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COPYRIGHT© 2012 POR Antônio Renato Gusso Todos os direitos reservados por: A.D. SANTOS EDITORA Al. Júlia da Costa, 215 80410-070 – Curitiba – Paraná – Brasil + 55 (41) 3207-8585 www.adsantos.com.br editora@adsantos.com.br Capa: Igor Braga Editoração: Manoel Menezes Acompanhamento Editorial: Priscila Laranjeira Impressão e acabamento: Optagraf Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Gusso, Antônio Renato. Os livros poéticos e sapienciais – Introdução fundamental e auxílios para a interpretação / Curitiba: A.D. SANTOS EDITORA, 2012. 128 p. ISBN – 978.85.7459-289-3 CDD: 221 1.O Antigo Testamento – História do Antigo Testamento. CDD: 240 1.Preceitos Bíblicos; Casuística moral cristã. 2ª Edição: Dezembro / 2020 Proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios a não ser em citações breves, com indicação da fonte. Edição e Distribuição: Dedicatória Este livro é fruto da graça e misericórdia de Deus, o Senhor da Palavra. Assim, acima de tudo e de todos é a Ele que o dedico. Também quero dedicá-lo a algumas das pessoas que mais amo: À minha esposa Sandra, exemplo de paciência, trabalho e bondade. Aos meus filhos Ana e Francisco, esperança de continuidade; aos meus pais Francisco (em memória) e Lourdes, meus primeiros e melhores professores. Aos meus irmãos e irmãs Josélia, Luiz, Alberto, Laertes, Paulo e Clarice, unidos pelo sangue e pelo amor. Aos meus alunos da Faculdade Teológica Batista do Paraná e da Faculdade Batista Pioneira, que mesmo sem saber, muito me ajudaram na preparação por meio de suas perguntas e observações inteligentes feitas em sala de aula. Aos membros da igreja que pastoreio, Igreja Batista Ágape, um amor de igreja. A Sabedoria diz: “Eu amarei os que me amam, e os que me procuram me acharão. Riqueza e honra estão comigo; bem valoroso e justiça. O meu fruto é melhor do que o ouro, do que o ouro refinado, e o meu rendimento é melhor do que a prata escolhida. Eu ando no caminho da justiça, no meio das veredas do juízo, para dar propriedade àqueles que me amam, e encher os seus tesouros”. (Provérbios 8.17-21) [Nota 1] Notas Nota 1 - GUSSO, Antônio Renato. O Livro de Provérbios analítico e interlinear: curso prático para aprimorar o conhecimento do hebraico bíblico. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. [Voltar] Sumário INTRODUÇÃO 1. INTRODUÇÃO GERAL AOS LIVROS POÉTICOS E SAPIENCIAIS 2. A LITERATURA SAPIENCIAL 3. O LIVRO DE JÓ 4. O LIVRO DE SALMOS 5. O LIVRO DE PROVÉRBIOS 6. O LIVRO DO ECLESIASTES 7. O LIVRO DO CÂNTICO DOS CÂNTICOS Referências Bibliográficas Introdução Este é o meu terceiro livro que leva o subtítulo de “Introdução fundamental e auxílios para a interpretação”. Ele não é o último. Além dele ainda há o quarto e o quinto, completando a abordagem a todos os livros do Cânon Evangélico do Antigo Testamento. Assim como os demais, também este é resultado do labor em sala de aulas desenvolvido por mais de vinte anos. Ele surgiu do esboço que foi trabalhado e retrabalhado durante todo esse tempo nos cursos de Bacharel em Teologia que tenho lecionado. Como o título já diz: “Os Livros Poéticos e Sapienciais: Introdução fundamental e auxílios para a interpretação”, esta obra não é uma introdução completa, ou nos moldes tradicionais, nem um comentário, nos termos convencionais. Ela é o que seu título revela: uma introdução que se atém apenas aos itens, realmente, indispensáveis para o bom entendimento dos livros bíblicos focados, e um auxílio para a interpretação de textos que têm sido considerados difíceis por grande parte dos estudantes desta matéria. Como é possível notar, pelo seu caráter, este não é um material para apenas ser lido. Ele é material de apoio para ser estudado e, mais do que isso, para ser estudado lado a lado com os livros bíblicos que trata. Então, antes de iniciar a “leitura”, providencie uma boa versão bíblica para que esteja à sua disposição durante todo o processo. Por questões de padronização a versão utilizada, quando não for citada outra fonte, será sempre a Versão Almeida Século 21, mas isso não significa que ela seja fundamental, ou mais ainda, indispensável, para o estudo com este material. Qualquer outra boa versão pode ser utilizada. O conteúdo está distribuído em sete capítulos. Os dois primeiros tratam de assuntos gerais que podem ser úteis para a boa compreensão de todos os livros bíblicos do conjunto chamado Poéticos e Sapienciais, os demais são mais específicos e abordam cada um dos livros bíblicos desta coleção, seguindo a ordem em que aparecem no Cânon Evangélico. O esquema geral dos capítulos três a sete é sempre muito parecido, mas não necessariamente idêntico para todos eles, pois cada livro tem as suas particularidades. São vistas as questões introdutórias fundamentais, de acordo com cada livro, e, na sequência, apresentados auxílios informativos que ajudam na melhor interpretação de textos considerados como difíceis pela maioria dos leitores do Antigo Testamento. O Livro de Lamentações, ainda que seja um livro poético, é tratado no quarto volume desta coleção e não aqui, como poderia se esperar. Isto acontece porque ele se encontra no Cânon Evangélico entre os livros chamados de Profetas Maiores e não entre os Poéticos e Sapienciais. Sem mais para o momento, vamos ao estudo! A 1. INTRODUÇÃO GERAL AOS LIVROS POÉTICOS E SAPIENCIAIS ssim como o título deste primeiro capítulo anuncia, nas próximas linhas é apresentada uma introdução geral aos Livros Poéticos e também aos Sapienciais. Os livros são identificados, é mostrada a posição de cada um nos principais cânones, é feita uma breve resenha apresentando a importância de cada um e são apresentados alguns detalhes, com exemplos bíblicos, a respeito da poesia hebraica, assunto muito importante para a literatura aqui abordada. 1.1. Os Livros Identificados Fazem parte da literatura bíblica chamada “Poética e Sapiencial” do Antigo Testamento os seguintes livros: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares e Lamentações. Alguns estudiosos têm colocado todos estes livros sob o título de “Poéticos”. Outros dividem os livros em “Poéticos” (Salmos, Lamentações e Cantares) e livros “Sapienciais” (Jó, Provérbios e Eclesiastes). O título aqui empregado, “Poéticos e Sapienciais”, sem querer separar os livros dentro desta categoria, descreve razoavelmente o conteúdo da coleção, pois os elementos se misturam em vários dos livros. Por exemplo, este é o caso do Livro de Salmos. Ele pode ser classificado como “Poético”, porém, é de acordo geral que o seu cântico de introdução, o Salmo 1, também é literatura sapiencial. Além do Salmo 1 existem, ainda, outros salmos deste tipo. Então, pode-se classificar a coleção toda como “Poéticos e Sapienciais”. Isto que foi dito acima não significa que diferenciar literatura poética do que é literatura sapiencial não tenha importância. Isto significa, apenas, que os livros, como um todo, não comportam bem estas classificações. Contudo, a determinação específica dos tipos de literatura dentro dos livros é fundamental para uma boa interpretação. 1.2. Posição dos Livros nos Cânones Hebraico e Cristão Os cânones não são todos iguais, existem diferenças de componentes assim como de ordem. Portanto, é importante conhecer as linhas gerais dos mais importantes para os estudantes brasileiros da Bíblia. 1.2.1. O Cânon Hebraico Iniciemos com o Cânon Hebraico. Nele não existe uma divisão chamada de Poéticos e Sapienciais. Sua divisão tríplice básica é a seguinte: Lei, Profetas e Escritos. Vários autores têm defendido que o grau de importância dos livros também tem seguido esta ordem, sendo a Lei a mais importante e os Escritos o menos relevante. Provavelmente a divisão segue os estágios naturais em que os livros foram sendo reconhecidos como Escritura Sagrada. Os Livros Poéticos e Sapienciais encontram-se, juntamente com outros, na terceira e última divisão do Cânon Hebraico, na parte chamada de “Escritos” ( ketûbîm - µybiWtK]). Os “Escritos” estão na seguinte ordem: Salmos, Provérbios,4.5.1. Classificação pelo gênero literário Esta forma de classificação tem seu representante máximo em Hermann Gunkel.[Nota 26] A proposta dele gira em torno de cinco gêneros principais. Os nomes pelos quais são classificados os salmos por ele e alguns de seus exemplos são os seguintes: 1) Hinos (8, 19, 29, 33) – Hinos, cantados pelo coral ou solo, em louvor a Deus. 2) Lamentações Coletivas (44, 74, 79, 80) – São cânticos que surgiram da calamidade nacional. Neles a calamidade é apresentada a Deus e, em seguida, é feito um apelo para que Deus intervenha em favor da nação. 3) Salmos Reais (2, 20, 45, 72, 101, 110, 132) – São salmos que devem pertencer ao período da monarquia e, normalmente, na opinião de Hermann Gunkel, tratam do rei que está no poder. 4) Lamentações Individuais (3, 7, 13, 25, 51) - Como o título já diz são lamentos feitos por indivíduos. 5) Salmos de Gratidão Individuais (30, 32, 34) - São salmos que eram cantados no Templo expressando a gratidão do indivíduo pelas bênçãos recebidas. Além destas cinco divisões principais, Gunkel reconheceu no Livro de Salmos a presença de outros grupos, sendo tipos menores ou subclasses. Por exemplo: 1) Cânticos de Entronização (47, 93). 2) Salmos de Confiança (4, 11, 16, 23). 3) Poesia de Sabedoria (1, 37, 49). 4) Salmos Litúrgicos - para utilização no culto (8, 42, 43, 46). 5) Liturgia Profética - poesias em forma de oráculos proféticos que seriam recitadas por um funcionário do templo (12, 75). 6) Poesia Mista (9, 10, 40, 78). 4.5.2. Classificação pelo contexto histórico O maior problema com este tipo de classificação é que não existe certeza a respeito do “Sitz im Lebem” de muitos dos salmos, o que deixa esta classificação incompleta. Contudo a ideia geral é a seguinte: 1) Salmos Pré-Exílicos (2, 3, 6, 11, 15, 18... ). 2) Salmos Exílicos (9, 10, 51, 60, 74...). 3) Salmos Pós-Exílicos (1, 8, 12, 14, 16, 19..). 4.5.3. Classificação sociocultural Procura classificar os salmos dentro de pelo menos três situações, que são: 1) Salmos Cultuais (2, 7, 12, 14-18, 20-22... em um total de 100 salmos). 2) Salmos Seculares (1, 8, 11, 13, 25, 27... em um total de 28 salmos). 3) Salmos Particulares (9, 10, 19, 23, 38... em um total de 22 salmos). 4.5.4. Classificação por assunto Esta classificação também encontra várias dificuldades, pois nem sempre um determinado salmo se preocupa com apenas um assunto. Mas é uma forma de se classificar. Veja os exemplos seguintes: 1) Salmos de Oração. 2) Salmos de Ações de Graça. 3) Salmos de Louvor. 4) Salmos de Instrução. 5) Salmos Realçando Profecias e Tipos. 6) Salmos Baseados na História. 4.5.5. Classificação por autores Um dos problemas com este tipo de classificação é que não temos certeza sobre quem foram os autores. Além de muitos dos salmos não apresentarem nenhuma indicação a respeito de quem poderia ter sido o autor. A preposição hebraica le (l]), que aparece diante de nomes próprios sobre alguns salmos, e que pode estar indicando o autor quando utilizada com o significado de posse ou procedência (de), também contém os significados de “a” e “para”, o que pode indicar uma homenagem ao personagem que segue logo após a preposição e não designação de autoria da parte dele. Na época em que estes títulos foram colocados, certamente, “o significado da preposição teria sido compreendido porque havia claramente uma forma fixa para os títulos”[Nota 27], contudo, com o passar do tempo, foi perdido o sentido claro. Veja como poderia ser uma classificação baseada em autores, apesar das suas limitações expostas acima: 1) Salmos de Davi (73 salmos). 2) Salmos de Salomão (Sl 72, 127). 3) Salmos dos Filhos de Coré (Sl 42-49, 84, 85, 87, 88).28 4) Salmos de Asafe (Sl 50, 73-83). 5) Salmo de Etã (Sl 89). 6) Salmos de Jedutum (Sl 39, 62, 77).29 7) Salmo de Moisés (Sl 90). 8) Salmos anônimos (46 salmos). 4.6. As Imprecações no Livro de Salmos As imprecações no Livro de Salmos, ou maldições, fazem parte dos textos mais difíceis para a compreensão ou, melhor, aceitação do cristão. Não é fácil para o cristão entender as razões para que estas composições, como Salmo 35.1-8; 58.6-9; 69.22-28; 109.6-20 e outros, estejam na Bíblia. Afinal, o cristão deve orar pelo bem de seus inimigos e não amaldiçoar. Para entendê-las, então, alguns pontos devem ser levados em consideração: a) Não existe nenhum salmo que possa ser classificado como imprecatório em sua totalidade. As imprecações estão presentes dentro de diversos salmos, em cerca de quarenta deles. Então não é correto chamar tais composições de salmos imprecatórios, mas, sim, de imprecações nos salmos. b) Os povos vizinhos de Israel também conheciam e utilizavam imprecações. Já foi provado que os egípcios utilizavam imprecações contra seus inimigos, bem como os filisteus e os moabitas, como o próprio Antigo Testamento, por exemplo, mostra em 1 Samuel 17.41-44 e em Números 22.1-6. Veja os textos: “41 O filisteu também vinha se aproximando de Davi, com o escudeiro à sua frente. 42 Quando olhou e viu Davi, jovem, ruivo e de boa aparência, o filisteu o desprezou. 43 E disse a Davi: Por acaso sou algum cachorro, para que venhas contra mim com pedaços de pau? E o filisteu amaldiçoou Davi pelos seus deuses. 44 E disse mais a Davi: Vem atacar-me, e entregarei teu corpo às aves do céu e aos animais selvagens” (1Sm 17.41-44); “1 Depois disso, os israelitas partiram e acamparam nas planícies de Moabe, do outro lado do Jordão, na altura de Jericó. 2 Balaque, filho de Zipor, viu tudo o que Israel havia feito aos amorreus. 3 E Moabe tinha muito medo do povo de Israel, pois eram muitos; e os moabitas andavam angustiados por causa dos israelitas. 4 Por isso, disseram aos chefes de Midiã: Agora esta multidão vai devorar tudo o que há ao nosso redor, como o boi devora a erva do campo. Nesse tempo, Balaque, filho de Zipor, era rei de Moabe. 5 Ele enviou mensageiros para chamar Balaão, filho de Beor, em Petor, que fica junto ao Rio, na terra do seu próprio povo, e disse: Um povo que encobre a face da terra saiu do Egito e está acampado bem na minha frente. 6 Peço-te que venhas agora amaldiçoar este povo para mim, pois ele é mais poderoso do que eu. Talvez assim eu o vença e possa expulsá-lo da terra, pois sei que aquele a quem abençoares será abençoado, e aquele a quem amaldiçoares será amaldiçoado” (Nm 22.1-6). c) Israel não lançou mão de imprecações apenas no Livro de Salmos, veja, por exemplo, Jeremias 11.20; 15.15; 18.19-23 e 20.11-12. d) Devemos entender as imprecações dentro de seu contexto veterotestamentário, onde o salmista, muitas vezes, só amaldiçoa seu inimigo por estar impossibilitado de agir fisicamente contra ele. Por exemplo, se Davi tem seus inimigos à disposição e poder para matá-los, levando- se em consideração a culpabilidade deles, ele o faz. Se não é possível, por inferioridade de força ou outros motivos diversos, ele invoca o poder de Deus para que faça justiça. e) Imprecações (maldições), na maioria dos casos, são armas utilizadas contra os inimigos. Na mentalidade veterotestamentária não há diferença entre utilizar, por exemplo, uma espada ou uma imprecação. f) Bênçãos e maldições são muito parecidas, ambas são orações feitas a Deus que responde se assim achar que deve fazer. A bênção é uma oração pedindo que Deus seja a favor de alguém, enquanto a maldição é uma oração pedindo que Deus seja contra alguém. g) Não se pode esquecer que os salmos são poesias e que em poesia, normalmente, existem muitas figuras de linguagem e descrições grandiosas, que vão além do sentido literal. 4.7. Destaques que Ajudam na Interpretação do Livro Pontos que ajudam na interpretação dos salmos individuais, ou no conjunto deles, merecem ser destacados. Seguem alguns deles: 1) Todos os Salmos são composições poéticas, consequentemente, são descritos em linguagem exuberante, grandiosa e figurada, características comuns da poesia, o que deve ser levado em conta no momento da interpretação. Assim, é óbvio que ninguém deve interpretar literalmente,por exemplo, uma porção como a do Salmo 119.116, que diz: “Meus olhos derramam rios de lágrimas, porque os homens não guardam tua lei”. 2) Os títulos dos salmos, não os colocados pelas versões modernas, mas aqueles que fazem parte do texto hebraico, ainda que não sejam parte integrantes das composições, nem tenham sido colocados por seus autores, são de grande valor devido à antiguidade que lhes é inerente. Eles já existiam na época da tradução do hebraico para o grego, quando surgiu a versão chamada de Septuaginta (LXX) e, assim, em alguns casos, estão bastante próximos da época de composição dos salmos que procuram descrever, ou introduzir. Estes títulos, normalmente, não são considerados inspirados, e alguns deles foram colocados de forma claramente equivocada. Contudo, eles, no mínimo, apontam para uma interpretação muito antiga da composição em foco, apresentam possibilidades de autoria, informam sobre o possível contexto histórico, dão informações a respeito de sua execução musical e mostram indícios de como os antigos adoradores os utilizavam.[Nota 28] Veja, por exemplo, os títulos que aparece sobre o Salmo 59. Tomando-se por base a versão Almeida Século 21, encontra-se o seguinte sobre ele: Súplica por livramento com base na inocência Ao regente do coro: adaptado para “Al tachete” – Mictam de Davi, quando Saul mandou emissários guardarem a sua casa para o matar. Observações: a) O primeiro título, o qual se encontra em negrito e itálico, não faz parte do texto bíblico em si. Ele é uma criação dos tradutores da Versão Almeida Século 21, com base no conteúdo do salmo, procurando orientar a leitura.[Nota 29] b) O segundo título, apenas em itálico, este sim faz parte do texto hebraico como o conhecemos. Fica claro que não foi colocado pelo autor do salmo, mas é muito antigo e fornece indicações a respeito da possível autoria e de sua utilização no culto. c) As expressões “Al tachete” e “mictam” , que aparecem no título, não foram traduzidas porque há muita dificuldade em se chegar a um acordo a respeito de seus significados. Mas Derek Kidner sugere que “Al tachete” pode ser a indicação de uma melodia, que aparece também em outros salmos, e que “mictam” , outro título obscuro, pode estar indicando uma oração silenciosa.[Nota 30] d) A Nova Versão Internacional preferiu não colocar nenhum título, quer seja neste ou em qualquer outro salmo, e tentou traduzir os títulos que aparecem no Texto Hebraico. Ela traduziu o título deste Salmo 59 assim: Para o mestre de música. De acordo com a melodia Não Destruas. Davídico. Poema epigráfico. Os títulos que aparecem no Texto Hebraico, muitas vezes, dependendo da extensão deles, são numerados como se fossem versículos. Assim, muitos dos salmos na versão hebraica pos ão hebraica possuem uma numeração diferente das versões em português, que tratam os títulos como algo separado do texto. Por exemplo, o versículo 1 do Salmo 47, como aparece na Versão Almeida Século 21, corresponde ao versículo dois da Bíblia Hebraica, pois esta considerou o título como sendo o primeiro versículo. Assim segue com todos os demais versículos, cada versículo da Almeida Século 21, neste salmo, corresponde a um número a mais na Hebraica. Desta forma, ainda que as duas versões possuam o mesmo conteúdo, uma conta com nove versículos e a outra com dez. Um exemplo claro do que foi dito no parágrafo anterior pode ser visto no Salmo 54, na versão Almeida Século 21 (que contém 7 versículos), lado a lado com a Bíblia Hebraica (que contém 9 versículos). Mesmo que você não consiga ler o hebraico é possível perceber a diferença que está sendo destacada. Veja como fica: 4) A palavra hebraica selá ( selâ – hl;s,) aparece setenta e uma vezes no Livro de Salmos, com mais frequência nos livros I-III, e três vezes em Habacuque (Hc 3.3, 9 e 13). Não existe uma certeza absoluta a respeito do significado de sua utilização, mas, ao que parece, a função desta palavra era apontar para um interlúdio na execução do cântico ou mudança de acompanhamento musical.[Nota 31] Em qualquer destes casos ela pouco interfere na interpretação da mensagem. A maioria das versões modernas simplesmente ignora a palavra em suas traduções. A versão bíblica Almeida Século 21 entende e traduz como interlúdio. Veja, por exemplo, o Salmo 3, como segue: 1 SENHOR, como o número dos meus adversários tem crescido! Muitos se levantam contra mim. 2 Muitos dizem de mim: Em Deus não há salvação para ele. [Interlúdio] 3 Mas tu, SENHOR, és o escudo ao meu redor, a minha glória, aquele que levanta a minha cabeça. 4 Clamo ao SENHOR com a minha voz, e ele me responde do seu santo monte. 5 Eu me deito, durmo e acordo, pois o SENHOR me sustenta. [Interlúdio] 6 Não tenho medo de milhares que me cercam. 7 Levanta-te, SENHOR! Salva-me, meu Deus! Pois atinges no queixo todos os meus inimigos; quebras os dentes dos ímpios. 8 A salvação vem do SENHOR. A tua bênção está sobre o teu povo. [Interlúdio] 5) A Septuaginta trata os salmos 9 e 10 como sendo apenas um. As versões bíblicas de origem evangélicas seguem a divisão hebraica, as versões de origem católica seguem a da Vulgata, que é idêntica a da Septuaginta. Assim, a partir do salmo 9, as versões podem apresentar diferenças, não de conteúdo, mas de localização numérica, o que deve ser levado em conta ao escrever ou falar a respeito da obra para os públicos diversos. Também o Salmo 147 do Texto Hebraico e, consequentemente, também das versões evangélicas, possui o conteúdo dos Salmos 146 e 147 das versões católica, o que faz com que a partir do 148 a numeração entre as versões volte a ser igual. 6) O Salmo 2.12 diz assim: “Beijai o filho, para que ele não se irrite, e não sejais destruídos no caminho; porque em breve sua ira se acenderá. Bem-aventurados todos os que nele confiam”. Beijai o filho tem traduzido o hebraico nashshqû bar (rbAWqV]n). Não há concordância entre os estudiosos quanto ao significado e tradução deste termo. Também já foi proposto que não há a palavra filho no texto, pois bar, que seria aramaico e não hebraico, mostra evidências de ser um erro de escrita. Mas, no geral, pode-se entender que o texto está apontando para a sujeição e à humildade. Algumas versões sugerem que a tradução deve ser “beijai os pés”. Artur Weiser comentando este Salmo entende que por trás do rei de Sião está Deus, o único e verdadeiro senhor do mundo. Daí, os reis devem submeter-se à vontade deste Senhor e servi-lo. Quanto à expressão aqui em destaque ele diz: Também a expressão muito humana “beijar seus pés”, aplicada a Deus, que provavelmente tem sua origem no costume conhecido na Babilônia e no Egito de beijar os pés em sinal de homenagem, deve aqui ser entendida figurativamente no sentido de sujeição e homenagem.[Nota 32] 7) O Salmo 6 é o primeiro de um grupo classificado como Salmos Penitenciais, compostos pelos seguintes: 6, 32, 38, 51, 102, 130, e 143. A expressão traduzida por “estilo Seminite” ( ‘al-- hashshemînît - tyniymiV]hæAl[æ), na versão Almeida Século 21, que aparece em seu título hebraico, foi entendida por Artur Weiser como uma possível indicação musical que ele traduziu por “sobre a oitava”.[Nota 33] Ainda que não se possa ter certeza do significado, esta proposta é possível, pois a expressão seminite, shemînîte (tyniymiV]) em uma transliteração mais adequada, corresponde muito bem ao numeral ordinal oitavo/a, no hebraico.[Nota 34] Este termo aparece também no Salmo 12. 8) O termo Sigaiom ( shiggāyôn - !AyG”vi), que aparece no título do Salmo 7 tem significado totalmente incerto. Alguns já sugeriram que ele tem algum parentesco com o termo assírio shegu, o qual descreve um canto de lamentação.[Nota 35] 9) A expressão “sobre Gitite” ( ‘al-haggittît – tyTiGIh;-l[;), presente no título do Salmo 8 também é obscuro. Artur Weiser afirma que a “LXX relaciona a palavra com gat = lagar; com base nisso: ‘cântico do lagar’, o que talvez poderia indicar uma melodia”.[Nota 36] 10) A Almeida Século 21 preferiu não traduzir a expressão ‘almût labbē n (!Bel; tWml.[;)que aparece no Salmo 9.1, apenas transliterou por “Mute-laben”. Já Artur Weiser traduziu como “Morre pelo filho”, mas explicou que o significado é obscuro e que, talvez, indique o início de algum cântico cuja melodia era utilizada no canto ou acompanhamento do salmo.[Nota 37] A Versão Almeida Século 21 preservou a palavra hebraica Sheol ( she’ôl - l/av]) sem tradução em 9.17, 16.10, 18.5, 31.17, 49.14, 55.15. O texto de 9.17 diz assim: “Os ímpios irão para o Sheol, sim, todas as nações que se esquecem de Deus”. Esta palavra pode ser traduzida, dependendo do contexto, normalmente, por mundo dos mortos, mundo inferior, ou abismo. Alguns também sugerem profundezas, morte, ou sepulcro. Não é adequado traduzir por inferno, como algumas versões fazem, pois a doutrina a respeito do inferno não era conhecida no Antigo Testamento. 11) Os Salmos 14 e 53 são bastante parecidos, mas, também, possuem diferenças marcantes. Entre estas diferenças está a utilização do nome próprio Yavé (hwhy), no Salmo 14, e o título ’elôhîm (µyhiloaÖ), no Salmo 53, para designar Deus. Além disso, os versículos 5 e 6 possuem grandes diferenças. Ao que parece o Salmo 53, pertencente ao segundo livro que compõe o Livro de Salmos, é uma versão ligeiramente atualizada do Salmo 14, poesia do primeiro dos livros que fazem parte da composição final. Veja como ficam estes dois salmos lado a lado, com destaques para as diferenças principais: 12) O título do Salmo 22, na tradução de Almeida Século 21, apresenta a indicação “conforme a corça da manhã” ( ‘al- -’ayyelet hashshaḥar -rx;V;h; tl,Y l,ae tn:Ay) do título do Salmo 56, o que já aponta para a dificuldade de compreensão destes termos, mas Artur Weiser traduz como “uma pomba em longínquos terebintos” e sugere que seja o título de uma canção profana com cuja melodia deveria ser cantado este salmo, fenômeno que também se observa em cânticos religiosos cristãos.[Nota 45] 22) A expressão Susã Edute ( shûshan ’ēdût - tWd[e !v;Wv), que a Século 21 evitou traduzir no título do Salmo 60, foram vertidas por Artur Weiser como duas palavras separadas com os seguintes significados: “Lírio e Testemunho. Ele também sugere que seja o início de algum cântico cuja melodia era utilizada para se cantar ou acompanhar o salmo.[Nota 46] 23) O Salmo 72.8 diz: “Governe ele de mar a mar, e desde o rio até as extremidades da terra”. O rio mencionado deve ser o Eufrates, e os mares o Vermelho e o Mediterrâneo. 24) Há uma dificuldade muito grande de interpretação no Salmo 82.1. A Século 21, por exemplo, apresenta Deus no meio de deuses, o que pode ensejar que a Bíblia reconhece a existência destes como seres atuantes. Ela diz assim: “Deus preside a assembleia divina; ele estabelece seu juízono meio dos deuses”. Artur Weiser, em sua ênfase politeísta do contexto religioso do Antigo Testamento, parece que também não vê dificuldade em interpretar como deuses a palavra ’elôhîm (µyhiloaÖ). Ele traduziu da seguinte forma: “Deus se levanta no conselho divino, em meio aos deuses ele julga”.[Nota 47] Contudo, creio que levando-se em consideração o contexto geral do salmo e outras possibilidades comprovadas do significado da palavra hebraica ’elôhîm (µyhiloaÖ) a tradução possa ser outra. A Século 21 colocou uma nota explicando que, neste contexto, a palavra ’elôhîm (µyhiloaÖ) também pode ter o significado de “poderosos”, o que, em minha opinião faz muito mais sentido do que a palavra deuses, que ela deixou no texto. Mais do que isso, o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento apresenta os seguintes significados básicos para ’elôhîm (µyhiloaÖ): “Deus, deuses, juízes, anjos”.[Nota 48] Destas palavras, observando o conteúdo do salmo, parece que a tradução juízes para o termo ’elôhîm (µyhiloaÖ), no primeiro versículo, fica melhor. Os judeus David Gorodovits e Jairo Fridlin também optaram por este termo. A tradução deles ficou assim: “... O Eterno está presente na assembleia Divina onde se profere a justiça; Ele, entre juízes, promulga Sua sentença”.[Nota 49] Veja o conteúdo do salmo todo de acordo com a Século 21, com destaque para a palavra ’elôhîm (µyhiloaÖ), e perceba como juízes combina bem com o contexto: 1 Deus ( ’elôhîm - µyhiloaÖ) preside a assembleia divina; ele estabelece seu juízo no meio dos deuses ( ’elôhîm – µyhiloaÖ). 2 Até quando julgareis injustamente e favorecereis os ímpios? [Interlúdio] 3 Fazei justiça ao pobre e ao órfão; procedei com retidão para com o aflito e o desamparado. 4 Livrai o pobre e o necessitado, livrai-os das mãos dos ímpios. 5 Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam pelas trevas; todos os fundamentos da terra se abalam. 6 Eu disse: Vós sois deuses ( ’elôhîm - µyhiloaÖ), e todos sois filhos do Altíssimo. 7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, caireis. 8 Ó Deus ( ’elôhîm - µyhiloaÖ), levanta-te, julga a terra; pois a ti pertencem todas as nações. Bem, o problema não termina por aí. Também no versículo 6 a palavra ’elôhîm (µyhiloaÖ) é utilizada de forma que pode causar confusão. Afinal, neste versículo, quem é que está sendo chamado de ’elôhîm (µyhiloaÖ)? A resposta não é simples, mas pelo contexto, na minha opinião, parece que ela está sendo utilizada para pessoas, para mortais (v.7), e não para deuses. Jesus fez uso desta passagem em João 10.34-36. Ele não discutiu abertamente a questão do gênero daqueles que estão sendo chamados de “deuses” ( ’elôhîm - µyhiloaÖ), se eram humanos ou divinos. Mas, se defendendo da acusação de blasfêmia da parte dos judeus que o acusavam de se passar por Deus, sendo homem, apela para este salmo mostrando que outros (aqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida – João 10.35), no passado, foram chamados por este título pela própria palavra de Deus. Assim ele estaria como que dizendo: Por que é que vocês me acusam de blasfêmia por utilizar este título, se a própria Bíblia o utilizou para outras pessoas no passado? Contudo, temos que reconhecer que esta questão ainda não está clara o suficiente para se fazer uma interpretação totalmente segura. 25) No Salmo 87.4 está escrito assim: “Entre os que me conhecem mencionarei Raabe e Babilônia; também se dirá da Filístia e de Tiro, juntamente com a Etiópia: este nasceu ali”. O termo Raabe, que aparece entre outros nomes de nações, neste contexto é identificado com o Egito.[Nota 50] 26) O título hebraico do Salmo 92 ( mizmôr shîr leyôm hāshabbāt - tB’V;h; ~Ayl. ryvi rAmz>mi), que traduzido significa “Salmo: um cântico para o dia de sábado”, mostra que o sábado no Antigo Testamento não era reservado apenas para o descanso, mas, também, para a adoração. 27) A palavra hebraica qā’āt (ta;q;) que aparece no Salmo 102.6 é rara e difícil de ser traduzida. Muitas versões optam por pelicano. O Dicionário Hebraico-Português & Aramaico Português optou por “espécie de pássaro impuro” e sugeriu, com dúvidas, o termo pelicano.[Nota 51] Já a Versão de Almeida Século 21, ainda que traduza como pelicano, coloca em nota de rodapé a possibilidade de “coruja”, termo também apontado, com dúvidas, por William L. Holladay.[Nota 52] 28) O Salmo 116.15 tem sido entendido de formas diferentes devido à tradução da palavra yāqār (rq’y” ), que pode significar: “raro, precioso, caro, de valor, nobre”.[Nota 53] Por exemplo, a versão de Almeida Revista e Atualizada (ARA), parece dizer que Deus gosta que seus santos morram. O texto diz assim: “Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte dos seus santos”. Porém, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), entendeu exatamente ao contrário, interpretando “precioso” como algo de ”muito custo” quando traduziu: “O SENHOR Deus sente pesar quando vê morrerem os que são fiéis a ele”. Levando-se em conta o contexto do salmo que mostra o seu autor grato a Deus por o ter livrado (v.16), percebe-se que a NTLH, neste caso, conseguiu uma tradução melhor. 29) Já foi mencionado neste livro que o Salmo 119 é uma poesia alfabética, isto é, com base na ordem alfabética do hebraico. Como o Alfabeto Hebraico é composto por vinte e duas letras também o salmo possui vinte e duas estrofes. Cada estrofe deste salmo é formada por oito versículos que iniciam com a mesma letra hebraica. A primeira letra hebraica é conhecida como Álef. Assim, o primeiro grupo de oito versículos inicia com Álef. A segunda letra do Alfabeto Hebraico é a letra Bêt. Então, a segunda estrofe, segundo grupo de oito versículos, também tem cada um de seus versículos iniciados em Bêt. Assim continua até a última letra do Alfabeto Hebraico. Como esta beleza visual com base no Alfabeto Hebraico é impossível de ser traduzida, é comum que os tradutores coloquem sobre cada uma das estrofes do salmo o nome da letra hebraica que inicia os versículos que a formam, numa tentativa de preservar, ao menos, um pouco da forma original. Por isso é que encontramos, de oito em oito versículos, as palavras Álef, Bêt, Guímel, etc., da primeira à última letra do Alfabeto Hebraico em algumas versões em português. O Salmo 119, em sua totalidade, é uma declaração de amor à revelação escrita de Deus. O autor lança mão de, ão escrita de Deus pelo menos, nove sinônimos para se dirigir à Palavra Escrita de Deus, o que nem sempre fica claro nas versões. De seus 176 versículos, poucos não contam com, pelo menos, um destes sinônimos. Por outro lado, alguns versículos possuem mais de uma referência. Veja abaixo o quadro de sinônimos que o autor do Salmo 119 utilizou em sua poesia, e perceba um pouco da beleza que isto criou. Na primeira estrofe da poesia, ou seja, nos primeiro oito versículos, por exemplo, já se percebe que foram utilizadas sete palavras diferentes para a “Palavra de Deus”. 30) Cada um dos salmos que compõe o grupo que vai do 120 ao134, com exceção do 122, 125, 126 e 128, tem como título a expressão “Cântico de degraus” ( shir hamma‘ǎlôt - tAlï[]M;h; ( ryvi), também conhecidos como “Cântico de subidas” ou “Cântico de romagem”. Derek Kidner diz que o Mixná registra que quinze degraus levavam do Átrio das Mulheres para o Átrio dos Israelitas, o que correspondia aos quinze Cânticos dos degraus nos salmos, degraus sobre os quais os levitas cantavam. Porém, como ele destaca, não existe registro que comprove que o que eles cantavam era este grupo de salmos, ainda que isso seja possível. O mais provável é que o título esteja apontando para as romagens subindo à Jerusalém, ou melhor, às subidas em procissão ao monte do SENHOR.[Nota 54] 31) O Salmo 134 encerra a coleção de salmos conhecida como “Cânticos de Degraus”, que vai do 120 ao 134. São apenas três versículos. Nos dois primeiros, possivelmente, os peregrinos se dirigem aos sacerdotes e levitas que serviam no Templo de Jerusalém e no versículo 3 recebem uma bênção como resposta. O texto é o seguinte: 1 Bendizei o SENHOR,todos vós, seus servos, que de noite servis na casa do SENHOR! 2 Erguei as mãos para o santuário e bendizei o SENHOR! 3 De Sião te abençoe o SENHOR, que fez os céus e a terra! O salmo é bastante breve, mas possui uma dificuldade para a sua interpretação, pois não está claro o significado do que seja “servir de noite na casa de Yavé”. Duas possibilidades têm sido sugeridas. Uma das opções é que pode ser uma referência aos cantores levíticos que de dia e de noite, em turnos, o adoravam no Templo. Como nos informa 1Crônicas 9.33: “Esses são os cantores, chefes de famílias dos levitas, que moravam nas salas e estavam isentos de outros serviços, porque de dia e de noite se ocupavam naquele serviço”. Outra possibilidade é que seja um pedido de bênção no encerramento de um culto noturno, por ocasião de alguma festa religiosa. 32) O Salmo 136 tem uma estrutura bastante particular. Cada um dos seus vinte e seis versículos possui duas linhas sendo a primeira delas uma ação de graças, que varia de versículo para versículo, possivelmente cantada por um dirigente de culto ou por um coro, e a segunda uma resposta fixa cantada por outro coro ou pela congregação. Este é um salmo pós-exílico. O título “Deus dos Céus” ( ’ēl hashshāmāîm - ~yIm’V’h; lae), utilizado nele no versículo 26, só aparece na Bíblia em literatura pós-exílica, como os livros de Crônicas, Esdras, Neemias e Daniel. Ele era empregado na liturgia em muitas ocasiões e ficou conhecido como o Grande Hallel (o grande louvor) em distinção ao Pequeno Hallel que era formado pelos Salmos 113-118. Deixando-se de lado a resposta que aparece em cada um dos seus vinte e seis versículos, a que diz: “pois seu amor dura para sempre ( kî le‘ôlām ḥasddô - ADs.x; ~l’A[l. yKi), ele é muito parecido com o Salmo 135.[Nota 55] 33) Cada uma das cinco partes principais, ou livros, em que se divide o Livro de Salmos termina com uma doxologia, ou seja, com palavras de louvor a Deus. As quatro primeiras possuem algumas semelhanças. A primeira parte, 1-41, termina assim: “Bendito seja o SENHOR Deus de Israel, de eternidade a eternidade! Amém e amém!” (Sl 41.13). A segunda parte (42-72), antes da informação “Terminam aqui as orações de Davi, filho de Jessé” (Sl 72.20), encerra o bloco com a seguinte doxologia, em dois versículos: “Bendito seja o SENHOR Deus, o Deus de Israel, o único que faz maravilhas. Bendito seja para sempre seu nome glorioso, e toda a terra encha-se da sua glória. Amém e amém (Sl 72.18-19). A terceira (73-89) encerra-se coma a aclamação “Bendito seja o SENHOR para sempre. Amém e amém” (Sl 89.52). E a quarta (90- 106) encerra-se dizendo: “Bendito seja o SENHOR, o Deus de Israel, de eternidade em eternidade! E todo o povo diga: Amém. Aleluia!”(Sl 106.48). Já a quinta e última doxologia encerrando não apenas o quinto livro, mas o Livro de Salmos como um todo, utiliza o Salmo 150 como doxologia final. Nele o verbo louvar ( hālal -ll”h;), único verbo a ser utilizado na composição, aparece 13 vezes, doze no imperativo, como ordens, e uma vez no jussivo, que expressa um desejo da parte de quem fala. Veja como fica este salmo na versão Almeida Século 21, mas com destaques do verbo em hebraico: 1 Aleluia ( halelû yāh - Hy” Wll.h; - Louvai Yavé)! Louvai a Deus ( halelû ’el -lae-Wll.h;) no seu santuário; louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) no firmamento, obra do seu poder! 2 Louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) por seus atos poderosos; louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) segundo a excelência da sua grandeza! 3 Louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) ao som da trombeta; louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) com saltérios e harpas! 4 Louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) com danças e tamborins; louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) com instrumentos de cordas e com flautas! 5 Louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) com címbalos sonoros; louvai-o ( halelûhû - WhWll.h;) com címbalos retumbantes! 6 Todo ser que respira louve ( tehallel - lLeh;T.) o SENHOR. Aleluia ( halelû yāh - Hy” Wll.h; - Louvai Yavé)! A ordem clara para os adoradores, muito adequada para encerrar o Livro de Salmos, o qual era utilizado no Templo, é louvar a Deus. Todos, utilizando-se de vários tipos de instrumentos, são chamados a este ato de culto. Notas Nota 26 - GUNKEL, Hermann, The Psalms: a Form-critical Introduction, Philadelphia, Fortress Press, 1982, 956p. [Voltar] Nota 27 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.205. [Voltar] Nota 28 - O termo filhos de Coré descreve um grupo de cantores do Templo que já atuavam na época do rei Josafá, de Judá. Veja 2Cr 20.19. [Voltar] Nota 29 - Não é certeza que Jedutum seja um nome próprio, pode ser apenas um termo musical ou uma indicação cúltica. Inclusive, nestes salmos em que aparece o termo Jedutum também aparecem outros nomes claramente pessoais, no caso Davi e Asafe. [Voltar] Nota 30 - KIDNER, Derek. Salmos 1-72: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1981, p.51,57. [Voltar] Nota 31 - KIDNER, Derek. Salmos 1-72: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1981, p.50 [Voltar] Nota 32 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.79. [Voltar] Nota 33 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.89. [Voltar] Nota 34 - GUSSO, Antônio Renato. Gramática instrumental do hebraico. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 2008, p.120. [Voltar] Nota 35 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.92. [Voltar] Nota 36 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.97. [Voltar] Nota 37 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.102. [Voltar] Nota 38 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.156. [Voltar] Nota 39 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.187. [Voltar] Nota 40 - KIDNER, Derek. Salmos 1-72: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1981, p.144. [Voltar] Nota 41 - DILLARD, Raymond B. Dillard E LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.215. [Voltar] Nota 42 - KIDNER, Derek. Salmos 1-72: introdução e comentário. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 1981, p.48 [Voltar] Nota 43 - KIRST, Nelson; KILLP, Nelson; SCHWANTES, Milton; RAYMANN, Acir e ZIMMER, Rudi. Dicionário Hebraico- Português e Aramaico-Português. 2.ed. São Leopoldo: Sinodal, 1989, p.247. [Voltar] Nota 44 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.266. [Voltar] Nota 45 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.12 e 313 [Voltar] Nota 46 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.326. [Voltar] Nota 47 - WEISER, Artur. Os salmos. São Paulo: Paulus, 1994, p.422-424.. [Voltar] Nota 48 - HARRIS, R. Laird; ARCHER, Jr. e WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1998, p.71. [Voltar] Nota 49 - GORODOVITS, David e FRIDLIN, Jairo. Bíblia Hebraica: Baseada no hebraico e à luz do Talmude das fontes judaicas. Editora e Livraria Sêfer LTDA. 2006, p.652. [Voltar] Nota 50 - KIDNER, Derek. Salmos 73-150: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1992, p.340 [Voltar] Nota 51 - KIRST, Nelson; KILPP, Nelson; SCHWANTES, Milton; RAYMANN, Acir e ZIMMER, Rudi. Dicionário hebraico- português e aramaico-português. 2.ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1989, p.210. [Voltar] Nota 52 - HOLLADAY, William L. Léxico hebraico e aramaico do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2010, p.443. [Voltar] Nota 53 - KIRST, Nelson; KILPP, Nelson; SCHWANTES, Milton; RAYMANN, Acir e ZIMMER, Rudi. Dicionário hebraico- português e aramaico-português. 2.ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1989, p.93. [Voltar] Nota 54 - KIDNER, Derek. Salmos 1-72: introdução e comentário. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 1981, p.57. [Voltar] Nota 55 - CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo: Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares. 2.ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p.2485. v.3. [Voltar] 5. O LIVRO DE PROVÉRBIOS O Livro de Provérbios é um dos livros mais lidos de todo o Antigo Testamento.Talvez por ser essencialmente prático, e poder ser considerado como um manual para se alcançar a felicidade no dia a dia. Contudo, percebe-se também que ele é um dos livros menos pregados e estudados nas igrejas atuais. Isto, porque ele apresenta algumas dificuldades para o pregador moderno. Veja os seis exemplos que seguem: 1) Alguns dos provérbios parecem ir contra a realidade. O que dizer de um provérbio que parece afirmar que o temor de uma pessoa a Deus é garantia de vida longa, enquanto o contrário é garantia de uma vida breve, quando se percebe pessoas tementes a Deus morrendo jovens, enquanto verdadeiros inimigos de Deus vivem muitos anos? Em Provérbios 10.27 diz assim: “O temor do SENHOR prolonga a vida, mas a vida dos ímpios será abreviada”. Ou, ainda, como explicar um provérbio que parece garantir que uma pessoa ensinada no caminho certo quando criança jamais se afastará do bom caminho, como alguns entendem Provérbios 22.6, enquanto a realidade mostra que muitos se desviam? O texto diz assim: “Instrui a criança no caminho em que deve andar, e mesmo quando envelhecer não se desviará dele”; 2) Alguns parecem ser extremamente seculares, sem nenhum conteúdo teológico. Veja os exemplos: “A mulher bonita que não é discreta é como joia de ouro em focinho de porco” (11.22). “Os planos realizados com conselhos são bem sucedidos, e com prudência se faz a guerra” (20.18); 3) Alguns parecem demonstrar uma preocupação especial em manter a situação como se encontra (o status quo). Veja o que dizem o 22.28 e o 24.21: “Não removas os marcos antigos que teus pais fixaram”. “Meu filho, teme o SENHOR e o rei, e não te associes com os rebeldes”. 4) Alguns provérbios parecem ser cépticos em relação ao que acontece na sociedade. Perceba o que dizem os seguintes: “O pobre é odiado até pelo vizinho, mas o rico tem muitos amigos” (14.20). “O linguajar nobre não convém ao insensato, muito menos os lábios mentirosos a um príncipe” (17.7). “Um presente abre o caminho para o homem e o leva à presença dos nobres” (18.16); 5) Grande parte dos provérbios parece não possuir nenhum ligação com os demais. Perceba isto conferindo em sua bíblia a sequência que vai de 10.1-22.16; 6) Ainda, para complicar mais um pouco, alguns dos provérbios parecem ir contra pensamentos considerados corretos na sociedade moderna, colocando o pregador em dificuldades. Este é o caso da disciplina indicada para os filhos, como se vê em Provérbios 19.18 e 23.13, como seguem, de acordo com a versão NVI:[Nota 56] “Discipline seu filho, pois nisso há esperança, não queira a morte dele”; “Não evite disciplinar a criança; se você a castigar com a vara, ela não morrerá”. Ainda que estas dificuldades existam de fato, e espero que elas sejam, ao menos, melhor entendidas, depois da leitura deste livro, Provérbios continua sendo um livro especial que deve ser pregado e ensinado na atualidade. Por isso devemos procurar conhecê-lo melhor. Vejamos então alguns pontos informativos a respeito da introdução geral deste livro e alguns destaques que possam ajudar na interpretação correta. 5.1. O Título do Livro de Provérbios O título normalmente utilizado em português vem da versão conhecida como Vulgata onde aparece, em latim, da seguinte forma: Liber Proverbiorum. Originalmente, no hebraico, o título era tirado da 1a frase do livro que traduzida diz o seguinte: “Provérbios de Salomão o filho de Davi o rei de Israel”. Na Bíblia Hebraica Stutegartensia este título foi abreviado sendo utilizada apenas a primeira palavra: mishlê (ylev]mi), que significa “Provérbios de”. É bom observar que mishlê (ylev]mi), ou māshāl (lv;m;), em sua forma primária, significa bem mais do que a palavra por-tuguesa provérbios. Veja alguns de seus usos no Antigo Testamento. Miquéias 2.4 – Motejo (Cântico de zombaria): “Naquele dia surgirá um provérbio ( māshāl - lv;m;) contra vós e se levantará um triste pranto: Estamos inteiramente destruídos. Ele troca a porção do meu povo! Como ele a retira de mim! Reparte os nossos campos entre os rebeldes”; Salmo 44.14 (44.15 na BHS) – Provérbio, máxima, exemplo: “Puseste-nos por provérbio ( māshāl – lv;m;) entre as nações, os povos meneiam a cabeça diante de nós”; Números 23.7 – Parábola ou discurso: “Então Balaão proferiu seu oráculo ( meshālō – /lv;m])[Nota 57]: Balaque, rei de Moabe, mandou trazer-me de Arã, desde as montanhas do oriente, dizendo: Vem, amaldiçoa Jacó para mim; vem sentencia Israel”; Ezequiel 17.2 – Alegoria, enigma: “Filho do homem, propõe um enigma ( māshāl – lv;m;) e apresenta uma alegoria à casa de Israel”. Outros exemplos poderiam ser dados neste ponto, mas parece que estes já são suficientes para demonstrar a multiplicidade de significados do termo māshāl (lv;m;), que dá nome ao Livro de Provérbios. 5.2. A Estrutura do Livro de Provérbios Pode-se dizer que o Livro de Provérbios, no geral, é uma coleção de coleções de ditos, provérbios e outros tipos de literaturas ligadas à sabedoria. Assim, fica difícil fazer uma organização do material em uma sequência natural dividindo suas partes pelos assuntos tratados. Parece que o melhor esboço é aquele que segue a própria estrutura do livro. Vejamos uma possibilidade disto. 1) Provérbios identificados como de Salomão: Poesias mais ou menos longas onde um pai fala ao seu filho ou a “Sabedoria” fala com todos os seres humanos (1-9). O primeiro versículo identifica o grupo, dizendo: “Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel” (Pv 1.1). 2) Também provérbios identificados como sendo de Salomão: São 375 ditos separados uns dos outros com pouca evidência de alguma ordem (10.1-22.16). Aqui também o grupo é encabeçado pela frase “Provérbios de Salomão...” (Pv 10.1). 3) Palavras dos sábios: Composta por trinta ditos, parte deles baseados em uma fonte egípcia (22.17-24.22). O primeiro versículo do grupo diz assim: “Inclina teu ouvido e ouve as palavras dos sábios...” (Pv 22.17a). 4) Outras palavras dos sábios (24.23-34). Veja como é que este grupo inicia, identificando o material: “Estes também são provérbios dos sábios...” (Pv 24.23a). 5) Provérbios de Salomão que foram transcritos pelos servos do Rei Ezequias, de Judá (25- 29). Em 25.1, outro grupo de provérbios de Salomão é identificado. Veja como: “Estes também são provérbios de Salomão. Foram copiados pelos servos de Ezequias, rei de Judá”. 6) Palavras de Agur, filho de Jaqué de Massá, apresentadas em duas partes (30.1-10 e 30.11- 33). 7) Palavras do rei Lemuel, de Massá, às quais recebeu de sua mãe (31.1-9). 8) Poesia alfabética exaltando a mulher virtuosa ou apresentando uma idealização da sabedoria como forma de conclusão do livro (31.10-31). Na versão conhecida como Septuaginta (LXX), a primeira tradução bíblica conhecida, algumas destas seções estão em ordem diferente da aqui apresentada. Isto acaba sendo um auxílio para ajudar a descobrir onde cada uma das seções começa e termina. 5.3. A Autoria do Livro de Provérbios Como já se percebe no ponto anterior, o que tratou da estrutura do livro, a autoria não é de apenas uma pessoa. Na verdade, sendo o livro, como é, uma coleção de coleções de escritos, deve ter muitos autores, a maioria deles desconhecidos. Assim, a informação “Provérbios de Salomão” que se encontra no início do livro (1.1), refere-se apenas àquela primeira coleção, conforme vimos na estrutura, e não ao livro todo. Além dos autores totalmente desconhecidos temos alguns que o livro faz menção. São eles: a) Salomão (1.1; 10.1; 25.1); b) Os Sábios (22.17; 24.23); c) Agur (30.1); d) Lemuel (31.1). 5.4. Conteúdo e Tema Geral do Livro de Provérbios As ideias e os temas são diversos e estão espalhados pelo livro, estes que seguem são apenas alguns destaques: 1) Sabedoria 2) Obediência 10.1 2) Humildade 11.2; 15.33 3) Autodomínio 14.17; 18.13; 25.28 4) Preguiça 15.19; 22.13 5) Alegria 15.13 6) Justiça 21.15 7) Fidelidade 25.13. Ainda que o conteúdo seja tão variado o objetivo do livro, ou tema geral, é claro: levar o leitor a obter sabedoria e sersábio no convívio social. 5.5. O Livro de Provérbios e o Novo Testamento Os ensinos de Provérbios aparecem seguidamente no Novo Testamento. Os que seguem no quadro abaixo são apenas alguns exemplos: 5.6. O Livro de Provérbios e o Escrito Egípcio de Amenemope Em 1924 E. A. Budge apresentou ao mundo acadêmico um documento egípcio que foi encontrado em 1888, chamado de “Ensinamentos de Amenemope”. A partir disto vários estudiosos tentaram provar que o Livro de Provérbios, em partes, dependia deste documento, da mesma forma que outros defen-deram o contrário, que Amenemope depende de Provérbios. No geral parece que Amenemope é mais antigo do que a forma final de Provérbios,[Nota 58] mas a questão ainda não está totalmente fechada. Seja como for a verdade é que existem semelhanças entre algumas partes dos dois documentos. Veja as seguintes, e compare: Não removas os marcos antigos que puseram teus pais (Pv 22.28). Não removas o marco dos limites da terra cultivável, nem mudes a posição da corda- medida (De Amenemope cap.6). Não te fatigues para seres rico; não apliques nisso a tua inteligência. Por ventura, fitarás os olhos naquilo que não é nada? Pois, certamente, a riqueza fará para si asas, como a águia que voa pelos céus (Pv 23.4-5). Não percas teu coração perseguindo as riquezas. Não disponhas o teu coração sobre aparências, [...] elas (riquezas) criam para si asas como gansos e voam para os céus (De Amenemope cap.8).[Nota 59] 5.7. A Utilização dos Provérbios no Ensino de Discípulos Ivo Storniolo chamou a atenção para a possibilidade dos provérbios serem modelos para serem prolongados, assim, servindo de instrumento de ensino para os discípulos de determinados mestres. Isto também explicaria o motivo de haver alguns provérbios neste livro que possuem um de seus membros semelhantes a de outro. Aproveitando a sugestão deste autor dividiremos este assunto em duas partes. Primeiro veremos alguns provérbios que possuem um de seus membros semelhantes e, em seguida, partiremos para um exercício baseado em sua obra. 5.7.1. Provérbios que possuem membros semelhantes Seguem como exemplos alguns Provérbios que possuem membros semelhantes. São eles: 10.1 e 15.20 ...O filho sábio alegra seu pai; mas o insensato é a tristeza de sua mãe (10.1) O filho sábio alegra seu pai, mas o homem insensato despreza sua mãe (15.20). 10.2 e 11.4 Os tesouros da maldade não servem para nada, mas a justiça livra da morte (10.2). No dia da ira, as riquezas não servem para nada, mas a justiça livra da morte (11.4). 10.15 e 18.11 Os bens dos ricos são a sua fortaleza, a ruína dos pobres é a sua pobreza (10.15). Os bens do rico são sua cidade forte, como um muro alto em sua imaginação (18.11). 5.7.2. Exercícios baseados em Provérbios Os exercícios que seguem, às definições dos paralelismos e tipos de provérbios, e as explicações a respeito da importância de cada um como instrumento de ensino, então, estão baseados na obra de Ivo Storniolo.[Nota 60] Ele defende que o mestre dava a primeira parte e esperava que o discípulo preparasse a segunda. Assim, aqui será apresentada a primeira parte de alguns provérbios e o leitor deve procurar completar a segunda. A intenção é que o leitor experimente aquilo que, de acordo com Ivo Storniolo, discípulos de mestres do passado experimentaram. Ou seja, desenvolveram suas habilidades exercitando-se na composição de provérbios. Vejamos como fica. 1) Paralelismo Sinônimo O segundo membro diz mais ou menos a mesma coisa que o primeiro. Exemplo: 4.14 Não entres na vereda dos perversos, nem sigas pelo caminho dos maus. O treinamento com este tipo de provérbio permite reforçar a compreensão de uma realidade pela repetição e acumulação (2o membro), que acrescenta ênfase e esclarecimento à ideia principal (1o membro). Exercício: A primeira parte de 4.24 diz o seguinte: Desvia de ti a falsidade da boca, Agora, procure completar, escrevendo em uma folha, ou mesmo mentalmente, a segunda parte do versículo, utilizando o paralelismo sinônimo, antes de conferir em uma versão da Bíblia qual teria sido, se assim fosse utilizado este provérbio, a complementação providenciada pelo discípulo. Desvia de ti a falsidade da boca, Segunda parte: (Conferir em uma versão bíblica o mais literal possível) Observação: O leitor não deve ficar preocupado por não conseguir escrever o mesmo que está na Bíblia. De fato, isto só será possível se o versículo já estiver decorado. O importante é perceber se entendeu o tipo de paralelismo e se acompanhou ou não o pensamento do autor. 2) Paralelismo Antitético O segundo membro cria um contraste com o primeiro. Exemplo: 11.19 Tão certo como a justiça conduz para a vida, assim o que segue o mal para a sua morte o faz. O treinamento com este tipo de provérbio exercita a pessoa a ter uma atenção diferenciadora sobre a realidade, preparando-a para perceber as diferenças e contrastes. Aguça o espírito crítico além de esclarecer uma coisa pela observação de seus contrários. Exercício: Ler a primeira parte de 15.5, como segue, e complementar com a segunda parte. Primeira parte: O insensato despreza a instrução de seu pai, Segunda parte: (Conferir em uma versão bíblica o mais literal possível) 3) Paralelismo Sintético O segundo membro não diz o mesmo nem o contrário do primeiro, mas prolonga, ou desenvolve, o pensamento com nova ideia ou observação. Exemplo: 16.31 Coroa de honra são as cãs, quando se acham no caminho da justiça. Este tipo de exercício favorece o desenvolvimento do pensamento e a ampliação das ideias. É útil para exercitar a fala e a escrita, mostrando como um conhecimento pode crescer e tomar corpo. Ele equivale ao exercício de montar uma história em grupo, onde cada um vai acrescentando uma frase a partir da anterior formada por outro. Exercício: Ler a primeira parte de 3.27 e complementar com a segunda parte. Primeira parte: Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, Segunda parte: (Conferir em uma versão bíblica o mais literal possível) Exercício: Ler a primeira parte de 3.28 e complementar com a segunda parte. Primeira parte: Não digas ao teu próximo: vai, e volta amanhã, então to darei, Segunda parte: (Conferir em uma versão bíblica o mais literal possível) 4) Paralelismo Emblemático (comparação) O segundo membro apresenta uma equivalência com o primeiro - A primeira linha ilustra a segunda, é uma figura para o que vem na sequência (Não há contraste). Exemplo: 26.11 Como o cão que retorna ao seu vômito, assim é o insensato que reitera a sua estultícia. O treinamento com comparações é a alma das parábolas. É um treinamento de agilidade mental que fornece uma compreensão sintética da realidade. É através de comparações concretas (Parábolas) que Jesus revela os mistérios do reino de Deus. Exercício: Ler a primeira parte de 25.26 e complementar com a segunda parte. Primeira parte: Como fonte que foi turvada e manancial corrupto, Segunda parte: (Conferir em uma versão bíblica o mais literal possível) 5) Paralelismo Comparativo de superioridade Isto (a primeira linha) é maior do que aquilo (o que vem descrito na segunda linha). Exemplo: 16.8 Melhor é o pouco havendo justiça, do que grandes rendimentos com injustiça. Exercício: Ler a primeira parte de 27.5 e complementar com a segunda parte. Primeira parte: Melhor é a repreensão franca, Segunda parte: (Conferir em uma versão bíblica o mais literal possível) 6) Provérbio Numérico Os Provérbios Numéricos são ainda mais complexos. Na opinião de Storniolo o mestre fazia a introdução com o tema e enumerava as coisas desafiando, em seguida, os discípulos a acrescentarem a última. Não se pode provar que eles eram utilizados assim, mas o esquema, realmente, aponta para algo semelhante. Ou, pelo menos, ao entender o esquema, percebe-se com mais facilidade a mensagem e a ênfase deste tipo de composição. Aqui o leitor não fará o exercício, mas procurará entender como é que ele funcionaria. Tomemos como exemplo Provérbios 6.16-19. Sua estrutura é a seguinte:Introdução (6) (6 + 1) Desenvolvimento 1a 2a 3a 4a 5a 6a Clímax (7a) O exercício estimula a pessoa despertando sua curiosidade e desafiando sua atenção. Esta técnica leva a enumerar, classificar e ordenar conhecimentos, modos de ser, situações, coisas, etc. Vejamos o texto, de acordo com a versão de Almeida, Revista e Atualizada, junto com o esquema desta estrutura para que fique mais claro: Introdução (6) Seis coisas o SENHOR aborrece, (6 + 1) e a sétima a sua alma abomina: Desenvolvimento 1a olhos altivos, 2a língua mentirosa, 3a mãos que derramam sangue inocente, 4a coração que trama projetos iníquos, 5a pés que se apressam a correr para o mal, 6a testemunha falsa que profere mentiras Clímax (7a) e o que semeia contendas entre irmãos. Observação: Fica claro no esquema acima que todas as coisas citadas desagradam ao Senhor, mas o destaque está em último lugar, na parte denominada clímax. Observar isto ajuda muito na interpretação. Veja como fica em um esquema um pouco diferente, o texto de Provérbios 30.21-23, também um Provérbio Numérico: Introdução X - Sob três cousas estremece a terra, X + 1 - sim sob quatro não pode subsistir: Desenvolvimento 1a - Sob o servo quando se torna rei; 2a - sob o insensato, quando anda farto de pão; 3a - sob a mulher desdenhada, quando se casa; Clímax 4a - sob a serva, quando se torna herdeira da sua senhora. 5.8. Destaques que Ajudam na Interpretação do Livro Aqui serão destacados alguns pontos que podem ser úteis na hora da interpretação. São eles: 1) Lembrar que o Livro de Provérbios é uma coleção de coleções. 2) Provavelmente as coleções de provérbios, e outros ditos, foram sendo formadas lentamente, o que impossibilita uma datação exata para cada porção. 3) Muitos autores desconhecidos devem ter contribuído, sem saber, para o resultado final deste livro. 4) O livro todo é uma espécie de manual que orienta o leitor a viver bem. 5) Os jovens formam, primordialmente, o público-alvo do livro.[Nota 61] 6) Ainda que muitos temas sejam abordados no livro, sabedoria é a base de tudo. 7) Em Provérbios 1.12; 5.5; 9.18; 15.11 e 24; 23.14; e 30.16, na versão Almeida Século 21, a palavra hebraica Sheol ( she’ôl - l/av]) foi traduzida por sepultura”. Contudo, deve ser lembrado que ela pode significar, também, mundo dos mortos, profundezas, morte e sepulcro. 8) Em muitas partes do livro quem se dirige ao leitor é a própria sabedoria personificada. Veja, por exemplo, o capítulo 8, e vários dos textos onde aparece a expressão “filho meu”. Minha sugestão é que você leia o capítulo 8 todo, mas apresentarei alguns de seus versículos abaixo: 1 Por acaso a sabedoria não está clamando? Por acaso o entendimento não está elevando a sua voz? 2 Ela se coloca nos lugares mais altos, à beira do caminho, nos cruzamentos das estradas, 3 perto das portas, à entrada da cidade e à entrada das portas está clamando: 4 Homens, clamo a vós, e aos filhos dos homens dirige-se a minha voz. 5 Ó simples, aprendei a prudência; ó loucos, entendei a sabedoria... 12 Eu, a sabedoria, habito com a prudência, tenho o conhecimento e a discrição. 13 O temor do SENHOR é odiar o mal; assim odeio o orgulho, a arrogância, o mau caminho e a boca perversa. 9) A observação a respeito da eficácia do suborno (17.8) não indica que o autor defende sua prática. No mesmo capítulo fica claro que é o perverso quem aceita o suborno (17.23). Veja os textos: “O suborno é uma pedra valiosa aos olhos de quem o oferece, aonde quer que vá, serve-lhe de lucro” (Pv 17.8). “O ímpio recebe suborno em segredo para corromper as veredas da justiça” (Pv 17.23). 10) Provérbios não são promessas nem leis, mas observações da vida. Levando-se isto em consideração fica clara a interpretação, por exemplo, de um provérbio como o 22.6 (“Instrui a criança no caminho em que deve andar, e mesmo quando envelhecer não se desviará dele”). Ele não promete que alguém que foi ensinado em algum caminho, seja ele mal ou bom, quando criança, jamais se desviará deste caminho (forma de proceder), pois existem exceções à esta regra, como se confirma em alguns casos. Ele, simplesmente, está mostrando a regra geral, bem conhecida na atualidade: aquilo que nos ensinam na infância, normalmente, levamos para o restante das nossas vidas. Porém, pode haver desvios destes ensinos, para melhor ou para pior. 11) Algumas vezes o Livro de Provérbios é acusado de ser muito secular, no sentido de não religioso, mas, por exemplo, Provérbios 22.28, mostra uma preocupação clara em cumprir os preceitos da Lei. Veja o que ele diz e sua fonte de inspiração, que se encontra em Deuteronômio 19.14: Não removas os marcos antigos que teus pais fixaram (Pv 22.28). Não removerás os marcos do teu próximo, que foram colocados pelos teus antecessores na herança que receberás, na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá para possuir (Dt 19.14). 12) O texto de 24.26, literalmente, parece estranho para o leitor moderno brasileiro. Ele diz assim: “O que responde com palavras corretas é como quem beija os lábios”. A Século 21 ajuda a entender explicando em nota que “beijar os lábios é prova de sinceridade”. Parece que a Nova Tradução na Linguagem de Hoje também entendeu assim ao traduzir da seguinte forma, substituindo a figura pelo seu significado: “A resposta sincera é sinal de uma amizade verdadeira”. 13) O animal citado em 30.26 ( shāpān - ˆp;v;) não tem sido identificado com segurança. A Versão Almeida Século 21 traduz por “coelho”, mas informa em nota que, com base na Septuaginta o Texto Hebraico sugere “ratazana”. Derek Kidner, não muito seguro, diz o seguinte a respeito desta palavra: “se refere, conforme parece, ao Hyrax syriacus, uma espécie de ‘mamífero pequeno de cor castanha amarelada sem brilho, do tamanho do coelho, aproximadamente’ (Martin). São animaizinhos tímidos, que se apressam na fuga para as fendas das rochas onde se escondem (cf. Sl 104:8) quando a sentinela deles dá o sinal de alarme”.[Nota 62] 14) O texto de 31.10-31 é uma poesia alfabética. Cada um dos versículos começa com uma letra do Alfabeto Hebraico em sua ordem natural. Alguns, como é o caso de Derek Kidner, levantam a hipótese de que este texto é uma unidade distinta e anônima, separada das palavras do rei Lemuel, ou de sua mãe, as quais estariam registradas, apenas, em 31.1-9. Reforça esta ideia o fato destas duas porções estarem separadas uma da outra por cinco capítulos na antiga versão conhecida como Septuaginta (LXX).[Nota 63] Notas Nota 56 - Estes seis itens, em suas linhas gerais, foram aproveitados da palestra “Retratos da Família no Livro de Provérbios”, da parte introdutória, denominada “Diretrizes para entender e aplicar Provérbios”, p.1, ministrada pelo Professor Carlos Osvaldo Cardoso Pinto, na Faculdade Teológica Batista do Paraná. [Voltar] Nota 57 - A LXX traduziu por parabolē (parabolh,), que normalmente passa para o português como “parábola”. [Voltar] Nota 58 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.231,232. [Voltar] Nota 59 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.231. [Voltar] Nota 60 - STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro de Provérbios: a sabedoria do povo. São Paulo: Edições Paulinas, 1991. 71p. [Voltar] Nota 61 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.228. [Voltar] Nota 62 - KIDNER, Derek. Provérbios: introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982, p.175. [Voltar] Nota 63 - KIDNER, Derek. Provérbios: introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982, p.177. [Voltar] 6. O LIVRO DO ECLESIASTES São poucos os leitores habituais da Bíblia que param para meditar no Livro do Eclesiastes. Suas mensagens são incompreensíveis para boa parte das pessoas. Afinal, como entender um pregador tão pessimista como este, que parece não ver razão de ser na vida que está vivendo? Comcerteza, por causa de suas mensagens chocantes, este não é um livro para ser lido sem antes se estudar um pouco a respeito de suas características gerais, buscando-se orientações e esclarecimentos, sob forte risco de má interpretação e aplicação, que pode levar o leitor menos avisado até mesmo à depressão. Assim, antes da leitura do texto como um todo, vamos à leitura destas notas introdutórias fundamentais e dos destaques que ajudam na interpretação do livro. 6.1. O Título do Livro do Eclesiastes Nas versões em português o título do livro aparece como “Livro do Eclesiastes ou o Pregador”, ou, simplesmente, “Eclesiastes”. Já o título hebraico aparece como qōhelet (tl,h,qo). Este nome, qōhelet (tl,h,qo), aparece no texto original em 1.1; 1.12; 7.27; 12.8,9 e 10, contudo é uma palavra rara e não pode ser encontrada em nenhum outro livro da Bíblia, o que dificulta sua identificação.[Nota 64] A palavra possui uma terminação que é utilizada, normalmente, para o feminino, mas aparece quase sempre acompanhada de um verbo na forma masculina. A exceção está em 7.27 onde temos o conjunto ’āmrâ qohelet (tl,h,qo hr;m]a;) a qual, literalmente, poderia estar mostrando que não seria um pregador mas, sim, uma pregadora quem estava falando. Contudo, antes de irmos muito longe com isto, além do contexto que é claro, é bom perceber que pode ter acontecido um erro de cópia, onde o texto correto seria ’āmar haqqōhelet – Disse o Pregador (tl,h,Qohæ rmæa;), com a letra hebraica he (h) iniciando a segunda palavra e não terminando a primeira (Não esqueça que o hebraico é lido da direita para a esquerda). O nome qōhelet (tl,h,qo) vem da raiz qā h āl (lh;q;) e significa, basicamente, “chamar, reunir”. Desta forma, o nome do livro pode indicar: a) Aquele que reúne uma audiência; b) Aquele que discursa para o povo; c) Aquele que ensina. Pelo conteúdo do livro, na atualidade, poderíamos chamá-lo de “O Filósofo”, ou, ainda, “O Orador”. 6.2. A Autoria e a Data do Livro do Eclesiastes A tradição tem apontado o rei Salomão como sendo o autor do livro, isto com base nos textos de 1.1 e 1.12, como seguem: “Palavras do sábio, filho de Davi, rei em Jerusalém” (1.1); “Eu, o sábio, fui rei sobre Israel em Jerusalém” (1.12). Contudo, deve ser levado em conta que existem aqueles que se opõem à autoria salomônica e aqueles que a defendem. As objeções à autoria de Salomão podem ser resumidas assim: a) Nunca houve um tempo em que Salomão pudesse ter dito “Eu fui rei sobre Israel”, como está em 1.12, pois ele, em sua velhice, reinou até morrer. b) Teria o sábio Salomão se vangloriado de sua capacidade intelectual? Veja o que diz em 1.16: “Então pensei comigo mesmo: Tornei-me um homem próspero, cuja sabedoria é maior do que a dos que governaram Jerusalém antes de mim; realmente acumulei muita sabedoria e conhecimento”. c) Teria Salomão se vangloriado de suas posses e grandeza, como aparece em 2.7-9? Veja os textos: 7 Comprei escravos e escravas e tive escravos que nasceram em minha casa. Também tive mais gado e rebanhos do que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim. 8 Também acumulei prata e ouro e tesouros dos reis e das províncias. Escolhi cantores e cantoras, e desfrutei das delícias dos homens: mulheres em grande número. 9 Assim prosperei e me tornei mais rico do que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim. E nunca me faltou sabedoria.[Nota 65] Aqueles que defendem a autoria salomônica se baseiam quase que nas mesmas referências textuais, mas com outro enfoque. São elas: a) A incomparável sabedoria de Salomão (1.16). b) As riquezas sem igual de Salomão (2.8). c) O séquito de inúmeros servos de Salomão (2.7). d) As oportunidades para o prazer carnal que Salomão tinha (2.3). e) As extensivas atividades de construções de Salomão (2.4-6)[Nota 66] Já a maioria dos eruditos modernos tem optado por uma autoria anônima. Isto com base em três observações: a) O livro não apresenta de forma clara seu autor. b) O Pregador aparece tanto na 1ª quanto na 3ª pessoa no texto do livro (1.12 e 12.9), o que pode estar indicando que nem tudo é do mesmo autor. c) Existe a possibilidade de o autor utilizar o artifício de se passar por outro (Neste caso, por Salomão). Observação: Não se pode esquecer que além do qōhelet (tl,h,qo), seja ele quem for, existe no livro a indicação clara de um narrador desconhecido (Veja a conclusão geral em 12.9-14). Não poderia ser considerado ele o “autor” da obra? Se for assim, deve-se dar mais importância às conclusões dele do que aos exemplos gerais que ele apresenta sobre seu personagem. Com a dificuldade para se estabelecer o autor também surge o problema da data da composição. Aqueles que defendem a autoria salomônica, naturalmente, o colocam no IX século a.C. Já para a maioria dos estudiosos que não compartilham deste ponto de vista, na atualidade, sugere como data as proximidades dos anos 200-250 a.C. 6.3. O Tema Geral do Livro do Eclesiastes O tema geral da obra é a vaidade, no sentido de sem valor, ilusão. Tudo no livro deve ser visto levando-se isto em conta. De fato, para aqueles que não creem em Deus esta vida, e tudo o que está relacionado a ela, não passa de ilusão. Desta forma, para o autor, de acordo com La Sor: a sabedoria convencional não era só inadequada, mas quase chegava à blasfêmia. Estava em jogo a diferença entre Deus e a humanidade. Esses sábios haviam violado o território pertencente a Deus ao tentar predizer infalivelmente o resultado da conduta, seja dos sábios, seja dos tolos. A liberdade de Deus e os mistérios dos caminhos de Deus eram realidade que o Coélet [ qōhelet] compreendia melhor que seus compatriotas, os quais nem sempre reconheciam os limites impostos pela soberania divina ao entendimento humano. 6.4. O Propósito do Livro do Eclesiastes Em linhas gerais o propósito do livro é demonstrar a futilidade da vida sem Deus. Como disse Eaton, a obra é “um ensaio a respeito de apologética [que] defende a vida de fé num Deus generoso, enfatizando o horror de outra alternativa”.[Nota 67] 6.5. O Esboço Geral do Livro do Eclesiastes O livro tem sido analisado de várias formas. A que segue é apenas uma das possibilidades, que procura destacar seus temas principais: INTRODUÇÃO 1.1-18 EM BUSCA DO PRAZER 2.1-11 EM BUSCA DA SABEDORIA 2.12-17 EM BUSCA DA RIQUEZA 2.18-6.12 OBSERVAÇÕES PRÁTICAS DA VIDA DE QŌHELET 7.1-11.8 ADVERTÊNCIA AO JOVEM 11.9-12.8 CONCLUSÃO 12.9-14 6.6. Destaques que Ajudam na Interpretação do Livro Seguem alguns destaques e observações que podem ser úteis para a melhor compreensão deste livro. 1) A palavra “vaidade” ( hevel - lb,h,) aparece 35 vezes no livro. Esta é a mesma palavra utilizada como nome do filho de Adão e Eva (Abel - Gn 4.2) que foi assassinado. A palavra, além de vaidade, poderia ser traduzida por “sopro”, “fôlego”, “nulidade”, “ilusão” e, em alguns contextos, não dentro do livro de Eclesiastes, pelo termo “ídolo”. 2) O maior problema no Livro de Eclesiastes é entender o pessimismo descrito em seu conteúdo, seguido por aparentes contradições. Isto se resolve se o autor, ou o personagem principal do livro, de fato, estiver se passando por incrédulo, como parece estar. Sem Deus, realmente, fica difícil de se portar de forma otimista diante deste mundo. 3) Para aliviar a má impressão passada no livro que em determinados pontos mostra o seu personagem falando como incrédulo, é bom destacar que ele também recomenda, em várias outras partes, o temor do Senhor como a solução para a desesperança e a falta de propósito para a vida (2.24-26; 3.14; 5.7; 8.12; 12.13). Em especial, a obra é encerrada destacando que o temor ao Senhor está acima de tudo. Veja os textos, como segue: Não há nada melhor para o homem do que comer e beber e permitir-se ter prazer no seu trabalho. Vi que isso também vem da mão de Deus. E quem pode desfrutar da comida e da vida sem ele? Porque Deus dá sabedoria, conhecimento e felicidade ao homem que lhe agrada. Mas ao pecador ele dá o trabalho de ajuntar e armazenar riquezas para entregá-lasa quem agrada a Deus. Isso também é ilusão e perseguir o vento. (2.24-26) Eu sei que tudo que Deus faz durará eternamente; nada se pode acrescentar a isso e nada se pode tirar disso. Deus faz isso para que os homens temam. (3.14) Porque quando os sonhos se multiplicam também se multiplicam as palavras vazias. Por isso, teme a Deus. (5.7) Ainda que o pecador cometa um crime cem vezes e tenha vida longa, eu sei com certeza que tudo irá bem aos que temem a Deus, aos que o reverenciam. (8.12) Agora que já se disse tudo, aqui está a conclusão: Teme a Deus e obedece aos seus mandamentos; porque este é o propósito do homem. Porque Deus levará a juízo tudo o que foi feito e até tudo o que está oculto, quer seja bom, quer seja mau. (12.13-14) 4) Alguns têm encontrado a solução para a falta de estrutura lógica no livro apresentando-o como uma coleção de meditações não relacionadas entre si.[Nota 68] 5) Duas figuras interessantes são utilizadas em 4.5, o cruzar de braços e o comer a própria carne. Em conjunto elas apontam para o preguiçoso (cruzar os braços descreve o preguiçoso) e para o resultado de sua preguiça, a carência extrema (comer a própria carne). Veja o texto: “O tolo cruza os braços e come a própria carne”. 6) O ditado que aparece em 4.12, o famoso cordão de três dobras que não se rompe com facilidade, tem sido entendido de várias maneiras. Alguns têm dito que é uma referência à família: pai, mãe e filho. Outros, cristianizando a passagem, a aplicam à trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, mas, neste contexto, não devemos entender como algo mais do que um símbolo de união que é o tema principal da passagem completa (4.9-12). Também, é bom perceber que, mesmo que este texto possa ser aplicado ao casamento, o qual, por si só, é um símbolo de união, em primeira mão se refere ao companheirismo de forma geral. Ou seja, o texto não se refere claramente ao casamento, e a passagem de 4.11, onde destaca a vantagem de dois dormirem juntos, como diz Eaton, pode estar falando de dois viajantes. Pois nas frias noites de inverno de Israel os viajantes dormiam juntos para melhor enfrentar a dificuldade climática.[Nota 69] 7) Em 5.1 é utilizada a expressão “Guarda o pé”, que tem sido entendida por alguns como um conselho a respeito da reverência. A versão Almeida Século 21, por exemplo, entendeu assim, traduzindo: “Sê reverente”. Contudo, ao se analisar a unidade de texto completa, Eclesiastes 5.1- 7, parece que a questão não é tanto de reverência, mas de cuidado, cautela, pois com Deus não se brinca. O tema geral da passagem é a prática de votos a Deus. O autor aconselha que o adorador, ao entrar na casa de Deus, seja cuidadoso com os votos que faz. Neste sentido, neste contexto, guardar o pé expressa bem o cuidado que se deve ter, na realidade, com a boca, ao proferir palavras diante de Deus, fazendo-lhe promessas. Ao que parece os tolos da passagem agem mal ao oferecer sacrifícios menos valiosos do que aqueles que haviam votado ao Senhor (Ver vs 1b e 4). Para que fique mais claro, o texto será transcrito abaixo. Veja: 1 Sê reverente (guarda o pé = tenha cuidado) quando fores à casa de Deus. É melhor aproximar-se para ouvir do que fazer como os tolos, que oferecem sacrifícios sem saber que agem mal. 2 Não te precipites com a boca, nem seja o teu coração im-pulsivo para fazer promessa alguma na presença de Deus; porque Deus está no céu, e tu estás na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras. 3 Porque os sonhos vêm do muito trabalho, e o falar do tolo vem das muitas palavras. 4 Quando fizeres algum voto a Deus, não demores a cumpri-lo; porque ele não se agrada de tolos. O que votares, trata de cumpri-lo. 5 É melhor não fazer voto do que fazer e não cumprir. 6 Não permitas que a tua boca te faça pecar, nem digas ao mensageiro que foi um engano. Por que provocar a ira de Deus e destruir o trabalho das tuas mãos? 7 Porque quando os sonhos se multiplicam também se multiplicam as palavras vazias. Por isso, teme a Deus. Obs.: A palavra mensageiro ( mal’āk -%a’l.m;), utilizada no versículo 6, cria alguma dificuldade para o entendimento. Alguns entendem como sendo um anjo, outros como um profeta, e outros como um sacerdote, ou mensageiro do sacerdote. Uma boa opção, ainda que não com toda certeza, é que seja o sacerdote, testemunha da promessa que foi feita a Deus, ou um enviado deste sacerdote, que cobra o pagamento completo do que foi prometido. 8) O texto de 5.15: “Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu voltará” (ARA), semelhante a Jó 1.21, deve ser um dito popular que descreve a impossibilidade de se levar na morte bens materiais adquiridos em vida. 9) A expressão “não sejas justo demais” ( tsaddîq - qyDixæ) de 7.16 deve ser interpretada em conexão com a frase “Pois não há um só homem justo ( tsaddîq - qyDixæ) sobre a terra, que só faça o bem e nunca peque”, de 7.20. O autor deve estar chamando a atenção, de forma irônica, para o pecado da auto retidão, maneira como muitos gostam de se apresentar. 10) Alguns têm apontado para certo machismo da parte do autor em 7.28, quando diz: “Entre mil homens achei um como esperava, mas entre tantas mulheres não achei nem sequer uma” (ARA). Contudo, isto não está claro. O contexto mostra que ele está buscando a sabedoria e isto, entre mil homens encontrou um, quem sabe ele mesmo, e entre tantas mulheres, que deve estar em paralelismo com o termo mil, não encontrou nenhuma como ele esperava. Ou seja, ninguém era como ele queria, o que pode ser aplicado da seguinte maneira: Não espere encontrar nos outros aquilo que você deseja. 11) A atualidade de 8.11, no contexto brasileiro, é impressionante. Enquanto os julgamentos se arrastam por anos e anos os malfeitores continuam agindo como se fossem ficar sempre na impunidade. O texto diz assim: “O coração dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal porque não se executa logo o castigo sobre os crimes”. 12) Os temas abordados no livro, com certeza, têm incomodado as pessoas a muito tempo. Veja, por exemplo, as semelhanças do conteúdo de Eclesiastes 9.7-9 com um trecho da Epopéia de Gilgamesh, que deve ter sido escrita por volta de 2500 a.C., na Suméria. Perceba os paralelos no quadro abaixo: 13) As palavras direita e esquerda, no contexto de Eclesiastes 10.2, significam, respectivamente, bem e mal. O texto diz assim: “O coração do sábio o inclina para a direita, mas o coração do tolo o inclina para a esquerda”.[Nota 70] 14) O texto de 10.11, “Se a cobra morder antes de estar encantada, não há vantagem no encantador” (ARA), parece apontar para a necessidade de se utilizar as habilidades antes que seja tarde. 15) A Nova Tradução na Linguagem de Hoje, em Eclesiastes 11.1-2, difere muito das demais que se utilizam da tradução formal. Veja, por exemplo, a diferença dela comparada com a Versão Almeida Século 21, nos textos a seguir: O leitor acostumado com uma tradução mais formal, como a providenciada pela versão Almeida Século 21, pode estranhar, mas a interpretação de 11.1-8 como orientação para investimentos, conforme indicada pela NTLH, é bastante lógica à luz do contexto (Ec 11.1-8). A Bíblia de estudo da NTLH, defendendo sua tradução, é claro, também explica que a expressão “lançar o pão sobre as águas”, que aparece literalmente em 11.1, parece se tratar de um ditado que tem em vista negócios e comércio marítimo. Pão, neste caso, seria o resultado do trabalho, o que se transforma em dinheiro. Veja abaixo os versículos 3-8, o contexto dos versículos citados acima, na Almeida Revista e Atualizada (ARA) e perceba que a interpretação de 11.1-2 envolvendo investimentos tem bastante lógica. 3 Estando as nuvens cheias, derramam aguaceiro sobre a terra; caindo a árvore para o sul ou para o norte, no lugar em que cair, aí ficará. 4 Quem somente observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará. 5 Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.Jó, Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas.[Nota 2] O Códice de Leningrado[Nota 3] apresenta os mesmos livros, mas em uma ordem diferente, como segue: Salmos, Jó, Provérbios, Rute, Cantares, Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas.[Nota 4] 1.2.2. O Cânon Helenístico (LXX) No Cânon Helenístico (grego) mais conhecido como Septuaginta os Livros Poéticos e Sapienciais estão na divisão chamada “Poesia e Sabedoria”, entre os Livros Históricos e Proféticos. A ordem é a seguinte: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares. Como é possível notar, “Lamentações” não está relacionado com estes, mesmo sendo um livro poético, ele aparece juntamente com os “Profetas”, logo após o Livro de Jeremias. 1.2.3. O Cânon Católico Romano No Cânon Católico Romano os livros aqui estudados aparecem, principalmente, na divisão denominada “Livros Sapienciais.” Nesta divisão a ordem é esta: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Sabedoria e Eclesiástico. Como é possível notar, no Cânon Católico, nesta divisão, encontram-se dois livros a mais, Sabedoria e Eclesiástico, os quais não fazem parte do Cânon Hebraico. Também é possível notar que o Livro de Lamentações não faz parte da relação. Neste Cânon ele se encontra como um acréscimo ao Livro de Jeremias, junto com outro acréscimo chamado de “Baruc”. 1.2.4. O Cânon Protestante ou Evangélico Os livros de Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares se encontram nesta ordem entre os “Livros Históricos” e os “Proféticos”. O único livro da categoria aqui estudada que não está neste conjunto é o de Lamentações. Ele foi colocado juntamente com os “Proféticos” entre Jeremias e Ezequiel. Isto, certamente, devido à tradicional atribuição da autoria ao profeta Jeremias. 1.3. A Importância dos Livros Poéticos e Sapienciais na Revelação Divina Todos os livros da Bíblia são importantes, pois, como Palavra de Deus, têm algo a revelar a todas as pessoas em todos os tempos e lugares. O que segue, sem entrar em detalhes, é uma orientação geral para que o estudante vá para os livros que serão estudados com uma orientação básica a respeito da importância de cada um deles no quadro total da revelação divina. Vejamos então, em poucas palavras, qual é a importância de cada um deles, como segue. Jó – É importante por mostrar que o justo também pode sofrer. Salmos – Nos Salmos, normalmente, não é Deus quem fala com as pessoas, mas, principalmente, as pessoas que falam com Deus. Mesmo assim, ele é uma grande fonte de revelação dos atributos de Deus, geralmente manifestado pelo reconhecimento dos salmistas. Ele também é importante por revelar facetas do Messias que haveria de vir, além de ser uma fonte inesgotável de consolo ao povo de Deus. Provérbios – Ensina como viver uma vida feliz. Esta felicidade é alcançada pela prática diária da vontade de Deus, a qual é revelada por meio das observações dos sábios. Eclesiastes – Mostra a incoerência de uma vida afastada de Deus. Como o autor incansavelmente destaca na obra: sem Deus tudo é ilusão. Cantares – Mostra que o amor não tem preço. Ele é forte como a morte (Ct 8.6). Lamentações – Mostra as consequências da desobediência a Deus e preserva grande parte da história da destruição de Jerusalém e do Templo, pelos exércitos da Babilônia. 1.4. A Poesia Hebraica O povo hebreu era muito hábil na arte da poesia, música e dança. Era um povo alegre e sua cultura demonstra bem isto. Assim, o Antigo Testamento, como parte do registro do cotidiano deste povo, também está repleto de sua poesia e de outras manifestações culturais. Na verdade, um terço (1/3) de todo o Antigo Testamento é poesia, o que bem mostra a importância deste assunto para os estudantes da Bíblia. Cobrindo um terço do Antigo Testamento, o estudante deve notar que a poesia no Antigo Testamento não está limitada aos livros chamados “Poéticos”, ela se espalha por todo ele, como é possível notar, além de muitos outros, nestes textos que seguem, como exemplos: Gn 49.2-7 A Bênção de Jacó Êx 15.1-19Cântico de Moisés Nm 6.24-26 Bênção Araônica Dt 32.1-43 Cântico de Moisés 1Sm 2.1-10 Cântico de Ana 1Cr 16.7-36 Salmo de Davi Is 38.9-20 Cântico de Ezequias Jn 2.2-9 Oração de Jonas Hc 3.1-19 Oração de Habacuque 1.4.1. O vocabulário hebraico para a poesia Cinco palavras principais descrevem tipos diferentes da poesia hebraica. Elas aparecem diversas vezes na literatura. Assim, é muito útil conhecê-las, bem como o significado básico de cada uma. Vejamos. a) Mizmôr (r/mz]mi) – Poesia que era cantada, exclusivamente, com o acompanhamento de instrumentos de corda. b) Shîr (ryvi) – Qualquer tipo de canto não necessariamente acompanhado por instrumento. É o termo mais comum para canção. c) Māshāl (lv;m;) – Vem de uma raiz que significa “ser como”; dai o sentido primário de comparação, provérbio. Também é considerado um cântico satírico. d) Quînâ (hn;yqi) – Lamento, ou cântico fúnebre, expressando a dor causada pela morte. e) Tehillâ (hL;hiT]) – Hino de louvor. 1.4.2. Características principais da poesia hebraica Sem entrar em muitos detalhes, neste ponto, veremos as características principais da poesia hebraica que se espalha por todo o Antigo Testamento. Logo ficará claro que ela é muito diferente da poesia ocidental. 1.4.2.1. A rima Ainda que alguns defendam que exista a rima na poesia hebraica, pode-se dizer que, no geral, não há, a não ser de maneira ocasional, como uma exceção e não como regra. Este, talvez, seja o caso de Sl 23.1-2 e a última parte do Cântico da Vinha, Isaías 5.7, como pode ser visto logo adiante no ponto a respeito da estrofe. 1.4.2.2. A estrofe O que fica claro em algumas das poesias encontradas no Antigo Testamento, e que tem seu correspondente na poesia ocidental, é a existência da estrofe. Ela aparece de maneira livre dentro de algumas composições revelando-se por meio da forma ou do conteúdo. O mais perceptível dos indícios é o estribilho. Veja os exemplos: 1) Salmo 42 e 43 – Mostra unidade na composição e, também, três partes desenvolvidas quase na mesma dimensão. Veja, a seguir, as estrofes marcadas pelo estribilho: 42 1 Assim como a corça anseia pelas águas correntes, também minha alma anseia por ti, ó Deus! 2 Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e verei a face de Deus? 3 Minhas lágrimas têm sido o meu alimento dia e noite, enquanto me dizem a toda hora: Onde está o teu Deus? 4 Derramo a minha alma dentro de mim, ao lembrar-me de como eu guiava a multidão em procissão à Casa de Deus, com gritos de alegria e louvor, multidão em festa. 5 Por que estás abatida, ó minha alma, por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, minha salvação e meu Deus. 6 Minha alma está perturbada dentro de mim; por isso me lembro de ti, nas terras do Jordão, no Hermom, e no monte Mizar. 7 Um abismo chama outro abismo ao ruído das tuas cachoeiras; todas as tuas ondas e vagalhões têm passado sobre mim. 8 Contudo, durante o dia, o SENHOR me concede a sua bondade; durante a noite, seu cântico está comigo. Esta é a minha oração ao Deus da minha vida. 9 Digo a Deus, minha rocha: Por que te esqueceste de mim? Por que ando lamentando por causa da opressão do inimigo? 10 Meus ossos se esmigalham quando meus adversários dizem sem cessar: Onde está o teu Deus? 11 Por que estás abatida, ó minha alma; por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei,minha salvação e Deus meu. 43 1 Ó Deus, faz-me justiça e defende a minha causa contra uma nação ímpia; livrame do homem falso e perverso. 2 Pois tu és o Deus da minha fortaleza. Por que me rejeitas? Por que ando lamentando por causa da opressão do inimigo? 3 Envia tua luz e tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte e à tua habitação. 4 Então, irei ao altar de Deus, a Deus, que é minha grande alegria; e ao som da harpa te louvarei, ó Deus, meu Deus. 5 Por que estás abatida, ó minha alma? E por que te perturbas dentro de mim? Espera em6 Semeia pela manhã a tua semente e à tarde não repouses a mão, porque não sabes qual prosperará; se esta, se aquela ou se ambas igualmente serão boas. 7 Doce é a luz, e agradável aos olhos, ver o sol. 8 Ainda que o homem viva muitos anos, regozije-se em todos eles; contudo, deve lembrar- se de que há dias de trevas, porque serão muitos. Tudo quanto sucede é vaidade (Ec 11.3- 8). 16) Existem divergências a respeito da divisão exata do assunto final do capítulo 11 e do início do capítulo 12, mas, com certeza, o assunto do 11 continua no 12. Assim, uma sugestão que considero boa, como já apresentada anteriormente na proposta de esboço do livro de Eclesiastes, é tomar o texto de 11.9-12.8 como uma unidade completa, uma advertência final ao jovem, em linguagem poética. Notas Nota 64 - Na versão Almeida Século 21 aparece a palavra “sábio” como tradução para qōhelet (tl,h,qo) em todos estes textos. [Voltar] Nota 65 - FRANCISCO, Clayde T. Introdução ao Antigo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1979, p. 250. [Voltar] Nota 66 - ARCHER Jr, G. L. Merece confiança o Antigo Testamento? São Paulo: Edições Vida Nova, 1986, p.436. [Voltar] Nota 67 - EATON, M. A. e CARR, G. L. Eclesiastes e Cantares: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1989, p.49. [Voltar] Nota 68 - EATON, M. A. e CARR, G. L. Eclesiastes e Cantares: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1989, p.55. [Voltar] Nota 69 - EATON, M. A. e CARR, G. L. Eclesiastes e Cantares: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1989, p.101. [Voltar] Nota 70 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III. Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006. p.241. [Voltar] 7. O LIVRO DO CÂNTICO DOS CÂNTICOS Chegamos ao último, menor e mais polêmico, dos livros da divisão conhecida como Poéticos e Sapienciais. Não é difícil encontrar leitores que, em uma primeira leitura deste livro já se perguntaram surpresos: mas o que é que este livro está fazendo na Bíblia? Isto não é novidade, pois a história da interpretação deste livro mostra que em todas as épocas ele tem causado este tipo de reação. Assim, pode-se dizer, desde o início, que a tarefa de compreendê-lo não é simples. Contudo, com o estudo dos pontos aqui apresentados, com certeza, o leitor estará mais bem preparado para entender o seu conteúdo. Como sugestão, antes do estudo das notas que seguem, fica a sugestão de uma leitura do livro como um todo. Depois de feita a leitura, conhecendo ou relembrando o conteúdo geral, aí sim será hora de olhar com mais cuidado os destaques da obra, sempre com o texto bíblico em mãos. 7.1. O Título do Livro do Cântico dos Cânticos O nome do livro no hebraico, seguindo um costume antigo, é tirado de suas primeiras palavras que formam uma espécie de superlativo. Os termos hebraicos que normalmente o nomeiam são: shîr hashîrîm (µyriyvihæ ryvi), que literalmente podem ser traduzidos por: “O Cântico dos Cânticos”. Ou seja, o melhor de todos os cânticos. Nas versões em português o livro tem tomado o nome do hebraico, “Cântico dos Cânticos” ou, em alguns casos, da Vulgata, sendo identificado como “Cantares”. 7.2 Informações Gerais do Livro do Cântico dos Cânticos Este é um dos menores livros do Antigo Testamento. Ele possui, apenas, 117 versículos. Ele está na última parte do Cânon Hebraico, na divisão denominada “Escritos” ( ketûbîm - µybiWtK]), onde aparece como o primeiro do bloco conhecido como megillôt (t/LgiM] - rolos), empregados nas ocasiões de festa, sendo ele designado parte da leitura na mais importante delas, a festa da Páscoa. Existem no livro sete referências ao rei Salomão, nenhuma referência clara a Deus (alguns pensam que em 8.6 há uma, mas parece que não) e a palavra “amado” ( dôd - d/d) aparece trinta e sete vezes, o que aponta claramente para o assunto principal do livro. Isto, com certeza, foi um grande problema para a sua inclusão no Cânon e, ainda por volta de 100 d.C. era discutido se Cantares deveria ou não fazer parte dos livros considerados sagrados. Com certeza, como alerta LaSor, a ligação feita entre o poema e o famoso rei Salomão, mais as interpretações alegóricas feitas pelos rabinos e também pelos cristãos, a conscientização que ele celebrava o amor humano na festa do casamento, e a palavra do famoso rabino Akiba, afirmando que todos os Escritos eram santos mas que o Cântico dos Cânticos era o santo dos santos, pesou bastante para sua aceitação.[Nota 71] 7.3. A Autoria do Livro do Cântico dos Cânticos De acordo com Francisco este livro tem sido, tradicionalmente, atribuído a Salomão. Contudo, alguns críticos o atribuem a outro autor, residente no nordeste da Palestina, que o teria escrito logo após a morte do famoso rei, enquanto outros, ainda, defendem que ele foi escrito muito mais tarde. Na verdade, embora partes do livro se refiram claramente a Salomão como é o caso de 1.5, 3.7-11 e 8.11-12, por exemplo, percebe-se na leitura que o livro foi escrito mais a respeito do rei Salomão do que propriamente por ele.[Nota 72] 7.4. Como o Livro do Cântico dos Cânticos Tem Sido Interpretado Devido ao seu conteúdo tão diferente do normalmente encontrado em literatura religiosa cristã ou judaica, não há consenso na maneira de interpretar este livro. Muitos métodos têm sido propostos durante os séculos e entre eles se destacam a alegoria, a tipologia o drama e o literal. Vejamos cada um deles. 7.4.1. A interpretação alegórica Basicamente a palavra alegoria possui a ideia de se dizer uma coisa, mas que significa outra. Básico para este método é levar em conta que o livro ou passagem que está sendo interpretada, não tem historicidade, não aconteceu de fato. Ela existe simplesmente para transmitir uma verdade espiritual mais profunda. Assim, o que o autor original disse fica em segundo lugar; o que o intérprete quer dizer tem a primazia. Um exemplo deste tipo de leitura é a interpretação alegórica da passagem de 1.13: “O meu amado é para mim um saquitel de mirra, posto entre meus seios.” Onde alguns entenderam que os seios são referências aos dois testamentos, Antigo e Novo, e que o saquitel de mirra entre eles, é uma referência messiânica feita a Jesus.[Nota 73] Este método teve seu início com os pagãos da Grécia. Filo e Orígenes foram os que estenderam o método para o cristianismo. Ainda na atualidade, aqueles que utilizam este método deixam de lado qualquer noção de historicidade ou realidade do texto. Estes aspectos são ignorados porque não aconteceu ou porque não têm ensino de valor. Neste método, normalmente, Cantares é interpretado em termos de Deus tratando com Israel, ou, a relação entre Cristo e a Igreja. Ele é bastante aceito nos meios evangélicos. 7.4.2. A interpretação tipológica Muitos não fazem distinção entre este método e o visto no ponto anterior, a alegoria, mas há uma diferença fundamental. Enquanto alegoria ignora a historicidade do relato do Antigo Testamento, e impõe sobre o texto um sentido “mais profundo ou espiritual”, a tipologia reconhece a validade do texto no Antigo Testamento e, depois, encontra no relato uma ligação clara e paralela com um ensino ou evento no Novo Testamento. Muitos acham que o método correto para interpretar Cantares é a tipologia. Neste método, mais uma vez, temos o tema principal apontando para a relação Deus/Israel, ou Cristo/Igreja. Alguns rabinos chegam a considerar que toda a história de Israel está no livro de Cantares. Naturalmente há uma variedade muito grande neste método. Em termos de cristianismo a ideia básica é que Cantares mostra o verdadeiro amor de Deus visto em Cristo. Por séculos o texto tem sido utilizado neste sentido, especialmente o texto de 2.16a onde diz “O meu amado é meu, e eu sou dele”. 7.4.3. A interpretação dramática Esta forma de interpretação para Cantares é muito antiga, começou com Orígenes por volta de 240 d.C., e tem seus seguidores também na atualidade. Entre as abordagens considerando o livro como um Drama duas formas têm se destacado. A primeira que vê na composição a presença de dois personagens principais:Salomão e a Sunamita, e a segunda que percebe na história a presença de três personagens principais. Neste segundo caso a trama estaria girando em torno do tema “fidelidade”. O rei teria levado a moça para o seu harém e procura conquistá-la de várias formas, contudo, ela se mantém fiel ao seu amado, um simples pastor de ovelhas.[Nota 74] Um obstáculo a este tipo de interpretação é a escassez de dramas entre semitas e, muito especialmente entre os hebreus.[Nota 75] Seja como for, algumas versões modernas, como a Revista e Atualizada e a NVI, por exemplo, têm direcionado a interpretação para este estilo ao separar porções do livro por personagens, o que não constava dos textos originais (Veja os títulos das várias partes destas versões). Uma variante deste método pode ser uma abordagem que considere o livro como uma espécie de “ópera”, onde a história do amor fiel da Sunamita para com seu pastor de ovelhas é apresentada de forma cantada, resistindo até mesmo aos encantos do rei Salomão e sua corte. 7.4.4 A interpretação natural/literal É a forma de interpretar Cantares como sendo um poema ou uma série de poemas de amor, relacionados de forma livre, que falam clara e explicitamente a respeito de sentimentos, desejos, esperanças e temores que envolvem os enamorados. Contra a hipótese de ser uma série de poemas, e não apenas um poema, está o título hebraico que aparece no primeiro versículo do livro como definido «O Cântico dos Cânticos» ( shîr hashîrîm - µyriyvihæ ryvi), e a presença das repetições que se espalham pela obra, como 2.7, 3.5 e 8.4. Esta forma de interpretação tomou força após o descobrimento de poemas de amor da Mesopotâmia, do Egito, e da Síria que possuem algumas semelhanças com O Cântico dos Cânticos. Veja o exemplo que segue de um poema árabe da Síria utilizado em casamentos. Não há dúvidas que ele possui semelhanças com partes do Cântico dos Cânticos. Eu digo: Ó formosa mulher, teus encantos eu jamais posso contar. E, apenas o pouco que irei descrever, é o que os meus olhos me permitem ver: Sua cabeça é como o cálice de cristal, seu cabelo como a noite escura, Seu cabelo é como as sete noites, igual não há em todo o ano; Em ondas se movem para cá e para lá, como a corda que ela lança para pegar água. E as suas faces exalam qual fragrância, que me mata.[...] Seu nariz é como a tâmara do Iraque, como o fio da espada indiana; Seu rosto é como a lua cheia, e um coração se partindo são as suas faces. [...] Sua saliva puro mel de virgem, e a cura para a picada da víbora. Comparável à escrita elegante, o Seijai desce por seu queixo. [...] Seus seios como placas de mármore polido, quando os navios as trazem para Sidom. Ali como pomos da romã duas joias brilhantes...[Nota 76] 7.5. Destaques que Ajudam na Interpretação do Livro 1) O livro está no Cânon, é considerado Palavra de Deus, assim, mesmo que não se possa compreender tudo o que ele contém, deve ser tratado com toda a reverência que lhe é devida. 2) É bom reconhecer que o livro trata de assunto difícil e polêmico nos meios judaicos e cristãos. No judaísmo, ainda na época de Jesus, a leitura deste livro estava proibida para menores de trinta anos. Jerônimo, interpretando o livro como alegoria, ao orientar por carta uma de suas discípulas a como educar sua filha de acordo com a Bíblia, aconselha que o Cântico dos Cânticos só seja lido depois que ela já conhecesse muito bem o restante das Escrituras. Veja o conteúdo de parte desta carta. Jerônimo escreve para Paula assim: Faça com que seus tesouros não sejam a seda ou as pedras preciosas, mas os manuscritos das Santas Escrituras; e, assim, faça-a pensar menos nos dourados, no pergaminho babilônico e nos motivos em arabescos, e mais na pontuação correta e precisa. Faça-a começar aprendendo o Saltério e, então, faça-a conhecer as leis da vida nos Provérbios de Salomão. Do pregador, faça-a adquirir o hábito de menosprezar o mundo e as suas vaidades. Faça-a seguir os exemplos de virtude e paciência ensinados em Jó. Então, faça-a prosseguir pelos Evangelhos, e que, uma vez nas mãos, nunca os coloque de lado. Também a faça absorver de coração aberto os Atos dos Apóstolos e as Epístolas. Assim que ela enriquecer os depósitos de sua mente com esses tesouros, faça-a decorar os profetas, o heptateuco, os livros de Reis e Crônicas, além dos rolos de Esdras e Ester. Quando tiver feito tudo isso, ela pode seguramente ler o Cântico dos Cânticos, mas não antes: pois, caso fosse lido em primeiro lugar, ela não perceberia que, embora seja escrito em palavras carnais, trata-se de um cântico de casamento de uma boda espiritual. E, não o compreendendo, ela sofrerá por isso.[Nota 77] 3) Em nenhum lugar do livro aparecem as palavras esposo e esposa, como algumas versões enfatizam em seus títulos de orientação para a leitura (por exemplo na ARA). Mesmo assim, as passagens relacionadas com o ato sexual devem ser interpretadas à luz do restante das escrituras. Ou seja, dentro de um contexto de casamento. 4) Poucos comentaristas arriscam apresentar um esboço do livro. Isto mostra a dificuldade de se encontrar nele uma sequência totalmente lógica. Também pode ser que estejam, na atualidade, faltando partes do escrito original. 5) A expressão “Eu sou a rosa de Sarom” que aparece em 2.1 e que tem sido interpretado por alguns como uma referência direta a Jesus, no texto, são palavras da moça e não do jovem. Ou seja, a rosa de Sarom, no texto, é uma mulher. 6) As únicas expressões aparentemente religiosas no texto referem-se a um possível pedido de juramento que aparece em 2.7, 3.5 e 8.4. É uma espécie de refrão que diz: “Ó filhas de Jerusalém, eu vos faço jurar pelas gazelas e corças do campo: não acordeis nem provoqueis o amor até que ele o queira”. O problema que surge é que, se for um juramento, e não apenas uma exortação a fazerem algo, envolve animais como garantia dele e não Deus que, segundo o Antigo Testamento (Dt 6.13 e 10.20), é o único pelo qual se pode jurar. Em Deuteronômio 6.13 está escrito: “Temerás o SENHOR, teu Deus, a ele prestarás culto e jurarás pelo seu nome”. Já em Deuteronômio 10.20 diz: “Temerás o SENHOR, teu Deus; a ele cultuarás e te apegarás; pelo seu nome jurarás”. A LXX, provavelmente procurando amenizar a má impressão que este tipo de juramento encontrado no Cântico dos Cânticos causa, traduziu “poderes e forças” no lugar de “gazelas e cervas do campo”. 7) Em 7.13 são citadas as mandrágoras ( dûdā’im - ~yaid”WD) que, de acordo com G. Lloyd Carr também são conhecidas como “maçãs do amor”, fruto de cheiro muito ativo considerado afrodisíaco.78 Este fruto, na Bíblia, só é citado aqui e em Gênesis 30, num contexto em que as mulheres de Jacó o disputavam para passar a noite com ele. 8) As formas de interpretação dramática e natural, ainda que chocantes para alguns, em seus detalhes, no geral, apresenta o tema da fidelidade a todo custo o que, sem dúvida, é um ensino a ser exaltado. Notas Nota 71 - LASOR, W.; HUBBARD, D. A. E BUSH, F. W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.558, 559. [Voltar] Nota 72 - FRANCISCO, Clayde T. Introdução ao Velho Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1979, p.255. [Voltar] Nota 73 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.249. [Voltar] Nota 74 - LASOR, W.; HUBBARD, D. A. E BUSH, F. W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.563. [Voltar] Nota 75 - LASOR, W.; HUBBARD, D. A. E BUSH, F. W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.563. [Voltar] Nota 76 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.251. [Voltar] Nota 77 - POP, M. H. Song of Song. AB 7C; Doubleday, 1977. In: DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.250. [Voltar] Referências Bibliográficas ANDERSEN, Francis I. Jó: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984. ARCHER Jr.,G. L. 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(Coleção grande comentário bíblico) Dedicatória Sumário Introdução INTRODUÇÃO GERAL AOS LIVROSPOÉTICOS E SAPIENCIAIS A LITERATURA SAPIENCIAL O LIVRO DE JÓ O LIVRO DE SALMOS O LIVRO DE PROVÉRBIOS O LIVRO DO ECLESIASTES O LIVRO DO CÂNTICO DOS CÂNTICOS Referências BibliográficasDeus, pois ainda o louvarei, minha salvação e Deus meu. 2) O Salmo 46 também apresenta estrofes, ainda que irregulares, também destacadas por estribilho, veja como fica na versão Revista e Atualizada: 46 1 Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. 2 Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares; 3 ainda que as águas tumultuem e espumem e na sua fúria os montes se estremeçam. 4 Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo. 5 Deus está no meio dela; jamais será abalada; Deus a ajudará desde antemanhã. 6 Bramam nações, reinos se abalam; Ele faz ouvir a sua voz, e a terra se dissolve. 7 O SENHOR dos Exércitos está conosco; O Deus de Jacó é o nosso refúgio. 8 Vinde, contemplai as obras do SENHOR, que assolações efetuou na terra. 9 Ele põe termo à guerra até os confins do mundo, quebra o arco e despedaça a lança; queima os carros no fogo. 10 Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra. 11 O SENHOR dos Exércitos está conosco; O Deus de Jacó é o nosso refúgio. 3) Salmo 107.8, 15, 21 e 31 O Salmo 107 possui 43 versículos. Quatro destes versículos repetem o estribilho e destacam suas estrofes. O estribilho é o seguinte: “Rendei graças ao SENHOR, por seu amor e por suas maravilhas para com os filhos dos homens!” (Verifique o texto todo em sua Bíblia). 4) Outro indício de estrofe é a sucessão das letras iniciais nos poemas alfabéticos, erroneamente chamados por alguns de acrósticos. Veja os exemplos: a) Salmo 119 – Cada estrofe é composta por oito versos que começam com a mesma letra, na ordem do alfabeto hebraico (verificar a forma completa na Bíblia Hebraica). Lembrando que a leitura do hebraico é feita da direita para a esquerda veja, na sequência, como fica a primeira estrofe, onde cada versículo começa com a letra hebraica a: b) Lamentações 3 – Cada estrofe é composta por três versos que começam com a mesma letra. Veja a amostra que segue, das duas primeiras estrofes que iniciam com as duas primeiras letras do Alfabeto Hebraico: 6) Existem ainda indícios internos de estrofes destacados pela unidade e desenvolvimento relativamente completo do pensamento. Um bom exemplo pode ser encontrado em Isaías 5.1-7, o Cântico da Vinha, que de acordo com Ridderbos pode, inclusive, ter sido apresentado com acompanhamento musical.[Nota 5] Só devemos tomar cuidado de não esperar na poesia hebraica estrofes conforme o sistema ocidental. Veja no texto que segue, na versão Revista e Atualizada, com marcações, como as estrofes se destacam: Introdução Agora cantarei ao meu amado ( lîdîdî – ydiydiyli)[Nota 6], o cântico do meu amado ( dôdî – ydi/D)[Nota 7] a respeito da sua vinha. (v. 1a) 1ª. estrofe O meu amado ( lîdîdî – ydiydiyli) teve uma vinha num outei-ro fertilíssimo. Sachou-a, limpou- a das pedras, e a plantou de vides escolhidas; edificou no meio dela uma torre, e também abriu um lagar. Ele esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas. (v.1b-2) 2ª. estrofe Agora, pois, ó moradores de Jerusalém e homens de Judá, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha. Que mais se podia fazer ainda à minha vinha, que eu não lhe tenha feito? E como, esperando eu que desse uvas boas veio a produzir uvas bravas? (v. 3-4) 3ª. estrofe Agora, pois, vos farei saber o que pretendo fazer à minha vinha: Tirarei a sua sebe, para que a vinha sirva de pasto; derribarei o seu muro, para que seja pisada; torná-la-ei em deserto. Não será podada nem sachada, mas crescerão nela espinheiros e abrolhos; às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela. (v.5-6) Conclusão Porque a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do Senhor; este desejou que exercessem juízo ( mishppāt - fP;v]mi), e eis aí quebrantamento da lei ( misppâ - hP;c]mi); justiça ( tsedāqâ - hq;d;x]), e eis aí clamor ( tse‘āqâ - hq;[;x]). (v.7 1.4.2.3. O paralelismo De todas as características da poesia hebraica pode-se dizer que a principal é o paralelismo. Ele é uma espécie de rima de pensamentos, nunca de som. Ou seja, as ideias é que estão relacionadas umas com as outras e não o som. Isto tem a grande virtude de preservar a beleza da poesia hebraica mesmo que ela seja traduzida para qualquer outra língua. O paralelismo se divide em vários tipos, a nomenclatura muda de autor para autor, mas aqui serão vistos apenas os principais na nomenclatura geral. 1) Paralelismo Sinônimo O Paralelismo Sinônimo pode ser idêntico ou semelhante, mas sempre a segunda linha do verso, em termos diferentes, repete o pensamento da primeira linha. Veja os exemplos que seguem: a) Salmo 24.1 – Paralelismo sinônimo idêntico “Ao SENHOR pertencem a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele habitam.” b) Salmo 19.2 – Paralelismo sinônimo semelhante “Um dia declara isso a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.” c) Outros exemplos de Paralelismo Sinônimo “Aquele que está sentado nos céus se ri; o SENHOR zomba deles” (Sl 2.4). “Meu Deus, livra-me dos meus inimigos; protege-me daqueles que se levantam contra mim” (Sl 59.1). “Meu filho, ouve a instrução de teu pai e não desprezes o ensino de tua mãe” (Pv 1.8). 2) Paralelismo Antitético No Paralelismo Antitético a segunda linha apresenta um contraste em relação à primeira. Na tradução para o português a conjunção adversativa “mas”, ou outras com funções semelhantes, ajudam na identificação. Veja estes exemplos: a) Salmo 1.6 “Porque o SENHOR recompensa o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios traz destruição”. b) Provérbios 10.1 “O filho sábio alegra seu pai; mas o insensato é a tristeza de sua mãe”. c) Provérbios 10.5 “Aquele que colhe no verão é um filho sensato, mas o que dorme na colheita é um filho que envergonha”. d) Provérbios 10.23 “Praticar a maldade é diversão para o insensato mas a conduta sábia é o prazer do homem que tem entendimento”. 3) Paralelismo Sintético No Paralelismo Sintético a segunda linha complementa a primeira. Seguem alguns exemplos: a) Provérbios 3.27 “Não negues o bem a quem tenha direito, se estiver em teu poder fazê-lo.” b) Provérbios 26.4 “Não respondas ao insensato de acordo com a sua insensatez, para que não sejas semelhante a ele”. c) Salmo 55.6 “Por isso, eu disse: Ah! Quem me dera ter asas como de pomba! Eu voaria e encontraria descanso”. 4) Paralelismo Climático No Paralelismo Climático a segunda linha utiliza palavras da primeira e as completa. O Salmo 29 contém bons exemplos deste tipo de paralelismo. Perceba o que acontece em três partes de seu texto abaixo com algumas palavras sublinhadas. a) Salmo 29.1-2 “1Tributai ao SENHOR, filhos de Deus, tributai ao SENHOR glória e força. 2 Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome, Adorai ao SENHOR na beleza da santidade” (ARA). b) Salmo 29.4-5 “4 A voz do SENHOR é poderosa; a voz do SENHOR é cheia de majestade. 5 A voz do SENHOR quebra os cedros; sim, o SENHOR despedaça os cedros do Líbano.” c) Salmo 29.7-9 “7 A voz do SENHOR lança chamas de fogo. 8 A voz do SENHOR faz tremer o deserto; o SENHOR faz tremer o deserto de Cades. 9 A voz do SENHOR derruba os carvalhos e desnuda as florestas; e no seu templo todos dizem: Glória!” 5) Paralelismo Emblemático > No Paralelismo Emblemático a primeira linha serve de emblema para ilustrar a segunda. Ou seja, na primeira linha é apresentada uma figura de linguagem que ilustra a afirmação que vem na segunda. Observe que não há contraste neste tipo de paralelismo. Veja os exemplos: a) Provérbios 25.25 “Como água fresca para quem tem sede, assim são as boas notícias da terra distante.” b) Provérbios 25.11 “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita na hora certa.” c) Provérbios 26.20 “Sem lenha, o fogo se apaga; e sem difamador, o conflito cessa.” 6) Quiasmo Existe ainda uma forma de paralelismo mais complexa que segue um padrão chamado de Quiástico. Sua forma mais simples érepresentada na literatura a respeito do assunto pelas letras A B B A – onde o primeiro A está em paralelo com o segundo e o elemento B com o outro B. Veja o exemplo de Zacarias 7.13 onde se destacam os pronomes – Eu – Eles – Eles – Eu A – Visto que eu clamei, B – e eles não me ouviram, B – eles também clamaram, A – e eu não os ouvi, diz o SENHOR dos Exércitos (ARA). Notas Nota 2 - Os sublinhados fazem parte do grupo conhecido como Poéticos e Sapienciais. [Voltar] Nota 3 - O Códice de Leningrado é um texto do início do século XI e está reproduzido na Bíblia Hebraica Stuttgartensia. [Voltar] Nota 4 - ARCHER Jr., G. L. Merece confiança o Antigo Testamento?- Panorama de introdução. 4.ed. São Paulo: Vida Nova, 1986, p.70. [Voltar] Nota 5 - RIDDERBOS, J. Isaías: introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1990, p.88. [Voltar] Nota 6 - Outra possibilidade de tradução é “amigo”. [Voltar] Nota 7 - Outra possibilidade de tradução é “amigo”. [Voltar] 2. A LITERATURA SAPIENCIAL Já vimos alguns detalhes da poesia hebraica, mas para compreender melhor os Livros Poéticos e Sapienciais, também precisamos ver alguns destaques a respeito da sabedoria (sapiência) bíblica. Na verdade, literatura sapiencial não é um fenômeno específico israelita. Foi constatado que ela era utilizada tanto na Mesopotâmia quanto no Egito,[Nota 8] e a própria Bíblia mostra indícios de sua existência em outros países. Assim, pode-se dizer que a literatura sapiencial é literatura internacional. Vejamos alguns indícios desta internacionalidade da literatura sapiencial que a Bíblia nos dá. Muitos outros poderiam ser apresentados, mas seguiremos apenas o esboço proposto por Bentzen[Nota 9], preenchendo-o com algumas observações: a) A sabedoria de Salomão excedia a dos filhos do Oriente e do Egito.“A sabedoria de Salomão era maior do que a de todos os do oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios” (1 Rs 4.30); b) Jó e seus amigos são descritos como filhos do Oriente. Francis I. Andersen diz a respeito deles: “Jó, como a pessoa de maior destaque no seu próprio país, era, evidentemente, uma personagem internacional, e seus amigos vieram de três países diferentes”.[Nota 10] O livro de Jó que tem sua maior parte escrita em forma poética é um exemplo claro da literatura sapiencial na Bíblia. Veja também a informação bíblica a respeito da internacionalidade dos personagens: “1 Havia um homem na terra de Uz, e seu nome era Jó. Ele era um homem íntegro e correto, que temia a Deus e se desviava do mal. 2 Jó teve sete filhos e três filhas. 3 Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas. Tinha também muitos servos que trabalhavam para ele, de modo que era o homem mais rico de todos do oriente” (Jó 1.1-3) “E três amigos de Jó, ouvindo falar da desgraça que lhe havia acontecido, vieram, cada um do seu lugar, pois haviam combinado de vir prestar-lhe solidariedade e consolá-lo: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta e Zofar, o naamatita” (Jó 2.11); c) Ainda que não se possa afirmar com certeza existe a possibilidade de Agur e Lemuel, que são citados em Provérbios 30 e 31, serem árabes. O termo hebraico “Massá” ( hammaśśâ - hC;Mh) pode estar indicando uma localidade na Arábia[Nota 11], mas alguns têm optado por traduzi-lo por “o oráculo”, que também é possível gramaticalmente e dá um bom sentido na frase. Veja os textos abaixo: “Palavras de Agur, filho de Jaque, de Massá. Diz o homem a Itiel e a Ucal” (Pv 30.1). “Palavras do rei Lemuel, de Massá, ensinadas por sua mãe” (Pv 31.1). “E estes são os nomes dos filhos de Ismael, por ordem, segundo suas gerações: o primogênito de Ismael foi Nebaiote, depois Quedar, Abdeel, Mibsão, Misma, Dumá, Massá” (Gn 25.13-14); d) Os profetas Jeremias e Obadias falam da sabedoria de Edom (Temã). Confira: “A respeito de Edom. Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Por acaso não há mais sabedoria em Temã? O conselho dos sábios foi destruído? Sumiu a sabedoria” (Jr 49.7). “Naquele dia, diz o SENHOR, destruirei os sábios de Edom e o entendimento do monte de Esaú!” (Ob 8); e) Os Livros de Daniel, de forma muito clara, e Isaías, de forma velada, registram a existência de sábios na Babilônia. Veja os exemplos que seguem. “Quando Arioque, capitão da guarda real, saiu para matar os sábios de Babilônia, Daniel se dirigiu a ele de modo sensato e prudente” (Dn 2.14). “Porque confiaste na tua maldade e disseste: Ninguém me vê; as coisas que te perverteram foram a tua sabedoria e o teu conhecimento. Disseste no coração: Eu sou, e além de mim não há outra (Is 47.10); f) No Livro de Ezequiel, na profecia contra o rei de Tiro, existe referência aos sábios da Fenícia. Veja o que o texto diz: 3 Por acaso és mais sábio que Daniel? Não há nenhum segredo que se possa esconder de ti? 4 Enriqueceste e acumulaste ouro e prata nos teus tesouros pela tua sabedoria e pelo teu entendimento. 5 Aumentaste as tuas riquezas por tua grande habilidade comercial, e o teu coração se eleva por causa das tuas riquezas (Ez 28.3-5); g) Aqui não é o lugar adequado para se tratar do livro egípcio de Amenemope, mas basta dizer que em Provérbios se encontram claros paralelos com ele (Pv 22.17...). De acordo com Raymond B. Dillard também existem paralelos ao Livro de Jó fora da Bíblia. Este é o caso do chamado “Jó Babilônico”, do segundo milênio a.C., que apresenta um monólogo a respeito de um sofredor inocente, que no final é restaurado pelo deus Marduk.[Nota 12] 2.1. Os Sábios de Israel Não devemos pensar nos sábios de Israel como sendo apenas pessoas dadas ao raciocínio abstrato, como filósofos teóricos. Em Israel os sábios eram pessoas educadas em algum ramo do conhecimento e possuíam habilidades práticas. Muitos exemplos poderiam ser destacados neste ponto, mas os seguintes são suficientes para esclarecer o que foi afirmado acima. Entre outros, eram considerados sábios em Israel: a) Aqueles que possuíam habilidades técnicas e artísticas: 1 Depois dessas coisas, o SENHOR disse a Moisés: 2 Eu designei Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, 3 e o enchi do Espírito de Deus, dando-lhe sabedoria, entendimento e habilidade em toda atividade artística, 4 para criar obras artísticas e trabalhar em ouro, prata e bronze, 5 para lavrar pedras de engaste e fazer entalhe em madeira, enfim, para trabalhar em toda atividade artística” (Ex 31.1-5). b) As carpideiras (mulheres contratadas para chorar em funerais) profissionais: “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Considerai e chamai as mulheres pagas para chorar, para que venham; trazei as mulheres mais hábeis, para que venham também e se apressem, levantem seu lamento sobre nós, para que nossos olhos se derretam em lágrimas e das nossas pálpebras fluam águas (Jr 9.17-18). c) Os navegadores: “Os habitantes de Sidom e de Arvade eram os teus remadores. Ó Tiro, os peritos que estavam contigo eram os teus marinheiros. Os anciãos de Gebal e seus peritos eram os que calafetavam as fendas; todos os navios do mar e os seus marinheiros estavam contigo para tratar dos teus negócios” (Ez 27.8-9). d) Aquele que possuía capacidade para aconselhar: “Então disseram: Vinde e façamos planos contra Jeremias; porque nem a instrução do sacerdote, nem o conselho do sábio, nem a palavra do profeta deixarão de existir. Vinde e levantemos acusações contra ele; não atendamos a nenhuma das suas palavras” (Jr 18.18). e) Os intérpretes de sonhos: Depois de José ter revelado a faraó o sonho que ele havia tido, faraó lhe disse: “Visto que Deus te revelou tudo isso, ninguém há que tenha discernimento e sabedoria como tu” (Gn 41.39b). Deve ser levado em conta ainda que, em grande parte, nem todos, como é perceptível nos poucos exemplos citados acima, os sábios eram pessoas que geralmente sabiam escrever e estavam a serviço do Estado. Como trabalhadores do Estado, muitos deles, podiam viajar e também aprender a sabedoria dos outros povos. Com certeza, alguns conheciam outras línguas. A literatura que eles produziram deve ter sido resultado,principalmente, do trabalho de ensino. Este era ministrado nas portas das cidades ou em outros lugares ao ar livre (Pv 1.20-21 e 8.1-3) e antes de tomarem uma forma escrita devem ter passado por uma forma oral. Isto pode ajudar a explicar a formula introdutória “ouve filho meu” (Pv 1.8 e 4.1). Os sábios de Israel, acima de tudo, não devem ser encarados como sendo apenas repetidores de frases correntes. Eles criavam o material e transformavam outros em novos provérbios e admoestações. 2.2. A Tradição Sapiencial Para que se possa entender a tradição sapiencial veterotestamentária e interpretar corretamente os textos que tratam do assunto, é necessário conhecer o conceito de sabedoria e seu caráter. Portanto, estes três pontos serão discutidos na sequência. 2.2.1. O conceito de sabedoria O ponto deste livro que tratou dos sábios em Israel já deu uma boa amostra de quem eles são. Mas, ainda é possível dar uma palavra a respeito do que é sabedoria. Uma definição básica poderia ser a seguinte: Sabedoria é a arte, intensamente prática, de ser hábil e bem sucedido na vida. Ela é conhecimento a serviço da vida. Sua sede é o coração, o qual é o centro das decisões morais e intelectuais (1Rs 3.9,12).[Nota 13] 2.2.2. O caráter da literatura sapiencial Três pontos podem ajudar a esclarece o caráter da literatura sapiencial. Resumidamente podemos apresentá-los da seguinte forma: 1) A fonte de sabedoria – Deus Alguns estudiosos gostam de enfatizar que o secularismo é característico na literatura sapiencial, porém a Bíblia mostra que os israelitas acreditavam que a sabedoria vem de Deus. Nela encontramos que é Deus quem pode dar sabedoria e que a origem da sabedoria está no temor do Senhor. Vejamos alguns textos que comprovam isto: “O temor do SENHOR é o princípio do conhecimento. Os insensatos, porém, desprezam a sabedoria e a instrução” (Pv 1.7). “Pois o SENHOR dá a sabedoria; o conhecimento e o entendimento procedem da sua boca”(Pv 2.6). “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; e o conhecimento do Santo é o entendimento” (Pv 9.10). “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; todos os que cumprem seus ensinos revelam entendimento; o louvor que ele recebe dura para sempre” (Sl 111.10). Outros textos poderiam ser citados, mas para completar este item será visto apenas mais um, de Jó, típico material sapiencial. O autor de Jó desenvolveu um poema no capítulo 28 de seu livro, o qual Francis I. Andersen tem chamado de interlúdio. Isto porque o texto parece ter pouca ligação com o que vem antes e também com o que o segue nos capítulos 27 e 29. Ele em si é uma unidade, um poema que foi construído ao redor da seguinte pergunta: Onde se encontra a sabedoria?[Nota 14] Tema que tem muito a ver com o que se está discutindo aqui. O autor de Jó iniciou o poema, e seguiu por alguns versículos, descrevendo a grandiosidade dos homens, sua superioridade sobre os animais, e em especial sua capacidade de descobrir aquilo que está oculto, nos lugares mais difíceis de chegar e, de repente, levanta a questão: “Mas onde se achará a sabedoria?”, e passa desenvolver o assunto encerrando com a sua opinião final a respeito dele: a sabedoria só é encontrada em Deus. O texto é bastante longo, mas por ser uma unidade completa, muito bela, será transcrito a seguir, com algumas partes destacadas. Ele diz assim: 1 Na verdade, existem minas de prata e lugares onde se refina o ouro. 2 O ferro é tirado da terra, e da pedra se funde o cobre. 3 Os homens põem limites às trevas e exploram até os confins as pedras na escuridão e nas mais densas trevas. 4 Abrem um poço longe do lugar onde moram, em lugares esquecidos pelos viajantes; longe dos homens, penduram-se e balançam de um lado para o outro. 5 Quanto à terra, dela procede o alimento, mas por baixo é revolvida como por fogo. 6 As suas pedras são o lugar de safiras e têm ouro em pó. 7 A ave de rapina não conhece essa vereda, e os olhos do falcão não a enxergaram. 8 As feras altivas nunca a pisaram, nem o leão feroz passou por ela. 9 O homem estende a mão contra o rochedo e revolve os montes desde as raízes. 10 Faz sulcos nas pedras; seus olhos descobrem todas as coisas preciosas. 11 Tapa os veios de água para que não gotejem; tira para a claridade o que estava escondido. 12 Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento? 13 O homem não sabe quanto vale a sabedoria; ela não se encontra na terra dos viventes. 14 O abismo diz: Não está em mim; e o mar diz: Não está comigo. 15 Não pode ser comprada com ouro fino, nem será trocada a peso de prata. 16 Nem pode ser avaliada em ouro fino de Ofir, nem em pedras preciosas de berilo ou safira. 17 O ouro ou o cristal não se podem comparar com ela; nem se pode trocá-la por joias de ouro fino. 18 Não se fará menção de coral nem de jaspe; porque a aquisição da sabedoria é superior à das pérolas. 19 O topázio da Etiópia não se igualará a ela, nem pode ser comprada com ouro puro. 20 De onde, então, vem a sabedoria? Onde está o lugar do entendimento? 21 Está encoberta aos olhos de todo vivente, oculta às aves do céu. 22 Abadom e a Morte dizem: Ouvimos rumores sobre ela. 23 Deus conhece o seu caminho. só ele sabe onde ela fica. 24 Pois perscruta até as extremidades da terra; sim, ele vê tudo o que há debaixo do céu. 25 Quando regulou a força do vento e fixou a medida das águas; 26 quando estipulou leis para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões; 27 então viu a sabedoria e a manifestou; estabeleceu-a e a esquadrinhou. 28 E disse ao homem: O temor do SENHOR é a sabedoria, e o afastar-se do mal é o entendimento. 2) A religião do homem comum A sabedoria bíblica apresenta uma religião prática. Ela não está limitada a templo e desenvolve-se no dia a dia de cada indivíduo. É a maneira correta de se conduzir nos caminhos de Deus. Veja, por exemplo, entre outros, a quem a sabedoria fala no Livro de Provérbios: a) A sábios e simples: “Para conhecer a sabedoria e a instrução; para entender as palavras que dão entendimento; para instruir em sábio procedimento, em retidão, justiça e equidade; para dar prudência aos simples, e conhecimento e bom senso aos jovens. Que os ouçam também o sábio, para que aumente seu conhecimento, e o que entende, para que adquiram habilidade para compreender provérbios e parábolas, as palavras dos sábios e seus enigmas” (Pv 1.2-5). b) A pais: “Instrui a criança no caminho em que deve andar, e mesmo quando envelhecer não se desviará dele” (Pv 22.6). c) A filhos: Meu filho, ouve a instrução de teu pai e não desprezes o ensino de tua mãe” (Pv 1.8). d) A maridos: “Que teu manancial seja bendito. Alegra-te com a esposa que tens desde a mocidade” (Pv 5.18). e) À esposas: “A mulher virtuosa é a coroa do marido, mas a que se comporta de modo vergonhoso é como podridão nos seus ossos” (Pv 12.4). f) A ricos: “O homem rico considera-se sábio, mas o pobre que tem entendimento o sonda” (Pv 28.11). g) A pobres: “É melhor o pobre que anda com integridade, do que o perverso de lábios e tolo” (Pv 19.1). h) A reis: “Por meio da justiça o rei dá estabilidade a terra, mas o que exige subornos a transtorna” (Pv 29.4). i) A servos: “Ao servo que age com sabedoria concede-se o favor do rei, mas sua ira recairá sobre quem age de forma indigna” (Pv 14.35). No geral, o tratamento dispensado ao próximo, de acordo com o Livro de Provérbios, é um reflexo da sabedoria recebida de Deus. 3) A teologia da sabedoria Em relação à sabedoria e Deus a Bíblia mostra, por exemplo: a) Deus é sábio: “Ai dos que descem ao Egito em busca de ajuda, que confiam em cavalos e põem fé nos seus muitos carros e na força de seus cavaleiros; e não atentam para o Santo de Israel nem buscam o SENHOR. Entretanto, ele também é sábio; enviará o mal e não retirará as suas palavras, mas se levantará contra a casa dos perversos e contra a ajuda dos que praticam o mal” (Is 31.1-2). b) A sabedoria está com Deus: “A sabedoria e a força estão com Deus; ele tem conselhos e entendimento” (Jó 12.13). c)As obras de Deus foram feitas com sabedoria: “Ó SENHOR, que variedade há nas tuas obras! Fizeste todas com sabedoria; a terra está cheia das tuas riquezas” (Sl 104.24). d) Toda sabedoria e poder pertencem a Deus: “Daniel disse: Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque a sabedoria e a força pertencem a ele. Ele muda os tempos e as estações; remove e estabelece reis; é ele quem dá sabedoria aos sábios e entendimento aos que conhecem. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e a luz mora com ele” (Dn 2.20-22). Vistas estas questões introdutórias da literatura poética e sapiencial, nem sempre muito agradáveis, mas de extrema importância, podemos partir para o estudo de cada um dos livros em particular. Notas Nota 8 - KIDNER, Derek. Provérbios: introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982, p.17-21. [Voltar] Nota 9 - BENTZEN, Aage. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 1968, p. 185-186. v.1. [Voltar] Nota 10 - ANDERSEN, Francis I. Jó: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984, p.91. [Voltar] Nota 11 - Gênesis 25.13-14 mostra um descendente de Ismael com este nome que também pode ser o de um povo. [Voltar] Nota 12 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.195. [Voltar] Nota 13 - HUBBARD, D. A. Sabedoria. In: J. D. Douglas (org.). O novo dicionário da Bíblia. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983, p.1423. [Voltar] Nota 14 - ANDERSEN, Francis I. Jó: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984, p.220-223. [Voltar] 3. O LIVRO DE JÓ O livro de Jó, ainda que seja parcialmente bem conhecido, é pouco lido como obra completa pelos cristãos modernos. É comum que leitores se contentem com apenas a introdução e a conclusão, a parte que foi escrita em prosa. A parte central, toda escrita em poesia, formada por discussões que parecem não ter fim, realmente é cansativa para aqueles que não conseguem apreciar a beleza da poesia hebraica e a profundidade do debate teológico que se desenrola, e muitas vezes é deixada de lado. Espero que as informações e auxílios para a interpretação apresentadas nesta parte possam ser úteis para que este problema seja, ao menos, amenizado. 31. O Personagem Jó As poucas informações bíblicas conhecidas a respeito do personagem Jó estão no próprio livro, em Ezequiel 14.14-20 e em Tiago 5.10-11. Em Ezequiel Jó é citado como um modelo de justiça capaz de livrá-lo do castigo que os demais não escapariam, e em Tiago como alguém que pacientemente confiou em Deus no meio da desgraça e que foi recompensado por isso. O mais importante é que estas poucas referências, em especial Tiago, apresentam Jó como um personagem histórico, da mesma forma que os profetas da antiguidade. Tiago diz assim: “Irmãos, tomai os profetas que falaram em nome do SENHOR como exemplo de paciência e de perseverança diante do sofrimento. Chamamos de felizes os que suportaram aflições. Ouvistes sobre a paciência de Jó e vistes o fim que o SENHOR lhe deu. Porque o SENHOR é cheio de misericórdia e compaixão” (Tg 5.10.11). Já no Livro de Jó, Jó é apresentado como um patriarca, semelhante a Abraão, ainda que vivendo em época anterior a este. Ele era muito rico, chefiava uma grande “família” e atuava como sacerdote, o que seria inconcebível depois do estabelecimento do sacerdócio formal em Israel. Na verdade, Jó é apresentado como não sendo de Israel. Ele vivia na terra de Uz, local ainda não identificado, mas que com certeza não se encontrava no território israelita.[Nota 15] Fora da Bíblia, algumas lendas o apresentam como sendo um rei, mas esta hipótese deve ser descartada por não possuir nenhuma evidência segura. Seu nome ’iyyôb (b/Yai), levando em consideração a possibilidade de ser árabe, pode significar “voltar” ou “arrepender-se”. Já observando a etimologia hebraica seria possível interpretá-lo como “o perseguido” ou “objeto de inimizade”. Qualquer um destes significados tem ligações com a própria história que se desenrola no livro. 3.2. A Doença de Jó O livro não indica qual foi a doença que atacou a Jó. Ele apenas afirma de forma geral que Jó foi ferido “por uma ferida maligna” ( bishhîn rā’ – [r; ˆyhiv]Bi). O fato do texto original estar no singular, “uma ferida maligna” (Jó 2.7), pode estar demonstrando a gravidade da doença que tomava todo o corpo do enfermo. De acordo com Francis I. Andersen a tradição tem favorecido a identificação da doença com a lepra ou a elefantíase,[Nota 16] mas também outras sugestões têm sido dadas como eritema, varíola e câncer de pele com infecção. Esta última é a opinião do médico, meu ex-aluno da matéria Livros Poéticos e Sapienciais, Dr. Rogério Donato Kampa. O Livro de Jó não nomina a doença, mas faz várias alusões a ela, o que pode ajudar a entender um pouco da gravidade da situação do personagem. São algumas informações do livro a este respeito: “Então Satanás respondeu ao SENHOR: Pele por pele! Tudo quanto um homem tem ele dará por sua vida. Estende a mão agora e toca-lhe nos ossos e na carne, e ele blasfemará contra ti na tua face!” (Jó 2.4-5). “Satanás saiu da presença do SENHOR e feriu Jó com feridas malignas, da sola dos pés até o alto da cabeça. Sentando-se em cinzas, Jó pegou um caco para se raspar” (Jó 2.7-8). “Eles (os amigos de Jó) o viram de longe, mas não o reconheceram. Então choraram bem alto, e cada um rasgou o seu manto e jogou terra para o ar sobre a cabeça” (Jó 3.12). “Quando me deito, digo: Quando me levantarei? Mas a noite é longa, e canso de me revolver na cama até o alvorecer. Meu corpo está coberto de vermes e de crostas de sujeira; a minha pele se resseca e as feridas voltam a se abrir” (Jó 7.4-5). “Tu então me espantas com sonhos, e me atemorizas com visões” (Jó 7.14). “O meu rosto está vermelho de tanto chorar, e há sombras escuras sobre as minhas pálpebras” (Jó 16.16). “O meu hálito é intolerável para a minha mulher; sou repugnante para os filhos de minha mãe” (Jó 19.17). “Os meus ossos se colaram à minha pele e à minha carne, e escapei só com a pele dos meus dentes” (Jó 19.20). “Agora a minha alma se derrama dentro de mim; os dias da aflição tomaram conta de mim. De noite me são trans- passados os ossos, e o mal que me corrói não descansa” (Jó 30.16-17). “O meu interior se angustia e não descansa; os dias de aflição caem sobre mim” (Jó 30.27). “A minha pele escurece e cai; os meus ossos estão queimados pelo calor” (Jó 30.30). Vemos por meio destas passagens, entre outros problemas, que Jó ficou irreconhecível, muito magro, com dores terríveis, coberto por feridas, não conseguia dormir, sofria com a febre e pesadelos, tinha mau hálito, tinha crises de depressão e choro, e sentia os olhos embaçados. 3.3. A Autoria e a Data do Livro de Jó O livro não apresenta o nome do autor. Ele é anônimo de fato, e até o momento não temos indícios seguros a este respeito. Existe uma tradição que atribui a autoria a Moisés, contudo não há como provar. A data, assim como a autoria, é outro problema sem solução. Alguns estudiosos da questão defendem que o livro é muito antigo, mas, por outro lado, a maioria dos eruditos modernos tem pendido para o período que vai de 600 até 400 a.C. Seja como for, é bom destacar: mesmo que a escrita seja razoavelmente moderna é possível que a história seja muito antiga, tendo sido transmitida de forma oral, por muito tempo antes de ter sido colocada por escrito. 3.4. O Tema Geral do Livro de Jó O tema central do Livro de Jó é um tema universal, é a questão do sofrimento humano. Em especial o problema se levanta quando se concluiu que há um Deus Todo Poderoso, justo e amoroso e, ao mesmo tempo, que não acaba com o sofrimento existente na terra. Jó e seus amigos sábios procuram justificar a razão deste tipo de acontecimento, mas não chegam a lugar nenhum. O livro mostra que sábio de verdade é só Deus e que a razão última para o sofrimento humano está escondida dos homens. Por outro lado, o livro corrige a noção teológica errada da época queacreditava ser todo sofrimento fruto de pecado individual, mostrando que o justo também pode sofrer! 3.5. A Estrutura do Livro de Jó A estrutura do Livro de Jó é outro assunto delicado, muito discutido pelos estudiosos. Neste ponto duas possibilidades básicas de esboço serão apresentadas, levando-se em conta a sua forma atual. Afinal, é assim que nós o conhecemos. O livro pode ser dividido claramente em três partes, como segue: a) O Prólogo 1.1-3.2 b) Os Diálogos 3.3-42.6 c) O Epílogo 42.7-17 Atentando para os assuntos tratados e os gêneros literários dominantes, uma boa proposta de esboço que reflita sua estrutura é a seguinte: 1. O PRÓLOGO – Prosa apresentando personagens e enredo (1.1-3.2) 2. OS DIÁLOGOS – Poesia apresentando a conversa de Jó e amigos (3.3-42.6) 2.1. O Lamento de Jó (3.3-26). 2.2. Três Ciclos de Diálogos (4-27) 2.2.1. A primeira fala de Elifaz (4.1-5.27) 2.2.2. A resposta de Jó (6.1-7.21) 2.2.3. A primeira fala de Bildade (8.1-22) 2.2.4. A resposta de Jó (9.1-10.22) 2.2.5. A primeira fala de Zofar (11.1-20) 2.2.6. A resposta de Jó (12.1-14.22) 2.2.7. A segunda fala de Elifaz (15.1-35) 2.2.8. A resposta de Jó (16.1-17.16) 2.2.9. A segunda fala de Bildade (18.1-21) 2.2.10. A resposta de Jó (19.1-29) 2.2.11. A segunda fala de Zofar (20.1-29) 2.2.12. A resposta de Jó (21.1-34) 2.2.13. A terceira fala de Elifaz (22.1-30) 2.2.14. A resposta de Jó (23.1-24.25) 2.2.15. A terceira fala de Bildade (25.1-6) 2.2.16. A resposta de Jó (26.1-27.23) 2.3. Poema Sobre a Sabedoria - Interlúdio (28) 2.4. Último Discurso de Jó (29-31) 2.5. A longa Fala de Eliú (Um quarto amigo) (32-37) 2.6. Yavé Fala a Jó (38.1-41.34) 2.7. A Resposta de Jó (42.1-6) 5. O EPÍLOGO – Prosa apresentando a situação final dos personagens (42.7-17) 3.6. A Integridade ou Unidade do Livro de Jó Como já foi destacado no esboço do livro a parte do prólogo e a do epílogo estão escritas em prosa enquanto a parte central, a do debate, está em forma poética. Isto tem levado alguns a separarem o livro em duas partes. Segundo estes, somente os atuais prólogo e epílogo formavam o livro inicial. Mas, Raymond B. Dillard observa muito bem que as partes da introdução e da conclusão, em prosa, pressupõem os diálogos.[Nota 17] Ou seja, sem os diálogos em verso as partes em prosa ficam sem significado lógico. Também são alegadas algumas diferenças no próprio conteúdo do livro. Por exemplo, na parte em prosa Jó é submisso, aceita tudo sem reclamação, enquanto na parte poética ele é reclamador. Também na parte em prosa inicial há a presença de Satanás,[Nota 18] como um dos personagens principais, enquanto na parte poética ele não é nem mencionado. O número dos amigos de Jó também tem levado alguns a questionar a unidade da obra. No prólogo do livro, em Jó 2.11, está registrado que eles eram três: Elifaz, Bildade e Zofar. No Epílogo, no texto de 42.7, temos a mesma informação, mas no capítulo 32, na parte do diálogo, surge um quarto amigo que intervém sem ser apresentado anteriormente e desenvolve um discurso enorme que vai até o capítulo 37. Isto realmente levanta a dúvida: Este discurso é original ou foi introduzido posteriormente na obra? Contudo, pode-se argumentar a este respeito que há a possibilidade de Eliú ter aparecido sem ser apresentado por razões táticas do autor. Ele, depois de esgotados os argumentos dos velhos sábios, teria procurado mostrar que também a nova sabedoria, representada por Eliú, igualmente, não tinha nada de novo e convincente a respeito do assunto que estava sendo debatido, o sofrimento do justo. Raymond B. Dillard diz o seguinte a respeito da interpretação que toma os discursos de Eliú como não sendo originais: Dois fatores dão apoio à habitual crítica de que o monólogo de Eliú não é original à história. O primeiro é que, enquanto os três amigos são referidos por Deus na conclusão, Eliú está ausente. Entretanto, conforme o comentário perspicaz de Barrrando Eliú, considerando-o insignificante e, com efeito, colocando o impetuoso jovem no seu devido lugar. A outra objeção levantada pela teoria de que o monólogo é uma adição posterior é o fato de não trazer nada de novo. Mas esse é precisamente o ponto: a sabedoria humana se esgotou, está na hora de Deus entrar em cena.[Nota 19] A discussão a respeito da unidade ou não parece não ter fim. Seja como for, o livro em sua forma final, como conhecido na atualidade, é que tem sido considerado Palavra de Deus, e assim deve ser tratado na busca de seus ensinamentos. 3.7. Destaques que Ajudam na Interpretação do Livro 1) Deve-se levar em conta que, provavelmente, a história de Jó é muito antiga, a teologia da parte em poesia, os diálogos, aponta para isto, mas o escrito final é mais recente, pois a teologia da parte em prosa, introdução e conclusão, aponta para este fato. 2) O Livro de Jó tem sido considerado por muitos estudiosos como o mais difícil de ser traduzido de todo o Antigo Testamento. Daí as frequentes divergências entre as traduções. As dificuldades de linguagem são tantas que, segundo Francis I. Andersen têm sido propostas quatro teorias principais a respeito dela. São as seguintes: “a. um dialeto hebraico genuíno; b. uma linguagem literária artificial; c. uma mistura do hebraico com alguma outra língua; e d. o hebraico traduzindo outro idioma”.[Nota 20] 3) A expressão “os filhos de Deus” ( benê hā’ĕlôhim – µyhiloaÖh; yneB]) em Jó 1.6 e 2.1 deve ser entendida como “os anjos”. 4) O diálogo de Deus com Satanás não deve ser tomado literalmente em todos os seus detalhes, mas apenas em suas lições gerais que mostram Deus controlando tudo e Satanás apenas como um subalterno. Veja, ainda que estes dois primeiros capítulos estejam em prosa e não em verso como os demais, com exceção do epílogo que volta a ser escrito em prosa, aparecem muitos elementos que apontam para a não literalidade em seu conteúdo. Por exemplo: a) Deus, mesmo onisciente, como sabemos que é, por outras partes da Bíblia, pergunta a Satanás de onde ele estava vindo, como se não o soubesse (1.7); b) Deus volta a fazer outra pergunta a Satanás em 2.3, como se já não soubesse do conteúdo de seu relatório; c) O texto de 1.6-8 e 2.1-3a são praticamente idênticos, são se praticamente idênticos, - guindo-se palavra por palavra, algo inapropriado para conversas reais em épocas diferentes. Veja-os lado a lado: d) Ainda é interessante notar a conclusão idêntica dos quatros relatórios dos servos de Jó ao anunciarem-lhe as desgraças que sobrevieram sobre sua família e propriedade: “Só eu escapei, para trazer-te essa notícia» (1.15,16,17,19). 5) Também as partes dos diálogos que aparecem no livro não devem ser entendidas como transcrição exata das conversas de Jó com seus amigos e Deus, pois estão escritas em forma poética. Ninguém conversa em forma poética, ainda mais discutindo um assunto tão profundo como eles discutiam e em uma situação tão difícil como aquela em que Jó se encontrava. Dizer isto não significa dizer que o Livro de Jó não tem valor histórico, pois Jó é apresentado como um personagem real. O autor deve ter colocado em forma poética a essência daquilo que aconteceu com Jó. Um exemplo moderno deste tipo de técnica de escrita pode ser visto na obra “Os Lusíadas” de Luiz de Camões, o qual contou a história das conquistas do navegador Vasco da Gama em poemas. Não há como duvidar que “Os Lusíadas” tenha sido escrito em forma poética, mas também não dá para deixar de perceber o seu valor histórico pelas informações que apresenta. 6) O autor do livro, é claro, sabia quem é que causava o sofrimento a Jó, e mostra isso para o leitor na parte introdutória do livro, mas Jó não sabia (Jó 1.13-2.6). Desta forma, Jó atribuía seu sofrimento a Deus, pois, para ele, assim como para outros no período inicial do Antigo Testamento, tanto o mal quanto o bem vinham de Deus. Veja o que ele diz, por exemplo, em 6.4 e 19.21: “Pois as flechas do Todo Poderoso se cravaram em mim, e o meu espírito suga o veneno que nelas há; os terrores de Deus se arregimentamcontra mim” (Jó 6.4). “Tende compaixão de mim, meus amigos; tende compaixão de mim, pois a mão de Deus me atingiu” (Jó 19.21). O capítulo 10 também é uma boa amostra do que Jó pensava de seu “adversário”. 7) Na teologia da época de Jó o sofrimento era considerado pela maioria das pessoas como fruto de algum pecado específico. Daí a insistência dos amigos de Jó para que ele se arrependesse. Um deles, Elifaz, na melhor das boas intenções chega a dizer: “Lembra-te disto agora: Qual foi o inocente que já pereceu? E os corretos? Onde foram destruídos? Pelo que tenho visto, quem planta o pecado e semeia o mal, haverá de colher isso” (4.7-8). A teologia deles estava errada não em afirmar que o pecado traz castigo, pois a Bíblia é clara a este respeito, mas por concluir que toda dificuldade é resultado direto de pecado particular. Por achar que o justo está imune às dificuldades, o que a Bíblia não ensina. 8) Jó, além de estar sofrendo com a doença, sofria com o desmoronamento de seus conceitos teológicos. Se o justo não sofre, e se ele é justo, como o próprio texto afirma (1.1,8; 2.3 e, talvez, em 42.7), por que razão estaria sofrendo? 9) O dito “Eu saí nu do ventre de minha mãe, e nu voltarei para lá” (Jó 1.21a), parece estar utilizando a palavra “lá” ( shām - µv;) como um eufemismo para o mundo dos mortos, da mesma forma que a palavra “ali” ( shām - µv;) é utilizada em 3.17-19. Veja o que diz: “Ali ( shām - µv;) os ímpios já não perturbam; ali ( shām - µv;) repousam os cansados. Ali os presos descansam juntos e não ouvem a voz do opressor. O pobre e o rico estão ali ( shām - µv;), e o servo está livre de seu senhor. Diante disso o que Jó está dizendo em 1.21a é, simplesmente, “eu vim sem nada para o mundo dos vivos e irei sem nada para o mundo dos mortos”. 10) Em Jó 3.8 e 41.1 (Na BHS 40.25) aparece a palavra hebraica “leviatã” ( liwyātān - ˆt;y;w]li), de difícil interpretação, que talvez tenha sido emprestada da língua babilônica. É possível que ela seja oriunda de uma raiz que signifique “torcer” ou “dobrar”, o que sugere um tipo de cobra ou réptil.[Nota 21] Alguns têm interpretado como uma referência ao crocodilo, outros a uma baleia, mas este é o nome de um dragão mitológico de sete cabeças, pertencente à antiga mitologia cananita. O mito é anterior à presença de Israel em Canaã, mas alguns vestígios desta literatura sobreviveram no Antigo Testamento.[Nota 22] O leviatã é citado, também, nos Salmos 74.14, 104.26 e em Isaías 27.1. 11) Em Jó 7.9, 10.20-22 e 16.22 fica claro que em sua época ainda não havia a crença na ressurreição dos mortos. Portanto, não se pode interpretar 19.25-26, um texto de dificílima tradução, como se fosse uma declaração de fé na ressurreição, como alguns têm feito no decorrer da história. Veja os textos que mostram a crença na impossibilidade de retorno da morte e duas traduções de 19.25-26. A primeira das traduções, a Almeida Século 21 (AS21), interpretou como ressurreição e a segunda, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), entendeu que Jó, ainda em vida, veria a salvação, ou seja, o livramento, da parte de Deus. Veja os textos: a) Textos que mostram a crença na impossibilidade de ressurreição: “Assim como a nuvem se desfaz e some, aquele que desce à sepultura nunca voltará a subir” (Jó 7.9); “Não é curta a minha vida? Para, deixa-me, para que eu me alegre pelo menos por um pouco; antes que eu seja levado para o lugar de onde não voltarei, para a terra da escuridão e das densas trevas, terra de trevas densas como a própria escuridão, terra de sombra terrível e do caos, onde a própria luz é como a escuridão” (Jó 10.20-22); “Pois, passados poucos anos, seguirei o caminho de onde não voltarei” (Jó 16.22). b) Traduções de Jó 19.25-26, uma entendendo o texto como sendo uma referência à ressurreição e outro não. “Eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a Terra. Depois, destruído o meu corpo, então fora da carne verei a Deus” (AS21); “Pois eu sei que o meu defensor vive; no fim, ele virá me defender aqui na Terra. Mesmo que a minha pele seja toda comida pela doença, ainda neste corpo eu verei a Deus” (NTLH). 12) Raabe ( rāhab - bhr;), que aparece em 9.13 e 26.12, é um monstro marinho da mitologia babilônica. Se tornou também um símbolo para o Egito, e este pode ser o significado em 9.13. Veja o que diz Isaías 30.7: “O Egito os ajuda em vão e inutilmente; por isso, eu o chamo monstro Raabe que não se mexe”. 13) A palavra hebraica Sheol ( she’ôl - l/av]), que aparece em Jó 11.8; 14.13; 17.13,16; 21.13; 24.19 e 26.6 pode ser traduzida, dependendo do contexto, normalmente, por mundo dos mortos, mundo inferior, ou abismo. Alguns também sugerem profundezas, morte, ou sepulcro. A tradução inferno, como alguns optam, não é condizente. 14) A palavra hebraica Abadom ( ’ă baddôn - ˆ/DbæaÄ), que aparece em Jó 26.6 e 28.22 tem, entre outros dependendo do contexto, os possíveis significados: “destruição, ruína, lugar de destruição e reino dos mortos”.[Nota 23] Em Jó 26.6 ela está em paralelo com Sheol mostrando que, neste contexto, possuem o mesmo significado. Perceba o paralelismo sinonímico no texto: “O Sheol está nu perante Deus, e o Abadom não está encoberto”. A palavra “Sheol” está para “Abadom”, neste texto, assim como a palavra “nu” está para a expressão “não está encoberto”. O poeta está dizendo duas vezes a mesma coisa, com pequenas variações nos termos. 15) Eliú acusando Jó diz: “Pois além de ter pecado, ele é rebelde; entre nós bate as palmas e multiplica contra Deus as suas palavras” (Jó 34.37). Russel Norman Champlin explica que “talvez o fato de Jó bater palmas fosse um gesto de ira, e não meramente de ênfase para as palavras. O bater de palmas também pode expressar alegria (ver Sl 47.1, mas Jó não tinha muito para sentir-se feliz”.[Nota 24] Já as notas de rodapé da Versão Almeida Século 21 defendem que o bater palmas, neste texto, significa desprezo. Parece que tanto ira quanto desprezo, neste contexto, ficam bem, desde que direcionados para os amigos de Jó e não contra Deus. 16) Em Jó 39.9-12 aparece um animal poderoso desconhecido na atualidade. O texto hebraico o chama de re’ēm (µaer]), o qual tem sido traduzido, muitas vezes, por boi selvagem. O texto diz assim: 9 Por acaso o boi selvagem te serviria? Ficaria junto à tua manjedoura? 10 Podes com uma corda prender o boi selvagem ao arado e seguirá ele a ti arando os vales? 11Confiarás nele, por causa da sua grande força, ou deixarás a seu cargo o teu trabalho? 12 Terás confiança de que ele te trará o que semeaste para ajuntar na tua eira? (Jó 39.9-12). Alguns têm visto neste animal uma descrição do unicórnio das fábulas, mas, segundo Francis I. Andersen o animal citado neste texto é o “auroque”, extinto desde 1627. Nas palavras dele este animal era muito poderoso só sendo ultrapassado em tamanho pelo hipopótamo e pelo elefante. Era considerado o símbolo padrão de força no Antigo Testamento onde é citado nove vezes.[Nota 25] 17) É bom perceber que o arrependimento de Jó, quase no final da história, não está ligado a nenhum pecado que possa ter causado a ele tanta desgraça, como seus amigos pensavam. Seu arrependimento deve estar ligado ao ter falado a respeito de Deus, e da situação pela qual passava, coisas que ele não entedia . Assim, a palavra arrependimento de 42.6, acompanhada do ato de humilhação, deve estar intimamente ligada a 42.3, que mostra a razão disso. Veja a passagem completa para que fique mais claro: 1 Então Jó respondeu ao SENHOR: 2 Bem sei que tudo podes e que nenhum dos teus planos pode ser impedido. 3 Quem é este que sem conhecimento obscurece o conselho? De fato falei do que não entendia, coisas que me eram maravilhosas demais e eu não compreendia. 4 Ouve-me, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me responderás. 5 Com os ouvidos eu tinha ouvido falar a teu respeito; mas agora os meus olhos te veem. 6 Por isso me desprezo e me arrependo no pó e na cinza (Jó 42.1-6). 18) Por mais que algumas partes dos discursos dos amigos de Jó pareçamverdadeiros não devem ser utilizados como verdades de Deus, pois, pelo menos os dos três amigos de Jó que falaram antes de Eliú, acabaram condenados por Deus (42.7-8). Assim, estas partes não são apropriadas para devocionais ou mensagens. O texto diz assim: “Ao terminar de dizer essas coisas a Jó, o SENHOR disse a Elifaz, o temanita: Estou irado contigo e com os teus dois amigos, pois não falastes a verdade a meu respeito, como fez o meu servo Jó”. 3.8. Questões Baseadas no Livro de Jó Para encerrar nosso estudo a respeito do Livro de Jó apresento algumas questões fundamentais que servem de revisão daquilo que foi dito e guia para uma leitura eficaz do texto de Jó. Procure respondê-las de acordo com o que você entendeu do exposto até aqui e da leitura do Livro de Jó em si. 1) A quem Jó atribui o seu sofrimento? Por quê? 2) Quem de fato causou o sofrimento de Jó? Explique! 3) Por que Deus entregou Jó nas mãos de Satanás? 4) Houve injustiça na forma como Jó sofreu? (Jó foi provado e aprovado) 5) Os amigos de Jó o confortaram? Explique! 6) Por que os amigos de Jó insistiam em que ele havia pecado? 7) Quais teriam sido as consequências teológicas se Jó não tivesse se recuperado? 8) A Teologia da época de Jó, a qual afirmava que há uma clara relação entre bondade e prosperidade, pecado e sofrimento, encontra seguidores em nossos dias? Explique! Notas Nota 15 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.190. [Voltar] Nota 16 - ANDERSEN, Francis I. Jó: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984, p.88. [Voltar] Nota 17 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.191. [Voltar] Nota 18 - Satanás, como nome próprio só é mencionado claramente, no Antigo Testamento, em Jó. Em 1Cr 21.1 ele aparece no lugar do nome de Yavé que foi utilizado pelo autor de 2Sm para o mesmo episódio, mas algumas versões modernas têm optado por traduzir a palavra sātān (ˆf;c;), deste texto, pelo significado possível e comum de: “um adversário” [Voltar] Nota 19 - DILLARD, Raymond B. e LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 2006, p.194. [Voltar] Nota 20 - ANDERSEN, Francis I. Jó: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984, p.54. [Voltar] Nota 21 - CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo: Dicionário. 2.ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p.4636, v.6. [Voltar] Nota 22 - ANDERSEN, Francis I. Jó: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984, p.288. [Voltar] Nota 23 - KIRST, Nelson; KILPP, Nelson; SCHWANTES, Milton; RAYMANN, Acir e ZIMMER, Rudi. Dicionário hebraico- português e Aramaico-português. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1989, p.1. [Voltar] Nota 24 - CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento interpretado: versículo por versículo: II Reis, I Crônicas, II Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó. 2.ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p.2006, v.3. [Voltar] Nota 25 - ANDERSEN, Francis I. Jó: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1984, p.280. [Voltar] 4. O LIVRO DE SALMOS O Livro de Salmos é um dos mais citados e utilizados nas igrejas evangélicas atuais, ainda que de forma parcial e mais na liturgia e momentos devocionais do que na pregação propriamente dita. Esta sua popularidade deve-se ao fato de muitos dos salmos que o compõem serem a expressão de sentimentos interiores em relação a Deus, o que ajuda também o adorador moderno a se expressar melhor em seus momentos de devoção. Em outras palavras, no geral, os salmos, em primeira mão e na grande maioria, são compostos por palavras profe são compostos por palavras proferidas por homens para Deus e não por palavras de Deus para os homens. Isto dificulta a sua utilização na pregação, onde se espera que Deus fale ao homem, mas facilita na parte da adoração e louvor dos cultos, onde se espera que os homens falem a Deus. Muito poderia ser dito a respeito desta obra tão maravilhosa, mas devido ao espaço reduzido, aqui serão abordados apenas alguns detalhes que possam lançar luzes para uma melhor interpretação de suas variadas partes. Assim como no Livro de Jó, estudado no capítulo anterior, e nos demais livros bíblicos que serão abordados nesta obra, aqui também veremos as questões introdutórias fundamentais seguidas de alguns auxílios e observações que ajudam na interpretação. Este é o foco. 4.1. O Título do Livro de Salmos Comecemos pelo título do livro. O Título original da composição como um todo, no hebraico, é tehillîm (µyLihiT]) e significa “louvores” ou “cânticos de louvor”. Ele é uma forma irregular do plural da palavra tehillâ (hL;hiT]), que aparece no título do salmo 145 e no conteúdo de cerca de outros vinte salmos (veja estes: 9.14, 22.25, 33.1, 34.1, etc.). Este título, ainda que seja o utilizado pelos judeus, não descreve adequadamente o conteúdo do livro, pois nem todos os salmos são louvores. Na verdade, a maior parte dos salmos pertence ao gênero classificado como lamentação. O título utilizado na Septuaginta (LXX) é psalmoi (yalmoiv) o qual é uma tradução da palavra hebraica mizmôr (r/mz]mi), esta sim utilizada com frequência no livro. A palavra mizmôr (r/mz]mi), que descreve um cântico acompanhado por instrumento musical, é utilizada 57 vezes no saltério. O título atual, Salmos, ou Livro de Salmos, nas bíblias em português, deriva da Vulgata que apenas transliterou o título utilizado pela LXX. 4.2. A Estrutura do Livro de Salmos A estrutura básica do Livro de Salmos é bastante clara e aponta para os estágios de conclusão de cada parte. Ao que parece cada uma das partes foi sendo formada paulatinamente por salmos individuais que foram sendo juntados uns com os outros. Em sua forma atual apresenta cinco divisões bem distintas, que são as seguintes: 1. Livro 1 – Salmos 1-41 2. Livro 2 – Salmos 42-72 3. Livro 3 – Salmos 73-89 4. Livro 4 – Salmos 90-106 5. Livro 5 – Salmos 107-150 Observações quanto à estrutura: a) As versões modernas destacam estas divisões. b) Como ajuda para entender melhor esta divisão é bom observar que cada um dos cinco livros termina com uma doxologia, uma fórmula de louvor a Deus. c) Esta estrutura já existia antes da versão conhecida como LXX, o que aponta para a sua antiguidade. d) A estrutura parece arbitrária, pois o livro não manifesta nada que possa ser chamado de estrutura literária, ao contrário, os diversos tipos de salmos estão espalhados dentro das cinco divisões sem nenhum esquema óbvio, o que lembra mais um ajuntamento de partes de forma quase que aleatória. e) Os Salmos não estão arranjados pelos autores. Por exemplo, no Salmo 72.20 está a informação de que ali se encontra o fim das orações de Davi, só que o Livro 1 tem pelo menos 12 outros salmos que, claramente, não são de Davi e existem mais outros 18 atribuídos a ele, em outras partes do saltério. 4.3. A Importância do Livro de Salmos Além de ser importante por estar na Bíblia e, consequentemente, ser considerado Palavra de Deus, literatura inspirada, o Livro de Salmos também é importante por pelo menos outras duas razões: a) Conter informações referentes à vida religiosa de Israel. b) Servir de modelo e exemplo no diálogo entre humanos e Deus. 4.4. O Propósito do Livro de Salmos Não é fácil de se encontrar o propósito de um livro tão variado e complexo como este mas, boa parte dos estudiosos atuais do Livro de Salmos têm aceito que ele apresenta um propósito duplo: a) Ser utilizado como literatura litúrgica. b) Ser utilizado como orações individuais. Sem dúvidas, o próprio livro mostra que temos nele uma mistura de salmos para uso individual com outros para uso em culto. 4.5. Possíveis Classificações dos Salmos Os salmos têm sido classificados de várias formas, em uma tentativa de entendê-los melhor. As classificações devem ser levadas em consideração no momento da interpretação. Aqui serão vistas algumas das propostas de classificação, apenas como exemplos.