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Aplicando a Terapia
Comportamental
Dialética
UM GUIA PRÁTICO
Kelly Koerner
• • Prefácio de- • •
Marsha M. Linehan
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO
NA PUBIICAÇÃO (CIP)
K78 Koerner- Kelly.
Api icando a terapia comportamcmal dialética: u m guia
orático I Kelly Kfxrncr ; tradução de Setúbal Martins e
Fabricio Dante. — Novo Hamburgo: Sinopsys Editora,
2020.
288 p.; il.
Tradução de: Doing Dialectical Behavior Therapy: a
ISBN 978-6S 5S71-006 9
1 Terapia corrponamcntal dialcticà. I. Título. 11.
Martins, Setúbal. Ill Dante, Fabricio.
CDU 616.89
Bibliotecária responsável: Vanessa Levari Biff — CRB 10/2454
Aplicando a Terapia
Comportamental
Dialética
UM GUIA PRÁTICO
Kelly Koerner
_V\L-
•> Sl NOPSYS
—* r— f d i l O r a
2020
Sioopsys Editora e Sistemas Eircli. 2020
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética: Um Guia Prático
[Doing Dialectical Behavior Therapy]
Kellv Koerner
Tradução: Setúbal Martins e Fabricio Dante
Revisão Técnica: Igor da Rosa Finger
Revisão e Editoração: Raziah Publishers
Capa: Rosane Guedes
Supervisão Editorial: Ricardo Gusmão
Copyright 2012 The Gmlford Press
A Division of Guilford Publications, Inc.
Published by arrangement with The Guildford Press
lodos os direitos reservados à
Sinupsys Editora
Fone: (51) 3066 3690
E mail: ateridimerito@sinopsyscdirora.com.br
<mailto:arendimenro@sinopsyseditDra.com.br>
Site: www.sinopsyscditora.com.br <hrrp://www sinopsyseditora.com.br>
Com amor, (h’dicath a Claire, Tom, SR e NR
APLICANDO A TERAPIA COM PORTAMENTAL DIALÉTICA:
UM GUIA PRÁTICO
Guiaü» para Tratamento Individualizado Baseado em Evidências
Jacqueline B. Persons. Editora da Série
Apresentando roteiros para a gestão de casos concretos, os volumes desta sé
rie aiudam o terapeuta clínico a desenvolver planos de tratamento pot meio
de intervenções cuja eficácia é comprovada. Com ênfase na fòrmulaçao de
caso sistemática, mas flexível, estes guias práticos apresentam alternatives
poderosas a abordagens padronizadas. Cada livro trata de um transtorno
específico ou traça estratégias de intervenção de ponta, aplicáveis a unia
série de problemas clínicos.
Terapia Cognitiva da Esquizofrenia
Daiid G. Kingdon f Douglas Turkington
Treating Bipolar Disorder A Clinician's Guide to
Interpersonal and Social Rhythm Therapy
Fllcn Frank
Modulai Cognitive-Behavioral Therapy for Childhood Anxiety Disorders
Bruce F ( horpita
Cognitive- Behavior al Therapy for PTSD: A Case Formulation Approach
Claudia Zayfert e Carolyn Black Becker
Cognitive-Behavioral Therapy for Adult Asperger Syndrome
Valtrie L Gaus
( cognitive-Behavioral 1 herapy for Anxiety Disorders:
Mastering Clinical Challenges
Gillian Butler, Melanie Fennell e Ann Hackmann
The Case Formulation Approach to Cognitive-Behavior Therapy7
Jacqueline B. Persons
A prática da terapia cognitivo-comportamenral
baleada em mindfulness e aceitação
Lizabrth Roemer e Susan M. Orsillo
Aplicando a Terapia Comportamcntal Dialética: Um Guia Prático
Killy Koerner
Apresentação
Qual é a meia da Terapia Comportamental Dialética (DB'l j? Tratar o
comportamento suicida c o sem intencionandade suicida pode ser a pri
meira resposta que vem a mente. 1 ratar o Transtorno da Personalidade Bor
derline, também. Náo estaria errado pensar isso, visto que boa parte da
pesquisa histórica na DBT se concentra nesses comportamentos e nessa
psicopatoiogia. Mas o objetivo da I )BT não è esse. Seria muito limitado
apenas ajudar pessoas a náo realizarem o suicídio. Até porque o contexto
de vida dessa^ p< <soas continuaria o mesmo, c isso podetia levar a um novo
comportamento suicida futuro. Na verdade, a DB 1 tem um objetivo maior
do que manter pessoas vivas. Um objetivo que mc cativou como terapeuta
e me motivou a cada vez rnâis buscar atuar com a I )BT: ajudar pessoas a
construírem vidas valiosas, vidas que se justifiquem viver.
Nu final de 2018, o supervisor editorial da Smopsys, R.cardo Gusmão,
entrou em contato comigo me questionando se eu tinha aiguma indicaçao
de livro para ser traduzido c editado pela editora. Foi aí que começou a
história da edição brasileira deste material qut você está lendo. A DBT está,
fclizmetne, crescendo cm interesse no Brasil, tanto por parte dos profissio
nais e estudantes da área de saúde mental, quanto dos clientes. Já temos em
nossa língua os manuais escritos por Marsha I inehan — enadora da DBI
—, tanto sobre a terapia como um todo quanto sobre o treinamento de
habilidades. Sem dúvida, o próximo passo deveria ser a edição deste livro,
escrito por Kelly Koerner.
I.inehan, ao escrever seus manuais, buscou ser o mais deralhista possí
vel, para que o máximo de pessoas interessadas em aplicar a DB I pudesse
ter ferramentas para tal. Kelly Koerner foi uma dessas pessoas. Muito pró
xima de Linehan, aprendeu, com maestria, a engenharia do equilíbrio n.u-
dança-aceiração-diaiética que a DBT exige para ttatat clientes que sofrem
de desregulação emocional. Na escrita dos seus manuais, Linehan buscou
explicar as bases conceituais e teóricas e as estratégias que sustentam a DBT,
e, devido à complexidade da obra, acabou não dedicando atenção para
8 Apresentação
cxemplificaçóes práticas da teoria e da terapia da DB I t is que Koerner
se dedicou à produção deste livro que agora está com vocc, que de forma
alguma substitui os manuais de Linehan mas os complementa com outra
nianeira de explicar, com outra linguagem c com mais aplicabilidade práti
ca. Cabe ressaltar que Koerner, com maestria, focou a explicação prática do
Estágio 1 da DBT, possivelmente um dos mais intensos, complexos e desa
fiadores para os profissionais. A leitura deste Livro é um alento técnico para
profissionais e um motivador para se aprofundar no estudo e na prática dos
demais estágios da DBT.
Aplicando a Terapia Comporiamental Dialética: Um Guia Prático é um
iivro de entrada para os interessados em atuar com essa abordagem psico-
rerapéutica e certamente influenciará a propagação da DB1 pelo Brasil,
cativando cada vez mais profissionais e estudantes de saúde mental para
que auxiliem pessftas com desregulacáo emocional genet alizada. Fica metr.
eterno agradecimento ao interesse da Editora Sinopsys em contribuir para
a formação de profissionais em DBT, editando este livro tm português c
muitos outros que ainda virão. Quanto a mim. sinto-me honrado por ter
sido o revisor técnico deste material e torço para que minha conttibuiçáo
incentive você a se aproximar da DB Ira auxiliar pCSsoas com intenso so
frimento a. efcrivaircntc. mudarem suas vidas. Boa leitura.'
Psic. Dr. Igor da Rosa Finger
Aplicando a Terapia Comporttmental ialética 9
Sobre a Autora
Kelly Koerner, Ph.D., é fundadora e diretora de criação do Instituto de
lerapia Bastada cm Evidencias, onde explora como a tecnologia pode ser
usada para aprender c colaborar com os profissionais para que obtenham
os melhores resultados clínicos. Ela é especialista cm clinica, supervisora
clinica c instrurora de leiapia Com porta men tal Dialética (DBT, da sigla
em inglês, Dmlettiatl Behavior Therapy), e treinada em muitos outros tra
tamentos baseados em evidências. Foi diretora dc treinamento da pesquisa
de Marsha M. Linehan, investigando a eficácia da DBT com indivíduos
suicidas c abusadores de drogas com transtorno da personalidade border
line. Foi também diretora de criação da Behavioral Tedh Reserach. para a
qual desenvolveu o aprendizado online c outros merodos viabilizados pela
tecnologia para disseminar práticas baseadas cm evidências; e cofündadora
c primeira CEO da Behavioral Tech, uma empresa que oferece treinamento
em DBT. A Dra. Koerner é membro da faculdade clínica da Universidade
de Washington c tern um pequeno consultório cm Seattle.
Aplicantio a Terapia Comportamenial iJialetica II
Nota da Editora da Série Original
Os leitores sc surpreenderão. Neste livro, Kelly Koerner detalha as habi
lidades necessárias ao terapeuta que trabalha com a Terapia Comportamen-tal Dialética (DBT) para tratar o complexo paciente com múltiplos proble
mas. A DBT foi desenvolvida por Marsha M. Linehan, da Universidade de
Washington, para o tratamento do comportamento suicida crônico, que,
posteriormente, estendeu-a aos pacientes que atendem a critérios que ca
racterizam o transtorno da personalidade borderline, e que estão expostos
a risco de vida e a comportamentos que ameaçam a qualidade de vida,
incluindo tendências suicidas, autnmurilaçao, comportamentos autodes-
trutivos impulsivos, relações interpessoais tumultuadas, desemprego, falta
de moradia e pobreza. Ensaios clínicos randomizados demonstraram que
a DBT, quando e fornecida cm um pacote abrangente que .nclui a terapia
individual, o grupo dt treinamento de habilidades e a consultoria cora o te
rapeuta, é urn tratamento eficaz para pacientes que têm cransrorno da per
sonalidade borderline; e recentes estudos controlados demonstraram que
a DB í também é eficaz no tratamento do abuso de substâncias químicas,
bulimia e compulsão alimentar.
Quando os pacientes apresentam comportamentos suicidas e de auto-
mutilação, emoções intensas, comportamentos .mpulsivos, incerteza sobre
seus objetivos e até mesmo sobre sua identidade, e circunstâncias de vida
urgentes — e quando tudo isso ocorre no contexto de estados emocionais
e comport,unentais intensos e instáveis —, os terapeutas precisam de urr.a
orientação especializada, exatamente 0 que a DBI e este livro oferecem.
Koerner descreve o arcabouço teórico que sustenta a DBT e ttaz ricos
detalhes clínicos, que mostram ao te rapeuta como usar a estrutura para saber
priorizar e intervir de forma efetiva quando o paciente tem múltiplos alvos de
alta prioridade, como quando o paciente em seu consuliorio tem fortes dese
jos de morrer naquele momento, está prestes a sc tornar evitarivõ ou começa
a dissociar na sessão quando vote intervém para tentar ajudá-lo. Essas sao
situações desafiadores por si só e despertam emoções ntensas, que dificultam
12 Nota da Eaitoi a da Série Original
a eficacia do trabalho do terapeuta. Para navegar com segurança quando há
ondas se quebrando e rochas escorregadias, ê preciso ter clareza no pensamem
to e habilidades sofisticadas, e o livro de Koerner lhe dará ambos.
A DB í : complexa; cm parte, porque é flexível e adaptável às necessida
des de cada paciente, cm cada momento. Koerner explica detalhadamente
o que é necessário para se Fazer uma formulação de CaSO na DB 1 c como
usá-la para guiar a intervenção.
Este livro é repleto de conhecimento prático. Eu o li duas vezes e. a cada
vez, aprendí coisas novas. Koerner descreve minuciosamente a estrutura
conceituai da DB i’ e uma grande quantidade de detalhes clínicos, e os co
necta com maestria, mostrando como a estrutura geral e a conceitualização
do caso, fundamentada nessa estrutura, deve orientar o comportamento do
terapeuta a cada momento, parricularmente nos mai.-> difíceis.
A riqueza deste uvro resulta, sem duvida, do faro de que a autora é rnul-
titalentosa. Koerner é autoridade máxima em DBT, treinada por Marsha
Linehan, e tem um profundo conhecimento da terapia. Também é uma
consultora habilidosa para os clínicos que usam a DBT e tem uma com
preensão cmpáiica dos dilemas que os terapeutas enfrentam ao usá Ia. Falo
das habilidades clínicas e interpessoais de Koerner com propriedade: ela c
minha consultora em DB 1 ha anos, e confio nela sempre que preciso dc
um aconselhamento para lidar com pacientes complexos c desafiadores.
Koerner escreve dc maneira eximia sobre a terapia, o que nem todos os
clínicos qualificados sáo capazes de fazer. Ela esmiuça a estrutura da DBT
de um modo que confere ao leitor utn guia cuidadoso para tomar decisões
clínicas forcemenre fundamentadas em seus princípios. Eambe;m é profes
sora e mstnitora akamente conceituada, com reputaçao internacional. Suas
habilidades clínicas, de consultora, escritora c professora são plenamente
perceptíveis aqui. O resultado é um livro que contribui de forma inegável
para os Guias para Tratamento Individualizado Baseado em Evidências.
Jacqueline B. Persons, Ph.D
Aplirsndx a Terapia Cumportarnental ialética 13
Prefácio
Kelly Koeroeí, minha ex-aluna, é uma colabot adora de longa dara. Fun
dou comigo uma empresa cuja missão é disponibilizar tratamentos baseados
em evidências a indivíduos com transtornos mentais graves. Inegavelmente,
é uma das melhores instrutoras clínicas, supervisoras e escritoras na Terapia
Comporramcntal Dialética (DBT). Conhcci Kelly no segundo ano de sua
pos-graduação quando se juntou ao meu estágio clínico, em 1989. Aquela
época, eu levava para os alunos de prática cópias rrãmcografáda.s do que
se tomaria meu manual de tratamento, Terapia ( ognitivo Comportarnenta!
para Transtorno da Personalidade Borderline. Kelly c os colegas da equipe de
consultoria podem ser considerados cocriadorcs do que, mais tarde, virou a
DBF, Eles logo se tornaram os terapeutas mais bem treinados e experientes
de nossa área de especialização. Nem mesmo hoje cm dia se encontra um
supervisor clinico que saiba mais do que Kelly e seus colegas sobre o trata
mento do comportamento suicida.
Nas duas últimas décadas, Kelly e eu trabalhamos juntas cm vários pro
jetos, incluindo coautoria, pesquisa de treinamento e terapia comunitária,
fazendo supervisão clinica, observando horas c horas de sessões dc terapia,
e definindo e redefinindo termos para medidas dc adesão, adaptando slides
para conseguir frases sucintas e precisas, que transmitissem a essência de
idéias complexas. Consequentemente, Kelly conhece a DBT como pou
cas pessoas e tem uma capacidade única de resumi-la e lhe dar vida com
exemplos clínicos. Além disso, confere sua criatividade e personalidade ao
tratamento, mostrando que a DBT c tudo, menos engessada, que segue um
protocolo à risca.
A meditação c o aikido, que Kelly piatica há tempos, agregam uma
compreensão profunda de como as práticas espirituais do zen e a oração
contemplativa influenciaram o desenvolvimento da DBT. Na verdade,
quando a vi fazer o exame para tirar a faixa preta, cm 1993, percebí que,
como praticante de aikido, ela cultivava a mesma compaixão profunda que
incentivei nela quando fui sua supervisora clínica dc DBT; ou seja, a ca-
14 Prefácio
pat idade de enfrentar situações árduas, ate mesmo ameaçadoras, com uma
postura protetora. Kelly tem uma sensibilidade inerente para equilibrar, de
forma dialética, a aceitação c a mudança, o que se destaca em sua escrita.
h com grande alegria e entusiasmo que recomendo o livro de Kelly para
você. Este livro é um guia essencial para qualquer terapeuta aprender sobre
a DBT e saber como usá-la.
Marsha M Linehan, Pb D.
Aolicandu a Terapia Comportamental Dialética 15
Prefácio da Auctira
Este livro mostra por quê, quando e como usar os princípios e estraté
gias da Tcrapi i Comportamental Dialética (DBT) na psicoterapia individual.
Considerando que o livro de í inehan sobre o tema (1993a) c uni manual de
tratamento, este aqui é um guia para o usuário, repleto dc CãsOS clínicos e
descrições passo a passo para facilitar sua compreensão dc como usar a DBT
com seus clientes. O Capirjlo 1 explica como os indivíduos desenvolvem a
destegulação emocional generalizada, e como isso leva a problemas que des-
troem sua qualidade dc vida e minam seus esforços para conseguir mudanças
corn a terapia. O capítulo apresenta um panorama completo de como as
estruturas dc tratamento da DBT abordam esse problema crucial, que é a
destegulação emocional.
No Capítulo 2, descrevo como aplicar essa compreensão geral da des-
regulaçáo emocional às etapas fundamentais da formulação de caso e ao
planejamento do tratamento para cada cliente. Depois, passo para os três
conjuntos de estratégias nucleares de rraramento que a DBT utiliza para
atingir as metas terapêuticas dos clienres: estratégias de mudança compor-
tamcntal. esttarégias dc validação e estratégias dialéticas. Elas são apresentadas no Capitulo 1 e detalhadas nos Capítulos 3. 4 e 5, respecrivamcn-
te. Como a dtsregulaçáo emocional generalizada leva a comportamentos
e crises dependentes do humor, o tetapeuta de DBF precisa adaptar as
estratégias dc mudança comportamental (isto é, os procedimentos cognicí-
vo-comportamentais de treinamento de habilidades, retapia de exposição,
manejo de contingência e modificação cognitiva). Lssas modificações são
descritas inregralrnente no Capuulo 3.
Como os clientes com dcsregulaçào emocional generalizada entendem
as intervenções orientadas para a mudança como mvalidantes, a DBT en
fatiza o uso ativo, discipí.nado c preciso de estratégias de validação. Essas
estratégias foram mais bem desenvolvidas por Linehan (1997) após a publi
cação dc seu livro original; essas atualizações, bem como os massivos exem
pios clínicos que mostram como e o que validar (ou náo), são abordados no
16 Prefácio da Autora
Capítulo 4. No Capítulo 5, descrevo a postura dialética e as estratégias que
ajudam o terapeuta a accrar compleramentc 0 cliente e o momento como
são, ao mesmo tempo em que age. com urgência, cm prol da mudança. Esse
terceiro c ultimo conjunto dc estratégias nucleares envolve a capacidade de
resistir à simplificação excessiva e superar o pensamento dicotômico, paia
encontrar combinações genuinamente viáveis entre mudança comporta-
mcntal e validação, razão e c-moçao, e aceitação c mudança.
O Capítulo 6 traz os três conjuntos de estratégias juntos c ilustra como
sào usados no contexto da Formulação de caso e da hierarquia dc metas do
tratamento. Por fim, o Capítulo 7 enfatiza a important n Crucial e o funcio
namento da equ.pe dc consultoria entre pares da DB 1 — uma comunidade
de terapeuta^ que truta uma comunidade de clientes e também aplica a DBT
a eles mesmos. Trabalhar cm equipe consolida as habilidades dos terapeutas e
lhes oferece o apoio emocional necessário para enfrentar os desafios inerentes
aos momentos em que os clientes se deparam com um tremendo sofrimento
e dor emocional. Todos os exemplos clínicos deste livro sáo fictícios e foram
compostos a punir dc muitos diálogos entre clientes e terapeutas, para fins
didáticas.
Este livro tem dais objetivos. Primeiro, passei muitos anos ensinando e
aconselhando terapeutas, à medida que aprendiam a usar a DBT. A maioria
deles aprendeu mais rapidamente quando complementamos o manual de
tratamento com exemplos clínicos que mostram, dc forma acessível, como
os princípios e estratégias da DBT se aplicam a cams específicos. Este li
vro faz exatamente isso — traz diversos exemplas clínicos, que ilustram
os principais momentos da DBT de uma maneira que, espero, ajude-o a
implementá-la mais facilmente com seus clientes.
Segundo, mesmo que nunca chegue a usar todo o amplo arsenal da
DBT espero mostrar como seus princípios são uma boa base para seu tra
balho com clientes que têm problemas complexos, graves c crônicos. A sopa
de letrinhas. cada vez maior, de protocolos e manuais dc tratamento pode
sufocar. Os princípios e estratégias da DBT formam uma estrutura heurís
tica altamcnte flexível, que simplifica situações clínicas complexas em uma
série de abordagens sistemáticas e abertas para pensar e agir. Como Roger
Aplicando a Terapia Comp'irtamental Dialética 17
Martin (2009» diz: “A beleza da heurística é que nos guia para urna solução
por meio da exploração organizada das possibilidades.’ (p. 12.) Seja qual
for sua orientação, espero lhe mostrar como a estrutura da DBT o ajuda a
organizar sistematicamente elementos do tratamento cm um plano abran
gente • individualizado.
Por firn, a motivaçao pessoal para escrever este livro foi transmitir um
pouco do que, generosamente, recebo. Tive a incrível sorte de trabalhar
dc perto, por muitos anos, com a desenvolvedora do tratamento da DBT,
Marsha M. I inehan, bern como com terapeutas incrivelmente talentosos e
criativos, que foram os primeiros adeptos da abordagem. O trabalho cole
tivo dessa comunidade de clínicos e a honra desmedida de trabalhar com
meus clientes são recompensadores e me inspiram â dai meu melhor. Que
a nossa dedicação lhe proporcione grandes benefícios.
Agradec: m en Los
Mmios professores, colegas e entes quendos apoiaram a escrita destv
livro. John Gluck, Howard Delaney e, particularmcnte, o laboratório de
Michael Dougher e seu divertido e pesado curso de Behavionsmo Radi
cal, foram mentores de um pensamento teórico abrangente e rigoroso. A
produtividade intelectual irrefreável de Neil Jacobson criou inúmeras opor
tunidades para o desenvolvimento e a avaliação dr- tratamento, e para os
estudos sobre ele. Os estudos expiessivos sobre psicopatologia desenvol-
vimental. dc Mark Greenberg; a supervisão clinica firme de Mavis Tsai e
Robert Kohlenberg, c as centenas de horas codificando a adesao; e as pos
sibilidades dc diferentes psicoterapias definiram a manha visão de como os
terapeutas ajudam os clientes a mudar.
Ç,edar Koons, Meggan Moorhead, Clive Robbins e Charley Hurfinc
incentivaram me quando comecei a estudar para me tornar consultora clí
nica. Mais importante, comecei a fazer estágio clínico com Marsha M. Li
nehan. cm Terapia Comportamenial Dialética (DBT), em 1989. Aqueles
foram dias empolgantes. Marsha levava rascunhos recém-mimcografados
de seus manuais de tratamento e recrutou, sem dó nem piedade, os clientes
mais suicidas que encontrou. Nosso traquejo e parcel.a cresceram de tal
maneira, que, quando Marsha ‘irava férias, era difícil encontrar superviso
res que sabiam ir.ais do que nós a respeito de ajudar pessoas akamente sui
cidas Os anos de supervisão clínica semanal, escrita colaborativa e ensino
que Marsha generosamente nos dera resultaram na formação da Behavioral
Tech, que fundamos cm (997, e, agora- finalmenrc, concretizaram-se nes
te livro. A coragem, a dedicação e a abnegação de Marsha mostraram-me
como uma carreira dedicada à ciência e à compaixão c um cam.nho espiri
tual tão disciplinado quanto qualquer tradição monástica.
Em 1988. comecei a estudar aikido- uma arte marcial que treina seus
praticantes para enfrentar conflitos e violência com um espírito protetor.
O aikido ampliou profundamente minha compreensão da DBT. Sou espe-
cialmcnre grata pelas aulas piáticas com sensei Raso Hultgren e sensei Torn
20 Agradecimentos
Read Sensei. Suas posturas contagiantes e honestas nu mostraram o que
significa ser um estudante dedicado.
Agradeço a Jacqueline Persons c a Kitty Moore pela oportunidade de
contribuir com os Guias para Tratamento Individualizado Baseado em Evi
dências. e a Barbara Watkins pelas edições do manuscrito. Muito obrigada
aos colegas que comentaram meus rascunhos, pnncipalmcnte Jacqueline
Persons, Niklas Tocrneke, Carla Walton e Scott Temple, c também a Mi
chael Maslar e Elizabeth Simpson, que ajudaram a desenvolver dois dos
casos clínicos. O ensino e a escrita de alto calibre de Charlie Swenson me
inspiraram, e sua orientação encorajou-me a enfrentar os desafios que tive
na carreira. O trabalho dc Les Greenberg influenciou, de forma ampla,
meu pensamento sobre a importância da empatia e a visão que tenho do
terapeuta como um treinador das emoçoes. iMuito obrigada a Robert Bur-
kiewicz por seu apoio ç ao meu grupo de escrrta — Benjamin Schoendorff,
Gareth Holman, Mavis Isai c Stig Hclwcg-Jorgensen —, que me apoiou
até eu concluir a versão final do manuscrito.
Dedico todo meu amor e gratidão a Cindy Smith, psiquiatra e poeta.
Sem seu encorajamento e seu trabalho de edição, este livro náo exisriria.
Agradeço pro fundamente a minha gigante família dc colegas e clientes,
five a honra desmedida de presenciar e trabalhar com pessoas que enfren
taram com mtegridade uma vulnerabilidade e dor emocional insuportá
veis. De maneiras que mal consigo definir, rccebi muito mais do que dei.
Conviver com essas pessoas com querr. tenho tanta afinidade, a quem tanto
admiro, c uma dádiva impagável.
Obrigada, por fim, a Claire e Tom Winter, por seuamor e apoio ao
longo dos muitos anos em que este livro ocupou nossas vidas.
Aplicando a Terapia Comportamcntdl Dialética 21
Sumário
I Ferramentas para Circunstâncias Difíceis ...................................... 23
O Problema Nuclear da Desregulação Emociona! Generalizada...... 2~
Como a DBT Trata a Desregulaçâo Emocional Generalizada. ..... . 38
2 Desenvolvendo a Ibrmnlacao dc Caso c o Plana dc 1 ratamento 61
Etapa 1: Faça Avaliações U>ando Estágios e Alvos de Tratamento..... 64
Etapa 2: Procure Padrues de Variáveis
de Controle para ( '.ada Alvo Primário....................................... 72
Etapa 3: Use a Análise de Parefas para Gerar
Planos de Minitratamento para os Principais Elos ( omuns.............. 90
Uma Conversa de Pre- Iratamentu: Manny................................... 97
3 Estratégias de Mudança........................................................................... 1 l 5
Orientação e Micro Orientação.................................................... 117
Estratégias Didáticas................................................................... 120
Estratégia^ de Comprometimento ................................................. 121
Auromonitoramento: O Cartão-Diárioda DBi .... ................... 125
Análise em Cadeia Contportamental e Estratégias de Insight............. 129
Análise de Soluções................................................................ 130
Exemplo dt Caso: 3 liihael...................................................................... 133
Quatro Proi edt memos de Mudança da TCC Usados na DBT.......... 145
4 Pr.ncípios e Estratégias dc Avaliação .................................. 159
Entendendo o Papel da Invalidação na DcsreguLição Emocional..... 160
Os Efeitos da Validação Cuidadosa e Precisa........................................ 165
O que Validar............................................................................. 16
Como Validar............................................................................. 171
Como Usar a Validação para Fortalecer a Regulaçao Emocional...... 176
Exemplo de Caso: Lara............................................................................ 186
5 Postura e Estratégias Dialéticas......................................................... 19"'
Postura Dialética ........................................................................ 198
22 Sumário
Equilibrando as Estratégias Dialettcamente......................................... 207
Exemplo de Casa: Yvette........................................................................... 219
6 Avalie, Motive e Avance ....................................................................... 229
Avalie- Saiba Onde Estamos......................................................... 2.31
Motive....................................................................................... 235
Caminhe em Direção às Metas do Cliente..................................... 2.36
Exemplo de Caso: Karrie.......................................................................... 240
7 O Terapeuta Individual e o Grupe le Cor^ultona ................. 253
Objetivo e Formato das Equipes de Consultoria da DBT.................. 254
Como a Fquipe de Consultoria da DB! Irata o Terapeuta............... 260
Como os Terapeutas Aplicam a DBTem Si Mexmoi.......................... 272
Referências ........................................................................................... 279
índice ............................................................................................................ 285
Ferramentas para
Circunstâncias Difíceis
Se você chegou a eete Ifvro, é provável que as estatísticas sombrias so
bre as falhas dos tratamentos nao o surpreendam. Como terapeutas, todos
Icnibramo-nos de casos ein que, apesar da nossa forre dedicação, as formas
típicas dc trabalhar falharam com os nossos clientes. Quando os dientes
chegam ate nós propensos à desregulação emocional, com múltiplos pro
blemas graves e crônicos, e com ura historico de fracassos terapêuticos,
sabemos que as probabilidades estão contra nós.
“Não importa o que eu faça, nada muda.
Marte tem em torno dc 20 anos. Chega agitada ã terceira sessão de
terapia individual e diz ao terapeuta que seu trabalho “;a era . Ela
vai sei demitida, e isso significa que será despejada quando parar
de pagar o aluguel. Quando o terapeuta pergunta o que aconteceu,
Marie, com raiva, sacode o corpo, chutando a mesa de café. Não
fica claro se ela queria chutar a mesa ou se foi acidental, mas fica
vermelha da cabeça aos pés, emudece c se rceolhe na cadeira. Fia
comeca a bater a cabeça contra o braço da cadeira, o que ins iabiliza
qualquer tipo dc ajuda que o terapeuta renha oferecido cm relação
à crise no trabalho; e a maneira como age na terapia cria uma situa
ção que a táz sentir vergonha. Quando o terapeuta consegue lazer
com que pare de bater a cabeça, Marie diz calmamvnte: "Só preciso
acabar com isso.” Dado seu histórico de tentativas de suicídio quase
letais, o terapeuta precisa avaliar o risco iminente para essa cliente
sobrecarregada, que não fala muito t está prestes a ficar sem casa.
24 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
Se você conhecesse Mark em uma festa, presumiría que ele traba
lha cm uma empresa bem-sucedida de aka tecnologia. Você nun
ca imaginaria que ele mal sobrevive com os bicos que faz como
programador Je software. Sua vida foi-se limitando por causa da
ansiedade e dos breves episódios maníacos seguidos por imersões
cm autoaversão. Durante meses, ele se descroi com maconha álcool
e ansiohticos. Dorme 18 horas por dia, saindo de casa apenas para
comer. Após 15 anos dc tratamento com muitos terapeutas, ele não
tem certeza se deve culpá-los ou a s« mesmo por sua vida continuar
sendo miserável.
Para clientes corno Marie e Mark, a vulnerabilidade desmesurada às
emoções e à intensa dot emocional destroem uma vida dc qualidade. A in
felicidade implacável torna os pensamentos de suicídio ou dc autolesão não
suicida uma das poucas fontes de alívio. Os fracassos reiterados dos trata
mentos fazem com que a própria terapia evoque uma desesperança intensa.
As decisões que tomamos em tais circunstâncias a respeito do tratamen
to são extremarnente complicadas. Quando nos concenrramos em como o
clicntc precisa mudar, ele entra em pânico, porque esses esforços falharam
no passado. A ideia de que a tnudança é possível também desencadeia raiva
ou vergonha: você, o terapeuta, não tem a menor ideia dc como mudar
é verdadeiramente impossível, ou então acredita, como os outros, que o
problema c a baixa motivação do cliente ou um ripo de falha cm sua per
sonalidade. Quando, em resposta, abandonamos essa orientação para mu
dança e. em vez disso, concentramo nos em aceitar suas vulnerabibdadcs e
limitações, o pânico também é desencadeado, em particular, o desespero dc
que as coisas nunca mudem.
Desesperado, seu cliente pode rejeitar a ajuda oferecida c exigir uma
ajuda que você não pode dar. Tentativas e ameaças de suicídio, e a raiva
dirigida a nós são estressantes. Nossas próprias emoçóes, confusões ou de
ficits dc habilidades compucam âitidã mais as coisas, levando-nos a esperar
mudanças que estão além da capacidade do cliente e a nao lhe oferecer
acolhimento, flexibilidade ou desenvoltura suficientes quando necessário.
O esforço contínuo para atingir o equilíbrio — aceitar a vulnerabilidade do
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 2b
cliente e, au mesmo tempo, insistir na mudança — é desgastante. Pudcria,
facilmente, ter sido nós, como terapeutas, dizendo: “Não cons.go lidar com
isso. Náo 'mporta o que eu taça, nada muda.'
A larapia Comportamental Dialética, ou DBT (Linehan, 1993a), evo
luiu para ajudar terapeutas e clientes que estão exatamente nessas circuns
tâncias; e um numero cada vez maior dc ensaios clínicos randomizados
confirma sua eficácia (veja a revisão de Lynch, Irost, Salsman, & Linehan,
2UÜ6). Quando os clientes tem problemas complexos,graves e crônicos, já
foram tentados inúmeros tratamentos e o sofrimento faz o suicídio parecer
a única opção, a DB I ajuda os terapeutas a encontrarem a ordem em meio
ao caos. Como um pacote abrangente dc tratamento ambulatorial, a DBT
organiza o ambiente do tratamento em terapia individual semanal, treina
mento semanal dc habilidades em grupo consultoria por telefone e uma
equipe de consultoria entre pares de terapeutas dc DB E Nesse ambiente,
a DBT consiste em uma hierarquia de prioridades dc tratamentos, e de
estratégias nucleares para abordá-la. Esses recursos são diretrizes sistemá
ticas para a tomada de decisão clínica, que a udam os terapeutas a tratar
comportamentos que ameaçam a vida e interferem na terapia, bem como
as próprias reações emocionais. Este livro mostra como a DB (' é conduzida
a partir da perspectiva do terapeuta individual, ilustrando por quê, quando
c como usar as fenamenras de DB i para conseguir fazer progresso corn a
terapia.
Da mesma forma que os protocolos e procedimentos cm uma sala de
emergência possibilitam que se aja de forma coordenada, a DBT abran
gente é essencial para clientes com crises suicidas, como Mane. Em casos
como o de Mark, talvez você não precise do modelo compicto, embora as
teorias básicas, a hierarquia dc prioridades e as estratégias de rraramento da
DR I’ continuem relevantes. Por esse motivo, organizei este livro de forma
que auxilie os clínicos em ambas as situações. Você pode adotar apenas os
elementos da DBT que sejam tireis e aplicáveis a seus clientes, e, ao mesmo
tempo, compreender a estrutura terapêutica completa da DR 1 como um
pacote para estruturar o ambiente dc tratamento e sua tomada de decisão
clínica quando for necessário.
26 Ferramentas para Circunstâncias üitíeeis
Este livro reconhece que a ciência em que a DBT se insere está em cons
tante evolução: novos dados de pesquisa sobre o desenvolvimento e a ava
liação da DBF, bem como as psicopatologias e os distúrbios que cia trata,
devem ser constantcmenic integrados. a fim dc oferecer aos nosíOS pacien
tes o melhor atendimento clínico possível. Linehan (1993a) desenvolveu
a DBT iniciaimente como um tratamento para o comportamento suicida
crônico c, posteriormenre, para o transtorno da personalidade borderline
(TPB). No entanto, o próprio diagnóstico de TPB passou por uma extensa
revisão, um processo que, provavelmente, continuará. A medida que os
dados surgirem alguns elementos da DBT serão alterados, assim como os
tipos de clientes para os quais ela é indicada.
Ate hoje, ensaios clínicos randomizados publicados, conduzidos por di
ferentes equipes de pesquisa, confirmam a eficácia da DBT para uma ampla
gama de transtornos comportamentais, indumdo tentativas de suicídio e
comportamentos autolesivos (Koons et al., 2001; Linehan, Xmstrong, Sua
rez, Allmou, Òí Heard, 1991; Linehan Heard, & Armstrong, 1993; Lineh.in,
C omtois, Murray et al., 20(16; van den Bosch Koeter, Stijnen, Verheul, 0>C
van den Brink. 2005; Veriieul et al., 2003), abuso de Substâncias químicas
(Linehan et al., 1999, 2002), bulimia (Safer, Telch, & Agras, 2001), compul-
são alimentar (Telch. Agras, & Linehan, 200 i) c depressão etn idosos (Lynch,
Morse. Mendelson, & Robins, 2003; I vneh et al., 2007). Isso mostra que a
DBT não é indicada apenas para tratar o comportamento suicida cronico e o
TPB. O conjunto dc princípios c protocolos da DBT dc forma mais ampla, c
útil para organizar estratégias cognitivo comportamentais e outras estratégias
análogas para tratar transtornos caracterizados pela des regulação emocional
generalizada, fim objetivo importante deste livro, portanto, é facilitar o uso
flexível do pacote abrangente da DBT ou de seus componentes para manter-
-se atualizado com as descobertas mais recentes das pesquisas.
O primeiro passo para usar a DBT de Forma flexível é entender o pro
blema nuclear dc clientes como Marie c Mark: a desregulaçáo emocional
generalizada. A teoria biossocial de I inehan, descrita a seguir no capítulo,
explica como esse problema nuclear leva a problemas secundários bastan
te diversos e difíceis. Os componentes do tratamento da DBI partem da
compreensão da desregulaçáo emocional generalizada c seu impacto. Esses
Aplicando a Terapia Cumportamental Dialética 27
componentes são descritos na segunda metade do capítulo. O principal é a
classificação dos problemas dos clientes conforme a ameaça que representam
a uma qualidade de vida razoável. Essa hierarquia de metas e alvos dc trata
mento orienta a fotmulaçao de caso (abordada cm detalhes no Capítulo 2)
e a tomada de decisão clínica durante a sessão. O terapeuta a usa para prio
rizar tarefas. Há três conjuntos de estratégias nucleares de tratamento para
fazer com que o cliente atinja as rnetas terapêuticas.
Esses conjuntos principais — estratégias de mudança comportamcntal,
estratégias de validaçao e estratégias dialéticas — são apresentados neste
capítulo e descritos em detalhes nos Capítulos 3, 4 e 5, respectivamente.
O C apítulo 6 reune os três conjuntos exemplificando como são usados no
contexto da formulação de caso e na hierarquia de alvos de tratamento. Por
fim, o Capítulo 7 enfatiza a importância e o funcionamento cruciais da
equipe dc consultoria entre pares da DBT — um requisito da DBT abran
gente. Essa equipe consiste dc uma comunidade dc terapeutas que atende
a uma comunidade de pacientes e também aplica a DBT a cies mesmos. A
equipe fortalece as habilidades dos terapeutas e fornece o apoio emocional
necessário para enfrentar os desafios que Surgem quando os clientes en
frentam um tremendo sofrimento e dor emocional. O entendimento da
DR I começa com a compreensão desse problema nuclear — a desregula-
çao emocional generalizada.
O PROBLEMA NUCLEAR DA DESREGULAÇÁO
EMOCIONAL GENERALIZADA
1 inchan explicou a etiologia e a manutenção do TPB com uma teotia
biossocial da desregulação emocional. A DB1 foi adaptada para uso em
transtornos e populações dc pacientes (como abuso de substâncias quími
cas, bulimia, transtorno da personalidade borderline e outros), mas a teo
ria biossocial permaneceu crucial (veja Crowell, Bcauchaine, & Linehan,
2009, para uma revisão recente). Ela propõe que a desregulação emocional
generalizada se origina da combinação de vulnerabilidade biológica e am
bientes sociais invalidantes. A dcsregulaçao emocional é a incapacidade,
apesar dos melhores esforços, dc alterar ou regular gatilhos emocionais, ex-
28 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
pcriencias, ações, respostas verbais c/ ou expressões nao verbais emocionais
cm condições normativas. A desregulaçáo emocional generalizada ocorre
quando essa incapacidade se manifesta em uma ampla gania de emoções,
problemas c contextos (Linehan, Bohus, & Lynch, 2007). Jtal .ncapauda-
de ieva a comportamentos mal-adaptativos (como comportamento suicida,
purgação, abuso de substâncias químicas), porque funcionam para regular
as emoções ou sáo uma consequência da talha na regulação emocional.
Teoria Etiossocial: O Impacto da Vulnerabilidade Biológica
e a Invalidação do Ambiente Social
Vulnerabilidade Biológica c Sua* Consequências
Linehan levantou a hipótese dt que três características biológicas con
tribuem para a vulnerabilidade de um indivíduo. Era primeiro lugar, as
pessoas propensas à desregulaçáo emocional reagem dc imediato c cm
baixos limiares (alta sensibilidade). Segundo, experimentam e expressam
intensamente a emoção (alta rcat ividade), e essa alta excitação desregula
os processos cognitivos. Terceiro, experimentam uma excitação de longa
duração (retorno lento à linha de base). Os dados sugerem que aqueles que
preenchem os critérios para o TPB experimentam estados aversivos mais
frequentes, mais intensos c duradouros (itiglmayr et aL, 2005), e que a
vulnerabilidade biológica dificulta a regulação emocional (Juengling et al.,
2003; I bner-Priemer et al., 2005).
Considere o impacto da vulnerabilidade biológica. Dificuldades com aregulação emoc.onal significam dificuldades em regular a maioria das áreas
da vida: a maior parte do que fazemos e do que somos depende da estabi
lidade do humor e dc regulação emocional adequada. A mesma ação pode
parecer facil ou difícil dependendo do nosso humor. Pegue como exemplo a
experiência comum dc bater papo com estranhos em um coquetel. Dc bom
humor, vocé conversa com a pessoa mais interessante da festa; em um hu
mor vulnerável e inseguro, escora-se na parede, mal fáz contato visual com
os outros. Você adiou uma tarefa temida por meses. Mais tarde, de bom hu
mor — ivila — a resolve em uma tarde. Aqueles que conseguem regular as
emoçoes sem muito esforço nem percebem que estão fazendo isso. De vez
Aplicando a Terapia Comportamcntal Dialética 29
em quando, todos temos crises de comportamento dependentes do humor;
mas, na maior parte do tempo, c imperceptível.
No entanto, imagine que, devido à vulnerabilidade biológica, suas
emoções variem muito. Você não é capaz de prever com qual humor estará.
Se seu comportamento varia muito em eventos sot iais, com base no seu
humor, você r uma pessoa úmida ou extrovertida? Se consegue administrar
responsabilidades quando está bastante envolvido” emocional men te, isso
o torna irresponsável e preguiçoso quando nao consegue fazê-lo? Você evita
estudar ou um certo tipo de trabalho? Como é possível definir, se seu de
sempenho lhe parece muito além do seu controle c depende do seu estado
emocional? O impacto dessa variabilidade imprevisível afeta todas as áreas
da vida. Como viver cm um pesadelo, seus esforços não surtem efeito ou
dáo terrivelmente errado. Essa vulnerabilidade biológica c exacerbada c, cm
alguns casos, até mesmo criada pelas transações entre a pessoa vulnerável
emocionalmente e um ambiente social amplamente inval'dante.
Ambiente Social Invalidcmte e Suas Consequências
Pense primeiro no desenvolvimento emocional em um ambiente que
tenha a validação ideal. A emoção evolu, como uma resposta rápida dc rodo
o corpo: nossa fisiologia, percepção, ações e processos cognitivos disparam
com coerência, orientando e organizando a adaptação às mudanças con
tínuas no ambiente e em nossos corpos. Ouvimos um barulho súbito, e,
imediatameiite, a emoção dispara, orientando-nos, para que fiquemos pre
parados. No desenvolvimento emocional saudável, os cuidadores respon
dem à criança de formas que fortalecem os elos entre os gatilhos ambientais,
as emoções primárias e a expressão emocional socialrnente apropriada, ao
mesmo tempo cm que enfraquecem os elos de expressões socialrnente inade
quadas. z\s respostas de nossos cuidadores validam o que é eficaz, apropriado
e faz sentido cm nossas respostas, e invalidam o que é ineficaz, inadequado
e nao faz senrido. Por exemplo- com base nesses processos de acukuração,
aprendemos a interpretar cerros ruidos comn gatilhos de interesse ou medo,
e aprendemos a modular como expressamos o que sentimos. As respostas
de validaçao dos outros nos ensinam a usar a emoção para entender o que
está acontecendo dentro e fora de nós, como uma leitura momento a mo
30 Ferramentas para Circunstancias Difíceis
mento do nosso estado c das nossas necessidades em relação ao ambiente.
Em um ambiente ideal, os cuidadores proporcionam um alívio contingente
c apropriado para emoções fortes. Lies fortalecem o indivíduo e o ajudam a
refinar as funções naturalmente adaptativas, organizadoras e comunicativas
das emoções.
Nenhum de nós consegue criar esse ambiente perfeitamenre ideal, é
claro. Até os melhores pais ficam cansados e estressados. E comum que se
sintam ansiosos, zangados ou deprimidos, Imersos nesses estados compro
metidos, punem ou minimizam a expressão válida das emoções primárias.
Em consequent ia. aprendemos maneiras ligeiramente disfuncionais dc ex
pressar e dar senndo às nossas emoções. Problemas maiores surgem, porem,
quando os cuidadores reiterada e persfclentcmente falham em responder
conforme o necessário à emoção primária e sua expressão. Na maioria das
vezes, a invalidação generalizada ocorre quando os cuidadores tratam nos
sas respostas primárias válidas como incorreras, imprecisas, inapropriadas,
patológicas ou não as levam a sério. .\s respostas primárias de interesse
são constantemente repreendidas ou ridicularizadas; as necessidades nor
mais dc scr tranquilizado sáo regularmente negligenciadas ou depreciadas;
os motivos honestos são repetidamente questionados e mal interpretados.
Assim, a pessoa apier.de a evitar, interromper e controlar as próprias incli
nações naturais e respostas emocionais primarias. Como uma criatura presa
em uma câmara com uma grade eletrificada no chão, a pessoa aprende a
evitar qualquer passo que resulte em dor e invalidação.
Digamos que, diferentemenre de meus kmaos bem regulados, eu ex
presse uma necessidade maior de afeto, ou expresse emoções por mais tem
po e com mais intensidade do que meu cuidador consegue tolerar. Isso
provoca vários quadros dc impaciência c desprezo (invalidação). Em algum
momento, tentarei inibir meu comportamento, talvez aprendendo a Inibir
quaisquer comportamentos explícitos que expressem m:nha necessidade de
afeto e talvez até mesmo minha experiência privada de precisar dele. Em
ambientes amplamente invalidantes, o condicionamento ao medo ocorre
— não só evitamos a grade eletrificada da invalidaçao, mas também qual
quer experiência dos eventos pnvaüos (pensamentos, sensações ou emo
ções) que leve a qualquer lugar próximo da grade. Ficamos extremamente
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 51
sensibilizados para iodos os gatilhos do choque doloroso da invalidação.
Ficamos fóbicos de nossas próprias respostas naturais e válidas. O histórico
de invalidação generalizada deixa as pessoas hipersensíveis náo apenas à
invalidação dos outros, mas a qualquer resposta própiia, Válida ou nao, que
possa levar os outros a invalidá-las. Responder naturalmcute torna-se tão
evocativo quanto jogar uma aranha no colo de alguém com fobia de aranha.
Na teoria de Linehan, diferentes cornbmaçóes dc vulnerabdidade bio
lógica c invalidaçao social resultam cm experiências bastante semelhantes.
As pessoas, às vezes, percorrem diferentes rotas de desenvolvimento, mas
acabam com as mesmas dificuldades. 1'ara aqueles com alta vulnerabilidade
biológica à desregulaçao emocional, ate mesmo um nível ’‘normal de in
validaçao c suficiente para criar sérios problemas. • omo quem tem deficit
de atençao, eles enfrentam dificuldades enormes, mas. muitas vezes, difíceis
de pesceber. Sc uma criança com processos atencionais normais e uma com
transtorno de deficit de atenção e hiperatividade tTDAH) estão jogando
um jogo de tabuleiro e começam a fazer muita bagunça, um ríspido “Sos
sega!” de um adulto na cozinha é suficiente para a criança com capacidade
arencional normal se acalmar. Mas a criança com TDAII pode precisar que
o adulto se aproxime e lhe dê as instruções passo a passo: “Nao Não é sua
vez. Dê o dado a Joey. Querido, olhe para mim. Solte os dados. Obrigado.
Ok: agota observe. É a vez de Joey. Nao. coloque as maos no colo. Tudo
certo. Vamos ver, ele tirou um cinco...” (E assim por diante.)
Com o tempo e a prática, esse treinamento se transforma cm aatorre -
gulaçáo. Essa mesma abordagem ativa é necessária para ajudar aqueles que
tentam manejar a desregulaçjo emocional. Assim como ocorre corn a desre-
gulação arencional, são necessárias orientação e estrutura extras para desen
volver a autorrcgulação emocional. Poucos pa<s sabem como fo-necer essa
ajuda; a maioria dos pais acaba ficando sobrecarregada pelas necessidades
da criança altamente vulnerável. Em consequência, tais crianças emocional-
mente vulneráveis raramenre aprendem estratégias eficazes para administrar
sua experiência emocional avassaladora. A DBT se concentra nesses deficits e
ensina expressamente as habilidades necessárias para a regulação emocional.
32 Ferramenta» para Circunstâncias Difíceis
Outras pessoasnascem com pouca vulnerabilidade biológica, mas expe
rimentam uma invalidação tão extrema e persistente ao longo do tempo que
desenvolvem problemas de regulação emocional. O abuso sexual na infância
é um ambiente dc invalidação prutotípk o relacionado ao TPB (Wagner, &
Linehan, 1997, 2006) No entanto, nem todos os indivíduo» que atendem
aos critérios do TPB relatam históricos de abuso sexual, e nem nxlas as vi
timas de abuso sexual infantil desenvolvem TPB. As diferenças individuais
ainda nao estão claras (veja Rosenthal, ((heavens, lejuez. & Lynch, 2005, para
uma linha de pesquisa que estuda os fatores mediadores entrt os sintomas do
TPB e o abuso sexual na infância). Linehan (1993a) detende, portanto, que a
experiência de invalidação generalizada é a cansa, e não outro tipo específico
de trauma, I ii histórico deixa as pessoas extremamente sensibilizadas para a
invalidação.
As dificuldades que descreví até agora acompanham o problema nuclear
da desregulaçáo emocional. Quando o ambiente não se alinha com as nos
sas necessidades, seja devido à vulnerabilidade biológica ou à invalidação
generalizada, aprendemos uma serie dc estratégias problemáticas dt regu
lação emocional. Quando nossa experiência no-mativa e nossa expressão
das emoções provocam desconforto nos outros, que depois se afastam e
nos criticam cm vez de nos aiudar e apoiar, aprendemos que quem somos
evoca a rejeição interpessoal. Assim, aprendemos a evitar nossas respostas
primárias válidas c, em vez disso, desenvolvemos padrões dc embotamento,
mascaramcnto c^ou distorção de nossa experiência e expressão dc emoções.
A esquiva pode ser sutil: proti gemo-nos quando notamos uma ligeira
desatenção em nosso amigo enquanto conversamos, mudando o que diria
mos para uma autorrcvclaçao menos arriscada: sem perceber, logo fugimos
do lampejo vulnerável da tristeza ou vergonha, ficamos irritados. Esqui •
var-sc c uma higa óbvia e completa: nosso estado emocional é tão aversivo
que ou o evitamos involuntariamente pela dissociação ou encontramos mé
todos desesperados, como a autolesão intencional, para acabar com a dor
etoociônaJ. Embora esses processos dc aprendizagem afetem a todos nós,
aqueles que são propensos à desregulaçáo emocional experimentam uma
invalidação social maior e passam a alternar entre estratégias que supcr-rc-
giilam e sub-regulam a emoção e sua expressão. Esses padrões comporta
Aplicando a Terapia Comportamental úialética 33
mentais probiemáticos causam estragos na rida dos clientes e na terapia, c
serão discutidos a seguir
Dilemas Dialéticos: Padrões Comportam? ntais Secundários
Manejar a vulnerabilidade emocional c a .nvalidação contínua muitas
vezes leva o cliente ao dilema entre super-regular e sub-regular a experiên
cia da emoção e sua expressão. Linehan chamou esses padrões de "dilemas
dialéticos”, porque a ideia básica da “dialética” c que qualquer posição con
tém a própria antítese, ou posição oposta. Os inevitáveis fracassos do cliente
cm regular as emoções lesam ao aumento da invalidação (“Por que você
c tão sensível?”, “Você é louco!”, ou, “Supere isso;”), o que o faz redobrar
os esforços para se autoiregulat, a fim de evitar essa nvalidação adicional.
No outro extremo, os clientes aumentam a expressão, à medida que tentam
comunicar por que suas respostas são válidas (“Não sou louco! Você não
entende!”). Com o passar do tempo, os padrões comportamentos comuns
sc desenvolvem, conforme os clientes tentam resolver os dilemas inerentes
à desreguluçáo emocional generalizada. Cem a observação clínica, Linehan
caracterizou três padrões pelos quais os clientes mudavam de estados sub-rc-
gulados, nos quais ficam sobrecarregados pela experiência emocional, para
estados supcr-regulados, evitando imediatamente a experiência emocional.
Vulnerabilidade Emocional e Avtoinvalidação
K vulnerabilidade biológica e o histórico dc nvalidação generalizada
criam uma sensibilidade anormal. L m pequeno gatilho desencadeia a dor
emocional, o cquivalenrt a tocar em queimaduras de terceiro grau, ('omo
o indivíduo não controla o início nem o desenrolar dos eventos que desen
cadeiam respostas emocionais, pode se desesperar querendo qualquer coisa
que faça a dor terminar. Para muitos, é como se o corpo físico não supor
tasse as foiças que o atravessam. Até mesmo a desrcgulaçio dc emoções
positivas produz dor. Um cliente relatou: “Fiquei tão empolgado quando
vi meus amigos que não aguentei R alto, falei muito — tudo que fiz foi
demais paia eles.” A “vulnerabilidade emocionai” nao se refere apenas à
34 Ferramentas para Circunstancias Difíceis
sensibilidade exacerbada, mas também às consequências de ser uma pessoa
extremamente sensível.
As experiencias diárias inevitáveis desencadeiam uma dor emocional in
tensa, a ponto de as emoções se tornarem traumaticas: as pessoas nessa si
tuação acham que as emoções acabarao com elas. O desempenho toma-se
totalmente imprevisível, porque esrá ligado a estados emocionais qnc a pessoa
é incapaz de controlar. Essa imprevisibi,:dadt frustra as expectativas pessoais
c interpessoais, levando o cliente e os outro* a se sentirem frustrados c desi
ludidos. A pessoa se desespera, porque entende sua sensibilidade emocional
como biológica, como parte de seu temperamento, c, portanto, como algo
que nunca mudará. O cliente se vê preso em um pesadelo dc descontrole. A
vida é uma luta contínua para suportar os eventos dc um dia típico. O suit -
dio parece set a única maneira dc prevenir fururos sofrimentos torturantes,
além dc ser a comunicacáo final com aqueles que não demonstraiam empati .
Para as pessoas cxtrcmaniente sensíveis, praricamente toda atitude te
rapêutica evoca a dor emocional, assim como o drsbridamento faz com as
queimaduras graves. A sensibilidade às críticas torna doloroso o feedback
necessário. Como vimos no caso de Marie, no im'cio do capítulo, quando a
desregulação emocional acontece em uma sessão (dissociação, pânico, raiva
intensa), interrompe as tarefas terapêuticas. A generalização das mudanças
e os planos feitos na sessão não vão para frente devido à desregulação emo
cional coiidiana. A terapia em si pode ser traumática porque o cliente não
tegula as emoções que ela evoca. Qs clientes muitas vezes se sentem humi
lhados pelo desamparo diante das emoções avassaladoras, bntender a vulne-
rabizidade emocional significa que o terapeuta precisa entender e considerar
a dor intensa decorrente de viver sem uma espécie de “proteção emocional”.
As pessoas aprendem a responder à vulnerabilidade contínua à desregu-
lação emocional invalidando a si mesmas, assim como os outros fizeram. A
auroinvalidação tem, pelo menos, duas formas. Na primeira, a pessoa iulga
severamente as desrcgulaçõcs (“Eu não deveria ser assim"). Nesse caso, ela
tenra controlar e evitar as respostas primárias naturais. Quando nao conse
gue, a pessoa se volta contra si mesma ccm culpa e ódio; a autolesão inten
cional pode ser usada para punir-se pela falha. Na segunda, a pessoa nega
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 35
e ignora a vulnerabilidade à dcsregulaçáo (L‘Eu não sou assim"), e bloqueia
a experiência emocional e mantem expectativas irrealistas ou elevadas. Ao
fazê-lo. a pessoa minimiza a dificuldade de resolver problemas cotidianos
e não consegue reconhecer que precisa dc ajuda. Esse padrao anula as ten
tativas de mudança, pois a pessoa não tolera o aprendizado por tentativa e
erro, necessário para adquirr estratégias de automatic, o.
Passividade Ativa f Competência Aparente
Com o tempo, as pessoas aprendem a responder passivamente quando
estão com problemas que vão além de sua capacidade, enquanto minimizam
as dificuldades dc resolvê-los. Às vezes, permanecer passivo ativa as pessoas
ao redor. Ver uma mulher que pareça vulnerável ninando impotente para um
pneu furado na beira da estrada em um bairro perigoso pode levar alguém a
parar para ajudá-la. Sc a ajuda nao chegar, ela pode expressar mais desconforto — checando freneticamente o relógio e are chorando. A passividade ativa
é a tendência a respònder passivamente aos problemas diante de ajuda insufi
ciente comunicando o sofrimento dt maneiras que ativam as outras pessoas.
Mark, que conhecemos no início deste capítulo, mal fazia bicos como
programador de software porque seu perfeccionismo, procrasrinação c mau
humor o levavam a perder muitos prazos — cantos, que o últfcno cliente não
renovou o contrato. Devastado e envergonhado, ele se esconde, recusa-se a
atender a ligações e tranca as contas em uma gaveta, (guando a paciência do
senhorio termina, ele pede a Mark para se mudar. Em vez de procurar um
novo lugar oara morar, Mark passa o dia na cama e fica ern silêncio durante
a terapia, apesar de todos os esforços do terapeuta para estimular a resolu
ção ativa dc problemas. Mark se sente incapaz de fazer o que é necessário,
e ele rcalmcnte c incapaz de agir sem ajuda. Se tivesse acabado de quebiar
uma perna, talvez recebesse ajuda imediara. No enranro, como não tem
deficits visíveis, as pessoas o considciam pmguiçoso. Pedir ajuda não surte
efeito — as pessoas o consideram exigente e 'nconvcnicntc. Para Mark,
porém, a situação c desesperadora, não importa o que faça. [Ta perspectiva
do terapeuta, a situação se agravou, culminando em uma crise que seria
facilmente resolvida sc Mark lidasse ativamente com o problema (como
36 Fernmentas para Circunstâncias Difíceis
procurar outro lugar nu- classificados). Quando esse padrao de passividade
ativa é habitual, o estresse cotidiano aumenta, à medida que os probkmas
não são resolvidos; isso afasta as pessoas dispostas a ajudar, e faz do suicídio
um dos poucos meios de comunicai que mais ajuda é necessária.
Aparentar ser competente c mortal. Em uin momento, o cliente parece
capaz dc lidar coin as situações, c, então (inespetadamente para o obser
vador), cm outras vezes, é como se a competência nao existisse. Os clien
tes aprenderam a “parecer competentes”, isto é, a esconder a emoção e a
vulnerabiJidade, de modo que os observadores quase náo percebam suas
emoções. Muitas vezes, os clientes verbalizam as emoções negativas, mas
transmitem pouco ou nenhum sofrimento. Nu enranto, para eles, é como
se tivessem acabado dc- gritar suas aflições ficam cão sensibilizados por st
expressar, que qualquer coisa dita parece nua e crua.
Quando as expressões verbais c não verbais das emoções são mcoeien
tes, todos nós acreditamos que a não verbal é a mais prteisa. Os terapeutas
(e outras pessoas que fazem parte da vida do cliente) interpretam mal esses
casos. Se um cliente lhe disser: Isso rcalmcnte me incomodou”, em um
tom de voz ameno, e natural achar que ele não se importou com a experiên
cia real, mas não expressa, do sofrimento. Uma segunda leitura incorreta
decorre da pressuposição típica da generalização dos comportamentos (ou
seja, se sou amigável e extrovertido em dada situação, serei em todas). No
entanto, como descrito, o humor dita a dificuldade ou facilidade de muitos
comportamentos. Quando o problema nuclear é a desregulaçáo emocional,
os clientes têm pouco controle sobre seu estado emocional e, punanro,
pouco controle sobre suas competências comportamentais. Isso tornara a
competência variável c condicionada a contextos, bem como a fara mudar
ao longo do tempo. Porem, os observadores (e o próprio cliente) espciaráo
continuidade c serão pegos dc surpresa inúmeras vezes, quando uma com
petência falhar em generalizar, como acontece com as pessoas mais regula
das emocionaimcnte. Como os outros o interpretam mal, sem se dar conta,
criam um ambiente dc invalidação, deixando de ajudar por não cnxergaiem
o sofrimento. Nos piores casos, as pessoas interpretam a falta da competên
cia esperada como manipulação c ficam ainda menos dispostas a ajudar.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 37
Crise Implacável e Luto Inibido
A crise implacável é um padrão dc autopcrpcruação em aue uma pessoa,
inccssantemente, ciia evenros aversivos e é controlada por eles. Uma pessoa
emocionalmcnte vulnerável pode agir de forma impulsiva para diminuir o
sofrimento, o que pode, inadvertidamenre, agravar os problemas existentes.
Marie “se deu mal" no trabalho e vai ser demitida, o que pode fazer corn
que seja despejada de seu apartamento. Outra cliente grita de raiva com um
assistente social e termina a entrevista de rompante; assim, não conclui a
solicitação de alojamento. Como não consegue agendar outra reunião, ela
acaba em um abrigo para sern-teto. Rjesidir em um abrigo a expõe a uma
série de gatilhos que a lembram um estupro no passado, desencadeando
flashbacks diários c ataques de pânico, lais crises implacáveis podem domi
nar a reiapic dc tal forma que inviabilizam o progresso.
O luto inibido e uma esquiva automática e involuntária de experiências
emocionais dolorosas, uma inibição do desdobramento natural da resposta
emocional. As tragédias pelas quais alguns dos nossos clientes passaram
foram arrasadoras. Eles podem inibir o luto associado aos ttaumas de infân
cia, à revirimização como adulto, ou o luto evocado por perdas recentes, de
correntes do enrrentamen.ro adaptativo ou dt um azar excessivo. Paia fircar a
dor emocional, eles se esquivam c fogem, o que aumenta a sensibilidade aos
gatilhos e às reações emocionais. Alguns clientes vivcnciam perdas constan
tes, iniciam o processo de luto, inibem-no automaticamente, evitando ou
distraindo-se de garilhos relevantes, voltam ao processo, c retornam ao ciclo
de contato com os gatilhos e a fuga, repetidas vezes. O indivíduo nunca
vivência, integra ou resolve compleramtnte as reações a eventos dolorosos.
Os três padrões comporramentais descritos são consequências desenvol-
vimemais da combinação tóxica dc vulnerabilidade biológica e invalidaçao
social Por mais que todos nós desenvolvamos reações habituais um pouco
problemáticas à dor emocional, esses três padrões causam estragos. O coti
diano e a terapia, cm particular, fornecem uma lista de garilhos evocativos:
os comportamentos do próprio cliente ou dos outros podem provocar a
desregulação. Essas respostas secundárias à desregulação, cm que o cliente
oscila entre a sub-regulação t a super regulaçao emocional, criam outros
38 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
problemas sérios. Consequentemente, os prnprios padrões comportamen-
tais torn arn-se alvos de tratamento da DBT
Lm suma, o primeiro componente crucial da DBT é a teoria btossocial
do transtorne». Ela propõe que (1) os comportamentos problemáticos ou
característicos de transtorno, parricularmente aqueles exrremamente dis-
funcionais, podem decorrer da dcsregulaçáo emocional ou de mn esforço
para tentar regular as emoçoes; (2) a invalidação desempenha uni pape'
na manutenção das dificuldades atuais de regular as emoções; c (3) os pa
drões comuns decorrentes se desenvolvem conforme a pessoa se estorça
paia regular as emoçoes e lidar com a invalidação, e esses padrões tornam-se
problemas que devem ser tratados. A lógica do tratamento abrangente da
DBT, portanto, e ensinar e viabilizar a regulaçao emocional, c restabelecer
as funções organizacionais e comunicativas naturais das emoções.
COMO A DBT TRAIA A DESREGULAÇÃO
EMOCIONAL GENERALIZADA
A DB1 trata a dcsregulaçáo emocional generalizada c os padrões sub
sequentes, que se desenvolvem à medida que o indivíduo lida com a desre-
gtilação emocional, da seguinte forma: com uma combinacáo de estratégias
nucleares dc tratamento — estratégias dc mudança, aceitação c dialética
—, resumidas na Tabela 1.1, e uma estrutura de diretrizes que organiza o
ambiente dc tratamento c prioriza metas e alvos dc tratamento dc acordo
com a extensão do transtorno do cliente.
Estratégias Nucleares de Tratamento
Fjtratégias de Mudança
O pruneiro coniunto de estratégias nucleares da DB ’ concentra-se na
mudança, unindo princípios comportamentais e protocolos de estratégias
cognitivo-comportamentais, c outras estratégias teoricamentecompatíveis
para tratar a desregulação emocional generalizada. A análise em cadeia
comportamental — urna .ornu dc anáLse funcional — é utilizada para
identificar as variáveis que controlam instâncias específicas de certos pro-
Aplicando a Terapia Cumporlamental Dialética 39
blemas, como a autolesao. A formulação de caso da DBT baseia-se nos
padrões funcionais que emrrgem dessas análises cm cadeia. Os planos de
tratamento abordam o que precisa ser diferente na cadeia comporramenral
para que o cliente não adore o comportamento problemático. Alguns clien
tes, como Mark, apresentado neste capítulo, carecem de recursos básicos
para regular as emoções, e, portanto, parte da solução da DBT é ensinar
habilidades para solucionar esses deficits. O treinamento dc habilidades é
discutido mais adiante no capítulo.
Contudo, aprender novas habilidades nem sempre é o suficiente. Por
exemplo, as capacidades de Mark são frequentemente prejudicadas por res
postas emocionais condicionadas, contingências problemáticas e processos
cognitivos disfuncionais. Portanto, as estratégias de mudança da DBT não
incluem apenas o treinamento de habilidades, mas também outros três
grupos dc procedimentos cogn'tivo-comporttmcntais: terapia de exposi
ção, manejo dc contingência c modificação cognitiva. Entretanto, como a
desregulaçáo generalizada leva a comportamentos e crises dependentes do
humor, o terapeuta de DBT precisa frequentemente modificar essas mter-
vençóes típicas da Terapia Cognitivo-Comporcamenral (TCC) para obter
cucesso. Essas modificações são descritas no Capítulo 3. .As estratégias in
cluum técnicas para aumentar a motivação do cliente c seu compromisso
com a mudança, tais como prós e contras, advogado do diabo, modelagem
e outros listados na Tabela 1.1. A DB1 requer conhecimento da Análise
(-omportamental, porque essa deficiência é uma barreira genuína para o
terapeuta que deseja trabalhar com as estruturas da DBT
Estratégias dc Validação
O segundo conjunto de estratégias nucleares da DB ", a validação, enfa
tiza a aceitação. Por exemplo, o histórico de Mark o deixou extremamente
sensível à invalidação. Essa sensibilidade o fez perder o emprego: os pedidos
dc mudança que o chefe lhe fez o sobrecarregaram, e as tentativas do tera
peuta anterior para ajuda-io a mudar de forma adequada, em resposta às
avaliações de desempenho ruins, foram torturantes oara ele.
40 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
Tabela 1.1 Resumo das Estratégias Nucleares da DBT
Estratégias dc mudança comportamental (orieni.id.is p.ir.i mudança)
• Análise cm cadeia comportamental
• íViálises dc tarefas
• AnJiscs de soiuções
• Treinamento dc habilidades (veja a Tabele 1.2)
• Automoniroramcn'o: O cartão diário dc DBT
• Exposição
• Manejo de contingência
• Modificação cognitiva
• Estratégias didáticas (psicoeducação)
• Orientação
• Estratégias de comprometimento
° Prós c contras
° Pé na poeta
° Porta na cata
° 1 iberdade ae escolha; ausência de akernativas
u Viacuiação de compromissos anteriores aos atuais
° Advogado do diabo
° Modelagem
Estratégias de validação (orientadas para acciraçap)
• Emparia + comunicar cue a perspectiva do cliente é válida
° Nível 1 Ouça com total cSnsciencia; esteja uento
° Nível 2* Reflita com cuidado a comunicação do cliente
° Nível 3: Articule emoçnes. pensamentos ou padrões de comportamento não verbais
° Nível 4: Comunique como o comportamento faz sentido diante do passado
° Nível 5: Comunique como o comportamento fitz sentido diante do presente
° Nível 6: Seja radicalmentr genuíno
Estratégias dialéticas
• Pressupostos dialéticos c postura dialética
• Equilíbrio dialético
a Estratégias dc mudança c validação
° Estratégias estilísticas: Comunicação reciproca e irreverente
° Estratégias dc manejo de caso: Consultoria ao Jiente e intervenç ro ambientai
• Estratcgtus dialéticas específicas
0 Avaliação dialética
° Entrar no paradoxo
Metáfora
* Advogado do diabo
° Extensão
° Ativação da mente sábia
° Eater uma kmunada
° Permissão à mudatça natural
Aplicando a Terapia Coinportamental Dialética 41
Grande parte da resposta dc Mark era ineficaz e precisava mudar, mas,
para clientes como ele, as intervenções de mudança parecem intoleráveis.
Assim, as estratégias de validação se tomam cruciais. A validação vem da
tradiçao centrada no cliente (L inehan, 1997b; veja também o excelente li
vro Empathy Reconsidered [‘ Emparia reconsiderada", em traduçao livre], de
Bohart, fir Greenberg, 1997). A DBI define a validação como uma combi
nação dc emparia e da comunicação de que a perspectiva do cliente é válida
de alguma forma. Por meio da emparia, vOcé entende o mundo da perspec
tiva do cliente; com a validação, comunica que sua perspectiva faz sentido.
É tentador contundir a validação corn “condições facil irado ras” ou “fatores
comuns", ou relegá-la a uma função de adoçar a pílula”, como se servisse paia
persuadir o cliente a se engajar “de verdade’ nas estratégias orientadas para a
mudança. No entanto, a validação, pm si có, [>ode produzir uma mudança po
derosa quando é ativa discipinada e precisa. Usada de forma genuína e hábil,
reduz a excitação fisiológica, um efeito normal da nvalidacão, c estimula o
desencadcamcnto dc mais emoçoes adaprativas. A habilidade dc ttóàr estratégias
de validaçao centra se nu que se deve e no que não se deve validar, bem como
na maneira de fãzê lo. I inelian (1997b) listou seis níveis de validaçao, confor
me mostrado na Tabela 1.1, e aconselhou os terapeutas a validar no nível mais
alto possível. As estratégias de validaçao sao abordadas no Capítulo 4.
Estratégias Dialéticas
A rensão entre a necessidade de aceitar as vulnerabilidades dos clientes
e, ao mesmo tempo, encoraja los a fazer a mudança necessária é um dilema
constante para o terapeuta, e, muitas vezes, a raiz do impasse terapêutico.
Para comandar essa situação, os terapeutas adotam uma postura dialética
e usam estratégias dialéticas. A d.alética é uma visão sobre a natureza da
realidade e um método de persuasão. Sua ideia básica é a de que toda posi
ção contem sua antítese, ou posição oposta. O progresso vem da resolução
das duas posições opostas em uma síntese. Em outras palavras, o caminho
é aceitar o cliente e conduzi-lo para a mudança. A polarização é natural
e esperada. O movimento terapêutico acontece mantendo as duas extre
midades da polaridade em jogo. Na DBT, o impasse terapêutico indica a
necessidade de explorar ambos os polos da tensão dialética.
42 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
As estratégias dialéticas fornecem os meios práticos para que tanto o te
rapeuta quanto o cliente mamenham a flexibilidade em meio a “verdades
conflitantes c até mesmo contraditórias. Por exemplo, nos tratamentos an
teriores de Mark, quando o terapeuta o pressionava demais para que fizesse
mudanças, ele parava de ir às sessões. Quando o terapeuta abandonava um
alvo de mudança, aceitando as vulnerabilididcs dc Mark, ele ficava desespe
rado e duvidava da eficácia do terapeuta então também falhava em de-
monsrrar compromisso. EsSa tensão entre a aceitação da vulnerabilidade e a
necessidade de mudança é ainda mais destacada com clientes como Marie.
A sessão desgastante que iniciou este capitulo aconteceu com Marie
e seu terapeuta. No final, eles formularam um plano de crise para fazê-la
evitar as tentativas de suicídio. Embora Marie tenha de.xado o consultorio
com urn humor melhor, o terapeuta temia novos comportamentos de crise.
Mais tarde naquele dia. Mane foi ao psiquiatra. Não querendo ser deso
nesta, descreveu para ele o quanto queria morrer; ela explicou que gostava
do novo terapeuta, mas não sabia se conseguiría seguir o plano de crise que
criaram e estava apavorada com sua incapacidade dc controlar o compor
tamento suicida. O psiquiatra determinou que Marie precisava ser hospi
talizada e a cncammhou. no ato, para a sala dc emergência mais próxima,
paia avaliaçao. Na manhã seguinte, em vez da esperada ligação dc Maric, o
terapeutarecebeu uma mensagem da enfermeira do hospital local: após sair
do consultório do psiquiatra, antes dc chegar à emergência, Maric tomou
uma overdose e teve que ficar em observação por 72 horas.
Adorar uma perspectiva dialética significa entender que clientes suici
das. como Maric, querem ãmukaneamentt viver e morrer. Dizer para o tera
peuta: Quero morrer”, cm vez dc se matar sem dar aviso, contem a posição
oposta: 'Quero viver." Isso nao significa que querer viver é ' mais verdadei
ro” do que querer morrer: ela, genuinamente, não quer viver sua vida. Nem
a baixa letal idade de sua tenrativa de suicídio significa que ela não queria
morrer, isso náo é um tipo dc alternância — ela simultaneamente mantém
as posiçoes opostas. O cliente vê o suicídio como a única saída dc uma
vida insuportável. Em vez de adorar uma polarização, em uma abordagem
dialética, o terapeuta concorda que a vida do cliente é insuportável c que
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 43
o cliente precisa de uma saída, c oferece outro cantinho, usando a terapia
para construir uma vida que valha a pena ser vivida. Como sera descrito cm
detalhes no Capítulo 5, adotar uma postura dialética significa adotar uma
visào dc mundo em que você mantém a posição de completa aceitação do
cliente e do momento como sáo, enquanto conduz urgentemente ã mudan
ça. Esse terceiro e último con junto de estratégias nucleares implica resistir à
simplificação excessiva c superar o pensamento dicotômico para encontrar
genuinamente combinações viáveis dc resolução de problemas c validação,
razão e emoção, e aceitação e mudança.
Os clientes que passaram por várias enses suicidas c hospitalizações psi
quiátricas enfrentam uma teia complicada de problemas interconectados.
Nessas circunstâncias complexas e de alto risco, é preciso mais do que a
teoria biossocial e as estratégias nucleares descritas. Por exemplo, as hos
pitalizações de urra cliente foram motivadas pela invalidação oriunda das
interações com a equipe que trabalhava em sua casa, mal treinada e sobre
carregada. A unica maneira de a cliente conseguir sua atenção e ajuda cra
expressando emoções extremas c comportamentos descontrolados. No caso
dela, o manejo de crise como um paliativo para reduzir os problemas agudos
pode acabar dominando a terapia de tal forma que o rraramento eficiente
c eficaz se torna improvável. Talvez, treinar a equipe para responder melhor
seja uma boa solução em longo prazo. Porem, como a rotatividade de pessoal
era alta, quem quer que fosse treinado iria embora no més seguinte. Fm vez
disso, pode Ser mais eficiente treinar a cliente ate que suas habilidades sejam
tão sólidas que ela consiga regular as emoções mesmo diante da invalidação
da equipe. Mas liso levaria tempo e, na veidadc, cm um contexto de vida
tão caótico- seria um desafio sem precedentes para qualquer uir. É claro
que, sem mudanças significativas, deixá- la no ambiente residencial seria um
prato cheio para crises contínuas e hospitalizaçõe s psiquiátricas, mas fazer as
mudanças necessárias nesse cenário é assustador, se não improvável.
Talvez a melhor opção seja incentivá-la a sair do ambiente residencial.
Contudo, sem a atividade estruturada que essê ambiente propicia, ela su
cumbirá em inércia e ruminação. Seus pais entrarão cm pânico com a ideia
dc que terão que arcar com consequências drásticas sc- ela sair de um am-
44 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
biente estruturado. e não se sabe- se eles (ou o terapeuta que propôs!) a
ajudarão financeiramente. Para manter urna atividade social bem-sucedida
fora de um ambiente estruturado, ela precisaria ler amizades sólidas, o que
exigiría melhores habilidades sociais do que tem. Isso, por sua vez. deman
da que ela tolere a resposta corretiva a suas habilidades sociais e consiga
passar por sessões de treinamento em grupo, sem ficar tao desrcgulada a
ponto dc sair da sala sempre que for invalidada.
Por onde começar? O termo ‘problemas perversos’, de Horst Ritiel
(Rittcl, & Webber, 1973), capta a dificuldade que as complexas interdepen
dências entre os problemas acarretam paia planejar uma solução para urn as
pecto específico do problema, sem criar outros. No contexto dos problemas
perversos, ha tantxs relações e dependências compkexas entre os problemas
que, trabalhar em um. muitas vezes, implica trabalhar em vários ourros.
A resposta da DBT aos problemas perversos é estruturar o ambiente de
tratamento de acordo com o nível de tianstorno do cliente. Quanto mais
transtorno existe no comportamento, mais atendimento é necessário c mais
abrangente o tratamento deve ser. Além disso, para clientes que tem crises
suicidas recorrentes, como Marie, a DBT adora uma estrutura de protoco
los e procedimentos para orientar a tomada de decisão clínica do terapeuta
que funcionam de forma similar aos que organizam ações coordenadas cm
uma sala dc emergência, cm meio à urgência e à incerteza.
Estruturando o Ambiente de Tratamento
A estrutura da DÍ3 I abrangente padrão, como foi pesquisada e descrita,
oferece todo o tratamento que um cliente com altos níveis de transtorno
precisa para alcançar uma qualidade de vida aceitável. Partindo desse ponto
dc vista, essa forma de tratamento abarca cinco funções atinentes ao im
pacto da desregulação emocional generalizada, que descrevemos. São cias:
1. Aprimorar as competências do cliente. As pessoas com desregu
lação emocional generalizada usualmente não regulam as emoções:
elas precisam aprender novas habilidades e, às vcZcá, receber farrna-
corerapia para aprimorá-las.
Aplicando a Terapia CcmporUmental Dialética *5
2. Melhorar a motivação do cliente para mudar. Como discutido,
os clientes muitas vezes se sentem desesperançosos quanto à mudan
ça e aprendem a ser passivos diante dos problemas; eles precisam de
ajuda para se motivar a aprender e usar as novas respostas.
3. Garantir que as novas competências do cliente se generalizem
para o ambiente natural. Como a desregulaçáo emocional impede
que as respostas recém-aprendidas se generalizem prontamente, é
preciso abordar a gcneralizaçao para diferences contextos e circuns
tâncias.
4. Aprimorar as capacidades e a mntivaçao do terapeuta par? tratar
os clientes dc lorma efetiva. A desregulaçáo emocional, as crises
implacáveis e os comportamentos suicidas do cliente desgastam os
terapeutas, que, muitas vezes, chegam ao limite. Portanto, os te
rapeutas precisam dc apoio, motivação e formas de aumentar as
próprias habilidades.
5. Estruturar o ambiente das maneiras necessárias para aprimo
rar as capacidades dos clientes e dos terapeutas (Linehan, 1996,
I997a; Linehan etal., 19991. Parncularmtnre quando a intensida
de emocional e as crises são uma parte esperada do trabalho, todos
devem conhecer seu papel, e saber o que lazer e o que não fazer para
implementar uma abordagem clara, coerente e bem organizada. Ge
ralmente, a falha do tratamento decorre da falha cm um ou mais
desses aspectos; como resultado, as necessidades do cliente e/nu do
terapeuta não são atendidas.
Na DBT abrangente padrào, as funções anteriores acontecem em vários
ripos de atendimento. A làbela 1.2 as resume, bem como exemplifica sua
aplicação. Por exemplo, os clientes crr. tratamento abrangente podem rece
ber psicoterapia individual semanal, treinamento de habilidades em grupo
semanal e consultoria por telefone das habilidades; e os terapeutas, parti
cipar dc reuniões semanais uu quinzenais com uma equipe de consultoria
enrre pares. O cliente e o terapeuta individual formam o núcleo da equipe
de tratamento, que, em seguida, e complementada por outros profissionais
e pulos entes queridos, que desempenharão papéis cruciais.
46 Ferramentas para Circunstâncias difíceis
Tabela 1,2 Funções e Formas dc Tratamento da DBT Abrangente
Funções Modus
Aprimorar as compeénciã., do cliente: Aju
dá-los a responder nxlhoc, para terem um
desempenho eficaz.
Apiiaioiar as competências do cliente: Aju
dá-los aresponder melhor, para terem um
desempenho eficaz.
Garantir « generalização: Transferir o reper
tório dc respostas háhcis da terapia para o
ambiente natural dos clientes e ajud.i los
a integrá-las no ambiente na'ural cm mu
dança.
Aprimorar ar habilidades e a mntivaçao do
terapeuta: Adquirir, integrar e gi neral zar
os repertórios cognitivos, emocionais e dc
comnortamcntos públicos e verbais ne
cessários para a eficácia do tratamento —
incluindo o fortalecimento das respostas
terapêuticas c a reJuçto das respostas que
inibem e/ou interferem na eficácia do tra
tamento.
Fstrcntrar o ambiente po>- meio do maneio
dc conüngc.icias no contexto do programa dc
tntamanto, como um todo, e na comunidade
do dienre, cm partic alar.
Treinamento dc habilidades (individual on
cm gtjpo). tarmacoterapia, psicotducação.
Psicotcrcpia individual, intervenção atn
bicntal.
Consultoria dc habilidades, intervenção
ambiental, comunidades terapêuticas, in
tervenções n: vivo, rçvisão dc registros Jas
sessões, envolvimento de familiares/amigos.
Supervisão, reumau de consultoria do te
rapeuta, educação continuada, manuais de
tratamento, monitoramento de aderência e
competência, e incentivos da equipe.
Aruação do diretor dínico ou interações ad-
min.strarivas, manejo de casos, e interven
ções familiares c dc casais.
Todos os membros da equipe devem compartilhar a filosofia básica da
DBT. As tarefas da terapia são delegadas a diferentes membros da equipe
de tratamento, sendo o terapeuta e o cliente responsáveis oor assegurar que
rodos os alvos dc tratamento sejam atribuídos a alguém nesse sistema.
O Papel do Treinamento de Habilidades
As sessões de terapia individual são repletas dc tarefas e crises de alta priori
dade, o que dificulta focar o treinamento passo a passo dc habilidades. Em con
sequência o treinamento de habilidades é realizado em grupo, como uma aula.
L inehan (1993b) adotou vários protocolos baseados cm evidências em quatro
categorias dc habilidades que os clientes podem aprender e praticar: nandfldness
regulação emocional. tolerância ao mal-estar e efetividade interpessoal. A Tabela
1.3 apresenta uma lista completa de habilidades por categoria.
Aplicando a Terapia Cnniportamental Dialética 47
A dialética de aceitarão e mudança, já discutida, perpassa as habilidade en
sinadas aos clientes. Ai habilidades dc mbidjubiess e tolerância ao mal-estar são
orientadas para a aceitação. Praticando as haoilidadcs de mindfidncts., os clientes
tornam-se cada vez mais capazes de viyenciai as experiências de forma voluntária
e sem julgá-las. Elas também ajudam os clientes a evitar a ação impulsiva e a
ttgtf com a mente sábia”, uma mistura intuitiva de emoção e razão que aceita c
responde radicalmente ao momento como ele é. As habilidades de tolerância ao
mal-estai incluem habilidades de sobrevivência à crise, medidas paliativas usadas
para tolerar o sofrimento sem fazer impdsivamente coisas que pioram a situação.
Elas também incluem as habilidades de aceitação da realidade, versões psicoló
gicas e comportamentais das práticas de meditação destinadas a desenvolver um
estilo de vida dc participação com consciência e.' abedoria
A regulação emocional c a efetividade interpessoal, por outro lado, são habi
lidades orientadas pata a mudança. Os clientes aprendem as funções naturais e
adaptarivas das principais emoçoes e aprendem técnicas práticas para prevenir a
desregulatão emocional, para alterar ou teduzir as emoçoes negativas e ampliar as
positivas. Eles aprendem como manejar conflitos interpessoais, perguntando o que
querem e dfzcndo não, dc modo que possam alcançar suas metas enquamo man
tem bons relacionamentos e o autorrespeita Sempre que possível, durante a sessão
e as ligações de consultoria por telefone, o terapeuta incentiva o cliente a praticar
a substituição de respostas disfuncionais por habilidades de DBT apropriadas. O
terapeuta individual aprende as habilidades por meio da aplicaçao delas na própria
vida, tornando-se apto a explicar como usá Ias em circunstâncias diticc:s.
O Terapeuta e a Equipe dc Consultoria entre Pares
Na DBT abrangente, cada terapeuta parric’pa cie uma equipe de consultoria
entre pares. O papel da equipe é motivá-lo e ajudá-lo a desenvolver as habilidades
necessárias para conduzir a terapia de forma efetiva. A equipe auxilia o terapeuta a
entender as dificuldades da terapia e a remcdiá-las, sejam os deficits dc habilidades
do terapeuta ou as próprias emoções, cognições ou contingências problemáticas,
que interferem na condução do processo terapêutico. A consultoria entre pares é
um componente obrigatório da DBT, descrito no ('apirulo 7.
O terapeuta individual e os outros membros da equipe de consultoria de
DBT compartilham algumas pressuposições especficas sobre os clientes, os
terapeutas e a terapia em si, listadas na Tabela 1.4. Essas pressuposições não
se pretendem ser declarações dt faro. São apenas as configurações padrão do
processo, particularmcnte sob condições adversas.
4b Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
label a 1.3 Habilidades de DBT
FL.hilid; ides or .rt id: s p.ira .ueiração
Assumindo o controle de sua mente
• Mente racional (análise lógica)
* Mente emocional (experiência otxx tonal)
• Mente sábia (intuição = razão c emoção)
Habilidades õ que fazer"
• Observação
• Descrição
• Participação; viver as experiências
1 labilid.ides "conto fazer"
• Postura não julgadora
• Uma coisa de cada ves
• Efetividade
Tuktàfi< W ao mal-estar c aceitação
Sobrevivência à disc
• Alterando a química cotporal ('J IP)
° Mude a temperatura com agua ítia
° Exercícios intensos
” Relaxamento muscular progiessivo
• Distraia-sc: mente sábia (ACCEPTS)
“ C-om atividades
° Cjiu contribuições
° ( iom comparações
u Com einocóes (use opostas)
° Com afastaras ntos
C2om pensamentos
° Com sensações
• Acalme-se com os c;nco sentidos
° Prove (paladar I
° Cheire (olfato)
° Veja (visão)
° Ouça (audição)
'• Toque (tato)
• Melhore <i momento (IMPROVE)
° Com imagística
° Com significado
° Corn otaçáo
’ Com relaxamento
° Com uma coisa no momento
Com férias
Com encorajamento
• Prós c contras
Aceitação da realidade
Estar disposto
Rcditedonando a mente
Aceiiaçao radical
Ms'idfulnci> de pensamentos atuais
Habilidades orientadas parj mudança
Rcgulaçao emocional
Mudando resoostas emocionais
• Verifique os fatos
• Ação onosta (à emoção-
• Solução dc problemas
Reduza a vulnerabilidade ABC. SABER
* Acumular emuçoes positivas
• Construir maestria Budd]
• Atnec.paçao de situações emocionai*
[Cope]
• '1 ratar doenças físicas
• Alimentação equilibrada
• Evitar substâncias que alteram o hitmor (a
menos que tenham sido prescritas)
• Sono equilibrado
• fazer exercícios
Efetividade interpessoal
Efetividade ros objetivos: DEAR MAN
Descrever
Expressar
Ser assertivo
Reforçar
Manter-se cm mindfuln^t
Aparcn-ar confiança
Negociar
Efetividade no relacionamento: GIVE
Seja gentil
Seji interessado
Valid:
Adote u-n estilo tranquilo
Efetividade no aurorrespeito FAST
Seja justo |be fait |
Sem deseulpar-se [n<; apologies]
Sustente os valores
Seja transparente
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 49
Tabela 1.4 Pressupostos da DBT sobre Clientes, Terapia e Terapeutas
Pressuposições sobre. os cliente.
* Os clientes cs ão Etzendo o melhor que podem.
• Eles querem melhorar.
■ Eles não pode.n falhar na DH1
• A vida dc .ndivtduos suicidas é insuportável da forma como as vivem.
• Os clientes devem aprender novos comportamentos em todos os cnnrrxros relevante».
• Os clientes podem não ter causado todos os seu» problema», mas precisam rc.soive-los.
* Os cliente» precisam fazer melhor esiorcar-se mais c/ou ÜCar mais motivados part mudar.
Pressuposições sobre a terapia e sobre os terapeuta
• A atitude mais cuidadosa que os terapeutas podem tomar é ajudtx os clientes a mudar.
• Clareza. precisão e compaixão cruciais na condução da DBT.
• A reis ção entre terapeutas e clientes e um.? relação real de iguais.
* Os terapeutas podem falhai na aphcaçaodo tratamento, c, mesmo qaando isso náo
ocorrer, a DB T pode fracassar cm alcançar o resul.ado desejado.
• Os terapeuras que rraram indivíduos com dcsregulaçáo emocional gcuarahzada c
comportamentos do Estagio I precisam dc apoio.
Essas pressuposições funcionam corro uma guia em uma caverna escura
e sinuosa, na qual o terapeuta se depara com a ernpatia do que é viver na
pele do cliente. As pressuposições começam com a ideia dc que os clientes,
como todas as pessoas, estão sempre fazendo o melhor que podem, e que,
além disso, eles querem melhorar. Porém, em meio a retrocessos c progres
sos extremamepte lentos, pode ser fácil para nós, terapeutas, comunicar
frustração e agir como se o problema fosse a falta de força dc vontade do
cliente — como se nâo quisesse o bastante mudar.
Contudo, imagine uma criança que praticou em casa durante toda a
primavera para fazer o primeiro mergulho de uma plataforma de 10 me
tros. Então, no primeiro lindo dia de verão, ela compete. A família toda se
senta na platéia enquanto ela sobe na piatafonna de mergulho. Ela caminha
até a borda e olha para baixo. I ma enorme onda de medo e vertigem a
arrebata. Ela voka às escadas, para descer. Então vê o pai; o poder do sor
riso cncorajador que lhe da a faz se virar e voltar à beira da plataforma. Na
borda, ela congela. Isso nao é nada parecido com a prática da pr.mavera:
não tem nenhum amigo brincando na plataforma com ela, nem técnlcõ a
conduzindo. Há apenas o silêncio, enquanto se sente amedrontada e humi-
50 ferramentas para Circunstâncias Difíceis
jhacta. Fia se afasta da borda. Agora, essa criança quer mergulhar’ Sim! Mais
que tudo. Mas o medo está no caminho. O comportamento necessário não
Foi praticado cm todos os contextos relevantes.
1 assim que funciona com os nossos clientes. As pressuposições da
DBT, de que eles querem melhorar e esiao sempre fazendo o melhor que
podem, leva-nos a reavaliar fatores que interferem nos comportamentos
necessários. Presumimos que novos comportamentos devem ser aprendidos
em todos os contextos relevantes: o que é possível no contexto de uma rela-
çao dc terapia de apoio é diferente do que é possível quando se está sozinho
no meio da noite. Poucos de nós trocariam de lugar com nossos clientes
mais aflitos — suas vidas são insuportáveis sem mudanças. Entretanto, em
buta os clientes queiram melhorar e estejam fazendo o melhor que podem,
muitas vezes não basta. Eles precisam se esforçar mais e ser mais motivados.
Basicamente, a criança no trampolim está exaramente onde deveria estar:
rodos os fatores necessários para criar a circunstância vigente, para que ela
congele, presa entre o mergulho e as escadas, ocorreram. Algo, cm algum
momento, precisa ser diferente para eia mergulhar.
E e isso que supomos que acontece com os nossos clientes: a terapia
deve identificar o que precisa mudar para que o comportamento necessário
ocorra. A pressuposição é a dc que, mesmo que o cliente não tenha causado
todus os seus problemas, ainda precisa resolvé-los. Assim, o terapeuta pre
sume que o cliente náo pode falhar, mas entende isso como um ttabalho
dele e da terapia, para motivar e possibilitar a mudança. A quimioterapia
é uma boa analogia: quando o paciente morre, não o culpamos. Em vez
disso, supomos que “o tratamento falhou’ porque o profissional não seguiu
o protocolo ôu porque o tratamento em si era inadequado e precisava ser
melhorado. Ao partir desses pressupostos, o terapeuta e a equ'pc evitam a
polarização improdutiva e retomam mais rapidamente uma postura mil de
empada fenomenológica.
A postura dialética se fundamenta no diálogo entre o terapeuta e a equipe
de consultoria. Isso significa que a polarizaçao é um fenômeno esperado, algo
a ser explorado, e não evitado. A todo momento, supõe-se que o entendimen
to t sempre parcial e, provavelmente, deixará algo importante de fora.
Aplicando a Terapia Comportamenta1 Dialética 51
Em outras abordagens, uma terapeuta pede uma consultoria sobre seu tra
balho com uma cliente. A equipe logo se lembra dela — é aquela que expressa
angústia sobre o marido e a saúde de um jeito dramático e indefeso, o que
acabou afastando todas as pessoas que a apoiavam. A terapeuta náo fala dessa
cliente há semanas. O que a equipe rato percebeu foi que, nas últimas seis sema
nas. a cliente só participou esporadicamente das sessões individuais. A terapeuta
está buscando ajuda agora porque a cliente deixou unia mensigcm naquela ma
nhã infòrmando-lhc que tentou se suicidar. Ela tomou uma overdose de Advil,
foi à emergência, c, dc alguma forma, conseguiu um lugar no melhor e mais
luxuoso programa dc tratamento diário da cidade. A terapeuta sc vê cm deses
pero. Fnquanro seus colegas de equipe .se compadecem e a;udam a planejar suas
próximas ações, alguém em uma equipe fundamentada na abordagem dialética
perguntaria cm alto e bom tom: Sem perceber, a terapeuta moldou a cJicntc
para comunicar o sofrimento dessa maneira disfuncional porque não respondia
a comunicações de nível inferior? Ua também ficou esgotada, como os outros?
Alguém se perguntará se talvez a equipe tenha moldado a tenipewa: A impa
ciência da equipe com o progresso lento fez com que a terapeuta hesitasse em
pedir ajuda para o atendimento esporádico da cliente e para seu próprio esgota
mento? Em uma equipe fundamentada na abordagem dialética, esses diálogos
são valorizados, náo são vistos como cisão nem parte da patologia dos clientes.
O papel do terapeuta individual — o foco deste livro — é conceder
psicoterapia e trabalhar com o cliente para progredir em todas as metas
do tratamento. Embora os outros contribuam, o terapeuta individual faz a
maior paitt do planejamento do tratamento e do manejo de crises. Agora,
esboçarei a estrutura das prioridades de tratamento, que orientam a condu
ta da teiapia individual. Na DBT o terapeuta individual estrutura a terapia
com base na extensão do transtorno do cliente. Quanto mais grave for o
transtorno, mais bem estruturado o ambiente terapêutico precisa ser.
Hierarquia das Metas de Tratamento
e dos Alvos para a Terapia Individual
A principal ferramenta dos terapeutas individuais para estruturar e
priorizar as muitas tarefas de terapia é a hierarquia baseada nos estágios de
52 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
meus e alvos dt tratamento. As metas de ntánmento são o objetivo final de
sejado de um csúgio de trabalho. Os alvos na DB l são os comportamentos
identificados que necessitam de mudança, seja sendo aumentados ou redu
zidos. O tratamento por estágios da DBT baseia-se em uma noçáo do senso
comum: priorize os problemas dc acordo com a ameaça que representam
paia uma qualidade de vida razoável. As tarefas terapêuticas são organiza
das em uma hierarquia para que as mais importantes tenham prioridade
sobre as menos importantes. I ineltan (1996) descreveu a DBT como um
tratamento com cinco estágios. A labcla 1.5 mostra a hierarquia dos alvos
primários para pré-tratarnento, Estágio 1 e Estágio 2 na terapia individual.
Além disso, existem alvos de tratamento secundários, que abordam padrões
dc comportamento, os dtiemas dialéticos, já descritos.
Pouco tem sido escrito e menos ainda, pesquisado sobre o Estágio 3 e o
Estágio 4 da DBT I inehan diz que, no Fstágio 3, o terapeuta ajuda o cliente
a sintetizar o qut foi aprendido nos estágios iniciais, aumenta seu autorres-
pcito e a sensação de conexão permanente, e trabalha para resolver problemas
cotidianos. No Estágio 4, o terapeuta concentra-se na sensação de incomple-
tude que muitos indivíduos experimentam, mesmo depois de os problemas
terem sido resolvidos. A tarefa é desistir do ego e estar plenamente no mo
mento, com a meta de se libertar da necessidade dc que a realidade seja dife
rente. Embora os estágios da terapià sejam apresentados linearmente, o pro
gresso muitas vezes não e linear, c suas etapas se sobrepõem. Quanao surgem
problemas, é comum retornar a discussões como as do pre-tratamento pararecuperar o comprometimento com as metas ou metodos do tratamento.
No final ou antes dos intervalos, especialmenre se não estiver bem prepa
rado, o cliente pode retomar os comportamentos do Estágio 1. A transição
do Estágio 1 para o 2 também é difíci. para muitos, porque o trabalho de ex
posição leva a emoções dolorosas i ntensas e ao descontrole comportamental
subsequente. Apenas o pré-tratamento, o Estágio 1 e o l-stâgio 2 foram bem
articulados ate o mômauDO, e, portanto. só abordo essas três etapas neste livro.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 53
Tabela 1.5 Hierarquia dc Alvos Primários e Secundários por
Estágio da Psicotcrapia Individual
.Alvos Lmnport4.TL.U1 . . P'ÍP'ÍIF>*
Pré-ttatamento: Acoido e compromisso
• Acordo sobre metas c métodos
• Compromisso de concluir o piano acordado
Estripo 1: Descontrole comportamentalgrave — controle comportamental
1. Diminua comportamentos ameaçadores à vida
* Comportamento» de crise suicida ou homicida
• Condutas autolesivas sem intciic ondidudc suicida
• Ideação e comunicações suicidas
* Expectativas e crenças relacionadas ao suicídio
* Afeto relacio lado ao suicídio
2. Diminua os cornpnrramtntos que interferem na rerap.a
3. Diminua os comportamento» que interferem na qualidade de vida
4. Ampíic as competências comporramentais
• Mhutfultwsi
• I ulerância ao mj-estar
• Efetividade interpessoal
• Regulação emocional
* Aulomancjo
/ tiágio 2: Dc sespero silencioso — experiência emcrc’onal
A princípio, não há hie.arquia; prioiiza-se com base na formularão de caso individual.
Bcduaa:
• Sintomas intrusrvos (por exemplo, sintomas intrusivos dc TEPT)
• Esquiva de emoções (e comportamentos que funcionam como eviução)
• Fviraçin de siruações r. experiências (não limitada aos gatilhos relacionados ao Tf PT)
• Desregulação emocional (lumento ou inibição da experiência emocional. c.-ipecificamente
relacionada à ansicdade/mcdo, ra.va, tristeza ou vcrgonna/culpaj
* Autoinvilidaçáo
Alvos comporramenrais secundários (relevantes cm todos os estágios)
Aumente a modulação das emoçoes
D.miuua a teatividade emocional
Aumente a autovalidação
Diminua 1 autoinvalidaçáo
Aumente a rumada de decisão realista e o hom julgamento
Diminua os comportamentos guiadores de crises
Aumente a experiência emociona)
Diminua o luto inibido
Aumente a resolução ativa dr problemas
Diminua .1 passivicadc ativa
Aumente a comunicação pteciia de emoçoes e competências
Diminua 1 dependência de comportamento
54 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
Estágio de Pré-Tratam* aio: Orientação e Compromiso
Iodos os clientes dc DBT começam cm prc-tratamcnto. O terapeuta
individual e o cliente usam essa fase estruturada para formular os problema*
que o cliente tem c adaptar um plano de tratamento. A meta é que eles sc
conheçam o suficiente para determinar se é possível trabalhar juntos como
equipe, concordar com as metas e os métodos essenciais do tratamento, c
depois se comprometer para completar o plano dc terapia acordado.
Como a DB T exige consentimento voluntário, em vez de coagido, tanto o
c liente quanto o terapeuta devem ter a opção dc sc comprometer com ã DBT
cm detrimento de outras ojsções. Por exemplo, cm uma unidade forense ou
quando um cliente c legalmente enviado para o tratamento, não se conside
ra que ele ingressou na D31 até que um compromisso verbal seja firmado.
Fmbora não seja necessário ter um contrato por escrito, â importante ter um
compromisso verbal mutuo sobre as etapas do tratamento. Esses acordos va
riam conforme o setting e os problemas do cliente. Por exempio, o cliente
pode concordai em trabalhar cm alvos de tratamento identificados por um
período de tempo especificado c cm participar de todas as sessões agendadas,
pagar taxas e afins. O terapeuta pode concordar em fornecer o melhor trata
mento possível (incluindo o aprimoramento das próprias habilidades, confor
me o necessário), respeitar os princípios éticos e participar dc consultorias. Da
mesma maneira, os terapeutas da equipe de consultoria entre pares (descrita
no Capítulo 7) passam por um prOCcsso de pré-tratamento. pois ponderam
e concordam com os acordos da equipe antes dc ingressar nela. Todos esses
acordos deve-rn entrar em vigor antes de o tratamento ter seu início formal.
Como em qualquer pacote de Teiapia Cognitivo-Comportam* ntal
(TCC), as estratégias de orientação (focadas na mudança) são usadas para
vincular os métodos de tratamento às meras finais do cliente, dc forma que o
cliente compreenda o que é proposto, por que é proposto e como faze-lo. A
orientação é partieularmente enfatizada na DBT, nao apenas no início do tra
tamento. mas nele todo, porque a dcsrrgulaváo emocional rende a atrapalhar
a colaboração com as tarefas terapêuticas. Mesmo quando são bem jiensadas,
as intervenções do terapeuta, gentilmenre oferecidas, podem ser entendidas
como altamente invalidantes. Em consequência, você deve sempre explicar
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 55
por que uma tarefa dt tiatatnenro em particular t necessária para alcançar as
metas do cliente e, além disso, precisará instruí-lo sobre como realizai a tarefa
de terapia apesar da, ou tm meio a, desregulação emocional. Além disso,
muitos clientes começam a terapia com expectadvas implícitas quanto a seu
progresso, com base em tratamentos terapêuticos que já fizeram. A orienta
ção explícita e a divisão de papéis, responsabilidades e expectativas do cliente
e do terapeuta reduzem os mal-entendidos e o desapontamento, possibilitan
do um contato mais consciente ante» do início da terapia.
Os clientes muitas vezes entram no Estágio de pré-tratamento. com-
preensivelmente, ambivalentes e desconfiados sobre o que a terapia pode lhes
oferecer, dados seus fracassos em tratamentos passados. Portanto, o cliente
e o terapeuta precisam discutir completamente as preocupações e icservas
para chegar a um acordo terapêutico que funcione para ambas as partes. O
terapeuta tem a função de avaliar e aumentar a motivação do cliente, come
çando no pré-uatamento e mantendo-a durante toda a terapia, sempre que
necessário — esse é um dos alvos mais importantes da DBT. Várias estraté
gias de comprometimento específicas são usadas na DBF. Fias estáo listadas
na Tabela 1.1 mm outras estratégias orientadas para mudança. Um cliente
está pronto para começar o Estagio I sc estiver pelo menos miiumamente
comprometido com o tratamento — os terapeutas da DBT normalmente
extraem o máximo que podem e doam o máximo que podem. Eles trabalham
para fomentar, aos poucos, um maior comprometimento c motivação ao lon
go do processo dc tratamento, como ilustro inúmeras vezes ao longo do livro.
Estágio 1: Conquistando Capacidudfs Básicas
(Reduzindo o Descontrole CotnportAmetstal)
Os clientes que estão no Estágio 1 são aqueles com o nível mais grave
dt uanstorno, cuios problemas e descontrole comportamental são tão ge
neralizados que prejudkam significarivamcntc sua qualidade dc vida, in
terferem na terapia e representam uma ameaça à vida. Esses sao os clientes
que precisam da DBT abrangente. A« meras primárias de tratamento para o
Estagio 1 são ajudar o cliente a atingir as capacidades básicas dt que precisa
para permanecer vivo e engajado no tratamento, seguidas daquelas neces
sárias para melhorar sua qualidade de vida. O terapeuta divide o tempo de
56 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
tratamento nas sessões de acordo com as seguintes prioridades: (1) com
portamentos que ameaçarn a vida, (2) comportamentos do terapeuta ou do
cliente que interferem na terapia, (3) comportamentos que comprometem
seriamente a qualidade dc Vida do cliente e (4) deficit* nas capacidades com
portamentais necessárias para fazer mudanças na vida.
Na categoria de maior prioridade, comportamentos que ameaçam a
vida, a prioridade c designada (em ordem decrescente de prioridade) para:
comportamento de crisc suicida ou homicida, conduta aucolesiva sem in-
tencion.didade suicida (( LASIS), ideação c comunicaçãosuicida, expectati
vas e crenças relacionadas ao suicídio, c afeto relacionado ao suicídio. Esses
comportamentos também estão ..stados na Tabela 1.5. Comportamentos
que interferem na terapia são todos os comportamentos do cliente ou do
terapeuta que afetam negarivamente a relaçao terapêutica ou que compro
metem a efetividade do tratamento. Para os clientes, isso pode incluir falta
a sessões, hospitalização psiquiátrica excessiva, incapacidade ou recusa em
fazer as atividades terapêuticas e exigências excessivas ao terapeuta. Para os
terapeutas, esquecer compromissos ou chegar arrasado a eles, deixar de re
tornar telefonemas, ficar desatento, mudar arbirranamente os acordos e se
sentir desmotivado ou desmoralizado com a terapia. As metas tie qualidade
dc vida incluem quaisquer problemas sérios dc saúde mental, como trans
tornos dc humor ou ansiedade, abuso dc substâncias químicas ou transtor
nos alimentares, fenômenos psicóticos e dissociativos, hem como problemas
corriqueiros, como a incapacidade de manter a estabilidade do domicílio,
negligencia com problemas médicos, violência doméstica e assim por diante.
O Cartáo-Diário
O terapeuta individual monitora esses c outros comportamentos críti
cos por meio do preenchimento, por parte do cliente, de um carráo-diário.
Revisar o cartáo no início de cada sessão auxilia o terapeuta a determinar
quais alvos precisam de atenção naquela sessão especifica. Se o cliente náo
preencher o cartáo ou se esquecer-se de leva- Io para a sessão, isso será con
siderado um compottamento que interfere na terapia. O terapeuta entáo
trabalha com os alvos em ordem de prioridade, tecendo as estratégias nu
cleares de tratamento (mudança, validaçao e dialética). A prioridade de um
Aplicando a lerapia Compntamental Dialética 57
alvo nem sen.pre é proporcional ao tempo de sessão gasto com ele. A meta
do terapeuta é obter o máximo de progresso em cada interação clínica,
equilibrando o que é mais importante com a capacidade do cliente e o tem
po disponível. Isso é descrito em detalhes no Capítulo 6.
Prioridades ao Realizar Consultorias por Telefont
O terapeuta individual também e o principal responsável por assegurar
que os novos comportamentos sejam generalizados para rodos os ambien
tes relevantes. O terapeuta não apenas usa a relação terapêutica como um
lugar-chave para os clientes aprenderem e aplicarem novas respostas, mas
também estrutura a terapia dc forma que garanta que tudo que for apren
dido seja generalizado para todos os contextos necessários. Para tal. o tera
peuta fez consultoria por telefone e terapia in vivo (isto é, terapia fora do
consultório), algo que, na DBT padrão com clientes altamente suicidas e
cmocionalmcntc dcsrcgulados, c considerado vital.
Ligações telefônicas c sessões individuais de terapia têm prioridades di
ferentes. Nos telefonemas, as prioridades do rerapeuta são (1) diminuir os
comportamentos dc crises suicidas; (2) aumentar a generalização dc habili
dades; c (3) diminuir o senso dc conflito, altenaçao e distância do terapeu
ta. Essas ligações dc treinamento são curtas, durando, em geral, de 5 a 10
minutos. Além da consultoria por telefone, o rerapeuta pode usar técnicas
dc treinamento c tratamentos, comunidades terapêuticas, intervenções in
vivo (manejo de caso), revisão de gravações das sessões e intervenções sis
temáticas. Essa função de generalização também inclu i familial es e outras
pessoas que integrem o contexto socai do cliente (Miliei, Radius, DuBo
se, Dexter-Mazza, ôí Goldberg, 2007; Fruzzetti, Sartisteban, &. Hoffman,
200"7; Port, 2010). O terapeuta faz o que é necessário para ajudar o cliente
a transferir o que é aprendido na terapia pata seu cotidiano.
Estágio 2: Experiência Emotional Não Traumática
(Comportamentos Decrescentes Relacionados ao EPM)
A medida que os clientes se estabilizam ganham controle comportamen-
tal c sc tornem mais funcionais, podem entrar no Estágio 2 do tratamento
58 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
(Wagner, 1 mehan, 2006). No Estágio 2. o cliente trabalha com respostas
de transtorno dc estresse pós-traumático (FEPT) c experiências emocionais
traumáticas. Aqui, os alvos incluem sintomas intrusivos decrescentes Ipor
exemplo, sintomas intrusivos de TEPT). esqti'va de emoções (e comporta
mentos que funcionam como evitacáo}. esquiva de situações c experiências
(isto é, eviração que inclui especiricidcdes de TEFL, mas que não se limi
ta aos gatilhos relacionados ao trauma), desregulação emocional (que pode
aumentar ou inibir a experiência emocional, especificamrnte relacionada à
ansiedade/medo, raiva- tristeza, vergonha/culpa) e automvalidação. Diteren-
temente dos alvos do Estágio I, os do Estágio 2 nao são hicrarquizadas; a
priorizaçáo é determinada pelo nível de gravidade e interrupção dc vida cau
sado pelos problemas, pelas metas dos clientes e pela relaçao funcional entre
os alvos. Por exemplo, sc as imagens intrusivas intensificam a ideaçao suicida,
devem ser priorizadas. Sc, dc outra forma, uma intensa autoinvalidação e au-
toavcTsão se relacionam mais ao aumento da ideação suicida, sao prioritárias.
Por causa da prevalência do TEPT ao longo da vida nos indivíduos
que procuram traramrnto para 1PB (36%— 58%; Linehan, Gomtois, Mur
ray et al, 2006; Zanaríni et al., 1998; Zanarini, Frankenburg, Hcnnen, &
Silk, 2004; Zimmerman, & Mattia, 1999) e da alta incidência dc novas
experiências relatadas dc abuso dc adultos (Zanarini, Frankenburg, Reich,
Henr.en, & Silk, 2005; GóliCrCt al., 2003), os protocolos dcTCC baseados
em exposição, como exposição prolongada, devem ser considerados (por
exemplo, Foa et al., 2005; Foa. Rothbaum, Riggs, & Murdock, 1991). No
entanto, os comportamentos comuns a pessoas com desregulaçáo emocio
nal estão associados a um p’or prognóstico na exposição prolongada (por
exemplo, esquiva- depressão grave, ansiedade esmagadora, culpa, vergonha,
raiva, tensão física excessiva, entorpecimento c dissociação; Foa, & Kozak
1986; Foa, Riggs, Massie, & Yarczowe1-, 1995; Jaycox, & Foa. 1996; Mea
dows, & Foa, 1998; Feeny, Zoellner. & Foa, 2002; Hembree, Cahill. ÒC
Foa, 2004; McDonagh et al., 2005; Zayfert ct al., 2005).
Devido à dificuldade em regular e tolerar emoções Intensas, alguns clien
tes podem ter um risco aumentado cie comportamentos impulsivos e autodts-
trudvos durante a terapia bastada na exposição. Portanto, na DBT, o cliente e
o terapeuta são encorajados a avaliar cuidadosamente o quanto o cliente está
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 5?
preparado para se envolver corn a terapia baseada cm exposição (Estágio 2).
Provisoriamente. os indicadoras de preparo incluem: a capas idade de controlar
comportamentos suicidas c* dc autulesão nao suicida* (por exemplo, abstinência
desses comporta_nentos por 2 a 4 meses); um firme compromisso dc não se
engajar nesses comportamentos no haiuro; e demonstração da capacidade de
usar habilidades para manejar com eficiência os impulsos para se envolver nesses
comportamentos. O cliente c o terapeuta podem testar Sc o cliente está pronto
para começar o trabalho do Estágio 2 escolhendo um item da hierarquia de ex
posição de baixo sofrimento c observando como o cliente o maneja. A exposição
c. contramdicada quando o cliente não consegue ser exposto aos gatilhos de trau
ma sem se dissociar ou quando está enfrentando crises ou problemas logísticos
que prejudicam sua participação no tratamento.
Há muitas iniciativas de desenvolvimento de tratamentos cm andamento
para adaptar os procedimentos baseados em exposição para indivíduos com
desregulação emocional c comportamentos suicidas, incluindo técnicas pro
jetadas para melhorar a tolerância ao mal-estar, o aumento da ansiedade r de
outras emoções durante a exposição, e controlar a chance dc suicídio. Para
aqueles com transtorno moderado (por exemplo, aqueles que nao apresen
tam comportamento suicida ou dc autolesão não suicida), um rápido crei
namento de habilidades de DBTantes da exposição (por exemplo, Cfokre
et al., 2002), um tratamento de exposição baseado em DBT (por exemplo,
Bcckcr, & Zayfert. 2001; Zavfert et al-, 2005) ou um tratamento de exposi
ção padrão sem qualquer intervenção de preparo podem funcionar.
Os dados preliminares de f lamed e Linehan 12008) sugerem que o* clientes,
bastante prvcocemente no I stágio 1, podem participar plenamentc da exposição
prolongada ao TEPT se estiverem bem orientados, se seu comportamento esti
ver estabilizado e se tiverem sido adquiridas haln'idades suficientes de regulação
emocional. É esperado que os dientes ainda sintam um impulso, de leve a mo
derado, para se autolesionar ou tentar o suicídio durante o tratamento dc expo
sição. Sc esses impulsos se tornarem minto intensos, a terapia de exposição deve
ser temporariamente suspensa, enquanto o terapeuta principal ajuda o cliente a
recuperar ou fortalecer c controle cumoortamental. Por essa razão, e uril ter um
terapeuta diferente conduzindo a terapia dc exposição., enquanto o principal
continua suas sessões habituais de DBT junto ao trabalho de exposição.
60 Ferramentas para Circunstâncias Difíceis
Ao implementar o tratamento coin base na extensão do transtorno do
cliente e priorizar seus problemas comportamentais, o terapeuta esclarece
quais são as prioridades mais altas, mesmo em circunstâncias caóticas. Em
todos os estágios, a DBT enfatiza o aprendizado para regular as emoções.
Embora a estruturação do ambiente de tratamento dependa da extensão do
transtorno do cliente, a teoria biossocial e as estratégias nucleares se man
têm estáveis. Aplicar as estratégias nucleares da DB1 — mudança, valida
ção e dialética — parece simples dc início, mas o d'abo está nos detalhes.
Em situações clínicas em constante mudança, muitas vezes de alto risco
e emocionalmcnte desafiadoras, a aplicação de conceitos simples torna-se
complexa. As circunstancias quase mfinira« do ripo ‘se, então do trabalho
clínico implicam que você trabalhe, com frequência, com vários conjun
tos de princípios ao mesmo tempo. Iodo momento especifico fitz parte de
uma complexa tapeçaria. E assustador segurar todos os fios, enquanto você
trabalha na minúscula seçao a sua frente tendo a imagem geral em mente.
Na verdade, quando I inchan começou a ensinar DBT, algumas pessoas
que viram suas demonstrações clínicas lhe disseram muitas vezes: “Você é
uma terapeuta talentosa. Vocc tem um estilo pessoal incrivelmente eficaz e
compreende esses pacientes como ninguém, mas isso é simplesmente im
possível para qualquer um.’ E, no entanto, centenas dc terapeutas, com
treinamento e prática, "fizeram o impossível”. Corno Malcolm Gladwell
(2008) argumenta, em sua análise sobre profissionais de destaque, mesmo
que seja importante ter alguns talentos ‘natos, nao c o talento que explica
a diferença de ter um bom desempenho e alcançar bons resultados. E a
prática. E a primeira coisa a praticar é como conceituar os problemas do
cliente usando os princípios da DBT. No Capítulo 2, descreverei como a
formulação de caso é usada na DBT para que um terapeuta estruture a to
mada dc decisões clínicas e planeje o tratamento para um cliente específico.
Independcntcmcnte de você usar o modelo completo e abrangente da DB
ou sua filosofia e estratégias paia baseai sua terapia, a formulação de caso é
o primeiro passo do terapeuta individual.
Desenvolvendo a Formulação
de Caso e o Plano de Tratamento
Este capítulo descreve como a DBT usa a formulação dc caso orientada
pela teoria para o planejamento do tratamento e a tomada de decisões clí
nicas. Uma formulação de caso e um conjunto dc hipóteses a respeito das
causas que originaram as dificuldades de uma pessoa. Fla o ajuda a traduzir
os protocolos gerais dc tratamento cm um plano individualizado, lermos
como “fbtmulaçao e "plano de tratamento são recursos mais concretos,
como mapas. No entanto, a conceiruação de caso da DBT e o planejamen
to do tratamento devem ser um processo arivo.
Rons mndelos dc tratamento básicos, assim como bons mapas, gu:am-
-no por diversos terrenos. Por exemplo, você pode usar o protocolo unifi
cado de Barlow (Allen. McHugh & Barlow, 2008) para gerar uma for.nu
lação t um plano dc tratamento caso o cliente tema e evite aranhas, sofra
de rejeição social, ou tenha sensações e pensamentos perturbadores. Você
ainda pode precisar adaptar exercícios de avaliação e exposição para um
cliente específico. Porem, desenvolver urna conceituaçao e um plano dc
tratamento nessas circunstâncias e como pegar um atalho para a estrada
principal — com o mapa adequado e uma boa bússola, você logo estará no
caminho certo.
E mais complicado encontrar o cantinho quando a pessoa tem multi
pios problemas crônicos graves. Vote está sempre em um território inex
plorado, onde nem a literatura nem as fontes locais sáo uma orientação
< oníiável. Além disso- as formas típicas de avaliar o progresso da terapia náo
funcionam, pois suas intervenções são consideradas invalidantes e evocam
62 Desenvolve ndu a Formulação de Caso e 1» Plano de Tratamento
uma desregulação emocional extrema. Dar sencido ao que esrá acoiitecen-
do e ao que é necessário é como viajar em uma nevasca com neblina: você
pode sentir que está chegando 10 desuno, mas não consegue conferir se esse
progresso é legítimo.
Portanto, na DBT. você precisa estar ativo. A orientação é a melhor me
táfora para a formulação de caso e o planejamento de tratamento de DBT,
pois transmite o tipo de atividade necessária para encontrar o caminho do
ponto A ao pomo B. Você precisa ser capaz de kr seu cliente, localizá-lo
e usar a ciência e os tratamentos relevantes que oferecem orientação. Vocc
também deve sempre verificar seu progresso e reavaliar sua rota, caso ne
cessário, mas mantendo o foco no destino. A quantidade e a complexidade
dos obstáculos encontrados no caminho exigem uma jornada cada vez mais
flexível, porém disciplinada. Três conjuntos de conceitos, apresentados no
Capítulo 1, orientam-nos na DBT:
• As hierarquias de alvos priorizam o que avaliar e tratar corn base
na gravidade dos problemas dos chentes.
• A teoria biossocial é usada para entender o problema nuclear
da dcsregulaçáo emocional generalizada. Assumimos que (1) a
vulnerabilidade biológica e a invalidação social são fatores que
contribuem para a desregulação emocional, e (2) comporta-
mentos-alvo primários e secundários são prováveis consequên
cias da desregulação emouonal ípor exemplo, dissociação) ou
funcionam como soluçoes do cliente para esse problema (isto é,
proporcionam alívio temporário dos estados aversivos).
■ As teorias comportammrais de mudança sao usadas para identi
ficar as variáveis dc controle e os fatores que contribuem para os
comportamentos alvo primários. Entre esses, estáo a dcsrcgula-
ção emocional e a invalidação, deficits de habilidades cspecífkas,
respostas emocionai' condicionadas problemáticas, contingcn
cias ou fatores cognitivos. As teorias comportamenta is guiam as
intervenções usadas para consolidar respostas alternativas mais
adaptativas.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 63
Lsamos cases conceitos dialeticametMe para formular problemas c pla
nejar o tratamento. A idéia principal aqui e. a verdade se desenvolve. O
terapeuta individualmente não encontra seu caminho somente a partir da
lógica dc um conjunto imutável dt fatos, tampouco o raciocínio clínico c
um processo rclativista em que vale tudo. Em vez disso, voce assume uma
postura dialética. Isso significa que você participa de uma série de diálo
gos, com o cliente e outras figuras importantes para seu trabalho conjunto,
como as pessoas próximas do cliente c a equipe de consultoria. Essas con
versas são formadas pela base dc evidências científicas e pelas experiências
de vida dc cada um de vocês. Esses diálogos levam a sínteses. Ao formular
os problemas do cliente, só c possível reter uma parte da ‘veidade”. As
perspectivas alheias (como pais c psiquiatras)ou as observações do cliente
ern diferentes momentos (por exemplo, de bom humor versus em estado de
crise) são partes de um todo maior. O que se sabe da ciência a respeito do
“cliente típico' pode ou nao se aplicar a determinada pessoa, pois o que “se
sabe’ muda com o tempo. A compreensão é parcial c sempre omite algo
importante, ainda que, através dos diálogos, experimentemos as contradi -
ções merentes à própria posição — através dos diálogos chegamos a verda
des mais completas e coerentes, que nos ajudam a mudar.
Em outras palavras, o propósito da formulação de caso e do planeja
mento do tratamento na DB1' não c alcançar um entendimento “correto”,
mas lidai, de maneira construtiva, com a tensão das formulações opostas.
Em vez de escolher uma em detrimento da outra, a tensão é usada para criar
um terceiro modelo, mais completo, do que c válido cm cada situação. Di
gamos que um cliente sotra dc fobia soei il. Pegar uni ônibus para participar
de um grupo de treinamento dc habilidades deve ser muito difícil (apesar de
ele ir à igreja de ônibus em alguns dnmingos). O plano de tratamento deve
se basear na aceitação de sua vulnerabilidade e, portanto, não deve forçar
sua participação nos grupos, ou deve impedir a esquiva, insistindo nas ati
vidades de que precisa para mudar?
Ao formular esse dilema na DBT, você partiría da consideração de que
o atendimento em grupo é demasiado difícil, e também necessário. A ava
liação dialética e o planejamento do tratamento preservam as duas cons.de-
rações, de modo que as soluções incorporem o que é válido para cada uma
64 Desenvolvendo a Forrnulyçãn de Casu e o Plano de Tratamento
delas. Por exemplo, o plano dc tratamento inicial pode se basear na aceitação
de que o cliente é incapaz dc pegar ônibus e, ao mesmo tempo, motivar uma
mudança oferecendo treinamento dc habilidades tn vivo ao pegar o ônibus
para as sessões semanais. Da mesma forma, a mudança às vezes é tão lenta,
e a angústia do cliente, tão meessante, que não e possível saber sc o plano de
tratamento e*ta sendo ineficaz ou sc de fato está funcionando e, portanto,
deveria ser preservado» Na DBT, cm vez de assumir cm pressuposto (a terapia
está ou náo funcionando), você deve considerar ambas as opções ao mesmo
tempo, buscando o que é válido para cada ideia c assumindo que a verdade «e
desenvolve. Mementos aparentemente contraditórios podem ser sintetizados,
e, dc início, algo acabará extrapolando o entendimento.
Na prática, formular e planejar o tratamento funciona melhor se vocè
usar esses conceitos em três etapas. Primeiro, faça uma avaliação para deter
minar o estágio apropriado do tratamento com base no quanto o compor
tamento do cliente está desorganizado. Em particular, procure instâncias
de pré-tratamento e comportamentos-alvo do Fstágio I. Segundo, procure
as variáveis que controlam esses alvos primários do pré-tratamento e do
Estágio 1. Fm particular a teoria biossoc.al nos indica a invalidação, ou
outros eventos que podem desencadear a desregulaçáo emocional. Procure
principalmente padrões reincidentes nos alvos. Por fim, use as análises de
solução c de tarefas para obter planos dc minkratamcnto, a fim dc alterar as
principais variáveis que orientam os alvos principais.
Vamos verificar etapa por etapa para ver como gerar uma lormulaçáo
inicial e, em seguida, usá-la para orientar as interações clínicas.
ETAPA 1: FAÇA AVALIAÇÕES USANDO ESTÁGIOS
E ALV OS DE TRATAMENTO
Ao formular e planejar o tratamento, a primeira etapa é levantar o
histórico para determinar o estágio apropriado do tratamento. Essa etapa
crucial define se um tratamento abrangente sera necessário para ajudar o
cliente. Desde o primeiro contato, use a estrutma de estágios c alvos primá
rios, descrita no Capitulo 1, pata orientar sua avaliação do cliente. Separe
o tratamento em estágios que coincidam com o grau de transtorno dos
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 65
comportamentos. A Tabela 2.1 mostra exemplos dc questões dc avaliaçao
organizadas de acordo com a hierarquia de alvos. Quando perguntar poi
exemplo: ‘O que o trouxe a terapia?”, ouça a resposta com a hierarquia de
alvos em mente. Em um momento apropriado, você pode pedir informa
ções sobre cada alvo em questão — por exempio: "As coisas ficaram tio
ruins que você tem pensado mui to cm morte ou ate mesmo em suicídio?”,
“Como foi am as terapias que já fez?
Se as respostas do cliente se alinharem a algum dos estágios do trata
mento (como o Estágio 1: “Sim, tentei me matar e acabei no tratamento in
tensivo” “As coisas com meu úkimo terapeuta não deram certo’, “Fiz mui
ta terapia, mas nada parece adiantar”, ou, “Não espero muito da terapia,
porém nao sei mais o que fazer”), use a hierarquia dc alvo correspondente
para orientar a avaliação postet.or de cada um deles. Sc o cliente parecer
ambivalente a respeito da mudança de um comportamento específico, ou
da terapia em si, use os alvos de pré-traramento para orientar as perguntas.
Se teve pensamentos mórbidos e sentiu que estaria melhor mono, ou teve
resultados ambíguos em sessões anteriores, pense nos alvos do Estágio 1
para fazer perguntas sobre uma lista mais abrangente de problemas.
Quais dificuldades (se houver) os clientes tiveram com autolesão inten
cional e outros comportamentos que ameaçam a vida? Por que desistiram
da terapia e o que os impediu de receber a ajuda dc que precisavam dos
terapeutas e de outras pessoas? Quando os clientes relatarem históricos de
fracassos terapêuticos, certifique-se dc avaliar qua;s funções de um trata
mento abrangente faltaram ou causaram problemas (por exemplo, houve
enfoque suficiente- em ampliar as habilidades c a generalização? Houve tra
balho individual suficiente sobre a metivaçao? O terapeuta recebeu o apoio
adequado?). Contra quais problemas significativos, armentes à qualidade
de vida, a pessoa luta? Avalie cada um. Por fim, dc que habilidades a pessoa
precisa, mas carece? O treinamento de habilidades da DBT é voltado a de
ficits comuns dc mindfulness, regulação emocional, tolerância ao mal-estar
c eficácia interpessoal. Procure evidências de que os deficits de habilidades
em uma ou mais dessas áreas desempenham um papel importante nos pro
blemas do cliente.
óó Jesenvolvcndo a Formulação dc Caso e o Plano dc Tratamento
Tabela 2.1 Perguntas e Recursos dc Avaliação por Lstagio e Alvo
PrL tratamento
O terapeuta c o cl iente podem entrar em acordo quanto aos:
• Objetivo* do tratamento?
• Métodos do tretame nto?
O terapeuta e o cLente podem se comprometer a cumprir todos os acordos?
Quais barreiras (se houver) impedem o:
• Acordo sobre os objetivos c métodos da terapia?
• Compromisso suficiente com o tratamenro?
Defina qualquer desacordo ou ambivalência de qualquer um dos lados. Avalie a» variáveis
de controle. IrabaBic cm função dc um acordo e dc- um compromisso.
Estágio
Existe risco dc ocorrer algum comportamento ameaçador à vida?
Autolesáo intencional?
(Para o cliente) As coisas ficaram tão ruins que você anda pensando muiro em morte ou
acedua que estaria melhor morro?
IPara o cliente) Vocc já tentou se matar? Já teve qualquer autolesão intencional?
Investigue a possível existência de crises de suicídio, conduta autulesiva sem intencionali-
dade suicida (CAS1S), ideação suicida c expectativas, crencas e afetos relacionadas ao suici -
dio. Avalie principalmente tentativas letais dc suicídio, condutas de autolesão com g'andc
intenção dc causar morte c outros comportamentos de autolesáo graves.
Quais comportamentos do clier.te e do terapeuta podem interferir na terapia?
Se o tratamento anterior foi um fracasso em porre, isso se deu à falta dc tratamento abran
gente (ou seja, foram fornecidas rodas as cinco funções)?
(Para o ciiente) Como a terapia anterior foi para você? Como era a ajuda oferecida?
(Tc-iapcuta/cquipe de consulrorii) Analise se as cinco funções foram pmporcionadas na
terapia anterior.
Quais problemas crônicos graves interferem na qualidadede vida do cliente-?
Quais deficits de habilidades prejudicam o cliente?
Estágio 2
A própria expenencia emocional é traumatizantc?
Existem respostas de TEPT que interferem na qualidade dc vida do cliente?
Aplicando a Terapia Cnmportamentai Dialética 67
Agora, considere duas pessoas, Sam incha e Jonelle, novos encaminha
mentos paia a prática de DBF. Vamos entender como avaliar o estágio
apropriado do tratamento durante uma sessão inicial ou de avaliação.
Samantha
Antecedentes e Histórico
Samantha é uma jovem de 24 anos que foi encaminhada ao programa de
DB F do hospital psiquiátrico estadual. Ela se corta e se queima nos braços
e pernas, e teve uma overdose de analgésicos com intenção ambivalente de
morrer (“Se acontecer, aconteceu; como uma roleta-msfa ). Samantha toma
opiáceos para tratar a dor crônica nas costas. Aos 21 anos, sofreu um acidente
de carro, foi atingida por um motorista bêbado e teve ferimentos graves. O
passageiro no carona, que estava com ela. morreu no acidente. Ela tem lutado
contra a bulimia e a autolesão desde os 16 anos; mas, de|M>is do acidente, sua
■ntenção dc morrer e seus comportamentos suicidas pioiaram, e os transtornos
alimentares se agravaram do ponto de vista clínico. Ela abusa de álcool e drogas
c- ultirnamcnte, o fez tanto que criou probkmas cardíacos, que acarretaram
uma internarão. Quando foi estabilizada, foi transferida para o hospital esta
duál. O terapeuta ouviu da pessoa que a atendeu que Samantha e a equipe do
hospital estadual moveram montanhas para conseguir lazer com que ela mo
rasse com uma tia, a fim dc conseguir realizar uni programa dc DBI
Identificar o estágio de tratamento ajuda o terapeuta a organizar o que
sabe até o momento Como ele respondería às perguntas da Tabela 2.1,
considerando apenas o histórico de Samantha? Eis uma amostra.
Pré-Tratamento: O Cliente e o Terapeuta Podem Chegar a um
Acordo sobre as Metas e os Métodos Terapêuticos? Quais Barreiras
(Se Hiuver) Comprometem o Tratamento?
O esforço da cliente, de sua família e da equipe do hospital estadual em
marcar a primeira consultoria já indica algum grau de comprometimento.
A maioi prioridade do Estagio de pré-tratamento para as sessões iniciais
é avaliar os objetivos de Samantha, incluindo: seu desejo de parar o com
portamento suicida e outros upos de autolesoes intencionais, acabar com
68 Desenvolvendo a formulação dc Caso e u Plano de Tratamento
os transtornos alimentares e se morivar a desenvolver métodos alternativos
para lidar com as emoçoes intensas.
Estàfrio I: Algum Comportamento Oferece Risco à Vida?
Nesse estágio, é necessário fazer uma avaliação completa. Um terapeuta
de PB 1 precisa dos detalhes sobre cinco tipos dc comportamento que ofere
cem risco à vida tem ordem decrescente dc prioridade): (1) comportamentos
de crise suicida, (2) comportamentos dc autolesão sem intencionalidadc sui
cida (CAS1S), (3) ideaçao c comunicação suicida* (4) expectativas e crenças
relacionadas ao suicídio e (5) afeto relacionado ao suicídio. Antes ou no iní
cio do tratamento, o terapeuta precisa reunir detalhes sobre a frequência da
autolesão intencional no ultimo ano, incluindo exatamente o que foi feito,
a intenção da ação e se foi necessário atendimento médico, l-sse histórico é
essencial para avaliar com precisão o risco de suicídio, para começar a identi
ficar situações que evocam a ideaçao Miieida e a autolesão intencional, e para
administrar as crises suicidas. Em particular, o terapeuta precisa identificar as
condições associadas a (1) tentativas dc suicídio quase letais, (2) outros atos
de autolesão com grande intenção de morrer c (3) outro comportamento de
autolesao grave do ponto de vista clinico. As informações que temos a respei
to de Samantha indicam que é necessária uma avaliação mais aprofundada.
Estágio 1: Há Histórico de Comportamento tpie Interfere na Tmpia!
Esse segundo alvo primário do Estágio 1, comportamentos qut interfe
rem no tratamento, considera comportamentos do cliente ou do terapeuta
que prejudicam a relação terapêutica ou que comprometem a eficácia do
tratamento- conforme descrito no Capítulo I. As informações sobre esses
alvos devem ser obtidas a partir dos históricos de tratamento c dc super
visão. Ainda não remos muitas informações a respeito do históriõò de tra
tamento de Samantha, então precisamos obtc Ias. A equipe de consultoria
ajuda o terapeuta a antecipar o próprio comportamento que pode vir a
interferir no tratamento cm relações terapêuticas futuras. Se Samantha fos
se sua nova cliente, que comportamentos com potencial interferente você
levaria ã terapia: Quais são suas maiores fraquezas (atrasos, limites muito
restnuvos) e o que pode set evocado pelos problemas dc Samantha (falta
Aplicando a Terapia Compurtamcntal Dialética 69
de atualização sobre a avaliação c o tratamento deTEP f ou dor, vieses que
você cem por set pai dc filhos da dade de Samantha)?
Estágio 1: Existem Comportamentos que Prejudicam Sei iamente
a Qualidade de V ida do Cliente?
A maneira mais rápida de avaliar a terceira área-alvo principal a qua
lidade dc vida, seria realizando uma análise diagnostica e do histórico psi-
cossocial completo, para entender a variedade de problemas que Samantha
vivência. Avalie dc que forma problemas como transtornos dc humor e
ansiedade, abuso de drogas, transtornos alimentares, fenômenos psicóticos
e dissociativos, incapacidade dc manter moradia estável desatenção a pro
blemas médicos ctc. podem prejudicar a qualidade de vida cío cliente, in
fluenciar a autulesáo c também interferir na terapia. Até agora, o terapeuta
sabe que precisa avaliar o transtorno alimentar de Samantha, a dor crônica,
o uso de narcóticos, suas internações recorrentes e sua estabilidade de vida.
Como Samantha sobreviveu a um acidente dc carro em que outros não
tiveram a mesma sorte, c como seus probkmas pioraiam logo após, o tera
peuta deve avaliar o TEPT. O tratamento do TEP1 é adiado até o Estágio
2, quando o cliente* tem regulação emocional e controle comportamental
suficientes para manejar o aumento da emoção evocada. No entanto, no caso
de Samantha, precisamos descobrir se existe uma relação iuncional entre o
acidente e suas dificuldades. Será que alguns de seus atuais comportamentos
de Estagio 1 evitam ou regulam emoções ou memórias relacionadas ao aci
dente? Se a lembrança do acidente continuar a afetá-la e estiver vinculada à
autolesão. esses fatores podem se tornar alvixs prioritários de Estágio 1.
No entanto, se forem indicados procedimentos baseados em exposição,
sao necessárias avaliação c cautela para garantir que o cliente nao adete os
comportamentos de Estágio 1 para lidar com a intensificação de experiências
emocionais íHarned, & 1 inchan, 2W)8). Se o comportamento de Samantha
se tornasse mais instável, ou o impulso de autolesão intencional se tornasse
mais difícil de controlar quando o terapeuta falasse sobre o acidente, isso
indicaria que os alvos de Estágio 1 deveriam ser almrdados antes daqueles do
Estágio 2. A intermitência dos comportamentos dc Estágio I , bem como a
7ü Desenvulvendo a Forniuhçáo dc Caso e o Plano de Tratamento
velocidade da nova regulação (cm vez da presença dc qualquer instância de
comportamento) determinariam se Samantha estaria pronta para lidar com
as respostas doTEPT. Samantha c seu terapeuta devem testar os limites, abor
dando alguns aspectos do trauma que não causam tanta angustia, para verifi
car sc ela consegue lidar com a exposição de maneira segura.
Jonelle
Antecedentes r Histórico
Agora, considere Jonelle, que encontrou o terapeuta na internet. Ela é
uma assessora jurídica de 28 anos. Ao falar com ela pelo telefone, o terapeu
ta descobre que seu filho, de quatro anos, foi expulso da segunda creche,
devido a problemas dc conduta e arençáo. Fia e o filho vivem com sua
mãe, que critica a postura de Jonelle. Ela diz que fica paranoica c sc sente
humilhada devido aos comentários da mãe com rodos os vizinhossobre a
filha louca”. O tom das discussões com a máe e o namorado dela sobe a t?l
ponto que os vizinhos chegaram a chamar a polícia. Na última discussão,
Jonelle ficou bastante irritada, trancou-se no banheiro c socou as pernas
arc se acalmar. Jonelle disse que considerava o suicídio naquela época e que
ate chegou a pegar os medicamentos para problemas cardiovasculare* e os
indutores do sono da mãe. Porém, pensar cm como isso afetaria seu filho
a fez. desistir. Ela disse que a única coisa boa que tirou daquela experiência
sombria foi a certeza de que o suicídio nunca mais seria uma opção.
Quando o terapeuta lhe oferece uma sessão, ao final da tarde. Jonelle se re
trai, devido à preocupação cm tirar folga no novo emprego. O custo da tetapia
também é um problema, pois ela está [tagando empréstimos estudantis. O fato
dc o terapeuta cobrar por sessões canceladas sem aviso prévio de 24 horas tam
bém não funciona pata ela, dada a frequência com que precisa lidar com o mal
comportamento do filho. Ela viu na internet que parte da DB 1 se baseia na
terapia em grupo, e essa idéia a desmotivava. Quando o terapeuta faz com que
ela ps rceba o nível de dificuldade que enfrenta em certas situações, ela respon
de: “Preciso mesmo é me casar. Sair da casa da minha mãe arrumar dinheiro
para pagar meus empréstimos e alguém que consiga controlar mru filho.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 71
Vamos ver como o terapeuta usa a hierarquia de alvos para organizar o
que sabe a respeito das batalhas de Jonelle.
Pré-Tratamento: O Cliente e o Terapeuta Podem Chegar a um
Acordo nobre as Metas e os Métodos Terapêuticos? Quais Barreiras
(Se Houver) Comprometem o Tratamento?
Tendo em vista suas finanças, a configuração do novo emprego e as res
ponsabilidades como mãe, a opinião de Jonelle a respeito de investir tempo
e dinheiro na teiapia é ambivalente. Sena adequado avaliar e abordar suas
ressalvas, além de esclarecer seus objetivos terapêuticos. A DBT é uma pos
sível recomendação de tratamento para Jonelle, com base nos dados que o
terapeuta possui até agora. Esses dados incluem o relato de um caso de crise
suicida e autolesão intencional aparentemente influenciada pela invalidação e
dificuldade de regUiaçao emoc ional, mas o terapeuta ainda não sabe se esse é
um padrão. Uma avaliaçao mais aprofundada pode ndrear que uma opção de
tratamento válida seria a terapia de curto prazo, focada em ajuda-la a sair da
casa da mãe. Podería também ser tocada em treinamento de pais para ajudar
lonclle c sua mãe a negociarem conflitos a respeito do temperamento difícil
do filho. Apenas uma avaliaçao mais aprofundada mostraria se Jonelle se en
caixa no Estágio I e, portanto, precisa de tratamento abrangente.
Estágio l: Algum Comportamento Oferece Risco à Vida?
Avalie as categorias de autolesão sem inrencionalidade suicida e de com
portamentos suicidas, como descrito antenormente (crises comportamen-
tais suicidas; conduta aurolesiva sem intencionalidadc suicida; .deação e
comunicações suicidas; expectativas, crenças c afeto relacionados ao suicí
dio). Mais precisamente, busque entender o quanto ela está determinada a
nunca mais tentar o suicídio. Avalie também o potencial de agressão tísica
contra a mãe e o filho. Mais uma vez, se aquela foi uma crise isolada, você
pode acrescentar elementos da DBT em um plano dc tratamento, em vez
de aplicar o modelo abrangente. No entanto, se houver vários casos dc
crises suicidas ou de autolesões, a DBT abrangente deve ser considerada.
72 Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
Estágio l; Ha Histórico de Comportamento que Inter fere na Terapia?
Há grande probabilidade dc cerros com porta men ros interferirem na te
rapia — as circunstâncias de Jondk já rndicam que essa é uma área crucial
a ser discutida. Como mãe de um fizho pequeno com problemas compor-
tamentais, ela pode precisar cancelar uma sessão no último minuto. Como
uma recém-íòrmada qie está qirtando empréstimos estudantis, pode pre
cisar dc tarifas variáveis. Ela tem certa rejeição pdo treinamento de habili
dades em grupo, então o terapeuta precisa entendê-la e saber como resolver
as barreiras, se for decidido que esse é um elemento essencial ao plano de
rraramento. O terapeuta precisará esclarecer como os próprios limites se
ajustam às necessidades dc flexibilidade de Jonelle. 1 necessário chegar a
soluções que atendam a ambas as partes antes de iniciar a terapia.
Estágio 1: Existem Comportamentos que Prejudicam Seriamente
a Qualidade de Vida do Cliente?
Urna boa entrevista diagnostica e uma análise do histórico psicossocial setâo
necessárias, com detalhes sobre cada uma das árcas-alvo principais. Isso deter-
ruinase xs dificuldades de Jonelle são resultado de um conflito situational mais
discreto ou um padrão generalizado. O mantia é: ‘Avaliar, cm vez de prcsuinii.
Como esses dois exemplos de caso mostram, xs hierarqnias-alvo o orien
tam- desde os primeiros momentos dc contato, a dctcrm.nar o foco do trata
mento e o quao abrangente deve ser.
ETAPA 2: PRO( URE PADRÕES DE VARIÁVEIS DE
CONTROLE PARA CADA ALVO PRIMÁRIO
Quando uma determinada área-alvo sc mostrar relevante para determi
nado cliente, selecione exemplos específicos desse componamenio-alvo e
use a análise em cadeia para idenrificar as variáveis de controle. Essas são as
condições que originam os comportamentos problemáticos e, cambem, que
viabilizam as melhorias.
Aplicando a Terapia Cnmportamentai Dialética 73
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74 Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
A avaliação comportamental (veja Haynes, & O Brien, 20001 propicia
a identificação das variáveis de controle. Supôe-se que os comportamentos
problemáticos dc cada indivíduo sejam controlados por um padrão único
dc variáveis, que diferem conforme as circunstâncias. Por exemplo, os fato
res que levam um ind.víduo a tentar o suicídio são diferentes dos de outro.
Ainda considerando o mesmo indivíduo, o que levou a uma tentativa pode
ser diitrCnte do que levou a outra. Portanto, para entender um compor
tamento específico, problemático ou característico dc transtorno, a DB I
baseia-se em um método refinado de análise funcional chamado análise em
cadeia.
Ar álise em Cadeia Comportamental
Uma análise em cadeia comportamental é uma análise apiolündada de
eventos c fatores contexruais antes e depois dc uitiâ .nstãiicia (ou conjunto
dc instâncias) do compurtamento-alvo. É uma maneira de identificar as
variáveis de controle para o comportamento. Você e o cliente desenvolvem
juntos uma descrição razoavelmente completa. O foco é pragmático: o que
seria necessário para que a sequência dc eventos fosse diferente, dc modo
que o comportamento problemático não ocorresse, e, cm vez disso, o clien
te tivesse o resultado desejado?
Etapas de Condução da Análise eni Cadeia
C omece a analise em cadeia definindo o comportamento problemático
e escolhendo uma instância para analisar. Por exemplo, o comportamento
problemático a ser analisado pode ser o cliente ter caído cm lágrimas quan
do um supervisor criticou seu trabalho. O terapeuta é o cliente identificam
dois tipos importantes de variáveis dc controle: eventos desencadcanres e
fatores de vulnerabilidade. Eventos destncadeantes sáo os eventos imedia
tos, que iniciam a cadeia c levam ao comportamento problemático. Fatores
de vulnerabilidade criam um contexto no qual os eventos desencadeantes
exercem mais influência, por exemplo, doença física, privação de sono ou
outras condições que influenciem a reatívidade emocional.
Anlicando a Terapit Comportamental Dialética 75
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76 Desenvolvendo a Forrruliição de Caso e o Plano de Tratamento
No exemplo, a crítica do supervisoré o evento desencadeanre. Normal-
incntc, esse é o t:po dt evento que desencadeia uma leve irritação. No entan
to, no contexto de dois fatores de vulnerabilidade, corno privação de sono e
prazo apertado, a crítica desencadeia as lágrimas. Os fatores dc vulnerabili
dade definem o contexto em que os eventos dcwncadcanrcs têm mais poder.
Em seguida, o terapeuta e o cliente identificam cada tio entre o evento
desencadcantc c o comportamento problemático para fornecer um relato
detalhado de cada pensamento, sentimento e ação que moveu o cliente
do ponto d ao pomo B Uma atenção especial deve ser dada às interações
recíprocas entre os eventos ambientais c as respostas emocionais, cognitivas
e publicas do cliente. Por fim. o terapeuta c o cliente identificam as conse
quências associadas ao comportamento problemático — as reações imedia
tas e tardias do cLente e outras decorrentes do comportamento problemá
tico. Organizar visualmente as análises cm cadeia c bastante proveitoso. A
Figura 2.1 ilustra uma maneira de organizar seus elementos.
Análise em Cadeia do Comportamento Suicida d* Jonelle
Vejamos agora a análise em cadeia da mais recente crise comportamen-
tal suicida intencional de Jonelle. A Figura 2.2 mostra como a experiência
se desenrolou. Dutante a sessão com Jonelle, o terapeuta começou pelo
comportamento problemático — Jonelle se preparando para tomar uma
overdose com os remédios da mae — e depois trabalhou com ela para dt
talhar o que a levou àquele ponto e o que veio a seguir. Jonelle contou a
história cronolog.caraente, da seguinte maneira.
O evento desencadcantc começou durante a manhã, quando o filho
de Jonelle estava em casa, doente, fazendo com que ela perdesse o dia de
trabalho no novo emprego. Ele já estava se queixando dc tédio e começou
a bagunçar o closet Ac Jonelle. Quando ela se virou pata pedir a ele que fi
zesse outra coisa, percebeu que a mãe parara na porta do quarto, atrás dela,
para observar a interação (evento dcsencadeante). jonelle disse que isso a
dc'xava “no limite1. Ela disse que estava prestes a dizer ao filho: “Mais cinco
minutos c você vai brincar em outro lugar", mas, corn a mãe a observando,
ela disse, tensa: “Saia, não preciso de você brincando no rneu closet. O dia
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 77
grama mostra o turbilhão dc pensamentos, emoções, açoes e eventos que
vinculam o evento desencadcanie ao comporramcnto-alvo problemático.
Enquanto esperava que ele a obedecesse, Jonelle disse que imaginou ou
vir a mãe dizer: "Você tem que ser time com ele, Jonelle.” Ela sentiu uma
tempestade de emoções: irritação e medo, enquanto antecipava as críticas
da mãe; vergonha de que ela nao conseguisse fazê-lo lhe obedecer; mágoa
pelo fato de que sua mãe, de todas as pessoas, não compreendia como era
difícil ser mãe do menino; desconforto na boca do estômago e a sensação de
náo ter saída. O filho ignorou o pedido. Sem pensar, ela gritou: “Eu disse
para sair daí!" Sua mae então caminhou até o clo>et e disse para o menino
em um tom suave: “Vamos lá, querido, vamos saii da barra da saia da sua
máe. Esse comentário pareceu extremamtntc crítico para Jonelle — a ma
neira indireta de sua máe dizer que ela estava exagerando e que precisava
proteger o filho dela. Parecia que a mãe tinha dito: “Sua mãe é louca, fique
quieto e pise cm ovos quando estiver perto dela, para náo a irritar.”
Jonelle ficou furiosa ao ver a mãe minando sua autoridade, então a em
purrou, começando uma discussão que fez o filho sair correndo do quarto
chorando. A mãe de Jonelle disse: “Olha o que você fez! Você está assustan
do e deixando aquele menino louco! Jonelle disse que, a essa alrura, escava
vermelha e tinha um desejo intenso de estrangular a mãe. Em vez disso, ela
gritou dc frustrarão e deu um soco na frágil puna do quarto.
Quando percebeu que e«tava ficando cada vez mais fora de controle, ig
norou a mãe, trancou-se no banheiro, sentou-se no vaso sanitário c socou suas
coxas para se punir c se acalmar". Jonelle disse que chorava histericamente
no início, mas que se acalmou após cerca dc 5 minutos se autolesionando. En
tão sua mãe foi ate a porra do banheiro e disse: “Vou chamar o serviço de pro
teção infantil, descobrir corno conseguir a guarda e tirar meu neto de você.
Quando ela disse isso. Jonelle de repente sc acalmou. Ela disse que achava que
poderia acabar com a situação se deixasse a mãe cuidar do filho. Ela disse por
detrás da porta: “Sei que você ama seu neto. Faça o que julgar correto. Só pre
ciso dc um momento para refietir, ok? Apenas me dé um pouco dc paz. Ela
esvaziou os frascos de medicação para problemas cardiovasculare* e de sonífe
ros na pia do banheiro, pegou um copo de água e ligou o chuveiro para que a
78 Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
mãe náo a interrompesse (cumportamento-alvo problemático: planejar uma
tentativa de suicídio). Ela disse que ficou com medo e que lambem pensava
no <jue o suicídio causaria ao filho. Então, percebeu que nunca poderia fazer
isso com ele. Ela tomou um banho até conseguir acalmar os ânimos. Depois,
foi para a cozinha, e sua mae lhe disse: “Ou você procura ajuda ou sai daqui,
e eu vou ficar com a guarda desse menino” (consequências).
Procurando Variáveis de ( ontrole na Análise cm Cadeta
Como mencionado, uma análise em cadeia detalhada permite que o
terapeuta identifique cada conjuntura em que uma resposta alternativa po
dería ter evitado o comportamento problemático. A hierarquia de alvos, a
teoria biossocial e as teorias comportamentais ajudam a orientar o processo
dc identificação das variáveis de controle.
Fm prmciro lugar, a hierarquia dc alvos informa- nos quais são as prio
ridades: avaliar e rrarar os fatores que levam ao comportamento suicida
(pegar os medicamentos da mãe c planejar uma overdose), e, em seguida,
lidar com o comportamento de autolesão (socar as pernas) e compreender
o potencial de violência (em relação à mae). Observe que cada um desses
importantes comportamentos problemáticos pode, por si só, ser o alvo de
uma análise em cadeia. No entanto, como nesse exemplo estamos nos con
centrando na prioridade mais alta, que é o comportamento suicida, com
portamentos problemáticos como socar as pernas e discutir com a mãe são
vistos como elos ao longo da cadeia que levam ao comportamento suicida.
Em segundo lugar; a teoria biossocial nos recomenda procurar a desregu-
laçáo e a inva’idação da emoçãn como antecedentes desses comportamentos
suicidas c dc autolesão. A invalidação da máe parece ter contribuído para a
desregulação emocional de Jonelle. A teoria bi<>ssocial tamlvém sugere que
os comportamentos-alvo primários podem ser urn resultado do estado emo
cional avassalador ou podem funcionar para acabar com ele. Jonelle descreve
ambos. As vezes, ela se sente tao fora de controle que parece descontar cm
qualquer coisa (o comportamento fota de controle c parte da emoção extre
mamente desrcguladai. Em outros momentos, ela se bate deliberailamente
para se acalmar (o comoonamento disfuncional regula a emoção).
Aplicandu a Terapia Comportamental Dialética 79
Em terceiro, as teorias comportarneniais áe mudança sugerem que as
respostas disfuncionais provém dc mn ou mais dos quatro fatores: defiats
dt habilidades, reações emocionais problemáticas condicionadas, contin
gências e processos cognitivos. As combinações desses fatores são infinitas,
como sabores doces, salgados, amargos e azedos. Observe o possível papel
que cada um desses fatores desempenha antes e depois dos comportamen-
tos-alvo na análise em cadeia.
L)efiç’its de Habilidade;
Primeiro, avalie sc o cliente possui as habilidades necessárias. O c’iente
pode (I) regular suas emoçoes; (2) tolerar o mal estar; (3) responder com
habilidade ao conflito interpessoal: e (4) observar, descrever e participar
sem julgar, com consciência e focando a eftcácM? Quando os clientes não
possuem determinada habilidade, é apropriado que sc faça umire namen
to. 1 possível que Jonelle não possua hab..idades de asscrtividade — por
exemplo, ela não é capaz de pedir à máe para parar de vigiar seu relaciona
mento com o filho. O terapeuta deve avaliar essa situação com mais cautela.
Acontece que Jonelle costuma evitar conflitos com a mae, aquiescendo e
sc ressentindo — e acaba explodindo C) mesmo padrao sc aplica aos re
lacionamentos passados. No trabalho, no entanto, evitando conflitos, ela
sempre conseguiu evitai explosões. Em todas as situações, ela raramente
observa seus limites ou pede o que quer — aqui os deficits de habilida
des contribuem. Outra hipótese é de que Jonelle não tenha habilidades
para acalmar sua friologia, tolerar o mal-estar e regular as emoções. Na
entrevista inicial, Jonelle relatou ter sido uma criança sensível e disse que,
quando adolescente, drogava-se o tempo todo paia conseguir tolerar a mãe.
Agora que esta limpa, sóbria, e a máe está sempre a analisando, ela fica tão
irritada c nervosa que não consegue viver sob a própria pele. Nessa situa
ção, também, os deficits dc habilidades podem ser uma variavel .mportanrc:
se Jonelle tivesse várias maneiras eficazes de tolerar e manejar a excitação
emocional, esse sena um fator dc grande influência sobre o rompimento da
cadeia e o afastamento dos componamentos-alvo primários.
80 Desenvolvendo a Formulação dt Caso c o Plano de Tratamento
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Aplicando a Terapia Comportamental Dialética fll
Você pode avaliar se o cliente possui as habilidades necessárias dc várias
maneiras, lima delas c pedir detalhes a respeito de como um problema ou
interação foi abordado cm diferentes circunstâncias. Você pode observar o
comportamento do cliente diretamente. Pode perguntar como ele lidaria
com uma situação ou problema, ou que conselho daria a um amigo. Ou
poderia solicitar que experimentasse novos comportamentos durante a ses
são e em situações hipotéticas. Em nosso exemplo, o terapeuta avaliou as
habilidades maternais de Jonelle através de seu histórico e ouvindo algumas
interações enrre ela e o filho durante as consultorias por telefone. O tera
peuta percebeu que Jonelle c o filho quase não tiveram conflitos nos fins
de semana em que a mae dela estava visitando parentes. Jonelle possuía
habilidades maternais eficazes, mesmo com uma criança agitada — o pro
blema parecia ser que as críticas (reais ou pressupostas) da mae minavam
suas habilidades. A habilidade que lhe faltava era a capac'dade de tegular as
emoções quando criticada. Jonelle também não conseguia se afirmar para
a mãe dominadora.
Quando a avaliação revelar que o cliente posiUt as habilidades, o tera
peuta deve avaliar qual dos outros tres iitores o impede de optar por um
comportamento mais coerente.
Respostas Emocionais Çondu iensdâi
Às vezes, respostas emocionais condicionadas bloqueiam respostas mais
hábeis. Os comportamentos eficazes podem ser inibidos ou perturbados
por vergonha, culpa, medos injustificados ou outras emoçoes intensas ou
descontroladas. O cliente pode ter “fõhía de emoções” Pode ter padrões
de esquiva ou comportamentos evitativos. Se esse for o caso, indica-se o
tratamento de exposição. Essa é uma hipótese determinante para Jonelle.
Como o terapeuta obteve mais detalhes na análise em cadeia, descobriu que
a vergonha era sua principal emoção. Quando a mãe dela estava na porra,
dizendo ao menino: “Saia da barra da saia dela”, a vergonha a inundou. A
raiva foi a resposta secundária. Em consequência, os princípios da terapia
dc exposição são um bom trajeto para mudar suas reações emocionais, dc
modo que sejam mais reguladas. pcrmmndo o acesso a suas habilidades
marernais.
62 Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
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Apncando a Terapia Comportamental Dialética 65
Contingências Problemáticas
Conforme as circunstâncias reforçam os comportamentos disfíinóonais
ou falham em reforçar os funcionais, o desempenho das hab'lidades fica com
prometido. Comportamentos eficazes tendem a ser seguidos por resultados
neutros ou punitivos, ou os resultados recompensadores podem ser posterga
dos. Por exemplo, a eficácia da relação maternal de Jonelle é seguida pelo co
mentário da rràe; ‘ Viu só, não foi tao difícil! Por que nao age assim sempre?”
Com o passai do tempo, essa consequência aversiva diminuiu a probabilida
de dc Jonelle ser uma boa mãe quando sua mãe estivesse por peno. O com
portamento problemático pode levar a resultados positivos ou preferidos, ou
oporcunizar comportamentos preferidos ou estados emocionais. Por exem
plo, a autolesão intencional gera consequências desejáveis Ipode funcionar
como autopunição, comunicar soh intento aos outros, fornecer analgesia por
meio da liberação dc opiáceos endógenos; Nock, 2009).
Quando a autolesão funciona paia comunicar a angustia e, logo após,
é seguida por urna maior capacidade de resposta de outras pessoas no am
biente, a probabilidade de se repetir pode aumentar. Dito de outra maneira,
a autolesão sem intenção suicida pode ser mantida pelo reforço positivo.
Entretanto, também o é pelo reforço negativo. Ela acaba com estados aver-
sivos, como emoções negativas ou tensão, enquanto a pessoa luta contra os
impulsos dc sc cortar. Jonelle se sentiu calma e aliviada depois dc se socar
c ao considerar a overdose. O mesmo indivíduo pode ter os dois tipos de
contingências confotando a autolesão intencional. Quando Jonelle se ba
tia, quando criança, seus professores eram solteiros (reforço positivo) c sua
mãe interrompia os ataques verbais (reforço negativo). Sc as contingências
problemáticas mantiverem o comportamento desejado, use as intervenções
de maneio de contingência.
Processos ou Conteúdo : o Problemático
A quarta possibilidade é a dc que os comportamentos efetivos sejam ini
bidos por padrões dc pensamento problemáticos, ou crenças e suposições
específicas errôneas. Se forem identificados problemas aqui, são indicadas
estratégias de modificação cognitiva. E tentador presumir que Jonelle está
exagerando por interpretar mal ou distorcer o comentário da mãe (“Ela está
fi4 Desenvoivrndo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
me chamando de louca na frente do meu filho") e considerar a modifica
ção cognitiva para reduzir a raiva (por exempio, encontrar interpretações
alternativas, como pensar que a mãe tora bem-intencionada, mesmo que
isso nao seja bem-vindo). Em vez de presumir, o terapeuta avaliou ainda
melhor c. dc fato, descobriu que a máe de Jonelle é extremamente abusiva
verbalmente — ao contrário do que pensava, Jonelle minimizou a invali
daçáo cm vez dc a exagerar. Em vez de aplicar a reestruturação cognitiva
para modificar más interpretações e ajudar Jonelle a ficar menos irritada,
a hipótese aqui é dc que Jonelle precisa dc ajuda para acreditar que tem
o direito de afirmar suas necessidades, mesmo que outras pessoas fiquem
descontentes e a critiquem.
lima análise em cadeia detalhada mostra as conjunturas e.m que uma
resposta alternativa da cliente teria auxiliado seus objetivos. Quando as res
postas da cliente são disfuncionais (afetam os objetivos de longo prazo), o
terapeuta avalia que comportamento alternativo teria sido mais funcional
e por que essa alternativa mais hábil não aconteceu. Jonelle e seu terapeuta
identificaram três conjunturas principais. Na Figura 2.3, os elos de resposta
disfuncionais são expressos nos termos das metas de mudança que Jonelle
endossou. Eles concordaram cm encontrar comportamentos alternativos
para que (1) nao importando o quão extrema a invalidação da mãe fosse,
Jonelle náo recorresse ao comportamento suicida nem à autolesão intencio
nal; (2) Jonelle fosse capaz de lidar com o conflito com a mãe de maneira
que naoatingisse o filho; e (3) embora quase não conseguisse imaginar,
Jonelle gostaria de enfrentar a máe dc forma eficaz, principalmente no que
diz respeito a sua autoridade com o filho.
Procurando Padrões em Diferentes Comportamentos Problemáticos
À medida que reunir as informações de históricos e análises em cadeia
preliminares sobre diferentes comportamentos-alvo, procure pad,oes agru
pando o comportamento cm categorias que luncionem da mesma forma.
Por exemplo, vamos procurar padrões em três análises em cadeia de alvos
primários de Samantha, como mostrado na f igura 2.4. Eles foram reunidos
nas duas primeiras sessões de terapia. Vocé notará que há muito menos de
talhes do que no exemplo dc Jonelle, isso porque Samantha teve uma crise
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética B5
entre as sessões 1 e 2. O manejo da crise deixou pouco tempo para reunir
as informações. Muitos clientes, como Samantha, começam a terapia em
meio ao caos e ao maneio de crses, o que impede uma avaliação completa.
No entanto, você pode propor hipóteses preliminares a respeito das princi
pais variáveis de controle que influenciam os alvos primários com qualquer
informação que tiver.
Observe agora as analises cm cadeia de très comportamentos alvo de
Samantha: (1) o mais recente comportamento dc crise suicida que motivou
sua última internação psiquiátrica: (2) um« sequência dc comportamentos
interfêrentes na terapia, tanto da cliente quanto do terapeuta, durante e
□P‘«s a primeira sessão; e (3) uma discussão que Samantha teve com a tia
(que atneaça lhe tirar a moradia e, se ela se mudar, também a terapia).
Aplicaremos os mesmos três conjuntos dc conceitos (a hierarquia dc alvos,
a teoria biossocial e as teorias comporcamcnrais dc mudança) para procurar
padrões entre os cornportamentos-alvo.
Orientado pela hierarquia dc alvos, o terapeuta de Samantha decidiu fa
zer um histórico de tentativas de suicídio e outros comportamentos ameaça
dores à vida na primeira sessão. A primeira análise cm cadeia, na Figura 2.4,
c da overdose de Samantha por analgésicos, uma tentativa de suicídio com
intenção ambivalente de morrer, que ocasionou sua última internação psi
quiátrica. A cliente estava morando com os pais quando foi contatada por
um amigo, um fuzileiro naval de licença do Iraque prestes a voltar para casa.
A purgação c as restrições alimentares tornaram-se mais frequentes por ela
querer ‘Hear bonita Eles conversaram por hotas quando ele chegou cm
casa. Ele entendia bem como era se sentir culpado pela mone dc um amigo.
Seu humor negro expressava emparia sem ter que ‘conversar a respeito”,
como uma droga rranquilizadora. Quando ele letornou ao serviço militar,
ela ficou desolada e obcecada com a ideia de que ele seria motto. Ela conti
nuou purgando e restringindo a alimentação, ■ parou de tomar o analgésico
porque “a fazia ganhar peso”. Ela ficou em seu quarto chorando, dormindo
e ouvindo música trance. Seus pais estavam acostumados com ela enfurna
da no quarto trabalhando em projetos artísticos, logo, não se preocuparam
corn a situação.
B6 Desenvolve ndu a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
Aplicando a Terania CompGi tamental Dialética 67
Alguns dias depois, no meio da noire, "as coisas ficaram esquisitas, como
acontecia às vezes . Ela raspou o nome dele na coxa e adormeceu. Quando
acordou, sentiu-se enojada consigo mesma c com muita dor nas costas
devido à posição em que dormiu enquanto sc cortava. Ela tomou analgési
cos, depois tomou mais, e depois mais, enquanto pensava: ‘ Dane-se. Nada
mais importa. Ela náo sc lembra de muito depois disso, mas afirma ter sido
encontrada pelos pais e levada para um hospital próximo, onde acabou na
unidade de teiapia intensiva até que estivesse clinicamente estabilizada para
ser encaminhada ao departamento psiquiátrico.
Os eventos disoostosnaseguiidaanáliseem cadeia, também na Figura 2.4,
começaram na primeira sessão, quando o terapeuta pediu a Samantha que
falasse um pouco sobre o acidente. Samantha falou de forma equilibrada
e convicta, porém vulnerável e perspicaz, o que levou o terapeuta a pensar
que ela lidava bem com o ocorrido. Samantha e o terapeuta resolveram
como ela faria para gerir o aumento previsível de emoções que poderiam
ser evocadas talando sobre o acidente. Sem o terapeuta perceber, Samantha
estava desregulada ao ter a conversa. Ela deixou a sessão tão perturbada que
quase foi atropelada por um carro no estacionamento. Naquela noite, saiu
para beber com os amigos a ponto de desmaiar.
A tcrcciia análise em cadeia começa onde a segunda terminou. Saman
tha dormiu o sábado inteiro e fez o mesmo no domingo. Sua tia acabou
ficando tão preocupada que a procurou no quarto e insistiu para que “saísse
de casa e tomasse um pouco dc ar fresco, ou ligasse para a prima e fosse à
universidade ver os cursos oferecido/. A tia continuou a sugeri r deias de
soluções para os problemas. Samantha permaneceu simpática e descom
prometida, e acabou deixando a casa, disfarçando para que a tia náo ficasse
preocupada. Ela foi até o bar da esquina e começou a ligar para velhos
amtgos, planejando se mudar. Ela deixou uma mensagem de desculpas ao
terapeuta explicando que as coisas não estavam funcionando com a tia, paia
se afastar e cancelar a próxima sessão. (O terapeuta, por sorte, recuperou a
mensagem e impediu Samantha de minar seu progresso, convencendo-a a
maniei a sessão agendada pata o dia seguinte.)
Quais pontos em comum se destacam entre essas análises em cadeia?
Uma maneira de começar é procurar hipóteses da tccria biossocíal que su
flfl Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
giram (1) que o comportamento pc i turbado pode ser uma consequência da
desregulação emocional ou um esforço para regular novamente a emoção, e
(2) que a invalidaçao possa desempenhar um papel na manutenção das di
ficuldades atuais, regulando as emoções. Procure também os dilemas dialé
ticos, os padrões comportamentais secundários descritos no Capitulo 1:
vulnerabilidade emocional e autoinvalidação, passividade ativa e compe
tência aparente, c luto inibido e crises inexoráveis. Por fim. considere quais
deficits de habilidades, reações emocionais condicionadas, contingências e
processos ou conteúdo cognitivos contribuem para os comportamentos-
-alvo dc Samantha. A Figura 2.4 mostra o primeiro passo do terapeuta:
identificar cada um desses elos comuns cm todos os comporf mentos-alvo.
Samantha possui diversos alvos secundários. Ela inal demonstra angús
tia e tem uma personalidade bastante forte. O terapeuta deve orientar Sa
mantha, de maneira explícita, quanto ao padrão dc competência aparente,
pois ele resulta na subesrímação do sofrimento por pane do terapeuta c em
risco dc suicídio. Além disso, Samantha parece estar presa em um Iriângulo
das Bermudas dc luto inibido, crises inexoráveis e vulnerabilidade emo
cional. Tudo lembra a ela do acidente: a vergonha c a tristeza se tornam
insuportáveis. Fia então se envolve em comportamentos problemáticos dc
forma impulsiva, para evitar as emoções fortes. Até mesmo a breve des
crição do acidente que ela deu ao terapeuta no inicio foi tão avassaladora
que desencadeou uma crise» Os alvos secundários de Samantha parecera
desempenhar um papel determinante nos alvos primários da crise suicida e
do comportamento que interfere na terapia.
Os deficits de habilidades mais urgentes de Samantha parecem ser a di ■
ficuldadv cm tolerar o mal-estar sem fazer algo impulsivo, que, na verdade,
agrava a situação. Ainda não está claro quais contingências esráo mantendo
os comportamentos de risco mais graves de Samantha, mas sua autolesão
intencional parece ser mantida por um reforço negativo. Ela apanigua, por
um tempo, estados aversivos com emoçoes negativas. Nao parece scr man
tida por reforço positivo (isto c, Samantha oculta as evidências da autolesao
c, portanto, não comunica afliçao a outros).
Samantha definitivamente vivência reações emocionais condicionadasproblemáticas e desregulação emocional Os comportamentos hábeis c efi-
Aplirando a Terapia Comportamental Dialética 69
razes que possui são, com frequent ia, inibidos e perturbados por vergonha,
culpa, medos indevidos ou outras emoções incensas e descontroladas. Ainda
não está claro quais processos ou conteúdos cognitivos representam o maior
problema, mas “não importa , parece ser um pensamento desesperançoso
recorrente que, para Samantha, precede uma postura de passividade total
em relação a viver ou morrer. A resposta de Samantha, após discutir o trau
ma com o terapeuta, fornece evidências de que o trabalho de exposição no
Estágio 2 deve ser adiado até que ela cstab.iize a autolesáo intencional e a
alimentação desordenada, e adquira habilidades de regulação emocional
mais substanciais.
O terapeuta criou urn diagrama simplificado do padrão dc comporta
mento de Samantha (veja a Figura 2.5) e mostrou a ela, na terceira sessão,
para verificar se definira os elementos principal com precisão. Embora o
terapeuta, às vezes, tome a iniciativa de destacar, observar c descrever pa
drões recorrentes e comentar as implicações dos comportamentos, a ideia é
promovei essa mesma postura no cliente.
À medida que percorrer essas etapas, com diferentes áreas-ako e com
portamentos problemáticos específicos, é fácil se perder cm detalhes, por
isso concentre se (e volte a focar) no que o ajuda a prosseguir. Atenna-se
à essência do problema. Você pode usar um maicador, uma etiqueta, uma
metáfora ou uma frase que capture o âmago da formulação do problema.
Atenha-se com atenção suficiente para que ele possa orientá-lo e, em con
sequência, novas evidências sejam percebidas. Esforce-se para ter ‘uma
postura questionadora. um processo de pensamento que analisa a h.pótese
original à medida que se choca contra a realidade, f isso que impede que a
hipótese se transforme cm um viés que distorce a evidência. E o que leva a
percepções originais e orienta a busca através de uma série desconcertante
dc fatos possivelmente relacionados, para encontrar o que realmentc im
porta” (Hart, 2007, p. 21).
Os conceitos de formulação dc caso da D3T que renho discutiuo sán
como ferramentas de orientação Sc uma nao funcionar, use outia. até que
a imagem das variáveis de controle fique clara, ou pelo menos clara o sufi
ciente para avarçar para a etapa seguinte.
90 Desenvolvendo a Fo^muhçàn de Caso e o Plano de Tratamento
ETAPA 3: USE A ANÁLISE DE TARETAS PULI GERAR
PI ANOS DE MINITRATAMENTO
PARA OS PRINCIPAIS ELOS COMLNS
Uma análise de tarefas descreve passo a passo a sequência comporta
mental necessária paru que o cliente atinja o comportamento e o resultado
desejados. Você e o cliente podem fazer uma análise de tarefas espontânea,
no decorrer da conversa, ou dc maneira mais deliberada. A pergunta a ser
feita é: “Qual seria a resposta mais eficaz nessas circunstâncias?’ Identifique
esse comportamento alternativo para cada compornmento-a'vo e os elos dis-
uncionais mais comuns. Em seguida, descubra exatamente o que o cliente
deve lazer para se envolver no comportamento alternativo. Em seguida, ene
"mint planos de tratamento para ajudá-lo a adotar compo. lamentos novos,
em detrimento dos antigos, cm momentos importantes.
Trace estratégias para esses mmiplanos de tratamento a partir de três
perspectivas. Em primeiro lugar, considere a substituição dc elos disíun-
cionuis pelas habilidades dc DB T. Fm segundo, busque comportamentos
alternativos na literatura dc pesquisa e na psicologia comum Por fim. con
sidere a experiência pessoal. Gomo você ou outras pessoas que conhece
resolveram problemas semelhantes? A principal parte da análise de tarefas é
ter certeza de que o comportamento alternativo escolhido funciona para a
circunstância especifica do cliente.
Por exemplo quando uma pessoa está amplamente desregulada, é qua
se impossível implementar habilidades que exijam certa complexidade de
raciocínio. Nessas circunstâncias, a análise passo a passo da tarefa deve co
meçar com estratégias que visam a rcgulaçao emocional antes de uma ha
bilidade que exija que o cliente já esteja regulado, como uma habilidade dc
eficácia interpessoal. Fncontrar soluçoes específicas para situações pode ser
um grande desafio. Por exemplo, como você, em meio á extrema excitação
emocional e com um apoio irMErpesJoal inadequado, inibe as açoes impul
sivas e faz o que c eficaz no momento? Esse aspecto da análise de tarefas exi
ge o uso da emparia de uma maneira análoga ao uso da consciência espacial.
T como se alguém ligasse para você, mis não tivesse certeza de onde está
ou de como sua localização o levara aonde quer chegar. Se você conhece
Aplicando a Terapia Comportamental Lralética 91
bem a área, pode descrever os pontos de referência para obrer a confir
mação de que a pessoa está onde você acha. Em seguida, pode descrever
como procedei Passo a passo, como exatamente alguém vai daqui ate lá?
Às vezes, um cliente não consegue ou não articula o que está acontecendo,
o que requer que o terapeuta tenha uma capacidade akamente refinada
para “localizá-lo” e compreendê-lo. Por exemplo, o terapeuta de Samantha
logo aprendeu a ler sinais muito suris que indicavam que cia estava mais
desregulada do que aparentava. Ele então soube indicar à Samantha ativi
dades como usar a prancha de equilíbrio ou segurar gelo, que a ajudavam a
regular as emoções antes de sair da sessão.
Por exemplo, □ terapeuta e Jonelle fizeram uma análise de tarefa dc como
Jonelle preferia lidar com os momentos em que sua mãe a espiava, pronra
para criticar sua autoridade como mãe. Eles começaram imaginando um re
sultado e um conjunto de interações das quais Jonelle se sentiría orgulhosa.
Ela gostaria de conseguir dizer à mãe: Por favor, saia. Não quero que você
me ajude a ser mâe agora. Ele se comporta muito bem quando temos a opor
tunidade dc fazer do nosso jeito.’ Enrão, Jonelle e i terapeuta seguiram um
passo a passo para determinar como Jonelle poderia ir de onde estava para
onde queria ir. Jonelle precisava da habilidade de reconhecer o momento no
qual se afirmar. A avaliação mostrou que Jonelle nao tinha essa habilidade,
logo, o automonitoramento fo> usado para aumentar sua conscientiiaçáo.
Ela precisava desenvolver habilidades interpessoais para conquistar seu obje
tivo, preservando o relacionamento c o respeito por si própria, Jonelle sabia
como agir para evitar o conflito, mas não como fazê-lo preservando o res-
p< ito próprio.
Enquanto o terapeuta e Jonelle buscavam diversas maneiras de da im
por limites à mãe, ficou claro que Jonelle acreditava que perdera qualquer
direito de falar. Lia se sentia muito envergonhada por suas falhas como
mãe. A vergonha ficou evidente quando o terapeuta, interpretando sua
máe, fez um pedido irracional: Jonelle ficou desregulada e desistiu. Por
tanto, outta etapa importante da tarefa era ajudá-la a regular a vergonha.
A reestruturação cognitiva cambem foi usada para ajudá-la a perceber que
tinha o direito de se afirmar. Ela também precisava da capacidade dc regular
sua raiva quando a mãe a atacava verbalmentc e a criticava. Jonelle tinha
99 Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano dc Tratamento
habilidades e as usava no trabalho, mas não cm seus relacionamentos pes
soais. Quando ela e o terapeuta avaliaram melhor suas habilidades, ficou
claro que, quando a máe feria seus sentimentos. pensamentos dc raiva e de
julgamento vinham logo em seguida. Acreditando nas palavras dolorosas da
mãe, Jonelle pensas a: “Ela nao deveria ser assim! I la deveria me entender
e me apoiar mais do que qualquer outra pessoa! Portanto, outra parte da
tarefa era ajudar Jonelle a aceitar que por diversas razões, a mát era critica
e negativista. Os miniplanos dc tratamento do terapeuta para cada um dos
problemas específicos de Jonelle sc complementavam, formando o plano de
tratamento completo, que incluía:
• Geração dc soluções para identificar necessidades, desejose va
lores em relação ao conflito com a mãe.
• Automonitoramrnto (para reconhecer quando precisa ser assertiva).
• Treinamento de habilidades (par? a regulaçao emocional da ver
gonha e da raiva, a eficácia interpessoal e a aceitação radical).
• Exposição imaginária (para reduzir a resposta da vergonha con
dicionada à critica).
• Modificação cognu iva (dc crenças sobre se afirmar).
Agir com habilidade não é algo simples. Muitos de nós são capazes dc
redirecionar, com paciência, uma criança até que ela pare de se comportar
mal. No entanto quando pais ou sogros críticos observam nosso filho deso
bedecer a nossas ordens, a situação fica muito mais complicada. Podemos,
então, redirecionar pacientemente a criança, ignorando ou bloqueando as
declarações prejudiciais do outro adulto? Ou, quando nos frustramos de
mais para conseguirmos ser eficazes, podemos aceitar a ajuda deles? í possí
vel que tenhamos a habilidade de saber o que dizer a nosso filho, dc regular
nossa frustração e constrangimento, de perceber sc o outro adulto está nos
julgando, de sermos abertos e não defensivos, mas saber conciliar tudo, sob
pressão, c o que contribui para uma resposta hábil Da mesma forma que,
na privacidade de um dia qualquer, cm uma quadra de basquete qualquer,
posso acertar um arremesso livre. Porem, isso é diferente de ser capaz de
exccutá-lo durante um jogo e ainda mais diferente de ser capaz de executá-
Aplicando 3 Frrapia Comportamental Dialética 93
-Io nos últimos segundos dc uma partida decisiva. Portanto, os planos de
tratamento da DBT enfatizam náo apenas o treinamento dc habilidades,
mas também o Fortalecimento e a generalização delas pata situações pro-
gressivamente mais difíceis, como as enfrentadas no cotidiano. Ou seja, a
prática nao basta, ela precisa ser aplicada a todos os contextos relevantes.
O ensaio comportamental é essencial e enfatizado em todos os planos de
tratamento da DB I
Em várias situações, os clientes enfrentam problemas recorrentes quan
do tentam adotar um comportamento mais funcional. Quando você iden
tificar esses obstáculos recorrentes, retorne aos quatro fatores da terapia
comportamental para oiientar a avaliação de possíveis variáveis dc controle,
l aça as seguintes perguntas:
1. Quais sáo os deficits dc habilidades?
2. Quais reações emocionais mterferem cm respostas mais hábeis?
3. Quais contingências são problemáticas?
4. Quais cogniçóes ou processos cognidvofi interferem nas respos
tas mais hábeis?
Por exemplo, o padrão dos problemas de Samantha destacava a frequên
cia com que a competência aparente interferia na obtenção da ajuda dc que
piecisava. A tarefa terapêutica imediata era ajuda-la a tolerar o sofrimento
sem piorar as coisas. Mas a aflição a deixava tao desrcgulada que seu cérebro
não raciocinava bem. Ela precisava dc mais ajuda e, no entanto, sentia vergo
nha de pedir. Ela estava com medo do desapontamento devastador que sen
tiría se o terapeuta náo estivesse disponível quando necessário, e com muito
medo de se abnr e ser deixada sozinha com sentimentos difíceis de suportar.
Mas você nunca saberá disso apenas olhando para ela. Mesmo expressando
angústia, seu equilíbrio e competência aparente levavam os outros a presumir
que ela náo precisava de nenhuma ajuda. Para resolver o problema, o tera
peuta r ela começaram a implementar estratégias de manejo de c ontingência
junto com o ensaio comportamental: Samantha ligava todos os dias em um
horário preestabdccido, durantc duas semanas, para praticar, precisasse ou
náo de ajuda. Sua tarefa eia expressar com precisão (o melhor que pudesse)
94 Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
quais eram suas emoções. O rerapeuta, usando a situação com o amigo fu
zileiro dc Samantha, mantinha as conversas leves, mas empáticas, enquantu
treinava o uso de habilidades dc tolerância ao mal-estar.
Os miniplanos para tratar problemas e mecanismos específicos com
plementar! se, constituindo o plano dc tratamento completo. Você usa as
ferramentas dc análise ern cadeia e de tarefas para ver quais caminhos levam
a comportamentos-alvo jnportantcs. o que precisam mudar e o que pode
atrapalhar a mudança. O mais importante- talvez, seja aprender o que é
comum ao longo do tempo e em rodas as áreas probkmaticas. Isso permrtJe
que você se concentre em alterar os processos que afetarão vários alvos.
Quando identificar padrões recorrentes, você localizará ? si mesmo e ao
cliente na cadeia de eventos, e logo saberá o que enfatizar. E como se você, o
rerapeuta, tosse um inspetor de controle dc qualidade examinando cadeias
inteiras para entender os problemas dc elos específicos. Ao ouvir a respeito
da vida de seu cliente e observar o que acontece nas sessões, suas prioridades
são identificar os trechos da cadeia dc comportamento que terminam com
autolesao. e comportamentos interferentes na terapia ou na qualidade de
vida do cliente.
Normalmentc, é difícil não haver nenhum comportamento problemá
tico. () desafio c escolher como intervir e manter a intervenção diante dc
mudanças gradativas e sofrimento extremo. Escolher bem significa esco
lher o rrecho correto da cadeia que leva a alvos primários dc tratamento
(autolesao intencional, comportamento que interfere na terapia e na quali
dade dc vida do cliente). Trabalhe em função da mudança onde quer que o
cliente esteja nessa cadeia.
Quando o cliente relatar que tem passado por fatores de vulnerabilidade
que, no passado, levaram a comportamentos problemáticos, trate esses fato
res. Quando um cliente estiver sob risco iminente de suicídio, no entanto,
os elos que mais nccessham de inspeção e cotreção são aqueles associados
ao perigo imediato. Em suma, o terapeuta vai além do limite, com o kit dc
ferramentas cm mãos, c esclarece cada elo durante a sessão, de preferência,
de maneira que ensine o cliente a consertá-los durante o resto da semana,
entre as sessões. Quando o cliente estiver mais distante do risco dc suicídio,
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 95
o terapeuta pode “inspecionar e reparar” os elos passados. A organização des
ses caminhos é muito uríl, tanto para os clientes quanto para os terapeutas,
para que, juntos, eles identifiquem corno se afastar dt respostas problemáticas
e rumem cm direção a respostas adaptativas. Priorize as formas de evitar a
qualquer custo (11 dedicando-se a comportamentos que ameaçam a vida: (2)
arendo-se aos padrões no início, quando o cliente ainda está mais regulado e
capaz; e (3) encontrando alternativas para elos comuns entre os problemas.
Durante todo o processo dc formulação e planejamento do tratamento,
resuma, parafraseie e verifique tudo com o cliente. Seja transparente, co-
laborativo e psicoeducativo (na medida em que for útil para o cliente) ao
refinar, verificar ou descartar hipóteses. Repira esse processo para procurar
as variáveis dc controle dc cada comportamento problemático relevante.
E, ao longo do processo, é importante montei um estilo de pensamento
dialético, uma postura que mantenha sua mente ágil e flexível. A partir
de uma postura dialética, sentir-se preso ou polarizado torna-se uma dica
útil, um lembrete dc que você esqueceu temporariamente a natureza da
realidade c tomou suas considerações como verdade absoluta. A tensão, a
confusão e a polaridade entre o cliente, o terapeuta e os membros da equipe
a respeito de como melhor entender e tratar os problemas são esperadas
— até mesmo bem-vindas — e usadas como dicas de abertura para buscar
aspectos validos em pontos de vista opostos.
O estilo de dialogo e pensamento da avabação dialética lembra empur
rar uma daquelas bolas antiquadas vermelho e branco, usadas como hobbers
dc pesca, sob a água corn a ponta do dedo. A tensão presente cm uma con
versa ou linha de pensamento gera uma contratensão da mesma maneira
que um bobber contra a água. A pressão exercida no ponto de contato faz
com que o bobber afunde, role c reapareça cm um lugar diferente. Paraexemplificar, digamos que uma cliente tenha sentido um alívio emocional
«mediaro quando qiuirnou os braços com cigarros e relutou em desistir.
Quando o terapeuta avaliou os fatores que levaram a um incidente recente,
ela disse dcspruocupadamente: “A queunadura não foi táo ruim dessa vez.
Para acentuar as contradições inerentes às respostas da cliente, o terapeuta
continua:
96 Oc sen volvendo a Formulação de Caso e o Flano de Trat.imento
Terapeuta: Então, o que você está dizendo c que, sc visse alguém
sofrendo, digamos, sua sobrinha, e ela estivesse sc sentindo rao mal
quanto você na noite em que se queimou, tão devastada pela decep
ção quanto você naquela noite, você queimaria o braço dela com
um cigarro para ajudá-la a se sentir melhor?
Cliente: Não, cu não faria isso.
Terapeuta: Por que não?
Cliente: Eu simplesmente não faria.
Terapeuta: Entendí, mas por que nao?
Cliente: Eu a confortaria ou faria outra coisa para ajudá-la a se sen
tir melhor
lerapeuta- Mas c se ela estivesse inconsolável — nada a fizesse se
senrir melhor? Além1 disso, você não a que:maria tanto
Cliente: Eu não faria isso. Não está cerro. Eu faria alguma coisa,
mas não isso.
Terapeuta: Interessante, nao?
A cliente aci edita que não sc deve queimar alguém sob circunstância
alguma e que queirnar a si própria para obter alívio nao é grande coisa. Esse
estilo de avaliação dialética, de refletir sobre “como funciona para você”,
evidencia informações importantes sobre os valores da cliente (semelhan
te à construção de discrepância na entrevista motivacional). Uma postura
dialética prioiiza a exploração de tais inconsistências entre as ações, crenças
e valores da própria cliente, bem como as inconsistências do terapeuta. Tais
explorações, por si só, colaboram com a mudança, já que o diálogo dialc-
íicamente embasado sc concentra em ajudar os clientes c os terapeutas a
alcançar um ponto de vista mais abrangente c coerente.
Quardo se sentir confuso, polarizado ou estagnado, avalie o que foi
deixado dc .ora e o cjue e válido em cada posição, de modo que a formu
lação de caso e o planejamento do tratamento sejam uma s< ne dc diálogos
que levem à síntese, e não ao raciocínio rígido a partir de fatos imutáveis.
A avaliação inteira deve promover o contato e o diálogo sobre os fatores
que impedem os clientes de ter a vida que desejam. Qualquer solução ou
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 97
intervenção deve levar cm conta os múltiplos aspectos do diálogo, para
set eficaz. A atençao não se volta apenas ao cliente, mas às relações entre o
cliente, o terapeuta e suas respectivas comunidades.
UMA CONVERSA DE PRÉ-TRATAMEN TO: MANNY
O restante deste capítulo é um exemplo extenso de diálogo de uma
sessão inicial de pré-tratamento. Ele ilustra corro um terapeuta deve usai a
hierarquia de alvos para definir as prioridades da avaliação c como buscar
variáveis que possam ter controle sobre os comportamentos alvo, partreu-
larmente, sobre os comportamentos do Estágio 1 que oferecem risco de
morte e que interferem na terapia. No entanto, a coleta dessas informações,
como em uma análise informal da cadeia, é uma estratégia dc mudança que
pode desencadear a desregulação emocional. Portanto, ao longo da intera
ção. o rerapeuta equilibra dialética men te a mudança com as estratégias de
aceitação, como a validacao, para ajudar o cliente a se regular e permanecer
presente na conversa.
Ao mesmo tempo, o terapeuta deve também procurar avaliar as priori
dades do Estágio de pré-tratamento. O cliente e o rerapeuta concordarão
com os objetivos e mérodos da terapia? Quais barreiras existem? Há com
prometimento suficiente do cliente com o tratamento? Uma tarefa funda
mental c o terapeuta orientar o cliente enquanto trabalha para desenvolver
sua morivação e comprometimento. Com frequência, os clientes relutam
em fazer as mudanças necessárias. Eles podem hesitar, sentir-se ambiva
lentes ou discordar de componentes da terapia que você acredita serem
necessários. Isso acontece ptincipalmentc durante o pré-tratamento, mas
pnde ocorrer em grandes e pequenas proporções durante a terapia também.
O terapeuta deve sempre garantir que os métodos e planos de tratamen
to estejam vinculados direta e vividamente às metas do cliente. Identificar
essas metas é uma tarefa importante das sessões iniciais. Linehan (1993a)
delineia uma série dc estratégias de comprometimento que fortalecem o
compromisso do chente com a mudança. Por exemplo, no diálogo a seguir,
o terapeuta usa a esrrarégia “pé na porta” para descrever de forma gencrica
c favorável a conexão entre os objetivos e desejos da cliente c o tratamento.
96 Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
Mais tarde na sessão, o terapeuta enfatiza a liberdade da cliente de escolher
náo aderir à DBT. ao mesmo tempo cm que destaca a carência de alterna
tivas, pata que ela mesma escolha entre as mudanças e as consequências dc
continuar do jeito que está. A base dessas estratégias deve ser a flexibilidade
e o respeito sincero pelas escolhas c metas dos clicntc-s.
Nesses momentos, quando o cliente ficar ambivalente, formule u pro
blema e planeje o tratamento equilibrando posições opostas e trabalhando
para encontrar sínteses genuínas. Equilibre as necessidades, metas e prefe
rências do cliente com seus próprios limites profissionais e pessoais, visando
alcançar um acordo viável. Use a hierarquia dc alvos para orientar as análi
ses em cadeia e definir as estratégias nucleares da DBT testrarégias de mu
dança, validação s dialética) para avaliar c tratar o alvo de maior prioridade.
No diálogo a seguir, o terapeuta chegou a uma unidade dc internação
local para se encontrar com a cliente em função dc sua alta. A chcnie,
Mannv, passou por uma grave autolesão sem intencionalidade suicida, e
várias tentativas de suicídio dc alto nsco. Fia fizera múltiplos tratamentos
terapêuticos, mas, por rao ter considerado nenhurn deles útil, ficou sem
esperanças. Em sua vida, ela recebeu diagnósticos deTEPT crônico, trans
torno bipolar sem ounas especificações (SOE), psicose atípica, transtorno
da personalidade borderline e transtorno explosivo intermitente. A última
hospitalização de Munny ocorreu após uma overdose precipitada por um
desentendimento com seu terapeuta anterior, que se recusa a retomar o
tratamento. O diálogo foi editado e o histórico detalhado, omitido. A con
versa a seguir começou depois das cordialidadcs.
Terapeuta: Você mencionou no telefone que hesita voltar à terapia.
Se voltasse como cu podería ajudá-la?
Manny: Não sei bem. lodo mundo tem me dito que a DBT, seja lá
o que for, é o melhor para mim, por isso concordei em mc encontrar
com vocè.
Jerapeuta: Hum.
Manny: .Mas a tetapia, em geral, não funcionou para mim.
Terapeuta: Hum. Então as pessoas dizem que você precisa fazer te
rapia, mas você nao tem certeza se a terapia pode ajuda-la. Fico feliz
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 99
em lhe explicar como será sc decidirmos rrabalhar juntos c adotar
a DBT (esmo acolhedor e ágil, ènjáse na validação da perspectiva da
cliente)-, mas, antes, quero entender por que acha que rerapu não
nriona para você.
Mannv: Estou surpresa que você esteja mesmo considerando ser
meu terapeuta. Nunca achei que alguém iria me querer como clien
te, considerando que a Dra. Jones me dispensou.
Terapeuta, i Segue o fluxo da conversa e aproveita a oportunidade para
avahat o comportamento que interfere na terapia e sua antiga terapeu
ta ) Então, o que aconteceu com sua antiga terapeuta para ela “dis-
pensá-la”? {Avalia o comportamento que interfere na terapia, a postura
dialética lUgere assumir que ambas as partes são responsáreis.)
Marniy: Bem, cu estava me saindo melhor cm alguns aspectos, mas
tive uma recaída- c cia não aguentou mais.
Terapeuta: O que a levou ao limite? (Usa um tom acolhedor e óbjeti
vo, que comunica que o terapeuta não acha que Manny era o problt ma,
mas levanta a hipótese de que aantiga terapeuta fosse muito sensível.)
Majiny Comecei a me machucar dc novo, então romei uma over
dose depois que disse a ela que tinha me livrado dos comprimidos.
Terapeuta: (Percebendo uma oportunidade para avaliar o alvo dc maior
prioridade — a tentativa de suicídio —o terapeuta refina o foco da
avaliação.) Então, você estava melhorando e, de tepente, retomou o
velho comportamento de se machucar, c, em algum momento, come
çou a acumular comprimidos, sem comunicar à terapeuta...?
Manny Sim, eu estava voltando a frequentar a escola c consegui
um estágio na biblioteca, mas um cara de uma das minhas turmas
começou a me perseguir, até no estacionamento e na saída da facuil
dade, então acabei desistindo de tudo.
Terapeuta: Você deve ter ficado muito decepcionada! E com medo,
Manny Sim, eu falei com a polícia, mas cies disseram que não
podiam fazer nada (usa um tom dc indiferença), então acabei pedin
do dinheiro a minha mãe para que eu pudesse sair da biblioteca,
mas ela não ajudou e...
100 Desenvolvendo a Formulação dc Caso e o Piano de Iratamento
Terapeuta: {Interrompe com delicadeza.) Sabe, sinto um tom bem
objetivo, quase casual em suas palavras, mas tenho a impressão de
que isso foi um tremendo revês para você... {Percebe a discrepância
entre o conteúdo do que foi duo e a expressão emocional, e passa a ana
lisar a competência aparente e as dificuldades em expressar ou sentir
emoçoes com precisão. Supõe que esse pode ser um fator que tenha inter
ferido nas terapias anteriores, dificultando o percepção da terapeuta do
quamo a cliente estava aflita.)
Manny: Sim, cu estava irdo muito bem naquele trimestre.
Terapeuta: Então acabou sendo ainda mais doloroso e decepcio
nante?
Manny. Sim,
Terapeuta: Seu torn de voz, o jeito que está me contando isso, de
monstra que você não está se entendendo muito bem. (Replica o tom
alegre de Manny.) “Sim. sabe, eu estava tendo o melhor trimestre dc
rodos, seguindo minha vida, e aí esse cara começou a me perseguir, e
a polícia não pôde ajudar, minha mãe não ajudou, aí eu perdi tudo.”
{Usa um estilo de comunicação irreverente para enfatizar as mudanças
ao validar a dificuldade)
Manny: {Risos.)
terapeuta: Percebi que você alterou seu tom de voz para dizer que
isso não c importante para você... Mas foi um revês enorme, nao foi?
Manny: Sim. (Sew contato visual comunica que o terapeuta a entendeu
hem, e Manny se sente aliviada.)
Fêrapeuta: {Apaga a competência aparente da lista de hipóteses que
podem ser relevantes devido a restrições de tempo, pois deseja obter mais
detalhes sobre alvos de maior importância.) Bem, com certeza foi um
grande revês você ter trancado a faculdade, mas quando foi que você
voltou a se machucar? (Usa a hierarquia de alvos para manter a prio
ridade na identificação du que leva à autolesão intencional, iniciando
uma analise em cadeia de alto níveL)
Manny: Quando minha mae disse que não ia rr.e ajudar, vi que
precisaria desistir, e estávamos no telefone.
Aplicando a Terapia Comportamental ''ialética 101
lèrapeuta: Você e sua1 mãe?
Manny: Não, eu e minha terapeuta. Eu estava enlouquecendo, cia
me ligou de volta e me convenceu a fazer uma xícara de chá. Então
fiquci rão brava que derramei a água na minha mão.
Terapeuta: Enquanto cia ainda estava no telefone com você?
Manny: Náo, eu desliguei e aí fiz isso. Então a vi no dia seguinte
e tive que ir para a sala de emergência, pois eu havia me queimado
muito e tinha muitas ataduras na mão, c ela perguntou: “O que
aconteceu?”, e eu respondí: ‘ Bem, o chá rcalmente nao ajudou.
Terapeuta: Hum. Parece que você estava bem brava com ela .. (Di
ficuldade em regulara raiva? Problsnuts com assertividadt ? 4 terapeuta
fracassara em reconhecer a extensão das dificuldades da cliente ou o
deficit de comunicação de Manny? Problema de controle de estímulos
sempre que hd meios para a autole>ao, pois Manny não consegue inibir
o comportamento?)
Manny: Eu estava com raiva de todos. Quebrei minha mão quando
ban cm uma paiede no início da semana, quase entiei em uma briga
esperando meu ônibus, eu estava fora de controle.
Terapeuta: Sim, entendo o que você está dizendo. Isso é algo que
acontece muito? (Ok, dificuldade em regular a raiva?)
Manny: O quê, enlouquecer e perder o controle?
lèrapeuta: Sim.
Manny: Eu .. eu estraguei tudo. (Mostragrande mudança de afeto.)
Terapeuta: (Observa qut precisa avaliar melhora raiva em outra opor-
tunidade, mas percebe que Manny parece Sentir vergonha ou tristeza
pela perda da ultima terapeuta. 0 terapeuta levanta a possibilidade
de que talvez a desregulação esteja ocorrendo durante a sessão, e talvez
a pergunta sobre a frequência tenha sido tnvalidante. O terapeuta se
atem à cadeia que levou à overdose, mas acha que validar a cliente podi
ser útil. Então adota um tom gentil, porém objetivo.) Sim, esse tipo de
coisa prejudica um relacionamento. Você queria que as coisas tives
sem sido diferentes c sc lamenta muito, parece... (Valida a emoção e
lê a intenção adaptativa epoi itiva de Manny)
102 Desenvolvendo a Formulação de Caso c o Plano de Tratamento
Manny: [Faz um gesto de concordância.)
' Terapeuta: (Tem a opção de escolher entre avaliar a desregulaçáo emo
cional e tratá-la un, pouco, ou continuar com a avaliação da tentativa
tie suicídio. Usa um tom de voz sem julgamento para ajudar Manny a
regular suas emoções e continuara conversa sem aumentar ainda mars a
experiência emocional.} Tico feliz, que você esteja mc contando como
isso foi difícil. Então, você perdeu as aulas e, naquela semana, ficou
com muita raiva, meio fora dc controle, e aí queimou sua mão,
conversou a respeito com sua terapeuta. E depois, o que aconteceu?
Manny: Ela disse que não trabalharia comigo sc cu contnuassc fa
zendo isso, ela poderia ter rne transferido, mas não o fez.
Terapeuta: Você parece surpresa com isso.
Manny: Eu diría que ela ficou meio assustada durante o veião quan
do aparecí com meus biacos cortados, mas... ela deveria entender
que há um momento em que chego ao meu limite, não aguento c
me machuco. {A maneira dt Manny falar sobre isso levanta a hipótese
de que ter cortes visíveis pode ter sido uma forma de comunicar à tera
peuta o quanto ela estava sofrendo. Logo, as observações do terapeuta
precisam avaliar se a autolesão é mantida em função da comunicação
com os outros. Manny também evidencia um potencial deficit nas ha ■
bilidudes dt tolerância ao mal-estar ["ha um momento em que chego ao
meu Itmtte"}. No entanto, agora o terapeuta deve priorizar a compreen
são da tentativa de suicídio.} Porém, ela disse que náo estava disposta
a trabalhar comigo sc cu agbse dessa maneira.
Terapeuta: Então foi muito além do limite dela você se machucar
assim logo depois que cia tentou ajudá-la.
Manny: Sim. mas o problema não foi ela, eu estava ficando tão fora
de controle «pie precisava mc acalmar... Eu estava tao. . Eu náo
aguentava, então o fiz, foi estúpido, mas fiz mesmo assim
Terapeuta: Então você estava desesperada por alívio, ela tentou aju
dai, ainda que eia ou algo a ver com a ligação náo renha sido o
problema... Algo parece ter piorado as coisas, e aí você escaldou
sua mão?
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 103
Manny: Sim.
Terapeuta: Foi aí que você apareceu com as ataduras e...?
Manny: Sim. eu quase não fui, sabia que ela não entendena. Foi
uma atitude estúpida e idiota.
Terapeuta: Sim. nào foi um bom momento para dizer “o chá real men
te não ajudou’, de taro. Parece ter sido uma conversa bastante difícil.
Essa pode ser uma oportunidade para trabalharmos (untos, sabe —
de eu ajudá-la a conter essas emoções dolorosas sem acabar tomando
decisões das quais você sc arrependa. Parece bom para voce? [Inicia
surilmente o tiabalho orientado para a mudança para engajara cliente.)
Manny: Sim, fiquei fora de controle e acabei estragando tudo, tem
sido assim minha vida toda.
Terapeuta: Sim, vejo o quanto você não quer que isso aconteça.
Você perguntou sobre aDBT, e parte dela consiste exatamente no
que estamos falando. Muitas pessoas que tem emoções muito inten
sas nunca aprendem a lidar com elas. Um dos módulos de habilida
des é voltado para esse ripo de momento que você está descrevendo,
você aprende a tolerar o mal-estar para que não faça coisas das quais
se arrependerá. Nesse momento, tudo o que você pode fazer é deixar
as emoções de lido — você não tem opções suficientes quando as
emoçoes se intensificam tanto.
Manny: Rcalmente.
Terapeuta: Ok, então ela disse: 'Olha, não posso trabalhar com
você se fizer isso^, e aí, o que você disse? (Mats uma vez, o terapeuta
tenta, ainda que minimamente, tratar a vergonha, aumentando a to
lerância dela mesmo em meio à tarefa de avaliar a cadeia que levou a
tentativa de suicídio. O tom de voz do terapeuta é bcm objetivo, trans
mitindo completa aceitação sem julgamento, sem negligenciar o fato de
que Manny vè o próprio comportamento como inaceitável.)
Manny: [Bem solene, como se estivesse dizsndo adeus.) Eu disse que
gostei de tudo que ela fizera por mim que ela foi uma ótima tera
peuta e que eu lamentava, dc verdade, ter estragado a terapia, como
esuaguei tudo o que fiz.
104 Drsrnvuivtndo a lormulaçãn de Caso e o Plano de Tratamento
leraoeuta: Hum, isso nao parece bom. (Percebe a lonchiaio e prevê
um possível aumento da idtaçáo suicidal)
Manny: E aí eu fui para casa e tomei uma overdose.
terapeuta: Então, durante a conversa, cm algum momento, você
decidiu se matar?
Manny: Sabe, às vezes, você precisa encarai o tato de que é sua
culpa, ninguém está fazendo isso com você, c você deveria parar de
fazer todo mundo sofrer, sabe? Acabar com isso de uma vez.
Terapeuta: Então, em algum momento da conversa, você começou
a pensar assim, a sc condenar?
Manny: Sim.
lerapeuta: Você sente vergonha do modo como encarou as coisas,
ru!paiido-se por todos os seus problemas. Parece que carrega um
ódio muito forte por si mesma, nao?
Manny: {Concorda com a cabeça.)
Terapeuta: Sim, esse é um lugar escuro e sombrio. Então, você pre
cisou de ajuda nesse lugar, talvez na terapia... e aí tomou uma over
dose?
Manny: Sim.
terapeuta: O que você tomou? (O terapeuta revê o histórico detalha
do da avaliaçao do risco de suicídio aqui.} Deixe-me resumir o que
entendí até agora para ver se entendí direito, ok? A origem de sua
tentativa de suicídio começou quando você perdeu tudo, não con
seguiu ajuda e aí começou a sair do controle, irritada, fazendo coisas
que causaram arrependimento, e as emoções ficaram tão intensas
que você começou a retomar velhos comportamentos... certo?
Manny: Sim.
Terapeuta: Então, dc alguma forma, quando as coisas ficaram difí
ceis, e você nao recebeu a ajuda dc que precisava, passou a se odiar
por ser um fardo, por ter todos esses problemas e tentar se matar,
como se quisesse poupar você e aos outros também...?
Manny: Sim.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialétira 105
Terapeuta: Então você veio parar aqui contra sua vontade, e as pes
soas querem que você inicie a DB I... certo?
Manny: Sim, é isso. Você entendeu!
Terapeuta: Bem, deixe-me explicar o que posso oferecer. Mas vamos
esclarecer que, em primeiro lugar, eu só faço tratamento voluntário,
só trabalho com pessoas que concordam que ambos pensamos ser
uma boa ideia e concoidamos sobre como vamos trabalhar juntos.
Isso é o que nos vejo fazendo agora — você me contando como as
coisas estão para você, eu lhe dizendo se acho que juntos podemos
ajuda- Ia a seguir um caminho diferente e mais parecido com a ideia
que você tem. Eu gostaria de conversar mais sobre o que você quer,
mas, se depois disso, sentirmos que somos uma boa equipe juntos
e podemos prosseguir, vamos assumir um compromisso formal so
bre quanto tempo acordamos em trabalhar juntos, como lidaremos
com quaisquet problemas que surgirem entre nós, coisas assina. Pos
so adianrar que gosto dc você, o que considero importante. Como
você está se sentindo? Confortável?
Manny: Sim, estou surpresa por estar falando tanto, não costumo
fazer isso...
Terapeuta: Ok, sinto que isso é legal e um bom começo para nós.
Deixe-mc contar as idéias que tenho até agora para ver se elas se
alinham corn as suas c se parecem valer a pena. Trabalho prmcipal-
mente com pessoas que têm emoções muito intensas, que, nao por
culpa própria, nunca aprenderam maneiras de trabalhá-las. Elas fi
cam estagnadas e náo conseguem resolver os problemas de sua vida,
c, com isso, perdem o controle emocional e acham que se machucar
alivia, faz a emoção diminuir, como você disse que se cortar a faz se
acalmar.
Mamiy: Certo.
Terapeuta: Entáo, a terapia que ofereço é para pessoas que têm
emoções intensas, para ajudá-las a aprender outras maneiras de se
aliviar, além de evitar a autolesão. Porém, pata muitos, desistir da
autolesão é difícil. Você já tentou parar?
IOC Desenvolvendo a Formulação de Caso r o Plano de Tratamento
Manny: Sim, tenro não fazer isso; mas, às vezes, é a ÚD,ica coisa que
ajuda.
Terapeuta: Sim. (Pausa.)
Manny: Quero dizer, sei que parece confuso; mas, às vezes, é me
cortar ou me matar, sabe?
Terapeuta: Sim. Muitas pessoas se sentem assim quando começam
nosso programa, quando sentem que, se não puderem aliviar a ten
são, ficam mais suicidas.
Manny: Exatamtnte.
Terapeuta: Certo. Qual foi o maior período que você iá ficou sem
se cortar?
Manny: Acho que foi quase um ano uma vez. e pouco antes dc tudo
isso acontecer nesse verão e outono... Acho que faria 4 meses que
eu estava melhor.
Terapeuta: Uau. Quase me faz chorar pensar cm como esse período
deve ter sido difícil para você. Uau. Ok, então, da próxima vez que
nos encontrarmos, se você optar por isso, podemos falar sobre o que
você já sabe sobre como parar, mas acho que, agora, a questão mais
importante para nós é, admitindo a frequência dos outros fatores,
você preferiría rei uma maneira diferente de se ajudar com essas emo-
çoes intensas e problemas de vida? Quero dizer, você está apegada à
ideia de ser alguém que se corta ou algo assim? (Usa o pt na poria para
começar a desenvolver o compromisso da cliente com a terapia.)
Manny: O que você quer dizer?
Terapeuta: Quero dizer que, para algumas pessoas, isso faz parte da
identidade delas, parte dc quem são.
Manny: Náo, náo e isso, é só que, às vezes, eu náo aguento.
Terapeuta: Certo. Acho que, com base no que me disse, minha
pergunta é: parece que você precisa de uma solução para quando
sua vida estiver desmoronando — você sabe, quando coisas ruins
acontecem —. uma das coisas dc que você precisa é mais ajuda
com os problemas reais, como dinheiro para a faculdade, sentir-se
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 107
segura — sabe, esses problemas são reais, e era necessário rcr rece
bido mais ajuda. Então, a segunda coisa com a qual você precisa de
ajuda são esses momentos em que a dor emocional chega a um nível
insuportável, e estou me perguntando se, caso trabalhemos juntos,
poderiamos elaborar outras maneiras de você sc ajudar além dc se
conar. Como trabalhar nisso funcionaria para você?
Manny: Isso não vai acontecer, você sabe, já tentei muita terapia,
isso nunca funciona.
Terapeuta: Sim, preciso entender isso melhor... Porque, por mim,
não quero que você tente algo que sabe que vai causar arrependimen
to... Você já tentou muita terapia. (dct/M a preocupação legitima de
Manny enquanto continua a fortalecer o compromisio da mudança.)
Manny: Sim.
Terapeuta: Sun. \Longapausa.) Lu gostaria que fal.íssemos mais so
bre isso para que ambos nos certifiquemos de que nossa terapia a
levará aonde quer ir. Eu proporia começar com o uso dc seus im
pulsos para prejudicar a si mesma, principalmentc os pensamentos
suicidas. pois nosso indicador aponta onde as coisas são mais difí
ceis — trabalharíamos para ajudá-la com os problemas da vida leal
que a fazem querer morrer e lhe dando mais opções para lidar com
as emoções internas. Você conhece bem a teoria?
Manny: Náo.
Terapeuta: Ok, deixe-medesenhar isso no quadro branco, ok? Aqui
está a intensidade da emoção e aqui está o tempo. Quando algo
produz uma explosão emocional, ela sobe desse jeito. Certo, para
algumas pessoas, isso demora a acontecer, só sobe um pouco e de
pois desce rapidamente. Mas, para outras, é mais ou rnenos assim: a
explosão acontece e, quando chega aqui em cima, fica insuportável,
o que leva a pessoa a fazer qualquer coisa para evitá-la. E nesse mo
mento que você diz: “Eu náo aguento."
Manny: Sim, eu não aguento.
Terapeuta: Porem, o problema é que, se você evitar no ponto mais
intenso, o que seu cérebro aprenderá?
10Ô Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plan de Tratamento
Manny: O quê?
Terapeuta: Pense no seu cérebro como uma criança que quer algu
ma coisa e está pedindo cada vez mais: “Me deixa evitar!”, como
uma criança grita: “Quero doce!” Digamos, então, que você lhe dê
a esquiva, o que acontece da próxima vez que seu cérebro estiver na
doccria, por assim dizer?
Manny: Faz uma birra ainda pior — como minha sobrinha, que
tem três anos.
Terapeuta: Certo, você acaba cedendo, porque ela está gritando
muito alto. Você foge do desconforto. Então, o que acontece da
próxima vez, até onde vai a emoção se tentar evitá-la?
Manny: Fào alto quanto for necessário para me fazer desistir.
Terapeuta: Certo. Esse é o problema do uso da autolesão como solu
ção. Se quiser que as emoções diminuam, ela funciona no momen
to, mas piora e piora em situações futuras. Faz sentido?
Manny: Fntáo eu tico aliviada quando me corto, mas aí se eu conti
nuai tentando não me cortar, minhas emoções continuam subindo
e subindo até que eu desista.,.
Terapeuta: Exato. Então, se você fosse ajudar sua sobrinha a conter
as emoçoes, você cederia ou optaria por outro tratamento?
Manny: Não. Eu nunca cederia... Quero dizer, um dia ela aprende
ría a nao fazer bina se eu não cedesse.
Terapeuta: Sim. Isso é basicamente o que eu proporia. Sc decidir
mos trabalhar juntos, olharemos para todas as circunstâncias e pro
blemas da sua vida que desencadeiam essas emoções insuportáveis
e depois faríamos várias coisas ao mesmo tempo para ajudar. A pri
meira coisa a ser considerada é que você nao possui opções suficien
tes nesses momentos em que a situação fica mais difícil e insupor
tável. Então, mencionei o treinamento de habilidades mais cedo, e,
se começarmos em breve, adoraria que você se juntasse ao grupo de
Gary e Ktisten, pois eles são hilários, ótimos professores e pessoas
autênticas, e acho que você gostaria deles. (Continua o trabalho fie
compromisso orientado para a mudança.) Você apienderia muitas ha
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 109
bilidades e, com isso, teria miuto mais ajuda nesses momentos difí
ceis. Outra coisa que sugiro c você c eu trabalharmos muito, muito
duro juntos. Picarei disponível para ajudj-la ao telefone em tempo
real c oferecer idéias. Porque é difícil mudar a autolesão, pois ela
funciona, acaba com a dor emocional. Mas, assim como acontece
com sua sobiinha, quando seu cérebro grita, ele náo pode ter o que
quer, então, o que faríamos é ficar atentos e conduzir a situação de
modo que sob nenhuma circunstância você ceda quando seu cére
bro gritar e precisar evitar .. Vai ser difícil no começo, mas, com
o tempo, você terá mais habilidades, e fazer isso ficará mais facií.
[Pausa) Então, vai ficar assim com o tempo...
Manny: O que você quer dizer com náo evitai?
Terapeuta: Quando digo isso, sugiro que concordemos ein rejeitar
essas estratégias de esquiva, como se cortar e tentar o suicídio, en
quanto você aprende novas maneiras dc lidar com a dor emocional.
Quero dizer, você já tentou outras terapias em que conseguiu apoio,
mas connnuou usando as mesmas estratégias de esquiva c me con
tou como isso não funcionou... {Continua a aceitar as preocupações
lejçtnrnas de Manny para fortalecer o ormprOmisso com a mudança.)
Mutiny: Sim. {Ambos ficam em silêncio olhando para o quadro bran
co.) Então você está dizendo que eu preciso rejeitar essas evitações...
Terapeuta- Na verdade, não estou dizendo que você “precisa”.
Como dis.se, só ttabalho com pessoas que concordam com o que
estamos fazendo [enfatiza a liberdade de escolha) ... O que estou
dizendo é: eis minha compreensão de como o cérebro funciona. Se
você quer que as coisas sejam diferentes, precisa encontrar alguma
outra forma que não seja de evitaçao. O suporte terapêutico junto
com as evitações ocasionais você já tentou. É. claro que você está
livre para tentar um pouco mais... {diz com um tom Itve e um sorriso
que Manny espelha), não, sério, essa estratégia de rejeitar a esquiva
é muito, muito difícil, e aposto que os assistentes sociais podem
ajudá-la a encontrar outras opções além de mim, logo, você pode
continuar fazendo o mesmo. Porém, se trabalharmos juntos, prin-
cipilmvnte agora que percebí bons pontos fortes seus, altm dessa
110 Desenvolvendo a Formulação dc Caso e o Plano de Tratamento
facilidade que temos de conversar, acho que, se rejeitarmos a esqui
va e trabalharmos com afinco, cm seis meses você terá aprendido a
administrar esses momentos intensos de uma mancira que se sinta
bem, e cm urn ano estaríamos bem mais próximos da vida que você
deseja... Seria difícil, sabe, talvez mais do que qualquer coisa que
você já tenha feito na vida. . {Longa pau., a. O terapeuta tira o foco
da mudança e volta a analisar a magnitude da dor na vida de Manny,
acompanhando sua respiração.}
Manny: Ok. {Ambosficam em silêncio.) ... Deixe-mc pensar a res
peito... É um grande compromisso...
Terapeuta: Sim. Para o tipo dc recompensa que você quer, acho
que c o necessário... Sim... E acho que é bom pensar bem, pois é
difícil abrir mão da esquiva c encontrar uma alternativa... Estamos
chegando ao final da nossa sessão... Acho que, se me permite dizer,
descobri o suficiente para me nteresSar cm continuar a conversa,
tenho um bom pressentimento sobre trabalharmos juntos c só cabe
a você decidir se devemos nos encontrar dc novo...
Manny: Dcixe-me... deixe-me pensar um pouco.
Terapeuta: Claro. {Gentile acessível.) Claro. Se eu fosse você, preci
saria de tempo para pensar também, tudo bcm. A assistente social
disse auc você está aquf por mais dois dias, certo?
Manny: Sim.
Terapeuta: Ok. Bem, volto a essa região da cidade no final da tarde de
amanhã. Se tivet duvidas ou quiser perguntar algo- esse seria i:m bom
momento para me encontrar. Basta lig?r c me asisar que quer mc en
contrar. Aqui está o meu número — essa c a melhor maneira de mc
achar. {Entrega à Manny um cartão com uma nota manuscrita.) Bem
\ levanta, estende a mão, bem gentil), aguardo sua ligação, e, claro, con
siderando que gosto de você, espero que queira continuar a conversa.
Claro, é uma grande decisão... Você mc acompanha até a porta?
Manny; Sim.
Aplicando a Terapia Comportanicnlal Dialética 111
Esse exemplo mostra como os conceitos discutidos neste capítulo são
usados para orientar as interações iniciais. Usando a hierarquia de alvos, a
teoria biossocial e os alvos secundários, c adicionando teorias comporta-
mentais dc mudança, o terapeuta avaliou os problemas que levaram ao en
caminhamento de Manny. A Figura 2.6 c a Tabela 2.2 começam a organizar
as informações coletadas até o momento. A Figura 2.6 mostra a tentativa
do terapeuta de compreender a cadeia e as questões adicionais da avaliação
inicial dc maneira resumida, logo após o primeiro contato. A Tabela 2.2 é
organizada de acordo com a h.eratquia de alvos prioritários do Estágio 1 e
elabora em mais detalhes as “notas pessoais do terapeuta, que d.rcciona-
rão a próxima rodada de questões de avaliação. A opinião dos terapeutas
difere em relação às maneiras que os ajudam a se lembiarem das variáveis
de controle. Com isso, decidi incluir esses exemplos de representações de
um terapeuta para encorajá-lo a experimentar, ainda que com esboços bem
simples, e, em consequência, para entender melhor os padrões das variáveis
dc controle dosclientes.
Nesse caso, o terapeuta se pergunta se um dos principais contextos as
sociados ao comportamento suicida ocorre quando ela nao consegue obter
a aiuda adequada dos outros, talvez, devido à combinação dos próprios
deficits dc habilidades interpessoais e do alvo secundário de competência
aparente e/ou talvez devido ao avassalador impulso de a^ao de vergonha,
que a mantém em silêncio. Ele também tem dtividas a respeito da melhor
maneira dc conceituar algumas ações, corno derramar água fervendo na
máo. O terapeuta suspeita de que a autolesão tenha mais de uma função, t
provável que seja uma fuga impulsiva da angústia, e, portanto, melhorar as
habilidades dc tolerância ao mal-estar será necessário. Porém, dado o relato
da cliente sobre a terapeuta anterior ter ficado chateada ao ver as evidências
da autolesão, o terapeuta também deve avaliar se a autolesão serve para
comunicar angústia.
Na próxirna sessão, o terapeuta deve entender o que levou a cliente a
não revelar que estava acumulando medicação, a entender as variáveis de
controle desse importante elo na cadeia do comportamento suicida.
112 Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
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Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 113
Tabela 2.2 Observações do Terapeuta em Relação ás Áreas-Alvo
Pré-tratamento
• Ainda precisamos entender o que Manny quer, para onde estamos indo — ela quer
retomar a faculdade? O que exararocote?
• Meus limites: Preciso chegar a um acordo sobre o acúmulo dc medicamentos c sobre
Manny náo ser sincera quanto a isso.
Risco à vida
• , acumulação de medicamentos, falha em .nformar a terapeuta/mentir?
Quando ela começou a acumular remédios? Quando exatamente ela decidiu tomar a
overdose? O que ela tem igora? O que a motivou a não revelar o ac úmulo dc medica
mentos — como podemos garantir que isso sera diferente agora?
Ovctdo.se
• Despejar água escaldante cm si, queimaduras de terceiro grau: Impulsividade? Ela
consegue conter os impulsos na presença de fácili tadores da autolesão? O que exata-
mente estava acontecendo na ligaçao que precipitou esse evento?
• Cortes visíveis para a terapeuta —- a autoicsão intencjonal funciona para sc comunicar?
• Quão ruim é “perder o controle — quase arrumar uma briga no ponto dc ônibus?
Risco de machucar ela mesma ou aos outros?
• *'A culpa é sua", “pare dc fazer os outros sofrerem ’■ vergonha intensa — avaliar corn
mais minúcia se ha uma conexáo entre o comportamento suicida c a autolrsao sem
íntcncionalidadc suicida.
Ir-tcrfcrc na terapia
• A terapeuta anterior não quis retomar a terapia após a tencativa de suicídio. Segundo
a cliente, por ter chegado ao limite (“Nao continuarei trabalhando com você sc agir
dessa maneira depois que tento ajudá-la.”) A cliente escaldou a mão. o que precisou
de cuidados medicos. Em seguida, pareceu preocupada ao cc nvcrsar com a terapeuta
pelo telefone. “A terapeuta náo aguentou mais (a autolesão)/ A cliente disse que se
livrou dos comprimidos, mas, na verdade, estava guardando c tomou uma overdose.
.São necessários mais detalhes — está tudo bem se eia t o terapeuta tiverem informa
ções específicas sobre o que deu errado para que a situação não se repita?
• Observei que a maneira de a cliente talar sobre o sofrimento era incoerente com a
angústia real que sentia. De alguma forma, ao obter ajuda, as interações davam terri
velmente errado — por que?
Qualidade de vida
• Dificuldade com raiva? Vergonha?
* Verificar sc há uma boa análise diagnostica no prontuátio hospitala. ou sc c possível
que seja feita antes da aita.
Deficits de habilidades
Definitivamente, possui dificuldades dc tolerância ao mal-estar.
De alguma fotma, não consegue obter a ajuda de que precisa da mãe, da polícia nem
da terapeuta — por quê?
1M Desenvolvendo a Formulação de Caso e o Plano de Tratamento
Você pode ter descoberto, ao ler a rranscriçáo, que diferentes ques
tões e hipóteses surgiram entre o terapeuta anterior c você. Isso é espe
rado, e até desejado, na DBT, pois as visões divergentes levam mais ra
pidamente a uma compreensão prática dos problemas do cliente e a
uma melhor maneira de aborda los. Esse exernplo dc diálogo entre te
rapeuta e cliente também ilustra uma interação de pre tratamento co
mum, dando uma primeira iJeia dc como o terapeuta deve estabelecer
as estratégias nucleares da DBT para avaliar, orientar e desenvolver o
compromisso com a mudança. Voltamo-nos agora paia os detalhes das
estratégias comportamentais orientadas para a mudança (Captiuio 3),
para as estratégias de validação orientadas para a aceitação (Capitulo 4) c
para as estratégias dialéticas (Capítulo 5).
Estratégias
de Mudança
Ntstes pouco:, dias cm que você se sente forte,
seja rápido e não poupe sua< asas do< eforços.
— Rurr.i
Depois de estabelecei a estrutura descrita no Capítulo I c começar a
conceituar os problemas do cliente, como descrito no ( -apítulo 2, utili ■
ze os três conjuntos de estratégias nucleares para abordar esses problemas.
Começamos com o primeiro, as estratégias orientadas para a mudança,
provenientes da ciência comportamental, princii talmente da tradiçao cog
nitivo-componamental. Este capítulo ensina a usai estratégias de mudança
quando (1) os clientes são propensos à desregulação emocionai; (2) têm
problemas crônicos, múltiplos e graves, e falhas de tratamento; e (3) todos
os itens anteriores ocorrem não apenas em sua vida, mas também na relação
terapêutica Normalmcnte, você precisa trabalhar de maneira simultânea
muitos problemas graves. Por esse motivo, a hierarquia de alvos da DBT e
a formulação dc caso do cliente fornecem diretrizes sobre o que trabalhar e
como distribuir seu tempo estrategicamente.
É necessário que você trate os alvos dc maior prioridade adequadamen
te, mas isso não significa ocupar toda a sessão. Na maioria das vezes, múl
tiplos alvos são abordados em uma única sessão. Para trabalhar de forma
eficiente, você deve concentrar a atenção nas variáveis de controle, comuns
entre os comportamencos-alvo, e reunir estratégias de mudança para abor
dar esses processos. Em particular, as estratégias de mudança vi^am dire--
116 Estratégias dc Mudança
tamence a desregulaçáo emocional do cliente. O terapeuta precisa sempre
avaliar e improvisar para adequar as estratégias básicas dc mudança ao mo
mento, conferindo às sessões uma sensação de movimento, velocidade e
fluidez. Este capítulo demonstra como o uso de estratégias orientadas para
a mudança pode ser criativo, flexível e preciso.
A DBT pede ao tetapeuta para lidar com as sessões como um jazzista.
O domínio dos aspectos b.isicos permite a improvisação, que é, ao mesmo
tempo, disciplinada e livre. Para isso, assim como o jazzista precisa dominar
o básico dc seu instrumento; o movimento, a velocidade c o fluxo necessá
rios à DBT vêm do domínio das fénamentas da terapia comportamental.
Cor.forme descrito no Capitulo 2, as ferramentas usadas para determinar
as variáveis dc controle de comportamentos problemáticos sáo principias e
avaliação comporramcntais. A1- ferramentas usadas para ajudar o cliente a rea
lizar as mudanças desejadas são estratégias corno automonitoramento, análise
comportamental ê análise dc soluções, estratégias didáticas e dc orientação,
e procedimentos de treinamento dc habilidades, de exposição, de manejo dc
contingência e de reestruturação cognitiva (O'Donohue, & Fisher, 2009). A
Tabela .3.1 lista as intervenções padrão da lerapia Cognitivo-Comportamen-
tal (TCC) ao laoo das técnicas correspondentes usadas no âmbito da DBI
Tabela 3.1 Técnicas da TCC Padrão e Modificações Correspondentes
Realizadas na DBT
Estratégias da TCC Padrão Estratégias da DBT
Orientação
Didática
Comprometimento
Au tnmor i tora men to
Análise comporramental/anáiisc funcionai
In fight
Ai.álisc dc soluções
IVoccdimentosdc treinamento de habilidades
Procedimentos dc exposição
Procedimentos dc maneio dc contingência
Procedimentos de modificação cognitiva
M icro-crrcruação
Bsieotducaçao em princípios comportamentais
f etratcgiis dc comnrometimente da DBT
Caitão diário dc DBT
Análise em cadeia
Teoria Biossocial e destaque
Solução de problemas e generalização
Habilidades da DBT
DBT como exposição
Contingências naturais da relação terapêuti
ca; regra das 24 horas; regra das quatro faltas
Persuasão dialética, lógica, mente sábia
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 117
Como mencionado no Capítulo 1, na DBT. é necessário competência
em componamcntalismo, e este capitulo, sozinho, não transmite tudo o
que c preciso saber. Os leitores que não tiveram a oportunidade dc estudar
terapia comportamental devem consultar Wright, Basco e 1 base (2006);
Anthony e Barlow (2010); e O’Donohue e Fisher (2006). Este capítulo
descreve suentamente as técnicas padrão da TCC listadas na Tabela 3.1
antes dc discutir como cada uma delas se adapta ao contexto da DBT.
OR1ENIAÇÀO E MICRO-ORTEN1AÇÁO
A maioria dos protocolos de TCC geialmenre começa orientando o
cliente à lógica das intervenções de tratamento propostas e fornecendo ins
truções diretas sobre a melhor forma dc ele participar das tarefas da terapia.
Cada intervenção é vinculada às meras finais do cliente, para que ele en
tenda bem o que e poi que é proposto, e como fàzé-lo. Na DB E vocè nao
o orienta apenas no início do tratamento, mas também implementa o que
pode ser chamado de "‘micro-orientação ’. Uma vez que as própiias inter
venções de mudança podem ser experienciadas comc mvalidantes, evocam
desregulação emocional, o que pode interferir na colaboração do cliente
com as tarefas da terapia. Em consequência, você deve explicar com fre
quência por que uma detetminada tarefa de tratamento c necessária para al
cançar as metas do cliente e. além disso, precisara instruí lo espccifis amente
sobre como realizar as tarefas da terapia, apesar ou diante da desregulação
emocional.
Por exemplo, uma cliente e seu terapeuta estão avaliando o que acarretou
a ocorrência dc um caso específico do comportamcnto-alvo naquela semana.
Quando o terapeuta pede mais detalhes, a cliente dc repente se encolhe na
cadeira, de cabeça baixa, e etnudece. Esse comportamento sinaliza uma desre-
ulação emocional. Para que a avaliação do comportamento alvo continue, a
cliente precisa dc auxílio para regular suas emoçoes, bem como ser orientada
de volta à tarefa original. Essa micro-orientaçao é similar a este diálogo:
118 Estratégias de Mudança
Terapeuta: Susie, alguma coisa aconteceu. Você se encolheu e ficou
em silêncio. Meu palpite c que vocé sentiu uma enorme onda de
emoção — medo, talvez? Vergonha?
Susie: (Assente e sussurra.) Os dois.
Terapeuta: (Levanta a hipótese de que a cliente está dominada pela
emoção e, portanto, continua a convtrsa de manrira gentil, mas obje
tiva. Caso as outras pessoa^ náo tenham respondido às expressões menos
dramáticas de angústia da cliente e assim, tnádvertidamente, tenham
moldado esse estilo exagerado de comunicação da cliente, o terapeuta
precisa lhe dar uma resposta clara, contingente e útil, sem adotar urna
postura ou tom muito solicito. punitivo ou desdenhoso.) Certo, você
sabe o que fazer?
Susie: \Agita a cabeça.)
Terapeuta: Ok. Você precisa se concentrar dc novo para que consiga
alcançar o que precisa hoje. Do contrário, é provável que se sinta
mal quando for embora. Faz sentido? (Associa a lógica da regulaçao
emocional às metas da cliente.)
Susie: (Levanta o olhar na direção do tcrapi ata, ouvindo-o com atençao.)
Terapeuta: Isso provavelmente significa que você precisará regular as
emoções que está sentindo o suficiente paia conseguir voltar a interagir
comigo. Você quer ajuda ou sabe como fazer isso sozmha -— sabe lidar
consigo mtsma e com suas emoções para poder voltar à conversa?
Se a cliente do exemplo anterior náo souber reduzir a intensidade da
emoção, o terapeuta a treinai 1 especificamente sobre o que fazer. Isso é
mostrado no proximo exemplo, que se desenrola ao longo ae 10 minutos
de uma sessão posterior.
Terapeuta: Susie, você percebeu que acabou de mudar dc assunto?
Susie: (Dá um sorriso discreto de medo e uma leve encolhida no corpo.)
Terapeuta: Acho que esse é um daqueles momentos nos quais mu
dai de assunto c automático, como uma forma dc regular as emo
ções. Eu me pergunto se você está com medo. É isso o que está
acontecendo?
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 119
Susie: Acho que sim.
Terapeuta: Nós temos dois caminhos — podemos mudar de as
sunto ou continuar, mesmo que a emoção esteja se intensificando.
Você lembra que conversamos sobre o condicionamento da esquiva?
Quando um assunto se torna desconfortável, às vezes você evita, o
que a impede de receber a ajuda de que precisa. (Associa a intervenção
às metas da cliente} Este pode ser o momento de escolher continuar o
assunto, mesmo que por pouco tempo. Para fazer isso, você precisa re
tomar nossa conversa, deliberadamcnte falando sobre o que é difícil,
o que está sentindo... Neste exato instante, você percebeu que está
prendendo a respiração? Veja se |iode respirar profundamente e de
forma suave... isso... mais uma vez... sim, isso é um pouco de ação
oposta ao medo (usa uma habilidade dc regulação emocional} Então, o
que acha, vamos conversar um pouco mais sobre isso?
Em outro exemplo, a cliente e seu terapeuta estão fazendo uma análise
em cadeia de um comportamento-alvo. Em resposta a uma questão funda
mental, a cliente, de súbito, diz: "Não sei."
Terapeuta: As vezes, não enteado o que esse “Não sei” significa,
quando você reage tão rápido. Significa “Me deu um branco”. Pre
firo não falar sobre isso", ou (faz uma pausa, demonstrando interesse)
... outra coisa? O que esse Não sei significa?
Susie: Náo sei. Quer dizer, eu não sei o que dizer...
Terapeuta: Hum, o dilema é o seguinte: para saber o que você vai
fazer agora, precisamos saber como se sente Então, o segredo é olhar
para dentro dc si. Eu perguntei: “Como você se sentiu quando ele
disse isso para vocc?r. c, se você desacelerar por um segundo, quais
pensamentos vêm à tona? Alguma sensaçao física?... Não tem pro
blema demorar o tempo que você precisar, nós náo temos pressa...
Pode ser que precise refletir um pouco, que nao tenha ama resposta
pronta, procure um pouco...
A micro orientação, como nesses casos, embasa o trabalho orientado
para a mudança.
120 Estratégias dc Mudança
ESTRA1ÉGIAS DIDÁTICAS
Assim como outros tratamentos cognitivo-comportamcntass, a DB
usa intervenções didáticas, ou dc educação, como a psicocducação. Na
DBT, você discute, de forma oDjeüva, critérios diagnósticos, pesquisas re
levantes e fornece outras informações que ajudem o cliente a entender suas
dificuldades e o processo terapêutico. Na DBT você também ensina prin
cípios de aprendizagem comportamental, como se o cliente tosse um estu
dante de graduaçao ou um tetapeuca em treinamento. Isso é necessário por
que o cliente nao deve saber apenas manejar as contingências que afetam
seu comportamento, mas também ser capaz de ensinar os outros a fazê-lo.
Por exemplo, alguns clientes assumem excessivamente a pumção como
forma dc regular seu comportamento. Eles náo aprenderam as Habilidades
de automanejo necessárias para aprender, manter e generalizar novos com
portamentos, e para inibir ou extinguir os indesejáveis. Por isso, o terapeu
ta, muitas vezes, precisa ensinar expressamente os princípios de mudsnça
comportamental, como definir metas realistas e tolerar progressos limitados,
como criar planos dc prevenção de recaídas e, de modo geral, como analisar
o ambiente e o ptop-io comportamento e manejar as contingências e o con
trole de estímulos que sustentam as mudanças desejadas (Linehan, 1993a).
Os clientes precisam entender esses princípios de mudança de compor
tamento não só para maneiar seu comportamento, mas tambémporque to
dos os envolvidos no tratamento, bem como aqueles que integram seu con
texto social, muitas vezes, reforçam inadverddamente o comportamento
suicida e outros comportamentos disfuncionais. Por exemplo, uma cliente
lutava contra um comportamento suicida crônico que levava a hospitaliza
ções psiquiátricas reincidentes, longas e compulsórias. Quando a cliente e o
terapeuta ambulatorial estudaram os padrões que tesuítavam em hospitali
zações e os que levavam ao seu prolongamento, idennricaram contingências
problemáticas de refòrçamento.
Como a cliente era charmosa, bonita e carente, suscitava respostas mui
to acolhedoras dos outros. Isso se tornou um problema. Quando ela agia dc
mancira frágil e passiva, os problemas ficavam sem solução, e outras pessoas
se envolviam para assumir o controle. Ela, então, resistia a esse controle, o
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 121
que acabava gerando fortes lutas de poder. Seu descontrole e as tentativas
de suicídio cada vez mais constantes faziam com que as pessoas a hospita
lizassem. No hospital, quando agia de forma mais vulnerável, a equipe dc
internação fazia concessões e atenuava as exigências Inadvertidamenrc, isso
reforçava sua postura frágil e passiva. Apesar da bondade e da preocupação
da equipe, era um enorme desserviço. Fortalecia o padrão que destruía,
constantemente, sua vida ambulatorial.
Quando a terapia a fez entender como essas contingências aumentavam
as tentativas de suicídio, ela escreveu uma cana para a equipe dc internação,
na qual expressou o padrão problemático de reforçamento oue desenca
deava o prolongamento das internações. Ela pediu qut, nas internações
futuras, a equipe agisse dc forma mais hia e objetiva. Em particular, pediu
que eles se abstívessem de fazer exceções quando ela ag'sse de forma Frágil
ou passiva, e que, em vez disso, incentivassem seu engajamento ativo com
o tratamento, e nao sua passividade ou fragilidade. O entendimento das
contingências de reforçamento pela cliente foi fundamental para mudar
esse padrão que reforçava seu comportamento de alto risco.
ESTRATÉGIAS DE COMPROMETIMENTO
O acordo expresso e coiaborativo para trabalhar cm prol das metas de
tratame nto determinadas é uma característica das TCCs, partieularmente
necessária à DBT. No entanto, firmar c manter esse acordo não é ácil.
Muitos clientes que procuram a DBT acham difícil gerar e manter sua mo
tivação para mudar. Os fracassos reiterados cm tratamentos passados os dei
xaram derrotados e céticos náo apenas sobre suas capacidades de mudança,
mas também sobre a capacidade do terapeuta de ajudá-los. Alguns clientes
lutaiam a vida coda para mudar. Eles e as pessoas a seu redor aizeram es
forços gigantescos, mas fracassaram. Muitos clientes internalizaram que a
terapia náo é capaz de proporcionar alívio tão bem ou rapidamente quanto
a autolesao intencional. Isso dificulta o abandono de algumas estratégias
de enfrentamento, que. apesar de funcionarem, o cliente já sabe melhor do
que você como são inal-adaptativas. Por essas razões, iniciar a mudança e
manter a motivação é complicado para muitos clientes.
122 Estratégias de Mudança
Portanto, uma das tarefas mais importantes da DBT é ajudar o ciicntc
a se tornar mais motivado a fazer as mudanças necessárias. A ambivalência
sobre a mudança e a falta de motivação para mudar sáo esperadas. São vistas
como problemas que a terapia deve tratar, e não aspectos que o cliente de
veria ter resolvido antes de começar a terapia. Em geral, os clientes têm um
histórico de cocrção e cooptação em relação à mudança de comportamen
to. Portam®, c essencial perceber quaiquer minima talha na colaboração.
Você deve ser capaz de esclarecer e persistir, em vez de ceder, quando se
deparar com a relutância ou resistência, compreensível, do cliente às mu
danças necessárias. No entanto, isso deve ser feito de uma maneira que não
repita padrões coercitivos passados. O terapeuta, às vezes, é um defensor
de novos comportamentos, fazendo demandas convincentes e benevolen
tes, mas sempre no contexto de uma relação sem julgamento, que apoia a
liberdade de escolha do cliente. Esse foco na construção de motivação e
comprometimento faz parte de várias abordagens da I CC (por exemplo,
entrevista motivational c terapia de aceitação e compromisso).
Como consequência, sempre que se inicia uma mudança, principal
mente durante as primeiras sessões, a DBT enfariza a necessidade de usar
estratégias que ajudern os clientes a fortalecer seu comprometimento com a
mudança. As seguintes esttatégias específicas de comprometimento são en
fatizadas na DBT como formas de ajudar os clientes a desenvolver e manter
seu compromisso com a mudança.
Prós e Coniras
Avaliar os prós e contras é a estratégia básica para trabalhar qualquer
alvo cm relação ao qual o cliente se sinta ambivalente quanto à mudança.
O terapeuta assume uma postura genuinamente equilibrada para ajudar o
cliente a ponderar os prós e contras da mudança e os da manutenção do ría-
tus quo. O terapeuta também o ajuda a descobrir como a mudança que está
ponderando se adequa a suas metas e valores, parücularmcnte, explorando
as eventuais inconsistências.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 123
Pé na Porta
A estratégia do pé na porta se baseia em uma apresentação da mudança
dc forma tao vaga, que leva as pessoas a dizerem Sim . Em essência, o te
rapeuta molda a proposta de mudança visando fazer o cliente dizer: “Sim,
se for dessa maneira, é claro que eu gostaria/ Por exemplo, unia cliente
queixa-se de que suas relações amorosas sempre fracassam repentinamente,
em grande parte porque ela responde aos problemas que surgem no rela
cionamento se cortando. Baseado na esttatégia do pé na porra, o terapeuta
diría: Podemos usar a terapia para ajudar a desenvolver as habilidades que
criam e mantêm relacionamentos melhores. Você acha a ideia interessante?”
Porta na Cara
A estratégia da porra na cara c oposta à do pé na porta. Com ela, o tera
peuta apresenta a mudança necessária exata ou definitiva, sem restrições ou
ressalvas. Por exemplo, usando a estratégia da porta na cara com a cliente
descrita, o terapeuta diría:
“Para ter o tipo dc relacionamento que deseja, você precisa parar de sc
automutilar. Isso c algo extremamente difícil de fazer, mas lhe propo
nho tentar, porque veio o quanto você quer ter bons relacionamentos.
‘ lentar’ significaria que acordamos trabalhar juntos durante o próxi
mo ano, e que, a pan ir de agora, você concorda em paiar compíeta-
mente com a autolesão. Desista, e investiremos toda a nossa energia
cm encontrai maneiras dc você trabalhar essas emoções insuportáveis
que surgem quando está em um relacionamento.
L iberdade de Escolha, Ausência de Alternativas
A liberdade de escolha, ou ausência de alternativas, acontece quando
o terapeuta destaca que o ciientc é livre para escolher realizar ou nao a
mudança, mas ressalta as consequências indesejáveis de não mudar. Con
tinuando com o exemplo anterior, quando a cliente expressa a injustiça
que sente por ter que parar de sc cortar, único meio eficaz dc atenuar seus
sentimentos dolorosos, o terapeuta difc
124 Estratégias de Mudança
“Certo, um jeito seria parar de sc cortar e encontrar novas manei-
ras de lidar com esse sentimento excruciante e descontrolado quando
acontece uma briga em um relacionamento amoroso. Mas acho que
outro jeito podería scr concentrar sua energia em encontrar um par
ceiro que aceite o tato de você precisar ir ao hospital com frequên
cia.. alguém que consiga tolerar, c perdoar, os momentos cm que se
sente magoada e mostra essa mágoa deixando marcas de sangue no
chão do banheiro...
O segredo aqui, no entanto, é o terapeuta ser genuinamente aberto e
respeitar a autonomia da cliente para escolher, sem julgamento ou controle.
Associar Ciompromissos Anteriores aos Atuais
A ideia aqui c exatamente o que parece. O terapeuta mostra ao cliente
como mudanças similares que fezforam bem-sucedidas c destaca que, se ele
já conseguiu mudar (por exemplo, compromissos anteriores bem-sucedidos
ao parar de fumar ou usar heroína), é capaz de manter o processo (inter
romper a autolesão).
Advogado do Diabo
Essa estratégia acontece quando o terapeuta assume uma postuta de
defesa do status quo. mencionando dúvidas, preocupações ou desvantagens
cm relação à mudança. Isso ajuda o cliente a desenvolver a própria opinião
sobre a necessidade da mudança, tornando-se ativo na identificação de bar
reiras r preocupações que a bloqueiam.
Modelagem
Por fim, a modelagem é o fortalecimento gradual do compromisso do
cliente. O terapeuta o ajuda a vivenciar comportamentos mais frequentes,
intensos ou constantes que aumentem seu desejo, reconhecimento e dispo
sição dc agir em prol da mudança.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 125
Estratégias de compromisso assim são formuladas cm todas as discus-
soes em que o compromisso do cliente com a mudança deve ser fortalecido
e sao reforçadas sempre que sc começa a trabalhar em uma nova tarefa.
ALTOMONITORAMENTO: O CARTÃO-DIÁRIO DA DBT
Fmbora o automonitoramento seja importante cm muitas TCCs, na
DBT. ele c essencial. Todos os dias, o cliente usa um canão-diário padrão
da DBT para monitorar e registrar todos os alvos primários de tratamento.
Ambos os lados do cartão-diáno são mostrados na figura 3.1. Um lado
monitora a prática das habilidades DBT, e o outro, a ocorrência de outros
alvos primários (impulsos e atos suicidas, impulsos c atos de autolesão),
emoções associadas e uso de drogas. O cliente leva o cartão-diário completo
para todas as sessões, e as sessões começam com uma análise dele.
O terapeuta e o cliente desenvolvem juntos uma definição funcional
dos comportamentos-alvo a serem monitorados e discutem como muda
dos se relaciona às metas do cliente. Por exemplo, uma definição funcional
compartilhada pode ser a de que a autolesão é qualquer autolesão intencio
nal que rasgue a pele, deixe uma marca ou envolva a ingestão de substâncias
com a intenção dc se prejudicar”. A interrupção da autolesão intencional de
sc cortar pode-se vincular diretamente às metas da cliente porque ela relata
sentir vergonha quando os outros veem suas cicatrizes; ela deseja parar de
adotar “métodos de enfrenramento equivocados” e, com o tempo, a autole
são intencional aumenta o risco de morte por suicídio.
Quando cada alvo tiver sido definido, o cliente monitora a frequência,
a intensidade ou outros aspectos acordados com o terapeuta sobre eles. A
equipe cliente-terapeuta usa as informações do cartão diário para direcio
nar o tratamento. Por exemplo, o cliente classifica a intensidade com a qual
sentiu o impulso dc cometer suicídio, autolesao ou usar substâncias quími
cas cm uma escala de 0 (nenhum impulso) a 5 (os impulsos mais fortes e
mais intensos possíveis). As pontuações altas podem indicar uma ocorrên
cia intensa ou generalizada de impulsos, e os clientes devem avaliar os im
pulsos mais intensos ou mais elevados sentidos naquele d:a em particular.
126 Estratégias de Mudança
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Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 127
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<28 Estratégias de Mudança
O mesmo esquema de codificação é usado para a dor física e para emo
ções de tristeza, vergonha, raiva e medo. O cliente também avalia a imple
mentação diária dc habilidades, o que ajuda tanto a dc quanto ao terapeuta
observar se o cliente está tentando usar as habilidades, achando-as úteis c
assim por diante. Comportamentos aparentemente irrelevantes são sinais
de alerta que o terapeuta c o cliente monitoram dc perto, são respostas que
parecem ínfimas, mas que, na verdade, abrem as portas para o compor
tamento problemático. Por exemplo, ir com os colegas de trabalho a um
happy hour em um bar, depois de um dia de trabalho estressante, embora
seja irrelevante para a maioria das pessoas, para um cliente, era um passo
para usar coca na. Esse cliente passou a monitorar o desejo de perguntar se
os colegas de trabalho fariam um happy hour, e o “desejo de perguntar sobre
o happy hour se tornou um gatilho para praticar sua prevenção de recaídas.
Deixar as [Kittas abertas para o uso inclui coisas como salvar o contato do
traficante no celular ou evitar assumir responsabilidades, pois o cliente já
antevê a recaída. Como em outras TQCs, você pode adicionar outras medi
das periódicas conforme as necessidades do indivíduo.
O cartào-diário o salva dc muitos problemas potenciais. Primeiro, como
os clientes, em geral, têm vários alvos, torr.a-se impraticável iniciar uma
sessão perguntando sobre todos os comportamentos relevantes. Mesmo se
fosse possível fazer uma rápida pergunta de controle, e o cliente conseguisse
responder apenas com as informações de que você precisa, a quantidade de
problemas ainda não colaboraria com o tempo de sessão. O cartào-diário
lhe permite observar todos os alvos primários com unia lida tápida. Segan
do, quando as crises dominam a terapia, é fácil perder detalhes importan
tes. Por exemplo, ern meio a uma crise de saúde ou interpessoal, você pode
sc esquecer de avaliar a ideação suicida c, assim, náo notar que ela piorou.
Nesse cenário, o cartão diário explicita as informações, para que não precise
sc lembrar dc perguntar sobre elas. O cartão-diário também apresenta as
evidencias do progresso, c revisa Io faz o cliente aprimorar sua percepção
dos problemas c progredir.
Além disso, a DBT enfatiza fortemente a antecipação e a superação dos
obstáculos que interferem no preenchintet.ro do cartão pelo cliente. Incen
tive soluções proativas e práticas, como selecionar um local e um horário
Aplicando a lerapia Comportamental Diafétka 129
regulares para preenchê-lo todos os dias. A atenção regular a tais soluções
pode ser necessária para desenvolver o automonitoramento até que ele se
consolide. O cumprimento ficará mais preciso quando você considerar o
cartao-diário como algo crucial (e náo como "papelada ), e você e o cliente
o revisarem regularmente e usarem suas informações, f importante que
você sempre pergunte c converse sobre o que o cliente colocou no cartáo.
ANÁLISE EM CADEIA COMPORTAMENTAL
E ESTRATÉGIAS DE INSIGHT
Conforme detalhado no Capítulo 2, a análise em cadeia comportamen
tal é usada para a formulação de casos e para o planejamento do tratamento.
Esse processr é ativo e contínuo. Uma análise em cadeia deve ser realizada
sempre que o cliente relatar ou tiver um caso do comporramento-alvo. O
terapeuta e o cliente analisam o caso especifico do comportamento proble
mático para identificar as variáveis de controle, qual comportamento alterna
tivo teria sido mais funcional r por que a alternativa mais viável náo ocorrvu.
A análise cm cadeia também é uma ferramenta importante para ajudar os
clientes a reconhecer padrões em seus comportamentos (por exemplo, pro
mover os insights). Muitos clientes desenvolvem expliiações simplistas para
seu comportamento (por exemplo: “Sou preguiçoso , “Sou o tipo de pessoa
que... e nao fazem a menor idéia das variáveis de controle dc seus compor
tamentos. Fm muitos casos, os clientes nao receberam um feedback sobre a
forma como seus comportamentos afetam os outros, positiva ou negativa
mente, e nem estão cientes da extensão de^se impacto. Na DB T, você usa a
análise em cadeia para ensinar o cliente a se envolver ativamente na identi
ficação dasvariáveis dc controle enquanto ensina explicitamente uma teoria
biossocial da etiologia e manutenção da desregulação emocional, para tirar o
estigma de suas dificuldades, c propõe uma ideia geral do que pode ser feito
para melhorar as coisa*.
Como, geralmcnte, muitos alvos precisam ser tratados, o terapeuta
pode não ter tempo para se aprofundar nos padrões, incentivando os in
sights como forma de identificação de algo que deverá receber atenção fu
tura ou, em ouras ocasiões, mudando seu significado (por exemplo, valor
130 Estratégias de Mudança
do estímulo). O terapeuta que tem muitos problemas prioritários a tratar
pode ter tempo somente de fazer um breve comentário, como o seguinte:
r interessante — em situações em que a outra pessoa estava sendo
complecamente irracional, a explicação padrão c que você está agin
do errado . Você já reparou cm quantas vezes essa é a explicação que
se da quando as coisas náo funcionam?”
Fm alguns ca<os, identificar, junto com o cliente, padrões repetidos cm
diferentes alvos basta para fomentar a mudança. No entanto, a pressupo
sição da DBT c que tal insight, por si só, náo é suficiente para produzir a
mudança. Fm vez disso, o foco recai sobre a identificação de respostas subs
titutas, para treinar e generalizar. O cliente e o terapeuta usam estratégias
de análise de soluções para chegar a essas respostas substitutas alternativas.
ANÁLISE DE SOLUÇOES
A análise de soluções incentiva o cliente a assumir uma po«tura ativa na
resolução dos problemas cotidianos c fortalece sua capacioade dc generali
zar o que é aprendido na terapia para ser aplicado em seu dia a dia.
Quando urn cliente está regulado emocionalmente, a análise de soluções
é feita com uma conversa direta sobre o que ele poderia fazer de diferente.
Juntos, vocês identificam os comportamentos ou resultados desejados e,
em seguida, as medidas específicas necessárias para consegui -los. Você divi
de sequências complexas de comportamento em componentes manejáveis,
por meio da análise dc tarefas (como discutido no Capítulo 2). Você pode
sugerir comportamentos alternativos, como habilidades de DBT especí
ficas, ou apresentar idéias com base em sua experiência ou na das outras
pessoas (por exemplo, de autobiografias, náo ficção e filmes). Vocc também
pode obter idéias para soluções através de pesquisas em psicologia (o que c
um comportamento normal), pesquisas de tratamento (o que funciona) c
pesquisas de psicopatolngia (o que interfere na efetividade).
No entanto, quando as pessoas estão propensas à desregulaçáo emocio
nal ou ao comportamento suicida crônico, o processo de análise de soluções
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética I3t
exige ainda mais do terapeuta, lorna-se importante ensinar como resolver
um problema, especialmente ensinando como regular a emoção relativa a
ele o suficiente para engajar e manter o foco durante a solução do proble
ma. Dessa forma, analisar as soluções também é um instrumento para o en
sino da regulação emocional, enquanto se resolvem problemas complexos
dc forma autônoma, fora da terapia.
Mais uma vez, na I >BT, a hij>otese vigente é a de que o comportamento
castuncional é uma tolução — uma tentativa do cliente de resolver o problema
da dor emocional e o desconforto. Qualquer que seja o comportamento pro
blemático — ideações suicidas, autolesão intencional, insultar o chefe, ingerir
bebidas alcoo'icas ou compulsão alimentar —, ele persiste porque funciona:
fornece alívio a curto praz-o. O objetivo da analise de soluções, portanto, é iden
tificar compoitamenros substitutivos que funcionem melhor para o cliente —
que resolvam o problema (sofrimento emocional) sem os efeitos colaterais pre
judiciais ou as consequências negativas de longo prazo dc buscar alívjo rápido.
Os terapeutas cometem um erro comum na análise de soluções. Esque
cemos que a solução deve ser assim entendida pela perspectiva do cliente,
nao apenas pela nossa. E tacil se enganar, como sc parar o comportamento
disfuncional fosse a meta ftnal. “A meta c parar dc se cortar , °A meta é
parar o consumo excessivo de álcool”. Mas essas não são as metas. A meta é
que o cliente tenha uma vida que acredite que vale a pena viver. Para ele, o
comportamento disfuncional ou comportamento alvo pode ser um proble
ma. mas também é uma solução. A meta é encontrar uma solução diferente,
uma maneira dc responder à angústia que ele considere util.
Por todas essas razões, vocè deve ajudar um cliente desregulado c sui
cida crônico com a análise de soluções mais ativamente do que fiuia com
um bem regulado. Você precisa vividamente vincular o novo comporta
mento alternativo ao que importa para o cliente. Quando você não faz
micro orientações suficientes visando a racionalidade- perde a colaboração.
Por exemplo, digamos que uma cliente tome muito mais medicação para
dormir do que deveria, como uma forma de fugii de um sofrimento in
tenso. Ela dorme quase 24 horas seguidas, faltando ao trabalho e ao grupo
de habilidades. Do ponto de vista da cliente, a sobiedosagem funcionou:
132 Estratégias de Mudança
resolveu o problema da emoção avassaladora. Esse alivio dc curto prazo do
mina seu pensamento imediato. Em vez de dizer: “Vocc precisa parar com a
sobrcdosagtm, vamos tiabalhar isso nesta sessão”, o terapeuta dt DB F deve
analisar a situação da seguinte maneira: “O problema que voce resolveu
foi o sofrimento emocional. E se buscássemos maneiras alternativas para
ajuda -Ia? Digo isso porque sei o quanto é :mportante para você manter
esse cmpiego e aprender o máximo possível no grupo de habilidades.” Ou:
“Acho que. para ter o tipo de relacionamento romântico que deseja ou,
“Sim, a desvantagem da overdose é que você sente menos respeito por si
mesma quando acaba faltando do trabalho ou ao grupo". A solução propos
ta ou o comportamento substitutivo deve ser associado às meus do cliente;
devem ser um meio para atingir seus fins.
Quando você pede ao cliente para gerar soluções c comportamentos
substitutivos, pode precisar esclarecer como seria uma solução adaprativa,
bem como enfrentar as mal adaptativas. Como as soluções do cliente são
comportamentos de esquiva, que geram alívio imediato, você frequente
mente deve focar a tolerância emocional como solução, tanto quanto ou
mais do que as soluções que impedem os eventos desencadeantes. Você
pode precisai sistematicamente ajudá-lo a prever as possíveis consequências
(tanto a curto quanto a longo praió) de várias soluções.
Comportamento passado que interfere na terapia
Dificuldade
paia acordar,
acorda
“Tenho
que ir”
Volta a
dormir
Falta ao grupo
de habilidades
de DBT
Alívio, depois
vergonha
C omnortamento passado que coloca a vida em risco
Simplificação Dificuldade/
excessiva da fracasso ao ergon a
tareia que fazer o que intensa c
precisa fazer "pess^.s auíodepreciaçao
nonnais fazem"
Corta sc como
punição
Alívio,
depois
vergonha
lntcnsificam-se I
amminaçáo. Planeja
a vergonha e a overdose
autodepreciação
Figura 3.2 Michael: Análise cm Cadeia de Comporta men tos-Al vo Anteriores
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 133
Evite soluções que atrapalhem a resolução dc problemas realista c in
dependente do cliente, como sugerir torça dc vontade (“tente se esforçar
mais"), confiar demais rm ligações telefônicas para você e hospitalização
psiquiátrica. Com frequência, você precisará alternar o foco entre a solução
dos problemas do cotidiano do cliente e a assistência à regulação emocional
durante as sessões. Com cuidado e sensibilidade implacáveis, você repeti
damente bloqueia os esforços disfuncionais do cliente para esquivar-se do
sofr imento emocional e, cm vez disso, cria condições nas quais ele passa a
adotar uma postura ativa c efetiva em relação aos problemas da vida e às
desregulações emocionais, várias e várias vezes.
Qualquer solução ou plano de ação gerado deve permanecer viável mes
mo diante da extrema desregulaçáo emocional. Buscar soluçõesnovas é
essencial, devido aos deficits de resolução de problemas dos clientes c aos
comportamentos severos dependentes do humor (conforme discutido no
Capítulo 1). O terapeuta ajuda o cliente a antecipar o que poderia impedir
o uso da solução e a identificar comportamentos necessários pata se adaptar
aos obstáculos ao longo do caminho.
Essa é a parte cm que os terapeutas mais falham. Nós simplificamos e
subestimamos o quanto e difícil usar novas soluções quando a dcsrcgula-
ção emocional se faz presente. Pode ser fácil usar as novas habilidades para
responder a ruminação doiorosa em uma sessão, com um terapeuta dando
apoio, mas é quase 'mpossívei depois de acordar de um pesadelo, sozinho,
às 3h. Em consequência, a ênfase da DBT é planejar a generalização. Use a
análise de tarefas para calcular o que é possível c necessário quando a desregu
laçáo for elevada; relacione a todo o tempo o comportamento na sessão com
o cotidiano; ofereça ao cliente gravações da sessão para serem revistas; e pro
jete tarefas de ensaio comportamental para serem executadas entre as sessões.
EXEMPLO DE CASO: MICHAEL
Aqui temos um exemplo clínico para ilustrar as estratégias de mudança
discutidas até agora. Michael faltou ao último encontro do grupo dc trei
namento de habilidades porque perdeu a hora. Quando ele e sua terapeuta
avaliaram as circunstâncias, ela descobriu que Michael lutou durante anos
134 Estratégias dc Mudança
com problemas dc sono, dormindo dc 14 a 18 horas por dia durante pe
ríodos de alto estresse emocional. Michael e a terapeuta concordaram cm
começar a trabalhar em prol de um sono mais equilibrado, para garantir
que cie não perdesse mais encontros do grupo de habilidades e porque esse
padrão reduzia sua qualidade de vida. Eles concordaram cm estabelecer um
horário fixo para acordar (Edinger, 2008) c concordaram que urr.a ligação
da terapeuta, pela manhã paia treinar habilidades, o motivaria. No início do
diálogo que se dará a seguir, vemos que a terapeuta tem em mente análises
dc cadeias passadas sobre os problemas de sono de Michael, bem corno da
autolesão intencional c de overdose, como mostra a Figura 3.2. Observando
os alvos, notamos que a desregulação da vergonha e a autoinvalidação sao
elos comuns. A terapeuta, portanto, deve ficar atenta às oportunidades que
surgirem nas sessões para trabalhar esses elo* comuns de uma maneira que
dê conta dos múltiplos problemas graves.
Terapeuta: E como foi com os problemas de sono? Da última vez,
concordamos que uma ligação logo pela manhã seria útil. O que
você achou?
Michael: {Falando dt forma hesitante.) Bem. eu estava acordado,
náo é? Nós conversamos.
Terapeuta: Sim.
Michael: ... Hum. (baz uma pausa.)
Terapeuta: Bem, para mim foi um esforço fazer isso todas as manhãs,
mas mt senti bem, porque você se levantou e atendeu ao telefone.
Como isso funcionou paia o seu dia? (Fala brevemente sobre seus li
mites — que sua disposição de fazer “um esforço " dependí da eficácia.)
Michael; Bem, você sabe, sabendo que você ia ligar, eu acordaria.
Terapeuta: Ok, ótimo.
Michael: Então foi bom.
Terapeuta: Certo, (fíreve silencio.) Há algo na maneira como disse
isso... Há mais alguma coisa que gostaria de dizer? {Falando deforma
gentil) Você costuma dar mais detalhes. O que está acontecendo?
Aplicando a lerapia Comportamental Dialética 135
Michael: Hum... Bem, cu.. Bem, é verdade que cu estava acordado
quando você ligou e escava me arruinando para sair, então foi bastan
te motivador saber que você ligaria. E, hum... Isso c constrangedor.
Sabe, eu... Sera que podemos... Acho que meu sono está melhor,
então...
Terapeuta: (Ri e usa um tom alegre.' O que você está evitando dizer?
Michael: Bem, hum, certo. Hum.... Quando.. Depois que desli
guci, estava me sentindo muito cansado, então pensei em me deitar
e descansar só um pouco, mas acabei dormindo.
terapeuta: {Mantém o tom leve.) Então você voltou a dormir?
Michael: Sim.
Terapeuta: Você quer dizer que seu despertador cocou c você voltou
a dormir? Em suma, eu, seu flel despertador, que mudei minha ro
tina para ligar para você... {Impede os comportamentos de esquiva ao
apresentar o gatilho, atenuando a temida consequência da avassaladora
desaprovação interpessoal com um tom leve.)
Michael: Sim. Eu sei. me sinto péssimo por isso.
Terapeuta: {Ainda leve, o tom è suave atento e objetivo.) Dá para per
ceber. Então, você se sentiu tão mal que náo ia nem me conrar, ia?
Michael: Hern eu, bcm... Não queria que você ficasse brava comi
go, sabe. Quero dizer, já mc senti mal o suficiente.
Terapeuta: Hum.
Michael: Você realmcnte tem riabalhado muito para me ajudar, e
fiquei bastante surpreso quando sugeriu as ligações...
Terapeuta: Sim.
Michael: ... E percebi que você tem se frustrado comigo esse tempo
todo porque isso tem sido um problema enorme, e eu não consigo
fazer as coisas e, então, você tem mc ligado, e isso significa muito
para mim, e, então, sabe, eu sou um fracassado.
Terapeuta: Então você se sentiu desapontado consigo mesmo...
Michael: Sim.
136 Fstratcgias de Mudança
Terapeuta: ... E com vergonha de me contar. E parece também que
você está preocupado de eu ficar frustrada.
Michael: Bem, você está. Eu percebo sabe.
Terapeuta: Hum. Bem. na verdade, não estou frustrada com você,
mas entendo que você se preocupa com isso. Com o que acha que
estou frustrada?
Michael: Comigo. Quer dizer, eu não estou... Você sabe, caramba.
Não estou melhorando, c isso c uma coisa simples. As pessoas acor
dam, tomam café da manhã c vão para o ttabalho, sabe. Quantas
pessoas íazem isso todos os dias?!
Terapeuta: Hum.
Michael: Minha terapeuta me liga, e mesmo assim vofro a dormir,
pc 3, 4, 5 ou 6 horas às vezes.
Terapeuta: Sim... (Mostra que está refletindo, então fala devagar.)
Náo funcionou perfeitamente. Mas funcionou para que você acor
dasse. Parece que você está pensando que, de alguma forma, a si
tuação toda é problemática. Eu não diria isso. Diria que resolvemos
uma parte do problema, que é fazer você se levantar. Cerco? Foi
motivador, e vocé se levantou. E então, de alguma forma, entre le
vantar-se e sair, você voltou a dormir.
Michael: (Murmura.) Mas, você sabe, isso náo é nada.
Terapeuta: Então o que é?
Michael: Isso é o mesmo que nada.
Terapeuta: O que quer dizer com nada?
Michael: Eu so... Sabe, estraguci tudo.
Terapeuta: Você voltou a dormir, sim. você íez isso. Michael, agora
mesmo você está se sentindo culpado e envergonhado, e, seguin
do os impulsos dessas emoções, entrando em modo de autocrítica.
Você consegue perceber isso?
Michael: (Mentia a cabeça.)
Terapeuta: Na minha opinião, se você continuar seguindo esses im
pulsos, isso vai nos atrapalhar. Então, prefiro voltar e procurar uma
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 137
solução junto com você. [Rejeita a autoinvalidação, destaca o padrão
e micro-orienta a tarefa da terapia.) Funcionou para a primeira pane,
sabe, você se levantou. Então, como foi que voltou a dormir? Isso
acontece todos os dias? (A terapeuta enfrenta a escolha de continuar a
trabalhar os problemas do cotidiano ou mudar para tratar o que suspeita
ser o inítio da desregulação na sessão, semelhante ao que acontece com
outros alvos. Ela opta por ver se um bn te destaque ao problema e seu tom
objetivo ajudarão Michael a voltar à tarefa terapêutica em questão.)
Michael: Hum... Hum... Bem... Sim. Todos os dias.
'Terapeuta. (Ri, novamentt, de maneira alegre e tranquila.) Michael,
você tem que fazer a ação oposta. Culpa, constrangimento e auto
crítica estão aparecendo, e de uma maneira tão forte que, na verda
de, estão desviando você da resolução do problema. Acho que foi
nesse mesmo ponto que provavelmente tudo deu errado no pas
sado» (Retorna à orientação, mostrando que tratar a desregulação de
Michael deve se tomar a principal tarefa da terapia.)
Michael: Hum.
'Terapeuta: Você entende o que eu quero dizer?
Michael: Que eu me sinto táo culpado e envergonhado que nãolaço nada diferente.
Terapeuta: Sim, c, agora, o impulso de ação que você sente é escon
der, certo? Mais ou menos me dizer o que eu quero ouvir e mudar
de assunto...?
Michael: Sim.
Terapeuta- E, se fizer isso, seguir esse impulso dc ação, o que acha
que acontecerá com o problema?
Michael: Não vai mudar.
Terapeuta: Certo. Se você seguir esse impulso de agir, nunca terá
a ajuda de que precisa, nunca conseguirá resolver o probkma de
verdade. (Associa o problema comportamental de Michael de permitir
a desregulação ao fato de ele não atingir suas metas.)
Michael: Sim.
F3B Estratégias de Mudança
terapeuta: Então, neste momento, qual é a ação oposta ao cons
trangimento ou à vergonha? Pergunto a você: "Isso aconteceu todos
os dias na semana passada, liguei c depois vocé voltou a dormir?” e
você toma a ação oposta ao impulso dc constrangimento. Qual seria
essa ação? {Oferece a solução por meto do uso de uma habilidade, e
exemplifica e incentiva Michael a aplica la à siiuaçao vigente.)
Michael: Você quer dizer, falar sem esconder?
Terapeuta: Sim, responda à questão de forma bem objetiva. Vamos
tentar: “Então, aconteceu todos os dias?”, e você diz: "Sim. todos os
dias, e me semi muito decepcionado comigo mesmo c preocupado
com o fato de você se frustrar” — apenas descreva, sem julgamen
tos, certo? E mude sua postura corporal para uma oposta.
Michael: (Ele se ajeita, coloca os ombros para trás, faz contato visual.)
Terapeuta: Cerro. Então “Isso aconteceu todos os dias?" (Modela e
orienta o ensaio comportamental para fortalecer a habilidade.)
Michael: Sim, todos os dias, e fíquei muito desapontado comigo
mesmo.
Terapeuta: (Orientando-o com um tom calmo.) Perfeito, mantenha a
ação oposta para que vocc continue na conversa assim.
Michael; Sabe... Não aguento mais desapontar você.
lérapeuta: Vocc c que acha que eu estou desapontada. De alguma
forma, você não está aceitando a forma como rcalmente mc sinto, que
c ammada porque vocc acordou. (Usa a clarificarão de contingência.)
Michael: Você vai mc expulsar da terapia. Eu sei que isso vai acontecer.
Terapeuta: (Mantém o tom de voz de orientação.) Cerro, então se
ria melhor descrever isso assim: “Estou tendo muitos pensamentos
preocupantes: presumo que você está frustrada. E me preocupa a
idéia de que vocc desista de mim.” (Enumera os pensamentos com
Os dedos.) Pente descrevei pensamentos como pensamentos, ok —
você ainda está fazendo a ação oposta, certo?
Michael: Estou corn muitos pensamentos preocupantes c com
medo de que, sc cu não mudar mais rápido, você desista de mim.
Aplicando a lerapia Comportamental Dialética 139
Terapeuta: Sim, é isso. O constrang'mento e a culpa disparam, e o
dominam. Você está indo muito bem aqui. Então, agora, continue
comigo, tudo bem? O impulso de açao é ouvir somente o que é
condizente com a emoção, Quero que você faça o oposto, que é se
manter receptivo para ouvir o que estou dizendo. Pronto? Então, o
que eu sinto é animação, porque tivemos o pnmeiro indício... Faz
anos que você não acorda por volta do mesmo horário todos os dias,
não é? E você acordou em todos dessa semana. (Volta à voz mais
calma de orientação.) Cerro, então a açao oposta aqui é apenas mr
parafrasear, pan. mostrar que entendeu o que eu disse.
Michael: Você está animada porque eu levantei todos os dias, mes
mo que tenha voltado a dormir.
Terapeuta: Certo, vejo isso como um primeiro passo. E acho que
você náo está levando a serio o quanto isso é difícil. Você começa a
se menosprezar e a simplificar dernais. (Destaca o padrão de autoin-
validaçãu do cliente.) Esse não é um problema fácil de resolver. Você
está pensando que é como todas essas outras pessoas. E isso não é
verdade. Quando alguém fica nesse tipo dc ritmo ou hábito dc um
padrão de sono desrcgulado, c muito difícil mudar. Então, vamos
voltar e tentar encontrar uma solução para isso juntos. Você estava
lá e acordou. Agora, quando acordou, tinha cm mente que deveria
ficar acordado? (Volta a abordar o problema do sano, de modo que
na sessão, Michael ensaie a sequência da regulação emocional com a
ação oposta, deixando de Lido a autoinvalidação e voltando a discutir
problemas difíceis, varias vezes.)
Michael Hum... Não.
Terapeuta: Ok. Acho que foi aqui que perdemos o rumo da solução
da última vez. Acho que deveriamos ter tentado uma ligaçao com
um plano de ações para vocé realizar. (Começa a análise de tarefas,
imaginando os pasms necessários para sair da cama, dado o padrão es
tabelecido de Michael de interromper os ciclos de sono.) Você entende
o que eu quero dizer? E como colocar em movimento uma pedra
muito grande e pesada. Nós a tiramos do buraco, mas ainda náo a
colocamos em movimento. E nós temos que fazer praticamente a
i*n Estratégias de Mudança
mesma coisa com você e, então, colocá-lo em movimento. O que
você acha que teria ajudado?
Michael: (Interrompe a terapeuta.) Mas isso é só... Quero dizer, faz
sentido que, sc eu estivesse acordado, como uma pessoa normal es
taria, s:mpksmcntc teria acordado. Entáo...
Terapeuta: Nada disso. Agora... Exatamente agora, você está se in
validando dc novo.
Michael: Bem, é verdade.
Terapeuta: Eu sei.
Michael: É verdade.
Terapeuta: Isso está ajudando? Seguir esse impulso de açao o ajuda
rá a resolver esse problema?
Michael: Eu... Rem... A questão é que, às vezes, as coisas são ver
dadeiras, e eu penso que, talvez...
Terapeuta: (Interrompe.) Eu não estou discutindo isso. Não estou
discordando. A maiona das pessoas faz isso mesmo. Nao estou di
zendo que não é verdade. Só estou dizendo: Isso é particularmente
úril agora. Ou será que a ação oposta é melhor? Você poderia vol
tar e responder a minha pergunta? O que teria ajudado? Você está
lá, esta acordado, nos estamos falando ao telefone. Se eu tivesse...
Quais ações, náo importa quais, tenam sido necessárias para você
realmente levantar e começar seu dia? O que temos que fazer? [Blo
quem a autoinvaltdacao que cia vê como esquiva e direciona para uma
resposta ativa de solução do problema.)
Michael: (Silencio.) I lum, sabe, eu gostaria dc ter certeza.
Terapeuta. Nao precisa ter certeza. Quero saber seu melhor palpite.
Mil hael: Eu... Sabe, aquilo que você disse sobre uma sequência dc ações
rotineiras, parece que vale a pena tentar. Então, o que faço em seguida?
Terapeuta: Certo. O que você teria que fazer... Se tivéssemos uma
rotina matutina muito boa para você, que o fizesse sair de casa, qual
seria? (Tentativa de “desentenar um novo comportamento”do cliente,
geração de solução ativai)
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética UI
Michael: {Faz uma pausa, pensando.) Hum... Bem, sabe, se eu to
masse café da manhã, mas nunca sinto fome quando acordo. Encao,
odeio comer.
Terapeuta: Ok, sem café da manhã. Continue.
Michael: Hum.
Terapeuta: Dc o máximo de idéias que puder, só isso.
Michael: Bem, náo sei... Ligat a televisão, colocar em um progra
ma matinal ou algo assim. Hum, eu acho Para garantir que haja
muitas luzes acesas.
Terapeuta: Ok.
Michael: TV ligada. 1 lurn, sim, e café... É sempre difícil fazer café,
mas, sabe, se eu tomasse café, provavelmente ficaria acordado.
Terapeuta: E verdade? É infalível?
Michael: Eu... Vocc sabe... Talvez, talvez, talvez.
Terapeuta: Talvez. Ok. Você tem uma cafeteira automática?
Michael: Não.
Terapeuta: Você tem dinheiro para comprar uma?
Michael: Hum. eu... Eu acho que tenho, sim.
Terapeuta: Você conseguiría fazer isso hoje à tarde? Como seria...
Apenas imagine... Como seria se vocc... Se nós combinássemos de
novo um horário para cu lhe telefonar, c, na noite anterior, você iá
tivesse deixado a cafeteira programada? Eu ligaria, e seu café estaria
pronto na mesma hora. Você se levanta, acende as luzes, fecha a
porta do seu quarto, diz para si mesmo: “Você náo pode voltar para
lá”, e vai tornar uma xícara de café.
Michael: {Baixinho.) Parece que não tenho muita escolha.
Terapeuta: Náo entendi o que você disse?
Michael: {Umpouco maisalto e com um brilho nos olhos.) Parece que
não tenho muita escolha.
Terapeuta: A respeito dc quê?
Michael: Bem, sobre voltar para a cama.
142 Estratégias de Mudança ___
Terapeuta: (Usa o tom alegre do cliente, mas também confirma a cola-
boraçao.) Achei que já unhamos concordado que essa era sua meta,
náo? Você está sc sentindo coagido?
Michael: Não, eu sei. Sim, eu sei. {.Michaele a terapeuta riem.) Acho
tão difícil!
Terapeuta: E c mesmo. Esse é o meu ponto. O caminho mais fácil
está lá codas as manhas. Ficar seguro, debaixo das cobertas, cochi
lando... (Tentativa de fortalecer o comprometimento, destacando a li
berdade de escolha.)
Michael: [Firme.) Náo. Eu nao quero isso. Eu entendj.
Terapeuta: í difícil. Acho que você não entende o quanto é difícil,
Michael. De alguma forma, parece que você continua pensando que
deveria ser fácil, como se precisasse apenas sc levantar, e náo preci
sasse de nenhuma ajuda, somente se levantar. Mas não é assim que
funciona. E difícil. E por isso que não estou frustrada. E um proble
ma muito difícil de mudar. É preciso fazer repetições para encontrar
soluções que funcionem. E a autoinvalidação, assim como o impul
so dc açáo para a culpa e o constrangimento, tudo isso junto deixa
você sobrecarregado... Você fica tão desrtgulado que não consegue
progredir cm aspectos importantes para você mesmo.
Michael: Aham.
Terapeuta: E tudo bem. Nós vamos resolver isso. Você acabou de
fazer um trabalho excelente. {Percebe que a autoinvalidação esta in
terferindo no entendimento do cliente sobre o progresso que fez, então
valida e age dt forma acolhedora para ajudá-lo a fortalecer sua sequên
cia dc comportamentos eficazes.)
Michael: (Silêncio.) Ok.
lerapcuta: Mesmo?
Michael: Sim, tudo bem. (Faz contato visual, está mais firme.}
lerapeuta: Eu também me sinto muito bem por você ter chegado
até aqui. (Michael respira fundo, rtlaxa e sorri.) Você usou a ação
oposta, iibertou sc dc um pouco de autoinvalidação, e conseguimos
Aplicando a Terapia Comportamental DialéttCa 143
uma nova idéia para testar. Rcalmente um bom trabalho. Essa é a
sequência da qual precisamos. Agora, vamos eliminar possíveis fa
lhas... Então, vamos revisar: O que você vai fazer? Qual c o plano?
Michael: Ok. Então, a cafeteira. Vou comprar hoje. E, certo, sei que
ia disse muitas vezes que ia para casa fazer algo e náo fazia — mas
vou comprar antes de ir para casa.
lerapeuta: (Com voz dc orientação.) Isso, boa ação oposta! Bastante
objetivo, muito bom!
Michael: Quando sair daqui, depois da sessão, vou direto para a
loja.
terapeuta: Ok. Você consegue imaginar alguma coisa que possa
atrapalhá-lo?
Michael: Hum. náo sei. Algum acidenre corn o ônibus. Eu náo sei.
Terapeuta: (Ri.) E se talvez você... se sentir indisposto? O que vai
fazer se isso acontecer?
Michael: (Silêncio.) Eu nao sei.
Terapeuta: Vbcê vai se sentir indisposto. Vamos imaginar que, de
repente, você não se sinta mais disposto.
Michael: Bem, eu posso... (pausa) realizar uma açáo oposta.
Terapeuta: Como hoje?
Michael: Sim.
Terapeuta: Certo. Pense: qual será a emoção?
Michael: Vou mc sentir cansado e vou pensar que deveria ser capaz
dc fazer isso, que não é grande coisa, que eu não deveria precisar de
urr.a cafeteira extravagante — é só me levantar. (Sua voz fica mats
rígida e inflexível.)
Terapeuta: Ok, ót mo. Esses pensamentos de auroinvalidação defi-
nitivamente váo aparecer. Essa é a sua deixa. Pense: qual seria a ação
oposta... Qual é a emoção?
Michael: Algo entre depilmido e desanimado, meio envergonhado,
indignado.
144 Estratégias de Mudança
Terapeuta: Então, uma ação oposta é...?
Michael: Ativo, ficar ativo.
Terapeuta: lambem, talvez, um pouco dc encorajamento e valida
ção em relação ao quanto é difícil? “I difícil, para mim, mudar meu
sono. Eu gostaria que fosse diferente, mas c terrivelmente difícil.”
Ou, até mesmo, a ação oposta da indignação — assumindo uma
postura gentil: "Estou tentando construir um bom começo para
algo que c difícil.
A medida que a terapeuta fazia as análises em cadeia e buscava a solução
pata o comportamento problemático entre as sessões, o comportamento de
esquiva começou na sessão, idêntico ao problema que Michael unha fora
das sessões. A 1 igura 3.3 mostra o esboço da terapeuta da análise cm cadeia
do comportamento problemático em sessão e a forma como interveio.
Como mostrado na ilustração, a análise de soluçoes é semelhante àquela
usada em outros proroc olos da TCC, mas confere uma ênfase maior ao blo
queio da esquiva, ao treinamento da regulação durante a sessão e à atenção
à generalização, para garantir que as soluções funcionem na vida do cliente,
fora da terapia. No entanto, às vezes, a análise de soluções nao basta.
Comportamento telatado entre as sessòes
Tcnipoila liga
paia acordar
Michael
Michael estava
acordado e
conversa com a
terapeuta
Michael
volta
a dormir
Comportamento em sessão
Terapeuta
pergunta se
as ligações
íiuiLioiurani
Michael
respondí
minuutncntc
v;rgonha.
cuipa medi ’'
Michael se «dtioa.
Terapeilj
destt ca o padrão e
continua a lesolução
d*' preb.ema
Terapeuta dá va. or a terapeuta,
bloqueia ev itando o assunto
a eviraçào e a soluçáo ativa
d ' pre Menu
Terapeuta trahallui
direiamcnte paia
que Michael
consiga fazer a
ação oposta sozinho
Figura 3.3 Michael: Análise em Cadeia dos Problemas de Sono
e aa Esquiva em Sessão
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 145
QUATRO PROCEDIMENTOS DE MUDANÇA
DA TCC USADOS NA DBT
Algum destes quatro fatores pode influenciar de forma significativa a
mudança comportamental do cliente, sendo necessário um trabalho mais
aprofundado antes que uma nova solução seja implementada: (1) deficits
de habilidades, (2) resposta emocional problemática, (3) contingências
problemáticas ou (4) processos cognitivos problemáticos. Cada um desses
fatores se associa a procedimentos básicos da TCC: os deficits de habili
dades são tratados com procedimentos de treinamento de habilidades; os
problemas com as emoçoes condicionadas são tratados com procedimentos
de exposição; as contingências problemáticas são tratadas com procedimen
tos de manejo de contingência; e os problemas com processos cognitivos
ou de conteúdo, com procedimentos dc modificação cognitiva. Quando
a análise em cadeia e a análise de soluções são insuficientes para viabdizar
novos comportamentos, um ou mais desses quatro procedimentos básicos
da TCC se fazem necessários.
A combinação desses quatro conjuntos de procedimentos é ilimitada, c os
protocolos manualizados de TCC os utilizam para muitos distúrbios e proble
mas específicos (por exemplo, Beck. Rush, Shaw, & Emery, 1979; Zinbarg,
Craske, & Batlow. 2005; Fairburn. 2008). Embora você possa usar um proto
colo completo passo a passo de DB 1 com seus clientes, na maioria das vezes,
trabalhará os princípios e procedimentos por períodos breves, obtendo o má-
x it> de progresso possível em meio a crises e manejando múltiplos problemas
crônicos. Na próxima seção, as definições resumidas de cada provedimento de
mudança são acompanhadas por exemplos dc aplicação no contexto da DBT.
treinamento de Habilidades
Primeiro, a analise em cadeia pode indicar um deficit de habilidades do
cliente, ou seja, que ele náo possui as habilidades necessárias em seu repertó
rio. Os deficits de habilidades específicas são alvos no treinamento de habili
dades da DBT para ajudar a: (1, regular as emoções; (2) tolerar o mal-estar
(3) responder habilmente ao conflito interpessoal; e (4) observar, descrever c
146 Estratégias de Mudança
participar sem julgar, corn consciêncí c com foco na efetividade (habilidades
de mindfulness .̂ Embora os clientes aprendam a maior parte das habilidades
dc DBT em aulas de treinamento de habilidades, o terapeuta individual tam
bém as ensina, conforme necessário. No entanto, a ênfase do terapeuta indi
vidual é fortalecer o que o cliente aprendeu no grupo < generalizar as habil -dades para seus problemas cotidianos. O trcir.ador de habilidades incute as
habilidades na pessoa; você, o terapeuta individual, as traz à tona. No exem
plo de Michael, a terapeuta faz isso com a habilidade de regulação emocional
“ação oposta à emoção”. Essa é a interpretação resumida de Linehan 11993b)
dc muitos protocolos baseados em evidências para ansiedade, depressão c
raiva, expandidos para outras emoções, como vergonha, culpa c inveja.
Como em outras TCCs, você instrui o cliente com etapas fáceis dc se
guir e molda suas respostas para se assemelharem cada vez mais à resposta
treinada desejada. À medida que você e o cliente discutem os problemas da
vida dele, sugira usar as habilidades de DBT como soluções. Exemplifique e
as demonstre, e ajude o cliente a treinar os novos comportamentos usando
a prática imaginária ou o ensaio encoberto, o ensaio breve e o improvisado
(por exemplo: “Elr diz X e, em seguida, o que vocc diz? ’), e a encenaçao
{roleplav}. Use, informalmente, o modelo de habilidade» da DB T ao apre
sentar exemplos de corno você mesmo usa as habilidades. Você também
pode direcionar o cliente com outros exemplos úteis, retirados dc livros,
filmes, revistas ou TV, c usar histórias, metáforas e analogias. Oriente e dc
um feedback detalhado c honesto, que sugira refinamentos específicos para
que a habilidade funcione corretamentc para o cliente.
Mais uma vez, o ensaio comportamental é crucial. Você nunca consi
deraria o insight sozinho suficiente para aprender a dar tacadas no golfe ou
pintar a óleo. No entanto, muitas vezes pensamos que o insight, por si só, é,
dc alguma forma, suficiente para mudar os complicados, e. muitas vezes ha
bituais, comportamentos mal-adaprativos da regulação emocional. Na DBT,
a prática e o domínio são essenciais para a regulação emocional. Consequen
temente, quando o cliente fica desrcgulado em uma sessão, isso é uma opor
tunidade para praticar, não um? barreira ou incômodo. Você deve lhe passar
instruções diretas sobre como realizar as tarefas terapêuticas, concedendo-lhe
orientações explícitas sobre como regular suas emoçoes. Em vez de pensar em
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética *7
alguma forma de se livrar da desregulação, para que vote consiga chegar com
o cliente ao que importa, na DBT, o que realmente interessa é trabalhar a
dcsregulaçáo emocional. Trate-a sempre que tiver oportunidade.
O diálogo com Michael é um exemplo de treinamento dc habilidades
quando a desregulação acontece cm uma sessão. A seguir, veremos mais
um. No próximo caso, a cliente descreveu a cadeia de eventos que ter
minou em compulsão alimentar e purgação. O elo-chave se mostrou ser
um hutnor disfórico e pensamentos dc “Isso náo importa, nada importa
Relatando a situação, a cliente sentiu o mesmo humor disfórico na sessão.
Quando o terapeuta conduziu a conversa para uma reflexão sobre a forma
como a cliente podería lidar com a situaçao da próxima vez, eía disse em
uma voz fraca c derrotada: “De que adianta?" O terapeuta usa essa situação
como uma oportunidade para praticar habilidades.
Terapeuta. O que acabou de acontecer? Você acabou de me contar o
que houve, e eu lhe disse: “Certo, vamos ver o que podemos fazer a respei
to." E aí, o (jue aconteceu? O que você está sentindo?
Cliente: Nada vai ajudar. Para que fazer tudo isso?
Terapeuta: Fssc c o ponto. O que você está sentindo?
Cliente: (Siléncto. O terapeuta aguarda, i ... Eu não sei.
Terapeuta: Meu palpite é desesperança e medo, um pouco dc can
saço c opressão também.
Cliente: (Silêncio.)
Terapeuta: Ouça, essa é uma questão de vida ou morte (Inclina-se
para frente, calmo, más intenso.) E isso a que se resumem todas as
suas crise», não se trata apenas da compulsão ou da purgação, mas
dc você querer se matar. Você precisa encontrar um jeito de ficar
ativa aqui c participativa da conversa para que possamos descobrir
uma solução. (Orienta e direciona a resolução ativa do problema, além
de manter como alvo um mecanismo fundamental ligado ao comporta
mento suicida ou seja, a sensação de que a cliente considera que , Vada
importa!’) Pense por um minuto. Sc eu disser: Vamos fazer algo
sobre isso’, o que você sente?
!46 Estratégias dc Mudança
Cliente: Não vale a pena. Eu nao valho a pena.
Terapeuta: Você parece muito triste quando diz isso... Seu maxilar
se endurecesse em resignação... Estou certo?
Cliente: Sim.
erapeuta: Se vocc está sc sent ndo assim e está tentando evitar a
purgaçao e a desistência, o que é preciso fazer?
Cliente- Eu teria que rne sentir betn comigo mesma, como sc tudo
isso valesse a pena.
Terapeuta: Certo. O que faz valer a pena? O que faz vocc se seruir
bem?
Cliente: Eu não sei.
Terapeuta: Veja, você precisa encontrar alguma coisa, algo que seja
verdadeiro, genuíno. Algo em que vocc realmenrc acredite. Quando
você chega a esse ponto, precisa ser capaz de encontrar algo com o
que sc sentir betn. Você conhece a habilidade da mente sábia", não
é? Respite fundo. Pergunte a si mesma: “( am o que eu posjo me
senti1- bcm? ’ E ouça a resposta. Náo invente uma. apenas ouça.
O terapeuta sustentou a tarefa até a cliente levantar vários pontos so
bre si mesma que ela verdadeiramenre valorizava, e isso mudou seu humor
durante a sessão. Então, iuntos, eles pensaram em maneiras de ela fazer
isso fora da terapia (por exemplo, o que a faria se lembrar de se concen
trar naquilo que genuinamente valoriza sobre si mesma para lutar contra
a desesperança, em vez de se entregar às sensações negativas). Por fim, o
terapeuta programou a generalização de suas habilidades ensinando uma
variedade de respostas especializadas para cada situação, variando a situaçao
de treinamento e incentivando a prática em todos os contextos relevantes.
Procedimentos de Exposição
As respostas emocionais condicionadas dc vergonha, culpa, medos in-
justificados ou outras emocoes intensas ou descontroladas muitas vezes ini
bem ou desorientam as respostas mais hábeis. A pessoa pode ter ‘emoçoes
fóbicas” com pad;oes devastadores dc esquiva c fuga. De uma mar.eira sig-
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 149
nificatíva, toda a DBT é orientada pelos princípios da terapia de exposição.
Quando se usam formalmente procedimentos de exposição, o terapeuta e
o cliente identificam os gatilhos que desencadeiam as respostas emocionais
problemáticas, bem como os comportamentos de fuga e esquiva.
Em seguida, o cliente aprende a permanecer na presença dos gar Ihos
sem se esquivar ou realizar outras ações impulsivas que o afastem do conta
to com tais gatilhos (prevenção de resposta). Em vez de fugir do gatilho, o
cliente se comporta de maneiras opostas ao impuiso de ação condicionado
pela emoção (por exemplo, se a emoção condicionada é o medo, uma ação
oposta é a aproximação). O cliente gradualmente se expoe a gatilhos cada
vez mais difíceis, t claro que é mponante que a siruaçao temida não acon
teça de fato (por exemplo, uma pessoa que tem medo de cachorro náo deve
sc aproximar de um e se permitir ser mordida). Tudo isso é feito de uma
maneira que aumente a sensação de controle do indivíduo sobre os aconte
cimentos c dc si mesmo, e deve durar tempo suficiente para que ocorra um
novo aprendizado, habituação ou dessensibihzação.
No Estágio 1 da DBT, são usados poucos protocolos formais de exposi
ção, mas seus princípios são utilizados extensivamente. Quando os clientes
são muito sensíveis, o terapeuta os ajuda a medir a exposição aos sinais e
a se recuperar c sc regular novamente. Por exemplo, no caso de Michael, a
terapeuta reconhece seuS sutis, e não tão sutis assim, comportamentos de
esquiva quando pergunta como foram as ligações para que cie acordasse.
Ela avalia os sinais de desaprovação com uma conduta calorosa c divertida.
Ela, então, previne a esquiva eliminando a autocrítica c pedindo respostas
mais adaptáveis perante os gatilhos e a intensa emoção. Esse uso informal
da exposição exige que o terapeuta use a validação de formaestratégica, o
que è discutido em detalhes no próximo capítulo, sobre validação.
Procedimentos de Manejo de Contingência
Poucos terapeutas cogr.itivo-comportamcntais, mesmo os brm treina
dos, aprendem a usar os princípios de aprendizagem para o manejo dc con
tingência. De alguma forma, esse conhecimento e conjunto de habilidades
torr.aram-se obsoletos e desvalorizados. No entanro, na DB F, vocc precisa
150 Estratégias de Mudança
saber como usá-los, particularmente ao ajudar um cliente a lidar com cases
suicidas de alto risco.
A ideia básica é que as consequências dos nossos comportamentos in
fluenciam o que aprendemos. Urna relacao estreita e contingente entre nos
sas respostas e seus efeitos no mundo influencia a probabilidade do que
faremos da próxima vez que estivermos em contextos semelhantes. Vejamos
um exemplo simples. Sc você entrasse em uma sala muito escura C desco
nhecida, haveria munas coisas que podería fazer. Você poderia andar ao
redor sem rumo; poderia gritar por ajuda. Mas a resposta mai i provável em
um quarto escuro é procurar um interruptor de luz. Sc você o encontrar,
clicar, e a luz náo se acender, pode ser que tente de novo, mais uma ou duas
vezes. Sc nada acontecer, vocé vai parar de tentar, porque não parece haver
relação contingente entre ligajE o interruptor e a luz sc acender. A conse
quência (nenhuma mudança na luz) diminui a chance dc você continuar a
mexer no interruptor. Se, em vez disso, a luz se acendesse aleatoriamente,
mdependentemente da sua ação, você também deixaria dc mexer no inter
ruptor, porque, nesse caso, também não há relação contingente entre seu
comportamento c a luz. E a contingência, a relação se-então , que molda
nossas respostas.
Esse pr ncípio básico também sc aplica a situações mais complexas. Por
exempio, cm muitos sistemas de atendimento, os níveis dc atenção depen
dem da gravidade do descontrole comportamental. As pessoas só recebem
terapia individual quando estáo completamcnte fora de controle, e os clien
tes perdem o acesso a terapeutas individuais a partir do momento em que
saem da crise e reassumem o controle. As contingências aqui favorecem a
estagnaçao e crises Contínuas. Quando você está mal, recebe mais; quando
está melhor, menos. Um sistema muito melhor seria fazer um fortaleci
mento (por exemplo, para muitos clientes, poderia ser um atendimento
cada vez mais cuidadoso) relacionado ao progresso, não à continuação do
comportamento mal-adaptativo.
O mesmo princípio ê válido em interações sutis. Digamos, por exem
plo, que cada vez que eu compartilhe com você nm fato importante para
mim, você se mostre desinteressado. Eu abro meu coração — você olha
para o relógio. Eu tento dc novo — seu olhar vagueia pela janela. Perante
Aclicando a lerapia Comportamental Dialética 151
essa contingência de ‘se-então", cu me adapto e aprendo que as expressões
dc desinteresse são contingentes a minha autorreveiação. Agoia. essa con
tingência e o aprendizado que ela produz podem ou não ser bons. Se esti
vermos trabalhando para que cu assuma riscos interpessoais, como revelar
mais para desenvolver uma sensação de confiança e intimidade, essa con-
rngcncia v problemática. No entanto, digamos que eu use a autorreveiação
da mesma forma como uma lula usa sua rinta. Camuflo minha esquiva
quando as coisas ficam tensas com um surro de informações cxtrrmamcnte
pessoais. Então,, sua dispersão sempre que cu fizer isso pode ser avcrsiva o
suficiente para me fazer parar dc mc esconder c reagir dc maneira diferente.
A questão deve ser formulada cm termos dc como o comportamento sc
relaciona com a meta: A contingência molda o comportamento que quero
mudar, na direção que eu quero seguir:1
Pa mesma forma, o efeito dc expressar desinteresse de maneira contin
gente varia de pessoa para pessoa c ate para a mesma pessoa ao longo do
tempo. Expressar desinteresse func'ona como punição, isto c, pode suprimir
a autorrevelaçao. Mas se cu for sensível a porto dc achar desconfortável
ser visto e conhecido, a discreta interrupção de atenção pode rcalmcnte
rejoíçar minha autoirevtlaçao — quando compartilho algo, vocc diminui
a intensidade de atenção aversiva, então aprendo que posso falar sem ser
oprimido. A maneira como você molda meu comportamento pode mudar
com o tempo. Se você estiver me ajudando a assumir riscos para fazer o que
c necessário para se aproximar dos outios, e eu for ultrassensível e inibido
por expressões de desinteresse, você deve ter muito cuidado ao olhar para
o relógio, perto do final da sessão, no início do tratamento. Mas, com o
decorrer da terapia, você uâo precisa ser tao cuidadoso- para que eu pos
sa praticar a persistência mesmo diante dos níveis normais de desatenção.
Uma última ideia importante é a das explosões de extinção Se a autorre-
velação encantadora e engraçada for uina esquiva interpessoal- e o terapeuta
responder da forma contingente expressando desinteresse sempre que ela
acontecer, pode haver urna explosão de extinção. O cliente pode intensifi
car o comportamento dc contar histórias engraçadas, da mesma forma que
alguém pode mexer repetidamente no interruptor antes dc aceitar que ele
não acende as luzes.
152 Lstratégias de Mudança
Muito desse aprendizado baseado nas contingências entre as respostas
e seus efeitos ocorre sem nos darmos conta. Por exemplo, sem que uma
professora soubesse, se você pedisse para as pessoas do lado esquerdo da sala
dc aula sorrirem e se mostrarem interessadas, e para as do lado direito pa
tecerem desinteressadas, a professora se voltaria para a esqueida sem notar
que há algo influenciando seu comportamento. Da rnesma forma, esse tipo
de modelagem também acontece nas sessões, sern perceoermos. Se toda vez
que você perguntar sobre um assunto que é difícil- mas importante para o
progresso do seu cliente, ele adotar um discurso tão superficial e monótono
que você fica confuso e entediado, você tenderá a entrar menos nesse as
sunto. O cliente está moldando voce para evitar o assunto. Sempre que se
distancia do assunto, você reforça a esquiva do cliente. Os terapeutas náo
sáo menos vulneráveis aos princípios de aprendizagem do que os clientes.
Em toda interação, você está moldando melhorias ou não.
Portanto, na DBT, o terapeuta deve se esforçar para perceber as contin
gências ativas na terapia e da relação terapêutica, para que elas sejam usadas
em benefício do cliente. Por exemplo, há duas contingências expheitamen-
te definidas para ajudar terapeutas e clientes a reforçar a resolução ativa de
problemas antes que os comportamentos problemáticos ocorram: a regra
das 24 horas e a regra das quatro faltas.
A Regra das 24 Horas
A regra das 24 horas estabelece a seguinte contingência: se o cliente
deliberada mente sc aurornutilar, o terapeuta nao aumentai á o contato tera
pêutico durante as 24 horas subsequentes (embora náo desmarcará a sessão
se já estiver agenoada). Essa contingência objetiva fortalecer a motivação
do cliente a entrar cm contato quando precisar de ajuda, para se abster da
antiga solução de autolesão e substituí-la por uma nova. Isso faz, com que o
potencial reforçamento do aumento do contato com o terapeuta seja con
tingente à melhoria, em vez de depender do aumento do comportamento
problemático. A ideia da regra das 24 horas c que as coisas nao precisam
chegar a um extremo para que o paciente receba a ajuda necessária. Essa
contingência também visa reduzir o risco dc o terapeuta, sem querer, refor
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 153
çar a auroksão. Se o terapeuta se torna mais acolhedor e solícito, contin
gente à autolesão intencional, a chance de ela acontecer aumenta, mesmo
que o terapeuta e o cliente náo percebam essa contingência, assim como a
professora que vai para o lado esquerdo da sala sem se dar conta.
A Regra das Quatro Faltas
A regra das quatro faltas objetiva motivar o cliente e o terapeuta a an
tecipar os problemas no atendimento. Se um cliente faltaa quatro sessões
consecutivas de terapia individual ou do grupo de treinamento dc habili
dades, é desligado do programa pelo restante do período contratado (após
o qual o cliente poderá negociar seu retorno). A clareza e a natureza não
negociável dessa regra motivam o terapeuta a avaliar e abordar qualquer
coisa que interfira no atendimento. Se o terapeuta não se organizar dessa
maneira, será preciso lidar com a frequência esporádica que prejudica a
efetividade da terapia.
A regra das 24 horas e a regra das quatro faltam se baseiam em con
tingências arbitrárias: nenhum contato por 24 horas após um episódio de
autolesão (por que não 12h ou 48h?), quatro faltas e você está fora (por que
náo três ou cinco?). Essa arbitrariedade talvez contraste com o uso mais im ■
portante do manejo de contingência: as contingências naturais da relação
entre o terapeuta e o cliente.
Contingências Naturais da Relação Terapêutica
As contingências naturais são as poderosas consequências naturais que
ocorrem nas interações terapêuticas, similares à maneira como as coisas
funcionam nos relacionamentos de não terapia. A autorreveiação autoen-
volvente e uma maneira de o terapeuta da DBl usar contingent 'as naturais
para beneficiar o cliente.
A interação com o terapeuta e com os aspectos da terapia em si (por
exemplo, frequência e duração das sessões, pagamento) podem evocar al
guns cios mesmos comportamentos que incomodam o cliente em outras
relações. Por exemplo, o cliente usa um torn iiritado e exigente quando faz
154 Estratégias de Mudança
um pedido ao terapeuta, como uma solicitação de seu tempo. Ao longo da
vida do cliente, outras pessoas já se afastaram e o abandonaram quando eie
agiu dessa maneira. Seu modo raivoso de se expressar inibe os outros de
lhe dar feedback, e ele sc sente solitário c incapaz dc manter bons relaciona
mentos. Esse é um momento essencial para usar a autorrevelaçáo autoen-
volvente a fim de ajudá-lo a ver a concmgencia entre seu comportamento e
os efeitos. O terapeuta pode dizer: “Seu tom de voz parece bastante 'rritado
e exigente quando você mc pede para fazer isso. Você percebeu isso? Quan
do você mc pede algo dessa maneira, náo sinto vontade de atender a seu
pedido. Se você pedisse o que quer de uma forma que não parecesse uma
imposição- rôceberia mais do que deseja das pessoas.”
I bom para o cliente adotar com o terapeuta comportamentos semelhan
tes àqueles que causam problemas em outras relações, porque um aspecto
natural do rcfbrçamento é que, quanto mais próximas, em termos de tempo e
espaço, forem suas consequências, maior é seu efeito. O segredo é estar ciente,
a partir da prévia análise em cadeia e formulação, do que vocc está tentando
fortalecer e do que náo quer reforçar. Por exemplo, um cliente tinha um his
tórico em que as pessoas só reagiam a sua dor emocional se ele se mostrasse
perturbado e fizesse afirmações extremas, como: Vou me matar se ela disser
isso de novo/’ Na terapia, a contingência deve ser diference: vocé precisa se
conectar com o sofrimento do cliente e responder a ele de forma preocupada,
sem que ele precise ser .ntensificado. 1’orianto, desde o inicio, o afeto, o cui
dado e a atenção devem ser totais, dc modo que as solicitações de baixo nível
e as expressões dc dificuldade gerem a a,uda apropriada.
Você precisa momtorar de perto os fatores c os antecedentes da vul
nerabilidade acuais dos clientes, dc modo que, quando a cadeia para o pa
drão for acionada, você possa responder à dor emocional, mas bloquear
declarações extremas. Poi exemplo, quando o cliente começar a falar sobre
um conflito interpessoal semelhante àqueles que levaram a declarações ex
tremas e ameaças de suicídio, você pode dizer: “Quero muito ajudá-lo a
fazer as coisas do jeito que você quer nessa situação, para que não precise
perder o controle e consiga o que necessita.” Você deve se mostrar receptivo
e acolhedor à expressão apropriada do ciiente e se cornar mais frio quando
afirmações extremas forem feitas, bloqueando-as. Quando você ameaça
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética '55
cometer suicídio, temos que parar e avaliar o risco. Isso nos faz perder mui
to tempo e nos desvia do que c miis mportante, que c seu aborrecimento
por um problema real — você node me falar sobre isso sem as ameaças?"
() que acontece logo após o incidente c mais provável dc afetar a pro
babilidade futura de comportamento. Portanto, os efeitos do tratamento
serão mais fortes se os comportamentos problemáticos e as melhorias dos
clientes ocorrerem durante a sessão, momento cm que estão mais próximos,
no tempo c no espaço, do reforçamento que o terapeuta propicia, Em ne
nhum momento isso fica mais visível do que quando o terapeuta e o cliente
negociam soluçoes para problemas na relação terapêutica, discutindo como
as respostas de cada um deles reforçam ou deixam dc reforçar a motivação
e o envolvimento do outro na terapia.
Algumas pessoas tem objeções ao manejo de contingência, como se
responder deliberadamente dc mancira contingente fosse prejudicial ou
enganoso. Essa objeção ignora o fato dc que todos nós estamos sempre res
pondendo contingentemmtc o tempo todo, com rodo mundo, de qualquer
maneira. Quando compartilho algo sobre mim mesmo, você responde de
uma forma que torna mais ou menos provável continuar a compartilhar o
tópico. Isso acontece quer estejamos conscientes dos efeitos ou não. Como
terapeutas, queremos ser tão conscientes quanro pudermos para utilizar
nossas respostas em benefício do cliente, em vez de responder somente para
aliviar nosso desconforto. Um bom nível básico de consideração positiva
genuína não contingente é um pré-rtquisito para o uso eficaz do manejo
dc contingência. Se o cliente náo sentir que você esta genuinamente cm
penhadó cm fazer o que é melhor para ele, o manejo de contingência será
manipulador ou coercitivo.
Mocificação Cognitiva
O comportamento efetivo as vezes é inibido por crenças e suposições
incorretas. Na DU E a modificação cognitiva é baseada na consistência lógi
ca, na consistência com as crenças verdadeiras de cada um ou nas crenças da
mente sábia (por exemplo: “É essa crença em que acredito nos momentos
mais sábios?”) e na efetividade (“Essa crença é úril para eu atingir minhas
156 Estratégias dr Mudança
metas?”). Lssa ênfase em encontrar o que é valido se deve, ein parte, à sen
sibilidade dos clientes à invalidação, focar a intervenção naquilo que está
errado com as interpretações do cliente, cspecialmente através do questio
namento socrático, c evocativo e aversivo demais para muitos.
Embora o terapeuta de DBT às vezes possa contestar crenças problemá
ticas por meio da lógica ou de experimentos dc teste de hipóteses, sua ênfa
se está na modificação cogn' iva. através da persuasao dialética — conversas
que criam a experiência das contradições inerentes à postura do cliente. Por
exemplo, no último capitulo, uma cliente descreveu o alívio imediato da
dor emocional quando se queimava com run cigarro. Ela dizia que náo era
nada demais. O terapeuta lhe perguntou sc ela queimaria o biaço da sobri
nha para ajuda-la a sc sentir melhor, se a criança estivesse corn uma grande
dor emocional. A cliente respondeu: “Eu simplesmente não faria isso. Não
é certo. A conversa aumentou a tensão emocional da cliente r o desconfor
to de manter um padrão duplo. Na persuasão dialética, o terapeuta destaca
as inconsistências entre as ações, as crenças e os valores do próprio cliente.
Alcm disso, o terapeuta o ajuda a elaborar diretrizes para quando con
fiar em suas interpretações e para quando duvidar delas. Por exemplo, a
habilidade de “verificar os fatos transforma muitas estratégias básicas de
modificação cognitiva em uma intervenção de autoajuda Alcm disso, na
DBT, o terapeuta ensina afivamente o cliente a se tornar capaz dc discernir
as contingências, esclarecendo os efeitos “se-enráo de seu comportamento
em todas as suas relações, incluindo a terapêutica.Os clientes aprendem a
observar c descrever o próprio estilo de persamento e suas regras implícitas,
a perceber quando seu pensamento é ineficaz, e a confrontar e desafiar pen
samentos problemáticos a fim dc gerar um sentido de verdade mais funcio
nal ou dialético. O cliente aprende a confiar cada vez mais na mente sábia,
um conhecimento intuitivo que incorpora respostas racionais e emocionais.
Na DBT, o objetivo principal não c encontrar e modificar esquemas proble
máticos, mas articular infonnalmcnte modificações cognitivas ao longo do
tratamento, com fone ênfase na valorização do conhecimento nao racional,
ou intuitivo, como outro meio dc avaliação além da racionalidade.
Todas as estratégias e procedimentos básicos orientados para a mudança,
discutidos neste capitulo, são combinados ou adaptados para trabalhar efè-
Aplicando a lerapia Comportamental Dialética 157
tivamente com a desregulação emocional generalizada do cliente, tanto nas
sessões quanto entre elas. Muitas vezes, você deve orienrar repetidamente,
trabalhar explicitamente seu comprometimento com as tarefas da terapia e
concentrar-se no ensaio comportamental para garantir o aprendizado e a ge
neralização, apesar da desregulação emocional. Você dircriona os cios da ca
deia de causalidade comuns aos problemas e situações por meio do destaque,
da análise de soluções e dc cada um dos quatro procedimentos dc mudança
(treinamento de habilidades, exposição, manejo de contingência c modifi
cação uognitiva). Em cada interação, cliente e terapeuta corrigem os deficits
dc habilidades e trabalham para mudar emoçoes, contingências e cognições
problemáticas que afetam as respostas hábeis no repcrtõno do cliente.
No entanto, as intervenções de mudança podem ser consideradas al-
tamente invalidates para o cliente. As tentativas do terapeuta de ajudar
podem parecer críticas e parecem confirmar que o cliente não tentou o
suficiente — assim como os outros sempre lhe disseram. Clientes com his
tóricos de invalidação generalizada podem ser extremamente sensíveis. Por
esse motivo, a validação ativa, disciplinada e precisa do que c “certo” ou
“correto" em relação às respostas vigentes do cliente é necessária para moti
var a regulação emocional e, assim criar condições para outras mudanças.
O próximo capitulo descreve as estratégias de validação, as principais estra
tegias orientadas pata a aceitação usadas na DP
Princípios e Estratégias
de Avaliação
A DBT define a validação como uma emparia acrescida da comunicação
de que a perspectiva do cliente c válida de alguma forma. Com a empaua,
vo< c entende precisamente o mundo a partir da perspectiva do cliente. Com
a validação, comunica ativamente que a perspectiva dele fez sentido. Para
validar, você precisa ter emparia para entender a perspectiva da outra pessoa,
que c única e diferenciada. Mas a validação requer, além disso, que você
busque afirmar e confirmar que a resposta é válida. Você mostra como a
emoção, o pensamento ou a ação do cliente é compreensível, porque c rele
vante, significativa, justificável, correra ou efetiva. Quando o cliente pergun
ta ‘ Vbcc acredita msso? emparia é entender o “isso” e validação, comunicar
que “sim”. A validação é o segundo conjunto de estratégias nucleares da
DBT. Ela vem da tradição centrada no cliente (Linehan, 1997b; veja tam
bém o excelente livro Empathy Reconsidered [Bohart. &. Greenberg, 1997]).
É tentador entender as estratégias de mudança, no último capítulo,
como o p! ncipal mecanismo da terapia, a parte mais importante do auxílio
que você pode oferecer, como se a terapia comportamental fosse uma ala
vanca que precisasse de um contrapeso dt validação para forçar o cliente à
mudança. Mas essas visões são distorcidas e simplistas. Elas se esquecem da
poderosa mudança que a validação, por si só, produz. Essas visões também
induzem o terapeuta ao erro dc pensar que a validação é uma parte tão na
tural dc quem somos como terapeutas que náo é necessário nenhum treina
mento especial ou prática para fazê-la. Na verdade, uma validação precisa,
disciplinada e ativa é fundamental para motivar a regulação emocional t,
então, criar condições para as demais mudanças. Quando os clientes têrn
<60 Princípios e Estratégias de Avaliaçãu
um histórico de invalidaçao generalizada e sc mostram emocionalmente
vulneráveis, fazer a valiciaçao é muito mais difícil do que se imagina.
ENTENDENDO O PAPEL DA INVALIDAÇÃO NA
DESREGLLAÇAO EMOCIONAL
Exemplo de caso: Mia
Mia procurou a terapia porque precisava de auxílio com os problemas
do trabalho, mas às coisas foram longe demais para que conseguisse salvar o
emprego. Quando foi demitida, sua terapeuta suspendeu o pagamento das
sessões, concordando que Mia arcaria com os custos acumulados assim que
encontrasse um novo emprego. Agora, Mia está fazendo entrevistas para
conseguir um novo emprego. Ela chega à sessão c conta à terapeuta sobre
uma entrevista para trabalhar em uma empresa que ela adoraria, mas o
entrevistador foi grosseiro, fazendo uma série de perguntas que a forçavam
a “reclamar do antigo empregador”. A terapeuta pergunta a Mia o que ela
entende como uma forma neutra de lidar com a situação e busca descobrir
o que Mia quer fazer a seguir, mas não vaLda que o entrevistador foi gros
seiro. Mia repete as perguntas do entrevistador com urn tom de voz. dra-
marico c inquiridor, e continua d rendo que iá esboçou o e-mail dc muito
obrigada pela entrevista", listando cada coisa inapropriada que ele disse.
A terapeuta acha que Mia não está fazendo uma boa interpretação da
ambiguidade inerente e do tom de voz, como já viu acontecer cm outras
sessões. Ela quer ajudá-la a tolerar esses aspectos inevitáveis da entrevista.
Então, ela diz: “Bom. vejo que o tom de voz pode ter sido autoritário, mas
essas perguntas em si são comuns em qualquer entrevista de emprego."
Mia sc enfurece. “Se vocé quer que eu pague o que cu te devo, é só falat!
Nossa!”, diz a terapeuta, com um tom bem gentil: “Não, você náo me en
tendeu, cu sei que essa entrevista foi muito importante para vocé" c então,
ansiosa para evitar maiores conflitos, mas agora irritada, a terapeuta acaba
adotando um tom de voz levemente meloso, ao mesmo tempo em que
tenta mascarar sua própria reação emocional. * Escute, nem o entrevistador
nem eu estamos tentando enganá-ta... mas acho que esse tipo de situação
está te confo-idindo.” Mia considera isso como uma experiência humilhan-
Aplicando a Terapia Comourtamental Dialética 161
te e condescendente, mas o que transparece em seu rosto é desprezo. A
terapeuta fica em silêncio por um momento, tentando se recompor e rein
tegrar suas considerações à conversa, o que suscita uma onda de pânico em
Mia, que se antecipa à terapeuta, com lágrimas nos olhos, abandonando-a
e deixando de ter o auxílio dc que precisa.
Para a terapeuta, a validação e até a emparia podem scr difíceis nessa
situação Sc léssemos os pensamentos da terapeuta, poderia ser algo como:
“Acreditei cm você o bastante para deixar que ficasse me devendo e você
duvida das minhas motivações?! Estou trabalhando muito para dar conta
de você.” No balãozinho de pensamento também poderia ter: “Se ela enviar
esse e-mail, cia vai cair em uma crise suicida... estou fora. Mas Mia tem
boas razões para suspeitar das intenções dos outros. Sucessivas mentiras,
humilhações cm público e coerção emocional eram comuns em sua famí
lia. desgastando-a e fazendo com que caísse em um estado de desconfiança
que beirava à paranoia. Ela c comprcensivelmente sensível e provavelmente
interpretará as situações como sc estivesse prestes a ser enganada e preju
dicada. Conhecendo o histórico dc sensibilidade dc Mia, a terapeuta, com
calrna, fala de forma cautelosa, mas mesmo as colocações inais doces pare
cem torturar e humilhá-la. Quando há uma tendência dc usar os velhos e
desgastados padrões para esclarecer desvios dr interpretação, a chance de o
terapeuta dar um passo em falso é grande.As respostas de Mia, entretanto, não são apenas interpretações equivo
cadas, que só fazem sentido à luz da invalidação do passado; elas ocorrem
porque ela está sendo invalidada, agora, pela tera[ieuta, nessa interação vi
gente. A primeira ação da terapeuta c verificar se Mia está fazendo uma
leitura equivocada da situação, isto c, encontrar o que há de errado ou invá
lido nas respostas dc Mia. Isso desencadeia em Mia uma onda de respostas
que poderíam ser expressas assim: “Ninguém acredita em mim, ninguém
mc protege, eu tenho que me proteger ou coisas assim vão continuar acon
tecendo. O caráter emocional da sua comunicação se intensifica. Confor
me a terapeuta persiste, tensa e pisando em ovos com o emocional de Mia,
cia sente que a terapeuta continua ignorando sua colocação sobre o quão
desagradável o entrevistador tinha sido. Ela começa a pensar no porquê de
a terapeuta não ter compreendido, observando — corrrtamcnte — que a
162 Princípios e Estratégias de Avahação
terapeuta está tensa, mas suspeitando — equivocadamente — que a tensão
Surgiu porque a terapeuta precisa que ela consiga o trabalho para que possa
pagar a conta pendente das sessões.
Quando a terapeuta comenta que “esse tipo de situação é confusa para
você”, ela subentende, mais uma vez, que Mia está fazendo uma leitura
equivocada da situação. Para Mia, isso parece uma declaração humilhante.
Quando a terapeuta relembra Mia gentilmente que sabe o quanto aquele
trabalho c importante para ela, acaba desencadeando um intenso desprezo
por si mesma: “Sou tao burra, exagero nas minhas reações com tudo. Todo
mundo consegue ficar em um emprego, qual é o meu problema?!’ O olhar
dc desprezo que a terapeuta viu no rosto de Mia foi para si mesma. Então,
em meio a tudo isso. Mia sente o recuo da terapeuta. A terapeuta piecisa
recuar, e faz isso nara se regular, para, assim, poder ajudar Mia.
O recuo da terapeuta, quando Mia precisa dela, entretanto, por fim
amplifica seu sofrimento: se ela está tão fora de controle como sente, então,
por que a terapeuta não a ajuda? Ela nao consegue enxergar como as coisas
estão ruins: Mia se sente presa cm um pesadelo cm que nada do que faz
dá certo e que ate mesmo a segurança de ter sua terapeuta ao seu lado está
indo embora. Conforme a intensidade emocional sc- agrava, maior é a pro
babilidade de desenvolver um comportamento extremo. O risco c alto de a
sessão ir por agua abaixo c dc- Mia ir embora pior do que chegou. Esse é um
cenário típico e pode ser incrivelmente frustrante tanto para os terapeutas
quanto para os clientes.
Efeitos Normativos da Invalidação
No calor da interação, seria difícil para qualquer terapeuta perceber o que
é válido e normativo na comunicação progressivamenre emocional dr Mia, e
mais difícil ainda seria percebei que o que piora tudo são as próprias respostas
do terapeuta. Quando a emt-ção inicial de Mia dispara c é seguida pela invali
dação da terapeuta (questionando a ‘ leitura” da situação por pane de Mia), a
experiência c a expressão emocional dc Mia sc intensificam. Como seria paia
cada um dc nós. Esse é um processo psicológico normal, decorrente da inva
lidação, que e produz:.- um aumento da excitação e da sensação de estar fora
___ Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 163
de controle (Shenk, & Iruzzctd, 2011). Iodos já tivemos um momento em
que nossa expressão estava alfamente elevada e nossa vivência das situações
ficava a flor da pele quando alguém duvidava da nossa interpretação de algum
evento. Se duvidam dc nós o bastante e de forma suficientemente verdadeira
sobre alguma coisa relevante, nossa experiência e expressão emocionais se tor
nam extremamente intensas. Falhamos ao processar novas informações e ao
fazer grandes esforços para retomar o controle. Isso é normativo. No exemplo,
a terapeuta deixa de considerar a resposta nonnativa que a invalidação de Mia
produziría: excitação emocional.
Diante de tal invalidação, dependtndo da nossa história dc aprendiza
gem e temperamento, há a possibilidade de que nossa expressão emocional
sc intensifique habuualmente ou que apliquemos esforços automáticos ou
intencionais para regular nossas emoções. Quando a emoção é intensa, mas
não extrema, podemos nos controiar. atenuando, postergando, mascarando,
evitando, afastando ou dando um toco seletivo a nossa atenção. Podemos
reagir às nossas próprias respostas com desprezo, medo ou vergonha (temos
emoções secundarias). Aqueles que tem melhores habilidades para regular
as emoções podem passar por experiências muito intensas cmocionalmen-
te, mas ainda assim conseguem moldar sua expressão para que sc adequem
às circunstâncias sociais. Por exemplo, a terapeuta de Mia deliberadamente
alterou sua postura para que demonstrasse estar mais relaxada e desacelerou
sua respiração assim qnc ela percebeu o início de sua propria desregulação.
Quando o peso da situaçao é grande (como no caso dc Mia) c os outros
falhun cm responder a nossa comunicação emocional, podemos chegar à
desregulação a ponto de, literal ou metaforicamente, gritarmos: “Você não
entende!" Obviainente, nem todo mundo recorre à autolesão intencional
para resolver o problema da desregulação, mas os processos psicológicos bási
cos são os mesmos tanto para o cliente quanto para o terapeuta. A invalidaçao
desencadeia uma alta carga de emoções, limitando nossa percepção, pensa
mento c impulso de ação, fazendo com que nos concentremos em lidar com
a ameaça. A única coisa que importa é conseguir pacsar nossa mensagem
Para nossos clientes, a experiência e a expressão dr-rcguladas podem se
tornar habituais, provocando respostas imediatas, que, por sua vez, desert-
164 Princípios e Estratégias de Avaliação
cadeiam um emaranhado de padrões interpessoais. O processo pode acon
tecer tào rapidamente e cm contextos tào inesperados que nós, como tera
peutas, não percebemos o gatilho dessa transição (como nossa invalidação
involuntária) para a emoção intensa. Repentinamcme, deparamo-nos com
nosso cliente em um estado inexplicável de desreguiação. Tudo sc complica.
A terapia passa a ser como um campo mmado para as duas partes.
Q que e difícil de tuh rar, para o cliente e para o terapeuta, é que a inva
lidação é necessária — a terapeuta dtvt comunicar o que é ineficaz e o que
nao faz sentido nas respostas de Mia. Sem o feedback corretivo da terapeu
ta (sobre como interpretai e responder melhor ao compoitamcnto de um
entrevistador), Mia continuará perdendo trabalho após trabalho; sem ser
corrigida, sua interpretação equivocada dos motivos da terapeuta corroerá
sua confiança nela. Sua emoção é muito torre, tanto normativa quanto
praticamr ntc: atrapalha o trabalho que as duas têm pela frente para evitar
que da envie o e-m.ad precipitado ao entrevistador. Nao é viável deixar que
o tema saia dc pauta. Concordar com o que é inválido também não ajuda.
(Por exemplo: “O entrevistador parece ser um completo babaca, c absurdo
que alguém fale com você dessa forma!') O terapeuta deve in vai'dar (ou
oelo menos evitar validar) as respostas emocionais quando das forem des
proporcionais ou baseadas em interpretações equivocadas.
Ajudar os clientes a mudai exige invalidar com frequência e ativamente
as respostas incompatíveis com suas metas de longo prazo. Mas c norma
tivo que a invalidação repetitiva produza excitação emocional e, em algum
nível, desregulaçáo, o que interfere no aprendizado e na flexibilidade das
respostas. Quando os clientes são ulrrassensíveis, como podemos promover
mudanças e novos comportamentos?
Usar a validação como se Você estivesse iogando um osso para um ca
chorro taivoso nao funciona nessas situações. (Lembre-se da úlrirna vez cm
que você sussurrou um: “Sim, meu amor, deve ter sido complicado quando
fiz aquilo” a um ente querido, que estava furioso com você.) A resposta
necessária vai além disso. O terapeuta deve se alinhar com as metas do
cliente e permanecer aberto para o que é válido a partir das respostasdele,
sem reforçar o comportamento d'sftincionai, nem evocar uma reatividade
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 165
emocional que .mpeça a careta terapêutica, e sem citar o toco do que pre
cisa ser mudado Por exemplo, com Mia, a terapeuta precisa estar aberta à
possibiLdadc de que o tom do entrevistador renha sido, de tato, agressivo;
talvez ela tenha que validar a experiência emocional extrema (a raiva surge
ráo intensamente porque Mia podu estar sendo impedida de alcançar uma
mera muito importante) sem validar a expressão emocional problemática (a
retaliarão via c-mail jogará conrra seus interesses).
OS EFEITOS DA VALIDAÇÃO CUIDADOSA E PRECISA
A validação por si só teduz o estimulo emocional. Em outras palavras,
ela estubdiza imediatamenre as emoções (Shenk, & Fruzzetti, 201 1). A va
lidação cm si também leva a respostas adaptativas que regulam as emoções.
Quando você valida precisa e cuidadosamente, não só reduz a intensidade,
mas também libera respostas opostas. A validação, quando bem articulada
e calada, suscita emoções novas e mais bem adaptauvas, o que, por defini
ção, significa qtre rodn o sistema do cliente se reorganiza. Da mesma Forma
que uma palavra muito bem escolhida por um escritor suscita emoções, o
terapeuta precisa articular muito bem o que falará.
Vamos dizer que essa forma de pensar tenha orientado a terapeuta
quando Mia relatou o quao incnvdmrnte grosseiro o entrevistador foi. A
terapeuta podia dizer, genuinamente e com intensidade: “Que frustrante!
Você estava táo entusiasmada com essa entrevista! Você dever estar muito
desapontada.” Como Mia reagiría?
Mia: Estou! F-stou furiosa! Pesquisei tudo sobre a empresa, passei
horas conversando com um amigo sobre como eu faria com as defa
sagens do meu currículo. Aí esse babaca acaba corn tudo!
Terapeuta: Nossa, Mia, sinto muito. Sei que você se esforçou muito
para se preparar c estava mesmo animada para isso.
Mia; Pois é... (Idgrtnias surgem em sais olhos à medida qur tdd pensa
no tatuo que apostou nessa entretãsttL) Não tere: outras oportunidades
iguais a essa, esse é o ti[>o de coisa que só acontece uma vez na vida.
Terapeuta: É, é uma oportunidade única...
166 Princípios e Estratégias dc Avaliação
Mia- (Chora.}
Terapeuta: É doloroso. hmmm.
A terapeuta desacelera para promover a expressão completa da ernoçao
primária c adaptativa dc frustração de Mia. Mia, chorando, respira fundo
e suspira. A terapeuta também respira fundo e suspira, avaliando o quanto
M’a se dedicou para essa entrevista e a extensão da emoção que ela mesma
sennria sc uma oportunidade perfeita fosse perdida. A parrir dessa apre
ciação mais completa, da começa a incluir intervenções de mudança que
podem ser sensíveis ao gatilho das emoções de Mia, ou das emoções de
qualquti um com uma ameaça cm potencial tão grande em jogo.
A rerapeuta poderia continuar;
Terapeuta: Sabe sinto como sc tiveSse acontecido uma explosão,
e todos os alarmes estivessem disparando, com você bem no meio
dc tudo. Mesmo você sc sentindo acabada c em prantos, ainda tem
suas armas prontas para lançar fogo na primeira coisa que se mover.
Estou te entendendo bem? A arneaça aqui é tão grande que você está
em alerta máximo. em modo dc- ataque total?
Mia: {Ralança a cabeça.) Exatamente! (Levanta os dedos corno se esti
vesse apontando uma arma para a terapeuta.)
Terapeuta: Isso mesmo. E eu quero dizer: “Não atire na minha ca-
beca! Estou do seu lado'" (Coloca as mãos para o alto.) Antes de tudo,
só quero falar: "Escuta, náo atira, tá bem?” (Fita ainda mais séria e
intensa.) Sei o quanto você quer isso, o quanto você trabalhou, o
quanto isso significa. (Pausa, sustentando o olhar de Mia.)
Mia: (Chora, mas também sorri e relaxa um pouco.)
Terapeuta: Posso abaixar as mãos? Antes que a gente entre em pé de
guerra, tenho uma ideia... lá bem? Você c eu?
Quando o terapeuta valida, pode fazer isso de forma que desencadeie
e reforce respostas alternativas adaptativas na mesma situação em que es
tiveram ausentes c cm que eram tão necessárias. Em dado momento, uma
gama de emoçoes é despertada, algumas com força total; outras, nem tanto.
Aphcandu a Terapia Comportamental Dialética 167
Quando o terapeuta direciona a atenção do cliente c libera uma emoção
adaptativa com um comentário validador, por definição, a percepção, a
sensaçao, a memória e a açao do ciicntc a respeito daquela emoção tam
bém se evidenciam. Em outras palavras, a validação pode sugerir a resposta
coerente completa oue compreende a emoção adaptativa. Agindo assim, de
forma flexível, respostas adaptavivas podem se tornar imediatamentt possí
veis. Na situação analisada, a validação c orientada pela intenção dc regular
dc maneira positiva a excitação ê csumular emoções adaprativis. Além dis
so, terapeuta c cliente tivetam uma conversa produtiva, com Mia em um
estado emocional, mas náo desregulada.
A validação precisa pode ser incrivelmente poderosa, mas incrivelmente
difícil de ser usada, mesmo quando é mais necessária. Por isso, este capítulo
sc dedica a essa questão. Em primeiro lugar, descreverei de forma geral o
que validar quando as pessoas estão propensas à desregulaçáo emocional.
Então, darei a você quatro diretrizes dc uso para as estratégias de validação:
(1) procure o válido, (2) “conheça seu cliente”, (3) valide o válido e invalide
o inválido e (4) valide no maior grau possível. Assim, com esses conceitos
básicos compartilhados cm mente, veremos como utilizar a validação para
fortalecer a regulação emocional, concluindo com um extenso exemplo clí
nico que mostra como as estratégias de mudança e validação se combinam.
O QUE VALIDAR
Quando um Cliente Está Desregulado Eniocicnalmente
Na maioria dos casos, quase com todos os clientes, você pork assumi,
que será bem-vindo validai que os problemas do cliente sao importantes
{importância do problema) , que a tarefa e difícil {dificuldade do tarefa), que
a dor emocional nu a sensacao dc estar fora de controle é justificável, c que há
sabedoria nas metas do cliente, mesmo que ele ainda não esteia engajado em
buscá-las naquele momento.
É essencial validar a perspectiva do cliente, isto é, suas visões a partir de
onde ele está, seus problemas vigemes e as crenças que tem a respeito de
como as mudanças podem e devem ser feitas. Sc o cliente não acreditar que
168 Princípios e Estratégias de Avaliação
o terapeuta entende seus dilemas (o quanto dói, como é difícil dc mudar ou
a verdadeira dimensão do problema), ele náo confiara que as soluções do te
rapeuta sejam apropriadas ou adequadas. A colaboração será limitada, bem
como a capacidade do terapeuta dc contribuir para a mudança do cliente.
Vamos supor que você esteja fora, em um congresso, e receba uma liga
ção dc emergência. Você retorna, e uma enfermeira atende e diz que ama
pessoa que você ama muito foi terrivelmente íerida c você tem que assinar a
autorização para o atend.mento médico. Você começa a receber instruções
sobre o caminho para o hospital A enfermeira lhe diz: "Vá pela rodovia e
siga pelo Sul até chegar ao... Mas você parou dc prestar atenção assim que
ela disse “Sul', já que o local do congresso fica na mesma região, e o que
você precisa fazer é, na verdade, pegar a rodovia e ir para o Norte. Você tema
comunicar isso. F.la diz: Ah, náo, vá mesmo para o Sul e em seguida..O
sentimento dc pânico começa a crescer dentro de você, ela nao está enten
dendo! Ela nao sabe onde você está. Ela tem que entender onde você está
para depois poder ajudá-lo a chegar aonde você precisa ir. Você intensifica
sua expressão emocional — dando tudò de si para isso.
Essa analogia representa o que acontece com os nossos clientes. Eles
têm uma noção de onde estão; nós, então, oferecemos direções como sc não
soubéssemos disso. Persistimos, enhirecendo-os e levando-os ao desespero.
O que importa c descobrir a localização correta do cliente e corno fazê-lo
chegar aonde ele quer ir. Se essa enfermeira socorrista estiver certa,precisa
vencer a discussão — ela precisará acalmá-lo, mostrando a você que ela sabe
exatamentr onde você esta. Mas, se você estiver certo, a enfermeira precisa
estar aberta para ser convencida disso. Geralmente, pequenos problemas
na colaboração decorrem exatamente desse tipo dc falha na comunicação
sobre onde o cliente está em relação a suas metas; logo, é essencial validá-lo
e chegar a um consenso sobre esca posição.
Quando a Resposta do Cliente E Válida e Inválida ao Mesmo Tempo
Com frequência, você precisa comunicar como a mesma resposta é, ao
mesmo tempo, válida e inválida. A resposta do ódio a si próprio pode ser
relevante e justificável (válida), mas também ineficaz (inválida), porque é in-
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 169
compatível com a resolução de problemas, necessária para ev:rar que se tenha
o mesmo comportamento de ódio novamente. Ou, por exemplo, digamos
que você tenha se esquecido dc algum fato importante para uma vliente,
sem perceber. Durance a conversa, ela está muiro animada e de repente para
de falar qualquer coisa substancial sobre o tópico. Quando você comenta a
mudança de humor e da profundidade da conversa, ela minimiza sua preo
cupação. A resposta da cliente pode ser válida em termos do h.sturico de
aprendizado (se sua bagagem cultural proibir chamar a atenção para as falhas
de outros ou expressar dirctamente Irritação sobre elas) ou das circunstâncias
atuais (se seu tom for levcmcnte defensivo ou acusatório, e for lógico inferir
que você não está aberto para receber uma crítica construtiva). Mas, simul
taneamente, a resposta dela é invalida sc ela não solicitar que voce corrija seu
comportamento, sendo que, na verdade, você precisa apidá-la.
Quando É Difícil Perceber Qualquer Coisa que Seja Válida
Quando c difícil perceber algo válido na resposta, primeiro procure
como a resposta pode ser relevante e significativa para o contexto. No con
texto da psicorcrapia, a curiosidade de saber se minha terapeuta tem filhos
pode ser relevante se eu estiver pensar.do sc ela é capaz dc entender meus
conflitos como mãe (bate-papo sobre a novela, não). Os terapeutas são trei
nados para suspeitar de curiosidades desse ripo. Validar significa perceber o
quanto essas questões sáo relevantes, não patológicas. Segundo, observe sc
a resposta é bem fundamentada ou justificável dc alguma forma. Observe os
fatos, as inferências lógicas ou as autoridades amplamcnte aceitas que tornam
as respostas lógicas. Para o cliente, é lógico inferir que estou irritada com ele
se cumprimentá-lo dc forma menos calorosa na sala de espera depois dc ele
ter me deixado uma mensagem cheia de ataques pessoais e críticas.
Terceiro, procure o quanto uma resposta é um mtio eficaz para obter
um fim imediato. Até mesmo um comportamento nitidamente inválido
pode ser válido em termos dc recompensas imediatas. Conar-se em respos
ta à dcsregulaçáo emocional exacerbada faz sentido, porque muitas vezes
produz alívio de emoçoes intoleráveis: é uma estratégia eficaz de regula
ção emocional. Obviamente, uma resposta pode ser válida dc mais de uma
170 Princípios e Estratégias dc Avaliação
forma. Quando um cliente diz que odeia a si mesmo, t1 odio é relevante e
justificável sc a pessoa infringiu valores pessoais importantes (por exemplo,
delibeiadamcnte prejudicou outra pessoa sem que estivesse com raiva). Em
última análise, toda resposta é válida em termos de ser condizente histori
camente, todos os fatores necessário» para o desenvolvimento do comporta
mento ocorreram: portanto, como ele pode ser diferente do que é?
Outros Alvos de Validação
Em qualquer situação, você node validar as respostas emocionais, com-
portamentais ou cognitivas do cliente, bem como sua plena capacidade de
atingir Suas metas. Visando a regulação emocional udapiariva, c fundamental
experimentar e expressar emoções primárias. A validação e necessária para de
senvolver essa habilidade. Portanto, atente às emoçous do cliente, valide dire
tamente suas emoções primari es (por exemplo: “Sentir se triste faz sentido”)
e encoraje sua expressão emocional. Observe e rotule as emoções dos clientes
(poi exemplo: “Seus olhos parecem estar lacrimejando; fico pensando se vocc
está se sc-nrindo triste agora.”) Isso ajuda a lhe ensinar essas habilidades.
Para validar respostas comportamenrais. observe e rotule os compor
tamentos do cliente. Por exemplo, observe quando suas demandas foram
autoimpostas; quando os padrões para os comportamentos aceitáveis são
icreais; e quando a culpa, a autorrepreensão e outras estratégias dc punição
são usadas (identifique o “tenho que ). Contrarie o “tenho que” (ou seja,
comunique que, a princípio, todo comportamento é compreensível). Acei
te o “tenho que” (responda ao comportamento do cliente de forma a nao
o julgai e descubra sc há wrdade no “tenho que”, em frases como: ‘ Tenho
que fazer isso para...”).
Para validar as respostas cognitivas, suscite e reflita os pensamentos e as
suposições do cliente, encontra o “fundo de verdade" em suas cogniçóes,
reconheça sua habilidade intuitiva para entender o que é sábio ou correm
(mente sábia), e respeite seus valores.
Para validar as habilidades da pessoa, a fim de atingir as metas desejadas,
assuma sempre que eia tem as melhores intenções, encoraje-a, destaque seus
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética '71
pontos fortes, rebata/module o cnocismo externo e seja realista na análise
dc suas capacidades. (Sempre goste' do uso que Linehan [1993a] faz. da
expressão “líder de torcida" para esse npo dc validação. Se seu time estiver
ganhando de lavada ou perdendo terr velmente nos últimos minutos- em
um campo alagado, sua resposta como líder de torcida sera a mesma. Você
esrará bem ali, na beira do campo, ate o apuo soar, no ônibus indo para
casa, no próximo ensaio.)
As diretrizes expostas anteríormenre sobre o que validar estão resumidas
nalábela 4.1, a seguir. Agora, com esses conceitos em mente, vamos divida- o
uso complexo das estratégias de validação cm quatro etapas complementares.
COMO VALIDAR
Procure o que F, Válido
Procure ativamente o que é valido e assuma que sempre há algo válido.
Você náo torna as respostas do cliente válidas. Você encontra o que é válido.
“O terapeuta observa, vivência e afirma, mas não ena validade para o que nao
tem. O que é válido antecede a ação terapêutica ’ (Linehan, 1997b. p. 356.)
Tabela 4.1 O que Validar
• Fxprcssõcs e respostas emocionais primárias do dienre
• Comportamentos dr> cliente: Obscrra los e rorul ,-los
• Cogniçóes do cliente: Refletir seus nensamen'os, siposiçócs e valores
• A habilidaue do cliente dc atingir suas metas principais
Quando um cliente estiver desi.guiado, valide:
• A importância do problema
• A dificuldade da tarefa
• Sua dor emocional
• Suas razócr par i sc sentir descontrolado
• A sabedoria de suas principais metas (sc não os meios escolhidos para alcançá-las)
• A perspectiva do cliente
Quando esnver diíicil dc enxergar algo para validar, valide:
• O histórico de aprendizado do ebente
• Qiíalqucr coisa que seja justificável cm termos de latos, inferência lógica ou autoridade aceita
• Qualquer coisa que seja um meio efsüvt» ou apropriado para ele chegar a um hm
172 Princípios e Estratégias de Avaliação
Conheça Seu Cliente (c a Literatura sobre Psicopatologias
e sobre Psicologias Normais)
Esteja atento para o que é válido e inválido para um cliente cm parti
cular. F nesse ponte que a ciência da psicologia se aprofunda para entender
o que é normativo e como as psicopatologias se desenvolvem e sc perpe
tuam, e como esse conhecimento se torna uma carta na m inga dos terapeu
tas. Lembre-se de sua formulação dc caso, espccificamcntc, das sequências
emocionais que sao habituais para esse cliente — quais são as emoções pn
márias e secundai ias prováveis para esse cliente cm particular. Esteja sempre
atento ao estímuio emocional do cliente c a como isso afeta sua habilidade
de processar novas informações,e então equilibre a mudança e a validação
dc acordo com essas observações.
Valide o Válido, Invalide o Inválido
Seja preevo nu que estiver validando. Por exemplo. Bettina está pensando
cm ir morai junto com o típico rapaz rebelde que conheceu no último final
de semana, depois de flertarem na balada (o quarto rapaz nos iltimos três
meses). Ela pede que toda a sessão de hoje seja focada cm como manter esse
relacionamento. Como já aconteceu em outras vezes, Bettina cancelou os
planos com os amigos e ignorou as obrigações importantes quando o novo
rapaz ligou, e acabou ficando sem disposição para continuar procurando tra
balho. C Considerando as experiências passadas, essa situação é um iminente
desastre na visão do* pais de Bettina. O que c inválido pode gritar aos olhos,
e você pode acabar ignorando ou banalizando os sentimentos de amor dela e
seu ntenso desejo dc fazer esse relacionamento funcionar. Mas a indiferença
invalida tanto os aspectos válidos quanto os inválidos da demar.da.
Em vez disso, valide o válido (talvez, identif icar a sabedoria do objetivo
maior, o amor romântico ou as qualidades pelas quais ela se sente atraída
no parceiro) enquanto invalida o invalido (insistindo, por exemplo, que a
programação das sessões inclui um planejamento adequado para lidar com
as crises da vida). Para invalidar o inválido, seja descritivo e pão julgue,
articule como a resposta nao faz. sentido ou por que não funciona. Por
exemplo, a terapeura de Bettina poderia dizer:
Aplicar au a Terapia Comportamental Dialética 173
'Concordo que uma de suas principais metas c fazer cum que você
consuga ter relacionamentos amorosos intensos, que lhe façam hem,
c um prohkma c que. quando você começa um romance, perde
toda a motivação para trabalhar com coisas que te fazem sentir or
gulho de si mesma. Isso aumenta a atitodcprcciacão; então, voce
fica mais carente e coloca uma pressão enorme em seu namorado,
para que ele a faça se sentir bem consigo mesma. Sé não usarmos de
forma inteligente o tempo da nossa sessão de hoje, as coisas podem
ir por água abaixo logo, logo.
Quando vocé pode, genuinamente e com empatia, descrever tail to o
que é válido quanto o que é inválido, nao precisa pisar cm ovos. Você pode
ir ‘aonde os anjos temem pisar', livre para talai de uma maneira que náo
afaste o Jiente.
Valide no Ciran Mais Alto Possível; Ações Valem Mais do que Palavras
Linehan (1907b) distingue seis níveis dc validação (descritos a seguir); o
nível 6 é o mais alto, b.m cada nível, não recorra somente à validação verbal,
explícita: as expressões não verbais também são necessárias c, gcralmente, ain
da mais poderosas. Fim outras palavras, se você está preso na janela do quarto
andar dc um prédio cm chamas, e o bombeiro demonstrou querer ajudá-lo,
compreendeu e refletiu com precisão seu pânico c comunicou genuinamente
o quanto ele é justificável e táz sentido, isso a!nda não basta! O que vocé
precisa é que ele segure seu braço c o leve a algum lugar seguro. A validação
funcional — respondendo à experiência do cliente como válida e. pOrtinto,
convincente — é essencial. Oíerecer somente a validação verbal, quando a
validaçao funcional é necessária, é um erro comum da maioria dos terapeutas.
Nível 1: Escute com Atenção Intal, Esteja Alerta
L scute e observe de forma imparcial e comunique que as respostas do
cliente são válidas, sem julgá-lo. Lntão, por exemplo, o terapeuta deve es
cutar as demandas de Bettina sobre o relacionamento como se isso fosse
algo completamentc novo, sem elaborá-las como um padrão recorrente e
patológico.
174 Princípios e Estratégias de Avaliação
Nível 2: Reflita [Dê um Retomo) com Precisão a Comum ição
do Cliente
Comunique o entendimento por rne:o da repetição e da reformulação,
usando palavras próximas às do cliente, sem interpretá-las. Náo o julgue, ou
seja, tire o foco da melhora, do encorajamento, da avaliação da eficácia ou do
mérito, c concentre-se apenas na situação em si. “É assim que funciona para
você agora."
Nível 3: Articule as Emoções, os Pensamentos e os Padrões de
Comportamento Náo Verbalizados
Perceba o que não foi dito dc forma explícita, mas que o cliente de
monstrou de alguma maneira, sem ter que expiicar. ( ’lientes com historico
de invalidação generalizada sáo tão sensíveis que têm o habito de revelar
muito pouco, e sentir como se tivessem lhe contado tudo; ou hahuualmen-
te mascaram ou Cõnurohm a expressão de que você precisa para intuir o
restante a partir dc pequenos sinais. Greenberg (2002) trouxe à tona uma
citação dc Truax e CarkhufF (1%7) que capta bem os objetivos desses três
primei os níveis de validação, cm que o terapeuta validador:
Responde, dc forma constante, à toda a amplitude de sentimentos
do cliente, em sua exata intensidade. Sem hesitar o terapeuta reco
nhece cada nuance emocional e comunica o entendimento de cada
sentimento em sua devida profundidade. O terapeuta deve estar
sintonizado à mudança do conteúdo emocional do cliente, sentir
cada um dc seus sentimentos e os refletir com palavras e tom dc voz.
Com precisão sensível, o terapeuta expande os indícios do cliente
ate o grau máximo (ou, pelo menos, tenta) de elaboração de senti
mentos ou de experiências. (Greenberg, 2002, p. 78.)
Nível í: Descreva como o Comportamento do Cliente Faz Sentido
em Termos do Histórico de Aprendizado ou da Biologia
Identifique os fatores que, provavelmente, levaram aos padrões de res
posta do cliente. Por exemplo, para am cliente que sempre procura garantir
que a terapia 'está indo bem , o terapeuta pode valida Io dizendo: “Dada a
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética '75
imprcvisibilidade dos seus pais, faz sentido você esperar que as coisas deem
errado r querer buscar segurança.'
Nivel 5: Procure Ativamente Motivos pelos quais o Comportamento
do Cliente Faz Sentido nas Circunstâncias Atuais e Comunique
Isso
Procure os motivos pelos quais uma resposta é válida no momento, sem
pre que possível, e lembre-se de não se basear apenas na validação verb.d. Por
exemplo, suponhamos que você esteia caminhando para o cinema coin uma
amiga que uma vez foi estuprada em um bcco, e você lhe proponha pegar
tint atalho por um beco, para não sc atrasaiem, c sua amiga diz que não vai,
porque tern medo. Dizer: ' Claro que você tem medo, você foi estuprada em
um beco, que insensível da minha parte” seria o nível 4 de validação. Dizer:
“Claro que você cem medo, becos são perigosos, vamos contornar” seria o
nível | de vaiidacao. Quando conseguir enconttar o nível 5 dc validação (o
que sempre deve buscar}, use-o em vez de recorrer ao nível 4. Especialmente,
lembre-se dc que você pode, na verdade, ser a fonte da atual invalidação.
Assim, por exemplo, quando o cliente precisa se sentir seguro, o tera
peuta pode procurar dc que maneira ele está comunicando ambivalência
ou, de alguma outia forma, atenuar a resposta ansiosa do cliente, de modo
que buscar segurança seja sensato. Validar com base no passado (pais im
previsíveis) quando ha aspectos a ser considerados na situação vigente (am
bivalência do terapeuta) faz a resposta ser entendida como uma invalidação
extrema. (“Sim, sim. Sei que você está brava comigo, mas que tal discutir
mos como isso remonta a sua família dc origem?' ) No nível 5, funciona
assim: “Essa resposta não está completamente errada: ela faz sentido agora,
no contexto atual, por tais motivos.” O nível 5 é a antítese da patologização.
Em vez. de enfatizar o que está errado, você encontra o que é efetivo, adap-
tativo e relevante na resposta nas circunstâncias atuais.
Nível 6: Seja Rud almente Genuíno
Aja de uma maneira que comunique respeito pelo cliente como ser hu
mano e semelhante, em vez dc como “cliente oa “transtorno” Valorize os
176 Princípios e Estratégias de Avaliaçao
pontos forces da pessoa, em detrimento de suas fraquezas, como faria com
um amigp ou um ente muito querido. Isso c claro e inflexível — você é o que
você é, e eu e vocc podemos lidarcom isso. O terapeuta valida o indivíduo,
em vez de validar uma resposta ou um padrão comportamental, em particu
lar. Kelly Wilson (Wilson, &£ Dufrene, 2009} abordou esses mesmos aspec
tos, de forma a rratar os clientes como um pôr do sol, não como problemas.
Rogers e Truax ' 1967) descreveram essa postura ladicalmente genuína asrim:
Ele está sem portas ou grades, estando aberto aos sentimentos e
atitudes que, no momento, estão fluindo nele. Isso envolve o ele
mento de autoconscicncia, significando que os sentimentos que o
terapeuta está experimentando estáo disponíveis pata sua consciên
cia, c tarnbérn que ele é capaz de viver esses sentimentos, ser eles
no relacionamento e, se for apropriado, comunicá-los. Ou seja, o
terapeuta precisa ter um encontro pessoal direto com o cliente, de
igual para iguaL Precisa ser ele mesmo, náo sc negando, (p 101.)
Enquanto a validação empárica e funcional deve ser contínua na tera
pia; a validação verbal ativa, para oferecer um feedback corretivo ou para
equilibrar a patologização, deve decair do alto nível inicial para níveis nor
mativos com o passar do tratamento. Por exemplo, os pais de Bettina eram
aJtamcnte críticos e tendiam a dar uma explicação patologizanre do com
portamento da filha. No começo da terapia, a terapeuta ofereceu at,iva
mente contrapontos, que mostravam como o comportamento de Bettina
também era válido. Com o passar do tempo, o que a terapeuta espera é que
Bettina consiga validar a si mesma, criticando o próprio comportamento
com uma postura equilibtada, observanao o que ceo que náo é eficaz.
COMO USAR A VALIDAÇÃO PARA FORTAL ECER
A REGULAÇÃO EMOCIONAL
A boa regulação emocional requer uma combinação de habilidades, de
vivenciar c expressar as emoçõc* (aceitar as emoções) c de as regular ariva-
inente (mudar as emoções). Les Greenberg escreve sobre isso como uma
Sabedoria emocional”, saber quando se deixar levar pelas emoções e quan
do controla las (2002, p. XVI).
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 177
O pré-reqüisito, tanto para a aceitação quanto para a mudança emocio
nal, é a habilidade de identificar e rotular as emoções e sabei extrair as infor
mações que elas fornecem. Quando as pessoas vivenciam a falta dc validaçao
ou a invalidação generalizada, tendem a conservar grande» deficits nesse sen
tido (Ebner-l’nemer et al., 2008) Para aprender a disciíminar e a rotular
corretamente as emoções e necessidades é preciso que os cuidadores atendam
adequadamente a essas emoções e necessidades. Por exemplo, observe a situa
ção dc uma cliente de 25 anos que foi criada pela mãe solteira, sobrecarregada
pelas próprias questões e tão foiada em si que era ausente para a filha (a clien
te), nunca fazendo perguntas ou notando-a. Certa vez, o terapeuta percebeu
que os lábios da cliente estavam secos e (Lsse: “Vocc parece estar corn sede,
quer um copo de água?” A cliente nunca tinha percebido a sensação de estar
com os lábios secos nem a rotulado como um sinal de sede (na verdade, ela
sequer tinha o hábito dc sc hidratar, nem mesmo durante as refeições).
Ao usar estratégias de validaçao, você ensina seu cliente a reconhecer e
usar sua experiência emocional (“Sim, o que você está sentindo é urna tristeza
saudável, que reflete o pesar por algo importante que perdeu”, ou, “Sim. esse
medo o prepara para escapar de»sa situação, que lhe c potencialmente noci
va"). Isso restabelece o uso inato, sábio e adaptutivo das próprias respostas
emocionais a fim de identificar o que funciona e o que é efetivo. No caso de
Mia, a validação a ajudou a aprender a asar a raiva e sua intensidade como
sinais para identificar qual necessidade ou meta estava sendo frustrada, e, em
seguida, escolher entre a retaliação (ir em frente com o impulso da raiva) ou
a verificação dos fatos sobre a ameaça para encontrar maneiras de contorná-la
c, assim, alcançar sua meta ou atender à sua necessidade. As estratégias dc
validação também podem ser usadas como um procedimento de exposição
informal, a fim de ntalecer as habilidades de experimentação e aceitação das
emoções, bem como mudar as emoçoes, estimulando as emoçoes adaptativas.
Use a Validação como um Procedimento de
Exposição Informal: Aceitando as Emoções Primárias
Como discutido nos Capítulos 1 e 2, a teoria biossocitl argumenta que
nossos clientes aprenderam que expressar suas necessidades, emoções, pensa-
176 Princípios e Lstratéqias dc Avaliação
menftis ou outtas respostas naturais e genuínas váudas gera invalidação. Dado
que tesas inclinações e respostas foram invalidadas de forma generalizada, a
pessoa aprendeu a evitar o próprio comportamento genuíno c primário.
Em ambientes de invalidação generalizada, o condicionamenro do
medo não acaneta apenas a esquiva do objeto temido (invalidação), mas
também de qualquer experiência com eventos privados (pensamentos, sen
sações, emoções etc.) que leve a um estado próximo da invalidação. Nós
nos tomamos extrememente sensíveis a rodos os gatilhos que tenham algu
ma ligação com a mvalidaçao e nos tornamos fóbicos das nossas próprias
respostas naturais e válidas. Permitir nossas respostas naturais é frequen
temente tán evocativo quanto jogar uma aranha no colo de um aracnofo-
bico. Nossas própnas emoções pr tnárias — aqueles lampejos vál dos de
resposta — são logo seguidas de esquiva, ou seja, uma resposta secundai ia
que termina ou modula a resposta primária. A eviração pode ser ÍUtil. Por
exemplo, sentimos uma leve desatenção do terapeuta quando talamos ê en
tão mudamos o que íamos dizer para uma autorreveiação menos arriscada.
Senrimo-nos irritados com nosso parceiro, sem perceber o mais vulnerável
primeiro lampejo de tristeza ou vergonha, que esquivamos rapidamente.
A evitaçáo e a esquiva também podem ser mais obvias, como a dissociação
durante a sessão ou a autolesão.
Essas reações emocionais condicionadas e os padrões Je esquiva podem
vir à tona quando vocè vai ida ou invalida as respostas dos clientes. Em con
sequência, os princípios da terapii. de exposição podem orientar seu trabalho.
Em um uso mais formal da exposição e prevenção de resposta, você identifi
ca os gatilhos específicos para as emoções difíceis e os comportamentos que
funcionam como esquiva. Então, você gradualmcnte direciona o aumento da
experiência c a expressão emocional através da exposição aos gatilhos e pre
venção dc resposta. Com o tempo, com tais exposições informais, o cliente
aprende a vivendar e a expressar respostas validas com menos interrupções e
esquiva. Fica mais fácil ver essas nuances com uin exemplo clínico.
Um dia, cm uma sessão, um cliente lhe conta algo importante que ocor
reu na semana e, no ato, muda abruptamente o afeto e parece envergonha
do. Em poucas frases, ele faz considerações exrremas sobre sua ausência de
Apurando a Terapia Comportamental Dialética 179
progresso, o quanto ele é um fardo e está desperdiçando seu tempo. Fie hca
desorientado e encerra irritado: “O que ainda estamos fazendo aqui?
Nas primeiras cinco vezes cm que isso aconteceu, vocé seguiu em frente,
respondendo à pergunta lalvrz, você não tivesse uma hipótese consolidada
sobre o que estava acontecendo, só uma vaga impressão de que ele estava
envergonhado. Você tentou minimizar a vergonha dizendo que mudan
ças levam tempo e que o processo nao é tacil. Você respondeu: "Não seria
melhor nos concentrarmos em nossas metas e usar nossa sessão para isso?
Agora, nessa sexta vez. você percebe que esse cenário é recorrente. Suas ten
tativas de passar segurança e validar o progresso náo surtem efeito.
Hoje, orientado pelas iJeias sobre o condicionamento do medo e a tera
pia de exposição, seu primeiro passo seria avaliar o que aconteceu que levou
à mudança e pensar na hipótese de que talvez um padrão de esquiva tenha
sido acionado, lalvez, a vergonha seja uma resposta secundária para uma
emoção primária. Vocé pode perguntar: “Alguma coisa aconteceu? Estáva
mos falando de X, eu disse Y. e então em certa alturavocê teve um pico de
desilusão. Podemos voltar? Quando eu disse Y, corno isso o afetou?” E en
tão você traça, passo a passo, a experiência do cliente, usando a análise em
cadeia para identificar as variáveis de controle- dã desregulação emocional
na sessão. Você constata que ele começou a sessão feliz em vê-lo. A mudan
ça foi acionada quando vocx náo entendeu algo importante que ele disse.
O pnmeiro lampejo da emoção primária foi a dor de não ser hem com
preendido. Por se sentir magoado, o cliente se julgou instantaneamente —
ele se semiu envergonhado e humilhado por desejar a compreensão do te
rapeuta. Isso gerou uma espirai viruienta de autoinvalidação (o pensamento
dc que “você é um fracote, um frouxo') junto com o sentimento de estar
sendo imaturo e reagindo de forma exagerada. Então sua raiva disparou
contra o terapeuta como uma resposta primária por não conseguir atender
a uma necessidade importante. Nele, isso funcionou como uma resposta
dc esquiva dessas emoções dolorosas c vulneráveis. Sendo assim, ficou de
sorientado, irritado por não conseguir sc concentrar e irritado com você,
já que nada de terapêutico estava acontecendo. Você supõe que o gatilho
de náo o entender bem tenha desencadeado uma descarga dc respostas sc-
180 Princip-is e Estratégias de Avaliação
cundárias, que funcionaram como uma esquiva do desconforto da» emoções
primária* do desejo (de ser entendido) e da dor ípor interpretá-lo mal)
Pode ser difícil definir o que c primário e o que c secundário. Greenberg
(2002) escreve que as emoções primária.» têm a característica de se alterar
cm resposta às circunstâncias do momento, ao sencir-sc revitalizado, pleno,
profundo e ‘ bom , mesmo sc náo estiver feliz. Esse é um contraponto com
as emoções secundárias, que. quando são disparadas, muitas vezes, causam
obscuridade ou um sentimento de dispersão, e a pessoa sc sente u iste, sem es
peranca, confusa ou inibida, com uma sensação de desmotivação e frustração.
Então, com a exposição informal, você rtapresenta o gatilho. Por exem
plo, você pode dizei: “Bom, quando não o entendi. Quando os clien
tes são propensos à desregulação, você destaca a presença do gatilho para
corresponder à sua intolerância, aumentando, gradualmrnte, a intensidade
do gatilho. Por exemplo, para mtensificar gradualmenre o gatilho para um
aracnofobico, deve-se começar com fotos de aranhas, mudar para a presen
ça de uma pequena aranha andando pelo consultório, até chegar ao ponto
de ele segurar uma tarântula. Você não csia fazendo terapia de inundação
ou implosáo. Para encotajar o contato c aumentar a tolerância com di-
frnentes experiências privadas, você fornece uma orientação genr I para o
cliente se concentrar cm si mesmo — você pode instruí-lo nas habilidades
de mindfulness das emoções atuais c na observação e descrição das emoções.
A análise em cadeia tambérn é tocada nas emoções: você ajuda o cliente a
colocar os sentimentos em palavras, encorajar do-o a distinguir e a elaborar
as emoções primárias.
No caso anterior, o terapeuta poderia começar parafraseando o cliente,
para, então, genrilmente adicionar descrições emocionais de maior inten
sidade sobre suas experiências, assim “Então, seja como for, uma parte de
você julga suas reações c diz que elas náo deveríam incomoda lo, ao mesmo
tempo, elas o incomodam, o que machuca... c, para mim isso faz sentido.
Preciso e quero entender dessa forma também.” (Nível5 de validaçao.) Um
pouco mais adiaote,, o terapeuta validou a necessidade emocional mais in-
rensamenre, ainda destacando o gatilho, validando indirttamtnte com uma
metáfora. “Para mim, necessidades emocionais são como precisar dc água:
Aplicando a lerapia Comportamental üialt tica >81
se estou atravessando o deserto e mc deparo com um copo de água, isso é
fantástico. A privaçao intensifica tudo.
A próxima tarefa da exposição informal é bloquear o comportamento
dc esquiva. Ajude o cliente a vivcnciar as emoções primárias sem evitar e
sem apresentar qualquer outra reação mapropnada. A ideia é prevenir as
resportas de esquiva, mas de modo que aumente seu sentimento de con
trole sobre a situação e sobre si mesmo. Por conseguinte, antes de bloquear
comportamentos dc esquiva, você pode discutir dirctamcnte as vantagens c
desvantagens de evitar e interromper as experiências ou expressões emocio
nais primarias paia mícro-orier.tar a lógica, visando fazer com que o cliente
entenda o lado bom de colaborar com as atividades terapêuticas.
Em protocolos de exposição mais formais, você também pode pedir
aos clientes para descreverem ou atr encenarem as formas que eles usam
paia evitar (ou seja, que interrompam ou inibam a si mesmos) quando não
quiserem sentir ou expressar emoções primárias ou outras respostas válidas.
Embora haja formas itifindas de evitar experiências emocionais, atcnha-sc
às duas mais comuns, que funcionam como comportamento de fuga. Estas
duas encerram o contato com a experiência emocional e, assim, interrom
pem as emoções adaptativas e outros comportamentos válidos; (1) emoçoes
secundárias e (2) autoinvalidação.
Retornando ao exemplo apteror, quando comenta que o cliente se sen
tiu ofendido, você o coloca em contato com a dor e a frustração, o que
gentilmente bloqueia a esquiva. Quando ele dissesse: “Isso, mas c ridículo
ficar triste, foi uma bobagem”, você diria: “Certo, náo ó algo tâo relevante,
mas ainda assim ê importante para você, para tê-lo ofendido. Eu também
mc ofendo quando alguém náo entende algo importante para mim. Você
gcntilmentc bloqueia as tentativas de luga por meio da autoinvalidação ha
bitual, reapresenta o gatilho e valida a emoção primária. Após muitas intera
ções de exposição informal, como essa, o cliente passa a ter mais tolerância a
emoções dolorosas e tende a fazer menos esquivas mal-adaptativas. Rodemos
manter essa abordagem até oul cie vivencie e explore plenamente suas ex
periências primárias dc dor e qualquer impulso de ação que eventuaimente
surja a parrir disso. ()u, se o cliente river uma grande dificuldade de viven-
182 Pnncipios e Estratégias dc Avaliação
dar ou dt expressar emoções, até mesmo um pico momentâneo de contato
com a experiência ou com a expressão pode ser útil para modular uma futura
regulacao emodonàL
O ultimo componente da exposição informal é ajudar o cliente a res
ponder de modo diferente a emoções primarias c a outras reações genuínas.
A ação oposta e a habilidade de DBT desenvolvida para ajudar os clientes
nesse sentido. L inehan (1993b) definiu isso como a açao diamctralmente
oposta a tendência de ação de determinada emocáo. Por exemplo, a tendên
cia dc ação ao modo é congelar ou fugir A ação oposta seria se aproximar. O
impulso dc ação da vergonha c se esconder, e a ação oposta setia. digamos,
falar abertamente, de cabeça erguida, sobre a “transgressão . No contexto
do uso da validação como uma estratégia de exposição informal, a ideia c
permanecer com a experiência emocional primária, em vez de fugir; e pode
ser até intencional se inclinar à experiência, em vez dc sc afastar.
Entretanto, a validação pode ser incrivelmente evocativa e difícil. Sua
validação de uma emoção primária ou resposta, a qual o cliente evitou,
pode aumentar seu medo dc tal forma que se torna dísruptivo e desorgani
zador. Para alguns clientes, a validação é mais difícil dc suportar do que a
invalidação. Alguns clientes temem que a experiência em si da emoção seja
traumática, porque vivenciaram emoções que os sobrecarregaram a tal pon
to que perderam o controle, ate ficaram debilitados. Por exemplo, depois
de uma sessão difícil, um. cliente não consegue sair da cama por três dias.
Quando as pessoas têm esse alvo secundário de vulnerab 'idade emocional,
cria-se uma combinação complexa e indistinguível de vergonha, desespero,
desilusão, resignação, exaustao e dc uma certeza terrível de isolamento e de
que ninguém será capaz de ajudá-lo. Para esses clientes;, o trauma associado
às experiências emocionaisem si é mais bem tratado por meio da mudança
da emoção ou dc sua hábil modulação. Em vez de aprender pela experiên
cia de aprofundamento emocional, o cliente precisa aprender a sc afastar
dt experiência emocional, mas de uma maneira que nao seja dolorosa, que
acentue sua sensação de controle e que diminua o sentimento de isola
mento em relação à experiência. Uma forma dc ajudá-lo a desenvolver essa
habilidade de alterar as emoções é por meio da validação, a fim dc disparar
as emoções adaptativas.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética JÔ3
Use a Validação para Disparar Emoções
Adaptativas: Mudando as Emoções
.As emoções disparam para nos ajudar a nos adaptarmos rapidamente. A
todo momento, nosso sistema emocional registra c rnterpreta rapidamen
te nosso contexto, rcorganizando-nos e mobilizando-nos para que nosso
comportamento, inclinações e orientações estejam em permanente trans
formação, a fim de nos adaptarmos e localizarmos no nosso contexto em
constante mudança. A história didatica de Kelly Wilson, sobre o coelho
e a toca, ilustra esse processo (Wilson. & DuFrenc, 2008). Assim que o
coelho sc senta no gramado, tem um vasto repertório de comportamentos
possíveis; alguns mais intensos, outros, menos. Em um contexto tranquilo
e ensolarado, o coelho come, observa o entorno, brinca, limpa-se e deita.
I lá uma natureza fluida c alternante a essa resposta. Mas, se houver ruídos
de um predador nos arbustos, aquele coelho, cujo repertório comporta-
mcntal o limita a uma resposta — correr para a toca —, pensa em como
sobreviver. Nesse contexto, parar para brincar ou dar uma ultima mordida
no que quer que seja são comportamentos que se extinguem. Os coelhos
emuciunalmente sensíveis, que correram assim que perceberam o medo dos
outros coelhos, também ficaram cm vantagem dc sobrevivência. Esse fun
cionamento das emoçoes foi descrito por Greenberg (2002) e por teóricos
das emoções, como Frídja (1986), Izard (1991) c lomkms (1963,1983;.
Somos programados para responder a certos gardhos com uma combinação
dc respostas que envolvem o corpo inteiro, que incluem uma rápida avalia
ção do ambiente e a relação com ele, bem como a motivação para a ação e
a comunicação com os outros.
Quando você valida (ou invalida), geralmcnte, dispara emoçoes. Vocè
pode usá-las para ajudar seu cliente. Quando a emoção surge, interrompe
a atividade momentânea e prepara a pessoa para a situação seguinte. Usar a
validação para disparar a emoção adaptativa ajuda a ativar todo o repertó
rio dc- habilidades associado àquela emoção. Em outras palavras, disparar a
emoção adaptativa pode reorganizar rapidamente o cliente para um com
portamento mais adaptativo, como demonstrado com Mia. Mia é corno o
coelho. Ela chega a sessão dc terapia depois da difícil entrevista de emprego
184 Princípios e tstratégias de Avahaçao
e tem um longo repertório de coisas que pode fazer, algumas mais eficazes,
corn maior potencial de fazé-la dominar o momento, outras menos, mas
rodas possíveis e, em um sentido significativo, pre^entei, mesmo que nao se
manifestem. O comentário da terapeuta para Mia: 'Que frustrante!”, dire
ciona sua atençao t evoca uma experiência de tristeza e de frustração; outros
elementos frustrantes da situação lhe ocorrem, então ela chora.
Quando você dispara uma emoção, dispara todo o sistema de resposta a
ela. Isso vale tanto para as emoções adaptarivas quanto para aquelas mais pro
blemáticas. Com isso cm mente, opte por validar emoções adaputivas pri
márias, que sao presentes e genuínas para o clie nte em um contexto confuso.
Paia disparar uma emoção adaptariva, busque as emoções adaptativas pri
márias que estão presentes como pano dc fundo da emoção mais comum do
chcnte. E como estar etn uma floresta cm meio a um fortíssimo vendaval e
optar por escutar a cachoeira. Perceba o que o cliente diz, mas também bus
que o que está presente de fòima menos dominante cm sua experiência. Da
seguinte fôrma, sc alguém ine cona ao dirigir err uma estrada, a sensação mais
perceptível é a raiva. Mas também fico surpreso e desapontado ps Ia forma de
algumas pessoas dirigirem: fico assustado e sensibilizado, já que, às vezes, eu
também dirijo mal, e assim por diante. Se vocc fez um comentário dc valida
ção sobre qualquer um desses aspectos, ele mr coloca em contato com essa
parte da minha experiência c, provavelmente, aumenta minha flexibilidade; eu
nao sentirei e agirei somente movido pela raiva, mas também serei influencia
do por qualquer outra coisa para a qual você direcionar minha atenção.
Validar visando disparar emoções adaprarivas não pode funcionar como
uma propaganda enganosa. Dito de outra forma, sc você tentar me tJtar de
uma resposta problemática por meio da validação dc alguma outra coisa.
isso comunica que minha resposta pnmária é inválida. O truque para bus
car uma emoção adaptariva é pensar diafeticamenrc, vendo a “verdade” cm
todas as respostas enquanto articula o que é válido em cada uma delas. Isso
diferencia aí emoções, ajudando o cliente a ter um senso mais claro da ação
que precisa executar e da informação que tira delas. Por exemplo, Greêrt-
btrg (2002) refere-se à reclamação “Por que eu?” como a voz do protesto
e diz que ela expõe uma fusão ou mistura indistinta de raiva e tristeza.
Aplicando a lerapia Cnmport;imrnt.il Rialêtica 185
Validar para diferenciar a tristeza ( Você está nitidamente desapontado”)
da irritação (“Que frusrrante!”) pode transformar a experiência para uma
mudança emocional e auto-organizaçao cuando o impulso de uma ação de
uma emoção sc torna predominante e leva naturalmente à ação.
Disparar emoções adaptativas exige que o terapeuta acredite que a emo
ção primária é adaptativa e capaz de estruturar o cliente. O terapeuta deve
resistir à tentação dc proteger o cliente de vívenciar a tristeza ou o desespe
ro. As emoções primárias são como “uma lanterna que se liga r nos mostra o
que iqual problema] precisa ser compreendido” (Greenberg, 2002). Quan
do as emoções são claras, a tendência de ação se relaciona naturalmente à
solução do problema.
() processamento emocional leva tempo. Como batatas no vapor, náo
dá para apressar o processo. Mas é possível auxiliá-lo. Sua intenção é atingir
o equilíbrio perfeito entie transmitir compaixão, acolhimento e orienta
ção Confirme e concentre-se no que é vivenciado à medida que apresenta
instruções claras sobre corno proceder c novas estratégias para resolver pro
blemas emocionais. Ofereça instruções sobre o processo da mesma forma
que faria com uma alpinista novata escalando uma rocha íngreme e tecni
camente difícil. Vocc consegue ver a próxima pegada, cia, não. Mostre a ela
onde a pegada está; instrua a alpinista a deslocar seu peso entre as pernas
para conseguir dar impulso para alcançar o local. Vocc conhece o caminho
que ela precisa fazer para viabilizar suas metas. Nao tem sentido lhe expliear
as três etapas ã frente — vocc dá as instruções conforme suas necessidades.
Mais tarde, sc a alpinista entrar cm pânico, você precisa entender a
desregulaçáo para conseguir sua atençao. As vezes, o cliente está tão preso
no isolamento, em um estado tao terrível dc alvo secundário dc vulnerabi
lidade emocional, que não pereebe seu acolhimento, apoio e, até mesmo,
sua presença. Assim como o terapeuta fez com Mia, talvez seja necessário
garantir que o cliente possa realmente sentir seu acolhimento c conexão,
para que você desperte emoções adaptativas suficientes para permitir a co
laboração c o novo aprendizado.
Porranro. quando usa a validação para disparar ?s emoções adaptativas
você, às vezes, pega o melhor cam nho — fortalecendo as respostas da pe$-
186 Princípios e Estratégias dc Avaliação
soa nos contextos em que são necessárias. mas cm que não têm estado pre
sentes para ajudar a modular e a transformar as emoções. Quando você va
lida um sentimento difícil, que foi evitado, aumenta o contato e a aceitacão
da experiência e da expressão emocional.Pode ser que essa exata mudança
de um estado para outro, reunindo estados disjumivos, seja o segredo para
transformar as emoções desadaptativas (Greenberg, 2002). Na DBT, você
fortalece tanto a habilidade dc modificar a emoção efetivamente quanto a
de aceitar os sennmentos e as experiências emocionais.
Essas estratégias de validação são 'lustradas cm de;alhcs no exemplo clí
nico a seguir. Vòcc verá como a tentativa da cliente de regular a emocão
primária da tristeza provoca comportamentos problemáticos, como a autoin-
validacão. Você verá diferentes níveis e alvos de vaLdacão, e o Uso da validação
como forma de exposição informal e de disparar as emoções adaptativas.
EXEMPLO DE CASO: LARA
Lara: Fstou magoada c brava, e não tenho vontade de chorar por
causa do Neal, sabe? Vou parecer um lixo, vou mc sentir pior, sabe?
Lntão não sinto vontade de chorar. {Evita a tristeza.)
Terapeuta Você sc sente pior quando chora? (fenta mostrar como
evitar a tristeza fia sentido.)
I ara: Náo. só quero sentir que estou no controle, não quero estar
com tudo fora de controle.
Terapeuta: Quando você chora, você fica fora de controle? {Muda
genttlmcnte a perspectiva da cliente dt que expressar tristeza é estar fora
de controle — a terapeuta invalida sutilmente o que ela vi como uma
resposta dfiadaptativa.)
Lara: Vou parecer um lixo. Vou para o trabalho agora e tò um lixo.
Só quero constgmr seguir em frente. (A cliente responde ao desafio
da terapeuta intensificando sua constatação dc que evitar a expressão de
tristeza é necessário.)
Terapeuta: Você acha que partee um lixo agora? (Mais uma vez, desafia
a visão da cliente de que expressar o tsteza éproblemático e deve ser evitado.)
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 187
Lara: Sim, acho. Estou cansada, não dormi nada. Fico vendo as ho
ras passarem e tenho que acordar às 7h, sabe? Além do mais, tenho
que devolver as coisas do Ncal.
Terapeuta: Você tem que fazer isso antes de ir trabalhar? (Indira que
isso não será benéfico para a cliente.)
Laras Vou fazer isso. (O torn de voz sobe, com raiva. Fia se sente inva
lidada — aliás, ela foi mesmo.)
Terapeuta: Lara... (Bloqueia o tfetto bola de neve tentando chamar a
atençao dc Lara.)
Lara: Vou fazer isso.
Terapeuta: Lara, tudo bem se você fizer isso. (Validaçuo explícita,
com gentileza.) Quero ajudá-la a enfrentar esse dia. Se você quiser
ajuda, posso ajudá-la. (Seu tom é sugestivo, não puntttvo, para ajudar
a cliente a fazer uma escolha genuína.) E, cm outro ponto que que
ro ajudá-la é a não sufocar emoçoes importantes premaiuiamente,
porque elas continuarão voltando. {Orienta e indica uma resposta
alter nativa adaptativa de tristeza.)
Lara: (Chora.) Eu nem passei maquiagem direito hoje, e ela vai bor
rar meu rosto inteiro. Por que esses sentimentos agora, porque estou
com vontade dc chorar? (Passapara a autoinvalidação, com um pouco
de esquiva.)
Terapeuta: lem muitos motivos para você ter vontade de chorar
agora. É uma resposta absolutamente normal para o que está acon
tecendo, Lara. (Nível 5 de vabdaçáo, o qual sustenta o contato com o
estímulo, a tristeza, que é geralmente evitada.) Você passou por muita
tristeza e sofreu mtúro com tudo, doeu muito. Porque você se im
porta de verdade com ele. (Mais uma vez, facilim a experiência da
tristeza ao validá-la.)
Lara: 1 muito ruim rne importai' com ele. (d automvaltdaçao, uma
reação sectendária da raiva de si, ficnciona como unia auiorregulaçao
rnal-adaptativa da tristeza.)
Terapeuta: Tudo bem, aguente firme. I ique aqui comigo, está bem?
Aguente firme. (Impede a esquiva.) E o que está acontecendo é que
188 Princípios e Estratégias de Avaliação
você está fazendo tudo certo agora — esses sentimentos nos sobre
carregam mesmo, essa tristeza e esse sentimento dc “Náo quero fazer
isso. Não quero perder o controle . Então, seu cérebro traz a raiva, o
que lhe faz se sentir um pouco mui» no controlc e menos sobrecar
regada. talvez, com raiva. (Valida a efetividade do* pensamento* e das
emoções do momento.) Assim, uma forma dc sc controlar é liberar a
tristeza aqui um pouco mais. Então a ajudarei a sair desse estado para
você conseguir ir fazer o que tiver que fazer, voltar para suas obriga
ções e sentir que está mais no controlc do que antes. (Orienta.)
Lara: Como você pode se sentir bem trabalhando quando está can
sada e tudo mais?
Terapeuta: Bom, você não vai sc sentir hem. mas..
Lara: Vou perder meu emprego. (Para essa cliente, a falta de esperan
ça é uma reação secundária frequente e funciona como esquiva.)
Terapeuta: Esse c um pensamento pessimista. (Classifica para aju-
da-la a se distanciar do pensamento e a evitar a evasão.)
Lara: Bom, estou assim porque não estou mdo nada bem. Não fen
da nada no trabalho domingo.
lerapviita: Ok, mas o que aconteceu? (Como a cliente teve proble
mas significativos no trabalho, a terapeuta tem uma segunda tarefa de
terapia, que é descobrir se há uma crise se formando e se será necessário
mudar a prioridade do que será feito na sessão.)
Lara. Eu me senti muito nsegura. I iquei magoada, como se nao
conseguisse fazer meu cérebro funcionar.
Terapeuta: Sim, agora são três coisas muito diferentes — a sensação
de insegurança, não conseguir fazer o cérebro funcionar como você
quer e não ir bem no trabalho
Lara: Não tenho a au toes ti ma que eu tinha. Nao mc sinto mais do
mesmo jeito.
Terapeuta: Tudo bem. mas você tem alguma evidência dc que náo
está indo bem no trabalho? Ou você só está st sentindo...
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 189
Lara: A pessoa com quem eu trabalhava era urr. saco. Não. sei que
meu chefe me ama, mas eu náo funciono direito!
Terapeuta. Entendo. (Determina que não hã uma crise se formando,
então volta para a tarefa de sentir e expressar a tristeza sem a esquiva.)
L com isso que quero ajudá-la, porque acho que, se dedicar um
pouco de tempo à Tristeza, você aprenderá a regulá-la. para não ficar
tão mal. (Reortenta a cliente à tarefa da exposição informal para faci
litar a regulação emocionaL) Veja o oue acontece, vocé $e aproxima
e então sai correndo dela — você nunca tem a chance de superá-la.
Lara: Eu estou chorando agora, nao estou?
Terapeuta: Sim, está, (Comgentileza.) Vocé está sentindo muita má
goa, cerro?
Lara: Sim.
Terapeuta: Pois é. Fale um pouco mais sobre isso. (0 nível 1 de vali
dação funciona como isca, estendendo a exposição informal.)
Lara: Bom, a dor decorre da percepção de que o cara está mesmo
doente, e eu não posso ficar com ele. Eu não vou ficar com ele.
Terapeuta: E corno você sc sente quando pensa que não vai ficar
com ele? (Coloca uma leve pressão para manter o foco na tristeza.)
Lara: Eu me sinto triste, mas um pouco aliviada, também.
Terapeuta: Você sc sente dos dois jeitos?
Lara: Sim.
Terapeuta: E o que mais lhe ocorre quando você pensa em nao estar
com ele? (Continua colocando uma leve pressão para manter o foco na
tristeza..)
Lara: Solidão.
Terapeuta: O que mais?
Lara: Que eu, como mulher, não valho nsda.
Terapeuta: Ok.
Lara: Entende?
190 Princípios e Estratégias de Avaliação
Terapeuta: Sim vamos trabalhar essa ideia por um momcnro. (Per
cebe que a solidão t uma emoção primária importante, provavelmente
adaptation, e direciona a atenção para ela.)
Lara: O que náo é verdade. Eu sei, eu sei que posso ser melhor do
que ele.
Terapeuta: Uhum. Então, isso é o tipo de coisa que você faz para
tentar manter esses sentimentos sob controle... para falar pata você
mesrna que sabe que as coisas vão melhorar. (Ressalta a resposta se
cundária de contraevidência.) E vocé sabe que o que você está falan
do não é verdade, entáo tudo bem.
Lara: Estou sendo cuidadosa de vetdade para não voltar a raiva para
mim. o que, cm parte, acontece com as mulheres que ficam com
homens que fazem mal para elas.
Terapeuta: Então, vamos pensar um pouco na solidão, está bem
— náo no outro, nao tem ninguem, na verdade. {Mais uma vez,
reapnsenta o gatilho da solidão )
Lara: Eutenho amigos. {Evita.)
Terapeuta: Tudo bem, mas vamos falar de homens. {Mais uma vez,
reapresenta o gatilho da solidão.}
Lara: Jà me chamaram para sair. Logo na noite seguinte. {Evita.)
Terapeuta: (êrto.
I ara. Isso não é um problema, mas eu não quero ter um caso com
ninguém agora.
Terapeuta: Certo, o que estou tentando fazer é... {Bloqueia a evi-
tação e orienta para o aumento da colaboração de /ara e para perceber
um padrão.)
Lara: Você quer entender isso dc outra forma.
Terapeuta: Sim. parece que o pensamento da solidão é tão assus
tador que você tem que dizer “me chamaram para sair". É difícil
pensar apenas no faro de que talvez você fique sozinha. Pode ser que
isso aconteça.
Lara: Sim. mas nao sera para sempre.
Aplicando a Terania Comportamental Dialética 191
Terapeuta: Pode ser que não. Mas você está e ntendendo o que estou
dizendo? Estou tentando...
Lara: ... nie fazer aceitar o fato dr que eu me sinto sozinha.
ierapeuta: E eu acho que o motivo é por que isso c muito assusta
dor para você.
Lara: Sim.
Terapeuta: E isso é um gatilho para todos esses pensamentos e com
portamentos, como ligar para o Neal. A grande questão com o medo
é que precisamos enfrentar o que tememos para superá-lo. Então, às
vezes, é bom falar para vocc mesma que isso não vai durar, que vai
mudar. Mas, agora, não quero que faça isso. Quero que você apenas
sinta que está sozinha, viva a solidão e o que vier com ela. Pata saber
que você pode passar por isso c seguir em frente sem ter que fugir.
Lara: Entendo.
Terapeuta: Está bem, então agora Neal está tora da sua vida. (Reto
ma a apresentação do gatilho da solidão c encoraja a vivência.)
Lara: Sim.
Terapeuta: Náo tem nutis ninguém Mesmo que vocc tivesse pes
soas ligando para vocc. não tem ninguém que realmente a conheça,
que realmenie se importe, e talvez não renha...
1 ira: Bom, tem o Mario.
Ierapeuta: Sim, ele é casado.
Lara: É, ele e só um amigo.
Ierapeuta: É, só um amigo, enrão é diferente. (Mais uma vez, a tera
peuta vê a solidão como uma emoçáo crucial então reapnXentã os gatilhos
associados a ela, para ajudar Iara a dtsinniinar melhor suas tmoyões.)
Lara: Mesmo que eu mc Sinta assim, náo é tão...
Ierapeuta: Então, o que vem quando você pensa na solidão c um
monte de considerações sobre...
Lara: O meu valor.
Terapeuta: Qual e o sentimento assoc.ado a isso?
192 Princípios e Lstratégias de Avaliação
L ara; Mais um relacionamento fracassado.
Terapeuta: “Mais um relacionamento fracassado”, “Eu náo pos
so ...” o quê? (Térua ir a Um c acessar o que é mais doloroso e evitado )
Lara: Bom, eu não deveria pensar nessas coisas. (Autoinvalidação.}
lèrapcuta: Espera um pouco. Vocé deve trazer éssétS pensamentos
agora, porque sáo eles que surgem na sua cabeça. (Nível 5 dc vali
dação.) Então, continue tentando .. é isso que você faz gcralmcnte?
Vocé diz: "Eu não deveria pensar nessas coisas ' e... (Ressalta como
essas reações secundárias funcionam como esquiva.)
Iara: Bom. se eu tiver pensamentos de desespero, vou mc sentir
desesperada...
terapeuta: Isso.
[.ara: Eu náo quero pensar nisso. Isso vai mc deixar triste. (Quer
evitar o desespero, uma emoção primaria desadaptativa, que, para ela,
è extremamente complexa e se associa à autolesão intencional e ao com
portamento suicida. Em outras palavra1: “Conheça seu cliente. ">
'lérapeuta: Bem, acho que estamos chegando a um ponto que vai
ajudar corn tudo isso.
Lara: Por quê?
Terapeuta: Porque estamos expondo vocé aos sentimentos que sur
gem com esses pensamentos. Os sentimentos continuam voltando
porque você diz coisas como L u não deveria pensar assim , mas o
problema é que você pensa assim. F.ntáo. a solução não é repetir:
“Eu não deveria pensar assim.’ Quero dizer, você não quer ter pen
samentos desesperançosos. mas continua tendo os sem parar. Esses
sentimentos surgem como resultado de alguma derrota, não só dus
pensamentos, e então você os usa para lidar com esses sentimentos.
(Orienta nu ravel 5 de validarão.)
Lara: Como: “Eu nao deveria mc sentir assim.
Terapeuta: Isso.
Lara: Eu não deveria ter o sentimento dc derroia.
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética *93
Terapeuta: Isso. Então, quero me concentrar no pensamento real
mente significativo para você, que é en não valho nada . Qual é
o sentimento que vem com esse pensamento? (Mais tona vez, com
delicadeza, volta o foco puna a experiência emocional.)
Lara: Vergonha.
Terapeuta; Vergonha. Vbcc sente isso agora, enquanto está talando?
Lara: Sim, vergonha e culpa.
Terapeuta: Cerro. vamos nos concentrar nos seus sentimentos. Nos
sabemos que ele e um. gatilho para muitos desses sentimentos. Isso
é um fato.
Lara: Estou acostumada a me sentir envergonhada e a me repreen
der, me itilgar. Liguei para ele outro dia e aí pensei que isso acaba
totalmentc com a minha credibilidade. Sc é tudo tão ruim quanto
eu talo, faz seirr*do eu acabar ligando para ele. Isso é loucura. Estou
exagerando tudo.
Terapeuta: Certo, mas espere, é isso o que acontece, não c? Está
acontecendo agora. Você sc sentiu sozinha c ligou para ele, aí se jul
gou. Como você podería ter agido dc forma diferente? Vamos usar
isto: você nao deveria ter 1'gado para o Ncal.
Lara: Eu podvria dizer ‘Eu liguei para o Neal. Isso não é o rim do
tnundo. Cometí um erro.” Li aquela terapia racionaí-cniotiva.
Terapeuta: E parece que a tem colocado em prática. Quando eu
estava tentando fazer com que você mantivesse a emoção, você es
tava buscando pensamentos para, de certa iorma, muda-ia. Então,
parece que essa e uma habilidade que você tem. Mas precisa ter
cuidado para usá-la com sabedoria, Não tente interromper sua emo
ção o mais rápido possível a roda hora. A menos que você precise
eliminá-la naquele momento exato — por exemplo, quando precisa
trabalhar. lem um jeito dc você não precisar invalidá-la? Igual a
quando você disse: “Eu liguei para o Neal. Coined um erro.” Pode
sei que eu náo diga..
Lara: Vbcc náo tem que Ecar triste por isso. (Autoinvaltdaçãn.)
194 Princípios e Estratégias de Avaliação
Terapeuta: Mas você fica. Veja, é com isso que você tem que ter mui
to cuidado ao mudar seus pensamentos. Vocc não pode invalidar
seus sentimentos no processo. Então, talvez, cm vez disso, podemos
tentar assim. \,Olba o tempo qu< falta para a sessão terminar, sabe que
a experiência e a expre^ão da cliente estavam muito altas e agom quer
ajudá la a regulá-las, preparando-se para o desfecho da sessão.) Pode
ser que você sir.ta tristeza, culpa? Sim. Mas você não pode invalidar
nada do que sentir. Você pode se tranquilizar dizendo: “Tudo bem,
cu me sinto culpada por isso, sinto muitas coisas, e tudo bem, isso
c absolutamcme normal, difícil, mas normal. Posso ir por esse ca
minho, sentir o que sinto, c* cuida. bem de mim.' Vamos pensar cm
como você pode observar e descrever os sentimentos hoje e então sc
tranquilizar c validar. Vamos fazer um plano para superar o dia dc
hoje sem ter que se esqu'var ou fugir dos sentimentos, ok? {Oferece
habilidades para substituir a autninvalidaç ão e promover a experiência
emvaonal, enquanto modtra a intensidade das emoções.)
Nesse exemplo, a terapeuta usa estratégias de validação para fortalecer a
habilidade da cliente de regulai suas emoções. O dialogo começa com a dor e
a raiva da cliente. Usando a validação por meio de uma exposição informal, a
terapeuta ajuda a cliente a vivenctar c a expressar suas emoções primárias, pri
meiro a tristeza, depois a solidão, e então bloqueia o uso típico da cliente da
autoinvalidação como forma dc lidar com a sobrecarga emocional. Há tam-
bc m estratégias de mudança (como descrito no Capitulo 3) desenvolvida» ao
longo do diálogo, como a micro-orientação. A terapeuta também muda o
foco para avaliar se um alvo de maior prioridade (dificuldades no trabalho)
precisa ser abordado, mas decide que para evitar as crises que a cliente tem.
como forma dc escapar dt emoções dolorosas, deve tratar sua aceitação das
emoções difíceise ajuda-la a praticar i»so nas sessões.
Em geral, quando um cliente está desregulado, eu valido a importância
do problema, a dificuldade da tarefa, sua dor emocional, sua sensação dt
estar fora dc controle, a sabedoria de seus objetivos c, em particular, sua
perspectiva. Lembre-se dc priKUiar aspectos válidos: "Conheça seu diente”;
valide o válido e invalide o inválido; c valide no nível mais alto possível,
com base nos níveis dt validação de Linehan.
Aplicando a íerapia Comportamental Díalétira 195
A validação precisa para pessoas extremamente sensíveis à invalidação
é complexa c, portanto, está entre as habilidades mais essenciais de um te
rapeuta de DBT. Na DBT, você equilibra as estratégias de validação orien
tadas à aceitação e estratégias orientadas à mudança para corresponder às
vulnerabilidade* reais do cliente, à medida que exige, com benevolência, as
mudanças necessárias. O toco do próximo capítulo, sobre dialética, é desen
volver tuna postura de manejo de elementos aparentemente contraditórios
ao mesmo tempo. A dialética ajuda o terapeuta a cultivar uma capacidade
inabalável tie centramento, necessário para suportar a dor incensa que nos
sos clientes experimentam e para suporcar, também, o conhecimento que,
às vezes inadvertida ou inevitavelmente, acrescentamos a sua dor, mesmo
quando o ajudamos a mudar para aliviar o sofrimento,
Postura e Estratégias Dialéticas
Equilibrando Aceitação e Mudança
O teste de tona inteligência de primeira ordem e a capacidade de manter
duas idéias opostas na mente ao mesmo tempo e continuar fimcionãndo.
Por exemplo, saber enxergar que para certas coisas náo há esperança, mas,
ainda assim* determinar-sc a transformá-las.
— E Scene Fitzgerald, The Crack-l!p (1936)
Quando os clientes têm problemas complexos, que ameaçam sua vida
e evocam emoções imensas, nosso trabalho requer que consigamos pen
sar com clareza frente às circunstancias extremas. No entanto, diante da
complexidade ou da ambiguidade, quando os riscos são altos, tendemos a
nos agarrar à segurança dos velhos padrões e a nos tornar meno« flexíveis
do ponto de vista psicológico. Pacientes e terapeutas sc colocam em polos
opostos, e entram cm uma luta de poder.
A postura e as estratégias' dialéticas da DBT fornecem os meios práticos
para recuperar e reter o equilíbrio e a flexibilidade psicológicos, possibdi-
tando o progresso da terapia. A ênfase da DB1 cm lioerdade, equilíbrio e
meios habil'dosos é oriunda do estudo de Linehan sobre as práticas espi
rituais do Zcn; na verdade, a Terapia Comportamental Dialética quase foi
chamada de lerapi; Comportamental Zen (L inehan, comunicação pessoal.
1990). Este terceiro e último conjunto de estratégias nucleares da DB1
envolve a habilidade de resistir a uma simplificação excessiva e avançar para
além de compromissos frágJs e precários, a fim dc encontrar combinações
genuinamente viáveis de soluções dc problemas r val.dação, razão e emo
ção, aceitação c mudança.
198 Postura e Estratégias Dialéticas
O rerapeuta “é dialético” ou “age dialeikamcnte’ de duas maneiras. Na
primeira, assume uma postura dialética, adotando uma visão de mundo
que lhe permite aceitar o cliente c o momento da maneira como são, ao
mesmo tempo em que avança com rapidez rumo à mudança. Ele entende
a polarização como algo natural, sabendo que uma verdade viável evolui da
busca pela validação de cada elemento até o rodo que os engloba. O tera
peuta vai e vem nessa postura dialética, sempre que a terapia chega a um
impasse, de modo a dar sentido a ambiguidade e ao confino, respondendo
a eles. Na segunda, usa estratégias especificas dialeticamente. Estas incluem
as estratégias de mudança e validaçao abordadas nos Capítulos 3 e 4, bem
como o manejo de casos estilísticos, e as estratégias dialéticas especificas
descritas mais adiante, neste capitulo. Voltando à dialética, ambas — pos
tura c estratégia — mamem sua mente ágil e flexível.
POSTURA DIALÉTICA
Assumir uma postura dialética é o equivalente psicológico de assumir
uma postura fisicamente centrada. Sua postura determina quais movimen
tos serão possíveis. Se você sc agachar de pernas abertas e contraídas, será
difícil realizar uma piiueta. Se colocar todo o seu peso na ponta de um pé,
será difícil empurrar algo com força, mas essa pode ser a única maneira
de conseguir que sua mao tique estendida para alcançar algo. Uma postu
ra centrada, porém, torna possível mover-se com flexibilidade para alcan
çar, empurrar ou fazer uma pirueta. Contrariando a maneira como nossas
mentes se enrijecem ou caminham na ponta dos pés quando estamos cm
conflit.-. a postura dialética adota um conjunto de premissas que criam um
centro de flexibilidade psicológica. ElàS lhe permitem se movimentar livre
mente, de acordo com o momento
Há três premissas que definem a postura dialética da DBT: (1) a reali
dade é um todo e inter-relaciouada, (2) a realidade é complexa e polarizada,
e (3) a mudança é contínua e transacional, Em conjunto, elas permitirão
que você se mova com flexibilidade quando estiver diante de ambiguidade,
contradição ou conflito
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 199
A Realidade 1 um Todo e Inter-Relacionada
Em primeiro lugar, a perspectiva dialética defende que a natureza da
realidade é holistica, conectada e relacionada, falamos de panes como sejus-
sem. de alguma forma, separadas e independentes do todo, mas. ao mesmo
tempo, reconhecemos que essa é apenas uma maneira de falar. Só podemos
dizer que algo é urn elemento ou uma pane por causa de sua conexão com
um todo. Considere o simples exemplo de um jogo de basquete. Podemos
considerar o comportamento de certo jogador como independente, porém,
o comportamento do indivíduo é determinado pelo todo. Quando os times
jogam com base em uma defesa mano a mano, o pivô marca o adversário
de perto para evitar que ele faça uma jogada. As conexões são óbvias; uma
mudança nos movimentos do jogador A levará a uma mudança nos do
jogador B \ medida que a bola se move, os jogadores também se movem.
Cada movimento de um jogador sc conecta ao de seu adversário. As vezes,
a conexão dc uma parte com o rodo ê menos obvia, funciona mais como
uma defesa por zona, na qual a mudança de posição dc um jogador leva a
alguma outra mudança, mas náo tanto quanto na marcação mano a mano.
Da mesma forma, quando supomos a interdependência holística na te
rapia, ainda podemos ralar do terapeuta e do cliente como se estivessem
separados e fossem independentes; mas, ao analisarmos profundamenre,
vemos que estão conectados e fazem parte de um todo maior. Nessa pers
pectiva, separação c causalidade linear simplista são menos dominantes,
consideradas até mesmo uma falha de pe'cepção. Há urn ensinamento do
Zcn que exemplifica bem essa idéia. Um mestre Zen segura uma simples
folha de papel e pergunta: “O que e isto? ‘ Papel ’, diriamos. Uma pasta
feita de madeira e substâncias sintéticas. Anos de sol e chuva que alimen
taram as árvores que forneceram a polpa. Partículas de luz que vieram dc
estrelas longínquas: molécula» de água que vieram dc mares distantes. Q$
trabalhadores qut cortaram as árvores, os que fizeram a pasta e o papel,
embalaram e o transportaram ate a loja. Todas as conexões que tornaram
os trabalhadores capazes de realizar essas tarefas: as pessoas que produziram
e prepararam seus alimentos; as que projetaram e criaram cada máqu;na
utilizada. Vemos que cada folha de papel contém cm Ci o universo inteiro.
200 Postura e tstratégias Dialéticas
Podemos dizer que a tolha de papel se compoe de elementos que náo sao
papel, mas momentos de muitos processos causais que se encontraram em
um espaço/tempo específico, chamado naquele preciso instante dc papel”
O mesmo pode ser dito sobre o espaço/tempo único a que chamamos dc
“terapeuta’ ou dc cliente”.
Enxergamos isso, mas perdemos a compreensão da interdependência
quando nos confrontamos com a ambiguidade e o contliio. Quando um
cliente faz algode que náo gostamos (por exemplo, deixa uma mensagem
agressiva, exige uma ajuda que náo podemos dar), nossa primeira reaçao con
dicionada é estreitar nossa atenção, cm um sentido estático, no Outro que
está fazendo algo a Mim. como algo que precisa ser consertado ou evitado.
Perdemos de vista o fato de que o comportamento do dienre é o encontro
de muitos caminhos causais, como a folha de papel. Todas as circunstâncias
necessárias para provocar esse momento ocorreram Nossa própria reação de
irritação, nossos rónilos a valia ti vos dc “problemático” ou “inadequado" sáo
também resultado da conPuência de muitas condiçoes. Por exemplo, em
outro ripo de treinamento profissional, podemos ficar empolgados (em vez
de nos irritar) quando os clientes compartilham conosco o que acontece em
suas vidas — pois podemos trabalhar diretamente nisso.
Essa premissa dc que a realidade c um todo, relacionado e conectado,
leva-nos a perceber que tudo tem uma causa e, oortanto, cm um sentido
profundo, náo podería acontecer dc outro jeito. Tanto as reações do cliente
quanto as do terapeuta têm causas, mesmo quando náo conseguimos ver a
rede de causalidade Isso significa que, de uma perspectiva dialética, a ava
liação e a intervenção não levam somente o cliente em conta, mas também
a relação do cliente C a do terapeuta com suas respectivas comunidades,
bem como entre eles. No Ocidente, nossa tendência é localizar a patologia
no cliente. Na visão dialética, a avaliação é direcionada ao sistema como
um todo. Por exemplo, a sensibilidade extrema de um cliente se devia, em
parte, à extrema desvalorização pelo preconceito racial que ele rínha vi-
venciado. ler uma pele muito escura e ser muito alto fez com que tarefas
cotidianas comn ficar em pé na fila da mercearia sc tornassem experiências
de invalidação, como quando as pessoas inconscicntcmente se afastavam
drlc ou um funcionário se assustava e recuava, ainda que involuntariamen
Aplicando ? Terapia Comportamental Dialética 201
te. Com base na filosofia dialética, o terapeuta e a equipe de tratamento sc
esforçam para enxergar a pessoa no contexto, dedicando-se à busca da rede
maior de causalidade, para descobrir o que foi deixado dc fora da formula
ção de caso, quando há um impasse (avaliação dialética).
A Realidade É Complexa e Polar irada
Em segundo lugar, a perspectiva dialética defende que a realidade é
complexa, oposta e polarizada. Outra vez, reconhecemos isso intuitivamen-
rc no cotidiano e na prática clinica. Digamos que um fugitivo de 12 anos
(com aparência de 15) seja levado pela polícia e internado em uma unida
dc psiquiátrica. Seu prontuário menciona horríveis abusos físicos quando
criança e uma leve deficiência no desenvolvimento. Dm ante a entrevista,
ele manifesta sintomas maníacos e uma irritabilidade extrema. Há diversas
drogas ilícitas na listagem toxicológica. Ele é mrernado paia observação.
Nesse ponto, você pensa: “Hum. existe isso, existe aquilo, e ainda há esse
outro dado, essà situação é complexa." Mas, então, de ameaça abusar se
xualmentc dc uma assistente social delicada e gentil; surge uma grande co
moção na equipe. Assim que alguém na unidade dc internação se mostra a
favor de flexibiiizar as regras do programa, outra pessoa começa a descrever
por quê, nesse caso, não se devem fazer exceções à regra. Uma pessoa acha
que o cliente pode recebei alta, o que faz alguém na equipe discorrer sobre
as razoes de a alta não ser uma boa ideia. Reagimos à complexidade de
maneiras opostas c polarizadas. A existência de um “sim da origem a um
“não”; um “tudo dá origem a um nada . lálvez essa seja a natureza da
realidade, ou, talvez, a natureza da percepção ou a da linguagem humana.
Qualquer que seja a razáo, frequentemente caímos em processos nos quais
elementos opostos estão cm tensão.
Quando aplicadas aos conflitos humanos, quase sempre as oposições
são válidas ou, pelo menos, contêm elementos da verdade (por exemplo,
há razões validas para dar alta t para não dar). Juntas, essas duas premissas
dialéticas significam que ninguém nunca tem uma perspectiva do “tudo’ de
um cliente. Os terapeutas são como cegos tocando, cada um, uma parte
de um elefante, c certos de que o todo é exatamente a parte que cada um
202 Postura c Estratégias Dialéticas
está tocando. "Urn elefante é grande c desajeitado"; “Náo. não, é compiido,
redondo e fino ; “Não, náo, e sólido como uma parede ’. Cada um tem uma
perspectiva alternativa. Todas são verdadeiras, mas parciais.
Considerando essa perspectiva, pessoas razoáveij e inteligentes discor
dam. Quando os problemas são complexos, opiniões divergentes e polariza
das são vistas como inevitáveis. Nada está errado: o cliente não está dividin
do a equipe patologicamente; o terapeuta não é (necessariamente) ingênuo
ou narcisista. E simplesmente a natureza do fenômeno. Ninguém em uma
equipe de tratamento tem um cadeado da verdade. Toda compreensão é
parcial c deixa passar alguma coisa importante. Sendo assim, a DBT dá
muita ênfase a diálogos que levam a uma síntese. Como a parte que eu
possuo se encaixa com a sua para formar um todo mais completo, coerente
e funcional? Juntos, buscamos o que é válido nas posiçoes divergentes ou
polarizadas, em vez de nos esforçarmos para encontrar uma frente unifica
da. Em vez dc resolver urn conflito artificialmente, soltando uma ponta da
dialética ou lutando pela unanimidade (em prol da minha opinião!), o es
forço é feito no sentido de se manter engajado, sem apaziguar, enrregar-se,
impor-se ou aceitar o aue é inválido.
A Mudança E Continua e 1 ransacional
Fm terceiro lugar, a perspectiva dialética defende que, sob um olhar
proiundo, a mudança é contínua, ainda que possa ser gradual e impercep
tível. Uma semente no solo está cm constante mudança —■ india, germina,
torna-se flor e apodrece para virar nutriente para as outras sementes. Apesar
dessa contínua mudança, nossa experiência predominante é de continuida
de. V ivemos a continuidade dos nossos corpos físicos, quando, na reaudade,
todas as nossas moléculas esran mudando. As mudanças imperceptíveis, às
vezes, unem-se em uma aparente mudança súbita. Um viaduto de concreto
sc congela e descongela, mudando infimtamente a cada caminhão ou carro
que passa, até que de repente falha c desaba. Aqui, a premissa é a de que
toda a natureza esta em movimento: você nunca pode entrar no mesmo rio
duas vezes (Heráclito). Nossas mentes veem a continuidade praticamente
inalterada, na maioria das vezes, mas, da perspectiva dialética, a mudança
Aplicando a Terapia Comportamental Dialética 203
contínua e mais primária. A impressão dc continuidade estática c um arti
fício de uma percepção equivocada.
A identidade também é vista como relacionai e em contínua mudança.
A única razão que faz um homem parecer velho é sua mulher parecer mais
jovem; a única razão que me faz parecer rígida é vocé parecer flexível. Mas,
se uma pessoa mars rígida se junta ao nosso grupo, subitamente, pareço
bastante flexível, em comparação. Adotar a perspectiva dialética significa
que palavras como “bom", “ruim" ou disfunciona* tornam-se aspectos
das pessoas cm um contexto, e náo qualidades inerentes. Meus exemplos
favoritos vém da observação de equipes dc consultoria, ou de grupos dc
treinamento de habilidades, ao longo do tempo. Alguém é sempre “um
problema . Quem quer que seja o mais (escolha o adjetivo: negativo/posiu
vo, focado na tarcfã/fòcado no processo), deixará o resto dc nós perturbado.
Agora, se algumas pessoas forem forçadas a ficar em determinada situação,
alguma coisa sempre acabará acontecendo, e cias mudarão radicaimentc.
Uma vez, cm um grupo de treinamento de habilidades, havia um clien
te que era “um problema", que sempre fazia comentários negarhrbs e críticas
severas, mas inteligentes. A líder do grupo sc portava como uma Poliana na
defensiva. Em dado momento, chegou um novo colíder, que demonstrava
o mesmo estilo sarcástico do “cliente problema", so que, cm