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Análise de Fluidos: Líquido Pleural e Sinovial MANAUS –AM 2023 2 Líquido Pleural 3 Os pulmões são considerados parte essencial do processo de respiração. A análise laboratorial dos líquidos e secreções pulmonares é uma etapa importante no diagnóstico de diversas patologias que afetam a estrutura pulmonar, principalmente a pleura, os brônquios e os alvéolos. Nesses processos patológicos, ocorrem modificações na composição (celularidade, proteínas, enzimas, muco, entre outros elementos) e na quantidade desses líquidos, que podem ser analisadas a partir de parâmetros laboratoriais. Essas modificações podem ser acentuadas em resposta a agentes infecciosos como bactérias, fungos e parasitas, reações alérgicas e nas neoplasias, como o câncer de pulmão. Líquido Pleural 4 Os dois pulmões, direito e esquerdo, estão contidos na cavidade torácica do corpo humano e estão envolvidos por uma camada protetora denominada pleura. Líquido Pleural 5 Líquido Pleural 6 Artérias Arteríolas Capilares Arteriais Capilares Venosos VênulasVeias ENTREGA DE OXIGÊNIO E NUTRIENTES PARA AS CÉLULAS COLETA DE RESÍDUOS METABÓLICO DAS CÉLULAS Líquido Pleural 7 A saúde das células e dos tecidos depende da circulação do sangue, que libera oxigênio e nutrientes, removendo os resíduos gerados pelo metabolismo celular. Em condições normais, quando o sangue passa através dos leitos capilares, proteínas plasmáticas são retidas na vasculatura e há um movimento líquido de água e eletrólitos dentro dos tecidos. Esse equilíbrio quase sempre é perturbado por condições patológicas que: ● Alteram a função endotelial; ● Aumentam a pressão vascular; ● Diminuem o conteúdo de proteína no plasma. 8 Líquido Pleural 9 ↑ da Pressão Hidrostática (P.H.) ● Localizado: obstrução venosa. ● Generalizado: insuficiência cardíaca. ↓ da Pressão Oncótica (P.O.) ● Desnutrição, hepatopatias, nefropatias e enteropatias. ↑ da Permeabilidade Vascular ● Inflamações, toxemias e reações alérgicas agudas. Obstrução Linfática ● Neoplasias e Linfadenite. Retenção de Sódio ● Insuficiência Renal. Líquido Pleural 10 A pleura é composta por duas camadas, a visceral e a parietal, as quais deslizam uma sobre a outra e são separadas por uma fina película de líquido, em um espaço denominado cavidade pleural. Além de proteger, a pleura tem papel importante na respiração, pois ajuda os pulmões a deslizarem dentro da caixa torácica, à medida que se expandem e contraem durante a inspiração e expiração do ar. Líquido Pleural 11 O líquido entre as pleuras ou líquido pleural atua como um lubrificante facilitando a movimentação tecidual. Esse líquido é derivado do (ultra)filtrado plasmático, a partir de uma microcirculação pleural, sendo uma parte de líquido não reabsorvida pelo capilar e renovado continuamente por um balanço de forças entre as pressões intra e extravascular, e do espaço pleural. Apesar de ser considerado um líquido límpido e incolor, ele pode modificar sua composição e aumentar a quantidade na cavidade em razão da presença de processos patológicos. Líquido Pleural 12 Líquido Pleural A alteração da composição do líquido pode ocorrer em processos benignos inflamatórios ou infecciosos das pleuras (pleurites, pleurisia) ou neoplásicos. Além disso, é acompanhada pelo acúmulo de líquido, denominado derrame pleural, que pode ocorrer em patologias pleuropulmonares mas, principalmente, como causa secundária de patologias em outros órgãos ou sistemas, e pelo uso de medicamentos 13 Líquido Pleural Para o diagnóstico do derrame pleural os exames de imagem têm um papel importante, pois permitem a identificação do derrame de uma forma não invasiva. Entretanto, há casos em que a sintomatologia e os exames de imagem não são suficientes para o diagnóstico de uma doença de base que possa ser capaz de causar o derrame pleural (insuficiência cardíaca congestiva e neoplasias disseminadas que cursam com derrame pleural). Dessa forma, essa patologia deve ser estudada a partir da toracocentese, ou seja, pela coleta de uma amostra do líquido pleural. 14 Líquido Pleural Uma vez realizada a toracocentese, a primeira parte da análise do líquido pleural terá como objetivo realizar a sua caracterização em transudato ou exsudato. Tipo transudato — quando ocorre um desequilíbrio entre as pressões com aumento do ultrafiltrado de plasma pela membrana pleural, aumento da pressão hidrostática dos capilares pulmonares e diminuição da pressão osmótica. Tipo exsudato — quando ocorre uma lesão, inflamação das pleuras ou processo neoplásico. 15 Líquido Pleural Na análise bioquímica, os critérios utilizados para diferenciar entre transudatos e exsudatos foram descritos com maior enfoque nas características dos exsudatos, sendo dosadas a desidrogenase lática (DHL), presente em condições normais no líquido pleural, mas está aumentada em exsudatos principalmente de origem neoplásica, infecciosa, ou tromboembolismo pulmonar; e proteína total, presente em condições normais no líquido pleural, mas aumentada em exsudatos, por causa do dano nas membranas pleuras e aumento da permeabilidade. A relação DHL sérica/pleural deve ser menor ou igual a 0,5 em transudatos e maior do que 0,5 em exsudatos. Enquanto a relação proteína total sérica/pleural deve ser menor ou igual a 0,6 em transudatos e maior do que 0,6 em exsudatos. 16 O aspecto visual do líquido pleural, quanto à cor e a densidade, pode auxiliar a diferenciar transudatos (límpido, amarelo claro) e exsudatos (turvos ou purulentos — branco leitoso; hemorrágico — avermelhado) e, em conjunto com a avaliação clínica, já fornecer o diagnóstico. Nesse contexto, na observação macroscópica, o líquido com aspecto leitoso sugere o quilotórax (elevada quantidade de líquido linfático, aspecto gorduroso), mas, em alguns casos, pode ser empiema pulmonar, também conhecido como piotórax, elevada quantidade de pus, em razão de processo inflamatório. Líquido Pleural 17 Após distinção dos líquidos, se o paciente tiver derrame pleural exsudativo, para definição da causa, as seguintes análises são geralmente solicitadas: - Glicose e amilase; - Contagem celular diferencial; - Estudos microbiológicos; - Citologia oncótica. Líquido Pleural 18 Líquido Pleural Na avaliação da glicose, sua redução ( 1.000/μL e hemácias > 100.000/μL são indicadores de exsudato. O aumento do número de leucócitos altera o aspecto físico do líquido, tornando-o mais turvo e podendo ser indicativo de processos inflamatórios e infecciosos. Contagem diferencial — observa-se o aumento de neutrófilos, linfócitos e eosinófilos conforme a causa do derrame pleural. 20 Líquido Pleural Na citologia oncótica, parte importante na investigação de exsudatos ainda sem diagnóstico, é observada a celularidade do epitélio para verificar a presença de neoplasia. As células mesoteliais ou mesoteliócitos, são raras nas amostras normais e em derrames por tuberculose (- Bacteriológicas — por Staphylococcus aureus, Mycobacterium tuberculosis, Enterobactérias, Anaeróbios; - Fúngicas— Aspergillus spp. As metodologias utilizadas para diferenciação incluem coloração de Gram, pesquisa para bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR) e culturas microbiológicas. 22 Líquido Pleural Na coloração de Gram, o objetivo é a diferenciação de bactérias por características de coloração e forma. Além disso, podem ser observados os diferentes formatos que caracterizam grupos de bactérias, sendo mais comuns no trato respiratório inferior três formatos: - Cocos— Streptococcus pneumoniae; - Bacilos— Pseudomonas aeruginosa; - Cocobacilo— Haemophilus influenza. Cocobacilos 23 Líquido Pleural Na pesquisa de BAAR, dita também como baciloscopia direta, pela coloração de Ziehl Neelsen, os micoplasmas responsáveis pela tuberculose pulmonar não descoram a fucsina, mesmo após a lavagem com uma solução de álcool e ácido, permanecendo avermelhados. 24 Líquido Pleural Outras estruturas importantes do pulmão, além das pleuras, são os brônquios e os alvéolos pulmonares. O Lavado Broncoalveolar (LBA) é um procedimento que pode ser usado para coletar amostras de pequenas dimensões, como brônquios e alvéolos, que não podem ser vistos pelo exame de imagem das vias aéreas inferiores (broncoscopia), de forma mais invasiva. Depois de inserir o broncoscópio pela via aérea, o médico instila solução salina por meio do instrumento, preenchendo, assim, os espaços alveolares. O líquido LBA é, então, aspirado de volta para a broncoscópio, trazendo secreção, células, bactérias e outros elementos. 25 No lavado broncoalveolar são realizadas análises físicas, citológicas e microbiológicas, com aplicabilidade no diagnóstico de neoplasias pulmonares, infecções e manejo de doenças intersticiais. O aspecto do líquido é classificado da seguinte forma: - Normal— translúcido; - Opalescente— em infecções bacterianas intensas; - Turvo com halo de gordura — em casos de alveolite por pneumonia lipídica; - Flocoso/leitoso — em casos raros de proteinose alveolar pulmonar; - Hemorrágico — rosa ou marrom, sendo a coloração mais intensa nas últimas alíquotas, relacionado à hemorragia alveolar. Líquido Pleural 26 Líquido Pleural Para a citologia, alguns critérios devem ser seguidos para a determinação de adequabilidade diagnóstica de LBA. - A baixa celularidade ( 5% sugere material brônquico, não alveolar relacionado à qualidade da coleta do LBA). Líquido Pleural 28 Para a análise microbiológica, a suspeita inicial são infecções por S. pneumoniae, H. influenzae, S. aureus, C. neoformans, Aspergillus, Histoplasma sp., e Pneumocystis jirovecii. O principal teste bacteriano é a cultura de bactérias aeróbicas e deve ser interpretado pelo critério quantitativo, sendo o valor de mais de 103 unidades formadoras de colônia (UFC) por mL de líquido um indicativo de infecção. Podem ser realizadas colorações citológicas específicas, como coloração de Gram, BAAR, e outros métodos de cultura microbiológica para identificação de bactérias e fungos. Líquido Pleural 29 Líquido Pleural Ainda sobre a avaliação do trato respiratório inferior, outro material que pode ser analisado é o escarro, que provém da expectoração da secreção da árvore brônquica, obtida após esforço de tosse ou induzido pela nebulização, sendo uma opção não invasiva para análise pulmonar. Esse material é considerado de rotina no diagnóstico de tuberculose, de pneumonias e na detecção de infecções oportunistas em imunocomprometidos, pois modifica sua composição conforme cada processo patológico. 30 Líquido Pleural Para análise laboratorial, sugere-se realizar a coleta do escarro na primeira hora da manhã, de forma que não haja restos alimentares ou outras substâncias na cavidade oral que prejudiquem a qualidade do material, indicando ao paciente a higienização oral suave com escova umedecida em água, após retirar as próteses dentárias, caso as utilize. O frasco de coleta deve ser estéril e descartável e devidamente identificado. A amostra final deverá ser de 5 a 10 mL e apresentar aspecto mais viscoso do que líquido. 31 Líquido Pleural Ao examinar o escarro, o objetivo é confirmar tuberculose ou pneumonia, identificar o(s) agente(s) etiológico(s) das doenças e direcionar o diagnóstico, que nos casos bacterianos será a antibioticoterapia. 32 Líquido Sinovial 33 Líquido Sinovial O fluido sinovial, ou LS, é um líquido claro e viscoso presente nas articulações sinoviais. Ele funciona como um lubrificante biomecânico e como um meio para metabólitos e fatores de sinalização. O metabolismo das células articulares e o influxo das proteínas plasmáticas influenciam a sua composição. 34 Líquido Sinovial Para a coleta, uma agulha com o calibre adequado à articulação a ser puncionada é conectada a uma seringa. O local da injeção é higienizado e é feita uma punção em duas etapas, primeiro atravessando a pele e, a seguir, atravessando a cápsula articular. 35 Líquido Sinovial O volume do LS depende do tamanho da articulação e do acúmulo de líquido no local. Por exemplo, o volume normal na articulação do joelho de indivíduos adultos é inferior a 3,5 ml, mas pode chegar a 25 ml quando há inflamação Quanto à cor e à turbidez, o LS normal é incolor e límpido. Quando a cor for amarelada, porém o aspecto for límpido, é indicativo de derrames não inflamatórios, mas se estiver amarelado e turvo, pode indicar processo inflamatório. Se estiver esbranquiçado e turvo, pode conter cristais. A coloração avermelhada, castanha ou xantocrômica é associada à hemorragia articular. 36 Líquido Sinovial Também podem estar presentes alguns tipos de inclusões. Por exemplo, na artrite reumatoide, podem estar presentes “corpos de arroz”, que são gerados pela degeneração da membrana sinovial e são ricos em fibrina. A viscosidade do LS também pode ser avaliada. Por conter grandes concentrações de ácido hialurônico, o LS normal forma um fio de 5 cm de comprimento antes de se romper. Processos inflamatórios geram diminuição na viscosidade. 37 Líquido Sinovial A contagem total de células nucleadas deve ser realizada em até 1 hora após a artrocentese para evitar a degeneração celular. Ela normalmente é feita em câmaras de contagem celular. A contagem diferencial pode ser feita em lâminas preparadas. Os neutrófilos, em LS normal, correspondem a 20% dos leucócitos, mas podem exceder 50% na gota, na pseudogota e na artrite reumatoide; na artrite aguda bacteriana, comumente excedem os 75%. 38 Líquido Sinovial A pesquisa de cristais no LS é importante na avaliação causal da artrite. A formação de cristais nas articulações resulta em uma inflamação aguda e dolorosa, podendo se transformar em uma situação crônica. Os cristais se formam como consequência de desequilíbrios metabólicos e diminuição da excreção renal de agentes químicos formadores de cristais que se acumulam na circulação. 39 Líquido Sinovial Como o LS é um ultrafiltrado do plasma, os parâmetros bioquímicos são semelhantes aos valores plasmáticos. Por esse motivo, poucos testes têm relevância clínica. Entre os testes solicitados, está a dosagem de glicose, pois quando os valores estão muito baixos, isso é um indício de artrite inflamatória ou séptica. Quanto à dosagem de proteínas, a concentração normal é de 1 a 3 g/dl. 40Líquido Sinovial Os agentes infecciosos, como fungos, bactérias e vírus podem invadir a cápsula articular e causar inflamação. Eles podem ser provenientes da circulação sanguínea, podem penetrar por ferimentos profundos ou podem ser inseridos em procedimentos como artroscopias, injeções de corticosteroides ou cirurgias articulares. Por esse motivo, a coloração de Gram (bacterioscopia) e o cultivo (bacteriologia) estão entre os principais testes a serem realizados no LS. Meios enriquecidos – Ágar chocolate: Além de infecções comuns, como Staphylococcus e dos Streptococcus, é comum haver infecções por Haemophylus e N. gonorrhoeae.