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GARCIA E BRONZO_BasesEpistemológicas

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por um conjunto extenso de regras e normas, que tornou possível a emulação de uma crítica permanente do aparato teórico e o desenvolvimento impressionante do experimentalismo e do incrementalismo, enquanto critério de cientificidade (OLIVA, 1990; CARNEIRO, 1994).
	As idéias emblemáticas de T. KUHN (1989) representam um divisor de águas dentro desse quadro. Na verdade, o que Kuhn nos propõe é resgatar o contexto da descoberta para a análise dos processos científicos, trazendo à cena novas reflexões e um novo olhar sobre a ciência, expandindo a perspectiva tipicamente reducionista do empirismo lógico. Recupera, assim, a dimensão do valor e da subjetividade para formular as bases da sua crítica: “(...) O conhecimento científico é intrinsecamente um processo de grupo e nem a sua peculiar eficácia nem a maneira como se desenvolve se compreenderão sem referência à natureza especial dos grupos que o produzem” (KUHN, 1989:24).
	Fica claro que o autor destila uma crítica direta ao excessivo apego à justificação e à racionalidade exclusivamente lógica, distanciando assim a sua argumentação do pensamento convencional, por exemplo, de Popper, que acreditava no exame das teorias com critérios puramente objetivos e racionais. Kuhn, ao questionar essa premissa, amplia o debate e o conceito relativamente fechado de racionalidade, pelo menos daquele tipo de racionalidade reducionista própria ao contexto da justificação. A perspectiva de Kuhn, portanto, prevê a importância da pluralidade e da diversidade, ressaltando a validade dos estudos históricos e sociológicos para o avanço da prática científica. Com o passar do tempo, essa perspectiva mais “aglutinativa” haveria de favorecer a emergência de uma reflexão antropológica sobre a ciência. 
	Para VALLE (1996), é possível identificar a natureza da mudança do paradigma, reconhecendo os nexos entre a racionalidade técnica e a “racionalidade comunicativa” (no sentido habermasiano da expressão), que contribui para o questionamento do paradigma dominante e tradicional de uma filosofia da consciência. A Filosofia da Consciência representa um importante paradigma do pensamento moderno e está apoiada na lógica de que o conhecimento se faz a partir da análise de objetos por sujeitos, o que, em última instância, significa a aplicação do método empírico-analítico na análise dos fatos sociais. Trazendo tal princípio para nosso século, encontraríamos no taylorismo e no fordismo - enquanto modelos de organização da produção e do trabalho - a derivação prática dessa perspectiva, seja no estudo dos tempos e movimentos do trabalho operário industrial, seja na idealização da fábrica dos tempos alocados e das linhas de produção e montagem. No caso específico de Taylor, e a partir de uma compreensão particular dos processos industriais da indústria metal-mecânica de sua época, ele elege os engenheiros - administrando e estudando cientificamente o trabalho - como típicos sujeitos deste processo, o trabalho manual - por extensão - o objeto.
	Em uma derivação que não é em absoluto acidental, as teorias organizacionais também passam hoje por um momento de inflexão (REED, 1996), em que antigos quadros interpretativos, referências e conhecimentos são objeto de uma crítica contínua e de reavaliações permanentes. Supostamente, essa fase revolucionária dos estudos organizacionais, levada a cabo pelos teóricos críticos e pós-modernistas, em nada se confundiria com o movimento linear ou incremental que caracteriza as “fases normais” dos processos científicos, nos quais os programas de pesquisa e as atividades operam dentro de um quadro teórico bem institucionalizado e pouco fragmentado.
	Fragmentação e descontinuidade parecem caracterizar bem a natureza multidisciplinar típica da Administração, e não por uma questão filosófica, mas prática. Os estudos nesse campo estão sujeitos a contribuições metodológicas e conceituais de áreas diversas do conhecimento, bem como de contestações e críticas ampliadas, que evidenciam bem o caráter das “conversações” e das múltiplas interpretações que caracterizam os estudos administrativos e viabilizam a construção de uma crítica à Teoria Organizacional contemporânea.
	Partindo das argumentações iniciais de CLEGG et alli (1996), RODRIGUES (1997) discute o significado e as implicações das “conversações” para os estudos organizacionais. A intensificação desse fenômeno e o novo esteio de reflexões que essas conversações ensejam propiciam parâmetros outros para a constestação, refutação e negociação de antigas tradições intelectuais e correntes de pensamento na disciplina. 
	Proceder à compreensão e à crítica dos estudos organizacionais como espaço privilegiado para as “conversações” (admitindo o lugar para a diversidade e a pluralidade) significa aceitar as implicações longitudinais desse processo, em que antigas referências e quadros interpretativos podem ser aceitos ou contestados e refutados diante da emergência de uma nova corrente intelectual dominante. Em uma perspectiva longitudinal, portanto, a análise dos estudos organizacionais pode se dar em uma perspectiva histórica, dialética, favorecendo a concorrência entre diferentes perspectivas e matizes teóricas no sentido de organizar melhor e explicar de forma mais coerente os problemas objetivamente colocados à práxis administrativa. 
	Como já colocado anteriormente, o desenvolvimento das teorias organizacionais revela uma complexidade própria: ao longo do tempo e a partir de certas orientações epistemológicas, as teorizações formuladas no campo da Administração refletiram uma forma particular de observação dos fatos sociais na esfera da produção e do trabalho, carregada de valores e referências dominantes, com a subordinação da ciência aos movimentos mais amplos do capital e dos interesses dominantes. Isso não representa propriamente uma surpresa, sobretudo se nos conscientizamos de quais foram os benefícios práticos dos estudos organizacionais, neste século, para o desenvolvimento do controle gerencial e das estratégias para a manutenção das relações de poder nos circuitos internos de exploração da força de trabalho.
	Como exemplos claros para essa argumentação, não se pode negar que o interesse de muitos dos sociólogos funcionalistas pelas esquematizações weberianas formais estivesse relacionado à importância alcançada pelas organizações públicas e privadas nas sociedades modernas. E que Taylor, ao propor as bases da “Administração Científica”, estava efetivamente voltado para a busca de respostas práticas e objetivas para os problemas de produtividade e de controle nas ineficientes empresas industriais (sobretudo do ramo metal-mecânico) do início do século XX. Como esses, inúmeros outros exemplos poderiam ser elencados para evidenciar que, desde as primeiras formulações de Taylor para os problemas de sua época, transformações sucederam-se nas formas de racionalização sobre os problemas administrativos. Os estudos organizacionais se consolidaram em uma perspectiva que não foi, por assim dizer, “destruidora” em relação às contribuições passadas. Por que isso?
	A resposta não é simples, mas um bom caminho para alcançá-la está na reflexão de um ponto básico: na verdade, apesar das diferentes escolas de pensamento os estudos na Administração não se inclinaram devidamente ao questionamento e à proposição de alternativas pragmáticas para o problema das relações de poder e de dominação nos contextos organizacionais. Encontramo-nos hoje, porém, em uma situação caracteristica limítrofe, em que antigos valores formais e teóricos mostram-se limitados para responder os desafios recentes ensejados à prática administrativa, em um mundo essencialmente diferente das experiências do passado. Mas antes de avançar neste ponto, é mister que sejam discutidos os paradigmas e as vertentes epistemológicas afins ao campo da Teoria Organizacional. É isso que demonstraremos a seguir.
OS PARADIGMAS CLÁSSICOS E AS VERTENTES EPISTEMOLÓGICAS NA TEORIA ORGANIZACIONAL
	Do domínio das formulações teórico-práticas