Prévia do material em texto
ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS AULA 6 Profª Juliana dos Santos Lourenço 2 CONVERSA INICIAL Chegamos à última etapa. Percorremos uma trilha teórica com os conceitos da metapsicologia freudiana, avançamos e aprendemos novos conceitos com Lacan. Adentramos nas especificidades da clínica da neurose e da psicose, identificando o sofrimento que corresponde a cada estrutura. Agora, cabe a nós explorarmos a terceira estrutura clínica da psicanálise: a perversão. Diferentemente da concepção do senso comum, na psicanálise, a perversão é entendida como uma estrutura clínica, ou seja, mais uma forma particular de constituição subjetiva. Nosso objetivo nesta etapa é apresentar os mecanismos específicos dessa estrutura, destacando e diferenciando sua posição ao lado das neuroses e psicoses na clínica psicanalítica. TEMA 1 – A PERVERSÃO A perversão foi abordada por Freud em diversas perspectivas, a fim de contrapô-la à neurose e psicose. Contudo, ao estudar seus construtos teóricos e clínicos, deparamo-nos com referências confusas no que tange à sua especificidade, dando a ideia de que ela tenha ficado à margem das demais teorias. Porém, isso pode estar ligado ao fato de que a perversão, ao ser tomada como foco de estudo, produz um mal-estar, pois ela traz à tona afetos sobre os quais “nada queremos saber”. Portanto, para explorar a base conceitual da sua teoria, temos que estar dispostos a desafiar e superar nossas próprias resistências. Freud subverteu a noção do termo perversão ao trazê-la para o campo da normalidade. No texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), causou um verdadeiro escândalo na sociedade ao afirmar que toda criança é “polimorficamente perversa”, destacando a plasticidade pulsional da infância ao evidenciar a ausência de um objeto fixo para a libido. Nesse contexto, ele introduz pela primeira vez a ideia da sexualidade infantil, que se manifesta por meio das pulsões parciais ligadas às zonas erógenas pré-genitais, como a oral e anal. Posteriormente, Lacan amplia essa concepção ao incluir a pulsão escópica. Dessa forma, Freud aponta para uma predisposição original e universal da perversão na sexualidade humana, que só poderia ser superada em um 3 momento posterior no estágio genital, quando as pulsões parciais da infância se unificam em uma única pulsão direcionada a um objeto genital. Nesse sentido, Freud estabelece uma diferenciação determinante para o destino da neurose em ruptura com a perversão, afirmando: “A neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão” (Freud, 1905, p. 102). Isso significa que, para o sujeito se constituir neurótico, essa experiência infantil, em que a satisfação era alcançada de forma parcial no próprio corpo, é recalcada, de modo que o sujeito só volta a experimentá-la de forma inconsciente, pelas marcas pulsionais deixadas em seu psiquismo. Porém, na perversão, o recalque não prevalece, de modo que o sujeito não abre mão de sua satisfação. Na explicação de Joel Dor (1991) em seu livro Estruturas e clínica psicanalítica, ele destaca a economia pulsional, na qual os sintomas neuróticos resultam sempre desse recalcamento, cujo conteúdo são os componentes pulsionais da sexualidade, respondendo com os sintomas neuróticos: “[…] uma conversão de pulsões sexuais que deveriam ser chamadas perversas (no sentido amplo da palavra) se pudessem, sem se afastarem da consciência, encontrar uma expressão em atos imaginários ou reais” (Freud, citado por Joel Dor, 1991, p. 33). Freud, no texto Pulsões e suas vicissitudes (1915), identifica dois destinos pulsionais característicos do processo perverso: a “inversão em seu contrário”, que se refere a um processo pelo qual a “meta de uma pulsão se transforma em seu contrário, na passagem de atividade para a passividade” (Laplanche; Pontalis, 2022, p. 253), e o “retorno sobre a própria pessoa”, que envolve um certo egocentrismo através de um “processo pelo qual a pulsão substitui, pela própria pessoa, um objeto independente” (Laplanche; Pontalis, 2022, p. 464). A partir dessa compreensão, ele passa a direcionar suas investigações para a busca de um mecanismo metapsicológico inaugural da perversão, se aprofundando sobre sua constituição e funcionamento na dinâmica psíquica. Nesse contexto, Freud recoloca a questão do Complexo de Édipo para situar a atribuição fálica à mãe, que insere a diferença entre os sexos, gerando um enigma para a criança. Pois é a partir dessa elaboração que surge uma resposta à questão do sexo, momento em que o pênis deixa de ser percebido 4 como um atributo universal. Freud (1923) formaliza essa ideia no texto “A organização genital infantil”, em que afirma: No decurso dessa pesquisa, a criança chega à descoberta de que o pênis não é um bem comum a todos os seres que se lhe assemelham […]. Sabemos como elas reagem às primeiras impressões provocadas pela ausência de pênis. Negam esta ausência e creem ver, apesar de tudo, um membro: lançam um véu sobre a contradição entre observação e preconceito; achando que ele ainda está pequeno e que crescerá dentro em pouco, chegam lentamente a esta conclusão, de um grande alcance afetivo: antes, em todo caso, ele estava aí com certeza, tendo em seguida sido retirado. A ausência de pênis é concebida como o resultado de uma castração e a criança encontra-se agora no dever de enfrentar a relação de castração com sua própria pessoa. (Freud, 1923, p. 85-86) A criança, contudo, não renuncia de bom grado à ausência fálica da mãe, pois trata-se de algo que deveria estar lá, mas está como falta. Essa ausência coloca a criança diante de um confronto real com a diferença entre os sexos, um enigma que ela não tem interesse em acolher. Dor (1991) afirma que a realidade dessa diferença remete a uma consequência insuportável: a ameaça à sua própria identificação fálica, que, em última instância, implica na necessidade de uma renúncia ao gozo. É a partir dessa construção teórica que Freud estabelece os fundamentos da economia psíquica, estruturando as bases das formações clínicas. Nesse contexto, diante da ameaça de castração, o sujeito pode responder de diferentes maneiras: pode recalcá-la, dando origem aos sintomas neuróticos; ou pode reconhecê-la, mas apenas sob a condição de transgredi-la constantemente, sendo este o modelo que caracteriza a estrutura perversa. 1.1 Os processos defensivos da perversão Dor (1991), sobre a constituição da estrutura da perversão, distingue dois polos: por um lado, a angústia da castração; por outro, a mobilização de processos defensivos destinados a contorná-la. Portanto, diferente da psicose, que foraclui a lei, de modo que a angústia de castração não se inscreve, na perversão a lei surge com o significante do Nome do Pai, mas é uma lei fraca, que leva o sujeito a transgredi-la. Nos textos de Freud, podemos identificar dois processos defensivos a respeito da perversão: a fixação (regressão) e a denegação da realidade. Trata- se de uma defesa narcísica, na qual o sujeito não renuncia ao gozo infantil e 5 nega a realidade. Dessa forma, Freud compreende a homossexualidade como uma resposta defensiva de caráter narcísico diante da castração, na qual a criança fixa, de forma inconsciente, a representação de uma mulher provida de pênis ou, no lugar da castração, coloca o objeto fetiche, encobrindo a falta. Portanto, do ponto de vista clínico, o fetichismo se estrutura a partir da negação da realidade, funcionando como uma recusa em reconhecer a diferença entre os sexos, especificamente a ausência do pênis na mãe. O mecanismo de denegação da realidade ocorre em dois tempos: o sujeito percebe a realidade, ou seja, reconhece a falta fálica; mas, logo em seguida, ele a rejeita, buscando neutralizar a angústia da castração. Dessa maneira, o fetiche surge comouma solução psíquica que permite ao sujeito sustentar, simultaneamente, o reconhecimento e a negação da castração. Pois, ao encobrir a falta, ele não a exclui, apenas a nega. Pelas palavras de Freud: “O fetiche é o substituto do falo da mulher (da mãe) no qual acreditou a criancinha e ao qual nós sabemos por que ela não quer renunciar” (Freud, 1927, p. 95). Joel Dor (1991) analisa o objeto fetiche como uma forma de mediação da castração, identificando três funções principais: 1) O fetiche permite que o sujeito não renuncie ao falo, preservando essa representação; 2) O fetiche possibilita conjurar a angústia de castração, oferecendo uma proteção psíquica contra essa ameaça; 3) Por fim, o fetiche permite que o sujeito escolha uma mulher como objeto sexual, ao associá-la, de maneira simbólica, à posse do falo, o que resolve a tensão entre a falta e o desejo. TEMA 2 – A ESTRUTURA PERVERSA NA DIALÉTICA EDIPIANA O Complexo de Édipo, conforme desvelado por Freud, representa, de forma mítica, os processos de estruturação psíquica do sujeito. Nesse cenário, a criança, que inicialmente se identifica ao falo da mãe, ou seja, acredita ocupar um lugar central em seu desejo, passa a se interrogar com o surgimento do pai, como o terceiro elemento dessa dinâmica. Assim, o pai se insere como um rival, aquele que detém o desejo da mãe, revelando à criança que o amor materno não lhe é exclusivo. Esse confronto reorganiza as relações afetivas iniciais, 6 levando a criança a reconhecer a existência de um desejo materno que a transcende. A marca da rivalidade se inscreve no psiquismo como um estereótipo da estrutura perversa, levando o sujeito a se posicionar constantemente em uma relação de desafio ao outro. Essa atitude desafiante está associada ao gozo de transgressão. Segundo Dor (1991), o que ao mesmo tempo institui e desafia essa rivalidade fálica de caráter imaginário é o surgimento irreversível da diferença sexual. Para a criança, essa descoberta antecipa a existência de um novo universo de gozo, que se encontra representado na figura paterna e é percebido como interditado, reforçando a dinâmica conflituosa e a busca pelo desejo além dos limites impostos. Assim, “é efetivamente com o sinal desta incidência que o perverso lança a sorte de sua própria estrutura. Permanecendo cativa deste êxtase do desejo, a criança pode aí sempre encontrar um modo definitivo em relação à função fálica” (Dor, 1991, p. 40). Portanto, o perverso constrói sua posição subjetiva a partir da assunção da castração, mas sem jamais reconhecer a falta que o constitui. Ou seja, ele se aliena em uma falta que não pode ser simbolizada, permanecendo em uma dimensão psíquica inesgotável, em que opera a denegação ou renegação da castração materna. Dito de outra forma, a estrutura perversa se constitui a partir da castração que ele nega no campo simbólico. De modo que a falta introduzida pela imagem paterna impulsiona o perverso a mobilizar seu desejo, abrindo a possibilidade de uma nova dinâmica para a criança. Nessa perspectiva, a leitura de Lacan sobre a falta do Outro e a dialética do desejo na estrutura perversa deve ser compreendida a partir da identificação ao falo, eixo central na constituição do sujeito e na relação com a castração. 2.1 A dialética do desejo Lacan (1956/1957) introduz a ideia de que é em torno do significante da falta no Outro, S(Ⱥ), que a questão da perversão se impõe, como um ponto de báscula que se introduz no processo de estruturação do sujeito. Joel Dor (1991), seguindo a leitura lacaniana, localiza nesse ponto a posição singular do sujeito (o gozo). Ele destaca que é a sensibilidade da criança que determinará sua renúncia ao pai imaginário em favor do pai simbólico, um movimento essencial 7 para a constituição de sua estrutura psíquica, situando-a entre a neurose e a perversão. Na explicação de Joel Dor (1991), o pai aparece para a criança como aquele que possui aquilo que a mãe deseja ou alguém que supostamente tem o que supõe que a mãe deseje junto a ele. Declara: “Esta atribuição fálica do pai é justamente o que o institui como pai simbólico, ou seja, o pai enquanto representante da Lei para a criança, portanto o pai enquanto mediação estruturante do interdito do incesto” (Dor, 1991, p. 41). O perverso recusa reconhecer a falta imposta pela presença do pai simbólico, negando sua influência e rejeitando a simbolização da falta no Outro. Dessa forma, o sujeito opera uma denegação, mantendo-se alheio à castração. Em outras palavras, a criança se vê presa em uma convicção contraditória: por um lado, percebe que a mãe não tem o falo e que deseja o pai porque ele o possui ou porque ele é o falo; mas, por outro, questiona-se se a mãe poderia vir a tê-lo. Assim, para resolver essa tensão, o perverso atribui, de maneira imaginária, o falo à mãe, sustentando a ilusão de que a falta pode ser preenchida. Santos e Besset (2013) descrevem que o desejo da criança se constitui como um desejo encarnado pela mãe onipotente. Isso ocorre, por um lado, devido à sua sujeição àquela que lhe satisfaz todas as necessidades e, por outro, pelo capital de gozo que a mãe lhe proporciona para além dessas necessidades. Nesse contexto, na estrutura perversa, o sujeito se identifica ao falo, sustentando a imagem da mãe como um Outro onipotente, ou seja, alguém que não carece de nada e cuja falta é negada. Lacan (1958) diz assim: Todo o problema das perversões consiste em conceber como a criança, em relação com a mãe, relação esta constituída na análise, não por sua dependência vital, mas pela dependência de seu amor, isto é, pelo desejo de seu desejo, identifica-se com o objeto imaginário desse desejo. Na medida em que a própria mãe o simboliza no falo. (Lacan, 1958, p. 561) A identificação ao falo imaginário da mãe tem como objetivo restaurar o gozo perdido com a introdução do pai simbólico. Dessa forma, a estrutura perversa se organiza em torno de uma economia de gozo que mantém o sujeito rigidamente fixado na sua própria gestão do desejo, recusando-se a reconhecer qualquer outra lei além da sua própria. Nesse sentido, Dor (1991) enfatiza que é por meio dessa “lei do seu desejo” que podemos compreender os diversos 8 expedientes do funcionamento perverso, bem como seus traços estruturais fundamentais: o desafio e a transgressão. Essas duas dinâmicas representam as principais formas pelas quais o desejo perverso se manifesta, reafirmando constantemente sua recusa à castração. TEMA 3 – ENTRE A NEUROSE E PERVERSÃO Os traços estruturais que caracterizam a perversão podem ser observados tanto na neurose obsessiva quanto na histeria. Contudo, a transgressão não se articula ao desafio da mesma maneira. Para estabelecer um diagnóstico diferencial, é preciso que reconheçamos de maneira específica a relação que o sujeito estabelece com o Outro, resposta observável na relação transferencial. No perverso, a problemática da denegação se organiza de modo diferente. Enquanto, na histeria e na neurose obsessiva, é a posse imaginária do objeto fálico que é desafiada, nas perversões, é fundamentalmente a Lei do pai. O desafio da Lei do pai, no perverso, situa-se essencialmente na vertente da dialética do ser. No obsessivo, como no histérico, o desafio concernente à posse do objeto fálico se situa, em contrapartida, na alternativa do ter ou não ter. (Dor, 1991, p. 48) No que diz respeito ao diagnóstico diferencial, é fundamental considerar o caráter imperativo do desejo na estrutura perversa. O perverso impõe seu desejo como a única lei válida, recusando-se a reconhecer qualquer outra regulação simbólica. Em contraste, no neurótico, o desejo é estruturado a partir da lei do desejo do Outro, mediado pelo significante do Nome-do-Pai, que introduz a castração e a falta como elementos fundamentais da subjetivação. Já naperversão, a lei do pai não é assumida como um limite organizador, mas sim como um objeto de desafio constante. O perverso articula sua relação com a lei apenas para transgredi-la, negando a falta que ela simboliza e reafirmando sua própria lógica de gozo. Dor (1991) declara: Desafiando esta Lei, ele recusa, em definitivo, que a lei do seu desejo seja submetida à lei do desejo do outro. O perverso põe, então, em ação duas opções: de um lado, a predominância da lei do seu desejo como única lei possível do desejo; por outro lado, o desconhecimento da lei do desejo do outro como a que viria mediar o desejo de cada um. (Dor, 1991, p. 48) Dessa forma, o perverso não rejeita a lei do pai como na psicose, mas a estabelece como um limite apenas para ultrapassá-lo. O gozo perverso se 9 sustenta justamente nessa transgressão calculada, na qual a violação da norma se torna fonte de satisfação. No entanto, para que esse mecanismo funcione plenamente, o sujeito perverso necessita de um cúmplice ou de uma testemunha, seja real ou imaginária, que valide seu ato e registre seu enfrentamento diante da castração. É por meio desse olhar do outro que o perverso reafirma sua posição e sustenta sua economia de gozo. Nesse sentido, Dor (1991) evoca a passagem de Jean Clavreul: É claro que é enquanto portador de um olhar que o Outro será o parceiro, isto é, antes de tudo o cúmplice, do ato perverso. Tocamos, aqui, no que distingue radicalmente a prática perversa, na qual o olhar do outro é indispensável, porque necessário à cumplicidade sem a qual não existiria o campo da ilusão, e o fantasma perverso que não só se acomoda muito bem com a ausência do olhar do outro, mas necessita para ter êxito, se satisfazer na solidão do ato masturbatório. Se o ato perverso se distingue sem equívoco do fantasma, será, então, nesta linha em que se inscreve o olhar do Outro que discerniremos a fronteira, olhar cuja cumplicidade é necessária para o perverso, enquanto é denunciador para o normal e para o neurótico. (Clavreul, citado por Dor, 1991, p. 49) Assim, a convocação de um terceiro cúmplice torna-se essencial para sustentar a dinâmica do gozo perverso. Esse terceiro elemento funciona como um suporte à repetição metonímica da cena inaugural, remetendo à matriz original que deu origem e sustentação ao sujeito: a mãe. Nesse sentido, Dor (1991) destaca que o agir perverso só pode garantir seu “prêmio de gozo” por meio da presença desse cúmplice, cujo olhar e testemunho são indispensáveis. É através desse terceiro que o perverso reafirma sua posição desafiadora diante da lei, assegurando a continuidade de sua economia de gozo. TEMA 4 – A MÃE FÁLICA Agora, é possível compreender que o ponto fundamental que estrutura a perversão se encontra, indubitavelmente, na questão da identificação fálica. Esta se apoia na conjunção de dois fatores determinantes: a cumplicidade libidinal da mãe e a complacência silenciosa do pai. A cumplicidade materna manifesta-se no terreno da sedução, pois se trata de uma cumplicidade erótica, que se exprime sobretudo em suas respostas às demandas da criança. Segundo Dor (1991), “respostas que a criança inevitavelmente recebe como testemunhos de reconhecimento e 10 encorajamento”, ou seja, como um verdadeiro chamado ao gozo, na medida em que mantém a atividade libidinal da relação mãe-filho. Ao mesmo tempo em que ocorre a sedução materna, existe uma proibição em relação à mãe, colocando a criança em uma posição ambígua. Por um lado, encontra na mãe uma aliada para desafiar a autoridade do pai, o que facilita a transgressão da lei paterna. Por outro lado, o pai assume uma postura passiva e complacente, abrindo mão, de forma voluntária, do papel simbólico que deveria exercer na estrutura psíquica da criança. Nesse contexto, pode-se falar da “complacência silenciosa do pai”, que se refere à sua tendência de transferir a responsabilidade de sua própria autoridade para a mãe. Isso cria uma dinâmica ambígua, já que a palavra do pai é mediada pela mãe, gerando confusão sobre os limites da lei e da autoridade. Usando as palavras de Dor (1991, p. 52): “Se, nesse caso, podemos falar da complacência silenciosa do pai, é em referência à aptidão que ele demonstra em delegar sua própria palavra através da palavra da mãe, com toda a ambiguidade que a coisa supõe”. Portanto, o apelo sedutor da mãe constitui-se envolto em um grande equívoco: o desejo da mãe em relação ao pai. Pois, o pai surge como o terceiro elemento intruso, mas a mãe não confirma seu desejo de forma clara; dessa maneira, o apelo sedutor da mãe deixa uma ambiguidade que se registra em: “dar-se a ver” e “dar-se a entender”, manifestando-se no momento crucial do Complexo de Édipo. Portanto, conforme descreve Dor (1991), esse processo se transforma em um verdadeiro convite ao sofrimento para a criança, pois, embora a criança perceba uma incitação real ao gozo, já que não se trata apenas de uma fantasia, a mãe, na maioria das vezes, permanece em silêncio sobre seu desejo em relação ao pai, deixando a criança sem uma resposta clara e criando um impasse emocional. Assim, a criança acaba se alienando ao jogo de sedução da mãe, no qual a função simbólica do pai é relegada ao segundo plano. Esse processo tem consequências importantes do ponto de vista clínico: a figura da “mãe fálica” se estabelece de forma permanente na fantasia da criança, tornando-se a base que estrutura o seu desejo. Isso significa que o desejo da criança será, desde então, orientado por essa imagem idealizada e poderosa da figura materna. Como resultado, a imagem da mulher fálica estará presente em todas as formas de expressão do desejo, influenciando suas relações futuras com as 11 mulheres. Joel Dor destaca que, em alguns casos, essa busca pode se estender para além das mulheres, levando o sujeito a procurar, e até encontrar, essa figura idealizada em outros homens, apesar dos obstáculos que isso possa representar (Dor, 1991, p. 111). TEMA 5 – FETICHE O objeto fetiche é considerado o paradigma da perversão, pois cumpre a função de representar algo que está ausente. Ele funciona como um memorial simbólico, ocupando o lugar da falta. No entanto, ao tentar encobrir essa ausência, o fetiche acaba, paradoxalmente, destacando ainda mais a existência desse vazio, que resulta de uma operação simbólica fundamental na constituição do sujeito. Em O seminário 4: a relação de objeto (1956/1957), Lacan revisita o conhecido caso freudiano — o pequeno Hans, para ilustrar sua tese sobre a constituição do objeto fetiche. Lacan recorta a passagem em que Hans se depara com a calcinha de sua mãe. Ao analisar sua reação, ele aponta que esse objeto se constitui como o representante simbólico da falta — um elemento que, ao mesmo tempo em que tenta preencher o vazio, evidencia a sua presença. O essencial é o seguinte: as calças em si mesmas estão ligadas, para Hans, a uma reação de repulsa. Mais que isso, o pequeno Hans pediu que se escrevesse a Freud, dizendo que, quando viu as calças, ele havia cuspido, caído no chão e depois fechado os olhos. É por causa desta reação que a escolha está feita: o pequeno Hans jamais será um fetichista. Se ele houvesse reconhecido, ao contrário, essas calças como seu objeto […] ficaria satisfeito com elas e se teria tornado fetichista, mas como o destino quis outra coisa, o pequeno Hans fica repugnado pelas calças. Só que ele explica que, quando a mãe as usa, a coisa é outra. Aí elas não são mais repugnantes, em absoluto. Aí está toda a diferença. Ali onde elas poderiam se oferecer a ele como objeto, quando as calças estão ali em si mesmas, ele as rejeita. Elas só conservam sua virtude, se assim podemos dizer, estando em função, ali onde ele pode continuar a sustentar o engodo do falo. (Lacan, 1957, p. 359) Lacan estabelece uma relação direta entre a repulsa de Hanspela calcinha da mãe e a recusa inconsciente de tomá-la como um objeto fetiche. Esse sentimento de repugnância indica que Hans não assume a posição de um fetichista, já que, para o fetichista, o objeto tem um valor de substituição positivo, funcionando como uma forma de negação da falta. No caso de Hans, ao 12 contrário, o objeto provoca aversão, o que demonstra sua dificuldade em lidar com a ausência simbólica de forma fetichista. Segundo Lacan, a maneira encontrada por Hans para lidar com o desejo excessivo da mãe, que ele percebe como insaciável, não é pela constituição de um objeto fetiche, mas pelo desenvolvimento de uma fobia. Assim, a fobia funciona, nesse contexto, como uma solução psíquica provisória, criando uma barreira simbólica para protegê-lo da angústia gerada pelo desejo materno. O medo do cavalo, que se torna o foco da fobia de Hans, representa essa tentativa de afastamento do objeto ameaçador, deslocando a angústia da relação direta com a mãe para um objeto externo. De acordo com Lacan (1956/1957), tanto o objeto fóbico quanto o objeto fetiche são soluções imaginárias desenvolvidas para lidar com o horror da castração materna no contexto do complexo de Édipo. Embora sirvam a propósitos semelhantes, essas duas formações psíquicas operam de maneiras distintas. No caso da fobia, o que predomina é o “nada de saber” sobre a castração. Isso significa que o sujeito evita enfrentar diretamente essa realidade por meio do recalque, conforme descrito por Freud. O recalque impede o acesso do consciente à angústia da castração, mas, paradoxalmente, é justamente a eficácia do saber inconsciente que dá origem ao sintoma fóbico. O objeto fóbico, portanto, funciona como um substituto que desvia a angústia da castração para um objeto externo, permitindo que o sujeito lide com o medo de forma deslocada. Por outro lado, no fetichismo, a operação é diferente. A eficácia psíquica se manifesta através da criação de um objeto substitutivo — o fetiche, que tem a função de velar, ou seja, encobrir, a verdade da castração. O fetiche não nega a castração de forma direta, mas a “desmente” simbolicamente, oferecendo um suporte imaginário que permite ao sujeito sustentar o desejo sem enfrentar plenamente a falta. Nesse sentido, o objeto fetiche funciona como uma lembrança encobridora, cuja natureza pode assumir formas infinitamente variadas. No entanto, sua função central está, quase sempre, ligada ao deslocamento do olhar para longe da falta do pênis, ou seja, da castração. O fetiche atua como um desvio simbólico que permite ao sujeito lidar com a angústia da castração sem confrontá-la diretamente. 13 O objeto fetiche carrega, portanto, uma dupla função no inconsciente: por um lado, ele representa a recusa da castração, negando sua realidade de forma simbólica; por outro, ele afirma a presença da castração, justamente porque sua existência só faz sentido ao tentar encobrir essa falta. Esse paradoxo cria uma divisão interna no sujeito, conhecida como clivagem do eu, em que duas realidades psíquicas opostas coexistem: uma que reconhece a castração e outra que a nega. Lacan (1957) sintetiza essa ideia ao afirmar que o objeto fetiche não é o falo em si, “mas o véu por trás do qual se deixa desenhar a possibilidade de sua presença escondida”. Em outras palavras, o fetiche não substitui o falo diretamente, mas funciona como uma espécie de cortina simbólica que sugere, de forma ambígua, tanto sua ausência quanto a ilusão de sua presença. NA PRÁTICA Para demonstrar o modo como a estrutura perversa se presentifica na clínica, tomaremos um caso clínico apresentado por Paul Lemoine, no livro Clínica lacaniana: casos clínicos do campo freudiano (1994), intitulado “O homem da caneta Bic”. O caso em questão refere-se a um homem de 28 anos que buscou atendimento analítico com o objetivo de se livrar de um sintoma incômodo: ele não conseguia manter relações sexuais sem antes desenhar alguns traços no peito da parceira com uma caneta Bic. Ele chamava esses traços de “tatuagens”, embora não fossem desenhos elaborados, mas simples marcas aleatórias. Esse ritual era essencial para que ele conseguisse manter a ereção, que desaparecia assim que iniciava a penetração. Conforme declara Lemoine, essas “tatuagens” tinham o valor de um fetiche. O principal motivo que o levou a buscar ajuda foi o desconforto da esposa, que não aceitava bem essas práticas, demonstrando mal-estar e temendo que tal comportamento pudesse afetá-la emocionalmente. “Faz meia hora que decidimos nos separar”, disse o paciente logo na primeira consulta, acompanhado da esposa. Embora o casal ainda tenha permanecido junto por alguns anos, a separação acabou se concretizando mais tarde. A origem dessa necessidade compulsiva de “tatuar” parece estar enraizada em uma fala da mãe. Ela costumava dizer: “Se eu perdesse um de 14 meus filhos na multidão, eu o reconheceria pelo sinal no braço.” Essa afirmação referia-se aos irmãos do paciente, o mais velho e o caçula, ambos com sinais de nascença, enquanto ele próprio não possuía nenhum. O episódio ocorreu durante uma visita a uma feira, quando ele se perdeu entre os carrinhos elétricos de choque. Esse sentimento de “falta” de uma marca visível parece ter deixado uma impressão duradoura em seu inconsciente. O paciente relatou que, na primeira vez em que realizou uma “tatuagem”, estava sentado à escrivaninha, em frente a uma jovem colegial. Ele marcou o peito e a coxa dela, zonas mais erógenas que o braço, segundo ele, com um carimbo da fábrica do pai. Em seguida, foi ao pátio, subiu em uma árvore, imitando Tarzan, experimentando uma mistura de medo e desejo de ser visto pelos operários da fábrica. Depois disso, voltou para a sala e se masturbou. Essa prática o acompanhou ao longo da vida, assumindo diferentes formas. Já adulto, ele relatou ter carimbado o próprio corpo com um selo do escritório, que pertencia a um chefe que o intimidava, com a inscrição “Para classificar”. Após essa ação, foi ao banheiro e se masturbou. Com o tempo, além dos carimbos, ele passou a colorir o corpo com tintas a óleo e a fazer desenhos diversos. Um detalhe significativo de sua história envolve um dos operários da fábrica do pai, que tinha tatuagens adquiridas durante o serviço militar. O paciente mantinha com ele uma relação peculiar: eles costumavam urinar juntos no muro da fábrica, o que ele interpretava como uma forma de se sentir mais viril. Esse hábito deixou nele uma forte marca de erotismo uretral, que persistiu até a vida adulta. Em uma ocasião, já homem feito, ao perceber operários tatuados, ele foi urinar em um mictório próximo e depois retornou para observá- los com admiração. Entre suas recordações de infância mais marcantes está uma cena em que, permanecendo deitado até tarde, ouviu a empregada da casa, enquanto arrumava a cama do irmão caçula, dizer-lhe: “Se você borrar a cama, vou lambuzar você.” O irmão caçula, em tom provocativo, completou: “Eu vou pintar você com minhas tintas.” Essas memórias parecem ter contribuído para a associação inconsciente entre a marca no corpo e o afeto materno. Para o paciente, “tatuar-se” significava acender para ser amado. Ele mesmo expressou: “Aviltar-me no amor é submeter-me e tentar reviver… Sou 15 castrado e tenho tatuagens, o que me assimila às mulheres.” A “tatuagem” assumia, para ele, o mesmo papel fundamental de qualquer outro objeto no fetichismo, funcionando como uma defesa psíquica contra a angústia da castração. Essa necessidade era tão intensa que ele temia a própria cura: “Se elimino as tatuagens, tenho medo de não ter mais sexo.” Portanto, a partir da análise do caso e conforme aponta Lemoine, a prática da “tatuagem” funcionava como um verdadeiro ritual destinado a evitar o confronto direto com a angústia da castração.O fetiche, nesse contexto, não era apenas um objeto externo, mas um mecanismo psíquico profundamente enraizado na dinâmica familiar e nas primeiras experiências afetivas do paciente. FINALIZANDO A perversão, na psicanálise, é uma estrutura clínica caracterizada pela denegação, que opera entre o horror da castração no Outro e o uso de defesas para contornar essa falta. O ponto central da perversão gira em torno do significante da falta no Outro (S(Ⱥ)), sendo a relação da criança com o pai simbólico, em oposição ao pai imaginário, decisiva para sua constituição estrutural entre neurose e perversão. No diagnóstico diferencial, destaca-se o caráter imperativo do desejo perverso, que se impõe como a única lei reconhecida, ao contrário do neurótico, cujo desejo se funda na lei do Outro, marcada pelo Nome-do-Pai. Na perversão, a lei paterna é desafiada, simbolizando a falta. Por fim, o apelo sedutor da mãe, expresso tanto pelo “dar-se a ver” quanto pelo “dar-se a entender”, atua de forma ambígua no Édipo, sendo um convite ao gozo para a criança. No entanto, a mãe frequentemente silencia diante da questão do desejo atribuído ao pai, intensificando o impasse para o sujeito em formação. 16 REFERÊNCIAS DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus-Timbre, 1991. _____. Estruturas e perversão. Porto Alegre: Artmed, 1991. FREUD, S. Três ensaios sobre a sexualidade. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1995. v. 6. LACAN, J. O seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. LEMOINE, P. O homem da caneta Bic, In: Clínica lacaniana: casos clínicos do campo freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. SANTOS, A. B. dos R.; BESSET, V. L. A perversão, o desejo e o gozo: articulações possíveis. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 30, n. 3, p. 405- 413, nov. 2013. Disponível em: . Acesso em: 10 fev. 2025.