Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

ESTRUTURAS PSICANALÍTICAS 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Juliana dos Santos Lourenço 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Chegamos à última etapa. Percorremos uma trilha teórica com os 
conceitos da metapsicologia freudiana, avançamos e aprendemos novos 
conceitos com Lacan. Adentramos nas especificidades da clínica da neurose e 
da psicose, identificando o sofrimento que corresponde a cada estrutura. Agora, 
cabe a nós explorarmos a terceira estrutura clínica da psicanálise: a perversão. 
Diferentemente da concepção do senso comum, na psicanálise, a 
perversão é entendida como uma estrutura clínica, ou seja, mais uma forma 
particular de constituição subjetiva. Nosso objetivo nesta etapa é apresentar os 
mecanismos específicos dessa estrutura, destacando e diferenciando sua 
posição ao lado das neuroses e psicoses na clínica psicanalítica. 
TEMA 1 – A PERVERSÃO 
A perversão foi abordada por Freud em diversas perspectivas, a fim de 
contrapô-la à neurose e psicose. Contudo, ao estudar seus construtos teóricos 
e clínicos, deparamo-nos com referências confusas no que tange à sua 
especificidade, dando a ideia de que ela tenha ficado à margem das demais 
teorias. Porém, isso pode estar ligado ao fato de que a perversão, ao ser tomada 
como foco de estudo, produz um mal-estar, pois ela traz à tona afetos sobre os 
quais “nada queremos saber”. Portanto, para explorar a base conceitual da sua 
teoria, temos que estar dispostos a desafiar e superar nossas próprias 
resistências. 
Freud subverteu a noção do termo perversão ao trazê-la para o campo da 
normalidade. No texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905), 
causou um verdadeiro escândalo na sociedade ao afirmar que toda criança é 
“polimorficamente perversa”, destacando a plasticidade pulsional da infância ao 
evidenciar a ausência de um objeto fixo para a libido. Nesse contexto, ele 
introduz pela primeira vez a ideia da sexualidade infantil, que se manifesta por 
meio das pulsões parciais ligadas às zonas erógenas pré-genitais, como a oral 
e anal. Posteriormente, Lacan amplia essa concepção ao incluir a pulsão 
escópica. 
Dessa forma, Freud aponta para uma predisposição original e universal 
da perversão na sexualidade humana, que só poderia ser superada em um 
 
 
3 
momento posterior no estágio genital, quando as pulsões parciais da infância se 
unificam em uma única pulsão direcionada a um objeto genital. Nesse sentido, 
Freud estabelece uma diferenciação determinante para o destino da neurose em 
ruptura com a perversão, afirmando: “A neurose é, por assim dizer, o negativo 
da perversão” (Freud, 1905, p. 102). 
Isso significa que, para o sujeito se constituir neurótico, essa experiência 
infantil, em que a satisfação era alcançada de forma parcial no próprio corpo, é 
recalcada, de modo que o sujeito só volta a experimentá-la de forma 
inconsciente, pelas marcas pulsionais deixadas em seu psiquismo. Porém, na 
perversão, o recalque não prevalece, de modo que o sujeito não abre mão de 
sua satisfação. 
Na explicação de Joel Dor (1991) em seu livro Estruturas e clínica 
psicanalítica, ele destaca a economia pulsional, na qual os sintomas neuróticos 
resultam sempre desse recalcamento, cujo conteúdo são os componentes 
pulsionais da sexualidade, respondendo com os sintomas neuróticos: “[…] uma 
conversão de pulsões sexuais que deveriam ser chamadas perversas (no 
sentido amplo da palavra) se pudessem, sem se afastarem da consciência, 
encontrar uma expressão em atos imaginários ou reais” (Freud, citado por Joel 
Dor, 1991, p. 33). 
Freud, no texto Pulsões e suas vicissitudes (1915), identifica dois destinos 
pulsionais característicos do processo perverso: a “inversão em seu contrário”, 
que se refere a um processo pelo qual a “meta de uma pulsão se transforma em 
seu contrário, na passagem de atividade para a passividade” (Laplanche; 
Pontalis, 2022, p. 253), e o “retorno sobre a própria pessoa”, que envolve um 
certo egocentrismo através de um “processo pelo qual a pulsão substitui, pela 
própria pessoa, um objeto independente” (Laplanche; Pontalis, 2022, p. 464). A 
partir dessa compreensão, ele passa a direcionar suas investigações para a 
busca de um mecanismo metapsicológico inaugural da perversão, se 
aprofundando sobre sua constituição e funcionamento na dinâmica psíquica. 
Nesse contexto, Freud recoloca a questão do Complexo de Édipo para 
situar a atribuição fálica à mãe, que insere a diferença entre os sexos, gerando 
um enigma para a criança. Pois é a partir dessa elaboração que surge uma 
resposta à questão do sexo, momento em que o pênis deixa de ser percebido 
 
 
4 
como um atributo universal. Freud (1923) formaliza essa ideia no texto “A 
organização genital infantil”, em que afirma: 
No decurso dessa pesquisa, a criança chega à descoberta de que o 
pênis não é um bem comum a todos os seres que se lhe assemelham 
[…]. Sabemos como elas reagem às primeiras impressões provocadas 
pela ausência de pênis. Negam esta ausência e creem ver, apesar de 
tudo, um membro: lançam um véu sobre a contradição entre 
observação e preconceito; achando que ele ainda está pequeno e que 
crescerá dentro em pouco, chegam lentamente a esta conclusão, de 
um grande alcance afetivo: antes, em todo caso, ele estava aí com 
certeza, tendo em seguida sido retirado. A ausência de pênis é 
concebida como o resultado de uma castração e a criança encontra-se 
agora no dever de enfrentar a relação de castração com sua própria 
pessoa. (Freud, 1923, p. 85-86) 
A criança, contudo, não renuncia de bom grado à ausência fálica da mãe, 
pois trata-se de algo que deveria estar lá, mas está como falta. Essa ausência 
coloca a criança diante de um confronto real com a diferença entre os sexos, um 
enigma que ela não tem interesse em acolher. Dor (1991) afirma que a realidade 
dessa diferença remete a uma consequência insuportável: a ameaça à sua 
própria identificação fálica, que, em última instância, implica na necessidade de 
uma renúncia ao gozo. 
É a partir dessa construção teórica que Freud estabelece os fundamentos 
da economia psíquica, estruturando as bases das formações clínicas. Nesse 
contexto, diante da ameaça de castração, o sujeito pode responder de diferentes 
maneiras: pode recalcá-la, dando origem aos sintomas neuróticos; ou pode 
reconhecê-la, mas apenas sob a condição de transgredi-la constantemente, 
sendo este o modelo que caracteriza a estrutura perversa. 
1.1 Os processos defensivos da perversão 
Dor (1991), sobre a constituição da estrutura da perversão, distingue dois 
polos: por um lado, a angústia da castração; por outro, a mobilização de 
processos defensivos destinados a contorná-la. Portanto, diferente da psicose, 
que foraclui a lei, de modo que a angústia de castração não se inscreve, na 
perversão a lei surge com o significante do Nome do Pai, mas é uma lei fraca, 
que leva o sujeito a transgredi-la. 
Nos textos de Freud, podemos identificar dois processos defensivos a 
respeito da perversão: a fixação (regressão) e a denegação da realidade. Trata-
se de uma defesa narcísica, na qual o sujeito não renuncia ao gozo infantil e 
 
 
5 
nega a realidade. Dessa forma, Freud compreende a homossexualidade como 
uma resposta defensiva de caráter narcísico diante da castração, na qual a 
criança fixa, de forma inconsciente, a representação de uma mulher provida de 
pênis ou, no lugar da castração, coloca o objeto fetiche, encobrindo a falta. 
Portanto, do ponto de vista clínico, o fetichismo se estrutura a partir da negação 
da realidade, funcionando como uma recusa em reconhecer a diferença entre os 
sexos, especificamente a ausência do pênis na mãe. 
O mecanismo de denegação da realidade ocorre em dois tempos: o 
sujeito percebe a realidade, ou seja, reconhece a falta fálica; mas, logo em 
seguida, ele a rejeita, buscando neutralizar a angústia da castração. Dessa 
maneira, o fetiche surge comouma solução psíquica que permite ao sujeito 
sustentar, simultaneamente, o reconhecimento e a negação da castração. Pois, 
ao encobrir a falta, ele não a exclui, apenas a nega. Pelas palavras de Freud: “O 
fetiche é o substituto do falo da mulher (da mãe) no qual acreditou a criancinha 
e ao qual nós sabemos por que ela não quer renunciar” (Freud, 1927, p. 95). 
Joel Dor (1991) analisa o objeto fetiche como uma forma de mediação da 
castração, identificando três funções principais: 
1) O fetiche permite que o sujeito não renuncie ao falo, preservando essa 
representação; 
2) O fetiche possibilita conjurar a angústia de castração, oferecendo uma 
proteção psíquica contra essa ameaça; 
3) Por fim, o fetiche permite que o sujeito escolha uma mulher como objeto 
sexual, ao associá-la, de maneira simbólica, à posse do falo, o que resolve 
a tensão entre a falta e o desejo. 
TEMA 2 – A ESTRUTURA PERVERSA NA DIALÉTICA EDIPIANA 
O Complexo de Édipo, conforme desvelado por Freud, representa, de 
forma mítica, os processos de estruturação psíquica do sujeito. Nesse cenário, 
a criança, que inicialmente se identifica ao falo da mãe, ou seja, acredita ocupar 
um lugar central em seu desejo, passa a se interrogar com o surgimento do pai, 
como o terceiro elemento dessa dinâmica. Assim, o pai se insere como um rival, 
aquele que detém o desejo da mãe, revelando à criança que o amor materno 
não lhe é exclusivo. Esse confronto reorganiza as relações afetivas iniciais, 
 
 
6 
levando a criança a reconhecer a existência de um desejo materno que a 
transcende. 
A marca da rivalidade se inscreve no psiquismo como um estereótipo da 
estrutura perversa, levando o sujeito a se posicionar constantemente em uma 
relação de desafio ao outro. Essa atitude desafiante está associada ao gozo de 
transgressão. Segundo Dor (1991), o que ao mesmo tempo institui e desafia 
essa rivalidade fálica de caráter imaginário é o surgimento irreversível da 
diferença sexual. Para a criança, essa descoberta antecipa a existência de um 
novo universo de gozo, que se encontra representado na figura paterna e é 
percebido como interditado, reforçando a dinâmica conflituosa e a busca pelo 
desejo além dos limites impostos. Assim, “é efetivamente com o sinal desta 
incidência que o perverso lança a sorte de sua própria estrutura. Permanecendo 
cativa deste êxtase do desejo, a criança pode aí sempre encontrar um modo 
definitivo em relação à função fálica” (Dor, 1991, p. 40). 
Portanto, o perverso constrói sua posição subjetiva a partir da assunção 
da castração, mas sem jamais reconhecer a falta que o constitui. Ou seja, ele se 
aliena em uma falta que não pode ser simbolizada, permanecendo em uma 
dimensão psíquica inesgotável, em que opera a denegação ou renegação da 
castração materna. Dito de outra forma, a estrutura perversa se constitui a partir 
da castração que ele nega no campo simbólico. De modo que a falta introduzida 
pela imagem paterna impulsiona o perverso a mobilizar seu desejo, abrindo a 
possibilidade de uma nova dinâmica para a criança. Nessa perspectiva, a leitura 
de Lacan sobre a falta do Outro e a dialética do desejo na estrutura perversa 
deve ser compreendida a partir da identificação ao falo, eixo central na 
constituição do sujeito e na relação com a castração. 
2.1 A dialética do desejo 
Lacan (1956/1957) introduz a ideia de que é em torno do significante da 
falta no Outro, S(Ⱥ), que a questão da perversão se impõe, como um ponto de 
báscula que se introduz no processo de estruturação do sujeito. Joel Dor (1991), 
seguindo a leitura lacaniana, localiza nesse ponto a posição singular do sujeito 
(o gozo). Ele destaca que é a sensibilidade da criança que determinará sua 
renúncia ao pai imaginário em favor do pai simbólico, um movimento essencial 
 
 
7 
para a constituição de sua estrutura psíquica, situando-a entre a neurose e a 
perversão. 
Na explicação de Joel Dor (1991), o pai aparece para a criança como 
aquele que possui aquilo que a mãe deseja ou alguém que supostamente tem o 
que supõe que a mãe deseje junto a ele. Declara: “Esta atribuição fálica do pai 
é justamente o que o institui como pai simbólico, ou seja, o pai enquanto 
representante da Lei para a criança, portanto o pai enquanto mediação 
estruturante do interdito do incesto” (Dor, 1991, p. 41). 
O perverso recusa reconhecer a falta imposta pela presença do pai 
simbólico, negando sua influência e rejeitando a simbolização da falta no Outro. 
Dessa forma, o sujeito opera uma denegação, mantendo-se alheio à castração. 
Em outras palavras, a criança se vê presa em uma convicção contraditória: por 
um lado, percebe que a mãe não tem o falo e que deseja o pai porque ele o 
possui ou porque ele é o falo; mas, por outro, questiona-se se a mãe poderia vir 
a tê-lo. Assim, para resolver essa tensão, o perverso atribui, de maneira 
imaginária, o falo à mãe, sustentando a ilusão de que a falta pode ser 
preenchida. 
Santos e Besset (2013) descrevem que o desejo da criança se constitui 
como um desejo encarnado pela mãe onipotente. Isso ocorre, por um lado, 
devido à sua sujeição àquela que lhe satisfaz todas as necessidades e, por outro, 
pelo capital de gozo que a mãe lhe proporciona para além dessas necessidades. 
Nesse contexto, na estrutura perversa, o sujeito se identifica ao falo, sustentando 
a imagem da mãe como um Outro onipotente, ou seja, alguém que não carece 
de nada e cuja falta é negada. Lacan (1958) diz assim: 
Todo o problema das perversões consiste em conceber como a 
criança, em relação com a mãe, relação esta constituída na análise, 
não por sua dependência vital, mas pela dependência de seu amor, 
isto é, pelo desejo de seu desejo, identifica-se com o objeto imaginário 
desse desejo. Na medida em que a própria mãe o simboliza no falo. 
(Lacan, 1958, p. 561) 
A identificação ao falo imaginário da mãe tem como objetivo restaurar o 
gozo perdido com a introdução do pai simbólico. Dessa forma, a estrutura 
perversa se organiza em torno de uma economia de gozo que mantém o sujeito 
rigidamente fixado na sua própria gestão do desejo, recusando-se a reconhecer 
qualquer outra lei além da sua própria. Nesse sentido, Dor (1991) enfatiza que é 
por meio dessa “lei do seu desejo” que podemos compreender os diversos 
 
 
8 
expedientes do funcionamento perverso, bem como seus traços estruturais 
fundamentais: o desafio e a transgressão. Essas duas dinâmicas representam 
as principais formas pelas quais o desejo perverso se manifesta, reafirmando 
constantemente sua recusa à castração. 
TEMA 3 – ENTRE A NEUROSE E PERVERSÃO 
Os traços estruturais que caracterizam a perversão podem ser 
observados tanto na neurose obsessiva quanto na histeria. Contudo, a 
transgressão não se articula ao desafio da mesma maneira. Para estabelecer 
um diagnóstico diferencial, é preciso que reconheçamos de maneira específica 
a relação que o sujeito estabelece com o Outro, resposta observável na relação 
transferencial. 
No perverso, a problemática da denegação se organiza de modo 
diferente. Enquanto, na histeria e na neurose obsessiva, é a posse 
imaginária do objeto fálico que é desafiada, nas perversões, é 
fundamentalmente a Lei do pai. O desafio da Lei do pai, no perverso, 
situa-se essencialmente na vertente da dialética do ser. No obsessivo, 
como no histérico, o desafio concernente à posse do objeto fálico se 
situa, em contrapartida, na alternativa do ter ou não ter. (Dor, 1991, p. 
48) 
No que diz respeito ao diagnóstico diferencial, é fundamental considerar 
o caráter imperativo do desejo na estrutura perversa. O perverso impõe seu 
desejo como a única lei válida, recusando-se a reconhecer qualquer outra 
regulação simbólica. Em contraste, no neurótico, o desejo é estruturado a partir 
da lei do desejo do Outro, mediado pelo significante do Nome-do-Pai, que 
introduz a castração e a falta como elementos fundamentais da subjetivação. Já 
naperversão, a lei do pai não é assumida como um limite organizador, mas sim 
como um objeto de desafio constante. O perverso articula sua relação com a lei 
apenas para transgredi-la, negando a falta que ela simboliza e reafirmando sua 
própria lógica de gozo. Dor (1991) declara: 
Desafiando esta Lei, ele recusa, em definitivo, que a lei do seu desejo 
seja submetida à lei do desejo do outro. O perverso põe, então, em 
ação duas opções: de um lado, a predominância da lei do seu desejo 
como única lei possível do desejo; por outro lado, o desconhecimento 
da lei do desejo do outro como a que viria mediar o desejo de cada um. 
(Dor, 1991, p. 48) 
Dessa forma, o perverso não rejeita a lei do pai como na psicose, mas a 
estabelece como um limite apenas para ultrapassá-lo. O gozo perverso se 
 
 
9 
sustenta justamente nessa transgressão calculada, na qual a violação da norma 
se torna fonte de satisfação. No entanto, para que esse mecanismo funcione 
plenamente, o sujeito perverso necessita de um cúmplice ou de uma 
testemunha, seja real ou imaginária, que valide seu ato e registre seu 
enfrentamento diante da castração. É por meio desse olhar do outro que o 
perverso reafirma sua posição e sustenta sua economia de gozo. Nesse sentido, 
Dor (1991) evoca a passagem de Jean Clavreul: 
É claro que é enquanto portador de um olhar que o Outro será o 
parceiro, isto é, antes de tudo o cúmplice, do ato perverso. Tocamos, 
aqui, no que distingue radicalmente a prática perversa, na qual o olhar 
do outro é indispensável, porque necessário à cumplicidade sem a qual 
não existiria o campo da ilusão, e o fantasma perverso que não só se 
acomoda muito bem com a ausência do olhar do outro, mas necessita 
para ter êxito, se satisfazer na solidão do ato masturbatório. Se o ato 
perverso se distingue sem equívoco do fantasma, será, então, nesta 
linha em que se inscreve o olhar do Outro que discerniremos a 
fronteira, olhar cuja cumplicidade é necessária para o perverso, 
enquanto é denunciador para o normal e para o neurótico. (Clavreul, 
citado por Dor, 1991, p. 49) 
Assim, a convocação de um terceiro cúmplice torna-se essencial para 
sustentar a dinâmica do gozo perverso. Esse terceiro elemento funciona como 
um suporte à repetição metonímica da cena inaugural, remetendo à matriz 
original que deu origem e sustentação ao sujeito: a mãe. Nesse sentido, Dor 
(1991) destaca que o agir perverso só pode garantir seu “prêmio de gozo” por 
meio da presença desse cúmplice, cujo olhar e testemunho são indispensáveis. 
É através desse terceiro que o perverso reafirma sua posição desafiadora diante 
da lei, assegurando a continuidade de sua economia de gozo. 
TEMA 4 – A MÃE FÁLICA 
Agora, é possível compreender que o ponto fundamental que estrutura a 
perversão se encontra, indubitavelmente, na questão da identificação fálica. Esta 
se apoia na conjunção de dois fatores determinantes: a cumplicidade libidinal da 
mãe e a complacência silenciosa do pai. 
A cumplicidade materna manifesta-se no terreno da sedução, pois se trata 
de uma cumplicidade erótica, que se exprime sobretudo em suas respostas às 
demandas da criança. Segundo Dor (1991), “respostas que a criança 
inevitavelmente recebe como testemunhos de reconhecimento e 
 
 
10 
encorajamento”, ou seja, como um verdadeiro chamado ao gozo, na medida em 
que mantém a atividade libidinal da relação mãe-filho. 
Ao mesmo tempo em que ocorre a sedução materna, existe uma proibição 
em relação à mãe, colocando a criança em uma posição ambígua. Por um lado, 
encontra na mãe uma aliada para desafiar a autoridade do pai, o que facilita a 
transgressão da lei paterna. Por outro lado, o pai assume uma postura passiva 
e complacente, abrindo mão, de forma voluntária, do papel simbólico que deveria 
exercer na estrutura psíquica da criança. Nesse contexto, pode-se falar da 
“complacência silenciosa do pai”, que se refere à sua tendência de transferir a 
responsabilidade de sua própria autoridade para a mãe. Isso cria uma dinâmica 
ambígua, já que a palavra do pai é mediada pela mãe, gerando confusão sobre 
os limites da lei e da autoridade. Usando as palavras de Dor (1991, p. 52): “Se, 
nesse caso, podemos falar da complacência silenciosa do pai, é em referência 
à aptidão que ele demonstra em delegar sua própria palavra através da palavra 
da mãe, com toda a ambiguidade que a coisa supõe”. 
Portanto, o apelo sedutor da mãe constitui-se envolto em um grande 
equívoco: o desejo da mãe em relação ao pai. Pois, o pai surge como o terceiro 
elemento intruso, mas a mãe não confirma seu desejo de forma clara; dessa 
maneira, o apelo sedutor da mãe deixa uma ambiguidade que se registra em: 
“dar-se a ver” e “dar-se a entender”, manifestando-se no momento crucial do 
Complexo de Édipo. Portanto, conforme descreve Dor (1991), esse processo se 
transforma em um verdadeiro convite ao sofrimento para a criança, pois, embora 
a criança perceba uma incitação real ao gozo, já que não se trata apenas de uma 
fantasia, a mãe, na maioria das vezes, permanece em silêncio sobre seu desejo 
em relação ao pai, deixando a criança sem uma resposta clara e criando um 
impasse emocional. 
Assim, a criança acaba se alienando ao jogo de sedução da mãe, no qual 
a função simbólica do pai é relegada ao segundo plano. Esse processo tem 
consequências importantes do ponto de vista clínico: a figura da “mãe fálica” se 
estabelece de forma permanente na fantasia da criança, tornando-se a base que 
estrutura o seu desejo. Isso significa que o desejo da criança será, desde então, 
orientado por essa imagem idealizada e poderosa da figura materna. 
Como resultado, a imagem da mulher fálica estará presente em todas as 
formas de expressão do desejo, influenciando suas relações futuras com as 
 
 
11 
mulheres. Joel Dor destaca que, em alguns casos, essa busca pode se estender 
para além das mulheres, levando o sujeito a procurar, e até encontrar, essa 
figura idealizada em outros homens, apesar dos obstáculos que isso possa 
representar (Dor, 1991, p. 111). 
TEMA 5 – FETICHE 
O objeto fetiche é considerado o paradigma da perversão, pois cumpre a 
função de representar algo que está ausente. Ele funciona como um memorial 
simbólico, ocupando o lugar da falta. No entanto, ao tentar encobrir essa 
ausência, o fetiche acaba, paradoxalmente, destacando ainda mais a existência 
desse vazio, que resulta de uma operação simbólica fundamental na constituição 
do sujeito. 
Em O seminário 4: a relação de objeto (1956/1957), Lacan revisita o 
conhecido caso freudiano — o pequeno Hans, para ilustrar sua tese sobre a 
constituição do objeto fetiche. Lacan recorta a passagem em que Hans se depara 
com a calcinha de sua mãe. Ao analisar sua reação, ele aponta que esse objeto 
se constitui como o representante simbólico da falta — um elemento que, ao 
mesmo tempo em que tenta preencher o vazio, evidencia a sua presença. 
O essencial é o seguinte: as calças em si mesmas estão ligadas, para 
Hans, a uma reação de repulsa. Mais que isso, o pequeno Hans pediu 
que se escrevesse a Freud, dizendo que, quando viu as calças, ele 
havia cuspido, caído no chão e depois fechado os olhos. É por causa 
desta reação que a escolha está feita: o pequeno Hans jamais será um 
fetichista. Se ele houvesse reconhecido, ao contrário, essas calças 
como seu objeto […] ficaria satisfeito com elas e se teria tornado 
fetichista, mas como o destino quis outra coisa, o pequeno Hans fica 
repugnado pelas calças. Só que ele explica que, quando a mãe as usa, 
a coisa é outra. Aí elas não são mais repugnantes, em absoluto. Aí está 
toda a diferença. Ali onde elas poderiam se oferecer a ele como objeto, 
quando as calças estão ali em si mesmas, ele as rejeita. Elas só 
conservam sua virtude, se assim podemos dizer, estando em função, 
ali onde ele pode continuar a sustentar o engodo do falo. (Lacan, 1957, 
p. 359) 
Lacan estabelece uma relação direta entre a repulsa de Hanspela 
calcinha da mãe e a recusa inconsciente de tomá-la como um objeto fetiche. 
Esse sentimento de repugnância indica que Hans não assume a posição de um 
fetichista, já que, para o fetichista, o objeto tem um valor de substituição positivo, 
funcionando como uma forma de negação da falta. No caso de Hans, ao 
 
 
12 
contrário, o objeto provoca aversão, o que demonstra sua dificuldade em lidar 
com a ausência simbólica de forma fetichista. 
Segundo Lacan, a maneira encontrada por Hans para lidar com o desejo 
excessivo da mãe, que ele percebe como insaciável, não é pela constituição de 
um objeto fetiche, mas pelo desenvolvimento de uma fobia. Assim, a fobia 
funciona, nesse contexto, como uma solução psíquica provisória, criando uma 
barreira simbólica para protegê-lo da angústia gerada pelo desejo materno. O 
medo do cavalo, que se torna o foco da fobia de Hans, representa essa tentativa 
de afastamento do objeto ameaçador, deslocando a angústia da relação direta 
com a mãe para um objeto externo. 
De acordo com Lacan (1956/1957), tanto o objeto fóbico quanto o objeto 
fetiche são soluções imaginárias desenvolvidas para lidar com o horror da 
castração materna no contexto do complexo de Édipo. Embora sirvam a 
propósitos semelhantes, essas duas formações psíquicas operam de maneiras 
distintas. 
No caso da fobia, o que predomina é o “nada de saber” sobre a castração. 
Isso significa que o sujeito evita enfrentar diretamente essa realidade por meio 
do recalque, conforme descrito por Freud. O recalque impede o acesso do 
consciente à angústia da castração, mas, paradoxalmente, é justamente a 
eficácia do saber inconsciente que dá origem ao sintoma fóbico. O objeto fóbico, 
portanto, funciona como um substituto que desvia a angústia da castração para 
um objeto externo, permitindo que o sujeito lide com o medo de forma deslocada. 
Por outro lado, no fetichismo, a operação é diferente. A eficácia psíquica 
se manifesta através da criação de um objeto substitutivo — o fetiche, que tem 
a função de velar, ou seja, encobrir, a verdade da castração. O fetiche não nega 
a castração de forma direta, mas a “desmente” simbolicamente, oferecendo um 
suporte imaginário que permite ao sujeito sustentar o desejo sem enfrentar 
plenamente a falta. 
Nesse sentido, o objeto fetiche funciona como uma lembrança 
encobridora, cuja natureza pode assumir formas infinitamente variadas. No 
entanto, sua função central está, quase sempre, ligada ao deslocamento do olhar 
para longe da falta do pênis, ou seja, da castração. O fetiche atua como um 
desvio simbólico que permite ao sujeito lidar com a angústia da castração sem 
confrontá-la diretamente. 
 
 
13 
O objeto fetiche carrega, portanto, uma dupla função no inconsciente: por 
um lado, ele representa a recusa da castração, negando sua realidade de forma 
simbólica; por outro, ele afirma a presença da castração, justamente porque sua 
existência só faz sentido ao tentar encobrir essa falta. Esse paradoxo cria uma 
divisão interna no sujeito, conhecida como clivagem do eu, em que duas 
realidades psíquicas opostas coexistem: uma que reconhece a castração e outra 
que a nega. 
Lacan (1957) sintetiza essa ideia ao afirmar que o objeto fetiche não é o 
falo em si, “mas o véu por trás do qual se deixa desenhar a possibilidade de sua 
presença escondida”. Em outras palavras, o fetiche não substitui o falo 
diretamente, mas funciona como uma espécie de cortina simbólica que sugere, 
de forma ambígua, tanto sua ausência quanto a ilusão de sua presença. 
NA PRÁTICA 
Para demonstrar o modo como a estrutura perversa se presentifica na 
clínica, tomaremos um caso clínico apresentado por Paul Lemoine, no livro 
Clínica lacaniana: casos clínicos do campo freudiano (1994), intitulado “O 
homem da caneta Bic”. 
O caso em questão refere-se a um homem de 28 anos que buscou 
atendimento analítico com o objetivo de se livrar de um sintoma incômodo: ele 
não conseguia manter relações sexuais sem antes desenhar alguns traços no 
peito da parceira com uma caneta Bic. Ele chamava esses traços de “tatuagens”, 
embora não fossem desenhos elaborados, mas simples marcas aleatórias. Esse 
ritual era essencial para que ele conseguisse manter a ereção, que desaparecia 
assim que iniciava a penetração. Conforme declara Lemoine, essas “tatuagens” 
tinham o valor de um fetiche. 
O principal motivo que o levou a buscar ajuda foi o desconforto da esposa, 
que não aceitava bem essas práticas, demonstrando mal-estar e temendo que 
tal comportamento pudesse afetá-la emocionalmente. “Faz meia hora que 
decidimos nos separar”, disse o paciente logo na primeira consulta, 
acompanhado da esposa. Embora o casal ainda tenha permanecido junto por 
alguns anos, a separação acabou se concretizando mais tarde. 
A origem dessa necessidade compulsiva de “tatuar” parece estar 
enraizada em uma fala da mãe. Ela costumava dizer: “Se eu perdesse um de 
 
 
14 
meus filhos na multidão, eu o reconheceria pelo sinal no braço.” Essa afirmação 
referia-se aos irmãos do paciente, o mais velho e o caçula, ambos com sinais de 
nascença, enquanto ele próprio não possuía nenhum. O episódio ocorreu 
durante uma visita a uma feira, quando ele se perdeu entre os carrinhos elétricos 
de choque. Esse sentimento de “falta” de uma marca visível parece ter deixado 
uma impressão duradoura em seu inconsciente. 
O paciente relatou que, na primeira vez em que realizou uma “tatuagem”, 
estava sentado à escrivaninha, em frente a uma jovem colegial. Ele marcou o 
peito e a coxa dela, zonas mais erógenas que o braço, segundo ele, com um 
carimbo da fábrica do pai. Em seguida, foi ao pátio, subiu em uma árvore, 
imitando Tarzan, experimentando uma mistura de medo e desejo de ser visto 
pelos operários da fábrica. Depois disso, voltou para a sala e se masturbou. 
Essa prática o acompanhou ao longo da vida, assumindo diferentes 
formas. Já adulto, ele relatou ter carimbado o próprio corpo com um selo do 
escritório, que pertencia a um chefe que o intimidava, com a inscrição “Para 
classificar”. Após essa ação, foi ao banheiro e se masturbou. Com o tempo, além 
dos carimbos, ele passou a colorir o corpo com tintas a óleo e a fazer desenhos 
diversos. 
Um detalhe significativo de sua história envolve um dos operários da 
fábrica do pai, que tinha tatuagens adquiridas durante o serviço militar. O 
paciente mantinha com ele uma relação peculiar: eles costumavam urinar juntos 
no muro da fábrica, o que ele interpretava como uma forma de se sentir mais 
viril. Esse hábito deixou nele uma forte marca de erotismo uretral, que persistiu 
até a vida adulta. Em uma ocasião, já homem feito, ao perceber operários 
tatuados, ele foi urinar em um mictório próximo e depois retornou para observá-
los com admiração. 
Entre suas recordações de infância mais marcantes está uma cena em 
que, permanecendo deitado até tarde, ouviu a empregada da casa, enquanto 
arrumava a cama do irmão caçula, dizer-lhe: “Se você borrar a cama, vou 
lambuzar você.” O irmão caçula, em tom provocativo, completou: “Eu vou pintar 
você com minhas tintas.” Essas memórias parecem ter contribuído para a 
associação inconsciente entre a marca no corpo e o afeto materno. 
Para o paciente, “tatuar-se” significava acender para ser amado. Ele 
mesmo expressou: “Aviltar-me no amor é submeter-me e tentar reviver… Sou 
 
 
15 
castrado e tenho tatuagens, o que me assimila às mulheres.” A “tatuagem” 
assumia, para ele, o mesmo papel fundamental de qualquer outro objeto no 
fetichismo, funcionando como uma defesa psíquica contra a angústia da 
castração. Essa necessidade era tão intensa que ele temia a própria cura: “Se 
elimino as tatuagens, tenho medo de não ter mais sexo.” 
Portanto, a partir da análise do caso e conforme aponta Lemoine, a prática 
da “tatuagem” funcionava como um verdadeiro ritual destinado a evitar o 
confronto direto com a angústia da castração.O fetiche, nesse contexto, não era 
apenas um objeto externo, mas um mecanismo psíquico profundamente 
enraizado na dinâmica familiar e nas primeiras experiências afetivas do paciente. 
FINALIZANDO 
A perversão, na psicanálise, é uma estrutura clínica caracterizada pela 
denegação, que opera entre o horror da castração no Outro e o uso de defesas 
para contornar essa falta. O ponto central da perversão gira em torno do 
significante da falta no Outro (S(Ⱥ)), sendo a relação da criança com o pai 
simbólico, em oposição ao pai imaginário, decisiva para sua constituição 
estrutural entre neurose e perversão. 
No diagnóstico diferencial, destaca-se o caráter imperativo do desejo 
perverso, que se impõe como a única lei reconhecida, ao contrário do neurótico, 
cujo desejo se funda na lei do Outro, marcada pelo Nome-do-Pai. Na perversão, 
a lei paterna é desafiada, simbolizando a falta. 
Por fim, o apelo sedutor da mãe, expresso tanto pelo “dar-se a ver” quanto 
pelo “dar-se a entender”, atua de forma ambígua no Édipo, sendo um convite ao 
gozo para a criança. No entanto, a mãe frequentemente silencia diante da 
questão do desejo atribuído ao pai, intensificando o impasse para o sujeito em 
formação. 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus-Timbre, 
1991. 
_____. Estruturas e perversão. Porto Alegre: Artmed, 1991. 
FREUD, S. Três ensaios sobre a sexualidade. In: FREUD, S. Obras completas. 
Rio de Janeiro: Imago, 1995. v. 6. 
LACAN, J. O seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Zahar, 
1995. 
LEMOINE, P. O homem da caneta Bic, In: Clínica lacaniana: casos clínicos do 
campo freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. 
SANTOS, A. B. dos R.; BESSET, V. L. A perversão, o desejo e o gozo: 
articulações possíveis. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 30, n. 3, p. 405-
413, nov. 2013. Disponível em: 
. Acesso em: 10 fev. 2025.

Mais conteúdos dessa disciplina