filho do sacerdote Joiada. Ele se colocou diante do 
povo e disse: “Isto é o que Deus diz: ‘Por que vocês desobedecem 
aos mandamentos do SENHOR? Vocês não prosperarão. Já que 
abandonaram o SENHOR, ele os abandonará’”.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia90
O Antigo Testamento também indica, em textos considerados 
messiânicos, que o Espírito é o responsável pela capacitação do 
prometido:
•		Isaías 11:2 – “O Espírito [ruach] do SENHOR repousará sobre 
ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que 
traz conselho e poder, o Espírito [ruach] que dá conhecimento 
e temor do SENHOR”.
•		Isaías 61:1-3 – “O Espírito [ruach] do Soberano, o SENHOR, 
está sobre mim, porque o SENHOR ungiu-me para levar boas 
notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão 
com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e 
libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano 
da bondade do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; 
para consolar todos os que andam tristes e dar a todos os que 
choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da 
alegria em vez de pranto e um manto de louvor em vez de 
espírito deprimido. Eles serão chamados carvalhos de justiça, 
plantio do SENHOR, para manifestação da sua glória”.
Não temos informação sobre em que sentido havia em cada 
um que foi capacitado a compreensão ou consciência desse sopro 
inspirador e motivador sobre si para ações específicas. Os textos 
parecem representar uma interpretação dos fatos históricos entendidos 
como intervenções divinas por meio da instrumentalidade de pessoas.
4- Espírito: motivação, inclinação e sentimento
Uma noção próxima à ideia de capacitação especial, promovida 
pelo ruach, é aquela que procura traduzir uma influência sobre as 
pessoas provocando sentimentos e reações de comportamento e 
humor. Vejamos alguns exemplos:
•	Salmo 51:10-12 – “Cria em mim um coração puro, ó Deus, 
e renova dentro de mim um espírito [ruach] estável. Não me 
expulses da tua presença nem tires de mim o teu Santo Espírito 
[ruach]. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me 
com um espírito [ruach] pronto a obedecer”;
•	Isaías 29:10 – “O Senhor trouxe sobre vocês um [espírito de 
91
– ruach] sono profundo: fechou os olhos de vocês, que são os 
profetas; cobriu a cabeça de vocês, que são os videntes”;
•	Isaías 37:7 – “Porei nele um espírito [ruach] para que, quando 
ouvir uma certa notícia, volte à sua própria terra, e ali farei com 
que seja morto à espada”.
Mais importante, no entanto, para podermos compreender o que 
esses textos elaboram, e os que trataremos a seguir, é o uso mais amplo 
do termo ruach aplicado aos seres humanos. A palavra ruach, traduzida 
como espírito, indica o estado interior do ser humano, o seu íntimo, 
aquilo que concerne às suas emoções, sentimentos, vontades, desejos, 
etc. Essa aplicação tem direta relação com aspectos da respiração. 
Hans Wolff esclarece esse uso de ruach:
Se passamos a perguntar pela significação da r. [ruach] 
humana, não podemos ter uma concepção demasiadamente 
ampla do trajeto desde “respiração” até o espírito como órgão 
do conhecimento, da compreensão e do juízo. Com efeito, 
junto com o soprar do hálito, em primeiro lugar se deve ver o 
movimento dos sentimentos (Gemüt).
Quando a Rainha de Sabá viu a sabedoria de Salomão, o 
palácio, os alimentos, os funcionários, as suas vestes, os 
holocaustos no templo (1 Rs 10,5), “não havia mais r. nela”. 
Isto é, parou-lhe a respiração, perdeu o domínio, ficou fora 
de si. “A falta de r. caracteriza o estado de impotência, de 
admiração assoberbada”. Na r., manifesta-se a mentalidade. 
Elifás acusa Jó (15,13): porque voltas a tua r. contra Deus”, 
significando com isto a excitação, a irritação (LXX: thymós). 
Se, com persuasão bondosa a r. se “afrouxa” (Jz 8,3), com isto 
está cessando a excitação irada [...] O elemento característico 
da r. humana se revela a partir do fato de que r., as mais das 
vezes, significa o sofro forte do vento e a atividade vivificante 
e autorizadora de Javé. Por isso, r. não só é apropriada para 
exprimir disposições do coração, mas ainda mais para ser o 
portador de ações enérgicas da vontade (1975, pp.57-58).
Em outras palavras, a argumentação de Wolff gira em torno da 
conexão de ideias que vem da consideração da geração da vida por 
meio do sopro divino, que permite ao ser humano que ele respire e 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia92
mantenha-se vivo. Ora, a partir daí o que se tem é a percepção das 
mudanças de humor, sentimento, emoção e atitude associadas às 
variações na respiração. A respiração acelerada ou descompassada pode 
ser associada à ansiedade, nervosismo, medo, raiva, etc. Igualmente, a 
respiração lenta, profunda, controlada pode ser associada à paciência, 
calma, tranquilidade, etc. Uma vez que a respiração está relacionada 
ao ruach, a cultura hebraica utilizou o termo para designar essas 
variações ou diferentes estados de humor. O entendimento, então, 
ou a maneira de expressar esses fenômenos da psique humana foi 
afirmando, por exemplo, que a pessoa que está com raiva age sob a 
influência de um ruach raivoso. O mesmo serve para o efeito inverso 
quando está calma. Aqui não há a compreensão de que o ruach seja 
um ser angelical ou demoníaco, pessoal e com vontade própria, como 
podemos vir a ter a impressão mais tardiamente na teologia do Novo 
Testamento. Pelo contrário, algumas passagens do Antigo Testamentoindicam que mesmo aquilo que a teologia atual poderia entender 
como uma possessão ou ação demoníaca, os autores bíblicos atribuem 
a uma ação divina:
•	Juízes 9:22-24 – “Fazia três anos que Abimeleque governava 
Israel, quando Deus enviou um espírito [ruach] maligno 
entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém, e estes agiram 
traiçoeiramente contra Abimeleque. Isso aconteceu para que 
o crime contra os setenta filhos de Jerubaal, o derramamento 
do sangue deles, fosse vingado em seu irmão Abimeleque e 
nos cidadãos de Siquém que o ajudaram a assassinar os seus 
irmãos”.
•	1 Samuel 16:13-15, 23 – “Samuel apanhou o chifre cheio de 
óleo e o ungiu na presença de seus irmãos, e, a partir daquele 
dia, o Espírito [ruach] do Senhor apoderou-se de Davi. E Samuel 
voltou para Ramá. O Espírito [ruach] do Senhor se retirou de 
Saul, e um espírito [ruach] maligno, vindo da parte do Senhor, 
o atormentava. Os oficiais de Saul lhe disseram: ‘Há um espírito 
[ruach] maligno, mandado por Deus, te atormentando’ [...] 
Sempre que o espírito [ruach] mandado por Deus se apoderava 
de Saul, Davi apanhava sua harpa e tocava. Então Saul sentia 
alívio e melhorava, e o espírito [ruach] maligno o deixava”.
93
•	1 Reis 22:23 – “E o Senhor pôs um espírito [ruach] mentiroso 
na boca destes seus profetas. O Senhor decretou a sua desgraça”;
Nesses e em outros textos, a teologia do Antigo Testamento, que 
considera a unicidade de Javé e sua soberania sobre toda a criação, 
atribui ao seu sopro ou ao controle do seu vento as mudanças e direções 
na história humana, mesmo no nível pessoal. Seria o vento de Deus que 
induziria, quando assim desejava, pessoas a atitudes, comportamentos 
e ações. Sob outra ótica, independente da intervenção divina, o ser 
humano poderia ser descrito como agindo de acordo com os diferentes 
ventos (ruach) que designavam o seu estado interior. Talvez facilite 
o nosso entendimento compararmos esse uso a expressões de nossa 
própria linguagem. Por exemplo, quando falamos que fulano “está 
inspirado” ou aquela pessoa “tem espírito aventureiro” não estamos 
afirmando que haja qualquer influência proposital de alguma força ou 
de um ser agindo na interioridade de alguém. Estamos simplesmente 
nos referindo a um estado de humor ou disposição que nos leva a agir 
conforme esse estado.
Um problema talvez surja atrelado ao fato de usarmos a 
tradução do termo hebraico ruach para o Português como espírito. 
Ao invés de traduzirmos ruach como vento, ao usarmos a expressão 
espírito acabamos carregando uma interpretação resultante de um 
entendimento teológico formulado a partir da teologia do Novo 
Testamento, que por sua vez recebeu influência da apocalíptica. 
Esse entendimento atribui à palavra espírito uma característica de 
pessoalidade, ou seja, diferente da palavra vento. Espírito teria para 
muitos de nós características próprias de independência, vontade 
própria, pensamento e ação conforme entendemos pertencerem às 
pessoas ou seres angelicais e demoníacos, mas que não encontramos 
na teologia do Antigo Testamento. Mesmo quando tratamos do ruach 
de Deus, ou seja, do espírito de Deus, não há nessas referências essas 
características pessoais e de independência. O ruach de Deus nada 
mais é do que uma expressão de sua ação, representada pelo ar em 
movimento ou pelo vento, sem que represente uma outra pessoa, 
ainda que ligada à própria divindade. Não encontramos no ruach 
do Antigo Testamento subsídios suficientes para a construção da 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia94
pessoa do Espírito Santo, conforme entendemos na atualidade, como 
consequência de compreensões elaboradas no Novo Testamento e da 
doutrina da Trindade elaborada pela igreja cristã.
Conclusão
O que podemos concluir desse breve resumo da apresentação 
do Espírito de Deus pelo Antigo Testamento é de que ele sintetiza as 
diversas ações de Deus, que se manifestava de forma invisível, porém, 
perceptível. Essas ações consideravam o mesmo entendimento sobre o 
poder de Deus como o ar em movimento, incontrolável, agindo sobre 
as pessoas e sobre o mundo que as cercava. Podemos dizer, no entanto, 
que essa concepção foi tratada como parcial, havendo o preparo para 
a expectativa de algo mais próximo e profundo no trato com o ser 
humano. Na promessa do profeta Joel, observamos essa indicação que 
viria a se concretizar após a ressurreição de Jesus Cristo, inaugurando 
o tempo da igreja: “E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre 
todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos 
terão sonhos, os jovens terão visões. Até sobre os servos e as servas 
derramarei do meu Espírito naqueles dias” (Joel 2:28-29).
Referências
FISHER, Milton C. 1433 sF:n” (nasham). In: HARRIS, R. Laird (org.). Dicionário 
Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova: 1998.
PAYNE, J. Barton. 2131a x:Wr (rûah). In: HARRIS, R. Laird (org.). Dicionário 
Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova: 1998.
SEPÚLVEDA, Juan. Características teológicas de um pentecostalismo autóctone: 
o caso chileno. In: GUTIÉRREZ, Benjamin; CAMPOS, Leonildo S. Na força do 
Espírito. São Paulo: Pendão Real, 1996.
WOLFF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 
1975.
95
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 10
O Espírito Santo no Novo Testamento
Introdução
Continuando a fundamentação bíblica do Espírito 
Santo, iniciada na unidade anterior com a investigação do 
tema no Antigo Testamento, esta unidade focará o Novo 
Testamento, procurando identificar como os autores o 
apresentam. Vale lembrar que devemos manter a mesma 
intenção de comparar aquilo que já trazemos em nossa 
experiência de vida com o que está sendo apresentado na 
disciplina.
Objetivos
1) Promover uma visitação aos conceitos bíblicos 
sobre o Espírito Santo no Novo Testamento;
2) Preparar um ambiente próprio para a revisão, 
atualização e afirmação da vivência com o Espírito Santo 
ao longo da disciplina.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia96
Dando continuidade à fundamentação bíblica do Espírito Santo, 
tendo visto na unidade anterior como o Antigo Testamento trata o 
tema, voltaremos a nossa atenção aos relatos do Novo Testamento na 
tentativa de construirmos uma doutrina mais ampla.
Se no Antigo Testamento o Espírito de Deus aparece como a 
síntese das diversas ações de Deus agindo sobre as pessoas e o mundo 
de então, representado, principalmente, pela figura do vento, no Novo 
Testamento ele receberá uma coloração pessoalizada. Já no cumprimento 
da promessa do profeta Joel, registrado no livro de Atos vemos essa 
presença mais comunitária e de ação íntima sobre as pessoas.
1- Espírito: nova criação e fonte de nova vida
Os autores do Novo Testamento usaram a palavra grega pneuma 
para traduzir a ideia de ruach desenvolvida no Antigo Testamento. 
Pneuma, assim como ruach, denotava a força natural e vital que 
agia como um fluxo de ar ou sopro do vento. Na cultura grega, em 
geral, pneuma também se referia aos movimentos de respiração, 
de inspirar e expirar e, dessa forma, representava o sopro que de 
alguma maneira enchia o ser humano de inspiração e entusiasmo. 
Contudo, considerando a aplicação do termo pelos autores do Novo 
Testamento, esse mesmo termo recebeu um significado maior que 
o presente na cultura grega para se adaptar à revelação bíblica ou à 
concepção do Espírito de Deus. Com o entendimento obtido de 
ruach no Antigo Testamento, a expressão pneuma passou a carregar 
também o significado do ruach proveniente do próprio Deus agindo 
na história humana; o vento que dá força vital ao ser humano e seus 
desdobramentos. Com o apóstolo Paulo, a ação do pneuma passou a 
caracterizar a nova existência ou nova vida a partir do relacionamento 
com o redentor Jesus. Uma representação dessa ideia é elaborada no 
Evangelho de João no diálogo entre Jesus e Nicodemus. Ali, dá-se a 
entender que o Espírito de Deus estava iniciandouma nova criação 
humana comparável, na essência, a relatada no livro de Gênesis:
Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um 
dos principais dos judeus. Este, de noite, foi ter com Jesus e 
lhe disse: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; 
97
porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus 
não estiver com ele. A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em 
verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode 
ver o reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um 
homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre 
materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, 
em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito 
[pneumatos] não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido 
da carne é carne; e o que é nascido do Espírito [pneumatos] é 
espírito [pneuma]. Não te admires de eu te dizer: importa-vos 
nascer de novo. O vento [pneuma] sopra onde quer, ouves a sua 
voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo 
o que é nascido do Espírito [pneumatos] (João 3:1-8).
Se o ruach foi o vento criador da vida na teologia do Antigo 
Testamento, o pneuma assume essa função, agora com a ideia de geração 
de uma nova vida. Jesus pode ser entendido como o primogênito dessa 
nova criação do pneuma divino como vemos no relato de Mateus 
1:20: “Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu, em 
sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas 
receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito 
Santo”. Ele não apenas é gerado pelo Espírito como também guiado 
e capacitado durante o seu ministério (Mateus 4:1; Lucas 4:16-21). 
Obviamente que o tratamento simbólico e metafórico dessa ação do 
pneuma quer expressar um paralelo entre a criação da vida humana, 
conforme descrita em Gênesis, e a criação de uma nova forma de 
vida, incluindo a constatação da falência da vida anterior causada pela 
ação do pecado. Essa ideia pode parecer complexa ou desconexa, uma 
vez que seria o mesmo vento gerando, em um primeiro momento, 
a vida como um todo e, em um segundo momento, uma nova vida 
sobre aquela que ainda está em curso. Sem dúvida, temos o mesmo 
vento, no sentido de sua origem, que é Deus, realizando duas ações 
semelhantes, contudo, não podemos tratar o assunto como se fosse 
uma lei científica. Podemos observar no desenvolvimento teológico 
do Antigo Testamento que o vento de Deus sopra e realiza diferentes 
coisas. O mesmo ruach é capaz de representar diferentes ações. 
Assim, aquilo que o pneuma faz é gerar uma nova forma de vida, 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia98
inclusive entendendo-a como diferente da vida biológica, expressa 
pela respiração. A vida que o pneuma gera tem a ver com uma nova 
disposição de mente e coração, ou seja, de disposição interior, para agir 
obedientemente conforme os mandamentos e orientações de Deus, 
rejeitando a ação danosa do pecado. Essa nova vida, inaugurada por 
esse mesmo vento, mas com um diferente sopro, também representa 
uma marca, um selo, um penhor, uma garantia para alcançar ainda 
outra forma de vida futura apoiada no conceito de ressurreição. É 
nessa esperança que os discípulos de Jesus descansam e motivam-se 
para a missão que lhes é proposta. 
2- Espírito: representação de pessoalidade
Essa maior proximidade com o vento de Deus, por meio do sopro 
que conduz as pessoas por uma nova vida, de maneira mais presente 
e constante, consistiu em uma grande quebra de paradigma, uma vez 
que o relacionamento das pessoas com o Deus do Antigo Testamento 
era muito distante. Estar diante de Deus e conversar com ele, até então, 
havia sido privilégio de muito poucos. Mesmo estar diante daquilo 
que representava a sua presença, como no caso da Arca da Aliança ou 
do Santo Lugar no Templo, era algo limitado ao sumo sacerdote e que 
ocorria apenas uma vez ao ano.
Pode-se dizer que a grande maioria dos textos do Novo 
Testamento afirma o mesmo entendimento proveniente do Antigo 
Testamento sobre o ruach. Entretanto, o principal diferencial no Novo 
Testamento é que o vento de Deus, agora vento Santo, recebe um caráter 
mais pessoal. No batismo de Jesus, encontramos essa noção sobre o 
pneuma, neste evento, ele aparece na forma simbólica e corpórea de 
uma pomba associada a uma voz: 
Quando todo o povo estava sendo batizado, também Jesus o foi. 
E, enquanto ele estava orando, o céu se abriu e o Espírito Santo 
desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba. Então veio 
do céu uma voz: “Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado” 
(Lucas 3:21-22). 
Há que se ressaltar que Jesus, antes de sua morte, elaborou uma 
nova compreensão do ruach (pneuma) para os seus discípulos. Insisto 
99
na referência ao ruach porque devemos lembrar que estamos tratando 
de um ambiente teológico de judeus, que falavam em hebraico ou 
aramaico, e que mais tarde registraram suas histórias em grego por causa 
do contexto da igreja gentílica. Com Jesus, o ruach passou a representar 
um substituto de sua presença entre eles. Jesus, o Deus encarnado, 
haveria de morrer e deixá-los aparentemente sem a presença do seu 
mestre e Senhor. Assim, ele os conforta dizendo que não os deixaria sós, 
ou melhor, não os deixaria órfãos (João 14:18). Importante notar esse 
aspecto de pessoalidade por meio da paternidade substitutiva. Aquele 
que viria ocupar o seu lugar vacante não seria a simples ação impessoal 
de um vento e sim uma companhia semelhante a de um pai. Contudo, 
a imagem mais reforçada, presente na mesma passagem bíblica, e que 
foi desenvolvida no Novo Testamento, é a do Espírito como parakletos, 
conforme registrada no Evangelho de João: “E eu pedirei ao Pai, e ele 
dará a vocês outro Conselheiro [parakleton] para estar com vocês para 
sempre, o Espírito [pneuma] da verdade. O mundo não pode recebê-lo, 
porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive 
com vocês e estará em vocês” (João 14:16-17).
A tradução de parakletos como conselheiro ou consolador não 
é a mais apropriada. O termo significava a função de um advogado 
que representava ou ajudava alguém perante uma situação judicial 
ou de conflito. Na fala de Jesus o ruach é enviado para substituí-lo 
nesta função de intermediador entre os seus discípulos e Deus Pai, 
bem como entre eles e o mundo antagônico. Por isso, ele menciona 
que providenciará outro intermediador. Dentre as suas funções de 
intermediação, agora denominado de Espírito da verdade (pneuma 
tes aletheias), ele mantém a característica de fonte de inspiração, 
semelhante ao que acontecia no Antigo Testamento, não tanto pessoal, 
tendo a seguinte responsabilidade:
Mas, quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a 
verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e 
anunciará a vocês o que está por vir. Ele me glorificará, porque 
receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês. Tudo o que 
pertence ao Pai é meu. Por isso eu disse que o Espírito receberá 
do que é meu e o tornará conhecido a vocês (João 16:13-15).
A condução à verdade representa a tomada de posição existencial 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia100
do ser humano frente à pregação do evangelho concernente ao mistério 
de Cristo e sua obra salvífica: 
Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do 
juízo. Do pecado, porque os homens não creem em mim; da justiça, 
porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; e do juízo, porque 
o príncipe deste mundo já está condenado (João 16:8-11).
Embora Jesus pareça ter sido o primeiro a dar traços de 
pessoalidade ao ruach, foi o apóstolo Paulo quem mais contribuiu 
para essa caracterização. É curioso notar que em sua elaboração do 
tema há poucas referências desse tipo, no entanto, elas acabaram por 
dominar a compreensão que atualmente muitos crentes possuem. Por 
exemplo, em Romanos Paulo faz uma referência à mente (intenção) 
do pneuma, o que é uma característica própria de pessoas: “E aquele 
que sonda os corações conhecea intenção [phronema] do Espírito 
[pneumatos], porque o Espírito intercede pelos santos de acordo 
com a vontade de Deus” (Romanos 8:27). Já na carta aos efésios, ele 
se refere ao pneuma como passível de ser entristecido ou de sofrer: 
“Não entristeçam [lupeite] o Espírito [pneuma] Santo de Deus, com o 
qual vocês foram selados para o dia da redenção” (Efésios 4:30). Ainda 
outro texto isolado, não de Paulo mas de Tiago, contribui para esse 
entendimento ao dizer figurativamente que o pneuma fica enciumado, 
ou seja, atribuindo a ele um sentimento humano: “Ou vocês acham 
que é sem razão que a Escritura diz que o Espírito [pneuma] que ele fez 
habitar em nós tem fortes ciúmes [phronon]?” (Tiago 4:5).
Somados a esses textos há expressões antropomórficas, quer 
dizer, em forma humana, para se referir ao pneuma, tais como as que 
aprecem nos seguintes textos:
•	 João 14:26 – “Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o 
Pai enviará em meu nome, ensinará [didaxei] a vocês todas as 
coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu disse”;
•	João 15:26 – “Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a 
vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, 
ele testemunhará [marturesei] a meu respeito”;
•	 João 16:13 – “Mas, quando o Espírito da verdade vier, ele os 
guiará [odogesei] a toda a verdade. Não falará [lalesei] de si mesmo; 
101
falará apenas o que ouvir, e anunciará a vocês o que está por vir”;
•	 Romanos 8:26 – “Da mesma forma o Espírito nos ajuda 
[sunantilambanetai] em nossa fraqueza, pois não sabemos como 
orar, mas o próprio Espírito intercede [hyperentugchisanei] por 
nós com gemidos [stenagmois] inexprimíveis”;
•	 Gálatas 5:18 – “Mas, se vocês são guiados [agesthe] pelo 
Espírito, não estão debaixo da Lei”;
•	Hebreus 3:7 – “Assim, como diz [legei] o Espírito Santo: ‘Hoje, 
se vocês ouvirem a sua voz’”.
Essas expressões colaboram para o entendimento de uma 
pessoalidade do vento, porém, ao mesmo tempo, também concordam 
com as formas de ações impessoais apresentadas no Antigo Testamento, 
não sendo, portanto, concludentes em si.
No fundo, a pessoalidade do Espírito se torna cada vez mais 
relevante à medida que expomos a carência humana por um 
relacionamento com Deus expresso em nossa experiência subjetiva. 
Foi com base nessas experiências que se firmou a concepção da 
pessoalidade do Espírito, muito mais do que com uma doutrina bíblica 
claramente exposta. É natural, por assim dizer, que tentemos encontrar 
no Espírito Santo essa figura próxima, representativa de Deus, com 
quem tentamos estabelecer um relacionamento à semelhança do que 
temos com outros seres humanos. A dificuldade, no entanto, é que 
ele permanece como vento (ruach ou pneuma) o que determina um 
abismo intrínseco com os seres humanos, ou seja, tornando impossível 
o mesmo tipo de relacionamento, mas ainda assim possibilitando a 
chamada comunhão mística.
3- Espírito: propulsor da Missão
A principal característica do Espírito Santo parece ser o de 
continuador do ministério de Cristo e impulsionador da sua missão. 
Isso fica claro no comissionamento de João 20:21-22: “Novamente 
Jesus disse: ‘Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os 
envio’. E com isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebam o Espírito Santo’”.
Essa face do Espírito fica ainda mais latente nos relatos do livro de 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia102
Atos e nas cartas do apóstolo Paulo. São nestes textos que percebemos 
a enorme quantidade de menções ao Espírito e de interpretações dos 
acontecimentos à luz da sua participação e condução dos fatos no 
desenvolvimento da igreja e alcance aos gentios. Por hora, ficaremos 
apenas com essa afirmação para voltarmos a ela mais adiante em duas 
unidades que estudarão o Espírito no livro de Atos.
Conclusão
A mais clara diferenciação entre aquilo que o Antigo Testamento 
e o Novo apresentam sobre o Espírito é a paulatina aproximação dele 
ao ser humano. Enquanto a abordagem do Antigo Testamento mostra 
algo distante e impessoal, o Novo revela algo mais próximo e pessoal. 
Muito embora sejam abordagens distintas, elas compõem a doutrina 
do Espírito de Deus que se torna também o Espírito de Cristo e 
continuador de sua missão.
103
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 11
O Espírito Santo e a Trindade
Introdução
O tema do Espírito Santo como integrante da Trindade 
sempre foi de grande importância para a fé da igreja cristã. 
Já no tempo dos patriarcas da igreja procurou-se definir esta 
condição do Espírito principalmente pela percepção de sua 
ação por meio do avanço missionário do cristianismo. O 
estudo, no entanto, nos desafia a adentrar um dos campos 
mais misteriosos da teologia por conta das dificuldades de 
expressão em linguagem humana. Ainda assim, é a partir 
da compreensão do Espírito em sua relação com o Pai e 
com o Filho que podemos melhor entender a sua ação no 
mundo e na igreja.
Objetivos
1) Fundamentar biblicamente a perspectiva trinitária 
da fé cristã com especial ênfase para o Espírito Santo;
2) Explorar a relação do Espírito Santo com a pessoa 
do Pai e do Filho.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia104
Nas unidades anteriores verificamos a revelação progressiva do 
Espírito ao longo da Bíblia. O Antigo Testamento aponta para um 
Deus único sem qualquer indicação de outras “pessoas” que pudessem 
compor essa deidade. Vimos que o entendimento do Espírito passou 
da ideia de uma força da parte de Deus, que produz uma ação ou um 
efeito, para a ideia de uma pessoa que representa o ser divino, quer o 
Pai, quer o Filho.
Igualmente a figura do Filho inicia-se no Antigo Testamento com 
a elaboração do Messias, em função da ideia do ungido ou ungidos, 
e depois é acrescida de características divinas, porém, sem muitos 
contornos que indiquem a sua pertença a um possível Deus trinitário. 
Com o advento de Jesus, o Deus Javé se torna o Pai do Messias divino-
humano. Por consequência, Jesus o Cristo, ou o Messias, se torna o 
Filho. Nessa relação paternal a participação do Espírito acontece na 
geração do Filho e no acompanhamento do seu ministério terreno. 
Mais adiante na compreensão histórica da igreja, o Espírito é entendido 
como o Espírito de Cristo. O que temos, portanto, é uma formulação 
não muito estruturada ou clara que merece nossa atenção e tentativa 
de compreensão em maior profundidade.
1- A elaboração da Trindade
Nos relatos do Novo Testamento, o Filho é relacionado ao Espírito 
e este ao Pai completando a noção de uma intricada relação entre 
esses três representantes do ser divino. Em pelo menos duas fórmulas, 
a do batismo e da bênção, encontramos a associação das três pessoas 
da divindade trinitária, expressas como Pai, Filho e Espírito Santo, 
respectivamente: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, 
batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 
28:19) e “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão 
do Espírito Santo sejam com todos vocês” (2 Coríntios 13:13).
A nomeação de Deus como Pai, Aba em hebraico (Marcos 
14:36), está associada especificamente à forma de tratamento aplicada 
por Jesus a Javé, o Deus de Israel, criador de todas as coisas e senhor 
da história. Nos relatos do Novo Testamento, o Espírito se tornou o 
centro da verificação da presença e ação de Deus sobre a sua nova 
105
comunidade, a igreja, principalmente percebido pelos apóstolos, 
conforme registrado no livro de Atos.
Ora, a fórmula tríplice praticamente assumiu a nominação de 
Deus, antes conhecido como Javé, dada a importância e vivência com 
essas três realidades. Deus, então, passou a ser chamado Pai, Filho 
e Espírito Santo representando as funções de Criador, Redentor e 
Santificador. Robert Jenson comenta que:
Em vista da linguagem disponível naquela época e da lógica 
do que as Escrituras hebraicas falam sobe Deus, a invocação, 
exortação e explicação cristãs parecem ter tomado uma forma 
triúna meramente seguindo o caminhoda menor dificuldade e 
totalmente sem necessidade de uma reflexão explícita sobre o 
próprio padrão (1990, p.124).
Dessa forma, os autores foram relacionando entre si o Pai, o 
Filho e o Espírito à medida que expunham seus ensinamentos à igreja 
primitiva. Exemplos disso são:
•	2 Coríntios 1:21-22 – “Ora, é Deus que faz que nós e vocês 
permaneçamos firmes em Cristo. Ele nos ungiu, nos selou 
como sua propriedade e pôs o seu Espírito em nossos corações 
como garantia do que está por vir”;
•	Efésios 2:18 – “pois por meio dele [Cristo] tanto nós como 
vocês temos acesso ao Pai, por um só Espírito”;
•	Efésios 5:18-20 – “Não se embriaguem com vinho, que leva à 
libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre 
vocês com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando 
de coração ao Senhor, dando graças constantemente a Deus Pai por 
todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”;
•	Judas 20-21 – “Edifiquem-se, porém, amados, na santíssima 
fé que vocês têm, orando no Espírito Santo. Mantenham-se no 
amor de Deus, enquanto esperam que a misericórdia de nosso 
Senhor Jesus Cristo os leve para a vida eterna”.
 A partir daqui, vale relembrar alguns desenvolvimentos 
teológicos sobre a Trindade já estudados na disciplina de Teologia 
Sistemática I. A Trindade foi alvo temático de discussão nos primeiros 
concílios da igreja cristã representada na afirmação do credo niceno-
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia106
constantinopolitano: “Cremos em um só Deus [...] E no Espírito Santo, 
Senhor e vivicador, o qual procede do Pai e do Filho; que juntamente 
com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; que falou pelos profetas”. 
A expressão “e do Filho” — filioque em Latim — foi acrescentada mais 
tarde pelo ramo ocidental da igreja cristã. Expressões como essa não 
explicam claramente o significado prático que isso tem para a teologia, 
mas ainda assim somos desafiados a mergulhar nesse mistério visando 
alinhar a nossa perspectiva ministerial e missiológica.
Desde Tertuliano, que primeiramente formulou a proposta 
filosófica de Deus como subsistindo como uma substância e três 
pessoas (una substantia – tres personae), temos procurado compreender 
o Espírito por essa via. Porém, assim como não identificamos 
explicitamente a pessoa de Jesus no Antigo Testamento, também não 
percebemos o Espírito como uma pessoa naqueles textos, embora 
ambos venham a ser mais tarde associados a Deus compondo a noção 
inicial da doutrina da Trindade. O entendimento de pessoa que 
estamos tratando aqui é aquele que a identifica como mente e vontade 
individual e independente, representando o pensar e o agir. Um fator 
complicador para a nossa compreensão do tema da personalidade 
está no conceito moderno de indivíduo, ou de individualidade, que 
não condiz com a discussão teológica sobre a Trindade. Para nós, 
o indivíduo foi alçado a uma condição de autonomia, quase que 
autosubsistente e independente, ainda que isso não esteja de acordo 
com a sua realidade vivencial como ser social.
Uma das propostas para a descrição do modo de ser da Trindade 
é a da perichoresis. Esse termo cunhado pelos pais da igreja, cuja 
tradução seria mútua interpenetração, procura apresentar a Trindade 
como um ser-comunidade em que tudo é unido e compartilhado. Nessa 
maneira de existir não há espaço para a concepção do individualismo 
moderno e das consequências que isso traz para o relacionamento 
entre as pessoas. Ao pensarmos a pessoa moderna queremos defender 
uma autonomia total de cada indivíduo, mas no caso do conceito de 
Trindade isso não se aplica. Apesar de serem três, eles se interpenetram 
de forma que um não existe sem os outros, um não pensa sem os outros 
e um não age sem os outros.
Nossa investigação, portanto, segue no sentido de olhar para 
107
as referências sobre o Espírito, e sua inter-relação com o Pai e o 
Filho, verificando como isso afeta a nossa fé, a vivência na igreja e a 
participação na Missão de Deus. Ao nos aventurarmos a investigar 
esse mistério não buscamos soluções prontas, mas uma possível 
compreensão do Espírito a partir de sua pertença à Trindade. Vale 
lembrar, como comentado anteriormente, que a pneumatologia 
é, ultimamente, muito marcada pela experiência comunitária e 
individual antes de ser elaborada pela teologia bíblica. Há, no entanto, 
uma dificuldade ainda maior em experimentar a Trindade e explicá-la 
por essa via de entendimento mais sensorial.
Procuraremos, então, investigar a participação, função e 
características do Espírito em sua relação com as outras pessoas da 
Trindade. A princípio, devemos lembrar que investigar a Trindade é 
tentar entrar em um dos maiores mistérios da teologia uma vez que não 
há qualquer declaração doutrinária explícita na Bíblia sobre ela.
2- O Espírito Santo e o Pai
A associação entre o Espírito e o Pai é a mais fácil de estabelecer 
por conta de todo o percurso do Antigo Testamento. Como visto, o 
Espírito é apresentado como uma manifestação impessoal da ação de 
Deus utilizando a metáfora do vento. Ali, o Espírito de Deus é apenas a 
designação de sua ação sem qualquer outra identidade ou preocupação 
de distinção de algo independente do Deus único Javé.
Já no Novo Testamento, alguns textos do evangelho de João 
indicam que o Espírito é enviado pelo Pai: “Mas o Conselheiro, o 
Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinará a vocês todas 
as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu disse” (João 14:26). 
Nesse sentido, há uma íntima associação com a construção do Antigo 
Testamento em que o Espírito é a manifestação do próprio Deus ou 
que o Espírito é soprado por Deus. Essa é a conexão mais óbvia e 
imediata sem grandes espaços para discussões. A dificuldade surge 
quando tentamos explicar a existência do Espírito como uma pessoa 
diferente do Pai. Nesse texto de João, o Espírito Santo é chamado de 
Conselheiro (parakletos) trazendo um componente de pessoalidade e, 
por que não dizer, de distinção.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia108
A relação simbiótica entre o Espírito e o Pai, como duas pessoas 
distintas, só pode ser elaborada na presença da terceira pessoa que é 
o Filho. Em outras palavras, a relação de pessoalidade do Espírito 
com o Pai só passa a acontecer quando nos damos conta da pessoa 
do Filho. Não que essa definição ou caracterização do Espírito seja 
óbvia ou a melhor representação tomando-se por base as Escrituras. A 
compreensão de afirmações como essas esbarra em nossa limitação em 
tentarmos absorver conceitos a partir de pressupostos humanos. Como 
definir Deus, que é espírito, não restrito ao espaço-tempo humano ou às 
leis da natureza criada, de forma a ser apreendido pela mente humana? 
Como entender realidades infinitas em nossa mente finita?
Mesmo havendo uma proeminência da figura do Pai na Trindade e 
sendo o Espírito antes denominado de Espírito de Deus, não há entre essas 
duas pessoas distintas, assim entendidas, independência na existência, 
intenção e ação. O que um faz é o que o outro quer. Um age conforme 
aquilo que o outro deseja. Não se pode, assim, pensar no Espírito Santo 
como um Deus à parte do Pai ou que mereça alguma preferência ou com 
quem se desenvolva um pretenso relacionamento especial. O Espírito é, 
então, um com o Pai e faz as coisas próprias do Pai.
3- O Espírito Santo e o Filho
A primeira e mais clara associação entre o Espírito Santo e o 
Filho aparece logo nos relatos sobre o nascimento de Jesus de Nazaré. 
O texto de Mateus 1:18-20 afirma que Jesus foi gerado no ventre de 
Maria, sua mãe, pelo Espírito Santo:
Foi assim o nascimento de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava 
prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, 
achou-se grávida pelo Espírito Santo. Por ser José, seu marido, 
um homem justo, e não querendo expô-la à desonra pública, 
pretendia anular o casamento secretamente. Mas, depois de ter 
pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor em sonho e 
disse: “José, filho de Davi,não tema receber Maria como sua 
esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo.
A ideia do Espírito como gerador de vida não é novidade se 
observarmos a descrição de sua participação na criação do universo 
109
conforme registrado no livro de Gênesis. Lembramos que esse tema já 
foi desenvolvido em uma unidade anterior. No entanto, a dificuldade 
que o texto de Mateus apresenta é a que ali o Espírito Santo se torna 
gerador do Filho em forma humana. Considerando que o Filho 
compõe com o Espírito a Trindade, ele estaria como que gerando a si 
mesmo. Para não cairmos na armadilha de iniciarmos uma divagação 
filosófica sobre essa consideração, poderíamos apenas nos restringir 
a imaginar que o relato quer indicar apenas que a encarnação é um 
projeto divino trinitário. O Pai, por meio do seu Espírito, encarna-se 
na pessoa de Jesus de Nazaré. Deus por meio de seu vento realizador 
gera a vida do Messias no ventre de Maria.
 Mantendo essa ideia em mente, vemos algo semelhante 
ocorrendo no episódio do batismo de Jesus. Ali o Espírito aparece em 
forma de pomba intermediando a relação de amor entre o Filho e o 
Pai: “Assim que saiu da água, Jesus viu o céu se abrindo e o Espírito 
descendo como pomba sobre ele. Então veio dos céus uma voz: ‘Tu és 
o meu Filho amado; de ti me agrado’” (Marcos 1:10-11). Esse relato 
não parece querer construir qualquer nova concepção doutrinária 
acerca do Espírito senão a de afirmar a própria trindade no início do 
ministério de Cristo.
Na sequência do batismo, o Espírito guia Jesus ao deserto para 
ser tentado de acordo com o relato de Lucas 4:1-2: “Jesus, cheio do 
Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, 
onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo Diabo. Não comeu nada 
durante esses dias e, ao fim deles, teve fome”. Na perspectiva de Lucas, 
a condução do Espírito Santo capacita Jesus com o poder divino: 
“Jesus voltou para a Galileia no poder do Espírito, e por toda aquela 
região se espalhou a sua fama” (Lucas 4:14). Essa capacitação irá ser 
permanente ao longo de todo o seu ministério, oficialmente iniciado 
após o batismo e tentação, explicada em mais detalhes pelo evangelista 
no texto seguinte:
Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado e no dia de sábado entrou 
na sinagoga, como era seu costume. E levantou-se para ler. Foi-
lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abriu-o e encontrou o 
lugar onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, 
porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia110
me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação 
da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano 
da graça do Senhor”. Então ele fechou o livro, devolveu-o ao 
assistente e assentou-se. Na sinagoga todos tinham os olhos fitos 
nele; e ele começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu a Escritura 
que vocês acabaram de ouvir” (Lucas 4:16-21).
É interessante observar que o texto de Lucas faz uma conexão imediata 
entre aquele momento e o da aplicação do texto de Isaías 61:1-2, reforçando 
a condição do Espírito estar sobre Jesus. Ao citar a passagem de Isaías, o 
Espírito de Deus, revelado no Antigo Testamento, agora identificado como 
Espírito Santo, se mostra, então, como o capacitador de Jesus. O texto 
parece expressar a ideia de habitação do Espírito com Jesus (shekiná) e a 
partir daí realiza-se uma simbiose tornando-se este, também, o Espírito de 
Cristo, conforme afirma o apóstolo Paulo em Romanos 8:9. Essa presença 
constante é sem medida, como informa João 3:34, mas não o torna um 
super-homem. Importante notar um entendimento sutil que parece indicar 
que o Espírito não é uma propriedade de Jesus, e sim a sua força motriz.
Ora, esse Espírito que acompanhava Jesus durante a sua vida e 
ministério foi repassado aos seus discípulos após a sua ressurreição 
transmitindo a ideia de que ele provinha do próprio Jesus: “Novamente 
Jesus disse: ‘Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio’. E 
com isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebam o Espírito Santo’ (João 20:21-
22). Agora, não era apenas o Espírito de Deus, mas sendo soprado por Jesus 
há o reforço da ideia de que ele também era o Espírito de Cristo.
Observamos que o Espírito está presente desde a geração de Jesus 
acompanhando-o por toda a sua vida e ministério. O que podemos nos 
perguntar é onde estava o Espírito na morte de Cristo uma vez que o 
texto de 1 Pedro 3:18 parece indicar que foi o Espírito quem promoveu a 
ressurreição: “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, 
o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, 
mas vivificado pelo Espírito [...]”. Seguindo essa ordem lógica, o Espírito 
acompanha Jesus também em seu sacrifício ao sustentá-lo e sofrer com ele 
ao longo da via crucis.
O que concluímos com essa abordagem da relação entre o 
Espírito e o Filho é que a pneumatologia deve ser vista mutuamente 
com a cristologia. Uma vez que o Espírito Santo é o Espírito de Cristo, 
muito pode ser apreendido ao compreendermos o próprio Cristo. 
111
Por essa razão, em uma perspectiva mais missiológica, a função do 
Espírito, na ausência do Filho encarnado entre os seres humanos, é a 
de promover a sua missão e glorificação:
Tenho ainda muito que dizer, mas vocês não o podem suportar 
agora. Mas, quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a 
toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que 
ouvir, e anunciará a vocês o que está por vir. Ele me glorificará, 
porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês 
(João 16:12-14).
4- O Espírito Santo por si mesmo
A intenção em investigar o Espírito a partir da Trindade é 
oferecer maior consistência à sua doutrina, procurando evitar possíveis 
equívocos, como já cometidos no passado da teologia, ao tratá-lo como 
uma divindade à parte do Pai e do Filho. Ainda hoje podemos observar 
em algumas expressões teológicas essa tendência que acaba por 
restringir a compreensão bíblica ampla do Espírito. Isso talvez ocorra 
por causa das outras informações que temos, provenientes também 
de textos bíblicos, que tratam de ações do Espírito mais voltadas para 
a interioridade e individualidade do ser humano. Ao querermos, por 
assim dizer, priorizar essas ações com uma abordagem desassociada 
do contexto mais amplo, que provém da doutrina trinitária, acabamos 
por fazer do Espírito um deus controlado por nossas preferências.
Moltmann sugere algumas metáforas para as experiências do 
Espírito conforme apresentadas nas Escrituras:
1. as metáforas de pessoas: O Espírito como Senhor, como mãe 
e como juiz;
2. as metáforas de forma: O Espírito como energia, como 
espaço e como figura;
3. as metáforas de movimento: O Espírito como vento 
impetuoso, como fogo e como amor;
4. as metáforas místicas: O Espírito como fonte de luz, como 
água e como fertilidade (MOLTMANN 1998, p. 251).
A maioria dessas metáforas ilustram ações de Deus sem a 
preocupação de identificação do Espírito como participante da 
Trindade. Diante do exposto, devemos nos perguntar se haverá 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia112
possibilidade de entendermos o Espírito Santo de forma autônoma. Em 
outras palavras, é possível desenvolvermos uma pneumatologia que não 
inclua intrinsecamente sua relação com as outras pessoas da Trindade?
Das três pessoas da Trindade, o Espírito Santo é a menos 
explorada biblicamente como uma pessoa distinta. Deus Pai é 
tipicamente o centro do Antigo Testamento e Jesus Cristo o centro 
do Novo, já o Espírito é, por assim dizer, a pessoa tímida que pouco 
aparece mas que a tudo permeia. O Espírito é a presença de Deus no 
meio do seu povo, em substituição à presença encarnada do Filho, 
para conforto e capacitação no cumprimento da missão de Deus e 
do ministério de Cristo. Ele é o elo entre os membros da família de 
Deus; é o promovedor desse estado de comunhão à semelhança da 
comunidade perfeita representadapela Trindade. É, por excelência, o 
intermediador para o acesso ao Pai, em nome do Filho.
Conclusão
A partir da discussão desenvolvida até aqui sobre o Espírito 
Santo e a Trindade, parece impossível entendermos o Espírito por si 
só sem a companhia das outras pessoas da Trindade, ou seja, a teologia 
do Espírito é, em grande parte, a afirmação da teologia de Deus e da 
teologia de Cristo. Isto significa que não devemos tratar o Espírito 
como um Deus à parte, como se ele existe independente do Pai e do 
Filho, ou como se não estivesse sujeito àquilo que foi denominado 
como economia divina. O Espírito age apenas de acordo com essa 
relação de mútua-pertença e cumplicidade.
Bibliografia
JENSON, Robert W. A lógica e retórica trinitárias. In: BRAATEN, Carl E.e 
JENSON, Robert W. (ed.). Dogmática cristã. Volume 1. São Leopoldo: 
Sinodal, 1990.
MOLTMANN, Jürgen. O Espírito da vida: uma pneumatologia integral. 
Petrópolis: Vozes, 1998.
113
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 12
O Espírito Santo no Livro dos Atos dos 
Apóstulos I
Introdução
O livro de Atos tem sido muito utilizado para o 
desenvolvimento e compreensão da ação e da manifestação 
do Espírito Santo na experiência da igreja. Mais 
especificamente, com o advento do pentecostalismo, sua 
influência no cristianismo nos remete à investigação do 
tema do Espírito a partir deste livro por causa da direta 
associação que existe com as narrativas ali presentes. Além 
dessa perspectiva, busca-se a compreensão da teologia do 
Espírito naquilo que representou a primeira e mais imediata 
experiência para a igreja apostólica.
Objetivos
1) Oferecer um panorama geral do livro Atos dos 
Apóstolos, acentuando a ação e a manifestação do Espírito 
na vida dos primeiros cristãos;
2) Destacar o evento ocorrido durante a festa de 
Pentecostes que serve de direção para a construção da 
doutrina pneumatológica para os nossos dias.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia114
A atenção especial ao livro de Atos dos Apóstolos com respeito 
ao estudo do Espírito Santo se dá por algumas razões. A primeira é 
que nele encontramos o relato da chamada descida do Espírito Santo 
sobre a igreja que representa o cumprimento da profecia do profeta 
Joel e da promessa de Jesus:
•	Joel 2:28 – “E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre 
todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os 
velhos terão sonhos, os jovens terão visões”;
•	João 14:16-17 – “E eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro 
Conselheiro para estar com vocês para sempre, Espírito da 
verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem 
o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e 
estará em vocês”;
•	Atos 2:1-4 – “Chegando o dia de Pentecoste, estavam todos 
reunidos num só lugar. De repente veio do céu um som, 
como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual 
estavam assentados. E viram o que parecia línguas de fogo, que 
se separaram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram 
cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, 
conforme o Espírito os capacitava”.
A segunda razão para fazermos esse estudo no livro de Atos é que 
ali estão os textos mais utilizados em nossos dias para se falar, ensinar e 
pregar sobre o Espírito Santo, desde o surgimento do pentecostalismo. 
Isso é mais notório nas igrejas e comunidades de tradição pentecostal 
ou carismática, mas também tem a sua representatividade nas 
igrejas históricas que sofreram influência desse movimento. Aliás, 
a designação pentecostal vem exatamente da semelhança entre as 
experiências ocorridas no início do século XX com um grupo de 
norte-americanos e o evento descrito no livro de Atos que aconteceu 
por ocasião da celebração da festa judaica de Pentecostes. 
Por essa razão, é possível que haja muitas pessoas que pensem na 
ação e no ministério do Espírito apenas a partir de Atos. Porém, como 
visto nas unidades anteriores, isso seria um equívoco, pois a revelação 
do Espírito perpassa todas as Escrituras, Antigo e Novo Testamento. 
Nesse sentido, procuraremos analisar algumas passagens do livro de 
Atos na intenção de desconstruir algumas noções limitadoras acerca 
115
da pneumatologia, bem como de formular uma perspectiva consistente 
com o todo das Escrituras.
1- A descida do Espírito na festa Pentecostes
O livro de Atos inicia-se com o anúncio de uma promessa e o seu 
imediato cumprimento. Logo no primeiro capítulo, observamos Jesus 
ressurreto orientando os discípulos acerca do importante fato que 
haveria de acontecer. A promessa do derramamento do Espírito feita 
ali foi entendida por Pedro, dias depois, como sendo o cumprimento 
do que havia sido predito pelo profeta Joel (Atos 2:16-21).
A importante mensagem de Jesus atesta para alguns fatos 
fundamentais. O primeiro fato era de que aquela manifestação se 
tratava de um dom de Deus (Atos 1:4), algo da sua exclusiva vontade 
e pré-ciência. Segundo, aquele evento representava uma continuidade 
do ministério de Jesus ao capacitar os seus discípulos para serem suas 
testemunhas (Atos 1:8). Terceiro, não houve a necessidade de qualquer 
preparo especial anterior por parte dos crentes ou a sugestão de uma 
condição de estado de santidade para que viesse o derramamento do 
Espírito a não ser a espera em si.
Após a promessa de Jesus, passados alguns dias, temos o cenário 
da festa anual de Pentecoste na cidade de Jerusalém. A narrativa da 
participação dos discípulos nessa festa judaica mostra-os reunidos e 
assentados numa casa, provavelmente cumprindo os rituais do festejo 
(Atos 2:1-2). Sem qualquer aviso ou preparo, um som como de um vento, 
tipicamente associado às manifestações do ruach do Antigo Testamento, 
encheu o lugar trazendo uma série de manifestações especiais e fora 
do cotidiano religioso. O texto afirma que todos, sem exceção, ficaram 
cheios do Espírito após aparecer sobre cada umas das pessoas uma 
manifestação que parecia fogo, passando os presentes a falar nas línguas 
ou dialetos de diversas regiões do império romano (Atos 2:8-11).
Esse evento e essa experiência inaugural do derramamento do 
Espírito tornaram-se singulares e de extrema importância para a igreja 
que ali nascia. Ele parece apontar para a importância da unidade no 
entendimento da mensagem sobre as grandezas de Deus em várias 
línguas. Alguns chegam a associar esse episódio ao da Torre de Babel 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia116
(Gênesis 11:1-9) como uma espécie de reversão do desentendimento, 
agora com a promoção do próprio Deus como fomentador de um 
mesmo pensamento.
Após causar alarde e chamar a atenção das outras pessoas 
presentes à festa de Pentecostes, segue-se um sermão explicativo do 
que estava acontecendo. O apóstolo Pedro usa uma bela elaboração 
teológica e bíblica para falar do Evangelho de Cristo aos ouvintes. 
O resultado é a conversão de quase três mil pessoas sem indicar a 
ocorrência de qualquer outra manifestação especial do Espírito sobre 
essas outras pessoas que ali se encontravam.
2- Nova consciência sobre o Espírito
À vista daquele acontecimento tão inusitado, diferente e 
marcante, os apóstolos e discípulos iniciaram um processo natural 
de novo entendimento acerca da ação de Deus. Certamente eles 
carregavam todos os ensinamentos de Jesus bem como a participação 
nas experiências vividas com o mestre. O próprio Jesus já os havia 
orientado sobre a sua presença por meio do Espírito que, entre outras 
manifestações, iria falar por eles quando estivessem diante de situações 
difíceis, como perante um interrogatório de autoridades:
Quando vocês forem levados às sinagogas e diante dos 
governantes e das autoridades, não se preocupem com a forma 
pela qual se defenderão, ou com o que dirão, pois naquela hora 
o Espírito Santo ensinará o que deverão dizer (Lucas 12:11-12).
Logo após aquela pregação em que houve a conversão de uma 
multidão, Pedro e João realizaram uma cura à porta ao Templo de 
Jerusalém, tendo a oportunidadede fazer novo discurso. Por causa do 
conteúdo desafiador aos dirigentes da religiosidade judaica, que incluía 
a ressurreição de Jesus, eles foram presos e posteriormente interrogados 
pelo Sinédrio (Atos 4:5-22). Com a consciência de que estava sendo 
instruído pelo Espírito, Pedro fez um discurso ainda mais desafiador, 
chegando a acusar os líderes judaicos de terem matado o Cristo:
Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: “Autoridades 
e líderes do povo! Visto que hoje somos chamados para prestar 
117
contas de um ato de bondade em favor de um aleijado, sendo 
interrogados acerca de como ele foi curado, saibam os senhores 
e todo o povo de Israel que por meio do nome de Jesus Cristo, o 
Nazareno, a quem os senhores crucificaram, mas a quem Deus 
ressuscitou dos mortos, este homem está aí curado diante dos 
senhores (Atos 4:8-10).
Quase como uma extensão do que havia se passado com Pedro, 
Estevão apoderou-se da mesma certeza e, novamente tendo que 
encarar o Sinédrio, ele, com coragem, pregou o Evangelho de Jesus e, 
como consequência, foi martirizado:
•	Atos 6:10 – “mas não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito 
com que ele falava”;
•	 Atos 7:55-58 – “Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, 
levantou os olhos para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus em 
pé, à direita de Deus, e disse: ‘Vejo os céus abertos e o Filho do 
homem em pé, à direita de Deus’. Mas eles taparam os ouvidos 
e, dando fortes gritos, lançaram-se todos juntos contra ele, 
arrastaram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. 
As testemunhas deixaram seus mantos aos pés de um jovem 
chamado Saulo”.
A noção de que o Espírito instruía ou inspirava a fala no tempo 
da igreja foi logo ampliada para a compreensão de que isso era a 
continuidade do mesmo processo de experiência do povo de Israel no 
passado, tanto na fala profética quanto na produção das Escrituras. É 
isto que Pedro parece indicar com seu raciocínio:
•	 Atos 3:17-24 – “Agora, irmãos, eu sei que vocês agiram 
por ignorância, bem como os seus líderes. Mas foi assim que 
Deus cumpriu o que tinha predito por todos os profetas, 
dizendo que o seu Cristo haveria de sofrer. Arrependam-se, 
pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam 
cancelados, para que venham tempos de descanso da parte do 
Senhor, e ele mande o Cristo, o qual lhes foi designado, Jesus. 
É necessário que ele permaneça no céu até que chegue o tempo 
em que Deus restaurará todas as coisas, como falou há muito 
tempo, por meio dos seus santos profetas. Pois disse Moisés: ‘O 
Senhor Deus levantará dentre seus irmãos um profeta como eu; 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia118
ouçam-no em tudo o que ele disser. Quem não ouvir esse profeta, 
será eliminado do meio do seu povo’. De fato, todos os profetas, de 
Samuel em diante, um por um, falaram e predisseram estes dias”
•	Atos 4:23-26 – “Quando foram soltos, Pedro e João voltaram 
para os seus companheiros e contaram tudo o que os chefes dos 
sacerdotes e os líderes religiosos lhes tinham dito. Ouvindo isso, 
levantaram juntos a voz a Deus, dizendo: ‘Ó Soberano, tu fizeste os 
céus, a terra, o mar e tudo o que neles há! Tu falaste pelo Espírito 
Santo por boca do teu servo, nosso pai Davi: Por que se enfurecem as 
nações, e os povos conspiram em vão? Os reis da terra se levantam, 
e os governantes se reúnem contra o Senhor e contra o seu Ungido’”
O resultado imediato dessa nova consciência foi a coragem que 
eles assumiram para anunciar a Jesus Cristo em qualquer ambiente, 
ou seja, tornou-se um combustível para a tarefa missionária: “Depois 
de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram 
cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de 
Deus” (Atos 4:31).
A partir daí, ampliou-se o entendimento da capacitação como 
sendo a condição de disposição e sensibilidade em ser guiado por Deus 
para alguma tarefa. Essa condição passou a ser referenciada como um 
estado de plenitude, ou seja, estar cheio do Espírito Santo:
•	 Atos 2:4 – “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e 
começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os 
capacitava”;
•	Atos 4:8, 31 – “Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-
lhes: ‘Autoridades e líderes do povo!’”; “Depois de orarem, 
tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram cheios 
do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de 
Deus”;
•	Atos 6:3-5 – “Irmãos, escolham entre vocês sete homens de 
bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Passaremos 
a eles essa tarefa e nos dedicaremos à oração e ao ministério 
da palavra. Tal proposta agradou a todos. Então escolheram 
Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, além de Filipe, 
Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau, um convertido 
ao judaísmo, proveniente de Antioquia”;
119
•	Atos 7:55 – “Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, levantou os 
olhos para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé, à direita 
de Deus”;
•	Atos 9:17 – “Então Ananias foi, entrou na casa, pôs as mãos 
sobre Saulo e disse: ‘Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que apareceu 
no caminho por onde você vinha, enviou-me para que você 
volte a ver e seja cheio do Espírito Santo’”;
•	Atos 11:24 – “Ele era um homem bom, cheio do Espírito 
Santo e de fé; e muitas pessoas foram acrescentadas ao Senhor”;
•	Atos 13:9 – “Então Saulo, também chamado Paulo, cheio do 
Espírito Santo, olhou firmemente para Elimas e disse”.
A metáfora parece considerar a ideia trazida do Antigo Testamento 
da presença de Deus, como representação do ar em movimento, que 
ocupa um determinado lugar (Êxodo 40:34) ou influencia uma pessoa 
(Êxodo 35:31).
Outra percepção bastante interessante é a da promoção da 
unidade e consenso entre os apóstolos como sendo resultado da 
intermediação do Espírito. O chamado Concílio de Jerusalém, que 
tratou da controvérsia sobre as práticas judaizantes que estavam sendo 
impostas aos gentios, apresenta a longa discussão que os apóstolos e 
anciãos tiveram para tratar do tema:
Alguns homens desceram da Judeia para Antioquia e passaram 
a ensinar aos irmãos: “Se vocês não forem circuncidados 
conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser 
salvos”. Isso levou Paulo e Barnabé a uma grande contenda e 
discussão com eles. Assim, Paulo e Barnabé foram designados, 
com outros, para irem a Jerusalém tratar dessa questão com os 
apóstolos e com os presbíteros [...] Os apóstolos e os presbíteros 
se reuniram para considerar essa questão. Depois de muita 
discussão, Pedro levantou-se e dirigiu-se a eles: “Irmãos, vocês 
sabem que há muito tempo Deus me escolheu dentre vocês 
para que os gentios ouvissem de meus lábios a mensagem do 
evangelho e cressem” (Atos 15:1-2, 6-7).
Ao final do debate, foi elaborada uma carta com as resoluções 
do concílio afirmando que elas eram entendidas como uma ação do 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia120
Espírito entre eles. A consequência imediata para os gentios foi a de 
sensação de bem-estar:
Então os apóstolos e os presbíteros, com toda a igreja, decidiram 
escolher alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo 
e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois 
líderes entre os irmãos. Com eles enviaram a seguinte carta:
Os irmãos apóstolos e presbíteros, os cristãos gentios que estão em 
Antioquia, na Síria e na Cilícia: saudações [...] Portanto, estamos 
enviando Judas e Silas para confirmarem verbalmente o que 
estamos escrevendo. Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não 
impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Que 
se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne 
de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão 
bem em evitar essas coisas [...] Os irmãos a leram e se alegraram 
com a sua animadora mensagem (Atos 15:22-31).
Conclusão
A pneumatologia presente no livro de Atos consiste na introdução 
de algumas novidades que vão muito além daquilo que foi apresentado 
no Antigo Testamento pela tradição judaica. Não apenasse deu gradativamente na história de Israel. A princípio, o 
homem de Deus era um místico que falava com e por Deus. Ele era 
reconhecido pelo povo por essa ação e proximidade com a divindade. 
Não era, por assim dizer, um cargo religioso formal como o do sacerdote 
e não era tampouco uma função de governo administrativa. Ele estava 
livre das amarras institucionais, mas em muitos casos assumia a função 
de liderança. De certa forma, vemos nos juízes de Israel algumas dessas 
características. O ofício profético acabou abarcando funções distintas 
que fez com que se considerasse também o profetismo posterior como 
parte dele, com os seus oráculos escritos e maior proximidade com a 
corte. Houve, inclusive, o caso do surgimento dos profetas profissionais 
que serviam a liderança de Israel e que viriam a ser combatidos, em 
alguns casos, como falsos profetas.
Dada essa proximidade mística com a divindade, no início, eles 
não eram ungidos publicamente, mas por causa de seu comportamento 
e prática vidente, eram reconhecidos pelo povo como homens de 
Deus. Em outras palavras, por causa de suas habilidades místicas o 
simbolismo da unção com óleo era como que desnecessária ou pelo 
menos dispensada na percepção popular. No entanto, há uma única 
citação sobre uma possível prática de unção de profetas que ocorre na 
transição entre Elias e Eliseu: “Unja também Jeú, filho de Ninsi, como 
rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder 
a você como profeta” (1 Reis 19:16.)
A menção dos profetas nessa construção da ideia do ungido 
também se dá pela aproximação dos ofícios mais importantes no 
período da monarquia de Israel. Vemos na poesia atribuída a Davi 
esse tratamento: “ele não permitiu que ninguém os oprimisse; por 
causa deles repreendeu reis, ordenando: ‘Não maltratem os meus 
ungidos; não façam mal aos meus profetas” (1 Crônicas 16:21-22 e 
Salmo 105:14-15). O que o texto chama de ungidos são os reis de Israel 
e ali vemos que eles recebem uma proteção no mesmo patamar que os 
profetas. A proximidade dessas figuras que representam a liderança 
de Israel criou no imaginário coletivo, de uma forma não estruturada 
ou clara, o ideal de um tipo de super-herói que tomaria sobre si a 
responsabilidade de resolver os problemas da nação.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia12
Conclusão
Com base em toda essa construção religiosa, desenvolveu-se a ideia 
de um “Ungido” (Messias), principalmente nos escritos proféticos, como 
um ser especial a vir em um futuro indeterminado na história do povo 
de Israel, reunindo as características e funções dos outros “ungidos”. A 
expectativa criada em torno desse Ungido era que ele pudesse conduzir o 
povo de Deus, no caso o povo de Israel, a um tempo de paz e prosperidade, 
a conhecida Shalom. Essa expectativa também carregava a ideia de 
libertação e salvação de todos os males e intempéries experimentadas 
pelo povo ao longo de sua história. A construção da figura do Ungido 
aproximava-o muito de Deus, a ponto de ele vir a ser considerado o seu 
Servo ou até o seu Filho, porém, sem qualquer discussão filosófica ou 
teológica sobre uma possível simbiose Deus-Homem.
Certamente, dado o tipo de expectativa construída, a figura que 
mais influenciava a imagem do Ungido era a de um rei, que através de seu 
domínio e poder poderia, de certa forma, impor esse estado de coisas. É 
a partir dessa construção histórica e teológica que temos que olhar para 
Jesus de Nazaré, tentando compreender em que sentido ele se encaixa 
no Messias de Israel e que outros elementos ele mesmo adicionou em 
sua vida e ministério ao mistério do Cristo, o Filho de Deus.
Essa introdução serve para gerar curiosidade e motivação para 
a investigação que se inicia sobre a pessoa de Jesus, como o Cristo, o 
Messias. Ao estudarmos a progressão da construção do conceito nos 
textos do Antigo Testamento e, posteriormente, avaliando a realização 
e aplicação à pessoa de Jesus no Novo Testamento, tentaremos nos 
aprofundar nas ideias apresentadas nessa unidade. Antes, contudo, 
também como abordagem introdutória, trataremos das duas 
perspectivas mais características que a teologia tem tomado em relação 
ao estudo de Cristo, denominadas como alta e baixa.
Referências
VAUX, Roland De. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: 
Teológica, 2003.
13
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 2
Cristologia Alta e Baixa
Introdução
A Cristologia não apenas inclui a discussão da 
expectativa histórica do Messias de Israel anunciada no 
Antigo Testamento, mas também a discussão da dupla 
natureza do Cristo, o Deus-Homem. Desde as primeiras 
controvérsias da igreja, com seus concílios e dogmas, está 
presente a paradoxal compreensão das duas naturezas de 
Cristo que oferecem parâmetros distintos e complementares 
para a vivência da fé cristã. Referenciamo-nos, assim, ao 
estudo dessas naturezas como cristologia alta e baixa.
Objetivos
1) Discutir as perspectivas divinas e humanas da 
pessoa de Cristo;
2) Entender como as duas naturezas de Cristo 
coadunam para a construção da fé cristã.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia14
É admissível a simbiose Deus-Homem? É possível que alguém 
seja, ao mesmo tempo, divino e humano? A igreja cristã se ocupou 
dessa discussão logo em seus primórdios por conta da transição da 
fé judaica para a fé cristã em meio a cultura greco-romana. Se por 
um lado a fé judaica afirmava o monoteísmo no Deus Javé, a fé cristã 
introduzia a chegada do Messias, como o Filho de Javé, tendo este se 
tornado humano. Na lógica cristã, o Filho de Deus é também Deus, 
mas ele aparece em meio a seu povo na forma humana, algo até então 
inconcebível para a teologia judaica. Na teologia do Antigo Testamento, 
Javé é um Deus único, grandioso, que não se faz representar por qualquer 
imagem humanamente construída, nem tampouco se dilui em qualquer 
desdobramento de si mesmo. Suas manifestações entre os humanos 
são descritas como teofanias com referências às coisas da natureza, que 
podem representar aspectos de seu ser e caráter e não necessariamente 
a sua pessoa. Ele também faz uso de intermediários humanos, 
chamados de enviados, mensageiros, servos, profetas, etc. sendo alguns 
explicitamente descritos como capacitados pelo Espírito de Deus. Em 
nenhum dos casos esses intermediários são entendidos como o próprio 
Deus, embora alguns tenham recebido tratamento especial.
Independente das referências antropológicas históricas de 
culturas que divinizavam pessoas, tais como reis, sacerdotes, heróis, 
virtuosos, etc., e de toda a mitologia grega que fez o mesmo em 
uma vasta literatura e prática religiosa, a questão da coexistência da 
divindade com a humanidade em uma só pessoa perpassa a imaginação 
e o raciocínio humano. Não seriam os heróis em quadrinhos uma 
representação dessa eterna projeção psicomental humana?
Não é uma prerrogativa cristã a ideia do Deus-Homem, mas 
certamente é na figura de Jesus de Nazaré que se encerra a maior 
discussão histórica sobre o assunto. Todo o processo que se desencadeou 
em torno de sua vida e a posterior transmissão de seus ensinos, por 
parte dos apóstolos e da igreja, tem como pressuposto a sua divindade. 
A dificuldade, no entanto, para tratar do assunto surge pelo fato de 
Jesus ser um evento único, sem paralelos e correlações para a formação 
de um caso ou de uma amostragem comprobatória. Ainda que, por 
fim, a afirmação do Deus-Homem torne-se uma afirmação dogmática 
15
de fé, vale a pena a reflexão em torno do assunto numa tentativa de 
responder ao mistério que perdura até os dias de hoje e ainda modela 
a existência da igreja.
A nossa discussão, portanto, engloba as questões que envolvem a 
humanidade e a divindade de Cristo. Jesus de Nazaré é para a fé cristã, ao 
mesmo tempo, divino e humano. Esse grande mistério da fé é investigado 
pela cristologia, uma diferenciação designada como alta e baixa.
1- Cristologia alta
A cristologiaregistra-se ali 
o cumprimento da promessa profética de uma presença mais sensível 
do Espírito entre as pessoas, como ele assume um papel fundamental 
na propagação corajosa da mensagem do evangelho de Jesus Cristo 
no início da igreja cristã. Além disso, há ainda no livro de Atos a 
atribuição da expansão missionária da igreja sendo intermediada pela 
ação específica do Espírito e a ocorrência de algumas manifestações, 
que se tornaram fundamento para parte da teologia pentecostal, que 
serão melhor investigadas na próxima unidade.
121
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 13
O Espírito Santo no Livro dos Atos dos 
Apóstolos II
Introdução
Dando continuidade ao panorama de apresentação 
das primeiras manifestações do Espírito conforme 
registrado no livro de Atos, após investigarmos o evento 
do Pentecostes e da nova consciência que ele trouxe para 
os apóstolos e discípulos de Jesus, esta unidade discutirá 
dois outros temas que são a perspectiva missionária e o 
chamado batismo com o Espírito Santo.
Objetivos
1) Oferecer um panorama geral do livro de Atos dos 
Apóstolos, acentuando a ação e a manifestação do Espírito 
Santo na vida dos primeiros cristãos;
2) Destacar os eventos que contribuem para a 
perspectiva missiológica do Espírito, bem como aqueles 
que são usados como referência para a doutrina do batismo 
com o Espírito Santo.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia122
A teologia cristã que nasce com a igreja primitiva traz como 
novidade uma nova ótica para a doutrina do Espírito. Por meio das 
narrativas do livro de Atos conseguimos observar o nascedouro de novas 
perspectivas em meio às experiências vividas pelos apóstolos e discípulos 
que expandem o conhecimento elaborado no Antigo Testamento.
Na unidade anterior, vimos o marcante evento ocorrido durante 
a celebração da festa de Pentecostes em Jerusalém que inaugurou a 
era da igreja movida pelo Espírito. Acompanhamos o entendimento 
que os participantes daquela primeira comunidade tiveram quanto ao 
fenômeno da descida do Espírito e do envolvimento que tiveram com 
ele. Nesta unidade, procuraremos explorar duas outras compreensões 
que estão presentes nas narrativas e que se tornaram importantes 
para a teologia da igreja. O primeiro tema é o da missão e de como o 
Espírito torna-se o seu propulsor. O segundo tema, e mais delicado, é o 
do batismo com o Espírito que, de certa forma, diferencia as tradições 
pentecostais e históricas em sua compreensão.
1- O Espírito como propulsor da missão
Vê-se nos relatos do livro de Atos a intencional descrição do 
Espírito como propulsor da missão da igreja. O texto de Atos 8:1-25 
descreve a dispersão dos primeiros cristãos após a perseguição da 
igreja em Jerusalém. Lucas parece propositalmente indicar aquilo que 
Jesus havia determinado: que os discípulos fossem suas testemunhas 
em Samaria e na Judéia (Atos 1:8). A passagem, então, apresenta 
uma importante transição para a igreja que precisava sair de maneira 
missionária de sua zona de conforto.
Felipe é o personagem central que aparece pregando, 
evangelizando, realizando sinais e batizando em nome de Jesus (Atos 
8:16). Os apóstolos, tomando conhecimento sobre o que estava 
acontecendo na desprezada Samaria, foram verificar. Após essa visita 
dos apóstolos muitas outras aldeias foram evangelizadas: “Tendo 
testemunhado e proclamado a palavra do Senhor, Pedro e João 
voltaram a Jerusalém, pregando o evangelho em muitos povoados 
samaritanos” (Atos 8:25).
No capítulo 10, temos a expansão do evangelho para a capital 
da Judéia. Agora o alvo são os gentios, estrangeiros, pessoas não 
123
queridas pelos judeus e, de alguma forma, também não queridas pelos 
primeiros judeus-cristãos. Se o acontecimento de Atos 8 representou 
uma pequena transição, o de Atos 10 representa uma grande transição. 
O relato mostra a resistência que havia por parte dos apóstolos em 
direcionar a pregação do Evangelho aos gentios. Para que essa expansão 
missionária pudesse receber a devida atenção da cúpula de Jerusalém, 
foi necessário que Pedro passasse por um processo de convencimento 
ou conversão do seu coração e mente em relação aos gentios. Após ter 
uma ter uma experiência de êxtase em que Deus indica a sua intenção 
em alcançar aqueles que eram considerados impuros, o Espírito o 
ordena a aceitar o convite para ir à casa do centurião romano Cornélio, 
resultando na conversão de toda a sua casa.
Mais adiante, Paulo e Barnabé são especificamente apresentados 
como escolhidos pelo Espírito para iniciarem as viagens missionárias 
rumo às cidades da Ásia Menor (Atos 13:1-4). Ao longo do ministério 
de Paulo, em suas três viagens missionárias, vemos o resultado desse 
esforço com a instalação e desenvolvimento das diversas igrejas 
gentílicas que no futuro se tornariam a base para a expansão do 
cristianismo no mundo antigo.
As passagens bíblicas apresentadas aqui são longas e, embora não 
tenham sido transcritas no corpo desse texto, merecem uma leitura 
dedicada para que tenhamos a chance de apreender a profundidade 
da construção feita por Lucas demonstrando a tese do Espírito como o 
propulsor da missão de Cristo.
2- O batismo com o Espírito Santo
Como comentado anteriormente, o fenômeno do pentecostalismo 
teve grande influência sobre a pneumatologia prática das igrejas. 
Nesse sentido, o tema do batismo com o Espírito Santo, ou também 
denominado Segunda Bênção, merece nossa atenção por se tratar de 
uma doutrina clássica da tradição pentecostal.
A abordagem desse tema a partir do livro de Atos se dá porque é 
nele que encontramos as passagens nas quais essa doutrina se baseia. 
Procuraremos descrever os eventos ocorridos conforme o relato 
das passagens para posteriormente tecermos alguns comentários 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia124
conclusivos. O primeiro e mais explorado momento é o da descida 
do Espírito Santo sobre a comunidade de Jerusalém, já abordado na 
unidade anterior. O segundo momento é o que acontece em Samaria 
relatado no capítulo 8:
Os apóstolos em Jerusalém, ouvindo que Samaria havia 
aceitado a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. 
Estes, ao chegarem, oraram para que eles recebessem o Espírito 
Santo, pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum 
deles; tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. 
Então Pedro e João lhes impuseram as mãos, e eles receberam o 
Espírito Santo (Atos 8:14-17).
O que quero ressaltar nesse relato é que diferente do que havia 
ocorrido em Jerusalém durante a festa de Pentecostes, o Espírito Santo 
surge na vida daqueles samaritanos com a intermediação da imposição 
de mãos dos apóstolos depois de terem aceitado a pregação da palavra 
e terem sido batizados. Mais adiante refletiremos sobre o que isso pode 
ter significado. Por hora, olhemos para um terceiro momento) o que 
acontece com a família do centurião Cornélio no capítulo 10. O texto 
relata que de maneira inusitada, enquanto Pedro ainda falava, as pessoas 
presentes receberam o Espírito Santo, sendo o fato verificado pelo 
mesmo sinal manifestado aos apóstolos no derramamento inaugural 
sobre os judeus em Jerusalém, que foi o dom de línguas:
Enquanto Pedro ainda estava falando estas palavras, o Espírito 
Santo desceu sobre todos os que ouviam a mensagem. Os 
judeus convertidos que vieram com Pedro ficaram admirados 
de que o dom do Espírito Santo fosse derramado até sobre os 
gentios, pois os ouviam falando em línguas e exaltando a Deus 
[...] (Atos 10:44-46).
Depois do acontecido, essas pessoas foram batizadas em nome 
de Jesus Cristo (Atos 10:48). O resultado desse acontecimento foi 
a expansão do evangelho a outras cidades gentílicas com menor 
resistência por parte da liderança apostólica de Jerusalém.
Outro evento marcante que não podemos deixar de mencionar 
foi o que ocorreu em Éfeso com o apóstolo Paulo:
Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, atravessando as 
regiões altas, chegou a Éfeso. Ali encontrou algunsdiscípulos 
125
e lhes perguntou: “Vocês receberam o Espírito Santo quando 
creram?”. Eles responderam: “Não, nem sequer ouvimos que 
existe o Espírito Santo”. “Então, que batismo vocês receberam?”, 
perguntou Paulo. “O batismo de João”, responderam eles. Disse 
Paulo: “O batismo de João foi um batismo de arrependimento. 
Ele dizia ao povo que cresse naquele que viria depois dele, isto 
é, em Jesus”. Ouvindo isso, eles foram batizados no nome do 
Senhor Jesus. Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles 
o Espírito Santo, e começaram a falar em línguas e a profetizar. 
Eram ao todo uns doze homens (Atos 19:1-7).
O texto parece indicar que doze homens haviam sido 
evangelizados e batizados por Apolo cuja mensagem ainda estava 
restrita aos acontecimentos da vida de Jesus anteriores à manifestação 
especial do Espírito sobre a igreja que ocorrera durante a festa de 
Pentecostes (Atos 18:24-25). São Priscila e Áquila que instruem 
Apolo, em outro momento, sobre a nova compreensão a respeito de 
Jesus ressurreto e sua manifestação por meio do Espírito Santo (Atos 
18:26). Nesse ínterim acontece a visita de Paulo àqueles que haviam 
sido evangelizados por Apolo, que desconhecem essa nova realidade 
da fé em Jesus Cristo. Eles haviam sido batizados nos moldes daquilo 
que João Batista fazia ao pregar o arrependimento, porém, não tinham 
ideia das novas dimensões para a fé sobre a ação direta de Deus por 
meio do seu Espírito. Sendo assim, Paulo resolve batizá-los, novamente, 
no entanto, no nome de Jesus, e ao impor as mãos sobre o grupo, eles 
manifestam o dom de línguas, conforme ocorrido em Jerusalém, mas 
também manifestam o dom de profecia.
Ao observarmos atentamente para os detalhes dessas quatro 
passagens, veremos que não há uma ordem lógica ou repetitiva nos 
acontecimentos relativos ao processo de conversão e batismo das 
pessoas. No caso da festa de Pentecostes em Jerusalém, o Espírito 
veio sem qualquer preparação prévia de oração, pregação ou rito 
de batismo sobre os que estavam na casa. Logo após, os outros três 
mil são batizados, mas nada se fala do Espírito Santo ou de alguma 
manifestação especial. No evento de Samaria há a pregação seguida do 
batismo em nome de Jesus e depois o recebimento do Espírito Santo. 
O texto não informa como eles verificaram ou se certificaram quanto 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia126
ao recebimento do Espírito pelos samaritanos. Não há menção de 
qualquer ocorrência especial ou sobrenatural como, por exemplo, o 
falar em línguas estranhas. Com a família de Cornélio em Cesaréia, as 
pessoas recebem o Espírito enquanto Pedro ainda está pregando sendo 
isto verificado pela manifestação do dom de línguas, da mesma forma 
como ocorrera em Jerusalém. Só depois dessa manifestação é que as 
pessoas são batizadas no nome de Jesus. No caso do apóstolo Paulo 
com os homens de Éfeso o que observamos é um processo ainda mais 
distinto, pois, eles haviam sido batizados no batismo de João, depois 
foram batizados no nome de Jesus e depois receberam o Espírito Santo 
com a manifestação do dom de línguas e dom de profecia. Esse caso 
parece complexo por envolver ou requerer uma compreensão teológica 
dos fatos tanto para Apolo quanto para os crentes de Éfeso.
Considerando especificamente o batismo com o Espírito Santo 
como doutrina, devemos notar que a teologia reformada e a teologia 
pentecostal tratam do tema com abordagens diferentes. O intuito não é 
criar polêmica mas apresentar a proposta de cada tradição. Começando 
pela compreensão da teologia reformada, esta defende a ideia de que 
batismo com o Espírito Santo é o momento da conversão real e plena 
do ser humano pecador. É o Espírito Santo que age sobre o ser humano 
abrindo o seu entendimento e manifestando a graça de Deus diante do 
arrependimento e fé. Em uma ação mística e sobrenatural, o Espírito 
purifica e justifica o pecador colocando-o em comunhão com Deus. Um 
texto chave para essa compreensão é do apóstolo Paulo à igreja de Éfeso:
Quando vocês ouviram e creram na palavra da verdade, o 
evangelho que os salvou, vocês foram selados em Cristo com o 
Espírito Santo da promessa, que é a garantia da nossa herança 
até a redenção daqueles que pertencem a Deus, para o louvor 
da sua glória (Efésios 1:13-14).
Para a tradição reformada, o falar em línguas não é uma 
condição necessária para atestar esse processo, pois, entendem que as 
ações do Espírito Santo relatadas nos textos bíblicos não demonstram 
tal situação como uma exigência ou única prova de conversão para 
a salvação. Assim, o batismo com o Espírito Santo não é outro 
127
momento senão o da conversão do pecador. Posteriormente, o cristão 
é batizado publicamente com água, conforme a prática histórica da 
igreja primitiva, como símbolo visível daquilo que o Espírito Santo já 
realizou de forma invisível na vida daquela pessoa.
Essa abordagem pode incluir outro processo, reconhecidamente 
bíblico, que é denominado pela expressão de enchimento do Espírito 
Santo. Aqui se diferencia ser cheio do Espírito Santo e ser batizado com 
o Espírito Santo. Ser cheio do Espírito Santo significa estar pleno da 
presença divina de tal modo que o interesse maior da pessoa é realizar 
a vontade de Deus. Essa vontade é caracterizada pelo testemunho 
cristão, pela pregação do Evangelho com intrepidez e ousadia e pelo 
sentimento de alegria e prazer em ser instrumento de Deus. Ser 
cheio do Espírito Santo remete à submissão a Deus com a renúncia 
da vontade própria, vaidade e egoísmo sem qualquer necessidade de 
manifestações sobrenaturais visíveis.
Abordando agora a perspectiva do pentecostalismo clássico, 
que não é necessariamente a opção de todas as vertentes pentecostais, 
verificamos a diferenciação de dois momentos: a conversão, que seria 
o primeiro batismo; e o batismo com o Espírito Santo, que seria o 
segundo batismo ou segunda bênção. Este segundo batismo é uma 
experiência e acontecimento diferente da conversão. Ele ocorre quando 
o cristão sente a profunda intensidade da presença de Deus em sua 
vida, com um sentimento pleno de alegria e carregado de emoção, 
podendo levar a pessoa a diversas reações físicas e emocionais tais 
como choro, pulo, paz, elevação, contemplação, entre outros. Algumas 
igrejas pentecostais chegam também a exigir o falar em línguas como 
sinal do batismo do Espírito Santo evidenciando que a pessoa foi 
realmente batizada. Há ainda a prática do batismo público com água 
como símbolo da conversão da pessoa.
A base para a teologia reformada é a procura por uma doutrina 
sistematizada que tenha aporte bíblico amplo suficiente para tal. Já a base 
para a teologia pentecostal é a experiência comunitária e individual com 
o aporte de algumas narrativas bíblicas. Para John Stott (1993, p.12), “A 
experiência nunca deve ser o critério da verdade; a verdade deve sempre 
ser o critério da experiência”. O que Stott procura argumentar aqui é 
uma discussão antiga sobre como determinamos a doutrina do Espírito 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia128
Santo. Melhor explicando, Stott argumenta dizendo que:
[...] esta revelação do propósito de Deus na Bíblia deve ser 
buscada preferencialmente nas suas passagens didádicas, e não 
nas descritivas. Para ser mais preciso, devemos procurá-la nos 
ensinos de Jesus e nos sermões e escritos dos apóstolos, e não nas 
seções puramente narrativas de Atos. O que a Escritura descreve 
como acontecido a outros não precisa necessariamente acontecer 
conosco; porém do que nos é prometido devemos nos apropriar, 
e o que nos é ordenado devemos obedecer (Stott, 1993, p.12).
Com isso, não estamos afirmando que as narrativas de 
experiências do livro de Atos não servem para nada, nem tampouco 
estamos afirmando que Deus não se revela através delas, o que estamos 
procurando enfatizar é o que elas nos ensinam e como podemos 
construir com elas a teologia do Espírito Santo.
Conclusão
As narrativas do livro de Atos contribuem para a compreensão 
do EspíritoSanto como o principal propulsor da missão, mas, além 
disso, são nelas que encontramos o tema do batismo com o Espírito 
que influenciou diretamente a pneumatologia de algumas tradições 
pentecostais. O que tentamos demonstrar nessa unidade é que as 
passagens bíblicas não parecem querer enfatizar as manifestações 
especiais do Espírito, chamadas de batismo ou de segunda bênção, elas 
parecem priorizar o cumprimento do mandato evangelístico. O mais 
importante é o fato das pessoas serem salvas.
129
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 14
O Espírito Santo e a Pessoa I
Introdução
O Espírito, como representante da manifestação 
de Deus, relaciona-se com toda a criação. De maneira 
didática, podemos observar essa relação a partir de três 
âmbitos interdependentes que são a pessoa, ou o indivíduo, 
a comunidade em que ele está inserido, particularmente a 
igreja, e a sociedade e o mundo em geral. Esses âmbitos 
podem ser entendidos como representações das esferas 
individual, coletiva e cósmica de ação do Espírito. As 
unidades que seguem tratarão da relação e ação do Espírito 
com a pessoa, com a igreja e com o mundo.
Objetivos
1) Fundamentar biblicamente a ação do Espírito 
Santo na dimensão pessoal;
2) Analisar aspectos gerais e específicos sobre a 
ação do Espírito Santo em relação ao indivíduo e suas 
consequências.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia130
A ação do Espírito Santo na dimensão pessoal talvez seja o tema 
mais explorado na pneumatologia prática das diversas comunidades 
cristãs. Esse aspecto mais intimista e que trata da interioridade ficou 
bastante conhecido pela temática da chamada espiritualidade. Há 
muito material publicado sobre o assunto, até mesmo escolas que 
oferecem programas de estudo dedicados ao seu ensino. Além disso, 
devemos considerar o recente interesse da sociedade em geral pelas 
questões místicas de todo tipo. O contexto pós-moderno promoveu 
uma maior atenção para a espiritualidade ou pelo menos para as 
realidades que se contrapõem ao objetivismo moderno.
A intenção dessa unidade é investigar a doutrina do Espírito Santo 
em sua relação com a pessoa. Queremos fundamentar biblicamente 
como se dá a relação do Espírito de Deus com o ser humano. Devemos 
iniciar este estudo, no entanto, ressaltando que esse tipo de experiência 
com o Espírito é subjetivo, ou seja, ele é normalmente percebido na 
individualidade. Quer dizer, por se tratar de algo que acontece e se 
percebe a partir de cada sujeito, ela traz consigo a dificuldade de ser 
comunicada e de estabelecer parâmetros doutrinários para todos. Essa 
é uma das características da experiência da fé. Todos podemos ter 
uma convicção pessoal, que normalmente é testemunhada aos outros, 
porém, a verificação dessa experiência, que acontece no interior de cada 
pessoa, acaba ficando limitada à maneira como nos relacionamos uns 
com os outros. Em outras palavras, a experiência pessoal de fé com o 
Espírito é percebida de maneira concreta pelas outras pessoas por meio 
do nosso comportamento cotidiano nas diversas situações de vida e 
não por qualquer declaração verbal de que essa relação exista. Assim, 
alguém pode dizer que tem uma relação pessoal com o Espírito Santo, 
que acontece no nível da interioridade, mas qualquer outra pessoa 
só poderá comprovar a existência dessa relação por meio de alguma 
manifestação externa. A princípio, essa manifestação externa ocorrerá 
somente quando estivermos nos relacionando uns com os outros.
Para melhor entender essa argumentação, antes de tratarmos 
de qualquer outro efeito da relação do Espírito com a pessoa, vamos 
investigar aquilo que chamamos de santificação. Esse seria o processo 
da vivência em si e transformação do indivíduo em seu contato com o 
Espírito Santo. Podemos antecipar que a santificação está mais voltada 
131
para a verificação externa da ação do Espírito em sua relação com a 
pessoa do que com qualquer efeito na interioridade.
1- A santificação no Antigo Testamento
A concepção de ficar santo, ou santo-ficar, possui sua origem no 
Antigo Testamento e tem relação direta com a convivência com Deus, 
com o aprendizado de seus mandamentos e a sua prática. Parte do 
desenvolvimento dessa ideia está registrado no capítulo 19 do livro de 
Levítico. Ele faz parte daquilo que se chamou de Código de Santidade. 
Embora encontremos ali uma série de instruções que confundem 
aspectos culturais e religiosos, talvez ultrapassados para as práticas do 
Novo Testamento, o importante é entendermos a intenção do texto. 
Apresento aqui, de maneira resumida, alguns versículos desse capítulo, 
ressaltando as indicações mais importantes para a argumentação sobre 
o conceito de santidade:
Disse ainda o Senhor a Moisés: “Diga o seguinte a toda 
comunidade de Israel: Sejam santos porque eu, o Senhor, o 
Deus de vocês, sou santo.
−	 Respeite a sua mãe e o seu pai;
−	 Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham 
até as extremidades da sua lavoura nem ajuntem as espigas 
caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha 
nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o 
necessitado e para o estrangeiro;
−	 Não furtem;
−	 Não mintam;
−	 Não enganem uns aos outros;
−	 Não jurem falsamente pelo meu nome;
−	 Não oprimam nem roubem o seu próximo;
−	 Não retenham até a manhã do dia seguinte o pagamento 
de um diarista;
−	 Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço 
à frente do cego;
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia132
−	 Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam 
os pobres nem procurem agradar os grandes, mas julguem o 
seu próximo com justiça;
−	 Não espalhem calúnias no meio do seu povo;
−	 Não se levantem contra a vida do seu próximo;
−	 Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes 
repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa 
dele, não sofram as consequências de um pecado;
−	 Não procurem vingança nem guardem rancor contra 
alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a 
si mesmo;
−	 Obedeçam às minhas leis;
−	 Ninguém desonre a sua filha tornando-a uma prostituta;
−	 Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos;
−	 Quando um estrangeiro viver na terra de vocês, não o 
maltratem. O estrangeiro residente que viver com vocês deverá 
ser tratado como o natural da terra. Amem-no como a si 
mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito;
−	 Não usem medidas desonestas quando medirem 
comprimento, peso ou quantidade. Usem balanças de pesos 
honestos, tanto para cereais quanto para líquidos;
Obedeçam a todos os meus decretos e a todas as minhas leis e 
pratiquem-nos. Eu sou o Senhor” (Levítico 19).
Muitas pessoas confundem o conceito de santidade, como 
se ele fosse uma espécie de estado angelical, de pureza, de ausência 
de pecado, ou ainda algum tipo de moral perfeita determinada 
pelo cumprimento ou não de uma série de costumes estabelecidos 
por um grupo. Basta prestarmos atenção àquilo que o texto aponta 
para entendermos que santidade tem a ver com o cumprimento dos 
mandamentos de Deus, que possui estreita relação com a Lei Mosaica. 
Mais do que isso, ela tem direta relação com o conceito de justiça, 
sua prática e promoção entre o povo de Deus nas relações humanas e 
sociais. A introdução do texto, ao conclamar o povo a ser santo como 
133
Deus, não pressupõe a possibilidade de conseguirmos desenvolver um 
estado de pureza ou ausência de pecado semelhante à condição divina. 
Nesse caso, a palavra “santo” ou a expressão “ser santo” deve buscar a 
tradução representada pela ideia principal da palavra hebraica qadosh 
que é a de separação de algo daquilo que é comum ou daquilo que é 
de uso ordinário. Nesse sentido, o povo deve ser “separado” no sentido 
de ser diferente dos outros povos, assim como Deus é diferente dos 
outros deuses. O povo de Israel deveria ter uma vida diferenciada 
dos outros povos, representada pela prática dos mandamentos e da 
justiça que caracterizavam Javé. Esse éo mesmo princípio que está 
presente no texto de Êxodo 19:5-6. O que vemos, portanto, no texto 
de Levítico 19, de maneira muito clara e explícita, muito mais do que 
uma concentração em aspectos religiosos, é a descrição de uma vida 
cotidiana que resulta na expressão do amor ao próximo (Levítico 
19:18). Não por acaso, essa é a ideia que sintetiza a Lei no ensino de 
Jesus (Mateus 22:36-40). Esse tipo de vida representa a ordem de ser 
santo ou o caminho da santificação para o Antigo Testamento.
O ser ou ficar santo no Antigo Testamento, contudo, não apresenta 
uma relação direta com a influência do Espírito de Deus. O que se prevê é a 
obediência e o cumprimento dos mandamentos sem uma argumentação 
maior sobre qualquer desenvolvimento no âmbito da interioridade. 
Trata-se de um esforço da vontade humana para representar de maneira 
visível e concreta a vida sob o domínio de Deus e de sua Lei.
2- A santificação no Novo Testamento
O processo de santificação no Novo Testamento ganha um 
colorido diferente nas palavras do apóstolo Paulo. Em sua carta aos 
Romanos, principalmente nos capítulos 7 e 8, ele elabora a dificuldade 
de se tentar viver de acordo com a Lei, de cumprir cabalmente os seus 
mandamentos. Paulo constrói a ideia de uma disputa que se passa 
no interior do ser humano apresentando um processo dialético de 
influência do Espírito de Deus sobre aqueles que se convertem ao 
Evangelho. Ele diz: “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que 
somos filhos de Deus” (Romanos 8:16). Essa afirmação é parte de uma 
argumentação sobre o tipo de vida que manifestamos ao nascermos 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia134
de novo e passarmos a ser direcionados pelo Espírito. A pessoa que 
é alcançada, encontrada, resgatada ou reconciliada com Deus passa 
a se relacionar com ele por meio da presença do seu Espírito e sua 
influência. O que poderíamos arguir é se essa interpretação poderia 
incluir ou não uma análise semelhante à situação do povo de Deus 
no Antigo Testamento, ainda que não haja naqueles textos menção 
explícita do Espírito, como vimos.
O raciocínio de Paulo contrapõe duas condutas, uma guiada 
pelo Espírito e outra guiada pela carne. Ele explica que carne significa 
a natureza humana dominada pelo pecado. Sua argumentação é longa 
fazendo um contraste entre o estado humano sob o domínio da lei, da 
carne e do pecado, e o estado após a libertação da pessoa para uma vida 
no Espírito. Seu foco não está no aspecto subjetivo da experiência com 
o Espírito, mas no comportamento e nas ações que praticamos no dia-
a-dia. Pensando assim, ele explica: “Porque nem mesmo compreendo 
o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e, sim, o que 
detesto” (Romanos 7:15). Ora, a maneira que temos para escapar dessa 
situação desagradável, segundo Paulo, é contar com o auxílio e ajuda 
do Espírito divino: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará 
do corpo desta morte? [...] Porque a lei do Espírito da vida em Cristo 
Jesus te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 7:24; 8:2).
A nova vida no Espírito e esse processo de permanecer sensível 
à sua condução é o que podemos, então, denominar de santificação. 
A abordagem paulina difere daquela feita no livro de Levítico apenas 
no entendimento de que existe uma inerente incapacidade humana 
de cumprir a Lei por causa do estado de corrupção causado pelo 
pecado. Por suas próprias forças o ser humano não consegue ser santo. 
Para isso ele necessita do sopro renovador do Espírito de Deus. Para 
Paulo, tornar-se santo só é possível por meio da condução do Espírito 
Santo. Entretanto, o resultado da santificação é o mesmo indicado em 
Levítico 19, mas para chegarmos a essa conclusão precisamos seguir 
um raciocínio um pouco mais longo.
A contínua transformação da pessoa pelo Espírito é apresentada 
como uma meta elevada. O que se entende nas Escrituras é que a 
santificação, sendo iniciada com o novo nascimento, demanda um 
crescimento pessoal, com a transformação da personalidade e do 
135
caráter, tendo como modelo a pessoa de Cristo:
•	Efésios 4:13 – “até que todos alcancemos a unidade da fé e do 
conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, 
atingindo a medida da plenitude de Cristo”;
•	Gálatas 4:19 – “Meus filhos, novamente estou sofrendo dores 
de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês”.
Outra maneira de entendermos essa ação do Espírito é por meio 
da metáfora da árvore e dos frutos:
•	Mateus 7:16-23 – “Vocês os reconhecerão por seus frutos. 
Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas 
daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, 
mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode 
dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. 
Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada 
ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão! Nem 
todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos 
céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está 
nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não 
profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos 
demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes 
direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês 
que praticam o mal!’”;
•	 João 15:1-5 – “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o 
agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, 
ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto 
ainda. Vocês já estão limpos, pela palavra que tenho falado. 
Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum 
ramo pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na videira. 
Vocês também não podem dar fruto se não permanecerem 
em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém 
permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem 
mim vocês não podem fazer coisa alguma”.
O texto de Mateus, citado acima, está inserido no Sermão do 
Monte (Mateus 5-7), e a mensagem ali contrasta bons frutos com ações 
de iniquidade. Interessante notar que as ações de iniquidade podem 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia136
ter a aparência de ações religiosas. Considerando, contudo, toda a 
mensagem do Sermão do Monte, podemos entender que o tipo de 
frutos que se espera é descrito como um comportamento ético de alto 
nível, com a promoção da justiça e do amor. Note a semelhança entre 
esses princípios e aqueles que estão em Levítico 19. Apresento um 
resumo ressaltando alguns elementos importantes para essa discussão:
Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus 
discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, 
dizendo:
−	 Bem-aventurados os pobres em espírito, os humildes, os 
que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de 
coração, os pacificadores, os perseguidos por causa da justiça,
−	 Vocês são o sal da terra. Vocês são a luz do mundo. Assim 
brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas 
boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.
−	 Qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a 
julgamento.
−	 Se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e 
ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua 
oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu 
irmão; depois volte e apresente sua oferta.
−	 Entre em acordo depressa com seu adversário que 
pretende levá-lo ao tribunal. 
−	 Qualquer que olhar para uma mulher e desejá-la, já 
cometeu adultério com ela no seu coração. 
−	 Todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por 
imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se 
casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério.
−	 Não jurem de forma alguma. Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu 
‘não’, ‘não’. 
−	 Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, 
ofereça-lhe também a outra. E, se alguém quiser processá-lo e 
tirar de você a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém 
o forçar a caminhar com ele uma milha,vá com ele duas.
137
−	 Dê a quem pede, e não volte as costas àquele que deseja 
pedir algo emprestado.
−	 Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os 
perseguem.
−	 Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ 
diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, 
vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial.
−	 Quando você der esmola, que a sua mão esquerda não 
saiba o que está fazendo a direita.
−	 Se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial 
também perdoará vocês. Mas, se não perdoarem uns aos outros, 
o Pai celestial não perdoará as ofensas de vocês.
−	 Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça 
e a ferrugem destroem e onde os ladrões arrombam e furtam.
−	 Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio 
de luz. Mas, se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será 
cheio de trevas. 
−	 Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro.
−	 Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que 
comer ou beber; nem com seu próprio corpo, quanto ao que 
vestir. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a 
sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.
−	 Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da 
mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida 
que usarem, também será usada para medir vocês.
−	 Por que você repara no cisco que está no olho do seu 
irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? 
−	 Toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá 
frutos ruins.
−	 Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no 
Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu 
Pai que está nos céus.
−	 Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia138
profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos 
demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes 
direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês 
que praticam o mal!
Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como 
um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Mas 
quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um 
insensato que construiu a sua casa sobre a areia (Mateus 5-7)
Esse resumo ético e comportamental poderia ser sintetizado 
como a prática de boas obras que, conforme o apóstolo Paulo, é o nosso 
alvo cristão: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas 
obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” 
(Efésios 2:10). Jesus não elabora qualquer influência ou necessidade de 
auxílio do Espírito para atingirmos aquele patamar de comportamento. 
Novamente, à semelhança da construção feita no Antigo Testamento, 
entendemos que a responsabilidade recai sobre cada pessoa e seu 
esforço em cumprir os mandamentos. Mas retornando ao raciocínio de 
Paulo, esse entendimento sobre o auxílio do Espírito se torna plausível 
para o tempo da igreja tendo como referência o seu derramamento 
do sobre ela. Com base nesse pensamento, então, e usando a mesma 
analogia, a confirmação da ação do Espírito Santo sobre uma pessoa 
deve ser verificada pela presença do seu fruto. É também o apóstolo 
Paulo quem desenvolve essa ideia no capítulo 5 da carta aos Gálatas. 
Ali ele contrasta o fruto, do Espírito, com as obras da carne, ou seja, as 
práticas de iniquidade. Seguindo o raciocínio de Paulo, ele nos incita a 
andarmos no Espírito e a sermos guiados por ele numa resistência, ou 
militância, constante contra a natureza carnal e seus desejos (Gálatas 
5:16-18). Logo a seguir, ele nos apresenta quais são as obras da carne 
fazendo um contraste com o fruto do Espírito: 
Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, 
impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, 
ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, 
orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os 
adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino 
de Deus. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, 
amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. 
Contra essas coisas não há lei (Gálatas 5:19-23).
139
É interessante perceber que o fruto, que deve brotar naturalmente 
da convivência e influência do Espírito, é descrito como um elemento 
único, porém, com várias facetas. Poderíamos fazer uma comparação, 
por exemplo, com uma tangerina que possui vários gomos. Vemos, 
então, um único fruto que se expressa por uma ética própria ou 
que se expressa por um comportamento adequado em relação às 
outras pessoas: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, 
fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gálatas 5:22-23). O fruto não 
parece apontar para benefícios espirituais egocêntricos mas para uma 
existência que é simpática e agradável aos outros contrapondo-se às 
ações destrutivas indicadas pelas obras da carne. Olhando por outro 
ângulo, o fruto seria a descrição do comportamento do próprio Cristo.
Conclusão
A santificação pode ser entendida como o processo de alcance de 
um patamar na vida humana que reflita o caráter de justiça e amor de 
Deus em nossos relacionamentos. A atribuição de responsabilidade na 
promoção desse alvo, visto a partir do ser humano, pode ser interpretado 
como um esforço constante em cumprir os mandamentos divinos, 
controlando desejos e vontades individuais em prol do bem-estar da 
coletividade. Sabedores da dificuldade que enfrentamos em conseguir 
deixar em segundo plano nossa tendência egocêntrica destrutiva e 
darmos vazão a uma atitude de compromisso com a obediência aos 
mandamentos divinos, nos deparamos com a carência de um auxílio 
do próprio Deus em nos conduzir por esse caminho. Pensando assim, 
podemos observar esse auxílio ou influência divina sob dois pontos 
de vista. O primeiro ponto de vista seria considerar uma atitude 
mais passiva de nossa parte em que num tipo de ação miraculosa o 
Espírito de Deus atuaria em nosso interior fazendo-nos cumprir seus 
mandamentos. Uma objeção quanto a essa perspectiva seria a de 
admitirmos que isso eliminaria a nossa responsabilidade em relação 
aos nossos atos e pecados. O segundo ponto de vista seria considerar 
uma atitude ativa de estarmos atentos ao sopro divino, à sua voz e 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia140
ensino, por meio do conhecimento de sua palavra, já revelada, além 
de outras disciplinas tais como oração, meditação, etc., com o intuito 
de cumprirmos os seus mandamentos, e promovermos a sua justiça, 
e não com o objetivo de nos tornarmos seres imateriais, angelicais, 
ou “espirituais”, nesse sentido. A ideia de nascermos desse novo vento 
incluiria uma nova disposição de mente e coração, propositiva, e não 
somente uma disposição receptiva, embora resida a percepção dessa 
relação no nível da subjetividade.
Anotações
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141
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 15
O Espírito Santo e a Pessoa II
Introdução
Continuando o estudo da relação do Espírito Santo com 
a pessoa, ou seja, sua ação na esfera subjetiva, esta unidade 
tratará de outros aspectos que vão além da santificação e do 
fruto do Espírito, assuntos que foram tratados na unidade 
anterior. Nossa atenção agora estará voltada para algumas 
indicações bíblicas que a tradição evangélica tem lidado 
como referentes à área da espiritualidade.
Objetivos
1) Fundamentar biblicamente a ação do Espírito na 
dimensão pessoal;
2) Analisar aspectos gerais e específicos sobre a ação 
do Espírito em relação ao sujeito e seus desdobramentos.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia142
Após termos estudado aquilo que chamamos de processo de 
santificação, que ocorre como consequência da relação do Espírito 
Santo com a pessoa que foi alcançada pelo Evangelho, e de comentar 
sobre a expectativa da presença do fruto do Espírito na vida e caráter 
do cristão, agora voltaremos nossa atenção para outros conteúdos que 
dizem respeito ainda a essa influência no nível subjetivo.
Mais especificamente, queremos refletir sobre o que se 
convencionou chamar de espiritualidade e que, particularmente, 
prefiro denominar interioridade. A primeira dificuldade em lidar 
com esse tema está na pouca fundamentação e elaboração teológica 
advinda de textos bíblicos. A segunda dificuldade está na compreensão 
que podemos vir a ter sobre a pessoa humana no que se refere à sua 
constituição. Apesar da tradição, que a maioria dos evangélicos tem, em 
pensar a pessoa humana de forma dicotômica ou tricotômica, sendo 
composta de partes, em possíveis combinações entre corpo, alma, 
espírito, mente, coração, etc., tentarei elaborar alguma ideia sobre a 
espiritualidade a partir de uma concepção integral do ser humano, 
porém, focado no aspecto de sua interioridade ou de seu íntimo. 
O que denomino aqui de interioridade são os aspectos relativos ao 
pensamento, consciência, sentimento, raciocínio, vontade, etc.
1- Espiritualidade e carnalidade
Embora a espiritualidade possa ser entendida mais comumente 
como a relação entre o Espírito de Deus e o espírito humano, essa não é 
uma concepção bíblica. A palavra espiritualidade não aparece na bíblia 
e nem tampouco essa limitação de se pensar um canal único em que a 
relação com Deus seja estabelecida. A maior dificuldade, no entanto, é 
o de se perceber ou caracterizar o que vem a ser o espírito humano. Na 
maioria das vezes em que tentamos explicá-lo acabamos circunscritos 
a definições que coincidem com as esferas da emoção, raciocínio, 
consciência, intuição ou outras semelhantes. Isso sem mencionar a 
confusão que fazemos entre o espírito e o que denominamos como 
alma, mente, coração, etc.
O apóstolo Paulo ensina a igreja sobre algo que se aproxima 
143
do tema da espiritualidade, que nos ajudaria a especificar melhor 
o que estou tentando argumentar. Para ele, existem apenas dois 
modos de vida para o ser humano. O primeiro modo é aquele a que 
todos os humanos estão submetidos, involuntariamente, quando 
vêm à existência pelo nascimento natural biológico. Esse modo é 
denominado por Paulo como carnal. O segundo modo é aquele que 
acontece às pessoas quando são reconciliadas com Deus pelo novo 
nascimento. Esse novo nascimento se dá por um sopro renovador do 
Espírito de Deus e, assim, essa pessoa agora é espiritual. Para sustentar 
esse raciocínio, seguem alguns textos:
•	Romanos 7:14, 22-23; 8:8-9 – “Sabemos que a Lei é espiritual; 
eu, contudo, não o sou, pois fui vendido como escravo ao pecado 
[...] No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas 
vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando 
contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei 
do pecado que atua em meus membros [...] Quem é dominado 
pela carne não pode agradar a Deus. Entretanto, vocês não estão 
sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito 
de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de 
Cristo, não pertence a Cristo”;
•	1 Coríntios 3:1-3 – “Irmãos, não pude falar a vocês como a 
espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo. 
Dei a vocês leite, e não alimento sólido, pois vocês não estavam 
em condições de recebê-lo. De fato, vocês ainda não estão 
em condições, porque ainda são carnais. Porque, visto que há 
inveja e divisão entre vocês, não estão sendo carnais e agindo 
como mundanos?”;
•	Gálatas 5:16-17, 24-25 – “Por isso digo: Vivam pelo Espírito, 
e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne. Pois a carne 
deseja o que é contrário ao Espírito; o Espírito, o que é contrário 
à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que 
vocês não fazem o que desejam [...] Os que pertencem a Cristo 
Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos. 
Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito”.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia144
Desde de outra perspectiva ainda, temos o diálogo de Jesus com 
Nicodemus, conforme registrado por João:
Respondeu Jesus: “Digo a verdade: Ninguém pode entrar no 
Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito. O que nasce 
da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não 
se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês 
nasçam de novo” (João 3:5-7).
Com base nesse raciocínio, a primeira forma de vivência seria 
experimentada, toda ela, na carnalidade, usando aqui um substantivo 
para a sua designação. Já a segunda forma seria vivenciada, então, na 
espiritualidade. A carnalidade seria a via de expressão daqueles que 
não nasceram de novo. A espiritualidade seria a via de expressão 
daqueles que experimentaram o novo nascimento, ou seja, para esses 
a totalidade da vida é espiritual, como vemos nos textos bíblicos. 
Teríamos, portanto, dois modos de vida possíveis para o ser humano: 
o modo da carnalidade ou o modo da espiritualidade. Seguindo esse 
argumento, a espiritualidade não seria algo restrito a uma área, parte, 
ou âmbito específico do ser humano que designamos por espírito, mas 
estaria atrelada à totalidade de sua vida, que incluiria as outras áreas 
que compõem essa totalidade. A espiritualidade, assim, estaria além 
do interior ou do íntimo humano, aliás se ela não abarcar a vida em 
sua completude e complexidade ela perde o seu sentido.
Perceba que essa maneira de enxergarmos a espiritualidade 
concorda com o conceito de santificação. Assim como a santificação 
não se concretiza na interioridade, a espiritualidade também não. 
Podemos até defender que existe um processo interior de mudança 
que afeta a nossa mente, intelecto, vontade, caráter, etc. causado pelo 
o que chamamos de novo nascimento e promovido pelo vento de 
Deus, ou seja, o seu Espírito. O resultado, no entanto, desse processo 
não é uma vida íntima restrita à individualidade ou à promoção do 
indivíduo. O resultado é uma vida humana melhor em tudo o que 
a compõe, principalmente na demonstração do amor e da justiça de 
maneira coletiva, pois, é nessa esfera social que efetivamente vivemos. 
É claro que não podemos nos esquecer da guerra que ocorre em nosso 
interior entre essas as duas naturezas humanas, uma tentando uma 
suplantar a outra, conforme indicada no texto de Romanos. Mas para 
melhor entender essa questão trataremos especificamente dela a seguir.
145
2- Desenvolvimento da espiritualidade
Tomando por base, então, a teologia desenvolvida pelo apóstolo 
Paulo no livro de Romanos, esta indica um permanente embate entre 
a natureza carnal, afeita ao pecado, e a natureza espiritual, afeita à 
justiça. Nas palavras de Paulo, esse estado é descrito como uma guerra 
que pode pender mais para um lado que para o outro dependendo de 
como contribuímos para esses dois estados ou duas naturezas.
Usando outras expressões bíblicas que apontam na mesma 
direção, sugerimos que existe a possibilidadede desenvolvermos, 
melhorarmos ou aperfeiçoarmos a nova vida do ser espiritual, ou 
seja, a espiritualidade. Por assim dizer, o novo nascimento deve ser 
acompanhado por um esforço consciente de mudança de atitudes, 
hábitos, comportamentos, raciocínios, etc. Se nos deixarmos levar 
pelos desejos, paixões e sentimentos próprios da natureza humana 
caída e egoísta, a consequência será aquela já descrita por Paulo no 
texto de Gálatas 5, mencionado acima. Para reagirmos a essa tendência 
natural, devemos contribuir para que haja mais espaço e controle da 
nossa vida por aquilo que é próprio do Espírito Santo de Deus. Essa 
dinâmica é indicada por Paulo, por exemplo, na carta aos Efésios:
Todavia, não foi isso que vocês aprenderam de Cristo. De fato, 
vocês ouviram falar dele, e nele foram ensinados de acordo 
com a verdade que está em Jesus. Quanto à antiga maneira 
de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, 
que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no 
modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser 
semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da 
verdade. Portanto, cada um de vocês deve abandonar a mentira 
e falar a verdade ao seu próximo, pois todos somos membros de 
um mesmo corpo. “Quando vocês ficarem irados, não pequem”. 
Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha e não deem lugar 
ao Diabo. O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo 
algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com 
quem estiver em necessidade. Nenhuma palavra torpe saia da 
boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, 
conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a 
ouvem. Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, com o qual 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia146
vocês foram selados para o dia da redenção. Livrem-se de toda 
amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de 
toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com 
os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os 
perdoou em Cristo (Efésios 4:20-32).
A argumentação de Paulo parte da proposta de uma renovação 
no modo de pensar para conseguirmos nos despir da velha natureza 
carnal. Outra versão procura ser um pouco mais precisa na tradução 
do texto grego, no qual lemos a expressão “modo de pensar”, trazendo 
a opção “espírito do entendimento” ou “espírito da mente” (pneumati 
tou noos). É interessante que Paulo junta, didaticamente, duas 
expressões da interioridade humana que temos o costume de tratar 
como distintas e, talvez, independentes. Seguindo o princípio da 
integralidade, ou seja, de que Paulo não está lidando com duas coisas 
separadas, espírito e mente, mas está tentando indicar um caminho 
para a nova vida em Cristo, ele propõe que essa renovação se dá 
seguindo a justiça (dikaiosune) e a santidade (osioteti) procedentes 
da verdade (aletheias). Renovar o espírito do entendimento é, 
assim, racionalmente, optar por um caminho de vida que expresse 
verdadeiramente justiça e santidade ou retidão. O termo santidade 
aqui segue o mesmo princípio, já desenvolvido anteriormente, sobre 
a santificação. Observe que o apóstolo Paulo não usa esses conceitos 
de forma abstrata. Ele constrói o seu raciocínio da seguinte forma: 
deixar para trás o modo de vida da carnalidade, desenvolvendo a 
espiritualidade, se dá pela renovação da maneira de pensar, optando 
por seguir um caminho de justiça e santidade, de forma prática, tendo 
um comportamento adequado em relação às pessoas que nos cercam, 
aqueles que estão próximos. Isso ocorre de maneira prática, falando a 
verdade, não odiando, não furtando, não falando de maneira que fira 
ou machuque, não se amargurando, não se enraivecendo, não ficando 
de choradeira, não difamando e não maliciando. Mas, com o intuito 
de deixar seu ensino claro, ele propõe as ações positivas que expressam 
a espiritualidade, ou seja, a vida sob a condução do Espírito. Aquele 
que é espiritual deve trabalhar fazendo algo útil e repartir o fruto do 
seu trabalho com os outros, deve edificar a vida dos seus irmãos, ser 
bondoso, compassivo e pronto para perdoar.
147
Paulo usa uma linguagem simbólica em seu texto para se referir 
ao Espírito em função do comportamento humano. Aplicando uma 
expressão que designa pessoalidade, conforme já explicado em outra 
unidade, ele diz que as ações negativas no trato com o outro entristecem 
o Espírito. Essa maneira simbólica de expressar um distanciamento do 
padrão de comportamento esperado por Deus é ampliada no capítulo 
seguinte de Efésios quando Paulo comenta sobre o caminho oposto. 
Ali, usando outra expressão simbólica, ele propõe o enchimento do 
Espírito:
Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja 
como insensatos, mas como sábios, aproveitando ao máximo 
cada oportunidade, porque os dias são maus. Portanto, não sejam 
insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do 
Senhor. Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, 
mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre vocês com 
salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de 
coração ao Senhor, dando graças constantemente a Deus Pai por 
todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Sujeitem-
se uns aos outros, por temor a Cristo (Efésios 5:15-21).
Paulo complementa o seu raciocínio afirmando que está tratando 
de uma nova maneira em que devemos nos esforçar por viver, caminhar 
ou andar na vida. De um lado há a caminhada dos tolos, insensatos, 
que enfrentam a vida por meio do entorpecimento. A embriaguez é 
uma forma de fuga da realidade muito própria do comportamento 
humano que representa a sua carnalidade ou o domínio do pecado e 
distanciamento de Deus. Na embriaguez perdemos a noção do ambiente 
e das pessoas que nos cercam e queremos atribuir a responsabilidade 
de nossas más ações ao entorpecente. Devemos entender a embriaguez 
não apenas relacionada ao uso de entorpecentes, mas sim relacionada 
com todos os tipos de fugas e desculpas que usamos para justificar 
nossas atitudes que ferem os outros.
O outro caminho de vida é aquele representado pela busca de 
proximidade e plenitude ao tentar andar sob a orientação divina. 
Isso se dá no esforço por preencher suas mentes e vidas com uma 
atitude de louvor, gratidão e glorificação a Deus, com a simultânea 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia148
autossujeição entre os membros da comunidade da fé. Observe que 
Paulo usa termos relacionados ao uso da razão: insensatos (asofoi – 
não-sábio), sábios (sofoi) e novamente insensatos (afrones – tolos). 
Esse texto ainda que pareça mais abstrato que o anterior deve ser lido 
conjuntamente, pois, faz parte da mesma carta e ensino do apóstolo. 
A ideia de enchimento do Espírito está em contraponto ao estado de 
embriaguez. Se a embriaguez seria a perda do senso, do controle da 
razão e da ação, o enchimento do Espírito representaria o bom uso da 
razão e da sabedoria.
Vale o alerta de que em nossa maneira contemporânea de 
enxergarmos a espiritualidade, especialmente nas igrejas, talvez 
tenhamos enfatizado mais as chamadas disciplinas espirituais clássicas 
do que as questões éticas, comportamentais, racionais e sociais. 
Embora o texto citado fale de salmos, louvores, hinos e cânticos, como 
uma maneira de nos enchermos do Espírito, eles não são a única via. 
Acostumamo-nos a pensar que a espiritualidade é desenvolvida com 
a meditação, oração, jejum, estudo, simplicidade, solitude, submissão, 
serviço, confissão, adoração, orientação e celebração, citando aqui as 
disciplinas indicadas por Richard Foster (1983), mas nos esquecemos 
de elaborá-la a partir da atitude na vida em sociedade, que prevê as 
outras ações também mencionadas por Paulo no livro de Efésios.
Não estamos diante de um caso de escolha de caminhos auto-
excludentes, muito pelo contrário, eles se complementam. Tanto as 
disciplinas que focam o aspecto mais interior e individual da vida 
quanto as disciplinas que focam o aspectomais exterior e comunitário 
são importantes. Ambos os âmbitos fazem parte da vida do ser 
espiritual, daquele que foi regenerado e é agora responsável por levar 
a mensagem do evangelho de Cristo adiante. Ambos os âmbitos 
precisam ser desenvolvidos, isso sem falar em outros que vão além 
da individualidade e afetam a nossa vida comunitária tais como os 
âmbitos político, econômico, ecológico, etc.
149
Conclusão
Se considerarmos tudo o que foi desenvolvido até aqui sobre 
o entendimento da relação do Espírito com a pessoa, podemos 
concluir que a nova forma de vida espiritual engloba a totalidade da 
vida humana, observada a partir dos padrões divinos que dignificam 
a existência e promovem a justiça e a retidão. Embora haja uma 
tendência para o foco na interioridade e algumas práticas específicas, 
a espiritualidade, no entanto, prevê o desenvolvimento de todas os 
âmbitos que circunscrevem a vida humana. Arrisco dizer que quanto 
mais espiritual uma pessoa for, mais humana ela será, pois foi assim 
que Deus a criou. Deus não nos fez seres angelicais, imateriais, para 
vivermos em uma região celestial. Ele nos fez humanos para vivermos 
sobre a terra e convivermos uns com os outros e com a natureza, em 
harmonia, em equidade, em justiça e em amor. Portanto, quanto mais 
próximos nos tornamos de Deus, quanto mais cheios e conduzidos 
por seu Espírito, mais próximos estaremos da condição humana e 
mais sensíveis a cumprirmos esse propósito de vida.
Referências
FOSTER, Richard. Celebração da disciplina: o caminho do crescimento 
individual. Deerfield: Vida, 1983.
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Cristologia e Pneumatologia150
Anotações
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151
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 16
O Espírito Santo, a Igreja e o Mundo
Introdução
Continuando a análise das relações estabelecidas 
entre o Espírito Santo e a criação como um todo, após 
analisarmos a esfera de atuação no nível da individualidade, 
nesta unidade focaremos a sua atuação na coletividade. 
No título da unidade priorizamos o foco na igreja por 
entendermos que esse é o principal ambiente coletivo de 
que tratam os textos bíblicos, obviamente, considerando a 
teologia mais ampla do povo de Deus. A seguir, olharemos 
para a sua atuação em relação ao cosmos. Nossa intenção é 
explorarmos a relação do Espírito Santo com a natureza, ou 
seja, com aquilo que está além dos seres humanos ou aquilo 
que forma o seu habitat.
Objetivos
1) Fundamentar biblicamente a ação do Espírito 
Santo na dimensão coletiva e cósmica;
2) Analisar aspectos gerais e específicos sobre a ação 
do Espírito Santo em relação à igreja, ao mundo em geral e 
suas consequências.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia152
As unidades anteriores trataram da relação do Espírito Santo com 
a pessoa, que na teologia evangélica ocidental recebe mais atenção que as 
dimensões coletiva e cósmica. Entretanto, ao observarmos biblicamente 
a doutrina do Espírito, verificamos que a dimensão coletiva parece ter 
predominância sobre a dimensão pessoal. A questão é que a cultura 
ocidental, individualista, acaba por influenciar a nossa maneira de ler e 
interpretar o texto bíblico, além de influenciar a construção teológica e de 
vivência prática da fé nas comunidades locais.
A tese que estou levantando aqui se comprova ao olharmos 
para o projeto de Deus em se fazer representar diante da humanidade 
por meio de um povo separado para essa finalidade. Mesmos os 
personagens bíblicos, que podem ser analisados como indivíduos, 
estão inseridos nesse projeto maior do povo escolhido. Eles se tornam 
coadjuvantes de um roteiro mais amplo. Começando a história do 
povo de Deus com o chamado de Abraão, vemos que a sua vocação 
não é para uma experiência individualista com Deus e sim para um 
vasto projeto coletivo:
Então o Senhor disse a Abrão: “Saia da sua terra, do meio dos 
seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu 
lhe mostrarei. Farei de você um grande povo, e o abençoarei. 
Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. 
Abençoarei os que o abençoarem e amaldiçoarei os que o 
amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra 
serão abençoados (Gênesis 12:1-3).
Em contraposição ao indivíduo Abrão, o texto menciona que o 
objetivo do chamado está na sua posteridade como nação e que será 
exatamente por meio dessa expressão coletiva que todos os povos da 
terra serão abençoados. A ideia não é que o indivíduo Abrão abençoe 
todas as famílias da terra em uma jornada pessoal, mas que os seus 
descendentes, formando um povo, na sua vivência coletiva, concretize 
essa bênção. E de que maneira isso ocorrerá? A intenção de Deus 
aponta para a formação de um protótipo de sociedade justa, que 
manifeste a sua glória, para toda a humanidade.
O projeto inicia-se com Abraão e seu clã, passando pela 
constituição da liga das doze tribos, até a formação da nação de Israel. 
É na formação do povo de Israel, tendo como elemento aglutinador 
153
a fé monoteísta em Javé, estabelecida na aliança sinaítica e balizada 
pela Lei mosaica, que encontramos o primeiro conceito de santidade 
ou santificação: “vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma 
nação santa” (Êxodo 19:6). Ao mesmo tempo em que a santidade 
envolve uma separação do uso comum para uma finalidade específica, 
ela também exige um comportamento adequado a essa condição 
de permanente contato com o Deus de justiça. Daí a expressão 
complementar: “[...] Sejam santos porque eu, o Senhor, o Deus de 
vocês, sou santo” (Levítico 19:2). Como vimos, o capítulo 19 do livro 
de Levítico irá tratar de um comportamento ético coletivo que exprime 
o que significa santidade ou ser santo.
Pensando assim, a santificação da pessoa ou do indivíduo perde 
o seu valor se ela não for aplicada às relações com as outras pessoas. 
Em outras palavras, a santificação individual ocorre em um ambiente 
coletivo em que Deus se faz presente. No Antigo Testamento isso deveria 
se dar pelo povo de Israel, já no Novo Testamento isso se expande para 
a igreja, o novo Israel de Deus. Seguindo esse raciocínio, é a igreja o 
grande alvo da santificação, mas para que isso aconteça os seus membros 
vão sendo individualmente santificados por meioda vida coletiva como 
na metáfora da árvore e de seus ramos. O alvo da santificação não é um 
galho isolado da videira e sim todos, simultaneamente, na medida em 
que permanecem ligados ao tronco que é Cristo.
Portanto, o resultado da santificação coletiva deveria ser a 
produção de um ambiente agradável e atrativo à sociedade. A união 
de pessoas diferentes, com base no vínculo de amor, vivendo uma vida 
santa, torna-se a pregação viva do Evangelho: “Com isso todos saberão 
que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” 
(João 13:35).
1- A santificação, a coletividade e os dons
Outro aspecto bastante explorado na pneumatologia prática das 
igrejas são os dons do Espírito. Embora também possam ser vistos de 
maneira individualista, no sentido da busca de cada um pela habilidade 
dispensada pelo Espírito e o espaço para que ela possa ser expressa, 
toda a construção dessa teologia passa por um aspecto essencialmente 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia154
coletivo que é o Corpo de Cristo. O foco principal dos dons não é a 
manifestação do poder de Deus, nem muito menos a comprovação 
da espiritualidade dos indivíduos à medida que eles os manifestam. 
O foco principal é a edificação coletiva do próprio povo. Os dons têm 
uma finalidade coletiva e não individual.
É importante notar que, ao introduzir o tema dos dons do 
Espírito, o apóstolo Paulo estabelece um pano de fundo, um ambiente, 
princípios que norteiam como eles devem ser exercidos: 
•	Efésios 4:1-6, 11-12 – “Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que 
vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam comple-
tamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos 
outros com amor. Façam todo o esforço para conservar a unidade do 
Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim 
como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há 
um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, 
que é sobre todos, por meio de todos e em todos [...] E ele designou 
alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelis-
tas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos 
para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado”.
•	1 Coríntios 12:4, 12-13, 20 – “Há diferentes tipos de dons, mas o 
Espírito é o mesmo [...] Ora, assim como o corpo é uma unidade, 
embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo 
muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cris-
to. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único 
Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a 
todos nós foi dado beber de um único Espírito [...] Assim, há muitos 
membros, mas um só corpo”.
A primeira característica desse ambiente é o que poderíamos 
denominar de santidade, descrita no texto de Efésios como viver de 
maneira digna, vivenciando a humildade, a docilidade, a paciência, 
servindo de suporte para as pessoas e fazendo um esforço por manter 
a unidade e paz na comunidade. O próprio tema da unidade torna-se 
a segunda característica do ambiente onde se inserem os dons. Tanto 
o texto de Efésios quanto o de 1 Coríntios exploram essa ideia com as 
expressões “um” e “um só”. A principal mensagem é que, embora haja 
155
muitas pessoas, com diferentes habilidades ou dons, caso não ocorra a 
unidade de pensamento, sentimento e propósito, tudo será em vão. A 
unidade é produzida pelo próprio Espírito. Ela é a prerrogativa para 
a distribuição do poder de Deus, por meio dos dons, aos membros 
do Corpo de Cristo. Isso nos leva, portanto, a refletir se por acaso é 
possível que o Espírito que intermedia a unidade esteja presente em 
ocasiões em que parece haver a manifestação dos dons, mas não se 
percebe essa unidade ou não se percebe o ambiente de santidade 
conforme descrito acima.
Os dons, então, não são instrumentos de poder próprio, para a 
manipulação de pessoas ou para angariar benefícios individuais. Não há 
espaço para a arrogância, soberba, discriminação, opressão ou qualquer 
outra postura que não considere a interdependência e unidade em prol 
da coletividade. Maior cuidado, portanto, deve haver por parte daqueles 
que exercem os dons mais proeminentes ou que ficam responsáveis por 
uma função de liderança, pois, esses são os que sofrem a maior tentação 
em priorizar a individualidade em detrimento do todo.
Os dons devem ser entendidos como a expressão da multiforme 
sabedoria de Deus e de sua bondade na intenção de aperfeiçoar a 
coletividade do povo para que este o represente diante do mundo 
de maneira digna e viva como exemplo de humanidade e de justiça. 
Um corpo saudável, que viva harmoniosamente e que demonstre, na 
prática, o amor de Deus, é a maior expressão da presença e influência 
do Espírito Santo sobre a igreja, apontando para o projeto que Deus 
tem para a humanidade. Por essa razão, a igreja não pode ser um 
organismo estático. Ela deve estar em movimento constante buscando 
alcançar todos os seres humanos, onde quer que se encontrem. Daí a 
sua vocação missionária.
2- O Espírito nos confins da terra
De certa forma, talvez influenciados pela proximidade que 
desenvolvemos com a vivência religiosa e com as temáticas teológicas, 
podemos ter a noção equivocada de que o Espírito de Deus está 
restrito ao ambiente da igreja. Às vezes podemos chegar ao absurdo 
de pensarmos que controlamos o Espírito com nossos malabarismos 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia156
religiosos. O fato é que o Espírito de Deus é livre e sequer nos avisa o 
que pretende fazer ou em que está envolvido, caso contrário, ele não 
seria a expressão do próprio Deus.
O Espírito que pairava sobre o caos dando início ao processo de 
criação do universo é o mesmo que paira sobre o mundo de hoje em 
sua sustentação:
•	 Salmo 65:5-10 – “Tu nos respondes com temíveis feitos 
de justiça, ó Deus, nosso Salvador, esperança de todos os 
confins da terra e dos mais distantes mares. Tu que firmaste os 
montes pela tua força, pelo teu grande poder. Tu que acalmas o 
bramido dos mares, o bramido de suas ondas, e o tumulto das 
nações. Tremem os habitantes das terras distantes diante das 
tuas maravilhas; do nascente ao poente despertas canções de 
alegria. Cuidas da terra e a regas; fartamente a enriqueces. Os 
riachos de Deus transbordam para que nunca falte o trigo, pois 
assim ordenaste. Encharcas os seus sulcos e aplainas os seus 
torrões; tu a amoleces com chuvas e abençoas as suas colheitas”;
•	 Isaías 40:21-26 – “Será que vocês não sabem? Nunca 
ouviram falar? Não contaram a vocês desde a antiguidade? 
Vocês não compreenderam como a terra foi fundada? Ele se 
assenta no seu trono, acima da cúpula da terra, cujos habitantes 
são pequenos como gafanhotos. Ele estende os céus como um 
forro e os arma como uma tenda para neles habitar. Ele aniquila 
os príncipes e reduz a nada os juízes deste mundo. Mal eles 
são plantados ou semeados, mal lançam raízes na terra, Deus 
sopra sobre eles, e eles murcham; um redemoinho os leva como 
palha. ‘Com quem vocês vão me comparar? Quem se assemelha 
a mim?’, pergunta o Santo. Ergam os olhos e olhem para as 
alturas. Quem criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada 
estrela do seu exército celestial, e a todas chama pelo nome. Tão 
grande é o seu poder e tão imensa a sua força, que nenhuma 
delas deixa de comparecer!”.
Vale a pena ressaltar algumas expressões e ideias contidas nesses 
textos. No Salmo 65 lemos que Deus firma os montes, acalma o 
bramido dos mares, rega a terra, prepara o trigo e abençoa a produção. 
Já em Isaías 40, lemos a imagem simbólica de um Deus que se assenta 
sobre o planeta, faz do céu a sua habitação, conhece cada estrela e 
157
exerce controle sobre os dominadores e líderes humanos. Entendemos, 
assim, que o sustento e governo do mundo são expressões da graça e 
da misericórdia de Deus que tem no amor salvífico pela humanidade 
o seu alvo maior (João 3:16). Por essa razão, o envio do Espírito buscaimplementar essa missão em todos os cantos e limites do mundo: “Mas 
receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão 
minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até 
os confins da terra” (Atos 1:8).
Nesse sentido, é o Espírito que toma a dianteira, a iniciativa de ir 
adiante, de ir à frente do seu povo e não o contrário. Deus não segue 
a agenda e o planejamento da igreja. É a igreja que deve estar atenta 
à voz de Deus e a seus planos para se dispor a seguir e obedecer. Esse 
raciocínio é atestado pelo princípio da condução do povo no deserto:
•		Êxodo 13:21-22 – “Durante o dia o Senhor ia adiante deles, 
numa coluna de nuvem, para guiá-los no caminho, e de noite, 
numa coluna de fogo, para iluminá-los, e assim podiam 
caminhar de dia e de noite. A coluna de nuvem não se afastava 
do povo de dia; nem a coluna de fogo, de noite”;
•		Números 9:17 – “Sempre que a nuvem se levantava de cima 
da Tenda, os israelitas partiam; no lugar em que a nuvem descia, 
ali acampavam”.
O Espírito Santo não está restrito aos ambientes eclesiásticos. Ele 
não depende da igreja para agir, mas a usa como instrumento. Assim, 
a igreja precisa desenvolver a sensibilidade de perceber a orientação 
do Espírito e segui-lo. Algo semelhante ao que aconteceu com Pedro 
em relação aos gentios relatado em Atos 10 e com Paulo em relação 
aos macedônios relatado em Atos 16.
3- O Espírito e a natureza
Obviamente todo o nosso estudo teológico só faz sentido quando 
abordado a partir da perspectiva do ser humano. Embora esse seja 
o foco principal, podemos cometer o engano de olharmos apenas 
para o ser humano e nos esquecermos de que a sua existência está, 
de maneira indissociável, ligada ao meio ambiente onde habita. Não 
é possível a vida humana no vácuo. O ser humano só consegue viver 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia158
em determinadas condições de temperatura e pressão, dependente do 
oxigênio e de certos alimentos, isso sem mencionar as suas necessidades 
relacionais e afetivas.
Essa consideração deveria ser óbvia para a maioria de nós ao nos 
depararmos com o relato da criação presente no livro de Gênesis. O 
processo criativo de Deus é relatado de maneira detalhada apresentando 
o estabelecimento do ambiente em que o ser humano irá desenvolver a 
sua existência. Proporcionalmente, são cinco dias dedicados à criação 
do cosmos e um dia dedicado à criação do ser humano. Outra forma 
de encararmos o fato de que o ambiente onde vivemos é um elemento 
essencial em nossas construções teológicas é, ainda no contexto da 
criação, vermos o destaque dado ao jardim do Éden e o mandamento 
dado ao ser humano para que cuidasse dele: “Ora, o Senhor Deus tinha 
plantado um jardim no Éden, para os lados do leste, e ali colocou o 
homem que formara [...] O Senhor Deus colocou o homem no jardim 
do Éden para cuidar dele e cultivá-lo” (Gênesis 2:8, 15).
É com base nessas prerrogativas que queremos analisar a relação 
que há entre o Espírito Santo e o cosmos, entre o Espírito de Deus 
e a natureza criada. Essa abrangência de ação do Espírito pressupõe 
a preocupação com as questões ecológicas e de sustentabilidade. 
Certamente esse não era um tema presente na agenda teológica dos 
autores bíblicos por causa do contexto específico em que viviam, no 
entanto, temos indícios suficientes para concluirmos que ele deve estar 
em nossa proposta de ação missiológica.
•	Salmo 8:3-9 – “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus 
dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, 
para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com 
ele te preocupes? Tu o fizeste um pouco menor do que os seres 
celestiais e o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar 
as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste: todos os 
rebanhos e manadas, e até os animais selvagens, as aves do céu, os 
peixes do mar e tudo o que percorre as veredas dos mares. Senhor, 
Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra!”;
•	Salmo 50:10-11 – “pois todos os animais da floresta são meus, 
como são as cabeças de gado aos milhares nas colinas. Conheço 
todas as aves dos montes e cuido das criaturas do campo”;
159
•	Mateus 6:26-30 – “Observem as aves do céu: não semeiam nem 
colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as 
alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas? Quem 
de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora 
que seja à sua vida? “Por que vocês se preocupam com roupas? 
Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham 
nem tecem. Contudo, eu digo que nem Salomão, em todo o 
seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a 
erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não 
vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?”;
•	Romanos 8:18-23 – “Considero que os nossos sofrimentos atuais 
não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada. 
A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos 
de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à inutilidade, 
não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele 
que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada 
será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, 
recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que 
toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. 
E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do 
Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa 
adoção como filhos, a redenção do nosso corpo”.
O que observamos nesses textos, além da obviedade da criação 
sendo originada em Deus, é que ele delega a responsabilidade de 
domínio sobre a natureza ao ser humano. Não podemos pressupor que 
esse domínio seja exercido de qualquer maneira, pois não só a criação 
é vista como algo bom, como também ela continua sendo cuidada 
concomitantemente por Deus. Por causa da situação de pecado que 
sujeitou a natureza a uma condição agonizante, ela também se tornou 
alvo da restauração escatológica promovida por Deus. Por isso, 
assim como pregamos, vivenciamos e agimos fundamentados nessa 
esperança em função do resgate do ser humano, também devemos nos 
envolver na mesma proporção com a natureza que serve como nosso 
habitat. E isso deve se dar com a mesma capacitação do Espírito Santo.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia160
Conclusão
Vimos que a pneumatologia considera uma grande esfera de 
atuação do Espírito de Deus, tão grande quanto ele próprio. O Espírito 
perpassa âmbitos individuais, coletivos e cósmicos como o vento 
divino sempre presente. É na consideração de sua eficaz ação criadora 
do cosmos que entendemos que ele se relaciona com o mundo em sua 
sustentação e cuidado, requerendo do ser humano a mesma atitude e 
consequente responsabilidade por seus atos e cumprimento da missão 
em toda a criação.
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Anotações
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_______________________________________________________alta dedica-se à reflexão da divindade da pessoa de 
Jesus. No início da igreja, a abordagem foi prioritariamente, se não 
exclusiva, de ordem filosófica. Os pais da igreja, de origem e formação 
cultural helênica se debruçaram sobre a discussão da divindade de 
Cristo. Daí o uso do conceito de Logos pelo apóstolo João que parece 
fazer uma tentativa de imersão naquela cultura (João 1:1). “No princípio 
era aquele que é a Palavra (logoj – logos). Ele estava com Deus, e era 
Deus”. O Logos era para os gregos a fonte suprema do conhecimento e 
origem das coisas. Usando esse princípio, João o identifica com Jesus, 
ou seja, ele constrói uma ponte entre o conhecimento judaico-cristão 
e o grego, afirmando sua divindade.
O grande problema, no entanto, era fazer a aplicação dos conceitos 
filosóficos, das expectativas culturais e dos dogmas teológicos para a 
realidade da pessoa humana e histórica de Jesus. Mais que isso, não 
apenas estavam tratando de uma pessoa, porém, naquele momento, 
alguém que já estava morto. O apóstolo Paulo, sendo judeu, conseguiu 
lidar com esse dilema por meio da experiência que teve com o Cristo 
ressurreto. A sua aceitação de Jesus como o Messias e como ser divino 
se deu a partir da visão que teve na estrada para Damasco (Atos 9:1-9). 
Ele viu aquele que havia sido morto falando com ele, vivo. Mas para os 
novos cristãos do império romano, em tempo posterior, que não foram 
testemunhas oculares da vida e ministério de Jesus, nem tampouco 
possuíam a tradição judaica, o caminho foi a discussão filosófica.
Algumas elaborações, então, surgiram na tentativa de explicar 
a natureza divino-humana do Cristo, ou mais que isso, a de afirmar 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia16
ou não a sua divindade. Uma delas foi denominada docetismo, do 
grego dokeo (δοκέω), que significa aparência. Essa corrente filosófica 
defendia que Jesus era totalmente divino e que em sua vida terrena ele 
teria apenas uma aparência humana permanecendo, portanto, ainda 
completamente divino. Algo semelhante às teofanias do passado. Os 
cristãos que propunham essa explicação eram do círculo helênico, 
fortemente influenciado pelo pensamento gnóstico, que priorizavam e 
valorizavam, de maneira dicotômica, o mundo imaterial em detrimento 
do mundo material, ou seja, para eles, afirmar a humanidade de Jesus 
era, de certa forma, diminuí-lo.
Outra corrente foi denominada modalismo, cuja intenção era 
explicar o ser divino, incluindo Cristo, na formulação da Trindade. 
O modalismo afirmava que a autorevelação divina se dava em 
três modos e tempos distintos. De forma resumida, essa corrente 
defendia que Deus havia se revelado no Antigo Testamento como um 
ser único e conhecido como Javé, ou o Pai. Já no Novo Testamento 
encontramos Deus manifestado como Jesus de Nazaré e após a sua 
morte e ressurreição como o Espírito Santo. Assim sendo, Deus se 
manifestou de três modos distintos ao longo da história, ora como Pai, 
ora como Filho, ora como Espírito Santo. Essa opção teológica nega a 
encarnação ou a humanidade de Jesus. Como apenas um modo de ser 
Deus, Jesus seria totalmente divino e não teria nada de humano. 
Ainda outra corrente, que ficou conhecida como ebionismo 
ou ebionitismo, do hebraico ebioni (ynEyOb>a_______________________________________________________
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Cristologia e Pneumatologia162
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_______________________________________________________esvaziado de sua 
divindade. Assim sendo, cabe investigarmos esse outro lado da pessoa 
de Cristo, que é tratado pela cristologia baixa.
2- Cristologia baixa
A cristologia baixa se dedica à reflexão sobre a humanidade de 
Cristo. Diferente do momento histórico dos primeiros concílios da 
igreja, que se preocuparam com a divindade de Jesus, a cristologia 
baixa tomou grande força após o iluminismo influenciar o campo da 
Teologia com as ciências humanistas. Alguns estudiosos procuraram 
isolar o “Jesus Histórico” do “Cristo da Fé”. Para alguns teólogos, o 
19
Jesus Histórico seria o judeu nazareno nascido do casal Maria e José, 
puramente humano. Já o Cristo da Fé seria uma construção posterior 
dos discípulos do mestre Jesus que tomaram para si uma dimensão 
maior da representatividade do seu exemplo e ensinos, construindo 
uma imagem divinizada que teria sido perpetuada pela igreja.
Esse tipo de argumento ou desconstrução da figura do Cristo 
bíblico foi baseado em critérios literários, por vezes arbitrários, mas 
principalmente pelo entendimento cartesiano, racionalista, objetivo e 
mecanicista das filosofias iluministas. Talvez o processo mais conhecido 
dessa abordagem cristológica seja a demitologização, proposta por 
Rudolf Bultmann, esvaziando o sentido milagroso e sobrenatural 
dos relatos bíblicos referentes a Jesus. Para ele, o nascimento virginal, 
seus milagres e até a ressurreição seriam construções teológicas 
mitológicas sem comprovação científica e, portanto, válidas apenas 
para a comunidade de fé.
Deixando de lado esses aspectos mais críticos do desenvolvimento 
da cristologia baixa, devemos ressaltar a importância da perspectiva 
da humanidade de Cristo para a vivência da fé. É exatamente na 
humanidade de Jesus que temos a possibilidade de nos aproximar dele 
como o modelo ideal para a vida humana. Jamais poderíamos fazê-lo 
caso o referencial fosse estabelecido a partir de sua divindade, mas sendo 
ele humano, temos a possibilidade de imitá-lo, como indica o apóstolo 
Paulo (1 Coríntios 11:1). Nesse sentido, a construção de uma teologia 
bíblica torna-se mais factível dado o volume de textos que se referem 
à vida e ministério de Jesus, principalmente nos evangelhos. De certa 
forma, entendendo que o Cristo também é o cumprimento daquilo 
para o qual Antigo Testamento apontava em sua intencionalidade de 
elaboração de uma vivência ideal para o povo de Israel, acabamos por 
ter um horizonte mais amplo de investigação incluindo esses textos. 
Como afirmou Jesus, “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; 
não vim abolir, mas cumprir” (Mateus 5:17).
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia20
Conclusão
O mistério de Jesus Cristo como Deus-homem carrega ainda 
outro importante aspecto que não podemos relegar. Esse aspecto 
é a função reveladora de Jesus, como atesta Hebreus 1:1-2. Jesus, 
sendo a expressão exata de Deus quebra um paradigma histórico e 
teológico, até então em vigor para o mundo judeu, que apontava para 
um Deus distante e inacessível. O Cristo encarnado aproxima Deus 
da humanidade. Ele passa a ser o Emanuel, Deus conosco, amoroso, 
cuidadoso, que não apenas conhece a condição humana, mas a vive de 
maneira integral.
Ao lidarmos com esse dilema da divindade e humanidade de 
Cristo e tentarmos elaborar as teologias alta e baixa, devemos ter em 
mente o contexto da igreja. As nossas expressões de fé, principalmente 
aquelas representadas pelo culto e sua liturgia, bem como outras 
expressões corriqueiras, parecem não apresentar grandes problemas na 
compreensão da divindade de Cristo. Pelo contrário, historicamente, 
a igreja cristã se desenvolveu com esse dogma desde muito cedo. Não 
temos qualquer crise ou dúvida na prática da adoração e atribuição 
de poder cósmico a Cristo, até mesmo por causa da elaboração de 
sua presença viva ao lado do Pai nos céus. A cristologia alta parece 
ser a grande ênfase do cristianismo na maioria de suas expressões até 
mesmo na tentativa de diálogo com outras religiões.
Por outro lado, arrisco dizer que a cristologia baixa não recebe 
a mesma atenção por parte da igreja. As histórias dos evangelhos 
são bem conhecidas, lidas e repetidas, mas a ênfase acaba recaindo 
sobre aspectos místicos e divinos de Cristo, naquilo que ele faz e 
pode fazer pelos crentes. Não levamos muito em conta a importância 
de sua encarnação para a humanidade. O Deus encarnado mostra 
concretamente o tipo de vida que ele espera que as pessoas tenham, 
paralelamente à adoração, por isso, temos a máxima do apóstolo 
Paulo sobre a imitação de Cristo. Essa recorrente dicotomia, ou 
desbalanceamento da fé, que pende mais para as realidades altas do 
que para as baixas, já estava presente na vivência do povo de Israel e foi 
21
diretamente confrontada pelos profetas. A ideia de que a adoração tem 
prioridade sobre a ação ética concreta não possui base bíblica, afinal 
somos humanos. Como alertou o profeta Miquéias,
Com que eu poderia comparecer diante do Senhor e curvar-
me perante o Deus exaltado? Deveria oferecer holocaustos de 
bezerros de um ano? Ficaria o Senhor satisfeito com milhares 
de carneiros, com dez mil ribeiros de azeite? Devo oferecer o 
meu filho mais velho por causa da minha transgressão, o fruto 
do meu corpo por causa do meu próprio pecado? Ele mostrou a 
você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a 
justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus 
(Miquéias 6:6-8).
O ensino de Cristo é bastante prático nesse sentido, por suas 
palavras e exemplos. Daí a importância de termos uma forte cristologia 
baixa. Por isso ele afirma:
Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no 
Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu 
Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, 
Senhor, não profetizamos nós em teu nome? Em teu nome 
não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?”. 
Então eu lhes direi claramente: “Nunca os conheci. Afastem-se 
de mim vocês, que praticam o mal!”. Portanto, quem ouve estas 
minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que 
construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram 
os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela 
não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas quem ouve 
estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que 
construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram 
os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela 
caiu. E foi grande a sua queda (Mateus 7:21-27).
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia22
Anotações
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23
Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 3
Cristo no Antigo Testamento I
Introdução
É o Antigo Testamento que introduz a figura do 
Messias na tradição religiosa do povo de Israel. Sua 
construção é paulatina e nem sempre clara. Esta unidade 
inicia a investigação dos textos bíblicos, em suas respectivas 
tradições teológicas, que contribuem para a construção da 
pessoa do Ungido, assim como para a esperança criada em 
torno dele. 
Objetivos
1) Investigar a construção bíblica do Messias no 
Antigo Testamento com especial atenção para o período 
patrístico e mosaico;
2) Estabelecer um pano de fundo para a compreensão 
bíblica da expectativa messiânica.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia24
A figura do Cristo ou do Messias é uma construção ampla 
e longa que perpassa as diversas fases de vivência da fé do povo de 
Israel até a sua efetiva concretização na pessoa de Jesus. Embora 
haja alguma discussão sobre a clareza e intenção dos autores bíblicos 
quanto à consciência da representatividade do Messias ou de quem 
viria a ser Jesus, principalmente naquilo que se refere ao seu alcance 
cósmico, percebemos bem cedo a presença de uma proposta teológica 
na restauração do equilíbrio perdido na queda do ser humano. É nesse 
grande processo salvífico maior que se insere a esperança messiânica. 
Se inicialmente o Messias parece estar restrito ao povo de Israel, no 
desenvolvimento da revelação bíblica, vemos depois a sua progressão e 
expansão para uma perspectiva cósmica, que abrange todas as nações 
e povos da Terra. Não é de imediato que essa perspectiva é apresentada 
nas Escrituras. Pelo contrário, nem mesmo durante o ministério de 
Jesus percebemos a consciência da importância do papel de Cristo 
para a humanidade. É apenas com a releitura dos textos antigos, à 
luz da vida, morte e ressurreição de Cristo que os primeiros cristãos 
compreenderam que o esperado Messias de Israel se torna também 
o salvador do mundo. Não estou afirmando que não existiam pistas 
ao longo da revelação bíblica, e sim que esse desenvolvimento de 
conceitos se deu de maneira paulatina e progressiva e, muitas vezes, 
sem a consciência da dimensão que haveria de tomar. 
Ainda que de forma resumida, nossa intenção nas próximas 
unidades será a de perpassar os diversos períodos bíblicos tentando 
perceber quais as informações ali presentes que ajudaram a construir a 
ideia e imagem que viria a ser constituída como o Messias. É importante 
manter em mente aquilo que foi elaborado nas unidades anteriores, 
principalmente no que se refere ao conceito de ungido. Alerto também 
que existem algumas correntes teológicas que optam por afirmar que 
Jesus Cristo está claramente apresentado, ora como expressão de 
teofanias, ora como revelação textual explícita, nas narrativas do Antigo 
Testamento. Me refiro aqui àqueles que, por exemplo, entendem que 
os textos que mencionam aparições do “Anjo do Senhor” estariam se 
referindo a Jesus. A perspectiva de análise adotada aqui não segue essa 
compreensão. O que tentaremos apresentar é a construção de uma 
teologia que teria se dado de forma gradual, ao longo de muito tempo 
25
de história e tradição religiosa e teológica, às vezes até inconsciente 
por parte dos autores, para culminar com a vinda do Messias na pessoa 
de Jesus de Nazaré. Essa tese tem como principal fundamento o fato 
da grande maioria do povo judeu não ter reconhecido Jesus como o 
Messias prometido durante a sua vida e ministério, conforme atestado 
pelos autores dos livros do Novo Testamento.
1- Cristo nos Patriarcas
Nossa investigação bíblica sobre o Messias tentará seguir o 
percurso histórico do povo de Israel obedecendo, em parte, a ordem 
dos livros bíblicos e, em parte, a ordem cronológica das tradições e 
contextos. Começando, portanto, com as origens do povo de Israel, 
que se encontra nos relatos dos patriarcas, encontramos no livro de 
Gênesis aquilo que ficou conhecido como o protoevangelho: “Porei 
inimizade entre você [serpente] e a mulher, entre a sua descendência 
e o descendente dela; este ferirá a sua cabeça, e você lhe ferirá o 
calcanhar” (Gênesis 3:15). Esse texto nos introduz um mistério, que hoje 
entendemos ter um conteúdo cristológico, mas que acabou não sendo 
explorado por nenhuma tradição teológica do Antigo Testamento. 
Alguns estudiosos sugerem que isso tenha ocorrido por causa de uma 
autoria e edição tardia desse trecho do livro de Gênesis, localizando-o 
na época do pós-exílio babilônico, exatamente por tratar da imagem 
da serpente como um ser antagônico ao ser humano e a Deus. Isso 
explicaria a não alusão a ele em textos produzidos por autores bíblicos 
mais antigos. Apenas lembrando que a ideia de um ser antagônico a 
Deus, representado por Satanás, é prioritariamente desenvolvida no 
período pós-exílico por influência da cultura babilônica.
Independentemente dessa discussão, encontramos nesse texto um 
mistério interessante ao propor um estado de tensão entre a mulher e 
a serpente e entre os seus descendentes. O mistério teológico proposto 
não se limita apenas a esse texto. Por não ser desenvolvido adiante, 
isso dificulta a compreensão de sua inclusão na esperança messiânica 
imediata, ou seja, não vemos uma clara expressão de esperança em um 
descendente da mulher para vir pisar a cabeça da serpente em outros 
textos do Antigo Testamento. Tanto o tema da serpente quanto o tema 
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia26
dos descendentes, permanecerão restritos apenas ao protoevangelho. 
Interessante ainda notar que a figura simbólica da serpente possui em 
outros textos até uma conotação positiva:
•	Gênesis 49:17 – Dã, um descendente de Jacó, é representado 
como uma serpente;
•	Êxodo 4:1-4 – o bordão de Moisés que se torna uma serpente 
para demonstrar que Deus o estava enviando;
•	 Números 21:7-9 – uma serpente de bronze usada como 
intermediação de cura para o povo. Esta imagem será usada 
pelo apóstolo João para falar da crucificação de Jesus também 
como meio de salvação (João 3:14).
Como vimos, então, o descendente da mulher que esmaga a 
cabeça da serpente pode carregar algum componente messiânico, mas 
essa associação só ocorrerá muito posteriormente na teologia.
Voltando os nossos olhos para outros textos do Antigo Testamento, 
seguindo a sequência autoral, parece que encontramos em Isaque 
alguns componentes que serão muito posteriormente entendidos 
como de cunho messiânico. A história de Isaque está inserida no tema 
maior da promessa e aliança de Deus com Abraão. Ele nasce em meio 
a desconfiança da possibilidade do casal Abraão e Sara poderem gerar 
filhos para fazer valer a promessa da posteridade que viria a abençoar 
todas as famílias da terra (Gênesis 12:2). Em um tipo de teste de fé, Deus 
requer de Abraão o sacrifício de Isaque, considerado na narrativa como 
seu único filho. Algumas dificuldades surgem para a interpretação do 
texto. A primeira é o fato de não haver qualquer relação entre o culto a 
Deus e a prática de sacrifício humano, o que tornaria essa requisição de 
Deus algo estranho. A segunda dificuldade é que Abraão já tinha outro 
filho, Ismael, não sendo, portanto, Isaque seu filho único.
Superando esses detalhes, os elementos da narrativa do texto 
de Gênesis 22:1-19 chamam a atenção para correspondências com a 
representatividade da morte vicária de Cristo. O primeiro paralelo 
entre o sacrifício de Isaque e o de Cristo está na atitude de entrega, por 
parte do pai, de seu filho único, considerando aqui apenas a construção 
que o texto faz sobre ser essa a condição de Isaque. O segundo paralelo 
27
está na provisão divina deum substituto para a vítima a ser sacrificada, 
no caso, um carneiro. Esses paralelos que são interpretados pelo Novo 
Testamento como sendo integrantes do sacrifício de Cristo, sendo Jesus 
o único filho de Deus e o cordeiro santo que é sacrificado no lugar dos 
seres humanos, são desconstruídos, naturalmente, na leitura do próprio 
texto de Gênesis. Ali, não há qualquer paralelo entre o sacrifício de 
Isaque e a questão do pecado, de quem quer que seja. Trata-se apenas 
de um teste da fé de Abraão. O carneiro substitui apenas a Isaque, 
sem qualquer outro desdobramento. Nota-se, portanto, que esse texto 
não é desenvolvido em nenhum outro lugar do Antigo Testamento, 
enfraquecendo a possível contribuição da história de Isaque para a 
elaboração da figura do Messias.
De todos os outros personagens do tempo patriarcal, talvez 
o que mais carregue alguma semelhança com o perfil messiânico 
seja José, ainda que distante da caracterização tardia do Messias. A 
complexa história de José traz alguns paralelos com a história de Jesus, 
não na mesma ordem de acontecimentos. Ambos são levados ao Egito 
(Gênesis 37:25; Mateus 2:13), são rejeitados e traídos por aqueles 
que lhes são mais próximos (Gênesis 37:14-28; Mateus 26:47-50) e 
enfrentam dores e sacrifícios com o objetivo de promoverem salvação 
para todo um povo, incluindo os que os traíram (Gênesis 39:20; 45:7; 
Mateus 27:27-56). Esses paralelos só foram estabelecidos após os 
evangelistas narrarem a história de Jesus sem, no entanto, comporem 
a estruturação da pessoa do Messias do Antigo Testamento. A que se 
considerar, contudo, que a história de José ocupa um grande volume 
do livro de Gênesis e que consiste na construção de um personagem 
heroico que pode ter contribuído para o imaginário popular na 
expectativa messiânica.
De certa forma, mesmo não havendo elementos mais claros e 
concretos na tradição patriarcal que nos remeta ao Messias, podemos 
entender que as sagas dos patriarcas, com a veneração de Abraão, 
Isaque e Jacó, possuem também, à semelhança da história de José, um 
fator de contribuição para o imaginário coletivo do herói.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia28
2- Cristo na tradição mosaica
Embora a tradição mosaica seja de composição complexa, incluindo 
o Pentateuco com todas as suas variadas participações editoriais, nosso 
foco estará em torno da figura de Moisés, tido como o principal mediador 
da fé do povo de Israel. Mesmo sendo na imagem do rei que encontramos 
a maior alusão ao título de Ungido, ou seja, algo desenvolvido apenas 
após a instauração da monarquia em Israel, talvez Moisés seja o maior 
dos protótipos messiânicos. Isso porque ele reúne as funções de liderança 
de governo (rei), de intermediação religiosa (sacerdote) e de mensageiro 
de Deus (profeta). No caso, essa é uma construção que não está clara 
em relação ao Messias, mas cria na expectativa do povo um referencial 
de herói libertador. Além disso, na maneira como foi relatada a vida e 
ministério de Jesus, muitos paralelos acabaram sendo estabelecidos entre 
ele e Moisés. Vejamos esses paralelos:
a. Perseguição na infância pelo soberano da nação com ameaça 
de morte:
•	 Êxodo 1:15-16; 22 – “O rei do Egito ordenou às parteiras 
dos hebreus, que se chamavam Sifrá e Puá: ‘Quando vocês 
ajudarem as hebreias a dar à luz, verifiquem se é menino. Se 
for, matem-no; se for menina, deixem-na viver’ [...] Por isso o 
faraó ordenou a todo o seu povo: ‘Lancem ao Nilo todo menino 
recém-nascido, mas deixem viver as meninas’”;
•	Mateus 2:16 – “Quando Herodes percebeu que havia sido 
enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem 
todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas 
proximidades, de acordo com a informação que havia obtido 
dos magos”.
b. Refúgio no Egito:
•	Êxodo 2:9 – “Então a filha do faraó disse à mulher: ‘Leve este 
menino e amamente-o para mim, e eu pagarei você por isso’. A 
mulher levou o menino e o amamentou”;
•	Mateus 2:13 – “Depois que partiram, um anjo do Senhor 
apareceu a José em sonho e lhe disse: “Levante-se, tome o 
menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu diga a 
você, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo”.
29
c. Experiência no deserto com efeito determinante para o resto 
de suas vidas e ministérios:
•	 Êxodo 3:1-2 – “Moisés pastoreava o rebanho de seu sogro, 
Jetro, que era sacerdote de Midiã. Um dia levou o rebanho para 
o outro lado do deserto e chegou a Horebe, o monte de Deus. 
Ali o Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo que 
saía do meio de uma sarça. Moisés viu que, embora a sarça 
estivesse em chamas, não era consumida pelo fogo”;
•	 Mateus 4:1 – “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao 
deserto, para ser tentado pelo Diabo”.
d. Realização de sinais e maravilhas:
•	 Êxodo 7:1-3 – “O Senhor lhe respondeu: ‘Dou a você a 
minha autoridade perante o faraó, e seu irmão, Arão, será seu 
porta-voz. Você falará tudo o que eu ordenar, e o seu irmão, 
Arão, dirá ao faraó que deixe os israelitas sair do país. Eu, 
porém, farei o coração do faraó resistir; e, embora multiplique 
meus sinais e maravilhas no Egito’”;
•	 Atos 2:22 – “Israelitas, ouçam estas palavras: Jesus de 
Nazaré foi aprovado por Deus diante de vocês por meio de 
milagres, maravilhas e sinais que Deus fez entre vocês por 
intermédio dele, como vocês mesmos sabem”.
e. Íntima relação com Deus:
•	 Êxodo 33:7-11 – “Moisés costumava montar uma tenda 
do lado de fora do acampamento; ele a chamava Tenda do 
Encontro. Quem quisesse consultar o Senhor ia à tenda, fora 
do acampamento [...] Assim que Moisés entrava, a coluna de 
nuvem descia e ficava à entrada da tenda, enquanto o Senhor 
falava com Moisés [...] O Senhor falava com Moisés face a face, 
como quem fala com seu amigo [...]”;
•	 João 14:9 – “Jesus respondeu: “Você não me conhece, 
Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto 
tempo? Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer: ‘Mostra-
nos o Pai”
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia30
f. Falavam em nome de Deus (profeta)
•	Deuteronômio 34:10 – “Em Israel nunca mais se levantou 
profeta como Moisés, a quem o Senhor conheceu face a face”;
•	 João 12:50 – “Sei que o seu mandamento é a vida eterna. 
Portanto, o que eu digo é exatamente o que o Pai me mandou 
dizer”.
Também foi Moisés quem inseriu e representou a principal 
teologia para o povo de Israel composta pela a libertação do Egito 
e pela aliança com base na Lei. Este é outro paralelo que podemos 
verificar entre Moisés e Jesus, a intermediação da Lei de Deus. Moisés 
é o grande líder histórico que estabelece os princípios legais para vida 
cotidiana do povo. É ele quem pessoalmente intermedia a aliança com 
Javé e entrega a Lei ao povo (Êxodo 34:29). Por outro lado, Jesus é 
aquele que cumpre essa Lei, mas também a reinterpreta e a expande, 
estabelecendo novos princípios que devem ser seguidos com o mesmo 
rigor (João 14:21). Jesus substitui a força da Lei pela oferta da Graça 
sem, contudo, deixar de estabelecer os princípios do Reino que devem 
prevalecer na vida do cristão, não pela obrigação e temor da Lei, mas 
pela obediência amorosa ao seu mestre e salvador.
De alguma maneira, a aparição de Moisés no monte da 
transfiguração atesta sua ligação com Jesus: “Eis que dois varões 
falavam com ele: Moisés e Elias” (Lucas 9:30). Assim, mesmo sem 
uma alusão explícita de Moisés como um ungido, ele estabelece um 
referencial teológico e popular para o imaginário de Israel e sua 
esperança messiânica.
Conclusão
Nosso esforço nesta unidade foi tentar enxergar nos textos do 
Antigo Testamento, com particular atenção ao período dos patriarcas 
e mosaico, pistas que nos ajudassem a entender a construção teológica 
desenvolvida em torno do Messias. Como visto, esses períodos, e os 
textos relativos a eles, não apresentam uma clara alusão ao Ungido de 
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Javé. No entanto, podemos perceber algumas passagens e personagens 
que parecem ter contribuído para a expectativa messiânicaque veio 
a ser desenvolvida em maior profundidade em períodos históricos 
posteriores.
Anotações
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Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia
Unidade - 4
Cristo no Antigo Testamento II
Introdução
Esta unidade continua a investigação dos textos 
bíblicos do Antigo Testamento, em suas respectivas 
tradições teológicas, que contribuem para a construção 
da pessoa do Ungido e a esperança criada em torno dele. 
Mais especificamente, serão tratadas as tradições davídica e 
profética, incluindo-se aqui a contribuição da apocalíptica.
Objetivos
1) Investigar a construção bíblica do Messias no 
Antigo Testamento com especial atenção para o período 
dravídico, profético e apocalíptico;
2) Estabelecer um pano de fundo para a compreensão 
bíblica da expectativa messiânica.
Teologia Sistemática II
Cristologia e Pneumatologia34
A unidade anterior procurou enxergar nos textos do Antigo 
Testamento, referentes aos períodos históricos dos patriarcas e 
mosaico, indícios da construção teológica da pessoa do Messias. Nesta 
unidade, continuando a busca pelo desenvolvimento dessa concepção, 
investigaremos os períodos davídico e profético. De certa forma, estes 
períodos compreendem o tempo da monarquia e do exílio babilônico.
A concentração em torno do rei Davi é proposital, como veremos, 
por causa da sua importante influência na formação da figura do 
Ungido. Já os textos proféticos, embora se encontrem dispersos, serão 
reunidos na tentativa de formar um todo lógico.
1- Cristo na tradição davídica
Certamente é a figura de Davi que carrega a maior informação 
sobre o Messias. Em primeiro lugar, porque a prática da unção parece 
ser originária do ato de coroação do rei intermediada por algum 
representante divino, o profeta ou o sacerdote. Depois, porque é na 
condição de rei que se estabelecem as funções de domínio político que 
irão criar a maior esperança para o povo de Israel, principalmente, 
considerando-se o fato da perda paulatina de sua autonomia nacional. 
Após o fim do reino do Norte, com o exílio de seus habitantes para a 
Assíria, no século VIII a.C., e o fim do reino do Sul, no século VI a.C., 
com o exílio para a para a Babilônia, Israel jamais voltou a ser uma 
nação independente, com exceção do breve período dos macabeus, 
entre os séculos II e I a.C.
É, portanto, em torno de Davi e sua dinastia que a maior parte 
dos textos messiânicos se desenvolve. Na promessa presente na aliança 
entre Deus e Davi, quando este assume o trono de Israel, encontramos 
uma abrangência que extrapola o tempo e espaço: “Porém a tua casa 
e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será 
estabelecido para sempre” (2 Samuel 7:16). A ideia de um reino eterno 
só poderia se concretizar em uma figura mitológica e transcendente. 
No entanto, a elaboração mítica do rei Davi recebe outros contornos. 
A celebre expressão, usada atualmente até mesmo em circunstâncias 
eclesiásticas, nasce como um princípio de superioridade da figura do 
rei sobre as outras pessoas comuns: “O SENHOR me guarde de que 
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eu estenda a mão contra o seu ungido” (1 Samuel 26:11). Os relatos de 
dois episódios mostram o próprio Davi instando com seus seguidores 
sobre a importância dessa máxima (1 Samuel 24:6, 10; 26:9, 11, 16). De 
certa forma, na experiência de Davi se estabelecia um princípio a ser 
seguido que o salvaguardava, assim como a seus sucessores no futuro, 
de oposições. Aqui, encontramos uma forte associação da figura do 
rei à importância dada ao ato de unção que, como já mencionado, 
carregava uma conotação de aval divino. Aquele que sentava no trono 
não era apenas o rei, e sim o ungido de Javé (SENHOR), o seu escolhido 
para liderar o povo.
Retomando a ideia do reino eterno de Davi, que permite a 
inclusão de um elemento transcendente, encontramos algumas alusões 
misteriosas, como a do Salmo 110:
O Senhor disse ao meu Senhor: “Senta-te à minha direita até 
que eu faça dos teus inimigos um estrado para os teus pés”. O 
Senhor estenderá o cetro de teu poder desde Sião, e dominarás 
sobre os teus inimigos! Quando convocares as tuas tropas, o 
teu povo se apresentará voluntariamente. Trajando vestes 
santas, desde o romper da alvorada os teus jovens virão como o 
orvalho. O Senhor jurou e não se arrependerá: “Tu és sacerdote 
para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. O Senhor 
está à tua direita; ele esmagará reis no dia da sua ira. Julgará as 
nações, amontoando os mortos e esmagando governantes em 
toda a extensão da terra. No caminho beberá de um ribeiro, e 
então erguerá a cabeça.
O próprio Jesus teria citado parte desse texto para dar explicação 
sobre si mesmo (Mateus 22:41-45). O evangelista Mateus é, dessa forma, 
intencional ao associarJesus à linhagem davídica, na introdução do 
seu texto, fazendo menção em sua genealogia (Mateus 1:1), e ao longo 
do livro (Mateus 12:23; 15:22; 20:30; 21:9).
Mesmo havendo essa percepção que pudesse transcender as 
realidades concretas, é a questão do domínio político que permanece 
como principal expectativa em torno do Messias. Ainda que o domínio 
político não tenha sido uma realização concreta do ministério de Cristo, 
foi essa expectativa que direcionou e motivou alguns de seus seguidores, 
em especial os zelotes e os sicários. Os zelotes eram um grupo político 
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Cristologia e Pneumatologia36
judeu que se opunha ao pagamento de tributo ao imperador romano 
pagão enxergando nisso uma traição a Deus (DOUGLAS, 1995, p. 
1676). Os sicários eram um grupo de nacionalistas militares judeus que 
andavam com adagas escondidas para, eventualmente, assassinarem 
inimigos de Israel (DOUGLAS, 1995, p. 1521). Dos apóstolos de Jesus, 
Simão (Lucas 6:15) seria zelote e Judas seria sicário ou iscariote (Mateus 
10:4). O que concluímos com isso, é que a esperança no surgimento 
de um rei, ou desse tipo Ungido, que viesse resgatar a autonomia e 
prosperidade do reino de Israel, perdurou por séculos. Desde os tempos 
dos sucessores de Davi até o tempo de Jesus.
2- Cristo na tradição profética e apocalíptica
As primeiras ideias proféticas concordam com a expectativa 
messiânica do descendente do trono de Davi e associam a sua função 
com o domínio dos soberanos. O texto de Isaías 9:1-7 pinta um quadro 
típico daquele contexto de batalhas políticas por territórios: 
Contudo, não haverá mais escuridão para os que estavam aflitos 
[...] Fizeste crescer a nação e aumentaste a sua alegria; eles se 
alegram diante de ti como os que se regozijam na colheita, como 
os que exultam quando dividem os bens tomados na batalha. 
Pois tu destruíste o jugo que os oprimia, a canga que estava 
sobre os seus ombros e a vara de castigo do seu opressor, como 
no dia da derrota de Midiã. Pois toda bota de guerreiro usada 
em combate e toda veste revolvida em sangue serão queimadas, 
como lenha no fogo. Porque um menino nos nasceu, um filho 
nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será 
chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, 
Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem 
fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecido e 
mantido com justiça e retidão desde agora e para sempre. O 
zelo do Senhor dos Exércitos fará isso.
Atente para as seguintes expressões presentes na passagem que 
fortalecem esse tipo de esperança messiânica: aflita, despojos, jugo, 
vara que feria ombros, cetro do opressor, bota de guerreiro, tumulto 
da batalha, veste revolvida em sangue, governo, trono de Davi, reino, 
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juízo, justiça e Senhor dos Exércitos. O profeta Jeremias elabora um 
texto similar:
“Dias virão”, declara o Senhor, “em que levantarei para Davi 
um Renovo justo, um rei que reinará com sabedoria e fará o 
que é justo e certo na terra. Em seus dias Judá será salva, Israel 
viverá em segurança, e este é o nome pelo qual será chamado: 
O Senhor é a Nossa Justiça (Jeremias 23:5-6).
Ezequiel, por sua vez, ainda que faça referência a Davi, em um 
tempo mais apropriado ao exílio, reforça a imagem do pastor, que 
cuida e consola:
Porei sobre elas um pastor, o meu servo Davi, e ele cuidará 
delas; cuidará delas e será o seu pastor. Eu, o Senhor, serei o 
seu Deus, e o meu servo Davi será o líder no meio delas. Eu, o 
Senhor, falei (Ezequiel 34:23-24).
Não há o uso explícito da palavra ungido nesses textos, mas 
subentende-se que se trata desse herói esperado. Muito comuns são 
os termos broto e renovo, ou seja, um ramo ou fruto de uma árvore. 
Especificamente, proveniente do tronco de Jessé, pai de Davi.
À parte da figura de Davi e do rei, uma nova ideia parece surgir 
no período exílico cuja realidade contextual estava bem aquém do 
período de glória e prosperidade do então reino de Israel e Judá. Já 
não há mais glória e poder presente e a expectativa de um herdeiro 
real para resgatar aquele tempo foi esvanecendo. Por assim dizer, o 
novo ser esperado, também com características de uma pessoa ungida 
por Deus, agora é chamado de Servo e carregará marcas de alguém 
que sofre, talvez por causa do pecado e grande distanciamento entre 
o povo que ele representa e seu Deus. Isaías é o profeta que melhor 
descreve essa nova concepção nos capítulos 52 e 53 de seu livro. Outros 
textos mais genéricos aparecerão em oráculos na primeira pessoa, de 
difícil interpretação, que têm como pano de fundo o período do exílio 
(cf. capítulo 59 e seguintes).
O chamado Servo Sofredor de Isaías contrasta de maneira radical 
com a figura de um rei vencedor pautada em Davi. Ele é construído 
quase como alguém antagônico. O ungido de Isaías, representado pelo 
Servo Sofredor, é uma desconstrução da esperança de prosperidade 
política centrada na nação de Israel.
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Ele cresceu diante dele como um broto tenro e como uma 
raiz saída de uma terra seca. Ele não tinha qualquer beleza ou 
majestade que nos atraísse, nada havia em sua aparência para 
que o desejássemos. Foi desprezado e rejeitado pelos homens, 
um homem de dores e experimentado no sofrimento. Como 
alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, 
e nós não o tínhamos em estima (Isaías 53:2-3).
No entanto, é por meio desse novo paradigma que a esperança 
messiânica bíblica, e não necessariamente aquela que foi sendo 
desenvolvida entre o povo comum, recebe dimensões maiores e mais 
abrangentes que vão além do ambiente judaico:
Levante-se, refulja! Porque chegou a sua luz, e a glória do 
Senhor raia sobre você. Olhe! A escuridão cobre a terra, densas 
trevas envolvem os povos, mas sobre você raia o Senhor, e sobre 
você se vê a sua glória. As nações virão à sua luz e os reis ao 
fulgor do seu alvorecer. Olhe ao redor e veja: todos se reúnem 
e vêm a você; de longe vêm os seus filhos, e as suas filhas vêm 
carregadas nos braços (Isaías 60:1-4).
Completando a teologia messiânica na tradição profética, 
encontramos no livro de Daniel, uma imagem apocalíptica do 
Ungido. O apocalipsismo foi um movimento teológico que perdurou 
até os tempos de Jesus e teve grande influência na teologia judaica. 
A perda da esperança em mudanças concretas para o povo de Israel, 
no período pós-exílico, fez com que se desenvolvesse uma expectativa 
mais mística e celestial projetando a vinda do Messias para tempos 
imemoriais com imagens catastróficas:
Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre 
a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar 
fim aos pecados, para expiar a iniqüidade, para trazer a justiça 
eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos 
Santos. Setenta semanas estão decretadas para o seu povo e sua 
santa cidade a fim de acabar com a transgressão, dar fim ao 
pecado, expiar as culpas, trazer justiça eterna, cumprir a visão 
e a profecia, e ungir o santíssimo. Saiba e entenda que, a partir 
da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir 
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Jerusalém até que o Ungido, o príncipe, venha, haverá sete 
semanas, e sessenta e duas semanas. Ela será reconstruída com 
ruas e muros, mas em tempos difíceis. Depois das sessenta e 
duas semanas, o Ungido será morto, e já não haverá lugar para 
ele. A cidade e o Lugar Santo serão destruídos pelo povo do 
governante que virá. O fim virá como uma inundação: guerras 
continuarão até o fim, e desolações foram decretadas. Com 
muitos ele fará uma aliança que durará uma semana. No meio 
da semana ele dará fim ao sacrifício e à oferta. E numa ala do 
templo será colocado o sacrilégio terrível, até que chegue sobre 
ele o fim que lhe está decretado (Daniel 9:24-27).
A contribuição da teologia de Daniel para a construção da 
esperança messiânica foi grande. É ele também quem introduz a figura 
do Filho do Homem que Jesus teve como preferência

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