Prévia do material em texto
Teologia Sistemática II (Cristologia e Pneumatologia) Dr. Marcos Orison Nunes de Almeida Outubro / 2016 Professor/Autor: Dr. Marcos Orison Nunes de Almeida Coordenador Geral de Ensino a Distância: Gedeon J. Lidório Jr Coordenador de Graduação a Distância: Edrei Daniel Vieira Projeto Gráfico/Capa: Mauro S. R. Teixeira Revisão: Éder Wilton Gustavo Felix Calado Impressão: Todos os direitos em língua portuguesa reservados por: Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano - Londrina - PR 86055-670 Tel.: (43) 3371.0200 03 SUMÁRIO UNIDADE 1 – CRIAÇÃO GERAL..............................................................................05 1- O sacerdote como ungido 2- O rei como ungido 3- O profeta como ungido UNIDADE 2 – CRISTOLOGIA ALTA E BAIXA.......................................................13 1- Cristologia alta 2- Cristologia Baixa UNIDADE 3 – CRISTO NO ANTIGO TESTAMENTO I.........................................23 1- Cristo nos Patriarcas 2- Cristo na tradição mosaica UNIDADE 4 – CRISTO NO ANTIGO TESTAMENTO II.......................................33 1- Cristo na tradição davídica 2- Cristo na tradição profética e apocalípitica UNIDADE 5 – CRISTO NO NOVO TESTAMENTO...............................................43 1- Cristo nos evangelhos 2- Cristo na igreja primitiva 3- Cristo na compreensão apostólica UNIDADE 6 – CRISTO: PROFETA E SACERDOTE...............................................53 1- O ofício de profeta 2- O ofício de sacerdote UNIDADE 7 – CRISTO: REI E MESTRE....................................................................61 1- O ofício de rei 2- O ofício de mestre UNIDADE 8 – CRISTO: CAMINHO, VERDADE E VIDA.....................................69 1- O Evangelho de João e a cultura grega 2- O Logos nas Escrituras 3- Verdade 4- Caminho 5- Vida Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia04 UNIDADE 09 – O ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO TESTAMENTO...............83 1- Espírito: vento de Deus 2- Espírito: criação e fonte da vida 3- Espírito: intervenção histórica e capacitação 4- Espírito: motivação, inclinação e sentimento UNIDADE 10 – O ESPÍRITO SANTO NO NOVO TESTAMENTO...................95 1- Espírito: Nova Criação e fonte de nova vida 2- Espírito: Representação de pessoalidade 3- Espírito: Propulsor da Missão UNIDADE 11 – O ESPÍRITO SANTO E A TRINDADE.....................................103 1- A elaboração da Trindade 2- O Espírito Santo e o Pai 3- O Espírito Santo e o Filho 4- O Espírito Santo por si mesmo UNIDADE 12 – O ESPÍRITO SANTO NO LIVRO DOS ATOS DOS APÓSTULOS I................................................................................................113 1- A descida do Espírito na festa Pentecostes 2- Nova consciência sobre o Espírito UNIDADE 13 – O ESPÍRITO SANTO NO LIVRO DOS ATOS DOS APÓSTULOS II..............................................................................................121 1- O Espírito como propulsor da missão 2- O batismo com o Espírito Santo UNIDADE 14 – O ESPÍRITO SANTO E A PESSOA I...................................129 1- A santificação no Antigo Testamento 2- A santificação no Novo Testamento UNIDADE 15 – O ESPÍRITO SANTO E A PESSOA II.................................141 1- Espiritualidade e carnalidade 2- Desenvolvimento da espiritualidade UNIDADE 16 – O ESPÍRITO SANTO, A IGREJA E O MUNDO....................151 1- A santificação, a coletividade e os dons 2- O Espírito nos confins da terra 3- O Espírito e a natureza 05 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 1 Introdução A disciplina de Teologia Sistemática 2 segue o estudo das principais doutrinas cristãs, subdividas em pares no currículo da FTSA, compreendendo as áreas clássicas do eixo teológico. Especificamente, serão abordados nas duas seções da disciplina os temas da Cristologia e da Pneumatologia. Iniciando a primeira seção, a Cristologia estuda a pessoa de Jesus Cristo, seus ofícios, ministério e significado para a fé. O termo Cristo é uma adjetivação grega associada à pessoa de Jesus oriunda de um conceito da fé hebraica, registrada no Antigo Testamento, representada pela expressão Messias. Ambas as expressões possuem a mesma tradução, mas foi a expressão grega que prevaleceu designando a própria identidade religiosa que se fundamentou na pessoa de Jesus, chamada de cristianismo. Esta unidade procurará investigar a origem e significado da expressão Cristo ou Messias. Objetivos 1) Estudar o significado da terminologia Cristo ou Messias; 2) Estabelecer fundamento para o estudo da Cristologia. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia06 Introdução Cristo não era o sobrenome de Jesus, como alguns podem vir a pensar. Estamos falando de uma época em que não havia o registro de sobrenomes. As referências dos nomes vinham da localização, profissão, filiação ou outra característica marcante da pessoa. Sendo Jesus (iesous) a forma helenizada do nome hebraico Josué (yehoshua), podemos dizer que era um nome comum. Em seu ministério terreno ele era identificado como Jesus de Nazaré ou Jesus, o nazareno, referindo-se à cidade onde fora criado. Outra maneira de identificá- lo foi como Jesus, filho de José, o carpinteiro. Mais tarde também foi identificado como Jesus, o mestre (rabi). A associação da adjetivação Cristo à pessoa de Jesus só veio a ser firmada após a sua morte e ressurreição pelos seus discípulos e igreja. Por trás desta associação está, de fato, uma compreensão teológica e afirmação de fé. O que estava em jogo era a identificação da pessoa de Jesus com o Messias de Israel, aquele que havia sido prometido nas Escrituras do Antigo Testamento, aquele em torno de quem havia se criado uma expectativa e esperança. Podemos perceber, principalmente nos relatos dos evangelhos, que essa associação entre Jesus de Nazaré e o Messias de Israel, que demandava a interpretação da esperança messiânica construída nas Escrituras, não se deu sem conflitos e certa confusão. Assim sendo, nossa primeira tarefa será a de investigar a origem e construção da figura do Messias desenvolvida pela teologia do Antigo Testamento para depois entendermos o Cristo, que veio a ser expresso na vida e ministério de Jesus e, posteriormente, elaborado pela igreja, dando origem ao cristianismo. 1- O sacerdote como ungido A Cristologia poderia ser chamada “messianologia” ou “messiologia”, pois, o título Cristo (Χριστός – christos) é a tradução grega para Messias (x:yvIm” – mashiah) que significa “ungido”. A ideia de ungir alguém era uma prática comum nas religiões do Antigo Oriente. O ritual consistia em derramar óleo aromático ou azeite sobre a cabeça de uma pessoa. Esse ato ocorria em uma cerimônia pública, à vista de todos, com a intenção de comunicar que se atribuía àquela 07 pessoa uma posição ou função de destaque perante as outras. Dadas às características culturais do Antigo Oriente, o ato da unção carregava um grande peso religioso, ou seja, atrelava-se com aquele ritual uma espécie de função ou aval divino à pessoa, em suma, ocorria uma separação, consagração, sacralização ou santificação dela. Seguindo a ordem dos livros bíblicos, ou seja, a sequência como estão apresentados no compêndio das Escrituras, a primeira figura que surge como sendo ungida é a do sacerdote. Na opinião de Roland de Vaux, no entanto, essa era uma prerrogativa dos reis. Para ele, são os reis que inauguram esse ato ritual dada a sua importância na liderança política da nação. Apenas em um tempo posterior na história de Israel, com a ausência da figura do rei, após o exílio babilônico, é que acabou- se transferindo para o sacerdote esse ritual, uma vez que ele passou a representar a liderança religiosa e, de certa forma, política, do povo: Segundo o ritual pós-exílico, o sumo sacerdote era ungido, Ex 29:7; Lv 8:12 etc., e a redação final do Pentateuco estendeu a unção a todos os sacerdotes, Ex 40:12-15 etc. Mas é bem provável que esse rito não existisse antes do Exílio e que ele seja a transferênciapara se referir a si mesmo: Em minha visão à noite, vi alguém semelhante a um filho de homem, vindo com as nuvens dos céus. Ele se aproximou do ancião e foi conduzido à sua presença. Ele recebeu autoridade, glória e o reino; todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoraram. Seu domínio é um domínio eterno que não acabará, e seu reino jamais será destruído (Daniel 7:13-14). Vale ressaltar que o uso da expressão “Filho do Homem” por Jesus parecia ser proposital para causar dubiedade em seus ouvintes, uma vez que, ao mesmo tempo em que carregava a informação do Messias de Daniel, também afirmava a sua humanidade, por ser ele o filho de José e Maria. Note que o uso dessa expressão também servia para caracterizar, de maneira geral, a condição humana de uma pessoa, como usada no texto de Ezequiel 43:7: “E disse-me: Filho do homem, este é o lugar do meu trono, e o lugar das plantas dos meus pés, onde habitarei no meio dos filhos de Israel para sempre [...]”. Assim, ao identificar-se como Filho do Homem, Jesus, ao mesmo tempo, associava-se ao Messias, mas não permitia qualquer acusação por parte dos chefes da religião judaica, fariseus, escribas e saduceus, que constantemente tentavam encontrar um motivo para condená-lo. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia40 Conclusão Vimos nesta unidade quais os conteúdos presentes nas tradições davídica e profética, além da contribuição da apocalíptica, que colaboraram na formação da teologia messiânica do Antigo Testamento. Obviamente há outros textos distribuídos nos diversos livros do Antigo Testamento que indicam caminhos semelhantes ou complementares. Entretanto, as ideias centrais tendem a ser as até aqui apresentadas. Olhando, então, para toda a construção da figura do Messias, assim como da esperança que pairava em torno dele, podemos observar que não houve uma estruturação clara desse personagem no que se refere aos textos bíblicos e suas respectivas tradições. A impressão que temos, principalmente ao concentramos nossa atenção nos desdobramentos dessa teologia no Novo Testamento, é que a ideia do Messias se desenvolveu no período intertestamentário, sem qualquer registro bíblico, como uma teologia popular que produziu novos contornos. O ideal de uma espécie de rei, que viria retomar o seu lugar na condução da nação de Israel, levando-a a uma situação de autonomia e prosperidade, certamente, foi o elemento mais presente nessa expectativa. Nisso enxergamos também a associação de um componente soteriológico, ou salvífico, ao papel do Messias, ainda que mais próximo à história de Moisés e da libertação do Egito. Uma das ações principais do Messias seria salvar o povo das dominações das nações estrangeiras, como vemos os indícios no livro de Daniel. A partir dessa ótica, cada vez mais a imagem do Ungido foi se consolidando como um ser especial, mítico, capacitado por Deus para ações grandiosas. Não havia, contudo, uma compreensão explícita sobre a salvação de um estado de corrupção moral e de desobediência a Deus e sua Lei como sendo intermediada pelo Messias. Esse componente até aparece em alguns profetas, mostrando como o Servo perfeito, não imediatamente associado ao Ungido, seria aquele que obedeceria radicalmente aos mandamentos de Deus e obteria, portanto, a sua 41 aprovação. O aspecto salvífico, vicário e substitutivo do Messias, relacionado ao pecado, não constitui um elemento teológico até que sobre ele, Jesus, convergisse todo o peso e responsabilidade da história de revelação de Deus para a humanidade, havendo a necessidade de uma interpretação e construção posterior. Isso é o que veremos na teologia messiânica do Novo Testamento. Referências DOUGLAS, J. D. (ed.). Novo dicionário da bíblia. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 1995. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia42 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 43 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 5 Cristo no Novo Testamento Introdução A esperança messiânica, construída teologicamente a partir da experiência histórica do povo de Israel, registrada nos textos do Antigo Testamento, encontra a sua realização na pessoa de Jesus de Nazaré. Esta unidade discute o encontro da esperança messiânica judaica com a realidade de vida e ministério de Jesus, tendo como base os relatos do Novo Testamento. Objetivos 1) Investigar entendimento bíblico do Messias no Novo Testamento; 2) Observar a concretização da esperança messiânica na pessoa de Jesus e seus desdobramentos para a igreja. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia44 O quanto Jesus se aproxima do Messias revelado nas Escrituras e esperado pelo povo de Israel? As primeiras impressões escritas foram produzidas pelo entendimento do apóstolo Paulo, uma vez que suas cartas e epístolas são de autoria mais antiga que os evangelhos. A associação que Paulo faz entre Jesus e o Messias judaico, embora carregue o conteúdo da esperança construída no Antigo Testamento, parece construir uma nova ideia para a comunidade helênica que formava a igreja primitiva e não possuía a mesma esperança. Paulo usa a expressão grega christos, que tem o mesmo significado da expressão meshiah, ou seja, ungido. Assim, ele passa a incorporar ao nome de Jesus o título de Cristo (christos). Como comentado, embora tendo sido elaborados em época tardia, alguns anos após a morte de Jesus, foram os evangelhos que procuraram abordar o cumprimento da esperança messiânica judaica na sua pessoa. Tomamos por hipótese que eles registraram com boa fidelidade esse momento crítico para a religiosidade judaica e consequente formação da fé cristã. Invertendo, então, a ordem cronológica dos textos, iniciaremos a observação do desenvolvimento da Cristologia começando pelos evangelhos, seguindo para a vivência da igreja primitiva registrada no livro de Atos e, finalmente, encerrando com os textos apostólicos. 1- Cristo nos evangelhos Um fato bastante importante para a compreensão da complexidade que o tema do Messias impunha à teologia judaica, é aquilo que o apóstolo João afirma em seu evangelho, dizendo que Jesus não foi reconhecido como o enviado de Deus pelos seus irmãos judeus: “Veio para o queera seu, mas os seus não o receberam” (João 1:11). Essa constatação acabou se tornando a tonalidade da relação de Jesus com o seu povo, principalmente com os líderes religiosos. Jesus aparece pretensamente cumprindo a esperança messiânica, mas que é entendida apenas parcialmente, mesmo por seus discípulos durante o seu ministério. Após a sua morte e ressurreição, ocorre um entendimento mais cabal de sua messianidade. De fato, é a ressurreição que insere o principal elemento nessa compreensão a 45 posteriori. A encarnação e a ressurreição podem ser considerados, em certo sentido, temas irmãos, pois, ambos tratam da perspectiva especial e divina de Jesus como o Messias. Por isso, houve a intencionalidade dos evangelistas em esclarecer, principalmente na citação de textos do Antigo Testamento, como Jesus era de fato o Messias de Israel. Os autores chegaram ao ponto de ampliar a interpretação de vários textos, até então não considerados como messiânicos, na construção dessa teologia. Alguns autores serão bem enfáticos na questão de tentar esclarecer a esperança messiânica que se cumpre na pessoa de Jesus ao fazerem os seus registros, sendo Mateus o que mais se dedica a isso. A seguir apresento alguns textos que demonstram esse fato: • Mateus 1:1 – “Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”; • Mateus 1:22 – “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta [Isaías]”; • Mateus 2:15, 17, 23 – “[...] onde ficou até a morte de Herodes. E assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta [Oséias]: ‘Do Egito chamei o meu filho’ [...] Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias [...]e foi viver numa cidade chamada Nazaré. Assim cumpriu-se o que fora dito pelos profetas [Isaías]: “Ele será chamado Nazareno”; • Lucas 3:30-31 – “filho de Simeão, filho de Judá, filho de José, filho de Jonã, filho de Eliaquim, 31 filho de Meleá, filho de Mená, filho de Matatá, filho de Natã, filho de Davi”; • Lucas 4:17-21 – “Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abriu-o e encontrou o lugar onde está escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim [...] e ele começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir”; • Lucas 24:27 – “E, começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras”; • João 1:45 – “Filipe encontrou Natanael e lhe disse: “Achamos aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei e a respeito de quem os profetas também escreveram: Jesus de Nazaré, filho de José”; Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia46 • João 5:39 – “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito”; • João 12:37-41 – “Mesmo depois que Jesus fez todos aqueles sinais milagrosos, não creram nele. 38 Isso aconteceu para se cumprir a palavra do profeta Isaías [...] Por esta razão eles não podiam crer, porque, como disse Isaías noutro lugar [...] Isaías disse isso porque viu a glória de Jesus e falou sobre ele”. Mesmo se olhássemos para Jesus apenas como um personagem histórico teríamos que admitir que as coincidências entre a sua pessoa e as profecias bíblicas são grandes. Exemplos delas são: a descendência davídica (Isaías 11:1); o nascimento em Belém (Miquéias 5:2); as vestes sorteadas (Salmo 22:18); a condenação e morte entre ladrões (Isaías 53:12); o sofrimento que o desfigura (Isaías 52:14) e o abandono e desprezo na morte (Isaías 53:1-5). Por outro lado, observando o comportamento de Jesus relatado nos evangelhos, ainda que pudesse ter consciência de sua messianidade, ele optou por ter uma vida comum. Ele foi identificado como um simples galileu (Mateus 26:69), ou nazareno (Marcos 10:47), ou carpinteiro (Marcos 6:3), ou como apenas o filho de José (João 1:45). Ele teve uma família como as pessoas comuns, mas escolheu deixá-la em segundo plano em função de sua missão (Mateus 13:55-56). Sua primeira projeção social, indo além do cidadão comum, aconteceu no papel de mestre (João 1:38; Marcos 10:18), mas aos poucos Jesus foi sendo reconhecido como um profeta semelhante aos grandes do passado e isso em função dos sinais e maravilhas que fazia, assim como pelos seus ensinamentos (Mateus 16:13-14). O reconhecimento popular também indica uma identificação com a messianidade no uso da expressão Filho de Davi (Marcos 10:47) e Filho de Deus (Mateus 14:33). Porém, como já mencionado em outra unidade, Jesus assume a expressão Filho do Homem para falar de si mesmo (Mateus 8:20). Em algumas raras ocasiões Jesus se autoidentificou como o Messias. Foi assim na experiência com a mulher samaritana (Lucas 4:24- 25) e na chamada confissão de Pedro (Mateus 16:20). Mas como regra, ele preferiu manter o fato em oculto. Em outras ocasiões, ele optou por deixar a dúvida no ar como se tivesse o objetivo de que o reconhecimento 47 por parte das pessoas de sua messianidade fosse algo que devesse brotar do íntimo, de uma aproximação de fé, tendo efeito apenas na vida cotidiana sem que isso tomasse maiores proporções (Mateus 11:1-5). Já ao término de seu ministério, ele finalmente se autoidentificou como o Messias, o que o levou a receber a ira dos religiosos e a articulação de um plano para tirar-lhe a vida (Marcos 14:60-65). Em nenhum momento, no entanto, Jesus assumiu explicitamente a expectativa mais importante da religiosidade judaica sobre o Messias, associada à tomada de poder ou domínio político frente à dominação romana. Pelo contrário, Jesus foi enfático ao estabelecer os princípios do seu reino como algo que extrapolava tanto aquela expectativa quanto às outras formas humanas de estruturação sócio-políticas (Lucas 17:20-21; João 18:36). 2- Cristo na igreja primitiva O livro de Atos é tido como uma continuação do livro de Lucas, ou seja, ele segue um entendimento sequencial daquilo que os evangelhos tratam. Ainda assim, considerando que a intenção do autor é narrar os primeiros anos da expansão missionária promovida pelos apóstolos na formação da igreja, podemos ter uma noção de como se deu o desenvolvimento da compreensão da messianidade de Jesus nesse período. É fundamental notar que o evento que conecta o fim do evangelho com o início da narrativa da missão da igreja é a ressurreição de Cristo e seus desdobramentos. Como já mencionado, a ressurreição de Jesus confirmou a sua messianidade para os apóstolos e discípulos, dirimindo qualquer dúvida que ainda pairasse sobre esse fato. Dado, porém, o surgimento de um novo grupo ou de uma nova concepção de povo, formado pelos judeus-cristãos, foi na igreja primitiva, judaica e depois gentílica, que a construção da identificação de Jesus como o Messias veio a ser mais significativa. Pela narrativa de Lucas dos episódios da igreja primitiva no livro de Atos, vemos um desenvolvimento do pensamento e compreensão da messianidade de Jesus e todas as implicações que isso trouxe para a fé nascente. Os vários discursos presentes no livro mostram a argumentação lógica, histórica e teológica, que demonstram ser Jesus o Messias judaico prometido. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia48 Os dois primeiros discursos registrados são feitos pelo apóstolo Pedro. O primeiro ocorre durante a festa de Pentecostes, por ocasião da descida do Espírito Santo, em que ele argumenta com os judeus ali presentes que os acontecimentos que haviam ocorrido cinquenta dias antes, naquela mesma cidade de Jerusalém, eram a confirmação de que Jesus era o Messias: Israelitas, ouçam estas palavras: Jesus de Nazaré foi aprovado por Deus diante de vocês por meio de milagres, maravilhas e sinais que Deus fez entre vocês por intermédio dele, como vocês mesmos sabem. Este homem foi entregue por propósito determinado e pré-conhecimento de Deus; e vocês, com a ajuda de homens perversos, o mataram, pregando-o na cruz. Mas Deus o ressuscitou dos mortos, rompendoos laços da morte, porque era impossível que a morte o retivesse [...] Portanto, que todo o Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo (Atos 2:22-36). Novamente, agora perante o Sinédrio (Atos 4:1-27), Pedro oferece a mesma argumentação afirmando, como conclusão, que Jesus era o Messias, ainda que rejeitado pela liderança do povo: Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: “Autoridades e líderes do povo! Visto que hoje somos chamados para prestar contas de um ato de bondade em favor de um aleijado, sendo interrogados acerca de como ele foi curado, saibam os senhores e todo o povo de Israel que por meio do nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem os senhores crucificaram, mas a quem Deus ressuscitou dos mortos, este homem está aí curado diante dos senhores. Este Jesus é a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, e que se tornou a pedra angular. Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos (Atos 4:8-12). Algum tempo depois, também perante o Sinédrio (Atos 7), Estevão, o primeiro mártir da igreja, discursa de maneira ainda mais eloquente, fazendo uma apresentação histórica ampla da teologia judaica, demonstrando uma argumentação organizada da interpretação do evento Cristo, à luz da compreensão do Antigo Testamento, para finalmente identificar Jesus como o Messias de Israel: 49 Qual dos profetas os seus antepassados não perseguiram? Eles mataram aqueles que prediziam a vinda do Justo, de quem agora vocês se tornaram traidores e assassinos — vocês, que receberam a Lei por intermédio de anjos, mas não lhe obedeceram. Ouvindo isso, ficaram furiosos e rangeram os dentes contra ele. Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, levantou os olhos para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé, à direita de Deus, e disse: “Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus” (Atos 7:52-56). Saindo um pouco do ambiente judaico, Lucas relata que Filipe pregava na cidade de Samaria afirmando que Jesus era o Messias: “E, descendo Filipe à cidade de Samaria lhes pregava a Cristo” (Atos 8:5). Em outra ocasião, em seu proposital encontro com um eunuco etíope, na região de Gaza, ele explica a passagem do livro de Isaías como sendo o cumprimento da promessa messiânica na pessoa de Jesus (Atos 8:26-40). A partir daí, o restante do livro de Atos irá se concentrar na vida e ministério do apóstolo Paulo. Pela formação farisaica rígida que teve, é ele quem trará a maior contribuição para a igreja gentílica, porém, ainda fundamentada em sua compreensão da teologia judaica. Toda essa experiência encontra-se baseada na visão que ele teve de Jesus ressurreto, fazendo com que tivesse que reinterpretar tudo o que conhecia a partir dessa nova realidade, entendendo que ele era o Messias, o Filho de Deus (Atos 9:20). Os seus discursos e pregações passaram a ter a seguinte mensagem como centro: Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, o Messias prometido, que morreu e ressuscitou e, assim, oferece o perdão dos pecados e a salvação a todos os que creem (Atos 13:16-41; 17:16-31; 22:1-21; 26:1-23). 3- Cristo na compreensão apostólica A introdução de quase todas as cartas e epístolas do Novo Testamento traz a expressão Senhor Jesus Cristo. Chama à atenção a associação direta do nome Jesus ao título Cristo, ou Messias, ao ponto de se confundir com o próprio nome de Jesus. É também a partir dessa associação e expressão que aqueles que criam nessa mensagem foram chamados de cristãos (Atos 11:26). Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia50 Também muito importante foi o uso do título Senhor aplicado à pessoa de Jesus. Esse título, ou referência, era o mesmo usado para Deus no Antigo Testamento, quando identificado como Javé. A tradução das Escrituras hebraicas para o grego, especificamente na Septuaginta, que foi a versão usada na citação dos textos do Antigo Testamento pelos autores do Novo, traduziu Iahweh como kyrios (e.g., Êxodo 5:2). Imaginamos que o uso da expressão kyrios pelos autores do Novo Testamento tenha sido intencional para fazer essa associação entre Javé e seu Ungido, atribuindo-lhe tratamento e consideração igual. Por outro, alguns enxergam uma segunda aplicação no uso desse título para fazer contraposição ao imperador romano, que também era assim tratado, em sua condição de governante supremo, recebendo veneração por características pretensamente divinas ao ponto de prestarem culto público. Certamente essa não foi a priorização do uso da expressão, mas pode ser levada em conta ao considerarmos situações e contextos históricos posteriores de embate ideológico e religioso, principalmente na igreja gentílica. Embora o maior desenvolvimento da interpretação de Jesus como Messias seja encontrado nos evangelhos e na vivência da igreja primitiva, o ápice dessa compreensão foi alcançado no livro de Apocalipse. É nesse livro, atribuído ao apóstolo João, que encontramos Jesus, de maneira mais clara, em sua condição divina. O livro que procura apresentar uma visão simbólica das regiões celestiais, apresenta Jesus como o Messias escatológico glorificado. A primeira imagem fornecida é a de um ser místico com características além do humano (Apocalipse 1:12-15). A segunda é a de sua origem histórica e direta relação com o Messias de Israel, associada a um Cordeiro, também místico e estranho (Apocalipse 5:5-6). O simbolismo do Cordeiro é o que permeia a maior parte da visão até que ele é, explicitamente, chamado de Ungido, ou Cristo: “E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” (Apocalipse 11:15). O Cristo celeste que domina sobre toda a criação é, portanto, o último estágio da construção dessa figura, restando apenas a expectativa de seu retorno para julgar todas as coisas e estabelecer uma nova criação. 51 Conclusão Embora seja no tempo do Novo Testamento que Jesus apareça como o Messias prometido, percebemos que essa compreensão não foi algo que aconteceu imediatamente. Se por um lado, a maioria dos judeus não viu em Jesus a realização do cumprimento da esperança messiânica, por outro, mesmo os seus discípulos tiveram que paulatinamente ir assimilando essa perspectiva, assim como tiveram a tarefa de construir uma teologia ainda mais abrangente que aquela até então apresentada pelo Antigo Testamento. Os diversos textos do Novo Testamento iniciam a sua compreensão do Messias fazendo uma associação de Jesus com os textos do Antigo Testamento, mas incluem novas realidades que trazem a novidade da ressurreição e do governo cósmico e escatológico do Cristo. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia52 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 53 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 6 Cristo: Profeta e Sacerdote Introdução Após investigarmos como se deu a construção bíblica do Messias, tendo como base os textos do Antigo Testamento, e o entendimento do cumprimento da esperança messiânica na pessoa de Jesus, sob a perspectiva do Novo Testamento, nesta unidade e na seguinte, voltamos a nossa atenção para os chamados ofícios de Cristo, iniciando pelos ofícios de profeta e sacerdote. Objetivos 1) Estudar os ofícios de profeta e sacerdote como constituintes da figura do Cristo; 2) Observar como Jesus cumpre e realiza os ofícios de profeta e sacerdote. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia54 Não é tarefa fácil descrever a pessoa de Jesus e nem circunscrever em possíveis estereótipos tudo o que ele fez e representou durante a sua vida. É até natural que se tente associar suas atividades, possíveis funções, ou posições assumidas durante o seu ministério àquilo que se conhecia ou se tinha por referência na época. É importante notar que Jesus não passou por qualquer processo de formação e iniciação para o exercício de uma função religiosa oficial ou ordenada. Mesmo pensando em seu batismo que, de certa forma, o associa a João Batista e seu ministério profético específico, com a possibilidade de identificação com os essênios, Jesus não segue aquele padrão. João Batista, que era seu primo, filho de sacerdote (Lucas 1:5, 59, 60), mesmo tendo a prerrogativa, não seguiu o ofício sacerdotal. Jesus, por outro lado, não pertencia à tribo de Levi e, portanto, não tinha a mesma prerrogativa. Ele também não era escriba, fariseu ou saduceu. Tratando-se de uma sociedade altamente religiosa, era comum naquele tempo a convivência com profetas e pregadores itinerantes em Israel. No entanto, observando a breve história ministerial de Jesus, vemos que ele viveu de forma independente das instituições e do centro da religião. Ele não se aproximou do Templo e suas estruturas, nem da liderança religiosa, nem de qualquer grupo organizado. O seu ministério prático se deu na periferia, na Galiléia dos gentios, como o mestre (rabi) de um grupo pequeno de discípulos e na atração de muitas pessoas que queriam ouvi-lo ou serem curadas por ele. A princípio, ele não incomodou a ninguém, ainda que sempre causasse estranheza e questionamentos por parte dos religiosos mais conservadores. Contudo, a liderança religiosa de Jerusalém se sentiu ameaçada pela popularidade de Jesus, perseguindo-o até conseguir tirá-lo de cena. Nos relatos dos últimos acontecimentos da vida de Jesus, podemos perceber que nem a liderança religiosa, nem as autoridades, nem o povo, foram capazes de identificar Jesus com algum ofício específico. Nossa investigação, então, sobre os chamados ofícios de Cristo se dará nesse ambiente, com base nos relatos bíblicos, tendo em mente a construção teológica anterior que informa quem era ou deveria ser o Messias na expectativa religiosa e popular. 55 1- O ofício de profeta O primeiro ofício de Cristo que queremos investigar é o de profeta. Lembrando aquilo que foi tratado na primeira unidade, a principal ideia da figura do profeta tem sua origem em Moisés. O profeta era entendido como um “homem de Deus” que falava em seu nome. Ele era também reconhecido por seu caráter distinto, elevado, e, em um período mais remoto, por também realizar sinais. No tempo de Jesus o profeta profissional ligado à corte já não existia, também não temos o reconhecimento religioso dos profetas escritores. O que vemos são os profetas autônomos e a sua distinção em relação aos falsos profetas, cujas palavras não se cumpriam e que deveriam ser identificados e combatidos. O profeta, primeiramente, seria aquele que falava a Palavra de Deus por meio de vaticínios, denúncias, chamadas ao arrependimento e conversão, declaração de juízo, prognósticos e conhecimento de mistérios. Vejamos alguns relatos que apontam para Jesus atuando como um profeta: • Mateus 11:20-24 – “Então Jesus começou a denunciar as cidades em que havia sido realizada a maioria dos seus milagres, porque não se arrependeram. ‘Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres que foram realizados entre vocês tivessem sido realizados em Tiro e Sidom, há muito tempo elas se teriam arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. Mas eu afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vocês. E você, Cafarnaum, será elevada até ao céu? Não, você descerá até o Hades! Se os milagres que em você foram realizados tivessem sido realizados em Sodoma, ela teria permanecido até hoje. Mas eu afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Sodoma do que para você’”; • Mateus 13:54-58 – “Chegando à sua cidade, começou a ensinar o povo na sinagoga. Todos ficaram admirados e perguntavam: ‘De onde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes milagrosos? Não é este o filho do carpinteiro? O nome de sua mãe não é Maria, e não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Não estão conosco todas as suas irmãs? De onde, pois, ele obteve Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia56 todas essas coisas?’ E ficavam escandalizados por causa dele. Mas Jesus lhes disse: ‘Só em sua própria terra e em sua própria casa é que um profeta não tem honra’. E não realizou muitos milagres ali, por causa da incredulidade deles”; • Mateus 23:13-36 – “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo [...] Assim, testemunham contra vocês mesmos que são descendentes dos que assassinaram os profetas [...]Por isso, eu estou enviando profetas, sábios e mestres. A uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas sinagogas de vocês e perseguirão de cidade em cidade [...] Eu asseguro que tudo isso sobrevirá a esta geração”. Jesus pregava o arrependimento e conversão, e a Palavra de Deus com autenticidade profética. Além disso, ele mesmo alertava o povo para o distanciamento que deveriam ter dos falsos profetas: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores” (Mateus 7:15). Essa era uma prática que encontrava vários paralelos com os profetas de Israel, inclusive com o mesmo estilo de textos registrados no Antigo Testamento. Podemos, então, dizer que vemos Jesus cumprindo esse tipo ofício. O próprio povo o entende dessa maneira sem necessariamente o identificar como o Messias: Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: “Quem os outros dizem que o Filho do homem é?”. Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros, Elias; e, ainda outros, Jeremias ou um dos profetas”. “E vocês?”, perguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou?”. Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Respondeu Jesus: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isto não foi revelado a você por carne ou sangue, mas por meu Pai que está nos céus (Mateus 16:13-17). É claro, no texto, o contraste entre a percepção popular e a declaração de Pedro, indicada por Jesus como sendo um caso de revelação divina. Ao acompanhar o ministério de Jesus, parece que a 57 associação com o ofício de profeta era mais imediatado que uma possível associação com o Messias. Talvez isso se devesse ao tipo de expectativa que havia entre o povo, conforme já explicado anteriormente, de um líder político e não de um pregador. Entender que Jesus exercia um ministério profético não era problema. Contudo, entender que ele era o Ungido de Deus requeria um entendimento mais profundo, um tipo de conversão, ou como afirma o texto, uma revelação. 2- O ofício de sacerdote Apesar da confusa construção da figura do sacerdote, que parece ter sido abusada por alguns grupos interessados no controle da religião de Israel, seu papel possui um destaque especial apontado no próprio Novo Testamento. A origem desse ofício religioso remonta à tradição mosaica, mas sua grande força surgiu após o exílio babilônico com o segundo templo de Jerusalém. Muitos textos bíblicos são originários dessa época, procurando construir a imagem e importância do sacerdote na religiosidade popular. Essa construção atribui a origem do ofício a Arão e seus filhos, como vemos no relato de Êxodo 28:1: “Faze também vir para junto de ti Arão, teu irmão, e seus filhos com ele, dentre os filhos de Israel, para me oficiarem como sacerdotes, a saber, Arão e seus filhos Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar”. Posteriormente, esse ofício, ou um tipo de ofício auxiliar, foi estendido a toda a tribo de Levi: O Senhor disse a Moisés: “Mande chamar a tribo de Levi e apresente-a ao sacerdote Arão para auxiliá-lo. Eles cuidarão das obrigações próprias da Tenda do Encontro, fazendo o serviço do tabernáculo para Arão e para toda a comunidade. Tomarão conta de todos os utensílios da Tenda do Encontro, cumprindo as obrigações dos israelitas no serviço do tabernáculo. Dedique os levitas a Arão e a seus filhos; eles serão escolhidos entre os israelitas para serem inteiramente dedicados a Arão. Encarregue Arão e os seus filhos de cuidar do sacerdócio; qualquer pessoa não autorizada que se aproximar do santuário terá que ser executada” (Números 3:5-10). A imagem do sacerdote acabou sendo composta a partir da noção de perfeição, santidade e pureza, cuja lei específica determinava Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia58 que o estilo de vida para ele deveria ser mais rígido do que para o resto do povo. Observamos isso no texto de Levítico, capítulo 21. A função principal do sacerdote era encarregar-se dos rituais religiosos do Templo. No caso, eles funcionavam como intermediários entre o povo e Javé. Lembrando que o culto do Templo consistia, basicamente, nas ofertas de animais, para serem sacrificados, e ofertas, chamadas pacíficas, de alimentos agrícolas em geral. Ficava sob a responsabilidade do povo apenas o ato de levar as ofertas até o local de culto, entregando-as nas mãos os sacerdotes. Todo o resto, ou seja, os rituais que aconteciam dentro do Templo eram feitos pelos sacerdotes. A teologia construída em torno dos rituais do Templo e da casta sacerdotal foi a de indicar uma extrema distância entre Javé e os seres humanos e a inacessibilidade a ele. O problema não era devido apenas à questão do pecado, porém, a um tipo de impureza que perpassava até mesmo as áreas comuns da vida. Ninguém poderia pensar em chegar perto das coisas de Javé, por isso apenas algumas pessoas especiais eram preparadas para ter esse acesso. Esses eram os sacerdotes e levitas. Na verdade, este rigor era ainda maior se levarmos em conta que Javé não habitava no Templo como um todo; ele habitava numa porção isolada chamada de Santo Lugar ou Santo dos Santos. Ali, naquele pequeno espaço, separado por grossas cortinas, onde se guardava a Arca da Aliança, nem os sacerdotes podiam entrar. Apenas o sumo-sacerdote, o chefe dos sacerdotes, entrava, e apenas uma vez ao ano. Olhando para esse pano de fundo histórico e teológico e buscando pontes com a pessoa e ministério de Jesus, percebemos que a associação entre uma coisa e outra não pode se dar de maneira direta. Primeiro, porque Jesus não era descendente da tribo de Levi e sim de Judá, ao contrário de seu primo João Batista. Depois, porque não vemos qualquer relato de Jesus participando ou realizando rituais no Templo. Assim, a função sacerdotal de Jesus parece ter ficado circunscrita a um entendimento posterior baseado em uma argumentação mais simbólica no que se refere a esse ofício. Por exemplo, a sua filiação e messianidade estabelece-se como uma forma de intermediação entre Deus e os seres humanos na ótica de João: “[...] ninguém vem ao Pai, a não ser por mim [...] quem me vê, vê o Pai” (João 14:6,9). Ainda, quando da ressurreição de Jesus, o relato dos evangelistas é intencional 59 ao indicar que as cortinas do Santo Lugar do Templo de Jerusalém, chamadas de véu, se rasgaram, significando que tanto Jesus havia entrado naquele lugar quanto o acesso agora estaria desimpedido às pessoas comuns (Mateus 27:51; Marcos 15:38; Lucas 23:45). Em outras palavras, todos se tornaram sacerdotes. No entanto, é o autor de Hebreus quem irá interpretar em maior profundidade a função sacerdotal de Jesus que é exercida muito mais como algo celestial do que vista em seu ministério terreno: • Hebreus 4:14-16 – “Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer- se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade”; • Hebreus 5:1-6 – “Todo sumo sacerdote é escolhido dentre os homens e designado para representá-los em questões relacionadas com Deus e apresentar ofertas e sacrifícios pelos pecados. Ele é capaz de se compadecer dos que não têm conhecimento e se desviam, visto que ele próprio está sujeito à fraqueza. Por isso ele precisa oferecer sacrifícios por seus próprios pecados, bem como pelos pecados do povo. Ninguém toma essa honra para si mesmo, mas deve ser chamado por Deus, como de fato o foi Arão. Da mesma forma, Cristo não tomou para si a glória de se tornar sumo sacerdote, mas Deus lhe disse: ‘Tu és meu Filho; eu hoje te gerei’. E diz noutro lugar: ‘Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”; • Hebreus 7:23-28 – “Ora, daqueles sacerdotes tem havido muitos, porque a morte os impede de continuar em seu ofício; mas, visto que vive para sempre, Jesus tem um sacerdócio permanente. Portanto, ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele, se aproximam de Deus, pois vive sempre para interceder por eles. É de um sumo sacerdote como esse que precisávamos: santo, inculpável, puro, separado dos pecadores, exaltado acima dos céus. Ao contrário dos Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia60 outros sumos sacerdotes, ele não tem necessidade de oferecer sacrifícios dia após dia, primeiro por seus próprios pecados e, depois, pelos pecados do povo. E ele o fez uma vez por todas quando a si mesmo se ofereceu. Pois a Lei constitui sumos sacerdotes a homens que têm fraquezas; mas o juramento, que veio depois da Lei, constitui o Filho perfeito para sempre”. Apesar do intrincado processo de argumentação, inovador e curioso, adotado pelo autor de Hebreus, tentando construir uma associação entre o ofício sacerdotal instituído no Antigo Testamento e a representatividade da obra de Cristo, o que vemos é a transferência desse ofício para uma esfera mística e celestial em que o Messias intercede pelos seres humanos junto ao trono de Deus Pai. Conclusão Estudamos nessa unidade dois ofícios associados ao Messias, entendendo-os por meio da observação da vida e ministério de Jesus bem como da interpretação dada pelos autores do Novo Testamento. Esses primeiros ofícios, o de profeta e sacerdote, recebem tratamentos distintos dos autores bíblicos, sendo afunção profética observada no uso da palavra que Jesus faz em seus discursos e a função sacerdotal como algo de interpretação simbólica e observada na esfera celestial habitada pelo Cristo ressurreto. 61 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 7 Cristo: Rei e Mestre Introdução Continuando a investigação sobre os ofícios de Cristo, tendo visto na unidade anterior os ofícios de profeta e sacerdote, nesta unidade a atenção estará voltada para os ofícios de rei e mestre. A intenção é compararmos as expectativas que compõem a figura do Messias com suas possíveis realizações na pessoa de Jesus durante o seu ministério. Objetivos 1) Estudar os ofícios de rei e mestre como constituintes da figura do Cristo; 2) Observar como Jesus cumpre e realiza os ofícios de rei e mestre. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia62 Com base nas argumentações da unidade anterior podemos afirmar que Jesus surpreende os seus contemporâneos no que diz respeito ao cumprimento das expectativas messiânicas. Considerando aquilo que, talvez, fosse o cerne da teologia e vida religiosa da tradição judaica, ou seja, os papéis de profeta e sacerdote, Jesus assume, em parte, a vocação profética, porém, distancia-se da função sacerdotal. A profecia de Jesus tem a ver com a inauguração de um novo tempo caracterizado pela consciência do reino de Deus e, por isso, os seus discursos estão marcados por ela. Já o sacerdócio de Jesus é desenvolvido na esfera celestial, na intercessão junto ao Pai, isto é sem qualquer proximidade com suas ações ministeriais em vida. Essa atitude é justificada pela ideia, também indicada na unidade anterior, de que Jesus exerceu o seu ministério independentemente das estruturas e do centro da religião. Em torno dessa mesma atitude intencional, Jesus também se distancia das esferas políticas e do centro de poder, tanto político quanto religioso. Assim, a realização dos ofícios de Cristo, no que se refere às funções de rei e mestre, se dará nesse ambiente paradoxal de aproximação e distanciamento de seu povo em sua expectativa quanto ao Messias. Ao mesmo tempo em que há uma esperança histórica do Messias, latente na fé do povo de Israel, sua realização não se dá na mesma proporção e concretude. 1- O ofício de rei Lembrando os conteúdos estudados sobre o Cristo no Antigo Testamento em unidades anteriores, certamente é em torno da figura do rei que a expectativa messiânica é mais desenvolvida. É na esperança da retomada da autonomia e soberania política que Israel deposita a sua confiança no Messias. Para a vida do povo judeu não há separação entre religião e política, tudo está debaixo do controle de Javé e por isso a função de rei é tão importante para todos. O rei é aquele que exerce um serviço de governo outorgado pelo verdadeiro soberano sobre a terra, que é Javé. Em tese, o rei é o ungido de Deus, o escolhido e capacitado, para o exercício desse importante ofício na vida comum do povo de Israel. O Messias, na função de rei, compunha a esperança popular, mas ao mesmo tempo funcionava como uma ameaça para o rei judeu 63 vigente. Foi nesse ambiente que Jesus nasceu. O Evangelho de Mateus registra a preocupação de Herodes, o rei judeu oficial, que atuava como fantoche do imperador romano, que instigado pelo indício da possibilidade de realização da promessa messiânica, toma uma atitude radical contra o seu próprio povo mandando matar meninos abaixo de dois anos de idade que poderiam vir a ser o Messias (Mateus 2:16). Jesus, em seu ministério, jamais se aproximou dessa possibilidade de relação formal ou busca pelo poder político. É emblemática a sua atitude e reação em face de uma situação curiosa em que o povo, entusiasmado com sua liderança, cuidado, discurso e milagres, tenta criar uma ação simbólica de sua proclamação como rei. O evangelista João é quem registra o episódio: Depois de ver o sinal milagroso que Jesus tinha realizado, o povo começou a dizer: ‘Sem dúvida este é o Profeta que devia vir ao mundo’. Sabendo Jesus que pretendiam proclamá-lo rei à força, retirou-se novamente sozinho para o monte (João 6:14-15). A clássica cena de Jesus entrando em Jerusalém montado em um jumento e sendo ovacionado por um grupo de pessoas, provavelmente de maioria humilde e proveniente da Galiléia, é outro elemento representativo para toda a relação que se deu entre Jesus, em seu ministério, e a expectativa popular do rei messiânico: Quando ele já estava perto da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus alegremente e em alta voz, por todos os milagres que tinham visto. Exclamavam: “Bendito é o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas! (Lucas 19:37-38). É claro que a cena é em si curiosa. Vemos um homem montado em um jumento sendo aclamado por pessoas simples, ao entrar em Jerusalém, a cidade do rei da Davi, onde se encontrava o Templo de Javé. Considerando que a cena ocorreu durante o período da Festa da Páscoa em que muita gente afluía em caravanas de peregrinação para Jerusalém, o fato deve ter sido considerado pelos romanos como pitoresco ou jocoso, porque não se importaram com ele, chegando a tratá-lo com escárnio (Mateus 27:29). Entretanto, o evento não passou Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia64 despercebido pela liderança religiosa que não admitia ter a figura divina do Messias associada ao nazareno Jesus. Naquele momento histórico em que Jesus viveu os seus últimos dias de vida, já estava estabelecido o seu discurso e prática que reinterpretava a esperança do reino de Deus. Era óbvia a tentativa de associação que o povo fazia entre esse novo discurso e a expectativa de restauração do reino político de Israel, como vemos no questionamento que os discípulos fazem em Atos 1:6: “Então os que estavam reunidos lhe perguntaram: ‘Senhor, é neste tempo que vais restaurar o reino a Israel?’”. No entanto, a construção teológica feita por Jesus demonstrava um distanciamento da expectativa histórica no sentido de qualidade, tempo e espaço. O tema do reino de Deus, ou dos céus, foi um dos mais abordados por Jesus, porém, o seu foco era a justiça e a ética própria daqueles que compreendem como deve se dar a vivência da fé em Deus, que transcende as estruturas sociais, políticas e econômicas humanas. O reino pregado por Jesus era algo associado à esfera celeste, portanto, o soberano era o próprio Deus. Jesus, sendo considerado o Messias, ou o Filho de Deus, seria o príncipe herdeiro, possuindo uma autoridade delegada. Dessa forma, o cumprimento do seu papel messiânico incluía o uso de autoridade, a delegação dessa autoridade e o reconhecimento dela pelas pessoas (Mateus 9:6; 10:1; 21:23; Lucas 10:17-19; 11:20). Sua autoridade também estava na coerência com que falava, com que representava as pessoas e se conduzia socialmente (Mateus 7:29; 8:8-9; 20:25-28). Mas em nada o reino de Deus pregado e vivido ministerialmente por Jesus se aproximava da figura do Messias associada a expectativa popular. O outro aspecto do entendimento do ofício de rei exercido por Jesus como o Messias está na interpretação escatológica, que fica ainda mais clara à medida que ele se encaminha para a morte. Temos três registros dessa perspectiva nos evangelhos: o diálogo de Jesus com a mãe de Tiago e João, a conversa com Pilatos e as palavras do ladrão na crucificação: • Mateus 20:21 – “’O que você quer?’, perguntou ele. Ela respondeu: ‘Declara que no teu Reino estes meus dois filhos se assentarão um à tua direita e o outro à tua esquerda’”; 65 • João 18:33-37 – “Pilatos então voltou para o Pretório, chamou Jesus e lhe perguntou: “Você é o rei dos judeus? [...] Disse Jesus: ‘O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui’. ‘Então, você é rei!’, disse Pilatos. Jesus respondeu: ‘Tu dizes que sou rei’ [...]”;• Lucas 23:42 – “Então ele disse: ‘Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino’”. Independente de como se deu essa construção, é no reino escatológico que Jesus se torna efetivamente o rei messiânico. É o Cristo cósmico, desenvolvido teologicamente pelo apóstolo Paulo e por João em seu Apocalipse, que assume o reino eterno prometido a Davi. Jesus, o Cristo, é aquele que se assenta no trono celestial, ao lado de Deus, para reinar sobre tudo e todos. 2- O ofício de mestre O ofício de mestre não é algo que esteja diretamente relacionado à construção teológica do Messias. Também não parece fazer parte da esperança popular ao longo da história. Talvez, a maior aproximação que possamos fazer esteja na compreensão de que seria óbvia a expectativa de que o Messias fosse alguém cheio de sabedoria. Vale lembrar a importância que essa temática recebe nas Escrituras, sendo a sabedoria até mesmo representada como a essência de Deus. Outra possível associação que poderíamos fazer, usando um texto messiânico para tal, é ver na expressão “Maravilhoso Conselheiro” essa função de mestre, conforme a descrição presente no livro de Isaías: Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6). Independente de não havermos considerado a função de mestre em nosso estudo anterior da construção teológica do Messias, somos forçados a admiti-la ao revés. Quer dizer, olhando para a vida e ministério de Jesus concluímos que essa parece ter sido a função que Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia66 mais o identificou. O início de sua vida pública se deu na composição de um colegiado de discípulos que ele se encarregou de convidar para segui-lo como sendo seu mestre ou rabi. A forma de tratamento usada por esses discípulos e registrada nos evangelhos indica essa relação (Mateus 9:11; Marcos 4:38; Lucas 5:5; João 4:31). O tipo de ensino característico dos mestres daquele tempo incluía leitura, estudo, exposição, questionamento, mas também, em igual proporção, a imitação de ações e atitudes. Essa escola ocorria na caminhada, ou seja, no desenrolar da vida, e gradativamente o mestre transferia autonomia ou delegava funções aos discípulos para que praticassem aquilo que haviam aprendido. Nas suas ações, na ausência do mestre, o objetivo último deles seria o de se tornarem mestres de outros ou, em outras palavras, fazerem discípulos. A chamada Grande Comissão carrega um pouco dessa ideia. (Mateus 10:5-15; 14:16; 17:16; João 20:21). Além dessa relação mais íntima com os discípulos, Jesus também priorizou o ensino quando estava na presença da multidão. Um resumo das atividades ministeriais de Jesus é dado por Mateus: “Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas-novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças” (Mateus 9:35). Embora muitos o procurassem por causa dos sinais e prodígios, e em particular para serem curados, esses milagres tinham a intenção de atrair as pessoas para perto dele para ouvirem a mensagem e o ensino que poderia transformar as suas vidas. Veja a argumentação apresentada por João: Algum tempo depois, Jesus partiu para a outra margem do mar da Galileia (ou seja, do mar de Tiberíades), e grande multidão continuava a segui-lo, porque vira os sinais milagrosos que ele tinha realizado nos doentes [...]Então Jesus tomou os pães, deu graças e os repartiu entre os que estavam assentados, tanto quanto queriam; e fez o mesmo com os peixes. Depois que todos receberam o suficiente para comer, disse aos seus discípulos: “Ajuntem os pedaços que sobraram. Que nada seja desperdiçado [...] Vendo, pois, os homens o sinal que Jesus 67 fizera, disseram: Este é, verdadeiramente, o profeta que devia vir ao mundo [...] Jesus respondeu: “A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais milagrosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos. Não trabalhem pela comida que se estraga, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem dará a vocês. Deus, o Pai, nele colocou o seu selo de aprovação. Então perguntaram- lhe: “O que precisamos fazer para realizar as obras que Deus requer? [...] Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (João 6:1-40). Em seu ensino, Jesus queria conduzir as pessoas a uma nova forma de ver a vida, a um novo modo de vida. Ele ensinava nas sinagogas, nas ruas e em espaços amplos e abertos afastados das cidades. Perceba que o estilo usado para proferir a maioria de seus discursos possuía um tom professoral. Também as suas conversas tinham a intenção de orientar, corrigir, estimular e, principalmente, levar à reflexão e mudança de vida e atitude. O maior dos exemplos talvez seja o conhecido Sermão do Monte, cuja introdução do relato feito por Mateus é clara ao dizer: “Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo [...]” (Mateus 5:1-2). Ainda uma última nota curiosa sobre a priorização do ensino no ministério de Jesus é a sua relação com o Templo. Não há qualquer registro de outra atividade feita por Jesus no Templo a não ser a do ensino, nem mesmo oração. Os evangelhos sinóticos concentram os relatos de Jesus no Templo em seus últimos dias antes de ser morto. João, no entanto, estabelece outra cronologia, mais espaçada ao longo de todo o ministério de Jesus (Mateus 21:23; 26:55; Marcos 11:15-17; 12:35; Lucas 2:46; 19:47; João 7:14, 28; 8:1, 20; 18:20). O que percebemos no ofício de mestre desempenhado por Jesus é que, embora não correspondesse à expectativa messiânica, foi por meio dessa transmissão próxima de conhecimento e sabedoria que ele deixou um legado a ser seguido. Seus ensinamentos, também Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia68 considerados mandamentos, a partir da ótica da relação servo-Senhor, são muito mais relevantes para a vida humana prática que qualquer outra consequência advinda dos outros ofícios. Conclusão Após termos estudado na unidade anterior os ofícios de profeta e sacerdote, vimos nessa unidade mais dois ofícios de Cristo que são os de rei e mestre. O ofício de rei, embora seja o mais importante na construção teológica oriunda do Antigo Testamento, não é aquele que mais caracteriza o ministério de Jesus. O reinado de Jesus se dá em outra esfera de atuação e possui uma realização voltada para o tempo escatológico. Por outro lado, o ofício de mestre, que não aparece claramente na construção teológica da expectativa messiânica, é justamente o mais exercido por Jesus em seu ministério terreno, tornando-se talvez a sua característica mais marcante e atrativa para a séria consideração da importância da cristologia baixa para a igreja. 69 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 8 Cristo: Caminho, Verdade e Vida Introdução O estudo da Cristologia, proposto nesta disciplina, se encerra com esta unidade que investigará uma perspectiva mais filosófica da figura do Cristo. Ela tratará do tema que gira em torno da autoidentificação feita por Jesus, conforme registrada no Evangelho de João, de ser ele o caminho, a verdade e a vida. Objetivos 1) Apresentar um pano de fundo histórico, filosófico e bíblico para a identificação do Cristo como o caminho, a verdade e a vida; 2) Oferecer uma plataforma de diálogo para o entendimento da identificação de Cristo no contexto atual. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia70 É bastante conhecida a afirmação feita por Jesus, conforme registrada no Evangelho de João, em que ele se autoidentifica em uma tríplice expressão: “Respondeu Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (João 14:6). Interessantenotar que ao longo da história muito se pregou, falou e repetiu sobre o conteúdo dessa afirmação, porém, poucos se propuseram a destrinchá-la em profundidade. No caso específico do estudo da Cristologia não é comum encontrar abordagens baseadas nesse texto ou a tentativa de se construir algum conteúdo proposicional acerca dessa tríplice caracterização de Cristo. O que torna essa investigação interessante é a atualidade dos termos caminho, verdade e vida para o nosso contexto. A pós- modernidade, ou modernidade líquida, ou qualquer outra maneira que possamos identificar o tempo contemporâneo parece oferecer um ambiente bastante propício para a investigação de Cristo a partir desse conteúdo. É com esse objetivo de interagirmos com o pensamento contemporâneo, buscando um diálogo em que a pessoa de Cristo possa fazer sentido para as pessoas, que iniciamos a discussão. 1- O Evangelho de João e a cultura grega A fim de investigarmos a expressão “caminho, verdade e vida”, com certa profundidade, precisamos considerar que ela ocorre dentro da argumentação de um livro. Sua interpretação só faz sentido quando feita considerando todo o contexto e desenvolvimento de ideias que compõem o Evangelho de João. O livro foi escrito tendo como público alvo a igreja primitiva inserida em um contexto greco-romano. A maioria da igreja, gentílica, não tinha em sua formação a tradição religiosa judaica, ainda que tivesse acesso às Escrituras Sagradas, pela Septuaginta, uma tradução do Antigo Testamento, além do contato com as cartas e epístolas dos apóstolos. Já na introdução do livro, podemos perceber a intenção de diálogo com o mundo grego e sua cultura proposta pelo autor. João inicia seu texto falando do Logos e sua encarnação em Jesus de Nazaré: “No princípio era aquele que é a Palavra (Logos). Ele estava com Deus e era Deus [...] Aquele que é a Palavra (Logos) tornou-se carne e viveu 71 entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:1-14). O conceito de Logos era uma tentativa da cultura grega de conceber o princípio gerador da existência humana e do mundo em geral ou a divindade. No grego clássico, a ideia de Logos significava tanto “razão” quanto “palavra”, no sentido de que toda palavra implica um pensamento anterior à sua produção. Dessa forma, denota-se a existência da razão prévia, que é concebida na mente, e que se expressa pela palavra, escrita ou falada. A tradução de Logos feita para o Português como Palavra ou Verbo não exprime bem o conceito do termo grego. A filosofia grega buscava um princípio único para explicar o universo. O uso da expressão Logos não consistia, primeiramente, na proposição da existência de um ser pessoal, ou seja, um Deus como o bíblico, mas indicava um princípio racional e gerador da existência. O filósofo Heráclito propunha que tudo seria parte de um fluxo. Para ele, não podemos dizer as coisas “são” e sim que “vêm a existir” e passam adiante. Seria esse um estado de perpetuamente “tornar-se”. Ele usou a metáfora do fogo para explicar a ideia. O fogo manifesta-se pelo fluxo da chama, da brasa e da fumaça, em que um traz o outro à existência a partir da mesma origem. O fluxo, no entanto, segue seus próprios parâmetros, governados por uma lei racional e inalterável. A esse princípio, Heráclito denominou-o Justiça, Harmonia, Razão, Logos e deus ou divindade. Logos e deus seriam a mesma coisa, uma eterna energia do universo que perpassa todas as coisas preservando a sua unidade. Ele não o caracteriza, no entanto, como uma ideia definida, consciente e pessoal. Anaxágoras adicionou a esse desenvolvimento a ideia de um princípio intelectual supremo usando o termo mente (nouos). A questão que essa proposta trouxe é que é difícil diferenciar ou conceber a mente à parte da matéria corporal. Ainda assim, foi proposto um conceito de dualismo entre a realidade da mente e da matéria. Essa corrente influenciou outros pensadores, entre eles Platão. Platão, por sua vez, não explorou tanto o conceito de Logos. Ele sugeriu a distinção entre o mundo dos sentidos e dos pensamentos. Deus pertenceria ao mundo dos pensamentos e as pessoas ao mundo dos sentidos. Uma vez que o primeiro é quem gera o segundo, a verdadeira realidade consistiria nas Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia72 “ideias”, que concebem os pensamentos. Consequentemente, as ideias residem na mente divina antes da criação do mundo. Os filósofos estoicos, contemporâneos de Paulo e João (Atos 17:18), produziram o conceito de que o universo forma um todo conectado. Para eles, todas as expressões particulares da existência são formas assumidas pelo poder primitivo que perpassa tudo. Essa atividade eterna ou poder universal divino foi chamado de Logos ou Deus. Assim, a divindade ou poder produtivo, princípio gerador do mundo, era denominado logos spermatikoi, uma força formativa que energiza a natureza e a vida. A subordinação das expressões particulares da existência ao Logos constitui a ordem racional das coisas e pressupõe a norma de regulação da vida. Na esfera moral, outra grande preocupação da filosofia era viver “de acordo com a natureza”, era ser governado pela lei determinante de conduta. Quando João utiliza o conceito de Logos para identificar Jesus, ele não apenas incita a sua divinização, como aquele que dá origem a todas as coisas, mas abre um precedente imediato de discussão sobre a plausibilidade da manifestação do Cristo na forma humana sem que ele venha a constituir-se em algo derivado ou menor. 2- O Logos nas Escrituras O próximo passo em nossa análise do pensamento de João, tentando compreender a tríplice expressão caminho-verdade-vida, em função da construção que ele faz a partir da cultura grega, é tentarmos conjugar esse encaminhamento também em função de sua formação teológica judaico-cristã. João estava tentando comunicar o seu entendimento teológico sobre Jesus Cristo a uma cultura originalmente diferente da sua, usando conceitos daquela cultura, porém, com um pano de fundo de sua própria formação teológica que incluía as Escrituras hebraicas. Por isso, tentaremos enxergar, no Antigo Testamento, possíveis pontes entre temas ali presentes e o conceito de Logos que ele utiliza em sua introdução do livro. De antemão, não encontramos uma direta associação entre Javé ou Deus com o termo Logos; pelo menos analisando a tradução do Antigo Testamento para o grego, ou seja, na Septuaginta. Por outro 73 lado, encontramos uma associação de Logos com o termo hebraico dabar (rb”D”) e suas derivações. Dabar e suas variantes foram traduzidas para o português como falar, dizer, palavra, discurso. Vejamos alguns exemplos: • Números 11:23 – “O SENHOR respondeu a Moisés: “Estará limitado o poder do SENHOR? Agora você verá se a minha palavra se cumprirá ou não”; • Salmo 119:105 – “A tua palavra é lâmpada que ilumina os meus passos e luz que clareia o meu caminho”; • Oséias 1:1 – “Palavra do SENHOR que veio a Oseias, filho de Beeri, durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, e de Jeroboão, filho de Jeoás, rei de Israel”. Teologicamente, há uma direta relação entre Deus e a sua fala ou palavra. Na perspectiva do salmista, a palavra está presente no princípio criativo quando afirma “Mediante a palavra do SENHOR foram feitos os céus, e os corpos celestes, pelo sopro de sua boca” (Salmo 33:6). Nesse sentido, há uma aproximação desse conceito com a ideia do Logos grego como um princípio gerador daquilo que existe, e isso procedendo de Deus. Outra relação direta, e ainda mais importante teologicamente, é a relação entre a palavra de Deus e a Lei Mosaica que estabeleceu a referência mais importante da religiosidade do povo de Israel. O Salmo 119, como um todo, é um bom exemplo do tratamento dado a essa relação. Nessa poesia, cuja introdução mostra que o tema principal é a Lei de Deus, vemos a associação dessas ideias:“Como são felizes os que andam em caminhos irrepreensíveis, que vivem conforme a lei do SENHOR” (Salmo 119:1), e “A explicação das tuas palavras ilumina e dá discernimento aos inexperientes” (Salmo 119:130). O pano de fundo histórico da associação entre a palavra ou discurso de Deus e a Lei está no relato do livro de Êxodo: Disse o Senhor a Moisés: “Escreva essas palavras; porque é de acordo com elas que faço aliança com você e com Israel”. Moisés ficou ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão e sem beber água. E escreveu nas tábuas as palavras da aliança: os Dez Mandamentos (Êxodo 34:27-28). Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia74 Parece plausível sugerir que João, ao construir o seu argumento sobre o Cristo, estabeleceu essa ponte entre o conceito da Palavra de Deus do Antigo Testamento e o conceito do Logos grego, podendo afirmar na introdução de seu texto que “No princípio era aquele que é a Palavra (Logos). Ele estava com Deus e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito” (João 1:1-3). Como vimos, o termo Logos, independente do conceito mais filosófico explicado anteriormente, também traduz a ideia de declaração, discurso ou narrativa. Algumas vezes ele foi usado nos textos do Novo Testamento para indicar a manifestação da palavra de Deus no que se refere à sua revelação ou às Escrituras. O próprio João se utiliza dessa expressão o que nos leva a associar esse uso com toda a sua elaboração do Cristo e em consonância com a perspectiva do Antigo Testamento. Vejamos alguns usos aplicativos: • João 8:37-38 – “Eu sei que vocês são descendentes de Abraão. Contudo, estão procurando matar-me, porque em vocês não há lugar para a minha palavra. Eu estou dizendo o que vi na presença do Pai, e vocês fazem o que ouviram do pai de vocês”; • João 10:35 – “Se ele chamou ‘deuses’ àqueles a quem veio a palavra de Deus (e a Escritura não pode ser anulada)”; • 1 Coríntios 14:36 – “Acaso a palavra de Deus originou-se entre vocês? São vocês o único povo que ela alcançou?”; • Hebreus 4:12 – “Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração”. O apóstolo Paulo, de maneira diferente, tendo produzido seus textos em tempo anterior a João, talvez mais centrado na teologia judaica, não fez uso do termo Logos para se referir à Cristo. Ele preferiu utilizar outros conceitos que, para efeito deste estudo, podemos perceber alguma proximidade com a ideia do Logos desenvolvido por João: 75 a. Criador e “molde” de criação – “para nós, porém, há um único Deus, o Pai, de quem vêm todas as coisas e para quem vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem vieram todas as coisas e por meio de quem vivemos” (1 Coríntios 8:6; ver também 1 Coríntios 15:45-49); b. Fonte de todas as coisas criadas sendo a imagem de Deus – “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito sobre toda a criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos sejam soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele” (Colossenses 1:15-16); c. Plenitude – “Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude” (Colossenses 1:19); d. Receptáculo da sabedoria e conhecimento – “[...] a fim de conhecerem plenamente o mistério de Deus, a saber, Cristo. Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria (sofia) e do conhecimento (gnose)” (Colossenses 2:2-3). É fundamental, portanto, entender que o esforço de João não é direcionado ao público judeu que já possuía em sua história e religião a expectativa do Messias. Sua interpretação particular do grande evento do Deus encarnado, que se concretiza em Jesus de Nazaré, é oferecer o entendimento radical que isso traz a todas as pessoas, começando com o público imediato, responsável pela transição histórica daqueles que carregam adiante a fé em Javé, o Deus único, o Deus de Israel, que é a igreja gentílica de cultura grega. Ainda que o texto de João esteja distante do tempo em que vivemos, podemos perceber a atualidade de seu conteúdo para a cultura que nos cerca. Como veremos, a investigação do Cristo como o caminho, a verdade e a vida, pode ser interessante e útil para um diálogo mais profícuo com a contemporaneidade. Apenas por uma questão de argumentação, optarei por alterar a ordem de análise dos termos presentes na tríplice expressão, começando pelo estudo do conceito de verdade, para depois explorar os desdobramentos dessa análise para os conceitos de caminho e vida. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia76 3- Verdade Tradicionalmente, no meio evangélico, a principal interpretação da expressão “verdade” tem sido feita com base em uma perspectiva reducionista como algo que é oposto à mentira. Nessa rápida maneira de se entender a expressão, talvez esteja uma preocupação do nosso subconsciente teológico em mantermos uma postura ética que esteja comprometida com o falar a verdade em nossas relações pessoais. Talvez esteja presente, ainda, uma interpretação dualista da realidade, em que tudo se apresenta como divido entre Deus e o diabo. Logo nos vem à mente alguns versículos, como um do próprio Evangelho de João, porém, sem a devida interpretação que considera todo o contexto do livro no qual ele aparece: Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira (João 8:44). Em nossa ingênua interpretação, olhamos apenas para as expressões que ali estão, tais como “profere” e “fala”, e às associamos aos nossos atos de proferir ou falar, usando uma lógica simplista de que a verdade e a mentira são algo que falamos no dia a dia em nossos diálogos. Assim, nessa lógica, se falo uma mentira, sou do diabo, porque ele é o pai da mentira. O problema é que nem esse texto nem o que identifica Jesus como a verdade estão tratando da fala expressa em nossas conversas corriqueiras. É claro que há um desdobramento sobre a compreensão mais profunda que devemos ter sobre o conceito de verdade e o falar mentiras, mas o conceito em si é mais profundo. Outra maneira com que temos nos acercado da ideia de verdade tem sido a partir da apologética cristã. Atualmente, o tipo de teologia mais comum no meio evangélico é aquele que é afetado por uma apologética que é decorrente da filosofia iluminista e humanista. Procurando entender um pouco o desenvolvimento da teologia, podemos dizer que no início da igreja cristã a apologética surgiu para tentar defender a fé cristã nascente da cultura pagã greco-romana e dos argumentos filosóficos que passaram a influenciar diretamente a compreensão teológica. Após um longo tempo, durante a Idade Média, em que a teologia ditava os rumos do pensamento, com o 77 advento do iluminismo humanista, a razão humana passou a ser a referência para o conhecimento da realidade. Baseado nas perspectivas mecanicistas, objetivistas e cartesianas, o discurso teológico passou a ser proposicional, ou seja, a maneira para explicar a Deus e a fé tornou- se um discurso feito com as frases certas para responder as perguntas certas. A fé e a teologia ficaram aprisionadas em sistemas teológicos pretensamente exatos e controlados, que a tudo responde e explica. O resultado disso para a teologia foi que a verdade ficou refém desse estado de mente. A verdade passou a ser aquilo que é explicado por uma proposição ou um discurso correto elaborado pela teologia. O grande problema é que não existe uma única teologia ou um único discurso. A maior prova disso é a assustadora variedade de denominações e correntes teológicasque defendem ser representantes fiéis de Deus no mundo. Talvez motivados por controle ou poder, alguns grupos pertencentes a correntes e tradições teológicas e denominacionais acabam adotando uma postura radical e monológica. Em nome da defesa da sã doutrina e da fé correta, esses grupos tornam-se fiscais dos outros grupos e reduzem a verdade a seus próprios discursos. Nesse cenário, quem seria o detentor da verdade? Qual tradição, denominação, grupo, corrente teológica ou discurso pode garantir que possui a verdade em detrimento dos outros? Partindo do pressuposto de que João tem como pano de fundo a cultura grega, ao usar a expressão grega aletheia (verdade) para identificar o Cristo, ele está se referindo ao sentido absoluto daquilo que é real, completo, oposto ao que é irreal e incompleto. Esta não é uma abordagem simples. Ele está tratando de um pressuposto filosófico ontológico e metafísico, assim como o faz no uso de Logos. O conceito de verdade está relacionado à realidade e à existência como um todo. Esclarecendo um pouco mais aquilo que parece estar sendo exposto por João, vejamos outro texto do mesmo Evangelho que relata o diálogo entre Jesus e Pilatos: Então, você é rei!”, disse Pilatos. Jesus respondeu: “Tu dizes que sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem”. “Que é a verdade?”, perguntou Pilatos. Ele disse isso e saiu novamente para onde estavam os judeus, e disse: “Não acho nele motivo algum de acusação (João 18:37-38). Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia78 O argumento de Jesus é que ele, o Messias, ou o Logos, havia vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Há uma direta associação entre esse texto e o do capítulo 1: No princípio era aquele que é a Palavra (Logos). Ele estava com Deus e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens [...] Ele veio como testemunha, para testificar acerca da luz, a fim de que por meio dele todos os homens cressem. Ele próprio não era a luz, mas veio como testemunha da luz. Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todos os homens [...] Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus [...] Aquele que é a Palavra (Logos) tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade (João 1:1-14). O Logos, que é Jesus, o Cristo, é também Deus, por meio de quem as coisas vêm à existência, por meio de quem a vida surge. O Cristo é a verdadeira luz, que é Deus, que ilumina o caminho de todos os seres humanos para o conhecimento do próprio Deus. O Logos encarnado é, então, cheio de verdade, pois é a expressão da única fonte de existência, afinal todo o resto é criado. Portanto, na argumentação de Jesus com Pilatos, a verdade não é uma fórmula teológica proposicional, ela é a realidade. Por isso, não se trata de falar ou dizer a verdade mas de ser da verdade, de pertencer à verdade ou de ser iluminado pela verdade que é Deus. É a partir dessa interpretação ampla do conceito de verdade que devemos ler também outros textos do Evangelho de João (João 8:31- 32; 14:16-17; 16:12-13), entendendo que não estamos lidando com um sistema teológico e lógico de afirmações e sim com a essência daquilo que traduz a realidade existente. 79 4- Caminho Tendo essa concepção da identificação do Cristo como a verdade, que possui uma intrínseca relação com o conceito do Logos, tecerei alguns comentários mais sucintos sobre a ideia por trás da expressão caminho. Ainda tendo como base o texto já citado, do primeiro capítulo do Evangelho de João, podemos observar que o Logos funciona como uma testemunha, uma luz que aponta para Deus, a fim de que os seres humanos se tornem seus filhos. Relembrando o texto, Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram. Surgiu um homem enviado por Deus, chamado João. Ele veio como testemunha, para testificar acerca da luz, a fim de que por meio dele todos os homens cressem. Ele próprio não era a luz, mas veio como testemunha da luz. Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todos os homens (João 1:4-9). O Logos é descrito como vida e como luz que ilumina todos as pessoas para que encontrem a Deus em meio as trevas. Poderíamos, portanto, interpretar essa ideia com o chamado caminho da salvação, o retorno à casa do Pai. É importante ressaltar que a identificação feita pela tríplice expressão caminho-verdade-vida surge durante um diálogo de despedida de Jesus com seus discípulos: Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu teria dito a vocês. Vou preparar lugar para vocês. E, quando eu for e preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver. Vocês conhecem o caminho para onde vou”. Disse-lhe Tomé: “Senhor, não sabemos para onde vais; como então podemos saber o caminho?” Respondeu Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim (João 14:1-6). Jesus ao se despedir diz que estaria indo para a casa do Pai e que estando lá prepararia um lugar para os seus discípulos com a finalidade de que todos estivessem juntos no futuro. Ele afirma que os discípulos conhecem esse caminho para a casa do Pai. Tomé, contudo, Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia80 diz o contrário. Mais que isso, Tomé parece dizer que não sabe onde fica a casa do Pai ou o caminho para chegar lá. A partir dessa paradoxal conversa entre Jesus e seus discípulos, ele se identifica como sendo o próprio caminho. Parece óbvio que toda a conversa gira em torno de uma linguagem figurativa, simbólica, parabólica, a ponto do jogo de palavras criar uma confusão típica dos diálogos promovidos por Jesus. Ao dizer que está de partida e indo para a casa do Pai, Jesus estaria deixando implícito que para fazer isso ele seguiria por algum caminho. Então, ele diz aos discípulos que eles já conhecem esse caminho. No entanto, diante do questionamento de Tomé, que pergunta como eles poderiam saber qual o caminho que leva à casa do Pai, Jesus se identifica como sendo ele mesmo o caminho. A confusão surge porque Jesus diz que seguiria para o Pai, deixando implícito que seguiria por um caminho, mas esse caminho acaba sendo ele próprio. O caminho que Jesus toma é algo que não está fora dele mesmo, ou seja, ele segue pelo caminho de sua própria existência. Mas não apenas isso, ao identificar-se como o caminho ele complementa a ideia dizendo que ele também é a verdade e a vida, ampliando essa ideia. Acredito que a maior parte da teologia evangélica tenha interpretado a ideia de Jesus como o caminho desde uma perspectiva mais soteriológica que ontológica. Alguns pensam Jesus como o caminho a partir de uma perspectiva pragmática desde uma construção teológica baseada na interpretação literalista de alguns versículos. Assim entendido, o caminho se torna um tipo de senha de acesso à casa do Pai por meio de uma confissão de fé verbal que precisamos fazer sobre a crença ou aceitação da morte substitutiva de Jesus, em nosso lugar, como punição dos nossos pecados. Esse caminho, nos daria a salvação e nos levaria para a casa do Pai, nos céus. Mas o texto de João não trata Jesus como esse tipo de caminho. Ainda que haja um componente soteriológico embutido, a argumentação é mais profunda envolvendo a totalidade da vida e existência. O caminho não se apresenta como um processo mecânico de dizer coisas, ou de repetir frases, ou responder a um apelo como se isso funcionasse como um passaporte de entrada na casa do Pai. O caminho,de uma prerrogativa real ao sumo sacerdote, líder da nova comunidade. Não havia, pois, no antigo Israel, uma “ordenação” de sacerdotes, eles assumiam sua função sem que um rito religioso lhes conferisse uma graça ou poderes especiais. Mas, por suas próprias funções, o sacerdote era santificado, sacralizado (2003, p. 386). Na construção, portanto, da religião de Israel, e que se tornará componente da expectativa messiânica, vemos a instituição desse ritual de unção no ofício sacerdotal, que ocorreu principalmente no Templo de Jerusalém. O texto que faz alusão à unção do sacerdote procura remontar suas origens a Arão, seus filhos, e posteriormente aos pertencentes à tribo de Levi. O que se faz é atribuir ao ofício sacerdotal uma posição diferenciada, de destaque, para a qual eles passaram a ser ungidos. Assim você os consagrará, para que me sirvam como sacerdotes: separe um novilho e dois cordeiros sem defeito. Com a melhor farinha de trigo, sem fermento, faça pães e bolos amassados Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia08 com azeite, e pães finos, untados com azeite. Coloque-os numa cesta e ofereça-os dentro dela; também ofereça o novilho e os dois cordeiros. Depois traga Arão e seus filhos à entrada da Tenda do Encontro e mande-os lavar-se. Pegue as vestes e vista Arão com a túnica e o peitoral. Prenda o colete sacerdotal sobre ele com o cinturão. Ponha-lhe o turbante na cabeça e prenda a coroa sagrada ao turbante. Unja-o com o óleo da unção, derramando-o sobre a cabeça de Arão. Traga os filhos dele, vista cada um com uma túnica 9 e um gorro na cabeça. Ponha também os cinturões em Arão e em seus filhos. O sacerdócio lhes pertence como ordenança perpétua. Assim você dedicará Arão e seus filho (Êxodo 29:1-9). Observando mais detalhadamente a descrição do ritual, atribuída editorialmente à tradição mosaica, vemos algumas características dignas de nota. A primeira é a explícita intenção de consagração. A palavra usada é qadosh que significa separar, santificar. Depois vemos que o ritual é acompanhado dos atos religiosos de sacrifícios de animais e oferta de manjares. A seguir é indicado que o ato era feito à porta da Tenda do Encontro, ou seja, do lado de fora do Tabernáculo, na “praça pública” e não em um lugar fechado, exclusivo. Assim, o ritual era testemunhado por todo o povo, indistintamente. Acompanhava o ritual uma forma de perpetuação da lembrança daquele ato pela identificação dos consagrados, no dia a dia, com o uso de uma vestimenta diferenciada. Uma vez que o ritual da unção era único, ou seja, ocorria uma única vez na vida de cada uma daquelas pessoas, elas passavam a ser identificadas, ou distinguidas como consagrada ou ungidas, no meio do povo, por sua roupa e por seu ofício particular. A figura do sacerdote, embora importante para a sociedade judaica, não parece ter exercido grande influência na construção da figura do Messias, o grande Ungido esperado. Talvez, a contribuição desse componente tenha ficado mais na compreensão social da diferenciação e tratamento especial que os ungidos recebiam por parte do povo comum do que no entendimento de que o Messias teria funções sacerdotais perante esse mesmo povo. 09 2- O rei como ungido Como sugerido por Vaux, a ideia do ungido tem sua origem principal na figura do rei, ou seja, na unção real. Isso já acontecia em outras culturas como, por exemplo, no Egito, com os Faraós. Os reis eram consagrados para o ofício de governo, assim como os sacerdotes eram consagrados, ou separados do povo comum, para o ofício religioso. De certa forma, talvez não tão fortemente quanto em outras culturas, houve em Israel uma conotação de divinização da pessoa do rei ou, no mínimo, de íntima relação com Deus. Entendia-se na religiosidade de Israel que o governo sobre a terra estava originalmente nas mãos de Deus e que em determinado momento ele foi repassado ao rei como seu representante. A construção histórica desse rei ungido é encontrada primeiro no caso de Saul e depois no caso de Davi, que acabou se constituindo na referência para todos os outros que vieram depois. É no primeiro livro de Samuel que encontramos os relatos dos rituais de unção dos dois primeiros reis de Israel: • 1 Samuel 10:1, 5-6; 12:5 – “Samuel apanhou um jarro de óleo, derramou-o sobre a cabeça de Saul e o beijou, dizendo: ‘O Senhor o ungiu como líder da herança dele’ [...] Depois você irá a Gibeá de Deus, onde há um destacamento filisteu. Ao chegar à cidade, você encontrará um grupo de profetas que virão descendo do altar do monte tocando liras, tamborins, flautas e harpas; e eles estarão profetizando. O Espírito do Senhor se apossará de você, e com eles você profetizará e será um novo homem [...] Todavia, se vocês desobedecerem ao Senhor e se rebelarem contra o seu mandamento, sua mão se oporá a vocês da mesma forma como se opôs aos seus antepassados”; • 1 Samuel 16:1, 13 – “O Senhor disse a Samuel: ‘Até quando você irá se entristecer por causa de Saul? Eu o rejeitei como rei de Israel. Encha um chifre com óleo e vá a Belém; eu o enviarei a Jessé. Escolhi um de seus filhos para fazê-lo rei’ [...] Samuel apanhou o chifre cheio de óleo e o ungiu na presença de seus irmãos, e, a partir daquele dia, o Espírito do Senhor apoderou- se de Davi. E Samuel voltou para Ramá”. É importante notar que nessa construção inicial do rei como uma pessoa ungida, consagrada, indica-se uma capacitação especial com o Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia10 Espírito de Javé (SENHOR). Vale ressaltar que para a teologia do Antigo Testamento esse fenômeno da atribuição da atuação do Espírito de Deus sobre alguém era algo raro. No relato sobre a experiência de Saul é dito que essa influência do Espírito é atestada pela ação profética. Sem entrar em muitos detalhes, que fogem do escopo dessa disciplina, a experiência de Saul foi participar de um evento religioso juntamente com os videntes (1 Samuel 9:9), também conhecidos como homens de Deus, que envolveu um ritual extático. Parece que a inclusão do relato da experiência profética, no caso de Saul, tem a intenção de demonstrar a autenticação de Deus na sua escolha como rei, além de provocar a aceitação dos líderes das tribos até então independentes de um poder central. No resto da história de Saul, vemos ainda que foi necessário a comprovação de sua competência militar na condução dos exércitos de Israel, alcançando vitória sobre os principais inimigos, os filisteus, para que ele pudesse ter o seu governo aceito pelas tribos, demonstrando outra habilidade importante para o cargo naquele contexto. No caso de Davi, não houve a mesma necessidade de associação da unção com a experiência profética, talvez porque que a ideia de monarquia já estava em processo mais avançado de construção. No entanto, sabemos de todas as histórias de vitórias em batalhas de Davi, quando ainda era apenas um candidato ao trono, o que lhe trouxe fama e concedeu certa autenticidade para o cargo (1 Samuel 18:7; 21:11; 29:5). Vale lembrar que tanto Saul quanto Davi cometeram grandes erros em suas vidas pessoais, mostrando que qualquer que fosse a associação do rei com a divindade não os livrava da imperfeição humana. O mesmo se pode dizer de todos os reis que os sucederam. Independente disso, a expectativa de um reino terrestre eterno sob a dinastia davídica foi um fator de grande relevância para a esperança do Messias de Israel. 3- O profeta como ungido Um terceiro ofício que contribuiu para a construção da ideia de ungido foi o dos profetas. Na realidade, se atentarmos para o início dessa construção, ainda no que se refere aos sacerdotes, é atribuído a Moisés a responsabilidade de ungi-los. Também no caso dos reis, coube a Samuel essa responsabilidade. O que teriam em comum Moisés e Samuel? A resposta é que ambos eram considerados videntes, 11 homens de Deus ou profetas. A progressão do chamado homem de Deus para a função de profetaaqui, não é um ato pragmático de aceitar a Cristo como salvador e como consequência 81 poder seguir para a casa do Pai nos céus. A afirmação de Jesus é bem mais profunda que isso. Pensando o caminho como uma questão ontológica, que trata da vida em si, ou da jornada da existência, o que o texto nos apresenta é que só há uma maneira de se viver plenamente a vida humana. Se fomos criados para estarmos com o Pai o único caminho é o Logos, o Cristo. Esse caminho é ser como ele. É viver como ele viveu. Ele, Jesus Cristo, em sua complexidade de Deus encarnado, é a verdade, aquilo que é a única realidade e representação da existência e, portanto, o caminho de vida para todo ser humano. 5- Vida A tríplice expressão caminho-verdade-vida não tem a intenção de mostrar três aspectos de Cristo ou três diferentes facetas, propriedades e atribuições. A tríplice expressão é uma típica maneira judaica de apresentar uma ideia por meio de sinônimos e paralelos. Jesus ao se identificar como a verdade e o caminho quer dizer que ele é a própria vida ou aquilo que é a essência da existência. Sendo o Logos, ele é o criador, o gerador da vida, conforme já argumentado por João na introdução do livro: “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (João 1:4). Explorando um pouco mais essa perspectiva, João a amplia ao longo de seu Evangelho ao mostrar Jesus Cristo por meio de outras metáforas referentes ao conceito de vida: a. Água da vida – “Jesus lhe respondeu: ‘Se você conhecesse o dom de Deus e quem está pedindo água, você lhe teria pedido e dele receberia água viva [...] mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna’” (João 4:10,14); “No último e mais importante dia da festa, Jesus levantou-se e disse em alta voz: ‘Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva’” (João 7:37,38); b. Pão da vida – “Então Jesus declarou: ‘Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede [...] Eu sou o pão da vida. Os seus antepassados Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia82 comeram o maná no deserto, mas morreram. Todavia, aqui está o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo’” (João 6:35, 48-51). Jesus Cristo, portanto, é aquele que sacia a busca por Deus, pela verdade, pelo caminho a seguir, pelo significado da existência. Isso é ter sede e fome existencial. A vida humana só possui significado quando tem como referência a pessoa de Cristo, o Deus encarnado, que é a expressão da verdade, ou seja, daquilo que é real e não daquilo que é uma sombra do que podemos ser. Ele é o modelo de ser, de existir, de viver humanamente. Ele é o caminho existencial a ser percorrido, pela simples imitação e obediência a seus ensinamentos, com o objetivo de alcançarmos a plenitude da vida humana, que é estar na casa do Pai e desfrutar de sua companhia. Conclusão No contexto atual em que convivemos com pessoas diferentes, com aqueles que não pensam necessariamente como nós, o diálogo é uma necessidade. É fundamental entendermos que a identificação de Jesus Cristo como o caminho, a verdade e a vida, não passa pela unicidade de uma fórmula proposicional. A unicidade do Cristo, vivido na encarnação em Jesus, é uma plataforma de diálogo que sugere a investigação de questões mais amplas para a existência humana, assim como foi feito por João para os gregos. Jesus não se apresenta como uma imposição doutrinária sistematizada por quem quer que seja, mas como uma livre investigação, até mesmo comparativa, entre aquilo que ele foi e fez, diante das outras opções da sociedade. Se ele é o que diz ser, a essência daquilo que é real para a existência humana, a conclusão a que chegamos é que será inevitável a convergência de qualquer pensamento para a sua pessoa, pois apenas ele, o Cristo, é capaz de trazer sentido pleno à nossa busca. 83 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 9 O Espírito Santo no Antigo Testamento Introdução Esta unidade inicia a segunda parte da disciplina voltando sua atenção para o estudo da Pneumatologia, ou seja, o estudo sobre o tema do Espírito Santo. Seguindo o mesmo raciocínio metodológico adotado até aqui, que prioriza a investigação bíblico-teológica, investigaremos a construção da ideia do Espírito na Bíblia, iniciando pelo Antigo Testamento. Consideramos, contudo, que as pessoas já trazem em sua experiência de vida e de atuação ministerial conceitos, sistematizados ou não, sobre o Espírito Santo que são constantemente confrontados à medida que vivenciam a fé. Ao provocar a ativação da memória sobre os conceitos que trazemos a respeito do tema e ao compará-los com os fundamentos bíblicos, criamos um ambiente de curiosidade, “dúvida produtiva” e interesse, úteis para o desenvolvimento da disciplina, na intenção de se obter um entendimento sólido do tema. Objetivos 1) Promover uma visitação aos conceitos bíblicos sobre o Espírito no Antigo Testamento; 2) Buscar a interação e diálogo entre o entendimento pessoal do tema e a fundamentação bíblica apresentada. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia84 Vivemos em uma atmosfera pentecostal com respeito à Pneumatologia. As maiores denominações evangélicas no Brasil, na contemporaneidade, são pentecostais e as noções mais difundidas sobre o Espírito Santo provém dessa corrente. Mesmo as igrejas tradicionais, que historicamente se assumiram a sistematização da teologia no passado, são influenciadas pela noção pentecostal sobre quem é, o que faz e como se relaciona conosco o Espírito Santo. Esse impacto tem sido tão forte que chegou até mesmo a influenciar a igreja católica gerando o movimento carismático, que enfatiza as ações e manifestações do Espírito. A diferença básica entre a teologia tradicional sistematizada e a teologia pentecostal é, por assim dizer, a sua metodologia de apreensão. O teólogo chileno pentecostal Juan Sepúlveda (1996) discute essa questão afirmando que o protestantismo histórico possui uma teologia marcada pela separação entre o que vem a ser a revelação divina e a experiência humana. A revelação divina seria o resultado do entendimento racional, lógico e objetivo dos textos bíblicos. A experiência humana, por sua vez, seria a percepção intuitiva e subjetiva daquilo que ocorre em nossa vida prática diária, religiosa ou não. Por exemplo, os sistemáticos tradicionais defendem um único batismo no Espírito Santo, sem a manifestação do dom de línguas, apoiando-se em uma lógica própria de análise dos textos bíblicos. Alguns pentecostais defendem o segundo batismo, acompanhado da manifestação do dom de línguas, porque é assim que acontece em sua experiência cotidiana na igreja. Ainda que usem alguns textos bíblicos para sustentarem essa percepção teológica, seu maior fundamento é a própria experiência. A conclusão de Sepúlveda é a de que “como a experiência não pode ser reduzida a conceitos, uma teologia que nasce da experiência deve, necessariamente, ser uma teologia narrativa, como o é, em grande dose, a teologia bíblica” (1996, p. 68). Teologia narrativa, aqui, significa o compartilhar das experiências por meio das conversas e também dos testemunhos orais, que podem ser parte integrante do próprio culto. Reconhecemos que as experiências pessoais são importantes na vida cristã e têm seu lugar próprio, porém, as Escrituras não podem ser deixadas de lado quando analisamos qualquer tema da teologia cristã, principalmente o tema do Espírito. As experiências pessoais, embora 85 importantes, podem também confundir nossa compreensão sobre o Espírito por estarem carregadas de emoções, sentimentos, invenções,exageros ou até mesmo, no caso oposto, de certa frieza, como ocorre em muitas correntes tradicionais. Como há poucas referências bibliográficas sobre a teologia pentecostal e uma grande variedade de experiências, tentaremos abordar o assunto da Pneumatologia a partir de referências tradicionais, considerando alternativas que nos auxiliem a entender a contribuição pentecostal. Nosso primeiro percurso, portanto, será o de fazer uma investigação bíblica acerca do Espírito, entendendo que é ela que deve exercer papel predominante no estudo desta doutrina. Comecemos, portanto, pelo Antigo Testamento. 1- Espírito: vento de Deus A palavra “espírito” no Antigo Testamento é a tradução do termo hebraico ruach. John Barton Payne, explica o que esse termo significa: A idéia básica de rûah (grego pneuma) é “ar em movimento”, tanto o ar que não pode passar entre as escamas de um crocodilo (Jó 41.16 [8]) até a ventania de uma tempestade (Is 25.4; Hc 1.11). Os “quatro rûhôt [ventos]” descrevem os quatro cantos ou os quatro lados do mundo (Jr 49.36; Ez 37.9). Nos seres vivos o rûah é a sua respiração, quer de animais (Gn 7:15; Sl 104.25, 29), de seres humanos (Is 42.5; Ez 37.5) ou ambos (Gn 7.22-23); é o ar inalado (Jr 2.24) nos lábios (Is 11.4; cf. Jó 9.18; contrastem-se os ídolos mortos, Jr 10.14; 51.17). Deus o cria: “o rûah [‘espírito’; ARA, ‘sopro’ [da parte] de Deus está em minhas narinas” (Jó 27.3). As conotações de sopro incluem força (1 Rs 10.5, em que se diz que a rainha de Sabá não tinha mais rûah, i.e., ela ficou com a respiração suspensa, surpresa), coragem (Js 2.11; 5.1, em que literalmente se diz que não “permanece mais espírito” nos inimigos de Israel; ARA, “desmaiar-se o coração de (alguém)”) e valor (Lm 4.20, que declara que o rei da dinastia davídica era literalmente “o fôlego de nossas narinas”, isto é, “a valiosa esperança” — uma frase tomada de empréstimo de uma expressão egípcia comum t3wn fnd.sn, “o fôlego das narinas Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia86 deles”). De outro lado, falsos profetas se tornam rûah, “vento”, porque lhes falta a palavra (Jr 5.13), sendo que aí a conotação é de vacuidade, a futilidade do simples “vento” (Jó 7.7; Is 41.29). Com o sentido de um movimento forte e rápido de ar, de uma bufada pelas narinas, rûah descreve emoções de agressividade (Is 25.4) ou ira (Jz 8.3; Pv 29.11). Uma última conotação de “sopro” ou “respiração” é atividade e vida. O “espírito” da pessoa se consome quando ela fica doente ou fraca (Jó 17.1), mas volta como um novo fôlego e a pessoa revive (Jz 15.19; 1 Sm 30.12; cf. Gn 45.27). Nas mãos de Deus se encontra o rûah, “fôlego” de toda a humanidade (Jó 12.10; Is 42.5). De modo que a melhor tradução de Gênesis 6:3 é “o meu espírito [‘o fôlego de vida’ que vem da parte de Deus] não habitará [tradução que segue a LXX] no homem para sempre, pois ele é carne (ou seja, é ‘mortal’], mas seus dias [até o dilúvio] serão cento e vinte anos (cf. Jó 34.14-15) (1998, pp. 1407-1408). Essa longa explicação mostra que a palavra hebraica ruach, traduzida para o Português como espírito, não carrega, a princípio, nenhuma conotação teológica ou religiosa. Ela era uma palavra do uso comum associada ao ar em movimento, entendida (às vezes) como vento ou sopro, mas que possuía uma série de aplicações diferentes quando associadas às situações da vida e do próprio ser humano. Julgo ser interessante chamar a atenção para a associação do termo a Deus. O Antigo Testamento se refere ao espírito como Espírito de Deus (ruach Elohim) ou Espírito do SENHOR (ruach Yahweh) e em apenas duas passagens encontramos a fórmula Espírito-Santo (ruach qadosh), que ficou perpetuada nos textos do Novo Testamento, mas sem a mesma ênfase ou perspectiva: • Salmo 51:11 – “Não me expulses da tua presença nem tires de mim o teu Santo Espírito”; • Isaías 63:10-11 – “Apesar disso, eles se revoltaram e entristeceram o seu Espírito Santo. Por isso ele se tornou inimigo deles e lutou pessoalmente contra eles. Então o seu povo recordou o passado, o tempo de Moisés e a sua geração: Onde está aquele que os fez passar através do mar, com o pastor do seu rebanho? Onde está aquele que entre eles pôs o seu Espírito Santo?”. 87 Para melhor esclarecer essa argumentação, iremos tratar de algumas aplicações do termo nos textos Antigo Testamento, procurando separá-las em função de alguma ideia central. 2- Espírito: criação e fonte da vida Como vimos na explicação de Payne sobre o termo ruach, a ideia de vento ou ar em movimento parece ser a sua principal caracterização no Antigo Testamento, levando-nos à compreensão de que há uma grande relação entre essa expressão e a realização de alguma ação. Assim, percebemos que a primeira grande ação do ruach é a criação do universo e da vida, que lemos logo no início do texto sagrado, no livro do Gênesis, ao afirmar que ele pairava ou “ventava” sobre as águas do caos: “Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gênesis 1:2). De maneira indireta, uma vez que não aparece explicitamente a expressão ruach no texto, também podemos entender a sua ação na criação do ser humano transmitindo-lhe o sopro de vida: “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou [naphah] em suas narinas o fôlego de vida [nashamah], e o homem se tornou um ser vivente [nephesh]” (Gênesis 2:7). Milton Fisher esclarece: Este substantivo [neshama], quando empregado como referência ao homem, tem em geral o sentido de “fôlego de vida”. É, com frequência, usado junto com rûah, “espírito”, e parece ser uma palavra sinônima de nephesh, “alma” (q.v.). Às vezes, é traduzida por “espírito” (Jó 26.4; Pv 20.27). Quanto a Provérbios 20.27, alguns crêem que a palavra denote mente ou o intelecto. Em Isaías 2.22 a referência ao homem, “cujo fôlego está no seu nariz”, é uma figura da fragilidade humana (1998, p. 1012). A interpretação que temos da explicação de Payne é que essa ação criadora é também mantenedora da vida. O ruach não apenas foi soprado para gerar a vida, mas é como se ele estivesse continuamente sendo soprado, mantendo a vida de todos os seres, humanos e animais. Ele é, dessa forma, uma ação contínua, que se interrompida, significa a morte. Vejamos algumas passagens bíblicas que apoiam essa ideia: Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia88 • Gênesis 6:3 – “Então disse o SENHOR: “Por causa da perversidade do homem, meu Espírito não contenderá com ele para sempre; ele só viverá cento e vinte anos”; • Jó 34:14-15 – “Se fosse intenção dele, e de fato retirasse o seu espírito e o seu sopro, a humanidade pereceria toda de uma vez, e o homem voltaria ao pó”; • Isaías 42:5 – “É o que diz Deus, o SENHOR, aquele que criou o céu e o estendeu, que espalhou a terra e tudo o que dela procede, que dá fôlego aos seus moradores e vida aos que andam nela”; • Ezequiel 37:9 – “A seguir ele me disse: ‘Profetize ao espírito; profetize, filho do homem, e diga-lhe: Assim diz o Soberano, o Senhor: Venha desde os quatro ventos, ó espírito, e sopre dentro desses mortos, para que vivam’”. Uma ilustração que pode nos auxiliar a entender essa ideia é aquilo que ocorre com aqueles brinquedos infláveis usados em festas infantis tipo tobogãs, escorregadores e pula-pulas, ou ainda aqueles bonecos que servem para chamar a atenção de transeuntes que ficam com os braços em movimento. Esses objetos apenas funcionam por causa do constante sopro de ar que os mantêm inflados ou em movimento. Caso o ar pare de ser soprado em seus interiores, eles murcham ou desmontam-se. Essa seria a ideia do vento de Deus que sopra constantemente sobre os seres mantendo-os vivos. 3- Espírito: intervenção histórica e capacitação Outra ação que demonstra a manifestação de Deus por meio do ruach é o próprio vento na natureza realizando alguma transformação que representa uma intervenção na história do seu povo.O maior dos exemplos é a passagem sobre o Mar Vermelho descrita em Êxodo 14:21: “Então Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor afastou o mar e o tornou em terra seca, com um forte vento oriental que soprou toda aquela noite. As águas se dividiram”. Ainda no mesmo contexto de libertação do povo de Israel do Egito, Deus já havia agido com seu vento na ocasião da oitava praga: “E o Senhor fez soprar com muito mais força o vento ocidental, e este envolveu os gafanhotos e os lançou no mar Vermelho. Não restou um gafanhoto sequer em toda a extensão 89 do Egito” (Êxodo 10:19). De modo semelhante vemos a providência divina no texto de Números 11:31: “Depois disso, veio um vento da parte do Senhor que trouxe codornizes do mar e as fez cair por todo o acampamento, a uma altura de noventa centímetros, espalhando-as em todas as direções num raio de um dia de caminhada”. Mais especificamente, ao tratar do ser humano, o ruach de Deus é apresentado como provedor de capacitação para atividades especiais. Provavelmente essa foi a linha de raciocínio que o apóstolo Paulo utilizou para apresentar os dons do Espírito Santo em suas cartas. Seguem alguns exemplos: • Êxodo 31:1-5 – “Disse então o SENHOR a Moisés: ‘Eu escolhi Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito [ruach] de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal’”; • Juízes 3:10 – “O Espírito [ruach] do SENHOR veio sobre ele, de modo que liderou Israel e foi à guerra. O SENHOR entregou Cuchã-Risataim, rei da Mesopotâmia, nas mãos de Otoniel, que prevaleceu contra ele”. Essa forma de capacitação especial é a mesma que ocorria com a profecia, que também podemos entender como inspiração ou sopro divino: • Números 11:25 – “O SENHOR desceu na nuvem e lhe falou e tirou do Espírito que estava sobre Moisés e o pôs sobre as setenta autoridades. Quando o Espírito [ruach] veio sobre elas, profetizaram, mas depois nunca mais tornaram a fazê-lo”; • 1 Crônicas 12:18 – “Então o Espírito [ruach] veio sobre Amasai, chefe do batalhão dos Trinta, e ele disse: ‘Somos teus, ó Davi! Estamos contigo, ó filho de Jessé! Paz, paz seja contigo, e com os teus aliados, pois o teu Deus te ajudará’. Davi os recebeu e os nomeou chefes dos seus grupos de ataque”; • 2 Crônicas 24:20 – “Então o Espírito [ruach] de Deus apoderou- se de Zacarias, filho do sacerdote Joiada. Ele se colocou diante do povo e disse: “Isto é o que Deus diz: ‘Por que vocês desobedecem aos mandamentos do SENHOR? Vocês não prosperarão. Já que abandonaram o SENHOR, ele os abandonará’”. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia90 O Antigo Testamento também indica, em textos considerados messiânicos, que o Espírito é o responsável pela capacitação do prometido: • Isaías 11:2 – “O Espírito [ruach] do SENHOR repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito [ruach] que dá conhecimento e temor do SENHOR”. • Isaías 61:1-3 – “O Espírito [ruach] do Soberano, o SENHOR, está sobre mim, porque o SENHOR ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do SENHOR, para manifestação da sua glória”. Não temos informação sobre em que sentido havia em cada um que foi capacitado a compreensão ou consciência desse sopro inspirador e motivador sobre si para ações específicas. Os textos parecem representar uma interpretação dos fatos históricos entendidos como intervenções divinas por meio da instrumentalidade de pessoas. 4- Espírito: motivação, inclinação e sentimento Uma noção próxima à ideia de capacitação especial, promovida pelo ruach, é aquela que procura traduzir uma influência sobre as pessoas provocando sentimentos e reações de comportamento e humor. Vejamos alguns exemplos: • Salmo 51:10-12 – “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito [ruach] estável. Não me expulses da tua presença nem tires de mim o teu Santo Espírito [ruach]. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito [ruach] pronto a obedecer”; • Isaías 29:10 – “O Senhor trouxe sobre vocês um [espírito de 91 – ruach] sono profundo: fechou os olhos de vocês, que são os profetas; cobriu a cabeça de vocês, que são os videntes”; • Isaías 37:7 – “Porei nele um espírito [ruach] para que, quando ouvir uma certa notícia, volte à sua própria terra, e ali farei com que seja morto à espada”. Mais importante, no entanto, para podermos compreender o que esses textos elaboram, e os que trataremos a seguir, é o uso mais amplo do termo ruach aplicado aos seres humanos. A palavra ruach, traduzida como espírito, indica o estado interior do ser humano, o seu íntimo, aquilo que concerne às suas emoções, sentimentos, vontades, desejos, etc. Essa aplicação tem direta relação com aspectos da respiração. Hans Wolff esclarece esse uso de ruach: Se passamos a perguntar pela significação da r. [ruach] humana, não podemos ter uma concepção demasiadamente ampla do trajeto desde “respiração” até o espírito como órgão do conhecimento, da compreensão e do juízo. Com efeito, junto com o soprar do hálito, em primeiro lugar se deve ver o movimento dos sentimentos (Gemüt). Quando a Rainha de Sabá viu a sabedoria de Salomão, o palácio, os alimentos, os funcionários, as suas vestes, os holocaustos no templo (1 Rs 10,5), “não havia mais r. nela”. Isto é, parou-lhe a respiração, perdeu o domínio, ficou fora de si. “A falta de r. caracteriza o estado de impotência, de admiração assoberbada”. Na r., manifesta-se a mentalidade. Elifás acusa Jó (15,13): porque voltas a tua r. contra Deus”, significando com isto a excitação, a irritação (LXX: thymós). Se, com persuasão bondosa a r. se “afrouxa” (Jz 8,3), com isto está cessando a excitação irada [...] O elemento característico da r. humana se revela a partir do fato de que r., as mais das vezes, significa o sofro forte do vento e a atividade vivificante e autorizadora de Javé. Por isso, r. não só é apropriada para exprimir disposições do coração, mas ainda mais para ser o portador de ações enérgicas da vontade (1975, pp.57-58). Em outras palavras, a argumentação de Wolff gira em torno da conexão de ideias que vem da consideração da geração da vida por meio do sopro divino, que permite ao ser humano que ele respire e Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia92 mantenha-se vivo. Ora, a partir daí o que se tem é a percepção das mudanças de humor, sentimento, emoção e atitude associadas às variações na respiração. A respiração acelerada ou descompassada pode ser associada à ansiedade, nervosismo, medo, raiva, etc. Igualmente, a respiração lenta, profunda, controlada pode ser associada à paciência, calma, tranquilidade, etc. Uma vez que a respiração está relacionada ao ruach, a cultura hebraica utilizou o termo para designar essas variações ou diferentes estados de humor. O entendimento, então, ou a maneira de expressar esses fenômenos da psique humana foi afirmando, por exemplo, que a pessoa que está com raiva age sob a influência de um ruach raivoso. O mesmo serve para o efeito inverso quando está calma. Aqui não há a compreensão de que o ruach seja um ser angelical ou demoníaco, pessoal e com vontade própria, como podemos vir a ter a impressão mais tardiamente na teologia do Novo Testamento. Pelo contrário, algumas passagens do Antigo Testamentoindicam que mesmo aquilo que a teologia atual poderia entender como uma possessão ou ação demoníaca, os autores bíblicos atribuem a uma ação divina: • Juízes 9:22-24 – “Fazia três anos que Abimeleque governava Israel, quando Deus enviou um espírito [ruach] maligno entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém, e estes agiram traiçoeiramente contra Abimeleque. Isso aconteceu para que o crime contra os setenta filhos de Jerubaal, o derramamento do sangue deles, fosse vingado em seu irmão Abimeleque e nos cidadãos de Siquém que o ajudaram a assassinar os seus irmãos”. • 1 Samuel 16:13-15, 23 – “Samuel apanhou o chifre cheio de óleo e o ungiu na presença de seus irmãos, e, a partir daquele dia, o Espírito [ruach] do Senhor apoderou-se de Davi. E Samuel voltou para Ramá. O Espírito [ruach] do Senhor se retirou de Saul, e um espírito [ruach] maligno, vindo da parte do Senhor, o atormentava. Os oficiais de Saul lhe disseram: ‘Há um espírito [ruach] maligno, mandado por Deus, te atormentando’ [...] Sempre que o espírito [ruach] mandado por Deus se apoderava de Saul, Davi apanhava sua harpa e tocava. Então Saul sentia alívio e melhorava, e o espírito [ruach] maligno o deixava”. 93 • 1 Reis 22:23 – “E o Senhor pôs um espírito [ruach] mentiroso na boca destes seus profetas. O Senhor decretou a sua desgraça”; Nesses e em outros textos, a teologia do Antigo Testamento, que considera a unicidade de Javé e sua soberania sobre toda a criação, atribui ao seu sopro ou ao controle do seu vento as mudanças e direções na história humana, mesmo no nível pessoal. Seria o vento de Deus que induziria, quando assim desejava, pessoas a atitudes, comportamentos e ações. Sob outra ótica, independente da intervenção divina, o ser humano poderia ser descrito como agindo de acordo com os diferentes ventos (ruach) que designavam o seu estado interior. Talvez facilite o nosso entendimento compararmos esse uso a expressões de nossa própria linguagem. Por exemplo, quando falamos que fulano “está inspirado” ou aquela pessoa “tem espírito aventureiro” não estamos afirmando que haja qualquer influência proposital de alguma força ou de um ser agindo na interioridade de alguém. Estamos simplesmente nos referindo a um estado de humor ou disposição que nos leva a agir conforme esse estado. Um problema talvez surja atrelado ao fato de usarmos a tradução do termo hebraico ruach para o Português como espírito. Ao invés de traduzirmos ruach como vento, ao usarmos a expressão espírito acabamos carregando uma interpretação resultante de um entendimento teológico formulado a partir da teologia do Novo Testamento, que por sua vez recebeu influência da apocalíptica. Esse entendimento atribui à palavra espírito uma característica de pessoalidade, ou seja, diferente da palavra vento. Espírito teria para muitos de nós características próprias de independência, vontade própria, pensamento e ação conforme entendemos pertencerem às pessoas ou seres angelicais e demoníacos, mas que não encontramos na teologia do Antigo Testamento. Mesmo quando tratamos do ruach de Deus, ou seja, do espírito de Deus, não há nessas referências essas características pessoais e de independência. O ruach de Deus nada mais é do que uma expressão de sua ação, representada pelo ar em movimento ou pelo vento, sem que represente uma outra pessoa, ainda que ligada à própria divindade. Não encontramos no ruach do Antigo Testamento subsídios suficientes para a construção da Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia94 pessoa do Espírito Santo, conforme entendemos na atualidade, como consequência de compreensões elaboradas no Novo Testamento e da doutrina da Trindade elaborada pela igreja cristã. Conclusão O que podemos concluir desse breve resumo da apresentação do Espírito de Deus pelo Antigo Testamento é de que ele sintetiza as diversas ações de Deus, que se manifestava de forma invisível, porém, perceptível. Essas ações consideravam o mesmo entendimento sobre o poder de Deus como o ar em movimento, incontrolável, agindo sobre as pessoas e sobre o mundo que as cercava. Podemos dizer, no entanto, que essa concepção foi tratada como parcial, havendo o preparo para a expectativa de algo mais próximo e profundo no trato com o ser humano. Na promessa do profeta Joel, observamos essa indicação que viria a se concretizar após a ressurreição de Jesus Cristo, inaugurando o tempo da igreja: “E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões. Até sobre os servos e as servas derramarei do meu Espírito naqueles dias” (Joel 2:28-29). Referências FISHER, Milton C. 1433 sF:n” (nasham). In: HARRIS, R. Laird (org.). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova: 1998. PAYNE, J. Barton. 2131a x:Wr (rûah). In: HARRIS, R. Laird (org.). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova: 1998. SEPÚLVEDA, Juan. Características teológicas de um pentecostalismo autóctone: o caso chileno. In: GUTIÉRREZ, Benjamin; CAMPOS, Leonildo S. Na força do Espírito. São Paulo: Pendão Real, 1996. WOLFF, Hans Walter. Antropologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 1975. 95 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 10 O Espírito Santo no Novo Testamento Introdução Continuando a fundamentação bíblica do Espírito Santo, iniciada na unidade anterior com a investigação do tema no Antigo Testamento, esta unidade focará o Novo Testamento, procurando identificar como os autores o apresentam. Vale lembrar que devemos manter a mesma intenção de comparar aquilo que já trazemos em nossa experiência de vida com o que está sendo apresentado na disciplina. Objetivos 1) Promover uma visitação aos conceitos bíblicos sobre o Espírito Santo no Novo Testamento; 2) Preparar um ambiente próprio para a revisão, atualização e afirmação da vivência com o Espírito Santo ao longo da disciplina. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia96 Dando continuidade à fundamentação bíblica do Espírito Santo, tendo visto na unidade anterior como o Antigo Testamento trata o tema, voltaremos a nossa atenção aos relatos do Novo Testamento na tentativa de construirmos uma doutrina mais ampla. Se no Antigo Testamento o Espírito de Deus aparece como a síntese das diversas ações de Deus agindo sobre as pessoas e o mundo de então, representado, principalmente, pela figura do vento, no Novo Testamento ele receberá uma coloração pessoalizada. Já no cumprimento da promessa do profeta Joel, registrado no livro de Atos vemos essa presença mais comunitária e de ação íntima sobre as pessoas. 1- Espírito: nova criação e fonte de nova vida Os autores do Novo Testamento usaram a palavra grega pneuma para traduzir a ideia de ruach desenvolvida no Antigo Testamento. Pneuma, assim como ruach, denotava a força natural e vital que agia como um fluxo de ar ou sopro do vento. Na cultura grega, em geral, pneuma também se referia aos movimentos de respiração, de inspirar e expirar e, dessa forma, representava o sopro que de alguma maneira enchia o ser humano de inspiração e entusiasmo. Contudo, considerando a aplicação do termo pelos autores do Novo Testamento, esse mesmo termo recebeu um significado maior que o presente na cultura grega para se adaptar à revelação bíblica ou à concepção do Espírito de Deus. Com o entendimento obtido de ruach no Antigo Testamento, a expressão pneuma passou a carregar também o significado do ruach proveniente do próprio Deus agindo na história humana; o vento que dá força vital ao ser humano e seus desdobramentos. Com o apóstolo Paulo, a ação do pneuma passou a caracterizar a nova existência ou nova vida a partir do relacionamento com o redentor Jesus. Uma representação dessa ideia é elaborada no Evangelho de João no diálogo entre Jesus e Nicodemus. Ali, dá-se a entender que o Espírito de Deus estava iniciandouma nova criação humana comparável, na essência, a relatada no livro de Gênesis: Havia, entre os fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este, de noite, foi ter com Jesus e lhe disse: Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus; 97 porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele. A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito [pneumatos] não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito [pneumatos] é espírito [pneuma]. Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. O vento [pneuma] sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito [pneumatos] (João 3:1-8). Se o ruach foi o vento criador da vida na teologia do Antigo Testamento, o pneuma assume essa função, agora com a ideia de geração de uma nova vida. Jesus pode ser entendido como o primogênito dessa nova criação do pneuma divino como vemos no relato de Mateus 1:20: “Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo”. Ele não apenas é gerado pelo Espírito como também guiado e capacitado durante o seu ministério (Mateus 4:1; Lucas 4:16-21). Obviamente que o tratamento simbólico e metafórico dessa ação do pneuma quer expressar um paralelo entre a criação da vida humana, conforme descrita em Gênesis, e a criação de uma nova forma de vida, incluindo a constatação da falência da vida anterior causada pela ação do pecado. Essa ideia pode parecer complexa ou desconexa, uma vez que seria o mesmo vento gerando, em um primeiro momento, a vida como um todo e, em um segundo momento, uma nova vida sobre aquela que ainda está em curso. Sem dúvida, temos o mesmo vento, no sentido de sua origem, que é Deus, realizando duas ações semelhantes, contudo, não podemos tratar o assunto como se fosse uma lei científica. Podemos observar no desenvolvimento teológico do Antigo Testamento que o vento de Deus sopra e realiza diferentes coisas. O mesmo ruach é capaz de representar diferentes ações. Assim, aquilo que o pneuma faz é gerar uma nova forma de vida, Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia98 inclusive entendendo-a como diferente da vida biológica, expressa pela respiração. A vida que o pneuma gera tem a ver com uma nova disposição de mente e coração, ou seja, de disposição interior, para agir obedientemente conforme os mandamentos e orientações de Deus, rejeitando a ação danosa do pecado. Essa nova vida, inaugurada por esse mesmo vento, mas com um diferente sopro, também representa uma marca, um selo, um penhor, uma garantia para alcançar ainda outra forma de vida futura apoiada no conceito de ressurreição. É nessa esperança que os discípulos de Jesus descansam e motivam-se para a missão que lhes é proposta. 2- Espírito: representação de pessoalidade Essa maior proximidade com o vento de Deus, por meio do sopro que conduz as pessoas por uma nova vida, de maneira mais presente e constante, consistiu em uma grande quebra de paradigma, uma vez que o relacionamento das pessoas com o Deus do Antigo Testamento era muito distante. Estar diante de Deus e conversar com ele, até então, havia sido privilégio de muito poucos. Mesmo estar diante daquilo que representava a sua presença, como no caso da Arca da Aliança ou do Santo Lugar no Templo, era algo limitado ao sumo sacerdote e que ocorria apenas uma vez ao ano. Pode-se dizer que a grande maioria dos textos do Novo Testamento afirma o mesmo entendimento proveniente do Antigo Testamento sobre o ruach. Entretanto, o principal diferencial no Novo Testamento é que o vento de Deus, agora vento Santo, recebe um caráter mais pessoal. No batismo de Jesus, encontramos essa noção sobre o pneuma, neste evento, ele aparece na forma simbólica e corpórea de uma pomba associada a uma voz: Quando todo o povo estava sendo batizado, também Jesus o foi. E, enquanto ele estava orando, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba. Então veio do céu uma voz: “Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado” (Lucas 3:21-22). Há que se ressaltar que Jesus, antes de sua morte, elaborou uma nova compreensão do ruach (pneuma) para os seus discípulos. Insisto 99 na referência ao ruach porque devemos lembrar que estamos tratando de um ambiente teológico de judeus, que falavam em hebraico ou aramaico, e que mais tarde registraram suas histórias em grego por causa do contexto da igreja gentílica. Com Jesus, o ruach passou a representar um substituto de sua presença entre eles. Jesus, o Deus encarnado, haveria de morrer e deixá-los aparentemente sem a presença do seu mestre e Senhor. Assim, ele os conforta dizendo que não os deixaria sós, ou melhor, não os deixaria órfãos (João 14:18). Importante notar esse aspecto de pessoalidade por meio da paternidade substitutiva. Aquele que viria ocupar o seu lugar vacante não seria a simples ação impessoal de um vento e sim uma companhia semelhante a de um pai. Contudo, a imagem mais reforçada, presente na mesma passagem bíblica, e que foi desenvolvida no Novo Testamento, é a do Espírito como parakletos, conforme registrada no Evangelho de João: “E eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Conselheiro [parakleton] para estar com vocês para sempre, o Espírito [pneuma] da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês” (João 14:16-17). A tradução de parakletos como conselheiro ou consolador não é a mais apropriada. O termo significava a função de um advogado que representava ou ajudava alguém perante uma situação judicial ou de conflito. Na fala de Jesus o ruach é enviado para substituí-lo nesta função de intermediador entre os seus discípulos e Deus Pai, bem como entre eles e o mundo antagônico. Por isso, ele menciona que providenciará outro intermediador. Dentre as suas funções de intermediação, agora denominado de Espírito da verdade (pneuma tes aletheias), ele mantém a característica de fonte de inspiração, semelhante ao que acontecia no Antigo Testamento, não tanto pessoal, tendo a seguinte responsabilidade: Mas, quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e anunciará a vocês o que está por vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês. Tudo o que pertence ao Pai é meu. Por isso eu disse que o Espírito receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês (João 16:13-15). A condução à verdade representa a tomada de posição existencial Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia100 do ser humano frente à pregação do evangelho concernente ao mistério de Cristo e sua obra salvífica: Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Do pecado, porque os homens não creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está condenado (João 16:8-11). Embora Jesus pareça ter sido o primeiro a dar traços de pessoalidade ao ruach, foi o apóstolo Paulo quem mais contribuiu para essa caracterização. É curioso notar que em sua elaboração do tema há poucas referências desse tipo, no entanto, elas acabaram por dominar a compreensão que atualmente muitos crentes possuem. Por exemplo, em Romanos Paulo faz uma referência à mente (intenção) do pneuma, o que é uma característica própria de pessoas: “E aquele que sonda os corações conhecea intenção [phronema] do Espírito [pneumatos], porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus” (Romanos 8:27). Já na carta aos efésios, ele se refere ao pneuma como passível de ser entristecido ou de sofrer: “Não entristeçam [lupeite] o Espírito [pneuma] Santo de Deus, com o qual vocês foram selados para o dia da redenção” (Efésios 4:30). Ainda outro texto isolado, não de Paulo mas de Tiago, contribui para esse entendimento ao dizer figurativamente que o pneuma fica enciumado, ou seja, atribuindo a ele um sentimento humano: “Ou vocês acham que é sem razão que a Escritura diz que o Espírito [pneuma] que ele fez habitar em nós tem fortes ciúmes [phronon]?” (Tiago 4:5). Somados a esses textos há expressões antropomórficas, quer dizer, em forma humana, para se referir ao pneuma, tais como as que aprecem nos seguintes textos: • João 14:26 – “Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinará [didaxei] a vocês todas as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu disse”; • João 15:26 – “Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará [marturesei] a meu respeito”; • João 16:13 – “Mas, quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará [odogesei] a toda a verdade. Não falará [lalesei] de si mesmo; 101 falará apenas o que ouvir, e anunciará a vocês o que está por vir”; • Romanos 8:26 – “Da mesma forma o Espírito nos ajuda [sunantilambanetai] em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede [hyperentugchisanei] por nós com gemidos [stenagmois] inexprimíveis”; • Gálatas 5:18 – “Mas, se vocês são guiados [agesthe] pelo Espírito, não estão debaixo da Lei”; • Hebreus 3:7 – “Assim, como diz [legei] o Espírito Santo: ‘Hoje, se vocês ouvirem a sua voz’”. Essas expressões colaboram para o entendimento de uma pessoalidade do vento, porém, ao mesmo tempo, também concordam com as formas de ações impessoais apresentadas no Antigo Testamento, não sendo, portanto, concludentes em si. No fundo, a pessoalidade do Espírito se torna cada vez mais relevante à medida que expomos a carência humana por um relacionamento com Deus expresso em nossa experiência subjetiva. Foi com base nessas experiências que se firmou a concepção da pessoalidade do Espírito, muito mais do que com uma doutrina bíblica claramente exposta. É natural, por assim dizer, que tentemos encontrar no Espírito Santo essa figura próxima, representativa de Deus, com quem tentamos estabelecer um relacionamento à semelhança do que temos com outros seres humanos. A dificuldade, no entanto, é que ele permanece como vento (ruach ou pneuma) o que determina um abismo intrínseco com os seres humanos, ou seja, tornando impossível o mesmo tipo de relacionamento, mas ainda assim possibilitando a chamada comunhão mística. 3- Espírito: propulsor da Missão A principal característica do Espírito Santo parece ser o de continuador do ministério de Cristo e impulsionador da sua missão. Isso fica claro no comissionamento de João 20:21-22: “Novamente Jesus disse: ‘Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio’. E com isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebam o Espírito Santo’”. Essa face do Espírito fica ainda mais latente nos relatos do livro de Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia102 Atos e nas cartas do apóstolo Paulo. São nestes textos que percebemos a enorme quantidade de menções ao Espírito e de interpretações dos acontecimentos à luz da sua participação e condução dos fatos no desenvolvimento da igreja e alcance aos gentios. Por hora, ficaremos apenas com essa afirmação para voltarmos a ela mais adiante em duas unidades que estudarão o Espírito no livro de Atos. Conclusão A mais clara diferenciação entre aquilo que o Antigo Testamento e o Novo apresentam sobre o Espírito é a paulatina aproximação dele ao ser humano. Enquanto a abordagem do Antigo Testamento mostra algo distante e impessoal, o Novo revela algo mais próximo e pessoal. Muito embora sejam abordagens distintas, elas compõem a doutrina do Espírito de Deus que se torna também o Espírito de Cristo e continuador de sua missão. 103 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 11 O Espírito Santo e a Trindade Introdução O tema do Espírito Santo como integrante da Trindade sempre foi de grande importância para a fé da igreja cristã. Já no tempo dos patriarcas da igreja procurou-se definir esta condição do Espírito principalmente pela percepção de sua ação por meio do avanço missionário do cristianismo. O estudo, no entanto, nos desafia a adentrar um dos campos mais misteriosos da teologia por conta das dificuldades de expressão em linguagem humana. Ainda assim, é a partir da compreensão do Espírito em sua relação com o Pai e com o Filho que podemos melhor entender a sua ação no mundo e na igreja. Objetivos 1) Fundamentar biblicamente a perspectiva trinitária da fé cristã com especial ênfase para o Espírito Santo; 2) Explorar a relação do Espírito Santo com a pessoa do Pai e do Filho. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia104 Nas unidades anteriores verificamos a revelação progressiva do Espírito ao longo da Bíblia. O Antigo Testamento aponta para um Deus único sem qualquer indicação de outras “pessoas” que pudessem compor essa deidade. Vimos que o entendimento do Espírito passou da ideia de uma força da parte de Deus, que produz uma ação ou um efeito, para a ideia de uma pessoa que representa o ser divino, quer o Pai, quer o Filho. Igualmente a figura do Filho inicia-se no Antigo Testamento com a elaboração do Messias, em função da ideia do ungido ou ungidos, e depois é acrescida de características divinas, porém, sem muitos contornos que indiquem a sua pertença a um possível Deus trinitário. Com o advento de Jesus, o Deus Javé se torna o Pai do Messias divino- humano. Por consequência, Jesus o Cristo, ou o Messias, se torna o Filho. Nessa relação paternal a participação do Espírito acontece na geração do Filho e no acompanhamento do seu ministério terreno. Mais adiante na compreensão histórica da igreja, o Espírito é entendido como o Espírito de Cristo. O que temos, portanto, é uma formulação não muito estruturada ou clara que merece nossa atenção e tentativa de compreensão em maior profundidade. 1- A elaboração da Trindade Nos relatos do Novo Testamento, o Filho é relacionado ao Espírito e este ao Pai completando a noção de uma intricada relação entre esses três representantes do ser divino. Em pelo menos duas fórmulas, a do batismo e da bênção, encontramos a associação das três pessoas da divindade trinitária, expressas como Pai, Filho e Espírito Santo, respectivamente: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28:19) e “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês” (2 Coríntios 13:13). A nomeação de Deus como Pai, Aba em hebraico (Marcos 14:36), está associada especificamente à forma de tratamento aplicada por Jesus a Javé, o Deus de Israel, criador de todas as coisas e senhor da história. Nos relatos do Novo Testamento, o Espírito se tornou o centro da verificação da presença e ação de Deus sobre a sua nova 105 comunidade, a igreja, principalmente percebido pelos apóstolos, conforme registrado no livro de Atos. Ora, a fórmula tríplice praticamente assumiu a nominação de Deus, antes conhecido como Javé, dada a importância e vivência com essas três realidades. Deus, então, passou a ser chamado Pai, Filho e Espírito Santo representando as funções de Criador, Redentor e Santificador. Robert Jenson comenta que: Em vista da linguagem disponível naquela época e da lógica do que as Escrituras hebraicas falam sobe Deus, a invocação, exortação e explicação cristãs parecem ter tomado uma forma triúna meramente seguindo o caminhoda menor dificuldade e totalmente sem necessidade de uma reflexão explícita sobre o próprio padrão (1990, p.124). Dessa forma, os autores foram relacionando entre si o Pai, o Filho e o Espírito à medida que expunham seus ensinamentos à igreja primitiva. Exemplos disso são: • 2 Coríntios 1:21-22 – “Ora, é Deus que faz que nós e vocês permaneçamos firmes em Cristo. Ele nos ungiu, nos selou como sua propriedade e pôs o seu Espírito em nossos corações como garantia do que está por vir”; • Efésios 2:18 – “pois por meio dele [Cristo] tanto nós como vocês temos acesso ao Pai, por um só Espírito”; • Efésios 5:18-20 – “Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre vocês com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor, dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”; • Judas 20-21 – “Edifiquem-se, porém, amados, na santíssima fé que vocês têm, orando no Espírito Santo. Mantenham-se no amor de Deus, enquanto esperam que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo os leve para a vida eterna”. A partir daqui, vale relembrar alguns desenvolvimentos teológicos sobre a Trindade já estudados na disciplina de Teologia Sistemática I. A Trindade foi alvo temático de discussão nos primeiros concílios da igreja cristã representada na afirmação do credo niceno- Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia106 constantinopolitano: “Cremos em um só Deus [...] E no Espírito Santo, Senhor e vivicador, o qual procede do Pai e do Filho; que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; que falou pelos profetas”. A expressão “e do Filho” — filioque em Latim — foi acrescentada mais tarde pelo ramo ocidental da igreja cristã. Expressões como essa não explicam claramente o significado prático que isso tem para a teologia, mas ainda assim somos desafiados a mergulhar nesse mistério visando alinhar a nossa perspectiva ministerial e missiológica. Desde Tertuliano, que primeiramente formulou a proposta filosófica de Deus como subsistindo como uma substância e três pessoas (una substantia – tres personae), temos procurado compreender o Espírito por essa via. Porém, assim como não identificamos explicitamente a pessoa de Jesus no Antigo Testamento, também não percebemos o Espírito como uma pessoa naqueles textos, embora ambos venham a ser mais tarde associados a Deus compondo a noção inicial da doutrina da Trindade. O entendimento de pessoa que estamos tratando aqui é aquele que a identifica como mente e vontade individual e independente, representando o pensar e o agir. Um fator complicador para a nossa compreensão do tema da personalidade está no conceito moderno de indivíduo, ou de individualidade, que não condiz com a discussão teológica sobre a Trindade. Para nós, o indivíduo foi alçado a uma condição de autonomia, quase que autosubsistente e independente, ainda que isso não esteja de acordo com a sua realidade vivencial como ser social. Uma das propostas para a descrição do modo de ser da Trindade é a da perichoresis. Esse termo cunhado pelos pais da igreja, cuja tradução seria mútua interpenetração, procura apresentar a Trindade como um ser-comunidade em que tudo é unido e compartilhado. Nessa maneira de existir não há espaço para a concepção do individualismo moderno e das consequências que isso traz para o relacionamento entre as pessoas. Ao pensarmos a pessoa moderna queremos defender uma autonomia total de cada indivíduo, mas no caso do conceito de Trindade isso não se aplica. Apesar de serem três, eles se interpenetram de forma que um não existe sem os outros, um não pensa sem os outros e um não age sem os outros. Nossa investigação, portanto, segue no sentido de olhar para 107 as referências sobre o Espírito, e sua inter-relação com o Pai e o Filho, verificando como isso afeta a nossa fé, a vivência na igreja e a participação na Missão de Deus. Ao nos aventurarmos a investigar esse mistério não buscamos soluções prontas, mas uma possível compreensão do Espírito a partir de sua pertença à Trindade. Vale lembrar, como comentado anteriormente, que a pneumatologia é, ultimamente, muito marcada pela experiência comunitária e individual antes de ser elaborada pela teologia bíblica. Há, no entanto, uma dificuldade ainda maior em experimentar a Trindade e explicá-la por essa via de entendimento mais sensorial. Procuraremos, então, investigar a participação, função e características do Espírito em sua relação com as outras pessoas da Trindade. A princípio, devemos lembrar que investigar a Trindade é tentar entrar em um dos maiores mistérios da teologia uma vez que não há qualquer declaração doutrinária explícita na Bíblia sobre ela. 2- O Espírito Santo e o Pai A associação entre o Espírito e o Pai é a mais fácil de estabelecer por conta de todo o percurso do Antigo Testamento. Como visto, o Espírito é apresentado como uma manifestação impessoal da ação de Deus utilizando a metáfora do vento. Ali, o Espírito de Deus é apenas a designação de sua ação sem qualquer outra identidade ou preocupação de distinção de algo independente do Deus único Javé. Já no Novo Testamento, alguns textos do evangelho de João indicam que o Espírito é enviado pelo Pai: “Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinará a vocês todas as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu disse” (João 14:26). Nesse sentido, há uma íntima associação com a construção do Antigo Testamento em que o Espírito é a manifestação do próprio Deus ou que o Espírito é soprado por Deus. Essa é a conexão mais óbvia e imediata sem grandes espaços para discussões. A dificuldade surge quando tentamos explicar a existência do Espírito como uma pessoa diferente do Pai. Nesse texto de João, o Espírito Santo é chamado de Conselheiro (parakletos) trazendo um componente de pessoalidade e, por que não dizer, de distinção. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia108 A relação simbiótica entre o Espírito e o Pai, como duas pessoas distintas, só pode ser elaborada na presença da terceira pessoa que é o Filho. Em outras palavras, a relação de pessoalidade do Espírito com o Pai só passa a acontecer quando nos damos conta da pessoa do Filho. Não que essa definição ou caracterização do Espírito seja óbvia ou a melhor representação tomando-se por base as Escrituras. A compreensão de afirmações como essas esbarra em nossa limitação em tentarmos absorver conceitos a partir de pressupostos humanos. Como definir Deus, que é espírito, não restrito ao espaço-tempo humano ou às leis da natureza criada, de forma a ser apreendido pela mente humana? Como entender realidades infinitas em nossa mente finita? Mesmo havendo uma proeminência da figura do Pai na Trindade e sendo o Espírito antes denominado de Espírito de Deus, não há entre essas duas pessoas distintas, assim entendidas, independência na existência, intenção e ação. O que um faz é o que o outro quer. Um age conforme aquilo que o outro deseja. Não se pode, assim, pensar no Espírito Santo como um Deus à parte do Pai ou que mereça alguma preferência ou com quem se desenvolva um pretenso relacionamento especial. O Espírito é, então, um com o Pai e faz as coisas próprias do Pai. 3- O Espírito Santo e o Filho A primeira e mais clara associação entre o Espírito Santo e o Filho aparece logo nos relatos sobre o nascimento de Jesus de Nazaré. O texto de Mateus 1:18-20 afirma que Jesus foi gerado no ventre de Maria, sua mãe, pelo Espírito Santo: Foi assim o nascimento de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Por ser José, seu marido, um homem justo, e não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente. Mas, depois de ter pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor em sonho e disse: “José, filho de Davi,não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo. A ideia do Espírito como gerador de vida não é novidade se observarmos a descrição de sua participação na criação do universo 109 conforme registrado no livro de Gênesis. Lembramos que esse tema já foi desenvolvido em uma unidade anterior. No entanto, a dificuldade que o texto de Mateus apresenta é a que ali o Espírito Santo se torna gerador do Filho em forma humana. Considerando que o Filho compõe com o Espírito a Trindade, ele estaria como que gerando a si mesmo. Para não cairmos na armadilha de iniciarmos uma divagação filosófica sobre essa consideração, poderíamos apenas nos restringir a imaginar que o relato quer indicar apenas que a encarnação é um projeto divino trinitário. O Pai, por meio do seu Espírito, encarna-se na pessoa de Jesus de Nazaré. Deus por meio de seu vento realizador gera a vida do Messias no ventre de Maria. Mantendo essa ideia em mente, vemos algo semelhante ocorrendo no episódio do batismo de Jesus. Ali o Espírito aparece em forma de pomba intermediando a relação de amor entre o Filho e o Pai: “Assim que saiu da água, Jesus viu o céu se abrindo e o Espírito descendo como pomba sobre ele. Então veio dos céus uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado; de ti me agrado’” (Marcos 1:10-11). Esse relato não parece querer construir qualquer nova concepção doutrinária acerca do Espírito senão a de afirmar a própria trindade no início do ministério de Cristo. Na sequência do batismo, o Espírito guia Jesus ao deserto para ser tentado de acordo com o relato de Lucas 4:1-2: “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo Diabo. Não comeu nada durante esses dias e, ao fim deles, teve fome”. Na perspectiva de Lucas, a condução do Espírito Santo capacita Jesus com o poder divino: “Jesus voltou para a Galileia no poder do Espírito, e por toda aquela região se espalhou a sua fama” (Lucas 4:14). Essa capacitação irá ser permanente ao longo de todo o seu ministério, oficialmente iniciado após o batismo e tentação, explicada em mais detalhes pelo evangelista no texto seguinte: Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume. E levantou-se para ler. Foi- lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abriu-o e encontrou o lugar onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas-novas aos pobres. Ele Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia110 me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor”. Então ele fechou o livro, devolveu-o ao assistente e assentou-se. Na sinagoga todos tinham os olhos fitos nele; e ele começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu a Escritura que vocês acabaram de ouvir” (Lucas 4:16-21). É interessante observar que o texto de Lucas faz uma conexão imediata entre aquele momento e o da aplicação do texto de Isaías 61:1-2, reforçando a condição do Espírito estar sobre Jesus. Ao citar a passagem de Isaías, o Espírito de Deus, revelado no Antigo Testamento, agora identificado como Espírito Santo, se mostra, então, como o capacitador de Jesus. O texto parece expressar a ideia de habitação do Espírito com Jesus (shekiná) e a partir daí realiza-se uma simbiose tornando-se este, também, o Espírito de Cristo, conforme afirma o apóstolo Paulo em Romanos 8:9. Essa presença constante é sem medida, como informa João 3:34, mas não o torna um super-homem. Importante notar um entendimento sutil que parece indicar que o Espírito não é uma propriedade de Jesus, e sim a sua força motriz. Ora, esse Espírito que acompanhava Jesus durante a sua vida e ministério foi repassado aos seus discípulos após a sua ressurreição transmitindo a ideia de que ele provinha do próprio Jesus: “Novamente Jesus disse: ‘Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio’. E com isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebam o Espírito Santo’ (João 20:21- 22). Agora, não era apenas o Espírito de Deus, mas sendo soprado por Jesus há o reforço da ideia de que ele também era o Espírito de Cristo. Observamos que o Espírito está presente desde a geração de Jesus acompanhando-o por toda a sua vida e ministério. O que podemos nos perguntar é onde estava o Espírito na morte de Cristo uma vez que o texto de 1 Pedro 3:18 parece indicar que foi o Espírito quem promoveu a ressurreição: “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito [...]”. Seguindo essa ordem lógica, o Espírito acompanha Jesus também em seu sacrifício ao sustentá-lo e sofrer com ele ao longo da via crucis. O que concluímos com essa abordagem da relação entre o Espírito e o Filho é que a pneumatologia deve ser vista mutuamente com a cristologia. Uma vez que o Espírito Santo é o Espírito de Cristo, muito pode ser apreendido ao compreendermos o próprio Cristo. 111 Por essa razão, em uma perspectiva mais missiológica, a função do Espírito, na ausência do Filho encarnado entre os seres humanos, é a de promover a sua missão e glorificação: Tenho ainda muito que dizer, mas vocês não o podem suportar agora. Mas, quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e anunciará a vocês o que está por vir. Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês (João 16:12-14). 4- O Espírito Santo por si mesmo A intenção em investigar o Espírito a partir da Trindade é oferecer maior consistência à sua doutrina, procurando evitar possíveis equívocos, como já cometidos no passado da teologia, ao tratá-lo como uma divindade à parte do Pai e do Filho. Ainda hoje podemos observar em algumas expressões teológicas essa tendência que acaba por restringir a compreensão bíblica ampla do Espírito. Isso talvez ocorra por causa das outras informações que temos, provenientes também de textos bíblicos, que tratam de ações do Espírito mais voltadas para a interioridade e individualidade do ser humano. Ao querermos, por assim dizer, priorizar essas ações com uma abordagem desassociada do contexto mais amplo, que provém da doutrina trinitária, acabamos por fazer do Espírito um deus controlado por nossas preferências. Moltmann sugere algumas metáforas para as experiências do Espírito conforme apresentadas nas Escrituras: 1. as metáforas de pessoas: O Espírito como Senhor, como mãe e como juiz; 2. as metáforas de forma: O Espírito como energia, como espaço e como figura; 3. as metáforas de movimento: O Espírito como vento impetuoso, como fogo e como amor; 4. as metáforas místicas: O Espírito como fonte de luz, como água e como fertilidade (MOLTMANN 1998, p. 251). A maioria dessas metáforas ilustram ações de Deus sem a preocupação de identificação do Espírito como participante da Trindade. Diante do exposto, devemos nos perguntar se haverá Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia112 possibilidade de entendermos o Espírito Santo de forma autônoma. Em outras palavras, é possível desenvolvermos uma pneumatologia que não inclua intrinsecamente sua relação com as outras pessoas da Trindade? Das três pessoas da Trindade, o Espírito Santo é a menos explorada biblicamente como uma pessoa distinta. Deus Pai é tipicamente o centro do Antigo Testamento e Jesus Cristo o centro do Novo, já o Espírito é, por assim dizer, a pessoa tímida que pouco aparece mas que a tudo permeia. O Espírito é a presença de Deus no meio do seu povo, em substituição à presença encarnada do Filho, para conforto e capacitação no cumprimento da missão de Deus e do ministério de Cristo. Ele é o elo entre os membros da família de Deus; é o promovedor desse estado de comunhão à semelhança da comunidade perfeita representadapela Trindade. É, por excelência, o intermediador para o acesso ao Pai, em nome do Filho. Conclusão A partir da discussão desenvolvida até aqui sobre o Espírito Santo e a Trindade, parece impossível entendermos o Espírito por si só sem a companhia das outras pessoas da Trindade, ou seja, a teologia do Espírito é, em grande parte, a afirmação da teologia de Deus e da teologia de Cristo. Isto significa que não devemos tratar o Espírito como um Deus à parte, como se ele existe independente do Pai e do Filho, ou como se não estivesse sujeito àquilo que foi denominado como economia divina. O Espírito age apenas de acordo com essa relação de mútua-pertença e cumplicidade. Bibliografia JENSON, Robert W. A lógica e retórica trinitárias. In: BRAATEN, Carl E.e JENSON, Robert W. (ed.). Dogmática cristã. Volume 1. São Leopoldo: Sinodal, 1990. MOLTMANN, Jürgen. O Espírito da vida: uma pneumatologia integral. Petrópolis: Vozes, 1998. 113 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 12 O Espírito Santo no Livro dos Atos dos Apóstulos I Introdução O livro de Atos tem sido muito utilizado para o desenvolvimento e compreensão da ação e da manifestação do Espírito Santo na experiência da igreja. Mais especificamente, com o advento do pentecostalismo, sua influência no cristianismo nos remete à investigação do tema do Espírito a partir deste livro por causa da direta associação que existe com as narrativas ali presentes. Além dessa perspectiva, busca-se a compreensão da teologia do Espírito naquilo que representou a primeira e mais imediata experiência para a igreja apostólica. Objetivos 1) Oferecer um panorama geral do livro Atos dos Apóstolos, acentuando a ação e a manifestação do Espírito na vida dos primeiros cristãos; 2) Destacar o evento ocorrido durante a festa de Pentecostes que serve de direção para a construção da doutrina pneumatológica para os nossos dias. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia114 A atenção especial ao livro de Atos dos Apóstolos com respeito ao estudo do Espírito Santo se dá por algumas razões. A primeira é que nele encontramos o relato da chamada descida do Espírito Santo sobre a igreja que representa o cumprimento da profecia do profeta Joel e da promessa de Jesus: • Joel 2:28 – “E, depois disso, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os velhos terão sonhos, os jovens terão visões”; • João 14:16-17 – “E eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Conselheiro para estar com vocês para sempre, Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês”; • Atos 2:1-4 – “Chegando o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos num só lugar. De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual estavam assentados. E viram o que parecia línguas de fogo, que se separaram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava”. A segunda razão para fazermos esse estudo no livro de Atos é que ali estão os textos mais utilizados em nossos dias para se falar, ensinar e pregar sobre o Espírito Santo, desde o surgimento do pentecostalismo. Isso é mais notório nas igrejas e comunidades de tradição pentecostal ou carismática, mas também tem a sua representatividade nas igrejas históricas que sofreram influência desse movimento. Aliás, a designação pentecostal vem exatamente da semelhança entre as experiências ocorridas no início do século XX com um grupo de norte-americanos e o evento descrito no livro de Atos que aconteceu por ocasião da celebração da festa judaica de Pentecostes. Por essa razão, é possível que haja muitas pessoas que pensem na ação e no ministério do Espírito apenas a partir de Atos. Porém, como visto nas unidades anteriores, isso seria um equívoco, pois a revelação do Espírito perpassa todas as Escrituras, Antigo e Novo Testamento. Nesse sentido, procuraremos analisar algumas passagens do livro de Atos na intenção de desconstruir algumas noções limitadoras acerca 115 da pneumatologia, bem como de formular uma perspectiva consistente com o todo das Escrituras. 1- A descida do Espírito na festa Pentecostes O livro de Atos inicia-se com o anúncio de uma promessa e o seu imediato cumprimento. Logo no primeiro capítulo, observamos Jesus ressurreto orientando os discípulos acerca do importante fato que haveria de acontecer. A promessa do derramamento do Espírito feita ali foi entendida por Pedro, dias depois, como sendo o cumprimento do que havia sido predito pelo profeta Joel (Atos 2:16-21). A importante mensagem de Jesus atesta para alguns fatos fundamentais. O primeiro fato era de que aquela manifestação se tratava de um dom de Deus (Atos 1:4), algo da sua exclusiva vontade e pré-ciência. Segundo, aquele evento representava uma continuidade do ministério de Jesus ao capacitar os seus discípulos para serem suas testemunhas (Atos 1:8). Terceiro, não houve a necessidade de qualquer preparo especial anterior por parte dos crentes ou a sugestão de uma condição de estado de santidade para que viesse o derramamento do Espírito a não ser a espera em si. Após a promessa de Jesus, passados alguns dias, temos o cenário da festa anual de Pentecoste na cidade de Jerusalém. A narrativa da participação dos discípulos nessa festa judaica mostra-os reunidos e assentados numa casa, provavelmente cumprindo os rituais do festejo (Atos 2:1-2). Sem qualquer aviso ou preparo, um som como de um vento, tipicamente associado às manifestações do ruach do Antigo Testamento, encheu o lugar trazendo uma série de manifestações especiais e fora do cotidiano religioso. O texto afirma que todos, sem exceção, ficaram cheios do Espírito após aparecer sobre cada umas das pessoas uma manifestação que parecia fogo, passando os presentes a falar nas línguas ou dialetos de diversas regiões do império romano (Atos 2:8-11). Esse evento e essa experiência inaugural do derramamento do Espírito tornaram-se singulares e de extrema importância para a igreja que ali nascia. Ele parece apontar para a importância da unidade no entendimento da mensagem sobre as grandezas de Deus em várias línguas. Alguns chegam a associar esse episódio ao da Torre de Babel Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia116 (Gênesis 11:1-9) como uma espécie de reversão do desentendimento, agora com a promoção do próprio Deus como fomentador de um mesmo pensamento. Após causar alarde e chamar a atenção das outras pessoas presentes à festa de Pentecostes, segue-se um sermão explicativo do que estava acontecendo. O apóstolo Pedro usa uma bela elaboração teológica e bíblica para falar do Evangelho de Cristo aos ouvintes. O resultado é a conversão de quase três mil pessoas sem indicar a ocorrência de qualquer outra manifestação especial do Espírito sobre essas outras pessoas que ali se encontravam. 2- Nova consciência sobre o Espírito À vista daquele acontecimento tão inusitado, diferente e marcante, os apóstolos e discípulos iniciaram um processo natural de novo entendimento acerca da ação de Deus. Certamente eles carregavam todos os ensinamentos de Jesus bem como a participação nas experiências vividas com o mestre. O próprio Jesus já os havia orientado sobre a sua presença por meio do Espírito que, entre outras manifestações, iria falar por eles quando estivessem diante de situações difíceis, como perante um interrogatório de autoridades: Quando vocês forem levados às sinagogas e diante dos governantes e das autoridades, não se preocupem com a forma pela qual se defenderão, ou com o que dirão, pois naquela hora o Espírito Santo ensinará o que deverão dizer (Lucas 12:11-12). Logo após aquela pregação em que houve a conversão de uma multidão, Pedro e João realizaram uma cura à porta ao Templo de Jerusalém, tendo a oportunidadede fazer novo discurso. Por causa do conteúdo desafiador aos dirigentes da religiosidade judaica, que incluía a ressurreição de Jesus, eles foram presos e posteriormente interrogados pelo Sinédrio (Atos 4:5-22). Com a consciência de que estava sendo instruído pelo Espírito, Pedro fez um discurso ainda mais desafiador, chegando a acusar os líderes judaicos de terem matado o Cristo: Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: “Autoridades e líderes do povo! Visto que hoje somos chamados para prestar 117 contas de um ato de bondade em favor de um aleijado, sendo interrogados acerca de como ele foi curado, saibam os senhores e todo o povo de Israel que por meio do nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem os senhores crucificaram, mas a quem Deus ressuscitou dos mortos, este homem está aí curado diante dos senhores (Atos 4:8-10). Quase como uma extensão do que havia se passado com Pedro, Estevão apoderou-se da mesma certeza e, novamente tendo que encarar o Sinédrio, ele, com coragem, pregou o Evangelho de Jesus e, como consequência, foi martirizado: • Atos 6:10 – “mas não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava”; • Atos 7:55-58 – “Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, levantou os olhos para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé, à direita de Deus, e disse: ‘Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus’. Mas eles taparam os ouvidos e, dando fortes gritos, lançaram-se todos juntos contra ele, arrastaram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas deixaram seus mantos aos pés de um jovem chamado Saulo”. A noção de que o Espírito instruía ou inspirava a fala no tempo da igreja foi logo ampliada para a compreensão de que isso era a continuidade do mesmo processo de experiência do povo de Israel no passado, tanto na fala profética quanto na produção das Escrituras. É isto que Pedro parece indicar com seu raciocínio: • Atos 3:17-24 – “Agora, irmãos, eu sei que vocês agiram por ignorância, bem como os seus líderes. Mas foi assim que Deus cumpriu o que tinha predito por todos os profetas, dizendo que o seu Cristo haveria de sofrer. Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados, para que venham tempos de descanso da parte do Senhor, e ele mande o Cristo, o qual lhes foi designado, Jesus. É necessário que ele permaneça no céu até que chegue o tempo em que Deus restaurará todas as coisas, como falou há muito tempo, por meio dos seus santos profetas. Pois disse Moisés: ‘O Senhor Deus levantará dentre seus irmãos um profeta como eu; Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia118 ouçam-no em tudo o que ele disser. Quem não ouvir esse profeta, será eliminado do meio do seu povo’. De fato, todos os profetas, de Samuel em diante, um por um, falaram e predisseram estes dias” • Atos 4:23-26 – “Quando foram soltos, Pedro e João voltaram para os seus companheiros e contaram tudo o que os chefes dos sacerdotes e os líderes religiosos lhes tinham dito. Ouvindo isso, levantaram juntos a voz a Deus, dizendo: ‘Ó Soberano, tu fizeste os céus, a terra, o mar e tudo o que neles há! Tu falaste pelo Espírito Santo por boca do teu servo, nosso pai Davi: Por que se enfurecem as nações, e os povos conspiram em vão? Os reis da terra se levantam, e os governantes se reúnem contra o Senhor e contra o seu Ungido’” O resultado imediato dessa nova consciência foi a coragem que eles assumiram para anunciar a Jesus Cristo em qualquer ambiente, ou seja, tornou-se um combustível para a tarefa missionária: “Depois de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de Deus” (Atos 4:31). A partir daí, ampliou-se o entendimento da capacitação como sendo a condição de disposição e sensibilidade em ser guiado por Deus para alguma tarefa. Essa condição passou a ser referenciada como um estado de plenitude, ou seja, estar cheio do Espírito Santo: • Atos 2:4 – “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava”; • Atos 4:8, 31 – “Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse- lhes: ‘Autoridades e líderes do povo!’”; “Depois de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de Deus”; • Atos 6:3-5 – “Irmãos, escolham entre vocês sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito e de sabedoria. Passaremos a eles essa tarefa e nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra. Tal proposta agradou a todos. Então escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, além de Filipe, Prócoro, Nicanor, Timom, Pármenas e Nicolau, um convertido ao judaísmo, proveniente de Antioquia”; 119 • Atos 7:55 – “Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, levantou os olhos para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé, à direita de Deus”; • Atos 9:17 – “Então Ananias foi, entrou na casa, pôs as mãos sobre Saulo e disse: ‘Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que apareceu no caminho por onde você vinha, enviou-me para que você volte a ver e seja cheio do Espírito Santo’”; • Atos 11:24 – “Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé; e muitas pessoas foram acrescentadas ao Senhor”; • Atos 13:9 – “Então Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, olhou firmemente para Elimas e disse”. A metáfora parece considerar a ideia trazida do Antigo Testamento da presença de Deus, como representação do ar em movimento, que ocupa um determinado lugar (Êxodo 40:34) ou influencia uma pessoa (Êxodo 35:31). Outra percepção bastante interessante é a da promoção da unidade e consenso entre os apóstolos como sendo resultado da intermediação do Espírito. O chamado Concílio de Jerusalém, que tratou da controvérsia sobre as práticas judaizantes que estavam sendo impostas aos gentios, apresenta a longa discussão que os apóstolos e anciãos tiveram para tratar do tema: Alguns homens desceram da Judeia para Antioquia e passaram a ensinar aos irmãos: “Se vocês não forem circuncidados conforme o costume ensinado por Moisés, não poderão ser salvos”. Isso levou Paulo e Barnabé a uma grande contenda e discussão com eles. Assim, Paulo e Barnabé foram designados, com outros, para irem a Jerusalém tratar dessa questão com os apóstolos e com os presbíteros [...] Os apóstolos e os presbíteros se reuniram para considerar essa questão. Depois de muita discussão, Pedro levantou-se e dirigiu-se a eles: “Irmãos, vocês sabem que há muito tempo Deus me escolheu dentre vocês para que os gentios ouvissem de meus lábios a mensagem do evangelho e cressem” (Atos 15:1-2, 6-7). Ao final do debate, foi elaborada uma carta com as resoluções do concílio afirmando que elas eram entendidas como uma ação do Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia120 Espírito entre eles. A consequência imediata para os gentios foi a de sensação de bem-estar: Então os apóstolos e os presbíteros, com toda a igreja, decidiram escolher alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois líderes entre os irmãos. Com eles enviaram a seguinte carta: Os irmãos apóstolos e presbíteros, os cristãos gentios que estão em Antioquia, na Síria e na Cilícia: saudações [...] Portanto, estamos enviando Judas e Silas para confirmarem verbalmente o que estamos escrevendo. Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Que se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão bem em evitar essas coisas [...] Os irmãos a leram e se alegraram com a sua animadora mensagem (Atos 15:22-31). Conclusão A pneumatologia presente no livro de Atos consiste na introdução de algumas novidades que vão muito além daquilo que foi apresentado no Antigo Testamento pela tradição judaica. Não apenasse deu gradativamente na história de Israel. A princípio, o homem de Deus era um místico que falava com e por Deus. Ele era reconhecido pelo povo por essa ação e proximidade com a divindade. Não era, por assim dizer, um cargo religioso formal como o do sacerdote e não era tampouco uma função de governo administrativa. Ele estava livre das amarras institucionais, mas em muitos casos assumia a função de liderança. De certa forma, vemos nos juízes de Israel algumas dessas características. O ofício profético acabou abarcando funções distintas que fez com que se considerasse também o profetismo posterior como parte dele, com os seus oráculos escritos e maior proximidade com a corte. Houve, inclusive, o caso do surgimento dos profetas profissionais que serviam a liderança de Israel e que viriam a ser combatidos, em alguns casos, como falsos profetas. Dada essa proximidade mística com a divindade, no início, eles não eram ungidos publicamente, mas por causa de seu comportamento e prática vidente, eram reconhecidos pelo povo como homens de Deus. Em outras palavras, por causa de suas habilidades místicas o simbolismo da unção com óleo era como que desnecessária ou pelo menos dispensada na percepção popular. No entanto, há uma única citação sobre uma possível prática de unção de profetas que ocorre na transição entre Elias e Eliseu: “Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta” (1 Reis 19:16.) A menção dos profetas nessa construção da ideia do ungido também se dá pela aproximação dos ofícios mais importantes no período da monarquia de Israel. Vemos na poesia atribuída a Davi esse tratamento: “ele não permitiu que ninguém os oprimisse; por causa deles repreendeu reis, ordenando: ‘Não maltratem os meus ungidos; não façam mal aos meus profetas” (1 Crônicas 16:21-22 e Salmo 105:14-15). O que o texto chama de ungidos são os reis de Israel e ali vemos que eles recebem uma proteção no mesmo patamar que os profetas. A proximidade dessas figuras que representam a liderança de Israel criou no imaginário coletivo, de uma forma não estruturada ou clara, o ideal de um tipo de super-herói que tomaria sobre si a responsabilidade de resolver os problemas da nação. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia12 Conclusão Com base em toda essa construção religiosa, desenvolveu-se a ideia de um “Ungido” (Messias), principalmente nos escritos proféticos, como um ser especial a vir em um futuro indeterminado na história do povo de Israel, reunindo as características e funções dos outros “ungidos”. A expectativa criada em torno desse Ungido era que ele pudesse conduzir o povo de Deus, no caso o povo de Israel, a um tempo de paz e prosperidade, a conhecida Shalom. Essa expectativa também carregava a ideia de libertação e salvação de todos os males e intempéries experimentadas pelo povo ao longo de sua história. A construção da figura do Ungido aproximava-o muito de Deus, a ponto de ele vir a ser considerado o seu Servo ou até o seu Filho, porém, sem qualquer discussão filosófica ou teológica sobre uma possível simbiose Deus-Homem. Certamente, dado o tipo de expectativa construída, a figura que mais influenciava a imagem do Ungido era a de um rei, que através de seu domínio e poder poderia, de certa forma, impor esse estado de coisas. É a partir dessa construção histórica e teológica que temos que olhar para Jesus de Nazaré, tentando compreender em que sentido ele se encaixa no Messias de Israel e que outros elementos ele mesmo adicionou em sua vida e ministério ao mistério do Cristo, o Filho de Deus. Essa introdução serve para gerar curiosidade e motivação para a investigação que se inicia sobre a pessoa de Jesus, como o Cristo, o Messias. Ao estudarmos a progressão da construção do conceito nos textos do Antigo Testamento e, posteriormente, avaliando a realização e aplicação à pessoa de Jesus no Novo Testamento, tentaremos nos aprofundar nas ideias apresentadas nessa unidade. Antes, contudo, também como abordagem introdutória, trataremos das duas perspectivas mais características que a teologia tem tomado em relação ao estudo de Cristo, denominadas como alta e baixa. Referências VAUX, Roland De. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003. 13 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 2 Cristologia Alta e Baixa Introdução A Cristologia não apenas inclui a discussão da expectativa histórica do Messias de Israel anunciada no Antigo Testamento, mas também a discussão da dupla natureza do Cristo, o Deus-Homem. Desde as primeiras controvérsias da igreja, com seus concílios e dogmas, está presente a paradoxal compreensão das duas naturezas de Cristo que oferecem parâmetros distintos e complementares para a vivência da fé cristã. Referenciamo-nos, assim, ao estudo dessas naturezas como cristologia alta e baixa. Objetivos 1) Discutir as perspectivas divinas e humanas da pessoa de Cristo; 2) Entender como as duas naturezas de Cristo coadunam para a construção da fé cristã. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia14 É admissível a simbiose Deus-Homem? É possível que alguém seja, ao mesmo tempo, divino e humano? A igreja cristã se ocupou dessa discussão logo em seus primórdios por conta da transição da fé judaica para a fé cristã em meio a cultura greco-romana. Se por um lado a fé judaica afirmava o monoteísmo no Deus Javé, a fé cristã introduzia a chegada do Messias, como o Filho de Javé, tendo este se tornado humano. Na lógica cristã, o Filho de Deus é também Deus, mas ele aparece em meio a seu povo na forma humana, algo até então inconcebível para a teologia judaica. Na teologia do Antigo Testamento, Javé é um Deus único, grandioso, que não se faz representar por qualquer imagem humanamente construída, nem tampouco se dilui em qualquer desdobramento de si mesmo. Suas manifestações entre os humanos são descritas como teofanias com referências às coisas da natureza, que podem representar aspectos de seu ser e caráter e não necessariamente a sua pessoa. Ele também faz uso de intermediários humanos, chamados de enviados, mensageiros, servos, profetas, etc. sendo alguns explicitamente descritos como capacitados pelo Espírito de Deus. Em nenhum dos casos esses intermediários são entendidos como o próprio Deus, embora alguns tenham recebido tratamento especial. Independente das referências antropológicas históricas de culturas que divinizavam pessoas, tais como reis, sacerdotes, heróis, virtuosos, etc., e de toda a mitologia grega que fez o mesmo em uma vasta literatura e prática religiosa, a questão da coexistência da divindade com a humanidade em uma só pessoa perpassa a imaginação e o raciocínio humano. Não seriam os heróis em quadrinhos uma representação dessa eterna projeção psicomental humana? Não é uma prerrogativa cristã a ideia do Deus-Homem, mas certamente é na figura de Jesus de Nazaré que se encerra a maior discussão histórica sobre o assunto. Todo o processo que se desencadeou em torno de sua vida e a posterior transmissão de seus ensinos, por parte dos apóstolos e da igreja, tem como pressuposto a sua divindade. A dificuldade, no entanto, para tratar do assunto surge pelo fato de Jesus ser um evento único, sem paralelos e correlações para a formação de um caso ou de uma amostragem comprobatória. Ainda que, por fim, a afirmação do Deus-Homem torne-se uma afirmação dogmática 15 de fé, vale a pena a reflexão em torno do assunto numa tentativa de responder ao mistério que perdura até os dias de hoje e ainda modela a existência da igreja. A nossa discussão, portanto, engloba as questões que envolvem a humanidade e a divindade de Cristo. Jesus de Nazaré é para a fé cristã, ao mesmo tempo, divino e humano. Esse grande mistério da fé é investigado pela cristologia, uma diferenciação designada como alta e baixa. 1- Cristologia alta A cristologiaregistra-se ali o cumprimento da promessa profética de uma presença mais sensível do Espírito entre as pessoas, como ele assume um papel fundamental na propagação corajosa da mensagem do evangelho de Jesus Cristo no início da igreja cristã. Além disso, há ainda no livro de Atos a atribuição da expansão missionária da igreja sendo intermediada pela ação específica do Espírito e a ocorrência de algumas manifestações, que se tornaram fundamento para parte da teologia pentecostal, que serão melhor investigadas na próxima unidade. 121 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 13 O Espírito Santo no Livro dos Atos dos Apóstolos II Introdução Dando continuidade ao panorama de apresentação das primeiras manifestações do Espírito conforme registrado no livro de Atos, após investigarmos o evento do Pentecostes e da nova consciência que ele trouxe para os apóstolos e discípulos de Jesus, esta unidade discutirá dois outros temas que são a perspectiva missionária e o chamado batismo com o Espírito Santo. Objetivos 1) Oferecer um panorama geral do livro de Atos dos Apóstolos, acentuando a ação e a manifestação do Espírito Santo na vida dos primeiros cristãos; 2) Destacar os eventos que contribuem para a perspectiva missiológica do Espírito, bem como aqueles que são usados como referência para a doutrina do batismo com o Espírito Santo. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia122 A teologia cristã que nasce com a igreja primitiva traz como novidade uma nova ótica para a doutrina do Espírito. Por meio das narrativas do livro de Atos conseguimos observar o nascedouro de novas perspectivas em meio às experiências vividas pelos apóstolos e discípulos que expandem o conhecimento elaborado no Antigo Testamento. Na unidade anterior, vimos o marcante evento ocorrido durante a celebração da festa de Pentecostes em Jerusalém que inaugurou a era da igreja movida pelo Espírito. Acompanhamos o entendimento que os participantes daquela primeira comunidade tiveram quanto ao fenômeno da descida do Espírito e do envolvimento que tiveram com ele. Nesta unidade, procuraremos explorar duas outras compreensões que estão presentes nas narrativas e que se tornaram importantes para a teologia da igreja. O primeiro tema é o da missão e de como o Espírito torna-se o seu propulsor. O segundo tema, e mais delicado, é o do batismo com o Espírito que, de certa forma, diferencia as tradições pentecostais e históricas em sua compreensão. 1- O Espírito como propulsor da missão Vê-se nos relatos do livro de Atos a intencional descrição do Espírito como propulsor da missão da igreja. O texto de Atos 8:1-25 descreve a dispersão dos primeiros cristãos após a perseguição da igreja em Jerusalém. Lucas parece propositalmente indicar aquilo que Jesus havia determinado: que os discípulos fossem suas testemunhas em Samaria e na Judéia (Atos 1:8). A passagem, então, apresenta uma importante transição para a igreja que precisava sair de maneira missionária de sua zona de conforto. Felipe é o personagem central que aparece pregando, evangelizando, realizando sinais e batizando em nome de Jesus (Atos 8:16). Os apóstolos, tomando conhecimento sobre o que estava acontecendo na desprezada Samaria, foram verificar. Após essa visita dos apóstolos muitas outras aldeias foram evangelizadas: “Tendo testemunhado e proclamado a palavra do Senhor, Pedro e João voltaram a Jerusalém, pregando o evangelho em muitos povoados samaritanos” (Atos 8:25). No capítulo 10, temos a expansão do evangelho para a capital da Judéia. Agora o alvo são os gentios, estrangeiros, pessoas não 123 queridas pelos judeus e, de alguma forma, também não queridas pelos primeiros judeus-cristãos. Se o acontecimento de Atos 8 representou uma pequena transição, o de Atos 10 representa uma grande transição. O relato mostra a resistência que havia por parte dos apóstolos em direcionar a pregação do Evangelho aos gentios. Para que essa expansão missionária pudesse receber a devida atenção da cúpula de Jerusalém, foi necessário que Pedro passasse por um processo de convencimento ou conversão do seu coração e mente em relação aos gentios. Após ter uma ter uma experiência de êxtase em que Deus indica a sua intenção em alcançar aqueles que eram considerados impuros, o Espírito o ordena a aceitar o convite para ir à casa do centurião romano Cornélio, resultando na conversão de toda a sua casa. Mais adiante, Paulo e Barnabé são especificamente apresentados como escolhidos pelo Espírito para iniciarem as viagens missionárias rumo às cidades da Ásia Menor (Atos 13:1-4). Ao longo do ministério de Paulo, em suas três viagens missionárias, vemos o resultado desse esforço com a instalação e desenvolvimento das diversas igrejas gentílicas que no futuro se tornariam a base para a expansão do cristianismo no mundo antigo. As passagens bíblicas apresentadas aqui são longas e, embora não tenham sido transcritas no corpo desse texto, merecem uma leitura dedicada para que tenhamos a chance de apreender a profundidade da construção feita por Lucas demonstrando a tese do Espírito como o propulsor da missão de Cristo. 2- O batismo com o Espírito Santo Como comentado anteriormente, o fenômeno do pentecostalismo teve grande influência sobre a pneumatologia prática das igrejas. Nesse sentido, o tema do batismo com o Espírito Santo, ou também denominado Segunda Bênção, merece nossa atenção por se tratar de uma doutrina clássica da tradição pentecostal. A abordagem desse tema a partir do livro de Atos se dá porque é nele que encontramos as passagens nas quais essa doutrina se baseia. Procuraremos descrever os eventos ocorridos conforme o relato das passagens para posteriormente tecermos alguns comentários Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia124 conclusivos. O primeiro e mais explorado momento é o da descida do Espírito Santo sobre a comunidade de Jerusalém, já abordado na unidade anterior. O segundo momento é o que acontece em Samaria relatado no capítulo 8: Os apóstolos em Jerusalém, ouvindo que Samaria havia aceitado a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João. Estes, ao chegarem, oraram para que eles recebessem o Espírito Santo, pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles; tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. Então Pedro e João lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo (Atos 8:14-17). O que quero ressaltar nesse relato é que diferente do que havia ocorrido em Jerusalém durante a festa de Pentecostes, o Espírito Santo surge na vida daqueles samaritanos com a intermediação da imposição de mãos dos apóstolos depois de terem aceitado a pregação da palavra e terem sido batizados. Mais adiante refletiremos sobre o que isso pode ter significado. Por hora, olhemos para um terceiro momento) o que acontece com a família do centurião Cornélio no capítulo 10. O texto relata que de maneira inusitada, enquanto Pedro ainda falava, as pessoas presentes receberam o Espírito Santo, sendo o fato verificado pelo mesmo sinal manifestado aos apóstolos no derramamento inaugural sobre os judeus em Jerusalém, que foi o dom de línguas: Enquanto Pedro ainda estava falando estas palavras, o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a mensagem. Os judeus convertidos que vieram com Pedro ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado até sobre os gentios, pois os ouviam falando em línguas e exaltando a Deus [...] (Atos 10:44-46). Depois do acontecido, essas pessoas foram batizadas em nome de Jesus Cristo (Atos 10:48). O resultado desse acontecimento foi a expansão do evangelho a outras cidades gentílicas com menor resistência por parte da liderança apostólica de Jerusalém. Outro evento marcante que não podemos deixar de mencionar foi o que ocorreu em Éfeso com o apóstolo Paulo: Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, atravessando as regiões altas, chegou a Éfeso. Ali encontrou algunsdiscípulos 125 e lhes perguntou: “Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?”. Eles responderam: “Não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo”. “Então, que batismo vocês receberam?”, perguntou Paulo. “O batismo de João”, responderam eles. Disse Paulo: “O batismo de João foi um batismo de arrependimento. Ele dizia ao povo que cresse naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus”. Ouvindo isso, eles foram batizados no nome do Senhor Jesus. Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e começaram a falar em línguas e a profetizar. Eram ao todo uns doze homens (Atos 19:1-7). O texto parece indicar que doze homens haviam sido evangelizados e batizados por Apolo cuja mensagem ainda estava restrita aos acontecimentos da vida de Jesus anteriores à manifestação especial do Espírito sobre a igreja que ocorrera durante a festa de Pentecostes (Atos 18:24-25). São Priscila e Áquila que instruem Apolo, em outro momento, sobre a nova compreensão a respeito de Jesus ressurreto e sua manifestação por meio do Espírito Santo (Atos 18:26). Nesse ínterim acontece a visita de Paulo àqueles que haviam sido evangelizados por Apolo, que desconhecem essa nova realidade da fé em Jesus Cristo. Eles haviam sido batizados nos moldes daquilo que João Batista fazia ao pregar o arrependimento, porém, não tinham ideia das novas dimensões para a fé sobre a ação direta de Deus por meio do seu Espírito. Sendo assim, Paulo resolve batizá-los, novamente, no entanto, no nome de Jesus, e ao impor as mãos sobre o grupo, eles manifestam o dom de línguas, conforme ocorrido em Jerusalém, mas também manifestam o dom de profecia. Ao observarmos atentamente para os detalhes dessas quatro passagens, veremos que não há uma ordem lógica ou repetitiva nos acontecimentos relativos ao processo de conversão e batismo das pessoas. No caso da festa de Pentecostes em Jerusalém, o Espírito veio sem qualquer preparação prévia de oração, pregação ou rito de batismo sobre os que estavam na casa. Logo após, os outros três mil são batizados, mas nada se fala do Espírito Santo ou de alguma manifestação especial. No evento de Samaria há a pregação seguida do batismo em nome de Jesus e depois o recebimento do Espírito Santo. O texto não informa como eles verificaram ou se certificaram quanto Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia126 ao recebimento do Espírito pelos samaritanos. Não há menção de qualquer ocorrência especial ou sobrenatural como, por exemplo, o falar em línguas estranhas. Com a família de Cornélio em Cesaréia, as pessoas recebem o Espírito enquanto Pedro ainda está pregando sendo isto verificado pela manifestação do dom de línguas, da mesma forma como ocorrera em Jerusalém. Só depois dessa manifestação é que as pessoas são batizadas no nome de Jesus. No caso do apóstolo Paulo com os homens de Éfeso o que observamos é um processo ainda mais distinto, pois, eles haviam sido batizados no batismo de João, depois foram batizados no nome de Jesus e depois receberam o Espírito Santo com a manifestação do dom de línguas e dom de profecia. Esse caso parece complexo por envolver ou requerer uma compreensão teológica dos fatos tanto para Apolo quanto para os crentes de Éfeso. Considerando especificamente o batismo com o Espírito Santo como doutrina, devemos notar que a teologia reformada e a teologia pentecostal tratam do tema com abordagens diferentes. O intuito não é criar polêmica mas apresentar a proposta de cada tradição. Começando pela compreensão da teologia reformada, esta defende a ideia de que batismo com o Espírito Santo é o momento da conversão real e plena do ser humano pecador. É o Espírito Santo que age sobre o ser humano abrindo o seu entendimento e manifestando a graça de Deus diante do arrependimento e fé. Em uma ação mística e sobrenatural, o Espírito purifica e justifica o pecador colocando-o em comunhão com Deus. Um texto chave para essa compreensão é do apóstolo Paulo à igreja de Éfeso: Quando vocês ouviram e creram na palavra da verdade, o evangelho que os salvou, vocês foram selados em Cristo com o Espírito Santo da promessa, que é a garantia da nossa herança até a redenção daqueles que pertencem a Deus, para o louvor da sua glória (Efésios 1:13-14). Para a tradição reformada, o falar em línguas não é uma condição necessária para atestar esse processo, pois, entendem que as ações do Espírito Santo relatadas nos textos bíblicos não demonstram tal situação como uma exigência ou única prova de conversão para a salvação. Assim, o batismo com o Espírito Santo não é outro 127 momento senão o da conversão do pecador. Posteriormente, o cristão é batizado publicamente com água, conforme a prática histórica da igreja primitiva, como símbolo visível daquilo que o Espírito Santo já realizou de forma invisível na vida daquela pessoa. Essa abordagem pode incluir outro processo, reconhecidamente bíblico, que é denominado pela expressão de enchimento do Espírito Santo. Aqui se diferencia ser cheio do Espírito Santo e ser batizado com o Espírito Santo. Ser cheio do Espírito Santo significa estar pleno da presença divina de tal modo que o interesse maior da pessoa é realizar a vontade de Deus. Essa vontade é caracterizada pelo testemunho cristão, pela pregação do Evangelho com intrepidez e ousadia e pelo sentimento de alegria e prazer em ser instrumento de Deus. Ser cheio do Espírito Santo remete à submissão a Deus com a renúncia da vontade própria, vaidade e egoísmo sem qualquer necessidade de manifestações sobrenaturais visíveis. Abordando agora a perspectiva do pentecostalismo clássico, que não é necessariamente a opção de todas as vertentes pentecostais, verificamos a diferenciação de dois momentos: a conversão, que seria o primeiro batismo; e o batismo com o Espírito Santo, que seria o segundo batismo ou segunda bênção. Este segundo batismo é uma experiência e acontecimento diferente da conversão. Ele ocorre quando o cristão sente a profunda intensidade da presença de Deus em sua vida, com um sentimento pleno de alegria e carregado de emoção, podendo levar a pessoa a diversas reações físicas e emocionais tais como choro, pulo, paz, elevação, contemplação, entre outros. Algumas igrejas pentecostais chegam também a exigir o falar em línguas como sinal do batismo do Espírito Santo evidenciando que a pessoa foi realmente batizada. Há ainda a prática do batismo público com água como símbolo da conversão da pessoa. A base para a teologia reformada é a procura por uma doutrina sistematizada que tenha aporte bíblico amplo suficiente para tal. Já a base para a teologia pentecostal é a experiência comunitária e individual com o aporte de algumas narrativas bíblicas. Para John Stott (1993, p.12), “A experiência nunca deve ser o critério da verdade; a verdade deve sempre ser o critério da experiência”. O que Stott procura argumentar aqui é uma discussão antiga sobre como determinamos a doutrina do Espírito Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia128 Santo. Melhor explicando, Stott argumenta dizendo que: [...] esta revelação do propósito de Deus na Bíblia deve ser buscada preferencialmente nas suas passagens didádicas, e não nas descritivas. Para ser mais preciso, devemos procurá-la nos ensinos de Jesus e nos sermões e escritos dos apóstolos, e não nas seções puramente narrativas de Atos. O que a Escritura descreve como acontecido a outros não precisa necessariamente acontecer conosco; porém do que nos é prometido devemos nos apropriar, e o que nos é ordenado devemos obedecer (Stott, 1993, p.12). Com isso, não estamos afirmando que as narrativas de experiências do livro de Atos não servem para nada, nem tampouco estamos afirmando que Deus não se revela através delas, o que estamos procurando enfatizar é o que elas nos ensinam e como podemos construir com elas a teologia do Espírito Santo. Conclusão As narrativas do livro de Atos contribuem para a compreensão do EspíritoSanto como o principal propulsor da missão, mas, além disso, são nelas que encontramos o tema do batismo com o Espírito que influenciou diretamente a pneumatologia de algumas tradições pentecostais. O que tentamos demonstrar nessa unidade é que as passagens bíblicas não parecem querer enfatizar as manifestações especiais do Espírito, chamadas de batismo ou de segunda bênção, elas parecem priorizar o cumprimento do mandato evangelístico. O mais importante é o fato das pessoas serem salvas. 129 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 14 O Espírito Santo e a Pessoa I Introdução O Espírito, como representante da manifestação de Deus, relaciona-se com toda a criação. De maneira didática, podemos observar essa relação a partir de três âmbitos interdependentes que são a pessoa, ou o indivíduo, a comunidade em que ele está inserido, particularmente a igreja, e a sociedade e o mundo em geral. Esses âmbitos podem ser entendidos como representações das esferas individual, coletiva e cósmica de ação do Espírito. As unidades que seguem tratarão da relação e ação do Espírito com a pessoa, com a igreja e com o mundo. Objetivos 1) Fundamentar biblicamente a ação do Espírito Santo na dimensão pessoal; 2) Analisar aspectos gerais e específicos sobre a ação do Espírito Santo em relação ao indivíduo e suas consequências. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia130 A ação do Espírito Santo na dimensão pessoal talvez seja o tema mais explorado na pneumatologia prática das diversas comunidades cristãs. Esse aspecto mais intimista e que trata da interioridade ficou bastante conhecido pela temática da chamada espiritualidade. Há muito material publicado sobre o assunto, até mesmo escolas que oferecem programas de estudo dedicados ao seu ensino. Além disso, devemos considerar o recente interesse da sociedade em geral pelas questões místicas de todo tipo. O contexto pós-moderno promoveu uma maior atenção para a espiritualidade ou pelo menos para as realidades que se contrapõem ao objetivismo moderno. A intenção dessa unidade é investigar a doutrina do Espírito Santo em sua relação com a pessoa. Queremos fundamentar biblicamente como se dá a relação do Espírito de Deus com o ser humano. Devemos iniciar este estudo, no entanto, ressaltando que esse tipo de experiência com o Espírito é subjetivo, ou seja, ele é normalmente percebido na individualidade. Quer dizer, por se tratar de algo que acontece e se percebe a partir de cada sujeito, ela traz consigo a dificuldade de ser comunicada e de estabelecer parâmetros doutrinários para todos. Essa é uma das características da experiência da fé. Todos podemos ter uma convicção pessoal, que normalmente é testemunhada aos outros, porém, a verificação dessa experiência, que acontece no interior de cada pessoa, acaba ficando limitada à maneira como nos relacionamos uns com os outros. Em outras palavras, a experiência pessoal de fé com o Espírito é percebida de maneira concreta pelas outras pessoas por meio do nosso comportamento cotidiano nas diversas situações de vida e não por qualquer declaração verbal de que essa relação exista. Assim, alguém pode dizer que tem uma relação pessoal com o Espírito Santo, que acontece no nível da interioridade, mas qualquer outra pessoa só poderá comprovar a existência dessa relação por meio de alguma manifestação externa. A princípio, essa manifestação externa ocorrerá somente quando estivermos nos relacionando uns com os outros. Para melhor entender essa argumentação, antes de tratarmos de qualquer outro efeito da relação do Espírito com a pessoa, vamos investigar aquilo que chamamos de santificação. Esse seria o processo da vivência em si e transformação do indivíduo em seu contato com o Espírito Santo. Podemos antecipar que a santificação está mais voltada 131 para a verificação externa da ação do Espírito em sua relação com a pessoa do que com qualquer efeito na interioridade. 1- A santificação no Antigo Testamento A concepção de ficar santo, ou santo-ficar, possui sua origem no Antigo Testamento e tem relação direta com a convivência com Deus, com o aprendizado de seus mandamentos e a sua prática. Parte do desenvolvimento dessa ideia está registrado no capítulo 19 do livro de Levítico. Ele faz parte daquilo que se chamou de Código de Santidade. Embora encontremos ali uma série de instruções que confundem aspectos culturais e religiosos, talvez ultrapassados para as práticas do Novo Testamento, o importante é entendermos a intenção do texto. Apresento aqui, de maneira resumida, alguns versículos desse capítulo, ressaltando as indicações mais importantes para a argumentação sobre o conceito de santidade: Disse ainda o Senhor a Moisés: “Diga o seguinte a toda comunidade de Israel: Sejam santos porque eu, o Senhor, o Deus de vocês, sou santo. − Respeite a sua mãe e o seu pai; − Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até as extremidades da sua lavoura nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro; − Não furtem; − Não mintam; − Não enganem uns aos outros; − Não jurem falsamente pelo meu nome; − Não oprimam nem roubem o seu próximo; − Não retenham até a manhã do dia seguinte o pagamento de um diarista; − Não amaldiçoem o surdo nem ponham pedra de tropeço à frente do cego; Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia132 − Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam os pobres nem procurem agradar os grandes, mas julguem o seu próximo com justiça; − Não espalhem calúnias no meio do seu povo; − Não se levantem contra a vida do seu próximo; − Não guardem ódio contra o seu irmão no coração; antes repreendam com franqueza o seu próximo para que, por causa dele, não sofram as consequências de um pecado; − Não procurem vingança nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo; − Obedeçam às minhas leis; − Ninguém desonre a sua filha tornando-a uma prostituta; − Levantem-se na presença dos idosos, honrem os anciãos; − Quando um estrangeiro viver na terra de vocês, não o maltratem. O estrangeiro residente que viver com vocês deverá ser tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito; − Não usem medidas desonestas quando medirem comprimento, peso ou quantidade. Usem balanças de pesos honestos, tanto para cereais quanto para líquidos; Obedeçam a todos os meus decretos e a todas as minhas leis e pratiquem-nos. Eu sou o Senhor” (Levítico 19). Muitas pessoas confundem o conceito de santidade, como se ele fosse uma espécie de estado angelical, de pureza, de ausência de pecado, ou ainda algum tipo de moral perfeita determinada pelo cumprimento ou não de uma série de costumes estabelecidos por um grupo. Basta prestarmos atenção àquilo que o texto aponta para entendermos que santidade tem a ver com o cumprimento dos mandamentos de Deus, que possui estreita relação com a Lei Mosaica. Mais do que isso, ela tem direta relação com o conceito de justiça, sua prática e promoção entre o povo de Deus nas relações humanas e sociais. A introdução do texto, ao conclamar o povo a ser santo como 133 Deus, não pressupõe a possibilidade de conseguirmos desenvolver um estado de pureza ou ausência de pecado semelhante à condição divina. Nesse caso, a palavra “santo” ou a expressão “ser santo” deve buscar a tradução representada pela ideia principal da palavra hebraica qadosh que é a de separação de algo daquilo que é comum ou daquilo que é de uso ordinário. Nesse sentido, o povo deve ser “separado” no sentido de ser diferente dos outros povos, assim como Deus é diferente dos outros deuses. O povo de Israel deveria ter uma vida diferenciada dos outros povos, representada pela prática dos mandamentos e da justiça que caracterizavam Javé. Esse éo mesmo princípio que está presente no texto de Êxodo 19:5-6. O que vemos, portanto, no texto de Levítico 19, de maneira muito clara e explícita, muito mais do que uma concentração em aspectos religiosos, é a descrição de uma vida cotidiana que resulta na expressão do amor ao próximo (Levítico 19:18). Não por acaso, essa é a ideia que sintetiza a Lei no ensino de Jesus (Mateus 22:36-40). Esse tipo de vida representa a ordem de ser santo ou o caminho da santificação para o Antigo Testamento. O ser ou ficar santo no Antigo Testamento, contudo, não apresenta uma relação direta com a influência do Espírito de Deus. O que se prevê é a obediência e o cumprimento dos mandamentos sem uma argumentação maior sobre qualquer desenvolvimento no âmbito da interioridade. Trata-se de um esforço da vontade humana para representar de maneira visível e concreta a vida sob o domínio de Deus e de sua Lei. 2- A santificação no Novo Testamento O processo de santificação no Novo Testamento ganha um colorido diferente nas palavras do apóstolo Paulo. Em sua carta aos Romanos, principalmente nos capítulos 7 e 8, ele elabora a dificuldade de se tentar viver de acordo com a Lei, de cumprir cabalmente os seus mandamentos. Paulo constrói a ideia de uma disputa que se passa no interior do ser humano apresentando um processo dialético de influência do Espírito de Deus sobre aqueles que se convertem ao Evangelho. Ele diz: “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16). Essa afirmação é parte de uma argumentação sobre o tipo de vida que manifestamos ao nascermos Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia134 de novo e passarmos a ser direcionados pelo Espírito. A pessoa que é alcançada, encontrada, resgatada ou reconciliada com Deus passa a se relacionar com ele por meio da presença do seu Espírito e sua influência. O que poderíamos arguir é se essa interpretação poderia incluir ou não uma análise semelhante à situação do povo de Deus no Antigo Testamento, ainda que não haja naqueles textos menção explícita do Espírito, como vimos. O raciocínio de Paulo contrapõe duas condutas, uma guiada pelo Espírito e outra guiada pela carne. Ele explica que carne significa a natureza humana dominada pelo pecado. Sua argumentação é longa fazendo um contraste entre o estado humano sob o domínio da lei, da carne e do pecado, e o estado após a libertação da pessoa para uma vida no Espírito. Seu foco não está no aspecto subjetivo da experiência com o Espírito, mas no comportamento e nas ações que praticamos no dia- a-dia. Pensando assim, ele explica: “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e, sim, o que detesto” (Romanos 7:15). Ora, a maneira que temos para escapar dessa situação desagradável, segundo Paulo, é contar com o auxílio e ajuda do Espírito divino: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? [...] Porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 7:24; 8:2). A nova vida no Espírito e esse processo de permanecer sensível à sua condução é o que podemos, então, denominar de santificação. A abordagem paulina difere daquela feita no livro de Levítico apenas no entendimento de que existe uma inerente incapacidade humana de cumprir a Lei por causa do estado de corrupção causado pelo pecado. Por suas próprias forças o ser humano não consegue ser santo. Para isso ele necessita do sopro renovador do Espírito de Deus. Para Paulo, tornar-se santo só é possível por meio da condução do Espírito Santo. Entretanto, o resultado da santificação é o mesmo indicado em Levítico 19, mas para chegarmos a essa conclusão precisamos seguir um raciocínio um pouco mais longo. A contínua transformação da pessoa pelo Espírito é apresentada como uma meta elevada. O que se entende nas Escrituras é que a santificação, sendo iniciada com o novo nascimento, demanda um crescimento pessoal, com a transformação da personalidade e do 135 caráter, tendo como modelo a pessoa de Cristo: • Efésios 4:13 – “até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo”; • Gálatas 4:19 – “Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês”. Outra maneira de entendermos essa ação do Espírito é por meio da metáfora da árvore e dos frutos: • Mateus 7:16-23 – “Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão! Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal!’”; • João 15:1-5 – “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. Vocês já estão limpos, pela palavra que tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto se não permanecerem em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma”. O texto de Mateus, citado acima, está inserido no Sermão do Monte (Mateus 5-7), e a mensagem ali contrasta bons frutos com ações de iniquidade. Interessante notar que as ações de iniquidade podem Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia136 ter a aparência de ações religiosas. Considerando, contudo, toda a mensagem do Sermão do Monte, podemos entender que o tipo de frutos que se espera é descrito como um comportamento ético de alto nível, com a promoção da justiça e do amor. Note a semelhança entre esses princípios e aqueles que estão em Levítico 19. Apresento um resumo ressaltando alguns elementos importantes para essa discussão: Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo: − Bem-aventurados os pobres em espírito, os humildes, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores, os perseguidos por causa da justiça, − Vocês são o sal da terra. Vocês são a luz do mundo. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus. − Qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. − Se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta. − Entre em acordo depressa com seu adversário que pretende levá-lo ao tribunal. − Qualquer que olhar para uma mulher e desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. − Todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério. − Não jurem de forma alguma. Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’. − Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E, se alguém quiser processá-lo e tirar de você a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha,vá com ele duas. 137 − Dê a quem pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir algo emprestado. − Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem. − Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. − Quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita. − Se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também perdoará vocês. Mas, se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não perdoará as ofensas de vocês. − Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões arrombam e furtam. − Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas, se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. − Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro. − Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês. − Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês. − Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? − Toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. − Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. − Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia138 profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal! Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia (Mateus 5-7) Esse resumo ético e comportamental poderia ser sintetizado como a prática de boas obras que, conforme o apóstolo Paulo, é o nosso alvo cristão: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10). Jesus não elabora qualquer influência ou necessidade de auxílio do Espírito para atingirmos aquele patamar de comportamento. Novamente, à semelhança da construção feita no Antigo Testamento, entendemos que a responsabilidade recai sobre cada pessoa e seu esforço em cumprir os mandamentos. Mas retornando ao raciocínio de Paulo, esse entendimento sobre o auxílio do Espírito se torna plausível para o tempo da igreja tendo como referência o seu derramamento do sobre ela. Com base nesse pensamento, então, e usando a mesma analogia, a confirmação da ação do Espírito Santo sobre uma pessoa deve ser verificada pela presença do seu fruto. É também o apóstolo Paulo quem desenvolve essa ideia no capítulo 5 da carta aos Gálatas. Ali ele contrasta o fruto, do Espírito, com as obras da carne, ou seja, as práticas de iniquidade. Seguindo o raciocínio de Paulo, ele nos incita a andarmos no Espírito e a sermos guiados por ele numa resistência, ou militância, constante contra a natureza carnal e seus desejos (Gálatas 5:16-18). Logo a seguir, ele nos apresenta quais são as obras da carne fazendo um contraste com o fruto do Espírito: Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes. Eu os advirto, como antes já os adverti: Aqueles que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei (Gálatas 5:19-23). 139 É interessante perceber que o fruto, que deve brotar naturalmente da convivência e influência do Espírito, é descrito como um elemento único, porém, com várias facetas. Poderíamos fazer uma comparação, por exemplo, com uma tangerina que possui vários gomos. Vemos, então, um único fruto que se expressa por uma ética própria ou que se expressa por um comportamento adequado em relação às outras pessoas: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gálatas 5:22-23). O fruto não parece apontar para benefícios espirituais egocêntricos mas para uma existência que é simpática e agradável aos outros contrapondo-se às ações destrutivas indicadas pelas obras da carne. Olhando por outro ângulo, o fruto seria a descrição do comportamento do próprio Cristo. Conclusão A santificação pode ser entendida como o processo de alcance de um patamar na vida humana que reflita o caráter de justiça e amor de Deus em nossos relacionamentos. A atribuição de responsabilidade na promoção desse alvo, visto a partir do ser humano, pode ser interpretado como um esforço constante em cumprir os mandamentos divinos, controlando desejos e vontades individuais em prol do bem-estar da coletividade. Sabedores da dificuldade que enfrentamos em conseguir deixar em segundo plano nossa tendência egocêntrica destrutiva e darmos vazão a uma atitude de compromisso com a obediência aos mandamentos divinos, nos deparamos com a carência de um auxílio do próprio Deus em nos conduzir por esse caminho. Pensando assim, podemos observar esse auxílio ou influência divina sob dois pontos de vista. O primeiro ponto de vista seria considerar uma atitude mais passiva de nossa parte em que num tipo de ação miraculosa o Espírito de Deus atuaria em nosso interior fazendo-nos cumprir seus mandamentos. Uma objeção quanto a essa perspectiva seria a de admitirmos que isso eliminaria a nossa responsabilidade em relação aos nossos atos e pecados. O segundo ponto de vista seria considerar uma atitude ativa de estarmos atentos ao sopro divino, à sua voz e Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia140 ensino, por meio do conhecimento de sua palavra, já revelada, além de outras disciplinas tais como oração, meditação, etc., com o intuito de cumprirmos os seus mandamentos, e promovermos a sua justiça, e não com o objetivo de nos tornarmos seres imateriais, angelicais, ou “espirituais”, nesse sentido. A ideia de nascermos desse novo vento incluiria uma nova disposição de mente e coração, propositiva, e não somente uma disposição receptiva, embora resida a percepção dessa relação no nível da subjetividade. Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________________________ 141 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 15 O Espírito Santo e a Pessoa II Introdução Continuando o estudo da relação do Espírito Santo com a pessoa, ou seja, sua ação na esfera subjetiva, esta unidade tratará de outros aspectos que vão além da santificação e do fruto do Espírito, assuntos que foram tratados na unidade anterior. Nossa atenção agora estará voltada para algumas indicações bíblicas que a tradição evangélica tem lidado como referentes à área da espiritualidade. Objetivos 1) Fundamentar biblicamente a ação do Espírito na dimensão pessoal; 2) Analisar aspectos gerais e específicos sobre a ação do Espírito em relação ao sujeito e seus desdobramentos. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia142 Após termos estudado aquilo que chamamos de processo de santificação, que ocorre como consequência da relação do Espírito Santo com a pessoa que foi alcançada pelo Evangelho, e de comentar sobre a expectativa da presença do fruto do Espírito na vida e caráter do cristão, agora voltaremos nossa atenção para outros conteúdos que dizem respeito ainda a essa influência no nível subjetivo. Mais especificamente, queremos refletir sobre o que se convencionou chamar de espiritualidade e que, particularmente, prefiro denominar interioridade. A primeira dificuldade em lidar com esse tema está na pouca fundamentação e elaboração teológica advinda de textos bíblicos. A segunda dificuldade está na compreensão que podemos vir a ter sobre a pessoa humana no que se refere à sua constituição. Apesar da tradição, que a maioria dos evangélicos tem, em pensar a pessoa humana de forma dicotômica ou tricotômica, sendo composta de partes, em possíveis combinações entre corpo, alma, espírito, mente, coração, etc., tentarei elaborar alguma ideia sobre a espiritualidade a partir de uma concepção integral do ser humano, porém, focado no aspecto de sua interioridade ou de seu íntimo. O que denomino aqui de interioridade são os aspectos relativos ao pensamento, consciência, sentimento, raciocínio, vontade, etc. 1- Espiritualidade e carnalidade Embora a espiritualidade possa ser entendida mais comumente como a relação entre o Espírito de Deus e o espírito humano, essa não é uma concepção bíblica. A palavra espiritualidade não aparece na bíblia e nem tampouco essa limitação de se pensar um canal único em que a relação com Deus seja estabelecida. A maior dificuldade, no entanto, é o de se perceber ou caracterizar o que vem a ser o espírito humano. Na maioria das vezes em que tentamos explicá-lo acabamos circunscritos a definições que coincidem com as esferas da emoção, raciocínio, consciência, intuição ou outras semelhantes. Isso sem mencionar a confusão que fazemos entre o espírito e o que denominamos como alma, mente, coração, etc. O apóstolo Paulo ensina a igreja sobre algo que se aproxima 143 do tema da espiritualidade, que nos ajudaria a especificar melhor o que estou tentando argumentar. Para ele, existem apenas dois modos de vida para o ser humano. O primeiro modo é aquele a que todos os humanos estão submetidos, involuntariamente, quando vêm à existência pelo nascimento natural biológico. Esse modo é denominado por Paulo como carnal. O segundo modo é aquele que acontece às pessoas quando são reconciliadas com Deus pelo novo nascimento. Esse novo nascimento se dá por um sopro renovador do Espírito de Deus e, assim, essa pessoa agora é espiritual. Para sustentar esse raciocínio, seguem alguns textos: • Romanos 7:14, 22-23; 8:8-9 – “Sabemos que a Lei é espiritual; eu, contudo, não o sou, pois fui vendido como escravo ao pecado [...] No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros [...] Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus. Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo”; • 1 Coríntios 3:1-3 – “Irmãos, não pude falar a vocês como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo. Dei a vocês leite, e não alimento sólido, pois vocês não estavam em condições de recebê-lo. De fato, vocês ainda não estão em condições, porque ainda são carnais. Porque, visto que há inveja e divisão entre vocês, não estão sendo carnais e agindo como mundanos?”; • Gálatas 5:16-17, 24-25 – “Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne. Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam [...] Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos. Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito”. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia144 Desde de outra perspectiva ainda, temos o diálogo de Jesus com Nicodemus, conforme registrado por João: Respondeu Jesus: “Digo a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito. O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo” (João 3:5-7). Com base nesse raciocínio, a primeira forma de vivência seria experimentada, toda ela, na carnalidade, usando aqui um substantivo para a sua designação. Já a segunda forma seria vivenciada, então, na espiritualidade. A carnalidade seria a via de expressão daqueles que não nasceram de novo. A espiritualidade seria a via de expressão daqueles que experimentaram o novo nascimento, ou seja, para esses a totalidade da vida é espiritual, como vemos nos textos bíblicos. Teríamos, portanto, dois modos de vida possíveis para o ser humano: o modo da carnalidade ou o modo da espiritualidade. Seguindo esse argumento, a espiritualidade não seria algo restrito a uma área, parte, ou âmbito específico do ser humano que designamos por espírito, mas estaria atrelada à totalidade de sua vida, que incluiria as outras áreas que compõem essa totalidade. A espiritualidade, assim, estaria além do interior ou do íntimo humano, aliás se ela não abarcar a vida em sua completude e complexidade ela perde o seu sentido. Perceba que essa maneira de enxergarmos a espiritualidade concorda com o conceito de santificação. Assim como a santificação não se concretiza na interioridade, a espiritualidade também não. Podemos até defender que existe um processo interior de mudança que afeta a nossa mente, intelecto, vontade, caráter, etc. causado pelo o que chamamos de novo nascimento e promovido pelo vento de Deus, ou seja, o seu Espírito. O resultado, no entanto, desse processo não é uma vida íntima restrita à individualidade ou à promoção do indivíduo. O resultado é uma vida humana melhor em tudo o que a compõe, principalmente na demonstração do amor e da justiça de maneira coletiva, pois, é nessa esfera social que efetivamente vivemos. É claro que não podemos nos esquecer da guerra que ocorre em nosso interior entre essas as duas naturezas humanas, uma tentando uma suplantar a outra, conforme indicada no texto de Romanos. Mas para melhor entender essa questão trataremos especificamente dela a seguir. 145 2- Desenvolvimento da espiritualidade Tomando por base, então, a teologia desenvolvida pelo apóstolo Paulo no livro de Romanos, esta indica um permanente embate entre a natureza carnal, afeita ao pecado, e a natureza espiritual, afeita à justiça. Nas palavras de Paulo, esse estado é descrito como uma guerra que pode pender mais para um lado que para o outro dependendo de como contribuímos para esses dois estados ou duas naturezas. Usando outras expressões bíblicas que apontam na mesma direção, sugerimos que existe a possibilidadede desenvolvermos, melhorarmos ou aperfeiçoarmos a nova vida do ser espiritual, ou seja, a espiritualidade. Por assim dizer, o novo nascimento deve ser acompanhado por um esforço consciente de mudança de atitudes, hábitos, comportamentos, raciocínios, etc. Se nos deixarmos levar pelos desejos, paixões e sentimentos próprios da natureza humana caída e egoísta, a consequência será aquela já descrita por Paulo no texto de Gálatas 5, mencionado acima. Para reagirmos a essa tendência natural, devemos contribuir para que haja mais espaço e controle da nossa vida por aquilo que é próprio do Espírito Santo de Deus. Essa dinâmica é indicada por Paulo, por exemplo, na carta aos Efésios: Todavia, não foi isso que vocês aprenderam de Cristo. De fato, vocês ouviram falar dele, e nele foram ensinados de acordo com a verdade que está em Jesus. Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade. Portanto, cada um de vocês deve abandonar a mentira e falar a verdade ao seu próximo, pois todos somos membros de um mesmo corpo. “Quando vocês ficarem irados, não pequem”. Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha e não deem lugar ao Diabo. O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade. Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem. Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, com o qual Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia146 vocês foram selados para o dia da redenção. Livrem-se de toda amargura, indignação e ira, gritaria e calúnia, bem como de toda maldade. Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo (Efésios 4:20-32). A argumentação de Paulo parte da proposta de uma renovação no modo de pensar para conseguirmos nos despir da velha natureza carnal. Outra versão procura ser um pouco mais precisa na tradução do texto grego, no qual lemos a expressão “modo de pensar”, trazendo a opção “espírito do entendimento” ou “espírito da mente” (pneumati tou noos). É interessante que Paulo junta, didaticamente, duas expressões da interioridade humana que temos o costume de tratar como distintas e, talvez, independentes. Seguindo o princípio da integralidade, ou seja, de que Paulo não está lidando com duas coisas separadas, espírito e mente, mas está tentando indicar um caminho para a nova vida em Cristo, ele propõe que essa renovação se dá seguindo a justiça (dikaiosune) e a santidade (osioteti) procedentes da verdade (aletheias). Renovar o espírito do entendimento é, assim, racionalmente, optar por um caminho de vida que expresse verdadeiramente justiça e santidade ou retidão. O termo santidade aqui segue o mesmo princípio, já desenvolvido anteriormente, sobre a santificação. Observe que o apóstolo Paulo não usa esses conceitos de forma abstrata. Ele constrói o seu raciocínio da seguinte forma: deixar para trás o modo de vida da carnalidade, desenvolvendo a espiritualidade, se dá pela renovação da maneira de pensar, optando por seguir um caminho de justiça e santidade, de forma prática, tendo um comportamento adequado em relação às pessoas que nos cercam, aqueles que estão próximos. Isso ocorre de maneira prática, falando a verdade, não odiando, não furtando, não falando de maneira que fira ou machuque, não se amargurando, não se enraivecendo, não ficando de choradeira, não difamando e não maliciando. Mas, com o intuito de deixar seu ensino claro, ele propõe as ações positivas que expressam a espiritualidade, ou seja, a vida sob a condução do Espírito. Aquele que é espiritual deve trabalhar fazendo algo útil e repartir o fruto do seu trabalho com os outros, deve edificar a vida dos seus irmãos, ser bondoso, compassivo e pronto para perdoar. 147 Paulo usa uma linguagem simbólica em seu texto para se referir ao Espírito em função do comportamento humano. Aplicando uma expressão que designa pessoalidade, conforme já explicado em outra unidade, ele diz que as ações negativas no trato com o outro entristecem o Espírito. Essa maneira simbólica de expressar um distanciamento do padrão de comportamento esperado por Deus é ampliada no capítulo seguinte de Efésios quando Paulo comenta sobre o caminho oposto. Ali, usando outra expressão simbólica, ele propõe o enchimento do Espírito: Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios, aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus. Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor. Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre vocês com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor, dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Sujeitem- se uns aos outros, por temor a Cristo (Efésios 5:15-21). Paulo complementa o seu raciocínio afirmando que está tratando de uma nova maneira em que devemos nos esforçar por viver, caminhar ou andar na vida. De um lado há a caminhada dos tolos, insensatos, que enfrentam a vida por meio do entorpecimento. A embriaguez é uma forma de fuga da realidade muito própria do comportamento humano que representa a sua carnalidade ou o domínio do pecado e distanciamento de Deus. Na embriaguez perdemos a noção do ambiente e das pessoas que nos cercam e queremos atribuir a responsabilidade de nossas más ações ao entorpecente. Devemos entender a embriaguez não apenas relacionada ao uso de entorpecentes, mas sim relacionada com todos os tipos de fugas e desculpas que usamos para justificar nossas atitudes que ferem os outros. O outro caminho de vida é aquele representado pela busca de proximidade e plenitude ao tentar andar sob a orientação divina. Isso se dá no esforço por preencher suas mentes e vidas com uma atitude de louvor, gratidão e glorificação a Deus, com a simultânea Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia148 autossujeição entre os membros da comunidade da fé. Observe que Paulo usa termos relacionados ao uso da razão: insensatos (asofoi – não-sábio), sábios (sofoi) e novamente insensatos (afrones – tolos). Esse texto ainda que pareça mais abstrato que o anterior deve ser lido conjuntamente, pois, faz parte da mesma carta e ensino do apóstolo. A ideia de enchimento do Espírito está em contraponto ao estado de embriaguez. Se a embriaguez seria a perda do senso, do controle da razão e da ação, o enchimento do Espírito representaria o bom uso da razão e da sabedoria. Vale o alerta de que em nossa maneira contemporânea de enxergarmos a espiritualidade, especialmente nas igrejas, talvez tenhamos enfatizado mais as chamadas disciplinas espirituais clássicas do que as questões éticas, comportamentais, racionais e sociais. Embora o texto citado fale de salmos, louvores, hinos e cânticos, como uma maneira de nos enchermos do Espírito, eles não são a única via. Acostumamo-nos a pensar que a espiritualidade é desenvolvida com a meditação, oração, jejum, estudo, simplicidade, solitude, submissão, serviço, confissão, adoração, orientação e celebração, citando aqui as disciplinas indicadas por Richard Foster (1983), mas nos esquecemos de elaborá-la a partir da atitude na vida em sociedade, que prevê as outras ações também mencionadas por Paulo no livro de Efésios. Não estamos diante de um caso de escolha de caminhos auto- excludentes, muito pelo contrário, eles se complementam. Tanto as disciplinas que focam o aspecto mais interior e individual da vida quanto as disciplinas que focam o aspectomais exterior e comunitário são importantes. Ambos os âmbitos fazem parte da vida do ser espiritual, daquele que foi regenerado e é agora responsável por levar a mensagem do evangelho de Cristo adiante. Ambos os âmbitos precisam ser desenvolvidos, isso sem falar em outros que vão além da individualidade e afetam a nossa vida comunitária tais como os âmbitos político, econômico, ecológico, etc. 149 Conclusão Se considerarmos tudo o que foi desenvolvido até aqui sobre o entendimento da relação do Espírito com a pessoa, podemos concluir que a nova forma de vida espiritual engloba a totalidade da vida humana, observada a partir dos padrões divinos que dignificam a existência e promovem a justiça e a retidão. Embora haja uma tendência para o foco na interioridade e algumas práticas específicas, a espiritualidade, no entanto, prevê o desenvolvimento de todas os âmbitos que circunscrevem a vida humana. Arrisco dizer que quanto mais espiritual uma pessoa for, mais humana ela será, pois foi assim que Deus a criou. Deus não nos fez seres angelicais, imateriais, para vivermos em uma região celestial. Ele nos fez humanos para vivermos sobre a terra e convivermos uns com os outros e com a natureza, em harmonia, em equidade, em justiça e em amor. Portanto, quanto mais próximos nos tornamos de Deus, quanto mais cheios e conduzidos por seu Espírito, mais próximos estaremos da condição humana e mais sensíveis a cumprirmos esse propósito de vida. Referências FOSTER, Richard. Celebração da disciplina: o caminho do crescimento individual. Deerfield: Vida, 1983. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia150 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 151 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 16 O Espírito Santo, a Igreja e o Mundo Introdução Continuando a análise das relações estabelecidas entre o Espírito Santo e a criação como um todo, após analisarmos a esfera de atuação no nível da individualidade, nesta unidade focaremos a sua atuação na coletividade. No título da unidade priorizamos o foco na igreja por entendermos que esse é o principal ambiente coletivo de que tratam os textos bíblicos, obviamente, considerando a teologia mais ampla do povo de Deus. A seguir, olharemos para a sua atuação em relação ao cosmos. Nossa intenção é explorarmos a relação do Espírito Santo com a natureza, ou seja, com aquilo que está além dos seres humanos ou aquilo que forma o seu habitat. Objetivos 1) Fundamentar biblicamente a ação do Espírito Santo na dimensão coletiva e cósmica; 2) Analisar aspectos gerais e específicos sobre a ação do Espírito Santo em relação à igreja, ao mundo em geral e suas consequências. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia152 As unidades anteriores trataram da relação do Espírito Santo com a pessoa, que na teologia evangélica ocidental recebe mais atenção que as dimensões coletiva e cósmica. Entretanto, ao observarmos biblicamente a doutrina do Espírito, verificamos que a dimensão coletiva parece ter predominância sobre a dimensão pessoal. A questão é que a cultura ocidental, individualista, acaba por influenciar a nossa maneira de ler e interpretar o texto bíblico, além de influenciar a construção teológica e de vivência prática da fé nas comunidades locais. A tese que estou levantando aqui se comprova ao olharmos para o projeto de Deus em se fazer representar diante da humanidade por meio de um povo separado para essa finalidade. Mesmos os personagens bíblicos, que podem ser analisados como indivíduos, estão inseridos nesse projeto maior do povo escolhido. Eles se tornam coadjuvantes de um roteiro mais amplo. Começando a história do povo de Deus com o chamado de Abraão, vemos que a sua vocação não é para uma experiência individualista com Deus e sim para um vasto projeto coletivo: Então o Senhor disse a Abrão: “Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados (Gênesis 12:1-3). Em contraposição ao indivíduo Abrão, o texto menciona que o objetivo do chamado está na sua posteridade como nação e que será exatamente por meio dessa expressão coletiva que todos os povos da terra serão abençoados. A ideia não é que o indivíduo Abrão abençoe todas as famílias da terra em uma jornada pessoal, mas que os seus descendentes, formando um povo, na sua vivência coletiva, concretize essa bênção. E de que maneira isso ocorrerá? A intenção de Deus aponta para a formação de um protótipo de sociedade justa, que manifeste a sua glória, para toda a humanidade. O projeto inicia-se com Abraão e seu clã, passando pela constituição da liga das doze tribos, até a formação da nação de Israel. É na formação do povo de Israel, tendo como elemento aglutinador 153 a fé monoteísta em Javé, estabelecida na aliança sinaítica e balizada pela Lei mosaica, que encontramos o primeiro conceito de santidade ou santificação: “vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Êxodo 19:6). Ao mesmo tempo em que a santidade envolve uma separação do uso comum para uma finalidade específica, ela também exige um comportamento adequado a essa condição de permanente contato com o Deus de justiça. Daí a expressão complementar: “[...] Sejam santos porque eu, o Senhor, o Deus de vocês, sou santo” (Levítico 19:2). Como vimos, o capítulo 19 do livro de Levítico irá tratar de um comportamento ético coletivo que exprime o que significa santidade ou ser santo. Pensando assim, a santificação da pessoa ou do indivíduo perde o seu valor se ela não for aplicada às relações com as outras pessoas. Em outras palavras, a santificação individual ocorre em um ambiente coletivo em que Deus se faz presente. No Antigo Testamento isso deveria se dar pelo povo de Israel, já no Novo Testamento isso se expande para a igreja, o novo Israel de Deus. Seguindo esse raciocínio, é a igreja o grande alvo da santificação, mas para que isso aconteça os seus membros vão sendo individualmente santificados por meioda vida coletiva como na metáfora da árvore e de seus ramos. O alvo da santificação não é um galho isolado da videira e sim todos, simultaneamente, na medida em que permanecem ligados ao tronco que é Cristo. Portanto, o resultado da santificação coletiva deveria ser a produção de um ambiente agradável e atrativo à sociedade. A união de pessoas diferentes, com base no vínculo de amor, vivendo uma vida santa, torna-se a pregação viva do Evangelho: “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13:35). 1- A santificação, a coletividade e os dons Outro aspecto bastante explorado na pneumatologia prática das igrejas são os dons do Espírito. Embora também possam ser vistos de maneira individualista, no sentido da busca de cada um pela habilidade dispensada pelo Espírito e o espaço para que ela possa ser expressa, toda a construção dessa teologia passa por um aspecto essencialmente Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia154 coletivo que é o Corpo de Cristo. O foco principal dos dons não é a manifestação do poder de Deus, nem muito menos a comprovação da espiritualidade dos indivíduos à medida que eles os manifestam. O foco principal é a edificação coletiva do próprio povo. Os dons têm uma finalidade coletiva e não individual. É importante notar que, ao introduzir o tema dos dons do Espírito, o apóstolo Paulo estabelece um pano de fundo, um ambiente, princípios que norteiam como eles devem ser exercidos: • Efésios 4:1-6, 11-12 – “Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam comple- tamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos [...] E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelis- tas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado”. • 1 Coríntios 12:4, 12-13, 20 – “Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo [...] Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cris- to. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito [...] Assim, há muitos membros, mas um só corpo”. A primeira característica desse ambiente é o que poderíamos denominar de santidade, descrita no texto de Efésios como viver de maneira digna, vivenciando a humildade, a docilidade, a paciência, servindo de suporte para as pessoas e fazendo um esforço por manter a unidade e paz na comunidade. O próprio tema da unidade torna-se a segunda característica do ambiente onde se inserem os dons. Tanto o texto de Efésios quanto o de 1 Coríntios exploram essa ideia com as expressões “um” e “um só”. A principal mensagem é que, embora haja 155 muitas pessoas, com diferentes habilidades ou dons, caso não ocorra a unidade de pensamento, sentimento e propósito, tudo será em vão. A unidade é produzida pelo próprio Espírito. Ela é a prerrogativa para a distribuição do poder de Deus, por meio dos dons, aos membros do Corpo de Cristo. Isso nos leva, portanto, a refletir se por acaso é possível que o Espírito que intermedia a unidade esteja presente em ocasiões em que parece haver a manifestação dos dons, mas não se percebe essa unidade ou não se percebe o ambiente de santidade conforme descrito acima. Os dons, então, não são instrumentos de poder próprio, para a manipulação de pessoas ou para angariar benefícios individuais. Não há espaço para a arrogância, soberba, discriminação, opressão ou qualquer outra postura que não considere a interdependência e unidade em prol da coletividade. Maior cuidado, portanto, deve haver por parte daqueles que exercem os dons mais proeminentes ou que ficam responsáveis por uma função de liderança, pois, esses são os que sofrem a maior tentação em priorizar a individualidade em detrimento do todo. Os dons devem ser entendidos como a expressão da multiforme sabedoria de Deus e de sua bondade na intenção de aperfeiçoar a coletividade do povo para que este o represente diante do mundo de maneira digna e viva como exemplo de humanidade e de justiça. Um corpo saudável, que viva harmoniosamente e que demonstre, na prática, o amor de Deus, é a maior expressão da presença e influência do Espírito Santo sobre a igreja, apontando para o projeto que Deus tem para a humanidade. Por essa razão, a igreja não pode ser um organismo estático. Ela deve estar em movimento constante buscando alcançar todos os seres humanos, onde quer que se encontrem. Daí a sua vocação missionária. 2- O Espírito nos confins da terra De certa forma, talvez influenciados pela proximidade que desenvolvemos com a vivência religiosa e com as temáticas teológicas, podemos ter a noção equivocada de que o Espírito de Deus está restrito ao ambiente da igreja. Às vezes podemos chegar ao absurdo de pensarmos que controlamos o Espírito com nossos malabarismos Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia156 religiosos. O fato é que o Espírito de Deus é livre e sequer nos avisa o que pretende fazer ou em que está envolvido, caso contrário, ele não seria a expressão do próprio Deus. O Espírito que pairava sobre o caos dando início ao processo de criação do universo é o mesmo que paira sobre o mundo de hoje em sua sustentação: • Salmo 65:5-10 – “Tu nos respondes com temíveis feitos de justiça, ó Deus, nosso Salvador, esperança de todos os confins da terra e dos mais distantes mares. Tu que firmaste os montes pela tua força, pelo teu grande poder. Tu que acalmas o bramido dos mares, o bramido de suas ondas, e o tumulto das nações. Tremem os habitantes das terras distantes diante das tuas maravilhas; do nascente ao poente despertas canções de alegria. Cuidas da terra e a regas; fartamente a enriqueces. Os riachos de Deus transbordam para que nunca falte o trigo, pois assim ordenaste. Encharcas os seus sulcos e aplainas os seus torrões; tu a amoleces com chuvas e abençoas as suas colheitas”; • Isaías 40:21-26 – “Será que vocês não sabem? Nunca ouviram falar? Não contaram a vocês desde a antiguidade? Vocês não compreenderam como a terra foi fundada? Ele se assenta no seu trono, acima da cúpula da terra, cujos habitantes são pequenos como gafanhotos. Ele estende os céus como um forro e os arma como uma tenda para neles habitar. Ele aniquila os príncipes e reduz a nada os juízes deste mundo. Mal eles são plantados ou semeados, mal lançam raízes na terra, Deus sopra sobre eles, e eles murcham; um redemoinho os leva como palha. ‘Com quem vocês vão me comparar? Quem se assemelha a mim?’, pergunta o Santo. Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou tudo isso? Aquele que põe em marcha cada estrela do seu exército celestial, e a todas chama pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão imensa a sua força, que nenhuma delas deixa de comparecer!”. Vale a pena ressaltar algumas expressões e ideias contidas nesses textos. No Salmo 65 lemos que Deus firma os montes, acalma o bramido dos mares, rega a terra, prepara o trigo e abençoa a produção. Já em Isaías 40, lemos a imagem simbólica de um Deus que se assenta sobre o planeta, faz do céu a sua habitação, conhece cada estrela e 157 exerce controle sobre os dominadores e líderes humanos. Entendemos, assim, que o sustento e governo do mundo são expressões da graça e da misericórdia de Deus que tem no amor salvífico pela humanidade o seu alvo maior (João 3:16). Por essa razão, o envio do Espírito buscaimplementar essa missão em todos os cantos e limites do mundo: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (Atos 1:8). Nesse sentido, é o Espírito que toma a dianteira, a iniciativa de ir adiante, de ir à frente do seu povo e não o contrário. Deus não segue a agenda e o planejamento da igreja. É a igreja que deve estar atenta à voz de Deus e a seus planos para se dispor a seguir e obedecer. Esse raciocínio é atestado pelo princípio da condução do povo no deserto: • Êxodo 13:21-22 – “Durante o dia o Senhor ia adiante deles, numa coluna de nuvem, para guiá-los no caminho, e de noite, numa coluna de fogo, para iluminá-los, e assim podiam caminhar de dia e de noite. A coluna de nuvem não se afastava do povo de dia; nem a coluna de fogo, de noite”; • Números 9:17 – “Sempre que a nuvem se levantava de cima da Tenda, os israelitas partiam; no lugar em que a nuvem descia, ali acampavam”. O Espírito Santo não está restrito aos ambientes eclesiásticos. Ele não depende da igreja para agir, mas a usa como instrumento. Assim, a igreja precisa desenvolver a sensibilidade de perceber a orientação do Espírito e segui-lo. Algo semelhante ao que aconteceu com Pedro em relação aos gentios relatado em Atos 10 e com Paulo em relação aos macedônios relatado em Atos 16. 3- O Espírito e a natureza Obviamente todo o nosso estudo teológico só faz sentido quando abordado a partir da perspectiva do ser humano. Embora esse seja o foco principal, podemos cometer o engano de olharmos apenas para o ser humano e nos esquecermos de que a sua existência está, de maneira indissociável, ligada ao meio ambiente onde habita. Não é possível a vida humana no vácuo. O ser humano só consegue viver Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia158 em determinadas condições de temperatura e pressão, dependente do oxigênio e de certos alimentos, isso sem mencionar as suas necessidades relacionais e afetivas. Essa consideração deveria ser óbvia para a maioria de nós ao nos depararmos com o relato da criação presente no livro de Gênesis. O processo criativo de Deus é relatado de maneira detalhada apresentando o estabelecimento do ambiente em que o ser humano irá desenvolver a sua existência. Proporcionalmente, são cinco dias dedicados à criação do cosmos e um dia dedicado à criação do ser humano. Outra forma de encararmos o fato de que o ambiente onde vivemos é um elemento essencial em nossas construções teológicas é, ainda no contexto da criação, vermos o destaque dado ao jardim do Éden e o mandamento dado ao ser humano para que cuidasse dele: “Ora, o Senhor Deus tinha plantado um jardim no Éden, para os lados do leste, e ali colocou o homem que formara [...] O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo” (Gênesis 2:8, 15). É com base nessas prerrogativas que queremos analisar a relação que há entre o Espírito Santo e o cosmos, entre o Espírito de Deus e a natureza criada. Essa abrangência de ação do Espírito pressupõe a preocupação com as questões ecológicas e de sustentabilidade. Certamente esse não era um tema presente na agenda teológica dos autores bíblicos por causa do contexto específico em que viviam, no entanto, temos indícios suficientes para concluirmos que ele deve estar em nossa proposta de ação missiológica. • Salmo 8:3-9 – “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste: todos os rebanhos e manadas, e até os animais selvagens, as aves do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre as veredas dos mares. Senhor, Senhor nosso, como é majestoso o teu nome em toda a terra!”; • Salmo 50:10-11 – “pois todos os animais da floresta são meus, como são as cabeças de gado aos milhares nas colinas. Conheço todas as aves dos montes e cuido das criaturas do campo”; 159 • Mateus 6:26-30 – “Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas? Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? “Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?”; • Romanos 8:18-23 – “Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada. A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo”. O que observamos nesses textos, além da obviedade da criação sendo originada em Deus, é que ele delega a responsabilidade de domínio sobre a natureza ao ser humano. Não podemos pressupor que esse domínio seja exercido de qualquer maneira, pois não só a criação é vista como algo bom, como também ela continua sendo cuidada concomitantemente por Deus. Por causa da situação de pecado que sujeitou a natureza a uma condição agonizante, ela também se tornou alvo da restauração escatológica promovida por Deus. Por isso, assim como pregamos, vivenciamos e agimos fundamentados nessa esperança em função do resgate do ser humano, também devemos nos envolver na mesma proporção com a natureza que serve como nosso habitat. E isso deve se dar com a mesma capacitação do Espírito Santo. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia160 Conclusão Vimos que a pneumatologia considera uma grande esfera de atuação do Espírito de Deus, tão grande quanto ele próprio. O Espírito perpassa âmbitos individuais, coletivos e cósmicos como o vento divino sempre presente. É na consideração de sua eficaz ação criadora do cosmos que entendemos que ele se relaciona com o mundo em sua sustentação e cuidado, requerendo do ser humano a mesma atitude e consequente responsabilidade por seus atos e cumprimento da missão em toda a criação. 161 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________alta dedica-se à reflexão da divindade da pessoa de Jesus. No início da igreja, a abordagem foi prioritariamente, se não exclusiva, de ordem filosófica. Os pais da igreja, de origem e formação cultural helênica se debruçaram sobre a discussão da divindade de Cristo. Daí o uso do conceito de Logos pelo apóstolo João que parece fazer uma tentativa de imersão naquela cultura (João 1:1). “No princípio era aquele que é a Palavra (logoj – logos). Ele estava com Deus, e era Deus”. O Logos era para os gregos a fonte suprema do conhecimento e origem das coisas. Usando esse princípio, João o identifica com Jesus, ou seja, ele constrói uma ponte entre o conhecimento judaico-cristão e o grego, afirmando sua divindade. O grande problema, no entanto, era fazer a aplicação dos conceitos filosóficos, das expectativas culturais e dos dogmas teológicos para a realidade da pessoa humana e histórica de Jesus. Mais que isso, não apenas estavam tratando de uma pessoa, porém, naquele momento, alguém que já estava morto. O apóstolo Paulo, sendo judeu, conseguiu lidar com esse dilema por meio da experiência que teve com o Cristo ressurreto. A sua aceitação de Jesus como o Messias e como ser divino se deu a partir da visão que teve na estrada para Damasco (Atos 9:1-9). Ele viu aquele que havia sido morto falando com ele, vivo. Mas para os novos cristãos do império romano, em tempo posterior, que não foram testemunhas oculares da vida e ministério de Jesus, nem tampouco possuíam a tradição judaica, o caminho foi a discussão filosófica. Algumas elaborações, então, surgiram na tentativa de explicar a natureza divino-humana do Cristo, ou mais que isso, a de afirmar Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia16 ou não a sua divindade. Uma delas foi denominada docetismo, do grego dokeo (δοκέω), que significa aparência. Essa corrente filosófica defendia que Jesus era totalmente divino e que em sua vida terrena ele teria apenas uma aparência humana permanecendo, portanto, ainda completamente divino. Algo semelhante às teofanias do passado. Os cristãos que propunham essa explicação eram do círculo helênico, fortemente influenciado pelo pensamento gnóstico, que priorizavam e valorizavam, de maneira dicotômica, o mundo imaterial em detrimento do mundo material, ou seja, para eles, afirmar a humanidade de Jesus era, de certa forma, diminuí-lo. Outra corrente foi denominada modalismo, cuja intenção era explicar o ser divino, incluindo Cristo, na formulação da Trindade. O modalismo afirmava que a autorevelação divina se dava em três modos e tempos distintos. De forma resumida, essa corrente defendia que Deus havia se revelado no Antigo Testamento como um ser único e conhecido como Javé, ou o Pai. Já no Novo Testamento encontramos Deus manifestado como Jesus de Nazaré e após a sua morte e ressurreição como o Espírito Santo. Assim sendo, Deus se manifestou de três modos distintos ao longo da história, ora como Pai, ora como Filho, ora como Espírito Santo. Essa opção teológica nega a encarnação ou a humanidade de Jesus. Como apenas um modo de ser Deus, Jesus seria totalmente divino e não teria nada de humano. Ainda outra corrente, que ficou conhecida como ebionismo ou ebionitismo, do hebraico ebioni (ynEyOb>a_______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia162 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________esvaziado de sua divindade. Assim sendo, cabe investigarmos esse outro lado da pessoa de Cristo, que é tratado pela cristologia baixa. 2- Cristologia baixa A cristologia baixa se dedica à reflexão sobre a humanidade de Cristo. Diferente do momento histórico dos primeiros concílios da igreja, que se preocuparam com a divindade de Jesus, a cristologia baixa tomou grande força após o iluminismo influenciar o campo da Teologia com as ciências humanistas. Alguns estudiosos procuraram isolar o “Jesus Histórico” do “Cristo da Fé”. Para alguns teólogos, o 19 Jesus Histórico seria o judeu nazareno nascido do casal Maria e José, puramente humano. Já o Cristo da Fé seria uma construção posterior dos discípulos do mestre Jesus que tomaram para si uma dimensão maior da representatividade do seu exemplo e ensinos, construindo uma imagem divinizada que teria sido perpetuada pela igreja. Esse tipo de argumento ou desconstrução da figura do Cristo bíblico foi baseado em critérios literários, por vezes arbitrários, mas principalmente pelo entendimento cartesiano, racionalista, objetivo e mecanicista das filosofias iluministas. Talvez o processo mais conhecido dessa abordagem cristológica seja a demitologização, proposta por Rudolf Bultmann, esvaziando o sentido milagroso e sobrenatural dos relatos bíblicos referentes a Jesus. Para ele, o nascimento virginal, seus milagres e até a ressurreição seriam construções teológicas mitológicas sem comprovação científica e, portanto, válidas apenas para a comunidade de fé. Deixando de lado esses aspectos mais críticos do desenvolvimento da cristologia baixa, devemos ressaltar a importância da perspectiva da humanidade de Cristo para a vivência da fé. É exatamente na humanidade de Jesus que temos a possibilidade de nos aproximar dele como o modelo ideal para a vida humana. Jamais poderíamos fazê-lo caso o referencial fosse estabelecido a partir de sua divindade, mas sendo ele humano, temos a possibilidade de imitá-lo, como indica o apóstolo Paulo (1 Coríntios 11:1). Nesse sentido, a construção de uma teologia bíblica torna-se mais factível dado o volume de textos que se referem à vida e ministério de Jesus, principalmente nos evangelhos. De certa forma, entendendo que o Cristo também é o cumprimento daquilo para o qual Antigo Testamento apontava em sua intencionalidade de elaboração de uma vivência ideal para o povo de Israel, acabamos por ter um horizonte mais amplo de investigação incluindo esses textos. Como afirmou Jesus, “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir” (Mateus 5:17). Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia20 Conclusão O mistério de Jesus Cristo como Deus-homem carrega ainda outro importante aspecto que não podemos relegar. Esse aspecto é a função reveladora de Jesus, como atesta Hebreus 1:1-2. Jesus, sendo a expressão exata de Deus quebra um paradigma histórico e teológico, até então em vigor para o mundo judeu, que apontava para um Deus distante e inacessível. O Cristo encarnado aproxima Deus da humanidade. Ele passa a ser o Emanuel, Deus conosco, amoroso, cuidadoso, que não apenas conhece a condição humana, mas a vive de maneira integral. Ao lidarmos com esse dilema da divindade e humanidade de Cristo e tentarmos elaborar as teologias alta e baixa, devemos ter em mente o contexto da igreja. As nossas expressões de fé, principalmente aquelas representadas pelo culto e sua liturgia, bem como outras expressões corriqueiras, parecem não apresentar grandes problemas na compreensão da divindade de Cristo. Pelo contrário, historicamente, a igreja cristã se desenvolveu com esse dogma desde muito cedo. Não temos qualquer crise ou dúvida na prática da adoração e atribuição de poder cósmico a Cristo, até mesmo por causa da elaboração de sua presença viva ao lado do Pai nos céus. A cristologia alta parece ser a grande ênfase do cristianismo na maioria de suas expressões até mesmo na tentativa de diálogo com outras religiões. Por outro lado, arrisco dizer que a cristologia baixa não recebe a mesma atenção por parte da igreja. As histórias dos evangelhos são bem conhecidas, lidas e repetidas, mas a ênfase acaba recaindo sobre aspectos místicos e divinos de Cristo, naquilo que ele faz e pode fazer pelos crentes. Não levamos muito em conta a importância de sua encarnação para a humanidade. O Deus encarnado mostra concretamente o tipo de vida que ele espera que as pessoas tenham, paralelamente à adoração, por isso, temos a máxima do apóstolo Paulo sobre a imitação de Cristo. Essa recorrente dicotomia, ou desbalanceamento da fé, que pende mais para as realidades altas do que para as baixas, já estava presente na vivência do povo de Israel e foi 21 diretamente confrontada pelos profetas. A ideia de que a adoração tem prioridade sobre a ação ética concreta não possui base bíblica, afinal somos humanos. Como alertou o profeta Miquéias, Com que eu poderia comparecer diante do Senhor e curvar- me perante o Deus exaltado? Deveria oferecer holocaustos de bezerros de um ano? Ficaria o Senhor satisfeito com milhares de carneiros, com dez mil ribeiros de azeite? Devo oferecer o meu filho mais velho por causa da minha transgressão, o fruto do meu corpo por causa do meu próprio pecado? Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus (Miquéias 6:6-8). O ensino de Cristo é bastante prático nesse sentido, por suas palavras e exemplos. Daí a importância de termos uma forte cristologia baixa. Por isso ele afirma: Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?”. Então eu lhes direi claramente: “Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!”. Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda (Mateus 7:21-27). Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia22 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ ______________________________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 23 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 3 Cristo no Antigo Testamento I Introdução É o Antigo Testamento que introduz a figura do Messias na tradição religiosa do povo de Israel. Sua construção é paulatina e nem sempre clara. Esta unidade inicia a investigação dos textos bíblicos, em suas respectivas tradições teológicas, que contribuem para a construção da pessoa do Ungido, assim como para a esperança criada em torno dele. Objetivos 1) Investigar a construção bíblica do Messias no Antigo Testamento com especial atenção para o período patrístico e mosaico; 2) Estabelecer um pano de fundo para a compreensão bíblica da expectativa messiânica. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia24 A figura do Cristo ou do Messias é uma construção ampla e longa que perpassa as diversas fases de vivência da fé do povo de Israel até a sua efetiva concretização na pessoa de Jesus. Embora haja alguma discussão sobre a clareza e intenção dos autores bíblicos quanto à consciência da representatividade do Messias ou de quem viria a ser Jesus, principalmente naquilo que se refere ao seu alcance cósmico, percebemos bem cedo a presença de uma proposta teológica na restauração do equilíbrio perdido na queda do ser humano. É nesse grande processo salvífico maior que se insere a esperança messiânica. Se inicialmente o Messias parece estar restrito ao povo de Israel, no desenvolvimento da revelação bíblica, vemos depois a sua progressão e expansão para uma perspectiva cósmica, que abrange todas as nações e povos da Terra. Não é de imediato que essa perspectiva é apresentada nas Escrituras. Pelo contrário, nem mesmo durante o ministério de Jesus percebemos a consciência da importância do papel de Cristo para a humanidade. É apenas com a releitura dos textos antigos, à luz da vida, morte e ressurreição de Cristo que os primeiros cristãos compreenderam que o esperado Messias de Israel se torna também o salvador do mundo. Não estou afirmando que não existiam pistas ao longo da revelação bíblica, e sim que esse desenvolvimento de conceitos se deu de maneira paulatina e progressiva e, muitas vezes, sem a consciência da dimensão que haveria de tomar. Ainda que de forma resumida, nossa intenção nas próximas unidades será a de perpassar os diversos períodos bíblicos tentando perceber quais as informações ali presentes que ajudaram a construir a ideia e imagem que viria a ser constituída como o Messias. É importante manter em mente aquilo que foi elaborado nas unidades anteriores, principalmente no que se refere ao conceito de ungido. Alerto também que existem algumas correntes teológicas que optam por afirmar que Jesus Cristo está claramente apresentado, ora como expressão de teofanias, ora como revelação textual explícita, nas narrativas do Antigo Testamento. Me refiro aqui àqueles que, por exemplo, entendem que os textos que mencionam aparições do “Anjo do Senhor” estariam se referindo a Jesus. A perspectiva de análise adotada aqui não segue essa compreensão. O que tentaremos apresentar é a construção de uma teologia que teria se dado de forma gradual, ao longo de muito tempo 25 de história e tradição religiosa e teológica, às vezes até inconsciente por parte dos autores, para culminar com a vinda do Messias na pessoa de Jesus de Nazaré. Essa tese tem como principal fundamento o fato da grande maioria do povo judeu não ter reconhecido Jesus como o Messias prometido durante a sua vida e ministério, conforme atestado pelos autores dos livros do Novo Testamento. 1- Cristo nos Patriarcas Nossa investigação bíblica sobre o Messias tentará seguir o percurso histórico do povo de Israel obedecendo, em parte, a ordem dos livros bíblicos e, em parte, a ordem cronológica das tradições e contextos. Começando, portanto, com as origens do povo de Israel, que se encontra nos relatos dos patriarcas, encontramos no livro de Gênesis aquilo que ficou conhecido como o protoevangelho: “Porei inimizade entre você [serpente] e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este ferirá a sua cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar” (Gênesis 3:15). Esse texto nos introduz um mistério, que hoje entendemos ter um conteúdo cristológico, mas que acabou não sendo explorado por nenhuma tradição teológica do Antigo Testamento. Alguns estudiosos sugerem que isso tenha ocorrido por causa de uma autoria e edição tardia desse trecho do livro de Gênesis, localizando-o na época do pós-exílio babilônico, exatamente por tratar da imagem da serpente como um ser antagônico ao ser humano e a Deus. Isso explicaria a não alusão a ele em textos produzidos por autores bíblicos mais antigos. Apenas lembrando que a ideia de um ser antagônico a Deus, representado por Satanás, é prioritariamente desenvolvida no período pós-exílico por influência da cultura babilônica. Independentemente dessa discussão, encontramos nesse texto um mistério interessante ao propor um estado de tensão entre a mulher e a serpente e entre os seus descendentes. O mistério teológico proposto não se limita apenas a esse texto. Por não ser desenvolvido adiante, isso dificulta a compreensão de sua inclusão na esperança messiânica imediata, ou seja, não vemos uma clara expressão de esperança em um descendente da mulher para vir pisar a cabeça da serpente em outros textos do Antigo Testamento. Tanto o tema da serpente quanto o tema Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia26 dos descendentes, permanecerão restritos apenas ao protoevangelho. Interessante ainda notar que a figura simbólica da serpente possui em outros textos até uma conotação positiva: • Gênesis 49:17 – Dã, um descendente de Jacó, é representado como uma serpente; • Êxodo 4:1-4 – o bordão de Moisés que se torna uma serpente para demonstrar que Deus o estava enviando; • Números 21:7-9 – uma serpente de bronze usada como intermediação de cura para o povo. Esta imagem será usada pelo apóstolo João para falar da crucificação de Jesus também como meio de salvação (João 3:14). Como vimos, então, o descendente da mulher que esmaga a cabeça da serpente pode carregar algum componente messiânico, mas essa associação só ocorrerá muito posteriormente na teologia. Voltando os nossos olhos para outros textos do Antigo Testamento, seguindo a sequência autoral, parece que encontramos em Isaque alguns componentes que serão muito posteriormente entendidos como de cunho messiânico. A história de Isaque está inserida no tema maior da promessa e aliança de Deus com Abraão. Ele nasce em meio a desconfiança da possibilidade do casal Abraão e Sara poderem gerar filhos para fazer valer a promessa da posteridade que viria a abençoar todas as famílias da terra (Gênesis 12:2). Em um tipo de teste de fé, Deus requer de Abraão o sacrifício de Isaque, considerado na narrativa como seu único filho. Algumas dificuldades surgem para a interpretação do texto. A primeira é o fato de não haver qualquer relação entre o culto a Deus e a prática de sacrifício humano, o que tornaria essa requisição de Deus algo estranho. A segunda dificuldade é que Abraão já tinha outro filho, Ismael, não sendo, portanto, Isaque seu filho único. Superando esses detalhes, os elementos da narrativa do texto de Gênesis 22:1-19 chamam a atenção para correspondências com a representatividade da morte vicária de Cristo. O primeiro paralelo entre o sacrifício de Isaque e o de Cristo está na atitude de entrega, por parte do pai, de seu filho único, considerando aqui apenas a construção que o texto faz sobre ser essa a condição de Isaque. O segundo paralelo 27 está na provisão divina deum substituto para a vítima a ser sacrificada, no caso, um carneiro. Esses paralelos que são interpretados pelo Novo Testamento como sendo integrantes do sacrifício de Cristo, sendo Jesus o único filho de Deus e o cordeiro santo que é sacrificado no lugar dos seres humanos, são desconstruídos, naturalmente, na leitura do próprio texto de Gênesis. Ali, não há qualquer paralelo entre o sacrifício de Isaque e a questão do pecado, de quem quer que seja. Trata-se apenas de um teste da fé de Abraão. O carneiro substitui apenas a Isaque, sem qualquer outro desdobramento. Nota-se, portanto, que esse texto não é desenvolvido em nenhum outro lugar do Antigo Testamento, enfraquecendo a possível contribuição da história de Isaque para a elaboração da figura do Messias. De todos os outros personagens do tempo patriarcal, talvez o que mais carregue alguma semelhança com o perfil messiânico seja José, ainda que distante da caracterização tardia do Messias. A complexa história de José traz alguns paralelos com a história de Jesus, não na mesma ordem de acontecimentos. Ambos são levados ao Egito (Gênesis 37:25; Mateus 2:13), são rejeitados e traídos por aqueles que lhes são mais próximos (Gênesis 37:14-28; Mateus 26:47-50) e enfrentam dores e sacrifícios com o objetivo de promoverem salvação para todo um povo, incluindo os que os traíram (Gênesis 39:20; 45:7; Mateus 27:27-56). Esses paralelos só foram estabelecidos após os evangelistas narrarem a história de Jesus sem, no entanto, comporem a estruturação da pessoa do Messias do Antigo Testamento. A que se considerar, contudo, que a história de José ocupa um grande volume do livro de Gênesis e que consiste na construção de um personagem heroico que pode ter contribuído para o imaginário popular na expectativa messiânica. De certa forma, mesmo não havendo elementos mais claros e concretos na tradição patriarcal que nos remeta ao Messias, podemos entender que as sagas dos patriarcas, com a veneração de Abraão, Isaque e Jacó, possuem também, à semelhança da história de José, um fator de contribuição para o imaginário coletivo do herói. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia28 2- Cristo na tradição mosaica Embora a tradição mosaica seja de composição complexa, incluindo o Pentateuco com todas as suas variadas participações editoriais, nosso foco estará em torno da figura de Moisés, tido como o principal mediador da fé do povo de Israel. Mesmo sendo na imagem do rei que encontramos a maior alusão ao título de Ungido, ou seja, algo desenvolvido apenas após a instauração da monarquia em Israel, talvez Moisés seja o maior dos protótipos messiânicos. Isso porque ele reúne as funções de liderança de governo (rei), de intermediação religiosa (sacerdote) e de mensageiro de Deus (profeta). No caso, essa é uma construção que não está clara em relação ao Messias, mas cria na expectativa do povo um referencial de herói libertador. Além disso, na maneira como foi relatada a vida e ministério de Jesus, muitos paralelos acabaram sendo estabelecidos entre ele e Moisés. Vejamos esses paralelos: a. Perseguição na infância pelo soberano da nação com ameaça de morte: • Êxodo 1:15-16; 22 – “O rei do Egito ordenou às parteiras dos hebreus, que se chamavam Sifrá e Puá: ‘Quando vocês ajudarem as hebreias a dar à luz, verifiquem se é menino. Se for, matem-no; se for menina, deixem-na viver’ [...] Por isso o faraó ordenou a todo o seu povo: ‘Lancem ao Nilo todo menino recém-nascido, mas deixem viver as meninas’”; • Mateus 2:16 – “Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos”. b. Refúgio no Egito: • Êxodo 2:9 – “Então a filha do faraó disse à mulher: ‘Leve este menino e amamente-o para mim, e eu pagarei você por isso’. A mulher levou o menino e o amamentou”; • Mateus 2:13 – “Depois que partiram, um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e lhe disse: “Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu diga a você, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. 29 c. Experiência no deserto com efeito determinante para o resto de suas vidas e ministérios: • Êxodo 3:1-2 – “Moisés pastoreava o rebanho de seu sogro, Jetro, que era sacerdote de Midiã. Um dia levou o rebanho para o outro lado do deserto e chegou a Horebe, o monte de Deus. Ali o Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo que saía do meio de uma sarça. Moisés viu que, embora a sarça estivesse em chamas, não era consumida pelo fogo”; • Mateus 4:1 – “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo”. d. Realização de sinais e maravilhas: • Êxodo 7:1-3 – “O Senhor lhe respondeu: ‘Dou a você a minha autoridade perante o faraó, e seu irmão, Arão, será seu porta-voz. Você falará tudo o que eu ordenar, e o seu irmão, Arão, dirá ao faraó que deixe os israelitas sair do país. Eu, porém, farei o coração do faraó resistir; e, embora multiplique meus sinais e maravilhas no Egito’”; • Atos 2:22 – “Israelitas, ouçam estas palavras: Jesus de Nazaré foi aprovado por Deus diante de vocês por meio de milagres, maravilhas e sinais que Deus fez entre vocês por intermédio dele, como vocês mesmos sabem”. e. Íntima relação com Deus: • Êxodo 33:7-11 – “Moisés costumava montar uma tenda do lado de fora do acampamento; ele a chamava Tenda do Encontro. Quem quisesse consultar o Senhor ia à tenda, fora do acampamento [...] Assim que Moisés entrava, a coluna de nuvem descia e ficava à entrada da tenda, enquanto o Senhor falava com Moisés [...] O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com seu amigo [...]”; • João 14:9 – “Jesus respondeu: “Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai. Como você pode dizer: ‘Mostra- nos o Pai” Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia30 f. Falavam em nome de Deus (profeta) • Deuteronômio 34:10 – “Em Israel nunca mais se levantou profeta como Moisés, a quem o Senhor conheceu face a face”; • João 12:50 – “Sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu digo é exatamente o que o Pai me mandou dizer”. Também foi Moisés quem inseriu e representou a principal teologia para o povo de Israel composta pela a libertação do Egito e pela aliança com base na Lei. Este é outro paralelo que podemos verificar entre Moisés e Jesus, a intermediação da Lei de Deus. Moisés é o grande líder histórico que estabelece os princípios legais para vida cotidiana do povo. É ele quem pessoalmente intermedia a aliança com Javé e entrega a Lei ao povo (Êxodo 34:29). Por outro lado, Jesus é aquele que cumpre essa Lei, mas também a reinterpreta e a expande, estabelecendo novos princípios que devem ser seguidos com o mesmo rigor (João 14:21). Jesus substitui a força da Lei pela oferta da Graça sem, contudo, deixar de estabelecer os princípios do Reino que devem prevalecer na vida do cristão, não pela obrigação e temor da Lei, mas pela obediência amorosa ao seu mestre e salvador. De alguma maneira, a aparição de Moisés no monte da transfiguração atesta sua ligação com Jesus: “Eis que dois varões falavam com ele: Moisés e Elias” (Lucas 9:30). Assim, mesmo sem uma alusão explícita de Moisés como um ungido, ele estabelece um referencial teológico e popular para o imaginário de Israel e sua esperança messiânica. Conclusão Nosso esforço nesta unidade foi tentar enxergar nos textos do Antigo Testamento, com particular atenção ao período dos patriarcas e mosaico, pistas que nos ajudassem a entender a construção teológica desenvolvida em torno do Messias. Como visto, esses períodos, e os textos relativos a eles, não apresentam uma clara alusão ao Ungido de 31 Javé. No entanto, podemos perceber algumas passagens e personagens que parecem ter contribuído para a expectativa messiânicaque veio a ser desenvolvida em maior profundidade em períodos históricos posteriores. Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia32 Anotações __________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ _______________________________________________________ 33 Teologia Sistemática II - Cristologia e Pneumatologia Unidade - 4 Cristo no Antigo Testamento II Introdução Esta unidade continua a investigação dos textos bíblicos do Antigo Testamento, em suas respectivas tradições teológicas, que contribuem para a construção da pessoa do Ungido e a esperança criada em torno dele. Mais especificamente, serão tratadas as tradições davídica e profética, incluindo-se aqui a contribuição da apocalíptica. Objetivos 1) Investigar a construção bíblica do Messias no Antigo Testamento com especial atenção para o período dravídico, profético e apocalíptico; 2) Estabelecer um pano de fundo para a compreensão bíblica da expectativa messiânica. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia34 A unidade anterior procurou enxergar nos textos do Antigo Testamento, referentes aos períodos históricos dos patriarcas e mosaico, indícios da construção teológica da pessoa do Messias. Nesta unidade, continuando a busca pelo desenvolvimento dessa concepção, investigaremos os períodos davídico e profético. De certa forma, estes períodos compreendem o tempo da monarquia e do exílio babilônico. A concentração em torno do rei Davi é proposital, como veremos, por causa da sua importante influência na formação da figura do Ungido. Já os textos proféticos, embora se encontrem dispersos, serão reunidos na tentativa de formar um todo lógico. 1- Cristo na tradição davídica Certamente é a figura de Davi que carrega a maior informação sobre o Messias. Em primeiro lugar, porque a prática da unção parece ser originária do ato de coroação do rei intermediada por algum representante divino, o profeta ou o sacerdote. Depois, porque é na condição de rei que se estabelecem as funções de domínio político que irão criar a maior esperança para o povo de Israel, principalmente, considerando-se o fato da perda paulatina de sua autonomia nacional. Após o fim do reino do Norte, com o exílio de seus habitantes para a Assíria, no século VIII a.C., e o fim do reino do Sul, no século VI a.C., com o exílio para a para a Babilônia, Israel jamais voltou a ser uma nação independente, com exceção do breve período dos macabeus, entre os séculos II e I a.C. É, portanto, em torno de Davi e sua dinastia que a maior parte dos textos messiânicos se desenvolve. Na promessa presente na aliança entre Deus e Davi, quando este assume o trono de Israel, encontramos uma abrangência que extrapola o tempo e espaço: “Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre” (2 Samuel 7:16). A ideia de um reino eterno só poderia se concretizar em uma figura mitológica e transcendente. No entanto, a elaboração mítica do rei Davi recebe outros contornos. A celebre expressão, usada atualmente até mesmo em circunstâncias eclesiásticas, nasce como um princípio de superioridade da figura do rei sobre as outras pessoas comuns: “O SENHOR me guarde de que 35 eu estenda a mão contra o seu ungido” (1 Samuel 26:11). Os relatos de dois episódios mostram o próprio Davi instando com seus seguidores sobre a importância dessa máxima (1 Samuel 24:6, 10; 26:9, 11, 16). De certa forma, na experiência de Davi se estabelecia um princípio a ser seguido que o salvaguardava, assim como a seus sucessores no futuro, de oposições. Aqui, encontramos uma forte associação da figura do rei à importância dada ao ato de unção que, como já mencionado, carregava uma conotação de aval divino. Aquele que sentava no trono não era apenas o rei, e sim o ungido de Javé (SENHOR), o seu escolhido para liderar o povo. Retomando a ideia do reino eterno de Davi, que permite a inclusão de um elemento transcendente, encontramos algumas alusões misteriosas, como a do Salmo 110: O Senhor disse ao meu Senhor: “Senta-te à minha direita até que eu faça dos teus inimigos um estrado para os teus pés”. O Senhor estenderá o cetro de teu poder desde Sião, e dominarás sobre os teus inimigos! Quando convocares as tuas tropas, o teu povo se apresentará voluntariamente. Trajando vestes santas, desde o romper da alvorada os teus jovens virão como o orvalho. O Senhor jurou e não se arrependerá: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. O Senhor está à tua direita; ele esmagará reis no dia da sua ira. Julgará as nações, amontoando os mortos e esmagando governantes em toda a extensão da terra. No caminho beberá de um ribeiro, e então erguerá a cabeça. O próprio Jesus teria citado parte desse texto para dar explicação sobre si mesmo (Mateus 22:41-45). O evangelista Mateus é, dessa forma, intencional ao associarJesus à linhagem davídica, na introdução do seu texto, fazendo menção em sua genealogia (Mateus 1:1), e ao longo do livro (Mateus 12:23; 15:22; 20:30; 21:9). Mesmo havendo essa percepção que pudesse transcender as realidades concretas, é a questão do domínio político que permanece como principal expectativa em torno do Messias. Ainda que o domínio político não tenha sido uma realização concreta do ministério de Cristo, foi essa expectativa que direcionou e motivou alguns de seus seguidores, em especial os zelotes e os sicários. Os zelotes eram um grupo político Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia36 judeu que se opunha ao pagamento de tributo ao imperador romano pagão enxergando nisso uma traição a Deus (DOUGLAS, 1995, p. 1676). Os sicários eram um grupo de nacionalistas militares judeus que andavam com adagas escondidas para, eventualmente, assassinarem inimigos de Israel (DOUGLAS, 1995, p. 1521). Dos apóstolos de Jesus, Simão (Lucas 6:15) seria zelote e Judas seria sicário ou iscariote (Mateus 10:4). O que concluímos com isso, é que a esperança no surgimento de um rei, ou desse tipo Ungido, que viesse resgatar a autonomia e prosperidade do reino de Israel, perdurou por séculos. Desde os tempos dos sucessores de Davi até o tempo de Jesus. 2- Cristo na tradição profética e apocalíptica As primeiras ideias proféticas concordam com a expectativa messiânica do descendente do trono de Davi e associam a sua função com o domínio dos soberanos. O texto de Isaías 9:1-7 pinta um quadro típico daquele contexto de batalhas políticas por territórios: Contudo, não haverá mais escuridão para os que estavam aflitos [...] Fizeste crescer a nação e aumentaste a sua alegria; eles se alegram diante de ti como os que se regozijam na colheita, como os que exultam quando dividem os bens tomados na batalha. Pois tu destruíste o jugo que os oprimia, a canga que estava sobre os seus ombros e a vara de castigo do seu opressor, como no dia da derrota de Midiã. Pois toda bota de guerreiro usada em combate e toda veste revolvida em sangue serão queimadas, como lenha no fogo. Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecido e mantido com justiça e retidão desde agora e para sempre. O zelo do Senhor dos Exércitos fará isso. Atente para as seguintes expressões presentes na passagem que fortalecem esse tipo de esperança messiânica: aflita, despojos, jugo, vara que feria ombros, cetro do opressor, bota de guerreiro, tumulto da batalha, veste revolvida em sangue, governo, trono de Davi, reino, 37 juízo, justiça e Senhor dos Exércitos. O profeta Jeremias elabora um texto similar: “Dias virão”, declara o Senhor, “em que levantarei para Davi um Renovo justo, um rei que reinará com sabedoria e fará o que é justo e certo na terra. Em seus dias Judá será salva, Israel viverá em segurança, e este é o nome pelo qual será chamado: O Senhor é a Nossa Justiça (Jeremias 23:5-6). Ezequiel, por sua vez, ainda que faça referência a Davi, em um tempo mais apropriado ao exílio, reforça a imagem do pastor, que cuida e consola: Porei sobre elas um pastor, o meu servo Davi, e ele cuidará delas; cuidará delas e será o seu pastor. Eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo Davi será o líder no meio delas. Eu, o Senhor, falei (Ezequiel 34:23-24). Não há o uso explícito da palavra ungido nesses textos, mas subentende-se que se trata desse herói esperado. Muito comuns são os termos broto e renovo, ou seja, um ramo ou fruto de uma árvore. Especificamente, proveniente do tronco de Jessé, pai de Davi. À parte da figura de Davi e do rei, uma nova ideia parece surgir no período exílico cuja realidade contextual estava bem aquém do período de glória e prosperidade do então reino de Israel e Judá. Já não há mais glória e poder presente e a expectativa de um herdeiro real para resgatar aquele tempo foi esvanecendo. Por assim dizer, o novo ser esperado, também com características de uma pessoa ungida por Deus, agora é chamado de Servo e carregará marcas de alguém que sofre, talvez por causa do pecado e grande distanciamento entre o povo que ele representa e seu Deus. Isaías é o profeta que melhor descreve essa nova concepção nos capítulos 52 e 53 de seu livro. Outros textos mais genéricos aparecerão em oráculos na primeira pessoa, de difícil interpretação, que têm como pano de fundo o período do exílio (cf. capítulo 59 e seguintes). O chamado Servo Sofredor de Isaías contrasta de maneira radical com a figura de um rei vencedor pautada em Davi. Ele é construído quase como alguém antagônico. O ungido de Isaías, representado pelo Servo Sofredor, é uma desconstrução da esperança de prosperidade política centrada na nação de Israel. Teologia Sistemática II Cristologia e Pneumatologia38 Ele cresceu diante dele como um broto tenro e como uma raiz saída de uma terra seca. Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada havia em sua aparência para que o desejássemos. Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores e experimentado no sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima (Isaías 53:2-3). No entanto, é por meio desse novo paradigma que a esperança messiânica bíblica, e não necessariamente aquela que foi sendo desenvolvida entre o povo comum, recebe dimensões maiores e mais abrangentes que vão além do ambiente judaico: Levante-se, refulja! Porque chegou a sua luz, e a glória do Senhor raia sobre você. Olhe! A escuridão cobre a terra, densas trevas envolvem os povos, mas sobre você raia o Senhor, e sobre você se vê a sua glória. As nações virão à sua luz e os reis ao fulgor do seu alvorecer. Olhe ao redor e veja: todos se reúnem e vêm a você; de longe vêm os seus filhos, e as suas filhas vêm carregadas nos braços (Isaías 60:1-4). Completando a teologia messiânica na tradição profética, encontramos no livro de Daniel, uma imagem apocalíptica do Ungido. O apocalipsismo foi um movimento teológico que perdurou até os tempos de Jesus e teve grande influência na teologia judaica. A perda da esperança em mudanças concretas para o povo de Israel, no período pós-exílico, fez com que se desenvolvesse uma expectativa mais mística e celestial projetando a vinda do Messias para tempos imemoriais com imagens catastróficas: Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniqüidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos. Setenta semanas estão decretadas para o seu povo e sua santa cidade a fim de acabar com a transgressão, dar fim ao pecado, expiar as culpas, trazer justiça eterna, cumprir a visão e a profecia, e ungir o santíssimo. Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto que manda restaurar e reconstruir 39 Jerusalém até que o Ungido, o príncipe, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. Ela será reconstruída com ruas e muros, mas em tempos difíceis. Depois das sessenta e duas semanas, o Ungido será morto, e já não haverá lugar para ele. A cidade e o Lugar Santo serão destruídos pelo povo do governante que virá. O fim virá como uma inundação: guerras continuarão até o fim, e desolações foram decretadas. Com muitos ele fará uma aliança que durará uma semana. No meio da semana ele dará fim ao sacrifício e à oferta. E numa ala do templo será colocado o sacrilégio terrível, até que chegue sobre ele o fim que lhe está decretado (Daniel 9:24-27). A contribuição da teologia de Daniel para a construção da esperança messiânica foi grande. É ele também quem introduz a figura do Filho do Homem que Jesus teve como preferência