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Lato sensu – Especialização – Medicina da Família e Comunidade Módulo 3 Raciocínio clínico para médicos de família e comunidade no cotidiano de trabalho Guia do Profissional Estudante Semana 8 Sala de aula invertida Semana: 8 | Sala de aula invertida Atividade Leitura – Uso das ferramentas de MBE no processo diagnóstico Olá, profissional estudante! Boas-vindas à oitava semana deste percurso formativo, quando iniciaremos o segundo ciclo sobre a temática Medicina Baseada em Evidências (MBE) no qual avançaremos para as etapas seguintes dos cinco As – ACQUIRE e APPRAISE. Nesta semana você realizará a leitura deste material. O texto traz uma série de conceitos para revisão e será usado como base para as atividades síncronas e assíncronas da sala de aula invertida referentes às próximas semanas deste ciclo. Boa leitura! Bons estudos! Introdução Raciocínio clínico e Medicina Baseada em Evidências (MBE) são assuntos complicados para a maioria dos médicos, não? Até parece assunto de Epidemiologistas e Estatísticos. Parece, com certeza. Porém, mesmo sem saber, todos nós aplicamos instrumentos e habilidades de Raciocínio Clínico e MBE na nossa prática. Estes números, fórmulas e conceitos complicados estão presentes em praticamente toda consulta que realizamos. Você pode estar se perguntando: • Mas se eu já faço isto nas minhas consultas, se estes conceitos estão presentes diariamente – mesmo sem eu me dar conta – por que preciso então estudá-los a fundo? • Vai fazer alguma diferença eu desvendar essa “caixa preta” que é a MBE? • Não basta saber os critérios diagnósticos e conhecer as opções terapêuticas? A resposta é, obviamente, um SIM. Mas, a que ponto? Não queremos que vocês se tornem especialistas em MBE. Poucos de vocês se tornarão, darão aulas sobre o assunto, escreverão artigos e livros no futuro. Contudo, esperamos que todos vocês sejam capazes de compreender os conceitos, entender sobre tamanho do efeito terapêutico esperado e compreender por que um guideline de decisão clínica possui certos exames. Isto fará com que vocês tenham maior assertividade ao solicitar um teste diagnóstico e maior segurança ao recomendar o uso de um medicamento, sabendo melhor qual o real efeito esperado para cada paciente. Relembrando o que aprendemos no primeiro ciclo No primeiro ciclo exploramos a primeira etapa da MBE – a etapa Ask, sobre formular uma pergunta clínica estruturada. Aprendemos a transformar as inquietações e os questionamentos da nossa prática clínica primeiro em perguntas de estudo SMART e, em seguida, em perguntas possíveis de nos informar evidências relevantes para a tomada de decisão utilizando a Estratégia PICO – Paciente, Intervenção, Comparação, Desfecho (Outcome). Vamos avançar para as etapas seguintes dos cinco As – ACQUIRE e APPRAISE, começando por um pequeno caso clínico. Caso Clínico – Mariela está com 12 semanas de gestação! Dr. Josias está diante de uma gestante chamada Mariela. Ela tem 35 anos, é primigesta e está hoje com 12 semanas de gestação. Ela já teve medidas de pressão arterial elevadas, mas nunca lhe disseram que tinha hipertensão. Também não sabe se alguém da sua família teve pré-eclâmpsia. A enfermeira da equipe o questionou sobre a prescrição de carbonato de cálcio para gestantes, dizendo que havia recebido esta orientação da secretaria da saúde recentemente. Ela lhe perguntou “mas precisa ou não prescrever cálcio para gestantes? Todas as gestantes precisam? Parece que agora é recomendação do Ministério da Saúde, mas precisa prescrever para todas mesmo?”. Dr. Josias acaba por prescrever aspirina 100 mg ao dia e dois comprimidos de carbonato de cálcio 1.250 mg (500 mg de cálcio) ao dia, o equivalente a 1.000 mg de cálcio elementar. Mesmo assim, ainda se questiona sobre o real efeito dessas medicações na vida de Mariela e na sua gestação – “Será que essas medicações realmente vão fazer a diferença para esta gestante?”. Ele decide que irá estudar sobre o tema quando chegar em casa. Ao final do dia, Dr. Josias resolve entrar na internet e buscar algum artigo sobre o tema. Então ele se vê frente à tela do computador sem saber ao certo como buscar essa informação, que página buscar ou a qual fonte recorrer. Como você já viu no Ciclo 1, vamos começar por formular boas perguntas. Sem elas, não encontraremos nada de relevante e, se encontrarmos, não saberemos muito bem o que fazer com o que encontramos. Ajudando Dr. Josias a qualificar suas perguntas! As perguntas que rondam a cabeça de Dr. Josias são: “deveria ou não oferecer o carbonato de cálcio ou aspirina, uma vez que ela teve medidas de pressão arterial elevadas”. Ele se pergunta se “não seria melhor prescrever logo aspirina para Mariela?”, “ou talvez deva prescrever os dois ao mesmo tempo?”, “qual deles tem melhor efeito?”. Todas estas perguntas são importantes, mas ainda estão escritas num formato de inquietação pessoal, não estão formuladas dentro da estratégia PICO. Além disso, há também duas intervenções distintas: aspirina e carbonato de cálcio em gestantes. Para relembrarmos e estratégia PICO, vamos rever cada um dos seus elementos primeiro utilizando o exemplo do caso da gestante Mariela. P (paciente ou população): gestantes em risco de pré-eclâmpsia. Há uma diferença aqui quanto à população – para cada uma delas, a população muda um pouco. Para carbonato de cálcio a população seria “estar gestante” e para aspirina a população seria “gestante em risco de desenvolver pré-eclâmpsia – vamos rever isto adiante. I (intervenção): temos duas no momento – (1) Aspirina e (2) Carbonato de Cálcio. C (Comparação): Nenhuma medicação ou uso de placebo. Para ambos os casos, a intervenção seria fazer ou não-fazer. Não uma comparação entre drogas distintas, com efeitos comparáveis. O (Outcome): ocorrência de pré-eclâmpsia – e demais eventos relacionados à pré- eclâmpsia que veremos adiante. Mesmo sem ter elaborado essas perguntas adequadamente, Dr. Josias resolve primeiro buscar informações diretamente no Ministério da Saúde e busca no seu buscador pelos seguintes termos: “Ministério da saúde aspirina pré-eclâmpsia” Ele encontra alguns sites que lhe chamam a atenção. Primeiro o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde, um documento de quase 700 páginas detalhando tudo sobre gestação de alto risco – https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_gestacao_alto_risco.pdf – e que menciona na página 459 o seguinte: 43.3 Prevenção da pré-eclâmpsia De acordo com a análise dos fatores de risco, recomenda-se o uso de ácido acetilsalicílico (AAS) 100 mg/dia, à noite, iniciado antes da 16ª semana de gestação até 36 semanas; além do cálcio até o parto (suplementação mínima de 1 g/dia). O documento não explica muito bem qual o real benefício desses medicamentos na prevenção da pré-eclâmpsia. Ele continua com suas questões em aberto e resolve buscar um pouco mais pela internet. Acaba encontrando então uma publicação do Instituto Fernandes Figueira intitulada “Principais questões sobre profilaxia da pré- eclâmpsia no pré-natal” – https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao- mulher/principais-questoes-sobre-profilaxia-da-pre-eclampsia-no-pre-natal/ – com uma série de perguntas e respostas sobre o tema. Lá ele encontra a seguinte pergunta: 3. Quando deve ser iniciada a profilaxia da pré-eclâmpsia? A aspirina a partir de 12ª semanas e preferencialmente antes de 20 semanas. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_gestacao_alto_risco.pdf https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-mulher/principais-questoes-sobre-profilaxia-da-pre-eclampsia-no-pre-natal/ https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-mulher/principais-questoes-sobre-profilaxia-da-pre-eclampsia-no-pre-natal/ Já a suplementaçãodo cálcio pode ser feita a partir de 20 semanas. O comprimido disponível de cálcio na Rede é de 1250mg ou 500mg de cálcio suplementar. A dosagem recomendada pela Organização Mundial da Saúde é de 1,5g a 2g por dia. Vários estudos mais recentes têm mostrado que doses menores, de até 1g por dia têm sido efetivas da mesma forma para evitar a pré-eclâmpsia. Assim, tem-se utilizado prescrever 500mg duas vezes ao dia, ou 2 comprimidos de 1250mg que corresponde a 500mg de cálcio elementar ao dia. Essas informações ele até já sabia – e tampouco são úteis para responder à sua questão sobre o real benefício do cálcio e da aspirina na prevenção da pré- eclâmpsia. Na página do Ministério da Saúde, em “Estratégia contra a pré-eclâmpsia, suplementação de cálcio passa a ser universal para gestantes”, ele encontra a informação de que “Medida visa reduzir a mortalidade materna e fortalecer a Rede Alyne. Uso do cálcio reduz em até 55% o risco de pré-eclâmpsia”. Porém, ao ler a página, não encontra de onde este valor – 55% – veio, e continua sem saber qual o real efeito da aspirina e do cálcio na prevenção de pré-eclâmpsia. O texto foi encontrado em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/em- estrategia-contra-a-pre-eclampsia-suplementacao-de-calcio-passa-a-ser-universal- para-gestantes Ele resolve então buscar a Nota Técnica do Ministério da Saúde que orienta essas condutas. Pensou: “Lá devo encontrar as fontes bibliográficas que preciso”. A Nota Técnica Conjunta nº 251/2024-COEMM/CGESMU/DGCI/SAPS/MS e CGAN/DEPPROS/SAPS/MS – https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de- conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-conjunta-no-251-2024- coemm-cgesmu-dgci-saps-ms-e-cgan-deppros-saps-ms.pdf – apresenta as recomendações para suplementação de cálcio durante a gestação. Lendo o documento, Dr. Josias encontra que: 2.3. A Rede Alyne, instituída pela Portaria GM/MS nº 5.350, de 12 de setembro de 2024, estabelece o compromisso de reduzir a mortalidade materna global com https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/em-estrategia-contra-a-pre-eclampsia-suplementacao-de-calcio-passa-a-ser-universal-para-gestantes https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/em-estrategia-contra-a-pre-eclampsia-suplementacao-de-calcio-passa-a-ser-universal-para-gestantes https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/em-estrategia-contra-a-pre-eclampsia-suplementacao-de-calcio-passa-a-ser-universal-para-gestantes https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-conjunta-no-251-2024-coemm-cgesmu-dgci-saps-ms-e-cgan-deppros-saps-ms.pdf https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-conjunta-no-251-2024-coemm-cgesmu-dgci-saps-ms-e-cgan-deppros-saps-ms.pdf https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-conjunta-no-251-2024-coemm-cgesmu-dgci-saps-ms-e-cgan-deppros-saps-ms.pdf enfoque em mulheres negras e indígenas, conforme seu artigo 3º: “reduzir a morbimortalidade materna e infantil, com ênfase no componente neonatal sobretudo da população negra e indígena”. 2.4. O cálcio atua na regulação metabólica e na manutenção da pressão arterial normal. No período gestacional, não há o aumento espontâneo da ingestão do cálcio. Nesse sentido, considerando a demanda do nutriente especificamente relacionada à gestação, observa-se o aumento da absorção desse nutriente, o que pode contribuir para a disponibilidade de cálcio na quantidade necessária para desenvolvimento do feto. 2.5. Desde 2011, a OMS recomenda a suplementação de cálcio para gestantes com baixo consumo do micronutriente. E logo mais abaixo: 3. RECOMENDAÇÕES 3.1. No âmbito da Rede Alyne, recomenda-se que o pré-natal nas Unidades Básicas de Saúde, com captação oportuna (até 12 semanas), seja o momento ideal para a oferta dos cuidados necessários, dentre eles, os cuidados com a Alimentação e Nutrição, incluindo a oferta do suplemento de cálcio (Carbonato de Cálcio) para pessoas gestantes. 3.2. Recomenda-se a suplementação de dois (2) comprimidos de carbonato de cálcio 1.250mg (500mg de cálcio) ao dia, equivalente a 1.000mg de cálcio elementar, para todas as gestantes, com início na 12ª semana de gestação até o momento do parto. Sente que continua na mesma situação, mas desta vez encontra, ao final do documento, uma série de referências bibliográficas. Documentos da Organização Mundial da Saúde, documentos do Ministério da Saúde brasileiro, um artigo sobre absorção intestinal do cálcio, um documento da International Federation of Gynecology and Obstetrics (FIGO) apresentando seu guideline para prevenção de pré-eclâmpsia e, por fim, um artigo chamado “Calcium for pre‐eclampsia prevention: a systemac review and network meta‐analysis to guide personalised antenatal care” – uma revisão sistemática e metanálise sobre o tema. “Este deve ser o artigo que pode me ajudar a responder as minhas perguntas”, analisa. Dr. Josias abre o documento e começa a lê-lo – disponível em https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/1471-0528.17222. No artigo ele encontra, logo na introdução, a seguinte informação: In women identified at highrisk for developing pre-eclampsia by multivariable assessment at 11+0 –13+6 weeks of gestation, aspirin (150mg/day) prevents 60% of preterm pre-eclampsia, without affecting the incidence of term disease (≥37+0 weeks of gestation), which represents at least 70% of pre-eclampsia cases. Systematic reviews have identified that calcium supplementation during pregnancy reduces the risk of developing pre-eclampsia (RR 0.45, 95% CI 0.31– 0.65), as well as serious maternal morbidity and preterm birth. Traduzido livremente: Em mulheres identificadas como de alto risco para desenvolver pré-eclâmpsia entre 11+0 e 13+6 semanas de gestação, a aspirina (150mg/dia) previne 60% dos casos de pré-eclâmpsia pré-termo, sem afetar a incidência da doença a termo (≥ 37+0 semanas de gestação), que corresponde a pelo menos 70% dos casos de pré- eclâmpsia. Revisões sistemáticas identificaram que a suplementação de cálcio durante a gravidez reduz o risco de desenvolver pré-eclâmpsia (RR 0,45, IC 95% 0,31–0,65), bem como a morbidade materna grave e o parto prematuro. Frente a esta leitura, Dr. Josias se depara com um conceito que ele não se recorda muito bem – RR, ou Risco Relativo. Ele para e pensa: “eu não sabia qual o real efeito da aspirina e do cálcio na prevenção da pré-eclâmpsia e agora descobri que não me lembro o que é risco relativo!”. Ao tentar encontrar outras informações na internet, Dr. Josias acabou por encontrar um texto curtinho, de apenas uma página, resumindo as evidências sobre uso de aspirina para prevenção de pré-eclâmpsia. O artigo se chama “ASA use in patients https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/1471-0528.17222 at risk of preeclampsia” – e pode ser encontrado neste link https://www.cfp.ca/content/cfp/70/1/38.full.pdf. Atenção: não se preocupe em como Dr. Josias encontrou este texto. Nas próximas semanas abordaremos isto. Por ora, vamos focar nos conceitos que considerados preliminares para entendermos o que está escrito nesses artigos e conseguirmos responder à pergunta “qual o efeito da aspirina e do carbonato de cálcio na prevenção da pré-eclâmpsia”. Neste artigo ele encontra que: At about 12 to 28 weeks’ gestation, low-dose (50 to 150 mg) ASA reduces absolute risk of preeclampsia by about 2%, perinatal death by about 0.5%, and preterm birth by about 2% compared with placebo. The absolute risk of postpartum hemorrhage is increased by up to about 1%. Low-dose ASA should be considered in pregnant patients at risk of pre-eclampsia. Em português: Entre aproximadamente 12 e 28 semanasde gestação, aspirina em baixa dose (50 a 150mg) reduz o risco absoluto de pré-eclâmpsia em aproximadamente 2%, a mortalidade perinatal em cerca de 0,5% e o parto pré-termo em cerca de 2% em comparação com placebo. O risco absoluto de hemorragia pós-parto aumenta em até aproximadamente 1%. A aspirina em baixa dose deve ser considerada em gestantes com risco de pré-eclâmpsia. Um pouco mais abaixo ele encontra que: O uso de aspirina (ASA), quando iniciado entre cerca de 12 e 28 semanas de gestação e mantido até o parto, tem efeito na mortalidade perinatal (3 revisões sistemáticas [11 a 52 ECRs])1,3,4: 2,1% a 3,1% versus 2,7% a 3,5% (placebo); NNT = 179 a 239. https://www.cfp.ca/content/cfp/70/1/38.full.pdf Hemorragia pós-parto (>500 a 1.000mL de perda sanguínea) (4 revisões sistemáticas [9 a 19 ECRs])1,3,4,6: 3,7% a 15,2% versus 3,3% a 14,3% (placebo), número necessário para causar dano (NNH) de 97 a 239; em 1 revisão sistemática, os resultados não foram estatisticamente diferentes. Antes era apenas o Risco Relativo, agora o Risco Absoluto, o NNT (também conhecido como Número Necessário a Tratar (Number Needed to Treat), e o NNH (conhecido como Número Necessário para Causar Dano – Number Needed to Harm). Buscar artigos em fontes seguras não é nada simples. Onde buscar, como buscar, como avaliar se o artigo é bom ou não. Tudo isto parece muito difícil de ser feito, ainda mais quando começamos a ler um artigo e não temos muita segurança sobre o que Risco Relativo, Risco Absoluto, NNT e NNH realmente significam. Portanto, antes de aprendermos a buscar fontes na literatura, identificarmos tipos de artigos de acordo com a pirâmide de evidências, aprendermos estratégias de busca, vamos reforçar nossos conhecimentos sobre essas medidas de efeito. Este tema já foi abordado dentro dos módulos assíncronos, mas vamos abordá-lo novamente nos encontros síncronos sobre raciocínio clínico. Espero que o medo desses conceitos e seus números vão embora com este exercício. Hoje, vamos rever os conceitos começando por medidas de frequência até chegarmos aos NNT e ao NNH. Medidas de frequência: prevalência e incidência Vamos começar por relembrar dois conceitos básicos para descrevermos a frequência de ocorrências de um evento. Prevalência e incidências. São muito parecidos, mas nos mostram situações distintas com implicações distintas. • Prevalência: proporção de indivíduos em uma população que apresentam uma determinada condição em um ponto específico do tempo (ou período). É essencialmente uma fotografia da doença – útil, por exemplo, para entender carga de doença atual. Exemplo: em 2025, aproximadamente 10% da população brasileira tinha diabetes – esse número representa a prevalência de diabetes (10% dos brasileiros estavam com a doença naquele ano). • Incidência: taxa ou proporção de novos casos de uma condição que se desenvolvem em uma população suscetível durante um determinado período. Ou seja, mede o risco ou velocidade de ocorrência de novos casos. Exemplo: se em um ano ocorreram 50 novos casos de dengue por 1.000 habitantes em certa cidade, essa é a incidência anual de dengue nessa população. No exemplo, poderíamos falar em incidência de pré-eclâmpsia como a proporção de gestantes que desenvolverão pré-eclâmpsia durante toda a gravidez (excluindo quem já tinha, no caso de pré-eclâmpsia é sempre um evento novo na gestação). Formalmente, incidência costuma ser expressa como taxa ou risco cumulativo: número de novos casos dividido pelo número de pessoas inicialmente em risco, no período considerado. Resumindo, prevalência nos mostra a carga de uma doença na população, mostrando quais são os casos atualmente existentes na população. No nosso contexto da medicina de família, prevalência nos ajuda a medir quantos casos de determinada condição estamos acompanhando. A partir da contagem de quantos pacientes com HIV, com diabetes ou acamados há hoje em determinada população, podemos calcular a prevalência na população. Incidência, por outro lado, nos mostra o risco de ocorrência de um novo caso em um período. A proporção de gestantes em um ambulatório pré-natal que atualmente estão com pré-eclâmpsia representaria uma prevalência pontual dessa condição (geralmente baixa, já que a pré-eclâmpsia ocorre mais tardiamente e por definição ao final da gestação). Já a probabilidade de uma gestante de alto risco vir a desenvolver pré- eclâmpsia ao longo da gestação é uma incidência (digamos, ~10% de incidência de pré-eclâmpsia em determinadas populações de risco sem profilaxia). É justamente essa incidência que aspirina e o carbonato de cálcio pretendem reduzir. No artigo “Prevalência de pré-eclâmpsia no Brasil: Uma revisão integrativa” – https://www.scielo.br/j/rbgo/a/qJLyYLLLvnfNC3d8hxJ68Lt/abstract/?lang=pt#:~:text= A%20frequ%C3%AAncia%20acumulada%20de%20pr%C3%A9%2Decl%C3%A2mp sia%20foi%20de,a%20hipertens%C3%A3o%20foi%20de%200%2C5%%20a%201% 2C7% – descobrimos que “A frequência acumulada de pré-eclâmpsia foi de 6,7%, https://www.scielo.br/j/rbgo/a/qJLyYLLLvnfNC3d8hxJ68Lt/abstract/?lang=pt#:~:text=A%20frequ%C3%AAncia%20acumulada%20de%20pr%C3%A9%2Decl%C3%A2mpsia%20foi%20de,a%20hipertens%C3%A3o%20foi%20de%200%2C5%%20a%201%2C7% https://www.scielo.br/j/rbgo/a/qJLyYLLLvnfNC3d8hxJ68Lt/abstract/?lang=pt#:~:text=A%20frequ%C3%AAncia%20acumulada%20de%20pr%C3%A9%2Decl%C3%A2mpsia%20foi%20de,a%20hipertens%C3%A3o%20foi%20de%200%2C5%%20a%201%2C7% https://www.scielo.br/j/rbgo/a/qJLyYLLLvnfNC3d8hxJ68Lt/abstract/?lang=pt#:~:text=A%20frequ%C3%AAncia%20acumulada%20de%20pr%C3%A9%2Decl%C3%A2mpsia%20foi%20de,a%20hipertens%C3%A3o%20foi%20de%200%2C5%%20a%201%2C7% https://www.scielo.br/j/rbgo/a/qJLyYLLLvnfNC3d8hxJ68Lt/abstract/?lang=pt#:~:text=A%20frequ%C3%AAncia%20acumulada%20de%20pr%C3%A9%2Decl%C3%A2mpsia%20foi%20de,a%20hipertens%C3%A3o%20foi%20de%200%2C5%%20a%201%2C7% com um total de 2.988 casos. A frequência de eclâmpsia variou de 1,7% a 6,2%, ao passo que a ocorrência de síndrome de HELLP foi pouco relatada. A prematuridade associada a hipertensão foi de 0,5% a 1,7%”. Medidas de risco: risco absoluto e risco relativo Aqui é onde muitas pessoas começam a fazer confusão. Geralmente comparamos riscos de desfechos entre dois grupos (por exemplo, grupo que recebeu aspirina vs. grupo placebo). Para interpretar resultados, precisamos entender duas formas complementares de expressar risco: o absoluto e o relativo. • Risco Absoluto (RA): é a probabilidade ou incidência de um evento ocorrer em um determinado grupo. Pode ser expresso em porcentagem ou proporção. No contexto de um ensaio clínico, também é chamado de taxa de evento ou incidência cumulativa no grupo. Exemplo hipotético: em um estudo observacional que acompanhou gestantes ao longo de toda a gestação encontrou que. de cada 100 grávidas, 8 mulheres tiveram pré-eclâmpsia. O risco absoluto de se ter pré-eclâmpsia neste estudo foi de 8%. O risco absoluto nos fornece a magnitude da doença ou evento naquele grupo específico. Outro exemplo, agora de um estudo real. No artigo https://www.ajog.org/action/showPdf?pii=S0002-9378%2820%2931128-5 encontramos que “A incidência relatada de eclâmpsia é de 1,6 a 10 por 10.000 partos em países desenvolvidos, enquanto é de 50 a 151 por 10.000 partos em países em desenvolvimento.” O risco absoluto para ocorrência de ECLÂMPSIA, em países em desenvolvimento, varia entre 50 e 151 casos por 10.000 partos. Perceba que a incidências aqui da eclâmpsia é menor do que da pré-eclâmpsia. • Risco Relativo (RR): é a razão dos riscos absolutos entre dois grupos. Risco relativo sempre precisa de dois valores para serem comparados – relativos um ao outro. Isto é, quanto foi o risco no grupo intervenção relativamente ao risco no grupo controle. Matematicamente: RR = (incidência no grupo intervenção) ÷ (incidência no grupo controle). O riscorelativo informa quantas vezes mais (ou menos) provável é ocorrer o desfecho no grupo exposto em https://www.ajog.org/action/showPdf?pii=S0002-9378%2820%2931128-5 comparação ao não exposto. Por exemplo, se no grupo controle 8 em cada 100 gestantes desenvolvia pré-eclâmpsia e no grupo de gestantes que tomou aspirina ao longo da gestação tivemos apenas 4 casos de pré-eclâmpsia dentre 100 gestantes, podemos dizer que: o O risco absoluto de pré-eclâmpsia no grupo controle é 8 em 100. o O risco absoluto de pré-eclâmpsia no grupo que usou aspirina é 4 em 100. o O risco relativo entre os dois grupos foi de 0,5. Em outras palavras, ao tomar aspirina, o risco das gestantes reduziu pela metade, em relação àquelas que não tomaram aspirina. Atenção, os valores aqui são hipotéticos. Usamos valores redondos apenas para facilitar o entendimento dos conceitos. Para interpretarmos o risco relativo Risco relativo é uma medida de multiplicação (ou de razão). Desta forma, o valor de igualdade sempre será o valor 1. Um RR = 1 indica que não há diferença em risco entre os grupos (risco idêntico). RR > 1 indica risco maior com a intervenção (possível efeito prejudicial); RRos valores que encontramos parecem favoráveis para a indicação da aspirina para prevenção de pré-eclâmpsia – o número de pacientes que precisam tratar para obter um benefício é menor (50) que o número que levaria para incorrer em um dano sério (100). Prevenir pré-eclâmpsia (que pode ser fatal em casos graves) tem um peso importante, enquanto o dano considerado (hemorragia pós-parto leve a moderada), embora relevante, geralmente é manejável. Lembrando que os números aqui apresentados são apenas exemplos, em termos práticos, esses números indicam que a aspirina baixa dose traz um benefício absoluto modesto, porém clinicamente relevante, na prevenção da pré-eclâmpsia, com um pequeno acréscimo no risco de hemorragia. Essas não são as únicas informações que usamos para decidirmos se usamos um medicamento ou não. Para colocá-lo em prática para toda a população e se tornar uma política de saúde pública, vários fatores são levados em conta, como disponibilidade do medicamento, sua aceitação pela população, reconhecimento de seus potenciais malefícios, seu custo para disponibilizar para toda a população, gravidade da doença e seu impacto na sociedade. Além disso, não falamos nada sobre como considerar a qualidade metodológica das evidências (nesse caso, alta, por se basear em múltiplos ECRs) e a aplicabilidade à paciente (perfil de risco semelhante, contraindicações, preferências da gestante, etc.). Isto ficará para as próximas semanas. Perfeito, você finalizou a leitura desta semana. Agora, prepare-se para as atividades que terão este conteúdo como base. Bons estudos! Relembrando o que aprendemos no primeiro ciclo Caso Clínico – Mariela está com 12 semanas de gestação! Ajudando Dr. Josias a qualificar suas perguntas! Medidas de frequência: prevalência e incidência Medidas de risco: risco absoluto e risco relativo Para interpretarmos o risco relativo Redução de risco: absoluta vs. relativa NNT (Número Necessário para Tratar) e NNH (Número Necessário para Causar Dano)