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Essas transformações são bem detalhadas por Libâneo (2005, p. 52), que aponta as implicações específicas do capitalismo contemporâneo para o sistema educacional: a) Exigem um novo tipo de trabalhador, mais flexível e polivalente, o que resulta na valorização da educação que desenvolve novas habilidades cognitivas e competências sociais e pessoais; b) Levam o capitalismo a estabelecer finalidades para a escola mais alinhadas aos interesses de mercado; c) Modificam os objetivos e as prioridades da escola, reorientando o ensino para atender às demandas do mercado de trabalho; d) Produzem mudanças nos interesses, necessidades e valores da escola, refletindo a adaptação a novas exigências sociais e econômicas; e) Forçam a escola a alterar suas práticas devido ao avanço tecnológico nos meios de comunicação e à introdução da informática, que exigem novos métodos de ensino; f) Induzem alterações na atitude do professor e nas práticas docentes, dado que os meios de comunicação e os recursos tecnológicos têm um forte poder motivador e transformador para o processo de ensino-aprendizagem. É urgente repensar e reavaliar o papel da escola diante da reestruturação capitalista, pois, nesse cenário, a conjuntura econômica busca internacionalizar a economia, enquanto conjuntura política, representada pelo neoliberalismo, estabelece as bases internas de cada país para a preparação e consolidação dos interesses globais. O principal objetivo dessa nova realidade é preservar a hegemonia do capitalismo mundial, fortalecendo-o nas nações desenvolvidas e subjugando os países em desenvolvimento à sua lógica. Nesse processo, são implementadas políticas que criam condições para o desenvolvimento desse objetivo, viabilizado pelas reformas neoliberais e neoconservadoras. No campo educacional, essas reformas fizeram com que as nações desenvolvidas adaptassem seus sistemas de escolarização às exigências da produção e do mercado, enquanto os organismos multilaterais, como o FMI, o BIRD e outros, elaboraram uma política educacional voltada para os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, com o objetivo de alinhar suas estruturas educacionais às necessidades do mercado global1. 1 Sobre essa questão, foi publicado em 2002, o brilhante e original trabalho de pesquisa e de análise da professora Maria Abádia da Silva, intitulado Intervenção e Consentimento: a política educacional do Banco Mundial, que permanece atual, apresenta, com um extenso material Assim, as reformas fundamentadas no neoliberalismo, enquanto um conjunto de medidas político-sociais implementadas pelas instituições mencionadas, carregam um viés ideológico baseado na ideia do "mercado como princípio fundador, unificador e da sociedade global competitiva" (Libâneo, 2005, p. 56). Evidentemente, que as reformas para o Ensino Médio não estão dissociadas dessas premissas, refletindo as mesmas diretrizes e objetivos estabelecidos pelo neoliberalismo, que busca alinhar a educação às necessidades do mercado global e às exigências da competitividade. Dessa forma, no contexto específico do Brasil, as políticas educacionais, indissociáveis das reformas econômicas, visam a tão almejada reestruturação do país, adotando características de adaptação ao mundo globalizado. Elas se ajustam às demandas, exigências e imposições das instituições internacionais, refletindo a busca por uma inserção no cenário global e a adequação aos padrões exigidos pela dinâmica econômica e política mundial. Assim, nas políticas educacionais, evidencia-se o discurso da transformação educacional, da diversificação, da flexibilidade, da competitividade, da produtividade, da eficiência e da qualidade dos sistemas educacionais, da escola e do ensino, todos orientados pelas reformas neoliberais com o objetivo de atender às demandas do mercado (Libâneo, 2005). Nesse contexto, a educação em geral, e o ensino médio em particular, são progressivamente incorporados ao mercado, perdendo sua dimensão política e social. Contudo, para o neoliberalismo, a educação assume um papel estratégico e essencial, sendo voltada para a formação de indivíduos que atendam às exigências do mercado de trabalho. De acordo com Marrach (1996), o neoliberalismo estabelece três objetivos principais para a educação: primeiro, alinha a educação com a preparação para o trabalho, focando na qualificação de uma força de trabalho apta a competir no mercado global; segundo, transforma a escola em um meio de disseminação da ideologia dominante, adequando-a aos interesses do mercado e reforçando uma realidade simbólica; e, por fim, converte a escola em um espaço de consumo dos produtos da indústria cultural e tecnológica, utilizando subsídios estatais para a promoção de materiais didáticos, mesmo diante da retórica contra a intervenção estatal na educação. documental, a defesa da tese de que existe uma intervenção sistemática do Banco Mundial nas políticas públicas para a educação básica, com o consentimento do governo federal, de parte das administrações estaduais e municipais, além das elites dirigentes do país, frente às transformações do capitalismo mundial. O texto citado evidencia como a educação, ao perder sua dimensão político- social, facilita a propagação da ideologia neoliberal, que busca vincular a formação educacional às demandas do mercado de trabalho e transformar a educação em mercadoria. Até o momento, procurou-se analisar a relação entre globalização, neoliberalismo, educação e formação profissional, com ênfase no ensino médio, especialmente no modelo integrado, dentro desse contexto. O objetivo foi compreender o contexto social e econômico dessa inter-relação, além de explorar algumas especificidades ideológicas nas transformações globais e locais, destacando a subordinação da sociedade brasileira às orientações internacionais. A base filosófica: o materialismo histórico dialético e a construção do conhecendo escolar O método materialista dialético tem sido uma ferramenta fundamental na análise das práticas pedagógicas, nas quais se aplicam formas e conteúdos desenvolvidos nas salas de aula, assim como nas análises históricas, sociais, políticas, econômicas e culturais. Como um instrumento epistêmico, o materialismo dialético oferece uma leitura crítica da realidade, permitindo uma práxis orientada à transformação social. Nesse sentido, Netto (1991), enfatiza que, mesmo no contexto contemporâneo, a herança teórica mariana e seu método de pesquisa continuam sendo fundamentais para a compreensão da ordem social. No entanto, essa relevância não implica uma adesão acrítica, mas exige a revisão de aspectos que se tornaram anacrônicos e o estabelecimento de diálogos com outras correntes de pensamento. Dessa forma, qualquer abordagem teórica fundamentada nesses preceitos deve manter um compromisso com a realidade social, buscando desvelar os movimentos históricos e sociais, ao mesmo tempo em que estabelece interlocuções com diferentes campos do conhecimento. Além disso, essa perspectiva amplia as possibilidades de novas interpretações conceituais e aplicações do método materialista histórico-dialético. Assim, ao considerar a realidade sob a ótica do materialismo histórico- dialético, parte-se do pressuposto de que o mundo não apenas pode ser conhecido, mas também transformado pela ação humana. Como destaca Chauí (2000), no modo dialético de pensar, a realidade não é compreendida como um conjunto de qualidades metafísicas ou naturais eternamente determinadas, mas como um processo dinâmico e passível de mudança. O materialismo dialético, portanto, não apenas permite uma leitura crítica da realidade, mas também compreendeessa realidade como um processo dinâmico e contraditório. A realidade está em um constante processo de construção, sendo constituída por um processo histórico que resulta de múltiplas determinações - naturais, sociais e culturais — que emergem da totalidade de um movimento universal. Esse movimento constitutivo decorre de forças contraditórias atuantes no interior dessa realidade, pois todas as coisas são permeadas por um conflito interno, a luta dos contrários, que as obriga a mudar passando sempre por momentos de afirmação, negação e superação (Santos e Zuin, 2024). Como destacam Marx e Engels (2005), a história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes, e é por meio dessas contradições que ocorrem as transformações sociais. Assim, a realidade natural e social evolui por contradição e o conflito provoca as mudanças que ocorrem dialeticamente. O pensamento, nessa perspectiva, está intrinsicamente vinculado a prática social real dos indivíduos. No modo dialético de compreender o mundo, nem o sujeito e nem o objeto se impõe isoladamente, pois ambos são constituídos pelo processo histórico-social e por sua relação recíproca. Um depende do outro, e ambos dependem da realidade histórica (Santos e Zuin, 2024). Como Engels (2025) argumenta em Anti-Dühring, a estrutura econôm